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º 1 Temos no caso da semana: Doença de Chagas crônica. Paciente, 35 anos, ensino médio, sem nenhum outro sintoma aparente. Inclusive o paciente relata que se sente muito bem e a única coisa que ele sente é uma parada cardíaca de vez em quando, onde ele sente que o coração está parando e que são umas paradas, uns batimentos, entremeados com batimento mais forte. Ao exame físico: O médico observou uma frequência de 75 bpm, porém com arritmia, 15 pausas por minuto e que depois no exame detalhado do precórdio ele trouxe extrassístoles aos pares (bigeminadas) de 14 a 18 por minuto. Temos um coração que parece que não está com o tamanho alterado, parece que não está grande. O coração está no 5º EIE, na LMC, com ictus impulsivo (+/IV), não tem impulsão paraesternal esquerda, onde podemos ver que parece que nem o coração direito nem o esquerdo estão aumentados de tamanho, porém o médico pediu eletrocardiograma e ecocardiograma. Isso nos chama atenção pois podemos observar que ainda que o coração dele não esteja volumoso, não esteja grande, é provável que a alteração elétrica possa levar a uma condição grave, que em 30% dos casos é a primeira e última, que é a morte súbita. Então o paciente não tem nada, a não ser esse sintoma que uma hora o coração bate mais forte, depois para. O paciente do caso pratica exercício físico, e iremos ver que o exercício físico é um fator, que temos que levar em consideração, de piora, de precipitação da morte súbita. Então a morte súbita costuma ser precipitada por exercício físico. (é importante sabermos disso). Alguns trabalhos inclusive mostram, que a alteração do coração ela demora alguns anos para acontecer (A alteração morfológica do coração). A diretriz traz que a cardiomiopatia acontece em pacientes com chagas normalmente em cerca de 17% em 10 anos e 31% em 20 anos. A epidemiologia mostra que a probabilidade cumulativa do aparecimento dessas evidências de doença cardíaca ela acontece mais ou menos nessa proporção. Para entrarmos na fisiopatogenia devemos lembrar: A atividade elétrica do coração é gerada no nó sinusal ou nó sinoatrial, que são células redondas, que geram naturalmente o potencial, pois nós nascemos com essas células altamente permeável a entrada de sódio, por isso há uma abertura de canais de sódio que geram a corrente de entrada de sódio chamada de corrente marcapasso, ou corrente funny, e de uma forma que quando sódio entra e chega em -40 mv, irá abrir o canal de cálcio, despolarizar totalmente, e é a saída de potássio que faz essa onda repolarizar. O fato é que esse marcapasso quando gera atividade elétrica, essa atividade é então conduzida por células alongadas até o nó atrioventricular (NAV) ou pelo feixe º 2 de Bachman lá para o lado esquerdo e depois desce pelo feixe de His, ramo direito e ramo esquerdo. O bloqueio do ramo direito, inclusive, é a alteração mais comum, e quando temos bloqueio de ramo direito associado a extrassístole ventricular, teremos um agravo bem importante. Se temos na doença de chagas, um bloqueio do ramo direito associado a extrassístole ventricular, com a duração de QRS (> do que 120 ms) isso pode estar associado ao tamanho do ventrículo esquerdo. Em alguns trabalhos eles trazem: QRS acima de 120 ms, com intervalo QT acima de 450 ms + bloqueio de ramo direito + extrassístole ventricular já podemos apostar em paciente com fração de ejeção do ventrículo reduzida. É interessante que a gente entenda que alguns distúrbios que a gente vai encontrar na doença do Chagas estão associados a bloqueio de ramo direito, e isso é bastante frequente, é ainda considerado, segundo a diretriz, a alteração mais comum que existe. Além do nó sinusal ou NSA, vimos o potencial do ventrículo. Sabemos que para o potencial ventricular acontecer dessa forma, aquele potencial marcapasso precisou chegar aí. Esse potencial gerado e que está sendo transmitido por todo o coração ele não morre lá na pontinha do ramo, em qualquer canto que a gente olhar, o potencial sempre é transmitido para a célula ventricular, pelo cardiomiócito. Estamos vendo isso, porque nesse caso da semana, teremos morte de cardiomiócito, miocitólise, vamos ter ainda alteração da perfusão coronariana, e no caso da fase crônica da doença de chagas, encontramos DNA do parasita no miocárdio, e quando o TCD4 reconhece para atacar o antígeno do T. Cruzi, esse reconhecimento, esse anticorpo que é produzido vai reconhecer os aminoácidos que estão na miosina cardíaca, o que vamos chamar de resposta cruzada, ou também chamado de mimetismo molecular, portanto de fato há uma resposta imunológica confusa por parte do nosso sistema imune que ao mesmo tempo que ele reconhece o antígeno do T.Cruzi, essa forma de reconhecimento é a cara de alguns aminoácidos da miosina, com isso iremos ter uma destruição total. Com isso podemos pensar que as vezes eu até posso ter esse potencial de ação, marcapasso, porém não tenho ventrículo, miócitos, para receber esse potencial de ação. E aí a gente vai vendo que vai acontecer na verdade uma série de alterações desse sistema todo, seja do sistema que está conduzindo atividade elétrica, seja do próprio cardiomiócito. (isso é muito importante) É importante ainda lembrar que a gente olha esse potencial com uma visão do eletrocardiograma. Lembrar que ela falou que a duração do QRS pode estar relacionada ao tamanho do ventrículo esquerdo na Doença de Chagas crônica, então tem alguns dados aí importantes quando você associa com outras alterações. Uma outra alteração muito comum nesse paciente que a diretriz traz: Podemos ter um distúrbio de condução, que pode ser bloqueio de ramo direito, que é o mais comum, (mas não é o único). Então temos lá um distúrbio de condução (BRD) + extrassístole + uma bradicardia sinusal (não é o caso do nosso paciente, ele não tem bradi sinusal). Com esse conjunto de alterações, aposte que o paciente já tem redução da fração de ejeção e aumento do volume do ventrículo esquerdo. º 3 Então por isso o eletro além de ser um exame mais barato, ele é um exame que vai te ajudar muito nessa hora. O ECG vai ser legal tanto para o diagnóstico, como para o prognóstico. Essa atividade elétrica que observamos no eletrocardiograma, ela está relacionada a função do coração. Então quando eu vejo o intervalo PR eu estou vendo, do início do NSA, do P até o R, até o ventrículo. Esse intervalo PR, temos que P é a contração do átrio, e R já vai começar a contração ventricular. Então a atividade cardíaca no PR, eu vejo o átrio contraindo, por isso que eu estou vendo lá uma onda P, e ao mesmo tempo que eu estou vendo o ventrículo relaxado, porque vai estar no finalzinho da diástole, que é quando acontece a sístole atrial, e assim sucessivamente. A atividade do QRS ela está totalmente relacionada àquele período de contração isovolumétrica. Quando a gente vê a onda R, inicia a contração isovolumétrica, fecha mitral, logo em seguida fecha a tricúspide, (TUM - B1), aí começa a contração isovolumica, nesse momento da contração isovolúmica, como já fechou a mitral, o átrio já está relaxando, já está recebendo o sangue que está vindo lá das veias pulmonares. Isso é bem importante pensando do lado esquerdo. Então o complexo QRS está trazendo para a gente um momento importante do ciclo cardíaco, por isso é o QRS que está relacionado ao tamanho do ventrículo. O segmento ST é o momento em que o sangue está sendo ejetado, onde as valvas semilunares (aórtica e pulmonar) estão abertas, mas no finalzinho da ejeção de sangue e as valvas se fecham e é o momento que eu irei ouvir o TA, a segunda bulha (B2). A Valva irá fechar no finalzinho da onda T, onde eu tenho a redução da ejeção, ejeção lenta dos ventrículos, e o fechamentos dessas valvasaórtica e pulmonar. No intervalo T até o próximo P, está ocorrendo a diástole dos ventrículos, com esses ventrículos relaxados, tanto é que quando tem a onda P temos a sístole atrial. Isso tudo serve para relembrar esses detalhes e entrar na fisiopatogenia da cardiomiopatia crônica da doença de chagas. Temos fatores genético envolvidos, sendo 08 genes associados (isso não é pouca coisa). Temos genes que estarão associados a produção de citocinas inflamatórias, especialmente a galectina -3. A história da Galec três (Gal-3) é porque já tinham observado que pacientes com insuficiência cardíaca (IC) por outras causas, aqueles que tinham uma evolução pior da IC, com o ventrículo um pouquinho mais rígido, eram paciente que tinham uma expressão aumentada de Galec-3, e aí notaram inclusive que essa expressão aumentada estaria relacionada a polimorfismos da própria Galec-3. Então começaram a pensar se no caso dos pacientes com o coração um pouco mais fibroso, com alterações elétricas mais importantes, se não teria expressão de Galec-3, e foi justamente isso que descobriam. Eles foram procurar esse polimorfismo estudando familiares. Famílias com múltiplos casos de doença de Chagas, ou seja, indivíduos eram soropositivos para portadores dessas variantes genéticas patogênicas relacionadas a Galec-3 e a outras alterações, e viram que esses pacientes desenvolviam a cardiomiopatia crônica da doença de chagas, com uma piora importante, especialmente quando para além da galectina -3, víamos que esses pacientes tinham alterações dos genes mitocondriais. 86% desses sujeitos com sorologia positiva para doença de chagas, era possível encontrar alterações de genes mitocôndrias. Então por isso, ainda que seja uma família toda que mora no mesmo lugar, que sofreu a picada do barbeiro e teve a infecção, com sorologia positiva somente alguns deles desenvolviam essa alteração. º 4 Que gene de mitocôndria é esse? Na verdade, havia genes com uma redução muito importante da atividade de enzimas que participam do metabolismo energético mitocondrial, da formação do ATP. Viram que havia uma redução de DNA e RNA mitocondrial e, portanto, uma redução da ATP- sintase (enzima que participa da síntese de ATP) e creatinoquinase. Devemos lembrar que o cardiomiócito é praticamente uma mitocôndria, cada cardiomiócito tem em média (peso dele) 80 a 85 % dele é mitocôndria. Isso porque é um músculo que não reserva glicogênio. Quando estudamos infarto, vimos que tempo é musculo para coração, se temos uma isquemia é preciso ser ágil, pois se isquemiar, pois ele não tem reserva. Na imagem acima da mitocôndria: Vemos que não é só coração que tem doenças relacionadas a disfunção mitocondrial. Todos esses sistemas que vemos na figura estão relacionados de alguma forma com algumas doenças a algum tipo de disfunção mitocondrial. Se eu tenho um paciente que tem uma disfunção mitocondrial importante, e esse sujeito infelizmente tem doença de chagas, e a gente já sabe da presença do DNA do parasita no próprio miocárdio, podemos ter além da miocitólise (induzida pela resposta inflamatória), teremos alteração na íntima das arteríolas coronárias intramurais, aquelas arteríolas terão uma camada média aumentada em espessura. Então aquela arteríola terá um raio reduzido, o lúmen reduzido, chegando um volume de sangue menor para o cardiomiócito. Lembrar que ela falou da morte súbita associada ou precipitada por exercício físico, pois com o exercício teremos uma descarga adrenérgica e a resposta desse sujeito está atenuada inclusive, porque teremos como vimos acima uma alteração estrutural dessas coronárias, que vai levar a miocitolise ( morte do cardiomiócito), a cada morte teremos uma fibrose, e essas fibroses reparadoras ainda que pontuais ao longo do tempo vai trazer alteração elétrica porque não vai conseguir inclusive transmitir o potencial de ação. Além do que já teremos uma diminuição dessa reserva vasodilatadora, pois devemos lembrar que as intramurais elas vasodilatam bastante, em uma descarga adrenérgica por exemplo, a epicárdica ela faz uma vasoconstricção e a intramiocardica vasodilatação, as intramurais precisam estar mais abertinhas, para chegar mais sangue para aquela região. O problema é que se a parede média das intramurais está hipertrofiada, vai passar menos sangue e portanto a gente tem essa miocitólise. Somado a isso podemos começar a ter espasmo, o que é pior ainda, esse espasmo chega porque teremos vasos com espessuras diferentes, cada um vai contrair de um jeito, por isso vamos observar esses espasmos que são contrações irregulares, isso vai afetar a distribuição do sangue. Além disso, com a presença do DNA do parasita lá no cardiomiócito, vai ter lesão endotelial causada diretamente pela agressão parasitaria, tanto é que podemos ver essa alteração por vezes, até na doença de Chagas aguda, o que piora consideravelmente essa situação. Como um todo teremos algumas alterações de função e estruturais também da própria organização da coronária, induzidas por algumas moléculas que são moléculas da inflamação, do próprio infiltrado inflamatório. º 5 É crônico, mas é de baixo grau, temos monócitos, linfócitos e temos a produção de algumas moléculas que vão ajudar no remodelamento da parede dessas arteríolas coronárias intramurais. Então com isso eu tenho um conjunto de alterações que começam agora a prejudicar bastante, não só a transmissão da atividade elétrica, mas também a irrigação do miocárdio. Somado a isso temos esses linfócitos TCD4 fazendo reconhecimento de estrutura e jurando que ali é um T. Cruzi, quando na verdade não é. Esse reconhecimento pelo linfócito TCD4 de forma equivocada, também vai ser responsável por essa alteração que nós chamamos de denervação ou também chamada de despovoamento neuronal intramural. Se esta denervando o simpático e o parassimpático para o coração, está destruindo terminação nervosa para o coração, e irá destruir até receptores, como receptores muscarínicos da acetilcolina, receptor adrenérgico da adrenalina, e isso irá alterar totalmente o barorreflexo. Devemos lembrar: Temos neurônios na crosta da aorta, no seio carotídeo, que a cada batimento, eles levam, fazem uma sinapse, essa aferência vagal, lá para o núcleo do trato solitário, e esse NTS faz através de uma eferência vagal, e libera um neurotransmissor. Se a pressão sobe → Ele libera acetilcolina Se a pressão desce → Ele libera adrenalina Essa habilidade, momento a momento, desse barorreflexo que vai promover um controle da pressão arterial momento a momento. Então para ter esse controle, momento a momento, é preciso que esse barorreflexo esteja intacto, e vimos na pressão arterial que a sensibilidade do Baro reduzida era responsável por morte súbita, por AVC, por alteração nos órgãos alvo da hipertensão arterial. Aqui no caso que estamos estudando, não vai ser diferente. Alguns estudos trazem que: Havia uma relação quantitativa, entre o quanto que tinha acontecido de denervação com o risco de arritmia ventricular maligna e morte súbita. Porque observe → Se não tem a inervação, não tem o controle lá momento a momento do batimento cardíaco, não tem controle sobre o leito coronariano, isso é muito complicado, e isso leva a aumentar cada vez mais o risco de morte súbita ou ainda ao espasmo microvascular coronário como vimos acima. Isso porque sabe-se que parte do controle do fluxo sanguíneo para a coronária depende totalmente da ativação simpática dessas coronárias. Sabemos ainda que essa resposta, esses autoanticorpos, essa resposta autoimune acabam afetando receptores muscarínicos colinérgicos, que estão também fazendo uma modulação da atividade até do marcapasso. Vamos lembrar anatomicamente onde está a eferência dovago → Nó sinusal e nó AV O vago tem sua eferência nessa região (NSA e NAV), tanto é que em uma descarga vagal reduz a frequência e também a transmissão do impulso ao longo do feixe de His. Não reduz só a frequência, porque liberou a acetilcolina e aumentou a saída de potássio, é porque também reduz a velocidade de transmissão do impulso, mas é preciso que haja receptores viáveis, e se não tiver teremos problemas sérios aí. (Receptores beta 1 adrenérgicos que vamos encontrar no cardiomiócito). Isso tudo vai levando aos problemas de desautonomia e a problemas de anormalidade de condução variados. º 6 A diretriz inclusive traz uma série desses problemas: Temos diversas alterações eletrocardiográficas, onde sabemos que o bloqueio de ramo direito é o mais comum, que pode estar associado a extrassístole ventricular, podendo também estar associado a bradicardia sinusal (do ventrículo de dar uma acelerada, porque está estirando, estirando, estirando, e esse alongamento da diástole pode levar a uma taquiarritmia ventricular. Parece músculo liso, você estira e o músculo contrai, é a mesma coisa de um elástico, por exemplo, eu estiro um elástico e chega uma hora que ele já está querendo voltar para o tamanho original. Portanto essa diástole mais alongada, promove essa aceleração ventricular, que será a taquiarritmia ventricular. Então você sai de uma bradiarritmia, e por conta dessa diástole alongada, desse estiramento da parede do ventrículo, irá fazer uma taquiarritmia ventricular, que irá fazer uma síndrome de insuficiência circulatória cerebral, levando a sincope (desmaio) ou a morte súbita. Então aí a gente tem tanto a taquiarritmia ventricular quanto a síndrome do baixo debito cardíaco, porque esse coração com a diástole alongada, e vamos pensar que ele já está remodelado e já não tem uma habilidade boa de contrair, não vai conseguir jogar esse sangue adiante covo deveria. Se pensarmos em uma bradiarritmia em um coração que não está remodelado, que não está fibrosado, eu tenho uma resposta talvez, um pouco menos agressiva do que um paciente que já tem um remodelamento, que não só tem remodelamento de ventrículo, como tem de coronária também. Então tanto a taquiarritmia, quanto a bradiarritmia poderá levar a síndrome de insuficiência circulatória cerebral porque acaba contraindo mais rápido, porém jogando o volume insuficiente para a aorta e para o encéfalo. Podemos observar que na taquiarritmia: A taquiarritmia irá encurtar a diástole, a diástole estava alongada então o coração vai contrair e jogar o que tem nele. Então na taquiarritmia vai encurtar a diástole mesmo, como se fosse uma taquicardia (taquicardia encurta a diástole), com isso temos uma diminuição do volume sistólico, diminui o volume minuto, com sincope e síndrome de insuficiência circulatória cerebral, porém além de cerebral, teremos coronariana e periférica também. A coronária vai perfundir na diástole, e se encurtou a diástole, a perfusão coronariana não ficará ótima, e ela já está reduzida pois o paciente está com doença de chagas, já tem remodelamento de coronária, e para piorar ainda tem uma taquiarritmia extrasinusal. Quando junta tudo isso, não vai dar para segurar muito tempo. Esse encurtamento da diástole, também chamado de síndrome de restrição diastólica, no momento em que o ventrículo vai relaxar, contrai, vai relaxar contrai, e com isso vemos essa resposta hemodinâmica. Então é importante entendermos a gravidade do achado de arritmia nesse paciente portador de doenças de chagas crônico. º 9 Por que discutimos tudo isso? Em uma extrassístole ventricular, mesmo em uma extrassístole ventricular isolada, ou com bigeminismo (caso do paciente) ou em salvas como pode acontecer, ela pode prejudicar o enchimento diastólico. Isso acontece porque: Temos o QRS, uma onda T, e logo depois da onda T é para encher e depois sístole atrial (onda P). Nesse caso acima, vemos que teve a onda T e logo depois já contrai novamente, não dando tempo para o enchimento ventricular, contraiu mais uma vez antes de encher direito. Com isso temos manifestações parecidas com baixo débito cardíaco, semelhante a uma taquiarritmia. Podemos ter um paciente com taquiarritmia e extrassístoles o que é bem grave. Ao olharmos o gráfico acima onde temos as bulhas cárdicas: QRS → TUM (B1) Final da onda T → TA (B2) Podemos ver onde aponta a seta preta, que teve B1 (TUM), ejetou o sangue e não teve o TA (B2), não ouvimos o TA, ou seja, temos uma pausa compensadora. Nós todos podemos fazer extrassístole e nem percebemos. Essa pausa compensadora é a pausa necessária para a atividade elétrica do coração voltar ao normal, o fechamento da valva aórtica será muito rápido, logo depois do final dessa sístole, mas o que acontece não é o suficiente para gerar o som do TA, então você não ouve o TA, iremos ouvir o TUM e o TA não iremos ouvir. No momento de aferir o pulso do paciente, veremos que depois dessa pausa haverá um pulso mais amplo, porque na pausa compensadora houve tempo do coração encher novamente, passar a atividade elétrica direitinha, e agora a próxima ejeção será uma ejeção completa, onde iremos ver um pulso um pouquinho maior. Isso será uma extrassístole ventricular isolada, o que não trará grandes repercussões. No nosso caso do paciente da semana → Teremos uma extrassístole ventricular bigeminada. No nosso caso do paciente da semana, temos uma extrassístole bigeminada ou bigeminismo extrassistólico. Nesse caso veremos que a cada batimento teremos uma extrassístole, o nosso paciente da semana tem 15 a 18 por minuto. Após cada batimento normal, temos uma sístole prematura (seta preta apontando na figura acima), e logo depois dessa sístole prematura, tenta entrar a pausa compensadora e quando tem essa pausa compensadora, (que teve no primeiro exemplo, onde vimos a extrassístole isolada), onde não ouvimos o B2 (TA) porque foi mais suave, o fechamento demorou um pouco mais pra acontecer, mas quando tivemos o fechamento da valva não auscultamos B2, até pelo turbilhonamento do sangue, Nesse caso de bigeminismo, tanto vamos ouvir B2 (TA), como podemos ouvir desdobrado, onde podemos escutar ao invés do TA, o TLA, porque vai ter um atraso entre o lado esquerdo e o lado direito, que já temos normalmente, mas pode ser que tenha um atraso ainda maior, porque eu tenho uma extrassístole, uma pausa compensadora, mas no próximo batimento eu já tive outra extrassístole, uma pausa compensadora, e no próximo outra extrassístole. Então se for pensar, esse atraso do fechamento da válvula aórtica, pensando nessa extrassístole especialmente ventricular, a cada vez que o º 10 ventrículo ejeta o sangue vai ter um atraso entre o lado esquerdo e o lado direito. Se tiver um bloqueio do ramo direito, o atraso será ainda maior. Então essa extrassístole associada ao bloqueio de ramo direito, iremos auscultar (bem audível) essa B2 desdobrada (TLA), mas nem sempre teremos esse desdobramento. Teremos também a pausa compensadora, mas essa pausa não será suficiente para regular o fluxo sanguíneo entre lado direito e lado esquerdo. No caso de uma extrassístole isolada essa pausa é suficiente, mas quando temos uma extrassístole seguida da outra não será suficiente. Podemos ver isso também ao olharmos o pulso desse paciente, que antes no primeiro exemplo, tínhamos uma normal, até junto da extrassístole, e a segunda onda de pulso um pouquinho mais ampliada. No caso do paciente do caso da semana, vemos na figura que teremos o pulso, um cheio e um mais ou menos, e isso vai se repetindo, porque temos extrassístoles seguidas, várias extrassístoles nesse caso. Então esse bigeminismo extrassistólico, contrai e joga um pouquinho de sangue e joga mais um pouquinho de sangue, joga um pouco e mais um pouco e assim por diante. Entretanto percebemos essa onda de pulso dessa maneira e não uma onda só como tem que ser (no normal). Não temos como dizer em que momento teremos ajuste dessa atividade elétrica, porque isso vai depender se terá conserto ou não (conserto medicamentoso, se vai dar pra fazer alguma coisa para voltar ao normal a atividade elétrica), porque vai depender da extrassístole, se eu tenho combinação de extrassístole + distúrbio de condução + bradicardia sinusal (paciente do caso da semana não tem, mas poderia ter. Podemos ver que temos uma extrassístole, depois eu já tenho a outra, e mais uma outra extrassístole, e quando vamos observar no gráfico: Temos TUM → TA (1º batimento ok), TUM →TA (2º batimento ok) e depois temos várias contrações e pequenos tempos de relaxamento (TUM TA TUM TA TUM TA, uma verdadeira loucura, parece um batuque). Isso nos leva a pensar que o volume que está sendo ejetado é quase nada, teremos uma onda de pulso bem baixinha, e já podemos imaginar como está a fração de ejeção de sangue desse paciente. Lembrar que → Pegar o pulso está relacionado a função do lado esquerdo, ao olhar o pulso na figura, vemos que apesar de ter uma pausa compensadora, depois de uma salva, durante a salva não tem essa pausa compensadora, a ejeção portanto está cada vez menor inclusive, com isso teremos várias ondas de pulso radial de pequena amplitude, e uma após a outra, mas nunca enche o pulso do jeito que deveria, do jeito que estávamos percebendo antes de chegar essa extrassístole em salva. Então isso já mostra para a gente, que a extrassístole, que é uma área que não é mediada pelo nó sinusal ou sinoatrial (NSA), é uma atividade elétrica ectópica e que está afetando o funcionamento do coração, podendo estar sendo piorada por um problema na condução elétrica, ou uma combinação deles. Tem paciente que tem vários tipos de arritmias juntas (são os pacientes que estão piores). º 11 Podemos ver na figura acima, o coração com o formato de Moringa (garrafinha de guarda água). Podemos ver ainda esse afinamento da ponta do ventrículo, e devemos lembrar que esse afinamento de repente pode ainda romper, porque a parede está tão fininha, tão fininha, que parece um papelzinho., e isso pode levar ao rompimento da parede do ventrículo, e o sujeito morrer de hemorragia. Esse afinamento vai fazer uma parede hipocinética, e essa parede hipocinética não vai conseguir ejetar o sangue, vai formar um trombo, esse trombo poderá ficar lá na ponta do ventrículo esquerdo. Podemos ver esse trombo inclusive, no ecocardiograma. Na figura acima ele está mostrando um trombo misto, porque tem partes de glóbulos brancos, partes de glóbulos vermelhos que sobraram nessa região de trombo. O trombo em sua composição ele pode ter bactéria, entre outras coisas, e possuem várias apresentações. Essa redução da espessura que vimos, ela pode ser tão grande, que há um deslocamento entre o epicárdio e o miocárdio, as vezes entre o miocárdio subendocárdio, e o sangue que estava passando pela parede ele entra nesse espaço, formando um aneurisma de ponta, da ponta do ventrículo esquerdo. Isso é para vermos que a situação pode ficar bastante agravada. E devemos lembrar que os números estão subnotificados, porque vários pacientes com chagas fazem morte súbita e nem todos são encaminhados para necropsia. Foi usado para essa aula: O tratado de Cardiologia da SOCESP (Disponível na minha biblioteca), a diretriz de 2023 e o livro de semiologia médica de Porto.