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83 M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Capítulo 5 Atividade agrícola A atividade agrícola tem como base a terra. Como coloca o professor Roni Antônio Garcia da Silva (2013, p. 24), a terra é a “grande fábrica”, e por isso o custo de entrada em um empreendimento agrícola é, via de regra, bastante relevante. Terras não têm custos baixos, e o produtor agrícola (rural) precisa ter ciência de que questões de ordem biológica, química e física estão diretamente relacionadas com seu sucesso. O professor Silva (2013) menciona uma série de aspectos inerentes à atividade agrícola, entre os quais: 84 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . • a dependência do clima, que eleva significativamente os riscos do negócio, uma vez que fenômenos climáticos como geadas, chuvas intensas e secas prolongadas podem interferir muito na produção e rentabilidade do negócio; • riscos associados a doenças e pragas; • a perecibilidade dos produtos agrícolas, que exigem, em alguns casos, rapidez na colheita e distribuição ou soluções de armaze- namento de alto custo; • a dispersão e a exposição ao tempo do trabalhador agrícola, que reduzem naturalmente a produtividade; • as variações no tamanho e na qualidade da produção e colheita de um mesmo produto, já que nem sempre se consegue uniformi- dade na produção agrícola; • e a dificuldade, por parte do produtor rural, de atribuir valor ao seu produto, já que essa produção é pulverizada entre milhares de produtores em um dado país, configurando-os como tomadores do preço. 1 Operações agrícolas Antes de entrarmos propriamente neste tópico, cabe trazer à memó- ria a diferença entre custos e despesas na atividade agrícola. Segundo Marion (2012): Por convenção, e para facilitar a comunicação deste assunto, con- sideram-se custos de cultura todos os gastos identificáveis direta ou indiretamente com a cultura (ou produto), como sementes, adu- bos, mão de obra (direta ou indiretamente), combustível, deprecia- ção de máquinas e equipamentos utilizados na cultura, serviços agronômicos e topográficos, etc. 85Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Como despesas do período entendem-se todos os gastos não identificáveis com a cultura, não sendo, portanto, acumulados no estoque (culturas temporárias), mas apropriados como despesa do período. São as despesas de venda (propaganda, comissão de vendedores…), despesas administrativas (honorários dos diretores, pessoal de escritório…) e despesas financeiras (juros, taxas bancá- rias…). (MARION, 2012, p. 17) Também é importante compreender o conceito de perda. A perda normal faz parte do custo do produto agrícola, incluindo, por exemplo, o descarte de produtos com defeitos, amassados ou parcialmente co- midos por animais. Esses valores não são sequer apurados e o custo da produção é atribuído à parcela considerada válida. Já o tratamento das perdas tidas como anormais é diferente. Segundo Santos, Marion e Segatti (2017, p. 28), “perda anormal é a perda identificada que não possui nenhum valor compensante” e que, portanto, deve ser lançada diretamente contra o resultado do período. 1.1 Principais operações agrícolas A atividade agrícola tem fases muito características, e entendê-las nos ajuda a compreender como alocar custos a cada uma das etapas. Santos, Marion e Segatti (2017), em seu livro Administração de custos na agropecuária, mencionam as principais operações agrícolas, que aqui apresentamos na forma de um diagrama (figura 1). 86 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Figura 1 – Operações agrícolas Ralear é reduzir o número de frutos para melhorar o desempenho dos demais, diminuindo a competição entre eles Desbaste é a simples retirada de galhos e folhas para impedir quebras e melhorar as condições de luz, água, etc. Colheita da produção até o ponto de embalagem e armazenamento Preparo do solo Operações agrícolas Correção do solo Adubação Cultivo mecânico Raleação e desbaste Colheita Remoção de tocos, roça, limpeza, areação, gradeação, drenagem, conservação, subsolagem (trato mecânico do solo) Calagem (aplicação de cálcio para corrigir pH), entre outras técnicas De cova ou sulco Cultivo químico Aplicação de herbicida Controle de formigas, transporte de água Tratamento fitossanitário Transporte de água e aguaçãoIrrigação Cultivo manual Uso de mão de obra para limpar, roçar, arar e gradear a terra Utilização de máquinas para limpar, arar e gradear a terra Fonte: adaptado de Santos, Marion e Segatti (2017). 2 Contabilização do plantio à colheita A depender do tipo da cultura (temporária ou permanente), há dife- renças na contabilização ou registro a partir do plantio, formação das 87Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. culturas e colheita. Relembrando, culturas temporárias são aquelas em que o fruto é arrancado na colheita e que depois são replantadas (ou dão espaço para o plantio de outra cultura mais apropriada ao enrique- cimento do solo). Todos os gastos aplicados à formação dessa cultura são registrados em contas do ativo circulante. Já culturas permanentes apresentam duas fases distintas: a primeira refere-se à formação da planta portadora, isto é, da árvore que irá pro- duzir o fruto; a segunda fase corresponde à criação do fruto a partir da planta portadora. Na fase de formação da árvore, os gastos devem ser registrados no ativo imobilizado, enquanto na fase de formação do fruto, eles devem ser registrados no ativo circulante. Sintetizamos na figura 2 os registros em ambos os tipos de culturas. Figura 2 – Contabilização das culturas Contabilização das culturas Temporárias Cultura em formação Planta portadora Produto biológico Ativo não circulante (imobilizado) Ativo circulante Ativo circulante Permanentes Árvore Produto biológico 2.1 Critérios de registro e avaliação de ativos e produtos biológicos De acordo com o item 5 da NBC TG 29, “ativo biológico é um animal e/ou planta vivos” (CFC, 2015, p. 3). Ainda nesse item, temos a definição de planta portadora, isto é, uma planta viva que “é utilizada na produção ou fornecimento de produtos agrícolas e é cultivada para produzir frutos 88 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E dito ra S en ac S ão P au lo . por mais de um período” (CFC, 2015, p. 3). Cabe ressaltar que, conforme o item 5C dessa mesma norma, um produto em desenvolvimento de planta portadora é considerado um ativo biológico (CFC, 2015, p. 3). Nos itens 12 e 13 da NBC TG 29, temos a orientação sobre como mensurar ativos biológicos e produtos biológicos: 12. O ativo biológico deve ser mensurado ao valor justo menos a despesa de venda no momento do reconhecimento inicial e no final de cada período de competência, exceto para os casos des- critos no item 30, em que o valor justo não pode ser mensurado de forma confiável. 13. O produto agrícola colhido de ativos biológicos da entidade deve ser mensurado ao valor justo, menos a despesa de venda, no momento da colheita. O valor assim atribuído representa o custo, no momento da aplicação da NBC TG 16 – Estoques, ou outra nor- ma aplicável. (CFC, 2015, p. 4-5) Em outras palavras, o item 12 deixa claro que um ativo biológico (plan- ta portadora e produto em formação) deve ser avaliado a valor justo tanto no reconhecimento inicial como no final de cada exercício. Se, pelo item 5C, produtos em formação são ativos biológicos, eles têm de ser ava- liados a valor justo antes da colheita. Já o item 13 define que o produto biológico colhido deve ser avaliado a valor justo no momento da colheita. As contrapartidas das avaliações a valor justo desses ativos e pro- dutos biológicos são uma conta de resultado, tal como descrito no item 26 da NBC TG 29: 26. O ganho ou a perda proveniente da mudança no valor justo me- nos a despesa de venda de ativo biológico reconhecido no momen- to inicial até o final de cada período deve ser incluído no resultado do exercício em que tiver origem. (CFC, 2015, p. 7) A partir da formação do ativo biológico agrícola e do produto bioló- gico agrícola, os valores justos devem ser considerados como custos 89Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. no reconhecimento do ativo biológico no ativo não circulante perma- nente ou do produto biológico no ativo circulante. 2.2 Contabilização e mensuração no plantio em culturas temporárias Para compreender como registrar as aplicações de recursos em uma cultura temporária, avaliar a valor justo antes da colheita, no balanço e na colheita, vamos usar o exemplo de uma cultura temporária de milho. Uma entidade do agronegócio de pequeno porte situada na região sudeste tem uma área de cultivo equivalente a 100 ha, dos quais 25% são utilizados para a produção de milho. A produtividade média dessa propriedade é de 120 sacas por hectare. O plantio teve início em outu- bro de 2020 e foi concluído em dezembro do mesmo ano, enquanto a colheita ocorreu entre janeiro e junho de 2021. A cotação para uma saca de milho na bolsa de mercadorias no dia 31 de dezembro de 2020 era de R$ 95,00, e o milho foi todo negociado no dia 30 de junho de 2021, no final da colheita, pelo valor de R$ 110,00 cada saca, quando se consta- tou que a colheita resultou em 3 mil sacas de milho. Os custos indiretos totais na propriedade agrícola que devem ser rateados entre as culturas de milho, soja, arroz e feijão equivalem a R$ 229.500,00, e são formados pelos fatores apresentados na tabela 1. Tabela 1 – Discriminação dos custos indiretos da propriedade agrícola (out. 2020 a jun. 2021) CUSTOS INDIRETOS VALOR MENSAL VALOR NO PERÍODO Consultoria técnica de agrônomo R$ 2.000,00 R$ 18.000,00 Depreciação das máquinas R$ 3.000,00 R$ 27.000,00 Água (irrigação de toda a propriedade) R$ 1.000,00 R$ 9.000,00 Energia R$ 2.500,00 R$ 22.500,00 (cont.) 90 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . CUSTOS INDIRETOS VALOR MENSAL VALOR NO PERÍODO Combustível R$ 750,00 R$ 6.750,00 Seguro da produção R$ 1.250,00 R$ 11.250,00 Mão de obra indireta R$ 15.000,00 R$ 135.000,00 Total dos custos indiretos – R$ 229.500,00 Segundo o critério de rateio adotado pela propriedade, será atribuído à cultura do milho o correspondente a 20% do total dos custos indiretos, ou seja, R$ 45,900,00. Dos 100 ha, 25% foram utilizados para o cultivo do milho, o que equivale a 25 ha. Como a produtividade de cada hectare é de 120 sacas, a produção estimada é de 25 ha × 120 sacas = 3 mil sacas. Vamos agora discriminar os custos diretos relativos ao plantio e à colheita da cultura do milho na tabela 2. Tabela 2 – Custos diretos da cultura de milho (out. 2020 a jun. 2021) CUSTOS DIRETOS (PLANTIO E COLHEITA) VALOR MENSAL VALOR NO PERÍODO Mão de obra direta R$ 8.000,00 R$ 72.000,00 Sementes – R$ 5.000,00 Fertilizantes – R$ 30.000,00 Defensivos – R$ 25.000,00 Total dos custos diretos – R$ 132.000,00 Na figura 3, apresentamos o registro, no ativo circulante, dos custos para a formação da cultura temporária de milho até o dia 31 de dezem- bro de 2020, indicando inclusive a origem dos custos indiretos (ratea- dos dos custos totais, equivalentes a R$ 229.500,00). 91Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Figura 3 – Registro dos custos para a formação da cultura de milho Cultura temporária em formação (milho) Ativo circulante (AC) Total aplicado R$ 177.900 Mão de obra indireta – R$ 72.000 Sementes – R$ 5.000 Fertilizantes – R$ 30.000 Defensivos – R$ 25.000 Custos indiretos – R$ 45.900 Custos diretos Matéria-prima direta (MPD) Custos indiretos totais R$ 229.500,00 No dia 31 de dezembro de 2020, independentemente da colheita, como o exercício precisa ser encerrado, deve ser feita a avaliação a valor justo da cultura de milho, considerando o valor justo líquido das despesas de venda. Supondo que estas correspondam a 10% e a cota- ção de cada saca na bolsa de mercadorias seja de R$ 95,00 em 31 de dezembro de 2020, devemos realizar o ajuste a valor justo na estimativa de 3 mil sacas a serem colhidas. Na tabela 3, discriminamos o cálculo do valor justo líquido das despesas de venda. Tabela 3 – Cálculo do valor justo líquido da cultura de milho no balanço (31 dez. 2020) CÁLCULO DO VALOR JUSTO VALOR MENSAL VALOR NO PERÍODO Estimativa da colheita de 3 mil sacas R$ 95,00 R$ 285.000,00 Despesas de venda 10% (R$ 28.500,00) Valor justo líquido das despesas de vendas R$ 256.500,00 Nos razonetes representados na figura 4, temos o registro do ajuste a valor justo. Figura 4 – Registro do ajuste a valor justo no balanço e na demonstração de resultado (DRE) Ajuste a valor justo Ganho com ajuste a valor justo Cultura em formação de milho (AC) (Outras receitas – DRE) R$ 78.600,00 R$ 78.600,00 92 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . 2.2.1 Mensuração na colheita de culturas temporárias A norma NBC TG 29 determina que o produto biológico colhido seja avaliado a valor justo na colheita (CFC, 2015). Em nosso exemplo ante- rior, o valor negociado, isto é, o valor justo na colheita, foi deR$ 110,00 por saca de milho. Devemos considerar ainda as despesas com a venda sobre a diferença entre a avaliação a valor justo feita na data do balanço (R$ 95,00) e a avaliação a valor justo feita na colheita e venda (R$ 110,00). Apresentamos o cálculo desse novo ajuste na tabela 4. As 3 mil sa- cas, avaliadas a R$ 110,00 cada, totalizam R$ 330 mil. Como já havía- mos deduzido as despesas de venda sobre o valor justo anterior, agora basta deduzir as despesas de venda sobre a diferença entre R$ 330 mil e R$ 285 mil, isto é sobre R$ 45 mil. Assim, as despesas a serem dedu- zidas correspondem a R$ 4.500,00. Tabela 4 – Cálculo da diferença do valor justo na colheita (30 abr. 2021) CÁLCULO DO VALOR JUSTO DA CULTURA DE MILHO VALOR MENSAL VALOR NO PERÍODO Colheita de 3 mil sacas R$ 110,00 R$ 330.000,00 Despesas de venda [10% (R$ 330.000,00 – R$ 285.000,00)] (R$ 4.500,00) Valor justo líquido das despesas de venda R$ 325.500,00 Diferença de ajuste a valor justo (R$ 325.500,00 – R$ 256.500,00) R$ 69.000,00 Nos razonetes da figura 5, apresentamos o registro da avaliação a valor justo na colheita com base nos cálculos da tabela 4. Figura 5 – Avaliação a valor justo na colheita Ajuste a valor justo Cultura em formação de milho (AC) R$ 78.600,00 R$ 69.000,002 R$ 69.000,002 Ganho com ajuste a valor justo (Outras receitas – DRE) – 30/04/21 93Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Ao encerrar a colheita, os registros dos valores aplicados à formação da cultura de milho e das avaliações a valor justo devem ser transferidos para uma conta de estoque de milho no ativo circulante. Apresentamos essa transferência na figura 6. Note-se que o valor do custo de registro será a soma dos valores aplicados aos ajustes a valor justo feitos na data do balanço e na colheita. Figura 6 – Transferência de cultura em formação para estoque de milho Cultura temporária em formação (milho) Ativo circulante (AC) Ajuste a valor justo Cultura em formação de milho (AC) Total aplicado R$ 177.900 R$ 78.600 R$ 69.0002 R$ 177.9001 R$ 147.6002 Estoque de milho (AC) R$ 1177.900 R$ 2147.600 Custo total: R$ 325.500 Mão de obra indireta – R$ 72.000 Sementes – R$ 5.000 Fertilizantes – R$ 30.000 Defensivos – R$ 25.000 Custos indiretos – R$ 45.900 2.3 Contabilização em culturas permanentes Nesse tipo de cultura, em que temos duas fases bem definidas, to- dos os gastos devem ser inicialmente apropriados a uma conta especí- fica da cultura permanente em formação, e a floresta deve ser avaliada a valor justo ao final de cada exercício. A avaliação a valor justo de uma floresta permanente requer cui- dados especiais, uma vez que não é possível vender a árvore isolada- mente. Dessa forma, é necessário adotar, por exemplo, o critério de ge- ração de caixa com a vida útil remanescente da floresta ou comparar o preço da terra nua com o preço da terra incluindo a floresta plantada na região da propriedade. 94 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . 2.3.1 Formação da planta portadora e avaliação a valor justo da floresta permanente Os gastos com a formação de uma floresta permanente se asseme- lham aos gastos de florestas ou culturas temporárias. A diferença é que, nesses casos, o registro é feito em uma conta do ativo não circulante imobilizado até o momento em que a árvore começa a produzir frutos. A partir daí, os gastos são apropriados a produtos em formação no ativo circulante e não mais no imobilizado. Como exemplo, vamos supor que os gastos diretos e indiretos para a formação de uma floresta de café tenham sido de R$ 10 milhões até o momento exato em que a floresta começou a produzir os primeiros frutos. Consideremos ainda que o valor de mercado da terra nua, na região onde se encontra a cultura de café, seja de R$ 40 milhões, e que o valor de venda líquido das despesas de venda dessa propriedade, com a cultura de café no estágio em que se encontra, seja de R$ 65 milhões. A contabilidade deverá registrar a floresta de café, no ativo imobilizado, por R$ 25 milhões: R$ 10 milhões referem-se aos valores aplicados para a formação da floresta; os R$ 15 milhões restantes resultam da diferen- ça entre o valor da propriedade adicionado aos gastos de R$ 10 milhões (R$ 50 milhões) e o valor de mercado líquido das despesas de venda de toda a propriedade (R$ 65 milhões). O cálculo do ajuste pode ser acom- panhado na tabela 5. Tabela 5 – Cálculo do ajuste a valor justo da floresta permanente de café CÁLCULO DO AJUSTE A VALOR JUSTO VALOR Valor da terra nua R$ 40.000.000,00 Valores gastos na formação da floresta R$ 10.000.000,00 Total dos gastos com a terra e a formação da floresta R$ 50.000.000,00 Valor de mercado da propriedade após a floresta formada R$ 65.000.000,00 Ajuste a valor justo R$ 15.000.000,00 95Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. Na figura 7, temos a transferência dos valores para a conta do imo- bilizado como planta portadora, incluindo os gastos com a formação da floresta e a avaliação a valor justo no momento em que se inicia a pro- dução de frutos. A partir de então, a planta portadora deixa de ser ava- liada a valor justo e passa a ser avaliada como um imobilizado, tendo seu valor alocado ao ativo permanente imobilizado (OLIVEIRA, 2010). Nessas circunstâncias, ela será depreciada e estará sujeita a análise de valor recuperável. O valor dos gastos somado às avaliações a valor justo passa a ser o custo do imobilizado. Figura 7 – Registro da planta portadora A depreciação, segundo Oliveira (2010), se aplica a toda cultura per- manente, isto é, a itens tangíveis, já que esses itens se desgastam. A amortização se aplica a direitos que se extinguem, ou seja, correspon- de à recuperação de capital aplicado na aquisição de direitos sobre propriedades de terceiros, e a exaustão se aplica a itens que acabam (OLIVEIRA, 2010). A figura 8 representa a técnica aplicável em função do tipo de ativo na agropecuária. R$ 10.000.000,001 R$ 15.000.000,002 Total: R$ 25.000.000,00 R$ 325.000.000,00 Cultura permanente de café em formação Ativo não circulante (imobilizado) Planta portadora (ativo biológico formado) Ativo não circulante (imobilizado) 96 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Figura 8 – Técnica de redução de valor em função do tipo de bem Bens tangíveis Desgastam-se Depreciação Bens intangíveis Extinguem-se Amortização Recursos naturais Acabam Exaustão No que diz respeito à aplicação de recursos em florestas, o regula- mento do imposto de renda de 2018, em seu artigo 319, parágrafo 3º, define que cabe depreciação a florestas de frutos que sejam próprias. Nesses casos, a planta portadora tem vida útil claramente conhecida, e o valor apropriado como custo no imobilizado deve ser depreciado de forma linear aolongo da vida útil estimada da floresta ou em função da produção total estimada durante sua vida útil (BRASIL, 2018). Caso a entidade agrícola tenha contratado o direito para explorar uma floresta de fruto ou de corte, ela deverá amortizar o valor pago pelos direitos, tomando por base as orientações do artigo 334 do regu- lamento do imposto de renda de 2018, isto é, em função do prazo do contrato (BRASIL, 2018). Caso se trate de uma floresta própria para corte (extração de madeira), deverão ser aplicadas quotas de exaustão em função do 97Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. prazo de exploração ou da capacidade estimada e da extração de cada período. Na figura 9, apresentamos essas três possibilidades para trata- mento da redução de valor em recursos aplicados em florestas. Figura 9 – Redução de valor de recursos florestais Florestas de frutos próprias Florestas de corte próprias Florestas de frutos ou corte de terceirosRecursos florestais Depreciação Amortização Exaustão 2.3.2 Formação da produção agrícola e mensuração após a colheita A acumulação de custos referente à formação dos frutos em uma cultura permanente, como de maçãs, café, peras, mangas e cana-de- -açúcar, se dá a partir do momento em que a planta portadora está formada e a primeira produção fica evidenciada. Daí em diante, todos os valores gastos com a floresta, sejam eles custos indiretos ou dire- tos, devem ser apropriados à cultura em formação, exatamente como exemplificado no item 2.2 deste capítulo, inclusive no que diz respeito à mensuração na data do balanço e na colheita. 98 Custos e contabilidade no agronegócio M at er ia l p ar a us o ex cl us ivo d e al un o m at ric ul ad o em c ur so d e Ed uc aç ão a D is tâ nc ia d a Re de S en ac E AD , d a di sc ip lin a co rre sp on de nt e. P ro ib id a a re pr od uç ão e o c om pa rti lh am en to d ig ita l, s ob a s pe na s da L ei . © E di to ra S en ac S ão P au lo . Considerações finais O tratamento dos custos indiretos em um empreendimento agrícola é bastante similar ao tratamento dos custos indiretos em uma indústria: eles devem ser apropriados às culturas assim como são apropriados aos produtos em uma indústria. O critério de rateio deve ser adotado com prudência, dando preferência, quando possível, ao critério ABC, de modo que as arbitrariedades da apropriação dos indiretos sejam reduzidas. Cabe ressaltar que tanto a planta portadora como o produto em for- mação na planta portadora, bem como os produtos biológicos, devem ser avaliados a valor justo na data do balanço e na colheita. Por fim, após formada, a planta portadora deverá ser tratada como um ativo imobilizado, conforme a NBC TG 27 (CFC, 2017). Referências BRASIL. Decreto nº 9.580, de 22 de novembro de 2018. Regulamenta a tributação, a fiscalização, a arrecadação e a administração do Imposto sobre a Renda e Proventos de Qualquer Natureza. Brasília, DF: Presidência da República, 2018. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 2018/2018/decreto/D9580.htm. Acesso em: 20 jun. 2022. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE (CFC). NBC TG 27 (R4), de 24 de novembro de 2017. Altera a NBC TG 27 (R3), que dispõe sobre ativo imobilizado. Brasília: CFC, 2017. Disponível em: https://www1.cfc.org.br/sisweb/SRE/docs/ NBCTG27(R4).pdf. Acesso em: 20 jun. 2022. CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE (CFC). NBC TG 29 (R2), de 23 de outubro de 2015. Altera a NBC TG 29 (R1), que dispõe sobre ativo biológico e produto agrícola. Brasília: CFC, 2015. Disponível em: https://www1.cfc.org.br/ sisweb/SRE/docs/NBCTG29(R2).pdf. Acesso em: 20 jun. 2022. MARION, José Carlos. Contabilidade rural: contabilidade agrícola, contabilidade da pecuária e imposto de renda – pessoa jurídica. São Paulo: Atlas, 2012. 99Atividade agrícola M aterial para uso exclusivo de aluno m atriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o com partilham ento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo. OLIVEIRA, Neuza Corte de. Contabilidade do agronegócio: teoria e prática. Curitiba: Juruá, 2010. SANTOS, Gilberto José; MARION, José Carlos; SEGATTI, Sonia. Administração de custos na agropecuária. São Paulo: Atlas, 2017. SILVA, Roni Antônio Garcia da. Administração rural: teoria e prática. 3. ed. Curitiba: Juruá, 2013.