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AULA 2 NOVAS PEDAGOGIAS MUSICAIS Profª Dayane Battisti 2 CONVERSA INICIAL Jos Wuytack formulou sua pedagogia com base nas ideias de Carl Orff, formando o chamado Sistema Orff-Wuytack. Nesta aula, estudaremos sobre estes dois pedagogos e os princípios de suas pedagogias, começando pelo Tema 1, que reúne as principais ideias da pedagogia de Carl Orff, e o Tema 2, que trará sugestões de atividades inspiradas na obra de Orff. No tema 3, abordaremos a pedagogia de Wuytack e, no Tema 4, aprofundaremos os conhecimentos sobre os princípios pedagógicos Orff-Wuytack, apresentando sugestões de atividades no Tema 5. TEMA 1 – ORFF E A UNIÃO ENTRE GESTO, MÚSICA E PALAVRA 1.1 Trajetória Carl Orff nasceu em 1895, na cidade de Munique, na Alemanha, e viveu até março de 1982. Cresceu em um ambiente familiar muito rico musicalmente, tendo pais que tocavam piano a quatro mãos diariamente e organizavam saraus de música de câmara aos domingos. Iniciou os estudos de piano aos 5 anos de idade, sob orientação de sua mãe, e mais tarde estudou também violoncelo, tocando na orquestra da escola onde estudava e cantou solos (com seu timbre de soprano) no coral da igreja. Sem dúvidas o ambiente familiar influenciou as disposições de Carl Orff para a música. Entre 1912 e 1914, estudou na Academia de Música de Munique, e em 1916, aos 21 anos de idade, assumiu a função de Mestre de Capela na Orquestra de Câmara de Munique pelo período de um ano. Também foi Mestre de Capela no Teatro Nacional de Mannheim e no Teatro da Corte do Grão Duque de Darmstadt, entre 1918 e 1919 (Bona, 2012). No início de sua carreira como compositor, foi influenciado pelas transformações musicais do início do Século XX, e em sua segunda fase de estudos (1919-1935), depois de inúmeros estudos e experimentos musicais criativos, Orff definiu seu próprio estilo de composição. A partir de 1937, com a estreia de Carmina Burana, alcançou grande fama e reconhecimento mundial como compositor (Bona, 2012). O compositor nutria grande interesse pela proposta de Dalcroze e isso o levou a fundar, juntamente com sua amiga Dorothee Günther, uma escola de música chamada Günther Schule, em 1925. Foi nesta escola, em conjunto com a 3 compositora Gunild Keetman e com a dançarina Maja Lex, que Carl Orff pôde colocar em prática suas ideias sobre música, movimento e linguagem. Nesta proposta inovadora, os estudantes criavam suas próprias músicas, improvisavam, e os bailarinos e músicos trocavam de papel, ora tocando, ora dançando (Thresher, 1964). Com a ajuda de outro amigo, Karl Maendler, Orff construiu uma série de instrumentos de percussão para utilizar na escola, que hoje são conhecidos como “Instrumentos Orff” ou “Instrumental Orff” (Fonterrada, 2008). Ele desenvolveu suas técnicas após observar o comportamento musical das crianças enquanto brincavam livremente, entendendo que o conhecimento deveria ser natural, físico e familiar (Shehan, 1986). Essas experiências na Günther Schule resultaram na publicação de uma obra em cinco volumes, chamada Schulwerk, que no Brasil também é conhecida como Obra Escolar (Thresher, 1964). Os princípios que embasam a abordagem Orff são a integração de linguagens artísticas e o ensino baseado no ritmo, no movimento e na improvisação. A dificuldade em tratar do pensamento de Orff é que ele não deixou textos que explicassem sua filosofia e os princípios de sua abordagem. Os cinco volumes que compõe a Orff-Schulwerk (1954) são uma coletânea de peças especialmente escritas para serem executadas pelos alunos, mas não há qualquer referência aos pontos de vista adotados por Orff/Keetman (Fonterrada, 2008, p. 159). Dessa forma, é necessário buscar fontes secundárias para aprofundar o entendimento de sua pedagogia. Essas fontes, porém, fornecem boa informação e isso se deve ao fato de sua Obra escolar ter alcançado boa aceitação em diversos países da Europa e América e ter sido adotada em inúmeros contextos. Além disso, foram criadas Associações Orff, encarregadas de difundir, pesquisar e aplicar os princípios da pedagogia (Fonterrada, 2008). 1.2 Princípios pedagógicos Orff reconhece os princípios postulados por Dalcroze no desenvolvimento de seu método. Em sua visão, a música é inseparável do movimento e da fala, e tudo isso é derivado das experiências da infância. Por meio de canções, falas ritmadas e movimentos estruturados e espontâneos, as crianças descobrem e demonstram conceitos musicais. O ritmo é o ponto de partida e o objetivo maior da pedagogia é o desenvolvimento da criatividade musical, evidenciada por meio da habilidade de improvisação (Shehan, 1984). 4 A filosofia de Carl Orff prega que a educação musical tem a missão de desenvolver a habilidade de criação das crianças, que no idioma musical chamamos de improvisação. É preciso auxiliar as crianças a criar sua própria música, fruto de suas próprias experiências em falar, cantar, mover, dançar e tocar (Thresher, 1964). Em súmula, da inter-relação entre linguagem, música e movimento, numa perspectiva criativa e humanista, a OS1 pode ser entendida como uma abordagem pedagógico-musical holística que propicia a construção de conhecimento e, por conseguinte, o desenvolvimento de competências (artísticas, estéticas, emocionais, cognitivas e sociais) inerentes à formação integral (e integrada) de qualquer ser humano (Cunha, 2013, p. 30). Cunha (2013) apresenta um esquema que busca sintetizar a abordagem Orff-Schulwerk com base da inter-relação de três palavras-chave: música, movimento e criatividade. Figura 1 – Possível definição esquemática da Orff-Schulwerk Fonte: elaborado com base em Cunha, 2013. 1.3 Orff-Schulwerk – a Obra escolar A Obra escolar, de Carl Orff, mundialmente conhecida como Orff-Schulwerk é composta por cinco volumes e contém mais de mil exemplos musicais da cultura europeia (Bona, 2012). Cunha (2013) ressalta que os cinco volumes nunca foram pensados como manuais escolares que devem ser seguidos fielmente. “Pelo 1 OS – Orff-Schulwerk. 5 contrário, devem ser entendidos como possíveis modelos/sugestões de um ‘campo de experiências’, no qual iniciativa, improvisação, criação, interpretação e vivência são formas interativas de verdadeira Educação Musical” (Cunha, 2013, p. 43). No encarte do CD comemorativo dos cem anos de nascimento do compositor,2 consta a seguinte descrição: Sob o título de Orff-Schulwerk, Carl Orff e sua colega Gunild Keetman compilaram durante mais de três décadas, peças musicais elementares que têm um caráter de modelo e estimulam a improvisação, imaginação e diversão. Este prazer da experimentação criativa deve ser despertado, mesmo porque, de acordo com Orff todas as crianças possuem talento musical e precisam apenas de um encorajamento para poder usá-lo. Dessa forma, Orff é cuidadoso ao começar seus exemplos musicais com fáceis exercícios pentatônicos, excluindo assim a sensível. Isso gradualmente é desenvolvido para a tonalidade maior e menor, a escala de sete tons e as formas tradicionais como o cânone, variações ou rondó (Schmerda, 1995). Os cinco volumes da Orff-Schulwerk foram organizados da seguinte forma: • Volume 1 – música poética: rimas infantis e pequenas canções sobre a escala pentatônica. • Volume 2 – bordões e acordes perfeitos: introdução dos graus IV e VII que completam a escala maior com base na já estudada escala pentatônica. • Volume 3 – modo maior: tríades de dominante e subdominante. • Volume 4 – bordões no modo menor: eólio, dórico e frígio. • Volume 5 – modo menor: tríades de dominante e subdominante. 1.4 Instrumental Orff O instrumental Orff engloba um conjunto de instrumentos musicais planejado por Orff, com auxílio de Curt Sachs e Karl Maendler e, posteriormente,aperfeiçoado por Klauss Becker, no Studio 49 (Fonterrada, 2008). Importante lembrar que, assim como outros pedagogos musicais, Orff considerava o corpo humano como primordial e principal fonte sonora. Os demais instrumentos musicais da Orff-Schulwerk “devem ser entendidos como uma ‘espécie de prolongamento’ do corpo humano, uma vez que dele recebem as pulsações vitais, ou seja, o ritmo” (Cunha, 2013, p. 43). 2 Disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2019. 6 O conjunto é formado por uma família de xilofones, uma família de metalofones, e outros instrumentos de percussão, como tambores, maracas, pandeiros, clavas, reco-reco, bongô, triângulo, jogos de sinos, entre outros (Fonterrada, 2008; Bona, 2012). Os pontos em comum entre estes instrumentos é que são agradáveis de ouvir, fáceis de tocar e irresistíveis para as crianças (Cunha, 2013). O instrumental é desenvolvido de modo que as crianças pequenas ou iniciantes possam participar do conjunto. Para isso, os xilofones e metalofones possuem teclas removíveis, permitindo que o professor monte o instrumento apenas com as notas que o aluno vai tocar (Fonterrada, 2008). “Assim, a produção musical com o próprio corpo, a voz e os gestos sonoros poderá ser ampliada por meio da utilização dos instrumentos. A voz, aqui, é compreendida como instrumento melódico elementar” (Bona, 2012, p. 145). A postura para se tocar os instrumentos, especialmente os instrumentos de plaquetas (xilofones e metalofones), é ponto primordial e são apresentados alguns princípios básicos da postura adequada, podendo tocar os instrumentos sentado ou em pé. “Além dos instrumentos mencionados e exemplificados, a proposta pedagógica de Orff considera a inclusão de instrumentos de todos os tipos de culturas” (Bona, 2012, p. 148). TEMA 2 – ATIVIDADES INSPIRADAS NA ORFF-SCHULWERK A seguir, serão apresentados exemplos práticos de como aplicar as ideias da abordagem Orff em sala de aula. O principal objetivo ao apresentar estes exemplos é que eles sirvam de estímulo para que o professor crie novas elaborações e/ ou adaptações, de acordo com a realidade do contexto. As partituras apresentadas devem servir de referência para o professor. É muito importante que o professor domine a letra, ritmo e melodia da atividade para ensiná-la oralmente às crianças. Posteriormente, as partituras poderão ser apresentadas aos alunos, de acordo com a faixa etária, em atividades complementares. O primeiro exemplo foi inspirado em uma atividade proposta por Bona (2012). 7 2.1 A palavra como geradora do ritmo • Formar um círculo e ensinar oralmente a parlenda,3 frase a frase, para que as crianças repitam até internalizarem. Utilizar palmas marcando o pulso: Um, dois, três/ Quatro, cinco, seis/ Sete, oito, nove, para doze faltam três/ • Repetir observando a pausa ao final de cada frase, representada pela barra /. • Para transmitir a frase ao corpo, utilizar diferentes percussões corporais para cada frase, por exemplo: Fonte: elaborado com base em Bona, 2012. Nota: Em “Pernas” – alternar mão direita e esquerda para executar as colcheias com palmadas sobre as coxas. • Criar diferentes cenários para brincar com andamento e dinâmica enquanto repete a parlenda, rodando em círculo e utilizando a percussão corporal. Por exemplo: “Fulano está dormindo e não podemos acordá-lo, vamos repetir bem baixinho e devagar para não fazer muito barulho”. “Opa! Começou a chover, vamos acelerar que não quero me molhar”. “Precisamos acordar fulano para ele vir junto, vamos tocar e cantar bem alto agora!”. E assim por diante. • Em duplas, criar um jogo de mãos para acompanhar a parlenda. Estimular as crianças a usarem a criatividade para que cada dupla crie seu próprio jogo. Na sequência, cada dupla pode apresentar e ensinar seu jogo de mãos para a turma toda repetir e aprender. 3 Parlendas são versos recitados em brincadeiras infantis. 8 • Repetir a percussão corporal e/ou o jogo de mãos sem cantar, apenas com os gestos rítmicos. • Incluir dois compassos entre cada frase para improvisação rítmica, utilizando palmas e percussão corporal. 2.2 Cânone Nas atividades Orff, é comum seguir o seguinte processo: partir da palavra para chegar à frase; transmitir a frase ao corpo, transformando-o em instrumento de percussão; trabalhar a percussão corporal; passar progressivamente aos instrumentos de sons determinados (Estarriaga; Inés, 2012). Figura 2 – Jornal da ABRAORFF, dez. 2012 Créditos: ABRAORFF. • Partir da palavra, ensinando frase a frase ritmicamente, ainda sem melodia. • Marcar o pulso com passos, alternando os pés direito e esquerdo, movendo-se livremente pela sala. • Acrescentar a melodia ao canto e repetir o exercício. 9 • Dividir a turma em dois grupos: enquanto um grupo realiza o ostinato rítmico de palmas (sugerido na partitura), o outro grupo canta a melodia. Os dois grupos seguem marcando o pulso com os passos, mas agora sem se movimentar. • Criar um terceiro grupo com voluntários, que serão responsáveis por criar um novo ostinato de percussão corporal para acompanhar a canção. • Alternar as funções dos três grupos, repetindo sempre a melodia para que a canção seja internalizada. • Após os três grupos já formados, executar o cânone regendo as entradas de cada grupo. • Acrescentar instrumentos de sons determinados, como xilofones e metalofones, para executar a melodia e novos ostinados criados juntamente com os alunos. TEMA 3 – JOS WUYTACK: APRENDER MÚSICA FAZENDO MÚSICAS O compositor e pedagogo Jos Wuytack nasceu em 1935, na cidade de Gent (Flandres), na Bélgica. Sua formação musical iniciou cedo, por influência do pai e da tia, que foi sua primeira professora de piano, aos cinco anos de idade. Assistia regularmente a óperas e concertos com a família e cantava com os irmãos em casa, acompanhando ao piano. Aos 12 anos já compunha peças para piano e órgão; aos 17 ingressou no Semiário Saint Paul, onde estudou filosofia e teologia; e aos 23 anos iniciou sua carreira como docente, na mesma instituição em que obteve seu diploma de licenciatura em pedagogia musical (Instituto Lemmens) e mais tarde lecionou regularmente em instituições na Bélgica, França, Holanda, Canadá e Estados Unidos (Boal Palheiros, 1988; 1998). Em 1958, quando iniciou seu trabalho docente, foi quando iniciou também suas primeiras experiências com o instrumental Orff. Seu professor, Marcel Andries, foi o primeiro propagador da Orff-Schulwerk, na Bélgica (Boal Palheiros, 1988). Em 1964, conheceu Carl Orff, com quem manteve uma estreita colaboração profissional e uma excelente amizade, e que mais tarde considerou Wuytack como um “herdeiro” de sua pedagogia. Após isso, “tem realizado uma carreira internacional intensa como divulgador de uma pedagogia musical ativa e criativa, baseada nos princípios de Orff” (Boal Palheiros, 1998, p. 16). Com a intenção de divulgar a Schulwerk e também de formar professores de acordo com esta pedagogia, Wuytack e Andries passam 10 a elaborar uma série de planos de aula baseados nas idéias de Orff. A partir desse momento, as idéias pedagógicas de Carl Orff foram, de certa forma, sistematizadas, já que nos cinco volumes da Schulwerk há poucas explicações pedagógicas quanto às metodologias e técnicas de ensino. Assim, esta pode ser considerada uma das grandes contribuições de Jos Wuytack à pedagogia musical de Carl Orff, já que trouxe uma sistematização metodológica à prática da Schulwerk (Bourscheidt, 2008, p. 19). Como compositor, Jos Wuytack possui um vasto e variado catálogo de obras para diversos conjuntos, incluindo óperas, obras religiosas e corais e peças vocais e instrumentais (Boal Palheiros, 1998). “O seu estilo revela um grande sentido do ritmo, um apurado sentidodo timbre e uma orquestração ora leve e delicada, ora pungente e colorida” (Boal Palheiros, 1998, p. 17). Grande parte da sua obra musical está relacionada com sua obra pedagógica. O fascínio pela música tradicional se revela na divulgação de canções e danças populares de diversos países e nas harmonizações e orquestrações de temas tradicionais. Muitas de suas composições são escritas para instrumental Orff e dedicadas a juventude, com exigências técnicas e interpretativas adequadas ao desenvolvimento musical de jovens não profissionais (Boal Palheiros, 1998). Wuytack também se formou em mímica, e isso certamente influenciou sua prática de integração das artes – música, palavra, movimento, dança, mímica e teatro. As canções com gestos, dedicadas às crianças, são destaque entre suas realizações (Boal Palheiros, 1998). O próprio pedagogo descreve a estratégia de ensinar uma canção com gestos da seguinte forma: Primeiro, a melodia é aprendida por imitação. Em seguida, aprende-se o texto, interpretando-o expressivamente de diferentes maneiras: como no teatro, dramático, humorístico, forte, piano, etc. Depois, interpretam-se a melodia e o texto juntos. Em seguida, aprendem-se os gestos e faz-se o jogo de substituição das palavras por gestos. Realizam-se então improvisações instrumentais em grupo, entre as estrofes. Nesta canção, estão presentes diferentes formas de expressão. Desta maneira, a educação musical integra várias formas de expressão artística: expressão verbal (poesia, drama), expressão musical – vocal e instrumental (cantar, tocar, improvisar) e expressão corporal (movimento, mímica, dança) (Wuytack, 2015). Outro fator que evidencia o interesse pedagógico de suas canções está no potencial para o desenvolvimento musical e psicológico da criança (Boal Pallheiros, 1998). “O desenvolvimento de competências como a formação vocal, a coordenação psico-motora, a audição interior, a memória musical e a capacidade de improvisação é essencial para a prática musical” (Wuytack, 1992, citado por Boal Palheiros, 1998, p. 17). 11 Palheiros e Bourscheidt (2012) explicam o ponto de partida e a premissa fundamental da abordagem Wuytack: Como ponto de partida, entende-se que toda criança, independente do seu estágio de desenvolvimento musical, pode ser incluída ativamente no fazer musical. Para isso, pretende-se que a criança aprenda música fazendo música. Dessa forma, ela deve ser instigada a experimentar e apropriar-se ativamente da experiência musical desde o seu primeiro contato com o som. A música, portanto, deve ser acessível a todas as crianças (Boal Palheiros; Bourscheidt, 2012, p. 307). Jos Wuytack esteve no Brasil, ministrando curso em Salvador, no ano de 1998, a convite da educadora Carmen Mettig. Retornou ao Brasil para cursos em Curitiba (2007, 2009), São Paulo (2008) e Salvador (2009). Professores que participaram dos cursos relatam que têm utilizado com bastante frequência as atividades aprendidas durante os cursos ministrados, principalmente os jogos de substituição das palavras por gestos (Boal Palheiros, Bourscheidt, 2012). Entretanto, Luis Bourscheidt, autor do capítulo sobre Jos Wuytack, no livro Pedagogias da Educação Musical, e de uma dissertação de mestrado dedicada à pedagogia, afirma que ainda existem poucos educadores musicais com conhecimento desta pedagogia, “já que a sua adaptação à realidade brasileira requer, a priori, um entendimento das suas principais características” (Bourscheidt, 2008, p. 18). Depois de entender um pouco mais sobre quem foi Jos Wuytack e de onde partiu para elaborar sua pedagogia sistematizada, vamos estudar no próximo tema quais são os princípios pedagógicos do Sistema Orff-Wuytack. TEMA 4 – SISTEMA ORFF-WUYTACK Jos Wuytack é considerado um dos principais divulgadores da pedagogia Orff, e, assim como Orff, considera fundamental adaptar a Orff-Schulwerk às tradições e características específicas de cada cultura (Boal Palheiros, 1998). Quando questionado se a pedagogia Orff poderia ser chamada de método, ele deu a seguinte resposta: A pedagogia Orff baseia-se na atividade, na criatividade, no trabalho de grupo. É mais uma filosofia do que um método! Não há um programa definido, cada professor segue sua própria intuição. Isto é tanto uma vantagem, como pode ser uma desvantagem. Cada um trabalha conforme as suas capacidades e as circunstâncias. No entanto, o “espírito” e as ideias originais são frequentemente esquecidos. Eu completei os princípios pedagógicos de Orff adaptando-os continuamente. Mantive-me 12 sempre fiel as ideias básicas, às quais dei meu próprio contributo (Wuytack citado por Palheiros, 1988, p. 6). Reforçando esse posicionamento, Boal Palheiros e Bourscheidt (2012, p. 307) afirmam que “diferentemente de Carl Orff, que enfoca mais a prática musical do que questões metodológicas, Wuytack é muito claro e objetivo com relação à metodologia”. Suas principais contribuições na atualização da pedagogia Orff podem ser encontradas em seu artigo intitulado “Actualizar as ideias educativas de Carl Orff?”, no qual o autor enumera e explica brevemente os seguintes aspectos: 1. Melodia: acréscimo de etapas na progressão melódica para facilitar a assimilação aos ouvidos das crianças, adicionando uma nova nota de cada vez. Wuytack acrescentou etapas à progressão melódica da pedagogia Orff e propôs a seguinte nomenclatura: os primeiros exercícios partem de uma escala Bitônica, ou seja, que possui apenas duas notas (sol-mi); acrescentando uma nota (lá), tem-se a escala Tritônica (sol-lá-sol-mi); a escala Tetratônica acrescenta a nota dó (sol-lá-sol-mi-dó); e assim por diante, passando pelas escalas Folclórica, Pentatônica, Hexatônica, até chegar a escala Heptatônica (Diatônica) que utiliza todas as sete notas da escala diatônica (sol-lá-sol-fá-mi-ré-dó-si-dó). Figura 3 – Melodia Progressão melódica.. Fonte: elaborado com base em Wuytack, 1993, p. 5-6. 2. Ritmo: compassos binários (2/4 e 6/8) e estruturas de 4 compassos; metodologias de imitação, pergunta-resposta, cânone e rondó; desenvolvimento da técnica de ostinato; jogos para o treino de leitura rítmica em vários níveis. 3. Harmonia: criou uma terminologia para classificar os diferentes tipos de acompanhamento, ao estudar os exemplos do Orff. A figura a seguir 13 apresenta um exemplo para cada classificação utilizando o primeiro e quinto grau na harmonia de Dó maior (dó e sol) – em acorde (notas são tocadas simultaneamente); em acorde arpejado (notas tocadas em sequência); bordão de nível (notas simultâneas, repetidas na oitava superior); e bordão cruzado (espécie de arpejo que repete o dó na oitava superior – dó, sol, dó’ sol,). Figura 4 – Harmonia – Acompanhamento por bordão simples Fonte: elaborado com base em Wuytack, 1993, p. 5-6. 4. Instrumentos: criação de símbolos para os instrumentos de percussão e desenvolvimento de técnica de orquestração instrumental: per additionem ou per contrastem. 5.Improvisação: desenvolvimento de metodologias para orientar improvisação de grupo; inclusão dos estilos pop e latino-americano. 6. Forma: clarificação da didática para formas elementares – realizar uma boa imitação, apresentar o refrão para um rondó, desenvolver cânones rítmicos e melódicos; apresenta um conjunto de recomendações que indica como criar variações. 7. Movimento: Adaptação de movimentos corporais ao que o espaço/ sala de aula permite, incluindo canções com gestos, jogos de mímica e canto com movimento. 8. Audição musical: audição ativa, utilizando expressões verbal, musical e corporal; desenvolvimento do sistema de Musicograma – representação visual da estrutura dinâmica de uma composição musical. 9. Formação de professores: estruturação de cursos de formação de professores, seguindo a progressão lógica e pedagógica dos cinco volumes originais da Orff-Schulwerk.10. Atualização da Schulwerk: integração de canções ativas ingênuas e humorísticas, exploração de temas que refletem uma preocupação universal e a poesia, canções e o drama do mundo atual; inclusão de estilos como jazz, rock, pop, estruturas seriais, composições eletrônicas e música 14 repetitiva; criação de novos modelos utilizando as técnicas típicas da Schulwerk, como ostinato, ritmos rituais e cânone (Wuytack, 1993). Entre as atualizações das ideias de Orff promovidas por Wuytack, as que chamam mais a atenção são os jogos de canções com gestos e a metodologia da audição musical ativa. Nas palavras do próprio autor: Orff deu importância à interpretação e à improvisação, mas não à audição. Eu criei a metodologia da ‘audição musical ativa’ com o apoio do musicograma, que é um esquema visual do que se ouve na música, representado com figuras geométricas, cores e símbolos e que é projetado durante a audição, para ajudar os alunos a compreenderem melhor a música (Wuytack, 2015). Os princípios pedagógicos organizados por Wuytack englobam a atividade, a criatividade, a comunidade, a totalidade e a adaptação. (Boal Palheiros; Bourscheidt, 2012). A criança é ativa por natureza, por isso, a atividade é peça chave para uma verdadeira experiência musical: desenvolve capacidades de observação e atenção, além de envolver e levar a criança a participar. A criatividade estimula a criança a desenvolver a imaginação e a criação em si, é um processo inerente à música. A atividade musical em grupo contribui para o desenvolvimento da sociabilidade e a comunidade é um meio privilegiado de experiências sociais. A música deve ser acessível a todas as crianças e ensinar tudo a todos é um princípio fundamental (Boal Palheiros, 1998). A relação entre as partes e o todo constituem o princípio da totalidade. Os elementos de uma canção, por exemplo, podem ser apresentados separadamente, mas dentro da mesma aula, estabelecendo relações com a totalidade da canção. Além disso, cabe ao professor a adaptação dos materiais pedagógicos, como a Schulwerk, aos interesses das crianças e às características específicas de sua cultura e país. Além dos princípios descritos, Wuytack ainda trata de aspectos como a emoção, o equilíbrio, a motricidade, a consciência, o movimento, o canto, a arte e a teoria (Boal Palheiros; Bourscheidt, 2012). Considerando estas atualizações e princípios pedagógicos propostos por Wuytack, serão apresentados no próximo tema dois exemplos de atividades para serem realizados em sala de aula. TEMA 5 – IDEIAS PARA SALA DE AULA O primeiro exemplo apresentado é de um jogo musical, no qual as palavras/ frases da canção são gradativamente substituídas por gestos e/ ou mímicas 15 corporais. Essa canção foi composta especificamente para esta aula, utilizando uma melodia tritônica (de três notas) e a intenção é incentivar os professores para que componham suas próprias canções. A sequência da atividade foi inspirada no jogo proposto por Boal Palheiros e Bourscheidt (2012). 5.1 Canção com gestos Figura 5 – Canção Fonte: Dayane Battisti. • Primeiramente, o professor canta a totalidade da canção. Os alunos ouvem, imitam, observam, cantam e aprendem. • Cantar a melodia sem a letra, utilizando vocábulos como “lai”, “vrum”, “no” etc., para treinar a dicção e facilitar o aprendizado da melodia. • Utilizando as mãos para indicar o movimento melódico (sobe, desce, mantém), os alunos reforçam o aprendizado da melodia. • Ensinar o texto, recitando-o de forma expressiva para as crianças repetirem. • Cantar a canção inteira, bem articulada, marcando a pulsação com pés ou palmas. • Criar gestos para cada frase/ palavra, juntamente com as crianças. • Cantar a canção com o jogo de substituição progressiva das palavras/ frases por gestos: 1. cantar toda a canção sem gestos; 2. substituir Da janela: fazer um gesto com os braços, indicadores e polegares esticados, imitando a moldura da janela; 3. substituir vejo o sol brilhar: levar a mão à testa, como quem avista algo ao longe e fazer um gesto amplo, abrindo os braços para representar o sol brilhando; 4. substituir vamos lá: chamar com movimento dos braços e mãos, ou pegar na mão de um colega ao lado, formando duplas; 16 5. substituir no pátio pra brincar: caminhar movendo braços e pernas para representar o movimento de ir brincar lá fora. • Substituir cada uma das partes por gestos, alternadamente, e executar a canção inteira sem cantar, apenas fazendo os gestos. 5.2 Ostinato – locomotiva a vapor Ostinato é o nome dado a um padrão rítmico ou melódico que é repetido continuamente. Nesta atividade, são apresentados três ostinatos diferentes que, ao serem executados simultaneamente, fazem lembrar uma locomotiva a vapor. Figura 6 – Ostinato Fonte: elaborado com base em Boal Palheiros; Bourscheidt, 2012, p. 328. Metodologia: • Cada frase do ostinato deve ser repetida pelo professor até que todos os alunos consigam absorver e reproduzir a frase com um pulso constante. • Dividir a turma em três grupos, cada grupo executa um ostinato diferente, que representa uma parte da locomotiva. • Sobrepor os ostinatos, executando-os de forma simultânea. • O professor pode reger o grupo, determinando as entradas de cada ostinato. • Utilizando a regência, alterar o andamento (acelerando e retardando) de forma a imitar uma locomotiva a vapor. Importante Para que as crianças entendam como funciona esse meio de transporte e os sons que ele produz, pode-se mostrar o episódio de Thomas e seus amigos - Stafford a locomotiva a vapor, disponível no YouTube. Neste episódio, a 17 locomotiva elétrica (Stafford) procura imitar os sons das locomotivas a vapor (pff, tch, tuu) para alegrar as crianças. Mas no fim, descobre que é melhor ser ele mesmo: o silencioso Stafford, a locomotiva elétrica. THOMAS e seus amigos – Stafford a locomotiva a vapor. RMT-Rede Mundo de Televisão, 2016. Disponível em: . Acesso em: 12 jun. 2019. Saiba mais O site da Associação ORFF Brasil reúne informações sobre cursos e incentiva a criação de regionais em cada estado brasileiro para facilitar a troca de informações e experiências. Disponível em: . Acesso em: 23 maio 2019. A Associação Wuytack de Pedagogia Musical foi criada em 1992, em Portugal, e tem por finalidade divulgar os princípios músico-pedagógicos elaborados por Jos Wuytack. No site da associação é possível encontrar informações sobre cursos, edições e catálogos de artigos, livros, partituras e discos. Disponível em: . Acesso em: 23 maio 2019. 18 REFERÊNCIAS BOAL PALHEIROS, G. Jos Wuytack. 30 anos ao serviço da pedagogia musical. Boletim da Associação Portuguesa de Educação Musical, n. 59. Lisboa: 1988, p. 5-7. _____. Jos Wuytack, Músico e Pedagogo. Boletim da Associação Portuguesa de Educação Musical, n. 98. Lisboa: 1998, p. 16-24. BOAL PALHEIROS, G.; BOURSCHEIDT, L. Jos Wuytack: A pedagogia musical ativa. In: MATEIRO, T.; ILARI, B. (org.). Pedagogias em educação musical. Curitiba: InterSaberes, 2012, p. 305-341. BONA, M. Carl Orff: um compositor em cena. In: MATEIRO, T.; ILARI, B. (Org.) Pedagogias em educação musical. Curitiba: InterSaberes, 2012, p. 125-156. BOURSCHEIDT, L. A aprendizagem musical por meio da utilização do conceito de totalidade do sistema Orff/Wuytack. Dissertação (Mestrado em Música). Departamento de Artes da Universidade Federal do Paraná. Curitiba, 2008. CUNHA, J. C. R. Da abordagem Orff-Schulwerk ao desenvolvimento do ‘Eu Musical’: Flow em processos de Ensino/ Aprendizagem em Educação Musical. Tese (Doutorado em Música). 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