Esta é uma pré-visualização de arquivo. Entre para ver o arquivo original
SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................... 3 1. SEGURIDADE SOCIAL NA CONSTITUIÇÃO ...................................... 4 2. SEGURIDADE SOCIAL: EVOLUÇÃO HISTÓRICA ............................. 5 2.1 O Estado e a proteção social ao trabalhador ......................................... 9 3. PRINCÍPIOS DA SEGURIDADE SOCIAL .......................................... 10 4. ESTRUTURA DA SEGURIDADE SOCIAL NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. ........................................................................................... 13 4.1 Saúde .................................................................................................. 16 4.1.1 A execução dos serviços de saúde. O SUS. ....................................... 18 4.1.2 A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) ............................. 20 4.1.3 Objetivos e atribuições do SUS ........................................................... 21 4.1.4 Sobre a vigilância sanitária e epidemiológica ...................................... 22 4.1.5 Sobre a saúde do trabalhador e assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica ........................................................................................ 22 4.1.6 Descentralização da gestão do SUS ................................................... 24 4.2 Assistência social ................................................................................ 24 4.2.1 Financiamento da assistência social ................................................... 26 4.2.2 Princípios e diretrizes .......................................................................... 27 4.2.3 Organização e gestão .......................................................................... 28 4.2.4 Serviços........ ....................................................................................... 29 4.2.5 Programas de assistência social e projetos de enfrentamento da pobreza.......... ...................................................................................... 29 4.3 Previdência social ................................................................................ 30 5. ORGANIZAÇÃO DA SEGURIDADE SOCIAL .................................... 30 5.1 Sistema nacional de seguridade social ................................................ 32 6. FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL ................................. 38 6.1 Sistema contributivo ............................................................................ 41 6.2 Contribuições sociais ........................................................................... 42 6.3 Características gerais .......................................................................... 44 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................... 46 INTRODUÇÃO Prezado aluno, O Grupo Educacional FAVENI, esclarece que o material virtual é semelhante ao da sala de aula presencial. Em uma sala de aula, é raro – quase improvável - um aluno se levantar, interromper a exposição, dirigir-se ao professor e fazer uma pergunta, para que seja esclarecida uma dúvida sobre o tema tratado. O comum é que esse aluno faça a pergunta em voz alta para todos ouvirem e todos ouvirão a resposta. No espaço virtual, é a mesma coisa. Não hesite em perguntar, as perguntas poderão ser direcionadas ao protocolo de atendimento que serão respondidas em tempo hábil. Os cursos à distância exigem do aluno tempo e organização. No caso da nossa disciplina é preciso ter um horário destinado à leitura do texto base e à execução das avaliações propostas. A vantagem é que poderá reservar o dia da semana e a hora que lhe convier para isso. A organização é o quesito indispensável, porque há uma sequência a ser seguida e prazos definidos para as atividades. Bons estudos! 4 1. SEGURIDADE SOCIAL NA CONSTITUIÇÃO Para tratarmos da seguridade social iniciaremos com uma breve conceituação acerca dos direitos sociais. OLIVEIRA (2020) afirma que “os direitos sociais estão vinculados a realizações proporcionadas pelo Estado, sendo elas tratadas em normas constitucionais de forma direta ou indireta. Esses direitos tem por objetivo garantir melhores condições de vida aos mais fracos, na busca da igualdade é necessário por vezes dar tratamento diferenciado para que as diferenças sociais se equalizem. Os direitos sociais podem ser classificados em cinco classes: a) relativos ao trabalhador (arts. 7.º a 11 da CF/88); b) relativos à seguridade social (direito à saúde, à previdência e assistência social – arts. 194 a 204 da CF/88); c) relativos à educação e à cultura (arts. 205 a 217 da CF/88); d) relativos à família, à criança, ao adolescente e ao idoso (arts. 226 a 230 da CF/88); e) relativos ao meio ambiente (art. 225 da CF/88). ” É notório a importância dos direitos sociais, sua objetividade é garantir melhores condições aos mais necessitados e a busca da equidade, sendo a seguridade social um dos meios para garantir esses objetivos. Vejamos uma breve explicação doutrinária: Segundo bem esclarece o Relatório sobre a Seguridade Social de 2009, da Conferência Interamericana de Seguridade Social, os programas de benefícios “têm como objetivo prevenir que pessoas caiam na pobreza através de prover padrões de vida adequados”, protegendo os indivíduos trabalhadores e as pessoas que deles dependem. (CASTRO; LAZZARI, 2020). Seguimos também com uma breve leitura do art. 194 da CF/88: Art. 194. A seguridade social compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, destinadas a assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. Parágrafo único. Compete ao Poder Público, nos termos da lei, organizar a seguridade social, com base nos seguintes objetivos: I - universalidade da cobertura e do atendimento; II - uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações 5 urbanas e rurais; III - seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços; IV - irredutibilidade do valor dos benefícios; V - eqüidade na forma de participação no custeio; VI - diversidade da base de financiamento, identificando-se, em rubricas contábeis específicas para cada área, as receitas e as despesas vinculadas a ações de saúde, previdência e assistência social, preservado o caráter contributivo da previdência social; VII - caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados. (BRASIL, 1988.) 2. SEGURIDADE SOCIAL: EVOLUÇÃO HISTÓRICA O dever do Estado em prover o direito à proteção social tem fundamento nas garantias fundamentais do ser humano. SANTOS (2020) afirma que “a evolução socioeconômica acentua desigualdades não só na comunidade local, mas também na comunidade internacional, sendo assim a pobreza não se trata de apenas um problema individual, mas, sim, social. A maior parte da renda ao se concentrar nas mãos de poucos, produz o efeito de levar uma grande maioria à miséria, a essa grande maioria é impedida de sobreviver com dignidade pois por vezes lhes falta os bens necessários. Ao homem sempre foi atribuída a preocupação de garantir seu sustento e o de sua família em situações de carência econômica, enfermidades, diminuição da capacidade de trabalho, redução ou perda de renda, com relação a essas situações é notório que o homem não consegue sair apenas com o seu esforço individual, necessitando de intervenção do Estado para o amparo e para prevenir e remediar suas necessidades. Os fatores apresentados levaram à busca de instrumentos de proteção contra as necessidades sociais, e consequentemente 6º da LOAS. A vigilância socioassistencial visa analisar territorialmente a capacidade protetiva das famílias e nela a ocorrência de vulnerabilidades, de ameaças, de vitimizações e danos. Neste aspecto, a lei indica que a atividade administrativa de desenvolvimento de projetos sociais deve ser fundada em levantamentos e estudos de bases territoriais, que propiciem o conhecimento das peculiaridades locais e das carências das respectivas comunidades. A defesa de direitos deve garantir o pleno acesso aos direitos no conjunto das provisões assistenciais. A atividade administrativa, para além da execução dos programas assistenciais, deve garantir que a comunidade carente tenha acesso a informações sobre os programas assistenciais disponíveis e, ainda, que seja assistida na defesa desses direitos. Parece-nos que o legislador quis enfatizar que há prestações assistenciais disponíveis, que não se limitam ao benefício de prestação continuada, no valor de um salário mínimo, e que podem ser instrumento de redução de desigualdades sociais. A Assistência Social, a nosso ver, é o instituto que melhor atende o preceito de redução das desigualdades sociais e regionais, porque se destina a combater a pobreza, a criar as condições para atender contingências sociais e à universalização dos direitos sociais. Para enfrentar a pobreza, a Assistência Social efetiva-se por meio de integração às políticas setoriais (art. 2º, parágrafo único). A LOAS está regulamentada pelo Decreto n. 6.214, de 26.09.2007, com sucessivas alterações. A comunidade participa por meio de entidades e organizações de assistência social, que surgem na sociedade atendendo demandas específicas da comunidade carente: são as Organizações Não Governamentais (ONGs). São definidas pelo art. 3º da LOAS como “aquelas sem fins lucrativos que, isolada ou cumulativamente, prestam atendimento e assessoramento aos beneficiários abrangidos por esta lei, bem como as que atuam na defesa e garantia de direitos”. (SANTOS, 2020). 4.2.1 Financiamento da assistência social A assistência social utiliza dos recursos destinados a seguridade social pelo motivo de ser parte integrante dessa seguridade, vejamos um pouco mais bem distinguido sobre o financiamento: O financiamento da Assistência Social é feito com recursos do orçamento da seguridade social, previstos no art. 195, além de outras fontes (art. 204 da 27 CF). O Decreto n. 91.970, de 22.11.1985, instituiu o Fundo Nacional de Ação Comunitária (FUNAC), transformado em Fundo Nacional de Assistência Social (FNAS) pela LOAS (art. 27). O FNAS foi regulamentado pelo Decreto n. 7.788, de 15.08.2012. O financiamento das prestações assistenciais é feito com recursos do FNAS, das contribuições previstas no art. 195 da CF, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios (art. 28 da LOAS). Os recursos de responsabilidade da União são automaticamente repassados ao FNAS, na medida em que se forem realizando as receitas (art. 29). O Sistema Único de Assistência Social — SUAS é financiado pelos 3 entes federados, que devem dirigir os recursos dos fundos de assistência social para a operacionalização, prestação, aprimoramento e viabilização dos serviços, programas, projetos e benefícios do sistema. O repasse dos recursos aos Estados, aos Municípios e ao Distrito Federal só ocorre se cada uma dessas esferas de governo instituir Conselho de Assistência Social — com composição paritária entre governo e sociedade civil —, e Fundo de Assistência Social e Plano de Assistência Social — com orientação e controle do respectivo Conselho de Assistência Social. E, a partir de 1999, esses entes públicos devem comprovar a existência, nos respectivos orçamentos, de previsão dos recursos próprios destinados à Assistência Social, alocados em seus respectivos Fundos de Assistência Social (art. 30). O parágrafo único do art. 204 da CF, incluído pela EC n. 42, de 19.12.2003, facultou aos Estados e ao Distrito Federal vincular até cinco décimos por cento de sua receita tributária líquida a programa de apoio à inclusão e promoção social. Restou proibido que tais recursos sejam utilizados no pagamento de despesas com pessoal e encargos sociais, serviço da dívida e qualquer outra despesa corrente não vinculada diretamente aos investimentos e ações apoiados (SANTOS, 2020). 4.2.2 Princípios e diretrizes Seguindo a doutrina SANTOS (2020) explica que “a assistência social se sujeita aos mesmos princípios que regem a seguridade social por ser um dos entes que a compõe, porém devem ser observadas algumas regras específicas, os arts. 203 e 204, da Constituição, e o art. 4º, da LOAS, constituem regras que orientam as políticas públicas destinadas à cobertura pela assistência social, essas regras estão amparadas, pelo respeito ao princípio da dignidade da pessoa humana. Para a efetiva concessão da cobertura assistencial, o respeito à dignidade do cidadão, à sua autonomia e ao seu direito a benefícios e serviços de qualidade são exigências da norma vigente.” 28 Insta salientar: A assistência social não pode ser imposta, mas, sim, prestada em razão da vontade manifestada do necessitado, quando suas condições pessoais o permitirem. Da assistência social não pode resultar discriminação de nenhuma espécie em relação à pessoa assistida. Não se pode perder de vista que se busca a justiça social, de modo que as ações assistenciais não podem acentuar desigualdades sociais, mas, sim, devem reduzi-las. Importante frisar que a lei proíbe qualquer comprovação vexatória de necessidade (art. 4º, III). A transparência da utilização dos recursos destinados ao financiamento da assistência social está prevista no inc. V, que impõe a ampla divulgação dos benefícios, serviços e projetos assistenciais e dos critérios para sua concessão. As diretrizes da organização da assistência social estão no art. 5º da LOAS: descentralização político-administrativa, participação da população e primazia da responsabilidade do Estado na condução da política de assistência social. (SANTOS, 2020). 4.2.3 Organização e gestão Dando seguimento aos ensinamentos, vejamos a organização e gestão da assistência social: O sistema de Assistência Social é descentralizado e participativo, denominado Sistema Único de Assistência Social (SUAS) pela Lei n. 12.435/2011, que alterou a organização e gestão do sistema. Com a criação do SUAS, de forma semelhante ao Sistema Único de Saúde (SUS), pretendeu a Lei n. 12.435/2011 aperfeiçoar o serviço de Assistência Social, integrando serviços públicos e privados, definindo com mais detalhes as responsabilidades das entidades participantes do sistema, de modo a tornar efetiva a proteção social garantida pelo art. 203 da Constituição. O SUAS é composto dos entes federativos — União, Estados, Distrito Federal e Municípios, dos respectivos conselhos de assistência social e das organizações de assistência social. As entidades e organizações privadas vinculadas ao SUAS podem, assim como ocorre no SUS, celebrar convênios, contratos, acordos, ou ajustes com o Poder Público, com garantia de financiamento integral com recursos públicos, para execução das ações de assistência social. Cabe ao Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome a coordenação da Política Nacional de Assistência Social. O SUAS tem umconjunto de instâncias deliberativas compostas dos diversos setores envolvidos na área. A descentralização obedece ao comando constitucional e foi definida pelo art. 11 da LOAS: as ações governamentais são articuladas, cabendo a coordenação e as normas gerais à esfera federal. O s Estados, o Distrito Federal e os Municípios, nas suas respectivas áreas, coordenam e executam os programas assistenciais. Os arts. 12 a 15 discriminaram as competências de cada uma das esferas de governo. As instâncias deliberativas do SUAS são: o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS), os Conselhos Estaduais de Assistência Social (CEAS), o Conselho de Assistência Social do Distrito Federal (CASDF) e os Conselhos Municipais de Assistência Social (CMAS), todos com caráter permanente e composição paritária entre governo e sociedade civil (art. 16). O CNAS é vinculado ao 29 Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. É o órgão superior de deliberação colegiada cuja composição está prevista no § 1º do art. 17: 18 membros e respectivos suplentes, sendo 9 representantes governamentais e 9 representantes da sociedade civil. São da competência do CNAS, dentre outras: aprovar a Política Nacional de Assistência Social, normatizar e regular a prestação de serviços de natureza pública e privada no campo da assistência social, acompanhar e fiscalizar o processo de certificação das entidades e organizações de assistência social no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome e zelar pela efetivação do sistema descentralizado e participativo de assistência social (art. 18). (SANTOS, 2020). 4.2.4 Serviços Em relação ao LOAS, os serviços previstos são socioassistenciais, e o artigo 23 da lei de nº 8.742, de 7 de dezembro de 1993, diz que estes são “as atividades continuadas que visem à melhoria de vida da população e cujas ações, voltadas para as necessidades básicas, observem os objetivos, princípios e diretrizes”. “A organização desses serviços deve voltar-se com prioridade à infância e à adolescência em situação de risco pessoal e social, e em situação de rua, para cumprir o disposto no art. 227 da CF e na Lei n. 8.069, de 13.07.1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente).” (BRASIL, 1993) 4.2.5 Programas de assistência social e projetos de enfrentamento da pobreza A assistência social tem grande relevância na busca pela erradicação da pobreza, vejamos acerca dos programas de assistência social: Os programas de assistência social compreendem ações integradas e complementares, cujos objetivos, tempo e área de abrangência devem ser definidos para qualificar, incentivar e melhorar os benefícios e serviços assistenciais (art. 24). Cabe aos respectivos CAS definir esses programas, com prioridade para a inserção profissional e social. Quando voltados para o idoso e a pessoa com deficiência, devem ser articulados com o BPC. São exemplos: Programa de Combate à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, Programas de Atenção à Pessoa Idosa, Programa Agente Jovem de Desenvolvimento Social e Humano, Programa de Complementação ao Atendimento Educacional Especializado às Pessoas Portadoras de Deficiência (PAED). Os arts. 24-A, 24-B e 24-C da LOAS, incluídos pela Lei n. 12.435/2011, instituíram, respectivamente, o Serviço de Proteção e Atendimento Integral à Família — Paif, o Serviço de Proteção e Atendimento Especializado a Famílias e Indivíduos — Paefi e o Programa de Erradicação do Trabalho Infantil — Peti. Os projetos de enfrentamento da 30 pobreza, previstos nos arts. 25 e 26, compreendeminvestimento econômico- social nos grupos populares; sua finalidade é subsidiar, financeira e tecnicamente, iniciativas que garantam meios, capacidade produtiva e de gestão para melhoria das condições gerais de subsistência, elevação do padrão de qualidade de vida, a preservação do meio ambiente e sua organização social. Para a realização desses projetos, haverá ação articulada e participação de diferentes áreas governamentais, com a cooperação entre organismos governamentais, ONGs e sociedade civil. São exemplos: Programa Bolsa Família, Programa Fome Zero, Programa de Atenção Integral à Família, Programa Dinheiro Direto na Escola, Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). (SANTOS, 2020). 4.3 Previdência social A Previdência Social, com a promulgação da Constituição Federal de 1988, se consolidou como a única categoria de proteção social que requer contribuição dos segurados como condição para ampará-los. Cabe a União o dever de assegurar o Regime Geral de Previdência Social, de caráter contributivo e de filiação obrigatória, cabendo a observação de critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial. Sobre o artigo 201 da CF vejamos um breve comentário: O art. 201 da CF traz as formas de atendimento da Previdência Social, quais sejam: a) cobertura dos eventos de incapacidade temporária ou permanente para o trabalho e idade avançada; b) salário-maternidade; c) proteção ao trabalhador em situação de desemprego involuntário; d) salário-família e auxílio-reclusão para os dependentes dos segurados de baixa renda; e e) pensão por morte do segurado, homem ou mulher, ao cônjuge ou ao companheiro e aos seus dependentes, não inferior ao salário mínimo quando se tratar da única fonte de renda auferida pelo conjunto de dependentes. (AGOSTINHO, 2020). A Previdência Social, de caráter contributivo, deve atender aos nela inscritos, concedendo diversos benefícios e não apenas aposentadoria, pois tem por objetivo também proporcionar meios indispensáveis de subsistência ao segurado e à sua família, quando ocorrerem certas contingências previstas em lei (AGOSTINHO, 2020). 5. ORGANIZAÇÃO DA SEGURIDADE SOCIAL A seguridade social possui sua organização legislada na norma 8.212/1991, segue uma breve introdução doutrinária: 31 A Seguridade Social, segundo o conceito ditado pela ordem jurídica vigente, compreende um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade nas áreas da saúde, previdência e assistência social, conforme previsto no Capítulo II do Título VIII da Constituição Federal, sendo organizada em Sistema Nacional, que é composto por conselhos setoriais, com representantes da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e da sociedade civil. A Lei n. 8.212/1991 dispõe sobre a organização da Seguridade Social, mas, segundo Wladimir Novaes Martinez, “o legislador fica devendo as normas sobre a efetivação da seguridade social, por falta de definição política e reconhecida incapacidade de efetivamente atender as diretrizes constitucionais da ambiciosa matéria. Seguridade social é uma técnica de proteção social avançada em relação à Previdência Social, capaz de integrá-la com a assistência social e incorporar as ações de saúde. Mas, mais ainda, é um esforço nacional extraordinário no sentido de um amplo atendimento à população, obreira ou não, empenho cujos objetivos estão a distância”. (CASTRO; LAZZARI, Apud MARTINEZ, 2020) Podemos dizer, que a Seguridade Social se encontra na ordem jurídica vigente como um conjunto integrado de ações de iniciativa dos poderes públicos e da sociedade nas áreas da saúde, previdência e assistência social. Sobre a estrutura administrativa, sua atribuição é executar as políticas no âmbito da segurança social, incluída na estrutura do Poder Executivo. Com relação ao cumprimento das atribuições que competem à União em matéria de Seguridade Social, a responsabilidade para exercício desse dever é cabível aos Ministérios da área social. Há os Conselhos setoriais – de Previdência (CNP), da Saúde (CNS) e da Assistência Social (CNAS) –, que atendem ao objetivo da gestão quadripartite da Seguridade Social. Na estrutura do Ministério da Economia, vinculados a este, ainda há o INSS, como autarquia federal, a Superintendência Nacional de Previdência Complementar – PREVIC, autarquia de natureza especial, e a DATAPREV, como empresa pública, responsável pela gestão dos bancos de dados informatizados. Insta salientar que a organização é de competência exclusiva do Poder Público e suas ações compõem uma sociedade de forma integrada. A Seguridade Social não está vinculada a um conjunto de ações independentes e estanques na área de saúde, previdência e assistência social, as suas diferentes áreas devem atuar de forma articulada e integrada, embora possuam autonomia e certas peculiaridades. Abordado acerca da organização da seguridade social e a competência para 32 essa organização seguimos sobre os órgãos. 5.1 Sistema nacional de seguridade social Atualmente, a legislação que trata sobre a organização da Seguridade Social, é a Lei n. 8.212/1991, que dispõe sobre a organização da Seguridade Social, institui Plano de Custeio, e dá outras providências; e também a Instrução Normativa de nº 128, publicada recentemente, em março de 2022, que disciplina as regras, procedimentos e rotinas necessárias à efetiva aplicação das normas de direito previdenciário. Na estrutura do Poder Executivo, o cumprimento das atribuições que competem à União em matéria de Seguridade Social são de responsabilidade dos ministérios da área social. Havendo ainda os Conselhos setoriais – de Previdência (CNP), da Saúde (CNS) e da Assistência Social (CNAS), que atendem ao objetivo da gestão quadripartite da Seguridade Social. Antes de prosseguirmos é importante ressaltar sobre a gestão da seguridade social que é feita de forma descentralizada. “A gestão da Seguridade Social está baseada em órgãos colegiados, em estrito cumprimento ao disposto no art. 194, parágrafo único, inciso VII, da Constituição Federal.” (CASTRO; LAZZARI. 2020) Esse artigo estabelece o “caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados”. (BRASIL, 1988). Sobre a gestão da seguridade social é importante a observância de outras normas: As Leis n. os 8.212/1991 e 8.213/1991 foram as responsáveis pela instituição dos Conselhos de Seguridade Social e Previdência Social, respectivamente, órgãos de deliberação colegiada, com a participação da União, dos Estados, do Distrito Federal, dos Municípios e de representantes da sociedade civil, e a Lei n.º 8.742/1993, pelo Conselho Nacional de Assistência Social. Entretanto, parte dessa estrutura deixou de existir com a Medida Provisória n.º 1.799-5, de 13.05.1999, e suas reedições (atualmente, Medida Provisória n.º 2.216-37, de 31.08.2001, que se manterá vigente até deliberação do Congresso Nacional sobre a matéria, conforme disposto no art. 2.º da Emenda Constitucional n.º 32, de 2001), extinguindo-se o Conselho Nacional 33 de Seguridade Social e os Conselhos Estaduais, Distrital e Municipais de Previdência Social. Aos órgãos em questão foram ou são atribuídas funções importantes, delimitadas nas leis instituidoras e nos seus regimentos, como veremos a seguir. (CASTRO; LAZZARI, 2020). Seguimos com a doutrina para tratar em específico sobre os conselhos setoriais iniciando pelo CNAS: O CNAS, criado pela Lei n. 8.742/1993 como órgão superior de deliberação colegiada, é vinculado à estrutura da Administração Pública Federal responsável pela coordenação da Política Nacional de Assistência Social – atualmente, o Ministério do Desenvolvimento Social. As instâncias deliberativas do sistema descentralizado e participativo de Assistência Social são de caráter permanente e de composição paritária entre Governo e sociedade civil, as quais estão previstas na Lei Orgânica da Assistência Social (Lei n. 8.742/1993), da seguinte forma: o Conselho Nacional de Assistência Social; os Conselhos Estaduais de Assistência Social; o Conselho de Assistência Social do Distrito Federal; os Conselhos Municipais de Assistência Social. A instituição desses Conselhos é feita mediante lei específica a cargo desses entes federativos, sendo que muitos deles se encontram em funcionamento. O CNAS é o órgão da Administração Pública Federal responsável pela coordenação da Política Nacional da Assistência Social, composto por dezoito membros e respectivos suplentes, sendo: nove representantes governamentais, incluindo um representante dos Estados e um dos Municípios; nove representantes da sociedade civil, dentre representantes dos usuários ou de organizações de usuários, das entidades e organizações de assistência social e dos trabalhadores do setor, escolhidos em foro próprio sob fiscalização do Ministério Público Federal. A composição do CNAS está prevista no art. 17 da Lei n. 8.742/1993, sendo que seus membros são nomeados pelo Presidente da República, para um mandato de dois anos, permitida uma única recondução à função por igual período. Neste Conselho, mesmo os representantes do Governo são detentores de mandato. A presidência do Conselho é exercida por um de seus integrantes, eleito dentre seus membros, para mandato de um ano, permitida uma única recondução à Presidência, por igual período. O CNAS possui a seguinte competência: aprovar a Política Nacional de Assistência Social; normatizar as ações e regular a prestação de serviços de natureza pública e privada no campo da assistência social; acompanhar e fiscalizar o processo de certificação das entidades e organizações de assistência social no Ministério do Desenvolvimento Social; apreciar relatório anual que conterá a relação de entidades e organizações de assistência social certificadas como beneficentes e encaminhá-lo para conhecimento dos Conselhos de Assistência Social dos Estados, Municípios e do Distrito Federal; zelar pela efetivação do sistema descentralizado e participativo de assistência social; convocar ordinariamente a cada quatro anos a Conferência Nacional de Assistência Social, que terá a atribuição de avaliar a situação da assistência social e propor diretrizes para o aperfeiçoamento do sistema; apreciar e aprovar a proposta orçamentária da Assistência Social a ser encaminhada pelo Ministério; aprovar critérios de transferência de recursos para os Estados, Municípios e Distrito Federal, considerando, para tanto, indicadores que informem sua regionalização mais equitativa, tais como: população, renda per capita, mortalidade infantil e concentração de renda, além de disciplinar os procedimentos de repasse de recursos para as entidades e organizações de assistência social, sem prejuízo das disposições da Lei de 34 Diretrizes Orçamentárias; acompanhar e avaliar a gestão dos recursos, bem como os ganhos sociais e o desempenho dos programas e projetos aprovados; estabelecer diretrizes, apreciar e aprovar os programas anuais e plurianuais do Fundo Nacional de Assistência Social – FNAS; indicar o representante do Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS junto ao Conselho Nacional de Seguridade Social – CNSS (sem eficácia a partir da edição da Medida Provisória n. 1.799-5, de 13.5.1999, e suas reedições, atualmente, Medida Provisória n. 2.216-37, de 31.8.2001, que se manterá vigente até deliberação do Congresso Nacional sobre a matéria, conforme disposto no art. 2º da Emenda Constitucional n. 32 de 2001, por ter sido extinto o CNSS); elaborar e aprovar seu regimento interno; divulgar, no Diário Oficial da União, todas as suas decisões, bem como as contas do Fundo Nacional de Assistência Social – FNAS e os respectivos pareceres emitidos. (CASTRO; LAZZARI, 2020) Sobre o CNP explica a doutrina: O CNP é órgão superior de deliberação colegiada, composto de representantes do Governo Federal e da sociedade civil, num total de quinze membros, conforme previsto no art. 3º da Lei n. 8.213/1991, dos quais seis representantes do Governo Federal e nove representantes da sociedade civil, sendo destes: três representantes dos aposentados e pensionistas, três representantes dos trabalhadores em atividade e três representantes dos empregadores. Cabe ao Presidente da República nomear os membros do Conselho Nacional de Previdência e seus respectivos suplentes, tendo os representantes titulares da sociedade civil mandato de dois anos, podendo ser reconduzidos, de imediato, uma única vez. Como ocorria no CNSS, os representantes do Governo não possuem mandato. A indicação dos representantes dos trabalhadores em atividade, dos aposentados, dos empregadores e seus respectivos suplentes é feita pelas centrais sindicais e confederações nacionais – art. 3º, § 2º, da Lei n. 8.213/1991. Observe-se, por oportuno, que a Lei de Benefícios é o primeiro diploma legal a reconhecer as centrais sindicais como entidades legítimas para a representação da classe trabalhadora, paralelamente ao chamado sistema confederativo, criado com a Consolidação das Leis do Trabalho e mantido pelo texto constitucional vigente – art. 8º, IV. Compete ao CNP, segundo as disposições do art. 4º da Lei n. 8.213/1991 e do art. 296 do Decreto n. 3.048/1999: estabelecer diretrizes gerais e apreciar as decisões de políticas aplicáveis à Previdência Social; participar, acompanhar e avaliar, sistematicamente, a gestão previdenciária; apreciar e aprovar os planos e programas da Previdência Social; apreciar e aprovar as propostas orçamentárias da previdência social, antes de sua consolidação na proposta orçamentária da Seguridade Social; acompanhar e apreciar, mediante relatórios gerenciais por ele definidos, a execução dos planos, programas e orçamentos no âmbito da previdência social; acompanhar a aplicação da legislação pertinente à previdência social; apreciar a prestação de contas anual a ser remetida ao Tribunal de Contas da União, podendo, se for necessário, contratar auditoria externa; estabelecer os valores mínimos em litígio, acima dos quais será exigida a anuência prévia do Procurador-Geral ou do Presidente do Instituto Nacional do Seguro Social para formalização de desistência ou transigência judiciais, conforme o disposto no art. 353 do Decreto n. 3.048/1999; elaborar e aprovar seu regimento interno; aprovar os critérios de arrecadação e de pagamento dos benefícios por intermédio da rede bancária ou por outras formas; e acompanhar e avaliar os trabalhos de implantação e manutenção do 35 Cadastro Nacional de Informações Sociais. Competia, ainda, ao CNP a supervisão dos extintos Conselhos Estaduais e Municipais, órgãos de deliberação colegiada, subordinados ao CNPS, conforme previsto no art. 7º da Lei n. 8.213, de 24.7.1991. As reuniões do CNP se realizam, ordinariamente, uma vez por mês, por convocação de seu Presidente. É admitida a realização de reunião extraordinária mediante a convocação do Presidente do Conselho ou a requerimento de um terço de seus membros, conforme dispõe seu regimento interno e são iniciadas com a presença da maioria absoluta dos membros do Conselho, sendo exigida para deliberação a maioria simples de votos. As ausências ao trabalho dos representantes dos trabalhadores em atividade, decorrentes das atividades do CNP, serão abonadas, computando-se como jornada efetivamente trabalhada para todos os fins e efeitos legais. A lei prevê garantia do emprego para os representantes dos trabalhadores eleitos para o CNP, desde a nomeação até um ano após o término do mandato de representação, somente podendo ter o contrato de trabalho extinto pelo empregador por motivo de falta grave, regularmente comprovada mediante processo judicial – art. 3º, § 7º, da Lei n. 8.213/1991. Trata-se, pois, de hipótese de estabilidade absoluta conferida ao trabalhador integrante do Conselho, de modo que, durante o exercício do mandato e até um ano após o término deste, o empregado só pode ser dispensado por justa causa, e, mesmo assim, após o ajuizamento, pelo empregador, da ação intitulada 9.5 inquérito para apuração de falta grave (art. 494 da CLT), cujo prazo – decadencial, de trinta dias – e rito estão previstos nos arts. 853 a 855 da mesma Consolidação. Caso seja dispensado, sem justo motivo, o trabalhador terá direito à reintegração no emprego, com todas as vantagens do período de afastamento. Aos órgãos governamentais cabe prestar toda e qualquer informação necessária ao adequado cumprimento das competências do CNP, fornecendo inclusive estudos técnicos, e encaminhar ao CNP, com antecedência mínima de dois meses do seu envio ao Congresso Nacional, a proposta orçamentária da Previdência Social, devidamente detalhada. As decisões tomadas pelo CNP, no âmbito de suas atribuições, são baixadas por resoluções e publicadas no Diário Oficial da União. (CASTRO; LAZZARI. 2020) O Conselho Nacional de Previdência Complementar – CNPC é o atual órgão que possui como função regular o regime de previdência complementar administrado pelas entidades fechadas de Previdência Complementar, nova denominação do Conselho de Gestão da Previdência Complementar. ” Importante também tratar sobre sua criação: “Criado pelo Decreto n. 7.123/2010, juntamente com a Câmara de Recursos da Previdência Complementar – CRPC, para substituir o extinto Conselho de Gestão da Previdência Complementar – CGPC. ” (AGOSTINHO, 2020). Vejamos também a estrutura do CNPC: O CNPC é composto por seis representantes do setor público e três do setor privado, sendo o Ministro de Estado da Previdência Social o presidente (atualmente, a Previdência faz parte do Ministério Economia, motivo pelo qual o atual Presidente do CNPC é o Ministro da Economia). Os demais membros são compostos da seguinte forma: Representante da Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc); Representante da Casa 36 Civil; Representante da Secretaria de Políticas de Previdência Complementar (SPPC) do Ministério da Previdência; Representante do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão; Representante da Secretaria Especial de Fazenda; Representante das Entidades Fechadas de Previdência Complementar; Representante dos Patrocinadores e Instituidores dos planos de benefícios das Entidades Fechadas de Previdência Complementar; Representante dos Participantes e Assistidos dos planos de benefícios das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (AGOSTINHO, 2020). Conselho Nacional de previdência Social: O Conselho nacional de previdência social pode ser compreendido como o órgão superior de deliberação colegiada, que tem como principal objetivo estabelecer o caráter democrático e descentralizado da administração, em cumprimento ao disposto no art. 194 da Constituição, com a redação dada pela EC n. 20/98, que preconiza uma gestão quadripartite, com a participação do Governo, dos trabalhadores em atividade, dos empregadores e dos aposentados. Criado pela Lei n. 8.213, de 24 de julho de 1991, o Conselho de Previdência vem, ao longo do tempo, aprimorando sua atuação no acompanhamento e na avaliação dos planos e programas que são realizados pela administração, na busca de melhor desempenho dos serviços prestados à clientela previdenciária. Sobre os membros que compõe o CNPS: Segundo a Lei n. 8.213/91, em seu art. 3º, o CNPS terá como membros os seguintes indivíduos: • Seis representantes do Governo Federal; • Nove representantes da sociedade civil, sendo: a) três representantes dos aposentados e pensionistas; b) três representantes dos trabalhadores em atividade; c) três representantes dos empregadores. (...). Os membros do CNPS e seus respectivos suplentes serão nomeados pelo Presidente da República, tendo os representantes titulares da sociedade civil mandato de dois anos, podendo ser reconduzidos, de imediato, uma única vez (AGOSTINHO, 2020). Conselho de recursos da previdência social – CRPS: O Conselho de Recursos da Previdência Social – CRPS é órgão colegiado instituído para exercer o controle jurisdicional das decisões do Instituto Nacional do Seguro Social – INSS nos processos de interesse dos beneficiários do Regime Geral de Previdência Social e das empresas; e nos relacionados aos benefícios assistenciais de prestação continuada previstos no art. 20 da Lei n. 8.742/93. O CRPS desempenha uma função essencial perante a sociedade, em defesa do interesse público, visando à concessão 37 de benefícios àqueles beneficiários/recorrentes que detenham o direito postulado. Representa uma via importante para a solução de conflitos, considerandose a inexistência de custas processuais; o rito administrativo mais célere, norteado especialmente pelos princípios da legalidade e da verdade material; a capilaridade do Órgão em todo o território nacional, e aplicação do sistema eletrônico como instrumento de transparência, maior controle, gestão e qualidade da prestação jurisdicional (AGOSTINHO, 2020). Acerca da composição do CRPS: “29 Juntas de Recursos, situadas nos Estados da Federação, para fins de julgar os recursos ordinários interpostos contra as decisões do INSS. “ (AGOSTINHO, 2020) Também integram a composição do CRPS: 4 Câmaras de Julgamento, sediadas em Brasília-DF, para julgar os recursos especiais interpostos contra as decisões proferidas pelas Juntas de Recursos. Conselho Pleno, com competência para: I – uniformizar, em tese, a jurisprudência administrativa previdenciária e assistencial, mediante emissão de Enunciados (art. 3º, I, e arts. 61 e 62 do RI); II – uniformizar, no caso concreto, as divergências jurisprudenciais entre as Juntas de Recursos nas matérias de sua alçada; ou entre as Câmaras de julgamento, em sede de Recurso Especial, mediante a emissão de Resolução; e III – decidir, no caso concreto, as Reclamações ao Conselho Pleno, mediante a emissão de Resolução (art. 3º, II, e art. 63 do RI). (AGOSTINHO, 2020) Conselho Administrativo de Recursos Fiscais - CARF: O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais – CARF foi criado pela MP n. 449/2008, convertida na Lei n. 11.941, de 27 de maio de 2009, e instalado mediante Portaria MF n. 41, de 2009, cujo Regimento Interno foi aprovado pela Portaria MF n. 256, de 22 de junho de 2009. O objetivo do órgão é assegurar à sociedade imparcialidade e celeridade na solução dos litígios tributários. Por fim tratatermos da autarquia federal INSS: O Instituto Nacional do Seguro Social – INSS, autarquia federal, com sede e foro no Distrito Federal, foi instituído com base na Lei n. 8.029, de 12.4.1990, com as alterações promovidas pela Lei n.º 11.457, de 16.03.2007, tem por finalidade promover o reconhecimento de direito ao recebimento de benefícios administrados pela Previdência Social, assegurando agilidade, comodidade aos seus usuários e ampliação do controle social, cabendo-lhe: conceder e manter os benefícios e serviços previdenciários e o benefício de prestação continuada (BPC/LOAS); emitir certidões relativas a tempo de contribuição perante o Regime Geral de Previdência Social; gerir os recursos do Fundo do Regime Geral de Previdência Social; e calcular o montante das contribuições incidentes sobre a remuneração e demais rendimentos dos trabalhadores, devidas por estes, pelos empregadores domésticos e pelas empresas com vistas à concessão ou revisão de benefício requerido. Por força da Lei n. 11.457/2007, foi transferida do então Ministério da Previdência Social para a Secretaria da Receita Federal do Brasil, órgão subordinado ao 38 Ministério da Fazenda, a competência para arrecadar, fiscalizar, lançar e normatizar o recolhimento das contribuições sociais previstas nas alíneas a, b e c do parágrafo único do art. 11 da Lei n. 8.212, de 24.7.1991, e das contribuições instituídas a título de substituição e, ainda, as contribuições devidas a terceiros, que antes eram arrecadadas pela Secretaria da Receita Previdenciária. A referida norma extinguiu a Secretaria da Receita Previdenciária, que era composta pelos Departamentos de Administração da Receita Previdenciária, de Fiscalização da Receita Previdenciária e de Informações Estratégicas. O INSS passou a se dedicar às atividades de prestação de serviços aos beneficiários da Previdência Social, concentrando sua atividade na concessão, manutenção e pagamento de benefícios. Com as mudanças na estrutura administrativa promovidas pelo governo do Presidente Michel Temer, em 2016 a Previdência Social perdeu o status de Ministério e o INSS passou a integrar o Ministério do Desenvolvimento Social (Lei n. 13.341, de 29.9.2016, e alterações posteriores). Foi criada ainda uma Secretaria de Previdência vinculada ao então denominado Ministério da Fazenda com a finalidade de promover uma grande reforma nas regras de concessão de benefícios do RGPS e dos RPPS. Atualmente, há uma Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, que integra o Ministério da Economia. O INSS, autarquia vinculada atualmente ao Ministério da Economia, é organizado na seguinte estrutura (Decreto n.º 9.746, de 08.04.2019): I – órgãos de assistência direta e imediata ao Presidente do Instituto Nacional do Seguro Social: a) Gabinete; b) Assessoria de Comunicação Social; e c) Coordenação-Geral de Projetos Estratégicos e Inovação; II – órgãos seccionais: a) Procuradoria Federal Especializada; b) Auditoria-Geral; c) Corregedoria-Geral; d) Diretoria de Gestão de Pessoas e Administração; e) Diretoria de Tecnologia da Informação e Inovação; e f) Diretoria de Integridade, Governança e Gerenciamento de Riscos; III – órgãos específicos singulares: a) Diretoria de Benefícios; e b) Diretoria de Atendimento; e IV – unidades descentralizadas: Superintendências Regionais. 9.3 9.4 Entendemos que essa reorganização visa retirar o caráter “social” da Previdência para dar um perfil “econômico”, voltado mais a atender as exigências do “mercado financeiro” e cada vez menos as necessidades da população que necessita da proteção previdenciária. (CASTRO; LAZZARI, 2020) . 6. FINANCIAMENTO DA SEGURIDADE SOCIAL O financiamento da seguridade social possui previsão no artigo 195 da CF/88, a redação do art. 195 da Constituição brasileira em seu caput estabelece que a seguridade social será custeada por toda a sociedade, sendo de modo indireto e direto, nos limites da lei, por meio de recursos advindos de orçamentos da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. AGOSTINHO (2020) ressalta que “acrescenta-se a essa forma de custeio conforme regulamentado pela Lei n. 8.212/91 e pelo Decreto n. 3.048/99 as contribuições do empregador, da empresa e da entidade a ela equiparada na forma da lei, incidentes sobre a folha de salários e demais rendimentos do trabalho pagos ou creditados, a qualquer título, à pessoa física que 39 lhe preste serviço, mesmo sem vínculo empregatício; a receita ou o faturamento; o lucro; Também as contribuições do trabalhador e os outros segurados da previdência social, há a possibilidade de serem adotadas alíquotas progressivas de acordo com o valor do salário de contribuição, não incidindo contribuição sobre aposentadoria e pensão concedidas pelo Regime Geral de Previdência Social; Outra contribuição é a receita de concursos de prognósticos; Por fim a contribuição do importador de bens ou serviços do exterior, ou também daquele que a lei equiparar. A lei complementar federal poderá instituir outros meios destinados a garantir a manutenção ou expansão da seguridade social, além das previstas diretamente na Constituição Federal. ” Segue ainda a doutrina: “De acordo com a Constituição, nenhum benefício ou serviço da seguridade social poderá ser criado, majorado ou estendido sem a correspondente fonte de custeio total ” (AGOSTINHO, 2020). CASTRO e LAZZARI (2020) ao tratar sobre o financiamento da seguridade social explicam: “O orçamento da Seguridade Social tem receita própria, não se confundindo com a receita tributária federal. O orçamento da seguridade social se destina exclusivamente para as prestações da Seguridade nas áreas da Saúde Pública, Previdência Social e Assistência Social, obedecida a Lei de Diretrizes Orçamentárias – LDO. Para tanto, este deve ser objeto de deliberação conjunta entre os órgãos competentes – Conselho Nacional de Previdência Social, Conselho Nacional de Assistência Social e Conselho Nacional de Saúde –, e a gestão dos recursos é descentralizada por área de atuação. ” Sobre o financiamento da seguridade social seguimos para um estudo mais aprofundado produzido pela doutrina: Além das fontes de custeio previstas no texto constitucional, este permite a criação de outras fontes, mediante lei complementar – consoante o art. 154, I, da Carta Magna –, seja para financiar novos benefícios e serviços, seja para manter os já existentes, sendo certo que é vedado ao legislador criar ou estender benefício ou serviço, ou aumentar seu valor, sem que, ao menos simultaneamente, institua fonte de custeio capaz de atender às despesas daí decorrentes. Com a Emenda Constitucional n. 20 foram incluídos no art. 195 os §§ 9º, 10 e 11, e alterado o § 8º. E a Emenda Constitucional n. 103/2019 alterou, novamente, os §§ 9 e 11 do mesmo artigo. As mudanças autorizam o legislador: a estabelecer alíquotas diferenciadas em razão da atividade 40 econômica, da utilização intensiva de mão de obra, do porte da empresa ou da condição estrutural do mercado de trabalho, sendo também autorizada a adoção de bases de cálculo diferenciadas apenas no caso das alíneas “b” e “c” do inciso I do caput; a evitar a “sangria” de recursos da Seguridade Social para o Sistema Único de Saúde – SUS e entidades beneficentes, em detrimento do pagamento de benefícios previdenciários; a conceder moratória e o parcelamento em prazo máximo de 60 meses, e, na forma de lei complementar, por outro lado, veda a remissão e a anistia das contribuições sociais de que tratam a alínea “a” do inciso I e o inciso II do caput. A alteração do § 8º visa adequar a legislação ordinária à norma constitucional, já que esta, até então, dizia ser o garimpeiro espécie de segurado especial, quando a lei, de há muito, o tratava como segurado equiparado a autônomo, hoje contribuinte individual. No que se refere às contribuições, a Emenda n. 20 alterou as incidências previstas no caput do art. 195 e seus incisos, para permitir a exação sobre todo e qualquer tipo de pagamento remuneratório a pessoa física, com vínculo de emprego ou não – a redação anterior se referia apenas à incidência sobre a “folha de salários” e também sobre a “receita ou o faturamento”, pondo fim às discussões sobre a constitucionalidade da cobrança de algumas contribuições – COFINS e PIS. De acordo com o art. 11 da Lei n. 8.212/1991, o orçamento da Seguridade Social, no âmbito federal, é composto de receitas provenientes: da União; das contribuições sociais; e de outras fontes. A Emenda Constitucional n. 42, de 19.12.2003, denominada Reforma Tributária, promoveu novas alterações na redação do art. 195. Foi introduzido o inciso IV para permitir a instituição de contribuição social do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar. Pela inclusão dos §§ 12 e 13, ficou autorizado que lei ordinária poderá definir os setores da atividade econômica para as quais as contribuições incidentes sobre a receita, o faturamento e a importação de bens e serviços serão não cumulativas. Essa regra aplica-se inclusive na hipótese de substituição gradual, total ou parcial, da contribuição incidente sobre a folha de salários e demais rendimentos do trabalho por aquela incidente sobre a receita ou o faturamento. O orçamento da Seguridade Social é autônomo, não se confundindo com o orçamento do Tesouro Nacional, conforme previsto no item III do § 5º do art. 165 da Constituição. Sendo assim, as contribuições arrecadadas com fundamento no art. 195 da Constituição ingressam diretamente nesse orçamento, não constituindo receita do Tesouro Nacional. Nesse sentido escreveu Hugo de Brito Machado: “As contribuições, com as quais os empregadores, os trabalhadores e os administradores de concurso de prognósticos financiam diretamente a seguridade social, não podem constituir receita do Tesouro Nacional precisamente porque devem ingressar diretamente no orçamento da seguridade social. Por isto mesmo, lei que institua contribuição social, com fundamento no art. 195, I, da Constituição Federal, indicando como sujeito ativo pessoa diversa da que administra a seguridade social, viola a Constituição”. A Emenda Constitucional n. 20 introduziu o inciso X no art. 167 do texto constitucional, vedando a utilização dos recursos provenientes das contribuições sociais de que trata o art. 195, I, a, e II, para a realização de despesas distintas do pagamento de benefícios do Regime Geral de Previdência Social de que trata o art. 201 da Constituição. Essa medida é muito salutar para a Previdência Social, pois impede que o Poder Executivo destine recursos das contribuições sociais, incidentes sobre a folha de salários e sobre o rendimento do trabalho, para cobrir outras despesas que não os benefícios previdenciários. Por tal razão, a chamada Desvinculação de Receita da União – DRU (art. 76 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, com a redação da Emenda Constitucional n. 93/2016), que correspondia à destinação de 30% de toda e qualquer receita arrecadada pela União a despesas que fiquem a exclusivo critério do Poder Executivo, 41 não poderia incidir sobre tais contribuições. Em verdade, é nosso entendimento que a incidência da DRU sobre as outras contribuições à Seguridade Social – como a COFINS e a CSLL e as contribuições por adesão ao SIMPLES nacional – também tinha fortes indícios de inconstitucionalidade, já que afrontava, a nosso sentir, o comando constitucional originário de separação do orçamento da Seguridade Social, cujo sentido só poderia ser o de vincular tais receitas exclusivamente a gastos com Saúde, Assistência e Previdência, antes mesmo da promulgação da Emenda n. 20/1998. A EC n. 103/2019, em seu art. 2º, acabou por revogar a desvinculação das receitas das contribuições sociais destinadas ao custeio da seguridade social prevista no art. 76 do ADCT. Medida coerente com o discurso de existência de déficit do sistema, conforme apregoado pelo Governo (CASTRO; LAZZARI, 2020). 6.1 Sistema contributivo Na relação de custeio da Seguridade Social, aplica-se o princípio de que todos que integram a sociedade devem colaborar para a cobertura dos riscos que advém da perda ou redução da capacidade de trabalho ou dos meios de subsistência. É uma relação jurídica estatutária, e por isso é compulsória àqueles que a lei impõe, não cabe aqui ao contribuinte optar por não cumprir a obrigação de prestar a sua contribuição social. Há duas formas de obter-se o custeio, a primeira é pela receita tributária, unicamente, a que se chama de sistema não contributivo; A segunda, constitui a fonte principal de custeio são contribuições específicas, que são tributos vinculados para este fim, sistema então chamado de contributivo. No sistema não contributivo, os valores gastos com o custeio são retirados diretamente do orçamento do Estado, esses valores são obtidos pelo Estado por meio da arrecadação de tributos, entre outras fontes, sem que haja cobrança de contribuições sociais. Já o sistema contributivo, por sua vez, pode apresentar-se em duas espécies: uma, em que as contribuições individuais servirão somente para o pagamento de benefícios aos próprios segurados, sendo colocadas numa reserva ou conta individualizada (sistema adotado pelos planos de previdência complementar, privada), a que chamamos de sistema de capitalização; noutra, as contribuições são todas reunidas num fundo único, que serve para o pagamento das prestações no mesmo período, a quem delas necessite – é o sistema de repartição, hoje vigente em termos de Seguridade no Brasil. 42 6.2 Contribuições sociais Sobre as contribuições sociais iniciaremos com sua conceituação doutrinária: “espécie de tributo com finalidade constitucionalmente definida, a saber, intervenção no domínio econômico, interesse de categorias profissionais ou econômicas e seguridade social” (CASTRO; LAZZARI, Apud MACHADO. 2020). A contribuição para a Seguridade Social é uma espécie de contribuição social, cuja receita tem por finalidade o financiamento das ações nas áreas da saúde, previdência e assistência social. Constituem contribuições sociais, as quais são exigidas com base nas leis que as instituíram, e que estão agrupadas no Regulamento da Previdência Social (parágrafo único do art. 195 do Decreto n. 3.048, de 6.5.1999): as das empresas, incidentes sobre a remuneração paga, devida ou creditada aos segurados e demais pessoas físicas a seu serviço, mesmo sem vínculo empregatício; as dos empregadores domésticos, incidentes sobre o salário de contribuição dos empregados domésticos a seu serviço; as dos trabalhadores, incidentes sobre seu salário de contribuição; as das associações desportivas que mantêm equipe de futebol profissional, incidentes sobre a receita bruta decorrentes dos espetáculos desportivos de que participem em todo o território nacional em qualquer modalidade desportiva, inclusive jogos internacionais, e de qualquer forma de patrocínio, licenciamento de uso de marcas e símbolos, publicidade, propaganda e transmissão de espetáculos desportivos; as incidentes sobre a receita bruta proveniente da comercialização da produção rural; as das empresas, incidentes sobre a receita ou o faturamento e o lucro; as incidentes sobre a receita de concursos de prognósticos. Além das contribuições referidas, deve-se acrescentar a do importador de bens ou serviços do exterior, ou de quem a lei a ele equiparar, acrescentada pela Emenda Constitucional n. 42/2003 e regulada pela Lei n. 10.865/2004 e suas modificações. (CASTRO; LAZZARI, Apud MACHADO, 2020). Ainda acerca das contribuições é importante: A Constituição Federal de 1988 tratou das contribuições sociais no capítulo reservado ao Sistema Tributário Nacional, estabelecendo no art. 149 normas gerais sobre a instituição, e, no art. 195, normas especiais em relação às contribuições para a Seguridade Social. Sobre a competência para instituição de contribuições previdenciárias temos a ressaltar que não é privativa da União, mas estende-se aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, para que instituam sistemas de previdência e assistência social próprios para seus servidores, não sendo possível a estes entes criarem regimes previdenciários para trabalhadores da iniciativa privada, cuja competência é exclusiva da União. Nesse sentido instrui Roque Antonio Carrazza: “Os Estados, os Municípios e o Distrito Federal, enquanto organizam o sistema de previdência e assistência social de seus servidores, estão autorizados a instituir e a cobrar-lhes contribuições previdenciárias. Sob a Constituição de 1967/69, tal cobrança já se perfazia, mas enxameavam as divergências acerca de sua constitucionalidade. Agora inexistem dúvidas de que não só a 43 União como as demais pessoas políticas, para o custeio da previdência e assistência social de seus servidores, têm competência para criar suas próprias contribuições previdenciárias, obedecendo, mutatis mutandis, às diretrizes acima apontadas”. (CASTRO; LAZZARI, Apud CARRAZZA. 2020). Sobre sua natureza jurídica a doutrina explica: A identificação da natureza jurídica das contribuições para a Seguridade Social possui uma importância significativa, pois ajuda a compreender as regras que lhes são aplicáveis. Para Wladimir Novaes Martinez, “a natureza jurídica da exação previdenciária é área na qual o Direito Previdenciário mais se relaciona com o Direito Tributário. Sede de formidáveis divergências entre publicistas e uns poucos previdenciaristas, tem estimulado enormemente os estudiosos e propiciando respeitável contribuição doutrinária”. (...). A contribuição para a Seguridade Social teria a natureza da parafiscalidade, pois busca suprir os encargos do Estado, que não lhe sejam próprios, no caso, o pagamento de benefícios previdenciários. As receitas vão para um orçamento próprio, distinto do orçamento da União, e o destino dos recursos é o atendimento das necessidades econômicas e sociais de determinados grupos ou categorias profissionais e econômicas. Embora a exigência da contribuição seja compulsória, o regime especial de contabilização financeira afasta a natureza fiscal. Pela teoria da exação sui generis a contribuição à Seguridade Social nada tem a ver com o Direito Tributário, não possuindo natureza fiscal nem parafiscal. Trata-se de uma imposição estatal atípica, prevista na Constituição e na legislação ordinária, cuja natureza jurídica é especial. Roque Antonio Carrazza também defende a natureza tributária das contribuições à Seguridade Social: “(...) as ‘contribuições’ são, sem sombra de dúvida, tributos, uma vez que devem necessariamente obedecer ao regime jurídico tributário, isto é, aos princípios que informam a tributação, no Brasil. Estamos, portanto, que estas ‘contribuições sociais’ são verdadeiros tributos (embora qualificados pela finalidade que devem alcançar)”. Em nível jurisprudencial, destacamos a orientação firmada pelo Supremo Tribunal Federal no sentido de que a contribuição de seguridade social não só se qualifica como modalidade autônoma de tributo (RTJ 143/684), como também representa espécie tributária essencialmente vinculada ao financiamento da Seguridade Social, em função de específica destinação constitucional (ADC 8-MC, Rel. Min. Celso de Mello, julgamento em 13.10.1999, DJ de 4.4.2003). Filiamo-nos à orientação que predominou na doutrina e na jurisprudência após a Constituição de 1988, de que as contribuições destinadas ao financiamento da Seguridade Social possuem natureza jurídica tributária, pois estão sujeitas ao regime constitucional peculiar aos tributos, ressalvada apenas a previsão do § 6º do art. 195 da Carta Magna. (CASTRO; LAZZARI, Apud MARTINEZ; CARRAZZA. 2020). 44 6.3 Características gerais Sobre as características gerais a doutrina pontua alguns assuntos relevantes: As características gerais das contribuições sociais estão previstas no art. 149 da Constituição Federal, que estabelece para a instituição a observância das normas gerais do Direito Tributário e aos princípios da legalidade e da anterioridade, ressalvando, quanto a este último, a regra especial pertinente às contribuições para a Seguridade Social, cujo prazo de exigibilidade é de noventa dias após a publicação da lei que institui, modifica ou majora contribuição, de acordo com o previsto no art. 195, § 6º, da Constituição Federal. As normas gerais em matéria de legislação tributária, a que estão sujeitas as contribuições sociais, estão previstas no Código Tributário Nacional – Lei n. 5.172, de 25.10.1966, a qual foi recepcionada pela Constituição de 1988 com o status de lei complementar. A regulamentação das contribuições para a Seguridade Social prevista no art. 195 da Constituição Federal por meio de lei ordinária (Lei n. 8.212/1991) tem sido admitida, desde que não haja afronta às normas gerais definidas na Constituição e no Código Tributário Nacional. As contribuições destinadas ao financiamento da Seguridade Social previstas nos incisos I, II, III e IV, do art. 195 da Constituição podem ser instituídas por lei ordinária. Nesse sentido, o STF ao julgar a Repercussão Geral – Tema 204, ratificou sua orientação jurisprudencial de que “a lei complementar para instituição de contribuição social é exigida para aqueles tributos não descritos no altiplano constitucional, conforme disposto no § 4º do artigo 195 da Constituição da República.” (RE 598.572, Tribunal Pleno, Rel. Min. Edson Fachin, DJE 9.8.2016). Portanto, para a instituição de outras fontes de custeio, destinadas a garantir a manutenção ou expansão da Seguridade Social, estabeleceu o constituinte de 1988, no § 4º do art. 195, que deve ser obedecido o disposto no art. 154, I, que estabelece: “Art. 154. A União poderá instituir: I – mediante lei complementar, impostos não previstos no artigo anterior, desde que sejam não cumulativos e não tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discriminados nesta Constituição”. Dessa disposição fica evidenciado, no tocante às contribuições sociais, que a remissão trata, exclusivamente, da necessidade de lei complementar para a criação de nova contribuição, uma vez que as outras condições (não cumulatividade, fato gerador e base de cálculo inéditos) são específicas de espécie tributária, o imposto. 18.4 – Nesse contexto, o STF se manifestou no sentido de que para a criação de nova contribuição social basta a observância do pressuposto formal da lei complementar, o que pode ser examinado no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.102-2, sendo Relator o Ministro Maurício Corrêa (in DJU, seção I, de 17.11.1995, p. 39.205). E, ao julgar o Recurso Extraordinário n. 138.284-8/CE, relator o Ministro Carlos Velloso, a Suprema Corte rejeitou o argumento de inconstitucionalidade da contribuição incidente sobre o lucro das pessoas jurídicas, por incidir sobre a mesma base de cálculo do imposto de renda. O princípio da anterioridade previsto no art. 150, III, letra b, da Constituição veda a cobrança de tributo no mesmo exercício financeiro em que haja sido publicada a lei que os instituiu ou aumentou. O exercício financeiro começa no dia 1º de janeiro e se prolonga até o dia 31 de dezembro de cada ano. Para as contribuições à Seguridade Social, a Constituição estabeleceu a observância de uma norma de anterioridade especial prevista no art. 195, § 6º, no sentido de que só poderão ser exigidas após decorridos noventa dias da data da publicação da lei que as houver instituído ou modificado. Sendo assim, não se lhes aplica o disposto no art. 150, III, b, da 45 Constituição, podendo ser exigidas no mesmo exercício financeiro, desde que respeitada a anterioridade dos noventa dias. A respeito da contagem, o STF decidiu que o prazo nonagesimal (CF, art. 195, § 6º) é contado a partir da publicação da medida provisória que houver instituído ou modificado a contribuição (RE 453.490-AgR, Rel. Min. Ricardo Lewandowski, DJ de 10.11.2006). (CASTRO; LAZZARI, 2020) Importante tratar também sobre outras fontes de receita da seguridade social: Constituem outras receitas da Seguridade Social, de acordo com o art. 27 da Lei n. 8.212/1991: as multas (moratórias e por descumprimento de obrigações acessórias), a atualização monetária e os juros moratórios; a remuneração recebida por serviços de arrecadação, fiscalização e cobrança prestados a terceiros – art. 274 do Decreto n. 3.048/1999; as receitas provenientes de prestação de outros serviços e de fornecimento ou arrendamento de bens; as demais receitas patrimoniais, industriais e financeiras; as doações, legados, subvenções e outras receitas eventuais; 50% dos valores obtidos e aplicados na forma do parágrafo único do art. 243 da Constituição Federal; 40% do resultado dos leilões dos bens apreendidos pela Receita Federal; e outras receitas previstas em legislação específica. As companhias seguradoras que mantinham o seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de vias terrestres, de que tratava a Lei n. 6.194, de 1974, deveriam repassar à Seguridade Social 50% do valor total do prêmio recolhido, destinado ao Sistema Único de Saúde – SUS, para custeio da assistência médico-hospitalar dos segurados vitimados em acidentes de trânsito. No entanto, a MP n. 904/2019 extinguiu a cobrança do DPVAT, promovendo a revogação da Lei n. 6.194/1974 e do parágrafo único do art. 27 da Lei n. 8.212/1991. Tais receitas não se constituem em contribuições sociais, pois não se revestem das características de tributos. As multas, exigidas por infração à legislação, são penalidades pecuniárias; os juros também se caracterizam como espécie de penalidade pelo inadimplemento; as demais verbas constantes do dispositivo se revelam como transferências de recursos públicos aos cofres da Seguridade Social. (CASTRO; LAZZARI, 2020) 46 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGOSTINHO, Theodoro. Manual de direito previdenciário – São Paulo : Saraiva Educação, 2020. BRASIL. CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988. Disponível em: . BRASIL. LEI Nº 8.080, DE 19 DE SETEMBRO DE 1990. Disponível em: CASTRO, Carlos Alberto Pereira de; LAZZARI, João Batista. Manual de Direito Previdenciário. – 23. ed. – Rio de Janeiro: Forense, 2020. OLIVEIRA, Erival da Silva. Constitucional - Prática Jurídica - 12. ed. – São Paulo : Saraiva Educação, 2020. SANTOS, Marisa Ferreira dos. Direito previdenciário esquematizado – Coleção esquematizado – 10. ed. – São Paulo : Saraiva Educação, 2020. geraram reflexos na ordem jurídica. A doutrina dividiu a evolução histórica da proteção social em três etapas: assistência pública, seguro social e seguridade social. ” Conforme introduzido por SANTOS a seguridade social antes de ser consolidada passou por algumas etapas iniciando pela assistência pública, a qual veremos a doutrina: 6 A primeira etapa da proteção social foi a da assistência pública, fundada na caridade, no mais das vezes, conduzida pela Igreja e, mais tarde, por instituições públicas. O indivíduo em situação de necessidade — em casos de desemprego, doença e invalidez — socorria-se da caridade dos demais membros da comunidade. Nessa fase, não havia direito subjetivo do necessitado à proteção social, mas mera expectativa de direito, uma vez que o auxílio da comunidade ficava condicionado à existência de recursos destinados à caridade. A desvinculação entre o auxílio ao necessitado e a caridade começou na Inglaterra, em 1601, quando Isabel I editou o Act of Relief of the Poor— Lei dos Pobres. A lei reconheceu que cabia ao Estado amparar os comprovadamente necessitados. Surgiu, assim, a assistência pública ou assistência social. Cabia à Igreja a administração de um fundo, formado com a arrecadação de uma taxa obrigatória. “(...) o Poder Público tornava cogente o binômio igualdade-solidariedade”. A preocupação com o bem-estar de seus membros levou algumas categorias profissionais a constituírem caixas de auxílio, com caráter mutualista, que davam direito a prestações em caso de doença ou morte. Havia uma semelhança com os seguros de vida, feitos principalmente por armadores de navios. A assistência pública, no Brasil, foi prevista pela Constituição de 1824, cujo art. 179, § 31, garantia os socorros públicos. As desigualdades sociais marcantes, denunciadas pela Revolução Francesa, levaram à criação de outros mecanismos de proteção social contra os abusos e injustiças decorrentes do liberalismo (SANTOS, 2020). Seguindo a evolução surge o seguro social: Já não bastava a caridade para o socorro dos necessitados em razão de desemprego, doenças, orfandade, mutilações etc. Era necessário criar outros mecanismos de proteção, que não se baseassem na generosidade, e que não submetessem o indivíduo a comprovações vexatórias de suas necessidades. Na lição de Manuel Alonso Olea e José Luis Tortuero Plaza (traduzimos): “Dito de outra forma: amadurece historicamente a ideia de que se deve ter um direito à proteção, que as prestações previstas são ‘juridicamente exigíveis’, direito que deriva da contraprestação prévia em forma de quotas pagas pelo beneficiário ou por um terceiro por conta daquele.” Surgiram as empresas seguradoras, com fins lucrativos e administração baseada em critérios econômicos, com saneamento financeiro. O seguro do Direito Civil forneceu as bases para a criação de um novo instrumento garantidor de proteção em situações de necessidade. A primeira forma de seguro surgiu no século XII: o seguro marítimo, reivindicação dos comerciantes italianos. Não eram, ainda, as bases técnicas e jurídicas do seguro contratual. O desenvolvimento do instituto do seguro fez surgir novas formas: seguro de vida, seguros contra invalidez, danos, doenças, acidentes etc. O seguro decorria do contrato, e era de natureza facultativa, isto é, dependia da manifestação da vontade do interessado. Mas a proteção securitária era privilégio de uma minoria que podia pagar o prêmio, deixando fora da proteção a grande massa assalariada. Era necessário, então, criar um seguro de natureza obrigatória, que protegesse os economicamente mais frágeis, aos quais o Estado deveria prestar assistência. (...) O final do século XIX marcou o surgimento de um novo tipo de seguro, cuja garantia de efetividade dependia da distribuição dos riscos por grupos numerosos de segurados. Para isso, era necessário que as entidades seguradoras assumissem a cobertura dos riscos, sem, contudo, selecionálos. Nasceu o seguro social, na Prússia, em 1883, com a Lei do 7 Seguro Doença, que criou o Seguro de Enfermidade, resultado da proposta de Bismarck para o programa social. A Lei do Seguro Doença é tida como o primeiro plano de Previdência Social de que se tem notícia. A partir de Bismarck e, principalmente, da Segunda Guerra Mundial, ganhou força a ideia de que o seguro social deveria ser obrigatório e não mais restrito aos trabalhadores da indústria, ao mesmo tempo em que a cobertura foi estendida a riscos como doença, acidente, invalidez, velhice, desemprego, orfandade e viuvez. (...). Ao se tornar obrigatório, o seguro social passou a conferir direito subjetivo ao trabalhador. O seguro social era organizado e administrado pelo Estado. O custeio era dos empregadores, dos empregados e do próprio Estado. Já não se cuidava da configuração civilista do seguro. O Estado liberal precisava de mecanismos que garantissem a redução das desigualdades sociais, e não apenas dos conflitos e prejuízos. O Estado liberal produzia cada vez mais e em maior quantidade. O seguro social atuava, então, como instrumento de redistribuição de renda, que permitia o consumo. A solidariedade ganhou contornos jurídicos, tornando-se o elemento fundamental do conceito de proteção social, que, cada vez mais, foi se afastando dos elementos conceituais do seguro civilista. A par da questão econômica caminhava, ainda, a luta pela garantia dos direitos sociais. O seguro social, na concepção bismarckiana, estendeu-se pela Europa até meados do século XX. Os sistemas de seguro social não resistiram às consequências da Primeira Guerra Mundial em razão da cobertura para o grande número de órfãos, viúvas e feridos que resultaram do combate, além da inflação galopante da época, problemas sentidos principalmente na Alemanha e na Áustria. A questão social teve, então, que ser equacionada. Em 1919, no Tratado de Versalhes, surgiu o primeiro compromisso de implantação de um regime universal de justiça social. Foi, então, fundado o Bureau International Du Travail (BIT) — Repartição Internacional do Trabalho — que realizou a 1ª Conferência Internacional do Trabalho, à qual se atribui o desenvolvimento da previdência social e sua implantação em todas as nações do mundo civilizado. Dessa conferência resultou a primeira Recomendação para o seguro-desemprego. A 3ª Conferência (1921) recomendou a extensão do seguro social aos trabalhadores da agricultura. A 10ª Conferência (1927) estendeu as demais Convenções e Recomendações sobre oseguro-doença aos trabalhadores da indústria, do comércio e da agricultura. Outras Conferências foram feitas, sendo que a 17ª (1933) estendeu as Recomendações anteriores aos seguros por velhice, invalidez e morte. A 18ª Conferência (1934) regulou o seguro contra o desemprego. O BIT teve papel importante na expansão da previdência social pelo mundo. O seguro social é espécie do gênero seguro, que, embora com características próprias, ainda tinha muito do seguro privado. Assim como no seguro privado, o seguro social seleciona os riscos que terão cobertura pelo fundo. A álea (incerteza da ocorrência do sinistro) e a formação de um fundo comum, administrado de forma a garantir econômica e financeiramente o pagamento das indenizações, são características do seguro social e do seguro privado. Porém, a amplitude e a natureza obrigatória do seguro social o diferenciam do seguro privado, de natureza eminentemente facultativa. (SANTOS, Apud OLEA E PLAZA, 2020). Por fim a dutrina de SANTOS atinge a seguridade social: O seguro social nasceu da necessidade de amparar o trabalhador, protegê- lo contra os riscos do trabalho. Era, então, necessário um sistema de proteção social que alcançasse todas as pessoas e as amparasse em todas 8 situações de necessidade, em qualquer momento de suas vidas. (...). Em junho de 1941, o governo inglês, empenhado na reconstrução do país, formou uma Comissão Interministerial para o estudo dos planos de seguro social e serviços afins, então existentes, e nomeou para presidi-la Sir William Beveridge. A Comissão foi incumbida de, após estudos, fazer uma proposta para a melhoria do setor. O resultado dos trabalhos da Comissão — o Plano Beveridge — foi apresentado ao Parlamento em 1942. O Plano analisou o seguro social e os serviços conexos da Inglaterra pós-Segunda Guerra Mundial, análise que abrangeu as necessidades protegidas, os fundos e as provisões. Beveridge concluiu que o seguro social já não atendia às necessidades sociais, porque era limitado apenas aos trabalhadores vinculados por contrato de trabalho, com certa remuneração quando em serviços não manuais. Ficavam sem cobertura os trabalhadores “por conta própria”, isto é, sem vínculo de emprego, que constituíam a parcela da massa pobre da população, justamente a que mais precisava da proteção do Estado. Entendeu Beveridge, ainda, que o seguro social não levava em conta as responsabilidades com a família para os trabalhadores não manuais, e concedia benefícios diferentes em situações em que eram os mesmos os gastos necessários das pessoas doentes e das desempregadas. Quanto às contribuições, Beveridge entendeu que as distinções também não tinham lógica dentro do sistema. Beveridge percebeu que a principal conclusão de seu trabalho foi a de “que a abolição da miséria requer uma dupla redistribuição das rendas, pelo seguro social e pelas necessidades da família”. São suas palavras: “O seguro social, completamente desenvolvido, pode proporcionar a segurança dos rendimentos; é um combate à Miséria. Mas a Miséria é apenas um dos cinco gigantes, que se nos deparam na rota da reconstrução, e, sob vários aspectos, o mais fácil de combater. Os outros são a Doença, a Ignorância, a Imundície e a Preguiça.” Beveridge destacou o papel do Estado, por meio de políticas públicas que garantissem a proteção social em situações de necessidade. Influenciou muito a legislação social que se seguiu na Europa e na América, influência que atualmente ainda se faz presente nos sistemas de seguridade social. Em 1944, foi realizada a Conferência da OIT, em Filadélfia, resultando a Declaração de Filadélfia, que adotou orientação para unificação dos sistemas de seguro social, estendendo-se a proteção a todos os trabalhadores e suas famílias, abrangendo rurais e autônomos. A Declaração de Filadélfia deu um passo importante na internacionalização da seguridade social, porque ficou expresso que o êxito do sistema dependeria da cooperação internacional. A Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948) prevê o direito à segurança, consagrando o reconhecimento da necessidade de existência de um sistema de seguridade social. Posteriormente, a 35ª Conferência Internacional do Trabalho, da OIT, em1952, aprovou a Convenção n. 102, à qual denominou “Norma Mínima em Matéria de Seguridade Social”. Como já tivemos oportunidade de escrever: “A Convenção n. 102 é o resultado de estudos de especialistas da OIT, que, de início, tiveram a incumbência de elaborar um convênio que tivesse duas secções: uma que estabelecesse uma norma mínima, um standard de seguridade social; e outra, uma norma superior, que desse proteção a todas as necessidades. O objetivo do estabelecimento desses dois tipos de normas era viabilizar a participação de um grande número de Estados, que ficariam comprometidos em implantar os padrões mínimos de seguridade social, sem, contudo, descuidarem-se de seguir o exemplo de países mais avançados no implemento de modernas técnicas de proteção social. Entretanto, a norma superior foi separada e sua aprovação ficou sem definição de prazo, restando aprovada a norma mínima pela Convenção n. 102.” Mas nem todas as Nações tinham condições econômicas de implantar a proteção mínima estabelecida pela Convenção n. 102. Entretanto, o padrão mínimo ficou garantido ao menos a uma parcela da 9 população dos países signatários. O dinamismo social trouxe a tecnologia e a globalização, e os mínimos sociais acompanharam as modificações. Outros tratados internacionais foram celebrados, de modo que a passagem do seguro social para a seguridade social decorreu da intenção de libertar o indivíduo de todas as suas necessidades para fins de desfrutar de uma existência digna (SANTOS, 2020). 2.1 O Estado e a proteção social ao trabalhador A doutrina de CASTRO e LAZZARI (2020), ressalta a importância da proteção social ao trabalhador “Em síntese que identifica como todos nós estamos ligados às políticas de proteção social, Fernando Mendes observa: “Quando nasce um ser humano, a segurança social logo vem compensar os encargos adicionais dos progenitores. Liberta pai e mãe da vida profissional para prestarem os primeiros cuidados ao recém-nascido, subsidiando-lhes licenças de maternidade e paternidade. Segue apoiando as famílias no esforço educativo posto em cada filho. Ajuda os adultos a enfrentar consequências da doença e do desemprego, fazendo as vezes do rendimento perdido, contribuindo para pagar cuidados de saúde ou subsidiando ações de valorização profissional. Na aposentação por velhice ou na invalidez, substitui-se definitivamente aos rendimentos do trabalho. E, na morte, sobrevive-nos, para apoiar os que ainda estejam a nosso cargo.” Aos Estados contemporâneos em regra possuem entre suas funções o dever de garantir a proteção social aos indivíduos que em relação a eventos que lhes possam causar a dificuldade ou até mesmo a impossibilidade de subsistência por conta própria através do exercício de atividade laborativa. Essa proteção tem formação introdutória no Estado Moderno, sendo consolidada nas políticas de Seguridade Social, dentre as quais se destaca, para os fins deste estudo, a Previdência Social. “ (...) Nos primórdios da relação de emprego moderna, o trabalho retribuído por salário, sem regulamentação alguma, era motivo de submissão de trabalhadores a condições análogas às dos escravos, não existindo, até então, nada que se pudesse comparar à proteção do indivíduo, seja em caráter de relação empregado empregador, seja na questão relativa aos riscos da atividade laborativa, no tocante à eventual perda ou redução da capacidade de trabalho. Vale dizer, os direitos dos trabalhadores eram aqueles assegurados pelos seus contratos, sem que houvesse qualquer intervenção estatal no sentido de estabelecer garantias mínimas. Começaram, então, a eclodir manifestações dos trabalhadores por melhores condições de trabalho e de subsistência, com greves e revoltas – 10 violentamente reprimidas pelo próprio Poder constituído. Surgiram daí as primeiras preocupações com a proteção previdenciária do trabalhador, ante a inquietação dos detentores do poder nos Estados com a insatisfação popular, o que acarretou a intervenção estatal no que diz respeito às relações de trabalho e segurança do indivíduo quanto a infortúnios. Como disse Bismarck, governante alemão daquela época, justificando a adoção das primeiras normas previdenciárias: “Por mais caro que pareça o seguro social, resulta menos gravoso que os riscos de uma revolução”. Nesse contexto, as revoltas operárias permaneceram por todo o século XIX, ocorrendo, de modo simultâneo e paulatino, um movimento de cada vez maior tolerância às causas operárias (cessação da proibição de coalizões entre trabalhadores, primeiras leis de proteção ao trabalhador), o que culminaria numa concepção diversa de Estado, a que se denominaria Estado Social, Estado de Bem Estar, ou ainda, Estado Contemporâneo. (CASTRO; LAZZARI, 2020). 3. PRINCÍPIOS DA SEGURIDADE SOCIAL A seguridade social também é regida por princípios constitucionais estabelecidos na redação dos incisos do art. 194 da CF/88 já evidenciada logo no item 1 da apostila, vejamos os comentários doutrinários acerca de cada um dos incisos: I – Universalidade da cobertura e do atendimento: Por universalidade da cobertura entende-se que a proteção social deve alcançar todos os eventos cuja reparação seja premente, a fim de manter a subsistência de quem dela necessite. A universalidade do atendimento significa, por seu turno, a entrega das ações, prestações e serviços de seguridade social a todos os que necessitem, tanto em termos de previdência social – obedecido o princípio contributivo – como no caso da saúde e da assistência social. Conjuga-se a este princípio aquele que estabelece a filiação compulsória e automática de todo e qualquer indivíduo trabalhador no território nacional a um regime de previdência social, mesmo que “contra a sua vontade”, e independentemente de ter ou não vertido contribuições; a falta de recolhimento das contribuições não caracteriza ausência de filiação, mas inadimplência tributária, é dizer, diante do ideal de universalidade não merece prevalecer a interpretação de que, “ausente a contribuição, não há vinculação com a Previdência”. Como será visto adiante, a filiação decorre do exercício de atividade remunerada, e não do pagamento da contribuição (CASTRO; LAZZARI, 2020). II – Uniformidade e equivalência dos benefícios e serviços às populações urbanas e rurais: O mesmo princípio já contemplado no art. 7º da Carta trata de conferir 11 tratamento uniforme a trabalhadores urbanos e rurais, havendo assim idênticos benefícios e serviços (uniformidade), para os mesmos eventos cobertos pelo sistema (equivalência). Tal princípio não significa, contudo, que haverá idêntico valor para os benefícios, já que equivalência não significa igualdade. Os critérios para concessão das prestações de seguridade social serão os mesmos; porém, tratando-se de previdência social, o valor de um benefício pode ser diferenciado – caso do salário-maternidade da trabalhadora rural enquadrada como segurada especial. (CASTRO; LAZZARI, 2020). III – Seletividade e distributividade na prestação dos benefícios e serviços: O princípio da seletividade pressupõe que os benefícios são concedidos a quem deles efetivamente necessite, razão pela qual a Seguridade Social deve apontar os requisitos para a concessão de benefícios e serviços. Vale dizer, para um trabalhador que não possua dependentes, o benefício salário- família não será concedido; para aquele que se encontre incapaz temporariamente para o trabalho, por motivo de doença, não será concedida a aposentadoria por invalidez, mas o auxílio-doença. Não há um único benefício ou serviço, mas vários, que serão concedidos e mantidos de forma seletiva, conforme a necessidade da pessoa. Por distributividade, entende-se o caráter do regime por repartição, típico do sistema brasileiro, embora o princípio seja de seguridade, e não de previdência. O princípio da distributividade, inserido na ordem social, é de ser interpretado em seu sentido de distribuição de renda e bemestar social, ou seja, pela concessão de benefícios e serviços visa-se ao bem-estar e à justiça social (art. 193 da Carta Magna). Ao se conceder, por exemplo, o benefício assistencial da renda mensal vitalícia ao idoso ou ao deficiente sem meios de subsistência, distribui-se renda; ao se prestar os serviços básicos de saúde pública, distribui-se bem-estar social, etc. O segurado, ao contribuir, não tem certeza se perceberá em retorno a totalidade do que contribuiu, porque os recursos vão todos para o caixa único do sistema, ao contrário dos sistemas de capitalização, em que cada contribuinte teria uma conta individualizada (como ocorre com o FGTS). (CASTRO; LAZZARI, 2020) IV – Irredutibilidade do valor dos benefícios: Princípio equivalente ao da intangibilidade do salário dos empregados e dos vencimentos dos servidores, significa que o benefício legalmente concedido – pela Previdência Social ou pela Assistência Social – não pode ter seu valor nominal reduzido, não podendo ser objeto de desconto – salvo os determinados por lei ou ordem judicial –, nem de arresto, sequestro ou penhora. Dentro da mesma ideia, o art. 201, § 2º, estabelece o reajustamento periódico dos benefícios, para preservar-lhes, em caráter permanente, seu valor real. (CASTRO; LAZZARI. 2020. P. 166) V – Equidade na forma de participação no custeio: Trata-se de norma principiológica em sua essência, visto que a participação equitativa de trabalhadores, empregadores e Poder Público no custeio da seguridade social é meta, objetivo, e não regra concreta. Com a adoção deste 12 princípio, busca-se garantir que aos hipossuficientes seja garantida a proteção social, exigindo-se dos mesmos, quando possível, contribuição equivalente a seu poder aquisitivo, enquanto a contribuição empresarial tende a ter maior importância em termos de valores e percentuais na receita da seguridade social, por ter a classe empregadora maior capacidade contributiva, adotando-se, em termos, o princípio da progressividade, existente no Direito Tributário, no tocante ao Imposto sobre Renda e Proventos de Qualquer Natureza (art. 153, § 2º, da CF). Em razão disso, a empresa passou a contribuir sobre o seu faturamento mensal e o lucro líquido, além de verter contribuição incidente sobre a folha de pagamentos (CASTRO; LAZZARI, 2020). VI – Diversidade da base de financiamento: Estando a Seguridade Social brasileira no chamado ponto de hibridismo entre sistema contributivo e não contributivo, o constituinte quis estabelecer a possibilidade de que a receita da Seguridade Social possa ser arrecadada de várias fontes pagadoras, não ficando adstrita a trabalhadores, empregadores e Poder Público. Assim, com base nesse princípio, existe a contribuição social incidente sobre a receita de concursos de prognósticos, e a própria CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, enquanto foi cobrada. Com a adoção desse princípio, está prejudicada a possibilidade de estabelecer-se o sistema não contributivo, decorrente da cobrança de tributos não vinculados, visto que o financiamento deve ser feito por meio de diversas fontes e não de fonte única. Com o advento da EC 103/2019, foi dada nova redação a essa diretriz, qual seja: “VI – diversidade da base de financiamento, identificando-se, em rubricas contábeis específicas para cada área, as receitas e as despesas vinculadas a ações de saúde, previdência e assistência social, preservado o caráter contributivo da previdência social”. Essa alteração visa a dar maior transparência ao orçamento da Seguridade Social para distinguir as receitas e despesas de cada área: saúde, previdência e assistência social (CASTRO; LAZZARI, 2020). VII – Caráter democrático e descentralizado da administração, mediante gestão quadripartite, com participação dos trabalhadores, dos empregadores, dos aposentados e do Governo nos órgãos colegiados: A gestão dos recursos, programas, planos, serviços e ações nas três vertentes da Seguridade Social, em todas as esferas de poder, deve ser realizada mediante discussão com a sociedade. Para isso, foram criados órgãos colegiados de deliberação: o Conselho Nacional de Previdência Social – CNPS, criado pelo art. 3º da Lei n. 8.213/1991, que discute a gestão da Previdência Social; o Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS, criado pelo art. 17 da Lei n. 8.742/1993, que delibera sobre a política e ações nesta área; e o Conselho Nacional de Saúde – CNS, criado pela Lei n. 8.080/1990, que discute a política de saúde. Todos estes conselhos têm composição paritária e são integrados por representantes do Governo, dos trabalhadores, dos empregadores e dos aposentados. (CASTRO; LAZZARI, 2020). 13 A doutrina de AGOSTINHO aborda os princípios gerais da seguridade social: 1) Princípio da solidariedade. Dividido em três vertentes: a) solidariedade na instituição da seguridade social: cujo objetivo é resguardar a população contra necessidades advindas de contingências sociais. A própria instituição da seguridade social já deriva de um ato de solidariedade, diante do reconhecimento de que a ação individual não é suficiente para debelar as necessidades decorrentes das contingências sociais, razão da ação comum (solidária) de todos os membros da sociedade no intuito de efetivar a proteção social em face dessas necessidades. b) solidariedade na distribuição do ônus contributivo: é a equidade na forma de participação do custeio (quem detém maior capacidade, contribui com mais). c) solidariedade na prestação do amparo: as ações da seguridade social devem priorizar as pessoas mais necessitadas. 2) Princípio da obrigatoriedade: a participação dos membros da sociedade nas ações da seguridade social deve ser obrigatória. 3) Princípio da suficiência: os benefícios e serviços oferecidos pela seguridade social devem ser capazes de afastar a necessidade advinda de uma contingência social. 4) Princípio da subsidiariedade: a seguridade social intervém de forma subsidiária, ou seja, somente se o indivíduo não tem como prover à própria subsistência ou de tê-la provida por sua família. Essa proteção social deve ser ministrada até o ponto suficiente para afastar a necessidade (AGOSTINHO, 2020). 4. ESTRUTURA DA SEGURIDADE SOCIAL NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. Sobre a estruturação da seguridade social, AGOSTINHO (2020) explica que “a Seguridade Social teve seu sistema introduzido no ordenamento jurídico brasileiro pela Constituição Federal de 1988, sendo esse sistema composto pela Saúde; Previdência Social; e a Assistência Social. Conforme previsto na redação constitucional do art. 194, a seguridade social cotempla um conjunto integrado de ações sobre a iniciativa dos Poderes Públicos e da sociedade, com o objetivo de assegurar os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social. SANTOS, (2020) com relação a seguridade social aduz que “o art. 6º da CF que elenca os direitos sociais, disciplinados pela Ordem Social, tem por objetivo promover a redução das desigualdades sociais. Em meio aos direitos sociais está a seguridade social que por sua vez encontra-se positivada e nosso ordenamento jurídico no art. 194 da CF/88, e é composta pelo direito à saúde, pela assistência social e pela previdência social. A solidariedade é o fundamento da seguridade social.” 14 (...). Todos, ricos ou pobres, segurados da previdência ou não, têm o mesmo direito à saúde (art. 196). Portanto, todos os que vivem no território nacional, de alguma forma, estão ao abrigo do “grande guarda-chuva da seguridade social”, pois a seguridade social é direito social, cujo atributo principal é a universalidade, impondo que todos tenham direito a alguma forma de proteção, independentemente de sua condição socioeconômica. A seguridade social garante os mínimos necessários à sobrevivência. É instrumento de bem-estar e de justiça social, e redutor das desigualdades sociais, que se manifestam quando, por alguma razão, faltam ingressos financeiros no orçamento do indivíduo e de sua família. O direito subjetivo às prestações de seguridade social depende do preenchimento de requisitos específicos. Para ter direito subjetivo à proteção da previdência social, é necessário ser segurado, isto é, contribuir para o custeio do sistema porque, nessa parte, a seguridade social é semelhante ao antigo seguro social. O direito subjetivo à saúde é de todos, e independe de contribuição para o custeio. O direito subjetivo às prestações de assistência social, dado a quem dela necessitar, na forma da lei, também independe de contribuição para o custeio. Prestações de seguridade social é o gênero do qual benefícios e serviços são espécies. Os benefícios são as prestações pagas em dinheiro (SANTOS, 2020). Ainda sobre a Constituição de 1988 e seguridade social, CASTRO E LAZZARI (2020) comentam que “a Constituição Federal de 1988 determina ao Estado atuar nas áreas da saúde, assistência social e previdência social.” Com base nessa atribuição, as contribuições sociais passaram a custear as ações do Estado nas três áreas, não cabendo mais somente o custeio no campo da Previdência Social. Anteriormente já havia dispositivo legal que determinava a transferência de recursos da Previdência Social para o então Sistema Único Descentralizado de Saúde – SUDS, hoje Sistema Único de Saúde – SUS. O Regime Geral de Previdência Social – RGPS, que se encontra na redação do artigo 201 na atual Constituição, não abriga a totalidade da população economicamente ativa, mas somente aqueles que, mediante contribuição e nos termos da lei, fizerem jus aos benefícios, não sendo abrangidos por outros regimes específicos de seguro social. Do Regime Geral de Previdência excluem-se: os servidores públicos civis, regidos por sistema próprio de previdência; os militares; os membros do Poder Judiciário e do Ministério Público; e os membros do Tribunal de Contas da União, todos esses possuem regime previdenciário próprio; e aos que não contribuem para nenhum regime, por não exercerem qualquer atividade é garantido o benefício substitutivo do salário ou rendimento do trabalho e ele não será inferior ao 15 valor do salário mínimo conforme redação do art. 201, § 2º.” Os benefícios deverão, ainda, ser periodicamente reajustados, a fim de que seja preservado seu valor real, em caráter permanente, conforme critérios definidos na lei. Pelas ações na área de saúde, destinadas a oferecer uma política social com a finalidade de reduzir riscos de doenças e outros agravos, é responsável o SUS (art. 198 da Constituição), de caráter descentralizado. O direito à saúde, que deve ser entendido como direito à assistência e tratamento gratuitos no campo da Medicina, é assegurado a toda a população, independentemente de contribuição social, para que se preste o devido atendimento, tendo atribuições no âmbito da repressão e prevenção de doenças, produção de medicamentos e outros insumos básicos, bem como ordenar a formação de recursos humanos na área de saúde, participar da política e execução das ações de saneamento básico, incrementar o desenvolvimento científico e tecnológico, exercer a vigilância sanitária e as políticas de saúde pública, além de auxiliar na proteção do meio ambiente (art. 200 da CF). Em termos de regramentos legais, ressalte-se a edição da Lei n. 8.689/1993, que extinguiu o INAMPS – autarquia federal, absorvida sua competência funcional pelo SUS (sem personalidade jurídica própria), este gerido pelo Conselho Nacional de Saúde, na órbita federal, e pelos colegiados criados junto às Secretarias Estaduais e Municipais de Saúde, nas instâncias correspondentes. Cumpre ressaltar, ainda, que a Constituição prevê a prestação de serviços de saúde pela iniciativa privada, sem restrições (art. 199), podendo participar do SUS, de forma complementar, mediante contrato de direito público ou convênio (§ 1º), vedada a destinação de recursos públicos para auxílio ou subvenção de instituições privadas com fins lucrativos (§ 2º). No âmbito da Assistência Social, são assegurados, independentemente de contribuição à Seguridade Social, a proteção à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; o amparo às crianças e aos adolescentes carentes; a promoção da integração ao mercado de trabalho; a habilitação e reabilitação profissional das pessoas portadoras de deficiência; e a renda mensal vitalícia – de um salário mínimo – à pessoa portadora de deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de subsistência, por si ou por sua família (art. 203). É prestada por entidades e organizações sem fins lucrativos, no atendimento e assessoramento aos beneficiários da Seguridade Social, bem como pelos que atuam na defesa e garantia de seus direitos, segundo as normas fixadas pelo Conselho Nacional de Assistência Social – CNAS. No âmbito federal, foram extintas a LBA e a CBIA (antiga FUNABEM), em 1995 (Medida Provisória n. 813, de 1.1.1995, convertida na Lei n. 9.649/1998), ficando responsável pela política de Assistência Social o CNAS. A execução das ações na área da Assistência Social fica a encargo dos poderes públicos estaduais e municipais, entidades beneficentes e de assistência social (CF, art. 204, I). A habilitação e a reabilitação profissionais decorrentes da atividade laborativa são encargos da Previdência, ficando a cargo das entidades de assistência social a habilitação e reabilitação das pessoas portadoras de deficiência congênita, ou não decorrente do trabalho (ex.: APAE, ABBR). Neste ponto, é de se frisar que a Assembleia Nacional Constituinte, ao dispor sobre a matéria em 1988, assegurou direitos até então não previstos, como por exemplo, a equiparação dos Direitos Sociais dos trabalhadores rurais com os dos trabalhadores urbanos, nivelando-os pelos últimos; a ampliação do período de licença- maternidade para 120 dias, com consequente acréscimo de despesas no pagamento dos salários-maternidade, e a adoção do regime jurídico único para os servidores públicos da Administração Direta, autarquias e fundações públicas das esferas federal, estadual e municipal, unificando também, por 16 conseguinte, todos os servidores em termos de direito à aposentadoria, com proventos integrais, diferenciada do restante dos trabalhadores (vinculados ao Regime Geral), que tinham sua aposentadoria calculada pela média dos últimos 36 meses de remuneração. (CASTRO; LAZZARI, 2020). Conforme evidenciado, há requisitos a serem preenchidos para que seja amparado por algum dos institutos da seguridade social. Seguimos com a observância de cada instituto em específico. 4.1 Saúde A saúde antes da CF/88 era associada ao Instituto de Assistência Médica da Previdência Social – INAMPS. AGOSTINHO explica brevemente que os serviços prestados eram disponibilizados apenas a quem contribuísse: “Os serviços prestados pelo INAMPS somente eram assegurados a quem contribuísse ativamente, ou seja, não era um direito universal, acessível a todo cidadão brasileiro.” (AGOSTINHO, 2020). Com o advento da Constituição Federal de 1988 ficou atribuído ao Estado a obrigação de dispor a saúde, garantindo o direito a saúde como um direito universal e por isso independendo de contribuição efetiva. AGOSTINHO comenta “ser um direito social materializado por todos os entes da federação através de políticas sociais e econômicas que objetivam reduzir o risco de doença, assegurando o acesso universal e igualitário a todo cidadão brasileiro, conforme prevê a redação do art. 196 da CF: “A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação. ” Após a promulgação da Constituição Federal de 1988 foi instituído o SUS - Sistema Único de Saúde: A Constituição Federal de 1988 também instituiu o Sistema Único de Saúde – SUS, órgão financiado com recursos do orçamento da Seguridade Social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios. De acordo com o art. 198 da CF, o Sistema Único de Saúde possui as seguintes diretrizes: I – descentralização, com direção única em cada esfera de governo; II – atendimento integral, com prioridade para as atividades preventivas, sem prejuízo dos serviços assistenciais; III – participação da comunidade. Ademais, as instituições privadas, preferencialmente as entidades 17 filantrópicas e as sem fins lucrativos, poderão participar de forma complementar do Sistema Único de Saúde, através de contrato de direito público ou de convênios (art. 199 da CF). (AGOSTINHO, 2020). Façamos também a leitura do art. 199 da CF/88: Art. 199. A assistência à saúde é livre à iniciativa privada. § 1º - As instituições privadas poderão participar de forma complementar do sistema único de saúde, segundo diretrizes deste, mediante contrato de direito público ou convênio, tendo preferência as entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos. § 2º É vedada a destinação de recursos públicos para auxílios ou subvenções às instituições privadas com fins lucrativos. § 3º É vedada a participação direta ou indireta de empresas ou capitais estrangeiros na assistência à saúde no País, salvo nos casos previstos em lei. § 4º A lei disporá sobre as condições e os requisitos que facilitem a remoção de órgãos, tecidos e substâncias humanas para fins de transplante, pesquisa e tratamento, bem como a coleta, processamento e transfusão de sangue e seus derivados, sendo vedado todo tipo de comercialização. (BRASIL, 1988) Acerca das entidades de iniciativa privada na área da saúde: Para as entidades da iniciativa privada é possível a atuação livre na área da saúde; no entanto, a Constituição Federal proíbe a destinação de recursos públicos para auxílios e subvenções às instituições privadas com fins lucrativos, permitindo apenas a participação de empresas ou capitais estrangeiros na assistência à saúde no Brasil nos casos previstos em lei (AGOSTINHO, 2020). Em relação à saúde, essa não exige contribuição prévia; suas prestações estendem-se a toda a população e não estão condicionadas ao cumprimento de obrigações precedentes. Seguimos com a conceituação dada pela doutrina de SANTOS referindo-se ao art. 196 da CF: O dispositivo atende ao princípio da universalidade, seja da cobertura, seja do atendimento. Da cobertura, porque se dirige a todas as etapas: promoção, proteção e recuperação. Do atendimento, porque garante a todos o direito e o acesso igualitário às ações e serviços de saúde. Trata-se de direito subjetivo de todos quantos vivem no território nacional, que tem o Estado (Poder Público) como sujeito passivo, eis que contempla todos os que tiverem a sua saúde afetada, independentemente de filiação e de contribuição para o financiamento da seguridade social. Mas não é só do Estado o dever de garantir o direito à saúde, uma vez que essa responsabilidade também é das 18 pessoas, da família, das empresas e da sociedade (Lei n. 8.080/90, art. 2º). O direito à saúde é amplo, a CF não fez distinções, daí se poder afirmar que abrange a saúde física e mental, tanto que o art. 3º, parágrafo único, da Lei n. 8.080/90 dispõe que dizem respeito também à saúde as ações que se destinam a garantir às pessoas e à coletividade condições de bem estar físico, mental e social. Tão importante é o direito à saúde que o art. 3º da Lei n. 8.080/90, na redação dada pela Lei n. 12.864/2013, dispõe que: “Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do País”, indicando claramente que a ausência do Estado na efetivação desse direito apenas comprova o atraso no desenvolvimento econômico e social. A Lei n. 8.080, de 19.09.1990, dispõe sobre as condições para a promoção, proteção e recuperação da saúde, a organização e o funcionamento dos serviços correspondentes e dá outras providências. Regula, em todo o território nacional, as ações e serviços de saúde, executados isolada ou conjuntamente, em caráter permanente ou eventual, por pessoas naturais ou jurídicas de direito público ou privado (art. 1º). Atendendo uma vez mais ao princípio da universalidade, a Lei n. 9.836, de 23.09.1999, instituiu o Subsistema de Atenção à Saúde Indígena. O art. 197 da CF deurelevância pública às ações e aos serviços de saúde. Cabe ao Estado, por meio de políticas econômicas e sociais, efetivar o direito à saúde de todos quantos se encontram no território nacional. O agir do Estado deve ser dirigido a reduzir o risco “doença” e outros agravos e garantir acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde, sempre com vista à sua promoção, proteção e recuperação (art. 196). A atuação estatal deve se voltar para todas as etapas da cobertura. Na etapa da promoção do direito à saúde, estão as ações de prevenção do risco doença e outros agravos, de que são exemplos as campanhas para prevenção da contaminação pelo vírus HIV, de prevenção de doenças endêmicas, de vacinação etc. Na etapa da proteção, propriamente dita, estão o atendimento e o tratamento necessários. E na etapa da recuperação deve ser facilitado o acesso a próteses, órteses e demais equipamentos necessários ao retorno para a vida em comunidade. As políticas econômicas e sociais de proteção à saúde não se situam apenas no campo da medicina. O art. 3º da Lei n. 8.080/90 dispõe que são fatores condicionantes e determinantes da saúde a alimentação, a moradia, o saneamento básico, o meio ambiente, o trabalho, a renda, a educação, a atividade física, o transporte, o lazer e o acesso aos bens e serviços essenciais, entre outros. A Lei n. 12.864, de 24.09.2013, alterou o art. 3º, passando a dispor que “Os níveis de saúde expressam a organização social e econômica do País”, e acrescentou a atividade física como fator determinante e condicionante da saúde. O serviço de assistência à saúde é serviço público, quer seja prestado diretamente pelo Estado ou pela iniciativa privada. A falta ou deficiência do serviço, caso acarrete dano para o usuário, poderá dar origem à responsabilidade objetiva do Estado e, consequentemente, ao dever de indenizar. A relação jurídica entre o titular do direito e o Estado garante apenas prestação de serviços, uma vez que não há até o momento previsão legal de pagamento de benefícios. (SANTOS, 2020). 4.1.1 A execução dos serviços de saúde. O SUS. Acerca da execução dos serviços de saúde SANTOS aborda: O art. 198 da CF dispõe que as ações e serviços de saúde integram uma rede 19 regionalizada e hierarquizada e constituem um sistema único. O art. 4º da Lei n. 8.080/90 define o SUS como o conjunto de ações e serviços de saúde, prestados por órgãos e instituições públicas federais, estaduais e municipais, da Administração direta e indireta e das fundações mantidas pelo Poder Público. O § 1º inclui no SUS as instituições públicas federais, estaduais e municipais de controle de qualidade, pesquisa e produção de insumos, medicamentos, inclusive de sangue e hemoderivados, e de equipamentos para saúde. A proteção à saúde é dada por meio da prestação de serviços públicos. Tais serviços podem ser executados diretamente pelo Poder Público, por intermédio de terceiros e por pessoas físicas ou jurídicas de direito privado. O art. 199 da CF autoriza que a iniciativa privada atue no setor de saúde. Entretanto, o legislador constituinte enfatizou que a atuação da iniciativa privada só pode ocorrer de forma complementar, impondo que o Poder Público continue a prestar diretamente o serviço. A disposição é repetida pelo § 2º do art. 4º da Lei n. 8.080/90. Os princípios e diretrizes constitucionais, explicitados na Lei n. 8.080/90,se aplicam não somente às instituições públicas que prestem serviços de saúde, mas também aos serviços privados contratados ou conveniados que integrem o SUS. O financiamento do SUS é feito com recursos do orçamento da seguridade social, da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, além de outras fontes (art. 198, § 1º, da CF). (SANTOS, 2020. P. 120) Conforme tratado, a atuação na saúde feita através de iniciativa privada ocorrerá de forma complementa, não excluindo a atuação do poder público. A doutrina nos explica de forma mais detalhada: Sempre que a atuação do Poder Público se mostrar insuficiente para garantir cobertura assistencial à população de uma determinada área, os serviços privados de saúde podem participar do SUS, em caráter complementar. Essa participação será viabilizada por contrato ou convênio, que devem ser precedidos de licitação, na forma do art. 24 e parágrafo único da Lei n. 8.080/90. A exigência do procedimento licitatório para a participação da iniciativa privada tem sido confirmada pelo STF, que afirmou, inclusive, ter o Ministério Público Federal legitimidade ativa para ajuizar ação civil pública nessa hipótese. A s entidades filantrópicas e as sem fins lucrativos deverão ter preferência no processo licitatório para a participação complementar de particulares (art. 25). Tratando-se de contrato administrativo, deve ser preservado o equilíbrio econômico e financeiro, garantindo a efetiva qualidade da execução dos serviços. Para tanto, cabe ao Conselho Nacional de Saúde (CNS) aprovar os critérios e valores para a remuneração dos serviços e os parâmetros de cobertura assistencial fixados pela direção nacional do SUS (art. 26), fundamentandose em demonstrativo econômico- financeiro. O objetivo de dar confiabilidade ao sistema faz com que o art. 26, § 4º, da Lei n. 8.080/90 proíba os proprietários, administradores e dirigentes de entidades privadas que celebrarem contrato ou convênio de exercerem cargos de chefia ou função de confiança dentro do SUS. Trata-se de serviço público e a participação da iniciativa privada tem natureza de serviço público por delegação, razão pela qual as empresas e seus dirigentes estão sujeitos à Lei n. 8.429/92 (improbidade administrativa), que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes públicos nos casos de enriquecimento ilícito no exercício de mandato, cargo, emprego ou função na administração pública 20 direta, indireta ou fundacional. Também para fins penais, os médicos e administradores de hospitais particulares participantes do SUS são considerados funcionários públicos por equiparação. Esse entendimento tem sido reiteradamente adotado pelo Superior Tribunal de Justiça. (SANTOS, 2020). 4.1.2 A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) é uma autarquia especial que está vinculada ao Ministério da saúde, surgiu através da Lei n. 9.961, de 28.01.2000, cabe a ela as funções de: (Art. 1º) regular, normatizar e fiscalizar a atuação, em caráter suplementar, da iniciativa privada no setor de saúde. A ANS deve “promover a defesa do interesse público na assistência suplementar à saúde, regulando as operadoras setoriais, inclusive quanto às suas relações com prestadores e consumidores, contribuindo para o desenvolvimento das ações de saúde no país” (art. 3º), submetendo-se às disposições da Lei n. 13.848, de 25.06.2019. As atribuições da ANS estão definidas no art. 4º da Lei n. 9.961/2000, das quais destacamos: propor políticas e diretrizes gerais ao Conselho Nacional de Saúde Suplementar para a regulação do setor de saúde suplementar; fixar critérios para os procedimentos de credenciamento e descredenciamento de prestadores de serviço às operadoras; estabelecer normas para ressarcimento ao SUS; estabelecer normas relativas à adoção e utilização, pelas operadoras de planos de assistência à saúde, de mecanismos de regulação do uso dos serviços de saúde; normatizar os conceitos de doença e lesão preexistentes; estabelecer critérios, responsabilidades, obrigações e normas de procedimento para garantia dos direitos assegurados nos arts. 30 e 31 da Lei n. 9.656/98; estabelecer critérios gerais para o exercício de cargos diretivos das operadoras de planos privados de assistência à saúde; estabelecer critérios de aferição e controle da qualidade dos serviços oferecidos pelas operadoras de planos privados de assistência à saúde, sejam eles próprios, referenciados, contratados ou conveniados; estabelecer normas, rotinas e procedimentos para concessão, manutenção e cancelamento de registro dos produtos das operadoras de planos privados de assistência à saúde; autorizar reajustes e revisões das contraprestações pecuniárias dos planos privados de assistência à saúde, ouvido o Ministério da Fazenda; autorizar o registro dos planos privados de assistência à saúde; monitorar a evolução dos preços de planos de assistência à saúde, seus prestadores de serviços e respectivos componentes e insumos; fiscalizar as atividades das operadoras de planos privados de assistência à saúde e zelar pelo cumprimento das normas atinentes ao seu funcionamento; exercer o controle e a avaliação dos aspectos concernentes à garantia de acesso, manutenção e qualidade dos serviços prestados, direta ou indiretamente, pelas operadoras de planos privados de assistência à saúde; aplicar as penalidades pelo descumprimento da Lei n. 9.656/98 e de sua regulamentação; proceder à liquidação extrajudicial e autorizar o liquidante a requerer a falência ou insolvência civil das operadoras de planos privados de assistência à saúde; articular-se com os órgãos de defesa do consumidor visando a eficácia da proteção e defesa do consumidor de serviços privados 21 de assistência à saúde, observado o disposto na Lei n. 8.078/90, e zelar pela qualidade dos serviços de assistência à saúde no âmbito da assistência à saúde suplementar. No exercício de sua atividade administrativa fiscalizatória do setor, a ANS, agência reguladora, deve respeitar os princípios da legalidade e do contraditório. O art. 18 da Lei n. 9.961/2000 instituiu a Taxa de Saúde Suplementar (TSS). A taxa é devida a partir de 1º.01.2000, e tem como fato gerador o exercício, pela ANS, do poder de polícia que lhe é legalmente atribuído. São sujeitos passivos da exação (art. 19): as pessoas jurídicas, condomínios ou consórcios constituídos sob a modalidade de sociedade civil ou comercial, cooperativa ou entidade de autogestão, que operem produto, serviço ou contrato com a finalidade de garantir a assistência à saúde visando a assistência médica, hospitalar ou odontológica. A TSS é recolhida em conta vinculada à ANS (art. 23). Em caso de inadimplemento, é apurada administrativamente e inscrita na dívida ativa da própria ANS, com o posterior ajuizamento de execução fiscal (art. 24) por sua Procuradoria (art. 25) . (SANTOS, 2020). 4.1.3 Objetivos e atribuições do SUS Ao SUS caberá a identificação de causas determinantes da saúde para que garanta o acesso universal e igualitário aos serviços de saúde. Cabe ao SUS identificar e divulgar os fatores condicionantes e determinantes da saúde (art. 5º, I, Lei n. 8.080/90) para que, com vista ao acesso universal e igualitário às ações e aos serviços de saúde, possa formular a política de saúde, destinada a promover, nos campos econômico e social, a inclusão das pessoas, da família, das empresas e da sociedade nas atividades de prestação desses serviços (art. 5º, II). Há exemplos importantes de política nacional de saúde, dos quais destacamos a Lei n. 9.434, de 04.02.1997, que dispõe sobre a remoção de órgãos, tecidos e partes do corpo humano para fins de transplante e tratamento e dá outras providências, dando cumprimento, no particular, ao disposto no § 4º do art. 199 da CF. O art. 2º da referida lei dispõe que “a realização de transplante ou enxertos de tecidos, órgãos ou partes do corpo humano só poderá ser realizada por estabelecimento de saúde, público ou privado, e por equipes médico- cirúrgicas de remoção e transplante previamente autorizados pelo órgão de gestão nacional do Sistema Único de Saúde”, impondo o controle governamental, exercido sempre com vista à redução do risco doença e outros agravos. Já no século XXI, doenças emocionais e psíquicas, como depressão, síndrome do pânico etc., acabaram por causar a elevação do número de suicídios em todo o planeta, impondo a adoção de políticas públicas de saúde. Foi, então, editada a Lei n. 13.819, de 26.04.2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio, a ser implementada pela União, em cooperação com os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, impondo, ainda, às operadoras de planos de saúde, a inclusão de cobertura de atendimento à violência autoprovocada e às tentativas de suicídio (SANTOS, 2020). 22 Os incisos I a XI do art. 6º da Lei n. 8.080/90 arrolam as atribuições do SUS das quais é importante evidenciar: execução de ações de vigilância sanitária, de vigilância epidemiológica, de saúde do trabalhador e de assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica, formulação da política de medicamentos, equipamentos, imunobiológicos e outros insumos que possuem relevância para a saúde e a participação na produção, formulação e execução da política de sangue e seus derivados. 4.1.4 Sobre a vigilância sanitária e epidemiológica A vigilância sanitária possui sua previsão legal no § 1º do art. 6º da Lei n. 8.080/90 e é definida como “um conjunto de ações capaz de eliminar, diminuir ou prevenir riscos à saúde e de intervir nos problemas sanitários decorrentes do meio ambiente, da produção e circulação de bens e da prestação de serviços de interesse da saúde”. Abrange ainda “o controle de bens de consumo que, direta ou indiretamente, se relacionem com a saúde, compreendidas todas as etapas e processos, da produção a consumo” (§ 1º, I), e “o controle da prestação de serviços que se relacionam direta ou indiretamente com a saúde” (§ 1º, II). ” Sobre a vigilância epidemiológica o § 2º do art. 6º diz que a vigilância epidemiológica é “um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento, a detecção ou prevenção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes de saúde individual ou coletiva, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle das doenças ou agravos” (SANTOS, 2020). 4.1.5 Sobre a saúde do trabalhador e assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica A norma nº 8.080, de 19 de setembro de 1990 trata da saúde do trabalhador em seu art. 6º, § 3º: § 3º Entende-se por saúde do trabalhador, para fins desta lei, um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância epidemiológica e 23 vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores, assim como visa à recuperação e reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos riscos e agravos advindos das condições de trabalho, abrangendo: I - assistência ao trabalhador vítima de acidentes de trabalho ou portador de doença profissional e do trabalho; II - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), em estudos, pesquisas, avaliação e controle dos riscos e agravos potenciais à saúde existentes no processo de trabalho; III - participação, no âmbito de competência do Sistema Único de Saúde (SUS), da normatização, fiscalização e controle das condições de produção, extração, armazenamento, transporte, distribuição e manuseio de substâncias, de produtos, de máquinas e de equipamentos que apresentam riscos à saúde do trabalhador; IV - avaliação do impacto que as tecnologias provocam à saúde; V - informação ao trabalhador e à sua respectiva entidade sindical e às empresas sobre os riscos de acidentes de trabalho, doença profissional e do trabalho, bem como os resultados de fiscalizações, avaliações ambientais e exames de saúde, de admissão, periódicos e de demissão, respeitados os preceitos da ética profissional; VI - participação na normatização, fiscalização e controle dos serviços de saúde do trabalhador nas instituições e empresas públicas e privadas; VII - revisão periódica da listagem oficial de doenças originadas no processo de trabalho, tendo na sua elaboração a colaboração das entidades sindicais; e VIII - a garantia ao sindicato dos trabalhadores de requerer ao órgão competente a interdição de máquina, de setor de serviço ou de todo ambiente de trabalho, quando houver exposição a risco iminente para a vida ou saúde dos trabalhadores. (BRASIL, 1990). SANTOS comenta sobre a assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica: O SUS deve executar ações de assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica (art. 6º, I, d). A dificuldade de delimitação, pela via da interpretação, do alcance da expressão “assistência terapêutica integral, inclusive farmacêutica” tem levado questionamentos ao Poder Judiciário, principalmente em relação ao fornecimento gratuito de medicamentos e ao tratamento médico no exterior. Essa situação desembocou na edição da Lei n. 12.401, de 28.04.2011, que alterou a Lei n. 8.080/90, acrescentando alguns artigos ao seu texto original. O art. 19-M, acrescentado, definiu a assistência terapêutica integral como (I) a dispensação de medicamentos e produtos de interesse para a saúde, cuja prescrição esteja em conformidade com as diretrizes terapêuticas definidas em protocolo clínico para a doença ou o agravo à saúde a ser tratado ou, na falta do protocolo, em conformidade com o disposto no art. 19-P; (II) a oferta de procedimentos terapêuticos, em regime domiciliar, ambulatorial e hospitalar, constantes de tabelas elaboradas pelo gestor federal do SUS, realizados no território nacional por serviço próprio, conveniado ou contratado. No art. 19-N, I, está o conceito de produtos de interesse para a saúde: órteses, próteses, bolsas coletoras e equipamentos médicos. Protocolo clínico e diretriz terapêutica também estão definidos no novo art. 19-N: documento que estabelece critérios para o diagnóstico da doença ou do agravo à saúde; o tratamento prescrito, com os medicamentos e demais produtos apropriados, quando couber; as posologias 24 recomendadas; os mecanismos de controle clínico; e o acompanhamento e a verificação dos resultados terapêuticos, a serem seguidos pelos gestores do SUS (inciso II). (SANTOS, 2020) 4.1.6 Descentralização da gestão do SUS Já foi evidenciado anteriormente a descentralização da administração, o que diz respeito a seguridade social. O SUS, como parte da seguridade social também possui essa característica, SANTOS leciona como se dá essa descentralização: Os serviços executados pelo SUS, diretamente ou com a participação complementar da iniciativa privada, serão organizados de forma regionalizada e hierarquizada em níveis de complexidade crescente (art. 8º da Lei n. 8.080/90). Há uma direção única do SUS dentro de cada uma das esferas de governo, na forma do disposto no art. 198 da CF e no art. 9º da Lei n. 8.080/90. No plano federal, o SUS é dirigido pelo Ministério da Saúde (art. 9º, I, da Lei n. 8.080/90). Nos Estados e no Distrito Federal, a direção compete à respectiva Secretaria de Saúde ou órgão equivalente (art. 9º, II). E, nos Municípios, a direção é feita pela Secretaria Municipal de Saúde ou órgão equivalente (art. 9º, III). Os Municípios podem desenvolver em conjunto suas respectivas ações e serviços de saúde. Para tanto, podem formar consórcios administrativos intermunicipais (art. 10). Os atos constitutivos do consórcio, nesse caso, devem disciplinar a forma como se desenvolverá a direção única (art. 10, § 1º). Cada esfera de governo tem duas instâncias colegiadas, que propiciam a participação da comunidade na gestão do SUS (Lei n. 8.142, de 28.12.1990): são a Conferência de Saúde e o Conselho de Saúde (art. 1º, I e II). A Conferência de Saúde, que se reúne a cada 4 anos, tem a representação de vários segmentos sociais. Reúne-se para avaliar a situação de saúde e propor diretrizes de políticas públicas (art. 1º, § 1º). O Conselho de Saúde tem caráter permanente e deliberativo. É órgão colegiado, composto por representantes do governo, prestadores de serviço, profissionais de saúde e usuários. Sua atuação é voltada para a formulação de estratégias e para o controle da execução da política de saúde na instância correspondente, inclusive nos aspectos econômicos e financeiros, cujas decisões serão homologadas pelo chefe do poder legalmente constituído em cada esfera de governo (art. 1º, § 2º). (SANTOS, 2020). 4.2 Assistência social Em relação a assistência social, devemos sempre lembrar que “cabe ao Estado a prestação de assistência social às pessoas carentes, sem exigência de qualquer contribuição, visando assegurar o mínimo existencial, tendo em vista o princípio da dignidade da pessoa humana.” (AGOSTINHO, 2020) Vale ressaltar ainda, que “a Lei n. 8.742/93 que legisla sobre a organização da 25 Assistência Social – LOAS, estabelece que é assegurado o benefício de prestação continuada que garante um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso com 65 (sessenta e cinco) anos ou mais, que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção nem de tê-la provida por sua família. Esse benefício não pode ser acumulado com outro no âmbito da seguridade social, salvo algumas exceções previstas em lei. A assistência social é uma política social que tem por objetivo amparar às necessidades básicas em relação à família, à maternidade, à infância, à adolescência, à velhice e à pessoa portadora de deficiência, concedida aqueles que comprovarem a efetiva necessidade econômica e social, na forma da lei, independentemente de contribuição à Seguridade Social. A assistência social é prestada pelo Estado e tem por escopo garantir aos incapacitados condições mínimas de sobrevivência. Tanto na saúde quanto na assistência social, não é exigido aos seus beneficiários contribuição, sendo devidas suas prestações a todos aqueles que delas necessitarem, não sendo necessário que o beneficiário esteja filiado ao regime geral de previdência social, sendo qualquer pessoa necessitada por ela amparada, desde que cumpra os requisitos legais. O artigo 203 da CF prescreve que a Assistência Social “será prestada a quem dela necessitar, independentemente de contribuição à seguridade social”. As prestações de assistência social não dependem de contribuição para o custeio da seguridade social por parte do beneficiário. Os objetivos da Assistência Social estão enumerados no art. 203: a proteção à família, à maternidade, à adolescência e à velhice; o amparo às crianças e adolescentes carentes; a promoção da integração ao mercado de trabalho; a habilitação e a reabilitação das pessoas com deficiência e a promoção de sua integração à vida comunitária; a garantia de um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover à própria manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei. Para a CF a Assistência Social é instrumento de transformação social, e não meramente assistencialista. As prestações de assistência social devem promover a integração e a inclusão do assistido na vida comunitária, fazer com que, a partir do recebimento das prestações assistenciais, seja “menos desigual” e possa exercer atividades que lhe garantam a subsistência.(...). A Lei n. 12.435/2011 alterou substancialmente diversas disposições da LOAS e, inclusive, adequou a terminologia original — pessoas portadoras de deficiência — para referir-se, agora, a pessoas com deficiência. Os objetivos da Assistência Social estão previstos no art. 2º da LOAS, que, na redação original, deles tratava de forma genérica. Aperfeiçoado 26 tecnicamente pela Lei n. 12.435/2011, o art. 2º divide os objetivos em: proteção social, com vistas à garantia da vida, à redução de danos e à prevenção da incidência de riscos; vigilância socioassistencial; e defesa de direitos. A proteção social visa garantir a vida, a redução de danos e a prevenção da incidência de riscos. Deve ser dirigida, especialmente, à família, à maternidade, à infância, à adolescência e à velhice; ao amparo às crianças e aos adolescentes carentes; à habilitação e reabilitação das pessoas com deficiência e à promoção de sua integração à vida comunitária; à garantia de um salário mínimo mensal à pessoa com deficiência e ao idoso que comprovem não possuir meios de prover a própria manutenção ou de tê- la provida por sua família. Note-se que a proteção social deve alcançar justamente os sujeitos mais frágeis das relações sociais: família, infância, adolescência, velhice e pessoas com deficiência. A proteção social é efetivada por meio das ações do Sistema Único de Assistência Social (SUAS), conforme prevê o § 1º do art.