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Esquistossomose A Esquistossomose ou “doença do caramujo” ou “barriga d’água” ou “xistose” é causada pelos vermes platelmintos trematódeos sanguíneos do gênero Schistosoma. Esses agentes possuem a seguinte classificação científica: Reino – Animalia, Filo – Platyhelmintes, Classe – Trematoda, Ordem – Strigeiformes, Família – Schistosomatidae, Gênero – Schistosoma e Espécie – Schistosoma sp. Sendo a principal espécie envolvida nos casos reportados na América Latina – incluindo o Brasil – Schistosoma mansoni, que tem como principal característica da doença o acometimento hepático e esplênico. EPIDEMIOLOGIA Trata-se de uma verminose cosmopolita, ou seja, pode ser encontrada em praticamente qualquer lugar do mundo. Possui alta prevalência nos países em desenvolvimento, onde existem condições socioeconômicas desfavoráveis e saneamento básico precário, nas áreas tropicais. Estando presente em 54 países, com aproximadamente 200 milhões de pessoas infectadas em todo o planeta. É considerada uma doença negligenciada – assim como a dengue, leishmaniose, entre outras –, uma vez que é endêmica em populações de baixa renda e, dessa forma, possui indicadores e investimentos reduzidos em pesquisas, produção de medicamentos e também no seu controle. No Brasil, estima-se que 1,5 milhões de pessoas vivem em áreas de risco de contrair da doença e que 5% da população esteja infectada. Sendo as regiões Nordeste e Sudeste, as mais acometidas – diretamente relacionadas à presença dos moluscos transmissores. TRANSMISSÃO E CICLO BIOLÓGICO Como a espécie Schistosoma mansoni é a encontrada no Brasil, seu ciclo é o mais destacado. Possui como formas evolutivas: ovo, miracídio, esporocisto primário, esporocisto secundário, cercária, esquistossômulos e verme adulto. Os ovos são embrionados e liberados no ambiente, com formato elipsoide e irregular, transparente e frágil, com espículo lateral voltado para trás na sua porção mais larga, com tamanho variável (150 µm de comprimento e 60 µm de largura), apresentando uma membrana interna e uma externa, sobrevivendo cerca de 20 dias no interior do hospedeiro definitivo (ser humano) e apenas de 4 a 5 dias no ambiente externo, em condições adequadas de umidade e temperatura. Caso esteja em contato direto com a luz solar, sobrevive apenas em até 48 horas. No interior do ovo, se desenvolve o embrião em cinco estágios, dando origem a primeira forma larvária do parasita: o miracídio. Este é uma larva ciliada, liberada do ovo quando este entra em contato com o ambiente aquoso quando é carreado pela chuva para coleções hídricas. Uma vez nesse ambiente, o miracídio sobrevive até 24 horas (24º a 28ºC) e se movimenta em busca do hospedeiro intermediário (caramujos do gênero Biomphalaria – no Brasil, Biomphalaria glabrata, principalmente). Encontrando o caramujo, essa larva libera substâncias histolíticas secretadas e liberadas pelas glândulas cefálicas, sobre o tegumento. Uma vez dentro do organismo hospedeiro, perde a mobilidade em 48h e dá origem às formas de esporocisto primário. As células germinativas desses esporocistos se multiplicam e após 2 semanas, dão origem aos esporocistos secundários. Esses, por sua vez, se desenvolvem e multiplicam após 3 a 4 semanas, dando origem às cercarias. Cada miracídio dá origem a 300.000 cercárias. Estas são formas infectantes ao homem, com cauda bifurcada, também conhecidas como furcocercárias, de 50 µm de comprimento, sendo liberadas no ambiente hídrico e podendo sobreviver até 48h. Guiadas por sensores térmicos, as cercarias encontram a pele do ser humano e a penetram ativamente, liberando substâncias histolíticas e movimentando sua cauda. Esse processo leva de 2 a 15 minutos e acarreta uma reação de hipersensibilidade no local – dermatite cercariana. As cercarias perdem a cauda e dão origem aos esquistossômulos que cairão na corrente sanguínea ou linfática, atingindo a circulação venosa e, assim, o coração e os pulmões. Do coração, são lançados pelas artérias nos mais variados pontos do organismo humano – sendo o fígado o local de preferência desse parasita. No ambiente hepático, essas formas jovens, se desenvolvem e se alimentam de sangue. Ainda imaturos, migram para o sistema portal e se instalam nas veias mesentéricas superior e inferior, onde completam o estágio evolutivo e se tornam vermes adultos com dimorfismo sexual (macho e fêmea, separadamente). Da penetração das cercarias até os vermes adultos, são decorridos 27 dias, em média. Após 30 dias, esses vermes adultos de cor leitosa, iniciam o acasalamento (com a fêmea no interior do canal ginecóforo do macho). O macho tem corpo achatado, porém devido ao enrolamento ventral para formação do canal ginecóforo na sua extremidade posterior, adquire um formato semelhante ao cilíndrico. Mede em torno de 6,5 a 12 mm. A fêmea possui corpo perfeitamente cilíndrico, filiforme, com comprimento duas vezes maior que o macho e se acomoda no canal ginecóforo do macho. Ambos possuem ventosas ventrais e bucais, na extremidade anterior. Após 10 dias do acasalamento (40 dias após a entrada das cercarias), migram para a submucosa e mucosa intestinais, chegando à luz intestinal para a ovipostura da fêmea, por uma série de contrações musculares. Esse movimento de migração irá provocar microhemorragias e áreas de inflamação, responsáveis pelo desenvolvimento de diarreia mucossanguinolenta (disenteria) e de outros distúrbios gastrointestinais, liberando juntamente os ovos no ambiente externo, dando continuidade ao ciclo. Esses vermes adultos podem sobreviver até 5 anos no interior do hospedeiro definitivo e cada fêmea pode produzir cerca de 200 ovos por dia. A via de transmissão da Esquistossomose é pela penetração ativa de cercarias na pele do hospedeiro definitivo, por meio do contato com coleções hídricas contaminadas por essas formas evolutivas, em locais com a presença do hospedeiro intermediário. Não ocorre autoinfecção e nem infecção direta homem-homem. O ciclo biológico do Trichuris trichiura é heteroxêmico, contando com dois tipos de hospedeiros para se completar – o ser humano (definitivo) e caramujos do gênero Biomphalaria (intermediários). Existem ainda, os hospedeiros permissivos (outros primatas, marsupiais como gambá, roedores, lebres e coelhos) que não possuem ainda uma ação clara no ciclo evolutivo do parasita. QUADRO CLÍNICO O período de transmissibilidade da doença é de 6 a 10 anos, num indivíduo sem tratamento. O período de incubação é de 2 a 6 semanas. As manifestações Clínicas vão depender da resposta do hospedeiro à invasão, ao desenvolvimento e à oviposição do verme. Podemos dividir em fase inicial (formas assintomática e sin-tomática) e fase tardia (formas crônicas). Na maior parte dos casos, a esquistossomose será assintomática na sua fase inicial ou aguda. A fase inicial já começa com o desenvolvimento da Dermatite Cercariana no local da penetração das cercarias, devido à resposta de hipersensibilidade provocada pela presença de cercarias mortas. Ocorre um quadro de urticária com exsudato papulo-eritematoso, com intenso prurido, edema e ubor local. Essa dermatite tem duração de 3 a 5 dias após o contato com as cercarias, podendo durar mais tempo. Quadro sintomático pode ocorrer nessa fase inicial, podendo passar despercebido ou sendo oligossintomático, raramente fatal e autolimitado, de 30 a 40 dias após a infecção. São comuns sintomas geris como febre, diarreia, náuseas, vômitos e tosse seca de início abrupto. Após 3 a 7 semanas da exposição, pode haver a forma toxêmica ou Febre de Katayama, caracterizada por: febre, anorexia, dor abdominal, cefaleia, mialgia, calafrio entre outros sintomas. Além desses quadros, pode ocorrer a Pneumonite intersticial eosinofílica (devido à passagem dos esquistossômulos nos pulmões), gerando tosse seca, broncoespasmo e desconforto respiratório.Depois de 6 meses da infecção, entra-se na fase tardia da doença e há risco do desenvolvimento das formas crônicas, sobretudo em pessoas residentes em áreas endêmicas: i) hepatointestinal; ii) hepática; iii)hepatoesplênica. Hepatointestinal: queixas variáveis e inespecíficas, como astenia, tonturas, cefaleia, entre outras. Os sintomas digestivos predominam, com sensação de plenitude, dor epigástrica, hiporexia, com surtos diarreicos (diarreia mucosanguinolenta) intercalando com constipação. Hepatomegalia, com fígado palpável, de consistência aumentada, superfície irregular e hipertrofia do lobo esquerdo – porém, com função hepática preservada. Por definição, o baço não é palpável. A hepatomegalia ocorre devido à impactação dos ovos no espaço pré-sinusoidal, levando à formação de granulomas e fibrose, dificultando o fluxo da circulação portal. Hepática: sintomas semelhantes aos apresentados na forma hepatointestinal, porém não encontramos a prevalência da sintomatologia digestiva. Apenas o fígado é acometido, com o desenvolvimento da hepatomegalia e função hepática preservada. Hepatoesplência Compensada: presença de hipertensão portal intra-hepática pré-sinusoidal, esplenomegalia e varizes esofagianas (formação de circulação colateral). Pacientes apresentam sinais e sintomas inespecíficos, como dor abdominal, alterações das funções intestinais, sensação de peso ou desconforto no hipocôndrio esquerdo (pelo crescimento do baço), sendo a ascite um evento mais tardio. Descompensada: hemorragia digestiva (hematêse ou melena) associada de declínio acentuado da função hepática. Quando associada a fatores secundários, como alcoolismo e hepatite viral, se desenvolve inclusive, uma forma complicada. Complicações encontradas: infecções secundárias, esquistossomose neurológica (mielite transversa), sangramentos, glomerulopatias (glomerulonefrite membrano-proliferativa), insuficiência hepática, hipertensão (cor pulmonale – insuficiência do coração direito). DIAGNÓSTICO Baseia-se na detecção do parasita por métodos diretos e indiretos, por meio da análise laboratorial guiada pelos dados clínico-epidemiológicos. São utilizados exames diretos para detecção do ovo nas fezes ou tecidos (Método de Kato-katz: quantitativo; Técnica de Lutz ou Hoffman, Pons, Janer: qualitativo; Biópsia retal, hepática e de outros sítios) e de antígenos circulantes do Schistosoma mansoni (ELISA de captura, com anticorpos monoclonais). Bem como exames indiretos ou inespecíficos, como: i) Hemograma (Eosinofilia na fase aguda; Pancitopenia na fase crônica); Tomografia Computadorizada para detecção da hepatoesplenomegalia; Endoscopia Digestiva Alta para visualização de varizes esofágicas e estomacais; Ultrassonografia com doppler para constatação de hipertensão portal; Ressonância magnética da coluna para detecção de mielite transversa; entre outros. TRATAMENTO Como 1ª opção: Praziquantel 600mg (dose única: 60mg/kg para crianças e 50mg/kg para adultos, após uma refeição), tendo efeito sobre todas as espécies de Schistossoma. Como efeitos colaterais: gosto metálico na boca, diarreia, astenia, cefaleia, tonturas. Como 2ª opção: Oximniquina 250mg ou 50mg/mL (dose única: 20mg/kg para crianças e 15mg/kg para adultos, após 1h de uma refeição), possuindo ação somente sobre o Schistosoma mansoni. VIGILÂNCIA E PROFILAXIA A vigilância possui como objetivos as reduções: das formas graves e óbitos, prevalência da infecção e expansão geográfica. É de notificação compulsória em áreas não endêmicas e em casos graves nas áreas endêmicas. As medidas de controle são em torno do portador (identificação e tratamento), do hospedeiro intermediário. TRANSMISSÃO E CICLO BIOLÓGICO QUADRO CLÍNICO DIAGNÓSTICO TRATAMENTO VIGILÂNCIA E PROFILAXIA