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Prévia do material em texto

Conteudista: Prof. Dr. Edgar Silva Gomes 
Revisão Textual: Profª. Esp. Vera Lídia 
Objetivo da Unidade:
Estudar criticamente, de forma sucinta, os presidentes e o contexto político,
econômico e social a partir da abertura democrática no Brasil no ano de 1985 e
finalizar com o segundo mandato do presidente Lula no ano de 2010. 
📄 Contextualização
📄 Material Teórico
📄 Material Complementar
📄 Referências
De Volta à Democracia (1989-2010)
A contextualização desta Unidade é de caráter geral para se entender o contexto local através do
documentário “A Doutrina do Choque”.
Abaixo você pode assistir ao documentário baseado no livro da jornalista Naomi Klein e refletir
sobre o contexto do conteúdo teórico desta Unidade. 
Tente perceber a ocorrência, no Brasil, de algumas das iniciativas propugnadas pelos “Chicago
boys”. Após um momento de crise e caos político-econômico, guardando suas devidas
proporções, foram aplicadas medidas econômicas no nosso país que só fizeram aprofundar as
diferenças entre ricos e pobres. Na atual conjuntura, ainda de crise internacional, o país tenta se
levantar, com avanços e recuos, das imposições do neoliberalismo e implantar uma política
econômica um pouco menos selvagem, apesar da insatisfação dos que sempre ganharam com
as crises. 
1 / 4
📄 Contextualização
Filme
A Doutrina do Choque (The Shock Doctrine) 
A Doutrina do Choque
O filósofo italiano Giorgio Agamben já demonstrou como a política trabalha secretamente na
produção de emergências. Só que faltava um ponto de vista jornalístico, apurado e certeiro,
sobre a natureza e as dimensões do fenômeno. Essa parece ser a proposta de Naomi Klein nesse
livro. Logo no primeiro capítulo, ao entrevistar Gail Kastner, remanescente das experiências da
CIA com eletrochoques nos anos 1950, Klein define a obra como “um livro sobre o choque”, ou,
se preferirmos, sobre como o capitalismo lucra com a dor dos outros diante da desgraça. O livro
descreve inicialmente como os países ficam impactados por causa de guerras, ataques
terroristas, golpes de Estado e desastres naturais, e, em seguida, são submetidos a novos
choques políticos e econômicos, por meio de desregulamentações, privatizações e cortes dos
programas sociais – doutrina neoliberal desenvolvida pelo economista Milton Friedman (1912-
2006), professor da Escola de Economia de Chicago. E quem ousar resistir às medidas impostas
corre o risco de ser torturado com novos choques (elétricos). Como disse Eduardo Galeano,
muito citado no livro, “Friedman ganhou o Nobel e o Chile ganhou Pinochet”.
A Doutrina do Choque (The Shock Doctrine) - Naomi Klein [compleA Doutrina do Choque (The Shock Doctrine) - Naomi Klein [comple……
https://www.youtube.com/watch?v=Y4p6MvwpUeo
O complexo político-econômico gerado por esse estado de choque contínuo é o capitalismo de
desastre, “incapaz de distinguir entre destruição e criação, entre ferir e curar”, conforme
atestam os exemplos analisados no livro. Parte-se do mito do milagre chileno, a primeira
aventura dos “Garotos de Chicago” nos anos 1970, passando pela terapia de choque em vários
países da América Latina na década de 1980. Seguem-se crises na China, Polônia, África do Sul e
Rússia; a “pilhagem” da Ásia nos anos 1990; a doutrina militar do “choque e pavor” no Iraque
pós-11/9; o tsunami de 2004 no Oceano Índico e as privatizações que ocorreram no rastro do
furacão Katrina, em 2005. A doutrina do choque é altamente recomendável a todos que
esbravejam contra os desmandos do regime chinês, sem se darem conta de que a Cisco, a
General Electric, a Honeywell e o Google, entre outras empresas, vêm trabalhando de mãos dadas
com os governos locais para permitir o monitoramento remoto da internet e fornecer a
infraestrutura para um dos maiores complexos policialescos do planeta.
Silvio Miele
Jornalista e professor do Departamento de Jornalismo da PUC-SP
Introdução
A democracia começou a ser forjada entre os anos de 1979 e 1981 e não foi feita pelos partidos
políticos coalhados de setores da elite brasileira aliada ao capital internacional. A luta pela
democracia começou com os movimentos sociais. Para a elite, a ditadura estava “muito bem
obrigado” até seus ganhos astronômicos serem reduzidos. Apesar de ganharem com a inflação,
a elite queria mais; a elite quer sempre mais. Qualquer política que favoreça a classe média baixa e
os miseráveis une a elite. Como ela se uniu no passado. Foram os “Mesquitas” e “Marinhos” os
apoiadores de tentativas de golpes desde 1954 e do golpe “bem sucedido” em 1964. Para saber
mais sobre esse tema, é imprescindível recorrer às análises de Thomas Skidmore, Brasil de
Getúlio a Castelo, ou aos documentos da “Comissão Verdade”, que revelam a participação do
mandatário da Rede Globo, Roberto Marinho, na articulação que manteve o Golpe em 1964.
Porém a sociedade pressionou pela abertura: 
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📄 Material Teórico
“Os movimentos sociais desdobram-se. De 1979 a 1981, houve uma primeira onda
grevista, atingindo todos os estados da Federação. Os trabalhadores tentavam
preservar seus ganhos frente à inflação descontrolada. Em agosto de 1981,
realizou-se a I Conferência Nacional das Classes Trabalhadoras – Conclat. [...] Em
agosto de 1983, fundou-se a Central Única dos Trabalhadores – CUT. Os que dela
divergiam, articularam uma alternativa: a Confederação Geral dos Trabalhadores-
CGT. Não poucos imaginaram que ali se formava um sindicalismo autônomo em
Feridos, mas não vencidos, os movimentos sociais foram se articulando; alguns se uniram aos
partidos de esquerda. O candidato governista do PDS foi derrotado. E a história dos avanços e
recuos da democracia adormecida pela longa ditadura começou a ser contada com Sarney,
Collor, FHC, Lula e, ainda, procura se firmar nos dias de hoje e, ainda, com avanços e recuos...
Em telegrama ao Departamento de Estado Norte-Americano, embaixador Lincoln Gordon
relata interlocução do dono da Globo com cérebros do golpe em decisões sobre sucessão e
endurecimento do regime: Confira o artigo original no Portal Metrópole: 
relação aos partidos e ao Estado, organizado pela base. E o batizaram de “novo
sindicalismo”. [...] O maior movimento do período teve caráter político: as Diretas
Já. Objetivavam aprovar pelo Congresso Nacional o restabelecimento das eleições
diretas para a presidência da República, marcadas, de forma indireta, para janeiro
de 1985.”
Figura 1
Fonte: reprodução
Figura 2
Fonte: Reprodução
“[...] a atual experiência em Guanabara, com a nomeação do marechal Lott do PTB,
numa franca plataforma antirrevolução e com o apoio comunista, bem ilustrou os
perigos. [...] Marinho estava definitivamente satisfeito ao final da conversa com o
fato de que Castello não seria mais firme oposição e iria até cooperar [...] deslocaria
a eleição presidencial de 1966 da forma direta para a indireta no Congresso. Isto
relata a conversa altamente confidencial no almoço de sexta-feira com Roberto
Marinho, editor do Globo, sobre o problema da sucessão presidencial. A proteção
da fonte é essencial. Por alguns meses, Marinho estava convencido de que a
manutenção de Castello Branco como presidente para um novo mandato é
indispensável para a continuidade das políticas do atual governo [...] com o grupo
incluindo o general Ernesto Geisel, chefe da casa militar da presidência, general
Golbery, chefe do serviço de informação nacional, Luís Vianna, chefe da Casa Civil
[...] Marinho teve uma conversa em almoço privado com o presidente, na qual ele
achou Castello fortemente resistente a qualquer forma de continuação do mandato
ou à reeleição [...] ter Juracy Handy como possível candidato alternativo e melhorar
o funcionamento deste ministério politicamente importante, cujo atual cabeça
Milton Campos é altamente respeitável, mas um cavalheiro idoso totalmente fora
de moda. ”
Sarney: Presidente do Acaso
O presidente eleito pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985, foi o candidato da oposição,
TancredoNeves, pelo PMDB, que derrotou o candidato governista, Paulo Maluf, do PDS. Após a
emenda constitucional Dante de Oliveira não ter conseguido maioria absoluta nas votações do
dia 25 de abril de 1984, pois faltaram 22 votos para a aprovação da emenda, a oposição se
articulou e saiu vitoriosa. A única coisa que não estava nesse script foi que, antes de assumir o
posto para o qual foi escolhido, o presidente eleito faleceu, no dia 21 de abril, após sofrer uma
intervenção cirúrgica. O país ficou comovido com a situação, mas, no dia 15 de março, já havia
assumido o posto o candidato a vice-presidente, o senhor José Sarney. Dessa vez não houve
golpe na constituição! 
O novo presidente assumiu um país afundado na inflação e com sérios problemas para pagar a
dívida externa. Houve, em seu mandato, um pedido de moratória da dívida externa. Para driblar
os problemas, a equipe econômica apelou para a edição do Plano Cruzado, uma nova moeda que
deu momentos de sucesso ao governo Sarney. No início de 1986, houve congelamento de preços
e salários, mas a euforia durou pouco tempo; antes das eleições para governadores e para o
Parlamento Federal, que iria elaborar a nova constituição brasileira, a situação econômica já
estava patinando. 
As eleições foram um verdadeiro sucesso para a “ex-oposição”, agora no comando do governo.
O PMDB conseguiu eleger os governadores em quase todos os estados. A exceção foi o estado do
Sergipe. Para a constituinte, o PMDB fez maioria absoluta no Congresso. O país todo estava com
as atenções voltadas para o Congresso Nacional e para a elaboração da Carta Constituinte. Havia
uma enorme pauta para ser votada. Os trabalhos foram comandados pelo político mais
expressivo daquele contexto, o deputado Ulisses Guimarães, que, “numa extensa pauta,
consagrou direitos políticos e sociais e as tradições corporativas e nacional-estatistas, de
profundas raízes históricas e que se haviam reforçado, com aspectos próprios, no período
ditatorial”. 
As ideias liberais prevaleciam no campo econômico. Margareth Thatcher, no Reino Unido, e
Ronald Reagan, nos Estados Unidos, davam impulso ao neoliberalismo selvagem. A
“diplomacia” das potências seguia a cartilha militarista, mas a constituição brasileira optou pelo
viés social. Infelizmente a Constituição nem sempre é respeitada quando se trata de interesses
econômicos de mercados tão grandes, como é o caso do Brasil. Políticos de esquerda que, antes,
lutavam pela igualdade social, pela liberdade e pela democracia desvirtuaram-se e passaram a
seguir a cartilha neoliberal, como veremos. 
A “constituição-cidadã” – era assim que Ulysses Guimarães gostava de chamar nossa
Constituição de 19883 -, vigente até os dias de hoje, ainda não conseguiu ser implantada como
deveria: a questão indígena; a reforma agrária; a educação como direito do cidadão e dever do
estado; a reforma política, entre outras reformas sociais patinam diante dos interesses do
agronegócio, das grandes corporações e dos financistas que lucram com o “quanto pior
melhor”, pois ganham com as crises econômicas. Com isso, aprofundam-se as desigualdades
sociais em países como o Brasil, na América Latina, na África e na Ásia, mercados emergentes
que fazem o jogo econômico ditado pelos países ricos. 
Figura 3
Fonte: Wikimedia commons
O contexto econômico não ajudava muito a implantar no país as políticas sociais necessárias
para diminuir as desigualdades, nem o mercado se esforçava para que isso fosse possível. O
capitalista nunca esteve disposto a abrir mão de seus lucros em prol da diminuição da miséria. O
Brasil, nos primeiros anos após a abertura democrática, capengava economicamente; a salvação
da pátria nesses primeiros anos de abertura foi mesmo a elaboração da Constituição promulgada
no ano de 1988.
“O país estava na contracorrente do que se passava no mundo. De fato, os anos
1980 assinalaram o triunfo do chamado neoliberalismo. [...] No fim da década, caiu
o Muro de Berlim e, em 1991, desintegrou-se a URSS. Na Europa Ocidental, núcleo
histórico das propostas de estado de Bem-Estar Social, os partidos socialistas
recuavam sob a ofensiva das ideias liberais.”
“Durante os trabalhos da Constituinte, entre 1987 e 1988, falido o Cruzado, outro
plano veio à tona: o Plano Bresser (junho de 1987). Fracassou. Ainda haveria outro:
Plano Verão (janeiro de 1989), com pífios resultados. A inflação alcançou, as taxas
anualizadas, o patamar de 1.700%. Diante da liderança de Ulysses Guimarães,
presidente do Congresso e da Constituinte e grande líder das Diretas Já, Sarney
parecia diminuído. Só lhe restou a batalha – inglória – de manter a duração do
mandato, podado de seis para cinco anos. Assim, desgastado e criticado por todos,
passou a faixa presidencial ao sucessor, em março de 1990.”
Conturbado economicamente, Sarney deixou como legado positivo apenas a “Constituição-
Cidadã”. Foi mais de um ano e meio de trabalho – durou de 1º de fevereiro de 1987 a 5 de outubro
de 1988 – criando muitas expectativas na sociedade. Parecia que as pessoas esperavam uma
constituição que resolvesse todos os problemas do país e não apenas os direitos dos cidadãos e
das instituições do país. A carta foi muito criticada por tentar tratar de “tudo”. Para Boris Fausto,
“por entrar em assuntos que tecnicamente não são de natureza constitucional, refletiu as
pressões dos diferentes grupos da sociedade. Em um país cujas leis valem pouco, os vários
grupos trataram de fixar o máximo de regras no texto constitucional”. 
No governo Sarney formou-se um grupo denominado “Centro Democrático”, composto
principalmente pelos partidos aliados – PMDB, PFL, PTB, PDS – e coalhado de conservadores.
Esse grupo ficou conhecido como “Centrão”, que teve forte influência nos trabalhos da
constituinte. “[...] o centrão foi apoiado pelo poder executivo, eles barganhavam apoio político
como, por exemplo, o aumento em um ano do mandato presidencial, e recebiam em troca desse
apoio político: cargos públicos ou concessões de canais de televisão e emissoras de rádio.
Durante o mandato do presidente Sarney, a imprensa registra numerosos casos de corrupção e
Nepotismo”. (Priori & Venâncio, 2001, p.379) 
Como estava indo na contramão do mundo neoliberal, a Constituição consagrou medidas em
que o Estado monopolizava diversos setores, como energia elétrica, telecomunicações, portos e
transporte rodoviário. Essas medidas, em um país em crise, travou o fornecimento de bens e
serviços. Foram necessárias várias emendas constitucionais para soltar as travas da economia.
No campo social, houve grandes avanços que, até o presente momento, evoluíram pouco ou
quase nada. É o caso dos povos indígenas, da reforma agrária e do direito das minorias. Neste
último caso, muito se deve ao conservadorismo que vem apresentando a política brasileira dos
últimos anos. 
Fato a se comemorar e bastante simbólico para colocar um ponto final ao autoritarismo do
estado ditatorial foi à criação do “Habeas data”, recurso jurídico que garante ao cidadão acesso
aos dados e informações sobre ele nos arquivos de entidades governamentais ou a possibilidade
de corrigir informações incorretas a seu respeito. Com suas qualidades e defeitos, a Constituição
de 1988 colocou uma pedra sobre o período ditatorial no Brasil. Para finalizar o período
governado pelo maranhense de Pinheiro, José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, do PMDB, e
prosseguir com o estudo do período democrático é interessante notar a análise de Boris Fausto
sobre a abertura política no Brasil.
Concordo com Boris Fausto, no ponto em que ele salienta que o país passou para uma “situação
democrática”, pois, nos moldes como foi realizada a transição política, construída por atores
políticos apartados da sociedade, a democracia foi algo novo para grande parcela da sociedade
brasileira, que não estava acostumada a respeitar o estado de direito de seus oponentes e ou das
instituições democráticas. Para que haja democracia de fato, é necessárioà consciência político-
social da população um ambiente propício à construção social da democracia. Por isso vê-se, na
atualidade, grupos que, quando são contrariados em seus projetos de poder, partem para o
enfrentamento, em vez de partir para a oposição e, através de seus projetos, conquistar
democraticamente seu espaço como atores políticos de relevância para mudar a situação que
não lhes agrada. 
O Poder do Voto: Eleições Presidenciais de 1989
“A transição brasileira teve a vantagem de não provocar grandes abalos sociais.
Mas teve também a desvantagem de não colocar em questão problemas que iam
muito além da garantia de direitos políticos à população. Seria inadequado dizer
que esses problemas nasceram com o regime autoritário. A desigualdade de
oportunidades, a ausência de instituições do Estado confiáveis e abertas aos
cidadãos, a corrupção, o clientelismo são males arraigados no Brasil. Certamente
esses males não seriam curados da noite para o dia, mas poderiam começar a ser
enfrentados no momento crucial da transição. O fato de que tenha havido um
aparente acordo geral pela democracia, por parte de quase todos os atores
políticos, facilitou a continuidade de práticas contrárias a uma verdadeira
democracia.”
A expectativa após a finalização dos trabalhos constituintes era a possibilidade de se eleger, de
forma direta, o presidente da República, inclusive com o voto dos analfabetos. Enfim, o
movimento “Diretas Já” tornara-se realidade. A lei que dispôs as normas para as eleições foi a
Lei n. 7.773, de oito de junho de 1989. Antes disso, porém, as eleições de 1988 reservaram uma
primeira surpresa: a população elegeu a paraibana Luiza Erundina de Sousa para comandar a
cidade com o maior colégio eleitoral do país. A petista venceu pela vontade popular e contrariou
as elites paulistanas. 
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, FIESP, que já havia apoiado os ditadores,
ressuscitou o discurso anticomunista e ameaçou uma debandada de empresários do país, caso
outro petista conseguisse seu intento. O alvo era Luís Inácio da Silva, Lula, que era candidato à
Presidência da República em disputa acirrada com Fernando Collor de Melo. Erundina, mulher de
esquerda, governando a capital da Locomotiva do país, era demais para endinheirados,
principalmente, após ter derrotado o empresário e candidato a “qualquer coisa” Paulo Maluf,
PDS, e o engenheiro João Leiva, PMDB. 
A ameaça do empresariado paulista e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, aliados
à “Grande Imprensa”, que não tinha ainda a concorrência das mídias sociais, derrotou os
“comunistas”. O sucessor de Sarney, Fernando Collor de Mello, foi favorecido pela polarização
direita – esquerda, mas, antes da batalha eleitoral do segundo turno, contou com outros pesos
pesados da política brasileira. Concorreram, no primeiro turno das eleições: Ulysses Guimarães
(PMDB), Mário Covas (PSDB), Paulo Maluf (PDS), Leonel Brizola (PDT), Roberto Freire (PCB),
Guilherme Afif Domingos (PL), Aureliano Chaves (PFL), A�onso Camargo (PTB). No total foram
22 candidatos à Presidência da República, conforme Tabelas abaixo. 
Tabela 1 – Eleições Presidenciais de 1989: Primeiro Turno / 1989
Presidential Elections: First Round
Fonte: Instituto Inter-Americano de Direitos Humanos  
Tabela 2 – Eleições Presidenciais de 1989: Segundo Turno / 1989
Presidential Elections: Second Round
Fonte: Instituto Inter-Americano de Direitos Humanos  
A campanha eleitoral à Presidência da República, em 1989, ao se afunilar no segundo turno,
apresentou ao país dois candidatos representando anseios diversos: Collor de Mello (PRN), rico
e “bem criado”, atacava os “marajás”; Lula (PT), metalúrgico e líder sindical que mobilizou
greves contra o governo militar, assombrava a burguesia. Essa disputa mexeu com as elites de
todo o país. O fantasma do comunismo nunca deixou de rondar aqueles que viviam do lado rico e
fértil da Belíndia, (termo forjado por economistas das décadas de 1960 e 1970 para marcar as
profundas desigualdades socioeconômicas no país)8 . Os habitantes da Belíndia apoiaram Collor
de Mello e, mais uma vez em nossa história, o poder econômico foi capaz de manipular as
pessoas que ficam à margem da cidadania e de uma educação de qualidade, “Collor explora com
muita habilidade esse meio de comunicação [televisão], conseguindo apoio das camadas mais
pobres e sem escolaridade.” 
Tensão Eleitoral
Foi uma eleição tensa, com forte troca de acusações entre os candidatos, gritarias em debates e
muita promessa de moralização. Collor fez campanha associando Lula ao mundo comunista,
aproveitando-se da queda do Muro de Berlim, menos de uma semana antes do primeiro turno.
No segundo turno, a campanha de Collor exibiu no horário eleitoral na TV o depoimento de
Miriam Cordeiro, ex-namorada de Lula, acusando o petista de tê-la pressionado para abortar a
filha que esperava do então metalúrgico. 
No país recém-alforriado, a liberdade negociada pelas velhas oligarquias, sempre sedentas pelo
poder, e pela nova elite industrial e empresarial, afeita ao bordão anticomunista, contou com a
contribuição da poderosa Rede Globo de Televisão para derrubar o candidato que as incomodava.
O interessante é que essa empresa de mídia, que foi forjada pela ditadura para alavancar o
regime, ajudou mais uma vez a elite a manipular a opinião pública e eleger o candidato que
melhor lhe representava: Collor de Mello, que admitiu, em entrevista ao portal de notícias UOL,
no ano de 2009: “Relação com a Globo ajudou bastante, lembra Collor; senador diz ter pensado
na véspera que perderia a eleição”. Podemos hoje confirmar as suspeitas da época, o debate foi
manipulado, de acordo com as declarações recentes de seu (ex)“todo poderoso”, José Bonifácio
de Oliveira Sobrinho.
“Em entrevista ao jornalista Geneton Moraes Neto, transmitida pela Globo News,
José Bonifácio Sobrinho, o Boni, dá detalhes da noite do debate, cuja repercussão
foi considerada fundamental para a vitória no segundo turno de Collor de Mello,
uma vez que, antes do acontecimento, os dois políticos estavam em situação de
empate técnico. Boni admitiu que a emissora assumiu o lado de Fernando Collor de
Mello. Segundo ele, após ser procurado pela assessoria do ex-presidente, o
superintendente executivo da Globo, Miguel Pires Gonçalves, pediu que ele
palpitasse no evento. “Eu achei que a briga do Collor com o Lula nos debates
estava desigual, porque o Lula era o povo e o Collor era a autoridade”, contou.
“Então nós conseguimos tirar a gravata do Collor, botar um pouco de suor com
uma ‘glicerinazinha’ e colocamos as pastas todas que estavam ali com supostas
denúncias contra o Lula – mas as pastas estavam inteiramente vazias ou com
papéis em branco”, disse Boni. “Todo aquele debate foi [produzido] – não o
conteúdo, o conteúdo era do Collor mesmo -, mas a parte formal nós é que
fizemos.”
Collor de Mello estava disputando as eleições pela coligação “Movimento Brasil Novo”,
composta por seu partido, o Partido da Reconstrução Nacional (PRN) e pelos partidos: Social
Cristão (PSC), Trabalhista Renovador (PTR) e Social Trabalhista (PST). Itamar Franco, vice-
presidente eleito, estava no PRN até divergir da política econômica do governo Collor,
retornando ao PMDB no início de 1992. Durante as eleições, os grandes partidos da época já
demonstravam inclinação a apoiar o candidato do PRN. A intenção tornou-se apoio explícito na
disputa do segundo turno das eleições vencidas por Collor. O petista Lula foi apoiado pelos
partidos Socialista Brasileiro (PSB) e Comunista do Brasil (PCdoB).
Collor e o Colorido das Ruas
Collor surgiu no cenário político como uma liderança alternativa aos velhos políticos de sempre,
que ou estavam alocados no PDS ou no PMDB. Com a abertura política, a divergência foi se
realçando e criaram-se novos partidos com velhas figurinhas carimbadas. José Sarney era um
desses casos e também não conseguiu mudar o cenário socioeconômicoem seu governo; ao
contrário, ao negociar com o “Centrão”, aprofundou a velha política do toma-lá-dá-cá.
Somente Lula e Collor poderiam mudar esse cenário? Talvez, mas ele não foi mudado. Collor, o
caçador de marajás e implacável perseguidor de corruptos, caiu nas tentações da velha política
corrompida. O empurrãozinho inicial para tumultuar o cenário político partiu do irmão do
presidente, Pedro Collor: 
“As acusações contra Collor ganharam força com a divulgação de duas entrevistas
nas revistas Veja e Isto É. A primeira, publicada em maio de 1992, trazia o irmão do
presidente, Pedro Collor, apontando a existência de um esquema de desvio de
dinheiro para paraísos fiscais, montado por PC Farias. A entrevista levou à criação
de uma CPI no Congresso. Na segunda, em junho, o motorista Francisco Eriberto
França confirmou a Isto É que transportava cheques da empresa de PC Farias que
pagavam as despesas pessoais de Collor e a mulher, Rosane Collor. Em julho, foi
A crise econômica e a inflação alta, contornadas por Collor no início de seu governo, fez reviver a
euforia do Plano Cruzado do governo Sarney. Com deflação, abertura de mercado e um plano de
desestatização da economia, Collor viveu momentos de glória, o Congresso apoiava-o,
aprovando suas medidas econômicas. O Plano Brasil Novo, popularizado como Plano Collor, era
composto pela Política Industrial e de Comércio Exterior (PICE) e pelo Programa Nacional de
Desestatização (PND). A política econômica foi implantada pelos economistas Antônio Kandir,
Ibrahim Eris, Venilton Tadini, Luís Otávio da Motta Veiga, Eduardo Teixeira e João Maio. Entre os
ajustes realizados, o confisco da poupança foi recebido muito mal pela população. Zélia Cardoso
de Mello era a Ministra da Fazenda. 
No início do ano de 1991, “lançou-se o Plano Collor II, com medíocres resultados. Em agosto, o
governo liberou o dinheiro sequestrado em março de 1990, mas a engrenagem inflacionária
estava novamente em curso degradando a todos”. A crise política e econômica não tardou a
chegar, a inflação retornou e a resistência à desestatização, com greves de funcionários públicos
encontrada a prova definitiva da ligação entre Collor e PC Farias: um cheque-
fantasma usado pelo presidente para comprar um carro Fiat Elba.”
“[...] no dia seguinte à posse, em 16 de março de 1990, foi lançado o Plano Collor. A
ministra da Economia, Zélia Cardoso de Mello, anunciou que, a partir daquele dia,
nenhum brasileiro poderia sacar mais do que 50 mil cruzeiros da poupança ou da
conta corrente pelos próximos 18 meses. O valor era equivalente, na época, a 13,6
salários-mínimos. O objetivo da medida, a mais drástica na história da economia
do país, era reduzir a quantidade de dinheiro em circulação, diminuindo o poder de
compra e, assim, controlando os preços.”
e de outros setores da economia, exigindo reajustes pelas perdas salariais, surgiu com força
ainda em seu primeiro ano de governo. 
O longo “Inferno Astral” vivido por Collor, durante o ano de 1992, começou com as denúncias
de corrupção desde o início de seu governo. A esperança depositada no líder alternativo, “jovem,
bom de verbo e de voto, empolgava as massas populares e seduzia as elites [...] pelas alianças
políticas, pela posição social [...] e, sobretudo, pelas propostas de abrir o país para o mercado
internacional e enfraquecer o Estado”, naufragou em seu segundo ano de governo. A população
saiu às ruas para pedir o impeachment de Collor. Contra ele já havia denúncias comprovadas de
envolvimento em corrupção feitas pelo irmão Pedro Collor. 
O pivô do primeiro impeachment de um líder de governo na América Latina foi o tesoureiro da
campanha de Collor à presidência, Paulo Cesar Siqueira Cavalcanti Farias, o PC Farias,
assassinado em 1996 em condições até hoje mal resolvidas. Collor foi arrogante politicamente e
afastou a maioria de seus apoiadores, inclusive a população que havia conquistado durante as
eleições. Em uma última tentativa de sobreviver aos escândalos em que era envolvido, fez um
apelo à população para que fosse defendido das acusações, “o resultado, oposto, foi o
aparecimento nas ruas de movimentos estudantis contra sua permanência no cargo. Com os
rostos pintados como índios, os “caras pintadas” exigiram, de agosto em diante, a deposição de
Collor por meio de impeachment”. 
Havia condições políticas e provas contra o presidente, que sucumbiu às denúncias e foi
incriminado pela CPI. Em meio ao fogo cruzado das ruas e dos partidos políticos, Collor
renunciou ao cargo no dia 29 de outubro de 1992. Mesmo assim perdeu seus direitos políticos
por oito anos após o julgamento do Senado. Itamar Franco, que estava presidente interino,
assumiu o cargo.
Itamar Franco e o Início da “Estabilização” Econômica
do País 
O político mineiro, vice-presidente da República, voluntariamente afastado do governo Collor
desde o início da gestão, por não concordar com a política econômica da equipe montada pelo
presidente, ele se achegava mais ao ideário nacional-estatista. Em um cenário complicado de
crise institucionalizada, Itamar Franco foi hábil o bastante para fazer um pacto político de
“união nacional”. Apenas o PT ficou de fora, “por considerar obscuros o programa e a política
de alianças de Itamar Franco. Foi no âmbito desse governo que se formulou, afinal, um plano
efetivo de combate à inflação – o Plano Real”. 
Para estabilizar a economia e domar a inflação, o presidente Itamar Franco nomeou para o
ministério da Fazenda, no início de 1993, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso (PSDB). A
meta de controle inflacionário começou a se cumprir através da implantação da Unidade Real de
Valor (URV), um indexador cuja função era corrigir, diariamente, os preços até a adoção da nova
moeda, sem congelar preços e salários. Entre as medidas, um dos objetivos era o controle
cambial para garantir o investimento de capitais estrangeiros. Dava-se início, com essa medida,
à implantação do Plano Real. A equipe de economistas, oriundos principalmente da PUC-Rio,
contava com: Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco, Pedro Malan, Edmar Bacha,
Clóvis Carvalho, Winston Fristsch, Fernando Henrique Cardoso, Rubens Ricupero, entre outros. 
Apesar da oposição dos economistas do PT e de Lula, o Plano Real não foi um desastre como
previam. Os altos índices inflacionários tornaram-se uma história do passado, além de ter se
iniciado no país uma relativa distribuição de renda. Esse evento gerou os dividendos políticos
que alçaram FHC à Presidência da República nas eleições de 1994. O lançamento de uma nova
moeda, em 10 de julho de 1994, enquanto era ministro da Fazenda de Itamar Franco, criou o
mito de que FHC era o pai do Real. Para Daniel Aarão Reis, “Itamar não pôde aproveita-los. A
constituição impedia então a reeleição. Quem se beneficiou foi o ministro da Fazenda e líder
intelectual do Plano, Fernando Henrique Cardoso, a esta altura lançado à campanha presidencial
como candidato do PSDB”. 
Governo FHC: Quatro Anos que se
Multiplicaram
O governo FHC conseguiu domar a inflação, graças ao Plano Real de Itamar Franco. Com isso,
houve maior distribuição de renda e mais mobilidade social, coisa quase inexistente em
governos passados. Mesmo durante o milagre econômico dos governos militares, o país não
conseguiu fazer uma distribuição de renda como estava sendo feita com FHC. 
Outra medida que foi iniciada em outro governo, o de Collor de Mello, retomada e aprofundada
no governo FHC, foi à abertura do mercado brasileiro para a atuação cada vez mais crescente das
empresas multinacionais. Além de abrir mão da atuação do estado na economia, a privatização
em seu governo foi imensa. A oposição protestava de forma veemente contra o entreguismo do
Plano Nacional de Desestatização (PND) do governo FHC. 
O programa liberal estava na pauta mundial. Até mesmo a antiga União Soviética sofreu o
“entreguismo” após a abertura política no ano de 1985. Assim como no país comunista, ogoverno de FHC fez a sua perestroika (reestruturação), ou seja, diminuiu muito a participação do
estado na economia, mas, em compensação, a glasnost (transparência) ficou a desejar 
Apesar do bom começo do governo FHC e de sua ampla maioria para governar, nem tudo saiu
como previsto. Para a aprovação de algumas emendas constitucionais – como, por exemplo, a
desregulamentação da economia, abrindo-a aos investimentos internacionais; a reforma da
previdência, que visava reduzir gastos públicos com o pagamento de pensionistas; a reforma
administrativa, na qual fosse permitida a demissão de funcionários públicos com estabilidade –
precisou de alguns malabarismos até que fossem aprovadas. O governo precisou “negociar”
com a oposição, loteando cargos públicos para garantir votos para as emendas e reformas que
faria na constituição e em outras áreas de interesse do governo. 
“Diversas facilidades foram concedidas aos compradores, principalmente a
possibilidade de pagar as aquisições com moedas podres, na verdade, títulos
antigos emitidos pelo governo que podem ser comprados por até 50% do valor
nominal. As principais estatais, verdadeiros símbolos do nacionalismo econômico,
foram negociadas não só com moedas podres, mas também com diversas
vantagens (CSN, Telebrás, Vale do Rio Doce, Ferrovias, Bancos Estatais).”
Um episódio que flerta até hoje com as suspeitas de corrupção durante o governo de FHC foi sua
luta vitoriosa pela emenda que garantiu a ele e a governos futuros, até hoje, a reeleição para
todos os cargos executivos: Municipal, Estadual e Federal, “após acusações de compra de votos,
uso de verbas públicas para convencer deputados indecisos e loteamento de cargos públicos, foi
aprovada em quatro de junho de 1997, a Emenda Constitucional n. 16, garantindo a reeleição”.
Após esse ato, o governo conseguiu aprovar outras medidas impopulares, como acabar com a
estabilidade do funcionalismo público em 1998.
Figura 4
Fonte: Reprodução
FHC governou o país durante oito anos, incentivou a abertura de capital para os mercados
estrangeiros, praticamente estabilizou a economia e domou a inflação, mas “o país entrou em
uma espiral de endividamento externo e de desemprego crônico. Definida genericamente como
neoliberal, tal política tem gerado controvérsias e ácidas críticas”21. O governo de Fernando
Henrique começou surfando sobre os dividendos do Plano Real do governo de Itamar Franco.
Não satisfeito em governar o país conforme instituía a Constituição Federal de 1988 e pela qual
se pautou Itamar Franco para passar o governo adiante, 
O primeiro mandato de FHC foi muito melhor avaliado que o primeiro; pagou o preço pela
ambição de ficar mais tempo no cargo do que previu a Constituição de 1988. “[...] no último ano
do segundo mandato, os índices de popularidade de FHC estavam tão baixos que o candidato do
próprio PSDB às eleições de outubro de 2002, José Serra, preferiu não reivindicar seu legado”. 
Lula e o PT Chegam ao Poder
O metalúrgico Luís Inácio da Silva, o Lula, era uma das figuras políticas mais expressivas que
surgiu no país no final da década de 1970. O político Lula ajudou a fundar o Partido dos
Trabalhadores (PT) e a Central Única dos Trabalhadores (CUT) na década de 1980 e esteve
engajado no processo de abertura democrática iniciado em 1984 com Ernesto Geisel. Lula
participou ativamente do movimento Diretas Já, sendo um de seus protagonistas ao lado de
“FHC, governou o país por oito anos, pois conseguiu fazer aprovar, pelo Congresso
Nacional, em junho de 1997, emenda constitucional autorizando a reeleição para
presidente da República e de todos os cargos executivos. A mudança provocou
protestos veementes contra o novo princípio, considerado antidemocrático e
contra os métodos empregados para obter a maioria necessária à aprovação,
denunciados como corruptos e fisiológicos, o que não impediu, mais tarde, que se
disseminasse e fosse adotado por todas as forças políticas.”
políticos como Ulysses Guimarães, Eduardo Suplicy, Tancredo Neves e Fernando Henrique
Cardoso, entre outros. 
Lula comandou greves no ABC paulista, foi perseguido pela ditadura, preso na repressão aos
grevistas durante o governo Figueiredo, quando o ministro do Trabalho, Murilo Macedo,
ordenou a intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Candidatou-se ao governo de São
Paulo no ano de 1982 e foi derrotado por Franco Montoro, do PMDB. Sua votação de 1.144.648
votos deixou-o em quarto lugar. Em 1986, Lula foi o político que alcançou a maior votação para a
Câmara Federal, representando São Paulo. Foi constituinte e comandou a oposição do Partido
dos Trabalhadores ao governo Sarney. 
Candidato derrotado em três eleições presidenciais, Lula sofreu os revezes para Collor de Mello
(1989) e Fernando Henrique Cardoso (1994 - 1998), e, finalmente, o petista saiu vitorioso nas
eleições de 2002, ao derrotar o candidato José Serra (PSDB). Durante a década de 1980, o
discurso de Lula era agressivo e não media palavras para atacar os adversários e o
neoliberalismo. A plataforma anticorrupção era seu mote predileto, às vezes com toda razão.
Sempre batendo nessa tecla, seu discurso não se restringiu a isso Lula e o partido, “criticavam
as desigualdades sociais e as estruturas elitistas da institucionalidade política brasileira. Queriam
melhoria das condições de vida e de trabalho e participação política, em suma, a plena
cidadania”. 
Enquanto o mundo globalizado aprofundava o liberalismo, Lula e o partido defendiam propostas
pelas quais se deveriam retomar tradições nacional-estatistas, em que a soberania nacional e a
justiça social são realizadas através de um Estado forte e propositor dessas políticas. Em suma, a
agenda política do PT arrepiava as elites nacionais e internacionais que tinham negócios no país;
vide a ameaça dos empresários paulistas de abandonar o país, caso Lula vencesse as eleições de
1989 contra Collor de Mello. A pressão funcionou e Lula foi derrotado, “no entanto, mesmo nos
anos 1980, o PT e os movimentos sociais foram passando por mudanças. Embora com um
discurso contundente, era cada vez maior o envolvimento do PT, e do próprio Lula, com as
instituições políticas existentes”. 
O interessante, nas disputas presidenciais em que Lula foi sendo derrotado, é o fato de que, a
cada eleição, o candidato aumentava seu número de eleitores; parecia que seu discurso ganhava
corpo na sociedade. E não era só o candidato Lula que crescia. O partido também ganhava corpo e
representatividade no país. Por exemplo, nas eleições municipais de 1988, o PT conquistou 33
prefeituras, entre as quais São Paulo; nas eleições de 1992, o número foi ainda mais expressivo,
49. Apesar de perder em São Paulo, ganhou em Belém, Goiânia, Belo Horizonte e Rio Branco. Em
1996 as conquistas municipais somaram 111 cidades. Esse é apenas um exemplo de como o
partido estava crescendo junto com Lula. O partido passou a eleger, em números cada vez mais
expressivos, Deputados Estaduais e Federais, Senadores e alguns governadores,
O Partido dos Trabalhadores mostrou habilidade política para vencer. Uma estratégia inteligente
de campanha foi a elaboração da “Carta aos Brasileiros”, na qual o partido e o candidato se
comprometiam a respeitar os contratos firmados em governos anteriores, inclusive em relação
às privatizações, criticadas pelos políticos do PT; a não fazer uma inquisição contra os
adversários políticos; a manter a batalha contra a inflação, que estava domada; e a manter a meta
do partido de inclusão social e cidadania, ou seja, o partido estava, com essa carta,
comprometendo-se com a estabilidade política e econômica do país. A campanha eleitoral bem
elaborada fez nascer o bordão “Lulinha paz e amor”. A vitória de Lula veio no segundo turno
com a diferença de quase 20 milhões de votos sobre José Serra, do PSDB. 
“Às vésperas de sua vitória, em 2002, o PT transformara-se. Dos núcleos iniciados
em São Paulo, disseminara-se por todo o país. Em lugar dopequeno partido de
militantes, surgira uma poderosa máquina formada por políticos profissionais. Em
2001, tinha cerca de 500 mil filiados organizados em quase 4,1 mil municípios.
Governava três estados e 187 cidades, entre elas as seis mais importantes.
Atenuara-se o discurso radical, dando lugar a propostas reformistas moderadas,
onde se mantinha (sic), no entanto, compromissos de combate às desigualdades
sociais, estímulo à participação política e incentivo a processos de ampliação da
cidadania.”
O Governo Petista: Entre Conquistas e Ameaças
O começo do governo de Lula foi conturbado. Parecia que não encontrava o “fio da meada”;
oscilava entre a tradição partidária, que sempre esteve na oposição e estava aprendendo a
governar, e a postura moderada que deveria seguir para poder governar para todos. Depois da
desconfiança inicial dos mercados nacional e internacional, o governo de Lula (2003- 2010)
conquistou bastante popularidade e transitou com desenvoltura nos círculos de poder. Isso após
a “retomada vigorosa do crescimento econômico, acompanhado, desta feita, por amplos
programas de distribuição de renda e inclusão social. Tais elementos legitimaram e
incentivaram uma ação internacional do Brasil mais ativa e propositiva”.
O ponto mais crítico durante os oito anos de mandato de Lula foi protagonizado por um velho
aliado e amigo do presidente, Roberto Je�erson (PTB), que, no ano de 2005, resolveu denunciar
um esquema de corrupção. A alegação era a de que haveria um esquema, por meio do qual o
governo pagava propina para a aprovação dos projetos apresentados no Congresso. “Instaurou-
se uma CPI que se transformou num circo midiático. Embora não se tenha conseguido provar a
existência do mensalão, evidenciaram-se práticas ilegais promovidas pelo PT para financiar
suas próprias campanhas eleitorais e de aliados”.  
Figura 5
Fonte: Reprodução
Essa prática não é privilégio dos petistas; sempre houve corrupção na política brasileira. A
diferença é que, para um partido que pregava o combate aos corruptos, esse escândalo
repercutiu muito mal. Caso similar envolveu o PSDB, no “Mensalão Mineiro” (1998), ambos
operados pelo publicitário mineiro Marcos Valério. 
Estamos falando de fatos ainda não solucionados pela justiça ou pela política brasileira. Durante
o primeiro mandato da presidente Dilma Rousse� (2011-2014), ocorreu o julgamento do
“mensalão petista”, esquema no qual estão envolvidos diversos atores políticos, empresários e
banqueiros do extinto Banco Rural. Foram condenados e presos vinte e cinco personagens do
“mensalão petista” no ano de 2013. Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do
Brasil, único fugitivo da justiça, condenado há doze anos e sete meses por corrupção passiva,
lavagem de dinheiro e peculato, fugiu para a Itália, mas está preso aguardando os transmites da
justiça para definir sua situação. 
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ACESSE
No caso do “mensalão mineiro”, denunciado quase que na mesma época do mensalão petista,
além de não ter a mesma cobertura da “Grande Imprensa”, motivo d as acusações dos petistas
de “julgamento político”, esse processo arrasta-se na justiça de Minas Gerais, que teve
concedido pelo STF o pedido de desmembramento do processo. Para um dos diretores da Revista
Isto É, Paulo Moreira Leite, 
Leitura 
Mensalão: Cronologia do Caso
“Os réus do mensalão PSDB-MG tiveram direito ao desmembramento, que não foi
oferecido aos petistas. Só isso seria suficiente para definir um abismo – mas não é
só. Sua apuração é tão vagarosa que acaba de ser anunciado, oficialmente, que o
caso deve ser julgado em 2015. ”
https://memoriaglobo.globo.com/jornalismo/coberturas/mensalao/noticia/mensalao-cronologia-do-caso.ghtml
Não é tarefa fácil para o historiador fazer uma análise crítica de eventos que ainda estão
acontecendo, mas que, de qualquer forma, merecem ser citados porque envolvem os governos
de dois grandes estadistas brasileiros da atualidade: Lula e Fernando Henrique Cardoso. O
complicador é que não são apenas petistas e peessedebistas envolvidos nesses escândalos.
Outros partidos estão envolvidos em esquemas semelhantes. 
A cada dia, novas denúncias e confissões públicas de corrupção e corruptos alimentavam os
noticiários de jornais e telejornais. Nada era diferente do que já tinham feito outros partidos que
gravitavam no poder. Em clima tenso, as oposições, prevendo as próximas eleições, tentaram
capitalizar o prejuízo político que o PT estava enfrentando e cogitaram o impeachment do
presidente, mas isso não aconteceu, e Lula reverteu a situação. “[...] desde 2006, as pesquisas
mostraram notável recuperação do prestígio do presidente e de seu partido [...] como se as
ilegalidades praticadas pelo PT, conforme assinalou um pesquisador, estivessem no DNA dos
partidos”. 
“Já tiveram os nomes citados nos inquéritos dos mensalões, por aparente
envolvimento de integrantes das siglas, os partidos dos Trabalhadores (PT), Social
Democracia Brasileira (PSDB), Democratas (DEM), Movimento Democrático
Brasileiro (PMDB), Popular Socialista (PPS), Trabalhista Brasileiro (PTB),
República (PR), Socialista Brasileiro (PSB), Trabalhista Cristão (PTC), Republicano
Progressista (PRP), Social Cristão (PSC) e Progressista (PP). ”
Figura 6
Fonte: Reprodução
Outros fatores, porém, explicam melhor a popularidade do presidente. Não foi apenas o fato de a
corrupção “estar no DNA dos partidos”. Fatores como as políticas públicas, que privilegiaram,
de forma mais objetiva, a população pobre e miserável que, antes, ficava com as sobras, puderam
reverter a complicada situação pela qual estava passando o governo Lula. 
Foram fatores mais econômicos do que políticos que também alavancaram as eleições do ex-
presidente Fernando Henrique Cardoso. O Plano Real reduziu a miséria social no país em 18,47%
e, entre os anos de 2003 e 2005, no governo Lula, a miséria chegou a ser reduzida em 19,8%. É
interessante observar que foi durante o governo Lula que ocorreu uma redução sensível na
diferença de salários entre homens e mulheres no Brasil. Os dados são da Relação Anual de
Informações Sociais – Rais (2006). Também, nesse ano, houve aumento significativo do
trabalho formal assim como o aumento médio do salário do trabalhador. 
Nessa festa da prosperidade, não podiam estar de fora os empresários brasileiros e estrangeiros.
Afinal nenhum governo, neste mundo globalizado neoliberal, se sustenta sem a benção do
mercado. O governo Lula, nesse sentido, foi bastante hábil, acendendo uma vela a deus e outra
ao diabo. Para Reis, Lula estava sendo comparado a Getúlio Vargas no seu melhor momento, “o
pai dos pobres e mãe dos ricos”. As áreas da cultura, ciência e tecnologia também não ficaram
desamparadas pelo governo. Lula e o PT foram responsáveis pela expansão dos níveis de
cidadania dos brasileiros. 
Finalizando
Tudo isso favoreceu o ambiente para que Lula chegasse à sua segunda vitória em uma eleição
presidencial. O presidente, candidato à reeleição, esteve próximo de vencer no primeiro turno.
“Políticas públicas formuladas e aplicadas pelo governo com grande impacto
social: o programa Bolsa Família, assegurando uma renda mínima aos mais
desfavorecidos; o crédito consignado, direcionado aos assalariados da função
pública; o aumento real do salário mínimo; a diminuição de impostos sobre
alimentos básicos e materiais de construção. Além disso, o governo beneficiava-se
de uma conjuntura econômica favorável, registrando-se curvas ascendentes da
produção e do emprego.”
Foram 48,61% dos votos válidos contra 41,64% do candidato Geraldo Alckmin (PSDB). No
segundo turno, a vitória veio tranquila; foram mais de 58,2 milhões de votos contra 37,5 milhões
do oponente. 
No segundo mandato de Lula (2007-2010), foi mantida a aliança com o PMDB, agremiação
política com grande representatividade em todo o país, estando na vice-presidência, José
Alencar, que era respeitado e cujos palpites repercutiampara o bem e para o mal. Não era homem
de ficar calado e ajudou muito o presidente Lula na articulação política com a oposição. 
As políticas econômicas e sociais que deram certo no primeiro governo petista foram mantidas e
ou aprofundadas em seu segundo mandato. Com a crise econômica que se abateu sobre o mundo
em 2008, o Brasil continuou apresentando razoáveis índices de desenvolvimento
socioeconômico. A mobilidade social continuou existindo. Lula capitalizou seu prestígio político
e fez seu sucessor, ou seja, uma sucessora, Dilma Rousse�, que fora Ministra de Minas e
Energias e Chefe da Casa Civil durante os dois governos de Lula. 
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:
  Leitura  
Doze Partidos têm Histórico de "Mensalões" 
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ACESSE
Prova da Compra de Votos pela Reeleição de FHC eram
"Cabais", conta Jornalista
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ACESSE
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📄 Material Complementar
https://www.jusbrasil.com.br/noticias/doze-partidos-tem-historico-de-mensaloes/2027976
https://blogdoliberato.blogspot.com/2014/10/provas-da-compra-votos-pela-reeleicao.html
O Mensalão PSDB-MG é Lindo
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ACESSE
No Mensalão do PSDB, STF Chancela o Deboche
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https://nogueirajr.blogspot.com/2013/09/o-mensalao-psdb-mg-e-lindo.html#more
https://www.blogdobg.com.br/mensalao-psdb-stf-chancela-o-deboche-e-ajuda-tucano/
FAUSTO, Boris. Historia Geral da Civilização Brasileira: O Brasil Republicano: Estrutura de
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📄 Referências