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Apostila curso Unindo esforcos contra a VD

Material de apoio do curso Unindo Esforços contra a violência doméstica e familiar que aborda contexto histórico e origem da violência contra a mulher, a dinâmica dos crimes domésticos, a necessidade de abordagem interdisciplinar e dados sobre feminicídio.

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} Página 1 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Unindo esforços contra a 
violência doméstica e familiar 
 
 
 
 
 
 
 
	
	
	
	
	
	
 
} Página 2 
	
“No	dia	que	for	possível	à	mulher	amar-se	em	sua	força	e	não	em	sua	fraqueza;	não	para	fugir	de	si	
mesma,	mas	para	se	encontrar;	não	para	se	renunciar,	mas	para	se	afirmar,	nesse	dia	então	o	amor	
tornar-se-á	para	ela,	como	para	o	homem,	fonte	de	vida	e	não	perigo	mortal.			
Simone	de	Beauvoir	
 
Caríssimos Servidores do TJMG, 
 
A Coordenação da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar-
COMSIV apresenta o curso Unindo Esforços contra a violência doméstica e familiar 
contra a mulher. 
O anterior curso a distância lançado em 2018 traçou as bases da temática 
relacionada à Violência Doméstica com mais de 4000 alunos e nos motivou a 
avançar. 
Neste novo formato, trouxemos contribuições de áreas do conhecimento além 
do Direito para melhor compreensão do fenômeno que faz com que o Brasil ainda 
apresente números alarmantes de violência contra mulheres. 
Este trabalho serve de apoio ao curso e está baseado em extensa pesquisa 
bibliográfica. 
Esperamos que o curso seja o propulsor de debates e reflexões que nos 
levem a aplicar o verdadeiro espírito da Lei Maria da Penha: garantir o princípio 
constitucional da igualdade. 
Uma boa leitura! 
 
Desembargadora Ana Paula Caixeta-Superintendente da COMSIV 
Desembargadora Paula Cunha e Silva- Superintendente Adjunta da COMSIV 
 
 
Curadoria: 
Juíza de Direito Lívia Lúcia Oliveira Borba 
 
 
} Página 3 
UNIDADE 1: CONTEXTO HISTÓRICO 
Daniela da Cunha Pereira1 
 
1. Origem da violência contra a mulher 
 
A atuação na área de violência doméstica e familiar contra a mulher possui 
diversas particularidades e encerra vários desafios, a começar pela dinâmica na qual 
os atos em tese criminosos estão inseridos. 
 O ensino tradicional do direito e a prática das varas criminais comuns partem 
da ideia de vítimas e réus que, ou estão em campos opostos, ou não têm nenhum 
vínculo entre si, a não ser aquele fato criminoso que os conectou em apenas um 
momento. Tome-se como exemplo o roubo de um celular, em que a vítima nunca viu 
o autor do fato e cruzou com ele por casualidade, ocasião em que o crime 
aconteceu. Ou ainda a situação em que um criminoso adentra um estabelecimento 
comercial armado, rende os clientes, subtrai os bens e foge em seguida. Nesses 
casos - tão comuns em uma vara criminal -, as vítimas e o autor do crime não têm 
nenhum relacionamento prévio e, em regra, aquelas esperam a punição do último. 
 Os crimes em contexto de violência doméstica e familiar desenvolvem-se em 
um cenário completamente diferente, dentro de uma dinâmica social e afetiva 
extremamente complexa, que faz com que tais casos, muitas vezes, não sejam 
adequadamente resolvidos pela solução tradicional de simplesmente absolver ou 
condenar. 
 As particularidades dos processos que envolvem violência doméstica e 
familiar não raro geram nos operadores do direito muitos questionamentos, além de 
uma certa dose de angústia e frustração. 
 
1 Juíza de Direito titular da 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Ibirité-MG 
 
} Página 4 
 Faz-se necessário, portanto, àqueles que atuam em tais casos ampliar sua 
visão e traçar uma linha de atuação para além dos limites do direito e do processo, 
até mesmo porque o processo não é o único fim da atuação jurisdicional. 
 O diálogo do direito com outras áreas do conhecimento humano é 
fundamental para aqueles que pretendem compreender e vencer os desafios 
relacionados à atuação nas varas de violência doméstica, exigindo dos profissionais 
da área jurídica o reconhecimento de que processos tratam de vidas humanas e de 
relacionamentos complexos. Sendo a atividade jurisdicional um serviço público, para 
servir a esse público, é preciso, em alguma medida, compreendê-lo, bem como os 
fenômenos sociais e históricos que se encontram na gênese dessas violências. 
 É nesse contexto que surge e se reforça a necessidade de se adentrar em 
áreas frequentemente envoltas em polêmicas e preconceitos para tratar de temas 
espinhosos como machismo, misoginia, gênero e masculinidade. 
 A compreensão de qualquer fenômeno social e cultural passa 
necessariamente pela investigação de sua origem, pois para vencer um problema é 
preciso conhecê-lo. E a violência doméstica e familiar contra a mulher 
lamentavelmente é um enorme problema em nosso país. 
 O Atlas da violência de 2019, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança 
Pública do IPEA, apurou que o Brasil registra cerca de 13 feminicídios por dia, sendo 
que, ao todo, 4.936 mulheres foram mortas no ano de 2017, sendo esse o maior 
número registrado desde 2007. 
 Não resta dúvida de que a violência contra a mulher, que atinge o país de 
forma grave e brutal, possui causas multifatoriais, mas, diante da constatação de 
que mulheres e meninas são particularmente vitimadas por homens (e não por 
outras mulheres), não há como se deixar de analisar esse fenômeno à luz de suas 
raízes históricas e culturais. 
 As estatísticas oficiais comprovam que, embora mulheres e meninas sejam 
mortas e violentadas por homens em proporções alarmantes, elas, no entanto, 
quase não se envolvem em crimes semelhantes praticados contra indivíduos do 
sexo masculino. Sendo assim, é possível concluir que elas morrem muito e matam 
 
} Página 5 
pouco. Sofrem violência sexual diariamente e pouco se envolvem em crimes 
sexuais. 
 Estamos, portanto, diante de um cenário que indica uma proporção elevada 
de homens violentos e de mulheres violentadas. Partindo-se do pressuposto de que 
gênero não define caráter – e de que, por consequência, tanto homens como 
mulheres podem ser íntegros, respeitosos, decentes e de bom caráter, assim como 
podem ser vis, maldosos e insensíveis – é possível concluir que essas violências 
são criadas a partir de uma estrutura que as produz e reforça. 
 A essa estrutura na qual homens ocupam o poder político, social e familiar, 
exercendo domínio e autoridade sobre as mulheres, dá-se o nome de patriarcado. 
 
 Mas onde e quando surgiu o patriarcado? Ele é universal? É 
natural? É possível ser superado? 
 
 A resposta a essas perguntas demanda uma investigação histórica, 
sociológica e antropológica. 
 Contudo, ao se buscar as raízes históricas da discriminação contra as 
mulheres, nos deparamos com um curioso obstáculo, pois, como disse Gerda 
Lerner, “o registro gravado e interpretado da espécie humana é apenas um registro 
parcial, uma vez que omite o passado de metade dos seres humanos, sendo 
portanto distorcido”, já que conta “a história apenas do ponto de vista da metade 
masculina da humanidade”. 
 Ao longo dos anos, as mulheres foram completamente destituídas de sua 
história, de suas narrativas e de sua própria humanidade. Não obstante, à medida 
que os espaços de conhecimento foram sendo gradativamente ocupados por 
mulheres, passamos a ter acesso e refletir a respeito de como começou a estrutura 
social que nos conduziu ao cenário de desigualdade em que lamentavelmente 
vivemos. 
 Os estudos de História, Ciências Sociais e Antropologia levados a efeito nos 
séculos XX e XXI começaram a desconstruir paulatinamente a ideia de que a 
 
} Página 6 
submissão das mulheres seria um fato universal – e portanto imutável – para situá-lo 
como um fato histórico que, por ser fruto da história, também pode ser extinto pelo 
processo histórico. 
 Nesse particular, é importante destacar que, segundo Gerda Lerner (2019), 
estudos antropológicos mais recentes demonstram que a dominação masculina está 
longe de ser universal, havendo registros de sociedades nas quais a assimetria 
sexual não tinha conotação de dominação ou submissão, e, 
 
em vez disso, as tarefas realizadas por ambos os sexos eram 
indispensáveis para a sobrevivência do grupo, e o status de ambos os 
sexos era considerado igualainda persistem na efetivação dos direitos 
conquistados, repercutindo em barreiras ao acesso à justiça por parte das mulheres 
vítimas de violência doméstica e familiar. 
É premente investir em recursos materiais e humanos e no preparo das 
equipes, principalmente, da área de segurança pública, assim como em políticas 
sociais nos setores de saúde, habitação, educação, geração de renda e trabalho, 
assistência social e previdência social, entre outras, além de um trabalho articulado, 
intersetorial e multidisciplinar. 
O desafio, portanto, que se coloca para a efetivação da cidadania das 
mulheres diz respeito a diminuir a distância entre o progresso legislativo e o efetivo 
acesso à justiça. Para tanto, mister que se fortaleça a atuação dos vários órgãos e 
setores integrantes da rede de enfrentamento, com maiores investimentos na 
criação e instalação de delegacias especializadas, juizados e varas especializadas, 
ampliação do atendimento psicossocial realizado pelo CREAS e CRAS em todas as 
cidades, além de apoio e conscientização de toda a comunidade. 
 
 
 
 
 
} Página 40 
4. A justiça restaurativa enquanto técnica para a 
emancipação feminina e rompimento do ciclo de 
violência 
 
A violência doméstica é um fenômeno complexo que gera efeitos negativos no 
meio social e que desafia respostas também complexas dos entes estatais, sendo 
preciso, portanto, buscar meios alternativos de pacificação social que não apenas 
aqueles traçados pela justiça criminal tradicional, preocupada com o aspecto 
punitivo, mas, muitas vezes, ineficaz na prevenção e na superação do conflito. 
A justiça restaurativa, nos tempos atuais, mostra-se, positivamente, como 
modelo auxiliar no processo de superação da vitimização da mulher, visto que 
resgata sua autonomia, proporcionando seu empoderamento na resolução do 
conflito. 
Mas em que consiste a justiça restaurativa? A justiça restaurativa é um 
mecanismo alternativo de resolução dos conflitos penais que almeja aproximar 
vítima e ofensor, com a finalidade de reparar os danos causados em decorrência do 
delito, por meio de ações de cooperação, respeito e diálogo, na perspectiva de que o 
dano causado à vítima deve ser reparado.14 
A justiça restaurativa, no contexto de violência doméstica e familiar contra a 
mulher, é, pois, uma ferramenta efetiva de emancipação feminina, que busca, por 
meio do diálogo, empoderar a mulher na resolução do conflito, fazendo com que sua 
voz seja ouvida e sua vontade considerada. 
Não existe um conceito pré-definido acerca do que seja a justiça restaurativa, 
todavia, podemos entendê-la como uma pluralidade de práticas associadas a uma 
multiplicidade de teorias que se alicerçam numa dimensão intersubjetiva do delito, 
que busca a pacificação social, tomando por base o processo dialógico entre os 
envolvidos, visando reparar os danos causados à vítima pela autorresponsabilização 
do agente infrator. 
 
14 OLIVEIRA; SANTOS, 2020. 
 
} Página 41 
A dificuldade de conceituar a justiça restaurativa decorre de sua pluralidade 
de procedimentos e objetivos. Conforme Palamolla,15 “a justiça restaurativa possui 
um conceito não só aberto como, também, fluído, pois se modifica, assim como suas 
práticas”. 
A ideia de justiça restaurativa surge, pois, com forte influência abolicionista e 
das diretrizes da vitimologia, com a pretensão de uma reação diferente da resposta 
fornecida pelo sistema de justiça criminal habitual, lastreada na democratização do 
processo, como também na recusa do autoritarismo que permeia o direito penal, na 
busca de respostas mais emancipadoras das vítimas e mais humanas aos 
ofensores.16 
O modelo restaurativo também se fundamenta na reparação do mal sofrido 
pela vítima e na atenuação das consequências do delito, além de buscar a 
reintegração social do agente infrator, por meio da autorresponsabilização e inclusão 
da comunidade próxima aos envolvidos no conflito. 
Levando-se em consideração os princípios básicos da justiça restaurativa 
segundo a Organização das Nações Unidas,17 tem-se que: 
 
1. Programa de Justiça Restaurativa significa qualquer programa que use 
processos restaurativos e objetive atingir resultados restaurativos 2. 
Processo restaurativo significa qualquer processo no qual a vítima e o 
ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da 
comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das 
questões oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. Os 
processos restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião 
familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios (sentencing 
circles). 3. Resultado restaurativo significa um acordo construído no 
processo restaurativo. Resultados restaurativos incluem respostas e 
programas tais como reparação, restituição e serviço comunitário, 
objetivando atender as necessidades individuais e coletivas e 
responsabilidades das partes, bem assim promover a reintegração da vítima 
e do ofensor. 4. Partes significa: a vítima, o ofensor e quaisquer outros 
indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime que podem 
estar envolvidos em um processo restaurativo. 5. Facilitador significa uma 
pessoa cujo papel é facilitar, de maneira justa e imparcial, a participação 
das pessoas afetadas e envolvidas num processo restaurativo. 
 
 
15 PALLAMOLLA, 2009, p. 54. 
16 OLIVEIRA, 2020. 
17 ONU, 2000. 
 
} Página 42 
Apropriando-se dos argumentos dos abolicionistas, do labelling approach,18 
partindo da percepção da repressão, seletividade e estigmatização que permeiam o 
modelo tradicional de justiça criminal, a justiça restaurativa propõe um olhar mais 
humano sobre os conflitos penais, alertando para o fato de que as instâncias formais 
de controle social se preocupam mais com a punição meramente retributiva, 
menosprezando as consequências do crime para a vítima e comunidade, bem como 
negligenciando as funções preventivas da pena.19 
Um dos valores norteadores da justiça restaurativa é a não dominação, que 
impinge ao procedimento restaurativo o dever de se organizar de modo a minimizar 
as diferenças e as desigualdades sociais, culturais e históricas, no momento do 
encontro entre vítima e agressor. É importante, nesse aspecto, minorar os 
sentimentos de vitimização da paciente e fomentar a responsabilização da conduta 
do agressor.20 
Consequência da não dominação, o empoderamento (empowerment) implica 
o surgimento da autonomia e estima dos envolvidos – em especial para a superação 
da vítima, que a partir de sua emancipação relata suas histórias e perspectivas, 
afastando-se do sentimento de vulnerabilidade e estigmatização. 
O empoderamento, no curso do procedimento, oferece voz aos envolvidos 
(vítima, ofensor, comunidade de próximos), implicando compreensão e alteridade 
dos diferentes pontos de vista.21 Desse modo, as práticas restaurativas pretendem a 
superação da insegurança, da insatisfação e da humilhação decorrente do delito no 
âmbito doméstico. 
O conceito de empoderamento surgiu na luta do movimento negro pelos 
direitos civis nos Estados Unidos, manifestando-se pela forma com a qual as 
 
18 A Labeling Approach Theory, ou Teoria do Etiquetamento Social, surgida na década de 1960 nos 
Estados Unidos da América, é uma teoria criminológica marcada pela ideia de que as noções 
de crime e criminoso são construídas socialmente a partir da definição legal e das ações de 
instâncias oficiais de controle social a respeito do comportamento de determinados indivíduos. 
Segundo esse entendimento, a criminalidade não é uma propriedade inerente a um sujeito, mas uma 
“etiqueta” atribuída a certos indivíduos que a sociedade entende como delinquentes. Em outras 
palavras, o comportamento desviante é aquele rotulado como tal. 
19 OLIVEIRA, 2020. 
20 PALLAMOLLA, 2009, p. 62. 
21 PALLAMOLLA, 2009, p. 62. 
 
} Página 43 
pessoas assumem as rédeas de suaspróprias vidas, de seus interesses e de seu 
destino social, cultural e político, sendo parâmetros de empoderamento: a 
construção de uma autoimagem e de autoconfiança; o desenvolvimento da 
criticidade; percepção de pertencimento aos grupos sociais e suas demandas e 
tomadas de decisões.22 
Quanto ao uso da mediação, enquanto técnica restaurativa das relações 
sociais, não existe consenso na doutrina especializada. Há quem a defenda como o 
mecanismo mais adequado para o refazimento do elo rompido com a prática do 
delito, a fim de que as partes possam, por meio do diálogo, superar a origem do 
conflito,23 ao passo que seria recomendável proibir a mediação para as situações de 
violência doméstica, uma vez que o agente agressor, ao perceber a vítima como 
subalterna, “que não se arrepende, que não sabe pedir perdão, que anula a vontade 
da vítima”, pode valer-se da solução restaurativa para perpetuar o ciclo de abusos e 
agressões.24 
Dessarte, a utilização de técnicas restaurativas não pode ser considerada 
como um mecanismo de minimização da conduta enquanto crime, mas um 
instrumento que privilegia a revitalização dos vínculos fragmentados, possibilitando o 
empoderamento feminino, a fim de que a mulher “assuma as rédeas de sua vida” e 
conscientizando o homem de seus atos. 
É preciso ter em mente que as mulheres que decidem romper um 
relacionamento agressivo estão destruindo com várias aspirações e expectativas 
frustradas pelo delito, havendo ganhos e perdas com o fim do relacionamento que 
não podem ser ignorados pelos profissionais que se deparam com a violência 
doméstica, sendo necessário fortalecer a mulher para o alvorecer, se necessário, de 
um novo trajeto vida. 
Portanto, qualquer técnica que possa restabelecer a comunicação entre o 
casal, sob a perspectiva de empoderamento da mulher e com base no 
 
22 COSTA, 2020. 
23 RIBEIRO, 2015, p. 11-32. 
24 COSTA, 2020. 
 
} Página 44 
reconhecimento da relação desigual, pode auxiliar a mulher no contexto da violência 
doméstica. 
 
 
} Página 45 
UNIDADE 4: REDE DE 
ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA 
DOMÉSTICA E DE PROTEÇÃO A 
MULHER 
Lidiane Gonçalves de Pinho Anício25 
 
 
1. A violência de gênero enraizada numa sociedade 
machista e patriarcal 
 
 Para se falar em violência doméstica e pensar ações que, de fato, sejam 
eficazes para amenizar as consequências dela, a primeira e mais importante ação é 
a eliminação dos preconceitos que existem sobre o tema. É preciso que se entenda 
que nenhuma mulher gosta de ser vítima de violência ou se sente bem neste papel. 
O que há é uma série de fatores que impedem que a mulher reaja às violências 
sofridas. 
 Nesse sentido, Teles e Melo dizem que o drama da violência doméstica é 
“tratado como natural, inerente à condição humana, tem sido bastante banalizado e 
considerado menor, sem importância. No entanto, a erradicação da violência 
generalizada exige o fim da violência contra a mulher. Esse é o primeiro tipo de 
violência com o qual o ser humano entra em contrato, desde o início da infância”. 
(TELES; MELO, 2017). 
 
25 Assistente Social Judicial graduada em Serviço Social. Pós-graduanda em Instrumentalidade do 
Serviço Social. Assistente Social do Tribunal de Justiça de Minas Gerais desde 2012, atualmente na 
Comarca de Guanhães. Coordenadora do Grupo Reflexivo de Autores de Violência Doméstica da 
Comarca de Guanhães. 
 
} Página 46 
Como já ressaltado na Unidade 1, historicamente mulheres são expostas a 
várias formas de violência em seus relacionamentos com os homens, contudo, em 
algumas situações as vítimas sofrem também a chamada violência institucional, que 
ocorre quando aqueles que deveriam prestar a ela toda assistência passam a julgá-
la e procurar motivos para a violência sofrida, como se a vítima tivesse dado causa a 
tal violência. Essa prática prejudica que sejam pensadas ações para a prevenção e 
o combate à violência contra a mulher, que realmente coloquem a vítima como foco 
central da intervenção. 
 No atendimento às vítimas de violência doméstica, é preciso que se tenha um 
olhar sensível, pois grande parte delas passou por dolorosos processos de violações 
de direitos, e é necessário que elas rompam com muitos de seus sonhos e projetos 
para efetuar uma denúncia contra o seu agressor. 
 Sabe-se que diversas são as causas que levam as mulheres a permanecer 
em relacionamentos abusivos, que vão desde a falta de recursos financeiros até a 
total falta de perspectiva sobre outra forma de vida. Por isso, para além da 
necessidade do encorajamento da denúncia, está a urgência de ações de apoio à 
vítima. 
 Nesse sentido, o trabalho integrado do Poder Judiciário com outros 
componentes da rede de enfrentamento da violência contra a mulher precisa estar 
alinhado, para que juntos possam acolher a vítima e prestar-lhe o apoio necessário, 
buscando entender seus medos, suas angústias e suas condições de vida, para, 
assim, conseguir, de fato, colocá-la em segurança. 
 Quando se trata de violência doméstica, é comum que se pense apenas na 
punição do agressor; contudo, é preciso entender que a violência doméstica tem 
como principal característica as relações de cunho familiar e/ou de afetividade que 
existem ou já existiram e deixaram frutos entre as partes. Assim, procurar ajudar o 
agressor a sair dessa condição também se torna uma discussão necessária. 
 Em nenhum momento tem-se a intenção de minorar a necessidade da 
punição do autor da violência, pois ela é necessária para que ele enxergue a 
gravidade de seus atos. Contudo, o trabalho repressivo, especialmente na seara 
 
} Página 47 
criminal, deve caminhar ao lado de ações de prevenção da violência, em todas as 
suas formas. 
 Nesse viés, é pertinente que sejam pensadas ações que busquem levar os 
homens a refletirem sobre suas práticas com relação às mulheres, procurando retirar 
deles essa perspectiva negativa de que um homem só é homem quando se 
sobrepõe a outra pessoa, especialmente às mulheres. 
 Com as ponderações expostas, faz-se necessário entender que todos 
precisam estar envolvidos na prevenção e combate à violência contra a mulher. Por 
isso, o trabalho em rede é tão importante. Buscar parceiros e desenvolver 
programas voltados ao atendimento das vítimas e dos agressores fará toda a 
diferença para diminuição dos índices de violência dentro das famílias. 
 
2. Rede de enfrentamento e atendimento às vítimas 
de violência doméstica – o estabelecimento dos fluxos 
de atendimento à vítima e de recuperação do agressor 
 
 A Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, a famosa Lei Maria da Penha, trouxe, 
em seu artigo oitavo, que a política pública de combate à violência contra a mulher 
deve ser feita por meio de ações articuladas dos poderes públicos e dos órgãos não 
governamentais. Nesse norte, tem-se como ponto central para o sucesso das 
intervenções um trabalho articulado entre os órgãos que compõem a rede de 
enfrentamento da violência contra a mulher. 
 A Lei foi muito clara ao colocar que se faz necessário que a rede de proteção 
se organize para o atendimento eficiente às vítimas da violência doméstica. Nesse 
sentido, a criação de um protocolo de atendimento aos envolvidos tem fundamental 
importância para o sucesso das intervenções que serão realizadas no caso. Cada 
equipamento envolvido nesse atendimento precisa saber exatamente sua função e 
quais os encaminhamentos possíveis para cada caso. Essa certamente é a chave 
 
} Página 48 
para que o atendimento seja bem-sucedido e, com isso, minimizem os efeitos da 
violência e diminuam os índices de reincidência. 
 Nesse ponto, faz-se necessário que se estabeleça uma diferenciação entre a 
rede de enfrentamento da violência contra a mulher e a rede de atendimento à 
vítima dessa violência. A rede de enfrentamento tem uma dimensão mais ampla e 
trata da união de esforços de diversas iniciativas governamentais, não 
governamentaise comunitárias para a criação de mecanismos de prevenção da 
violência contra a mulher e de políticas que garantam o seu empoderamento, a 
punição do agressor e o atendimento de qualidade à vítima. Já a rede de 
atendimento tem por características a ampliação e a melhoria do atendimento às 
vítimas de violência e é especialmente desenvolvida pelos setores da assistência 
social, justiça, segurança pública e saúde. 
 A rede de enfrentamento da violência contra a mulher faz parte da Política 
Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher e contempla todos os seus 
eixos (combate, prevenção, assistência e garantia de direitos), enquanto a rede de 
atendimento se refere ao eixo da assistência. Assim, é correto dizer que a rede de 
atendimento faz parte da rede de enfrentamento da violência. 
 Para se pensar uma rede articulada de enfrentamento da violência contra a 
mulher, é preciso entender que os protocolos de atendimento terão variações de 
acordo com os meios disponíveis em cada comarca, haja vista que se percebe muita 
disparidade quando é analisada a oferta de politicas públicas nas comarcas situadas 
em cidades de maior porte e nas comarcas pequenas do interior do Estado, onde, 
muitas vezes, a oferta dos serviços é precária e a rede de enfrentamento e 
atendimento é desarticulada. 
 Grande parte das comarcas mineiras nem sequer conta com serviços 
especializados de atendimento às vítimas de violência doméstica, como delegacias 
da mulher, núcleo de atendimento à mulher na Defensoria Pública e no Ministério 
Público, casa abrigo, entre outros. Assim, faz-se necessário que os profissionais do 
Judiciário conheçam as políticas públicas desenvolvidas pelo Estado, Município e 
outros órgãos dentro da Comarca para que saibam com quem poderão contar para 
 
} Página 49 
desenvolver um trabalho de excelência na busca por um atendimento de qualidade 
às vítimas. 
Falando um pouco da Comarca de Belo Horizonte, é possível perceber que 
existe uma articulação dentro da rede de enfrentamento e atendimento às mulheres; 
assim, as vítimas podem contar com serviços oferecidos pelo Estado, Município e 
outros órgãos de iniciativa pública e privada, onde encontram orientação e apoio. 
Vinculado ao Governo do Estado por meio da Sedese - Secretaria Estadual 
de Desenvolvimento Social -, o Cerna - Centro Risoleta Neves de Atendimento às 
Mulheres Vítimas de Violência Doméstica ou Intrafamiliar - presta apoio psicológico, 
social e jurídico às mulheres. O equipamento configura um importante ponto de 
apoio às vítimas que ali encontram pessoas dispostas a acolhê-las e orientá-las. 
Outro programa muito importante desenvolvido em Belo Horizonte é o 
Benvinda - Centro Especializado e Atendimento a Mulher. Sob responsabilidade da 
Prefeitura de Belo Horizonte, o centro também presta atendimento psicológico, 
social e jurídico a mulheres que são encaminhadas para ele por meio dos diversos 
órgãos e também àquelas que o procuram de maneira espontânea. 
Além dos centros mencionados, a Comarca da Capital Mineira conta com 
outros autores da rede que buscam garantir a proteção integral às mulheres, como 
delegacias especializadas, a Patrulha da Violência Doméstica, o Núcleo de 
Atendimento à Mulher na Defensoria Pública, Casa abrigo, CREAS, CRAS, além de 
projetos desenvolvidos por faculdades de psicologia e medicina e outras ações e 
organizações não governamentais. 
Assim como Belo Horizonte, outras comarcas do Estado contam com políticas 
públicas que visam proporcionar um atendimento mais eficiente para suprir as 
necessidades das vítimas de violência doméstica, como também contam com uma 
rede de enfrentamento da violência com órgãos especializados. Isso é um diferencial 
quando se busca, de fato, trabalhar de forma articulada e integrada para a 
realização de ações eficientes para o atendimento às vítimas e a prevenção contra a 
violência. 
 
} Página 50 
A realidade de muitas das comarcas do interior do Estado é diferente, haja 
vista a falta de estrutura de alguns municípios para o atendimento às vítimas de 
violência doméstica. Contudo, para além da falta de políticas públicas destinadas 
para esse atendimento, está a falta de articulação entre as políticas existentes. 
A ausência de políticas públicas e a falta de articulação entre a rede são 
fatores que contribuem para que as mulheres permaneçam em relacionamentos 
abusivos, visto que elas não encontram os atendimentos de que precisam e, muitas 
vezes, se sentem desprotegidas pelo poder público. 
Apesar de os Municípios de menor porte não apresentarem serviços de 
atendimento específico para as vítimas de violência doméstica, os profissionais do 
Judiciário podem se unir a outros profissionais e juntos buscarem estratégias que 
possam fortalecer a rede de enfrentamento da violência doméstica, bem como a 
rede de atendimento às vítimas, pois minimamente as comarcas situadas nessas 
cidades contam com estrutura policial, o Ministério Público, CRAS, postos de saúde, 
Equipes de PSF, entre outros, que, bem articulados, podem oferecer um 
atendimento digno a quem precisa. 
Para a estruturação da rede de enfrentamento a violência contra a mulher, o 
primeiro passo é conhecer as políticas públicas que poderão fazer parte dela, e, 
para isso, é preciso que o servidor do Judiciário conheça os órgãos e equipamentos 
da Comarca, bem como ONGs, associações e outras iniciativas não vinculadas ao 
poder público. Assim, sugere-se que inicialmente seja realizada uma visita para 
conhecimento e busca de informações sobre cada política e programa desenvolvido 
dentro da Comarca. 
É muito importante que se entenda que uma rede bem estruturada e eficiente 
se faz a partir de diálogos estabelecidos entre todos; assim, realizar reuniões para 
ouvir os possíveis componentes da rede é de extrema importância para que cada 
um apresente suas ideias e informe como pode contribuir. 
Após os diálogos, as discussões e as construções conjuntas, poderá ser 
estabelecido um termo de pactuação em que todos os componentes da rede se 
comprometerão a unir esforços para a implantação das ações definidas. 
 
} Página 51 
O protocolo para atendimento das vítimas da violência doméstica, bem como 
o comprometimento de todos para sua execução, tem papel fundamental no sucesso 
das ações da rede de enfrentamento à violência doméstica, pois o atendimento à 
vítima não deve se restringir apenas à sua condição clínica ou à criminalização do 
agressor; é preciso que se atente, entre outras coisas, para as condições 
psicológicas e socioeconômicas dela. 
A criação de uma ficha de encaminhamento das mulheres vítimas de violência 
é importante para um atendimento mais ágil e eficiente. Esse documento deve 
conter minimamente a indicação do órgão de acolhimento, qualificação da mulher, 
breve histórico do caso e encaminhamentos já realizados. 
 
Mas, qual será a função de cada componente da rede? 
 
É preciso que se entenda que não há um modelo específico que poderá ser 
usado em todas as Comarcas, haja vista as diferenças que existem entre elas, como 
já mencionado anteriormente. Contudo, há algumas atribuições que possivelmente 
serão comuns a todos os locais. 
A princípio, é importante falar sobre os componentes da rede que 
possivelmente farão o primeiro contato/atendimento com a vítima. A mulher pode 
acessar a rede de diversas formas, entretanto, entre as mais comuns estão 
delegacias, hospitais e equipamentos da assistência social. Nesses locais, é 
fundamental que a mulher se sinta acolhida e segura, sem que os envolvidos no 
atendimento apresentem preconceitos e tratamentos discriminatórios. 
A Polícia Civil, em algumas cidades do estado, tem a Delegacia Especializada 
no Atendimento da Mulher em Situação de Violência - DEAMs, mas, em várias 
cidades, isso não ocorre. Todavia, o que mais importa é que, especializada ou não, 
nesses locais, a mulher deve ser acolhida e ouvida.Dentro das atribuições da Polícia Civil podemos citar: confeccionar o REDS 
ou recebê-lo da Polícia Militar; aplicar o Formulário de Avaliação de Risco para 
Feminicídio; acompanhar a vítima para a retirada de seus pertences; encaminhar a 
 
} Página 52 
ofendida para o hospital; esclarecer à vítima sobre as medidas protetivas que podem 
ser pleiteadas, bem como sobre os procedimentos legais a serem seguidos; 
encaminhar a vítima para atendimento em outros equipamentos da rede; preencher 
a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. 
A Polícia Militar está presente em todos os municípios do Estado de Minas 
Gerais; assim, ela é muito importante para o sucesso das ações da rede de 
enfrentamento à violência doméstica. Dentre suas atribuições está: confeccionar o 
REDS; acompanhar a vítima para retirada de seus pertences; realizar prisão em 
flagrante do agressor (quando houver elementos para isso); fiscalizar o cumprimento 
das medidas protetivas; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão 
que estiver definido no protocolo. 
Os hospitais frequentemente recebem mulheres que foram vítimas de 
violências. Dentre suas atribuições está: triar e identificar sinais e sintomas de 
violência; diagnosticar e tratar as lesões físicas; ofertar assistência de enfermagem e 
médica para mulheres em situação de violência sexual; orientar e encaminhar a 
mulher aos demais órgãos da rede de enfrentamento; preencher a ficha de 
atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. 
O CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social – e o 
CRAS – Centro de Referência de Assistência Social – são portas de entrada para as 
vítimas de violência e terão um papel muito especial dentro da rede, pois eles 
poderão, além de atender às vítimas e prestar-lhes a assistência que lhes são 
cabidas, fazer encaminhamentos a outros órgãos e programas, além de ser o elo de 
ligação entre o Judiciário e os demais agentes. 
De forma resumida, caberá ao CREAS: o atendimento psicossocial 
individualizado às mulheres em situação de violência; orientar as vítimas sobre seus 
direitos e sobre as providências que poderão ser tomadas em seu favor; encaminhar 
as vítimas para casas abrigo; fazer visitas domiciliares; atender às famílias das 
mulheres; encaminhar as ofendidas para cursos profissionalizantes ou oficinas de 
geração de renda; informar possíveis situações de risco à vítima decorrente do 
descumprimento das medidas protetivas aplicadas; receber fichas de atendimentos. 
 
} Página 53 
O CRAS deverá: desenvolver atividades de orientação e prevenção da 
violência de gênero; acompanhar as vítimas e suas famílias após desligamento do 
CREAS; orientar as mulheres sobre as formas de violência, bem como sobre os 
canais de denúncias; promover oficinas educativas; fazer a triagem das mulheres 
que necessitam de assistência jurídica; preencher a ficha de atendimento e 
encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. 
Além dos componentes da rede citados, o Poder Judiciário e o Ministério 
Público desempenham papéis de grande importância dentro da rede de 
enfrentamento à violência doméstica. 
O Poder Judiciário pode atuar como articulador dessa rede, buscando unir 
esforços com os outros componentes para que ela funcione da melhor forma 
possível. Para isso, a equipe técnica precisa estar comprometida para auxiliar o juiz 
naquilo que for necessário, visando à estruturação e manutenção da rede de 
enfrentamento à violência doméstica. 
De acordo com o Fonavid: 
 
ENUNCIADO 13: Poderá a Equipe Multidisciplinar do juízo proceder ao 
encaminhamento da vítima, do agressor e do núcleo familiar e doméstico 
envolvido à rede social, independentemente de decisão judicial. 
ENUNCIADO 16: Constitui atribuição da Equipe Multidisciplinar conhecer e 
contribuir com a articulação, mobilização e fortalecimento da rede de 
serviços de atenção às mulheres, homens, crianças e adolescentes 
envolvidos nos processos que versam sobre violência doméstica e familiar 
contra a mulher. 
 
Além do mencionado, constituem ainda atribuições do Judiciário dentro do 
protocolo de atendimento às vítimas: analisar o pedido de medidas protetivas de 
urgência; comunicar às Polícias Civil e Militar e ao CREAS/CRAS o deferimento de 
medidas protetivas; processar e julgar crimes praticados contra a mulher; 
encaminhar as vítimas de violência para atendimento psicossocial e o autor de 
violência para grupos reflexivos; realizar campanhas de combate e prevenção à 
violência de gênero e participar das campanhas realizadas por outros componentes 
da rede; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver 
definido no protocolo. 
 
} Página 54 
O Ministério Público poderá: requerer medidas protetivas em favor da mulher 
em situação de violência; prestar orientação às mulheres que procurarem o órgão; 
oferecer denúncia contra autores de violência doméstica; preencher a ficha de 
atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. 
São outros componentes da rede de enfrentamento à violência contra a 
mulher: a Defensoria Pública, a OAB, as escolas, as equipes do PSF – Programa 
Saúde da Família, os postos de saúde, o Conselho Tutelar; o CAPS – Centro de 
Atenção Psicossocial, Assessoria Jurídica do Município, equipes da Vigilância 
Epidemiológica, ONGs, associações, entre outros. 
É importante que, em cada um dos componentes da rede, a mulher em 
situação de violência seja acolhida de forma solidária e que ela receba orientação 
sobre seus direitos e sobre os procedimentos a serem realizados. 
 
3. Os grupos reflexivos como instrumento de busca à 
mudança de perspectivas dos homens quanto às 
relações de gênero 
 
 É sabido que apenas a punição do agressor não é suficiente para que haja a 
diminuição dos índices de violência contra a mulher. Nesse sentido, entender que o 
homem também precisa ser visto como alguém que necessita de ajuda faz com que 
sejam pensadas formas de atendimento que os levem a repensar suas atitudes 
como seres humanos. 
 Zanello, no livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de 
subjetivação, coloca que os homens são socializados a partir de uma lógica de 
virilidade, com um rol de características que são associadas ao sexo masculino, 
como potência sexual, força, coragem, moral, entre outros. Além disso, o homem 
deve afastar-se de qualquer expressão que o associe a uma forma feminina, isso 
 
} Página 55 
inclui sua vestimenta, brincadeiras, esportes e especialmente a forma de demonstrar 
sentimentos (ZANELLO, 2018). 
 Moldados dessa maneira, grande parte dos homens entende que, para 
exercer sua masculinidade, é preciso que eles sejam superiores e não aceitem que 
uma pessoa do sexo oposto se sobreponha a ele. Daí surge o machismo que tem 
como característica, de modo simplificado, a negação da igualdade entre homens e 
mulheres, atribuindo a cada um papéis distintos dentro da sociedade, colocando a 
mulher em condição de inferioridade com relação ao homem. 
 Os padrões machistas estabelecidos pela sociedade legitimam e banalizam a 
violência contra a mulher. Nesse sentido, Suarez e Bandeira dizem que “a violência 
doméstica não se caracteriza como patologia ou como desvio individual, mas sim 
como ‘permissão social’ concedida e acordada com os homens na sociedade” 
(SUAREZ; BANDEIRA, 1999). 
 A violência contra a mulher, em muitas das vezes, ocorre quando o homem se 
vê subjugado a ela, seja em qualquer área da vida. Nesse momento, o homem 
busca dentro de si toda a essência de sua criação e usa de sua diferença física para 
se impor como ser dominante dentro daquela relação. 
 Das constatações apresentadas, surge a necessidade de trabalhar o homem 
na busca da desconstrução desse padrão social imposto a ele. Assim, os grupos 
reflexivos apresentam-se como alternativa eficaz de busca da responsabilizaçãoe 
reeducação do homem. 
 Pelo Brasil afora, muitas comarcas, em parceria ou não com outros setores, já 
implementaram a realização de grupos reflexivos, contudo não havia na Lei Maria da 
Penha algo específico sobre o tema. Tal lacuna foi suprida com a alteração da Lei 
11.340, trazida pela Lei 13.984, de 13 de abril de 2020, que alterou o art. 22, 
acrescentando nos incisos VI e VII novas medidas protetivas de urgência que podem 
ser aplicadas, sendo que, no sexto, há a obrigatoriedade de comparecimento do 
agressor a programas de recuperação e reeducação; e o sétimo traz o 
acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou 
em grupo de apoio. 
 
} Página 56 
 Os grupos reflexivos têm configurado como importante instrumento na busca 
por uma mudança de pensamento dos homens. Nesses espaços de discussão, é 
possível que o agressor reflita sobre responsabilização, perspectiva de gênero, 
conhecimento e aprofundamento sobre a Lei Maria da Penha e outras legislações, 
causas que levam à violência doméstica, à drogatição como gatilho para a violência, 
machismo, entre outros temas que o ajudarão a refletir sobre suas atitudes e sobre 
as mudanças necessárias para uma relação saudável com a pessoa do sexo oposto. 
 A importância dessas reflexões está especialmente no fato de muitos autores 
de violência doméstica não se enxergarem como agressores, pois eles reproduzem 
um comportamento para eles naturalizado, haja vista que sempre viram isso 
acontecer. 
 
4. As campanhas como forma de articular o trabalho 
em rede e a conscientização sobre a violência 
doméstica 
 
 A Lei 13.340/2006, em seu art. 8°, inc. V, trouxe a necessidade do 
desenvolvimento de campanhas educativas de prevenção da violência doméstica e 
familiar contra a mulher, voltadas para o público escolar e para sociedade em geral. 
Essas campanhas configuram importante instrumento de esclarecimento e 
conscientização da população sobre a necessidade de combate à violência contra a 
mulher. 
O Judiciário, buscando alcançar a celeridade nos processos de violência de 
gênero e o envolvimento e esclarecimento da população sobre o tema, estabeleceu 
a Campanha Justiça pela Paz em Casa. Ela teve início em 2015, quando, em janeiro 
daquele ano, a Ministra do Supremo Tribunal Federal Carmem Lúcia, numa reunião 
com presidentes dos Tribunais de Justiça do país, propôs que fosse realizada uma 
mobilização para tratar dos processos envolvendo violência contra a mulher. Em 
 
} Página 57 
março de 2015, ocorreu a primeira semana da campanha, tendo sido realizadas em 
todo o país 17.113 audiências e 146 júris. 
O Programa Nacional Justiça Pela Paz em Casa passou a fazer parte da 
Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, pela 
Portaria n°15, de 8 março de 2017, e Resolução 254, de 4 de setembro 2018, do 
Conselho Nacional de Justiça, tendo caráter de política contínua. 
A campanha tem como principal objetivo ampliar a efetividade da Lei Maria da 
Penha. Durante três momentos no ano, em março, por ocasião do dia das mulheres; 
em agosto, aniversário da Lei Maria da Penha; e, em novembro, quando a ONU 
estabeleceu o dia 25 como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra 
a Mulher, o Poder Judiciário do Brasil inteiro volta suas atenções de maneira mais 
concentrada à violência de gênero, buscando, assim, aprimorar a prestação 
jurisdicional nesse tipo de caso. 
 No ano de 2019, segundo dados do Departamento de Pesquisa Judiciária do 
Conselho Nacional de Justiça, durante as três semanas da campanha Justiça pela 
Paz em Casa, foram analisados mais de 120.000 processos que envolvem violência 
de gênero. Na soma das ações das três semanas, foram realizadas 57.379 
audiências, 344 júris, foram concedidas 25.925 medidas protetivas e proferidas 
46.445 sentenças. 
 Além do aspecto institucional da campanha, ela também visa à promoção de 
ações de caráter multidisciplinar que têm como objetivo informar e sensibilizar a 
sociedade sobre as diversas formas de violência às quais as mulheres estão 
submetidas. Para isso, são desenvolvidas ações educativas e culturais que visam à 
discussão do tema de forma mais ampla. 
 O viés educativo da campanha é de extrema importância, pois é educando e 
reeducando que poderá se conseguir quebrar os paradigmas que ocasionam a 
violência doméstica. Dentro disso, levar a temática até as escolas torna-se um 
diferencial, pois é preciso que as crianças e os adolescentes entendam a relação 
entre os gêneros dentro de uma perspectiva harmoniosa, em que um não se 
sobrepõe ao outro. 
 
} Página 58 
 Ainda no eixo educativo, realizar encontros, rodas de conversas, debates e 
promover outros espaços de discussão sobre o tema com mulheres e homens 
favorece a criação de uma consciência coletiva sobre uma nova forma de enxergar 
os relacionamentos entre homens e mulheres. Além disso, esses momentos 
favorecem a capacitação das redes de enfrentamento e atendimento. 
 O esclarecimento de questões que para muitos são cotidianas é de extrema 
importância para que a sociedade seja elucidada sobre as formas de violência e os 
meios para se evitar que ela aconteça. Incentivar o diálogo e o lado positivo na 
diversidade de pensamentos e ideias na construção dos relacionamentos é a busca 
para que as pessoas consigam discutir ideias sem que isso se torne um motivo para 
agressão entre elas. 
 É importante pontuar que, assim como muitos agressores não se veem 
autores de violência doméstica, muitas mulheres também não se enxergam como 
vítimas, tamanha a naturalização desse tipo de atitude. Nesse sentido, faz-se 
necessário que as mulheres sejam esclarecidas sobre as formas de violência, sobre 
os canais de atendimento que estão disponíveis para elas e sobre as políticas 
públicas que elas podem acessar. 
 A Campanha Justiça pela Paz em Casa é uma campanha desenvolvida pelo 
Judiciário, por isso, é ainda mais importante que os servidores conheçam e estejam 
dispostos a integrar as atividades propostas e a contribuir naquilo que estiver ao seu 
alcance para o sucesso da iniciativa. 
 Além da participação dos servidores do Judiciário, é de suma importância o 
envolvimento da rede de enfrentamento da violência doméstica na realização dessa 
campanha. As ações podem ser desenvolvidas em parceira com o Ministério 
Público, Defensoria Pública, OAB, os Poderes Executivo e Legislativo, as polícias e 
a sociedade civil. 
 Entende-se que as campanhas, além de proporcionar o esclarecimento da 
população sobre a temática da violência doméstica, também é um importante 
instrumento para o alinhamento da rede de enfrentamento da violência, por poder 
proporcionar o envolvimento de todos os seus componentes. 
 
} Página 59 
 Além da Campanha Justiça pela Paz em Casa, muitas outras são 
desenvolvidas por diversos órgãos governamentais e não governamentais. Como 
exemplo, cita-se a Campanha Agosto Lilás, que teve início em 2016 no Mato Grosso 
do Sul e já foi aderida por vários estados, inclusive Minas Gerais; e a Campanha do 
Laço Branco, que teve início no Canadá e hoje está em diversos países do mundo. 
Essa campanha marca a luta de homens pelo fim da violência contra a mulher e tem 
como lema “jamais cometer um ato violento contra as mulheres e não fechar os 
olhos frente a essa violência”. 
 
 E você, o que pode fazer para contribuir com a diminuição da 
violência doméstica na sua comarca? 
 
 
} Página 60 
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ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de 
subjetivação. 1. ed. Curitiba: Appris, 2018. 301p.na maioria dos aspectos. Nessas sociedades, 
os sexos eram considerados ‘complementares’ (LERNER, 2019, p. 44). 
 
 Embora existam diversas teorias e estudos científicos a respeito das origens 
históricas da opressão das mulheres pelos homens – que até hoje se expressa nos 
índices alarmantes de violência doméstica registrados no Brasil – há um consenso 
no sentido de que essa estrutura de dominação relaciona-se ao controle reprodutivo, 
uma vez que a sobrevivência de qualquer grupo social – e, em última análise, da 
própria humanidade – depende da capacidade de gerar filhos, e, por consequência, 
sociedades com mais mulheres produzem mais filhos. 
 A capacidade da mulher de gerar filhos, portanto, seria o elemento que fez 
com que surgisse a ideia de apropriação real e simbólica dos corpos femininos pelos 
homens, ocasionando o que Claude Lévi-Strauss denominou de reificação, processo 
pelo qual as mulheres passam a ser desumanizadas e vistas mais como coisas que 
como seres humanos. 
 A visão dos corpos femininos como objetos que possuem proprietários que 
inclusive podem deles dispor está na origem dos crimes cometidos contra esses 
mesmos corpos e sobretudo das construções sociais que produzem índices 
alarmantes de feminicídio. 
 É a partir dessa concepção que retira a subjetividade e a individualidade das 
mulheres que se desenvolve todo um sistema de opressão histórica que perdura ao 
longo de séculos – o patriarcado – e que causa não apenas sofrimento a mais de 
 
} Página 7 
metade da população mundial, mas também sacrifica e penaliza famílias e filhos, 
vítimas ocultas das múltiplas violências praticadas contra as mulheres. 
 A própria Exposição de Motivos da Lei nº 11.430, de 2006, reconheceu a 
centralidade dos processos históricos como causas da violência doméstica e 
familiar, ao dispor, em seu item 16, que “as desigualdades de gênero entre homens 
e mulheres advêm de uma construção sociocultural” e de “um sistema de 
dominação” que “passa a considerar natural uma desigualdade socialmente 
construída”. Tal descrição evidencia o componente social – e, portanto, de origem 
histórica – da estrutura que comporta, reproduz e estimula a violência contra a 
mulher. 
 
2. Construções sociais como causa e elemento de 
agravamento da violência doméstica e familiar 
 
 Partindo-se da constatação de que os índices assustadores de violência 
doméstica e familiar guardam correlação com processos históricos e elementos 
culturais, convém analisar como essas construções sociais geram e agravam o atual 
cenário de violência para que, identificando-se as raízes desses sistemas e práticas, 
possamos atuar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. 
 Existe um consenso no sentido de que os papéis socialmente designados às 
mulheres e aos homens atuam de forma relevante na construção de práticas e 
simbolismos que estimulam a violência contra a mulher. 
A fim de ilustrar o papel que os estereótipos desempenham no fomento da 
violência doméstica, podemos pensar na seguinte situação: quando uma mulher 
comunica que está grávida, muito provavelmente a primeira pergunta que terá que 
responder a respeito do bebê é se é um menino ou uma menina. E por que é tão 
importante na nossa cultura saber se o bebê é menino ou menina? Porque é a partir 
dessa definição que nós vamos começar a moldar no nosso imaginário a identidade 
desse ser. 
 
} Página 8 
Caso o sexo biológico seja feminino, os pais quase imediatamente pensarão 
em decorar o quarto com temas como fadas e borboletas, em comprar roupas com 
babados, laços e fitas e os parentes idealizarão presentes com elementos que 
remetam a uma ideia de delicadeza, doçura e suavidade. Caso o sexo biológico seja 
masculino, a decoração do quarto muito provavelmente incluirá elementos como 
carros, aviões e esportes, enquanto as roupas terão tons mais fortes e os presentes 
estarão relacionados a atividades atléticas (futebol, basquete, automobilismo) ou 
relacionadas às mais diversas profissões, desde astronautas até caçadores. 
Percebam que, a partir de uma única informação – se os genitais são 
masculinos ou femininos –, nós já definimos claramente qual será o papel dessa 
criança no mundo. E, a partir dessa única informação, nós, inconscientemente, já 
criamos a expectativa de que a menina será doce, delicada e romântica, e o menino 
será forte, aventureiro e destemido, de modo que, desde os primeiros anos de vida 
da criança, já está posto que o que se espera de um homem é força e 
predominância. 
Esses papéis socialmente associados a homens e mulheres persistem ao 
longo de toda a vida e a eles vão se somando mais e mais camadas, que reforçam, 
de forma reiterada e constante, a ideia de que a agressividade masculina e a 
submissão feminina são naturais. 
Porém, como pontuam Raewyn Connel e Rebecca Pearse, “a vida humana 
não se divide em apenas duas esferas, nem o caráter humano se divide em apenas 
dois tipos. Nossas imagens de gênero são quase sempre dicotômicas, mas a 
realidade não o é” (CONNEL; PEARSE, 2015, p. 46). 
Nesse ponto, é importante destacar que, embora, sob o ponto de vista 
genético, hormonal, morfológico e fisiológico, homens e mulheres tenham mais 
semelhanças que diferenças, há uma tendência de se focar mais nas diferenças que 
nas semelhanças para se estabelecer critérios de hierarquia e posicionamento social 
e relacional. 
A esse respeito, Valeska Zanello destaca que, historicamente, nos séculos 18 
e 19, houve, por motivos ideológicos, uma mudança da eleição do foco de interesse 
 
} Página 9 
das semelhanças entre os órgãos genitais masculinos e femininos para suas 
diferenças, o que teria ocorrido para, “por meio da afirmação da diferença física 
(colocada como foco)”, se pudesse naturalizar diferenças sociais (ZANELLO, 2018, 
p. 41). A autora esclarece ainda que “não se trata aqui de negar a diferença corporal, 
mas de apontar que certas diferenças foram eleitas em determinado momento 
histórico para justificar desigualdades sociais” (ZANELLO, 2018, p. 42). 
No mesmo sentido, as conclusões de Gerda Lerner, quando afirma: “parto do 
princípio de que homens e mulheres são biologicamente diferentes, mas que os 
valores e as implicações baseados nessa diferença resultam da cultura” (LERNER, 
2019, p. 30). 
Há diversos fatos e contextos histórica e socialmente comprovados que 
demonstram como as noções de masculinidade e feminilidade variam de acordo 
com o tempo e o lugar. Na Grécia Antiga, por exemplo, fazia parte da construção da 
masculinidade que o homem jovem mantivesse relações sexuais com um homem 
mais velho, sendo esta uma etapa necessária para se atingir o modelo de 
masculinidade vigente àquela época, de modo que, “em outras palavras, as práticas 
homoeróticas eram um elemento constitutivo da própria virilidade grega” (ZANELLO, 
2018, p. 180). 
Por outro lado, há registros de que, em diversas sociedades de povos nativos 
brasileiros, a maternagem, que contemporaneamente entendemos como um atributo 
intrínseco à feminilidade, era exercida de forma comunitária, por todos os membros 
de uma aldeia. 
Tais exemplos ilustram como as noções de o que é ser “masculino” e 
“feminino” variam de acordo com o local e o tempo histórico. 
E não apenas isso. As construções em torno do que é “ser mulher” são 
também profundamente marcadas pelo componente racial. 
Predomina, no senso comum, por exemplo, um ideal de feminilidade que 
associa o “ser mulher” a características como doçura e fragilidade, estabelecendo o 
espaço doméstico como o habitat natural das mulheres. No entanto, esses mesmos 
atributos, muitas vezes, são negados às mulheres negras, a quem não é sequer 
 
} Página 10 
socialmente permitida a fragilidade, porquanto delas se exige que sejam “guerreiras” 
capazes de trabalhar nas mais diversas funções, cuidar da casa e criar filhos 
sozinhas. Percebam que, para as brancas, o “ser mulher”corresponde a um ideal de 
fragilidade, doçura e domesticidade, enquanto, para as negras, o “ser mulher” 
carrega as profundas marcas do racismo. 
Angela Davis afirmou a esse respeito que 
 
a julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que 
enfatizava o papel das mulheres como mães protetoras, parceiras e donas 
de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente 
anomalias”, acrescentando que “a postura dos senhores em relação às 
escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las 
como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, 
quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis 
apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição 
de fêmeas (DAVIS, 2016, p.17-18). 
 
A partir da constatação, cientificamente embasada, de que existem diversas 
configurações históricas e sociais do masculino e do feminino e de seus respectivos 
desdobramentos, construíram-se, principalmente, a partir da década de 70, os 
estudos de gênero, sobretudo, na área das ciências sociais. 
Recentemente, o termo “gênero” vem sendo alvo de controvérsias, polêmicas 
e debates, notadamente no Brasil. Por isso, faz-se necessário esclarecer por que 
todos aqueles que atuam em processos envolvendo violência doméstica e familiar 
devem conhecer esse conceito, sendo essa discussão indissociável da 
compreensão do fenômeno da violência contra a mulher e da sua superação. 
A necessidade da compreensão do conceito de gênero decorre de um 
imperativo legal, já que a Lei nº 11.340, de 2006, utiliza tal conceito para definir a 
violência doméstica e familiar contra a mulher em seu art. 5º: “Para os efeitos dessa 
Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou 
omissão baseada no gênero que lhe cause lesão, sofrimento físico, sexual ou 
psicológico e dano moral ou patrimonial.” (sem destaque no original). 
Mais à frente, a mesma lei prevê, em seu art. 8º, inciso II, que “a política 
pública que visa a coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher considerará 
 
} Página 11 
a promoção de estudos e pesquisas com a perspectiva de gênero e de raça ou 
etnia” (sem destaque no original). 
Diante da clareza do texto legal, há que se reconhecer que o enfrentamento 
da violência doméstica e familiar é indissociável do debate sobre gênero. 
E, afinal de contas, o que vem a ser gênero? 
Em linhas gerais, o gênero está relacionado às construções sociais que 
estabelecem qual o papel, função ou comportamento esperado de alguém com base 
em seu sexo biológico. 
Gerda Lerner conceitua gênero como “a definição cultural de comportamento 
definido como apropriado aos sexos em dada sociedade, em determinada época” ou 
como “um conjunto de papéis culturais” (LERNER, 2019, p. 289). 
Como vimos acima, tais construções sociais não são imutáveis e variam de 
acordo com o tempo e o lugar. Essa compreensão é necessária para que possamos 
nos conscientizar de que as características que colocam as mulheres em posições 
subalternas ou que as relegam a espaços específicos, impedindo que elas ocupem 
esferas de poder e tenham autonomia sobre suas vidas e seus corpos, são 
construídas socialmente e atendem ao sistema patriarcal, que é fundamentalmente 
desigual e injusto, pois se funda na dominação de um gênero sobre outro. 
A ideia de gênero, portanto, não guarda qualquer relação com o estímulo de 
práticas sexuais precoces, à pedofilia ou à destruição da família, sendo, ao revés, 
um ramo consolidado de estudo das ciências sociais e mais recentemente também 
da neurociência. 
Importa, mais uma vez, salientar que a própria Exposição de Motivos da Lei nº 
11.340, de 2006, reconhece, em seu item 16, que 
 
as desigualdades de gênero entre homens e mulheres advêm de uma 
construção sociocultural que não encontra respaldo nas diferenças 
biológicas dadas pela natureza. Um sistema de dominação passa a 
considerar natural uma desigualdade socialmente construída, campo fértil 
para atos de discriminação e violência que se ‘naturalizam’ e se incorporam 
ao cotidiano de milhares de mulheres. 
 
 
 
} Página 12 
3. O papel das práticas cotidianas no fomento das 
múltiplas formas de violência contra a mulher 
 
Contemporaneamente, os papéis socialmente atribuídos a homens e 
mulheres encontram-se na gênese das opressões e violências praticadas contra as 
mulheres. São essas construções sociais – moldadas ao longo de séculos – que 
naturalizam conceitos que reduzem mulheres a adornos, objetos sexuais ou pessoas 
que somente se realizam no ambiente doméstico, impedindo sua emancipação. 
Tais construções são tão arraigadas em nossa cultura que, muitas vezes, não 
são percebidas, e essa dificuldade de identificação das opressões termina por 
conduzir e manter mulheres em relacionamentos abusivos, em cujo seio a violência 
doméstica acontece. 
A título ilustrativo, convém mencionar algumas frases do senso comum que 
traduzem preconceitos socialmente arraigados, formando um caldo cultural que cria, 
autoriza e favorece a violência contra a mulher: 
1) “Isso é coisa de mulherzinha”: inferioriza mulheres, designando que o que 
se refere ao sexo feminino é menor, subalterno, desprezível. 
2) “Para ficar bonita, mulher tem que sofrer”: reduz mulheres a adornos, 
expressando que elas têm que obrigatoriamente suportar sofrimento para atender 
expectativas e padrões de beleza que agradem aos homens. 
3) “Mulher de amigo meu pra mim é homem”: traduz o entendimento de que o 
homem respeita o amigo, mas não a mulher. 
4) “Se você não se cuidar ele vai te trair”: coloca sobre os ombros da mulher a 
obrigação de se adequar ao padrão de beleza imposto pelo homem e ainda a culpa 
pela traição dele. 
5) “Desse jeito você vai ficar para titia”: coloca o casamento como central e 
indispensável na vida de uma mulher, sendo que esse ideal frequentemente empurra 
e mantém mulheres em relacionamentos abusivos. 
 
} Página 13 
6) “Se estivesse em casa isso não teria acontecido”: corrobora o 
entendimento de que o espaço das mulheres deve se restringir ao espaço doméstico 
quando, na verdade, segundo a ONU, a casa é o ambiente mais perigoso para as 
mulheres, pois mais de 70% das denúncias de violência sexual contra crianças e 
adolescentes envolvem abusos praticados no ambiente doméstico, por parentes das 
vítimas. 
7) “Homem não gosta de mulher de cabelo curto/unha sem fazer/que fala 
palavrão/que bebe, etc.”: coloca os homens como avaliadores da conduta e da 
aparência de mulheres, induzindo o entendimento de que é o conceito deles que 
deve pautar a estética e as atitudes delas. 
Importa destacar que os conceitos, ideias e estereótipos que formam o 
referido caldo cultural que legitima a violência contra as mulheres também estão 
presentes em produtos culturais (como músicas, filmes e séries de TV) e de forma 
acentuada em memes trocados em grupos de WhatsApp (sobretudo grupos de 
homens) que reproduzem e reforçam machismo, misoginia e objetificação. 
A propósito da violência sexual, deve-se ressaltar que a indústria cultural 
fetichiza corpos juvenis e mulheres com características infantilizadas, o que termina 
por validar e legitimar socialmente padrões relacionados à pedofilia. 
Todos esses fatores, aliados a outras construções sociais que operam, às 
vezes de forma evidente e às vezes de forma sutil, desenham uma sociedade que, 
ao exigir que mulheres sejam dóceis, belas, recatadas, estabelecendo que seu 
espaço de realização é exclusivamente o lar e os relacionamentos amorosos, 
constroem um ambiente e uma estrutura que favorecem e estimulam a prática de 
múltiplas violências praticadas por homens contra mulheres e meninas. 
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chama a atenção para o fato 
de que o próprio conceito de que mulheres devem ser protegidas e defendidas por 
homens revela um preconceito que termina por referendarpráticas violentas e 
sexistas: 
 
 
} Página 14 
Uma vez ouvi de um político americano, ao demonstrar seu apoio às 
mulheres, que elas deveriam ser ‘reverenciadas’ e ‘defendidas’ - um 
sentimento muito comum. 
Diga a Chizalum que as mulheres, na verdade, não precisam ser 
defendidas ou reverenciadas; só precisam ser tratadas como seres 
humanos iguais. Há uma conotação de superioridade na ideia de que 
as mulheres precisam ser ‘defendidas e reverenciadas’ por serem 
mulheres. Isso me fez pensar em cavalheirismo, e a premissa do 
cavalheirismo é a fragilidade feminina (ADICHIE, 2017, p. 39). 
 
4. Por que precisamos da Lei Maria da Penha? 
 
A resposta curta para essa pergunta seria: para garantir o princípio da 
igualdade resguardado na Constituição da República e que estrutura o Estado 
Democrático de Direito. 
É nesse sentido que dispõe a Exposição de Motivos da Lei nº 11.340, de 
2006, em seu item 12: 
 
É contra as relações desiguais que se impõem os direitos humanos das 
mulheres. O respeito à igualdade está a exigir, portanto, uma lei específica 
que dê proteção e dignidade às mulheres vítimas de violência doméstica. 
Não haverá democracia efetiva e real enquanto o problema da violência 
doméstica não for devidamente considerado. Os direitos à vida, saúde e à 
integridade física das mulheres são violados quando um membro da família 
tira vantagem de sua força física ou posição de autoridade para infligir 
maus-tratos físicos sexuais, morais e psicológicos. 
 
A escritora Patrícia Melo, em seu livro Mulheres empilhadas, traz um texto 
duro, forte, assertivo e sem rodeios que ilustra por que infelizmente ainda 
precisamos da Lei Maria da Penha: 
 
Nós, mulheres, morremos como moscas. Vocês, homens, tomam porre e 
nos matam. […] Estão furiosos e nos matam. Querem diversão e nos 
matam. Descobrem nossos amantes e nos matam. São abandonados e nos 
matam. Arranjam uma amante e nos matam. São humilhados e nos matam. 
Voltam do trabalho cansados e nos matam. 
E, no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós, mulheres, sabemos 
provocar. Sabemos infernizar. Sabemos destruir a vida de um cara. Somos 
infiéis. Vingativas. A culpa é nossa. Nós que provocamos. Afinal, o que 
estamos fazendo ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? Por 
que afinal aceitamos a bebida que nos foi oferecida? Pior ainda: como não 
recusamos o convite de subir até aquele quarto de hotel? Com aquele 
 
} Página 15 
brutamontes? […] E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito 
menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. 
Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote. Mas quem 
disse que seguimos as regras? Vestimos minissaias. Decotes que vão até o 
umbigo […]. Abusamos. Entramos em becos escuros […]. Extrapolamos. 
Trabalhamos o dia inteiro. Somos independentes. Temos amantes. 
Gargalhamos alto. Sustentamos a casa […]. O curioso é que não matamos. 
Incrível como matamos pouco (MELO, 2019, p. 71). 
 
 Enquanto houver mulheres e meninas morrendo e sendo violentadas 
todos os dias, às dezenas, precisaremos não apenas de uma Lei Maria da 
Penha, mas de pessoas e instituições aptas e dispostas a emancipá-las e 
defendê-las. 
 
 
} Página 16 
UNIDADE 2: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E 
FAMILIAR CONTRA A MULHER E SUA 
INTERSECÇÃO COM RAÇA E CLASSE 
SOCIAL 
Flávia Martins de Carvalho2 
 
1. Introdução 
 
O Brasil é um país racista. Essa afirmação, embora lastreada por fatos e 
dados, ainda é negada por boa parcela da sociedade brasileira, o que dificulta o 
adequado enfrentamento da desigualdade racial que vigora em nosso país 
(GHIROTTO, 2020; VIEIRA, 2020). Ainda assim, algumas iniciativas, a exemplo da 
política de cotas nos concursos públicos, vem ampliando a inclusão de pessoas 
negras em espaços de poder, o que nos coloca na direção de uma sociedade mais 
igualitária, embora muito ainda precise ser feito. 
Nos limites do presente artigo, inicialmente, apresentaremos o mito da 
democracia racial e a razão pela qual este deve ser desconstruído. A seguir, 
abordaremos os efeitos do racismo nos índices de violência. Mais adiante, 
demonstraremos de que maneira os marcadores de raça, gênero e classe social 
tornam a mulher negra mais vulnerável à violência doméstica. Por fim, abordaremos 
 
2 Juíza de direito no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Mestra em Direito pela Universidade 
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ex-Coordenadora Adjunta e Membro do Comitê Científico do 
Fórum de Grupos de Pesquisa em Direito Constitucional e Teoria do Direito. Membro do Grupo de 
Trabalho instituído pelo CNJ para tratar de questões raciais no âmbito do Poder Judiciário (Portaria nº 
108/2020). Diretora de Promoção da Igualdade Racial da Associação dos Magistrados Brasileiros 
(2020/2022). 
 
} Página 17 
a perspectiva de uma hermenêutica negra a ser aplicada na análise dos casos de 
violência doméstica. 
 
2. O mito da democracia racial 
 
Com o fim da escravidão no Brasil, a questão racial foi tratada de diferentes 
formas em nossa história recente, que vão desde a busca do embranquecimento da 
população até a construção do mito da democracia racial, todas buscando a 
invisibilidade dos problemas enfrentados pela população negra em nosso país 
(SILVA, 2015). 
O racismo científico, que atribuía a pessoas negras condição inferior e as 
afastava da condição de seres humanos, foi bastante aceito no século XIX e 
sustentou uma quase obsessão pela busca da raça pura. Conforme leciona Lilia 
Moritz Schwarcz, as teorias de Lombroso e Darwin contribuíram para a ideia de que 
a miscigenação deveria ser evitada a fim de promover a evolução natural e a 
preservação das espécies, de modo a serem extirpados traços patológicos de 
“degeneração”, que eram, segundo tais teorias, mais incidentes em pessoas negras. 
 
Um outro tipo de determinismo, um determinismo de cunho racial, toma 
força nesse contexto. Denominada ‘darwinismo social’ ou ‘teoria das raças’, 
essa nova perspectiva via de forma pessimista a miscigenação, já que 
acreditava que ‘não se transmitiam caracteres adquiridos’, nem mesmo por 
meio de um processo de evolução social. Ou seja, as raças constituiriam 
fenômenos finais, resultados imutáveis, sendo todo cruzamento, por 
princípio, entendido como erro. As decorrências lógicas desse tipo de 
postulado eram duas: enaltecer a existência de ‘tipos puros’ – e portanto 
não sujeitos a processos de miscigenação – e compreender a mestiçagem 
como sinônimo de degeneração não só racial como social (SCHWARCZ, 
1993, p. 76/78). 
 
Essas teorias acabaram por influenciar políticas estatais, de forma que a 
busca de uma raça pura e a eliminação de raças inferiores revelaram-se um “ideal 
político”, com reflexos nos programas de reprodução da população, que 
incorporaram um viés eugenista, chegando a haver proibições de casamentos inter-
raciais para manter o equilíbrio genético e evitar a degradação das espécies, sempre 
 
} Página 18 
tendo como parâmetro de perfectibilidade a raça ariana, de origem europeia 
(SCHWARCZ, 1993). 
 
No dizer de Kon, Silva e Abud, “a política de ‘embranquecimento’ ou 
‘branqueamento’ da população, conduzida pelo Estado, estabeleceu uma nova 
modalidade de racismo à brasileira”. Isso porque o ideal passou a ser a busca pelo 
clareamento estético e cultural para que o negro e, principalmente, o mestiço 
pudessem ser aceitos socialmente (SILVA, 2017). 
Com o avanço dos estudos científicos, sobretudo daqueles relacionados à 
genética, a crença de que poderia haver uma raça pura superior a qualquer outra 
caiu por terra, o que não significou o fim do racismo. Ao contrário, o discurso de que 
não existe raça e de que somos todos seres humanos tem sido utilizado muitas 
vezes como argumento contra políticas afirmativas que tenham por objetivo a busca 
da igualdade racial através de reserva de cotas para pessoas pretas e pardas. 
Entretanto, é importante compreender queraça e racismo são construções 
históricas e culturais, que fazem de pessoas brancas o padrão universal sob 
diversos aspectos, ao passo que pessoas não brancas são tidas como “o outro”, 
muitas vezes sequer reconhecidas como humanas. 
 
Ser branco situa as pessoas em um lugar específico dentro das hierarquias 
sociais em função da significação que o pertencimento ao grupo racial 
dominante possui no mundo contemporâneo. À identidade racial branca 
estão associados diversos predicados positivos, como superioridade 
cultural, beleza estética, integridade moral, sucesso econômico e 
sexualidade sadia. […] 
A negritude surge a partir da atribuição negativa de características morais a 
traços fenotípicos das populações africanas. […] O racismo cumpre então 
um papel central nesse processo, pois cria e propaga imagens culturais 
destinadas a justificar hierarquias entre brancos e negros. Assim, essas 
duas identidades são construídas a partir da lógica oposicional na qual 
grupos de pessoas são racializadas de formas distintas em função das 
relações de poder que possuem dimensões culturais, políticas, históricas e 
econômicas (MOREIRA, 2019a, p. 42/43). 
 
Assim, temos que a racialização é muito mais uma construção histórica e 
sociocultural do que o resultado de uma formação biológica. 
 
} Página 19 
A ideia de que o Brasil é um país onde vigora a chamada “democracia racial” 
ganhou força com a obra de Gilberto Freyre, publicada em 1933, denominada Casa-
grande e senzala. Em seu livro, Freyre apresenta uma relação harmônica entre 
brancos e negros, construída a partir da miscigenação. A mestiçagem seria a base 
da sociedade brasileira, o que favoreceria a construção de uma democracia racial. 
Sua abordagem afasta a inferioridade racial do negro sustentada pelo racismo 
científico, base das teorias eugenistas, mantendo, contudo, um discurso conflitante, 
uma vez que sustenta que os negros que foram trazidos para o Brasil eram 
superiores àqueles que foram levados para os Estados Unidos. Além disso, para 
Freyre, o mestiço seria o falso negro, aceito culturalmente por se aproximar das 
características do colonizador. Portanto, há uma valorização do branqueamento da 
pele e do aculturamento do povo negro. 
A forma como Freyre retrata a relação entre brancos e negros é utópica, pois 
faz parecer que não havia qualquer conflito, e somente nessa base ilusória é que se 
pode admitir o mito da democracia racial. 
 
Tudo se passa como se não houvesse luta, não houvesse revolta, não 
houvesse crime. A existência de quilombos não é explicada, a própria 
escravidão ganha caráter tão doce que é difícil imaginá-la hedionda e é 
difícil acreditar que os negros não a desejassem. Tudo é paz, tudo é 
harmonia, confraternização eterna entre os valores da senzala e da casa-
grande (SANTOS, 2002, p. 12). 
 
O mito da democracia racial fez com que a questão racial não fosse uma 
questão central para a sociedade brasileira, embora o racismo esteja presente de 
forma estrutural em nossa sociedade desde o início da sua formação até os dias 
atuais (ALMEIDA, 2019). 
 
3. Racismo em números 
 
Segundo Silvio Almeida, pode-se conceituar o racismo como “uma forma 
sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta 
 
} Página 20 
por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens 
ou privilégios para indivíduos, a depender do grupo racial a que pertençam” 
(ALMEIDA, 2019, p. 32). 
Por sua vez, Oscar Vilhena Vieira entende o racismo como “uma invenção 
branca voltada a naturalizar a exclusão, a subordinação e a exploração da 
população negra, assim como a legitimar a violência contra pretos e pardos, sem a 
qual a dominação branca não subsistiria” (VIEIRA, 2020). 
De certo, não se pode admitir a existência de uma democracia racial no Brasil 
quando se observa a desigualdade, sob qualquer perspectiva, como pessoas negras 
e não negras experienciam a vida em sociedade. 
De acordo com o Atlas da violência (INSTITUTO DE PESQUISA 
ECONÔMICA APLICADA, 2020), em 2018, os negros (soma de pretos e pardos, 
segundo classificação do IBGE) representaram 75,7% das vítimas de homicídios, 
com uma taxa de homicídio de 37,8 por 100 mil habitantes. Por outro lado, entre os 
não negros (soma de brancos, amarelos e indígenas), a taxa foi de 13,9 por 100 mil 
habitantes. Isso evidencia que, para cada indivíduo não negro morto em 2018, 2,7 
negros foram mortos. 
Da mesma forma, as mulheres negras representaram 68% do total das 
mulheres assassinadas no Brasil, com uma taxa de mortalidade de 5,2 por 100 mil 
habitantes, quase o dobro quando comparada à das mulheres não negras, que foi 
de 2,8 por 100 mil habitantes. 
Entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de 
11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma redução de 12,9%. 
A forma aguda como a violência atinge predominantemente a população 
negra no Brasil nos remete às reflexões propostas por Achille Mbembe, que, a partir 
do conceito de biopoder, de Michael Foucault, apresenta o racismo como um 
instituto que tem “a função de regular a distribuição da morte e tornar possíveis as 
funções assassinas do Estado”. Nesse contexto, a soberania consiste “no poder e 
na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”, e os números indicam 
 
} Página 21 
que a população negra é quem tem sido escolhida para figurar nas fileiras da morte 
(MBEMBE, 2016, p. 123). 
A trajetória histórica do nosso país, na qual a libertação do povo negro 
escravizado os lançou à própria sorte, explica parte do estado de coisas atual, 
embora não seja a única justificativa (ALMEIDA, 2019). Mas é importante 
compreender que a liberdade concedida às pessoas negras não representou o fim 
da escravidão, pois “se é livre para viver a própria vida somente quando se é livre 
para morrer a própria morte” (MBEMBE, 2016, p. 144). 
Nessa perspectiva, o racismo estrutural, que permeia toda a nossa sociedade, 
será determinante como fator de opressão e extermínio do povo negro. No dizer de 
Almeida, 
 
[o] racismo estabelecerá a linha divisória entre superiores e inferiores, entre 
bons e maus, entre os grupos que merecem viver e os que merecem 
morrer, entre os que terão a vida prolongada e os que serão deixados para 
morrer, entre os que devem permanecer vivos e os que serão mortos. E que 
se entenda que a morte aqui não é apenas a retirada da vida, mas também 
é entendida como a exposição ao risco da morte, a morte política, a 
expulsão e a rejeição (ALMEIDA, 2019, p. 115). 
 
Mas negros e negras têm resistido à chamada “necropolítica”, termo cunhado 
por Mbembe para tratar do extermínio do povo negro através da soberania estatal, e 
tal como o personagem Dorvi, retratado por Conceição Evaristo, na obra Olhos 
d’água, segue dizendo: “A gente combinamos de não morrer!” (EVARISTO, 2016, p. 
99). 
 
4. Os números da violência contra a mulher 
 
Ainda de acordo com o Atlas da violência, em 2018, 4.519 mulheres foram 
assassinadas no Brasil. Isso significa uma mulher assassinada a cada duas horas, 
indicando uma taxa de 4,3 homicídios para cada 100 mil habitantes do sexo 
feminino. Os números indicam que houve uma queda de 9,3% entre 2017 e 2018. 
 
} Página 22 
Em Minas Gerais, no ano de 2018, a taxa de homicídios foi de 3,3 para cada 
100 mil habitantes do sexo feminino. 
Entretanto, no período entre 2008 a 2018, houve um aumento de 4,2% no 
número de mulheres assassinadas, dado que revela crescimento ainda que haja 
uma tendência de queda. 
Embora o Atlas da violência registre a quantidade de homicídios, o estudo 
não é capaz de mostrar os números específicos da violência doméstica, uma vez 
que tais informações não constam dos registros utilizados para compor o relatório. 
Entretanto, o relatório traz duas abordagens que servem como indicativos para 
apontar o número de feminicídios no Brasil. 
Analisando o homicídiode mulheres pelo local de ocorrência, observa-se que 
a taxa de homicídios que se deram fora da residência da vítima não destoa da taxa 
geral de homicídios e da taxa geral de homicídios de mulheres no país, indicando 
tendência de queda. Não obstante, a taxa de homicídios de mulheres na residência 
revela uma constante entre 2008 e 2013, com aumento de 8,3% entre 2013 e 2018, 
havendo estabilidade entre 2017 e 2018. 
Tais números demonstram uma dinâmica diversa entre os homicídios de 
mulheres dentro e fora de suas residências. Considerando tais distinções, o Atlas 
aponta que 30,4% dos homicídios de mulheres ocorridos em 2018 no Brasil seriam 
em decorrência de feminicídio – um crescimento de 6,6% em relação a 2017. 
Embora sejam números que decorrem de uma combinação analítica, aproximam-se 
daqueles registrados pelas polícias civis, que foi de 29,4%. 
O Atlas da violência mostra ainda que, entre 2013 e 2018, ao mesmo tempo 
em que a taxa de homicídios de mulheres fora de casa diminuiu 11,5%, as mortes 
dentro de casa aumentaram 8,3%, o que é um indicativo do crescimento de 
feminicídios. 
Os números revelam que o percentual de mulheres que sofrem a violência 
dentro da residência é 2,7 vezes o de homens, o que parece evidenciar a dinâmica 
da violência de gênero, notadamente, do feminicídio. 
 
} Página 23 
No mesmo período, houve aumento de 25% nos homicídios de mulheres por 
arma de fogo dentro das residências, que, para os pesquisadores, pode ser um 
reflexo do crescimento na difusão de armas, que teve um aumento significativo nos 
últimos anos. 
 
5. Raça e classe como fatores de maior vulnerabilidade 
 
O cruzamento dos marcadores de raça, gênero e classe social, também 
chamado de “interseccionalidade”, faz da mulher preta, pobre e periférica a mais 
vulnerável dentro do sistema de desigualdades, exigindo maior atenção por parte 
das autoridades e da rede de proteção quando do atendimento a situações de 
violência. 
O conceito de “interseccionalidade” foi cunhado por Kimberlé Crenshaw, em 
1989, e, segundo Carla Akotirene, aportada por Patrícia Hill Collins, seria uma 
espécie de “sistema de opressão interligado” (AKOTIRENE, 2020, p. 21). Surge 
como categoria analítica a partir da percepção de que o feminismo tradicional lutava 
contra a opressão da “mulher” tendo como parâmetro a mulher branca das classes 
alta e média, o que excluía diversas outras mulheres do movimento feminista, 
sobretudo mulheres negras. 
“Minha experiência de vida me mostrou duas questões inseparáveis, que, no 
momento de meu nascimento, dois fatores determinaram meu destino, o fato de eu 
ter nascido negra e o fato de eu ter nascido mulher” (HOOKS, 2020, p. 35). Com 
essas palavras, Bell Hooks aponta as categorias raça e gênero como marcadores 
que definem, antecipadamente, experiências de vida decorrentes de nossa 
organização social construída em bases sexistas e racistas. 
Grada Kilomba aponta que mulheres negras descrevem a opressão que 
experienciam primeiro em relação à raça em vez de em relação ao gênero 
(KILOMBA, 2019), o que é também descrito por Bell Hooks ao afirmar que mulheres 
negras do século XX tendem a aceitar o sexismo como algo natural, um fato da vida, 
diversamente do racismo, que seria uma força mais opressiva em suas vidas 
 
} Página 24 
(HOOKS, 2020). Tais apontamentos indicam que, para mulheres negras, o racismo é 
ainda mais opressor do que o sexismo. 
O discurso de Sojourner Truth, proferido em 1851, durante a Convenção dos 
Direitos da Mulheres de Ohio, em Akron, é um marco nesse despertar para a 
necessidade de ampliação da luta pelos direitos das mulheres, de forma a abarcar 
as vulnerabilidades também das mulheres negras, e não apenas daquelas que 
representavam o padrão universal – mulheres brancas de classe média e alta. 
 
Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir 
em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que 
merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me 
ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me 
ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? 
Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, 
e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu 
poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que 
eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou 
uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a 
escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não 
ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? (TRUTH, 2014). 
 
O discurso de Truth denuncia a forma mais acentuada como mulheres negras 
eram atingidas pelo sexismo em virtude do seu cruzamento com o racismo. 
Pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Locomotiva indicou que o 
percentual de mulheres negras em ensino superior com idade entre 25 anos ou mais 
é de 13% contra 27% de mulheres não negras na mesma faixa etária. Por sua vez, a 
renda média entre mulheres negras com nível superior é de R$3.067,00 contra uma 
renda média de 4.566,00 entre mulheres não negras. Ou seja, mulheres não negras 
com nível superior têm renda média 33% maior do que a de mulheres negras com o 
mesmo grau de instrução, além de terem mais acesso ao nível superior de ensino do 
que mulheres negras (LOCOMOTIVA, 2020). 
A análise sob a perspectiva racial indica, ainda, que mulheres negras e não 
negras são afetadas de formas diferentes pela violência (INSTITUTO DE PESQUISA 
ECONÔMICA APLICADA, 2020). 
Entre 2017 e 2018, houve queda de 12,3% nos homicídios de mulheres não 
negras; entre mulheres negras, a redução foi de 7,2%. Já no período entre 2008 e 
 
} Página 25 
2018, a taxa de homicídios entre mulheres não negras caiu 11,7%, ao passo que a 
taxa de homicídios entre mulheres negras aumentou 12,4% (INSTITUTO DE 
PESQUISA ECONÔMICA APLICADA, 2020). 
As oportunidades profissionais das mulheres negras também sofrem os 
efeitos do racismo. De acordo com pesquisa publicada pela Universidade Duke, nos 
Estados Unidos, cabelos crespos, que são um traço característico de mulheres 
negras, reduzem as chances profissionais dessas mulheres, percebidas como 
menos profissionais do que negras com cabelos alisados (ESTELA; PINTO; 
ROSETTE, 2020). Ou seja, para ampliar suas chances de conseguir um emprego, 
mulheres negras devem adotar um padrão estético que as aproxime do padrão 
estético de mulheres não negras, como, por exemplo, cabelos alisados. 
O período de escravidão ajudou a construir diversos mitos e estereótipos a 
respeito da mulher negra, chegando mesmo a descaracterizá-la como mulher. Tais 
construções foram reforçadas pelo racismo e permanecem até os dias atuais. Um 
exemplo dessa construção imaginária é a ideia de que a mulher negra é uma mulher 
“forte”, muitas vezes sequer reconhecida como mulher. 
 
Nos Estados Unidos, a ideologia racista branca sempre permitiu que 
mulheres brancas assumissem que a palavra ‘mulher’ é sinônimo de ‘mulher 
branca’, porque as mulheres de outras raças são sempre consideradas as 
Outras, seres desumanizados que não cabem sob o título de ‘mulher’ 
(HOOKS, 2020, p. 222). 
 
No Brasil, pesquisas realizadas pela Fundação Osvaldo Cruz, sob a 
coordenação da pesquisadora Maria do Carmo Leal, indicaram que mitos e 
estereótipos a respeito da mulher negra, como o fato de que seriam mais fortes e 
resistentes à dor, fazem com que essas mulheres sofram mais durante o parto, pois 
a chance de uma mulher negra não receber anestesia é 50% maior quando 
comparada com mulheres não negras (RIBEIRO, 2020). 
Ainda de acordo com a pesquisa da Fiocruz, mulheres negras possuem maior 
risco de ter um pré-natal inadequado, realizando menos consultas do que o indicado 
pelo Ministério da Saúde; têm maior peregrinação entre maternidades, buscando 
 
} Página 26 
mais de um hospitalno momento de internação para o parto, e, frequentemente, 
estão sozinhas, com ausência de acompanhante durante o parto (RIBEIRO, 2020). 
Com Akotirene, vale destacar que as opressões não são hierarquizadas 
(AKOTIRENE, 2020). O que se pretende com o olhar da interseccionalidade é 
contemplar uma miríade de situações que tornam as mulheres negras mais 
vulneráveis em virtude de diferentes camadas de opressão, o que demanda 
soluções complexas e não homogeneizadas. 
 
A interseccionalidade é sobre a identidade da qual participa o racismo 
interceptado por outras estruturas. Trata-se de experiência racializada, de 
modo a requerer sairmos das caixinhas particulares que obstacularizam as 
lutas de modo global e vão servir às diretrizes heterogêneas do Ocidente, 
dando lugar à solidão política da mulher negra, pois que são grupos 
marcados pela sobreposição dinâmica identitária. É imprescindível, insisto, 
utilizar analiticamente todos os sentidos para compreendermos as mulheres 
negras e as ‘mulheres de cor’ na diversidade de gênero, sexualidade, 
classe, geografias corporificadas e marcações subjetivas (AKOTIRENE, 
2020, p. 48). 
 
Essa é a proposta que se pretende perseguir. 
 
6. Um olhar negro para o processo 
 
Perceber de que forma a intersecção entre gênero, raça e classe social pode 
tornar a situação de vulnerabilidade das mulheres ainda mais agressiva é importante 
para que possamos atender adequadamente aquelas que nos chegam em situação 
de violência. 
Não obstante, muitas vezes as instituições estatais reproduzem o racismo e o 
sexismo e agravam ainda mais a situação daquelas que deveriam ser acolhidas pela 
rede de proteção posta à disposição pelo Estado. 
 
A despeito dos direitos humanos permitirem acesso irrestrito, 
independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou 
qualquer outra condição, as mulheres negras se veem diante dos 
expedientes racistas e sexistas das instituições públicas e privadas por lhes 
negarem primeiro trabalho e, depois, o direito humano de serem 
reclamantes das discriminações sofridas (AKOTIRENE, 2020, p. 62). 
 
} Página 27 
 
Ter consciência desse processo discriminatório negativo é importante para 
reverter esse quadro; compreender que o racismo pode ser individual, mas que é 
também e sobretudo institucional, torna-se fundamental para fazer cessar essa 
engrenagem que destrói a autoestima das mulheres negras, principalmente 
daquelas em situação de violência doméstica. 
Além disso, é importante que a narrativa apresentada por qualquer mulher em 
situação de violência doméstica e, ainda mais, por mulheres negras, seja levada a 
sério, pois dentro da lógica racista e sexista, a mulher negra é uma mulher 
silenciada, cuja voz não é ouvida. A partir do questionamento apresentado por 
Gayatri C. Spivak sobre a possibilidade de uma subalterna falar, Grada Kilomba 
responde que “é impossível para a subalterna falar ou recuperar sua voz e, mesmo 
que ela tivesse tentado com toda sua força e violência, sua voz ainda não seria 
escutada ou compreendida pelos que estão no poder” (KILOMBA, 2019, p. 47). 
A ausência dessa análise interseccional levou o estado brasileiro a ser 
condenado pela inobservância da discriminação sofrida por Simone André Diniz. No 
caso, Simone buscava uma oportunidade profissional e se deparou com um anúncio 
para vaga de empregada doméstica “de preferência branca”. Em contato com a 
anunciante, esta confirmou a exigência da “branquitude”. Ao dizer que era negra, 
Simone foi informada de que não preenchia os requisitos necessários para a vaga. 
O caso foi judicializado, sendo arquivado pela justiça brasileira, embora a anunciante 
tenha confirmado a exigência quanto à preferência racial. 
O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da 
Organização dos Estados Americanos (OEA) e resultou na condenação do Brasil por 
omissão ao permitir que um caso de discriminação racial fosse arquivado sem 
sequer ter havido uma ação penal. Para a CIDH da OEA, houve o “descumprimento 
pelo Estado brasileiro de sua obrigação de garantir os direitos consagrados na 
Convenção Americana, a que se refere o artigo 1(1) de dito tratado”, que dispõe 
sobre o dever dos estados signatários em respeitar os direitos e liberdades nela 
reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita 
 
} Página 28 
à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, 
religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, 
posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social (PENTEADO, 
2006). 
Na obra Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica, Adilson 
Moreira (ano 2019) propõe uma hermenêutica jurídica pautada na visão de uma 
pessoa negra como forma de diminuir os efeitos do racismo estrutural que perpassa 
as instituições públicas e privadas e que explica, em alguma medida, a razão pela 
qual muitos processos envolvendo questões raciais não resultam em condenação. 
Cabe lembrar que, de acordo com pesquisas realizadas pelo Conselho 
Nacional de Justiça (CNJ), a magistratura brasileira é formada predominantemente 
por homens brancos (CNJ, 2018), havendo apenas 6% de magistradas negras 
espalhadas por todo o território nacional. 
Assim, estatisticamente, haverá uma maior probabilidade de que casos de 
violência doméstica cujas vítimas são majoritariamente mulheres negras sejam 
julgados por homens brancos. Para que essa diferença não se converta em uma 
camada a mais de opressão, como aquela evidenciada no caso Simone André Diniz, 
Moreira propõe que a/o jurista empreenda esforços para pensar como um negro na 
aplicação da hermenêutica jurídica. 
 
Pensar como um negro significa compreender o Direito como um 
instrumento de transformação social, como algo que pode ter o poder de 
afirmar a dignidade do povo negro. Isso exige a rejeição de uma perspectiva 
interpretativa segundo a qual o sistema jurídico existe para manter o 
consenso sobre formas de organização social. Uma posição dessa natureza 
não pode ser apoiada por um jurista que pensa como um negro porque 
essas normas são produtos de relações de poder existentes dentro de uma 
sociedade (MOREIRA, 2019b, p. 286). 
 
Em acréscimo à hermenêutica proposta por Moreira, entendemos necessário 
pensar como uma mulher negra, com suas múltiplas vulnerabilidades, através de um 
exercício de empatia, que permita ao/à julgador/a compreender todos os marcadores 
que atravessam o corpo negro feminino. 
 
 
} Página 29 
 
7. Conclusão 
 
Neste breve artigo, procuramos demonstrar as razões pelas quais não se 
pode admitir o mito da democracia racial, bem como evidenciamos as razões pelas 
quais é necessário compreender o racismo como um sistema que estrutura as 
relações de poder. 
A partir de diversos estudos, demonstramos de que forma o racismo impõe a 
pessoas negras uma maior vulnerabilidade, que se acentua quando se trata de 
mulheres negras, em razão da interseccionalidade dos marcadores de gênero, raça 
e classe social. 
Por fim, demonstramos que o direito deve ser entendido como um instrumento 
de transformação social, o que exige um exercício de deslocamento e empatia por 
parte de quem julga e de toda a rede de atendimento, sob pena de se agravar as 
violências sofridas por mulheres negras. 
Dessa forma, esperamos contribuir para o enfrentamento das questões raciais 
no âmbito do Poder Judiciário, lançando luz sobre questões até então silenciadas e 
que, cada vez mais, precisam ser debatidas se quisermos construir, de fato, uma 
sociedade democrática. 
 
 
 
 
 
 
 
} Página 30 
 
UNIDADE 3: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E 
FAMILIAR CONTRA A MULHER: 
ABORDAGEM SOB A PERSPECTIVA DA 
VÍTIMA E DO AGRESSOR 
Rafaella Amaral de Oliveira3 
 
1. A vitimologia e sua importância na análise da 
violência doméstica e familiar contra a mulher 
 
A criminologia define-se,geralmente, como sendo o estudo do crime e do 
criminoso, isto é, da criminalidade. Ocupa-se do estudo do delito, do delinquente, 
da vítima e do controle social do delito e, para tanto, lança mão de um objeto 
empírico e interdisciplinar. Interessa à criminologia não tanto a qualificação formal 
correta de um acontecimento penalmente relevante, senão a imagem global do fato 
e de seu autor: a etiologia do fato real, sua estrutura interna e dinâmica, formas de 
manifestação, técnicas de prevenção e programas de intervenção junto ao infrator.4 
 
 
 
3 Juíza de Direito no Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Aprovada no último concurso 
para a magistratura do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí. Ex-Delegada de Polícia e ex-Oficiala 
de Justiça no Estado de Pernambuco. Mestre em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco. 
Graduada e pós-graduada em Direito pela Associação Caruaruense de Ensino Superior. Graduada 
em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco. 
4 SHECAIRA, 2018, p. 32- 39. 
 
} Página 31 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
A vítima, nos dois últimos séculos, foi totalmente menosprezada pelo direito 
penal. Somente com os estudos criminológicos é que seu papel, no processo penal, 
foi resgatado. 
No que concerne ao protagonismo da vítima nos estudos penais, costuma-se 
dividir os tempos em três grandes momentos: a "idade de ouro" da vítima; a 
neutralização do poder da vítima; e a revalorização do papel da vítima. 
A idade de ouro da vítima é aquela compreendida desde os primórdios da 
civilização até o fim da Alta Idade Média, quando prevalecia a vingança privada - 
autotutela (Lei de Talião - “Olho por olho, dente por dente”). 
No início da Baixa Idade Média (Século XII), período marcado pela crise do 
feudalismo e pelo fim da autotutela e declínio do processo acusatório, houve a 
ascensão do processo inquisitivo e certa perda do papel da vítima nas relações 
processuais decorrentes de delitos. 
Tem-se, assim, a neutralização do poder da vítima, substituída, na resolução 
dos conflitos penais, pelo soberano (Poder Público). O Estado monopoliza a reação 
penal, e a pena passa a ser garantia de ordem coletiva, relegando o papel da vítima 
ao esquecimento. 
A terceira fase é caracterizada pelo resgate da importância do papel da vítima 
no processo penal, tendo como marco histórico o pós-Segunda Guerra Mundial, 
 
} Página 32 
período este marcado pela tentativa de superação das atrocidades cometidas nos 
campos de concentração nazistas. 
É considerado como fundador da 3ª fase da vitimologia o advogado israelita 
Benjamim Mendelsohn, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, em 
função de uma famosa conferência proferida em Bucareste, em 1947, intitulada “Um 
horizonte novo na ciência biopsicossocial: a vitimologia”. Também é expoente o livro 
de Hans Von Hentig, de 1948, divulgado na Universidade de Yale, intitulado O 
criminoso e sua vítima.5 
Dessarte, a vitimologia, enquanto ramo da criminologia, preocupa-se em 
resgatar a importância da vítima no estudo do fenômeno criminoso, permitindo, por 
exemplo, avaliar a melhor forma de assistência jurídica, moral psicológica e 
terapêutica, especialmente naqueles casos em que há violência ou grave ameaça à 
pessoa, como na violência doméstica e familiar contra a mulher. 
A vitimologia permite, também, estudar a criminalidade real, por meio de 
informes facilitados pelas vítimas de delitos não averiguados (cifra negra da 
criminalidade). A criminalidade oculta ou a cifra negra representa os casos que não 
chegam ao conhecimento das autoridades públicas, demonstrando que os níveis de 
criminalidade são maiores do que aqueles oficialmente registrados.6 
Essa ocultação pode ser decorrência de um processo de vitimização, por 
exemplo, quando a vítima não acredita que os órgãos de persecução penal são 
sérios e que envidarão esforços para solucionar o delito ou, quando a vítima se 
sente pressionada pelo seio social (ex.: parentes, colegas, família, etc.) a não 
denunciar o delito sofrido a fim de não expor as relações domésticas e de 
coabitação. 
Portanto, de suma importância, principalmente, em se tratando de delitos 
envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher, fazer uso de estudos 
vitimológicos a fim de melhor compreender o complexo fenômeno criminoso e 
possibilitar ajuda psicológica, jurídica, material, dentre outras, adequada à mulher 
vítima. 
 
5 SHECAIRA, 2018, p. 52-53. 
6 MOTA, 2020. 
 
} Página 33 
 
2. O problema da revitimização da mulher 
 
A Lei nº 11.340/2006 previu, no art. 10-A, procedimentos a fim de mitigar a 
sobrevitimização da mulher exposta à violência doméstica e familiar. 
 
Art. 10-A. É direito da mulher em situação de violência doméstica e 
familiar o atendimento policial e pericial especializado, ininterrupto e 
prestado por servidores - preferencialmente do sexo feminino - 
previamente capacitados. 
§ 1º A inquirição de mulher em situação de violência doméstica e familiar ou 
de testemunha de violência doméstica, quando se tratar de crime contra a 
mulher, obedecerá às seguintes diretrizes: 
I - salvaguarda da integridade física, psíquica e emocional da 
depoente, considerada a sua condição peculiar de pessoa em situação de 
violência doméstica e familiar; 
II - garantia de que, em nenhuma hipótese, a mulher em situação de 
violência doméstica e familiar, familiares e testemunhas terão contato 
direto com investigados ou suspeitos e pessoas a eles relacionadas; 
III - não revitimização da depoente, evitando sucessivas inquirições 
sobre o mesmo fato nos âmbitos criminal, cível e administrativo, bem como 
questionamentos sobre a vida privada. 
§ 2º Na inquirição de mulher em situação de violência doméstica e familiar 
ou de testemunha de delitos de que trata esta Lei, adotar-se-á, 
preferencialmente, o seguinte procedimento: 
I - a inquirição será feita em recinto especialmente projetado para esse 
fim, o qual conterá os equipamentos próprios e adequados à idade da 
mulher em situação de violência doméstica e familiar ou testemunha e ao 
tipo e à gravidade da violência sofrida; 
II - quando for o caso, a inquirição será intermediada por profissional 
especializado em violência doméstica e familiar designado pela 
autoridade judiciária ou policial; 
III - o depoimento será registrado em meio eletrônico ou magnético, 
devendo a degravação e a mídia integrar o inquérito. 
 
 
Mas como a mulher em situação de violência doméstica ou familiar 
se expõe ao processo de revitimização? 
 
 
 
 
} Página 34 
Para responder a essa pergunta, primeiro, precisamos compreender alguns 
conceitos básicos: 
Vítima:7 “Pessoa que sofre danos de ordem física, mental e econômica, bem 
como a que perde direitos fundamentais, seja em razão da violação de direitos 
humanos, seja por ato de criminosos comuns”; 
Vitimização primária:8 “[...] normalmente entendida como aquela provocada 
pelo cometimento do crime, pela conduta violadora dos direitos da vítima – pode 
causar danos variados, materiais, físicos, psicológicos, de acordo com a natureza da 
infração, personalidade da vítima, relação com o agente violador, extensão do dano, 
dentre outros”. 
Vitimização secundária:9 aquela causada pelo aparelho estatal quando, 
por exemplo, a mulher vítima busca a tutela do Estado para a solução do problema 
que vivencia e, tanto na fase de inquérito policial quanto na fase judicial, depara-se 
com situações constrangedoras ou invasivas, tendo que relatar o acontecido, diante 
de perguntas, de exames, entre outros, o que acarreta mais sofrimento e dor por 
reviver ou reavivar os episódios de agressão em sua memória. 
Vitimização terciária: “ocorre no âmbito dos controles sociais, mediante o 
contato da vítima com o grupo familiar ou em seu meio ambiente social, como no 
trabalho, na escola, nas associações comunitárias,na igreja, etc.”. 
Assim, da chamada vitimização primária, ou seja, da ação ou omissão do 
agressor, surgem diversos danos sejam eles de ordem física, psíquica ou moral. 
E, na maioria das vezes, a vitimização se origina das pessoas a quem a 
mulher deposita confiança, afeto e respeito, conforme aponta a Pesquisa Data 
Senado (2019),10 sendo os maridos, namorados ou companheiros os principais 
autores das mais variadas formas de violência doméstica a que a mulher se sujeita 
no dia a dia, contando com 41% dos casos, seguidos pelos ex-maridos ou ex-
companheiros, com 37%. 
 
7 OLIVEIRA, 1993, p. 38. 
8 CARVALHO; LOBATO, 2020. 
9 MENDES, 2020. 
10 BRASIL, Senado Federal, 2020. 
 
} Página 35 
 
Ao largo da vitimização primária, a vítima precisa continuar a se relacionar com 
outras pessoas, colegas, vizinhos, profissionais da área dos serviços sanitários, tais 
como enfermeiros, médicos, psicólogos e assistentes sociais, e profissionais da área 
dos serviços judiciais e administrativos, funcionários de instâncias burocráticas, 
policiais, advogados, promotores de justiça e juízes, podendo, ainda, defrontar-se 
com o próprio agente agressor ou violador, em procedimentos de reconhecimento, 
depoimentos ou audiências. Essas situações, se não forem bem conduzidas, podem 
levar à vitimização secundária, pela qual a vítima, ao relatar o acontecimento 
traumático, revive-o com alguma intensidade, reexperenciando sentimentos de 
medo, raiva, ansiedade, vergonha e estigma.11 
Assim, na fase policial, a vitimização aparece com maior intensidade por 
ocasião da realização de exame de corpo de delito nos crimes sexuais e nas 
declarações prestadas perante a autoridade policial. 
Já na fase judicial, parece ser a audiência de instrução e julgamento o maior 
foco de revitimização, tanto antes como durante e depois da oitiva da vítima pelo 
magistrado. Antes há o constrangimento de, como dito, por vezes aguardar no 
corredor com o acusado. Durante, devido a ser "bombardeada" de perguntas sobre o 
 
11 TRINDADE, 2007, p. 158. 
 
} Página 36 
fato delituoso, impregnadas de julgamento, fazendo com que reviva o momento que 
deseja esquecer. Depois da audiência, fica a vítima sofrendo retaliações por parte do 
acusado ou mesmo da família dele, sem falar das inúmeras vezes em que precisará 
receber intimações judiciais levadas a cabo pelos oficiais de justiça, fazendo com 
que a dor das lembranças, angústias e descrença na resolução célere do delito 
voltem à tona a cada nova visita do meirinho. 
É comum, nesses casos, que o oficial de justiça diligencie mais de uma vez à 
procura da vítima, seja em sua residência ou local de trabalho, abordando familiares 
ou colegas de profissão à procura de maiores informações acerca do paradeiro dela. 
Assim, em muitos casos, haverá, mesmo que de forma não intencional, certa 
exposição da vítima perante seu círculo de convivência, o que poderá gerar 
vitimização. 
Portanto, discrição quanto às escolhas da mulher, respeito e empatia são 
comportamentos que devem ser buscados pelos operadores do sistema de justiça, a 
fim de minimizar a revitimização da mulher. 
Por fim, na vitimização terciária, a vítima se depara com o meio social e 
familiar, no qual, muitas vezes, a mulher vítima de violência não encontra amparo ou 
assistência da família, que a julga por suas escolhas de vida, ignorando sua “dor”, 
sem oferecer apoio ou suporte de que tanto necessita. 
Portanto, é perceptível que a mulher vítima da violência doméstica se encontra 
em uma posição delicada, necessitando de cuidados mais adequados e 
especializados, sendo fundamental que Estado, seja pela polícia, seja pelo 
Judiciário, acolha essa vítima de forma adequada e digna, evitando, ao máximo, 
revitimizá-la. 
 
 
 
 
 
} Página 37 
3. Acesso à justiça e efetivação dos direitos da mulher 
vítima de violência doméstica 
 
Os movimentos feministas, em vários países, têm pressionado a aprovação 
de leis especiais para o enfrentamento da violência baseada no gênero como meio 
de criar garantias formais de acesso à justiça e aos direitos das mulheres que se 
encontram em situação de vulnerabilidade e violência. 
Nesse cenário, o reconhecimento dos direitos das mulheres como direitos 
humanos e a elaboração de estratégias para sua promoção e efetivação se deram 
após a realização de importantes convenções internacionais: a Conferência para 
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres – CEDAW 
(1979), a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência 
contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará (1994), além das Conferências 
Internacionais de Direitos Humanos (Viena, 1993), População (Cairo, 1994) e 
Mulheres (Beijing, 1995).12 
No Brasil, que assinou e ratificou todos esses acordos internacionais, um 
marco importante foi a Constituição de 1988,, que proporcionou reconhecimento 
formal a vários direitos de cidadania para as mulheres, refletidos em indicadores 
nacionais como acesso à educação superior e postos de trabalho com melhores 
remunerações, dentre outros. 
No entanto, ainda há muito a avançar, principalmente, no âmbito da 
efetivação dos direitos, existindo grande celeuma entre os direitos formais 
positivados e aqueles que, efetivamente, chegam ao alcance de larga parcela da 
população feminina à margem da cidadania, em especial, as das classes menos 
favorecidas. 
Nesse contexto, a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) foi bastante 
aclamada pela comunidade internacional, sendo considerada como uma das leis 
mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres no mundo, 
 
12 PASINATO, 2020. 
 
} Página 38 
1% 3%
5%
10%
11%
12%
13%
52%
Atitude em relação à agressão mais grave 
sofrida nos últimos 12 meses, Brasil (%)
Ligou para a Central de Atendimento
à Mulher (Ligue 180)
Ligou para a Polícia Militar (Ligue 190)
Procurou a igreja
Denunciou em delegacia comum
Denunciou em Delegacia da Mulher
Procurou ajuda de amigos
Procurou ajuda da família
Não fez nada
adotando uma concepção ampla de acesso à justiça e a direitos a partir da 
perspectiva de gênero ao previr tanto medidas judiciais, quanto extrajudiciais de 
combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. 
Todavia, o conjunto de políticas públicas nela abrangidas depende, para sua 
integral efetivação, do compromisso de todos os Poderes em todas as esferas de 
governo, fortalecendo, assim, a rede de enfrentamento. 
Conforme dados da pesquisa elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança 
Pública,13 estampados, adiante, em um gráfico, ilustra-se uma realidade alarmante: 
das mulheres entrevistadas que narraram ter vivido episódios de violência nos 
últimos doze meses, somente 25% delas procuraram algum canal dos órgãos 
de segurança ou proteção à mulher (Delegacias da Mulher, Delegacias comuns, 
Polícia Militar ou Disque 180); 52% das mulheres vítimas não tomaram 
absolutamente qualquer providência após serem agredidas e 30% buscaram 
ajuda de amigos, parentes ou da igreja. 
 
 
 
13 FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2020. 
 
} Página 39 
Assim, é possível concluir que grande parcela da população feminina 
brasileira é vítima de agressões as mais diversas, praticadas no interior de suas 
residências ou fora delas, por conhecidos, parentes, pessoas com quem se 
relacionam. E que a subnotificação, ainda, é muito grande, tornando a percepção da 
realidade pelos órgãos públicos mascarada pela vergonha e medo ou, até mesmo, 
pela falta de informações adequadas por parte das mulheres agredidas. 
Em termos de concretização de direitos e, portanto, de acesso à justiça da 
mulher vítima de violência doméstica e familiar, alguns resultados positivos podem 
ser vistos, nos últimos anos, como a ampliação no número de delegacias da mulher, 
juizados de violência doméstica e familiar, promotorias e defensorias especializadas. 
Entretanto, vários entraves

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