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1. Que é regra-matriz de incidência tributária? Qual sua funcionalidade operacional no direito positivo? RESPOSTA: A regra-matriz de incidência tributária, conceituada por Paulo de Barros Carvalho, é um modelo teórico essencial para a tributação no Brasil. Este conceito serve como uma espécie de fórmula para analisar e sistematizar as normas que definem o fato gerador de um tributo e as consequências dessa ocorrência. Estruturalmente, a regra-matriz é composta por cinco critérios: Material, que descreve o fato que aciona a incidência tributária; Espacial, que delimita onde o fato deve ocorrer; Temporal, que aponta o momento exato de sua ocorrência; Pessoal, que identifica os sujeitos ativo e passivo da obrigação tributária; e Quantitativo, que estabelece a base de cálculo e a alíquota para determinar o montante devido. Funcionalmente, a regra-matriz de incidência tributária é crucial para a tributação, já que orienta a norma na resolução do fato gerador, demonstrando quem, quando e como ocorrerá a subsunção do fato à norma. 2. Que é hipótese de incidência tributária? Qual sua função na composição da regra-matriz de incidência tributária? Há necessidade de um critério pessoal compor a hipótese da regra-matriz de incidência tributária? Por quê? A hipótese de incidência tributária é um conceito central no Direito Tributário, representando a descrição legal e abstrata do fato que, quando concretizado, desencadeia a aplicação de um tributo. Essa descrição configura o critério material da regra-matriz de incidência tributária, especificando o comportamento ou condição, via de regra composta por um verbo e seu complemento. Por sua vez, o critério pessoal, outro componente da regra-matriz, é vital porque define quem são o sujeito ativo e o sujeito passivo na relação tributária. O sujeito ativo é a entidade autorizada a cobrar o tributo, enquanto o sujeito passivo é a pessoa, seja natural ou jurídica, obrigada a pagar o tributo. A inclusão do critério pessoal na hipótese de incidência é fundamental não apenas para atribuir responsabilidade tributária, mas também para assegurar a correta aplicação e eficácia da cobrança tributária. Isso garante que todas as partes envolvidas na relação tributária tenham seus direitos e obrigações claramente delineados, facilitando a administração, cumprimento e fiscalização dos tributos dentro do sistema jurídico. 3. Que é incidência? Descrever, com suas palavras, a fenomenologia da incidência tributária, diferenciando, se possível, incidência de aplicação do direito. A incidência tributária se trata do momento em que a norma tributária prevista é concretizada por um evento real, alinhando um fato econômico ou jurídico específico com as condições estabelecidas pela legislação, isto é, a subsunção do fato à norma. A incidência é, portanto, a materialização da norma abstrata quando o evento descrito na hipótese de incidência ocorre, gerando automaticamente a obrigação tributária. Já a aplicação do direito, por outro lado, envolve uma ação subsequente à incidência, onde agentes do Estado, como fiscais ou juízes, atuam para interpretar e administrar a norma em situações específicas. Esse processo não é automático como a incidência; requer avaliação e decisões baseadas na análise do fato e na correspondente norma tributária, resultando em ações como a determinação do montante tributável, emissão de notificações ou execução de sanções. 4. Carlos Alexandre Salomon Hoka prestou um serviço de pintor em um imóvel grande localizado no bairro Abikidab da cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul. Recebeu pelo serviço prestado o valor de R$ 15 mil, o qual foi pago em dinheiro. Ele optou por não depositar em sua conta bancária e nem declarar em seu imposto de renda. Não obstante, sua colega de trabalho Alexandra Alves Orlando Magic tomou conhecimento do ocorrido, pois viu com os próprios olhos a entrega do dinheiro em mãos ao Carlos Alexandre e contou para o outro colega de trabalho deles, Enzo Celticus Leikerson, o que ocorreu. Pergunta-se, na situação descrita: (i) Qual é o evento? (ii) E o fato? (iii) E o “fato jurídico”? (iv) Carlos Alexandre cometeu uma infração tributária? (v) Qual é o papel das provas para a aplicação do direito? No contexto da situação descrita envolvendo Carlos Alexandre Salomon Hoka, é importante esclarecer a distinção entre os conceitos de "evento", “fato” e "fato jurídico". O "evento" refere-se a um acontecimento que altera o mundo fenomênico, no caso o ato de prestar um serviço de pintura, gerando renda de R$ 15 mil. Esse evento se torna um "fato" quando descrito o ato que altera o mundo fenomênico. Já o “fato jurídico”, consideramos que será aqueles enunciados proferidos na linguagem do mundo competente do direito positivo, no caso, prestar um serviço. O Alexandre cometeu uma infração ao ser omisso na declaração dos valores, configurando uma infração tributária, dado que não apenas evita a arrecadação devida ao fisco, mas também impede a administração tributária de exercer seu papel eficazmente. Ao não declarar os R$ 15 mil recebidos, Carlos Alexandre falhou em cumprir uma obrigação acessória, cujo descumprimento está sujeito a penalidades, como multas e juros. A obrigação acessória, neste caso, refere-se à exigência de declarar todos os rendimentos, facilitando a transparência fiscal e a justiça na cobrança de tributos. 5. Por que a expressão “fato gerador” é equívoca? Analisar os arts. 4º; 16, 105, 113, §1º, 114 e 144 do CTN e o acórdão do REsp n. 1.670.521 (Vide anexo I), explicando o sentido em que o termo “fato gerador” foi empregado em cada um desses textos jurídicos. A expressão "fato gerador" no direito tributário é frequentemente considerada equívoca porque abrange três realidades distintas: hipótese de incidência tributária, evento e fato jurídico tributário, cada uma implicando uma interpretação diferente dependendo do contexto legal. Essa pluralidade de significados pode gerar confusão na interpretação e aplicação das leis tributárias, conforme evidenciado pelo uso variado do termo em diversos artigos do Código Tributário Nacional (CTN). Por exemplo, o Art. 4º utiliza "fato gerador" no sentido de hipótese de incidência, que é a situação definida em lei como necessária para a ocorrência da obrigação tributária, enquanto o Art. 16 e o Art. 114 também abordam esse sentido, mas com nuances que focam na independência da atividade estatal e na suficiência da lei. Em contraste, no Art. 105 e no Art. 144 do CTN, o "fato gerador" é interpretado mais como um evento, destacando seu papel no tempo e na configuração dos fatos que desencadeiam a aplicação de um tributo. Este aspecto é crucial para a aplicação imediata das leis tributárias a fatos futuros e pendentes, e para determinar a aplicabilidade da legislação vigente no momento da ocorrência do fato gerador. A jurisprudência reforça essa interpretação, como demonstrado pelo REsp n. 1.670.521, onde o Superior Tribunal de Justiça (STJ) define que o fato gerador do Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis (ITBI) é o registro da transferência da propriedade, não a mera celebração do negócio. Essas variações no entendimento do "fato gerador" destacam a complexidade da legislação tributária e a necessidade de uma interpretação cuidadosa dos termos utilizados. A ambiguidade pode ser problemática para a aplicação eficaz e justa dos tributos, sugerindo que uma clarificação ou mesmo a criação de termos mais específicos poderia melhorar a compreensão e implementação das obrigações tributárias. Essa necessidade de precisão é especialmente importante em um sistema tributário que se baseia fortemente na exatidão das definições legais para garantir a equidade na cobrança de tributos e evitar litígios desnecessários. 6. Identifique nos julgados cuja ementa está transcrita abaixo qual foi o critério da regra matriz de incidência tributária objeto de discussão. Para melhor desenvolvimento de sua resposta, sugere-se a leitura integral dos acórdãos: a) EMENTA: Recurso Extraordinário. Tributário. 2. Não incideImposto de Propriedade de Veículos Automotores (IPVA) sobre embarcações (Art. 155, III, CF/88 e Art. 23, III e § 13, CF/67 conforme EC 01/69 e EC 27/85). Precedentes. 3. Recurso extraordinário conhecido e provido. (RE 379572, Relator(a): GILMAR MENDES, Tribunal Pleno, julgado em 11-04-2007, DJe-018 DIVULG 31-01-2008 PUBLIC 01-02-2008 EMENT VOL-02305- 04 PP-00870) b) EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPERCUSSÃO GERAL. EXCLUSÃO DO ICMS NA BASE DE CÁLCULO DO PIS E COFINS. DEFINIÇÃO DE FATURAMENTO. APURAÇÃO ESCRITURAL DO ICMS E REGIME DE NÃO CUMULATIVIDADE. RECURSO PROVIDO. 1. Inviável a apuração do ICMS tomando-se cada mercadoria ou serviço e a correspondente cadeia, adota-se o sistema de apuração contábil. O montante de ICMS a recolher é apurado mês a mês, considerando-se o total de créditos decorrentes de aquisições e o total de débitos gerados nas saídas de mercadorias ou serviços: análise contábil ou escritural do ICMS. 2. A análise jurídica do princípio da não cumulatividade aplicado ao ICMS há de atentar ao disposto no art. 155, § 2º, inc. I, da Constituição da República, cumprindo-se o princípio da não cumulatividade a cada operação. 3. O regime da não cumulatividade impõe concluir, conquanto se tenha a escrituração da parcela ainda a se compensar do ICMS, não se incluir todo ele na definição de faturamento aproveitado por este Supremo Tribunal Federal. O ICMS não compõe a base de cálculo para incidência do PIS e da COFINS. 3. Se o art. 3º, § 2º, inc. I, in fine, da Lei n. 9.718/1998 excluiu da base de cálculo daquelas contribuições sociais o ICMS transferido integralmente para os Estados, deve ser enfatizado que não há como se excluir a transferência parcial decorrente do regime de não cumulatividade em determinado momento da dinâmica das operações. 4. Recurso provido para excluir o ICMS da base de cálculo da contribuição ao PIS e da COFINS. (RE 574706, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 15-03-2017, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-223 DIVULG 29- 09-2017 PUBLIC 02-10-2017) c) EMENTA Recurso extraordinário. Repercussão geral. Direito Tributário. ISS. Licenciamento ou cessão de direito de uso de programas de computação desenvolvidos para clientes de forma personalizada. Subitem 1.05 da lista anexa à LC nº 116/03. Constitucionalidade. Precedentes do Tribunal Pleno. 1. Recentemente, o Tribunal Pleno, no julgamento das ADI Módulo Tributo e Segurança Jurídica nºs 1.945/MT e 5.659/MG, consignou que a tradicional distinção entre software de prateleira (padronizado) e por encomenda (personalizado) não é mais suficiente para a definição da competência para a tributação dos negócios jurídicos que envolvam programas de computador em suas diversas modalidades. 2. Na mesma oportunidade, a Corte aduziu que o legislador complementar, adotando critério objetivo, buscou dirimir conflitos de competências em matéria tributária envolvendo softwares, estabelecendo, no subitem 1.05 da lista anexa à LC nº 116/03, que estão sujeitos ao ISS o licenciamento e a cessão de direito de uso de programas de comutação. Pontuou-se, ademais, que, conforme a Lei nº 9.609/98, o uso de programa de computador no País é objeto de contrato de licença. 3. Ainda naquela ocasião, o Tribunal consignou que, associado a isso, não se pode desconsiderar o fato de que é imprescindível a existência de esforço humano direcionado para a construção de programas de computação, sejam eles de qualquer tipo, configurando-se obrigação de fazer, a qual também se encontra presente nos demais serviços prestados ao usuário, como no help desk, nas atualizações etc. Outrossim, asseverou o Tribunal haver prestação de serviço no modelo denominado Software-as-a-Service (SaaS). 4. Aplica-se ao presente caso a orientação firmada no julgamento das citadas ações diretas. 5. Foi fixada a seguinte tese para o Tema nº 590 de repercussão geral: “[é] constitucional a incidência do ISS no licenciamento ou na cessão de direito de uso de programas de computação desenvolvidos para clientes de forma personalizada, nos termos do subitem 1.05 da lista anexa à LC nº 116/03”. 6. Recurso extraordinário não provido. 7. Os efeitos da decisão foram modulados nos termos da ata do julgamento. (RE 688223, Relator(a): DIAS TFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 06-12-2021, PROCESSO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-040 DIVULG 02- 03-2022 PUBLIC 03-03-2022) d) TRIBUTÁRIO. IMPOSTO SOBRE SERVIÇOS - ISS. DEFINIÇÃO DA BASE DE CÁLCULO. DEDUÇÃO DOS GASTOS COM MATERIAIS EMPREGADOS NA CONSTRUÇÃO CIVIL. RECEPÇÃO DO ART. 9º, § 2º, b, DO DECRETO-LEI 406/1968 PELA CONSTITUIÇÃO DE 1988. RATIFICAÇÃO DA JURISPRUDÊNCIA FIRMADA POR ESTA CORTE. EXISTÊNCIA DE REPERCUSSÃO GERAL. (RE 603497 RG, Relator(a): Min. ELLEN GRACIE, julgado em 04/02/2010, REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-081 DIVULG 06-05-2010 PUBLIC 07-05-2010 EMENT VOL- 02400-08 PP-01639) e) IMPOSTO - VINCULAÇÃO A ÓRGÃO, FUNDO OU DESPESA. A teor do disposto no inciso IV do artigo 167 da Constituição Federal, é vedado vincular receita de impostos a órgão, fundo ou despesa. A regra apanha situação concreta em que lei local implicou majoração do ICMS, destinando-se o percentual acrescido a um certo propósito - aumento de capital de caixa econômica, para financiamento de programa habitacional. Inconstitucionalidade dos artigos 3º, 4º, 5º, 6º, 7º, 8º e 9º da Lei nº 6.556, de 30 de novembro de 1989, do Estado de São Paulo. (RE 183906, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 18-09-1997, DJ 30-04-1998 PP-00018 EMENT VOL-01908-03 PP-00463 RTJ VOL- 00167-01 PP-00287) Nos julgados mencionados, cada um discute diferentes critérios da regra-matriz de incidência tributária, que são fundamentais para entender as questões tributárias em debate. Vamos identificar o critério em discussão em cada acórdão: 1. RE 379572: O critério discutido é o critério material. 2. RE 574706: Neste caso, o critério quantitativo. 3. RE 688223: O acórdão trata do critério material. 4. RE 603497 RG: Este julgado aborda o critério quantitativo. 5. RE 183906: O julgamento foca no critério material.