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} Página 1 Unindo esforços contra a violência doméstica e familiar } Página 2 “No dia que for possível à mulher amar-se em sua força e não em sua fraqueza; não para fugir de si mesma, mas para se encontrar; não para se renunciar, mas para se afirmar, nesse dia então o amor tornar-se-á para ela, como para o homem, fonte de vida e não perigo mortal. Simone de Beauvoir Caríssimos Servidores do TJMG, A Coordenação da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar- COMSIV apresenta o curso Unindo Esforços contra a violência doméstica e familiar contra a mulher. O anterior curso a distância lançado em 2018 traçou as bases da temática relacionada à Violência Doméstica com mais de 4000 alunos e nos motivou a avançar. Neste novo formato, trouxemos contribuições de áreas do conhecimento além do Direito para melhor compreensão do fenômeno que faz com que o Brasil ainda apresente números alarmantes de violência contra mulheres. Este trabalho serve de apoio ao curso e está baseado em extensa pesquisa bibliográfica. Esperamos que o curso seja o propulsor de debates e reflexões que nos levem a aplicar o verdadeiro espírito da Lei Maria da Penha: garantir o princípio constitucional da igualdade. Uma boa leitura! Desembargadora Ana Paula Caixeta-Superintendente da COMSIV Desembargadora Paula Cunha e Silva- Superintendente Adjunta da COMSIV Curadoria: Juíza de Direito Lívia Lúcia Oliveira Borba } Página 3 UNIDADE 1: CONTEXTO HISTÓRICO Daniela da Cunha Pereira1 1. Origem da violência contra a mulher A atuação na área de violência doméstica e familiar contra a mulher possui diversas particularidades e encerra vários desafios, a começar pela dinâmica na qual os atos em tese criminosos estão inseridos. O ensino tradicional do direito e a prática das varas criminais comuns partem da ideia de vítimas e réus que, ou estão em campos opostos, ou não têm nenhum vínculo entre si, a não ser aquele fato criminoso que os conectou em apenas um momento. Tome-se como exemplo o roubo de um celular, em que a vítima nunca viu o autor do fato e cruzou com ele por casualidade, ocasião em que o crime aconteceu. Ou ainda a situação em que um criminoso adentra um estabelecimento comercial armado, rende os clientes, subtrai os bens e foge em seguida. Nesses casos - tão comuns em uma vara criminal -, as vítimas e o autor do crime não têm nenhum relacionamento prévio e, em regra, aquelas esperam a punição do último. Os crimes em contexto de violência doméstica e familiar desenvolvem-se em um cenário completamente diferente, dentro de uma dinâmica social e afetiva extremamente complexa, que faz com que tais casos, muitas vezes, não sejam adequadamente resolvidos pela solução tradicional de simplesmente absolver ou condenar. As particularidades dos processos que envolvem violência doméstica e familiar não raro geram nos operadores do direito muitos questionamentos, além de uma certa dose de angústia e frustração. 1 Juíza de Direito titular da 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais da Comarca de Ibirité-MG } Página 4 Faz-se necessário, portanto, àqueles que atuam em tais casos ampliar sua visão e traçar uma linha de atuação para além dos limites do direito e do processo, até mesmo porque o processo não é o único fim da atuação jurisdicional. O diálogo do direito com outras áreas do conhecimento humano é fundamental para aqueles que pretendem compreender e vencer os desafios relacionados à atuação nas varas de violência doméstica, exigindo dos profissionais da área jurídica o reconhecimento de que processos tratam de vidas humanas e de relacionamentos complexos. Sendo a atividade jurisdicional um serviço público, para servir a esse público, é preciso, em alguma medida, compreendê-lo, bem como os fenômenos sociais e históricos que se encontram na gênese dessas violências. É nesse contexto que surge e se reforça a necessidade de se adentrar em áreas frequentemente envoltas em polêmicas e preconceitos para tratar de temas espinhosos como machismo, misoginia, gênero e masculinidade. A compreensão de qualquer fenômeno social e cultural passa necessariamente pela investigação de sua origem, pois para vencer um problema é preciso conhecê-lo. E a violência doméstica e familiar contra a mulher lamentavelmente é um enorme problema em nosso país. O Atlas da violência de 2019, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública do IPEA, apurou que o Brasil registra cerca de 13 feminicídios por dia, sendo que, ao todo, 4.936 mulheres foram mortas no ano de 2017, sendo esse o maior número registrado desde 2007. Não resta dúvida de que a violência contra a mulher, que atinge o país de forma grave e brutal, possui causas multifatoriais, mas, diante da constatação de que mulheres e meninas são particularmente vitimadas por homens (e não por outras mulheres), não há como se deixar de analisar esse fenômeno à luz de suas raízes históricas e culturais. As estatísticas oficiais comprovam que, embora mulheres e meninas sejam mortas e violentadas por homens em proporções alarmantes, elas, no entanto, quase não se envolvem em crimes semelhantes praticados contra indivíduos do sexo masculino. Sendo assim, é possível concluir que elas morrem muito e matam } Página 5 pouco. Sofrem violência sexual diariamente e pouco se envolvem em crimes sexuais. Estamos, portanto, diante de um cenário que indica uma proporção elevada de homens violentos e de mulheres violentadas. Partindo-se do pressuposto de que gênero não define caráter – e de que, por consequência, tanto homens como mulheres podem ser íntegros, respeitosos, decentes e de bom caráter, assim como podem ser vis, maldosos e insensíveis – é possível concluir que essas violências são criadas a partir de uma estrutura que as produz e reforça. A essa estrutura na qual homens ocupam o poder político, social e familiar, exercendo domínio e autoridade sobre as mulheres, dá-se o nome de patriarcado. Mas onde e quando surgiu o patriarcado? Ele é universal? É natural? É possível ser superado? A resposta a essas perguntas demanda uma investigação histórica, sociológica e antropológica. Contudo, ao se buscar as raízes históricas da discriminação contra as mulheres, nos deparamos com um curioso obstáculo, pois, como disse Gerda Lerner, “o registro gravado e interpretado da espécie humana é apenas um registro parcial, uma vez que omite o passado de metade dos seres humanos, sendo portanto distorcido”, já que conta “a história apenas do ponto de vista da metade masculina da humanidade”. Ao longo dos anos, as mulheres foram completamente destituídas de sua história, de suas narrativas e de sua própria humanidade. Não obstante, à medida que os espaços de conhecimento foram sendo gradativamente ocupados por mulheres, passamos a ter acesso e refletir a respeito de como começou a estrutura social que nos conduziu ao cenário de desigualdade em que lamentavelmente vivemos. Os estudos de História, Ciências Sociais e Antropologia levados a efeito nos séculos XX e XXI começaram a desconstruir paulatinamente a ideia de que a } Página 6 submissão das mulheres seria um fato universal – e portanto imutável – para situá-lo como um fato histórico que, por ser fruto da história, também pode ser extinto pelo processo histórico. Nesse particular, é importante destacar que, segundo Gerda Lerner (2019), estudos antropológicos mais recentes demonstram que a dominação masculina está longe de ser universal, havendo registros de sociedades nas quais a assimetria sexual não tinha conotação de dominação ou submissão, e, em vez disso, as tarefas realizadas por ambos os sexos eram indispensáveis para a sobrevivência do grupo, e o status de ambos os sexos era considerado igualainda persistem na efetivação dos direitos conquistados, repercutindo em barreiras ao acesso à justiça por parte das mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. É premente investir em recursos materiais e humanos e no preparo das equipes, principalmente, da área de segurança pública, assim como em políticas sociais nos setores de saúde, habitação, educação, geração de renda e trabalho, assistência social e previdência social, entre outras, além de um trabalho articulado, intersetorial e multidisciplinar. O desafio, portanto, que se coloca para a efetivação da cidadania das mulheres diz respeito a diminuir a distância entre o progresso legislativo e o efetivo acesso à justiça. Para tanto, mister que se fortaleça a atuação dos vários órgãos e setores integrantes da rede de enfrentamento, com maiores investimentos na criação e instalação de delegacias especializadas, juizados e varas especializadas, ampliação do atendimento psicossocial realizado pelo CREAS e CRAS em todas as cidades, além de apoio e conscientização de toda a comunidade. } Página 40 4. A justiça restaurativa enquanto técnica para a emancipação feminina e rompimento do ciclo de violência A violência doméstica é um fenômeno complexo que gera efeitos negativos no meio social e que desafia respostas também complexas dos entes estatais, sendo preciso, portanto, buscar meios alternativos de pacificação social que não apenas aqueles traçados pela justiça criminal tradicional, preocupada com o aspecto punitivo, mas, muitas vezes, ineficaz na prevenção e na superação do conflito. A justiça restaurativa, nos tempos atuais, mostra-se, positivamente, como modelo auxiliar no processo de superação da vitimização da mulher, visto que resgata sua autonomia, proporcionando seu empoderamento na resolução do conflito. Mas em que consiste a justiça restaurativa? A justiça restaurativa é um mecanismo alternativo de resolução dos conflitos penais que almeja aproximar vítima e ofensor, com a finalidade de reparar os danos causados em decorrência do delito, por meio de ações de cooperação, respeito e diálogo, na perspectiva de que o dano causado à vítima deve ser reparado.14 A justiça restaurativa, no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher, é, pois, uma ferramenta efetiva de emancipação feminina, que busca, por meio do diálogo, empoderar a mulher na resolução do conflito, fazendo com que sua voz seja ouvida e sua vontade considerada. Não existe um conceito pré-definido acerca do que seja a justiça restaurativa, todavia, podemos entendê-la como uma pluralidade de práticas associadas a uma multiplicidade de teorias que se alicerçam numa dimensão intersubjetiva do delito, que busca a pacificação social, tomando por base o processo dialógico entre os envolvidos, visando reparar os danos causados à vítima pela autorresponsabilização do agente infrator. 14 OLIVEIRA; SANTOS, 2020. } Página 41 A dificuldade de conceituar a justiça restaurativa decorre de sua pluralidade de procedimentos e objetivos. Conforme Palamolla,15 “a justiça restaurativa possui um conceito não só aberto como, também, fluído, pois se modifica, assim como suas práticas”. A ideia de justiça restaurativa surge, pois, com forte influência abolicionista e das diretrizes da vitimologia, com a pretensão de uma reação diferente da resposta fornecida pelo sistema de justiça criminal habitual, lastreada na democratização do processo, como também na recusa do autoritarismo que permeia o direito penal, na busca de respostas mais emancipadoras das vítimas e mais humanas aos ofensores.16 O modelo restaurativo também se fundamenta na reparação do mal sofrido pela vítima e na atenuação das consequências do delito, além de buscar a reintegração social do agente infrator, por meio da autorresponsabilização e inclusão da comunidade próxima aos envolvidos no conflito. Levando-se em consideração os princípios básicos da justiça restaurativa segundo a Organização das Nações Unidas,17 tem-se que: 1. Programa de Justiça Restaurativa significa qualquer programa que use processos restaurativos e objetive atingir resultados restaurativos 2. Processo restaurativo significa qualquer processo no qual a vítima e o ofensor, e, quando apropriado, quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime, participam ativamente na resolução das questões oriundas do crime, geralmente com a ajuda de um facilitador. Os processos restaurativos podem incluir a mediação, a conciliação, a reunião familiar ou comunitária (conferencing) e círculos decisórios (sentencing circles). 3. Resultado restaurativo significa um acordo construído no processo restaurativo. Resultados restaurativos incluem respostas e programas tais como reparação, restituição e serviço comunitário, objetivando atender as necessidades individuais e coletivas e responsabilidades das partes, bem assim promover a reintegração da vítima e do ofensor. 4. Partes significa: a vítima, o ofensor e quaisquer outros indivíduos ou membros da comunidade afetados por um crime que podem estar envolvidos em um processo restaurativo. 5. Facilitador significa uma pessoa cujo papel é facilitar, de maneira justa e imparcial, a participação das pessoas afetadas e envolvidas num processo restaurativo. 15 PALLAMOLLA, 2009, p. 54. 16 OLIVEIRA, 2020. 17 ONU, 2000. } Página 42 Apropriando-se dos argumentos dos abolicionistas, do labelling approach,18 partindo da percepção da repressão, seletividade e estigmatização que permeiam o modelo tradicional de justiça criminal, a justiça restaurativa propõe um olhar mais humano sobre os conflitos penais, alertando para o fato de que as instâncias formais de controle social se preocupam mais com a punição meramente retributiva, menosprezando as consequências do crime para a vítima e comunidade, bem como negligenciando as funções preventivas da pena.19 Um dos valores norteadores da justiça restaurativa é a não dominação, que impinge ao procedimento restaurativo o dever de se organizar de modo a minimizar as diferenças e as desigualdades sociais, culturais e históricas, no momento do encontro entre vítima e agressor. É importante, nesse aspecto, minorar os sentimentos de vitimização da paciente e fomentar a responsabilização da conduta do agressor.20 Consequência da não dominação, o empoderamento (empowerment) implica o surgimento da autonomia e estima dos envolvidos – em especial para a superação da vítima, que a partir de sua emancipação relata suas histórias e perspectivas, afastando-se do sentimento de vulnerabilidade e estigmatização. O empoderamento, no curso do procedimento, oferece voz aos envolvidos (vítima, ofensor, comunidade de próximos), implicando compreensão e alteridade dos diferentes pontos de vista.21 Desse modo, as práticas restaurativas pretendem a superação da insegurança, da insatisfação e da humilhação decorrente do delito no âmbito doméstico. O conceito de empoderamento surgiu na luta do movimento negro pelos direitos civis nos Estados Unidos, manifestando-se pela forma com a qual as 18 A Labeling Approach Theory, ou Teoria do Etiquetamento Social, surgida na década de 1960 nos Estados Unidos da América, é uma teoria criminológica marcada pela ideia de que as noções de crime e criminoso são construídas socialmente a partir da definição legal e das ações de instâncias oficiais de controle social a respeito do comportamento de determinados indivíduos. Segundo esse entendimento, a criminalidade não é uma propriedade inerente a um sujeito, mas uma “etiqueta” atribuída a certos indivíduos que a sociedade entende como delinquentes. Em outras palavras, o comportamento desviante é aquele rotulado como tal. 19 OLIVEIRA, 2020. 20 PALLAMOLLA, 2009, p. 62. 21 PALLAMOLLA, 2009, p. 62. } Página 43 pessoas assumem as rédeas de suaspróprias vidas, de seus interesses e de seu destino social, cultural e político, sendo parâmetros de empoderamento: a construção de uma autoimagem e de autoconfiança; o desenvolvimento da criticidade; percepção de pertencimento aos grupos sociais e suas demandas e tomadas de decisões.22 Quanto ao uso da mediação, enquanto técnica restaurativa das relações sociais, não existe consenso na doutrina especializada. Há quem a defenda como o mecanismo mais adequado para o refazimento do elo rompido com a prática do delito, a fim de que as partes possam, por meio do diálogo, superar a origem do conflito,23 ao passo que seria recomendável proibir a mediação para as situações de violência doméstica, uma vez que o agente agressor, ao perceber a vítima como subalterna, “que não se arrepende, que não sabe pedir perdão, que anula a vontade da vítima”, pode valer-se da solução restaurativa para perpetuar o ciclo de abusos e agressões.24 Dessarte, a utilização de técnicas restaurativas não pode ser considerada como um mecanismo de minimização da conduta enquanto crime, mas um instrumento que privilegia a revitalização dos vínculos fragmentados, possibilitando o empoderamento feminino, a fim de que a mulher “assuma as rédeas de sua vida” e conscientizando o homem de seus atos. É preciso ter em mente que as mulheres que decidem romper um relacionamento agressivo estão destruindo com várias aspirações e expectativas frustradas pelo delito, havendo ganhos e perdas com o fim do relacionamento que não podem ser ignorados pelos profissionais que se deparam com a violência doméstica, sendo necessário fortalecer a mulher para o alvorecer, se necessário, de um novo trajeto vida. Portanto, qualquer técnica que possa restabelecer a comunicação entre o casal, sob a perspectiva de empoderamento da mulher e com base no 22 COSTA, 2020. 23 RIBEIRO, 2015, p. 11-32. 24 COSTA, 2020. } Página 44 reconhecimento da relação desigual, pode auxiliar a mulher no contexto da violência doméstica. } Página 45 UNIDADE 4: REDE DE ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E DE PROTEÇÃO A MULHER Lidiane Gonçalves de Pinho Anício25 1. A violência de gênero enraizada numa sociedade machista e patriarcal Para se falar em violência doméstica e pensar ações que, de fato, sejam eficazes para amenizar as consequências dela, a primeira e mais importante ação é a eliminação dos preconceitos que existem sobre o tema. É preciso que se entenda que nenhuma mulher gosta de ser vítima de violência ou se sente bem neste papel. O que há é uma série de fatores que impedem que a mulher reaja às violências sofridas. Nesse sentido, Teles e Melo dizem que o drama da violência doméstica é “tratado como natural, inerente à condição humana, tem sido bastante banalizado e considerado menor, sem importância. No entanto, a erradicação da violência generalizada exige o fim da violência contra a mulher. Esse é o primeiro tipo de violência com o qual o ser humano entra em contrato, desde o início da infância”. (TELES; MELO, 2017). 25 Assistente Social Judicial graduada em Serviço Social. Pós-graduanda em Instrumentalidade do Serviço Social. Assistente Social do Tribunal de Justiça de Minas Gerais desde 2012, atualmente na Comarca de Guanhães. Coordenadora do Grupo Reflexivo de Autores de Violência Doméstica da Comarca de Guanhães. } Página 46 Como já ressaltado na Unidade 1, historicamente mulheres são expostas a várias formas de violência em seus relacionamentos com os homens, contudo, em algumas situações as vítimas sofrem também a chamada violência institucional, que ocorre quando aqueles que deveriam prestar a ela toda assistência passam a julgá- la e procurar motivos para a violência sofrida, como se a vítima tivesse dado causa a tal violência. Essa prática prejudica que sejam pensadas ações para a prevenção e o combate à violência contra a mulher, que realmente coloquem a vítima como foco central da intervenção. No atendimento às vítimas de violência doméstica, é preciso que se tenha um olhar sensível, pois grande parte delas passou por dolorosos processos de violações de direitos, e é necessário que elas rompam com muitos de seus sonhos e projetos para efetuar uma denúncia contra o seu agressor. Sabe-se que diversas são as causas que levam as mulheres a permanecer em relacionamentos abusivos, que vão desde a falta de recursos financeiros até a total falta de perspectiva sobre outra forma de vida. Por isso, para além da necessidade do encorajamento da denúncia, está a urgência de ações de apoio à vítima. Nesse sentido, o trabalho integrado do Poder Judiciário com outros componentes da rede de enfrentamento da violência contra a mulher precisa estar alinhado, para que juntos possam acolher a vítima e prestar-lhe o apoio necessário, buscando entender seus medos, suas angústias e suas condições de vida, para, assim, conseguir, de fato, colocá-la em segurança. Quando se trata de violência doméstica, é comum que se pense apenas na punição do agressor; contudo, é preciso entender que a violência doméstica tem como principal característica as relações de cunho familiar e/ou de afetividade que existem ou já existiram e deixaram frutos entre as partes. Assim, procurar ajudar o agressor a sair dessa condição também se torna uma discussão necessária. Em nenhum momento tem-se a intenção de minorar a necessidade da punição do autor da violência, pois ela é necessária para que ele enxergue a gravidade de seus atos. Contudo, o trabalho repressivo, especialmente na seara } Página 47 criminal, deve caminhar ao lado de ações de prevenção da violência, em todas as suas formas. Nesse viés, é pertinente que sejam pensadas ações que busquem levar os homens a refletirem sobre suas práticas com relação às mulheres, procurando retirar deles essa perspectiva negativa de que um homem só é homem quando se sobrepõe a outra pessoa, especialmente às mulheres. Com as ponderações expostas, faz-se necessário entender que todos precisam estar envolvidos na prevenção e combate à violência contra a mulher. Por isso, o trabalho em rede é tão importante. Buscar parceiros e desenvolver programas voltados ao atendimento das vítimas e dos agressores fará toda a diferença para diminuição dos índices de violência dentro das famílias. 2. Rede de enfrentamento e atendimento às vítimas de violência doméstica – o estabelecimento dos fluxos de atendimento à vítima e de recuperação do agressor A Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006, a famosa Lei Maria da Penha, trouxe, em seu artigo oitavo, que a política pública de combate à violência contra a mulher deve ser feita por meio de ações articuladas dos poderes públicos e dos órgãos não governamentais. Nesse norte, tem-se como ponto central para o sucesso das intervenções um trabalho articulado entre os órgãos que compõem a rede de enfrentamento da violência contra a mulher. A Lei foi muito clara ao colocar que se faz necessário que a rede de proteção se organize para o atendimento eficiente às vítimas da violência doméstica. Nesse sentido, a criação de um protocolo de atendimento aos envolvidos tem fundamental importância para o sucesso das intervenções que serão realizadas no caso. Cada equipamento envolvido nesse atendimento precisa saber exatamente sua função e quais os encaminhamentos possíveis para cada caso. Essa certamente é a chave } Página 48 para que o atendimento seja bem-sucedido e, com isso, minimizem os efeitos da violência e diminuam os índices de reincidência. Nesse ponto, faz-se necessário que se estabeleça uma diferenciação entre a rede de enfrentamento da violência contra a mulher e a rede de atendimento à vítima dessa violência. A rede de enfrentamento tem uma dimensão mais ampla e trata da união de esforços de diversas iniciativas governamentais, não governamentaise comunitárias para a criação de mecanismos de prevenção da violência contra a mulher e de políticas que garantam o seu empoderamento, a punição do agressor e o atendimento de qualidade à vítima. Já a rede de atendimento tem por características a ampliação e a melhoria do atendimento às vítimas de violência e é especialmente desenvolvida pelos setores da assistência social, justiça, segurança pública e saúde. A rede de enfrentamento da violência contra a mulher faz parte da Política Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher e contempla todos os seus eixos (combate, prevenção, assistência e garantia de direitos), enquanto a rede de atendimento se refere ao eixo da assistência. Assim, é correto dizer que a rede de atendimento faz parte da rede de enfrentamento da violência. Para se pensar uma rede articulada de enfrentamento da violência contra a mulher, é preciso entender que os protocolos de atendimento terão variações de acordo com os meios disponíveis em cada comarca, haja vista que se percebe muita disparidade quando é analisada a oferta de politicas públicas nas comarcas situadas em cidades de maior porte e nas comarcas pequenas do interior do Estado, onde, muitas vezes, a oferta dos serviços é precária e a rede de enfrentamento e atendimento é desarticulada. Grande parte das comarcas mineiras nem sequer conta com serviços especializados de atendimento às vítimas de violência doméstica, como delegacias da mulher, núcleo de atendimento à mulher na Defensoria Pública e no Ministério Público, casa abrigo, entre outros. Assim, faz-se necessário que os profissionais do Judiciário conheçam as políticas públicas desenvolvidas pelo Estado, Município e outros órgãos dentro da Comarca para que saibam com quem poderão contar para } Página 49 desenvolver um trabalho de excelência na busca por um atendimento de qualidade às vítimas. Falando um pouco da Comarca de Belo Horizonte, é possível perceber que existe uma articulação dentro da rede de enfrentamento e atendimento às mulheres; assim, as vítimas podem contar com serviços oferecidos pelo Estado, Município e outros órgãos de iniciativa pública e privada, onde encontram orientação e apoio. Vinculado ao Governo do Estado por meio da Sedese - Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social -, o Cerna - Centro Risoleta Neves de Atendimento às Mulheres Vítimas de Violência Doméstica ou Intrafamiliar - presta apoio psicológico, social e jurídico às mulheres. O equipamento configura um importante ponto de apoio às vítimas que ali encontram pessoas dispostas a acolhê-las e orientá-las. Outro programa muito importante desenvolvido em Belo Horizonte é o Benvinda - Centro Especializado e Atendimento a Mulher. Sob responsabilidade da Prefeitura de Belo Horizonte, o centro também presta atendimento psicológico, social e jurídico a mulheres que são encaminhadas para ele por meio dos diversos órgãos e também àquelas que o procuram de maneira espontânea. Além dos centros mencionados, a Comarca da Capital Mineira conta com outros autores da rede que buscam garantir a proteção integral às mulheres, como delegacias especializadas, a Patrulha da Violência Doméstica, o Núcleo de Atendimento à Mulher na Defensoria Pública, Casa abrigo, CREAS, CRAS, além de projetos desenvolvidos por faculdades de psicologia e medicina e outras ações e organizações não governamentais. Assim como Belo Horizonte, outras comarcas do Estado contam com políticas públicas que visam proporcionar um atendimento mais eficiente para suprir as necessidades das vítimas de violência doméstica, como também contam com uma rede de enfrentamento da violência com órgãos especializados. Isso é um diferencial quando se busca, de fato, trabalhar de forma articulada e integrada para a realização de ações eficientes para o atendimento às vítimas e a prevenção contra a violência. } Página 50 A realidade de muitas das comarcas do interior do Estado é diferente, haja vista a falta de estrutura de alguns municípios para o atendimento às vítimas de violência doméstica. Contudo, para além da falta de políticas públicas destinadas para esse atendimento, está a falta de articulação entre as políticas existentes. A ausência de políticas públicas e a falta de articulação entre a rede são fatores que contribuem para que as mulheres permaneçam em relacionamentos abusivos, visto que elas não encontram os atendimentos de que precisam e, muitas vezes, se sentem desprotegidas pelo poder público. Apesar de os Municípios de menor porte não apresentarem serviços de atendimento específico para as vítimas de violência doméstica, os profissionais do Judiciário podem se unir a outros profissionais e juntos buscarem estratégias que possam fortalecer a rede de enfrentamento da violência doméstica, bem como a rede de atendimento às vítimas, pois minimamente as comarcas situadas nessas cidades contam com estrutura policial, o Ministério Público, CRAS, postos de saúde, Equipes de PSF, entre outros, que, bem articulados, podem oferecer um atendimento digno a quem precisa. Para a estruturação da rede de enfrentamento a violência contra a mulher, o primeiro passo é conhecer as políticas públicas que poderão fazer parte dela, e, para isso, é preciso que o servidor do Judiciário conheça os órgãos e equipamentos da Comarca, bem como ONGs, associações e outras iniciativas não vinculadas ao poder público. Assim, sugere-se que inicialmente seja realizada uma visita para conhecimento e busca de informações sobre cada política e programa desenvolvido dentro da Comarca. É muito importante que se entenda que uma rede bem estruturada e eficiente se faz a partir de diálogos estabelecidos entre todos; assim, realizar reuniões para ouvir os possíveis componentes da rede é de extrema importância para que cada um apresente suas ideias e informe como pode contribuir. Após os diálogos, as discussões e as construções conjuntas, poderá ser estabelecido um termo de pactuação em que todos os componentes da rede se comprometerão a unir esforços para a implantação das ações definidas. } Página 51 O protocolo para atendimento das vítimas da violência doméstica, bem como o comprometimento de todos para sua execução, tem papel fundamental no sucesso das ações da rede de enfrentamento à violência doméstica, pois o atendimento à vítima não deve se restringir apenas à sua condição clínica ou à criminalização do agressor; é preciso que se atente, entre outras coisas, para as condições psicológicas e socioeconômicas dela. A criação de uma ficha de encaminhamento das mulheres vítimas de violência é importante para um atendimento mais ágil e eficiente. Esse documento deve conter minimamente a indicação do órgão de acolhimento, qualificação da mulher, breve histórico do caso e encaminhamentos já realizados. Mas, qual será a função de cada componente da rede? É preciso que se entenda que não há um modelo específico que poderá ser usado em todas as Comarcas, haja vista as diferenças que existem entre elas, como já mencionado anteriormente. Contudo, há algumas atribuições que possivelmente serão comuns a todos os locais. A princípio, é importante falar sobre os componentes da rede que possivelmente farão o primeiro contato/atendimento com a vítima. A mulher pode acessar a rede de diversas formas, entretanto, entre as mais comuns estão delegacias, hospitais e equipamentos da assistência social. Nesses locais, é fundamental que a mulher se sinta acolhida e segura, sem que os envolvidos no atendimento apresentem preconceitos e tratamentos discriminatórios. A Polícia Civil, em algumas cidades do estado, tem a Delegacia Especializada no Atendimento da Mulher em Situação de Violência - DEAMs, mas, em várias cidades, isso não ocorre. Todavia, o que mais importa é que, especializada ou não, nesses locais, a mulher deve ser acolhida e ouvida.Dentro das atribuições da Polícia Civil podemos citar: confeccionar o REDS ou recebê-lo da Polícia Militar; aplicar o Formulário de Avaliação de Risco para Feminicídio; acompanhar a vítima para a retirada de seus pertences; encaminhar a } Página 52 ofendida para o hospital; esclarecer à vítima sobre as medidas protetivas que podem ser pleiteadas, bem como sobre os procedimentos legais a serem seguidos; encaminhar a vítima para atendimento em outros equipamentos da rede; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. A Polícia Militar está presente em todos os municípios do Estado de Minas Gerais; assim, ela é muito importante para o sucesso das ações da rede de enfrentamento à violência doméstica. Dentre suas atribuições está: confeccionar o REDS; acompanhar a vítima para retirada de seus pertences; realizar prisão em flagrante do agressor (quando houver elementos para isso); fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. Os hospitais frequentemente recebem mulheres que foram vítimas de violências. Dentre suas atribuições está: triar e identificar sinais e sintomas de violência; diagnosticar e tratar as lesões físicas; ofertar assistência de enfermagem e médica para mulheres em situação de violência sexual; orientar e encaminhar a mulher aos demais órgãos da rede de enfrentamento; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. O CREAS – Centro de Referência Especializado de Assistência Social – e o CRAS – Centro de Referência de Assistência Social – são portas de entrada para as vítimas de violência e terão um papel muito especial dentro da rede, pois eles poderão, além de atender às vítimas e prestar-lhes a assistência que lhes são cabidas, fazer encaminhamentos a outros órgãos e programas, além de ser o elo de ligação entre o Judiciário e os demais agentes. De forma resumida, caberá ao CREAS: o atendimento psicossocial individualizado às mulheres em situação de violência; orientar as vítimas sobre seus direitos e sobre as providências que poderão ser tomadas em seu favor; encaminhar as vítimas para casas abrigo; fazer visitas domiciliares; atender às famílias das mulheres; encaminhar as ofendidas para cursos profissionalizantes ou oficinas de geração de renda; informar possíveis situações de risco à vítima decorrente do descumprimento das medidas protetivas aplicadas; receber fichas de atendimentos. } Página 53 O CRAS deverá: desenvolver atividades de orientação e prevenção da violência de gênero; acompanhar as vítimas e suas famílias após desligamento do CREAS; orientar as mulheres sobre as formas de violência, bem como sobre os canais de denúncias; promover oficinas educativas; fazer a triagem das mulheres que necessitam de assistência jurídica; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. Além dos componentes da rede citados, o Poder Judiciário e o Ministério Público desempenham papéis de grande importância dentro da rede de enfrentamento à violência doméstica. O Poder Judiciário pode atuar como articulador dessa rede, buscando unir esforços com os outros componentes para que ela funcione da melhor forma possível. Para isso, a equipe técnica precisa estar comprometida para auxiliar o juiz naquilo que for necessário, visando à estruturação e manutenção da rede de enfrentamento à violência doméstica. De acordo com o Fonavid: ENUNCIADO 13: Poderá a Equipe Multidisciplinar do juízo proceder ao encaminhamento da vítima, do agressor e do núcleo familiar e doméstico envolvido à rede social, independentemente de decisão judicial. ENUNCIADO 16: Constitui atribuição da Equipe Multidisciplinar conhecer e contribuir com a articulação, mobilização e fortalecimento da rede de serviços de atenção às mulheres, homens, crianças e adolescentes envolvidos nos processos que versam sobre violência doméstica e familiar contra a mulher. Além do mencionado, constituem ainda atribuições do Judiciário dentro do protocolo de atendimento às vítimas: analisar o pedido de medidas protetivas de urgência; comunicar às Polícias Civil e Militar e ao CREAS/CRAS o deferimento de medidas protetivas; processar e julgar crimes praticados contra a mulher; encaminhar as vítimas de violência para atendimento psicossocial e o autor de violência para grupos reflexivos; realizar campanhas de combate e prevenção à violência de gênero e participar das campanhas realizadas por outros componentes da rede; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. } Página 54 O Ministério Público poderá: requerer medidas protetivas em favor da mulher em situação de violência; prestar orientação às mulheres que procurarem o órgão; oferecer denúncia contra autores de violência doméstica; preencher a ficha de atendimento e encaminhá-la ao órgão que estiver definido no protocolo. São outros componentes da rede de enfrentamento à violência contra a mulher: a Defensoria Pública, a OAB, as escolas, as equipes do PSF – Programa Saúde da Família, os postos de saúde, o Conselho Tutelar; o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial, Assessoria Jurídica do Município, equipes da Vigilância Epidemiológica, ONGs, associações, entre outros. É importante que, em cada um dos componentes da rede, a mulher em situação de violência seja acolhida de forma solidária e que ela receba orientação sobre seus direitos e sobre os procedimentos a serem realizados. 3. Os grupos reflexivos como instrumento de busca à mudança de perspectivas dos homens quanto às relações de gênero É sabido que apenas a punição do agressor não é suficiente para que haja a diminuição dos índices de violência contra a mulher. Nesse sentido, entender que o homem também precisa ser visto como alguém que necessita de ajuda faz com que sejam pensadas formas de atendimento que os levem a repensar suas atitudes como seres humanos. Zanello, no livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, coloca que os homens são socializados a partir de uma lógica de virilidade, com um rol de características que são associadas ao sexo masculino, como potência sexual, força, coragem, moral, entre outros. Além disso, o homem deve afastar-se de qualquer expressão que o associe a uma forma feminina, isso } Página 55 inclui sua vestimenta, brincadeiras, esportes e especialmente a forma de demonstrar sentimentos (ZANELLO, 2018). Moldados dessa maneira, grande parte dos homens entende que, para exercer sua masculinidade, é preciso que eles sejam superiores e não aceitem que uma pessoa do sexo oposto se sobreponha a ele. Daí surge o machismo que tem como característica, de modo simplificado, a negação da igualdade entre homens e mulheres, atribuindo a cada um papéis distintos dentro da sociedade, colocando a mulher em condição de inferioridade com relação ao homem. Os padrões machistas estabelecidos pela sociedade legitimam e banalizam a violência contra a mulher. Nesse sentido, Suarez e Bandeira dizem que “a violência doméstica não se caracteriza como patologia ou como desvio individual, mas sim como ‘permissão social’ concedida e acordada com os homens na sociedade” (SUAREZ; BANDEIRA, 1999). A violência contra a mulher, em muitas das vezes, ocorre quando o homem se vê subjugado a ela, seja em qualquer área da vida. Nesse momento, o homem busca dentro de si toda a essência de sua criação e usa de sua diferença física para se impor como ser dominante dentro daquela relação. Das constatações apresentadas, surge a necessidade de trabalhar o homem na busca da desconstrução desse padrão social imposto a ele. Assim, os grupos reflexivos apresentam-se como alternativa eficaz de busca da responsabilizaçãoe reeducação do homem. Pelo Brasil afora, muitas comarcas, em parceria ou não com outros setores, já implementaram a realização de grupos reflexivos, contudo não havia na Lei Maria da Penha algo específico sobre o tema. Tal lacuna foi suprida com a alteração da Lei 11.340, trazida pela Lei 13.984, de 13 de abril de 2020, que alterou o art. 22, acrescentando nos incisos VI e VII novas medidas protetivas de urgência que podem ser aplicadas, sendo que, no sexto, há a obrigatoriedade de comparecimento do agressor a programas de recuperação e reeducação; e o sétimo traz o acompanhamento psicossocial do agressor, por meio de atendimento individual e/ou em grupo de apoio. } Página 56 Os grupos reflexivos têm configurado como importante instrumento na busca por uma mudança de pensamento dos homens. Nesses espaços de discussão, é possível que o agressor reflita sobre responsabilização, perspectiva de gênero, conhecimento e aprofundamento sobre a Lei Maria da Penha e outras legislações, causas que levam à violência doméstica, à drogatição como gatilho para a violência, machismo, entre outros temas que o ajudarão a refletir sobre suas atitudes e sobre as mudanças necessárias para uma relação saudável com a pessoa do sexo oposto. A importância dessas reflexões está especialmente no fato de muitos autores de violência doméstica não se enxergarem como agressores, pois eles reproduzem um comportamento para eles naturalizado, haja vista que sempre viram isso acontecer. 4. As campanhas como forma de articular o trabalho em rede e a conscientização sobre a violência doméstica A Lei 13.340/2006, em seu art. 8°, inc. V, trouxe a necessidade do desenvolvimento de campanhas educativas de prevenção da violência doméstica e familiar contra a mulher, voltadas para o público escolar e para sociedade em geral. Essas campanhas configuram importante instrumento de esclarecimento e conscientização da população sobre a necessidade de combate à violência contra a mulher. O Judiciário, buscando alcançar a celeridade nos processos de violência de gênero e o envolvimento e esclarecimento da população sobre o tema, estabeleceu a Campanha Justiça pela Paz em Casa. Ela teve início em 2015, quando, em janeiro daquele ano, a Ministra do Supremo Tribunal Federal Carmem Lúcia, numa reunião com presidentes dos Tribunais de Justiça do país, propôs que fosse realizada uma mobilização para tratar dos processos envolvendo violência contra a mulher. Em } Página 57 março de 2015, ocorreu a primeira semana da campanha, tendo sido realizadas em todo o país 17.113 audiências e 146 júris. O Programa Nacional Justiça Pela Paz em Casa passou a fazer parte da Política Judiciária Nacional de Enfrentamento à Violência Contra as Mulheres, pela Portaria n°15, de 8 março de 2017, e Resolução 254, de 4 de setembro 2018, do Conselho Nacional de Justiça, tendo caráter de política contínua. A campanha tem como principal objetivo ampliar a efetividade da Lei Maria da Penha. Durante três momentos no ano, em março, por ocasião do dia das mulheres; em agosto, aniversário da Lei Maria da Penha; e, em novembro, quando a ONU estabeleceu o dia 25 como o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher, o Poder Judiciário do Brasil inteiro volta suas atenções de maneira mais concentrada à violência de gênero, buscando, assim, aprimorar a prestação jurisdicional nesse tipo de caso. No ano de 2019, segundo dados do Departamento de Pesquisa Judiciária do Conselho Nacional de Justiça, durante as três semanas da campanha Justiça pela Paz em Casa, foram analisados mais de 120.000 processos que envolvem violência de gênero. Na soma das ações das três semanas, foram realizadas 57.379 audiências, 344 júris, foram concedidas 25.925 medidas protetivas e proferidas 46.445 sentenças. Além do aspecto institucional da campanha, ela também visa à promoção de ações de caráter multidisciplinar que têm como objetivo informar e sensibilizar a sociedade sobre as diversas formas de violência às quais as mulheres estão submetidas. Para isso, são desenvolvidas ações educativas e culturais que visam à discussão do tema de forma mais ampla. O viés educativo da campanha é de extrema importância, pois é educando e reeducando que poderá se conseguir quebrar os paradigmas que ocasionam a violência doméstica. Dentro disso, levar a temática até as escolas torna-se um diferencial, pois é preciso que as crianças e os adolescentes entendam a relação entre os gêneros dentro de uma perspectiva harmoniosa, em que um não se sobrepõe ao outro. } Página 58 Ainda no eixo educativo, realizar encontros, rodas de conversas, debates e promover outros espaços de discussão sobre o tema com mulheres e homens favorece a criação de uma consciência coletiva sobre uma nova forma de enxergar os relacionamentos entre homens e mulheres. Além disso, esses momentos favorecem a capacitação das redes de enfrentamento e atendimento. O esclarecimento de questões que para muitos são cotidianas é de extrema importância para que a sociedade seja elucidada sobre as formas de violência e os meios para se evitar que ela aconteça. Incentivar o diálogo e o lado positivo na diversidade de pensamentos e ideias na construção dos relacionamentos é a busca para que as pessoas consigam discutir ideias sem que isso se torne um motivo para agressão entre elas. É importante pontuar que, assim como muitos agressores não se veem autores de violência doméstica, muitas mulheres também não se enxergam como vítimas, tamanha a naturalização desse tipo de atitude. Nesse sentido, faz-se necessário que as mulheres sejam esclarecidas sobre as formas de violência, sobre os canais de atendimento que estão disponíveis para elas e sobre as políticas públicas que elas podem acessar. A Campanha Justiça pela Paz em Casa é uma campanha desenvolvida pelo Judiciário, por isso, é ainda mais importante que os servidores conheçam e estejam dispostos a integrar as atividades propostas e a contribuir naquilo que estiver ao seu alcance para o sucesso da iniciativa. Além da participação dos servidores do Judiciário, é de suma importância o envolvimento da rede de enfrentamento da violência doméstica na realização dessa campanha. As ações podem ser desenvolvidas em parceira com o Ministério Público, Defensoria Pública, OAB, os Poderes Executivo e Legislativo, as polícias e a sociedade civil. Entende-se que as campanhas, além de proporcionar o esclarecimento da população sobre a temática da violência doméstica, também é um importante instrumento para o alinhamento da rede de enfrentamento da violência, por poder proporcionar o envolvimento de todos os seus componentes. } Página 59 Além da Campanha Justiça pela Paz em Casa, muitas outras são desenvolvidas por diversos órgãos governamentais e não governamentais. Como exemplo, cita-se a Campanha Agosto Lilás, que teve início em 2016 no Mato Grosso do Sul e já foi aderida por vários estados, inclusive Minas Gerais; e a Campanha do Laço Branco, que teve início no Canadá e hoje está em diversos países do mundo. Essa campanha marca a luta de homens pelo fim da violência contra a mulher e tem como lema “jamais cometer um ato violento contra as mulheres e não fechar os olhos frente a essa violência”. E você, o que pode fazer para contribuir com a diminuição da violência doméstica na sua comarca? } Página 60 REFERÊNCIAS ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Para educar crianças feministas: um manifesto. Tradução de Denise Bottmann. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. AGÊNCIA PATRÍCIA GALVÃO. https://agenciapatriciagalvao.org.br/ ALVES, Cornélio; MARQUES, Deyvis de Oliveira (Org.). Leituras de direito: violência doméstica e familiar contra a mulher. Disponível em: https://www.amb.com.br/fonavid/files/livro-fonavid.pdf. Acesso em: 26 ago.2020. 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Nessas sociedades, os sexos eram considerados ‘complementares’ (LERNER, 2019, p. 44). Embora existam diversas teorias e estudos científicos a respeito das origens históricas da opressão das mulheres pelos homens – que até hoje se expressa nos índices alarmantes de violência doméstica registrados no Brasil – há um consenso no sentido de que essa estrutura de dominação relaciona-se ao controle reprodutivo, uma vez que a sobrevivência de qualquer grupo social – e, em última análise, da própria humanidade – depende da capacidade de gerar filhos, e, por consequência, sociedades com mais mulheres produzem mais filhos. A capacidade da mulher de gerar filhos, portanto, seria o elemento que fez com que surgisse a ideia de apropriação real e simbólica dos corpos femininos pelos homens, ocasionando o que Claude Lévi-Strauss denominou de reificação, processo pelo qual as mulheres passam a ser desumanizadas e vistas mais como coisas que como seres humanos. A visão dos corpos femininos como objetos que possuem proprietários que inclusive podem deles dispor está na origem dos crimes cometidos contra esses mesmos corpos e sobretudo das construções sociais que produzem índices alarmantes de feminicídio. É a partir dessa concepção que retira a subjetividade e a individualidade das mulheres que se desenvolve todo um sistema de opressão histórica que perdura ao longo de séculos – o patriarcado – e que causa não apenas sofrimento a mais de } Página 7 metade da população mundial, mas também sacrifica e penaliza famílias e filhos, vítimas ocultas das múltiplas violências praticadas contra as mulheres. A própria Exposição de Motivos da Lei nº 11.430, de 2006, reconheceu a centralidade dos processos históricos como causas da violência doméstica e familiar, ao dispor, em seu item 16, que “as desigualdades de gênero entre homens e mulheres advêm de uma construção sociocultural” e de “um sistema de dominação” que “passa a considerar natural uma desigualdade socialmente construída”. Tal descrição evidencia o componente social – e, portanto, de origem histórica – da estrutura que comporta, reproduz e estimula a violência contra a mulher. 2. Construções sociais como causa e elemento de agravamento da violência doméstica e familiar Partindo-se da constatação de que os índices assustadores de violência doméstica e familiar guardam correlação com processos históricos e elementos culturais, convém analisar como essas construções sociais geram e agravam o atual cenário de violência para que, identificando-se as raízes desses sistemas e práticas, possamos atuar na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Existe um consenso no sentido de que os papéis socialmente designados às mulheres e aos homens atuam de forma relevante na construção de práticas e simbolismos que estimulam a violência contra a mulher. A fim de ilustrar o papel que os estereótipos desempenham no fomento da violência doméstica, podemos pensar na seguinte situação: quando uma mulher comunica que está grávida, muito provavelmente a primeira pergunta que terá que responder a respeito do bebê é se é um menino ou uma menina. E por que é tão importante na nossa cultura saber se o bebê é menino ou menina? Porque é a partir dessa definição que nós vamos começar a moldar no nosso imaginário a identidade desse ser. } Página 8 Caso o sexo biológico seja feminino, os pais quase imediatamente pensarão em decorar o quarto com temas como fadas e borboletas, em comprar roupas com babados, laços e fitas e os parentes idealizarão presentes com elementos que remetam a uma ideia de delicadeza, doçura e suavidade. Caso o sexo biológico seja masculino, a decoração do quarto muito provavelmente incluirá elementos como carros, aviões e esportes, enquanto as roupas terão tons mais fortes e os presentes estarão relacionados a atividades atléticas (futebol, basquete, automobilismo) ou relacionadas às mais diversas profissões, desde astronautas até caçadores. Percebam que, a partir de uma única informação – se os genitais são masculinos ou femininos –, nós já definimos claramente qual será o papel dessa criança no mundo. E, a partir dessa única informação, nós, inconscientemente, já criamos a expectativa de que a menina será doce, delicada e romântica, e o menino será forte, aventureiro e destemido, de modo que, desde os primeiros anos de vida da criança, já está posto que o que se espera de um homem é força e predominância. Esses papéis socialmente associados a homens e mulheres persistem ao longo de toda a vida e a eles vão se somando mais e mais camadas, que reforçam, de forma reiterada e constante, a ideia de que a agressividade masculina e a submissão feminina são naturais. Porém, como pontuam Raewyn Connel e Rebecca Pearse, “a vida humana não se divide em apenas duas esferas, nem o caráter humano se divide em apenas dois tipos. Nossas imagens de gênero são quase sempre dicotômicas, mas a realidade não o é” (CONNEL; PEARSE, 2015, p. 46). Nesse ponto, é importante destacar que, embora, sob o ponto de vista genético, hormonal, morfológico e fisiológico, homens e mulheres tenham mais semelhanças que diferenças, há uma tendência de se focar mais nas diferenças que nas semelhanças para se estabelecer critérios de hierarquia e posicionamento social e relacional. A esse respeito, Valeska Zanello destaca que, historicamente, nos séculos 18 e 19, houve, por motivos ideológicos, uma mudança da eleição do foco de interesse } Página 9 das semelhanças entre os órgãos genitais masculinos e femininos para suas diferenças, o que teria ocorrido para, “por meio da afirmação da diferença física (colocada como foco)”, se pudesse naturalizar diferenças sociais (ZANELLO, 2018, p. 41). A autora esclarece ainda que “não se trata aqui de negar a diferença corporal, mas de apontar que certas diferenças foram eleitas em determinado momento histórico para justificar desigualdades sociais” (ZANELLO, 2018, p. 42). No mesmo sentido, as conclusões de Gerda Lerner, quando afirma: “parto do princípio de que homens e mulheres são biologicamente diferentes, mas que os valores e as implicações baseados nessa diferença resultam da cultura” (LERNER, 2019, p. 30). Há diversos fatos e contextos histórica e socialmente comprovados que demonstram como as noções de masculinidade e feminilidade variam de acordo com o tempo e o lugar. Na Grécia Antiga, por exemplo, fazia parte da construção da masculinidade que o homem jovem mantivesse relações sexuais com um homem mais velho, sendo esta uma etapa necessária para se atingir o modelo de masculinidade vigente àquela época, de modo que, “em outras palavras, as práticas homoeróticas eram um elemento constitutivo da própria virilidade grega” (ZANELLO, 2018, p. 180). Por outro lado, há registros de que, em diversas sociedades de povos nativos brasileiros, a maternagem, que contemporaneamente entendemos como um atributo intrínseco à feminilidade, era exercida de forma comunitária, por todos os membros de uma aldeia. Tais exemplos ilustram como as noções de o que é ser “masculino” e “feminino” variam de acordo com o local e o tempo histórico. E não apenas isso. As construções em torno do que é “ser mulher” são também profundamente marcadas pelo componente racial. Predomina, no senso comum, por exemplo, um ideal de feminilidade que associa o “ser mulher” a características como doçura e fragilidade, estabelecendo o espaço doméstico como o habitat natural das mulheres. No entanto, esses mesmos atributos, muitas vezes, são negados às mulheres negras, a quem não é sequer } Página 10 socialmente permitida a fragilidade, porquanto delas se exige que sejam “guerreiras” capazes de trabalhar nas mais diversas funções, cuidar da casa e criar filhos sozinhas. Percebam que, para as brancas, o “ser mulher”corresponde a um ideal de fragilidade, doçura e domesticidade, enquanto, para as negras, o “ser mulher” carrega as profundas marcas do racismo. Angela Davis afirmou a esse respeito que a julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que enfatizava o papel das mulheres como mães protetoras, parceiras e donas de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente anomalias”, acrescentando que “a postura dos senhores em relação às escravas era regida pela conveniência: quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas (DAVIS, 2016, p.17-18). A partir da constatação, cientificamente embasada, de que existem diversas configurações históricas e sociais do masculino e do feminino e de seus respectivos desdobramentos, construíram-se, principalmente, a partir da década de 70, os estudos de gênero, sobretudo, na área das ciências sociais. Recentemente, o termo “gênero” vem sendo alvo de controvérsias, polêmicas e debates, notadamente no Brasil. Por isso, faz-se necessário esclarecer por que todos aqueles que atuam em processos envolvendo violência doméstica e familiar devem conhecer esse conceito, sendo essa discussão indissociável da compreensão do fenômeno da violência contra a mulher e da sua superação. A necessidade da compreensão do conceito de gênero decorre de um imperativo legal, já que a Lei nº 11.340, de 2006, utiliza tal conceito para definir a violência doméstica e familiar contra a mulher em seu art. 5º: “Para os efeitos dessa Lei, configura violência doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero que lhe cause lesão, sofrimento físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial.” (sem destaque no original). Mais à frente, a mesma lei prevê, em seu art. 8º, inciso II, que “a política pública que visa a coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher considerará } Página 11 a promoção de estudos e pesquisas com a perspectiva de gênero e de raça ou etnia” (sem destaque no original). Diante da clareza do texto legal, há que se reconhecer que o enfrentamento da violência doméstica e familiar é indissociável do debate sobre gênero. E, afinal de contas, o que vem a ser gênero? Em linhas gerais, o gênero está relacionado às construções sociais que estabelecem qual o papel, função ou comportamento esperado de alguém com base em seu sexo biológico. Gerda Lerner conceitua gênero como “a definição cultural de comportamento definido como apropriado aos sexos em dada sociedade, em determinada época” ou como “um conjunto de papéis culturais” (LERNER, 2019, p. 289). Como vimos acima, tais construções sociais não são imutáveis e variam de acordo com o tempo e o lugar. Essa compreensão é necessária para que possamos nos conscientizar de que as características que colocam as mulheres em posições subalternas ou que as relegam a espaços específicos, impedindo que elas ocupem esferas de poder e tenham autonomia sobre suas vidas e seus corpos, são construídas socialmente e atendem ao sistema patriarcal, que é fundamentalmente desigual e injusto, pois se funda na dominação de um gênero sobre outro. A ideia de gênero, portanto, não guarda qualquer relação com o estímulo de práticas sexuais precoces, à pedofilia ou à destruição da família, sendo, ao revés, um ramo consolidado de estudo das ciências sociais e mais recentemente também da neurociência. Importa, mais uma vez, salientar que a própria Exposição de Motivos da Lei nº 11.340, de 2006, reconhece, em seu item 16, que as desigualdades de gênero entre homens e mulheres advêm de uma construção sociocultural que não encontra respaldo nas diferenças biológicas dadas pela natureza. Um sistema de dominação passa a considerar natural uma desigualdade socialmente construída, campo fértil para atos de discriminação e violência que se ‘naturalizam’ e se incorporam ao cotidiano de milhares de mulheres. } Página 12 3. O papel das práticas cotidianas no fomento das múltiplas formas de violência contra a mulher Contemporaneamente, os papéis socialmente atribuídos a homens e mulheres encontram-se na gênese das opressões e violências praticadas contra as mulheres. São essas construções sociais – moldadas ao longo de séculos – que naturalizam conceitos que reduzem mulheres a adornos, objetos sexuais ou pessoas que somente se realizam no ambiente doméstico, impedindo sua emancipação. Tais construções são tão arraigadas em nossa cultura que, muitas vezes, não são percebidas, e essa dificuldade de identificação das opressões termina por conduzir e manter mulheres em relacionamentos abusivos, em cujo seio a violência doméstica acontece. A título ilustrativo, convém mencionar algumas frases do senso comum que traduzem preconceitos socialmente arraigados, formando um caldo cultural que cria, autoriza e favorece a violência contra a mulher: 1) “Isso é coisa de mulherzinha”: inferioriza mulheres, designando que o que se refere ao sexo feminino é menor, subalterno, desprezível. 2) “Para ficar bonita, mulher tem que sofrer”: reduz mulheres a adornos, expressando que elas têm que obrigatoriamente suportar sofrimento para atender expectativas e padrões de beleza que agradem aos homens. 3) “Mulher de amigo meu pra mim é homem”: traduz o entendimento de que o homem respeita o amigo, mas não a mulher. 4) “Se você não se cuidar ele vai te trair”: coloca sobre os ombros da mulher a obrigação de se adequar ao padrão de beleza imposto pelo homem e ainda a culpa pela traição dele. 5) “Desse jeito você vai ficar para titia”: coloca o casamento como central e indispensável na vida de uma mulher, sendo que esse ideal frequentemente empurra e mantém mulheres em relacionamentos abusivos. } Página 13 6) “Se estivesse em casa isso não teria acontecido”: corrobora o entendimento de que o espaço das mulheres deve se restringir ao espaço doméstico quando, na verdade, segundo a ONU, a casa é o ambiente mais perigoso para as mulheres, pois mais de 70% das denúncias de violência sexual contra crianças e adolescentes envolvem abusos praticados no ambiente doméstico, por parentes das vítimas. 7) “Homem não gosta de mulher de cabelo curto/unha sem fazer/que fala palavrão/que bebe, etc.”: coloca os homens como avaliadores da conduta e da aparência de mulheres, induzindo o entendimento de que é o conceito deles que deve pautar a estética e as atitudes delas. Importa destacar que os conceitos, ideias e estereótipos que formam o referido caldo cultural que legitima a violência contra as mulheres também estão presentes em produtos culturais (como músicas, filmes e séries de TV) e de forma acentuada em memes trocados em grupos de WhatsApp (sobretudo grupos de homens) que reproduzem e reforçam machismo, misoginia e objetificação. A propósito da violência sexual, deve-se ressaltar que a indústria cultural fetichiza corpos juvenis e mulheres com características infantilizadas, o que termina por validar e legitimar socialmente padrões relacionados à pedofilia. Todos esses fatores, aliados a outras construções sociais que operam, às vezes de forma evidente e às vezes de forma sutil, desenham uma sociedade que, ao exigir que mulheres sejam dóceis, belas, recatadas, estabelecendo que seu espaço de realização é exclusivamente o lar e os relacionamentos amorosos, constroem um ambiente e uma estrutura que favorecem e estimulam a prática de múltiplas violências praticadas por homens contra mulheres e meninas. A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie chama a atenção para o fato de que o próprio conceito de que mulheres devem ser protegidas e defendidas por homens revela um preconceito que termina por referendarpráticas violentas e sexistas: } Página 14 Uma vez ouvi de um político americano, ao demonstrar seu apoio às mulheres, que elas deveriam ser ‘reverenciadas’ e ‘defendidas’ - um sentimento muito comum. Diga a Chizalum que as mulheres, na verdade, não precisam ser defendidas ou reverenciadas; só precisam ser tratadas como seres humanos iguais. Há uma conotação de superioridade na ideia de que as mulheres precisam ser ‘defendidas e reverenciadas’ por serem mulheres. Isso me fez pensar em cavalheirismo, e a premissa do cavalheirismo é a fragilidade feminina (ADICHIE, 2017, p. 39). 4. Por que precisamos da Lei Maria da Penha? A resposta curta para essa pergunta seria: para garantir o princípio da igualdade resguardado na Constituição da República e que estrutura o Estado Democrático de Direito. É nesse sentido que dispõe a Exposição de Motivos da Lei nº 11.340, de 2006, em seu item 12: É contra as relações desiguais que se impõem os direitos humanos das mulheres. O respeito à igualdade está a exigir, portanto, uma lei específica que dê proteção e dignidade às mulheres vítimas de violência doméstica. Não haverá democracia efetiva e real enquanto o problema da violência doméstica não for devidamente considerado. Os direitos à vida, saúde e à integridade física das mulheres são violados quando um membro da família tira vantagem de sua força física ou posição de autoridade para infligir maus-tratos físicos sexuais, morais e psicológicos. A escritora Patrícia Melo, em seu livro Mulheres empilhadas, traz um texto duro, forte, assertivo e sem rodeios que ilustra por que infelizmente ainda precisamos da Lei Maria da Penha: Nós, mulheres, morremos como moscas. Vocês, homens, tomam porre e nos matam. […] Estão furiosos e nos matam. Querem diversão e nos matam. Descobrem nossos amantes e nos matam. São abandonados e nos matam. Arranjam uma amante e nos matam. São humilhados e nos matam. Voltam do trabalho cansados e nos matam. E, no tribunal, todos dizem que a culpa é nossa. Nós, mulheres, sabemos provocar. Sabemos infernizar. Sabemos destruir a vida de um cara. Somos infiéis. Vingativas. A culpa é nossa. Nós que provocamos. Afinal, o que estamos fazendo ali? Naquela festa? Àquela hora? Com aquela roupa? Por que afinal aceitamos a bebida que nos foi oferecida? Pior ainda: como não recusamos o convite de subir até aquele quarto de hotel? Com aquele } Página 15 brutamontes? […] E bem que fomos avisadas: não saia de casa. Muito menos à noite. Não fique bêbada. Não seja independente. Não passe daqui. Nem dali. Não trabalhe. Não vista essa saia. Nem esse decote. Mas quem disse que seguimos as regras? Vestimos minissaias. Decotes que vão até o umbigo […]. Abusamos. Entramos em becos escuros […]. Extrapolamos. Trabalhamos o dia inteiro. Somos independentes. Temos amantes. Gargalhamos alto. Sustentamos a casa […]. O curioso é que não matamos. Incrível como matamos pouco (MELO, 2019, p. 71). Enquanto houver mulheres e meninas morrendo e sendo violentadas todos os dias, às dezenas, precisaremos não apenas de uma Lei Maria da Penha, mas de pessoas e instituições aptas e dispostas a emancipá-las e defendê-las. } Página 16 UNIDADE 2: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER E SUA INTERSECÇÃO COM RAÇA E CLASSE SOCIAL Flávia Martins de Carvalho2 1. Introdução O Brasil é um país racista. Essa afirmação, embora lastreada por fatos e dados, ainda é negada por boa parcela da sociedade brasileira, o que dificulta o adequado enfrentamento da desigualdade racial que vigora em nosso país (GHIROTTO, 2020; VIEIRA, 2020). Ainda assim, algumas iniciativas, a exemplo da política de cotas nos concursos públicos, vem ampliando a inclusão de pessoas negras em espaços de poder, o que nos coloca na direção de uma sociedade mais igualitária, embora muito ainda precise ser feito. Nos limites do presente artigo, inicialmente, apresentaremos o mito da democracia racial e a razão pela qual este deve ser desconstruído. A seguir, abordaremos os efeitos do racismo nos índices de violência. Mais adiante, demonstraremos de que maneira os marcadores de raça, gênero e classe social tornam a mulher negra mais vulnerável à violência doméstica. Por fim, abordaremos 2 Juíza de direito no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. Mestra em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ex-Coordenadora Adjunta e Membro do Comitê Científico do Fórum de Grupos de Pesquisa em Direito Constitucional e Teoria do Direito. Membro do Grupo de Trabalho instituído pelo CNJ para tratar de questões raciais no âmbito do Poder Judiciário (Portaria nº 108/2020). Diretora de Promoção da Igualdade Racial da Associação dos Magistrados Brasileiros (2020/2022). } Página 17 a perspectiva de uma hermenêutica negra a ser aplicada na análise dos casos de violência doméstica. 2. O mito da democracia racial Com o fim da escravidão no Brasil, a questão racial foi tratada de diferentes formas em nossa história recente, que vão desde a busca do embranquecimento da população até a construção do mito da democracia racial, todas buscando a invisibilidade dos problemas enfrentados pela população negra em nosso país (SILVA, 2015). O racismo científico, que atribuía a pessoas negras condição inferior e as afastava da condição de seres humanos, foi bastante aceito no século XIX e sustentou uma quase obsessão pela busca da raça pura. Conforme leciona Lilia Moritz Schwarcz, as teorias de Lombroso e Darwin contribuíram para a ideia de que a miscigenação deveria ser evitada a fim de promover a evolução natural e a preservação das espécies, de modo a serem extirpados traços patológicos de “degeneração”, que eram, segundo tais teorias, mais incidentes em pessoas negras. Um outro tipo de determinismo, um determinismo de cunho racial, toma força nesse contexto. Denominada ‘darwinismo social’ ou ‘teoria das raças’, essa nova perspectiva via de forma pessimista a miscigenação, já que acreditava que ‘não se transmitiam caracteres adquiridos’, nem mesmo por meio de um processo de evolução social. Ou seja, as raças constituiriam fenômenos finais, resultados imutáveis, sendo todo cruzamento, por princípio, entendido como erro. As decorrências lógicas desse tipo de postulado eram duas: enaltecer a existência de ‘tipos puros’ – e portanto não sujeitos a processos de miscigenação – e compreender a mestiçagem como sinônimo de degeneração não só racial como social (SCHWARCZ, 1993, p. 76/78). Essas teorias acabaram por influenciar políticas estatais, de forma que a busca de uma raça pura e a eliminação de raças inferiores revelaram-se um “ideal político”, com reflexos nos programas de reprodução da população, que incorporaram um viés eugenista, chegando a haver proibições de casamentos inter- raciais para manter o equilíbrio genético e evitar a degradação das espécies, sempre } Página 18 tendo como parâmetro de perfectibilidade a raça ariana, de origem europeia (SCHWARCZ, 1993). No dizer de Kon, Silva e Abud, “a política de ‘embranquecimento’ ou ‘branqueamento’ da população, conduzida pelo Estado, estabeleceu uma nova modalidade de racismo à brasileira”. Isso porque o ideal passou a ser a busca pelo clareamento estético e cultural para que o negro e, principalmente, o mestiço pudessem ser aceitos socialmente (SILVA, 2017). Com o avanço dos estudos científicos, sobretudo daqueles relacionados à genética, a crença de que poderia haver uma raça pura superior a qualquer outra caiu por terra, o que não significou o fim do racismo. Ao contrário, o discurso de que não existe raça e de que somos todos seres humanos tem sido utilizado muitas vezes como argumento contra políticas afirmativas que tenham por objetivo a busca da igualdade racial através de reserva de cotas para pessoas pretas e pardas. Entretanto, é importante compreender queraça e racismo são construções históricas e culturais, que fazem de pessoas brancas o padrão universal sob diversos aspectos, ao passo que pessoas não brancas são tidas como “o outro”, muitas vezes sequer reconhecidas como humanas. Ser branco situa as pessoas em um lugar específico dentro das hierarquias sociais em função da significação que o pertencimento ao grupo racial dominante possui no mundo contemporâneo. À identidade racial branca estão associados diversos predicados positivos, como superioridade cultural, beleza estética, integridade moral, sucesso econômico e sexualidade sadia. […] A negritude surge a partir da atribuição negativa de características morais a traços fenotípicos das populações africanas. […] O racismo cumpre então um papel central nesse processo, pois cria e propaga imagens culturais destinadas a justificar hierarquias entre brancos e negros. Assim, essas duas identidades são construídas a partir da lógica oposicional na qual grupos de pessoas são racializadas de formas distintas em função das relações de poder que possuem dimensões culturais, políticas, históricas e econômicas (MOREIRA, 2019a, p. 42/43). Assim, temos que a racialização é muito mais uma construção histórica e sociocultural do que o resultado de uma formação biológica. } Página 19 A ideia de que o Brasil é um país onde vigora a chamada “democracia racial” ganhou força com a obra de Gilberto Freyre, publicada em 1933, denominada Casa- grande e senzala. Em seu livro, Freyre apresenta uma relação harmônica entre brancos e negros, construída a partir da miscigenação. A mestiçagem seria a base da sociedade brasileira, o que favoreceria a construção de uma democracia racial. Sua abordagem afasta a inferioridade racial do negro sustentada pelo racismo científico, base das teorias eugenistas, mantendo, contudo, um discurso conflitante, uma vez que sustenta que os negros que foram trazidos para o Brasil eram superiores àqueles que foram levados para os Estados Unidos. Além disso, para Freyre, o mestiço seria o falso negro, aceito culturalmente por se aproximar das características do colonizador. Portanto, há uma valorização do branqueamento da pele e do aculturamento do povo negro. A forma como Freyre retrata a relação entre brancos e negros é utópica, pois faz parecer que não havia qualquer conflito, e somente nessa base ilusória é que se pode admitir o mito da democracia racial. Tudo se passa como se não houvesse luta, não houvesse revolta, não houvesse crime. A existência de quilombos não é explicada, a própria escravidão ganha caráter tão doce que é difícil imaginá-la hedionda e é difícil acreditar que os negros não a desejassem. Tudo é paz, tudo é harmonia, confraternização eterna entre os valores da senzala e da casa- grande (SANTOS, 2002, p. 12). O mito da democracia racial fez com que a questão racial não fosse uma questão central para a sociedade brasileira, embora o racismo esteja presente de forma estrutural em nossa sociedade desde o início da sua formação até os dias atuais (ALMEIDA, 2019). 3. Racismo em números Segundo Silvio Almeida, pode-se conceituar o racismo como “uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento, e que se manifesta } Página 20 por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos, a depender do grupo racial a que pertençam” (ALMEIDA, 2019, p. 32). Por sua vez, Oscar Vilhena Vieira entende o racismo como “uma invenção branca voltada a naturalizar a exclusão, a subordinação e a exploração da população negra, assim como a legitimar a violência contra pretos e pardos, sem a qual a dominação branca não subsistiria” (VIEIRA, 2020). De certo, não se pode admitir a existência de uma democracia racial no Brasil quando se observa a desigualdade, sob qualquer perspectiva, como pessoas negras e não negras experienciam a vida em sociedade. De acordo com o Atlas da violência (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA, 2020), em 2018, os negros (soma de pretos e pardos, segundo classificação do IBGE) representaram 75,7% das vítimas de homicídios, com uma taxa de homicídio de 37,8 por 100 mil habitantes. Por outro lado, entre os não negros (soma de brancos, amarelos e indígenas), a taxa foi de 13,9 por 100 mil habitantes. Isso evidencia que, para cada indivíduo não negro morto em 2018, 2,7 negros foram mortos. Da mesma forma, as mulheres negras representaram 68% do total das mulheres assassinadas no Brasil, com uma taxa de mortalidade de 5,2 por 100 mil habitantes, quase o dobro quando comparada à das mulheres não negras, que foi de 2,8 por 100 mil habitantes. Entre 2008 e 2018, as taxas de homicídio apresentaram um aumento de 11,5% para os negros, enquanto para os não negros houve uma redução de 12,9%. A forma aguda como a violência atinge predominantemente a população negra no Brasil nos remete às reflexões propostas por Achille Mbembe, que, a partir do conceito de biopoder, de Michael Foucault, apresenta o racismo como um instituto que tem “a função de regular a distribuição da morte e tornar possíveis as funções assassinas do Estado”. Nesse contexto, a soberania consiste “no poder e na capacidade de ditar quem pode viver e quem deve morrer”, e os números indicam } Página 21 que a população negra é quem tem sido escolhida para figurar nas fileiras da morte (MBEMBE, 2016, p. 123). A trajetória histórica do nosso país, na qual a libertação do povo negro escravizado os lançou à própria sorte, explica parte do estado de coisas atual, embora não seja a única justificativa (ALMEIDA, 2019). Mas é importante compreender que a liberdade concedida às pessoas negras não representou o fim da escravidão, pois “se é livre para viver a própria vida somente quando se é livre para morrer a própria morte” (MBEMBE, 2016, p. 144). Nessa perspectiva, o racismo estrutural, que permeia toda a nossa sociedade, será determinante como fator de opressão e extermínio do povo negro. No dizer de Almeida, [o] racismo estabelecerá a linha divisória entre superiores e inferiores, entre bons e maus, entre os grupos que merecem viver e os que merecem morrer, entre os que terão a vida prolongada e os que serão deixados para morrer, entre os que devem permanecer vivos e os que serão mortos. E que se entenda que a morte aqui não é apenas a retirada da vida, mas também é entendida como a exposição ao risco da morte, a morte política, a expulsão e a rejeição (ALMEIDA, 2019, p. 115). Mas negros e negras têm resistido à chamada “necropolítica”, termo cunhado por Mbembe para tratar do extermínio do povo negro através da soberania estatal, e tal como o personagem Dorvi, retratado por Conceição Evaristo, na obra Olhos d’água, segue dizendo: “A gente combinamos de não morrer!” (EVARISTO, 2016, p. 99). 4. Os números da violência contra a mulher Ainda de acordo com o Atlas da violência, em 2018, 4.519 mulheres foram assassinadas no Brasil. Isso significa uma mulher assassinada a cada duas horas, indicando uma taxa de 4,3 homicídios para cada 100 mil habitantes do sexo feminino. Os números indicam que houve uma queda de 9,3% entre 2017 e 2018. } Página 22 Em Minas Gerais, no ano de 2018, a taxa de homicídios foi de 3,3 para cada 100 mil habitantes do sexo feminino. Entretanto, no período entre 2008 a 2018, houve um aumento de 4,2% no número de mulheres assassinadas, dado que revela crescimento ainda que haja uma tendência de queda. Embora o Atlas da violência registre a quantidade de homicídios, o estudo não é capaz de mostrar os números específicos da violência doméstica, uma vez que tais informações não constam dos registros utilizados para compor o relatório. Entretanto, o relatório traz duas abordagens que servem como indicativos para apontar o número de feminicídios no Brasil. Analisando o homicídiode mulheres pelo local de ocorrência, observa-se que a taxa de homicídios que se deram fora da residência da vítima não destoa da taxa geral de homicídios e da taxa geral de homicídios de mulheres no país, indicando tendência de queda. Não obstante, a taxa de homicídios de mulheres na residência revela uma constante entre 2008 e 2013, com aumento de 8,3% entre 2013 e 2018, havendo estabilidade entre 2017 e 2018. Tais números demonstram uma dinâmica diversa entre os homicídios de mulheres dentro e fora de suas residências. Considerando tais distinções, o Atlas aponta que 30,4% dos homicídios de mulheres ocorridos em 2018 no Brasil seriam em decorrência de feminicídio – um crescimento de 6,6% em relação a 2017. Embora sejam números que decorrem de uma combinação analítica, aproximam-se daqueles registrados pelas polícias civis, que foi de 29,4%. O Atlas da violência mostra ainda que, entre 2013 e 2018, ao mesmo tempo em que a taxa de homicídios de mulheres fora de casa diminuiu 11,5%, as mortes dentro de casa aumentaram 8,3%, o que é um indicativo do crescimento de feminicídios. Os números revelam que o percentual de mulheres que sofrem a violência dentro da residência é 2,7 vezes o de homens, o que parece evidenciar a dinâmica da violência de gênero, notadamente, do feminicídio. } Página 23 No mesmo período, houve aumento de 25% nos homicídios de mulheres por arma de fogo dentro das residências, que, para os pesquisadores, pode ser um reflexo do crescimento na difusão de armas, que teve um aumento significativo nos últimos anos. 5. Raça e classe como fatores de maior vulnerabilidade O cruzamento dos marcadores de raça, gênero e classe social, também chamado de “interseccionalidade”, faz da mulher preta, pobre e periférica a mais vulnerável dentro do sistema de desigualdades, exigindo maior atenção por parte das autoridades e da rede de proteção quando do atendimento a situações de violência. O conceito de “interseccionalidade” foi cunhado por Kimberlé Crenshaw, em 1989, e, segundo Carla Akotirene, aportada por Patrícia Hill Collins, seria uma espécie de “sistema de opressão interligado” (AKOTIRENE, 2020, p. 21). Surge como categoria analítica a partir da percepção de que o feminismo tradicional lutava contra a opressão da “mulher” tendo como parâmetro a mulher branca das classes alta e média, o que excluía diversas outras mulheres do movimento feminista, sobretudo mulheres negras. “Minha experiência de vida me mostrou duas questões inseparáveis, que, no momento de meu nascimento, dois fatores determinaram meu destino, o fato de eu ter nascido negra e o fato de eu ter nascido mulher” (HOOKS, 2020, p. 35). Com essas palavras, Bell Hooks aponta as categorias raça e gênero como marcadores que definem, antecipadamente, experiências de vida decorrentes de nossa organização social construída em bases sexistas e racistas. Grada Kilomba aponta que mulheres negras descrevem a opressão que experienciam primeiro em relação à raça em vez de em relação ao gênero (KILOMBA, 2019), o que é também descrito por Bell Hooks ao afirmar que mulheres negras do século XX tendem a aceitar o sexismo como algo natural, um fato da vida, diversamente do racismo, que seria uma força mais opressiva em suas vidas } Página 24 (HOOKS, 2020). Tais apontamentos indicam que, para mulheres negras, o racismo é ainda mais opressor do que o sexismo. O discurso de Sojourner Truth, proferido em 1851, durante a Convenção dos Direitos da Mulheres de Ohio, em Akron, é um marco nesse despertar para a necessidade de ampliação da luta pelos direitos das mulheres, de forma a abarcar as vulnerabilidades também das mulheres negras, e não apenas daquelas que representavam o padrão universal – mulheres brancas de classe média e alta. Aqueles homens ali dizem que as mulheres precisam de ajuda para subir em carruagens, e devem ser carregadas para atravessar valas, e que merecem o melhor lugar onde quer que estejam. Ninguém jamais me ajudou a subir em carruagens, ou a saltar sobre poças de lama, e nunca me ofereceram melhor lugar algum! E não sou uma mulher? Olhem para mim? Olhem para meus braços! Eu arei e plantei, e juntei a colheita nos celeiros, e homem algum poderia estar à minha frente. E não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar tanto e comer tanto quanto qualquer homem – desde que eu tivesse oportunidade para isso – e suportar o açoite também! E não sou uma mulher? Eu pari treze filhos e vi a maioria deles ser vendida para a escravidão, e quando eu clamei com a minha dor de mãe, ninguém a não ser Jesus me ouviu! E não sou uma mulher? (TRUTH, 2014). O discurso de Truth denuncia a forma mais acentuada como mulheres negras eram atingidas pelo sexismo em virtude do seu cruzamento com o racismo. Pesquisa realizada em 2020 pelo Instituto Locomotiva indicou que o percentual de mulheres negras em ensino superior com idade entre 25 anos ou mais é de 13% contra 27% de mulheres não negras na mesma faixa etária. Por sua vez, a renda média entre mulheres negras com nível superior é de R$3.067,00 contra uma renda média de 4.566,00 entre mulheres não negras. Ou seja, mulheres não negras com nível superior têm renda média 33% maior do que a de mulheres negras com o mesmo grau de instrução, além de terem mais acesso ao nível superior de ensino do que mulheres negras (LOCOMOTIVA, 2020). A análise sob a perspectiva racial indica, ainda, que mulheres negras e não negras são afetadas de formas diferentes pela violência (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA, 2020). Entre 2017 e 2018, houve queda de 12,3% nos homicídios de mulheres não negras; entre mulheres negras, a redução foi de 7,2%. Já no período entre 2008 e } Página 25 2018, a taxa de homicídios entre mulheres não negras caiu 11,7%, ao passo que a taxa de homicídios entre mulheres negras aumentou 12,4% (INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA, 2020). As oportunidades profissionais das mulheres negras também sofrem os efeitos do racismo. De acordo com pesquisa publicada pela Universidade Duke, nos Estados Unidos, cabelos crespos, que são um traço característico de mulheres negras, reduzem as chances profissionais dessas mulheres, percebidas como menos profissionais do que negras com cabelos alisados (ESTELA; PINTO; ROSETTE, 2020). Ou seja, para ampliar suas chances de conseguir um emprego, mulheres negras devem adotar um padrão estético que as aproxime do padrão estético de mulheres não negras, como, por exemplo, cabelos alisados. O período de escravidão ajudou a construir diversos mitos e estereótipos a respeito da mulher negra, chegando mesmo a descaracterizá-la como mulher. Tais construções foram reforçadas pelo racismo e permanecem até os dias atuais. Um exemplo dessa construção imaginária é a ideia de que a mulher negra é uma mulher “forte”, muitas vezes sequer reconhecida como mulher. Nos Estados Unidos, a ideologia racista branca sempre permitiu que mulheres brancas assumissem que a palavra ‘mulher’ é sinônimo de ‘mulher branca’, porque as mulheres de outras raças são sempre consideradas as Outras, seres desumanizados que não cabem sob o título de ‘mulher’ (HOOKS, 2020, p. 222). No Brasil, pesquisas realizadas pela Fundação Osvaldo Cruz, sob a coordenação da pesquisadora Maria do Carmo Leal, indicaram que mitos e estereótipos a respeito da mulher negra, como o fato de que seriam mais fortes e resistentes à dor, fazem com que essas mulheres sofram mais durante o parto, pois a chance de uma mulher negra não receber anestesia é 50% maior quando comparada com mulheres não negras (RIBEIRO, 2020). Ainda de acordo com a pesquisa da Fiocruz, mulheres negras possuem maior risco de ter um pré-natal inadequado, realizando menos consultas do que o indicado pelo Ministério da Saúde; têm maior peregrinação entre maternidades, buscando } Página 26 mais de um hospitalno momento de internação para o parto, e, frequentemente, estão sozinhas, com ausência de acompanhante durante o parto (RIBEIRO, 2020). Com Akotirene, vale destacar que as opressões não são hierarquizadas (AKOTIRENE, 2020). O que se pretende com o olhar da interseccionalidade é contemplar uma miríade de situações que tornam as mulheres negras mais vulneráveis em virtude de diferentes camadas de opressão, o que demanda soluções complexas e não homogeneizadas. A interseccionalidade é sobre a identidade da qual participa o racismo interceptado por outras estruturas. Trata-se de experiência racializada, de modo a requerer sairmos das caixinhas particulares que obstacularizam as lutas de modo global e vão servir às diretrizes heterogêneas do Ocidente, dando lugar à solidão política da mulher negra, pois que são grupos marcados pela sobreposição dinâmica identitária. É imprescindível, insisto, utilizar analiticamente todos os sentidos para compreendermos as mulheres negras e as ‘mulheres de cor’ na diversidade de gênero, sexualidade, classe, geografias corporificadas e marcações subjetivas (AKOTIRENE, 2020, p. 48). Essa é a proposta que se pretende perseguir. 6. Um olhar negro para o processo Perceber de que forma a intersecção entre gênero, raça e classe social pode tornar a situação de vulnerabilidade das mulheres ainda mais agressiva é importante para que possamos atender adequadamente aquelas que nos chegam em situação de violência. Não obstante, muitas vezes as instituições estatais reproduzem o racismo e o sexismo e agravam ainda mais a situação daquelas que deveriam ser acolhidas pela rede de proteção posta à disposição pelo Estado. A despeito dos direitos humanos permitirem acesso irrestrito, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição, as mulheres negras se veem diante dos expedientes racistas e sexistas das instituições públicas e privadas por lhes negarem primeiro trabalho e, depois, o direito humano de serem reclamantes das discriminações sofridas (AKOTIRENE, 2020, p. 62). } Página 27 Ter consciência desse processo discriminatório negativo é importante para reverter esse quadro; compreender que o racismo pode ser individual, mas que é também e sobretudo institucional, torna-se fundamental para fazer cessar essa engrenagem que destrói a autoestima das mulheres negras, principalmente daquelas em situação de violência doméstica. Além disso, é importante que a narrativa apresentada por qualquer mulher em situação de violência doméstica e, ainda mais, por mulheres negras, seja levada a sério, pois dentro da lógica racista e sexista, a mulher negra é uma mulher silenciada, cuja voz não é ouvida. A partir do questionamento apresentado por Gayatri C. Spivak sobre a possibilidade de uma subalterna falar, Grada Kilomba responde que “é impossível para a subalterna falar ou recuperar sua voz e, mesmo que ela tivesse tentado com toda sua força e violência, sua voz ainda não seria escutada ou compreendida pelos que estão no poder” (KILOMBA, 2019, p. 47). A ausência dessa análise interseccional levou o estado brasileiro a ser condenado pela inobservância da discriminação sofrida por Simone André Diniz. No caso, Simone buscava uma oportunidade profissional e se deparou com um anúncio para vaga de empregada doméstica “de preferência branca”. Em contato com a anunciante, esta confirmou a exigência da “branquitude”. Ao dizer que era negra, Simone foi informada de que não preenchia os requisitos necessários para a vaga. O caso foi judicializado, sendo arquivado pela justiça brasileira, embora a anunciante tenha confirmado a exigência quanto à preferência racial. O caso foi levado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) e resultou na condenação do Brasil por omissão ao permitir que um caso de discriminação racial fosse arquivado sem sequer ter havido uma ação penal. Para a CIDH da OEA, houve o “descumprimento pelo Estado brasileiro de sua obrigação de garantir os direitos consagrados na Convenção Americana, a que se refere o artigo 1(1) de dito tratado”, que dispõe sobre o dever dos estados signatários em respeitar os direitos e liberdades nela reconhecidos e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita } Página 28 à sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivo de raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra natureza, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento ou qualquer outra condição social (PENTEADO, 2006). Na obra Pensando como um negro: ensaio de hermenêutica jurídica, Adilson Moreira (ano 2019) propõe uma hermenêutica jurídica pautada na visão de uma pessoa negra como forma de diminuir os efeitos do racismo estrutural que perpassa as instituições públicas e privadas e que explica, em alguma medida, a razão pela qual muitos processos envolvendo questões raciais não resultam em condenação. Cabe lembrar que, de acordo com pesquisas realizadas pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), a magistratura brasileira é formada predominantemente por homens brancos (CNJ, 2018), havendo apenas 6% de magistradas negras espalhadas por todo o território nacional. Assim, estatisticamente, haverá uma maior probabilidade de que casos de violência doméstica cujas vítimas são majoritariamente mulheres negras sejam julgados por homens brancos. Para que essa diferença não se converta em uma camada a mais de opressão, como aquela evidenciada no caso Simone André Diniz, Moreira propõe que a/o jurista empreenda esforços para pensar como um negro na aplicação da hermenêutica jurídica. Pensar como um negro significa compreender o Direito como um instrumento de transformação social, como algo que pode ter o poder de afirmar a dignidade do povo negro. Isso exige a rejeição de uma perspectiva interpretativa segundo a qual o sistema jurídico existe para manter o consenso sobre formas de organização social. Uma posição dessa natureza não pode ser apoiada por um jurista que pensa como um negro porque essas normas são produtos de relações de poder existentes dentro de uma sociedade (MOREIRA, 2019b, p. 286). Em acréscimo à hermenêutica proposta por Moreira, entendemos necessário pensar como uma mulher negra, com suas múltiplas vulnerabilidades, através de um exercício de empatia, que permita ao/à julgador/a compreender todos os marcadores que atravessam o corpo negro feminino. } Página 29 7. Conclusão Neste breve artigo, procuramos demonstrar as razões pelas quais não se pode admitir o mito da democracia racial, bem como evidenciamos as razões pelas quais é necessário compreender o racismo como um sistema que estrutura as relações de poder. A partir de diversos estudos, demonstramos de que forma o racismo impõe a pessoas negras uma maior vulnerabilidade, que se acentua quando se trata de mulheres negras, em razão da interseccionalidade dos marcadores de gênero, raça e classe social. Por fim, demonstramos que o direito deve ser entendido como um instrumento de transformação social, o que exige um exercício de deslocamento e empatia por parte de quem julga e de toda a rede de atendimento, sob pena de se agravar as violências sofridas por mulheres negras. Dessa forma, esperamos contribuir para o enfrentamento das questões raciais no âmbito do Poder Judiciário, lançando luz sobre questões até então silenciadas e que, cada vez mais, precisam ser debatidas se quisermos construir, de fato, uma sociedade democrática. } Página 30 UNIDADE 3: VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E FAMILIAR CONTRA A MULHER: ABORDAGEM SOB A PERSPECTIVA DA VÍTIMA E DO AGRESSOR Rafaella Amaral de Oliveira3 1. A vitimologia e sua importância na análise da violência doméstica e familiar contra a mulher A criminologia define-se,geralmente, como sendo o estudo do crime e do criminoso, isto é, da criminalidade. Ocupa-se do estudo do delito, do delinquente, da vítima e do controle social do delito e, para tanto, lança mão de um objeto empírico e interdisciplinar. Interessa à criminologia não tanto a qualificação formal correta de um acontecimento penalmente relevante, senão a imagem global do fato e de seu autor: a etiologia do fato real, sua estrutura interna e dinâmica, formas de manifestação, técnicas de prevenção e programas de intervenção junto ao infrator.4 3 Juíza de Direito no Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais. Aprovada no último concurso para a magistratura do Tribunal de Justiça do Estado do Piauí. Ex-Delegada de Polícia e ex-Oficiala de Justiça no Estado de Pernambuco. Mestre em Direito pela Universidade Católica de Pernambuco. Graduada e pós-graduada em Direito pela Associação Caruaruense de Ensino Superior. Graduada em Administração pela Universidade Federal de Pernambuco. 4 SHECAIRA, 2018, p. 32- 39. } Página 31 A vítima, nos dois últimos séculos, foi totalmente menosprezada pelo direito penal. Somente com os estudos criminológicos é que seu papel, no processo penal, foi resgatado. No que concerne ao protagonismo da vítima nos estudos penais, costuma-se dividir os tempos em três grandes momentos: a "idade de ouro" da vítima; a neutralização do poder da vítima; e a revalorização do papel da vítima. A idade de ouro da vítima é aquela compreendida desde os primórdios da civilização até o fim da Alta Idade Média, quando prevalecia a vingança privada - autotutela (Lei de Talião - “Olho por olho, dente por dente”). No início da Baixa Idade Média (Século XII), período marcado pela crise do feudalismo e pelo fim da autotutela e declínio do processo acusatório, houve a ascensão do processo inquisitivo e certa perda do papel da vítima nas relações processuais decorrentes de delitos. Tem-se, assim, a neutralização do poder da vítima, substituída, na resolução dos conflitos penais, pelo soberano (Poder Público). O Estado monopoliza a reação penal, e a pena passa a ser garantia de ordem coletiva, relegando o papel da vítima ao esquecimento. A terceira fase é caracterizada pelo resgate da importância do papel da vítima no processo penal, tendo como marco histórico o pós-Segunda Guerra Mundial, } Página 32 período este marcado pela tentativa de superação das atrocidades cometidas nos campos de concentração nazistas. É considerado como fundador da 3ª fase da vitimologia o advogado israelita Benjamim Mendelsohn, professor da Universidade Hebraica de Jerusalém, em função de uma famosa conferência proferida em Bucareste, em 1947, intitulada “Um horizonte novo na ciência biopsicossocial: a vitimologia”. Também é expoente o livro de Hans Von Hentig, de 1948, divulgado na Universidade de Yale, intitulado O criminoso e sua vítima.5 Dessarte, a vitimologia, enquanto ramo da criminologia, preocupa-se em resgatar a importância da vítima no estudo do fenômeno criminoso, permitindo, por exemplo, avaliar a melhor forma de assistência jurídica, moral psicológica e terapêutica, especialmente naqueles casos em que há violência ou grave ameaça à pessoa, como na violência doméstica e familiar contra a mulher. A vitimologia permite, também, estudar a criminalidade real, por meio de informes facilitados pelas vítimas de delitos não averiguados (cifra negra da criminalidade). A criminalidade oculta ou a cifra negra representa os casos que não chegam ao conhecimento das autoridades públicas, demonstrando que os níveis de criminalidade são maiores do que aqueles oficialmente registrados.6 Essa ocultação pode ser decorrência de um processo de vitimização, por exemplo, quando a vítima não acredita que os órgãos de persecução penal são sérios e que envidarão esforços para solucionar o delito ou, quando a vítima se sente pressionada pelo seio social (ex.: parentes, colegas, família, etc.) a não denunciar o delito sofrido a fim de não expor as relações domésticas e de coabitação. Portanto, de suma importância, principalmente, em se tratando de delitos envolvendo violência doméstica e familiar contra a mulher, fazer uso de estudos vitimológicos a fim de melhor compreender o complexo fenômeno criminoso e possibilitar ajuda psicológica, jurídica, material, dentre outras, adequada à mulher vítima. 5 SHECAIRA, 2018, p. 52-53. 6 MOTA, 2020. } Página 33 2. O problema da revitimização da mulher A Lei nº 11.340/2006 previu, no art. 10-A, procedimentos a fim de mitigar a sobrevitimização da mulher exposta à violência doméstica e familiar. Art. 10-A. É direito da mulher em situação de violência doméstica e familiar o atendimento policial e pericial especializado, ininterrupto e prestado por servidores - preferencialmente do sexo feminino - previamente capacitados. § 1º A inquirição de mulher em situação de violência doméstica e familiar ou de testemunha de violência doméstica, quando se tratar de crime contra a mulher, obedecerá às seguintes diretrizes: I - salvaguarda da integridade física, psíquica e emocional da depoente, considerada a sua condição peculiar de pessoa em situação de violência doméstica e familiar; II - garantia de que, em nenhuma hipótese, a mulher em situação de violência doméstica e familiar, familiares e testemunhas terão contato direto com investigados ou suspeitos e pessoas a eles relacionadas; III - não revitimização da depoente, evitando sucessivas inquirições sobre o mesmo fato nos âmbitos criminal, cível e administrativo, bem como questionamentos sobre a vida privada. § 2º Na inquirição de mulher em situação de violência doméstica e familiar ou de testemunha de delitos de que trata esta Lei, adotar-se-á, preferencialmente, o seguinte procedimento: I - a inquirição será feita em recinto especialmente projetado para esse fim, o qual conterá os equipamentos próprios e adequados à idade da mulher em situação de violência doméstica e familiar ou testemunha e ao tipo e à gravidade da violência sofrida; II - quando for o caso, a inquirição será intermediada por profissional especializado em violência doméstica e familiar designado pela autoridade judiciária ou policial; III - o depoimento será registrado em meio eletrônico ou magnético, devendo a degravação e a mídia integrar o inquérito. Mas como a mulher em situação de violência doméstica ou familiar se expõe ao processo de revitimização? } Página 34 Para responder a essa pergunta, primeiro, precisamos compreender alguns conceitos básicos: Vítima:7 “Pessoa que sofre danos de ordem física, mental e econômica, bem como a que perde direitos fundamentais, seja em razão da violação de direitos humanos, seja por ato de criminosos comuns”; Vitimização primária:8 “[...] normalmente entendida como aquela provocada pelo cometimento do crime, pela conduta violadora dos direitos da vítima – pode causar danos variados, materiais, físicos, psicológicos, de acordo com a natureza da infração, personalidade da vítima, relação com o agente violador, extensão do dano, dentre outros”. Vitimização secundária:9 aquela causada pelo aparelho estatal quando, por exemplo, a mulher vítima busca a tutela do Estado para a solução do problema que vivencia e, tanto na fase de inquérito policial quanto na fase judicial, depara-se com situações constrangedoras ou invasivas, tendo que relatar o acontecido, diante de perguntas, de exames, entre outros, o que acarreta mais sofrimento e dor por reviver ou reavivar os episódios de agressão em sua memória. Vitimização terciária: “ocorre no âmbito dos controles sociais, mediante o contato da vítima com o grupo familiar ou em seu meio ambiente social, como no trabalho, na escola, nas associações comunitárias,na igreja, etc.”. Assim, da chamada vitimização primária, ou seja, da ação ou omissão do agressor, surgem diversos danos sejam eles de ordem física, psíquica ou moral. E, na maioria das vezes, a vitimização se origina das pessoas a quem a mulher deposita confiança, afeto e respeito, conforme aponta a Pesquisa Data Senado (2019),10 sendo os maridos, namorados ou companheiros os principais autores das mais variadas formas de violência doméstica a que a mulher se sujeita no dia a dia, contando com 41% dos casos, seguidos pelos ex-maridos ou ex- companheiros, com 37%. 7 OLIVEIRA, 1993, p. 38. 8 CARVALHO; LOBATO, 2020. 9 MENDES, 2020. 10 BRASIL, Senado Federal, 2020. } Página 35 Ao largo da vitimização primária, a vítima precisa continuar a se relacionar com outras pessoas, colegas, vizinhos, profissionais da área dos serviços sanitários, tais como enfermeiros, médicos, psicólogos e assistentes sociais, e profissionais da área dos serviços judiciais e administrativos, funcionários de instâncias burocráticas, policiais, advogados, promotores de justiça e juízes, podendo, ainda, defrontar-se com o próprio agente agressor ou violador, em procedimentos de reconhecimento, depoimentos ou audiências. Essas situações, se não forem bem conduzidas, podem levar à vitimização secundária, pela qual a vítima, ao relatar o acontecimento traumático, revive-o com alguma intensidade, reexperenciando sentimentos de medo, raiva, ansiedade, vergonha e estigma.11 Assim, na fase policial, a vitimização aparece com maior intensidade por ocasião da realização de exame de corpo de delito nos crimes sexuais e nas declarações prestadas perante a autoridade policial. Já na fase judicial, parece ser a audiência de instrução e julgamento o maior foco de revitimização, tanto antes como durante e depois da oitiva da vítima pelo magistrado. Antes há o constrangimento de, como dito, por vezes aguardar no corredor com o acusado. Durante, devido a ser "bombardeada" de perguntas sobre o 11 TRINDADE, 2007, p. 158. } Página 36 fato delituoso, impregnadas de julgamento, fazendo com que reviva o momento que deseja esquecer. Depois da audiência, fica a vítima sofrendo retaliações por parte do acusado ou mesmo da família dele, sem falar das inúmeras vezes em que precisará receber intimações judiciais levadas a cabo pelos oficiais de justiça, fazendo com que a dor das lembranças, angústias e descrença na resolução célere do delito voltem à tona a cada nova visita do meirinho. É comum, nesses casos, que o oficial de justiça diligencie mais de uma vez à procura da vítima, seja em sua residência ou local de trabalho, abordando familiares ou colegas de profissão à procura de maiores informações acerca do paradeiro dela. Assim, em muitos casos, haverá, mesmo que de forma não intencional, certa exposição da vítima perante seu círculo de convivência, o que poderá gerar vitimização. Portanto, discrição quanto às escolhas da mulher, respeito e empatia são comportamentos que devem ser buscados pelos operadores do sistema de justiça, a fim de minimizar a revitimização da mulher. Por fim, na vitimização terciária, a vítima se depara com o meio social e familiar, no qual, muitas vezes, a mulher vítima de violência não encontra amparo ou assistência da família, que a julga por suas escolhas de vida, ignorando sua “dor”, sem oferecer apoio ou suporte de que tanto necessita. Portanto, é perceptível que a mulher vítima da violência doméstica se encontra em uma posição delicada, necessitando de cuidados mais adequados e especializados, sendo fundamental que Estado, seja pela polícia, seja pelo Judiciário, acolha essa vítima de forma adequada e digna, evitando, ao máximo, revitimizá-la. } Página 37 3. Acesso à justiça e efetivação dos direitos da mulher vítima de violência doméstica Os movimentos feministas, em vários países, têm pressionado a aprovação de leis especiais para o enfrentamento da violência baseada no gênero como meio de criar garantias formais de acesso à justiça e aos direitos das mulheres que se encontram em situação de vulnerabilidade e violência. Nesse cenário, o reconhecimento dos direitos das mulheres como direitos humanos e a elaboração de estratégias para sua promoção e efetivação se deram após a realização de importantes convenções internacionais: a Conferência para Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres – CEDAW (1979), a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher – Convenção de Belém do Pará (1994), além das Conferências Internacionais de Direitos Humanos (Viena, 1993), População (Cairo, 1994) e Mulheres (Beijing, 1995).12 No Brasil, que assinou e ratificou todos esses acordos internacionais, um marco importante foi a Constituição de 1988,, que proporcionou reconhecimento formal a vários direitos de cidadania para as mulheres, refletidos em indicadores nacionais como acesso à educação superior e postos de trabalho com melhores remunerações, dentre outros. No entanto, ainda há muito a avançar, principalmente, no âmbito da efetivação dos direitos, existindo grande celeuma entre os direitos formais positivados e aqueles que, efetivamente, chegam ao alcance de larga parcela da população feminina à margem da cidadania, em especial, as das classes menos favorecidas. Nesse contexto, a Lei nº 11.340/2006 (Lei Maria da Penha) foi bastante aclamada pela comunidade internacional, sendo considerada como uma das leis mais avançadas no enfrentamento à violência contra as mulheres no mundo, 12 PASINATO, 2020. } Página 38 1% 3% 5% 10% 11% 12% 13% 52% Atitude em relação à agressão mais grave sofrida nos últimos 12 meses, Brasil (%) Ligou para a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180) Ligou para a Polícia Militar (Ligue 190) Procurou a igreja Denunciou em delegacia comum Denunciou em Delegacia da Mulher Procurou ajuda de amigos Procurou ajuda da família Não fez nada adotando uma concepção ampla de acesso à justiça e a direitos a partir da perspectiva de gênero ao previr tanto medidas judiciais, quanto extrajudiciais de combate à violência doméstica e familiar contra a mulher. Todavia, o conjunto de políticas públicas nela abrangidas depende, para sua integral efetivação, do compromisso de todos os Poderes em todas as esferas de governo, fortalecendo, assim, a rede de enfrentamento. Conforme dados da pesquisa elaborada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública,13 estampados, adiante, em um gráfico, ilustra-se uma realidade alarmante: das mulheres entrevistadas que narraram ter vivido episódios de violência nos últimos doze meses, somente 25% delas procuraram algum canal dos órgãos de segurança ou proteção à mulher (Delegacias da Mulher, Delegacias comuns, Polícia Militar ou Disque 180); 52% das mulheres vítimas não tomaram absolutamente qualquer providência após serem agredidas e 30% buscaram ajuda de amigos, parentes ou da igreja. 13 FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA, 2020. } Página 39 Assim, é possível concluir que grande parcela da população feminina brasileira é vítima de agressões as mais diversas, praticadas no interior de suas residências ou fora delas, por conhecidos, parentes, pessoas com quem se relacionam. E que a subnotificação, ainda, é muito grande, tornando a percepção da realidade pelos órgãos públicos mascarada pela vergonha e medo ou, até mesmo, pela falta de informações adequadas por parte das mulheres agredidas. Em termos de concretização de direitos e, portanto, de acesso à justiça da mulher vítima de violência doméstica e familiar, alguns resultados positivos podem ser vistos, nos últimos anos, como a ampliação no número de delegacias da mulher, juizados de violência doméstica e familiar, promotorias e defensorias especializadas. Entretanto, vários entraves