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Técnicas de Pesquisa, Entrevista e Reportagem Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Flavia Daniela Pereira Delgado Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Apuração e Pesquisa Jornalísticas • A Importância da Pesquisa Jornalística; • Técnicas de Pesquisa; • Fontes de Pesquisa; • A Checagem e o Fazer Jornalístico. · Abordar a fase da apuração/checagem como elemento chave do processo de construção da Reportagem Jornalística. OBJETIVO DE APRENDIZADO Apuração e Pesquisa Jornalísticas Orientações de estudo Para que o conteúdo desta Disciplina seja bem aproveitado e haja maior aplicabilidade na sua formação acadêmica e atuação profissional, siga algumas recomendações básicas: Assim: Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte da sua rotina. Por exemplo, você poderá determinar um dia e horário fixos como seu “momento do estudo”; Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma alimentação saudável pode proporcionar melhor aproveitamento do estudo; No material de cada Unidade, há leituras indicadas e, entre elas, artigos científicos, livros, vídeos e sites para aprofundar os conhecimentos adquiridos ao longo da Unidade. Além disso, você também encontrará sugestões de conteúdo extra no item Material Complementar, que ampliarão sua interpretação e auxiliarão no pleno entendimento dos temas abordados; Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discus- são, pois irão auxiliar a verificar o quanto você absorveu de conhecimento, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e de aprendizagem. Organize seus estudos de maneira que passem a fazer parte Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Mantenha o foco! Evite se distrair com as redes sociais. Determine um horário fixo para estudar. Aproveite as indicações de Material Complementar. Procure se alimentar e se hidratar quando for estudar; lembre-se de que uma Não se esqueça de se alimentar e de se manter hidratado. Aproveite as Conserve seu material e local de estudos sempre organizados. Procure manter contato com seus colegas e tutores para trocar ideias! Isso amplia a aprendizagem. Seja original! Nunca plagie trabalhos. UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas A Importância da Pesquisa Jornalística Sejam bem vindos(as) a mais uma Unidade da nossa Disciplina, a qual particular- mente consideramos um dos pilares de nossa carreira, por tratar das técnicas em torno de um dos mais importantes gêneros jornalísticos: a Reportagem. Mas, antes de falar- mos sobre ela, vamos discutir sobre uma importante etapa que a precede: a apuração. É durante essa fase que o jornalista busca informações sobre o assunto a ser tratado, sejam informações, sejam documentos ou pessoas que contribuam com seus relatos para a construção do texto. Na Unidade passada, vimos a importância da pauta. Mas, como transformá-la, afinal, em reportagem? É preciso passar pela fase da apuração, rumo ao burilar das informações que dão subsídio ao jornalista. Os dados necessários à composição do material jornalístico em relação a uma reportagem são como uma pedra bruta em relação a uma pedra preciosa – que precisa ser refinada, lapidada, polida e liberta daquilo que eventualmente a torne menos valiosa – no nosso caso, menos informativa ou jornalística. E o jornalismo de qualidade não é feito com pedra bruta. A pedra preciosa é o que interessa! Figura 1 Fonte: iStock/Getty Images Como lembra Marleth Costa, em Técnicas de Redação e Edição na Imprensa: A apuração bem feita, rica em detalhes, garante ao jornalista condições de produzir um texto memorável que cause impacto no leitor. Assim como um romancista que domina a técnica da escrita não fará um bom roman- ce se não tiver criatividade pra desenvolver o enredo um jornalista não produzirá uma boa reportagem, por mais que escreva bem, se não tiver 8 9 realizado previamente uma apuração, cuidadosa. A apuração é para o jor- nalista o que a imaginação é para o escritor: o ponto de partida. (COSTA, 2017, p. 20) A autora lembra, ainda, que todo o trabalho de apuração resume-se à busca pela exatidão de informações, já que a falibilidade do ser humano não serve de argumento contra a perseguição obsessiva pela informação correta. O rigor na apuração signi- fica dirimir toda e qualquer dúvida, sem deixar “pontas soltas” na reportagem, na história a ser contada. E apurar bem passa por fazer as perguntas corretas às pessoas certas, conside- rando o contexto do fato apurado. A principal arma para essa fase é a pesquisa. Costumamos dizer aos nossos alunos que reportagem é igual a uma cadeira: precisa estar assentada sobre quatro pilares – pesquisa, observação, entrevista e documentação. Se uma das pernas não estiver firme ou for curta demais, a reportagem não se sustenta, cai e é descartada, porque fica “manca”. Quando se fala em pesquisa, é importante fazermos uma consideração relevante. Há uma grande diferença entre a Pesquisa Jornalística e a Pesquisa em Jornalismo. Enquanto a primeira diz respeito a uma atividade subjacente à prática jornalística que se refere, sobretudo, ao hábito cotidiano de conhecer e investigar o tema que o jornalista pretende cobrir, a segunda trata da construção de um campo científico na área jornalística, menos focado na técnica e na prática profissional em si e mais na Ciência, cujo objetivo é formar jornalistas pesquisadores, que trabalham com mé- todo, contribuindo para a evolução do saber jornalístico – como o fazem Mestres e Doutores em Comunicação, que seguem Carreira Acadêmica. Figura 2 Fonte: iStock/Getty Images Todo jornalista é responsável pelo que apura. Por isso, o profissional tem de pensar nas consequências do que publica e, portanto, precisa evitar a todo custo um dado incompleto ou enviesado, uma informação distorcida ou equivocada. 9 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas Técnicas de Pesquisa Uma das Técnicas mais usadas diariamente para a Pesquisa Jornalísticas é a busca pela Internet, que é um manancial inesgotável para a pesquisa do jornalista. Ao usar ferramentas de busca na web, por exemplo, abre-se para o jornalista um universo repleto, com informações preciosas, democratizando a informação de forma quase universal. Imagine a quantidade de Banco de Dados de Instituições e outros milhões de Dados a apenas um clique do repórter? Figura 3 Fonte: iStock/Getty Images Além disso, a rede mundial ajuda o jornalista a ganhar tempo também. O que levava horas sendo apurado em vários lugares, é encontrado em sites de busca – desde que o repórter saiba pesquisar (usando corretamente palavras-chave, colo- cando entre aspas, por exemplo). Mas, usar apenas essa técnica de pesquisa é muito arriscado, porque, por outro lado a tela aceita tudo. Qualquer pessoa pode publicar qualquer coisa na Internet – ou seja, a web tem também um potencial infinito para disseminar bobagens e mentiras – as ditas fake news. Por isso, sua importância como técnica de pesquisa também precisa ser relati- vizada. É ilusório achar que seja possível compor uma reportagem apenas sentado em frente a um computador. Uma boa apuração ainda se faz na rua, com fontes primárias – vamos falar sobre fontes no próximo tópico. O ideal é combinar várias técnicas, rumo à verifi- cação da exatidão das informações. Outra técnica de pesquisa é a busca em documentos disponíveis em arquivos públicos das cidades, em livros, em Bibliotecas Públicas, de jornais e revistas e arquivos de Empresas – essa inclusive era a forma de pesquisa mais antiga para jornalistas, antes de existir a Internet. 10 11 Aliás, importante frisar, não existe hierarquia entre esses meios de pesquisa – e nem um roteiro pré-definido (primeiro, busca-se na web, depois parte-se para ou- tras fontes de pesquisa. Isso pode ser um bomcomeço para se apropriar do tema, mas absolutamente não é uma regra na Pesquisa Jornalística). Cada jornalista define sua estratégia de pesquisa ante a pauta que lhe couber. Uma terceira técnica, bem comum no jornalismo americano, é o chamado “con- f ronto de três fontes”: se depois de muito pesquisar, o jo rnalista conseguir confron- tar três pessoas, de preferência que não tenham se comunicado que, se possível, não se conheçam – e s e elas dão a um fato a mesma interpretação ou versões parecidas, eis uma visão muito próxima à realidade. Quando essa s três fontes têm interesses distintos fica mais evidente a diferença entre fato e versão, como exemplifica Eduardo Belo: Durante uma campanha eleitoral para a prefeitura, um jornal descobre que parte do material de propaganda – camisetas – de um candidato está sendo pago por uma empresa com interesse em serviços públicos terceirizados pelo município. O repórter recebe essa dica de uma fonte de oposição. Como empresa e candidato negam o negócio, ele procura um funcionário de se- gundo escalão com acesso aos gastos da campanha. O repórter descobre as empresas que produzem as camisetas e chega a um funcionário que emite as faturas da malharia. Sob o compromisso de sigilo, ele também confirma a informação. Juntando todas as conversas com as fontes de informação, a história “bate” e aí sim pode ser publicada. (BELO, 2010, p. 90) Mas obter uma informação e conseguir fazer uma pesquisa consistente nem sempre é um tarefa fácil para jornalistas – sobretudo os que lidam com jorna- lismo investigativo. Nos casos de denúncias envolvendo Órgãos Públicos – algo infelizmente muito comum em nosso país, por exemplo, dificilmente um jornalista conseguirá que as fontes espontaneamente concedam informações. Mas a Constituição de 1988 garantiu a existência de um dispositivo jurídico que anos mais tarde foi regulamentado. Você sabia que no Brasil existe um dis- positivo legal que garante o acesso a infor- mações públicas aos jornalistas e a todos os cidadãos? Trata-se da Lei de Acesso à Informa- ção, Lei 12.527 de 18 de novembro de 2011, que entrou em vigor em 2012. O Brasil foi o último país da América do Sul a aprovar uma Lei de acesso a esses dados. Nas Américas, Costa Rica e Cuba conti- nuam sem uma Lei específica que regula- mente o direito de acesso à informação. Figura 4 Fonte: iStock/Getty Images 11 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas Importante! Nos Estados Unidos, a Lei de Liberdade à Informação (FOIA – Freedom of Information Act) já existe há mais de 50 anos. Você Sabia? Conheça o regulamento americano. Acesse: https://goo.gl/Jf8pxf Ex pl or A LAI define informação pública aquela contida em registros ou documentos, produzidos ou acumulados por Entidades ou Órgãos Públicos, e prevê uma série de exceções para o não fornecimento de algumas informações – como as que põem em risco a defesa e a soberania nacionais; a vida, a segurança ou a saúde da população; a estabilidade financeira e as operações ou planos estratégicos das Forças Armadas. A Lei é aplicável aos três poderes nas esferas federal, estadual e municipal e inclui Órgãos Públicos além da administração indireta (empresas públicas, autarquias, fun- dações e sociedades de economia mista). O fornecimento das informações é gratuito. Aprenda sobre a LAI. Acesse: https://goo.gl/C3UkF3 Ex pl or A seguir, nove dicas do repórter Luiz Fernando Toledo sobre o uso frequente da LAI, em reportagens deles sobre Educação, para o jornal O Estado de S. Paulo1: 1. Seja insistente. Já ouvi de diversos gestores que os pedidos são recusa- dos em 1ª instância para haver tempo hábil de coletar os dados. Se você tiver o pedido recusado, insista. Mostre ao órgão que você não teve a solicitação atendida e que respeitou integralmente as regras da Lei. 2. Saiba o que perguntar. A LAI só disponibiliza documentos e dados, mas não responde a perguntas genéricas nem reclamações. É importante tentar achar os dados de forma exaustiva antes de pedi-los. Pedidos gené- ricos geram respostas genéricas. 3. Não aceite qualquer resposta. É muito comum que os órgãos respon- dam só parte do que foi perguntado ou digam, de forma genérica, que não os têm. Insista e entre com recursos até a última instância, se neces- sário. Já tive negativa de pedidos em que o órgão disse não ter os dados disponibilizados, mas depois, na 2ª instância, os forneceu. 4. Faça vários pedidos ao mesmo tempo para diferentes órgãos. Como as respostas são demoradas, montar um “banco” de perguntas pode 1 Disponível em: 12 13 garantir uma série de pautas após algum tempo. Una os pedidos. Muitas reportagens podem envolver mais de um órgão público. Às vezes, um cruzamento de dois bancos de dados diferentes pode render um lead muito melhor do que um único sozinho. 5. Organize os pedidos em uma planilha. Os canais de Lei de Acesso à Informação são completamente diferentes entre si. O da Prefeitura de São Paulo, por exemplo, permite ao cidadão acessar todos os pedidos já feitos em uma mesma página. O do governo do Estado de São Paulo só fornece um protocolo, e é com ele que você terá acesso às informações. Mas e se eu quiser acessar um pedido de dois anos atrás, como fazer? Um dos canais mais chatos é o da Universidade de São Paulo (USP): só é possível ter acesso ao pedido original com um link enviado ao e-mail do cidadão no momento do pedido. O ideal é ter um controle próprio padronizado. 6. Conheça o comportamento das instituições. Apesar de a Lei ser uma só para todos os órgãos públicos, é nítido que cada um deles se comporta de uma forma. Alguns passam mais dados do que o pedido, outros não pas- sam nada. Depois de certa insistência, vai fi cando mais fácil entender como pedir informações a determinado órgão. Sim, isso não deveria acontecer. Mas é uma forma de agilizar as coisas enquanto os recursos não chegam. Também é possível aprender o que funciona e o que não funciona em um pedido, já que muitas perguntas podem não render matéria nenhuma. 7. Compartilhe os dados com colegas. Muitas vezes um dado que você recebeu não o ajudará em nada, mas pode ser útil a outras reportagens. 8. Boletins de ocorrência escondem excelentes pautas. Não que isso seja exatamente uma novidade, mas tenho visto cada vez mais repor- tagens em que os jornalistas pediram acesso a conjuntos de boletins de ocorrência de determinado assunto para fazer levantamentos exclusivos. É possível cruzar dados de escolas com violência, policiamento E tráfi co de drogas, entre outros, enriquecendo qualquer material. 9. Exponha os descumpridores da lei. Quanto mais cobrarmos transpa- rência e cumprimento dos prazos dos órgãos públicos, mais os dados fi carão disponíveis. Se determinada informação não chegar, vale ques- tionar o órgão responsável e, se possível, publicar matéria caso não haja nenhum retorno. Recomendamos, ainda, o excelente site do jornalista Léo Arcoverde. Há inúme- ras matérias feitas com uso da LAI por lá, que podem dar uma boa base do que se pode pedir ou não. Site Fiquem Sabendo, do jornalista Léo Arcoverde, disponível em: https://goo.gl/IYBT2Q Ex pl or 13 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas A organização dos dados pesquisados é muito importante. Recomenda-se que o jornalista crie métodos de organização – em seu computador, que crie pastas refe- rentes ao assunto pesquisado e que sempre faça backup de seus arquivos. Caso decida fazer arquivo físico, que disponha o material em pastas e que sem- pre tenha uma ou mais cópias, para que, em caso de perda ou extravio, todo o trabalho não tenha sido em vão. Fontes de Pesquisa Fonte é sinônimo de nascente, de lugar de origem, princípio. Em jornalismo, convencionou-se chamar de fonte toda pessoa ou documento a partir do qual se pode apurar um fato jornalístico. Hierarquizar as fontes de informação é fundamental na atividade jornalística”, confirma a Folha de S. Paulo (2010, p. 37), pois anotícia polifônica converge da diversidade de opiniões, relatos, testemunhos e mídias, facilitada pelas Novas Tecnologias, como a telefonia móvel e a Internet. Essa pluralidade e diversidade de fontes, que agem de formas diferentes e detêm qualidades diversas, exige uma classificação para que se entenda a sua força.São díspares as classificações e as nomenclaturas em torno das fontes jornalísticas, mas aqui vamos abordar as principais classificações. Nilson Lage descreve a natureza das fontes como sendo mais ou menos confiá- veis, pessoais, institucionais ou documentais. Ele as classifica como: oficiais: instituições que preservam algum poder de Esta- do (secretários municipais, estaduais, ministros, vereadores); oficiosas: reconheci- damente são ligadas a uma entidade ou indivíduo, mas não estão autorizadas a falar em nome dele ou dela, o que significa que o que disserem pode ser desmentido (no filme Todos os Homens do Presidente, a principal fonte dos jornalistas do Washington Post, Bob Woodward e Carl Bernstein, o “garganta profunda” – que anos depois revelou sua verdadeira identidade, um funcionário da CIA incomodado com a política de promoções dentro da instituição e que resolveu revelar o que sa- bia – se encaixa no perfil de fonte oficiosa. Mas os repórteres foram tão exaustivos naquela Pesquisa Jornalística que mesmo que a fonte oficiosa fosse desmentida, havia o relato de outras testemunhas para comprovar a veracidade da denúncia contra o então Governo republicano dos EUA). Para relembrar o escândalo Watergate (documentário em inglês, 40 anos depois), acesse: https://youtu.be/Xo7KWzOgnf8Ex pl or 14 15 Figura 5 Fonte: iStock/Getty Images Já as fontes indep endentes são aquelas desvinculadas de uma relação de poder ou interesse específico, mas por algum motivo estão aptas a dar declara- ções, por seus conhecimentos ou experiência. Lage também aponta as fontes primárias e as secundárias, na perspectiva da sua relação direta e indireta com os fatos, respectivamente. Indica, ainda, as “testemunhas” que presenciam os fatos e os “experts”, es- pecialistas em determinados assuntos e que interpretam os eventos. O autor não relaciona as fontes, as organizações em geral, não oficiais, nem as suas ações. O professor Manuel Chaparro (2009), por sua vez, propõe uma iniciação à Teoria das Fontes, com a classificação de sete tipos: “organizadas”: organizações que produzem conteúdos noticiáveis com grande competência e utilizam a notícia como forma de ação; “informais”: falam apenas por si; “aliadas”: informantes que mantêm relação de confiança com os jornalistas; “de aferição”: são especia- lizadas em certos temas e cenários; “de referência”: entendidas como pessoas sábias ou instituições detentoras de um conhecimento; “documentais”: referentes a documentos de origem confiável e identificada; e “bibliográficas”: que abrangem livros, teses, artigos etc. Pelo conceito de Chaparro (2009), a fonte “organizada”, além da representativida- de (qualquer organização, grupo ou pessoa), age proativamente, “com competência”. 15 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas Denominada de “informal” a fonte “individual”, embora essa nem sempre aja na “informalidade”, pode ser um artista, esportista, profissional liberal etc. que, nesse caso, torna-se “organizada”. Também apresenta sobreposições entre fontes de “aferição” e de “referência”, bem como “documentais” e “bibliográficas”. Seu esquema fixa-se na representativi- dade e dentro dela tenta aduzir as ações e as qualificações mais evidentes. Aponta apenas uma qualificação, “aliada”, no sentido de “fonte confiável”, embora nem todas apresentem este atributo. E, ainda, a Folha de S. Paulo (2010, p. 37-8), que distingue quatro classes de fontes: “tipo zero”, são enciclopédias, documentos, vídeos, que “prescindem de cruzamento” com outras fontes; “tipo um”, com “histórico de confiabilidade” e fala com conhecimento de causa, estando “próxima do fato que relata e não tem interesses imediatos na sua divulgação”, sendo que o veículo admite publicar informações de fonte desse tipo sem checagem; “tipo dois”, tem os atributos da fonte “tipo um”, menos o histórico de confiabilidade, por isso, recomenda-se que a informação seja cruzada com pelo menos mais uma fonte; e o “tipo três”, tido como a de menor confiabilidade, sendo “bem informada, mas tem interesses (polí- ticos, econômicos etc.)”. Assim, o Jornal trata as suas informações como sugestão de pauta. Independente da classificação, no entanto, é preciso tomar alguns cuidados com as fontes que se dispõem a falar, mas apenas na condição em off (do original “off the record”, ou seja, com gravadores desligados ou sem revelar a identidade. Em outras palavras: quando a fonte condiciona dar entrevista em off, seu anonimato tem de ser preservado. É uma questão de ética, inclusive prevista no Código de Ética dos Jornalistas). Falaremos mais sobre isso na aula sobre entrevista, mas, desde já, é importante você entender que o jornalista deve, nas matérias em off, tomar algumas precau- ções, como, por exemplo, verificar as informações colhidas e avaliar o interesse de quem as forneceu. Deve, também, verificar e checar os dados, resguardar e proteger o informante, evitando sua exposição, como fizeram Bob Woodward e Carl Bernstein, no já cita- do episódio Watergate e, lembre-se: mesmo que a notícia seja exclusiva, há sempre a necessidade de verificação de dados, isto é: a exclusividade não se sobrepõe à necessidade de checagem, porque jornalismo sério não se faz sobre boatos ou in- formações plantadas. É importante lembrar de que o uso de fontes não nominadas não pode ser pra- xe, pois acarreta risco jurídico para o veículo, na medida em que a responsabilidade pela informação fica repartida apenas entre a Empresa de Comunicação e o repór- ter, já que a figura do informante, nesses casos, não existe oficialmente. Parte inferior do formulário 16 17 A Checagem e o Fazer Jornalístico Dois riscos rondam frequentemente a atividade de um repórter e podem com- prometer a credibilidade de sua carreira, especialmente daqueles que trabalham na cobertura diária. O primeiro – e maior – deles é a pressa. Quando a velocidade e a busca pelo furo jornalístico é o que importa, o repórter tende a publicar uma informação rasa. Pode editar uma frase como sendo verdadeira ou falsa, sem ter levado em conside- ração o cenário mais amplo em que ela se encaixa. A perda do contexto é sempre perigosa. Por isso recomenda-se, durante todo o tempo de apuração e pesquisa, que os dados sejam checados. Isso leva ao segundo risco: o uso de dados imprecisos ou desatualizados. Ao escrever uma reportagem, o repórter deve recorrer a fontes fidedignas e de atesta- da respeitabilidade. Por vezes, no entanto, pode terminar usando bases de dados desatualizadas e cometendo um erro. Por isso, checar e rechecar é a única solução. Talvez, se nos anos 1990, essas máximas do Jornalismo tivessem sido leva- das à risca, não teria acontecido o caso da Escola Base, um dos momentos mais vexatórios para o Jornalismo brasileiro, em que donos de uma Escola Infantil em São Paulo e os responsáveis pelo transporte escolar foram execrados pela opinião pública, injustamente acusados de pedofilia, graças a uma cobertura jornalística ir- responsável, apressada e à irresponsabilidade dos Meios de Comunicação à época. Sobre o caso Escola Base, acesse: https://youtu.be/ChmiDNh7TrM Ex pl or Algumas revistas como a Veja, por exemplo, tem um Departamento específi- co para checagem, no qual trabalham checadores de informações apuradas pelos repórteres, isto é, além da verificação já feita por quem apurou a reportagem, há, ainda, uma equipe específica para confirmar dados e informações citadas nas ma- térias antes de a Revista ser impressa. Uma realidade que é possível num veículo semanal, mas difícil de operacionalizar na mídia diária. A chec agem é uma importante ferramenta contra errose contra aquilo que se convencionou chamar de fake news ou notícias falsas. Por isso, além da checagem antes de a notícia ser divulgada, em tempos de Internet e de Redes Sociais (e dada a profusão de notícias falsas, especialmente, em épocas de eleições), uma tendên- cia em Jornalismo tem sem sido a checagem posterior às publicações na web, o fact checking. O fact checking é uma checagem de fatos, isto é, um confrontamento de histó- rias com dados, pesquisas e registros rumo à precisão dos fatos. 17 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas Se um político jura que nunca foi acusado de corrupção; há registros judiciais que irão atestar se é verdade. Se o Governo diz que a inflação diminuiu, é preciso checar nos índices se isso realmente ocorreu; e se uma corrente diz que há um pro- jeto de lei para cancelar as eleições, é preciso conferir nas propostas em tramitação se essa informação é real. O fact checking também é uma forma de qualificar o debate público por meio da apuração jornalística, de checar qual é o grau de verdade das informações. Reportagens do Buzzfeed e do The Guardian, por exemplo, mostraram que boa parte do conteúdo compartilhado na Internet durante as últimas eleições nos Estados Unidos, vieram de sites de notícias falsas. Situação semelhante aconteceu no Brasil, na semana do impeachment de Dilma Rousseff. Mas... quando e onde teve origem essa vertente do Jornalismo? Segundo a LUPA (primeira agência de fact checking do Brasil, que tem sede no Rio de Janeiro, em 1991, o jornalista americano Brooks Jackson entrou na sala de seu chefe, no escritório da CNN em Washington, e recebeu a tarefa de checar se era mesmo verdade tudo aquilo que os possíveis candidatos à presidência dos Estados Unidos diziam nos anúncios de TV. LUPA: https://goo.gl/AngUsK Ex pl or Era tempo de eleições primárias nos EUA. O presidente George Bush (pai) pre- tendia disputar a reeleição pelo Partido Republicano, e o democrata Bill Clinton sonhava em derrotá-lo nas urnas. Jackson fundou a Ad Police, a primeira equipe especializada em checar propaganda eleitoral de que se tem notícia. Em 2003, estimulado pelo sucesso do trabalho na CNN, Jackson criou o pri- meiro site independente de fact checking. Com a ajuda da Universidade da Pen- silvânia e do Annenberg Public Policy Center, inaugurou o Fact Check Org, que está ativo até hoje. Meses depois, foi a vez do jornalista Bill Adair, do Tampa Bay Times, lançar uma nova seção em seu jornal, oPolifact.com (também ativo hoje) e ganhar um prêmio Pulitzer com isso. De lá para cá, a checagem de dados se espalha a olhos vistos. Em maio de 2018, havia 149 iniciativas de fact checking ativas no Planeta. Para acompanhar a evolução dessa comunidade e a expansão das plataformas de checagem pelo mundo, visite https://goo.gl/0BqBxiEx pl or 18 19 Até pouco tempo atrás, não havia internet, não havia canais de TV 24 horas, Twitter ou redes sociais. As pessoas recebiam informações filtra- das pelos meios de comunicação, que trabalhavam como guardiões e de- tentores da notícia. Agora as pessoas são bombardeadas por informação disse Jackson, num encontro de checadores realizado em 2014, na Argentina. “É aí que a imprensa precisa se reinventar, virar uma espécie de filtro para tantas histórias descabeladas”, isto é, o fact checking é um novo nome para o velho procedimento de checagem de informações, mas que, d evido à profusão de infor- mações na web demandou a criação de uma área específica para verificação de veracidade dos fatos e boatos, a fim de combater as fake news. Isso porque no século XXI, apurar, confrontar histórias com dados, pesquisas e registros e checar informações continuam sendo procedimentos jornalísticos ainda mais valorizados. Quem pensa que a Tecnologia substituiu o valor da Imprensa, já pode rever suas previsões pessimistas para o Jornalismo! Nós nos vemos na próxima Unidade! 19 UNIDADE Apuração e Pesquisa Jornalísticas Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites FactCheck Empresa de fact checking americana https://goo.gl/RXJ7vj PolitiFact Empresa de fact checking americana https://goo.gl/DVPN6n Vídeos Fact checking da Agência Pública https://youtu.be/vSs8pStib5U Agência Lupa: quem somos e o que checamos A primeira agência de fact checking do país é a Lupa e fica no Rio de Janeiro. Saiba mais sobre a primeira agência de Fact Checking https://youtu.be/OyzTrBZpZ-s Leitura Fact-checking como possibilidade de accountability do jornalismo sobre o discurso político: as três iniciativas brasileiras Artigo sobre fact checking https://goo.gl/1jA8HB Pós-verdade, fake news e fact-checking: impactos e oportunidades para o jornalismo Artigo sobre pós-verdade e fake news https://goo.gl/FJLZVf 20 21 Referências ALTMANN, F. A arte da entrevista. São Paulo: Boitempo, 2004. BAHIA, J. 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