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Edilson Coellho Sampaio Elson Ferreira Costa Organizadores PSICOLOGIA UM OLHAR DO MUNDO REAL VOLUME 1 1ª Edição 2020 Copyright© 2020 por Editora Científica Digital Copyright da Edição © 2020 Editora Científica Digital Copyright do Texto © 2020 Os Autores EDITORA CIENTÍFICA DIGITAL Guarujá - São Paulo - Brasil www.editoracientifica.org - contato@editoracientifica.org O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são de responsabilidade exclusiva dos autores. Permitido o download e compartilhamento desde que os créditos sejam atribuídos aos autores, mas sem a possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais. Todo o conteúdo deste livro está licenciado sob uma Licença de Atribuição Creative Commons. Atribuição 4.0 Internacional (CC BY 4.0). Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (eDOC BRASIL, Belo Horizonte/MG) P974 Psicologia [recurso eletrônico] : um olhar do mundo real: volume 1 / Organizadores Edilson Coellho Sampaio, Elson Ferreira Costa. – Guarujá, SP: Editora Científica Digital, 2020. 188 p. Formato: PDF Requisitos de sistema: Adobe Acrobat Reader Modo de acesso: World Wide Web Inclui bibliografia ISBN: 978-65-87196-14-5 DOI: 10.37885/978-65-87196-14-5 1. Psicologia. I. Sampaio, Edilson Coelho. II. Costa, Elson Ferreira. III. Série. CDD 150 Elaborado por Maurício Amormino Júnior – CRB6/2422 CORPO EDITORIAL Editor Chefe: Reinaldo Cardoso Editor Executivo: João Batista Quintela Assistentes Editoriais: Elielson Ramos Jr. Érica Braga Freire Erick Braga Freire Bibliotecário: Maurício Amormino Júnior Conselho Editorial Profº. Dr. Robson José de Oliveira - Universidade Federal do Piauí Prof. Dr. Carlos Alberto Martins Cordeiro - Universidade Federal do Pará Prof. Dr. Rogério de Melo Grillo - Universidade Estadual de Campinas Profª. Drª. Eloisa Rosotti Navarro - Universidade Federal de São Carlos Prof. Me. Ernane Rosa Martins - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás Prof. Dr. Rossano Sartori Dal Molin - Universidade Federal do Rio Grande do Sul Prof. Dr. Carlos Alexandre Oelke - Universidade Federal do Pampa Prof. Me. Domingos Bombo Damião - Universidade Agostinho Neto, Angola Prof. Dr. Edilson Coelho Sampaio - Universidade da Amazônia Prof. Dr. Elson Ferreira Costa - Universidade do Estado Do Pará Prof. Me. Reinaldo Eduardo da Silva Sale - Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará Prof. Me. Patrício Francisco da Silva - Faculdade Pitágoras de Imperatriz Profª. Me. Auristela Correa Castro - Universidade Federal do Oeste do Pará EDITORA CIENTÍFICA DIGITAL Guarujá - São Paulo - Brasil www.editoracientifica.org - contato@editoracientifica.org SUMÁRIO CAPÍTULO 16 .......................................................................................................................... 132 O USO DE TÉCNICAS ANALÍTICO-COMPORTAMENTAIS NA TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA Luiz Eduardo de Castro Nascimento ; Luiz Carlos Rodrigues de Matos Souza Sobrinho; Anchielle C. Henrique Silva CAPÍTULO 17 .......................................................................................................................... 136 OLHARES SOBRE O ENTORNO ESCOLAR EM BUSCA DA CONSTRUÇÃO DE PLANEJAMENTOS SIGNIFICATIVOS Jéssica Maís Antunes CAPÍTULO 18 .......................................................................................................................... 141 ORIENTAÇÃO PROFISSIONAL - UM ENCONTRO ENTRE O COACHING E A AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA Maria Elisa Lacerda Faria; Thamyres Ribeiro Pereira; Sylvio Tutya; Lidia Carolina Balabuch CAPÍTULO 19 .......................................................................................................................... 147 PROCESSOS DE ESCRITA NA ADOLESCÊNCIA: UM ENFOQUE NARRATIVO Luana Moletta de Carvalho; Thalia Vielmo Bianchini CAPÍTULO 20 .......................................................................................................................... 153 SÍNDROME DE BURNOUT, PSICOLOGIA E DIREITO À SAÚDE Karina Pregnolato Reis; Márcia Villar Franco; Marcelito Lopes Fialho CAPÍTULO 21 .......................................................................................................................... 160 SÍNDROME DE BURNOUT: UM ESTUDO ASSOCIADO AO TRABALHO DOCENTE E A VIVÊNCIA DE TRABALHADORES QUE SOFREM DESSE TRANSTORNO Simone Campos Prefeito; Dalva Alves Vicente; Ruth Vieira Nunes CAPÍTULO 22 .......................................................................................................................... 165 TRAUMAS DA INFÂNCIA E O TRANSTORNO DO PÂNICO Andréia Camargo CAPÍTULO 23 .......................................................................................................................... 175 UM PANORAMA DA GESTÃO DE PESSOAS NO CORPO DE BOMBEIROS DA POLÍCIA MILITAR DO PARANÁ Luís Henrique Alves CAPÍTULO 20 SÍNDROME DE BURNOUT, PSICOLOGIA E DIREITO À SAÚDE 10.37885/200500321 Palavras-chave: A síndrome de Burnout; Estresse Ocupacional; Patologia Laboral; Problemas relacionados ao emprego e ao desemprego; Psicologia e Direito à Saúde. RESUMO A Síndrome de Burnout foi considerada doença resultante de estresse crônico e relacionado ao meio ambiente laboral. Como consequência, foi classificada pela CID-11 como “problemas relacionados ao emprego e ao desemprego”, não sendo tratada no capítulo de “transtornos mentais, comportamentais e de neurodesenvolvimento”. Assim, necessária se torna a análise do tema sob o prisma da Organização Mundial da Saúde (OMS) e à luz das pesquisas científicas realizadas historicamente. Objetiva a investigação alcançar o conceito para a referida síndrome, de modo que se possam discutir as extensões de seu enquadramento como doença do trabalho, à luz da Psicologia e do Direito à Saúde. Para tanto, pautou-se a pesquisa no uso dos métodos de abordagem sistêmico e hermenêutico, no método de coleta bibliográfico e documental, bem como no método procedimental de análise qualitativa com emprego de análise do discurso. Como resultados, encontrou-se a descrição da Síndrome de Burnout no ano de 1953, a partir do estudo do caso conhecido como Miss Jones; e que tal síndrome implica em danos causados à saúde, decorrentes das condições laborais inadequadas, pelas excessivas pressões físicas e psicológicas suportadas pelo trabalhador contemporâneo; sendo o surgimento da patologia como fenômeno psicossocial, em razão de sofrimentos e desgastes advindos do ambiente de trabalho. Finalmente, importa dizer que o estudo da Síndrome de Burnout se traduz em relevante temática que permite a intersecção entre a Psicologia e o Direito à Saúde, de modo a se conseguir uma complementaridade, sem o esgotamento do assunto. Karina Pregnolato Reis UNISANTA Márcia Villar Franco UNISANTA Marcelito Lopes Fialho UNISANTA Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1154 1. INTRODUÇÃO O presente estudo se destina à abordagem de tema de discussão atual, observado por um olhar sobre o mundo real hodierno, advindo das relações humanas no ambiente de trabalho. Notadamente, no que concerne à saúde e à quali- dade de vida do trabalhador, com destaque ao diag- nóstico e ao manejo do estresse ocupacional, campo que interessa de forma concomitante à Psicologia e ao Direito à Saúde. Trata-se da Síndrome de Burnout, considerada do- ença resultante de estresse crônico e relacionado ao meio ambiente laboral. Classificada pela CID-11 como “problemas relacio- nados ao emprego e ao desemprego” e não tra- tada no capítulo de “transtornos mentais, compor- tamentais e de neurodesenvolvimento”, carece de ser analisada sob o prisma da Organização Mundial da Saúde (OMS) e à luz das pesquisas científicas realizadas historicamente. Isto porque, estudada desde 1953 com esta nomen- clatura de “Síndrome de Burnout”, originou-se de um estudo de caso, o qual foi denominado como Miss Jones e se pautava na desilusão enfrentadapor uma enfermeira psiquiátrica em relação a seu trabalho, com seu adoecimento psíquico. Propõe-se a pesquisa a alcançar o conceito para a referida síndrome, de modo que se possam discutir as extensões de seu enquadramento como doença do trabalho, à luz da Psicologia e do Direito à Saúde. A metodologia utilizada para a investigação científica se pautou, basicamente, no uso dos métodos de abordagem sistêmico e hermenêutico, no método de coleta bibliográfico e documental, bem como no método procedimental de análise qualitativa com emprego de análise do discurso. 2. ORIGEM E CONCEITUAÇÃO DA SÍN- DROME Desde o ano de 1953, o termo Burnout passou a ser utilizado devido a uma publicação de Schwartz e Will, a partir de um estudo de caso que ficou conhe- cido como Miss Jones. Em seu trabalho, os autores descreveram os problemas suportados por uma en- fermeira psiquiátrica desiludida com seu trabalho. Na década de 60, surgiu outra publicação, desta vez intitulada como A burn Out Case, de Graham Gre- ene. Nesta, houve o relato do caso de um arquiteto que abandou sua profissão, devido a sentimentos de desilusão para com a mesma. Entretanto, um dos primeiros e principais estudos científicos sobre Burnout também são creditados ao psicólogo Herbert J. Freudenberger. Em seu ar- tigo denominado Staff Burn-Out, datado de 1974, definiu o termo como sendo um “incêndio interno”, decorrente de um excessivo desgaste emocional e de recursos que afetam de forma direta e negativa- mente a relação do indivíduo com o trabalho. A terminologia da palavra Burnout, significa em tra- dução direta livre “burn = queimar, out = fora/apa- gado”. Vieira (2010, p. 01) assim registra: O termo burnout significa “queima” ou “combustão total”. Faz parte do vocabulário coloquial em países de língua inglesa e costuma ser empregado para denotar um estado de esgotamento completo da energia individual associado a uma intensa frustração com o trabalho (MASLACH; SCHAUFELI; LEITER, 2001). Segundo Franco et. al. (2019, p. 03), a pesquisadora Christina Maslach é considerada autoridade mundial quanto ao tema do estresse e especialista sobre Burnout, assim conceituando a síndrome: (...) um fenômeno psicossocial que ocorre como resposta crônica aos estressores interpessoais advindos da situação laboral, uma vez que o ambiente de trabalho e sua organização podem ser responsáveis pelo sofrimento e desgaste que acometem os trabalhadores. Ademais, encontra-se a caracterização da síndrome em três dimensões ou subescalas estabelecidas por Christina Maslach (FRANCO et. al., 2019, p. 03): (i) Exaustão Emocional (EE) - quando o profissional experimenta sentimentos de esgotamento ou esgotamento de energia; (ii) Despersonalização (DE) - quando ocorre o aumento da distância mental do emprego, ou sentimentos de negativismo ou cinismo relacionados ao trabalho de alguém; (iii) reduzida Realização Profissional (rRP) - resultante da baixa redução da eficácia profissional. Por sua vez, Carvalho (2019, p. 15) disserta a res- peito da Síndrome de Burnout: A Síndrome de Burnout ou síndrome do esgotamento profissional constitui um dos danos laborais de caráter psicossocial mais Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1 155 importante da sociedade atual e que tem sido qualificada por pesquisadores como “a praga do Século XXI”. Decorre de um estresse laboral crônico, e está relacionada a desordens emocionais, físicas e mentais, e tem como fator de risco a organização do trabalho. A dedicação exagerada à atividade profissional é uma característica marcante de burnout, mas não a única. O desejo de ser o melhor e sempre demonstrar alto grau de desempenho é outra fase importante da síndrome: o portador de burnout mede a autoestima pela capacidade de realização e sucesso profissional. Em função do estilo de trabalho que se desempenha no contexto atual, ou seja, de extrema competitividade e exigências cada vez maiores, surge como consequência à vida cotidiana das pessoas uma carga enorme de empenho e dedicação. Esse nível de exigência está desumanizando os trabalhadores em geral fazendo com que eles atinjam patamares de estresse, esgotamento físico, mental e emocional superiores às suas capacidades potenciais. Evidente o chamamento adicional de “Síndrome do Esgotamento Profissional”, em razão de ser um adoecimento específico do trabalhador. Inclusive, quanto à sua classificação como “praga do Século XXI”, decorrente do estresse crônico laboral. Pode-se inferir, por conseguinte, que o trabalhador acometido pela Síndrome de Burnout possui menos interesse em práticas inovadoras, apresenta des- gaste físico e psicológico quando lhe são exigidos criatividade e comprometimento com o trabalho, além de experimentar a sensação de contrariar os próprios valores para obter êxito na carreira. Explicam Carlotto et. al. (2013) que a Síndrome de Burnout se manifesta de forma lenta e progressiva, sendo acrescida de vários sintomas que na maioria dos casos não se desenvolvem ao mesmo tempo o que torna difícil o diagnóstico inicial da doença. Configura-se pela falta de energia, pelo aumento da distância mental para com o serviço desenvolvido, o negativismo do indivíduo com relação ao trabalho e a redução da eficiência profissional. Outrossim, existem outros diversos sintomas que são decorrentes da síndrome, como depressão, desesperança, solidão, irritabilidade, impaciência, raiva, tensão, diminuição da empatia, cefaleias, náuseas, tensão muscular, dor lombar ou cervical e distúrbios do sono. Conforme escrevem Trigo et. al. (2007, p. 225), os sintomas mais explícitos da Síndrome de Burnout se traduzem na exaustão emocional e no distancia- mento afetivo, os quais abrangem: (...) sentimentos de desesperança, solidão, depressão, raiva, impaciência, irritabilidade, tensão, diminuição de empatia; aumento da suscetibilidade para doenças, cefaléia, náuseas, tensão muscular, dor lombar ou cervical, distúrbios do sono. O distanciamento afetivo provoca a sensação de alienação em relação aos outros, sendo a presença deste muitas vezes desagradável e não desejada. Aflige a saúde física, mental e o nível socioeconô- mico do indivíduo, causando-lhe consequências negativas como pontua Vieira (2010, p. 02, grifos da autora): (...). O burnout está ainda associado a consequências negativas, dentre as quais: • No nível socioeconômico: absenteísmo, queda de produtividade (PARKER; KULIK, 1995) e aposentadoria precoce (WEBER; WELTLE; LEDERER, 2005); • Para a saúde física: aumento do risco cardiovascular (HONKONEN et al., 2006; MELAMED et al., 2006a), alterações fisiológicas e metabólicas como desregulação do eixo hipotálamo- hipófise-adrenais (GROSSI et al., 2005), diabetes tipo 2 (MELAMED et al., 2006a), elevação de lipídios séricos (SHIROM et al., 1997) e alterações do sistema imune (LEHRMAN et al., 1999), além de distúrbios musculoesqueléticos (HONKONEN et al., 2006); • Para a saúde mental: associação com ansiedade e, em especial, depressão (MASLACH; SCHAUFELI; LEITER, 2001; AHOLA et al., 2005), além de abuso de álcool (AHOLA et al., 2006b). Noutras palavras, os autores Trigo et. al. (2007, p. 230) esclarecem que: (...) os indivíduos que estão neste processo de desgaste estão sujeitos a largar o emprego, tanto psicológica quanto fisicamente. Eles investem menos tempo e energia no trabalho fazendo somente o que é absolutamente necessário e faltam com mais frequência. Além de trabalharem Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1156 menos, não trabalham tão bem. Trabalho de alta qualidade requer tempo e esforço, compromisso e criatividade, mas o indivíduo desgastado já não está disposto a oferecer isso espontaneamente. A queda na qualidade e quantidade de trabalho produzido é o resultado profissional do desgaste. Mais um aspecto de suma importância foi aborda- do pela psicóloga Ana Maria Rossi, presidente do ISMA (InternationalStress Management Association) – Brasil: o portador da Síndrome de Burnout além de desenvolver as características retro menciona- das, comumente vivenciam uma “sensação de que é preciso contrariar os próprios valores para se dar bem na carreira” (FRANCO, 2019, p. 04). 3. ANÁLISE DE ALGUMAS PESQUISAS INTERNACIONAIS Franco et. al. (2019, p. 05) citam uma interessante pesquisa feita pela International Stress Management Association - ISMA-BR no ano de 2016 e que contou com a participação de mil profissionais de diversas áreas das cidades de Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP), constatou que 72% (setenta e dois por cento) dos pesquisados disseram estar frequentemente estressados e 32% (trinta e dois por cento) destes apresentavam sintomas da Síndrome de Burnout. Nota-se que, mediante o emprego de regra de três simples, os trinta e dois por cento de indivíduos portadores de sintomas da síndrome representam mais de 40% (quarenta e quatro por cento), isto é, 44,44% do universo de indivíduos pesquisados. Em números, significa dizer que pelo menos 444 (quatrocentos e quarenta e quatro) dentre mil se en- contravam não apenas estressados, como também tinham sintomas da síndrome. Ainda em Franco et. al. (2019, p. 05), pode-se extrair que dos trabalhadores diagnosticados com Burnout, 92% (noventa e dois por cento) se sentiam incapa- citados; 90% (noventa por cento) praticavam o pre- senteísmo; 49% (quarenta e nove por cento) deles apresentavam depressão; 97% (noventa e sete) re- lataram ter exaustão, sem condições físicas e emo- cionais para fazer qualquer coisa; e 91% (noventa e um por cento) sofriam com desesperança, solidão, raiva e impaciência. Os percentuais, obviamente, são elevadíssimos. Mas, Franco op. cit., relata que: Quando considerada a área profissional, a pesquisa apura que os profissionais que atuam no setor da segurança pública tiveram maior incidência da Síndrome de Burnout, seguidos dos motoristas de ônibus urbano e controladores de voo. Os profissionais da saúde, principalmente enfermeiros e médicos, junto com os bancários, atendentes de telemarketing e executivos (gestores), se encontram na terceira colocação. Na área na saúde, destaca-se o relatório elaborado pelo Medscape Physician Lifestyle Report em 2015, com base em 20 mil entrevistas, no qual foi apurado que 46% dos médicos dos Estados Unidos sofrem da Síndrome de Burnout, sendo as mulheres mais atingidas devido à dupla ou tripla jornada de trabalho, bem como pela necessidade de trabalharem mais para se mostrarem tão competentes quanto os homens que exercem a mesma atividade. Há, iniludivelmente, áreas de atuação profissional que são mais atingidas se comparadas a outras. Percebe-se que áreas de extremada importância para a sociedade, como a área da segurança pública e da saúde são responsáveis por colocarem seus profissionais em primeiro e terceiro lugares, respec- tivamente, no ranking das áreas mais acometidas pela síndrome. Outro ponto a se destacar é a reluzente e expres- siva acentuação da síndrome em mulheres. Isto porque, segundo se observa, as mulheres acabam desempenhando dupla ou tripla jornada, além de precisarem provar sua competência para o merca- do de trabalho, quando comparadas a homens que exerçam a mesma atividade. Todos os fatores que importem em exposição do trabalhador a níveis elevados de estresse, em suma, podem conduzi-lo ao desenvolvimento da Síndrome de Burnout. 4. INTERSECÇÕES ENTRE PSICOLO- GIA E DIREITO À SAÚDE Para se estabelecerem as intersecções entre a Psi- cologia e o Direito à Saúde, traga-se à baila a reca- pitulação de que a Síndrome de Burnout se inicia por um estresse crônico; portanto, uma condição de adoecimento psicológico do trabalhador, que pode chegar a níveis físicos e socioeconômicos. Não raras vezes, diga-se, o ambiente do trabalho adoece o indivíduo. Seja por fatores inerentes à própria profissão exercida, seja pelas relações in- terpessoais e/ou chefias psicopatas. Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1 157 Sob este prisma, Demolinari (2010, p. 32-36), as- severa a respeito da psicopatia e da violência veri- ficada nas Organizações: É crescente o número de empregados que sofrem ações abusivas intencionais, fruto da psicopatia de chefes ou mesmo de colegas de trabalho, que normalmente se manifestam através de humilhações, ul t ra jes, menosprezos, causando constrangimentos e sofrimentos a quem os recebe. Pode-se considerar uma vítima aquele que sofreu exposição a situações constrangedoras, conduta negativa e antiética de forma repetitiva e prolongada dentro de uma organização. O empregado que sofre esse tipo de violência psicológica pode apresentar danos em sua identidade, dignidade e relações afetivas e sociais, ocasionando problemas na saúde física e mental que podem evoluir para a incapacidade laborativa, o desemprego, até a morte. Isso se constitui como um risco invisível, porém concreto, que impõe aos trabalhadores um sofrimento perverso. (...). Os casos de abuso de poder de chefes sobre subordinados dentro das organizações têm tomado maiores proporções, fazendo com que a população mundial se volte mais para esse problema. Atualmente, discute-se muito sobre mobbing, expressão técnica utilizada para definir um abuso emocional no local de trabalho, também conhecido como: massacre emocional, terror psicológico, assédio moral, traumatização, agressão psicológica e tortura emocional. Vítimas de mobbing estão sujeitas a problemas de saúde tanto de ordem física quanto psicológica. Além de desenvolverem uma irritabilidade acima da média, tornam-se pessoas ansiosas e, por vezes, deprimidas. Por estarem emocionalmente afetadas e com a auto-estima prejudicada, algumas vítimas sentem muitas dificuldades de se desvencilhar daquela situação de sofrimento, mantendo-se naquela tortura por anos. (Piñuel y Zabala, 2003) Apesar da Psicopatia variar de muitas formas e sentido no plano individual e organizacional, o problema é factual e institucionalizado tanto nas empresas públicas quanto nas privadas. Entretanto, identificou-se que as administrações e o setor públicos são os lugares que oferecem as características mais idôneas para que se esse tipo de comportamento que favorece os psicopatas organizacionais se desenvolva. Um regime sancionador lento e burocrático garante a impunidade para suas condutas. Nas organizações privadas, normalmente o problema é resolvido quando aquele que não suporta mais ser torturado ou coagido pede demissão, interrompendo o sofrimento. Contudo, o chefe pode continuar exercendo sua psicopatia com outra vítima. (Piñuel y Zabala, 2003). Piñuel (2003) defende que a psicopatia, de fato, afeta as pessoas que chegam a cargos de chefia. Ele analisa os papéis organizacionais como potentes mecanismos modificadores da psicologia dos indivíduos e estratégias de alguns para escalar o poder mediante todo tipo de manipulações, mentiras e chantagens. (...). Os psicopatas organizacionais, além de manipularem e seduzirem vítimas, igualmente sentem prazer em provocar humilhações em seus subordinados ou mesmo em colegas de igual nível hierárquico - o fazem por furor instintivo, mas também para demonstrar prestígio e poder. Pelo fato de não entenderem os sentimentos dos outros e não sentirem culpa ou remorso por fazerem algum mal, os psicopatas podem racionalizar com facilidade a sua violência ou comportamento, tornando-os aceitável. o se reportar ao brilhante autor e sociólogo Iñaki Piñuel, a autora Demolinari (2010, p. 34) denuncia uma realidade para muitos desconhecida e inima- ginável: o adoecimento de profissionais em virtude da tirania de chefias psicopáticas que, por vezes, apresentam-se ao público como demasiado simpá- ticas e envolventes. Como ensina o sociólogo Piñuel (2008) na primeira obra em língua espanhola a tratar sobre mobbing, os chefes psicopatas costumam ser pessoas en- cantadoras, sedutorase manipuladoras. Humilham seus subordinados ou seus pares por mero prazer e instinto, sem sentirem remorso, culpa ou empatia, de modo que aceitam seu próprio comportamento (vio- lento) em busca de prestígio e exercício de poder. Pois, ao contrário da concepção popular de psicopa- tas, nem todos eles cometerão crimes bárbaros ou publicamente noticiados. A maioria passará quase que desapercebida, investida em cargos de chefia e direção, em especial nas instituições públicas. Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1158 Neste passo, tem-se a confirmação da intersecção: a violência psicológica, que conduz ao adoecimento psicológico e, em casos mais severos, o adoecimen- to físico e a incapacitação para o trabalho; além dos riscos do desenvolvimento de quadros profundos de depressão, ansiedade, síndrome do pânicos e tentativas de suicídio. Contudo, a saúde é direito constitucionalmente as- segurada pelos Artigo 7º, Inciso XXII, e 200, Incisos II e VIII. O meio ambiente do trabalho importa para a preservação deste direito, sendo certo que em uma concepção mais atual, Fiorillo (2005, p. 22-23) especifica o meio ambiente do trabalho como sendo o local onde as pessoas realizam suas atividades, sejam estas remuneradas ou não. Para tanto, o local deve ser salubre e sem a presença de agentes que comprometam a incolumidade física e mental dos trabalhadores. De forma complementar, Melo (2010, p. 31), sus- tenta que o meio ambiente do trabalho não pode se restringir ao local de trabalho do empregado. Deste modo, deve contemplar o local, os instrumentos, o modo de execução das tarefas e a forma como o trabalhador é tratado pelo empregador e pelos ou- tros indivíduos no trabalho. Franco et. al. (2019, p. 11) afirmam que: Diante dessa perspectiva, não basta que o empregador ofereça somente condições de trabalho físicas adequadas e salubres ao trabalhador, é essencial a adoção de medidas de proteção à saúde mental do obreiro como forma harmônica de um meio ambiente do trabalho equilibrado. As questões psicológicas dos trabalhadores são elementos formadores do meio ambiente laboral e um espaço de trabalho que provoque danos à integridade psíquica do obreiro, não mantém a devida qualidade ambiental, na medida em que não garante o bem-estar e a saúde da população, nos termos do artigo 3º, inciso III, alínea “a” da Lei n. 6.938/1991. Diante dessa realidade, a Organização Mundial de Saúde (OMS), organismo sanitário internacional integrante da Organização das Nações Unidas (ONU), fundada em 07 de abril de 1948, conceitua a saúde como “[...] um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”. Com o passar do tempo, por obvio, tal definição resta incompleta e o conceito de saúde se afasta do individual e passa a ser visto em sentido coletivo ao meio ambiente e às interações sociais, se tornando reconhecido como fundamental aos seres humanos. Com isso, avizinha-se que a intencionalidade da legislação pátria é salvaguardar a saúde (física e mental) do trabalhador. Inspirada nos ditames internacionais, indubitavelmen- te, a definição de saúde perpassa a esfera individual, para atingir patamares coletivos, pautando-se no res- guardo dos indivíduos, do meio ambiente e das rela- ções interpessoais, com o escopo de que se verifique não apenas a ausência de doenças nos indivíduos, mas também um bem-estar individual e coletivo em suas três dimensões: físico, mental e social. 5.CONSIDERAÇÕES FINAIS Foram analisados os conceitos e característi- cas da Síndrome de Burnout e os danos causados à saúde do trabalhador decorrentes das inadequadas condições laborais. A realização da pesquisa retor- nou alguns resultados de cunho relevante. Encontrou-se, essencialmente, a descrição da Sín- drome de Burnout no ano de 1953, a partir do es- tudo do caso conhecido como Miss Jones; e que tal síndrome implica em danos causados à saúde, decorrentes das condições laborais inadequadas, pelas excessivas pressões físicas e psicológicas suportadas pelo trabalhador contemporâneo; sendo o surgimento da patologia como fenômeno psicosso- cial, em razão de sofrimentos e desgastes advindos do ambiente de trabalho. Recebeu classificação pela CID-11 como “problemas relacionados ao emprego e ao desemprego”, não sendo elencada no rol do capítulo de “transtornos mentais, comportamentais e de neurodesenvolvi- mento”. A violação ao meio ambiente do trabalho é circuns- tância gravosa que implica em desrespeito à saúde e à vida do trabalhador, cuja lesão não pode ser aceita diante da evolução alcançada pela eficácia dos direitos fundamentais nas últimas décadas. Finalmente, importa dizer que o estudo da Síndrome de Burnout se traduz em relevante temática que permite a intersecção entre a Psicologia e o Direito à Saúde, de modo a se conseguir uma complemen- taridade, bem como permitir novas abordagens sob outras perspectivas. REFERÊNCIAS Psicologia: Um Olhar Do Mundo Real - Volume 1 159 CARLOTTO, M. S.; CÂMARA, S. G. Análise da produção científica sobre a Síndrome de Bur- nout no Brasil. In: Rev. PSICOΨ, v. 39, 2008, p. 152-158. CARLOTTO, M. S. et. al. Avaliação e interpreta- ção do mal-estar docente: um estudo qualitativo sobre a Síndrome de Burnout. In: Rev. Mal-estar e Subjetividade, v. XIII, 2013, p. 195-220. CARVALHO, E. H. de. Síndrome de Burnout: condições de trabalho e problemas jurídicos. Dissertação de Mestrado, apresentada ao Programa de Pós-Graduação Strictu Sensu em Direito da Saúde: dimensões individuais e coletivas. Orientadora: Prof.ª. Dra. Rosa Maria Ferreiro Pinto. Universidade Santa Cecília – Santos/ SP. 2019. 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