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Conteudista: Prof.ª M.ª Fany Govetri Sena Crispim Revisão Textual: Prof.ª Esp. Jéssica Dante Objetivos da Unidade: Conhecer as leis fundamentais da alimentação, bem como as recomendações nutricionais; Compreender os componentes do gasto energético e aplicar os conhecimentos no cálculo da estimativa das necessidades nutricionais; Diferenciar as porções alimentares entre medidas de precisão e medidas caseiras, para calcular cardápios. 📄 Material Teórico 📄 Material Complementar 📄 Referências Introdução ao Planejamento Alimentar nos Ciclos da Vida A Importância dos Nutrientes e as Leis da Alimentação Nesta unidade vamos apresentar noções básicas da nutrição para que você consiga entender a importância da alimentação para o ser humano, contribuindo para a manutenção da saúde, bem-estar e qualidade de vida. Dessa forma, você conseguirá, ao final da disciplina, realizar o planejamento alimentar adequado a cada ciclo da vida, baseado nas necessidades nutricionais do indivíduo. Mas antes de falarmos da importância dos nutrientes e do planejamento dietético, precisamos conhecer os hábitos alimentares da população. Sabemos que existe uma relação muito grande entre o estilo de vida (como sedentarismo e hábitos alimentares inadequados) com o surgimento de doenças, principalmente as crônicas. Nos últimos tempos temos observado um alto consumo de alimentos industrializados pela população e uma queda no consumo de alimentos in natura, o que leva a uma alimentação de baixa qualidade, principalmente com um alto consumo calórico, de gorduras saturadas, de gorduras trans, açúcares e sódio, além do baixo consumo de gorduras de boa qualidade, como as gorduras polinsaturadas, as fibras, vitaminas, minerais, e até água. Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) realizada com a população brasileira entre 2017 e 2018, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi observado que os alimentos mais consumidos foram arroz, feijão e café (IBGE, Página 1 de 3 📄 Material Teórico 2020), porém mostrando uma redução em relação à pesquisa anterior, de 2008-2009 (IBGE, 2011). Já o consumo de frutas e verduras se manteve abaixo da recomendação. Em relação à pesquisa anterior, houve redução no consumo de feijão, frutas, leite e derivados, carne bovina, refrescos e refrigerantes e aumento do consumo de aves e suínos, salada crua, sanduíches e pizzas. Essas características alimentares reforçam a observação de que a quantidade de fibra na alimentação reduziu em relação à última pesquisa, principalmente em mulheres idosas, indicando uma pior qualidade da alimentação. Essa redução na quantidade de fibras pode estar relacionada à diminuição no consumo de feijão, que é um alimento fonte de fibra na dieta do brasileiro. Em relação aos alimentos ultraprocessados, recomenda-se que sejam evitados, porém, em relação ao total de calorias consumidas pela população, esse grupo de alimentos participou em 26,7% para os adolescentes, 19,5% para os adultos e 15,1% para os idosos, representando aproximadamente um quinto das calorias consumidas (IBGE, 2020). Entre os alimentos ultraprocessados mais consumidos estão os biscoitos (salgados e doces), os salgadinhos “de pacote”, embutidos, refrigerantes, bebidas lácteas, lanches como cachorro-quente, hambúrgueres, pizza etc. Nos casos em que a alimentação ocorreu fora de casa, os alimentos mais consumidos foram os refrigerantes, a cerveja e outras bebidas não alcoólicas, os salgados fritos e assados, os salgadinhos industrializados e os bolos. Em relação ao consumo de açúcar de adição (tanto o açúcar de mesa quanto o adicionado em preparações e alimentos industrializados) observou-se aumento em relação à pesquisa anterior, principalmente entre os adolescentes. Já em relação ao consumo de sódio, este permaneceu acima do limite máximo aceitável, principalmente em homens adultos. Também se observou que muitas vitaminas e minerais estiveram com a ingestão abaixo da recomendação, como cálcio, vitamina D, vitamina E e outros nutrientes, novamente indicando uma alimentação de baixa qualidade. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Você já pensou sobre o impacto do nosso estilo de vida, incluindo a má alimentação, para a saúde? Isso pode ser ilustrado pela transição demográfica, epidemiológica e nutricional que tem ocorrido nos últimos 20 a 30 anos no Brasil e no mundo. Por exemplo, no nosso país temos observado uma maior ocupação das áreas urbanas em relação às rurais, alteração no perfil de saúde, com aumento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), redução da natalidade e aumento da expectativa de vida, além do aumento das taxas de sobrepeso e obesidade da população. Leitura Pesquisa de Orçamentos Familiares 2017-2018: Análise do Consumo Alimentar Pessoal no Brasil Vale a pena você conferir essa pesquisa completa, com todos os detalhes do consumo alimentar do brasileiro, por tipo de alimento, faixa etária, região do Brasil e outras informações interessantes. https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv101742.pdf De acordo com Barchik (2020), a partir dos dados da pesquisa Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (VIGITEL), que avaliou indivíduos maiores de 18 anos, residentes nas capitais dos estados brasileiros e do Distrito Federal, 55,7% dos entrevistados apresentavam excesso de peso e, 19,8%, obesidade, em 2018. Esses dados vêm demonstrando aumento, quando comparados à pesquisa anterior, realizada em 2007, sendo essa elevação possivelmente associada às mudanças nos hábitos de vida, como o sedentarismo e dietas desequilibradas. A fim de que tenhamos uma nutrição adequada é importante ter uma boa alimentação. Você, estudante do curso de nutrição, já pensou sobre qual é a diferença entre alimentação e nutrição? Segundo o Glossário Temático: Alimentação e Nutrição, publicado em 2013 pelo Ministério da Saúde, alimentação é o “processo biológico e cultural que se traduz na escolha, preparação e consumo de um ou vários alimentos” e nutrição é o “estado fisiológico que resulta do consumo e da utilização biológica de energia e nutrientes em nível celular” (BRASIL, 2013, p. 15; 31). Então, com base nos conceitos mencionados, podemos perceber que a alimentação é um ato voluntário, onde a pessoa pode tomar a decisão de escolher, como preparar e como consumir os seus alimentos. Já a nutrição é um processo involuntário e não depende da vontade do indivíduo, ou seja, a partir dos alimentos que são consumidos, irá ocorrer a digestão, a absorção e o aproveitamento dos nutrientes pelo corpo. Aproveitando o mesmo assunto, você já se perguntou sobre a diferença no conceito de alimento e nutriente? Utilizando o mesmo glossário, alimento é a “substância que fornece os elementos necessários ao organismo humano para a sua formação, manutenção e desenvolvimento” e nutriente é o “componente químico necessário ao metabolismo humano que proporciona energia ou contribui para o crescimento, o desenvolvimento e a manutenção da saúde e da vida” (BRASIL, 2013, p. 16; 31). A partir desses conceitos você percebe que o alimento é quem irá fornecer o nutriente necessário para a manutenção do corpo e, consequentemente, da saúde e da vida. Mas também devemos pensar que o alimento é muito mais que um fornecedor de nutrientes. Há outras questões envolvidas na escolha dos alimentos, como, por exemplo, as questões socioeconômicas, culturais, emocionais, individuais, coletivas etc., e todas devem ser levadas em consideração ao se realizar um plano alimentar. Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Como você já percebeu, a alimentação possui grande influência sobre a nossa saúde, prevenção de doenças e expectativa de vida. Portanto, é essencial cuidar da nossa alimentação. E você, como futuro profissional da saúde, precisará orientar as pessoas a fazerem boas escolhas alimentares para promover uma vida saudável. Por essarazão, ao longo do tempo, foram elaborados guias alimentares para orientar a população a selecionar de forma adequada seus alimentos. O primeiro deles foi escrito em 1916 por Caroline Hunt, que utilizava mensagens e representações gráficas sobre os diferentes grupos alimentares para recomendar uma alimentação saudável. Em 1937, o médico argentino Pedro Escudero criou as “Leis da Alimentação” que, a partir de quatro características, pode-se conseguir uma dieta saudável em todas as Leitura Glossário Temático: Alimentação e Nutrição Aproveite para conhecer mais conceitos na área da Nutrição. https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/glossario_tematico_alimentacao_nutricao_2ed.pdf fases do ciclo da vida. Veja o quadro a seguir: Quadro 1 – Leis da Alimentação Fonte: Adaptado de TIRAPEGUI, 2013 Vamos analisar essas leis? Considerando a lei da quantidade, significa que devemos controlar a ingestão de calorias de acordo com a necessidade energética do indivíduo e sua atividade física. Sobre a lei da qualidade, significa que a alimentação deve ser variada, a fim de fornecer ao organismo todos os nutrientes que ele necessita para a manutenção da saúde. E estes devem manter uma relação de harmonia entre si, em quantidades adequadas, também seguindo a fase do ciclo da vida em que o indivíduo se encontra e respeitando as características pessoais como preferências, hábitos, condições sócio-econômico- culturais e de saúde. Esses conceitos são muito importantes para a elaboração de planos alimentares. Recomendações Nutricionais Antes de falarmos sobre as recomendações de consumo dos nutrientes, vamos discutir um pouco sobre o que são os nutrientes, quem são eles e quais suas funções. Como você já viu nos tópicos anteriores, o nutriente está presente nos alimentos e é o “componente químico necessário ao metabolismo humano que proporciona energia ou contribui para o crescimento, o desenvolvimento e a manutenção da saúde e da vida” (BRASIL, 2013, p. 31). Os nutrientes se apresentam na forma de carboidratos, lipídeos, proteínas, vitaminas ou minerais e cada um possui uma determinada função para o organismo. No quadro a seguir podemos resumir a função deles: Quadro 2 – Funções dos Nutrientes Reflita Será que a sua alimentação diária está seguindo as quatro leis da alimentação de Pedro Escudero? Faça essa análise e, se necessário, tente adequar a sua alimentação! Fonte: Adaptado de MEZOMO, 2015; PANSANI, 2016 Você sabia que esses mesmos nutrientes podem ser divididos em grupos de acordo com suas funções? Segundo Mezomo (2015), eles podem ser divididos pelos menos em três grupos: Energético; Construtor; Regulador. O grupo energético, em sua maioria, é composto pelos carboidratos. O objetivo é fornecer energia para a manutenção da temperatura corporal e fornecer meios para os órgãos internos se movimentarem e para o trabalho muscular do corpo. É o combustível do corpo humano. Os alimentos desse grupo são os cereais, os açúcares, feculentos, mel, cana-de-açúcar, gordura e frutas. O grupo construtor é o responsável pela formação, crescimento e reparação dos órgãos e tecidos do corpo, que se desgastam com o tempo. Os alimentos proteicos fazem parte desse grupo, como carnes, leite e derivados, ovos, leguminosas e outras proteínas vegetais. O grupo regulador é responsável pelo controle do metabolismo corporal, mantendo-o em equilíbrio. Nesse grupo estão os alimentos ricos em vitaminas, minerais e fibras alimentares, entre eles, as frutas, verduras, legumes, laticínios, cereais, grãos, carnes em geral etc. Por essa razão é importante que a alimentação diária seja variada, contendo todos os grupos alimentares, em quantidades suficientes, a fim de que todos os nutrientes sejam consumidos, pois cada um possui uma função vital. Reflita Agora vamos pensar… se é importante que a nossa alimentação seja variada para que contenha todos os nutrientes que precisamos, como iremos saber qual é a quantidade que precisamos consumir de cada alimento? Existe uma quantidade indicada para cada nutriente? É possível calcular isso? Como podemos planejar um cardápio adequado? Todo nutricionista precisa ter conhecimento das recomendações nutricionais antes de realizar qualquer planejamento dietético. Mas existe diferença entre os termos “recomendação nutricional” e “necessidade nutricional”? Com certeza existe. A necessidade nutricional é a quantidade de energia e nutrientes necessários para suprir a demanda fisiológica de cada indivíduo. Para se conhecer essa necessidade individual, são necessários vários exames e testes, tornando-se uma tarefa difícil para o nutricionista, antes de realizar qualquer planejamento dietético. Por essa razão existem as recomendações nutricionais, que são indicações de quantidades de nutrientes e calorias capaz de suprir a necessidade diária da maior parte dos indivíduos de uma população saudável. Portanto, as recomendações nutricionais são necessárias para que os profissionais de nutrição possam avaliar o consumo alimentar de uma população e também para que possam elaborar planos alimentares adequados, evitando o consumo de nutrientes abaixo ou acima das necessidades nutricionais. Embora no Brasil não exista uma recomendação nutricional específica para a nossa população, tem se utilizado com frequência a Recommended Dietary Allowances (RDA) existente desde 1989, que sofreu algumas alterações e hoje é conhecida como Dietary Reference Intake (DRI). As DRI se definem como um conjunto de quatro valores de referência de ingestão de nutrientes, estabelecidos e usados para o planejamento e a avaliação das dietas do indivíduo ou grupos de indivíduos saudáveis, segundo estágio de vida e gênero (MARCHIONI; SLATER; FISBERG, 2004; FRANCESCHINI et al., 2014). Essas quatro referências de ingestão são: Figura 1 – Modelo para os valores de referência da dieta Fonte: Adaptada de MARCHIONI; SLATER; FISBERG, 2004 #ParaTodosVerem: figura. Sobre fundo branco, ao centro, há o desenho de uma curva de gauss em cor azul, com uma linha vertical ao meio dela, representando a mediana da curva, que significa a EAR ou o valor médio de ingestão diária Estimated Average Requirement (EAR): valor médio de ingestão diária estimada de um nutriente para atender às necessidades de 50% de indivíduos saudáveis, de acordo com o estágio de vida e gênero. Obtido também a partir de medianas de curvas de distribuição normal, mas não acrescido de dois desvios-padrão. Neste nível de ingestão, a outra metade do grupo não tem suas necessidades atingidas (Figura 1). Os valores de EAR são úteis para avaliar e/ou planejar o consumo tanto de indivíduos quanto de grupos; estimada de um nutriente para atender às necessidades de 50% de indivíduos saudáveis. Há uma nova linha vertical à direita, quase ao final da curva, representando um adicional de 2 desvios-padrão, que significa a RDA ou o valor de ingestão diária de um nutriente estimado para atender às necessidades de aproximadamente 97,5% da população saudável. Depois dela, há mais duas linhas verticais à direita, uma logo após o fim da curva e a outra, bem após. A primeira representa a AI, que significa o valor médio de ingestão diária de determinado nutriente por grupos de indivíduos aparentemente saudáveis, e a outra representa a UL, que significa o nível mais alto de ingestão diária de um nutriente tolerável biologicamente e que provavelmente não coloca em risco a saúde. Fim da descrição. Recommended Dietay Allowances (RDA): valor de ingestão diária de um nutriente estimado para atender às necessidades de aproximadamente 97,5% da população saudável. Estabelecidas principalmente a partir das medianas de curvas de distribuição normal de estudos populacionais de avaliação de consumo, acrescidas de dois desvios-padrões (RDA = EAR + 2DP) (Figura 1). Os valores de RDA garantem o atendimento às necessidades de indivíduos, evitando-se carências nutricionais. Deve ser considerada como metade ingestão e de adequação nutricional, apesar de estar acima das necessidades da maioria dos indivíduos; Adequate Intake (AI): baseada no valor médio de ingestão diária de determinado nutriente por grupos de indivíduos aparentemente saudáveis. Na situação de insuficiência de informação para estabelecer a EAR e a RDA, faz-se uso da AI, como meta de ingestão do nutriente; Avaliar o consumo alimentar de uma população e seguir as recomendações nutricionais na elaboração de planos alimentares é muito importante para a manutenção da saúde, a fim de se obter uma ingestão segura dos nutrientes. Dessa forma, com base nos conceitos anteriores, é possível concluir que tanto a RDA quanto a AI podem ser consideradas metas de ingestão, enquanto EAR e UL, devem ser utilizadas para avaliar inadequações de dietas, porque a ingestão habitual abaixo da EAR ou acima da UL, pode representar grande probabilidade de deficiência de consumo ou de efeitos adversos. Nos casos de identificação de dietas inadequadas, é importante que sempre sejam feitas outras avaliações em conjunto, por exemplo, avaliações bioquímicas e clínicas complementares do estado nutricional do indivíduo, para confirmar deficiências nutricionais ou efeitos adversos ocasionados pelo excesso no consumo. Tolerable Upper Intake Level (UL): é o mais alto nível de ingestão diária de um nutriente tolerável biologicamente e que provavelmente não coloca em risco a saúde. É importante destacar que o estabelecimento de UL atendeu às preocupações quanto ao uso indiscriminado e inadequado de suplementos nutricionais, e seu valor não deve ser utilizado como referência ou recomendação, pois à medida que aumenta a ingestão acima do estabelecido, eleva-se o risco potencial de efeitos prejudiciais para a saúde. É um nível de ingestão com alta probabilidade de ser tolerado biologicamente, mas não um nível recomendado de ingestão. Importante! Não podemos esquecer que as DRIs foram estabelecidas para a Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Componentes do Gasto Energético e Estimativa das Necessidades Assim como foi mencionado com relação às necessidades nutricionais, é importante que o nutricionista conheça a necessidade energética de um indivíduo antes de elaborar um plano alimentar. população dos EUA e do Canadá, e talvez a sua utilização na população Brasileira pode apresentar pequenas e prováveis diferenças nas recomendações. Leitura Dietary Reference Intakes: Aplicabilidade das Tabelas em Estudos Nutricionais Aproveite para conhecer todas as recomendações nutricionais pela RDA, AI, EAR e UL. https://www.scielo.br/j/rn/a/YPLSxWFtJFR8bbGvBgGzdcM/?format=pdf&lang=pt Mas, como conseguimos medir ou identificar a quantidade de energia que uma pessoa gasta durante um dia, para elaborar o seu cardápio? Existem métodos diretos para se medir o gasto energético de um indivíduo, mas são métodos caros e de pouca aplicabilidade na rotina diária. Dessa forma, utilizamos cálculos para estimativa da necessidade energética, baseados nas características dos indivíduos como o gênero, peso, altura, idade e atividade física. Serão apresentadas algumas equações para estimativa de energia e de que forma poderão ser utilizadas durante a elaboração dos planos alimentares, na distribuição entre os macronutrientes e entre as refeições diárias. Os únicos nutrientes que fornecem energia para atingir a necessidade calórica diária são os macronutrientes: carboidrato, proteína e lipídio. Portanto, eles devem ser consumidos diariamente na alimentação. Para que os nutrientes possam fornecer energia, eles precisam ser digeridos, absorvidos e metabolizados em nível celular, cada um em sua via metabólica específica, para a geração de energia (adenosina trifosfato – ATP), água e gás carbônico. Para se mensurar a energia (calor) fornecida pelo alimento, é utilizada a unidade de medida “caloria” (cal), que corresponde à quantidade de energia térmica necessária para elevar em 1ºC a temperatura de 1 g de água. O termo “quilocaloria” (kcal) é o mais comumente utilizado e corresponde a 1000 cal (BARCHIK, 2020). A ingestão de energia vinda dos alimentos deve estar em constante equilíbrio com a quantidade de energia que o organismo do indivíduo gasta. Essa condição se chama “balanço energético”, conforme mostra a Figura 2. Figura 2 – Balanço Energético Fonte: Adaptada de Freepik #ParaTodosVerem: figura sobre fundo branco, ao centro, há o desenho de uma balança azul com dois pratos em equilíbrio. À esquerda, há sobre o prato da balança, várias frutas, uma caixa de leite e um copo, representando a ingestão energética ou calórica que o indivíduo faz através da alimentação, pelos nutrientes carboidrato, proteína e lipídio ou gordura. À direita há sobre o outro prato da balança, três pesos de academia, representando o gasto energético diário do indivíduo, que é a somatória da taxa metabólica de repouso, termogênese do alimento, atividade motora espontânea e o exercício físico realizado. Fim da descrição. Como mostra a Figura 2, o gasto de energia se refere ao Gasto Energético Total (GET), que é composto pela taxa metabólica de repouso ou Gasto Energético Basal (GEB), a termogênese ou Efeito Térmico dos Alimentos (ETA) e o exercício físico ou Termogênese por Atividade (TA). Vamos explicar o que significa cada um deles. O Gasto Energético Basal (GEB) é a quantidade de energia diária (24 horas) que o organismo necessita para manter as atividades vitais, como a respiração, circulação, batimentos cardíacos, energia para o cérebro, entre outras, considerando o indivíduo em repouso e em jejum de 10 a 12 horas. O valor do GEB é influenciado por alguns fatores como a idade, gênero, peso, altura, temperatura, composição corporal (maior quantidade de massa muscular gasta mais energia) etc. O Efeito Térmico dos Alimentos (ETA) é a energia que o corpo gasta após as refeições, para os processos de digestão, absorção e metabolização dos alimentos e nutrientes, que aproximadamente representam 10% do GET. A Termogênese por Atividade (TA) corresponde ao gasto com a atividade física do indivíduo, que inclui as atividades diárias e a prática de esportes ou exercício físico. Esse valor pode variar bastante entre um dia e outro e entre um indivíduo e outro. A TA pode representar entre 15 e 30% do GET. Agora que você já entendeu o que significa cada um dos componentes que fazem parte do Gasto Energético Total (GET), irá conhecer algumas equações que são utilizadas para estimar a necessidade diária de energia de um indivíduo. Algumas são bem antigas, como é o caso da equação de Harris e Benedict, que foi desenvolvida em 1919, com 239 indivíduos sadios, considerando dados como gênero, peso, altura, idade, para estimar o GEB. Porém, essa equação está em desuso porque a população utilizada nas pesquisas já não representa mais a realidade atual. Dessa forma, ela não será apresentada aqui. Outra equação, um pouco mais recente, é a de Mi�in et al. (1990) que apresenta melhor correlação com a calorimetria indireta do que outras fórmulas, e por isso pode ser usada para a estimativa da necessidade de energia de indivíduos sadios de 19 a 78 anos. A equação é apresentada no quadro a seguir: Quadro 3 – Equações para Estimativa de Gasto Energético Basal (GEB) Homens GEB = (10 x peso [kg]) + (6,25 x altura [cm]) – (5 x idade [anos]) + 5 Mulheres GEB = (10 x peso [kg]) + (6,26 x altura [cm]) – (5 x idade [anos]) + 161 Fonte: Adaptado de MIFFLIN et al., 1990 Como as equações mencionadas fornecem a estimativa do GEB, é necessário fazer a aplicação de um fator atividade (FA), de acordo com a rotina de atividade diária e prática de exercício físico do indivíduo, para se estimar o GET diário. No quadro 4 são apresentados os fatores de referência. Quadro 4 – Fator Atividade para Cálculo do Gasto Energético Total (GET) Tipo de Atividade Valor representativo para o fator atividade (FA), por unidade de tempo de atividade Repouso:dormir e descansar 1,0 Muito leve: sentar e estar parado em pé, motorista, tocador de instrumento musical, trabalho em laboratório, digitador, passadeira 1,5 Leve: caminhar com velocidade entre 4,0 e 4,8 km/h em superfície plana, manobrista, eletricista, faxineira, 2,5 Tipo de Atividade Valor representativo para o fator atividade (FA), por unidade de tempo de atividade carpinteiro, babá, trabalho em restaurante Moderada: caminhar com velocidade entre 5,6 e 6,4 km/h, carregar peso, ciclista, esquiador, dançarino, tenista 5,0 Intensa: caminhar carregando peso em subida, lavrador, jogador de basquete, jogador de futebol 7,0 Fonte: Adaptado de BARCHIK, 2020 Como devemos utilizar essa tabela, se o indivíduo realiza várias atividades diferentes durante o dia? Vamos usar o exemplo de uma pessoa que dorme 8 horas diárias, trabalha 9 horas como escriturária (sentada), faz 1 hora de caminhada em esteira, na velocidade de 4,5 a 5,0 km/h, e o restante do dia realiza atividades leves. Veja a demonstração no Quadro 5: Quadro 5 – Exemplo do Cálculo do Fator Atividade Atividade Tempo Fator Resultado Repouso 8 horas 1,0 8 Muito leve 9 + 6 = 15 horas 1,5 22,5 Leve 1 hora 2,5 2,5 Total 24 horas – 33 Fator atividade nas 24 horas = 33 ÷ 24 = 1,37 Então, GEB x 1,37 = GET A partir do exemplo dado no quadro 5, foi possível observar que se multiplicou o número de horas de cada atividade, pelo seu fator atividade (FA) correspondente. Fazendo a somatória de todos os resultados do fator atividade do dia, e dividindo por 24 horas, encontramos o valor do fator atividade médio do indivíduo. Então, esse valor obtido deve ser multiplicado ao valor do GEB para encontrar o valor do GET. Atualmente tem sido utilizada uma equação mais recente para a estimativa do GET, desenvolvida pelo mesmo órgão que elaborou as DRIs. A equação representa a Necessidade Estimada de Energia (EER) de acordo com o gênero, peso, altura e nível de atividade física (NAF). Em 2023 ela sofreu uma atualização, levando em consideração que a população de referência mudou. Antes as equações eram voltadas ao público saudável e agora são indicadas para a população geral (isso porque grande parte dos indivíduos apresentam doenças crônicas). Mas preste atenção na hora de utilizar as equações! Ao inserir os dados na equação, a idade deve ser registrada em anos, a altura em centímetros (cm) e o peso em quilogramas (kg). Os Quadros 6, 7, 8 e 9 representam as equações da EER, para as diversas faixas etárias (NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES; ENGINEERING AND MEDICINE, 2023): Quadro 6 – EER para Crianças e Adolescente Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES; ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Quadro 7 – EER para Adultos Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES; ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Quadro 8 – EER para Mulheres Grávidas Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES; ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Quadro 9 – EER para Lactantes Fonte: Adaptado de NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES; ENGINEERING AND MEDICINE, 2023 Você acabou de perceber que existem equações para estimar o gasto energético nas diversas idades e condições de vida. Esse é o primeiro passo para você planejar um cardápio. Com base no Gasto Energético Total (GET), iremos determinar o valor da energia que será oferecida pelo cardápio (dieta) a fim de suprir as necessidades de energia do indivíduo. Estamos falando do Valor Energético Total (VET) do cardápio. Portanto, o VET deve suprir as necessidades do GET do indivíduo. Caso o VET do cardápio seja inferior ao valor do GET, poderá ocorrer um desbalanço energético e perda de peso do indivíduo, porque o cardápio está oferecendo menor quantidade de energia do que o necessário. Caso ocorra o oposto, quando o VET oferecido é superior ao valor do GET do indivíduo, possivelmente ocorrerá o ganho de peso porque a oferta de calorias é maior que o necessário. Além do equilíbrio entre a oferta calórica e o gasto calórico, ao se elaborar um plano alimentar é necessário conhecer quais são os nutrientes que fornecem calorias e de que forma iremos distribuí-los de forma saudável no cardápio. Você já viu que os únicos nutrientes que fornecem energia (caloria) são os macronutrientes: carboidrato, proteína e lipídio. Mas quanto eles fornecem de energia? Reflita E agora? Já sei que para estimar o gasto energético diário de uma pessoa eu preciso utilizar alguma dessas equações. O que eu devo fazer com o valor obtido na equação? A partir de estudos com calorímetro e analisando o fator da digestibilidade, concluiu- se que 1 g de carboidrato fornece 4 calorias, 1 g de proteína fornece 4 calorias e 1 g de lipídio fornece 9 calorias. Resumindo: 1g carboidrato = 4 cal 1g proteína = 4 cal 1g lipídio = 9 cal E como você deve distribuir esses nutrientes na elaboração do cardápio? Segundo Barchik (2020), as recomendações mais utilizadas para indivíduos sadios são as disponibilizadas pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO), em conjunto com a World Health Organization (WHO) e pelo Institute of Medicine (IOM). Veja as recomendações nos Quadros 10 e 11, a seguir: Quadro 10 – Recomendações de Macronutrientes (WHO/FAO) Nutriente Recomendação (% do VET) Proteínas 10 a 15% Carboidratos 55 a 75% - Açúcares simplesabordados nesta Unidade: Vídeo O que os Brasileiros Comem? Alimentação é composta principalmente por alimentos in natura ou que possuem mínimo processamento, mas o crescimento de produtos industrializados na dieta nas últimas décadas é preocupante. Página 2 de 3 📄 Material Complementar Leitura Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Quantidade, Qualidade, Harmonia e Adequação: Princípios-Guia da Sociedade Sem Fome em Josué de Castro O que os brasileiros comemO que os brasileiros comem https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2019_vigilancia_fatores_risco.pdf https://www.youtube.com/watch?v=Gf_peofkl6s Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Adaptação do Índice de Alimentação Saudável ao Guia Alimentar da População Brasileira Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Manual Fotográfico de Quantificação Alimentar Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Tabela Brasileira de Composição dos Alimentos – TACO Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE https://goo.gl/F1vaVD https://www.scielo.br/j/rn/a/Jzy5fQmGZfJXyfRVz9FBdFk/?format=pdf&lang=pt https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/5296370/mod_resource/content/1/Manual%20Fotogra%CC%81fico%20de%20Quantificac%CC%A7a%CC%83o%20Alimentar.pdf https://www.cfn.org.br/wp-content/uploads/2017/03/taco_4_edicao_ampliada_e_revisada.pdf BARCHIK, P. P. Planejamento de cardápios. São Paulo: Contentus, 2020. (e-book) Disponível em: . Acesso em: 25/08/2023. BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria-Executiva. Secretaria de Atenção à Saúde. Glossário temático: alimentação e nutrição. 2. ed., 2. reimpr. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013. Disponível em: . 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