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26/05/2022 10:35 Introdução aos Estudos Históricos
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INTRODUÇÃO AOS ESTUDOS
HISTÓRICOS
CAPITULO 1 - ENTRE MITO, MEMÓRIA
E CIÊNCIA: ONDE PODEMOS SITUAR A
HISTÓRIA?
Emilly Joyce Oliveira Lopes Silva
INICIAR 
Introdução
Você consegue, a partir dos conhecimentos que já possui, pensar algumas
diferenciações entre mito, memória, ciência e História? Quais seriam as
especificidades da História? De um modo geral, podermos dizer que o
conhecimento histórico não coincide com nenhuma dessas ideias, mas se
relaciona o tempo todo com elas. Será que mito e memória são sempre histórias
falsas? Durante muito tempo a História foi bastante ligada à ideia de verdade,
portanto, uma necessidade de se escrever o passado com base em fatos
comprovados. No entanto, com o passar do tempo, esse modo de entender a
História foi dando lugar a novas formas de interpretação. Assim, o imaginário, a
memória, as fábulas, os mitos e as religiões, dentre outros, se tornaram tão
importantes para o pensamento histórico quanto os fatos verificados em fontes.
Então a História deixa de ser ciência? Não necessariamente. Ainda que esse seja
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um ponto em discussão, uma vez que, alguns teóricos afirmem que a História é
Arte ou uma narrativa literária, os historiadores, de modo geral, produzem
conhecimentos pautados em metodologias rigorosas, pesquisas aprofundadas,
levantamento de diversas fontes e leitura teórica crítica. Em resumo, tanto o mito,
quanto a memória e a ciência são referências para a produção do conhecimento
histórico. A partir de agora, poderemos nos aprofundar um pouco mais nessas
relações. Acompanhe com atenção e bons estudos!
1.1 Mito e História: aproximações e
afastamentos
Vimos na Introdução que a História não equivale ao mito, mas tem traços de
aproximação e distanciamento com o mesmo. Por isso, a partir de agora,
avançaremos um pouco mais na diferenciação entre essas formas de se contar
uma história. 
1.1.1 O que é mito?
Podemos dizer que o mito tem múltiplos sentidos, dependendo da abordagem, da
época, da sociedade que o produz, dentre outros fatores. Por isso, a compreensão
do conceito requer aprofundamento em algumas questões. O que é um mito? Ele é
uma invenção? Como ele se relaciona com a História? Tentaremos, no decorrer
desses tópicos, responder essas perguntas. 
Durante muito tempo, pensou-se que a filosofia teria substituído o mito como
forma de explicação do mundo. A chamada passagem do mytho (mito) ao lógos
(razão) revela como nosso modo de conhecer e explicar a realidade abandonou as
narrativas mitológicas para se ancorar em explicações empíricas e/ou racionais.
Essa visão vem sendo bastante questionada por vários autores. Por um lado, é
difícil dizer que o pensamento filosófico tenha realmente se separado do mito. Por
outro, a própria ideia de mito como algo falso em contraposição à razão
verdadeira foi colocada em xeque (SOUZA; ROCHA, 2009).
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O livro Deuses Americanos, escrito pelo inglês Neil Gaiman (2016), traz uma discussão interessante
sobre mitos. O que acontece com os deuses antigos quando seus adoradores vão viver na América? Essa é a
pergunta central para a narrativa. No livro, o ex-presidiário Shadow se vê obrigado a aceitar um
emprego, no mínimo, estranho. No decorrer da história, ele percebe-se imerso em uma batalha entre
deuses antigos e novos, o que nos possibilita refletir sobre a construção constante de mitos em nossa
sociedade. Vale a pena conferir! 
Uma conceituação de mito bastante utilizada é a do romeno Mircea Eliade, que se
deteve nos estudos do sagrado e mitologia durante quase toda a sua vida. De
acordo com Eliade, no livro Mito e Realidade (1972, p. 9): 
O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento no tempo
primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros termos, o mito
narra como, graças às façanhas dos Entes Sobrenaturais, uma realidade
passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um
fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano,
uma instituição. É sempre, portanto, a narrativa de uma "criação": ele relata
de que modo algo foi produzido e começou a ser. O mito fala apenas do que
realmente ocorreu, do que se manifestou plenamente.  
Um ponto importante dessa definição é a ideia do mito como uma explicação para
as origens de um fenômeno ou de uma “realidade”, conforme Eliade (1972). Além
disso, ao ler essa citação, você deve ter se questionado sobre a afirmação “o mito
fala apenas do que realmente ocorreu”. Para entendê-la, é necessário fazer um
esforço de alteridade e se colocar no lugar de alguém que vive a cultura que deu
origem à determinado mito. Um exemplo são os mitos cristãos, como a criação do
mundo em sete dias ou a morte de Cristo para salvar a humanidade. Eles podem
ser questionados por alguém que não segue o cristianismo, mas o cristão vive essa
narrativa como algo que realmente ocorreu. Por isso, segundo José Benedito de
Almeida Júnior (2014): “Para a sociedade na qual o mito é presente, ele narra o
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que realmente aconteceu. A questão é que essa realidade transcende o plano
histórico ou material, mas nem por isso deixa de ser realidade” (ELIADE, 1972, p.
19). 
Com essa perspectiva, que se coloca no lugar de quem produz o mito, podemos
enfatizar sua importância para as sociedades, para a cultura e, por conseguinte,
para o pensamento histórico. Se quisermos compreender um determinado grupo
de pessoas em um período histórico específico, é muito provável que o
conhecimento dos seus mitos nos ajude nessa tarefa. 
1.1.2 A estrutura do mito e sua relação com a realidade
 Figura 1 - De acordo
com a tradição cristã, Jesus foi morto em sacrifício para salvar a humanidade. Fonte: Renata
Sedmakova, Shutterstock, 2018.
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Será que todas as sociedades possuem mitos e mitologias? Vários estudiosos do
tema mostram que sim. Não é apenas no Ocidente que os mitos são parte
importante da cultura, como vemos, por exemplo, com toda a Mitologia Grega. As
sociedades orientais também lidam com narrativas mitológicas muito diversas. O
que se observa, porém, é que muitas dessas narrativas possuem alguns traços em
comum. É claro que os mitos são diferentes e acompanham as especificidades de
cada sociedade, porém é possível notar que existem permanências. 
Em outra obra, Mircea Eliade (1992) aprofunda a questão, indicando cinco
características gerais dos mitos, de acordo com o modo como eles eram vividos
pelas sociedades arcaicas:
a) o mito constitui a História dos atos dos Entes Sobrenaturais; 
b) a narrativa do mito é considerada como absolutamente verdadeira e sagrada;
c) a terceira característica diz respeito à ideia de criação, ou seja, como o mito
sempre narra como alguma coisa veio à existência; 
d) ao conhecer o mito, ritualmente, é possível conhecer a origem das coisas e,
assim dominá-las; 
e) o mito é vivido, “no sentido de que se é impregnado pelo poder sagrado e
exaltante dos eventos rememorados ou reatualizados” (ELIADE, 1992, p. 19). 
Assim, um mito pode ser vivido por um grupo e possuir pontos em comum entre
povos que jamais se conheceram. Esses elementos semelhantes são chamados
pelos especialistas de arquétipos, como é o caso das cosmogonias, que explicam o
surgimento do mundo, ou das antropogonias, que abordam o surgimento dos
seres humanos (ALMEIDA JÚNIOR, 2014). Dessa maneira, cada povo terá uma
narrativa própria que conta sobre a existência do universo, embora possa haver
certas noções que podem ser bastante parecidas em mitos completamente
diferentes.Algo importante de destacar, no estudo dos mitos, é a relação direta com os rituais
religiosos. Outros tipos de narrativas, como as lendas e os contos de fadas,
também podem explicar as origens de algo importante para uma sociedade,
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porém, eles não servem de base para os ritos (ALMEIDA JÚNIOR, 2014). É possível
observar, portanto, a estreita proximidade com a ideia de sagrado, como havíamos
visto na definição de Mircea Eliade. 
Agora que conhecemos um pouco mais sobre as definições e as características dos
mitos, podemos pensar sobre a importância dessas narrativas. De início, pode
parecer que os mitos são muito antigos e não fazem mais parte da nossa
realidade, porém é importante perceber que a contemporaneidade também lida
constantemente com concepções mitológicas da existência, ainda que revistas
pela ideia de modernidade. 
Para compreendermos melhor a ideia do mito na realidade atual, podemos pensar
na principal explicação para o surgimento do mundo com o qual lidamos. O big
bang explica a origem do universo por meio de uma grande explosão. Em certa
medida, podemos pensar que essa explicação não é mitológica, mas sim
científica. Todavia, é necessário romper com esse pensamento dicotômico. O big
bang é paradigmático em nossa sociedade e dita o modo como nos relacionamos
com certos aspectos “incompreensíveis da nossa existência”. Ele também constitui
uma explicação cosmogônica acerca da origem do mundo, do mesmo modo como
acontece em diversos mitos arcaicos. Isso não significa, porém, que o big bang seja
falso, pois, conforme o que já foi estudado até aqui, o mito é sempre verdadeiro na
medida em que trata da realidade. Assim, ele seria um bom modelo para
pensarmos o lugar que os mitos ainda ocupam em nossas vidas.
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Essa análise mostra como o mito é relevante para qualquer estudo que tenha
como foco as relações humanas, a cultura e, claro, a História. Porém, para a nossa
disciplina de Introdução aos Estudos Históricos, existe outra característica do mito
que é essencial: o tempo. 
1.1.3 O tempo do mito 
Do mesmo modo como a História, os mitos são bastante ligados à ideia de tempo.
Porém, o tempo do mito é um tanto quanto diferente do tempo da História. Nas
narrativas mitológicas, o que se vê é uma noção sagrada de tempo. Nesta
perspectiva, duas concepções de tempo são fundamentais: o tempo cíclico e o
tempo escatológico ou linear (ELIADE, 1992). É importante salientar que nenhum
deles corresponde ao tempo histórico, embora haja aproximações com ambos. 
O conceito de tempo cíclico entende que “o passar do tempo é a recriação do ato
original; por isso, os rituais devem reproduzir a própria criação, seja do mundo, do
homem ou de alguma instituição social” (ALMEIDA JÚNIOR, 2014, p. 118). Assim,
essa concepção de tempo é inspirada por movimentos da lua, do sol, das plantas e
dos animais, conforme a observação da natureza. Diversas culturas se orientam
pelo tempo cíclico, até mesmo nos dias de hoje. Para elas, a ideia de progresso ou
 Figura 2 -
A Teoria do Big Bang é apenas uma das explicações para o surgimento do universo. Fonte:
Shutterstock, 2018.
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de linearidade temporal não faz muito sentido. Para o budismo, por exemplo, o
tempo se repete em ciclos frequentes, sendo possível romper com essa
circularidade apenas ao abandonar a condição humana e alcançar o chamado
nirvana (ELIADE, 1992). 
O tempo escatológico, por sua vez, se liga a uma ideia de fim. Esse tempo é linear e
está direcionado para um término, como é o caso do apocalipse bíblico. Várias
religiões e mitos têm o tempo escatológico como base. De acordo com Le Goff
(1990), o tempo escatológico é uma das temporalidades utilizadas pelo
cristianismo, por exemplo. Segundo o autor, a religião cristã combina três
modalidades de tempo: “o tempo circular da liturgia, ligado às estações e
recuperando o calendário pagão; o tempo cronológico linear, homogêneo e
neutro, medido pelo relógio, e o tempo linear teleológico, o tempo escatológico”
(LE GOFF, 1990, p. 57).
VOCÊ SABIA?
A expressão “escatologia” tem origem no termo grego éskhatos, que significa algo como “extremo
ou último” (ALMEIDA JÚNIOR, 2014). Segundo o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa,
escatologia significa “Teoria acerca das coisas que hão de suceder depois do fim do mundo; teoria
sobre o fim do mundo e da humanidade”. Por isso, as religiões e outras doutrinas que tratam do
fim dos tempos são chamadas de escatológicas.  
Como o cristianismo é um dos pilares da cultura ocidental, a ideia de tempo linear
é muito mais presente em nossa sociedade, mas o tempo cíclico também aparece
em vários aspectos. Por isso, a História trabalha com ambas as noções de tempo,
mas não pode se fixar em apenas uma delas. 
O próximo passo de nossa trajetória é estudar a relação entre memória e História.
Depois voltaremos a discutir o mito, com intuito de pensá-lo como uma
ferramenta para a produção do conhecimento histórico.
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1.2 As fronteiras entre a História e a
Memória
Agora é hora de refletirmos sobre a memória. Quais são as suas principais
características? Por que ela é tão importante? As memórias são enganadoras?
Podemos usá-las para a escrita da História? Como você pode notar, as questões
acerca da memória são parecidas com as que usamos para pensar o mito. Aliás, as
aproximações entre eles não ficarão restritas aos questionamentos. 
Logo de início, é possível afirmar que todos nós temos memórias: lembranças
mais recentes, como o que fizemos na manhã de ontem, e outras antigas, como o
cheiro do quarto da bisavó na nossa infância. Existem ainda aquelas memórias
que não são apenas individuais: que brasileiro não se lembra, por exemplo, da
derrota do Brasil para a Alemanha na copa de 2014? Em termos bem gerais, a
discussão sobre memória tem a ver com todas essas formas de lembrar; ela inclui
cheiros, sensações, cores, gostos, lembranças coletivas e individuais. 
O passado é um tempo que foi e não é mais. Sua existência é garantida apenas
pelo que lembramos ou registramos. Por isso, a memória é tão importante para o
conhecimento histórico. Ao mesmo tempo, não podemos reduzir a história a
meras memórias do passado. Fazer essa distinção é um objetivo importante do
estudo que faremos a partir de agora.
1.2.1 O que é memória?
Como ponto de partida para a conceituação de memória, podemos recorrer a
primeira definição dada por Jacques Le Goff (1990), em seu importante livro
História e Memória. Segundo o historiador: “A memória, como propriedade de
conservar certas informações, remete-nos em primeiro lugar a um conjunto de
funções psíquicas, graças às quais o homem pode atualizar impressões ou
informações passadas, ou que ele representa como passadas” (LE GOFF, 1990, p.
423). 
Todos nós sabemos o que é memória por experiência, não é mesmo? Estamos
constantemente nos lembrando e também nos esquecendo de situações que já
aconteceram. A definição de Le Goff parte, justamente, do modo como
vivenciamos a memória, reforçando que se trata de uma função psíquica humana
orientada para a conservação de certas informações passadas.
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A casa de pequenos cubinhos (no original, Tsumiki no ie) é um curta-metragem de animação dirigido por
Kunio Kato (2008). Um objeto de apego pode ser a fonte para o retorno de uma memória? E,
principalmente, o que nós somos além das histórias que temos para lembrar? Partindo dessas
questões e usando uma linguagem poética e simples, o filme aborda, de uma maneira delicada, a
memória como algo constituintede nosso ser. Por isso, é um ótimo ponto de partida para a discussão
sobre a importância da memória. 
Quando falamos em memória, geralmente fazemos uma associação com
pensamentos sujeitos a falhas ou distorções, pois, por motivos diversos, a
lembrança de algo pode ser alterada. Você já deve ter notado por exemplo, que
duas pessoas podem se lembrar de um mesmo evento de formas bem diferentes.
De acordo com José D’Assunção Barros (2009), uma noção mais vulgar do que é
memória, trataria da mesma como “estática e imprecisa, parcial e distorcida,
passiva e não-criadora” (BARROS, 2009, p. 39). Essa visão, no entendimento do
autor, precisa ser problematizada, pois foi um dos motivos para que a memória
coletiva tenha sido ignorada, durante muito tempo, como algo válido para o
conhecimento histórico.
Chegando a esse ponto, faz-se necessário distinguir a memória individual da
coletiva, destacando que a segunda é a mais relevante para a História. Como o
próprio nome indica, a memória individual estaria relacionada com as vivências
de cada pessoa, de um ponto de vista mais biológico ou psíquico. Já a memória
coletiva englobaria as questões socioculturais ligada ao ato de lembrar. É
importante ressaltar, contudo, que essas duas formas de compreender a memória
vêm sendo problematizadas em diversas áreas da produção do conhecimento.
Assim, nas últimas décadas, a Biologia, a Psicologia, a Antropologia, a Sociologia e
a História, dentre outras, passaram a entender a memória como “processo ativo,
dinâmico, complexo, interativo” (BARROS, 2009, p. 41).
Essas mudanças na compreensão do que é memória romperam, então, com a
rígida separação entre memória individual e coletiva. O que se percebe, nos
estudos atuais, é que a memória individual também é coletiva, pois sua
VOCÊ QUER VER?
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constituição se dá na relação com outros indivíduos, sendo mediada pela
linguagem (BARROS, 2009). Nesse sentido, a História irá se relacionar com a noção
de memória de uma forma bem diferente, entendendo que ela:
(...) se refere não apenas a esse processo de registro de acontecimentos
pela experiência humana, como também à construção de referenciais sobre
o passado e sobre o presente de diferentes grupos sociais e sob a
perspectiva de diferentes grupos sociais, ancorados nas tradições e
intimamente associados a mudanças culturais (BARROS, 2009, p. 41). 
Portanto, a corrente mais aceita atualmente entende que a memória é
fundamental para a escrita da História, posto que a relação com o passado é
intermediada pela memória. 
1.2.2 Componentes da memória
Maurice Halbwachs (1990) é um dos principais defensores da ideia de memória
coletiva. Para ele, é a partir das relações, e não necessariamente centrado na
individualidade que a memória do indivíduo se constitui. Ela é formada a partir de
pontos de referências, estímulos, necessidades e, também, pela vivência em
grupos. Assim, para manter-se ou constituir-se, é preciso que a memória esteja
vinculada, em alguma medida, com a esfera comum, ou seja, à possibilidade de
ser partilhada e de ter alguma significância para o presente daquele grupo. 
Um bom exemplo para entender essa noção coletiva são as memórias de infância.
Talvez você não se lembre do seu aniversário de dois anos, mas os relatos de
família, as fotos e outras informações sobre a comemoração fazem com que suas
memórias sejam, na verdade, baseadas nas narrativas de outras pessoas. Ainda
assim, isso não impede que você realmente se ligue emocionalmente com essas
memórias, nem que elas não tenham grande peso em suas experiências de vida.
Nessa perspectiva, a memória não é nem meramente individual, nem estacionária.
Ela pode ser construída e reconstruída no decorrer da vida.
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Do ponto de vista histórico, é importante ter em mente que as sociedades também
estão em constante transformação. Isso abre espaço para considerar a memória
também, não como um princípio de conservação estático do passado, mas um
mecanismo que está sempre em reformulação dentro das demandas do presente.
Em outras palavras, do mesmo modo como nenhum povo ou sociedade é estático,
seus modos de construírem e lidarem com o passado também não o são. 
Seguindo por este caminho, Michael Pollak (1992), situa a memória numa relação
do individual com o coletivo. O autor elenca os principais elementos constitutivos
da memória, que podem ser resumidos da seguinte forma:
 Figura 3 - Muitas das coisas que
você se lembra sobre a sua infância devem ter sido contadas pelos seus familiares. Fonte: SergiyN,
Shutterstock, 2018.
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1) acontecimentos: vividos pessoalmente ou “vividos por tabela”, no caso de
eventos dos quais a pessoa não participou, mas que são muito importantes para
suas experiências;
2) pessoas e personagens: também podem ser aquelas que você encontrou no
decorrer da vida ou personagens frequentados “por tabela” (por intermédio do
grupo);
3) lugares: espaços relacionados a memória, que podem ter ligação com
lembranças pessoais (casa de praia das férias na infância) ou com aspectos da vida
pública (lugares de comemoração ou monumentos). 
Pollack destaca ainda a relação da memória com o tempo. Uma lembrança pode
ou não ser datada, de acordo com o tipo de experiência vivida. Para quem lembra,
o momento exato em que aquele lugar foi visitado ou quando um acontecimento
se deu pode não ter relevância. Ao mesmo tempo, existem aquelas memórias que
são datadas com exatidão, como aniversários, casamentos e nascimento de
filhos. 
Outro ponto muito importante sobre a memória é sua seletividade. Tanto nas
experiências individuais quanto nas coletivas, nem tudo fica guardado ou
registrado. De fato, a memória é constituída pelo que se lembra e pelo que se
esquece.  Por último, e talvez o mais importante, a memória é uma construção. Ela
se constitui, no indivíduo, tanto numa esfera consciente quanto inconsciente.
Dessa forma, a memória realiza um verdadeiro trabalho de organização; ela corta,
recorta e secciona a narrativa de sua existência de acordo com as preocupações
sociais e políticas do momento. Por tudo isso, Pollack (1992) entende que a
memória tem papel crucial na construção das identidades. 
Toda essa discussão foi crucial para que a História mudasse seu modo de tratar a
memória. Na Antiguidade, o historiador era entendido como um guardião da
memória e ambos eram vistos como objetivos. Com o passar do tempo, a memória
perdeu seu status de verdade, passando a ser vista como errônea por um História
cada vez mais objetiva e científica. Hoje, com todo o processo de crítica da
produção histórica, as questões subjetivas ganharam importância. Assim, a
memória pode recuperar seu lugar de relevo na escrita da História, servindo não
apenas de fonte, mas também de referência metodológica. 
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A partir de agora, tentaremos traçar algumas distinções entre História e memória,
ressaltando que elas se complementam e não se opõem.
1.2.3 Relações entre memória e História
A questão do tempo é um dos aspectos que distingue História e memória.
Enquanto uma memória pode ou não ser datada, como vimos com Pollack, a
História tem uma ligação forte com a datação e a ordenação do tempo. Isso não
significa que a data exata de um evento seja importante, mas o seu contexto, sua
relação com o entorno, sim. A memória, por sua vez, fica restrita a um lugar no
passado, não sendo necessário saber quando ela aconteceu ou qual foi o seu
contexto. Aliás, o descolamento do tempo é uma das características da memória,
que quase sempre aparece fragmentada (SILVA; SILVA, 2010). 
Outro ponto de distanciamento é o aspecto individual da memória.Por mais que
ela seja coletivamente constituída, sua força reside no modo como cada pessoa se
relaciona com ela. A História, em contrapartida, tem sempre uma perspectiva
social dos eventos. Assim, segundo o verbete “Memória” do Dicionário de Conceitos
Históricos: “A memória recupera o que está submerso, seja do indivíduo, seja do
grupo, e a História trabalha com o que a sociedade trouxe a público” (SILVA; SILVA,
2010, p. 276). Aqui, podemos notar a complementaridade entre elas, muito mais
que uma simples distinção. É possível dizer, assim, que a História organiza as
memórias com base em uma visão mais ampla da realidade. 
Pensando um pouco mais sobre essa relação entre História e memória, vale a pena
discutir a afirmação de Peter Burke (2000) acerca dos dois pontos de vista
necessários ao historiador. De acordo com o autor, é preciso, em primeiro lugar,
analisar a memória enquanto fonte histórica, ou seja, “elaborar uma crítica da
confiabilidade da reminiscência no teor da crítica tradicional de documentos
históricos” (BURKE, 2000, p. 72). Na prática, isso passou a acontecer na História a
partir da década de 1960, com o surgimento da História Oral, que permitiu a
flexibilização das fontes viáveis para produção histórica. 
O segundo ponto de vista, na perspectiva de Peter Burke (2000), diz respeito ao
estudo da memória como um fenômeno histórico, entendida por ele como uma
“história social do lembrar”. Retomando o argumento da seletividade da memória,
Burke ressalta que o historiador precisa identificar quais foram os princípios
utilizados para as seleções, observando como elas variam no tempo, no espaço e
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conforme o grupo. Para Burke: “As memórias são maleáveis, e é necessário
compreender como são concretizadas, e por quem, assim como os limites dessa
maleabilidade (BURKE, 2000, p. 73).
Com base nesses aspectos, podemos observar o lugar de relevo que a memória
ocupa na produção do conhecimento histórico. Por isso, no próximo tópico,
desenvolveremos melhor os diferentes modos como historiadores recorrem à
memória e ao mito em seus trabalhos.
1.3 Memória e Mito como ferramentas
da História
A História passou por profunda transformações na segunda metade do século XX.
Várias perguntas foram feitas com o objetivo de repensar o modo como o
conhecimento histórico vinha sendo produzido: a quem a História serve? Quem
são os personagens históricos que têm suas histórias contadas? Quais são as
fontes legítimas para a investigação?
Partindo desses questionamentos, novas fontes foram adotadas, bem como
outras perspectivas de pesquisa. Um dos motivadores para essa mudança foi o
surgimento do gravador à fita, em 1948. Com essa novidade, surgiu o Columbia
University Research Office, um programa da Universidade de Columbia que buscava
gravar entrevistas feitas com personalidades da história americana. A partir da
década de 1960, o método de coleta de relatos orais rompe com uma noção de
história das elites, tornando-se uma espécie de contra história, voltada para o
combate de uma visão positivista do fazer-histórico. Com os relatos orais, os
pesquisadores passam a defender a escrita de uma história “dos vencidos”, ou
seja, daquelas pessoas que nunca tiveram voz em uma perspectiva que sempre
priorizou a história dos heróis, dos grandes homens.
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Outro debate importante diz respeito à relação entre História e ficção. Segundo
Paul Veyne, a História guarda paralelos com a escrita do romance, ainda que haja
especificidades na escrita da narrativa histórica (VEYNE, 1983; BENTIVOGLIO;
LOPES, 2013). Ao mesmo tempo, talvez as narrativas ficcionais também tenham a
possibilidade de tratar de temas relacionados à história. Um livro de ficção pode
dizer bastante sobre o tempo em que foi escrito. Além disso, os recursos utilizados
na literatura, mesmo que sem o compromisso com a fidelidade histórica, podem
nos ajudar a entender melhor as mudanças, a passagem do tempo e até mesmo a
noção de verdade. 
O homem do castelo alto, escrito por Philip K. Dick (2009), é ótimo para pensar a relação entre História e
ficção. A narrativa, ambientada na década de 1960 tem como ponto central um evento histórico: a
Segunda Guerra Mundial. O autor recorre à estratégia de imaginar o que poderia ter acontecido se a
história fosse diferente. No caso, Alemanha e Japão foram os países vencedores do conflito. Assim, o
livro nos ajuda a pensar como a história é construída. 
 Figura 4 -
O surgimento do gravador, em 1948, possibilitou que gravações de áudio fossem usadas como fonte
histórica. Fonte: MIGUEL GARCIA SAAVEDRA, Shutterstock, 2018.
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Essas novas reflexões tiveram, como dissemos antes, um impacto direto na
importância do mito e da memória na escrita da História. Ambos passaram a ser
usados como fonte, permitindo que novos assuntos pudessem ser trabalhados
pelos historiadores. Nesta parte do capítulo, falaremos um pouco mais sobre as
pesquisas históricas envolvendo memória e mito. Dessa forma, você conseguirá
poderá entender, na prática, a discussão teórica que fizemos até aqui. 
1.3.1 Os mitos modernos
Muitas vezes associamos os mitos à antiguidade, nos esquecendo que toda
sociedade compõe suas próprias mitologias. O mito do herói, por exemplo, é visto
em diferentes povos. Joseph Campbell (1992), em sua clássica obra O herói de mil
faces, publicada pela primeira vez em 1949, observou que o mito do herói possui
algumas características recorrentes. Em sua análise, ele define 17 etapas desse
mito, que são subdividas em três fases: a partida, que inclui a chamada para uma
aventura; a iniciação, com provas e testes que precisam ser vencidos; e o retorno,
que possibilita a vivência de novas experiências. Você deve ter reconhecido
diferentes histórias que seguem esse modelo descrito por Campbell: desde o
Ulisses, da Odisseia, até Luke Skywalker, protagonista da série Star Wars. Esses
heróis servem de referência para as sociedades que vivem seus mitos, pois suas
aventuras ajudam na realização de desafios do cotidiano. 
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Na perspectiva de Mircea Eliade (1972), a modernidade perdeu, com sua obsessão
pela racionalidade, as referências do sagrado. Por isso, o autor afirma que os
mitos modernos buscam “tapar esse buraco” existencial com narrativas que
ofereçam algum tipo de inserção na realidade mítica. No passado, um homem que
precisava se aventurar pelos mares para desbravar terras desconhecidas teria a
certeza de seu sucesso, pois os ancestrais míticos também teriam realizado tal
façanha. E nós, em quem podemos nos amparar? Os super-heróis das histórias em
quadrinhos configuram um ótimo exemplo. Eles são versões modernas dos
antigos heróis mitológicos. Em sua análise do Superman, Eliade afirma que o
personagem se tornou popular devido à sua dupla personalidade: ora um
jornalista tímido, ora um herói de poderes ilimitados. Para o autor: “o mito do
Superman satisfaz as nostalgias secretas do homem moderno que, sabendo-se
 Figura 5 - O mito do herói é bastante
presente em nossa sociedade ainda hoje. Fonte: Blend Images, Shutterstock, 2018.
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decaído e limitado, sonha revelar-se um dia um ‘personagem excepcional’, um
"herói" (ELIADE, 1972, p. 130-131). Dessa forma, os homens e mulheres na
modernidade, na ausência dos ritos e símbolos que antes possibilitavam a
inserção em uma história maior, buscam sentido em outras formas de culto e
outros modelos de heróis, mas não deixam de se ligar aos mitos.
O exemplo prático do herói nos ajuda a compreendero lugar que os mitos ocupam
em nossa sociedade. Diante dessa constatação, fica mais fácil pensar o modo
como a mitologia deve ser abordada no trabalho do historiador. Não devemos
entender o mito como algo separado da realidade social, mas sim como integrante
da mesma. Além disso, a mitologia não é “coisa do passado”, como podemos
imaginar inicialmente, pois segue presente nas sociedades ocidentais e orientais.
1.3.2 O lugar da memória
Para refletirmos sobre a relação entre História e Memória, vale a pena ler sobre um
caso inspirado em algo que aconteceu de verdade. 
SO
História
de pesquisa estava desenvolvendo um trabalho voltado para a história local de uma comunidade
m uma capital do Brasil. Depois de muito debate com os moradores daquela localidade, chegou-se a
construir um Centro de Memória. Os moradores foram convidados a levar objetos que tivessem relação
ria da comunidade. Depois de alguns dias, envergonhada, uma mulher trazia consigo uma bacia, que sua
usado para levar água do “asfalto” para o “morro”, ainda na época da construção da “favela”. Ela então
se a bacia poderia ser considerada como um objeto de memória, pois sua mãe nunca havia sido uma
m importante. Os pesquisadores então explicaram sobre a importância daquela bacia para toda a História
nal, sem a água carregada no recipiente, talvez não houvesse nem casas, ruas ou sequer pessoas vivendo
a bacia ganhou um lugar de destaque no Centro de Memória daquela comunidade.
Esse caso prático nos ajuda a refletir sobre a questão da memória e sua relação
com a História. Talvez você nunca tenha visto uma bacia em um museu
importante, mas é difícil negar que, no contexto da comunidade acima, esse
objeto tinha grande relevância. 
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Muitas vezes as pessoas comuns não se sentem parte da História. No entanto,
todos nós contribuímos diariamente para que a realidade mude. Pequenas
histórias, decisões simples e mudanças cotidianas podem impactar fortemente
um bairro, uma cidade ou um país. Por isso, é sempre válido ressaltar que homens
e mulheres, independente da origem, da renda, da raça, da religião ou outras
características, todos são agentes da História. 
A memória tem um papel importante nesta perspectiva. Todos os seres humanos
têm memórias e incorporá-las ao conhecimento histórico é uma forma de romper
com a chamada “História dos Grandes Homens”. Aquela mulher, que carregava
uma bacia na cabeça morro acima teve uma função tão importante para o lugar
onde mora que um presidente ou um general. Aliás, não podemos deixar de
pontuar que ao contar apenas a história dos grandes homens, a historiografia
esqueceu, durante vários séculos, de se perguntar sobre o lugar ocupado pelas
mulheres nessas narrativas. 
Como foi discutido no tópico anterior, a memória nunca é apenas individual; ela se
amarra às lembranças de outras pessoas, constituindo sempre uma memória
coletiva. Na prática, o historiador precisa observar com atenção a constituição
dessas memórias, como elas informam sobre o passado e quais são as
possibilidades de análise disponíveis. Em sala de aula, também é fundamental
debater o papel da memória, enfatizando a história local e a agência, isto é, a
atuação dos alunos na construção da História. 
Todo o debate acerca do mito e da memória não se opõem à ideia de ciência.
Veremos, adiante, os diversos posicionamentos da produção histórica acerca do
conhecimento científico.
1.4 História é uma ciência?
Significados do termo história e seus
campos de reflexão
A História enquanto campo de conhecimento é bastante questionada. Por tratar
de eventos passados e irrecuperáveis, sua produção é tida como pouco objetiva,
passível de erros, ficcional e, portanto, nada científica. Essas acusações não são
novas e já foram fortemente debatidas no âmbito da Teoria da História. A partir do
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século XIX, o conhecimento histórico passou por mudanças significativas,
consolidando-se como uma área do saber relevante. Partindo dessas
constatações, nossa missão, neste tópico, é compreender as relações entre
História e Ciência, bem como definir alguns significados para o termo História.  
1.4.1 A História pode ser objetiva?
É importante ressaltar que a busca pela verdade do/no passado é uma constante.
Por isso, José d’Assunção Barros (2013) trata da noção de “história mínima”,
enfatizando aqueles aspectos que aparecem nas investigações históricas desde a
antiguidade. São eles:
1) intenção de verdade; 
2) investigação; 
3) estudo sobre a realidade humana; 
4) exposição em forma de relato; 
5) discurso encaminhado pela figura subjetiva, autônoma e idônea do historiador.
 Quadro 1 - Os
principais elementos da identidade mínima da História, desde a antiguidade. Fonte: BARROS, 2013,
p. 36.
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Alguns desses aspectos vão ter mais destaque em momentos específicos. A busca
pela verdade, por exemplo, ganhou maior importância dentro de perspectiva
moderna de História, sobretudo com o avanço do paradigma positivista. 
VOCÊ SABIA?
O paradigma positivista definiu, e ainda define, o modo como buscamos conhecer a realidade.
Quando falamos em paradigma estamos nos referindo a um conjunto de ideias que serve como
modelo ou exemplo geral. No caso do paradigma positivista, essas ideias giravam em torno de
princípios como: a possibilidade de um conhecimento totalmente objetivo; a busca pela verdade,
o rompimento com o mito, a construção de leis gerais, o rigor metodológico e a imparcialidade do
sujeito que produz o conhecimento (BARROS, 2013). 
No século XIX, com a consolidação do positivismo, a História foi transformada em
conhecimento científico. Nesse momento, tanto a visão de História quanto a de
Ciência eram muito diferentes do modo como conhecemos hoje. Para ser
considerado científico, o conhecimento histórico precisava ser objetivo. Por isso,
os defensores da corrente positivista insistiam que os fatos falavam por si só, ou
seja, que não havia nada de interpretativo no trabalho do historiador. 
Para os historiadores positivistas, como Buckle, Renan, Taine e Fustel de
Coulanges, a questão da objetividade e da verdade seriam imprescindíveis para
que a História pudesse produzir um conhecimento realmente científico. Por isso, a
história positivista se voltou para as fontes oficiais, principalmente os documentos
escritos, muitas vezes relegando ao esquecimento as histórias mais cotidianas,
bem como as memórias e os mitos. 
De acordo com José Carlos Reis (2011), os positivistas acreditavam que “se
adotassem uma atitude de distanciamento de seu objeto, sem manter relações de
interdependência, obteriam um conhecimento histórico objetivo, um reflexo fiel
dos fatos do passado, puro de toda distorção subjetiva” (p. 24). Nesse sentido, o
historiador seria aquele que narra os fatos que realmente aconteceram,
exatamente do modo como eles se passaram. Somente alguns eventos eram
consideramos como narráveis, tais como os políticos, religiosos, diplomáticos e
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administrativos. Assim, “propunham uma história do passado pelo passado, dos
eventos políticos passados, pela curiosidade de saber exata e detalhadamente
como se passaram" (REIS, 2011, p. 24).
O grande problema dessa concepção de História é bem simples: o passado é
inatingível, jamais poderemos viver novamente algo que já aconteceu. Qualquer
pessoa já vivenciou esta impossibilidade. Depois de uma excelente viagem de
férias, por exemplo, você pode ver as fotos, anotar as lembranças e até mesmo
voltar ao mesmo lugar, mas aquela experiência não poderá ser vivida novamente.
Em certa medida, é isso o que acontece com o historiador: temos as fotos, as
narrativasde memória e outras pistas de algo que aconteceu, mas não a
experiência – e mesmo que tivéssemos vivido aquele momento, recuperá-lo seria
impossível. Por isso, a os principais preceitos positivistas dificilmente podem ser
aplicados à escrita da História.
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Com isso, podemos responder à pergunta do título de uma forma não muito
direta: a História não é objetiva porque seu objeto de estudo é algo que já não
existe mais. Porém, o rigor metodológico, o uso cuidadoso das fontes e a
frequente contextualização das informações fazem dela um conhecimento
importante. Estamos aqui fazendo uma defesa da História, mas outro historiador,
um medievalista, realizou esta defesa bem antes. No próximo tópico, veremos um
pouco mais da apologia do conhecimento histórico feita por Marc Bloch. 
1.4.2 Uma apologia da História
A crítica ao positivismo não significa, necessariamente, a ruptura com a
possibilidade de um conhecimento histórico válido. Mesmo que a História não seja
objetiva, isenta de juízos de valor e totalmente racional, ainda assim ela poderá
 Figura 6 - A ampulheta nos ajuda a
perceber a passagem do tempo e a inacessibilidade do passado. Fonte: koosen, Shutterstock, 2018.
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servir aos nossos anseios de conhecer mais sobre a humanidade e também sobre
nós mesmos. 
No século passado, um historiador resolveu responder a uma pergunta ao mesmo
tempo simples e complexa: para que serve a história? Seu nome era Marc Bloch e
ele contribuiu sobremaneira para toda a discussão em torno do pensamento
histórico, de sua época até os dias de hoje.
Marc Bloch viveu entre 1886 e 1944 e foi um importante historiador francês do século XX. Ele é um dos
responsáveis pela criação da Escola de Annales, que realizou inovações de grande relevância para toda a
produção do conhecimento histórico. Sua definição de História como ciência dos homens no tempo é
utilizada até hoje como referência. Por integrar a resistência francesa, durante a Segunda Guerra
Mundial, Bloch foi torturado e morto pela Gestapo em 1944. 
O questionamento sobre a serventia da história havia sido feito pelo filho de Marc
Bloch. Partindo dela, ele se arriscou a discutir pontos importantes acerca da
produção do conhecimento histórico e sobre a própria constituição da cultura
ocidental a partir da História. José Carlos Reis (2011) resume bem os quatro
principais argumentos de Bloch:
1) a História é a marca principal da civilização ocidental, desde a antiguidade,
sendo quase inseparável dos nossos modos de ser, agir e pensar;
2) ainda que não servisse para nada, a História ainda serviria para o prazer, para a
curiosidade e para o entretenimento; 
3) do ponto de vista intelectual, o conhecimento histórico serve para que nós,
seres humanos, possamos nos conhecer e conhecer aquilo que nos rodeia; 
4) por fim, essa forma de conhecimento é útil na medida em que permite o contato
entre os humanos do presente com os do passado.
VOCÊ O CONHECE?
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Como você pode notar, essa defesa não está embasada na cientificidade do
conhecimento histórico, ou seja, a História não precisa ser objetiva e resgatar o
passado tal como ele foi para que ela seja importante para homens e mulheres na
contemporaneidade. Todavia, esse entendimento um pouco mais amplo que é a
História não quer dizer que ela não seja uma ciência. 
No decorrer do século XX, muito se discutiu sobre a quem serve a História, quais
são as suas fontes e se sua produção pode ser enquadrada como científica. Não
existe, porém, um consenso com relação a esses problemas. Sendo verdadeira ou
não, científica ou não, objetiva ou não, a História se mantém como tema de
interesse para a nossa sociedade.
Síntese
Finalizamos, retomando o que aprendemos até aqui. Entendemos os conceitos de
mito, memória, ciência e História, quais suas diferenças e proximidades. E
compreendemos o que os estudos históricos podem nos apresentar, por meio de
seus principais elementos. 
Neste capítulo, você teve a oportunidade de:
discutir as relações entre História, mito, memória e ciência;
possibilitar o reconhecimento do conceito de mito e suas principais
características;
abordar as aproximações e distanciamentos entre História e memória;
tratar das práticas relacionadas aos conceitos e teorias aprendidos
anteriormente;
mostrar um pouco do debate sobre objetividade, verdade e ciência no
conhecimento histórico.
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