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EM DEFESA 
DA FÉ CRISTÃ
EM DEFESA 
DA FÉ CRISTÃ
Combatendo as Antigas Heresias, que se 
Apresentam com Nova Aparência
ESEQUIAS SOARES
EM DEFESA 
DA FÉ CRISTÃ
Combatendo as Antigas Heresias, que se 
Apresentam com Nova Aparência
Ia edição
CBD
Rio de Janeiro 
2024
Todos os direitos reservados. Copyright © 2024 para a língua portuguesa da 
Casa Publicadora das Assembléias de Deus. Aprovado pelo Conselho de 
Doutrina.
Capa: Elisangela Santos
Projeto gráfico e editoração: Paulo Sérgio Primati 
Revisão: Daniele Soares e Márcio José Estevan
CDD: 230
ISBN: 978-65-5968-463-2
As citações bíblicas foram extraídas da versão Nova Almeida Atualizada, 
edição de 2017, da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.
Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos 
lançamentos da CPAD, visite nosso site: http://www.cpad.com.hr.
SAC — Serviço de Atendimento ao Cliente: 0800-021-7373
Casa Publicadora das Assembléias de Deus 
Av. Brasil, 34.401 - Bangu - Rio de Janeiro - RJ 
CEP 21.852-002 I
Ia edição: 2024 
Tiragem: 45.000
http://www.cpad.com.hr
sumar io
ABREVIATURAS............................................................................................. 9
INTRODUÇÃO..............................................................................................11
Capítulo 1
QUANDO AS HERESIAS AMEAÇAM A UNIDADE DA IGREJA i s
AS AMEAÇAS DOS LOBOS VORAZES 16
O discurso ....................................................................................................
18Novos desafios.............................................................................................
O QUE É APOLOGÉTICA 18
Uma necessidade imperiosa da apologética cristã ...................................18
O QUE SÃO HERESIAS?......................................................................... 20
OS DESAFIOS................................................................................................2 1
Capítulo 2
SOMOS CRISTÃOS ....................................................................................... 23
PREVENINDO CONTRA A TENDÊNCIA JUDAIZANTE 23
A TENDÊNCIA JUDAIZANTE NO INÍCIO DA IGREJA 25
As igrejas da Galácia.....................................................................................25
O Concilio de Jerusalém ............................................................................. 28
A TENDÊNCIA JUDAIZANTE NOS DIAS ATUAIS 28
Qual o significado do termo “cristão”? .................................................... 29
O cristianismo............................................................................................... 3°~
Capítulo 3
A ENCARNAÇÃO DO VERBO 33
HERESIAS QUE NEGAM A CORPOREIDADE DE CRISTO 33
Os grupos gnósticos e suas principais crenças .........................................34
A resposta da patrística................................................................................37
A AFIRMAÇÃO APOSTÓLICA DA CORPOREIDADE DE JESUS 37
O Senhor Jesus Cristo...................................................................................37
O apóstolo João e a encarnação do Verbo .................................................3$
COMO ESSAS HERESIAS SE REVELAM HOJE 40
6 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Capítulo 4
DEUS É TRIÚNO .............................................................................................45
COMO A BÍBLIA APRESENTA A SANTÍSSIMA TRINDADE................. 46
No livro de Gênesis............................. 46
Em outras partes do Antigo Testamento...................................................48
O monoteísmo bíblico e a Trindade ...................................................... 50
O pensamento neotestamentário ................................................................5 1
AS HERESIAS CONTRA A DOUTRINA DA TRINDADE ........................54
O monarquianismo ...................................................................................... 54
UNICISMO: UMA HERESIA ANTIGA NA ATUALIDADE .......................56
Seus ensinos............................... 56
Heresia ou questões secundárias?..............................................................59
Capítulo 5
JE SU S É D E U S .................................................................................................. 6 1
A DOUTRINA BÍBLICA DA DIVINDADE DE JE S U S ............................. 62
A Bíblia ensina que Jesus é Deus .............................................................. 62
Seus atributos absolutos............................................................................ 66
A HERESIA QUE NEGA A DIVINDADE DE JESUS 68
Os monarquianistas dinâmicos................................................................ 68
O arianismo ................................ 69
O Concilio de Niceia..................................................................................... 70
IMPLICAÇÕES DO ARIANISMO NA ATUALIDADE................................73
As testemunhas de Jeo vá..............................................................................73
Textos bíblicos selecionados para negar a divindade de Cristo ............74
Os muçulmanos ............................................................................................ 8 1
Capítulo 6
O FILHO É IGUAL COM O PAI 83
A DOUTRINA BÍBLICA DA RELAÇÃO DO FILHO COM O PAI 83
Significado bíblico geral...............................................................................83
Jesus, o Filho de Deus, igual com o P ai..................................................... 85
O Filho unigênito ........................................................................................ 86
A geração eterna de Cristo .......................................................................... 88
A filiação eterna de Cristo ......................................................................... 90
Fundamentação bíblica ................................................................................9 1
A HERESIA DO SUBORDINACIONISMO............................................... 92
Orígenes ....................................................................................................... 92
COMO O SUBORDINACIONISMO SE APRESENTA HOJE 94
s u m á r i o 7
Capítulo 7
A N ATUREZA HUMANA E DIVINA DE JE SU S .................................... 95
O ENSINO BÍBLICO DA DUPLA NATUREZA DE JE S U S .......................95
Revisando a humanidade e a divindade de Cristo .......... .......................96
A unio personalis no Novo Testamento ................................................... 96
AS HERESIAS CONTRA O ENSINO BÍBLICO DA DUPLA 
NATUREZA DE JE S U S ...............................................................................100
O nestorianismo ......................................................................................... 100
0 monofisismo ............................................................................................101
Capítulo 8
JE SU S VIVEU A EXPERIÊN CIA H U M A N A ......................................... 105
A EXPERIÊNCIA HUMANA NO MINISTÉRIO DE JE S U S .....................10S
Jesus Cristo, homem...................................................................................105
Sua infância.................................................................................................107
A vida social de Jesus ................................................................................. 109
HERESIAS QUE NEGAM A HUMANIDADE DE JE S U S ....................... l l l
Apolinarianismo......................................................................................... 1 1 2
Monotelismo................................................................................................ 1 1 2
Capítulo 9
QUEM É O ESPÍRITO SANTO? 1 15
O CONSOLADOR........................................................................................ 1 16
Sua identidade ............................................................................................ 1 18
SUA DEIDADE, ATRIBUTOSesses ensina- 
dores de enganadores e espírito do anticristo (1 Jo 4.2,3; 2 Jo 7).
0 apóstolo João e a encarnação do Verbo
Há um certo grau apologético no tocante à humanidade de Cristo na 
primeira e na segunda cartas de João. Essa preocupação apostólica se jus­
tifica porque, em seus dias, já haviam sido introduzidos no seio da igreja 
falsos mestres, distorcendo a cristologia ensinada pelos apóstolos. Negar a 
humanidade de Jesus é tão grave quanto negar a sua deidade.
Há quatro passagens neotestamentárias joaninas contundentes contra 
0 docetismo que mostra, com clareza e de maneira direta, que Jesus veio
13 FLUSSER, David. Jesus. São Paulo: Perspectiva, 2019, p. 7.
c a p i t u l o 3 ■ A ENCARNAÇÃO DO VERBO
em carne. O apóstolo emprega o termo grego logos, traduzido em nossas 
versões da Bíblia como “Verbo, Palavra”(Jo 1.14; 1 Jo 1.1); mas também usa 
0 nome direto de Jesus para reafirmar a sua encarnação (1 Jo 4-2,3; 2 Jo 7)- 
A manifestação de Jesus como homem, alguém que viveu entre nos, seres 
humanos, é uma resposta aos gnósticos daquela geração, mas diretamente 
ao heresiarca Cerinto.
O Logos. O apóstolo João começa seu evangelho apresentando Jesus como 
0 Verbo de Deus. Ele usa o termo grego logos, que a maioria de nossas ver­
sões traduz por “Verbo” ou, “Palavra”. Ele emprega esse vocábulo apenas no 
prólogo, duas vezes (Jo 1.1,14), e não no resto do evangelho, pois nele relata 
a história do Jesus Homem, o Verbo feito carne. O apóstolo emprega, ainda,
0 referido termo em sua primeira epístola (1 Jo 1.1) e em Apocalipse 19.13. 
Trata-se de uma palavra que exige explicação para tornar-se compreensível 
ao povo na atualidade, entretanto, era conhecida aos leitores da época.
O “Logos” da filosofia era impessoal, mas o de João é uma Pessoa. O 
“Logos” da filosofia não é 0 mesmo de João 1.1. O Verbo Eterno tornou-se a 
Palavra encarnada quando foi gerado pelo Espírito Santo no ventre de Ma­
ria. Isso quer dizer que 0 Verbo se tornou homem perfeito, com corpo, alma 
e espírito, como descreve a Declaração de Fé das Assembléias de Deus: Em 
sua natureza humana, Jesus participou de nossa fraqueza física e emocio­
nal, mas não de nossa fraqueza moral e espiritual” (Hb 2.17; 4-iS)-
Há inúmeras passagens bíblicas que mostram o aspecto humano de Jesus. 
A introdução do Evangelho de Lucas, nos três primeiros capítulos é uma prova 
incontestável do Jesus historico. Mas, 0 apostolo João foi enfático ao usar uma 
linguagem pitoresca na introdução de sua primeira carta (1 Jo 1.1) que dificulta 
a qualquer pessoa que queira negar a verdadeira humanidade de Cristo, ou seja, 
negar que Ele veio em carne, pois 0 apóstolo apresenta uma descrição.
Chama-nos a atenção os três verbos que o apóstolo usa nessa intro­
dução: ouvir, ver e tocar. João está falando de sua experiência com o Verbo 
encarnado, afirmando categoricamente que Ele esteve e viveu fisicamente 
entre nós com as seguintes palavras: “0 que vimos com os nossos olhos, o 
que temos contemplado, e as nossas mãos tocaram da Palavra da vida” (v. 
íb) - (ARC). O apóstolo usa um tempo verbal para “ouvimos e vimos” (NAA) 
raro no Novo Testamento e até mesmo na cultura grega antiga que indica 
uma ação completada no passado, mas com resultados valendo no presente, 
“denotando os efeitos ainda permanentes do ato de ouvir e ver”.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Parece até uma redundância, “vimos com os nossos olhos”, mas, o pro­
pósito disso é mostrar com muita ênfase, sem deixar dúvida nenhuma, que 
o Senhor Jesus veio em carne ao mundo e pode ser tocado e apalpado pelos 
que com Ele conviveram (Jo 20.27). A presença do nome de Pilatos no Credo 
dos Apóstolos é para estabelecer uma data de um fato histórico: a crucifi­
cação e a ressurreição de Jesus. Tudo isso aponta a falta de fundamentos 
sólidos da cristologia dos gnósticos.
COMO ESSAS HERESIAS SE REVELAM HOJE
Há em diversos grupos religiosos heterodoxos ou crenças inadequadas 
idéias ou alguns lampejos dessa falsa identidade de Cristo, apregoada pelos 
diversos grupos gnósticos.
A doutrina de Cerinto aparece na doutrina da Igreja dos Santos do Últi­
mos Dias, cujos seguidores são conhecidos como mórmons. O mormonis- 
mo nega o nascimento virginal de Jesus e ensina que Jesus não foi gerado 
pelo Espírito Santo. O profeta mórmon, Brigham Young, sucessor de Joseph 
Smith Junior, 0 fundador do referido movimento, escreveu:
Quando a virgem Maria concebeu o menino Jesus, o Pai 
o havia gerado em sua própria semelhança. Não foi gerado pelo 
Espírito Santo. E, quem é 0 Pai? Ele é o primeiro da família 
humana... Jesus, nosso irmão mais velho, foi gerado na carne 
pelo mesmo indivíduo que estava no jardim do Éden, que é o 
nosso Pai no céu... lembrem, agora, desde este tempo em diante, 
e para sempre, que Jesus Cristo não foi gerado pelo Espírito Santo”
(Journal ofDiscourses, vol. 1, pp. 50, 51). O grifo é nosso.14
Esse discurso tem a repulsa de todos os cristãos, é frontalmente oposto 
ao ensino bíblico. A Bíblia afirma com todas as letras que o Senhor Jesus foi 
concebido por obra e graça do Espírito Santo.
Quanto à morte e à ressurreição de Cristo, existem ainda hoje alguns lam­
pejos gnósticos e de parte dos ebionitas. Estamos falando sobre a morte de Jesus 
conforme o ensino do islamismo, pois eles ensinam que Jesus não morreu. E 
o movimento das testemunhas de Jeová, nega a ressurreição corporal de Jesus.
14 Journal ofDiscourses [Jornal de Discursos] são 26 tomos, obra padrão no mormonismo da autoria de 
Brigham Young, profeta e sucessor de Joseph Smith.
c a p í t u l o 3 ■ A ENCARNAÇÃO DO VERBO
Há uma certa semelhança entre o Jesus islâmico do Alcorão e o do 
gnóstico Basílides. 0 islamismo ensina que Jesus não morreu na cruz. Os 
muçulmanos afirmam que Jesus era santo e justo, portanto, não faz sentido 
Deus permitir que alguém como Jesus padeça na cruz. Isso, como se fosse 
comum os justos terem boa acolhida no mundo (Mt 23.35). Por isso, negam 
a sua morte com essas palavras:
E por seu dito: ‘Por certo, matamos 0 Messias, Jesus, Filho 
de Maria, Mensageiro de Allah.’ Ora, eles não 0 mataram nem 
o crucificaram, mas isso lhes foi simulado. E, por certo, os que 
discrepam a seu respeito estão em dúvida acerca disso. Eles não 
têm ciência alguma disso, senão conjeturas, que seguem. E não o 
mataram, seguramente (Alcorão 4.157).
Nas notas explicativas de rodapé nas edições do Alcorão, lê-se que um 
sósia de Jesus foi levado à cruz. “De qualquer modo, o Islão mantém fir­
memente o seu ponto de vista de que Jesus não foi crucificado nem morto, 
mas sim honrado e levado ao pé do próprio Deus”.15 Alguns teólogos muçul­
manos dizem que Jesus foi pregado na cruz, mas que não morreu lá, teria 
sim desmaiado; tirado de lá naquele estado, recuperou-se no túmulo com 
a ajuda das mulheres. Outros dizem que Judas foi confundido com Jesus e 
crucificado, ou um sósia.
Os fatos contra essa posição cristológica do islamismo são esmagadores à 
luz da Bíblia e da história. Toda essa argumentação não faz sentido algum. A 
cruz de Cristo sempre foi escândalo para os que perecem (1 Co 1.23). A morte 
e a ressurreição de Jesus estavam previstas no Antigo Testamento (Is 53.8-10; 
SI 16.10), cumpriram-se e estão registradas no Novo Testamento (Lc 24.44-46) 
para a nossa salvação (1 Co 15.3,4). O sacrifício de Jesus Cristo na cruz mostra 
que 0 homem é completamente incapaz de ir ao céu pela sua própria bondade 
e força. Negar o sacrifício de Jesus na cruz, ou fazê-lo parecer desnecessário, é 
uma forma de invalidar a única maneira de 0 ser humano ser salvo.
Historiadores não cristãos, judeus e romanos, atestaram a morte de 
Jesus. Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século da Era Cristã (37 
-100), escreveu:
15 ABDALATI, Hammudah. O Islão em Foco, 16. International Islamic Federation of Student Organiza- 
tions, Beirut, Lebanon / Damascus, Syria: The Holy Koran Publishing House, 1978, p. 245.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Nesse mesmo tempo, apareceu JESUS, que era um homem 
sábio, se é que podemosconsiderá-lo simplesmente um homem, 
tão admiráveis eram as suas obras. Ele ensinava os que tinham 
prazer em ser instruídos na verdade e foi seguido não somente 
por muitos judeus, mas também por muitos gentios. Ele era o 
CRISTO. Os mais ilustres dentre os de nossa nação acusaram- 
no perante Pilatos, e este ordenou que o crucificassem. Os que o 
haviam amado durante a sua vida não o abandonaram depois da 
morte. Ele lhes apareceu ressuscitado e vivo no terceiro dia, como 
os santos profetas haviam predito, dizendo também que ele faria 
muitos outros milagres. É dele que os cristãos, os quais vemos 
ainda hoje, tiraram o seu nome (Antiguidades Judaicas 18.4.772).16
A literatura judaica antiga também menciona a morte de Jesus. Algu­
mas edições do Talmude inseriram uma baraita,17 que diz 0 seguinte:
Na véspera da Páscoa eles penduraram Yeshu. E um arauto 
saiu adiante dele, durante quarenta dias (dizendo): ‘Ele vai ser 
apedrejado por praticar feitiçaria e seduzir e desviar Israel.
Quem quer que saiba qualquer coisa a favor dele, que venha e 
peça por ele’. Mas não tendo encontrado nada a seu favor, eles o 
enforcaram na véspera da Páscoa.18
O Talmude é o conjunto da Mishná e Guemará. A Mishná é 0 comentário 
das Escrituras (Antigo Testamento Hebraico). Está dividida em seis partes 
ou ordens, do hebraico seder, “ordem”, e estão organizadas em 63 tratados. A 
Guemará é o comentário da Mishná. Há o Talmude Babilônico e o de Jerusa­
lém. O Talmude foi redigido num período de quase mil anos, entre 450 a.C. 
e soo d.C. É reconhecido pelos judeus como tendo a mesma autoridade da 
Bíblia (Antigo Testamento). Esse complexo literário rege a vida judaica até os 
dias de hoje e, desde longa data, tem exercido forte influência na vida do povo.
Tácito também atestou a morte de Jesus. Cornelius Tacitus (55 - 1 17 d.C), 
historiador romano, é autor da obra Anais em que registra a história roma­
na do primeiro século da Era Crista, ao lado de Suetônio (70 - 160 d.C.) e 
Díon Cássios (150-235 d.C.). Veja o que Tácito registrou:
16 JOSEFO, Flávio. História dos hebreus. Rio de Janeiro, CPAD, 2004, p. 832.
17 Tradição rabínica que ficou fora do Talmude. O que importa aqui é a antiguidade do documento.
18 Sanhedrin 43a. Talmud Babilônico.
c a p í t u l o 3 ■ A ENCARNAÇÃO DO VERBO
“Nero apresentou como culpáveis e submeteu às mais 
requintadas torturas os que o vulgo chamava cristãos, aborrecidos 
por suas ignomínias. Aquele de quem levavam o nome, Cristo, foi 
executado no reinado de Tibério pelo procurador Pôncio Pilatos”
(.Anales, XV.44.2,3).
Luciano de Samosata, satirista grego e zombador dos cristãos, por volta 
de 170 escreveu: “Os cristãos, como todos sabem, adoram um homem ate 
hoje - 0 distinto personagem que iniciou seus novos rituais - foi crucificado 
por causa disso”.19
O Dr. David Flusser afirma com todas as letras o Jesus histórico e acres­
centa ainda: “Uma leitura imparcial dos Evangelhos Sinóticos resulta num 
quadro que é mais característico de um fazedor de milagres e pregador ju­
deu do que de um redentor da humanidade”; mais adiante, na mesma pági­
na, acrescenta: “O Jesus retratado nos Evangelhos Sinóticos é, pois, o Jesus 
histórico, não o ‘Cristo querigmático’”.20
O movimento das testemunhas de Jeová ensina uma ressurreição 
de Cristo diferente das tradições cristãs. Os teólogos das testemunhas 
de Jeová também negam, terminantemente, sua ressurreição corporal. 
Eles ensinam que Jesus não ressuscitou corporalmente e que Deus o 
materializou para convencer a Tome, provando ser 0 proprio Jesus que 
estava ali diante dele: “Jesus simplesmente se materializou, ou assu­
miu um corpo carnal, como os anjos haviam feito no passado .21 Eles 
afirmam que Jeová criou outra pessoa com as mesmas características e 
personalidade de Cristo: “Deus 0 ressuscitou, mas não como humano”.22 
O corpo daquele que foi pendurado no madeiro desapareceu, argumenta 
ainda que foi por essa razão que Maria confundiu Jesus com o jardineiro 
em João 20.15.
Deus garantiu que o corpo do Senhor Jesus Cristo não veria a corrup­
ção, isto é, não se deterioraria: “Pois não deixarás a minha alma na morte, 
nem permitirás que 0 teu Santo veja corrupção” (SI 16.10). Essa profecia se
19 Luciano. The Death of Peregrine 11. Citado por Josh McDowell in: Ele Andou Entre Nós, p. 60.
20 FLUSSER, David. Op. cit., p. 3.
2 1 Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract 
Society of New York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1982, 
1989, pp. 144,145 8 9 -
22 Que a Bíblia Realmente Ensina?, (O) Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society of 
New York, Inc.; Cesário Lange, SP: Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2006, p. 73 8 22-
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
cumpriu na ressurreição de Jesus (At 2.24-30); portanto, aquele corpo que 
foi crucificado não pôde ficar na sepultura.
“Jesus se apresentou vivo a seus apóstolos, com muitas provas incontestá­
veis, aparecendo-lhes durante quarenta dias” (At 1.3). Jesus afirma ser Ele mes­
mo e não um corpo materializado, não outro corpo, cuja ressurreição não foi em 
espírito, era Ele mesmo que estava presente, em carne e osso, e que espírito não 
tem essas características materiais (Lc 24.39,40). A Bíblia afirma que 0 túmulo 
de Jesus foi encontrado vazio (Mt 28.6) e onde estava 0 corpo que fora crucifica­
do? O próprio Jesus anunciou que a sua ressurreição seria corporal (Jo 2.19-22).
A ressurreição de Cristo não consiste apenas no fato de Ele tornar a 
viver, pois, se assim fosse, não seria diferente das ressurreições registradas 
no Antigo Testamento, nem Ele podería ser considerado “as primícias dos 
que dormem” (1 Co 15.20); nem o “primogênito dentre os mortos” (Cl 1.18). 
Essa ressurreição é a viga mestra e 0 pilar da religião cristã. É 0 principal 
elemento que distingue o cristianismo de todas as grandes religiões.
Jesus determinou que sua morte e sua ressurreição fossem o centro da 
pregação do evangelho (Lc 24.44-47). 0 apóstolo Paulo diz que negar essa 
verdade é continuar no mesmo estado de pecado e miséria, e que a fé do 
crente não teria sentido. “E, se Cristo não ressuscitou, é vã a fé que vocês 
têm, e vocês ainda permanecem nos seus pecados. E ainda mais: os que 
adormeceram em Cristo estão perdidos” (1 Co 15.17,18). Esse fato é a glorifi­
cação e exaltação de Jesus (Rm 6.4; Fp 3.20,21; Jo 7.39); a vitória esmagadora 
sobre Satanás, o pecado, a morte e o inferno (1 Co 15.54-56; Ap 1.17,18). Ele 
ressuscitou para a nossa justificação, pois sem essa ressurreição não po­
deriamos ser justificados diante de Deus e, assim, estaríamos condenados 
(Rm 4.25). A ressurreição corporal de Jesus é um fato insofismável.
Quando se revela ou se aponta uma heresia, é responsabilidade nossa 
refutá-la à luz da Bíblia, do contrário, 0 que estamos fazendo nada mais é do 
que a propaganda delas; em vez de apologia em defesa da verdade, torna-se 
um anúncio publicitário em favor da causa delas, ainda que indireta.
Qualquer pessoa que lê 0 Novo Testamento, independentemente do seu 
grau de instrução e de sua familiaridade com a Bíblia não terá dificuldade em 
entender que 0 Senhor Jesus veio ao mundo como homem: “Porque há um só 
Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem” (1 
Tm 2.5). Diante de toda a descrição pessoal de Jesus apresentada nos evange­
lhos, o testemunho da história e dos historiadores seculares, é praticamente 
impossível negar 0 Jesus histórico, negar que Ele veio em carne.
capí tu lo 4
DEUS É TRIÚNO
Os teólogos da Torre de Vigia, com a frase “De fato, a palavra ‘Trin­
dade’ nem aparece na Bíblia”23 revelam uma ignorância abissal ou 
têm consciência do que estão fazendo na tentativa de persuadir 
seus leitores com uma doutrina estranha às Escrituras. Isso por­
que é necessário distinguir entre a doutrina da Trindade e a Trin­
dade em si mesma, como bem esclareceu Robert Letham.24 Desde a eterni­
dade Deus é Pai, Filhoe Espírito Santo e essa verdade está em toda a Bíblia. 
Mas, a igreja precisou recorrer a conceitos mais elaborados para responder 
às idéias equivocadas “numa linguagem mais extensa para expressar a rea­
lidade que Deus revelara”, acrescenta Letham.
O que a tradição cristã acredita e ensina tem fundamentação bíblica. 
O pensamento trinitário que apresentamos permeia a Bíblia inteira. Essa 
base bíblica vem sendo mostrada pelos teólogos cristãos desde o período 
patrístico. No entanto, o que os líderes das testemunhas de Jeová fazem 
nada mais é do que pinçar as Escrituras aqui e acolá e buscar em diversas 
traduções da Bíblia palavras que pareçam favorecer suas crenças e práti­
cas, sem considerar a exegese e sem priorizar as línguas originais das Es­
crituras Sagradas. Sua teologia é uma colcha de retalhos, inconsistente e
23 Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna, STV, Cesário Lange, SP, i 9 9 5> P- 3 1» § 22Deus conversando com Deus, Javé em diálogo com Adonai.31
30 O nome “SENHOR” aparece nas versões Almeida da Sociedade Bíblica do Brasil com todas as le­
tras maiúsculas quando se refere ao Tetragrama, as quatro consoantes hebraicas do nome divino 
Vnn (YHWH), “Senhor, Yahiveh”, ou “Javé”, na forma aportuguesada. O correspondente grego na 
Septuaginta e no Novo Testamento é KÚpioç (kyrios). Essas formas, hebraica e grega, são aplicadas 
ao Espírito Santo, isso porque ele é Deus igual ao Pai e ao Filho (SOARES, Esequias. O verdadeiro 
pentecostalismo: A Atualidade da Doutrina Bíblica sobre a Atuação do Espírito Santo. Rio de Janeiro: 
CPAD, 2020, p. 19.)
31 Adhonay é um nome de Deus e não meramente um pronome de tratamento, e nele se expressa a sobe­
rania de Deus no Universo. Afirma Gesenius: ”yn”doa] o Senhor, somente usado para Deus” (Gesenius’ 
Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament. Grand Rapids, Michigan, USA: William B. Eerdmans 
Publishing Company, 1982, p. 12). O nome se aplica somente ao Deus verdadeiro. Essa palavra signi­
fica, “meu senhor”, mas em hebraico essa expressão nunca é usada como pronome de tratamento.
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO
Isaías 6.3 diz que: “a terra está cheia da glória de Javé dos Exércitos”, 
entretanto, o Novo Testamento diz que esse Javé é Jesus. Compare Isaías 
6.3,10 com João 12.40,41. O texto do v. 40 é uma citação de Isaías 6.10, e 0 v. 
41, de Isaías 6.3. Assim, a Bíblia ensina que Jesus é o Deus-Javé dos Exércitos.
O versículo 3 diz que: “a terra está cheia da glória de Javé dos Exércitos”, 
mas o Novo Testamento revela que esse Javé dos Exércitos é o próprio Cris­
to: “Por isso, não podiam crer, porque Isaías disse ainda: ‘Cegou os olhos 
deles e endureceu-lhes 0 coração, para que não vejam com os olhos, nem 
entendam com o coração, e se convertam, e sejam por mim curados. Isaías 
disse isso porque viu a glória dele e falou a respeito dele” (Jo 12.39-41). En­
tão, a terra está cheia da glória do Filho. Mas, a palavra profética não se 
restringe somente a Cristo, o Espírito Santo é identificado também com o 
Javé de Isaías 6.8-10. Isaías ouviu a voz de Javé (v. 8), no entanto, 0 apóstolo 
Paulo afirma que foi o Espírito Santo quem falou (At 28.25-27). Do mesmo 
modo como o Filho, o Espírito Santo também é identificado com o mesmo 
Deus Javé de Israel, assim, essa visão de Isaías é uma revelação, ainda que 
embrionária da Trindade.
A passagem de Isaías 63.8-14 ajuda na compreensão da pluralidade na 
unidade divina no relato da criação.
Foi Javé que se tornou Salvador de Israel (v. 8), mas, em seguida, 0 pro­
feta afirma que 0 “Anjo da sua presença os salvou... e os remiu” (v. 9). Essa 
construção hebraica é expressão única, não existe outro exemplo no Antigo 
Testamento. Afirmar que esse Anjo “é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15) 
e “o resplendor da sua glória e a imagem expressa da sua substancia (Hb 
1.3) é uma realidade praticamente incontestável pelos teólogos, até porque 
está em perfeita harmonia como a obra desse Anjo na história de Israel (Êx 
3.4-6; Jz 13.21,22). Mas, não é só isso, esse Anjo é identificado com o próprio 
Javé nesse próprio contexto, em que, tanto Javé como 0 Anjo de sua face são 
identificados como o mesmo Deus (w. 8, 9). Essa revelação não é única no 
Antigo Testamento (Gn 16.7-13; Nm 20.16).
Ao longo de sua história, os israelitas se rebelaram contra Deus “con- 
tristaram o seu Santo Espírito” (v. 10). O Espírito Santo esteve no meio do 
povo de Israel (v. 11). O Espírito Santo reaparece mais duas vezes nessa 
seção: “Onde está o que pôs nele o seu Espírito Santo?” (v. 11); “Como o 
gado que desce aos vales para repousar, 0 Espirito do SENHOR, lhes deu 
descanso.” Assim, guiaste o teu povo, para adquirires um nome glorioso” (v. 
14). Então, está claro que foi o Espírito de Javé que trouxe o povo para o seu
50 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
descanso; Isaías descreve em linguagem poética e metafórica que o Espírito 
Santo deu descanso aos Israelitas em Canaã e, ao mesmo tempo, a palavra 
profética diz que Javé guiou o seu povo (Is 63.10,11,14).
O Espírito Santo aparece alternadamente com Javé e com 0 “Anjo de 
sua presença”. Se Ele pode ser contristado, logo, é uma pessoa; além disso, 
a sua presença se assemelha a das passagens trinitárias tripartidas do Novo 
Testamento.32 Delitzsch via a Trindade nessa passagem, o Pai no v. 8, o Filho 
no v. 9 e o Espírito Santo no v. 10. Ele disse mais: “Javé, e o anjo de sua face 
e 0 Espírito de sua santidade são distinguíveis como três pessoas”.33
0 monoteísmo bíblico e a Trindade
O Antigo Testamento monoteísta: “Escute, Israel, o Senhor, nosso 
Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). A palavra hebraica 'ehad, traduzida por 
“único” nessa passagem, significa “um, mesmo, único, primeiro, cada, uma 
vez”. Isso tem implicações trinitárias: “a questão da diversidade dentro da 
unidade tem implicações teológicas. Alguns eruditos têm pensado que, em­
bora ‘um’ esteja no singular, o uso da palavra abre espaço para a doutrina 
da Trindade”.34 A mensagem principal, nesse versículo, é o monoteísmo que 
se tornou, ao longo dos séculos, na confissão de fé dos judeus; ainda hoje, 
os judeus religiosos recitam essa passagem três vezes ao dia. A Expressão 
hebraica YHVH 'ehad se traduz também por “Javé é um”, essa construção 
hebraica aparece em Zacarias 14.9: “naquele dia um só será Jeová, e um só 
0 seu nome” (TB).
A palavra hebraica apropriada para “unidade absoluta” éyahid, que traz 
a ideia de “solitário, isolado”,3S mas não é essa a palavra usada em Deute- 
ronômio 6.4, para “um”. Veja que, em Gênesis 2.24, a palavra ehad é usada 
para dizer que o marido e a mulher são ambos “uma só carne”. É nesse 
sentido que entendemos o monoteísmo do Antigo Testamento (2 Rs 19.15; 
Ne 9.6; SI 83.18; 86.10).
O Deus de Israel, revelado nas Escrituras dos judeus, é o mesmo Deus 
do cristianismo, do Novo Testamento: “Jesus respondeu: — O principal é:
32 Lucas 24.49; Romanos 1.1-4; S-i-S! 14-17.18; 15.16. 30; 1 Coríntios 6.11; 2 Coríntios 1.21; Gálatas 3.11- 
14; Efésios 1.17; 2.18-22; 3.3-7,14-17; 1 Tessalonicenses 5.18.
33 DELITZSCH, Franz. D.D. Biblical Commentary on the Prophecies oflsaiah, vol. II. Grand Rapids, MI, 
USA: Eerdmans Publishing Company, 1969, p. 456.
34 HARRIS, R. Laird; ARCHER JR., Gleason L.; WALTKE, Bruce K. Dicionário Internacional de Teologia 
do Antigo Testamento. São Paulo: Edições Vida Nova, 1998, 61.
35 Ibidem, p. 609.
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO
‘Escute, ó Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor! Ame o Senhor, seu 
Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento 
e com toda a sua força’” (Mc 12.29,30).
O apóstolo Paulo pregava para judeus e gentios 0 mesmo Deus revelado 
por Jesus: “O Deus de nossos pais de antemão te designou para que conhe­
ças a sua vontade, e vejas aquele Justo, e ouças a voz da sua boca (At 22.14). 
Veja 0 que ele ensina nas epístolas, “Todavia para nós há um só Deus, o Pai, 
de quem é tudo e para quem nós vivemos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo 
qual são todas as coisas, e nós por ele” (1 Co 8.6). “Ora, o medianeiro não o 
é de um só, mas Deus é um” (G1 3.20). “Um só Deus e Pai de todos, o qual é 
sobre todos, e por todos e em todos vós” (Ef 4.6).
A mesma Bíblia que ensina haver um só Deus, e que Deus é um só, 
ensina também que o Pai é Deus, o Filho e Deus e 0 Espírito Santo e Deus. 
O termo “Pai”, pater, em grego, aparece cento e trinta e seis vezes no Evan­
gelho de João, sendo que cento e vinte vezes se refere a Deus.36 Gordon D. 
Fee, em seu livro Paulo, 0 Espírito Santo e 0 povo de Deus, afirma que 80% 
da menção do nome “Deus” nas epístolas paulinas se refere ao Deus Pai. O 
nome “Deus” se aplica ao Pai sozinho (Fp 2.11), da mesma forma ao Filho 
(Cl 2.9) e ao Espírito Santo (At 5.3,4)- Aparece, na maioria das vezes, com 
referência à Trindade (Dt 6.4). Isso também ocorre com o Tetragrama (as 
quatro consoantes do nome divino YHWH), pois aplica-se ao Pai sozinho 
(SI 110.1), ao Filho(comp. Is 40.3; Mt 3.3) e ao Espírito Santo (Ez 8.1,3). No 
entanto, aplica-se também à Trindade (Dt 6.4; SI 83.18).
0 pensamento neotestamentário
O Novo Testamento não contradiz o Antigo, mas torna explícito o que 
dantes estava implícito, pois a unidade de Deus não é absoluta. Deus não 
é uma mônada estéril, de modo que as Escrituras Sagradas dos judeus 
revelam a unidade na Trindade, ao passo que o texto sagrado da Nova 
Aliança revela a Trindade na unidade. A doutrina da Trindade não neu­
traliza e nem contradiz a doutrina da Unidade e nem a doutrina da Uni­
dade anula a Trindade. A Trindade bíblica pregada pelos cristãos consiste 
em um só Deus em três Pessoas, não três deuses, que seria uma tríade e 
não uma trindade.
36 KÕSTENBERGER, Andreas J. & SWAIN, Scott R. Pai, Filho e Espírito Santo: A Trindade e o evange­
lho de João. São Paulo: Vida Nova, 2014, p. 80.
52 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Mateus 28.19. O Deus da Bíblia é uno e trino, subsiste eternamente em três 
pessoas distintas e essa verdade pode ser vista na fórmula batismal: “Portan­
to, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, 
do Filho e do Espírito Santo”. Essa é a passagem bíblica mais contundente em 
favor da Trindade porque menciona um único nome e três pessoas. Nela está
0 conceito trinitário muito claro e vivido. Trata-se de um resumo da realidade 
divina ensinada por Jesus durante o seu ministério acerca de si mesmo e do 
Pai (Mt 11.27) e do Espírito Santo (Mt 12.28). O texto sagrado está apresen­
tando três Pessoas distintas em uma só Divindade. “Em nome” quer dizer 
em nome de Deus, do único Deus que subsiste eternamente em três Pessoas.
1 Conntios 12.4-6. “4 Ora, os dons são diversos, mas 0 Espírito é o mesmo. 
5 E também há diversidade nos serviços, mas 0 Senhor é o mesmo.6 E há di­
versidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos”. 
0 “Espírito” (v.4) é 0 Espírito Santo. O “Senhor” (v. 5) refere-se ao Filho, e 
“Deus” (v. 6), ao Pai. 0 nome “Deus”, theos, no Novo Testamento grego, quando 
vem acompanhado do artigo e sem outra qualificação, refere-se sempre ao 
Pai. O apóstolo ensina a unidade de Deus, uma só essência e substância, em 
diversidade de manifestações de cada Pessoa distinta. Nessa Trindade, não há 
primeiro nem último, as três Pessoas são iguais, nessa passagem estão na or­
dem inversa em relação a Mateus 28.19. Essa opção pode ser explicada porque 
0 assunto dos capítulos 12 a 14 de 1 Coríntios são os dons do Espírito Santo.
2 Coríntios 13.13. “A graça do Senhor Jesus Cristo, e 0 amor de Deus, e a 
comunhão do Espírito Santo seja com todos vocês”. A Trindade, em Mateus 
28.19, começa com 0 Pai, em 1 Coríntios 12.4-6, com o Espírito Santo, e em 
2 Coríntios 13.13, com 0 Filho. É a mais bela bênção das epístolas paulinas e 
mostra a função abençoadora de cada uma dessas três Pessoas. Ela é conhe­
cida como “bênção apostólica”, bem que poderia também ser chamada de 
“bênção trinitária”. Há nessa passagem um certo paralelismo com a bênção 
sacerdotal (Nm 6.24-26). A graça, o amor e a comunhão são propriedades de 
pessoas e não de energia, força ativa ou de qualquer coisa impessoal. Deus 
é Pai, Filho e Espírito Santo na concepção paulina.
Efésios 4.4-6. “Há somente um corpo e um só Espírito, como também é 
uma só a esperança para a qual vocês foram chamados. Há um só Senhor, 
uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos,
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO 53
age por meio de todos e está em todos”. A unidade da igreja, o corpo de 
Cristo, gira em torno das três pessoas da Trindade. Essa passagem mostra 
a distinção de operações e funções do Deus trino. É justamente isso que o 
texto bíblico está afirmando: não confundir as Pessoas, Pai é Pai, Filho é 
Filho e Espírito Santo é Espírito Santo. Um só Pai, um só Filho e um só Es­
pírito Santo: As três pessoas estão presentes, agindo cada uma na sua esfera 
de atuação, em perfeita harmonia e perfeita unidade.
1 Pedro 1.2 . “Eleitos, segundo a presciência de Deus Pai, em santificação 
do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo”. A 
salvação é obra do Deus trino, o Pai idealizou a salvação, o Filho a realizou 
e o Espírito Santo a consumou. O Pai é responsável pela eleição, segundo a 
sua presciência; a redenção realizada no Calvário pela “aspersão do sangue 
de Jesus”, o Filho; e a santificação dos salvos é obra do Espírito Santo.
Há ainda várias passagens tripartidas no Novo Testamento que reve­
lam a Trindade.37 Além das declarações bíblicas apresentadas aqui, há ou­
tras evidências contundentes que fundamentam essa doutrina. Cada uma 
dessas Pessoas é chamada, individualmente, de Deus e Senhor.
Até reconhecemos que o termo “pessoa” é inadequado para aplicar às 
três identidades distintas da Trindade. Os pais gregos evitavam usar esse 
termo para identificar o Pai, o Filho e o Espírito Santo na Trindade. A pa­
lavra “pessoa” provém do grego prosõpon, “rosto, face, expressão”, e pessoa 
é um termo menos técnico, pois, nas controvérsias cristológicas do quar­
to século, usava-se hipostasis ou subsistentia para se referir às Pessoas da 
Trindade ou à Pessoa de Cristo. Seu equivalente latino é persona, termo 
usado por Tertuliano com o sentido de “máscara” para refutar as heresias 
sabelianistas. Essa palavra tinha conotação com a máscara que o ator usava 
para representar um personagem no teatro grego. Aplicando-a para o que 
chamamos de “Pessoas” na Trindade, poderia induzir alguém ao sabelia- 
nismo ou modalismo. Por essa razão, os pais da igreja preferiam chamar 
essas “Pessoas” de homoousios, “um ser”, ou hipostasis, “forma de ser” ou 
“de existir”. Hipóstase provém de duas palavras gregas hypo, “sob”, e ista- 
thai, “ ficar”. Nas discussões teológicas sobre a doutrina da Trindade, na era 
da patrística, era usada como sinônimo de ousia, “essência, ser”.
37 Lucas 24.49; Romanos 1.1-4; 5.1-5514-i7> 18; iS-i6> 30; 1 Conntios 6.11; 2 Conntios 1.21, 22; Gaiatas 
3.11-14; Efésios 1.17; 2 .i 8 -2 2 ;3 .3-7,14-17; 1 Tessalonicenses 5.18.
54 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
0 nosso conceito da palavra “pessoa” diz respeito à parte consciente do 
ser humano que pensa, decide e sente, constitui seu caráter, identidade e 
individualidade. Por isso, não devemos confundir “pessoa” com o “homem, 
o ser humano”. A pessoa é o “eu” de cada um. É até possível o uso alternativo 
de “pessoa” e “homem” como ser, indivíduo, sujeito, personalidade, identi­
dade, caráter, mas isso nunca deve acontecer quando o assunto diz respeito 
às três Pessoas da Trindade, nesse caso é necessário haver restrição, pois 
não se trata de três seres, indivíduos ou sujeitos, mas de três identidades 
conscientes. A Trindade é a união de três identidades pessoais em um só 
Ser, Indivíduo, Deus, uma só substância ou essência. A natureza divina é 
uma, mas, as Pessoas divinas, três. Quando falamos, portanto, das três Pes­
soas da Trindade, não estamos falando de três Seres.
AS HERESIAS CONTRA A DOUTRINA DA TRINDADE
A Bíblia revela a triunidade de Deus sem necessitar de definições teoló­
gicas e o destinatário original de cada texto bíblico compreendia com clare­
za a unidade na Trindade e a Trindade na unidade.
A expansão do cristianismo no vasto império romano era geográfica e 
intelectual (Rm 15.19; Cl 1.6). A pregação do evangelho passou a se defrontar 
nas diversas tradições gregas e romanas (At 16.21; 17.18-22). Mas, a maneira 
de pensar desses movimentos culturais e intelectuais exigia formulações 
teológicas precisas e racionais na comunicação da verdade cristã, somando- 
-se a isso o surgimento de heresias e muitos movimentos heterodoxos como 
os ebionitas, os gnósticos, os monarquianistas, os arianistas entre outros. 
Assim, chegou um momento em que a simples repetição de passagens bí­
blicas já não era mais suficiente. Isso exigia da liderança da igreja definições 
teológicas mais claras e racionais.
Eram duas as principais heresias contra a Trindade: o unicismo e 0 
unitarismo.Ambas contrárias ao pensamento cristão apostólico, rejeitadas 
pelas igrejas antigas e condenadas pelos principais ramos do cristianismo. 
O unitarismo será estudado no capítulo seguinte.
0 monarquianismo
O monarquianismo foi 0 movimento que surgiu depois da metade do 
segundo século em torno do monoteísmo cristão. Os monarquianistas se 
dividiam em dois grupos: os dinâmicos, que ensinavam ser Cristo Filho
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO
de Deus, mas por adoção; e os modalistas, que ensinavam ser Cristo ape­
nas uma forma temporária da manifestação do único Deus. Tertuliano, que 
polemizou com eles, os chamou de monarquianistas (Contra Práxeas, II), 
do grego monarchia, “governo exercido por um único soberano”.38 Eram os 
opositores da doutrina do Logos, os alogoi,39 aqueles que rejeitavam o Evan­
gelho de João. O tema sobre o monarquianismo dinâmico será retomado no 
capítulo seguinte.
Os monarquianistas modalistas não negavam a divindade do Filho nem 
a do Espírito Santo, mas sim, a distinção destas Pessoas, o que é, diame­
tralmente, oposto aos ensinos do Novo Testamento, visto que este ensina a 
unidade composta de Deus em três Pessoas distintas. Esses modalistas pre­
gavam a unidade absoluta de Deus. Seus principais representantes foram 
Noeto, Práxeas e Sabélio.
Noeto era natural de Esmirna, segundo Hipólito de Roma, ele ensina­
va que “Cristo era o próprio Pai, e o próprio Pai nasceu, sofreu e morreu” 
(Homília Sobre a Heresia de Noeto, 1). Cipriano (200-258), bispo de Carta- 
go, chamou a heresia de Noeto de “patripassionismo” (Epístolas, 72.4), do 
latim pater, “pai”, e passus, de patrior, “sofrer”. Práxeas foi discípulo de 
Noeto e o seu principal opositor foi Tertuliano em Contra Práxeas. Tertu­
liano disse que “Práxeas fez duas obras do demônio em Roma: expulsou 
a profecia e introduziu a heresia; fez voar 0 Paracleto e crucificou o Pai” 
(Contra Práxeas, I).
Desta escola destacou-se o bispo Sabélio que se tornou um grande 
líder desse movimento (por isso os seus seguidores foram chamados de 
sabelianistas ou sabelianos). Por volta de 21S, Sabélio já ensinava suas 
doutrinas em Roma, segundo ele, 0 Pai, 0 Filho, e o Espírito Santo são três 
faces, semblantes ou nomes agindo na história e não eram três pessoas 
distintas, mas apenas os três aspectos do Deus único, “um só Deus se 
manifesta como Pai no AT, como Filho na Encarnação, descendo sobre os 
apóstolos em Pentecostes”.40
O sabelianismo ganhou espaço por mais ou menos cem anos em Roma, 
Ásia Menor, Síria e Egito. Em 263, Dionísio de Alexandria enfrentou o pró­
38 JONES, Stuart & McKENZIE. Liddell & Scott, Greek-English Lexicon. London: Oxford University 
Press. p. 1143.
39 Logoi, plural de logos, “Verbo, Palavra"; alogoi, contrários à doutrina do Logos.
40 BERARDINO, Ângelo di (ed.). Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs. Petrópolis RJ/S. Paulo: 
Editora Vozes/Paulus, 2002, p. 1238.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
prio Sabelio, derrotando o sabelianismo. Depois disso, o cristianismo pas­
sou a repudiar esse pensamento e o combate à essa heresia continuou até 
que ela desaparecesse completamente da história. Depois de muitos sécu­
los, essa heresia foi trazida de volta por John G. Schepp, fundador do movi­
mento “Só Jesus”, em 1913.
UNICISMO: UMA HERESIA ANTIGA NA ATUALIDADE
Os movimentos unicistas de hoje são um desdobramento da antiga 
doutrina modalista rejeitada pelas igrejas dos primeiros séculos. Há muita 
coisa em comum entre os unicistas modernos e os antigos sabelianistas, 
mas não são exatamente iguais. Os principais movimentos unicistas de hoje 
são os movimentos, Só Jesus, Tabernáculo da Fé e a Igreja Voz da Verdade, 
do conjunto musical de mesmo nome, que se constitui no principal grupo 
unicista no Brasil, que se destaca por causa do seu grupo musical.
Seus ensinos
Ha quatro pontos fundamentais em que os unicistas modernos diferem 
dos evangélicos, os quais foram defendidos pelos sabelianistas da antigui­
dade, a saber: a natureza de Deus, a natureza de Cristo, a fórmula batismal 
e 0 significado do batismo. Tudo isso é contrário à ortodoxia cristã universal 
e, em particular, à nossa doutrina.
Os unicistas defendem o monoteísmo, mas negam a doutrina da Trin­
dade. Eles ensinam que Deus e Jesus, ao passo que a doutrina trinitária 
ensina que Jesus e Deus. Isso não e apenas um jogo de palavras, mas indica 
que o Deus deles não é o mesmo revelado nas Escrituras, é outra divinda­
de. Todos esses grupos pregam que o Pai, o Filho e Espírito Santo são uma 
so Pessoa, e não tres Pessoas em uma so divindade. Todos esses grupos 
religiosos heterodoxos pinçam a Bíblia aqui e acolá em busca de subsídios 
para consubstanciar suas crenças peculiares, e, assim, poderem dar às suas 
doutrinas uma roupagem bíblica.
Eles ensinam que o nome de Deus é Jesus, e isso, com base numa inter­
pretação peculiar da ordem de Jesus: “Portanto, vão e façam discípulos de 
todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” 
(Mt 28.19). Note que o Senhor Jesus fala apenas de um único nome, o texto 
não diz “em nome do Pai, em nome do Filho e em nome do Espírito Santo”, 
mas “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. A palavra “nome”, no
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO 57
singular, é distributiva nessa passagem como acontece no texto hebraico de 
Rute 1.2: “e 0 nome dos seus dois filhos, Malom e Quiliom”. Embora apare­
ça no plural em nossas versões: “e os nomes de seus dois filhos, Malom e 
Quiliom”, no entanto, no hebraico e na Septuaginta, está no singular. Outro 
exemplo, encontramos em Gênesis 48.16: “seja chamado neles 0 meu nome 
e o nome de meus pais Abraão e Isaque”. Se 0 vocábulo “nome”, onoma, no 
original grego, fosse empregado no plural, seria necessário dar mais um 
nome a cada uma dessas Pessoas. Não faz sentido algum afirmar nessa pas­
sagem que 0 nome de Deus é Jesus, ainda mais num texto trinitário.
Os unicistas de hoje e da antiguidade citam algumas passagens bíblicas 
que eles julgam favorecer sua doutrina como Isaías 9.6; João 10.30; 14.8,9,18.
A expressão “Pai da eternidade” (Is 9.6) não está afirmando que 0 Fi­
lho seja o Deus Pai, mas Pai da eternidade. O título de “Pai” se diferencia 
dos demais títulos e funções de Deus porque nunca se aplica a Jesus nem 
ao Espírito Santo. Há uma vasta lista de atributos, títulos, funções e obras 
do Deus Pai presentes no Filho e no Espírito Santo, mas o título de Pai é 
exclusivo ao Pai.
O bispo Sabélio costumava citar essa palavra profética de Isaías para 
fundamentar a crença unicista de que Pai é Filho e Filho é Pai. Mas, o que a 
Bíblia ensina nesse versículo é 0 Messias, como rei, “O governo está sobre 
os seus ombros”, Ele é pai do seu povo: “Ele será como um pai para os mo­
radores de Jerusalém e para a casa de Judá” (Is 22.21), e não o Deus-Pai. O 
Filho é Deus igual ao Pai (Jo 5.17,18; 10.30), mas não é o Pai, senão “o Filho 
do Pai” (2 Jo 3).
Os unicistas costumam citar João 10.30: “Eu e 0 Pai somos um”. O texto 
afirma que Jesus é Deus igual ao Pai, mas não a mesma Pessoa do Pai. O 
adjetivo numeral “um” no grego, nessa passagem, está no gênero neutro, 
hen, ou seja, “um” se trata de “um Deus” e não de uma Pessoa, Eu (Filho). 
Assim, Jesus está falando de duas Pessoas numa só divindade. Além disso, 
o verbo está no plural “somos” e não no singular “sou”; não pode, portanto, 
Pai e Filho serem uma mesma Pessoa.
Outras passagens prediletas de Sabélio e muitos unicistas ainda hoje 
são: João 8.19; 12.45; 14.8-10, 18. Convém analisar essas palavras de Jesus 
para saber o que realmente elas significam.
“Então eles lhe perguntaram: — Onde está o seu Pai? Jesus respon­
deu: — Vocês não conhecem a mim e não conhecem 0 meu Pai; se co­
nhecessem a mim, também conheceríam o meu Pai” (Jo 8.19) e “E quem
58 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
vê a mim vê aquele que me enviou” (Jo 12.45). Estes textos foram usados 
pelo próprio Sabélio para consubstanciar 0 seu unicismo. Mas, a inten­
ção principal de João é assegurar que o Painão é um Deus diferente 
daquele revelado por Cristo e que não há outro lugar que o Pai possa ser 
visto por alguém a não ser em Jesus. Isso está muito longe de ser enten­
dido ser Jesus a encarnação do Pai.
Isto foi usado por Sabélio para consubstanciar 0 seu unicismo. Essa 
passagem, como a de João 10.30, é ainda hoje usada pelos modernos sabe- 
lianistas. Na verdade, essa relação intratrinitariana do Pai, do Filho e do 
Espírito Santo, em teologia, se chama pericorese, ou seja, refere-se à ha­
bitação das Pessoas da Trindade uma na outra, como já foi mencionado 
acima. Atanásio dizia que as palavras de Jesus “Você não crê que eu estou 
no Pai e que 0 Pai está em mim?” significam que o Filho está junto do Pai e, 
com isso, “ninguém pode dizer ‘Pai’ se não existisse um Filho” (Contra os 
arianos, Livro III.6.3). Além disso, 0 versículo seguinte, “as palavras que eu 
vos digo, não as digo de mim mesmo, mas 0 Pai, que está em mim, é quem 
faz as obras” (v. 10), contraria os argumentos unicistas, revelam o equívoco 
deles, pois diferencia a Pessoa do Filho da do Pai.
A promessa de Jesus: “Não deixarei que fiquem órfãos; voltarei para 
junto de vocês” (Jo 14.18) quer dizer, de fato, que ele virá mediante o Espíri­
to Santo, mas, ao chamar 0 Espírito de “outro Consolador” ou “Ajudador”, 
Jesus faz “nítida distinção entre Ele mesmo e 0 Espírito Santo, como pessoa 
distinta. Jesus não é 0 Espírito”.41 Nós, trinitarianos, cremos que Jesus é 
Deus, mas, para os unicistas, Deus é Jesus, pois para eles, não existe Trin­
dade, de modo que o Deus deles não é 0 mesmo Deus revelado na Bíblia, é 
outra divindade. O apóstolo Paulo fala de um outro Jesus, estranho ao Novo 
Testamento: “outro Jesus, diferente daquele que nós pregamos” (2 Co 11.4). 
O conceito unicista anula a obra mediadora entre Deus e os seres humanos. 
A salvação é obra do Deus Trino e Uno (1 Pe 1.2).
Os adeptos dos movimentos unicistas defendem 0 batismo só em nome 
de Jesus e ensinam que a salvação depende dessa prática. Segundo Craig S. 
Keener, esse batismo em nome de Jesus se distingue “de outras práticas de 
imersão judaicas... Para Lucas, o batismo em nome de Jesus não envolve 
uma fórmula ritual proferida sobre um iniciado, mas sim, 0 novo crente 
invocar 0 nome do Senhor Jesus”. Os apóstolos pregaram em nome de Jesus,
4 1 HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2018, p. 135.
c a p í t u l o 4 ■ DEUS É TRIÚNO 59
curaram enfermos em nome de Jesus, expulsaram demônios em nome de 
Jesus e também batizaram na autoridade do nome de Jesus, é o significado 
do batismo “em nome de Jesus Cristo” (At 2.38); “em nome do Senhor Jesus” 
(At 8.16; 10.48; 19.5), mas a fórmula batismal é “em nome do Pai, e do Filho 
e do Espírito Santo” (Mt 28.19).
Os unicistas mutilam a personalidade do Pai e do Filho, com a doutri­
na das “manifestações” (1 Jo 2.22,23; 5.5,9). Ninguém no mundo chega a 
tal conclusão simplesmente pela leitura da Bíblia, salta à vista de qualquer 
leitor da Bíblia a distinção dessas três pessoas da Trindade, a começar pelo 
batismo de Jesus (Mt 3.16). A manifestação das três pessoas é inconfundível 
no batismo de Jesus, 0 Filho saindo das águas do Jordão, o Espírito Santo 
descendo sobre Ele e a voz do Pai falando desde 0 céu.
Reiteradas vezes, Jesus deixou claro que ele é uma Pessoa e o Pai outra: 
“Também na Lei de vocês está escrito que o testemunho de duas pessoas 
é verdadeiro. Eu dou testemunho de mim mesmo, e 0 Pai, que me enviou, 
também dá testemunho de mim” (Jo 8.16,17); disse ainda que essa doutrina 
não é uma mensagem alternativa, mas uma questão de vida ou morte: “E 
a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus 
Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Isso significa que a Trindade é essencial 
no plano divino da salvação. Se o Pai é o mesmo Filho, como pregam os 
unicistas, a quem Jesus ofereceu o sacrifício pelos nossos pecados? A quem 
Jesus pagou 0 preço da nossa redenção? (Lc 23.46). Jesus entregou 0 seu 
espírito a outra Pessoa, ao Pai.
Muitas vezes, 0 Senhor Jesus se dirigia ao Pai como outra Pessoa (Mt 
20.23; Mt 26.39,42); também, nos seus discursos (Jo 5.18-23; 8.19; 10.18; 
11.41,42); e, na oração sacerdotal de Jesus em João 17. Trata-se de um rela­
cionamento do tipo eu, tu, ele. Isso pode ser visto quando Ele anuncia a vin­
da do Consolador, emprega a terceira pessoa (Jo 14.16,26). A Bíblia ensina 
que Jesus é “o Filho do Pai” e não 0 próprio Pai (2 Jo 3), isso significa que não 
pode ser 0 próprio Pai 0 mesmo Filho.
Heresia ou questões secundárias?
Há os que acham que esse problema não é grave, dizendo que 0 Es­
pírito Santo não está preocupado com sistema teológico, como trinitaria- 
nismo e nem com o unicismo. Discordamos dessa posição, pois é 0 mes­
mo que dizer que o Espírito Santo não está preocupado com a verdade. A 
Bíblia chama o Espírito Santo de “Espírito da verdade” (Jo 14.16,17; 15.26)
60 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
e “o Espírito é a verdade” (1 Jo 5.6). Os dois sistemas teológicos, unicismo 
e trinitarianismo são excludentes. Não é possível conciliar os dois. Um 
desses sistemas não é verdadeiro.
O que dizer de pessoas convertidas por meio do ministério de músicas 
unicistas? O poder é da Palavra, e não do tal movimento, ela é a semente, 
mesmo sendo semeada por mãos enfermas e infeccionadas, a semente vai 
germinar. Jesus falou sobre isso no Sermão do Monte (Mt 7.21-23). Con­
vém lembrar que ninguém está autorizado a fundar doutrinas sobre expe­
riências humanas. As emoções caíram com a natureza humana no Éden 
(Jr 17.9), não servem como instrumento aferidor da doutrina. Mesmo que 
as experiências sejam milagrosas, a Bíblia diz que Satanás se transfigura 
em anjo de luz (2 Co 11.13-15) e oferece, portanto, experiências espirituais 
falsas. Jesus disse que os falsos profetas são reconhecidos pelos frutos e não 
pelos milagres e maravilhas. A Bíblia é a única fonte de doutrina e não as 
nossas emoções. Portanto, dizer que se sente bem ao escutar certa música 
não garante que sua teologia é bíblica.
O unicismo é condenado na Bíblia, considerado heresia pelas igrejas 
desde a sua origem e rejeitado pelos principais ramos do cristianismo e 
pela Declaração de Fé das Assembléias de Deus no Brasil (III.2). A nossa 
Convenção, a CGADB, divulgou um manifesto contra 0 unicismo e o uso 
de suas músicas em nossas igrejas. A maioria de nossa liderança tem se 
posicionado contra essa heresia. A importância dessa decisão é para evitar 
que se adore a outro Jesus, um Jesus falso, diferente do revelado no Novo 
Testamento (2 Co 11.4). O Deus que é louvado nessas músicas não é trino e 
uno, e isso seus mestres declaram abertamente aos quatro ventos. Mas, é 
importante destacar que não somos contra os unicistas, mas contra 0 uni­
cismo. Devemos manter contato respeitoso no nosso dia a dia com essas 
pessoas, embora discordando de suas crenças, de maneira educada. Isso 
vale para cultores de crenças inadequadas, mas não devemos compartilhar 
de suas crenças (2 Jo 10,11).
A doutrina de Deus é 0 primeiro de todos os mandamentos, é uma 
questão de vida ou morte, não é, portanto, mensagem alternativa. Salta à 
vista de qualquer leitor da Bíblia a pluralidade na divindade. O ensino do 
Senhor Jesus e de seus apóstolos expressava a fé em um só Deus, mas, ao 
mesmo tempo,eles ensinavam a deidade do Pai, do Filho e do Espírito San­
to. De modo que podemos afirmar com embasamento bíblico que o Jesus de 
suas músicas não é 0 mesmo que nós servimos, mas outro Jesus.
capí tu lo 5
JESUS É DEUS
A
 Bíblia ensina e afirma, de maneira explícita, que Jesus é Deus igual 
ao Pai, portanto, da mesma essência ou substância. Convém ressal­
tar que Jesus não é metade Deus e metade homem, nada foi mudado 
na encarnação, portanto, Ele é o perfeito homem “Jesus Cristo ho­
mem” (1 Tm 2.5) e o perfeito Deus, em toda a plenitude “porque nele 
habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9). O termo grego 
morphè, ”forma”, usado pelo apóstolo Paulo em“sendo em forma de Deus” 
(Fp 2.6) indica essência imutável, portanto, Jesus jamais deixou de ser Deus.
É digno de nota que os apóstolos João e Paulo, como os demais, eram 
judeus e foram criados num contexto monoteístico; portanto, não ad­
mitiam, em hipótese alguma, outra divindade, senão só, e somente só, o 
Deus Javé de Israel (Mc 12.28-30). Observemos que, a cada fala do Senhor 
Jesus a respeito de sua divindade, de sua igualdade com 0 Pai, 0 próprio 
apóstolo João registra a reação dos judeus como protesto (Jo S.18; 8.58, 
59; 10.30-33). Seus interlocutores entendiam esse discurso, embora não 
o aceitassem. Mesmo assim, esses apóstolos não hesitaram em declarar, 
com ousadia e abertamente, a deidade absoluta de Jesus (Jo 20.28; Rm 9.5; 
Cl 2.9; Tt 2.13; 1J05.20).
A Bíblia revela que Jesus é o verdadeiro Deus tanto textualmente como 
pelos seus atributos e suas obras. Ele possui os mesmos nomes e títulos 
divinos, como Javé dos Exércitos e Criador. As Escrituras mostram diversas
62 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
vezes o Senhor Jesus ao lado do Pai, revelando, assim, a sua divindade e 
também a sua igualdade com o Pai nos seus atributos incomunicáveis.
O apóstolo João, como judeu monoteísta instruído na sinagoga, não 
apresentou um novo Deus, mas colocou o Verbo dentro da divindade dos 
seus antepassados. O apóstolo não admitia, em hipótese alguma, outra di­
vindade, no entanto, no prólogo do seu evangelho, ele descreve o Verbo com 
os atributos da deidade, aqueles que mais se destacam no seu relato do co­
meço ao fim. O presente estudo se concentra na deidade absoluta de Jesus 
conforme as Escrituras e refuta, à luz da Bíblia, as heresias cristológicas.
A DOUTRINA BÍBLICA DA DIVINDADE DE JESUS
A divindade de Jesus é um fato bíblico revelado de três maneiras, de 
forma direta e com todas as letras, como em João 1.1, “e o Verbo era Deus”; 
pelos seus atributos divinos: onipotência (Ap 1.8), onisciência (Jo 21.17), oni­
presença (Mt 28.20) e eternidade (Hb 13.8); e pelas suas obras e títulos: Cria­
dor (Jo 1.3), Salvador (Fp 3.20); Santificador (1 Co 6.11); Preservador (Hb 1.3).
A Bíblia ensina que Jesus é Deus
Há inúmeras referências bíblicas em defesa da divindade de Cristo, que 
revelam o Senhor Jesus como Deus e Senhor, ou seja, 0 Deus Javé de Israel.
Isaías 9.6: Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu. O governo 
está sobre os seus ombros, e 0 seu nome será: “Maravilhoso Conselheiro”, 
“Deus Forte”, “Pai da Eternidade” “Príncipe da Paz”. Essa profecia é messiâ­
nica e fala do nascimento e do ministério de Jesus. A própria organização das 
testemunhas de Jeová reconhece que 0 texto sagrado se refere a Jesus.42 Dos 
nomes apresentados, um diz expressamente que ele é Deus, “Deus Forte”, e, 
outro, revela um atributo moral exclusivo da deidade, “Pai da Eternidade”.
Jeremias 23.5,6: “Eis que vêm dias, diz o Senhor, em que levantarei a Davi 
um Renovo justo; e, como rei que é, reinará, agirá com sabedoria e executa­
rá o juízo e a justiça na terra. Nos seus dias, Judá será salvo, e Israel habitará 
seguro. E este será o nome pelo qual será chamado: “Senhor, Justiça Nossa”;
42 Deve-se Crer na Trindade? Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society o f New York,
Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1989. p. 28.
c a p í t u l o 5 • JESUS É DEUS
ou: Javé, “Jeová é a Nossa Justiça” (TB). Trata-se de outra profecia messiâ­
nica em que se descreve atributos e títulos de Jesus: renovo de Davi, renovo 
justo, rei de toda a terra, salvador de Israel. Essas descrições estão reveladas 
no Novo Testamento na pessoa de Jesus (Rm 1.3; At 3.14; 4.12; Ap 19.16). Por 
fim, 0 Renovo de Davi, o Messias, é chamado de “Javé Justiça Nossa”.
Zacarias 12.10: “E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém 
derramarei 0 Espírito de graça e de suplicas; e olharão para mim, a quem 
traspassaram; e o prantearão como quem pranteia por um unigênito; e cho­
rarão amargamente por ele, como se chora amargamente pelo primogêni­
to”. O Deus Javé de Israel que aparece nessa profecia pela expressão “e olha­
rão para mim, a quem traspassaram” é identificado no Novo Testamento 
com o Senhor Jesus: “E outra vez diz a Escritura: “Olharão para aquele a 
quem traspassaram” (Jo 19.37)-
Zacarias 14.5: “Vocês fugirão pelo meu vale entre os montes, porque esse 
vale chegará até Azai. Sim, vocês fugirão como fugiram do terremoto nos 
dias de Uzias, rei de Judá. Então virá 0 Senhor, meu Deus, e todos os santos 
virão com ele”. Essa profecia é escatológica e fala do grande livramento de 
Jerusalém, por ocasião da segunda vinda de Jesus. Aqui, o Messias e chama­
do de “Javé, meu Deus”, com todos os santos com ele. Compare essa profecia 
com a citada em Judas 14.
João 1.1-3: “No princípio era 0 Verbo, e 0 Verbo estava com Deus, e 0 Verbo era 
Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, 
e, sem ele, nada do que foi feito se fez”. Essa passagem bíblica está adulterada 
na Tradução do Novo Mundo: “e a Palavra era [um] deus” (edição de 1986); “e a 
Palavra era um deus” (edição de 2014). Em todas essas edições, 0 nome Deus é 
substituído pela palavra “deus”, com “d” minúsculo, linguagem típica que apa­
rece na Bíblia para identificar as divindades falsas (Jr 10.11; G14.8). Na segunda 
cláusula do v. 1, em grego, aparece o artigo definido ho antes da palavra “Deus”, 
kai ho logos ên pros ton theon, “e o Verbo estava com o Deus”. O nome theos, 
no Novo Testamento grego, quando vem acompanhado do artigo e sem outra 
qualificação, refere-se sempre ao Pai.43 Isso se aplica nessa segunda cláusula.
43 LACUEVA, Francisco. Curso de Formación Teológica Evangélica II - Un Dios en Tres Personas. Bar­
celona, Espana: Clie,i993p. 144-
64 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
O nome theos na terceira cláusula é predicativo do sujeito, anteposto ao 
verbo e sem o artigo definido: kai theos ên ho logos, “e o Verbo era Deus”, como 
afirmou Martinho Lutero que “a falta de um artigo vai contra o sabelianismo e 
a ordem das palavras vai contra o arianismo”.44 O Senhor Jesus Cristo, portan­
to, é Deus e tem todos os atributos que o Pai tem, mas não é a primeira Pessoa 
da Trindade. Então, a falta do artigo indica que o Senhor Jesus não é o Pai.
João 8.58: “Jesus respondeu: — Em verdade, em verdade lhes digo que, 
antes que Abraão existisse, Eu Sou”. “Eu sou” é um título divino, Javé se 
apresentou mais de uma vez como “Eu Sou” (Êx 3.14; Dt 32.39). Jesus se de­
clarou ser 0 mesmo “Eu Sou” do Antigo Testamento e os judeus entenderam 
a sua mensagem, pois “pegaram pedras para atirar nele” (Jo 8.59). Essa rea­
ção deles é porque sabiam que somente a Deus pertence o título “Eu Sou”, e, 
por isso, consideravam blasfêmia a declaração de Jesus. Essa passagem está 
falsificada na Tradução do Novo Mundo, que traduziu egõ eimi,“eu sou”, por 
“eu tenho sido” (edição anterior) e “eu já existia” (edição atual). O movimen­
to das testemunhas de Jeová procura persuadir seus seguidores e 0 povo em 
geral de que Deus nunca se revelou a si mesmo pelo título “Eu Sou”.
João 20.28: “Ao que Tomé lhe respondeu: — Senhor meu e Deus meu!”. 
Tomé chamou Jesus de Senhor e Deus, e isso é incontestável. Afirmar que se 
trata de uma expressão de surpresa seria anacronismo, pois os judeus ainda 
hoje não ousam pronunciar o nome de Deus. No contexto judaico da época 
seria tomar 0 nome de Deus em vão.
Filipenses 2.6: “que, mesmo existindo na forma de Deus, não considerou 
0 ser igual a Deus algo que deveria ser retido a qualquer custo”. A divindade 
de Cristo está muito clara nessa passagem, mas a Tradução do Novo Mundo 
falsificou também mais esse versículo: “embora ele existisse em forma de 
Deus, nem mesmo chegou a pensar na ideia de tentar ser igual a Deus”.
Colossenses 2.9: “Porque nele habita corporalmente toda a plenitude da 
divindade”. A palavra “divindade” ou “deidade” no texto grego é théotes e só 
aparece uma vez no Novo Testamento grego. Essa passagem foi modificada 
na Tradução doNovo Mundo para se ajustar à sua cristologia arianista.
44 MOUCE, William D. Fundamentos do Grego Bíblico: Livro de Gramática. São Paulo: Vida, 2009, p. 38.
c a p í t u l o 5 ■ JESUS É DEUS 65
Tito 2.13: “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do 
nosso grande Deus e Salvador Jesus Cristo”. O texto sagrado apresenta de 
maneira direta e inconfundível que Jesus é o “grande Deus”. Mas, essa pas­
sagem foi também adulterada na Tradução do Novo Mundo para se ajustar 
às suas crenças e práticas, “a feliz esperança e a gloriosa manifestação do 
grande Deus e do nosso Salvador, Jesus Cristo”. O “do” na edição anterior 
era uma interpolação “ [do]”, mas, na atual, foi incorporada ao texto de modo 
a eliminar do versículo a divindade de Cristo.
Hebreus 1.8: “Mas, a respeito do Filho, diz: “O teu trono, ó Deus, é para 
todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu reino”. Esse texto é uma 
citação do salmo 45.6 e 7, cujo Deus é 0 Deus de Israel, ’êlõhim, “Deus”. O 
escritor da epístola aos Hebreus afirma, então, que o Deus do salmo citado 
é Jesus. Esse salmo já foi visto no capítulo 4 sobre a Trindade.
2 Pedro l.i: “Simão Pedro, servo e apóstolo de Jesus Cristo, aos que conosco 
obtiveram fé igualmente preciosa na justiça do nosso Deus e Salvador Jesus 
Cristo”. Eles usaram os mesmos artifícios que fizeram na passagem de Tito 
2.13, na Tradução do Novo Mundo; assim: “por meio da justiça do nosso Deus 
e do Salvador Jesus Cristo”, mas o texto sagrado afirma a divindade de Jesus.
1 João 5.20: “Também sabemos que o Filho de Deus já veio e nos tem dado 
entendimento para reconhecermos aquele que é o Verdadeiro. E nós esta­
mos naquele que é 0 Verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o ver­
dadeiro Deus e a vida eterna”. Em João 17.3, Jesus afirma que existe um só 
Deus verdadeiro, entretanto, nessa passagem, 0 texto sagrado diz, de ma­
neira direta, que Jesus é 0 “verdadeiro Deus e a vida eterna”.
Apocalipse 1.7,8: “Eis que ele vem com as nuvens, e todo olho 0 verá, até 
mesmo aqueles que o traspassaram. E todas as tribos da terra se lamen­
tarão por causa dele. Certamente. Amém! ‘Eu sou o Alfa e o Ômega’, diz 
0 Senhor Deus, ‘aquele que é, que era e que há de vir, 0 Todo-Poderoso’”. 
Hoje, a liderança das testemunhas de Jeová afirma que o título “Alfa e 
Ômega” se aplica exclusivamente ao Pai, e não ao Filho,4S com isso, mais
45 Raciocínios à Base das Escrituras. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society o f New
York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1985, p. 405.
66 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
uma vez, ela muda sua crença, pois já ensinou que o “Alfa e o Ômega” de 
Apocalipse 1.8 é Jesus.46 Ainda hoje, tal afirmação se encontra no seu Novo 
Testamento Interlinear,47
Todo 0 parágrafo desse capítulo primeiro de Apocalipse trata da reve­
lação de Jesus Cristo. O versículo 7 diz: “Eis que ele vem com as nuvens, e 
todo olho ô verá, até mesmo aqueles que 0 traspassaram. E todas as tribos 
da terra se lamentarão por causa dele. Certamente. Amém!”. Quem é esse 
que vem com as nuvens? De quem o texto está falando? Do Pai ou do Filho? 
Claro que é do Filho; logo, torna-se absurdo uma mudança brusca de sujeito 
do versículo 7 para o 8. Então, o versículo 8 está falando do mesmo que vem 
com as nuvens; portanto, não é uma referência ao Pai, mas ao Filho.
Seus atributos absolutos
Atributos divinos são as perfeições de Deus reveladas nas Escrituras, 
perfeições próprias da essência de Deus. Os atributos incomunicáveis, tam­
bém conhecidos como absolutos ou naturais, são exclusivos do Ser divino, 
como a eternidade, a onipotência, a onisciência, onipresença, dentre ou­
tros; diferentes dos comunicáveis, em que há nos seres humanos alguma 
ressonância, como amor, justiça, verdade etc.
As Escrituras mostram, de maneira clara e inconfundível, a eternidade 
de Cristo e sua preexistência eterna: “e cujas origens são desde os tempos 
antigos, desde os dias da eternidade (Mq 5.2). Isso revela que 0 Filho já exis­
tia antes da criação de todas as coisas. Em Isaías, Jesus é chamado de “Pai 
da Eternidade” (Is 9.6); “Jesus Cristo é 0 mesmo ontem, hoje e para sempre.” 
(Hb 13.8).
A Palavra de Deus revela que 0 Filho é também onipotente, isto é, o 
Todo-poderoso. Jesus disse: “É-me dado todo 0 poder no céu e na terra” (Mt 
28.18 - ARC). Em outras palavras, não há nada no céu e na terra que Jesus 
não possa fazer; para ele, não há impossível. A Bíblia ensina que Jesus já 
possuía tal atributo antes de vir ao mundo (Fp 2.6-8). Após a sua ressurrei­
ção, ele recuperou o mesmo poder e a mesma glória que tinha com 0 Pai, 
antes que 0 mundo existisse (Jo 17.5). Jesus está “acima de todo principado, 
potestade, poder, domínio e de todo nome que se possa mencionar, não só
46 RUSSELL, Charles T. The Finished Mystery (Studies in the Scriptures, vol. 7). Brooklyn, N.Y. USA: 
International Bible Students Association, 1918, p. 15.
47 WILSON, Benjamin. The Emphatic Diaglott. New York, USA: Watchtower Bible and Tract Society of 
New York, Inc., 1942, p. 872.
c a p í t u l o 5 ■ JESUSÉDEUS 67
no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.21). Isso quer dizer que 
Ele é 0 Todo-Poderoso. Em Apocalipse 1.8, Ele é chamado de pantokrator, 
“Todo-poderoso”, que a Septuaginta usa para traduzir 0 nome hebraico, El 
Shadai, no Antigo Testamento, em Jó 8.5; 15.25.
A palavra “onipresença” não aparece na Bíblia, provém do latim omni, 
“tudo”, e praesentia, “presença”. Como atributo divino, na teologia, a ideia 
indica, precisamente, a presença cheia de Deus em todas as criaturas: “Ha­
bito no alto e santo lugar, mas habito também com o contrito e abatido de 
espírito” (Is 57.15). A onipresença é o poder de estar em todos os lugares ao 
mesmo tempo.48 Jesus é ilimitado no tempo e no espaço. Ele disse: “onde 
estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” 
(Mt 18.20 - ARC), e mais: “E eis que estou com vocês todos os dias até 0 
fim dos tempos” (Mt 28.20). Essas duas passagens mostram que Jesus está 
presente em qualquer parte do globo terrestre porque ele é onipresente. O 
cumprimento das palavras de Jesus nós encontramos na própria Bíblia: “E 
eles foram e pregaram por toda parte, cooperando com eles o Senhor e con­
firmando a palavra por meio de sinais, que se seguiam” (Mc 16.20), e, hoje, 
também nos cultos, em nossas vidas: no trabalho, na escola, no lar.
A palavra “onisciência” provém do latim omniscientia, omni significa 
“tudo”, e scientia, “conhecimento, ciência”. E 0 atributo divino para descre­
ver o conhecimento perfeito e absoluto que Deus possui de todas as coisas, 
de todos os eventos e de todas as circunstâncias por toda a eternidade pas­
sada e futura (Is 46.9,10). É 0 conhecimento, a inteligência e a sabedoria em 
graus perfeito e infinito: “Não há esquadrinhação do seu entendimento” 
(Is 40.28 - ARC). Esse conhecimento é simultâneo e não sucessivo. A onis­
ciência de Deus excede todo o entendimento humano, é um desafio à nossa 
compreensão, mas é uma realidade revelada: “Tal conhecimento é maravi­
lhoso demais para mim: é tão elevado, que não 0 posso atingir” (SI 139.6). 
Mas, a liderança das testemunhas de Jeová ensina que o Jeová, pregado por 
seus adeptos, não é onisciente:
Ilustração: Uma pessoa que tem um rádio pode ouvir as 
notícias mundiais. Mas 0 fato de que pode ouvir certa estação 
não significa que realmente faça isto. Ela precisa primeiro ligar 
0 rádio e daí selecionar a estação. Da mesma forma, Jeová tem
48 Salmos 33.13,14; Provérbios 15.3; Jeremias 23.23, 24.
68 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
a capacidade de predizer eventos, mas a Bíblia mostra que ele 
faz uso seletivo e com discrição dessa capacidade que tem, com 
a devida consideração pelo livre-arbítrio com que dotou suas 
criaturas humanas.49
Esse é o Jeová das testemunhas de Jeová e não o grande Deus Javé do 
Exércitos revelado nas Escrituras Sagradas. Ora, elas consideram assim 
a divindade em que acreditam, como limitada, o que se podeesperar de­
las sobre a identidade de Jesus de Nazaré? A mesma coisa elas fazem em 
relação a Jesus.
A onisciência é outro atributo que só Deus possui, e, no entanto, Jesus 
revelou essa capacidade durante o seu ministério terreno. Em João 1.47, 48, 
por exemplo, Ele disse que viu Natanael debaixo da figueira. Sabia que, no 
mar, havia um peixe com uma moeda, e que Pedro, ao lançar o anzol, o pes­
caria, e com o dinheiro pagaria o imposto, tanto por ele como pelo próprio 
Jesus (Mt 17.27). Em João 2.24,23, está escrito que não havia necessidade de 
ninguém falar algo sobre 0 que há no interior do homem, porque Jesus já sa­
bia de tudo. A Bíblia afirma que só Deus conhece 0 coração dos homens (1 Rs 
8.39), então, Jesus não é somente onisciente, mas também Deus. Ele sabia que 
a mulher samaritana já havia possuído cinco maridos, e que o atual não era o 
seu marido (Jo 4.17,18). Encontramos em João 16.30; 21.17 que Jesus sabe tudo; 
e Colossenses 2.2,3 nos diz que em Cristo “em quem estão ocultos todos os 
tesouros da sabedoria e do conhecimento”. O Senhor Jesus ouvia a oração de 
Saulo de Tarso enquanto falava com Ananias, em Damasco (At 9.11). Não há 
nada no universo que Jesus não saiba, e tudo porque Ele é onisciente e é Deus.
A HERESIA QUE NEGA A DIVINDADE DE JESUS
Os monarquianistas dinâmicos
O outro movimento monarquianista é conhecido como monarquia- 
nismo dinâmico, eles são chamados também de adocionistas, com quem 
também Tertuliano polemizou. Seus seguidores ensinavam que 0 homem 
Jesus é adotado, ele recebeu o Espírito Santo, ou o Logos, por ocasião do 
seu batismo no Jordão, mas não é Deus, daí o nome “adocionistas”. Na sua
49 Raciocínios à Base das Escrituras. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society of New
York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1985, pp. 1 16 ,117 .
c a p í t u l o 5 • JESUS É DEUS
doutrina dizia que Ele recebeu poder, dynamis, “força, poder”, ao vir sobre 
Ele o Espírito Santo, daí o nome “dinâmicos”.
Teódoto de Bizâncio, “o curtidor”, discípulo dos alogoi, aceitava o Evan­
gelho de João com certa ressalva, foi o primeiro monarquianista dinâmico 
de importância. Chegou a Roma em 190 e foi excomungado em 198. Os di­
nâmicos consideravam Jesus apenas como um homem que nasceu de uma 
virgem, de vida santa, sobre quem desceu o Espírito Santo, por ocasião do 
seu batismo no rio Jordão. Alguns discípulos de Teódoto rejeitavam qual­
quer direito divino em Jesus, mas, outros afirmavam que Jesus teria se tor­
nado divino, em certo sentido, por ocasião da sua ressurreição.
Hipólito de Roma rebateu essas crenças (Refutação de Todas as Heresias, 
VII, 23). O mais famoso dinâmico foi Paulo de Samósata, bispo de Antioquia 
entre 260 e 272. Ele descrevia o Logos como atributo impessoal do Pai, Eusébio 
de Cesareia diz que ele “nutria noções inferiores e degradadas de Cristo, con­
trárias à doutrina da Igreja, e ensinava que, quanto à natureza, Ele não passava 
de homem comum” (História Eclesiástica, Livro 7, XXVII). Suas idéias foram 
examinadas por três sínodos entre 264 e 269 d.C. e o último o excomungou.
Em resumo, podemos afirmar que isso foi, na verdade, uma solução 
inadequada em defesa do monoteísmo. Infelizmente, encontraram uma so­
lução herética, uma saída equivocada, contrária ao Novo Testamento. Jesus 
já nasceu Cristo (Lc 2.11) e foi adorado ainda na infância (Mt 2.2,11). Esses 
debates resultaram nas controvérsias polarizadas, a princípio, entre Ário e 
Alexandre, bispo de Alexandria, e 0 assunto foi levado ao Concilio de Niceia.
0 arianismo
Arianismo é o nome da doutrina formulada por Ário e do movimento 
que ele fundou em Alexandria, Egito, na primeira metade do quarto século. 
Ele dizia que 0 Senhor Jesus não era da mesma natureza do Pai, era cria­
tura, criado do nada, uma classe divina de natureza inferior, nem divina e 
nem humana, uma terceira classe entre a deidade e a humanidade. A con­
trovérsia girava em torno da eternidade. Sua doutrina contrariava a crença 
ortodoxa seguida pelas igrejas, 0 que chamou a atenção do povo e, também, 
ganhou conotação política, considerada, hoje, como a maior controvérsia da 
história da Igreja Cristã.
Ário estudou em Antioquia, escola de Paulo de Samósata, um dos 
principais defensores do monarquianismo dinâmico, que negava ser o Fi­
lho da mesma substância do Pai, reduzia Jesus à categoria das divindades
70 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
pagãs; sim, era deus, mas não igual ao Pai, Maria teria gerado um meio- 
-Deus, por isso, nem era plenamente Deus e nem plenamente homem. 
Afirma Paul Tillich:
Esta foi a solução de Ário. Estava na mesma linha do culto 
aos heróis do mundo antigo. Esse mundo era povoado por meio- 
deuses, derivados do único Deus e incapazes de plenitude divina, 
mesmo quando no Olimpo. Jesus teria sido um desses deuses, 
quase Deus, mas não o próprio Deus.S0
Assim, Ário negava a eternidade do Logos, defendia sua existência an­
tes da encarnação, como as atuais testemunhas de Jeová, mas não aceitava 
que fosse Ele eterno com o Pai, insistia na tese de que o Verbo foi criado 
como primeira criatura de Deus. A palavra de ordem arianista era: “houve 
tempo que o Verbo não existia”.
Alexandre, bispo de Alexandria, discordava dele, respondendo “que a 
posição de Ário negava a divindade do Verbo, e, em consequência, de Jesus 
Cristo. E já que a igreja, desde o começo, tinha adorado a Jesus Cristo, se a 
proposta de Ário fosse aceita, a igreja teria de ou deixar de adorar a Jesus 
Cristo, ou adorar uma criatura”.51 O conflito tornou-se público e Ário foi de­
posto de suas funções da igreja. Ele não aceitou a sanção, escrevendo para 
bispos amigos que tinham prestígio e popularidade na cidade e, com isso, 
seus partidários fizeram protesto, marchando pelas ruas, cantando suas 
máximas teológicas: “houve tempo que o Verbo não existia”.
O imperador Constantino estava mais preocupado em manter coeso o 
império e a divisão da igreja era vista como uma ameaça a essa unidade. O 
conselheiro teológico do imperador, o bispo Ósio, de Córdoba, foi enviado 
para Alexandria para uma conciliação, porém, ele constatou a gravidade e 
a profundidade do problema e, com isso, o imperador convocou o Concilio 
de Niceia.
0 Concilio de Niceia
Os historiadores afirmam que cerca de trezentos bispos provenientes 
do Oriente e do Ocidente participaram dessa reunião em Niceia, por isso,
50 TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: Aste, 2004, P- 87.
51 GONZALEZ, Justo L. Uma história ilustrada do cristianismo. São Paulo: Vida Nova, 2005, vol. 2, p. 92.
c a p í t u l o 5 ■ JESUS É DEUS
é tido como o primeiro concilio ecumênico da História. Dentre eles, estava 
presente um pequeno grupo de arianistas convictos, liderado por Eusébio 
de Nicomédia (não confundir com Eusébio de Cesareia). Como Ário não era 
bispo, não tinha direito de participar das deliberações. De outro lado, estava 
um pequeno grupo, liderado por Alexandre, bispo de Alexandria, acompa­
nhado do então diácono Atanásio, vindo a tornar-se, posteriormente, bispo 
notável pela vigorosa defesa da ortodoxia cristã, que reconhecia a teologia 
ariana como ameaça à fé cristã.
O Concilio contava ainda com três bispos patripassianistas (dou­
trina modalista que afirm ava ter sido o Pai crucificado). Fora essas m i­
norias, a maior parte era formada de bispos procedentes do Ocidente, 
de fala latina, sem interesse no que eles chamavam de especulações 
teológicas, pois se davam por satisfeitos com a formulação trinitária de 
Tertuliano: “pois eles são de uma só substância e de uma só essência e 
de um poder só”.
Eusébio de Nicomédia expôs a doutrina ariananista, pois tinha convic­
ção absoluta de que, após sua apresentação, todos os delegados o apoiariam, 
aceitando-a como correta, mas grande foi sua decepção quando o plenário 
se manifestou com indignação ao ouvir a ideia de considerar o Filho de 
Deus como criatura, por mais exaltado que fosse tal criatura. Alguns chega­
ram a arrebatarE OBRAS .................................................. 1 19
Sua divindade em toda Bíblia.................................................................... 1 19
Seus atributos e obras divinas................................................................ 12 2
Sua personalidade ...................................................................................... 12 3
HERESIAS VELHAS E NOVAS..................................................................124
0 Espírito Santo e as testemunhas de Jeová ......................................... 12 6
O Espírito Santo e o islamismo.................................................................129
Capítulo 10
O PECADO CORROMPEU A N ATUREZA H U M A N A ......................... 1 3 1
A DOUTRINA BÍBLICA DO PECADO E SUA EXTENSÃO 1 3 1
No É d en ....................................................................................................... 13 2
A Queda do Éden afetou a toda humanidade .......................................... 134
Como a Queda do Éden afetou a toda a humanidade?......................... 135
A HERESIA QUE NEGA O ADVENTO DO PECADO.............................. 136
O pelagianismo........................................................................................... 136
O semipelagianismo ................................................................................. 137
O islamismo.................................................................................................138
8 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Capítulo 1 1
A SALVAÇÃO NÃO É OBRA H U M A N A ................................................. 139
A SALVAÇÃO SOB A GRAÇA DE D EU S.................................................. 139
A incapacidade humana para salvar-se................................................. 139
A salvação somente pela graça................................................................ 14 1
Entendendo a dinâmica da salvação........................................................ 144
SOTERIOLOGIAS INADEQUADAS NO PASSADO................................ 145
Capítulo 12
A IG REJA TEM UMA N ATUREZA O RGANIZACIONAL.................. 147
TITO E AS IGREJAS NA ILHA DE CRETA............................................. 147
O QUE É A IG REJA?.................................................................................. 149
A natureza da igreja de Cristo ................................................................ 149
AINSTTTUCIONALIDADE BÍBLICA DA IGREJA...................................ISO
O governo espiritual da igreja de Cristo................................................. 1 5 1
A instrução paulina ................................................................................... 1 5 1
A QUESTÃO ATUAL ................................................................................. 152
Capítulo 13
PERSEVERANDO NA FÉ EM C R IST O .....................................................1S5
DIANTE DAS HERESISASÉ PRECISO PERSEVERANÇA.................... 155
A exortação paulina.................................................................................... 155
A crise religiosa em nosso tempo............................................................. 156
APRENDENDO, SENDO INTEIRADO E SABENDO............................. 157
TENDO AS ESCRITURAS COMO O FUNDAMENTO........................... 158
Muçulmanos e mórmons .......................................................................... 159
As testemunhas de Jeo vá ......................................................................... 160
abrev ia turas
■ ARA
■ ARC
■ ESV
■ HCSB
■ NAA
■ NKJV
■ NRSVUE
■ NTLH
■ NVI
■ NVT
■ TB
Versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Atualizada no 
Brasil. Barueri, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2016.
Versão de João Ferreira de Almeida, Edição Revista e Corrigida. Barueri, 
São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2009.
English Standard Version. Wheaton, IL, USA: Crossway, Good News 
Publisher, 2016. 2009.
Holman Christian Standard Bible. Nashville, Tennessee, USA: Holman 
Bible Publishers, 2009.
Nova Almeida Atualizada. Barueri, São Paulo: Sociedade Bíblica do 
Brasil, 2017.
New King James Version. Nashville, Tennessee, USA: Thomas Nelson, 
1982.
New Revised Standard Version Updated Edition. Chester Heights, PA, 
USA: National Council of the Churches of Christ, 2021.
Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Barueri, São Paulo: Sociedade 
Bíblica do Brasil, 2009.
Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2000.
Nova Versão Transformadora. São Paulo: Editora Mundo Cristão, 2016.
Tradução Brasileira - Barueri, São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 
2010.
10 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
| A N T IG O T E S T A M E N T O | ■ N O V O T E S T A M E N T O I
Gn Gênesis |M t Mateus i j j
Êx Êxodo Mc Marcos
U Levítico Lc Lucas Ü
Nm Números Jo João
Dt Deuteronômio At Atos
Js Josué Rm Romanos
Jz Juizes IC o 1 Coríntios m
Rt Rute 2 Co 2 Coríntios
1 Sm 1 Samuel Gt Galatas m
2 Sm 2 Samuel Ef Efésios
1Rs 1 Reis Fp p Filipenses i i
2 Rs 2 Reis Cl Colossenses
t Cr 1 Crônicas 1 Ts 1 Tessalonicenses R S
2 Cr 2 Crônicas 2 Ts 2 Tessalonicenses
m Esdras 1 Tm 1 Timóteo
Ne Neemias 2 Tm 2 Timóteo
Et Ester Tt Tito ü
ͧfgk
Jó JÓ Fm Filemon
SI Salmos Hb Hebreus m
Pv Provérbios Tg Tiago
Ec Eclesiastes | Pe 1 Pedro
Ct Cantares 2 Pe 2 Pedro
Is Isaías 1 Jo 1 João '?Ê:
J r Jeremias 2 Jo 2 João
Lm Lamentações de Jeremias 3 Jo 3 João m
Ez Ezequiel Jd Judas
Dn Daniel Ap Apocalipse
Os Oseias
J l Joel
Am Amós
Ob Obadias
Jn Jonas
Mq Miqueias iè§J
Na Naum
Hc Habacuque
Sf Sofonias
Ag Ageu
Zc Zacarias
Ml Malaquias
i n t rodução
------- stá escrito que “não há nada de novo debaixo do sol” (Ec 1.9). Isso
pode ser aplicado no campo da religião. As principais heresias da 
— atualidade são antigas e têm suas raízes nos velhos heresiarcas da 
antiguidade. Algumas delas são apresentadas com nova roupagem
_____ e outras com adaptações ou usando nova nomenclatura. Esta obra
Em Defesa da Fé Cristã mostra como e quando essas heresias surgiram e 
se desenvolveram, como a igreja reagiu e rejeitou esses ensinos e em quais 
grupos religiosos esses ensinos ainda são mantidos.
As principais doutrinas da fé cristã precisam ser preservadas e os cren­
tes são chamados para essa responsabilidade. Esses pontos são inegociáveis 
e jamais devemos ceder um milímetro se quer. Os treze capítulos seguem 
uma estrutura didática: os fundamentos bíblicos, as heresias relativas a 
cada ponto doutrinário, a reação da igreja e a refutação aos argumentos de 
seus heresiarcas e seus seguidores. Não partimos diretamente dos grupos 
religiosos, mas dos temas teológicos, para comparar e mostrar as diferen­
ças entre ortodoxia e heresia à luz da Bíblia.
Esses grupos eram na antiguidade chamados de seitas. Foi a partir dos 
pais da igreja, como Irineu de Lião, Tertuliano e entre outros, que a palavra 
“seita” veio a ser identificada como os grupos religiosos isolados os quais 
expõem ensinos errados. As heresias são esses ensinos contrários as Escri­
turas Sagradas. Ninguém gosta de ver sua religião considerada como seita. 
Por isso, não se recomenda em nossos dias rotular esses grupos de “sei­
12 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
tas”, pois, se desejamos ganhar essas pessoas para Jesus, precisamos nos 
aproximar delas, e não é dessa maneira que vamos conseguir isso. Então, é 
aconselhável usar termos como grupos ou doutrinas inadequadas, diferen­
tes ou grupos religiosos heterodoxos, ou ainda, outros movimentos que não 
professam nossa fé e nem a mesma doutrina.
A pluralidade religiosa não é exclusiva dos tempos de Jesus. Os gru­
pos religiosos heterodoxos estão por toda parte, existem milhares deles em 
todo o planeta. Seus fundadores são geralmente dissidentes de uma religião 
principal. São onze as grandes religiões principais do planeta: hinduísmo, 
jainismo, budismo, siquismo, confucionismo, taoísmo, xintoísmo, judaís­
mo, zoroastrismo, islamismo e cristianismo.
As heresias afetam os pontos principais da fé cristã, issoo seu discurso e rasgar em pedaços, em meio aos gritos de 
“Blasfêmia! Mentira! Heresia!”.
Isso quebrou o clima pacífico e suave da reunião, apesar das tentativas 
de prosseguir a análise de passagens bíblicas, “logo ficou claro que os aria­
nos podiam interpretar qualquer citação de uma maneira que os favorecia... 
Por esta razão, a assembléia decidiu compor um credo que expressasse a fé 
da igreja em relação às questões em debate”.52 Eusébio de Cesareia, autor da 
proposta de se formular um credo, sugeriu o Credo de Cesareia, alegando 
ter recebido o texto de seus predecessores.
A esse Credo, segundo Latourette, “com a aprovação do imperador e 
talvez por sua sugestão” acrescentou a palavra homooúsios, “da mesma 
substância”, aplicada a Cristo. Assim, o Credo de Cesareia foi modificado, 
tornando-se o conhecido Credo Niceno, apenas dois bispos se recusaram a 
assinar, os demais o assinaram, cujo teor é o seguinte:
52 GONZALEZ. Justo L. Op. cit., p. 96.
72 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Cremos em um só Deus, Pai Onipotente, Criador de todas as 
coisas visíveis e invisíveis; em um só Senhor Jesus Cristo, Filho 
de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância do Pai, Deus de 
Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, 
não feito, de uma substância com o Pai, por meio de quem todas 
as coisas vieram a existir, as coisas que estão no céu e as coisas 
que estão na terra, que por nós homens e por nossa salvação 
desceu e foi feito carne, e se fez homem, sofreu, e ressuscitou 
ao terceiro dia, subiu aos céus, e virá para julgar os vivos e os 
mortos. Cremos também em um só Espírito Santo.
A importância fundamental dessa mudança foi a inserção das expres­
sões “é da substância do Pai... de uma substância com o Pai”. A substituição 
de “Vida de Vida” por “verdadeiro Deus de verdadeiro Deus” e do termo 
“Verbo de Deus” por “Filho de Deus, o Unigênito do Pai”, mostrando ser 
ele gerado de maneira diferente dos seres humanos; somando-se a isso o 
acréscimo: “desceu e foi feito carne, e se fez homem” para a nossa salvação, 
que resume a essência da verdadeira identidade de Cristo.
A controvérsia não findou com o Concilio. Eusébio de Nicomédia in­
fluenciou o imperador, que, posteriormente, mudou de posição e favoreceu 
os arianistas. O movimento das testemunhas de Jeová chegou a reconhecer 
essa mudança: “Perto do fim de sua vida, o Imperador Constantino favo­
receu o lado antitrinitarianista de Ario, sendo ajudado, neste sentido, por 
Eusébio de Nicomédia. De modo que os trinitarianistas foram banidos. Por 
fim, o próprio Atanásio foi banido para Gália”.33 Com a morte de Alexandre, 
em 328, Atanásio, agora bispo, sucedeu-o no cargo de bispo de Alexandria. 
Depois da morte de Constantino, Constâncio sobressaiu-se entre seus dois 
irmãos Constantino II e Constante, tornando-se senhor do império. Ele 
apoiou a causa ariana, como disse Jerônimo: “o mundo despertou de um 
sono profundo e percebeu que tinha ficado ariano”.53 S4
As críticas ao Concilio de Niceia são injustas, pois havia necessidade 
de um concilio geral por falta de uma autoridade de reconhecimento no 
Oriente e Ocidente. As Escrituras precisam ser interpretadas e, até então, 
isso acontecia nos sínodos, concílios locais ou regionais, tendo como resul­
53 “Caiu Babilônia, a Grande!” O Reino de Deus já Domina! Brooklyn, N.Y: Watchtower Bible and Tract 
Society of New York, Inc., 1972, p. 35, § 63.
54 GONZALEZ, Justo L. Op. cit., p. 101.
c a p í t u l o 5 • JESUS É DEUS
tados os credos regionais que serviram de inspiração e modelo em sua es­
trutura, aos credos ecumênicos, ou seja, os credos gerais, universais. Kelly 
trata disso com muita propriedade em Primitivos credos cristianos, em que 
mostra alguns desses credos, até mesmo o de Ário, que chegou a escrever o 
seu próprio credo.
O papel do imperador não foi teológico, isso veio dos bispos e teólogos. 
A presença do chefe do Estado era uma maneira de o documento ser aceito 
universalmente nas igrejas. Até então, a autoridade dos credos era restrita 
às dioceses ou administrações eclesiásticas. Em Niceia, junho de 325, foi 
realizado 0 primeiro concilio geral; o segundo, aconteceu em Constantino- 
pla, em 381; o terceiro, em Éfeso, em 431; o quarto, na Calcedônia, em 451, 
hoje um bairro em Istambul, na Turquia.
IMPLICAÇÕES DO ARIANISMO NA ATUALIDADE
As testemunhas de Jeová
O Jesus das testemunhas de Jeová não é o mesmo da Bíblia. O apóstolo 
Paulo adverte os cristãos, prevenindo-nos desse “outro Jesus” (2 Co 11.4). O 
movimento das testemunhas de Jeová afirma que Jesus é igual à Satanás;55 
a Bíblia, porém, ensina que Ele é igual ao Pai (Jo 5.18; 14.9). A liderança do 
referido movimento ensina ser Jesus 0 Destruidor, o Abadom de Apocalipse 
9.11;56 mas 0 Jesus das Escrituras Sagradas é 0 Criador (Jo 1.3; Cl 1.16). O Je­
sus desses arianistas de hoje tornou-se Cristo por ocasião do seu batismo;57 
porém, 0 Jesus revelado na Bíblia nasceu Cristo: “é que hoje, na cidade de 
Davi, lhes nasceu o Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.11).
As Escrituras revelam Jesus como 0 verdadeiro homem e, ao mesmo 
tempo, como 0 verdadeiro Deus, conforme estudados nos capítulos ante­
riores. Os arianistas de hoje, representados pelas testemunhas de Jeová, 
mostram somente os elementos característicos do ser humano e omitem, 
da mesma maneira, os atributos exclusivos da divindade. É assim que esse
55 Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract 
Society of New York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1982, 
1989, p. 40 ,116 .
56 Revelação - Seu Grandioso Clímax Está Próximo! Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract 
Society of New York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1988, 
p. 148, | 20.
57 Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society 
of New York, Inc.; Cesário Lange, SP: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 199S, P- 36. 1 8.
74 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
grupo seleciona apenas as passagens bíblicas que tratam da natureza hu­
mana para contrabalançar a verdadeira identidade de Cristo e, desse modo, 
persuadir o povo de que Jesus não é Deus e que é inferior ao Pai. Essas 
passagens são conhecidas de todas as testemunhas de Jeová, pois elas se 
encontram no livro Raciocínios à Base das Escrituras e na brochura Deve-se 
Crer na Trindade? Vamos analisar algumas delas a seguir.
Textos bíblicos selecionados para negar a divindade de Cristo
“Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, 
nem o Filho, senão o Pai” (Mt 24.36). Esse versículo se encontra também em 
Marcos 13.32. São passagens bíblicas que foram usadas pelos arianistas no 
calor dos debates pelo próprio Ário e hoje pela religião das testemunhas 
de Jeová para dizer que Jesus não é Deus, pois os textos sagrados, aparen­
temente, afirmam que há coisas que o Pai sabe e o Filho não. A verdade é 
que 0 Filho é onisciente, Ele é Deus e, ao mesmo tempo, homem: “Como a 
insistência do Novo Testamento na divindade de Jesus deve ser harmoniza­
da com a insistência do Novo Testamento na ignorância e na dependência 
dele é assunto de suma importância para a igreja; e deve-se evitar tentar 
descartar uma verdade para tentar preservar outra”.38 O texto sagrado deve 
ser analisado à luz do contexto. Está escrito também que Jesus: “tem um 
nome escrito que ninguém conhece, a não ser ele mesmo” (Ap 19.12) e isso 
não significa que 0 Pai desconheça esse nome.
Como que Jesus, sendo onisciente, não podia saber a data de sua vin­
da, visto que ele “sabe tudo” (Jo 16.30)? A resposta é que naquele momento 
Ele falava como homem. O Verbo se esvaziou a si mesmo, por ocasião de 
sua encarnação, assumindo a natureza humana, sem, contudo, neutrali­
zar sua divindade e suas prerrogativas. Robertson afirma no comentário 
de Filipenses 2.5-8 que Jesus “assumiu as limitações de lugar (espacial) e 
de conhecimento e poder, aindaque na terra reteve muito mais de todo e 
qualquer simples homem”.39 O Senhor Jesus foi ungido com o Espírito Santo 
e poder para, como homem, operar milagres e maravilhas (Lc 3.16; 4.18,19; 
At 10.38). E difícil localizar a fronteira entre o humano e 0 divino em Jesus 
nos evangelhos, mas as duas naturezas estão presentes, às vezes, agia como 
homem, outras vezes, como Deus. 58 59
58 CARSON, D. A. O comentário de Mateus. São Paulo: Publicações Shedd, 2010, p. 589.
59 ROBERTSON, A. T. Imágenes Verbales en el Nuevo Testamento, tomo 4. Barcelona, Espana: Editorial 
Clie, 1990, p. sgi.
c a p í t u l o 5 ■ JESUS É DEUS
A organização das testemunhas de Jeová, já ciente dessa realidade, 
diz: “E se, conforme alguns sugerem, o Filho estivesse impedido de saber, 
em razão de sua natureza humana, surge a pergunta: Por que é que o Es­
pírito Santo não sabe?”.60 Eles levantam outra questão, pois já sabem que 
não mais convencem as pessoas com seu argumento, pois Jesus possuía a 
natureza humana e também a divina, por isso, envolvem o Espírito Santo 
para sustentar seu pensamento. Então, nós perguntamos a esses teólogos 
arianistas: “Quem disse que o Espírito Santo não sabe”? Ele não aparece 
na referida passagem, que é uma das passagens bipartidas61 e não envolve 
a terceira Pessoa da Trindade; a Bíblia, no entanto, declara que o Espírito 
“penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus... ninguém sabe as 
coisas de Deus, senão o Espírito de Deus” (1 Co 2.10,11 - ARC). Veja que esse 
movimento parte de uma premissa falsa para, depois, fundamentar seu ar­
gumento em cima dela. Se a palavra “ninguém” não pode excluir o Espírito 
Santo, logo, não poderá também excluir 0 Pai, em Apocalipse 19.12.
“Vocês ouviram que eu disse: ‘Vou e volto para junto de vocês’. Se vocês 
me amassem, ficariam alegres com a minha ida para 0 Pai, porque 0 Pai é 
maior do que eu” (Jo 14.28). Essa era uma das passagens bíblicas prediletas 
de Ário e também ainda 0 é dos seus discípulos ,ainda hoje. Eles encontram 
nela elementos para fundamentar sua crença de que 0 Filho é inferior ao 
Pai, com isso, concluem que Jesus não pode ser Deus. Os arianistas se ape­
garam, com muita garra, neste versículo para negar a divindade de Cristo, 
da mesma forma fazem os muçulmanos, e os líderes das testemunhas de 
Jeová constroem seu argumento em cima dele.
A humanidade de Cristo, ou seja, essa subordinação ao Pai, dirigida 
pelo Espírito Santo, foi uma condição para o seu messiado, e isso não neu­
traliza a sua deidade, pois é uma questão de função e não de natureza. Jesus 
tomou-se homem e, como tal, assumiu voluntariamente essa submissão 
ao Pai, pois 0 mesmo Jesus afirmou: “porque não procuro a minha própria 
vontade, e sim a daquele que me enviou” (Jo 5.30). É o Jesus homem que 
está falando, assim, fica provado que o texto de João 14.28 não invalida a 
deidade do Filho.
“Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é 
quem o revelou” (Jo 1.18), ou: “0 Filho unigênito” (ARC). Essa passagem bí­
60 Raciocínios..., p. 402
61 Passagens bíblicas bipartidas são aquelas em que aparecem o Pai e o Filho como 1 Coríntios 1.3;
8.5,6; Gaiatas 1.1; 2 Timóteo 4.1 entre muitas outras.
76 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
blica foi falsificada na Tradução do Novo Mundo, pois usa “deus” com letra 
minúscula. Usando essa verdade, mas, com analogia falsa, argumenta que 
Deus nunca foi visto por alguém, o Filho foi, logo, Ele não pode ser Deus.
Esse argumento é muito artificial, pois sabemos que ninguém pode ver 
Deus na sua essência e glória, assim como Ele é, e continuou vivo (Êx 33.20; 
Jz 13.22; Is 6.5; Jo 5.37; 6.46; 1 Jo 4.12,20). É nesse sentido que “ninguém 
jamais viu Deus”. Mesmo assim, Ele foi visto em suas manifestações antro- 
pomórficas: “e viram 0 Deus de Israel...” (Êx 24.10); da mesma forma pelo 
profeta Isaías: “eu vi o Senhor assentado sobre um alto e sublime trono” (Is 
6.1) e na encarnação do Verbo: “E 0 Verbo se fez carne e habitou entre nós, 
cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito 
do Pai” (Jo 1.14). Jesus é o Deus que viveu como homem ao assumir a forma 
humana: “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). Ele nos revelou o Pai.
Essa interpretação dos teólogos das testemunhas de Jeová traz proble­
mas para a própria organização, pois, mais uma vez ela se contradiz. O Fi­
lho, também, jamais foi visto em sua plena glória depois que retornou ao 
céu, segundo uma publicação delas: “Desde que jamais existiram homens 
terrestres que viram o Pai, a quem nenhum homem viu, nem pode ver, tão 
pouco verão o glorificado Filho. — Êxodo 33.20; 1 Timóteo 6.16”.62 A pas­
sagem bíblica de 1 Timóteo 6.16, afirma: “o único que possui imortalidade, 
que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais viu, nem é capaz de 
ver. A ele honra e poder eterno. Amém!”. A organização religiosa das teste­
munhas de Jeová afirma que essa passagem bíblica se aplica a Jesus. Isso 
ainda acontece na revista A Sentinela,63 cuja matéria ocupa quase uma pági­
na para justificar que tal passagem diz respeito a Jesus.
“E a vida eterna é esta: que conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a 
Jesus Cristo, a quem enviaste” (Jo 17.3). Essa é umas das passagens biparti­
das do Novo Testamento; era também uma das passagens mais prediletas 
de Ario. Todas as testemunhas de Jeová conhecem esse versículo e têm um 
apreço especial por ele, pois acreditam que ele favorece a sua doutrina. Seus 
líderes ensinam que Jesus é distinto do Pai; logo, ele não pode ser Deus. O 
fato de o Pai e 0 Filho serem Pessoas distintas em nada invalida a Trin­
dade, como visto na refutação do conceito unicista dos sabelianistas. Essa 
passagem é uma das mais extraordinárias da Bíblia e é, simultaneamente,
62 Seja Deus Verdadeiro’’. Brooklyn, N.Y. USA: International Bible Students Association, 1949, p. 191 f 
4; fraseologia similar na edição de 1955, p. íg i J 4“.
63 A Sentinela, edição de 15/05/1979, p. 32
c a p í t u l o 5 • JESUS É DEUS
um argumento contra todas as ramificações do gnosticismo. Todavia, a or­
ganização das testemunhas de Jeová e todos os unitaristas, que negam a 
divindade de Cristo, se utilizam frequentemente dela na tentativa de provar 
essa suposta diferença de natureza entre o Pai e o Filho.
Conhecer a Deus é o mesmo que conhecer a Cristo, em virtude da 
unidade de natureza do Pai e do Filho (Jo 10.30). Jesus disse: Ninguém 
conhece 0 Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece 0 Pai, a não ser o Filho 
e aquele a quem 0 Filho o quiser revelar” (Mt 11.27). O Pai não é 0 Filho, 
nem o Filho é 0 Pai (2 Jo v. 3). Essas Pessoas são distintas e formam com 0 
Espírito Santo a unidade composta da divindade. O texto de João 17.3 não 
se refere ao simples conhecimento cognoscível, pois muitos incrédulos e 
até mesmo ateus conhecem sobre Jesus e sua história e, nem por isso, têm 
a vida eterna. Isso revela um conhecimento místico e implica comunhão, 
fé, obediência, adoração, e não meramente conhecimento cognoscível. 
Mas, a liderança dos arianistas do nosso tempo afirma: “Fazer a vontade 
de Deus exige ter um conhecimento exato tanto sobre Jeová como sobre 
Jesus Cristo. Esse conhecimento leva à vida eterna”.64 Essa declaração é 
falsa, pois Jesus disse: “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me 
enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para 
a vida” (Jo 5.24). A salvação é pela graça mediante a fé em Jesus (Ef 2.8-10; 
Tt 3.5). Foi 0 que disseram Paulo e Silas ao carcereiro de Filipos (At 16.31). 
É esse 0 sentido de conhecer a Deus em João 17.3. Foi inspirado nessa 
passagem que a organização das testemunhas de Jeová intitulou o livro 
Conhecimento Que Conduz à Vida Eterna.
Crer no Filho de Deus como Messias de Israel e rejeitar sua divindade 
compromete a salvação, e foi a doutrina ensinada pelos ebionitas e, ainda 
hoje, é advogada pelo islamismo. Maomé dizia que Jesus era o Cristo, mas 
que não deveria ser adorado. Foi o maior prejuízo do islamismo. Jesus de­
clarou quesem fé nele está tudo perdido: “vocês creem em Deus, creiam 
também em mim” (Jo 14.1).
Existem muitos religiosos que creem em Deus, mas não creem em 
Jesus de Nazaré. Crer em Deus e negar a divindade de Jesus é uma crença 
falsa. Seria algo inconcebível associar a vida eterna a Deus e a uma criatu­
ra, se o Filho não fosse divino. As passagens neotestamentárias bipartidas 
apontam para a mesma divindade do Pai e do Filho. O texto ensina o mo-
64 Conhecimento..., p. 46 § 8.
78 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
noteísmo judaico-cristão, sem prejudicar em nada a doutrina da Trindade 
e da deidade do Filho. Esse mesmo Jesus, que nessa passagem é relegado 
pelos seguidores de Ário, é em 1 João 5.20, chamado de Deus verdadeiro: 
“Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna”. Então, se há somente um Deus 
verdadeiro, e Jesus é chamado de verdadeiro Deus e a vida eterna, fica 
claro que o Filho é Deus.
“Quero, porém, que saibam que Cristo é o cabeça de todo homem, e 
o homem é 0 cabeça da mulher, e Deus é o cabeça de Cristo” (1 Co 11.3). 
Como 0 Filho pode ser Deus, visto que a Bíblia afirma que Deus é a Cabeça 
de Cristo? Perguntam os líderes das testemunhas de Jeová. Resposta: 0 ho­
mem e a mulher pertencem a classes diferentes, ele, sexo masculino; ela, 
sexo feminino. Entretanto compartilham da mesma natureza, pois ambos 
são humanos, da mesma espécie, ambos são imagem de Deus: “Assim Deus 
criou o ser humano à sua imagem, à imagem de Deus 0 criou; homem e 
mulher os criou” (Gn 1.27). Temos, nessa passagem paulina, o princípio da 
liderança dentro da família humana. A Bíblia nos ensina a sermos sujeitos 
uns aos outros (1 Co 16.15,16). Ser o homem cabeça da mulher não a diminui 
e nem a toma menos humana do que homem, ela não perde a dignidade, 
assim também na divindade; nesse arranjo, o Pai, como cabeça, tampouco 
diminui a divindade do Filho. O termo grego para “Deus”, theos, é uma refe­
rência ao Deus-Pai, pois está acompanhado do artigo definido.
“Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio 
Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que 
Deus seja tudo em todos” (1 Co 15.28). É um dos textos favoritos dos aria- 
nistas de ontem e de hoje, pois alegam que, se 0 próprio Filho se sujeitará 
ao Pai na eternidade, logo, não pode ser ele Deus. Porém, há por trás desse 
argumento uma doutrina falsa, defendida pela religião deles, de que Jesus 
deixou de ser homem na sua morte, pois negando a ressurreição corporal 
de Jesus, afirma: “0 homem terrestre, Jesus de Nazaré, não mais existe”.65 
Não cabe, neste momento, discutir a ressurreição de Jesus, pois esse as­
sunto será retomado mais adiante, mas podemos adiantar a falsa doutrina 
do referido movimento de que o corpo de Jesus foi desfeito, existindo, hoje, 
nada mais do que um “espírito glorioso”. A Bíblia ensina que não foi pos­
sível o corpo de Jesus ficar retido na sepultura (At 2.29,30). Jesus disse que 
seu corpo seria ressuscitado (Jo 2.21,22) e, quando ressuscitou, disse aos
65 Desperta! 22 de dezembro de 1984, p. 20.
c a p í t u l o 5 ■ JESUS É DEUS
seus discípulos: “Vejam as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo. 
Toquem em mim e vejam que é verdade, porque um espírito não tem carne 
nem ossos, como vocês estão vendo que eu tenho” (Lc 24.39).
A ideia de que essa submissão esteja restrita apenas ao ministério ter­
reno de Jesus não pode ser confirmada no Novo Testamento porque, mes­
mo depois de sua ressurreição, Ele continuou ser chamado de “Filho de 
Deus” (Rm 15.6; 2 Co 1.3) e o Pai continuou sendo o seu Deus 0 o 20.17; Ap 
3.12). Jesus não deixou a sua humanidade, a diferença é que, depois de sua 
ressurreição e ascensão, tomou-se ser humano glorificado e exaltado, sen­
do 0 mediador da Nova Aliança: “Porque há um só Deus e um só Mediador 
entre Deus e a humanidade, Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2.5) e o juiz dos 
vivos e dos mortos (At 17.31), sem em nada comprometer a sua divindade: 
“porque nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade” (Cl 2.9).
Essa subordinação ao Pai é uma questão de posição, e não de natureza, 
é a do Filho como Filho, mas como Filho encarnado e, assim, não envolve 
a desigualdade da essência e da natureza. A mulher é submissa ao marido, 
mas, nem por isso, é ela menos humana do que 0 homem. Assim, a submis­
são do Filho, depois que a administração do reino for entregue ao Pai, não é 
suficiente para comprometer a igualdade de essência e substância das três 
Pessoas da Trindade.
Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda 
a criação. Pois nele foram criadas todas as coisas, nos céus e 
sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam 
soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado 
por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele 
tudo subsiste. Ele é a cabeça do corpo, que é a igreja. Ele é o 
princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter a primazia 
em todas as coisas. (Cl 1.15-18).
A “imagem do Deus invisível” fala da divindade de Jesus. A palavra gre­
ga eikõn, “imagem, semelhança, arquétipo”, expressa duas idéias, ambas 
compatíveis com Cristo e sua obra: aparência e manifestação. Cristo é a 
expressa imagem de Deus (Hb 1.3) e também a sua manifestação 0o 1.18). 0 
Novo Testamento ensina a manifestação de Deus em Cristo (1 Tm 3.16; 1 Jo 
1.1-3). 0 v. 15 é mais uma passagem predileta dos arianistas, pois acreditam 
que esse texto sagrado apoia a teologia deles. Afirmam que Jesus não pode
80 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
ser Deus porque é chamado na Bíblia de “o primogênito de toda a criação”, 
e, assim, não é eterno, mas criatura. Esse pensamento está baseado numa 
interpretação errada. O texto afirma ser Jesus “o primogênito de toda a cria­
ção”, e não “o primogênito de Deus”, o que é muito diferente.
Vamos primeiro verificar o significado da palavra “primogênito” e, em 
seguida, analisar o sentido dela no texto. O termo hebraico é beckôr, signi­
fica “primogênito, primeiro, filho mais velho, excelente” e o grego prototo- 
kos, “o primeiro em nascer, o primogênito, primeiro, chefe”. Os escritores 
sagrados usaram essas palavras com o sentido de importância, prioridade, 
posição, primazia e preeminência. Assim, quando aplicada a Cristo, em 
nada desabona a sua eternidade, por duas razões principais: a Bíblia mos­
tra a eternidade do Filho (Is 9.6; Mq 5.2; Hb 13.8; Jo 1.3) e esses vocábulos, 
nem sempre, significam 0 “filho mais velho”, mas o que tem primazia e 
preeminência. Efraim era 0 filho mais novo de José, entretanto, é chamado 
de “primogênito” (Gn 48.18,19; Jr 31.9); o mesmo acontece com Davi (1 Sm 
16 .11; SI 89.27) e com os cristãos (Hb 12.23).
Uma análise à luz do próprio texto, mostra que, em nada, tal passagem 
confirma a crença desses arianistas, pois o v. 16 apresenta Jesus como o 
Criador, e 0 17 afirma, de maneira categórica, como um ser que transcen­
de a criação, o Senhor Jesus Cristo não faz parte da criação, é um Ser à 
parte dela: “Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” e conclui 0 
apóstolo afirmando o Filho como o Preeminente: “Ele é a cabeça do corpo, 
que é a igreja. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para ter 
a primazia em todas as coisas” (v.18). O texto diz que Jesus é o Criador, 0 
Preeminente sobre todas as suas criaturas. A Bíblia não ensina em nenhum 
lugar ser Jesus uma criatura de Jeová-Deus; antes, 0 contrário: ensina que 
Ele mesmo, isto é, Jesus Cristo, é Javé-Deus.
“Ao anjo da igreja em Laodiceia escreva: “Estas coisas diz 0 Amém, a 
testemunha fiel e verdadeira, 0 princípio da criação de Deus” (Ap 3.14). Essa 
é outra passagem bíblica predileta deles, pois a parte final dela chama Jesus 
de “o princípio da criação de Deus”, que eles interpretam como a mesma 
coisa que primeira criatura.
Segundo os mais conceituados dicionários e léxicos de grego, a palavra 
arché significa “começo, princípio, origem, poder, a primeira causa, gover­
nante, autoridade”. O termo provém de arch, raiz da qual se origina aideia 
de “líder, chefe”, como, por exemplo, “arcanjo”, um líder dos anjos; “arce­
bispo”, um líder ou chefe dos bispos, dos quais provém a palavra archõn,
c a p í t u l o 5 ■ JESUS É DEUS 81
“chefe, governante”. A ideia em Apocalipse 3.14 é de origem no sentido de 
fonte, pois revela ser Jesus a fonte e a origem de tudo o que foi criado e que 
existe, isto é, Jesus é 0 Criador de tudo. Se a palavra “princípio”, nesse ver­
sículo, significasse começo de existência, como os arianistas ensinam, se­
riam também obrigados a recusarem que Deus seja eterno, pois Apocalipse 
21.6,7 afirma ser Deus o “princípio e o fim”’, da mesma forma como Jesus 
(Ap 22.13), mas eles não 0 fazem porque sabem que essa expressão significa 
que Deus não teve origem nem terá fim. Assim, também o texto 3.14 declara 
que Jesus não teve origem, antes, Ele é a origem de todas as coisas.
Os muçulmanos
O Jesus mencionado no Alcorão é um mero mensageiro. Na teologia 
islâmica, o Senhor Jesus não é reconhecido como Deus, nem como o Filho 
de Deus, nem como Salvador, nem morreu pelos nossos pecados e nem 
ressuscitou. A cristologia deles provém de fundamentos equivocados apre­
sentados no Alcorão, eles consideram Maomé como o último mensageiro, 
“0 selo dos profetas”, e superior a Jesus.
De onde Maomé tirou essas idéias? Há muitas controvérsias. Eruditos 
islâmicos do passado afirmaram que Maomé ouviu, de certos cristãos, so­
bre a existência de três deuses: Deus, Jesus e Maria.66 No entanto, sabe-se 
que os ensinos gerais de Maomé vieram de suas próprias mulheres, pois foi 
polígamo e possuiu harém, algumas eram de origem judaica e cristã: “Algu­
mas dessas mulheres influenciaram, com toda a probabilidade, os ensinos 
do Profeta, e outras tiveram um papel importante na história do Islam”.67 
Foi por meio dessas informações que Maomé desenvolveu sua teologia.
O Alcorão afirma ser blasfêmia crer que Jesus é o Filho de Deus, pois 
apresenta a filiação como resultado de relação sexual, e isso implicaria có- 
pula conjugal entre Deus e Maria. Dessa maneira, todos nós reputamos, 
também, por blasfêmia. Porém, é isso que a Bíblia ensina? De modo al­
gum. A expressão como “Filho de Deus” no Novo Testamento significa a 
sua origem e a sua identidade. Jesus disse: “eu saí e vim de Deus” (Jo 8.42), 
não segue 0 mesmo padrão de reprodução humana. Ele foi concebido pelo 
Espírito Santo ( Mt 1.18-20; Lc 1 .3 4 ,3S)-
66 TOSTES, Silas. O Islamismo e a Trindade. São Paulo: Âgape Editora, 2001, p. 62.
67 SABAVÍ, Fernando. Jesucristo 0 Mahoma - UnAnálisis Cristiano dei Islam. Barcelona, Espana: Edi­
torial Clie, 1992, p. 18.
capi tu lo 6
0 FILHO É IGUAL 
COM O PAI
0
 conceito de “filho” na Bíblia é muito diversificado e merece aten­
ção especial, principalmente quando aplicado a Jesus. O desconhe­
cimento desse assunto e mais o emprego de uma exegese ruim 
já levaram muita gente a uma cristologia inadequada. O exemplo 
clássico disso é visto em Ário e mantido ainda hoje pelas testemu­
nhas de Jeová. Isso se resolve e evita toda a confusão quando se descobre 
que “filho”, quando se refere a Jesus, é título, e não uma descendência.
A DOUTRINA BÍBLICA DA RELAÇÃO DO FILHO 
COM 0 PAI
Significado bíblico geral
O Antigo Testamento emprega dois termos para “filho”, um hebraico 
bên: “filho, neto, membro de um grupo”, e outro aramaico, bar. A palavra 
hebraica apresenta um sentido mais amplo do que nas línguas modernas 
do Ocidente. Não indica apenas descendente como filho, neto, bisneto etc. É 
empregado à cria de animais (SI 147.9), 0 termo bên aparece, também, como 
ramo ou broto de árvores, como em Gênesis 49.22, duas no singular e uma 
no plural: “José é um ramo frutífero, ramo frutífero junto à fonte; seus ga­
lhos se estendem sobre o muro”. É usado para representar um grupo, como 
“filhos de Israel, filhos de Sião (SI 149.2), filhos de Babilônia (Ez 23.15); serve
84 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
para indicar o gênero, como “filho do homem”, representar o gênero huma­
no: “que é o homem, para que dele te lembres? E o filho do homem, para 
que o visites?” (SI 8.4) e também para indicar uma classe, como os filhos dos 
profetas (1 Rs 20.35; Am 7.14).
O Novo Testamento emprega cerca de dez termos gregos para filho: 
huios, “filho”, que aparece trezentas e setenta e nove vezes, está presente em 
quase todos os livros do Novo Testamento, exceto em Efésios, nas epístolas 
pastorais, em Filemon, 3 João e Judas; em segundo lugar, vem teknon, “fi­
lho, criança”, noventa e nove vezes; em terceiro, paidion, “criança pequena”, 
cinquenta e duas vezes; em seguida, pais, “criado, criança, filho”, vinte e 
quatro vezes; as demais aparecem de uma a duas vezes.
A expressão “filho(s) de Deus”, bên ’èlóhim, em hebraico, aparece em Gê­
nesis 6.2,4 e Jó 1.6; 2.1; 38.7, ou, ’êlim, plural de el, “Deus” (SI 29.1; 89.6), tradu­
zido por “poderosos” na ARC e a ARA traduz por “Deus” (SI 29.1) e “seres ange­
licais” (SI 89.6). A forma aramaica é bar-elãhim, “filho de deus” (Dn 3.25). Em 
todas essas passagens, a expressão é de significado incerto. Em Gênesis, há os 
que defendem a ideia de anjos, nós entendemos tratar-se dos descendentes de 
Sete; em Jó, uns afirmam que são anjos, outros, de humanos tementes a Deus 
e alegam que Deus nunca chamou anjo de filho: “Pois a qual dos anjos Deus 
em algum momento disse: ‘Você é meu Filho, hoje eu gerei você’?” (FIb 1.5). 
Porém, Jó 38.7 parece retroceder a um período anterior à criação do homem.
O conceito de filhos de Deus no Antigo Testamento, com respeito aos 
filhos de Israel, denota relação mediante aliança, concerto, de maneira co­
letiva, a Israel como um todo (Os 1.11). O hebreu devoto, naquela época, não 
se apresentava individualmente como filho de Deus. Os judeus não ousam 
chamar a Deus de Pai, embora o Antigo Testamento apresente Deus como 
o Pai de Israel (Êx 4.22; Jr 31.9). Os muçulmanos prostram-se diante de Alá, 
sua divindade, como escravos e não como filhos. Dizem que é blasfêmia 
chamar Deus de Pai.
No Novo Testamento, essa filiação é por adoção e é individual, por isso 
clamamos “Aba, Pai” (Rm 8.15), ou seja, “Papai”; é a relação espiritual de 
Deus com os seres humanos mediante o sacrifício do Calvário. Não é uma 
filiação de maneira coletiva, como Israel, nos tempos do Antigo Testamen­
to. A expressão “Filho de Deus”, aplicada a Jesus, tem um sentido diferente 
de quando se aplica a nós. Temos tal posição por adoção, e não se trata de 
uma questão de substância ou essência. Deus concedeu-nos essa posição 
pelo mérito da obra redentora de Cristo “a fim de que recebéssemos a ado­
c a p í t u l o 6 • 0 FILHO É IGUAL COM 0 PAI 85
ção de filhos. E, porque vocês são filhos, Deus enviou o Espírito de seu Filho 
ao nosso coração, e esse Espírito clama: ‘Aba, Pai!’” (G14.S,6).
Jesus, o Filho de Deus, igual com o Pai
Resumindo o que foi dito anteriormente, a ideia de filho na Bíblia é 
muito ampla e uma delas diz respeito à identidade de natureza. A expres­
são “filho do homem” é usada para designar o próprio homem como ser 
humano (SI 8.4). Implica igualdade com o Pai (Mt 23.29-31). Esse conceito é 
aplicado largamente no Novo Testamento em relação a Jesus como “Filho 
de Deus”, ou seja, diz respeito à natureza divina, e, muitas vezes, é mal in­
terpretado por religiões não cristãs, como o islamismo.
Os muçulmanos rejeitam essa doutrina e consideram como blasfêmia 
a ideia de Deus gerar filho numa mulher dentro do padrão de reprodução 
humana. E claro que qualquer cristão rejeita também essa caricatura que 
o islamismo criou do referido termo. O sistema das testemunhas de Jeo­
vá, também, emprega conceitos inadequados, pois afirma que ser “filho de 
Deus” não é a mesma coisa que ser Deus. As testemunhas de Jeová, seguindo 
a cartilha de sua religião, costumam perguntar: “Você é seu pai?” Ou “seu 
filho? E óbvio que a resposta é negativa, assim, concluem, 0 Pai não poder 
ser o Filho e nem Filho, o Pai. Essa analogia é falaciosa porque a ortodoxia 
cristã não ensina serem Pai e Filho umamesma pessoa, mas o mesmo Deus, 
também, porque emprega o conceito bíblico de “filho” fora do contexto, para 
se ajustar àquilo em que elas acreditam. Todos precisam saber que “Filho” é 
título exclusivo de Jesus, assim como “Pai” é título exclusivo de Deus.
A expressão “Filho de Deus” revela a divindade de Cristo. A Bíblia afir­
ma com todas as letras que 0 Filho é Deus: “Mas, a respeito do Filho, diz: 
O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; cetro de justiça é o cetro do teu 
reino” (Hb 1.8). Essa citação é do salmo 45.6,7 e o nome “Deus”, no referido 
salmo, é uma referência ao Deus de Israel.
Em João 5.17, Jesus declarou-se Filho de Deus: “Mas Jesus lhes disse: — 
Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também”. No versículo seguinte, 
o evangelista João declara ser isso 0 mesmo que igual a Deus; “Por isso, os 
judeus cada vez mais queriam matá-lo, porque, além de desrespeitar o sá­
bado, também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” 
(Jo 5.18). Jesus considerava essa relação entre o Pai e o Filho como sinôni­
mo de sua deidade. Encontramos algo semelhante em João 10.30-36. Jesus 
disse ser um com o Pai: “Eu e 0 Pai somos um” (v.30). No versículo 33, os
86 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
judeus disseram: “Não é por obra boa que queremos apedrejá-lo, e sim por 
causa da blasfêmia. Pois, sendo você apenas um homem, está se fazendo de 
Deus”, porém, Jesus declarou-se Filho de Deus: “então como vocês dizem 
que aquele que o Pai santificou e enviou ao mundo está blasfemando, só 
porque declarei que sou Filho de Deus?” (Jo 10.36). Dessa forma, fica claro 
que a declaração “Filho de Deus” é uma afirmação da sua divindade.
E falaciosa a teologia unitarista de Ário, defendida, ainda hoje, pelas 
testemunhas de Jeová, pois defende a ideia de que Jesus não é Deus, mas o 
“Filho de Deus”. Isso porque 0 Filho, no contexto cristológico, é título e não 
descendência. Além disso, o conceito de Filho, na filosofia judaica, implica 
a igualdade com o Pai.
No segundo livro dos Reis, nos dois primeiros capítulos, a expressão 
“Filhos dos profetas” equivale a “os profetas”. Tanto faz dizer filhos de pro­
fetas ou profetas (1 Rs 20.35; Am 7.14). “Filho de Deus” revela a sua deidade, 
assim como “Filho do homem” revela a sua “humanidade”. Filho de Deus 
é uma expressão bíblica para referir-se à relação única do Filho Unigênito 
com 0 Pai e revela a divindade de Cristo. Portanto, o conceito do citado gru­
po religioso de que Jesus é “o filho de Deus”, mas não o próprio Deus, é uma 
contradição em si mesma.
O próprio Senhor Jesus afirmou, várias vezes, ser 0 Filho de Deus,68 até 
em juízo, mesmo sabendo que isso resultaria em sua morte: “Todos pergun­
taram: — Então você é o Filho de Deus? Jesus respondeu: — Vocês dizem 
que eu sou” (Lc 22.70). Mateus e Marcos registraram, ainda, que Jesus afir­
mou que, em breve, descería nas nuvens do céu à direita do poder de Deus 
(Mt 26.63,64; Mc 14.61,62). Ele podería ter escapado da cruz se declarasse 
como apenas um filho de Deus, entretanto, reafirmou a verdade acerca de 
sua identidade. Essa afirmação aparece inúmeras vezes no Novo Testamento, 
são, portanto, evidências abundantes, provas escriturísticas robustas e indes­
trutíveis. O apóstolo João parece colocar num mesmo bojo os ateus e os que 
negam ser Jesus o Filho de Deus. Negar isso é o mesmo que chamar a Deus 
de mentiroso, pois é o próprio Deus quem afirma essa verdade (1 Jo 5.9-12).
0 Filho unigênito
A expressão “Filho Unigênito” revela a divindade de Cristo. O adjetivo 
“unigênito”, monogenês, provém de dois vocábulos gregos: monos, “único,
6 8 Mateus 11.27; 24.36; 28.19; João 5.25; 9.35; 11.4.
c a p í t u l o 6 ■ 0 FILHO É IGUAL COM 0 PAI 87
só, solitário”, e genês, que apresenta duas possibilidades: primeiro, parece vir 
de gennaõ, “gerar, dar à luz, produzir”. Por causa disso, há ainda quem afir­
me que o gen, de genes, provém de gennaõ, nesse caso, tal palavra significaria 
“único gerado”, como sugere a expressão inglesa “only-begotten”, usada nas 
suas principais versões da Bíblia nessa língua. A segunda possibilidade, que 
parece receber apoio em todo o contexto bíblico, é o substantivo genos, “raça, 
cepo, tipo, nação, linhagem, espécie, classe”; de onde provém o gen da ge­
nética, responsável pela transmissão dos caracteres dos pais para os filhos.
O termo unigênito só aparece nove vezes no Novo Testamento. Três em 
Lucas, “filho único de uma viúva” (7.12); “uma filha única” (8.42); “meu fi­
lho, porque é 0 único que tenho” (9.38). Uma vez, em Hebreus, referindo-se 
a Isaque: “estava a ponto de sacrificar o seu único filho” (Hb 11.17); ou: “ofe­
recendo seu unigênito” (TB); “ofereceu o seu unigênito” (ARC); “sacrificar 0 
seu unigênito” (ARA); as outras cinco vezes nos escritos joaninos, sendo to­
das elas referindo-se a Jesus: “glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14); “o 
Deus unigênito, que está junto do Pai” (Jo 1.18); “deu 0 seu Filho unigênito... 
no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3.16,18); “em haver Deus enviado o 
seu Filho unigênito ao mundo” (1 Jo 4.9).
A Septuaginta traduziu a palavra hebraicayahid, que traz a ideia de “so­
litário, isolado”, por monogenés no salmo 22.20 [21.21]; “predileta”, na TB; 
ARC; “solitário” em 25.16 [24.16], não havendo ideia de “gerar”. Isaque é 
chamado de unigênito de Abraão (Hb 11.17), e a Bíblia diz que Abraão gerou 
também Ismael (Gn 25.12) e teve mais filhos com Quetura (25.1,2). Isso mos­
tra que a palavra reflete a ideia de natureza, caráter, tipo, e não de geração. 
“Unigênito” significa o “único da espécie, único do tipo”. Jesus é singular, 
único Filho de Deus que tem a essência do Pai. A ideia não é de “único gera­
do”, embora o termo “gerado” não seja, em si mesmo, sinônimo de criatura, 
contudo, a preexistência de Cristo é eterna e, por isso, ele é chamado de Pai 
da Eternidade (Is 9.6).
D. A. Carson afirma que essa primeira etimologia é traiçoeira, pois gen 
pode vir de genos “raça, tipo”.69 Segundo Horst Balz & Gerhard Schneider, 
“povoyevqç significa único, um só de sua classe, singularíssimo (deriva-se de 
qóvoç e yévoç). Esse significado encontra-se em Platão... de maneira pareci­
da em Plutarco”.70 A Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã afirma:
69 CARSON, D.A. A Exegese e Suas Falácias, Vida Nova, S. Paulo, 1992, p. 28.
70 BALZ Horst e SCHNEIDER, Gerhard. Diccionario Exegético Del Nuevo Testamento, 2a. ed., vol. II.
Salamanca: Ediciones Sigueme, 2002, pp. 321, 322.
88 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
A segunda metade da palavra não é derivada de gennao, 
mas é uma forma adjetiva derivada de genos (origem, raça, 
tipo, etc.). O termo monogenés pode, portanto, ser interpretado 
“único do seu tipo”... O adjetivo “unigênito” transmite a ideia de 
consubstancialidade; Jesus é tudo quanto Deus é e somente Ele 
é assim.71
Segundo Vine, o termo, com referência a Jesus revela o sentido “de re­
lação não originada” e indica “o representante exclusivo do Ser e caráter 
daquele que o enviou”.72
Uma das discussões teológicas sobre o assunto envolve a filiação eter­
na e a geração eterna de Cristo. A doutrina da filiação e geração eternas 
do nosso Salvador já foi definida em Niceia. É um debate essencialmente 
teológico, mas lembrando que fazer teologia significa estudar a mensagem 
bíblica considerando as questões culturais do momento e a filosofia. Isso é 
um desafio para qualquer época. Esse assunto sempre foi ponto de grandes 
controvérsias no passado e continua na atualidade.
A geração eterna de Cristo
A palavra profética, no Antigo Testamento, usa o termo “filho” para Je­
sus: “Tu és meu Filho, hoje te gerei” (SI 2.7), isso é atestado no Novo Testa­
mento (At 13.33; Hb 1.5; 5.5). A segunda parte de Hebreus 1.5 que declara: 
“eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho” é cumprimento de outra pro­
fecia do Antigo Testamento (2 Sm 7.14). A profecia messiânica proferida pelo 
profeta Isaías: “porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu” (Is 9.6) 
é outro exemplo.
O Credo Niceno afirmaque Jesus é “gerado, não feito, de uma só subs­
tância com o Pai” e 0 Credo Niceno-Constantinopolitano declara: “o gerado 
do Pai antes de todos os séculos”. Uma das dificuldades no estudo da dou­
trina da geração eterna é a ausência de textos específicos nas Escrituras a 
esse respeito e isso nos deixa sem suporte claro. O adjetivo eterna sequer 
aparece qualificando o substantivo geração na Bíblia. A outra questão é o 
fato de não existir Filho sem que ele seja gerado. Mas, isso não significa falta
71 SHEDD, R. P. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. 3, Vida Nova, S. Paulo, 1988, p. 
595-
72 VINE, W. E. UNGER, Merril F. WHITE JR., William. Dicionário Vine. Rio de Janeiro: CPAD, 2003,
p. 1045-
c a p í t u l o 6 ■ 0 FILHO É IGUAL COM 0 PAI
de sustentação bíblica, pois, se a filiação eterna do nosso Salvador é um fato, 
uma realidade confirmada na Palavra de Deus, logo, não pode haver filiação 
eterna sem geração eterna.
A expressão “geração eterna” surgiu com Orígenes. Ele associa a Sa­
bedoria personalizada de Provérbios 8.22-24, “o SENHOR me possuiu no 
princípio de seus caminhos... (v. 22)... Antes de haver abismos, fui gerada 
... Antes que os montes fossem firmados, antes dos outeiros, eu fui gerada” 
(ARC). A Sabedoria foi gerada desde a eternidade. Orígenes identifica essa 
Sabedoria com 0 Senhor Jesus Cristo, visto que o apóstolo Paulo declara: 
“Cristo Jesus, 0 qual se tornou para nós, da parte de Deus, sabedoria, jus­
tiça, santificação e redenção” (1 Co 1.24): “Essa geração eterna e perpétua é 
como a radiação que vem da luz” (Tratado sobre os princípios, Livro I.2.4).
Deus é Pai ou tornou-se Pai em algum tempo da história ou mesmo na 
eternidade? Os arianistas antigos negavam a eternidade do Verbo, Deus te- 
ria se tornado Pai a partir da suposta criação do Filho, antes da fundação do 
mundo. A ideia dominante no pensamento de Ário era norteada pelo prin­
cípio monoteísta esboçado pelo monarquianismo dinâmico. Existe um só 
Deus não gerado, dizia, um único Ser não originado, sem nenhum começo 
de existência. Até aí, isso fazia sentido, pois, os credos começam afirmando 
a existência de um só Deus.
O Filho tivera começo e teria sido criado do nada antes de o Pai haver 
criado o mundo, segundo Ário. O arianismo ensinava que Deus se tomou 
Pai quando criou o Filho, e se negava a reconhecer a deidade do Filho e a 
sua consubstancialidade com 0 Pai, reduzindo-o à condição de mera criatura. 
Reiteramos a palavra de ordem e 0 refrão cantado por ele e seus partidários: 
“Houve tempo em que o Verbo não existia”. Mas, a formulação nicena declara 
que o Senhor Jesus é “verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito”. 
A expressão “gerado, não feito” fala de sua eternidade. A reafirmação do Cre­
do Niceno em Constantinopla em 381 explica: “o Filho Unigênito de Deus, o 
gerado do Pai antes de todos os séculos”. Uma resposta aos arianistas.
Em Niceia, ficou definido que 0 Filho é o “gerado, não feito”. Essa infor­
mação é importante porque explica que “gerado” na eternidade não é sinô­
nimo de originado ou que teve um começo. A geração eterna não deve ser 
confundida com a geração na experiência humana porque ela não é física, 
nem temporal ou histórica, nem envolve pai e mãe como acontece com os 
humanos e nem depende da vontade do Pai, é algo inefável. A ideia envolve 
uma comunicação de essência divina do Pai ao Filho.
90 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
O Credo Niceno-Constantinopolitano é uma reafirmação ampliada da 
fórmula nicena e vincula a geração eterna de Jesus ao termo unigênito: “E 
em um só Senhor Jesus Cristo, o Filho Unigênito de Deus, o gerado do Pai 
antes de todos os séculos”. Isso não deixa dúvida sobre a geração eterna, 
pois, em Niceia, diz apenas “gerado, não feito”, expressão que não ficou 
muito clara.
A filiação eterna de Cristo
A expressão teológica “filiação eterna” é muito diferente da outra ex­
pressão “geração eterna”. Mas, a compreensão da primeira expressão de­
pende da segunda. Há duas linhas principais de interpretação entre os 
evangélicos sobre a filiação de Jesus. Ambas reconhecem a eternidade de 
Cristo e a sua deidade absoluta.
Alguns expositores afirmam que o Logos, a Palavra, o Verbo, é eterno, 
que se tornou Filho na encarnação; outros acreditam que Jesus já era o Filho 
de Deus desde a eternidade. Os que pensam que a filiação do Verbo começou 
no nascimento de Jesus ou em algum momento do seu ministério terre­
no afirmam que o Verbo é eterno, mas que a sua filiação divina aconteceu 
quando o Verbo se fez carne, assumindo a natureza humana. Eles defendem 
a divindade absoluta de Cristo, suas duas naturezas, a humana e a divina 
em uma só pessoa de Cristo, a unio personalis, conforme formulação de 
Calcedônia em 451. Então, perguntamos: Deus é Pai desde a eternidade ou 
tomou-se Pai a partir da encarnação do Verbo?
Resposta. A geração eterna do Filho é ensinada antes, durante e depois de 
Niceia. Tertuliano escreveu: “visto que foi gerado antes de todas as eras; e 
0 unigênito, porque somente ele foi gerado de Deus, numa maneira pecu­
liar a si mesmo, do ventre do seu próprio coração” (Contra Práxeas, 7). Ele 
cita Salmos 45.1 como base de sua declaração. Interessante que Atanásio 
também citou esse mesmo salmo para explicar a geração do Filho (Contra 
os arianos, Livro II.57.1) e disse ainda: “o Pai não seria chamado pai nem 
o seria se não existisse o Filho”, isso em resposta aos arianistas (Contra os 
arianos, Livro I.29.2) e acrescenta que as palavras de Jesus “eu estou no Pai 
e que o Pai está em mim” (Jo 14.10,11) significa que o Filho está junto do Pai 
e, com isso, “ninguém pode dizer ‘Pai’ se não existisse um Filho” (Contra os 
arianos, Livro III.6.3).
c a p í t u l o 6 ■ 0 FILHO É IGUAL COM 0 PAI 91
Fundamentação bíblica
Isaías 9.6. “Um menino nos nasceu, um filho se nos deu”. Note que 0 me­
nino nasceu, mas o Filho, segundo a palavra profética, não nasceu, mas “se 
nos deu”. O nascimento desse menino aconteceu em Belém, mas o Filho 
já existia desde a eternidade. O Senhor Jesus disse: “E, agora, glorifica-me 
tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que tinha contigo antes que 
o mundo existisse” (Jo 17.5). Jesus está se referindo a Deus como Pai e fala 
do seu relacionamento com ele na qualidade de Filho eterno, antes que o 
mundo existisse. O verbo grego “enviar” usado no perfeito, apéstalken, de 
apostéllo, em “Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele 
vivamos” (1 Jo 4.9) indica que o nosso Salvador já era Filho Unigênito quan­
do foi enviado ao mundo (0 perfeito grego não é usado para indicar uma 
ação passada, mas o estado presente é resultante da ação passada), não é o 
mesmo tempo verbal grego de João 3.17.
Lucas 1.35. “O anjo respondeu: — O Espírito Santo virá sobre você, e o 
poder do Altíssimo a envolverá com a sua sombra; por isso, também o ente 
santo que há de nascer será chamado Filho de Deus”. Essa passagem é usa­
da por aqueles que acreditam que a filiação de Jesus começou na encarna­
ção. Se a filiação tivesse começado no nascimento de Jesus, então, ele seria 
Filho do Espírito Santo; além disso, está escrito: “apareceu em sonho um 
anjo do Senhor, dizendo: — José, filho de Davi, não tenha medo de receber 
Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo” (Mt 
1.20). A Bíblia ensina que Ele já era Filho antes de vir ao mundo. Além disso, 
a Escritura é clara em afirmar que Jesus é “o Filho do Pai” (2 Jo 1.3). Isso 
mostra que a filiação não começou na sua encarnação.
O anjo não está dizendo que 0 nosso Salvador se tornaria Filho de 
Deus na encarnação, mas que 0 ente santo que há de nascer será chamado 
Filho de Deus, isso é muito diferente. Ele não está dizendo que a natu­
reza humana dessa santa criança se tornaria divina, mas que ela seria 
reconhecida como o Filho de Deus. A natureza humana de Jesus nunca é 
chamada de Filho de Deus no Novo Testamento. Em nenhum lugar as Es­
crituras afirmam que Deus enviou o Verbo ao mundo para serFilho, mas, 
todas as vezes que mencionam esse envio, se referem ao Salvador como 
“Filho” (Jo 3.18; Rm 8.3; G1 4.4).
92 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
A geração dupla do Salvador. O cumprimento da palavra profética: 
“Você é meu Filho, hoje eu gerei você” (SI 2.7) não está claro, pois se pode 
aplicar ao batismo de Jesus (Mt 3.17; Mc 1 .11 ; Lc 3.22), ou ainda à sua res­
surreição (At 13.32,33; Rm 1.3,4), ou à sua exaltação no céu (Hb 1.5) e até 
mesmo à investidura de Jesus como sumo sacerdote (Hb 5.5). O certo é, e 
ninguém pode negar que tudo isso se cumpre na pessoa histórica do Se­
nhor Jesus. A palavra “hoje”, nessa profecia, (SI 2.7) “não se refere ao hoje 
da eternidade divina, que não tem passado nem futuro fora de si”,73 com 
certeza não diz respeito à geração eterna, embora essa ideia não esteja to­
talmente excluída. A formulação do Segundo Concilio de Constantinopla, 
em 553, reconhece que o Verbo foi gerado duas vezes, “... a primeira do 
Pai antes de todas as eras, intemporal e incorporai, e a outra nos últimos 
dias”, referindo-se à encarnação.
A HERESIA DO SUBORDINACIONISMO
Subordinacionismo é a cristologia dos unitaristas de ontem e hoje. É 
o nome que se dá à tendência teológica muito em voga no período pré-ni- 
ceno que considerava Cristo, enquanto Filho de Deus, inferior ao Pai. Seus 
principais representantes são os ebionitas, os monarquianistas dinâmi­
cos e os arianistas. Eles baseavam sua tese na interpretação peculiar de 
algumas passagens bíblicas mencionadas no capítulo anterior. Orígenes, 
o mais controvertido dos teólogos da antiguidade, manifestou em seus 
escritos essa tendência.
Orígenes
Orígenes é um dos teólogos pré-nicenos mais controvertidos, é, pois, 
inaceitável supor que uma simples frase expresse todo o pensamento dele. 
Há na vastíssima e complexa produção literária de Orígenes idéias de acor­
do com a ortodoxia da igreja como também idéias neoplatônicas e obscuras, 
de modo que, desde 0 passado, os estudiosos do assunto estão divididos. 
Nas controvérsias arianistas, havia os que apoiavam Ário, usando Orígenes 
como base; como também os que apoiavam Alexandre, opositor de Ário, 
também se baseavam no mesmo Orígenes.
73 PANNENBERG Wolfhart. Teologia Sistemática, vol. São Paulo: Editora Academia Cristã e Paulus 
Editora, 2009, p. 416.
c a p í t u l o 6 • 0 FILHO É IGUAL COM 0 PAI
Para compreender a teologia de Orígenes e lhe fazer justiça, é impor­
tante conhecê-lo um pouco como personagem, exegeta, homem espiritual 
e teólogo. Isso você pode encontrar na obra Orígenes: Un teólogo controver­
tido, da autoria de Henri Crouzel. Nos capítulos IX e X da quarta parte do 
livro, Crouzel discorre sobre o assunto com muita propriedade, como pôde 
Orígenes ser ao mesmo tempo trinitariano clássico e subordinacionista, o 
que ele quer dizer com tais declarações.
Orígenes foi um grande defensor da fé cristã, mas o seu pensamento 
teológico, sobretudo sobre a Trindade, apresenta forte afinidade com a fi­
losofia neoplatônica defendida por Plotino, principal expoente do neoplato- 
nismo, discípulo de Amônio Saccas (175-241), fundador dessa escola filosó­
fica e colega de classe de Orígenes. Ele foi o maior teólogo da antiga escola 
de Alexandria. Segundo Paul Tillich, “Orígenes foi considerado herege na 
igreja cristã, muito embora tenha sido na época o seu maior teólogo”.74 Mas, 
essa posição foi revista posteriormente até porque, em sua época, a igreja 
não tinha ainda uma teologia formal.
Segundo os críticos de Orígenes, ele ensinava que “0 poder do Pai é 
maior do que o do Filho e do Espírito Santo, e o poder do Filho é maior do 
que 0 do Espírito Santo”. Isto está numa carta endereçada a Mena, patriar­
ca de Constantinopla (536-S52). Essa informação aparece numa epístola de 
Jerônimo aAvito.
Orígenes exerceu grande influência no Oriente por mais de cem anos. 
Observe-se que o historiador da Igreja, Eusébio de Cesareia, foi influen­
ciado pelo pensamento de Orígenes. Ele mesmo fundou uma escola teoló­
gica nessa cidade de Cesareia e permaneceu lá durante vinte anos. Eusé­
bio assimilou também essa doutrina subordinacionista de Orígenes, pois 
escreveu: “Como os oráculos dos hebreus classificam 0 Espírito Santo em 
terceiro lugar depois do Pai e do Logos” (Preparatio Evangélica, XI:2i.i). 
Na avaliação de Paul Tillich, há dois princípios conflitantes no pensamen­
to de Orígenes: “Um deles é a divindade do Salvador; se não for divino não 
poderá salvar. O outro é 0 esquema das emanações, há graus de emanação 
a partir do absoluto”.7S Mas, segundo Crouzel, a teologia de Orígenes pre­
cisa ser interpretada corretamente e não vê nela contradição alguma em 
relação à ortodoxia cristã.
74 TILLICH, Paul. História do pensamento cristão. São Paulo: Aste, 2004, p. 81.
75 Ibidem, p. 77.
94 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
COMO O SUBORDINACIONISMO SE APRESENTA HOJE
O principal movimento religioso que expressa em nossos dias o pen­
samento arianista e assume publicamente suas idéias subordinacionistas 
dos antigos unitaristas são as testemunhas de Jeová, que era trinitário na 
sua origem; Caries T. Russell, o fundador do movimento, só começou argu­
mentar contra a personalidade do Espírito Santo e atacar o trinitarianismo, 
adotando a crença de Ário, em 1882.76 Em 1877, ele “defende o ponto de vista 
trinitariano do Espírito Santo como uma pessoa e ataca os cristadelfianos77 
por desviarem disso”.78
Fica claro e com sólidos fundamentos bíblicos de que a falácia da teo­
logia unitarista de Ário, defendida ainda hoje pelos subordinacionistas, de 
que Jesus não é Deus, mas o “Filho de Deus”, não tem sustentação algu­
ma. O conceito de Pai-Filho, na divindade, não deve ser confundido com o 
processo de reprodução humana e nem no relacionamento pai-filho numa 
família entre os humanos. Então, quando 0 termo “filho” se refere a Jesus 
como Filho de Deus significa sua igualdade ao Pai, ou seja, que ambos são 
da mesma substância e essência.
76 PENTON, M. James. Apocalypse Delayed - The Story ofjehovah 's Witnesses. Toronto, Buffalo, Lon- 
don: University of Toronto Press, 2002, p. 27; The Watchtower, Julho de 1882, pp. 2-4.
77 O movimento Cristadelfiano, palavra grega que significa “irmão de Cristo”, foi fundado por John 
Thomas (1805-1871) e recebeu esse nome em 1864. Os cristadelfianos negam a Trindade, a persona­
lidade do Espírito Santo e a doutrina do sofrimento eterno. Sua cristologia é a mesma das testemu­
nhas de Jeová e opõe-se à ortodoxia cristã.
78 REED, David A. Jehovah ’s Witnesses Literature - A Criticai Guide to Watchtower Publications. Grand 
Rapids, MI, USA: Baker Book House Co, 1993, p. 26; BARBOUR, Nelson H. and RUSSELL, Charles 
T. Three Worlds, and the Harvest This World. Rochester, New York, USA: The Herald of the Mor- 
ning, 1877, pp. 57, 58.
CdpítulO 1
A NATUREZA HUMANA 
E DIVINA DE JESUS
N
ada foi mudado na encarnação, portanto, Ele é o perfeito homem, 
“Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2.s), e o perfeito Deus, em toda a 
plenitude “porque nele habita corporalmente toda a plenitude da 
divindade” (Cl 2.9). O Senhor Jesus é 0 verdadeiro homem e o ver­
dadeiro Deus, esta verdade é revelada com clareza no Novo Testa­
mento. O Jesus homem é 0 tema do capítulo 3 e o Jesus Deus no capítulo 
seguinte. Essa doutrina é conhecida, hoje, como unio personalis, do latim, 
literalmente, “união pessoal”, e teologicamente, significa, “a união das duas 
naturezas na pessoa de Cristo”.79 Uma vez definida para sempre a cristo- 
logia em Neceia, 325, e a Trindade em Constantinopla, 381, surgem várias 
especulações teológicas em torno das naturezas de Cristo, humana e divina.
0 ENSINO BÍBLICO DA DUPLA NATUREZA DE JESUS
Que Jesus é o verdadeiro homem e ao mesmo tempo, o verdadeiro 
Deus, isso é uma verdade com abundantes e irrefutáveis provas bíblicas. O 
que ensina a Bíblia sobre a doutrina unio personalis?
79 MULLER, A. Richard. Dicionário de Termos Teológicos Latinos e Gregos. Rio de Janeiro: CPAD, 2023, 
p. 410.
96 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Revisando a humanidadee a divindade de Cristo
Estudamos no capítulo 3 que 0 Senhor veio ao mundo como 0 perfeito 
homem, “veio em carne”, ou seja, “e 0 Verbo se fez carne e habitou entre 
nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do uni- 
gênito do Pai” (Jo 1.14). O apóstolo João retoma o tema mais adiante em 
suas epístolas (1 Jo 1.1-3; 4-2,3; 2 Jo v.7). Isso sem contar as inúmeras passa­
gens no Novo Testamento que mostram, de maneira direta e indireta, Jesus 
como ser humano perfeito, homem completo em toda a sua natureza huma­
na, “Jesus Cristo, homem” (2 Tm 2.5), mas, sem pecado (Hb 4.15; 1 Pe 2.22).
Estudamos ainda no capítulo 4 a divindade de Cristo, como a Bíblia re­
vela essa verdade tanto de maneira direta como também de maneira indire­
ta, por meio de seus atributos e obras divinas. O Senhor Jesus não é metade 
Deus e metade homem e nem uma mistura dessas duas naturezas, não é 
isso que o Novo Testamento ensina. São inúmeras passagens que ensinam 
a humanidade e a divindade de Jesus.
A unio p e rs o n a lis no Novo Testamento
A doutrina das duas naturezas de Cristo, a humana e a divina, é um 
ensino essencialmente bíblico. Mas, a sua definição teológica só ocorreu no 
ano 451, no Concilio de Calcedônia.80 Jesus andou entre nós, apresentou to­
das as características do ser humano, exceto 0 pecado, e também manifes­
tou a sua glória, como Deus. Ele é 0 eterno e verdadeiro Deus e, ao mesmo 
tempo, o verdadeiro homem (Rm 1.3,4; 9-5)- As duas naturezas, a humana e 
a divina em uma só Pessoa, a Pessoa de Cristo, aparecem ainda, de maneira 
expressa e direta (Jo 1.14; Rm 1.3,4; 9-5; Fp 2.5,6).
Jo ã o 1 . 1 4 : “E 0 Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de 
verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. A terceira 
cláusula de João 1.1 declara: “e o Verbo era Deus”, e mais adiante: “Todas 
as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (v. 3). 
Nessa encarnação, Ele não deixou de ser 0 Verbo eterno e nem deixou a sua 
natureza divina.
A expressão “e 0 Verbo se fez carne” significa que Ele veio como ho­
mem, assumindo a natureza humana em toda sua completude identi-
80 A Calcedônia se localizada na província da Bitínia, região citada no Novo Testamento (At 16.7; 1 Pe 
1.1). Hoje é um bairro de Istambul, na Turquia, e se chama Kadikõy.
c a p í t u l o 7 ■ A NATUREZA HUMANA E DIVINA DE JESUS
ficando-se com o gênero humano, possuindo corpo, alma e espírito. O 
verbo grego para “habitou entre nós” é skênoõ, “habitar em tendas, taber- 
nacular”, no Novo Testamento; ou “acampar em tenda, levantar uma ten­
da” na Septuaginta.81 Esse verbo pertence ao mesmo campo semântico do 
substantivo skênê, “tabernáculo, tenda, cabana”. Trata-se, pois, de morada 
provisória. Isso diz respeito ao período temporário do ministério terreno 
do Senhor Jesus.
Note que a sua glória como a “do unigênito do Pai”, diz Vincent, não 
pode ser a glória absoluta, pois ela “só podia pertencer ao estado preexis­
tente dele e à condição subsequente de sua exaltação, na sua glória revelada, 
sob as limitações humanas, nele mesmo e nos que o observaram”.82 Tra- 
ta-se da mesma glória divina revelada no Antigo Testamento (Êx 40.34,35; 
2 Cr 7.1,2). Essa passagem joanina reúne, na pessoa de Jesus, a natureza 
humana e a natureza divina.
Romanos 1.3, 4: “Este evangelho diz respeito a seu Filho, o qual, segundo 
a carne, veio da descendência de Davi e foi designado Filho de Deus com po­
der, segundo 0 Espírito de santidade, pela ressurreição dos mortos, a saber, 
Jesus Cristo, nosso Senhor”. Há quem afirme que essas palavras “consistem 
em um hino ou credo sobre Jesus anterior a Paulo”.83 Esses dois versículos 
declaram “sua verdadeira humanidade junto com sua verdadeira deidade”.84 
A expressão “da descendência de Davi segundo a carne” (Rm 1.3 - ARC) é 
uma referência aos ancestrais de Jesus, que ele veio de uma família humana 
de carne e ossos e que vivia entre o povo de Israel, a sua genealogia está re­
gistrada em Mateus 1.1-16 e em Lucas 3.23-38. Jesus foi concebido no ventre 
de Maria, uma virgem de Israel, pelo Espírito Santo (Mt 1.20; Lc 1.35). Aí 
está o elo humano-divino, as duas naturezas do Senhor Jesus.
O versículo “designado Filho de Deus com poder, segundo 0 Espírito 
de santidade”, afirma Robertson, indica que Jesus “era Filho de Deus em 
seu estado preencarnado (2 Co 8.9; Fp 2.6) e o seguiu sendo após a encar­
nação”.85 Essa expressão aponta a divindade de Jesus e isso é reforçado
8 1 ROBINSON, Edward. Léxico Grego do Novo Testamento. Rio de Janeiro, CPAD, p. 837.
82 VINCENT. Estudo no Vocabulário Grego do Novo Testamento, Vol. II. Rio de Janeiro: CPAD, 2013, p. 42.
83 PATE, C. Marvin. Romanos - Comentário Expositivo. São Paulo: Vida Nova, 2015, p. 18.
84 ROBERTSON, A. T. Imágenes Verbales en el Nuevo Testamento, tomo 4. Barcelona, Espana: Editorial 
Clie, 1990, p. 436.
85 Ibidem.
98 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
logo em seguida pelas palavras “Jesus Cristo, nosso Senhor”. O “Espírito 
de santidade” ou “de santificação” (ARC), que segundo Vincent, Robertson 
e outros, não diz respeito ao Espírito Santo, mas “ao espírito de Cristo 
como o lugar da natureza divina pertencente à sua Pessoa”;86 87 “não se re­
fere ao Espírito Santo, mas à descrição ética de Cristo, assim como kata 
sarka87 o descreve fisicamente”.88
Romanos 9.5 : “Deles são os patriarcas, e também deles descende 0 Cristo, 
segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para sempre. Amém!” 
A questão, nessa passagem, é quanto à pontuação, pois na antiguidade não 
havia sinal gráfico de pontuação. A escrita antiga, hebraica, aramaica, gre­
ga, latina e outras línguas, muitas vezes, não deixavam espaço entre pala­
vras ou sentenças e a pontuação, até 0 século VII d.C., ainda era esporádica. 
A vírgula foi introduzida na língua grega por volta do século IX, e o ponto de 
interrogação (;), um pouco antes. Essa forma de escrita sem separação de 
palavras e sentenças é chamada scriptio continua. Só depois do século XI é 
que aparece separação entre palavras, a começar pelos manuscritos latinos. 
A construção grega nessa passagem permite duas formas de pontuação, a 
forma alternativa é “... o Cristo. Deus, 0 qual é sobre todas as coisas, seja 
bendito para sempre”, e fraseologia similar. Versões, segundo essa linha de 
pensamento, é incomum, mas é a forma predileta dos arianistas porque se 
adequa ao seu pensamento heterodoxo.
Os editores da Tradução do Novo Mundo se aproveitam dessa situação 
para adaptar 0 texto às suas crenças, e traduziram assim: “A eles pertencem 
os patriarcas e deles descendeu 0 Cristo segundo a carne. Deus, que está so­
bre tudo, seja louvado para sempre”. Nessa linguagem, não afirmam Cristo 
como Deus. Mas, isso vem do Novo Testamento interlinear grego e inglês, 
chamado The Emphatic Diaglott [O Diaglotão Enfático], publicado em 1864 
por Benjamin Wilson, um unitarista membro do grupo arianianista crista- 
delfiano, hoje editado pelo movimento das testemunhas de Jeová; segundo 
Bruce Metzger, o texto é “um ancestral da Tradução do Novo Mundo”.89
86 VINCENT. Vincenfs Word, Studies in the New Testament, Vol. III. Peabody, MA; Hendrickson Pub- 
lishers, s/d, p. 4.
87 A expressão grega kata sarka significa “segundo a carne”.
88 ROBERTSON. Op. cit., p. 437.
89 METZGER, M. Bruce: In: “The Jehovah’s Witnesses and Jesus Christ” - Theology Today (abril de 
1953)- P- 67.
c a p í t u l o 7 ■ A NATUREZA HUMANA E DIVINA DE JESUS 99
Algumas versões trancaram a segunda parte dessa passagem. A ver­
são católica Bíblia do Peregrino traduz: “de sua linhagem segundo a carne 
descende o Messias. Seja para sempre bendito o Deus que está acima de 
tudo. Amém”, e a Bíblia Edição Pastoral: “e deles nasceu Cristo segundo a 
condição humana, que está acima de tudo. Deus seja bendito para sempre. 
Amém!”. Quem se interessa, geralmente, por tradução similar são editores 
heterodoxos, como as testemunhas de Jeová.
Apesar de ser uma tradução possível, não é natural,explica Robertson: 
Esta e a maneira natural de tomar o sentido da oração, cuja pontuação 
própria e literal é a seguinte: ‘O qual é sobre todas as coisas Deus bendito 
pelos séculos... A interposição de um ponto e seguido depois de sarka (ou de 
um ponto e vírgula) e a iniciação de uma nova oração para a doxologia, tem 
um resultado mui brusco e forçado”.90
Ao descrever os privilégios que Deus concedeu a Israel como a adoção 
de filhos, a glória, os concertos, a leijo culto e as promessas; o apóstolo con­
clui: “deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus 
bendito para sempre. Amém!” O Senhor Jesus é um judeu, descendente de 
Israel e ao mesmo tempo é o “Deus bendito eternamente”.
Filipenses 2.6-8: “Tenham entre vocês 0 mesmo modo de 
pensar de Cristo Jesus, que, mesmo existindo na forma de Deus, 
não considerou o ser igual a Deus algo que deveria ser retido 
a qualquer custo. Pelo contrário, ele se esvaziou, assumindo a 
forma de servo, tornando-se semelhante aos seres humanos. E, 
reconhecido em figura humana, ele se humilhou, tornando-se 
obediente até a morte, e morte de cruz”.
Essa passagem, como Romanos 1.3,4, é parte de um antigo hino cris- 
tológico.91 O texto está dizendo que, embora sendo Jesus Deus, não usou as 
prerrogativas da divindade durante seu ministério terreno e, mesmo que 
fizesse uso delas, não consideraria isso uma usurpação. Paulo está se re­
ferindo ao status de Cristo antes da encarnação (Jo 1.1,14). O apóstolo está 
sendo muito claro no ensino das naturezas humana e divina em uma só 
Pessoa. O termo grego morphê, “forma”, usado pelo apóstolo Paulo “sendo
90 ROBERTSON, Op. cit, p. 512.
91 BRUCE, F.F. Filipenses - Novo Comentário Contemporâneo. São Paulo: Vida, 1992, p. 77.
100 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
na forma de Deus” (v.6) indica essência imutável, portanto, Ele jamais dei­
xou de ser Deus.
AS HERESIAS CONTRA 0 ENSINO BÍBLICO 
DA DUPLA NATUREZA DE JESUS
Pelo menos, dois heresiarcas se destacam nesse tema das duas nature­
zas de Cristo, Nestório e Eutico.
0 nestorianismo
As controvérsias nestorianas enfocavam duas questões: o theotokos 
e a dupla natureza de Cristo. O termo “nestorianismo” provém de Nestó­
rio, patriarca de Constantinopla entre 428-431. Ele nasceu possivelmente 
em 381 na Síria e “viveu como monge e sacerdote em Antioquia, quan­
do adquiriu fama de piedade e eloquência, pelo que, em 10 de abril de 
428, foi eleito para a sede episcopal da capital, Constantinopla, de grande 
importância política e eclesiástica”.92 Quanto ao seu principal opositor, 
Cirilo de Alexandria, ele nasceu entre 370-380 e assumiu a liderança ecle­
siástica em 412.
O nestorianismo afirmava “que havia duas pessoas, a divina e a hu­
mana, vivendo juntas em Jesus Cristo”.93 Mas, Nestório tomou partido na 
controvérsia sobre Maria ser chamada de theotokos, termo grego que li­
teralmente significa “receptora de Deus”, equivocadamente popularizada 
como “mãe de Deus”. Seu grande desafeto foi Cirilo, bispo de Alexandria, 
principal expoente da palavra theotokos como mãe de Deus. Segundo Paul 
Tillich, Nestório “foi o mais inocente dos hereges. Na verdade, tornara-se 
vítima da polêmica entre Bizâncio e Alexandria”.94
Nestório discordava do título dado à Maria como “mãe de Deus”. Ele 
sugeriu theotokos, “receptora de Deus”, ou christotokos, “mãe de Cristo”; 
seu objetivo era “distinguir claramente, por um lado, os atributos das natu­
rezas, e por outro, mostrar com isto que 0 homem Jesus, nascido de Maria, 
estava unido a Deus”.95 A popularidade do termo theotokos impediu o êxito
92 DROBNER, Hubertus R. Manual de patrologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, 450.
93 CAMPOS, Heber Carlos. A união das naturezas do Redentor. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 
2005, p. 36.
94 TILLICH, Paul. História do Pensamento Cristão. São Paulo: Aste, 2004, p. 99.
95 DROBNER, Hubertus R. Manual de patrologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, 450.
c a p í t u l o 7 ■ A NATUREZA HUMANA E DIVINA DE JESUS 101
de Nestório, apesar de estar correto pela ótica teológica, além da reação con­
trária na capital e em muitos lugares, até Alexandria.
Sobre as duas naturezas de Cristo, o que ele dizia era o ensino da tra­
dição de Antioquia. “O termo ‘homem’, em Jesus, descreve uma das natu­
rezas, e o termo ‘Deus’ ou ‘Logos’, a outra”.96 Foi por causa dessa ideia que 
Nestório passou para a história como heresiarca. Foi considerado herege 
pelo Concilio de Éfeso em 431, 0 terceiro Concilio Geral, depois de Niceia 
e Constantinopla, e banido em 436, onde não teve o direito de se defender. 
Foi vítima do seu opositor, Cirilo de Alexandria, tido pelos historiadores 
como um bispo sem escrúpulos.97 Quando Nestório chegou a Éfeso, o con­
cilio já havia terminado e ele, julgado, condenado e sentenciado.98 Mas, há 
quem afirme, e não são poucos, que esse pensamento era uma caricatura do 
ensino dele, que não foi isso que ensinou, teria sido uma acusação injusta 
promovida por Cirilo de Alexandria.
Foi redescoberta em 1895 na biblioteca patriarcal de Kotchanes, atual­
mente Konak, na Turquia, a obra completa de Nestório o Liber Heraclidis, 
uma apologia à sua doutrina e posição pessoal, escrita nos últimos vinte 
anos de sua vida. Ela foi publicada pela primeira vez em 1910. Por este 
documento, “pela primeira vez tornou-se possível uma visão do pensa­
mento original de Nestório para além das disputas em torno do Concilio 
de Éfeso, levando consequentemente à sua revalorização, que ainda não 
está concluída”.99
0 monofisismo
O Concilio de Éfeso, 431, não deixou claro como funciona o relaciona­
mento entre o humano e 0 divino em Cristo: “Afirmamos que 0 Verbo, de 
um modo indizível e inconcebível, uniu a si mesmo a carne hipostatica- 
mente animada por uma alma racional, e assim se tomou homem”.
A unio personalis é, em grego, “hipóstase”, hypostasis, de hypo, “sob”, e 
do verbo, histêmi, “colocar, firmar”. Nas discussões teológicas sobre a doutri­
na da Trindade, o termo era usado como sinônimo de ousia, “essência, ser”. 
Com relação a Jesus, significa a união das duas naturezas: divina e humana.
96 TILLICH, Paul. Op. cit., 99.
97 DROBNER, Hubertus R. Op. cit., 451.
98 TAYLOR, Richard S. Diccionario Teológico Beacon, Casa Nazarena de Publicaciones, Kansas City, 
1995, P- 463.
99 DROBNER, Hubertus R., p. 454.
102 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
O vocábulo “monofisismo” ou “monofisita” provém de duas palavras 
gregas: monos, “único”, ephysis, “natureza”. Esse termo é genérico e passou 
a ser usado, posteriormente para indicar os grupos que defendiam a doutri­
na de que Cristo possuía uma só natureza. Trata-se da doutrina que defen­
de que naturezas divina e humana de Cristo estavam amalgamadas numa 
única natureza. O sentido de “amalgamar” não é o de unir, não se trata de 
união, mas de mistura, fusão; assim, seria uma só natureza híbrida, nem 
totalmente Deus e nem totalmente homem.
Êutico ou Eutique, como era também chamado, um monge de Constan- 
tinopla (aproximadamente 378-454), foi o principal expoente dessa doutri­
na, por isso, 0 monofisismo é também conhecido como eutiquianismo. Sua 
intenção era combater o ensino de Nestório, mas caiu em outro erro. “Em 
termos históricos, ele é considerado fundador de uma forma extremada e 
praticamente docética de monofisismo, ensinando que a humanidade do 
Senhor havia sido totalmente absorvida por sua divindade”.100 Esse era o 
pensamento radical ensinado pela escola alexandrina. Mas, Roma e Antio- 
quia discordavam dessa ideia. Êutico foi convidado a desculpar-se diante 
do patriarca de Constantinopla, Flaviano, quando foi condenado em 22 de 
novembro de 448, numa reunião do Sínodo Permanente.
Diante das controvérsias nestoriana e eutiquiana, 0 imperador Mar­
ciano, sucessor de Teodósio I, convocou o Concilio da Calcedônia, que teve 
início em 8 de outubro de 451, vinte anos depois do Concilio de Éfeso. O 
Credo de Calcedônia é uma resposta ao nestorianismo e ao monofisismo 
como se segue:
Fiéis aos santos pais, todos nós, perfeitamenteunânimes, 
ensinamos que se deve confessar um só e mesmo Filho, nosso 
Senhor Jesus Cristo, perfeito quanto à divindade e perfeito 
quanto à humanidade, verdadeiramente Deus e verdadeiramente 
homem, constando de alma racional e de corpo consubstanciai 
[homooysios] ao Pai, segundo a divindade, e consubstanciai a nós, 
segundo a humanidade; “em todas as coisas semelhante a nós, 
excetuando 0 pecado”, gerado, segundo a divindade, antes dos 
séculos pelo Pai e, segundo a humanidade, por nós e para nossa
100 KELLY. John Norman Davidson. Patrística - origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da fé 
cristã. São Paulo: Edições Vida Nova, 2009, p. 250.
c a p í t u l o 7 • A NATUREZA HUMANA E DIVINA DE JESUS 103
salvação, gerado da Virgem Maria, mãe de Deus [theotókos].
Um só e mesmo Cristo, Filho, Senhor, Unigênito, que se deve 
confessar, em duas naturezas,101 inconfundíveis102 e imutáveis,103 
inseparáveis e indivisíveis104. A distinção de naturezas de modo 
algum é anulada pela união, mas, pelo contrário, as propriedades 
de cada natureza permanecem intactas, concorrendo para 
formar uma só pessoa e subsistência [hypóstasis]; não dividido ou 
separado em duas pessoas, mas um só e mesmo Filho Unigênito,
Deus Verbo, Jesus Cristo Senhor, conforme os profetas outrora 
a seu respeito testemunharam, e o mesmo Jesus Cristo nos 
ensinou e o credo dos pais nos transmitiu.
Assim, o nestorianismo e o monofisismo foram rejeitados em Calcedô- 
nia. Essa declaração fala a respeito das duas naturezas de Cristo em uma 
só pessoa. A encarnação do Verbo não é uma conversão ou transmutação 
de Deus em homem nem de homem em Deus. A distinção é precisa entre 
natureza e pessoa. O Deus-homem é resultado da encarnação; trata-se de 
uma só pessoa com duas naturezas: humana e divina. A união dessas duas 
naturezas é permanente como resultado da encarnação.
O resultado desagradou os representantes do Oriente. Os delegados 
de Alexandria não assinaram a declaração final. A reação oriental con­
tra a Calcedônia contribuiu para a divisão entre Oriente e Ocidente. “Jacó 
Baradeus e seus seguidores rejeitaram a decisão desse Concilio. A igreja 
nacional da Síria é conhecida como Jacobita, ainda hoje mantém o mo- 
nofisismo que é defendido nas igrejas cóptica, armênia, abissínia e jaco- 
bitas”.105 Assim, ficou definida, de uma vez para sempre, a doutrina das 
duas naturezas de Cristo, humana plena e perfeitamente divina e ambas 
as naturezas permanecem intactas.
ío i Dyo physesin, “duas naturezas”.
102 Asynchytõs, “inconfundível”.
103 Atreptõs], “imutável”.
104 Adiairetõs kai achistõs], “indivisível e inseparável” ou “sem divisão e sem separação”.
105 SOARES, Esequias. A razão da nossa fé. Assim cremos, assim vivemos. Rio de Janeiro: CPAD, p. 71.
Câpí tu lo 8
JESUS VIVEU A 
EXPERIÊNCIA HUMANA
A
lém do seu modo de viver entre as pessoas, os evangelhos mos­
tram que na Pessoa de Jesus havia os elementos constitutivos nos 
seres humanos, corpo, alma e espírito. Os evangelhos revelam a 
dependência humana da oração e do Espírito Santo, além de sua 
identidade com a raça humana. Jesus teve vida social, amigos, pa­
rentes, interagia com as pessoas e era conhecido dos vizinhos e moradores 
de Nazaré, onde vivia (Mc 6.1-6).
A EXPERIÊNCIA HUMANA NO MINISTÉRIO DE JESUS
O Senhor Jesus não viveu como anacoreta, ou seja, como monge ou ere­
mita em retiro, solitariamente, isolado da sociedade e nem ensinou essa 
prática aos seus discípulos. Ele teve vida social e religiosa junto de outras 
pessoas de sua comunidade. Nada ha na Bíblia que de sustentação a uma 
vida de ermitão. As experiências de Jesus como homem são manifestas nos 
evangelhos, nos diálogos e debates com as pessoas e autoridades religiosas, 
e tudo isso mostra com clareza que Ele teve vida social e religiosa.
Jesus Cristo, homem
“Porque há um só Deus e um só Mediador entre Deus e a humanidade, 
Cristo Jesus, homem” (1 Tm 2.5). Jesus Cristo é o eterno e verdadeiro Deus e,
106 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
ao mesmo tempo, homem. Tornou-se homem para suprir a necessidade da 
humanidade. O nome “Emanuel”, que o próprio escritor sagrado traduziu 
por “Deus conosco” (Mt 1.23), mostra Deus como homem e entre os seres 
humanos. Isso já foi estudado no capítulo 3.
Houve, nos primeiros séculos da história do cristianismo muitas he­
resias (algumas delas já vimos no capítulo 3) que negavam ter Jesus Cristo 
vindo em carne. Apolinário entendia que Jesus era só Deus e que nada havia 
nele de humano. Da mesma forma, os gnósticos ensinavam que Jesus não 
teve um corpo humano, mas um corpo docético, isto é, um corpo como um 
fantasma. Tanto os apolinarianistas como os gnósticos estavam sobrema­
neira errados. A Bíblia ensina tanto a divindade como a humanidade de 
Cristo. O ensino da humanidade de Jesus, no entanto, não neutraliza a sua 
divindade, pois ele possui duas naturezas.
Jesus foi revestido do corpo humano porque o pecado entrou na huma­
nidade por um homem, Adão (Rm 5.12,18,19) e, pela justiça de Deus tinha de 
ser vencido por um homem. Jesus se fez carne, fez-se homem sujeito ao pe­
cado, embora nunca houvesse pecado, e venceu 0 pecado como homem (Rm 
8.3). A Bíblia mostra que todo o gênero humano está condenado, o homem 
está perdido e debaixo da maldição do pecado (SI 14.2,3; Rm 3.23). Todos 
são devedores, e, por isso, ninguém pode pagar a dívida do outro; somente 
Deus pode salvar (Is 43.11). Então, esse mesmo DEUS tornou-se homem, 
trazendo-nos 0 perdão de nossos pecados e cumprindo Ele mesmo a lei que 
promulgara (At 4.12; 1 Tm 3.16; Cl 2.14).
Quando Jesus estava na terra, não se apegou às prerrogativas da di­
vindade para vencer 0 diabo, mas aniquilou-se a si mesmo, fazendo-se se­
melhante aos homens (Fp 2.5-8). Como homem, tinha certa limitação em 
tempo e espaço e, portanto, submisso ao Pai. Eis a razão de Ele ter dito em 
João 14.28: “O Pai é maior do que eu”.
Os evangelhos revelam atributos característicos do ser humano em Je­
sus, como por exemplo:
• Ele nasceu de uma mulher, embora gerado pela ação sobrenatural do Es­
pirito Santo. Seu nascimento, contudo, ou seja, o parto, foi normal e co­
mum como o de qualquer ser humano (Lc 2.6-7).
• Ele cresceu em estatura e em sabedoria (Lc 2.52);
• Ele sentiu sono, fome, sede e cansaço (Mt 8.24; Jo 19.28; 4.6);
• Ele sofreu, chorou e sentiu angústia (Hb 13.12; Lc 19.41; Mt 26.37);
c a p í t u l o 8 ■ JESUS VIVEU A EXPERIÊNCIA HUMANA
• Ele teve mãe humana, além de irmãos e irmãs (Mt 12.47; 13-S5-S6);
• Ele morreu, embora ressuscitasse ao terceiro dia, passando pelo ardor da 
morte (1 Co 15.3-4);
• Ele deu provas materiais de ter corpo humano (1 Jo 1.1; Lc 24.39-41);
• Ele foi feito semelhante aos homens, mas sem pecado (Hb 2.17; 4.15).
Assim, como é pecado negar a humanidade de Cristo (1 Jo 4.2-3; 2 Jo 7), 
da mesma forma é pecado negar também a sua divindade (Rm 10.9), pois 
Jesus é tanto homem como Deus. Como homem, sentia as dores do ser hu­
mano e, como Deus, hoje supre a necessidade da humanidade.
Sua infância
São poucos os relatos inspirados da infância de Jesus, por isso, devemos 
extrair deles tudo o que pudermos para uma melhor compreensão da mais 
bela história já registrada. Nada está nas Escrituras da vida de Jesus depois 
do relato de seu nascimento até a sua manifestação pública a Israel, exceto 
o que Lucas escreveu. O relato de Lucas 2.40-S2 quebra 0 silêncio desse 
período. Essa lacuna tem sido, ao longo da história do cristianismo, motivo 
de especulações, muitas vezes, nocivas à fé cristã. O silêncio que precedeu 
o início da apresentação pública de Jesus é natural e não deve surpreender 
os cristãos, porque os Evangelhos se concentram no seu ministério, mesmo 
assim, dão atenção especial à última semana da vida terrena de Cristo, se­
mana da Páscoa, em que foi realizada a redenção.
Lucas apresenta, ainda que apenas num lampejo, o desenvolvimento 
físico “em estatura” (2.52), espiritual e intelectual de Jesus “e o menino cres­
cia e se fortalecia em espírito,no que diz 
respeito a Deus: à Trindade, o Senhor Jesus Cristo e o Espírito Santo; ao ser 
humano: natureza, pecado, salvação, origem e destino; aos anjos; à igreja e 
às Escrituras Sagradas. Esses movimentos religiosos estão dividindo igre­
jas e separando famílias, rompendo com os valores ortodoxos do cristianis­
mo evangélico.
Quem conhece os fundamentos das nossas crenças e práticas consegue 
discernir, de longe, os erros doutrinários das crenças heterodoxas. Quan­
do refutamos as heresias, estamos, ao mesmo tempo, evangelizando, além 
de defender o rebanho de lobos cruéis (At 20.2g). As pessoas que seguem 
um desses movimentos estão no contexto de Marcos 16.15, são criaturas de 
Deus que precisam conhecer a Jesus. Há casos em que algumas delas nunca 
tiveram a oportunidade de ouvir a verdade do evangelho de Jesus Cristo. 
Estas pessoas estão incluídas nos grupos ainda não alcançados.
Os adeptos desses movimentos estranhos à fé cristã ortodoxa têm 
certeza de que estão com a verdade e que nós é que somos os hereges. Às 
vezes, não querem nos ouvir, como as testemunhas de Jeová, pois acham 
que não têm nada mais para aprender, seu objetivo é ensinar suas cren­
ças. Elas, como seguidores de outros movimentos, acreditam que acha­
ram coisa melhor e a maior parte delas saiu de nossas igrejas. Estamos 
lidando com um assunto muito delicado, suas crenças são profundas, pois 
muitos abandonaram carreira profissional, emprego e até a própria fa­
mília. Por isso que precisamos ter conhecimento sobre o contexto dessas 
pessoas e suas crenças, além da base sólida daquilo em que cremos e pra­
ticamos e das crenças dessas pessoas e seus argumentos para responder 
a elas, à luz da Bíblia.
i n t r o d u ç ã o 13
A obra que o leitor tem em mãos começa com a apresentação da apo- 
logética, seu conceito e necessidade imperiosa do seu estudo em nossas 
igrejas e explica o sentido de seitas e heresias e as esclarece à luz da Bíblia. 
O capítulo 2 é uma orientação que nos ajuda a entender que cristianismo 
não é judaísmo. Os judeus messiânicos têm a sua liturgia no modelo ju­
daico desde os dias apostólicos para preservar a sua cultura. O apóstolo 
Paulo foi favorável a essa prática, mas, para nós que pertencemos a outra 
cultura, a orientação paulina é que cada um fique “na vocação em que foi 
chamado” (1 Co 7.20).
Os capítulos 3 e 4 abrangem respostas às heresias sobre Deus, ou seja, 
o Pai, 0 Filho e 0 Espírito Santo. Começam mostrando que Jesus Cristo veio 
ao mundo como homem, “veio em carne”, em resposta aos gnósticos; e, em 
seguida, tratam acerca da Trindade. Os capítulos 5 a 8 são essencialmente 
cristológicos: Jesus é Deus, o Filho e igual com o Pai, as duas naturezas 
de Cristo, Ele viveu a experiência humana. O capítulo 9 é sobre o Espírito 
Santo. Todos esses capítulos mostram o que nós cremos sobre a divindade 
com vasta fundamentação bíblica, além de apontar as heresias e seus res­
pectivos heresiarcas na antiguidade e a reação da igreja contra essas here­
sias. Além disso, esclarece que, na atualidade, ainda se prega e ensina essas 
heresias. Os capítulos 10 e 1 1 esclarecem sobre 0 pecado e a salvação, que 
todos somos pecadores, ninguém esta isento dessa depravação humana e 
que a salvação não é obra humana, mas pela graça de Deus. Terminamos 
encorajando os leitores a permanecerem firmes na Palavra de Deus. Esses 
capítulos apresentam as bases bíblicas para os pontos teologicos em discus­
são que consideramos equivocados.
Em Defesa da Fé Cristã foi escrito para ajudar a proteger o rebanho do 
Senhor Jesus e evangelizar também os seguidores desses movimentos hete­
rodoxos ou inadequados. Trata-se de um trabalho devidamente documen­
tado, e as fontes usadas para as crenças e práticas deles são obras primárias 
ou de referência, como dicionários e enciclopédias.
O assunto não se esgota na presente obra por causa da escassez de es­
paço, mas espero poder ajudar líderes, pastores e professores e professoras, 
alunos e alunas da Escola Bíblica Dominical e a todos que desejam aprimo­
rar os seus conhecimentos no campo apologético.
Agradeço ao Deus Trino e Uno, pela sua infinita graça e bondade, que 
me amparou e me sustentou até aqui; à minha esposa Rute, pela singular 
compreensão; ao meu filho, Filipe; a minha filha, Daniele, não somente pela
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
revisão, mas principalmente pelas suas sugestões; aos meus companheiros 
de ministério da Assembléia de Deus de Jundiaí, pela atuação como plenos 
motivadores; à Igreja, pelo encorajamento; ao Pb. Márcio José Estevan, pela 
última leitura do texto depois da diagramação; ao Ev. Paulo Primati pelo 
projeto gráfico e ao Pr. Aldo Lesbão, que se deu ao trabalho de conferir as 
citações bíblicas.
capí tu lo 1
QUANDO AS HERESIAS 
AMEAÇAM A UNIDADE 
DA IGREJA
0
 combate às heresias ocupa um terço do Novo Testamento. Tanto o 
Senhor Jesus Cristo como seus apóstolos trabalharam incansavel­
mente contra as heresias e o pensamento pagão de seu tempo. Não 
há livro no Novo Testamento que não revele essa labuta. Alguns li­
vros já são per se esse empenho, sendo seu conteúdo uma apologia 
à doutrina cristã e a sua essência uma defesa do cristianismo.
Judas declara que pretendia escrever sobre a salvação comum, mas, em 
virtude das crescentes heresias, ele resolveu, pela direção do Espírito Santo, 
travar essa batalha contra elas: “Amados, quando eu me empenhava para 
escrever-lhes a respeito da salvação que temos em comum, senti que era 
necessário corresponder-me com vocês, para exortá-los a lutar pela fé que 
uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3). O conteúdo de 2 Coríntios, 
Gálatas e 2 Pedro é, essencialmente, uma disputa contínua contra as here­
sias para a preservação da pureza do evangelho de Cristo. O tema central 
de Colossenses é a defesa da divindade de Cristo, posto que alguns se apre­
sentaram ensinando o “culto dos anjos” (Cl 2.18), e, também, uma resposta 
aos “rudimentos do mundo” (Cl 2.8). Todos os escritos do Novo Testamen­
to mostram essa luta acirrada contra as falsas doutrinas. Três passagens 
apologéticas do Novo Testamento foram selecionadas para avaliação: Atos 
20.28-31; 1 Pedro 3.15,16 e 2 Pedro 2.1-3.
16 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
AS AMEAÇAS DOS LOBOS VORAZES
Atos 20 relata a terceira viagem missionária do apóstolo Paulo. 0 pro­
pósito de Paulo nessa viagem não foi plantar igrejas, mas formar obreiros 
para a seara do Senhor, servir no campo da educação cristã. Ele criou uma 
escola teológica em Éfeso, esteve três meses ensinando na sinagoga. Por 
causa da resistência de uma ala dos judeus ele conseguiu espaço numa es­
pécie de sala de conferência da cidade, de propriedade de um certo homem 
chamado Tirano, onde deu continuidade ao curso de teologia e passou a 
lecionar por dois anos (At 19.8-10).
Éfeso era a capital da Ásia Menor, a cidade mais importante da região. 
Atualmente, ela está em ruínas, localizada na região da Anatólia, a Turquia 
asiática. Era cruzamento de rotas comerciais. Nela, estava o templo da deu­
sa Diana, chamada pelos romanos de Ártemis, uma das sete maravilhas do 
mundo antigo. Paulo já havia passado antes por ela quando retornava da sua 
segunda viagem missionária (At 18.20,21). Na terceira viagem, ele foi direto 
para Efeso e encontrou ali um grupo de doze discípulos incipientes que 
conheciam apenas 0 batismo de João (At 19.1-7) e ficou servindo na cidade 
durante três anos (At 20.31).
Em Éfeso, a vida do apóstolo estava em perigo e, por isso, teve que 
deixar a cidade e partir para a Macedônia (At 20.1). Quando ele retornava 
da Macedônia, convocou uma reunião com os líderes da igreja. De Mileto, 
mandou chamar os anciãos da igreja de Éfeso (At 20.17), pois tinha pressa, 
ele queria chegar a tempo em Jerusalém para a festa de Pentecostes (At 
20.16). Ele desejava se encontrar com os seus discípulos, agora líderes da 
igreja, para transmitir um aviso solene contra os falsos doutrinadores e 
esclarecer sobre o perigo das heresias. A viagem de Mileto a Éfeso requercheio de sabedoria; e a graça de Deus esta­
va sobre ele” (2.40). Lucas é extremamente meticuloso ao relatar a vida de 
nosso Salvador, pois os pagãos criam na metamorfose de algumas de suas 
divindades. Esse “fenômeno” mitológico era, segundo acreditavam, a ca­
pacidade de suas divindades assumirem formas diferentes. Lucas, porém, 
não queria que 0 Mestre divino fosse associado e nem confundido com elas. 
Lucas estava tratando de um evento singular da história, algo milagroso, 
pois. 0 Deus verdadeiro, Criador do Céu e da Terra, assumiu a forma huma­
na vindo como homem de maneira que o curto relato afasta toda e qualquer 
possibilidade de associação com a mitologia pagã ou com a magia. Era um 
desenvolvimento gradual físico e mental, crescimento espiritual na adoles­
cência, ou seja, é mais uma prova de sua natureza humana.
108 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Assim, temos autoridade para falar que Jesus foi criança e precisava da 
proteção divina e dos cuidados matemos; Ele precisou aprender a comer, 
andar e falar dentre outras coisas comuns aos humanos. Ele viveu entre nós 
com todas as características dos seres humanos, mas sem pecado, pois deu 
testemunho de uma vida impecável. Essas informações, portanto, forneci­
das por Lucas, estão de acordo com todo o contexto bíblico e ajudam-nos a 
compreender a natureza humana de Cristo.
Jesus foi levado a Jerusalém para a cerimônia de purificação (Lc 2.22). 
Depois disso, parece ser a sua primeira visita à Cidade Santa e ao Templo, 
mas não podemos ter certeza, o menino Jesus estava, provavelmente, com 
doze anos (Lc 2.42). Sua ida a Jerusalém nessa idade foi um evento signifi­
cativo. José e Maria eram religiosos dedicados e, como todo judeu devoto, 
por residirem na Galileia, mais de cem quilômetros de Jerusalém, não ti­
nham essa obrigação, contudo, todos os anos iam à Festa da Páscoa: “Todos 
os anos os pais de Jesus iam a Jerusalém, para a Festa da Páscoa” (Lc 2.41). 
Embora não procedessem de família rica, pois levaram uma pomba para o 
sacrifício, e mesmo com escassos recursos financeiros, não deixavam de ir 
aos cultos para adoração. Um exemplo de dedicação e amor a Deus que deve 
ser seguido por todos os cristãos.
A Festa da Páscoa durava sete dias (Êx 13.6), ao final desse período, a 
caravana das mulheres partia de volta para suas casas com bastante an­
tecedência, os homens seguiam posteriormente para se encontrarem com 
elas na parada seguinte para 0 pouso, à noite. “Terminados os dias da festa, 
ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém, sem que os pais dele 
o soubessem” (Lc 2.43). É provável ter Maria pensado que o menino esti­
vesse com José e vice-versa, quando descobriram que Jesus não estava na 
companhia deles, retornaram a Jerusalém (w. 44,45). Lá encontraram-no 
“Três dias depois, o acharam no templo, assentado no meio dos doutores, 
ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas” (v. 46).
Os doutores eram as autoridades religiosas de Israel, mestres da lei de 
Moisés, que conheciam com profundidade as Escrituras Sagradas. Nessa 
ocasião, 0 menino tinha a oportunidade de dialogar sobre as coisas de Deus 
com os mestres do templo, com perguntas e respostas. Não é possível saber 
pontos específicos, mas o assunto era com respeito às coisas de Deus, pelo 
que se infere de sua resposta a José e Maria: “Não sabeis que me convém 
tratar dos negócios de meu Pai?” (Lc 2.49). O que chamava a atenção des­
ses doutores e dos que presenciavam a cena era seu interesse pelas coisas
c a p í t u l o 8 ■ JESUS VIVEU A EXPERIÊNCIA HUMANA 109
de Deus em tão tenra idade, também a sua inteligência e respostas. Tudo 
isso revelava tratar-se não de uma criança precoce, mas um menino como 
nenhum outro. Os grandes homens de Deus tiveram consciência de sua 
vocação divina nessa fase da vida.
Há entre os judeus um ritual, celebrado ainda hoje, chamado Bar Mitz- 
vah, cerimônia de maioridade espiritual no judaísmo, ou de passagem, em 
que o menino faz, pela primeira vez, a leitura pública da Torah — Lei de 
Moisés, depois que completa doze anos de vida, segundo o Talmude (Aboth 
5.21; Niddar 5.6). A expressão aramaica bar mitzvah significa “filho do 
mandamento”, mas 0 que aconteceu com Jesus no templo em Jerusalém foi 
uma celebração semelhante, pois “0 bar mitzvah não se tornou um evento 
cerimonial comum na vida judaica até a Idade Média, e somente nos tempos 
modernos tornou-se foco de celebrações grandiosas. Além disso, a idade 
para o bar mitzvah não é doze anos, mas treze anos”, diz David H. Stern, um 
erudito judeu messiânico.106
A vida social de Jesus
O Senhor Jesus é apresentado nos evangelhos como alguém que era 
natural na comunidade de seu povo, e não como um estrangeiro. Sua ma­
neira de viver e os seus ensinos refletem a cultura judaica (Lc 4.22-24). Os 
moradores de Nazaré, admirados com o que viam, perguntaram logo: “Não 
é este 0 carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, e de José, e de Judas, 
e de Simão? E não estão aqui conosco suas irmãs? E escandalizavam-se 
nele” (Mc 6.3). Ora, tal atitude do povo não se justificaria se Jesus fosse uma 
metamorfose de alguma divindade, como era comum na mitologia greco- 
-romana. Os três países, fora de Israel, que o Senhor Jesus visitou foram 
Egito (Mt 2.14,15), Líbano, as antigas cidades de Tiro e Sidom, na Fenícia 
(Mt 15.21) e Jordânia (Jo 1.28).
As experiências de Jesus como homem são manifestas nos evange­
lhos pela interação com as pessoas e autoridades religiosas, como sua 
participação das reuniões nas sinagogas e no templo (Jo 18.20). Marcos 
dá a entender que Jesus pregou em todas as sinagogas da Galileia (Mc 
1.39). Os evangelhos mostram Jesus ensinando na sinagoga de Nazaré 
(Lc 4.16-20) e de Cafarnaum (Jo 6.59) e no templo de Jerusalém (Jo 7.14)-
106 STERN, H. David. Comentário Judaico do Novo Testamento. Niterói, RJ: BVBooks Editora, 2021, 
P-134-
110 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Viveu como judeu (G1 4.4) e cumpriu a lei (Mt 5.17,18), reconhecia a au­
toridade de Moisés (Mt 8.4) e participava das festividades judaicas (Mt 
26.17-19; Jo 7.37,38; 10.22).
A mulher que foi curada de uma hemorragia tocou “na borda da capa” 
de Jesus (Mt 9.20; Lc 8.44); “na orla da veste” (ARA). O termo grego para 
“borda” ou “orla” é kráspedon, “extremo inferior de um vestido, borda, 
orla”, que a Septuaginta usa para traduzir a palavra hebraica tsitsit, “borla, 
franja”, de Números 15.38: “Fale aos filhos de Israel e diga-lhes que ao lon­
go das suas gerações coloquem franjas nas extremidades das suas capas e 
ponham um cordão azul em cada franja”. Fica claro que, como judeu, Jesus 
usava a vestimenta típica. É comum entre os judeus religiosos hoje 0 uso 
desse manto com os 613 fios na borda que representam os 613 preceitos 
da lei de Moisés.
Jesus esteve no casamento em Caná da Galileia (Jo 2.1-11). Ele, sua 
mãe e seus discípulos estavam na festa porque todos foram convidados, 
0 que deve, no mínimo, ter sido o casamento de um parente ou amigo. 
Lembrando que a celebração de casamento durava até uma semana, não 
como acontece na nossa cultura. João e Tiago, seu irmão, eram primos de 
Jesus. Como sabemos disso? Ambos eram filhos de Zebedeu (Mt 4.21) e a 
“mulher de Zebedeu”, que estava entre as mulheres por ocasião da cruci­
ficação de Jesus (Mt 27.56), “junto da cruz estavam a mãe de Jesus, a irmã 
dela” (Jo 19.25) e 0 nome da irmã de Maria, mãe de Jesus, é Salomé (Mc 
15.40). Salomé, irmã de Maria, mãe de Jesus, é a mãe de João e Tiago. Jesus 
convivia com amigos e parentes.
O diálogo de Jesus com a mulher samaritana, sua visita e interação 
com os samaritanos é mais uma amostra de que viveu a experiência hu­
mana. Jesus rompeu barreiras geográficas, culturais, étnicas e religiosas 
(Mc 7.24-27; Jo 4.9,40-42). Ele participou de um banquete promovido por 
um publicano chamado Mateus (Mt 9.9-12), que é o mesmo Levi nas pas­
sagens paralelas em Marcos 2.13-17 e em Lucas 5.27-31, que veio a ser um 
dos doze apóstolos (Lc 6.1). Não era incomum na tradição judaica os judeus 
terem dois nomes,isso não nos surpreende. Jesus disse que até mesmo os 
publicanos têm amigos (Mt 5.46). Mateus ofereceu a Jesus em sua casa um 
grande banquete onde compareceu grande número de publicanos e pecado­
res. Jesus esteve com eles juntamente com os seus discípulos (Lc 5.29,30). O 
Senhor Jesus procurava se integrar com as pessoas, Ele comeu e bebeu com 
elas e participou das dores e dos sofrimentos humanos.
c a p í t u l o 8 ■ JESUS VIVEU A EXPERIÊNCIA HUMANA
Há no capítulo 7 de Lucas quatro encontros interpessoais de Jesus: na 
cura do servo do centurião em Cafarnaum (w. 11-10), na ressurreição do 
filho da viúva de Naim (w. 11-17), no encontro com os mensageiros envia­
dos por João Batista (w. 18-33) e num banquete na casa de um fariseu de 
nome Simão, ocasião em que uma mulher pecadora ungiu os pés de Jesus 
(w. 36-50). Jesus se hospedou na casa de Maria e sua irmã Marta, numa 
aldeia a caminho de Jerusalém (Lc 10.38-41) e também participou de uma 
ceia preparada pelas irmãs de Lázaro (Jo 12.1-6), a quem Jesus chamou de 
“nosso amigo” (Jo 11.11).
Diversas vezes Jesus aparece nos seus ensinos e pregações dialogan­
do, respondendo questões, censurando e consolando as pessoas, trazen­
do advertências e, outras vezes, esperança. Seus principais opositores 
foram os fariseus, os saduceus e os herodianos. Esses contatos revelam o 
ensino de Jesus sobre a ética, os princípios morais e as responsabilidades 
civis que temos.
Jesus não excluiu os zelotes. Eles eram patriotas radicais da Judeia que 
atribuíam as mazelas do seu país à presença romana em Israel. Eram cha­
mados, em hebraico, cananim, “devotos, zelosos”. Segundo Flávio Josefo, 
eles surgiram durante 0 reinado de Herodes, o Grande (Guerra dos Judeus 
contra os Romanos, livro quarto, capítulo 12). Eles eram favoráveis à guerra 
imediata contra os romanos e os provocavam continuamente. Os sicários 
(do latim, sicca, “punhal”) eram assim chamados porque portavam sempre 
um punhal para usar contra os romanos em caso de necessidade, eram os 
mais fanáticos. O Senhor Jesus trouxe um dos zelotes para 0 seu colégio 
apostólico, Simão cananeu (Mt 10.4; Mc 3.18) também conhecido como “Si­
mão, chamado Zelote” (Lc 6.15; At 1.13).
HERESIAS QUE NEGAM A HUMANIDADE DE JESUS
As doutrinas que negam as duas naturezas de Cristo, a divina e a hu­
mana, rejeitando o Credo de Calcedônia, comprometem, de maneira direta 
ou indireta, a verdadeira identidade de Jesus, não somente como 0 verda­
deiro Deus, como também como o verdadeiro homem. Estamos falando do 
apolinarianismo que, juntamente com o nestorianismo e o monofisismo, 
movimentos já estudados no capítulo anterior, foi tema do Concilio de Cal­
cedônia em 451; e também do monotelismo, que veio cerca de trezentos 
anos depois da formulação da Calcedônia.
112 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Apolinarianismo
Apolinário foi bispo de Laodiceia, nascido, provavelmente, em 310 d.C. 
e morreu em 392. Foi o primeiro teólogo a abordar a questão das duas natu­
rezas de Cristo: a humana e a divina. Uma vez definida a divindade do Logos 
e resolvida a questão arianista, a controvérsia girava, agora, em torno das 
duas naturezas de Cristo. Apolinário defendia a salvação pela fé em Jesus; 
como Atanásio, defendia também a deidade de Cristo e foi diametralmente 
oposto ao arianismo. No entanto, combateu uma heresia desenvolvendo ou­
tra tão grave quanto a que combatia: deu muita ênfase à divindade de Cristo 
e sacrificou a sua genuína humanidade. O apolinarianismo é a doutrina que 
nega ter tido Jesus como homem espírito humano.
Segundo Apolinário, o Logos (Jo 1.1,14) teria ocupado o lugar da alma na 
encarnação, com isso negou que Jesus tivesse espírito humano.107 Dizia que, 
se alguém põe em Cristo a sua confiança como sendo homem, está desti­
tuído de racionalidade e indigno de salvação. Usando a linguagem teológica 
de Apolinário, os elementos constitutivos do ser humano são sõma, “carne 
ou corpo”, psychê, “alma animal”, a sede dos desejos, paixões, apetites, e 
pneuma, “alma racional”. Em relação a Jesus, dizia que Ele possuía um sõma 
humano e uma psychê humana, mas não um pneuma humano.
Essa doutrina contraria a ortodoxia cristã, pois a Bíblia afirma que o 
Senhor Jesus é o verdadeiro homem (1 Tm 2.5) e o texto de Hebreus 2.14, 
17,18 declara que a humanidade de Jesus é igual à nossa, a diferença é a 
sua impecabilidade. A humanidade plena de Jesus está clara no Novo Tes­
tamento, que fala do corpo físico de Cristo (Lc 24.36-40; Jo 2.21; Hb 10.10) 
e também da alma e espírito (Mt 26.38; Lc 23.46). O apolinarianismo foi 
condenado pelo Sínodo de Alexandria em 378, depois rejeitado pelo Concilio 
de Constantinopla em 381108 e, finalmente, declarado heresia no Concilio da 
Calcedônia em 451.
Monotelismo
Não confundir com 0 termo teológico “monoteísmo”. É a doutrina cris- 
tológica do patriarca Sérgio de Constantinopla, que ensinava que Cristo 
possuía uma só vontade, essa doutrina se chama “monotelismo”. Pode-se
107 TAYLOR, Richard S. Diccionario teológico Beacon. Kansas City, MO, USA: Casa Nazarena de Pu- 
blicaciones, 1995, p. 58.
108 TAYLOR, Richard S. Op. cit., p. 59.
c a p í t u l o 8 ■ JESUS VIVEU A EXPERIÊNCIA HUMANA
dizer que se trata da fase final dos debates no que diz respeito às duas natu­
rezas de Cristo. O termo provém de duas palavras gregas monos, único”, e 
thelêma, “vontade, desejo”. Era uma tentativa de conciliar a teologia mono- 
f sita com o credo de Calcedonia, que reafirmava as duas naturezas intac­
tas, separadas e inconfundíveis em uma só pessoa, em Jesus.
O Terceiro Concilio de Constantinopla em 681 considerou o monote- 
lismo heresia, pois era visto como “uma ameaça à crença na humanidade 
completa do Deus-Homem, uma verdade apreciada e essencial”. Reconhe­
cemos as vontades de Cristo (Mc 14.36); é evidente que as ações de Cristo 
como caminhar, comer, beber e interagir com as pessoas são puramente 
humanas, mas são produzidas pela natureza humana sob a direção divina. 
Ao perdoar pecados, era a manifestação da vontade de Cristo na nature­
za divina (Lc 5.20-22). Sofrônio, patriarca de Jerusalém, em 633, refutou o 
monotelismo dizendo que existe em Jesus duas vontades, sendo a humana 
submissa à divina.
Os grupos religiosos heterodoxos são mais propensos em negar a di­
vindade de Cristo do que a sua humanidade, como as religiões e grupos 
orientais, as testemunhas de Jeová, os muçulmanos, os cristadelfianos, os 
grupos espíritas, a Igreja da Unificação do reverendo Moon entre outros. 
Eles reconhecem o Jesus homem, mas negam a sua divindade. Já foi estu­
dado nos capítulos 3 e 5 que é pecado negar qualquer uma dessas naturezas.
capí tu lo 9
QUEM É 0 
ESPÍRITO SANTO
A
 formulação da teologia do Espírito Santo aconteceu depois da 
formulação cristológica em Niceia, oficializada em 381 no Con­
cilio de Constantinopla. A cristologia, ocupou praticamente, to­
dos os debates dos séculos 3 e 4 e quase não sobrou espaço para 
a pneumatologia. Não houve discussão a respeito do Espírito 
Santo em Niceia. O que aconteceu, nessa época, no campo pneumatoló- 
gico foi muito pouco.
Em Niceia, ficou esclarecido que o Filho é homooúsios, do grego “da 
mesma essência, substância”, consubstanciai com 0 Pai: “E em um só Se­
nhor Jesus Cristo, Filho de Deus, o Unigênito do Pai, que é da substância 
do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, 
gerado, não feito, de uma só substância [homooúsios] com 0 Pai”. A contro­
vérsia prosseguiu por três razões principais: a inclusão do termo homooú­
sios no texto, a indefinição sobre a identidade do Espírito Santo, pois a for­
mulação de Niceia declara simplesmente: “E também no Espírito Santo”, e 
nada mais, e a volta do arianismo. Assim, houve um intervalo de mais de 
cinquenta anos entre esses dois concílios, foi um período de controvérsias 
sobre a identidade do Consolador.
O que todos os cristãos precisam saber sobre o Espírito Santo? A res­
posta simples e direta é esta:
116 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
A sua deidadee a sua personalidade, seus atributos e 
suas obras. As Escrituras Sagradas revelam a identidade do 
Espírito Santo, sua deidade absoluta e sua personalidade, sua 
consubstancialidade com o Pai e o Filho como terceira pessoa 
da Trindade e suas obras no contexto histórico-salvífico. Há 
abundância de detalhes na Bíblia sobre a identidade do Espírito 
Santo no que diz respeito à sua personalidade e divindade, ao 
seu relacionamento com o Pai e o Filho. Ele aparece literalmente 
desde o Gênesis, na criação, (Gn 1.2) à Apocalipse, na redenção 
(Ap 22.17).109
O que foi dito acerca do Filho 0 mesmo se diz do Espírito Santo, que 
a Bíblia afirma, de maneira direta, que 0 Espírito Santo é Deus, além dis­
so, revela também nele os atributos exclusivos da divindade bem como as 
obras de Deus. Mas, essas passagens bíblicas são abundantes em referência 
ao Filho e menos frequente em relação ao Espírito Santo.
0 CONSOLADOR
O termo grego empregado por Jesus para o “Consolador” é paraklêtos, 
que significa “defensor, advogado, intercessor, auxiliador”. Aparece apenas 
cinco vezes no Novo Testamento e nos escritos joaninos, quatro vezes no 
evangelho, referindo-se ao Espírito Santo (Jo 14.16, 26; 15.26; 16.7), e uma, 
na sua primeira epístola, traduzido por “Advogado”, aplicado ao Senhor Je­
sus: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. 
Mas, se alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo” 
(1 Jo 2.1). Segundo Vine, “usava-se nas cortes de justiça para denotar um 
assistente legal, um defensor, um advogado”.110
“E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Consolador, a fim de que 
esteja com vocês para sempre” (Jo 14.16). Em outras palavras, Jesus dizia 
aos seus discípulos que estava voltando para 0 Pai, mas que continuaria 
cuidando da Igreja, pelo seu Espírito Santo, seu Paracleto, um como ele, 
que teria o mesmo poder para preservar o seu povo. A palavra grega para
109 SOARES, Esequias & SOARES, Daniele. Teologia sistemática em diálogos. Recife, PE: Editora Bereia 
Acadêmica, 2019, p. 106.
110 VINE, W. E. Diccionario Expositivo de Palabras dei Nuevo Testamento, Vol. I. Barcelona, Espana: 
Clie, 1984, p. 310.
c a p í t u l o 9 ■ QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO 117
“outro” é allos, que significa “outro”, mas da mesma natureza, da mesma 
espécie e da mesma qualidade. Segundo A. T. Robertson: “Outro da m es­
ma classe (allon, não heteron)”.111 Se o Espírito fosse uma força ativa, im ­
pessoal, a palavra correta para “outro” seria heteros, que, de acordo com 
o Léxico Grego-Inglês de Liddell & Scott, significa: “o outro, um de dois...; 
um outro...; outro do usual, diferente”.112 O Dicionário Vine afirma: “O 
termo allos expressa uma diferença numérica e denota ‘outro do mesmo 
tipo’; o termo heteros expressa uma diferença qualitativa e denota ‘outro 
de tipo diferente’. Cristo prometeu enviar ‘outro Consolador’ - allos, ‘ou­
tro como Ele’, não heteros (Jo 14.16)”.113
O Espírito Santo, portanto, é alguém como Jesus, da mesma substân­
cia, glória e poder. O Consolador é enviado pelo Pai em nome de Jesus para 
ensinar os discípulos, para fazer lembrar tudo o que o Filho ensinou e para 
testificar dele. Não é possível uma força ativa e impessoal ser enviada em 
nome de alguém tendo tais atributos.
Os substantivos gregos apresentam três gêneros: masculino, feminino 
e neutro. A palavra grega pneuma, usada amplamente no Novo Testamen­
to para “espírito”, é substantivo neutro. Assim, os adjetivos, os pronomes 
demonstrativos etc. devem concordar com o substantivo em gênero, caso e 
número. Mas isso não acontece em João 15.26; 16.13,14.
Em João 15.26 temos: “Quando, porém, vier 0 Paráclito, que eu vos en­
viarei da parte do Pai, o Espírito da verdade, que procede do Pai, este dará 
testemunho de mim” (TB). O “este” na parte final é ekeinos, pronome de­
monstrativo, singular, masculino, na frase grega: ekeinos martyrêsei peri 
emou, literalmente, “este testificará acerca de mim” que está concordando 
com o “Espírito da verdade”, to pneuma tês alêtheias. Veja que 0 demonstra­
tivo cuja forma se esperaria no gênero neutro, para concordar no gênero, 
ekeinon, neutro, mas não é 0 que acontece, pois está no masculino, ekeinos.
Podemos dar outro exemplo em João 16.13 e 14, “aquele Espírito de 
verdade... Ele me glorificará. Espírito vem precedido do pronome de­
monstrativo “aquele” (masculino), e não neutro. O texto grego diz: ekei-
1 1 1 ROBERTSON, A. T. Imágenes Verbales en el Nuevo Testamento, tomo 5. Barcelona, Espana: Clie, 
1989, p. 279.
112 JONES, Stuart & McKENZIE. Greek-English Lexicon Liddell & Scott. London, England: Oxford Uni- 
versity Press, 1968, p. 702.
113 VINE, W. E.; UNGER, Merril F.; WHITE JR. William. Dicionário Vine. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, 
P- §39-
118 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
nos, to pneuma tês alêtheias... ekeinos eme doxasei, “aquele Espírito da 
verdade.. . ele me glorificará”. O emprego do demonstrativo em seu fluxo 
normal estaria no neutro, para concordar em gênero, ekeinon, neutro, e 
não ekeinos, masculino, mas, como no caso anterior, não é o que acontece. 
Isso não é descuido de quem escreveu essa passagem, isso não existe nas 
Escrituras, os escritores bíblicos foram inspirados pelo Espírito Santo, 
portanto, cada um deles sabia o que estava fazendo. Essa anomalia ob­
servada no uso do demonstrativo masculino em lugar de neutro revela a 
personalidade do Espírito Santo.
Sua identidade
O termo hebraico para “espírito” é rüah, que, segundo os dicionários e 
léxicos, significa: “vento, sopro, espírito, espírito de uma pessoa, espírito de 
um deus, mente” e mais uma ampla gama de sentidos. A expressão hebraica 
rüah 'èlõhím, “Espírito de Deus”, aparece onze vezes no Antigo Testamento;114 
“Espírito do SENHOR”, vinte e cinco vezes115 e “Espírito Santo”, três vezes (SI 
51.11 [13]; Is 63.10,11). A Septuaginta traduziu ruah pela palavra grega pneuma, 
de mesmo significado, e quarenta e nove vezes pelo vocábulo anemos, “vento”.
As testemunhas de Jeová negam a personalidade e a divindade do Es­
pírito Santo, elas acreditam que Ele é uma força ativa e impessoal execu- 
tadora da vontade de Jeová. Assim, seus líderes substituíram “Espírito de 
Deus” {rüah 'èlõhim, em hebraico) por “força ativa de Deus” em Gênesis 1.2, 
na Tradução do Novo Mundo. Os teólogos da organização grafam “Espírito 
Santo” com letras minúsculas, “espírito santo”, na sua versão oficial e em 
suas publicações, entretanto, escrevem “Diabo” com “D” maiúsculo, nas 
trinta e quatro vezes que o termo aparece na sua tradução.
O Espírito Santo é a terceira Pessoa da Trindade (Mt 28.19). Aparece 
como Deus, no Antigo Testamento, atuando na criação do céu e da terra (Gn 
1.2; SI 104.30) e do ser humano 0ó 33.4); inspirando os profetas (2 Pe 1.19- 
21), por essa razão o profeta era chamado de “homem do Espírito” (Os 9.7). 
A sua manifestação na vida individual era algo raro: Ele vinha, mas depois 
voltava. Isso aconteceu com os setenta anciãos (Nm 11.25); Otniel (Jz 3.9,10;
114 Gênesis 1.2; Êxodo 31.3; 35.31; Números 24.2; 1 Samuel 10.10; 11.6; 19.20, 23; 2 Crônicas 15.1; 24.20; 
Ezequiel 11.24.
115 Juizes 3.10; 6.34; 11.29; 13-25; 14-6, 19; 15-14; 1 Samuel 10.6; 16.13, 14; 2 Samuel 23.2; 1 Reis 18.12; 
22.24; 2 Reis 2.16; 2 Crônicas 18.23; 20.14; Is 11.2; 40.13; 59.19; 61.1; 63.14; Ezequiel 11.5; 37.1; Mi- 
queias 2.7; 3.8.
c a p í t u l o 9 ■ QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO 119
6.34); Gideão (Jz 6.34); Jefté (Jz 11.29); Sansão (Jz 14.6); Saul (1 Sm 10.10); 
Davi (1 Sm 16.13), dentre outros. Isso acontecia para que eles pudessem re­
ceber recursos do céu para profetizar, julgar, liderar, lutar e governar, con­
forme a vontade de Deus.
O Novo Testamento registra o início da dispensação da plenitude do 
Espírito e essa nova era começou com a descida do Espírito Santo, no dia 
de Pentecostes (At 2.1-11,33). Essa descida do Espírito Santo foi para que Ele 
ficasse conosco “para sempre”, foi promessa de Jesus para a Dispensação da 
Igreja (Jo 14.16). A sua manifestaçãopode ser classificada em duas etapas: 
antes do Pentecostes, na vida de Jesus; e depois, na vida da Igreja. Ele atuou 
na concepção virginal de Jesus, no ventre de Maria (Mt 1.18; Lc 1.35) e em 
todo o ministério terreno de Jesus (At 10.38). No Evangelho de João, 14 a 16, 
há um estudo profundo e rico sobre a personalidade e deidade do Espírito 
Santo, bem como sua missão, que pode perfeitamente ser vista na vida dos 
apóstolos, principalmente de Paulo, no livro de Atos, e na vida da igreja, 
principalmente no dia a dia dos pentecostais.
SUA DEIDADE, ATRIBUTOS E OBRAS
O Espírito Santo é Deus e é pessoal. Como foi dito acerca do Filho, 0 
mesmo se diz do Espírito Santo: a Bíblia afirma de maneira direta que o 
Espírito Santo é Deus; além disso, revela nEle os atributos exclusivos da 
divindade bem como as obras de Deus.
Sua divindade em toda Bíblia
Êxodo 17.7 comparado com Hebreus 3.7-9. “Porque tentaram o Se­
nhor, dizendo: — Está 0 Senhor no meio de nós ou não?” (Grifo nosso) => 
“Por isso, como diz o Espírito Santo: “Hoje, se ouvirem a sua voz, não en­
dureçam 0 coração como foi na rebelião, no dia da tentação no deserto, onde 
os pais de vocês me tentaram, pondo-me à prova, e viram as minhas obras 
durante quarenta anos” (grifo nosso). O Antigo Testamento ensina que os 
filhos de Israel tentaram a Javé, entretanto, 0 Novo Testamento afirma que 
Ele é identificado como o Espírito Santo.
Juizes 15.14 comparado com Juizes 16.20. “Mas 0 Espírito do Senhor
de tal maneira se apossou de Sansão, que as cordas que ele tinha nos braços
120 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
se tornaram como fios de linho queimados, e as amarras que ele tinha nas 
mãos se soltaram” (grifo nosso). => “Então ela gritou: — Sansão, os filisteus 
vêm vindo aí! Ele despertou do sono e disse consigo mesmo: — Vou sair 
como nas outras vezes e me livrarei. Mas ele não sabia ainda que o Senhor 
já se havia retirado dele” (grifo nosso). Na primeira citação é o Espírito San­
to quem se apodera de Sansão, na segunda, afirma que Sansão não sabia 
que o Deus Javé havia se retirado dele. O Espírito de Javé e o próprio Javé 
são identificados, nessas passagens como o mesmo Deus.
Atos S-3A- “Então Pedro disse: — Ananias, por que você permitiu que Sa­
tanás enchesse o seu coração, para que você mentisse ao Espírito Santo, 
retendo parte do valor do campo? Não é verdade que, conservando a pro­
priedade, seria sua? E, depois de vendida, o dinheiro não estaria em seu 
poder? Por que você decidiu fazer uma coisa dessas? Você não mentiu para 
os homens, mas para Deus” (grifo nosso). Veja que Deus e o Espírito Santo, 
nessa passagem, são uma mesma divindade. Primeiro o apóstolo diz que 
Ananias mentiu ao Espírito Santo, e depois o mesmo Espírito é chamado 
de Deus.
2 Samuel 23.2,3. “O Espírito do Senhor fala por meio de mim; e a sua 
palavra está na minha língua. O Deus de Israel falou, a Rocha de Israel 
me disse: ‘Aquele que governa 0 povo com justiça, que domina no temor de 
Deus” (grifo nosso). Essa passagem é um tipo de paralelismo sinônimo, um 
recurso da poesia hebraica em que o poeta diz algo e, em seguida, repete 
esse pensamento em outras palavras para ampliar o seu significado. Então, 
“0 Espírito do Senhor” e “o Deus de Israel” são expressões sinônimas. Isso 
mostra que o Espírito Santo é o Deus de Israel.
Isaías 6.1-8 comparado com Atos 28.25-27. O mesmo Javé de Isaías 
6.3 é chamado de Adonai no v. 8: “Depois disto, ouvi a voz do Senhor, 
que dizia: — A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (grifo nosso) 
que é identificado com o Espírito Santo no Novo Testamento, em atos 
(28.25-27).
Essa passagem é uma citação de Isaías 6.8-10, mas 0 comentário so­
bre essas passagens bíblicas está no capítulo 4, sobre a Trindade. Voltamos 
a reiterar, que no versículo 8, 0 profeta afirma que Adonai falou com ele, 
entretanto, 0 apóstolo Paulo afirma ser o Senhor o próprio Espírito Santo.
c a p í t u l o 9 ■ QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO
E zequ ie l 8 .1,3. “Aconteceu que ali a mão do Senhor Deus caiu sobre mim”.
0 profeta deixa claro que foi a mão de Javé, o Deus de Israel que caiu sobre 
ele. Mas, 0 v. 3 Ezequiel afirma: “O Espírito me levantou entre a terra e 0 
céu e me levou a Jerusalém em visões de Deus”. De modo que esse mesmo 
Deus Javé é chamado de “0 Espírito”.
1 C oríntios 3 .16 . “Vocês não sabem que são santuário de Deus e que 0 
Espírito de Deus habita em vocês?” (Grifo nosso). O Espírito Santo aparece 
como Deus, pois o apóstolo usa alternadamente os nomes “Deus” e “Espí­
rito Santo”. Isso porque o cristão é templo de Deus, Jesus disse: Se alguém 
me ama, guardará a minha palavra; e o meu Pai 0 amará, e viremos para 
ele e faremos nele morada” (Jo 14.23). Assim, 0 Deus trino e uno habita no 
crente: 0 Pai, 0 Filho e 0 Espírito Santo. Como em Atos 5.3,4, Deus e 0 Espí­
rito Santo são uma mesma deidade.
2 C oríntios 3 .17 ,18 : “Ora, este Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do 
Senhor, aí há liberdade. E todos nós, com 0 rosto descoberto, contemplando 
a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria 
imagem, como pelo Senhor, que é o Espírito”. Essa passagem e uma inter­
pretação paulina de Êxodo 34.29-35 que mostra o contraste entre a antiga 
aliança ratificada no deserto e a nova estabelecida por Cristo. Moisés foi o 
ministro da antiga aliança do monte Sinai, cujo rosto, ao descer da monta­
nha, resplandecia, mas a glória do seu rosto ia se dissipando gradualmente.
Quando se lê a antiga aliança, este véu continua, mas na nova aliança, 
esse véu desapareceu: “Quando, porém, alguém se converte ao Senhor, o 
véu é tirado” (2 Co 3.16). O “Senhor”, nesse versículo, só pode ser o mesmo 
Javé da antiga aliança: “Porém, quando Moisés vinha diante do Senhor para 
falar-lhe, removia 0 véu até sair” (Êx 34-34)- Quando Paulo diz que “este Se­
nhor é o Espírito”, está se referindo ao mesmo Senhor do v. 16, que é o gran­
de Deus Javé de Israel (Êx 34-34)- “Isso quer dizer que Moisés esteve dian­
te do Espírito Santo e, dessa forma, Paulo identifica Javé como 0 Espírito. 
Dizer que o Espírito é o Senhor é reconhecer a Sua deidade absoluta”.116 Na 
parte final do v. 18 lemos: “como pelo Senhor, que é 0 Espírito”, ou: “como 
pelo Espírito do Senhor” (ARC) sugere que Espírito-e Senhor são distintos.
116 SOARES, Esequias. O Verdadeiro Pentecostalismo: A Atualidade da Doutrina Bíblica sobre a Atuação 
do Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2020, p. 21.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
A Tradução do Novo Mundo traz no versículo 17: “Jeová é 0 Espírito”, e 
no 18: “exatamente como Jeová, 0 Espírito”, assim: “Ora, Jeová é 0 Espíri­
to, e onde está o espírito de Jeová, ali há liberdade. E, todos nós, ao passo 
que com 0 rosto descoberto refletimos como um espelho a glória de Jeová, 
somos transformados nessa mesma imagem, com mais e mais glória, exa­
tamente como Jeová, o Espírito, o faz” (2 Co 3.17,18).
O movimento das testemunhas de Jeová nega não somente a divinda­
de do Espírito Santo bem como a sua personalidade e grafa na Tradução 
do Novo Mundo e nas suas demais publicações o nome “Espírito Santo” 
com letras minúsculas, assim: “espírito santo”. Retornaremos esse tema 
mais adiante. O fato é que os seus editores introduziram indevidamente 
duzentas e trinta e sete vezes 0 nome “Jeová” no Novo Testamento, que eles 
chamam de Escrituras Gregas Cristãs, visto que 0 Tetragrama não aparece 
uma vez sequer nos manuscritos gregos do Novo Testamento, no entanto, 
agora são obrigados a admitir que sua versão oficial afirma que o Espírito 
Santo é Jeová.
Seus atributos e obras divinas
Vejamos agora os atributos da divindade no Espírito Santo bem como 
suas obras divinas revelados na Bíblia Sagrada.
a) o Espírito Santo é onipotente (Zc 4.6; Rm 15.19);
b) o Espírito Santo é onipresente (SI 139.7-10);
c) 0 Espírito Santo é onisciente (1 Co 2.10,11);
d) 0 Espírito Santo é eterno (Hb 9.14);
e) 0 Espírito Santo é criador (Jó 26.13; 33-4! SI 104.30);
f) o Espírito Santo gerou Jesus Cristo (Lc 1.35);
g) o EspíritoSanto é a verdade (1 Jo 5.6);
h) 0 Espírito Santo é o Senhor da igreja (At 20.28);
i) o Espírito Santo é chamado de Javé (Jz 15.14 comp. 16.20; Êx 17.7 comp. 
Hb 3.7-9; Nm 12.6 comp. 2 Pe 1.21; Is 6.9 comp. At 28.25, 26; Ez 8.1,3);
j) 0 Espírito Santo é aquele que dá a vida eterna (G1 6.8);
k) o Espírito Santo é o guia do seu povo (SI 143.10; Is 63.14; Rm 8.14; G15.18);
l) o Espírito Santo é 0 santificador dos fiéis (Rm 15.16; 1 Pe 1.2);
m) 0 Espírito Santo é aquele que habita nos fiéis (Jo 14.17; Rm 8.11; 1 Co 3.16; 
6.19; 2 Tm 1.14; Tg 4.5);
n) 0 Espírito Santo é santo (Rm 15.16; 1 Jo 2.20);
c a p í t u l o 9 ■ QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO 123
o) o Espírito Santo é fonte de poder e de milagres (Mt 12.28; At 2.4; 1 Co 
12.9-11);
p) 0 Espírito Santo é 0 autor do novo nascimento (Jo 3.5,6; Tt 3.5);
q) o Espírito Santo é 0 autor da vida (Ez 37.14; Rm 8.11-13);
r) 0 Espírito Santo é o distribuidor dos dons espirituais (1 Co 12.7-11);
s) o Espírito Santo é 0 conhecedor do coração de todos os seres humanos
(Ez 11.5; Rm 8.26,27; 1 Co 12.10; At 5.3-9);
t) o Espírito Santo é conhecedor do futuro (Lc 2.26; Jo 16.13; At 20.23; 1 Tm 
4.1; 1 Pe 1.11);
u) o Espírito Santo é salvador (Ef 1.13; 4.30; Tt 3.4,5);
v) o Espírito Santo é sábio (Is 11.2; Jo 14.26; E f 1.17).
Deve ter sido árdua a tarefa para os integrantes da cúpula das testemunhas 
de Jeová em lidar com todas essas passagens bíblicas de maneira tal que con­
seguissem persuadir seus adeptos nessa crença tão desprovida de consistência 
bíblica, que jamais uma pessoa conhecedora da Bíblia admitiría. A divindade 
do Espírito Santo não nasceu no Concilio de Nicéia, não foi invenção humana, 
mas é uma verdade que está exarada no Livro de Deus, e nele assim a encon­
tramos e assim cremos. Portanto, fica claro, à luz da Bíblia, que a divindade do 
Espírito Santo tampouco nasceu no Concilio de Constantinopla em 381.
Sua personalidade
A Bíblia revela o Espírito Santo como uma pessoa, a terceira Pessoa da 
Trindade, pois Ele é Deus. O Espírito Santo possui intelecto; Ele penetra 
todas as coisas (1 Co 2.10,11) e é inteligente (Rm 8.27). Ele tem emoção, sen­
sibilidade (Rm is.30; E f 4.30) e vontade (At 16.6-11; 1 Co 12.11). Se o intelec­
to, a emoção e a vontade não puderem provar a personalidade do Espírito 
Santo, fica difícil saber o que a liderança das testemunhas de Jeová entende 
por personalidade, ou qual a definição que ela dá a esse termo. As três facul­
dades: intelecto, emoção e vontade caracterizam a personalidade.
Reações do Espirito Santo. Outra prova da personalidade do Espírito 
Santo é que Ele reage a certos atos praticados pelo ser humano.
a) Pedro obedeceu ao Espírito Santo (At 10.19,21);
b) Ananias mentiu ao Espírito Santo (At 5.3);
c) Estêvão disse que os judeus sempre resistiram ao Espírito Santo (At 7.51);
124 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
d) o apóstolo Paulo nos recomenda não entristecer o Espírito Santo (Ef 4.30);
e) os fariseus blasfemaram contra 0 Espírito Santo (Mt 12.29-31);
f) os cristãos são batizados em seu nome (Mt 28.19).
Seus atributos pessoais. São diversas características da personalidade e 
qualidades pessoais reveladas na Bíblia.
a) 0 Espírito Santo ensina (Jo 14.26);
b) o Espírito Santo fala (Ap 2.7,11,17);
c) 0 Espírito Santo guia (Rm 8.14; G1 5.18);
d) 0 Espírito Santo clama (G1 4.6);
e) 0 Espírito Santo convence (Jo 16.7,8);
f) o Espírito Santo regenera (Jo 3.6; Tt 3.5);
g) o Espírito Santo testifica (Jo is.26; Rm 8.16);
h) 0 Espírito Santo escolhe obreiros (At 13.2; 20.28);
i) o Espírito Santo julga (At 15.28);
j) o Espírito Santo advoga (Jo 14.16; At 5.32);
k) 0 Espírito Santo envia missionários (At 13.2-4);
l) o Espírito Santo convida (Ap 22.17);
m) o Espírito Santo intercede (Rm 8.26);
n) o Espírito Santo impede (At 16.6-7);
o) o Espírito Santo se entristece (Ef 4.30);
p) o Espírito Santo contende (Gn 6.3).
HERESIAS VELHAS E NOVAS
Antes de Niceia, a discussão era centrada em Jesus, sobre a sua iden­
tidade e a doutrina sobre o Espírito Santo raramente entrava nos deba­
tes. Depois desse Concilio, surgiram as manifestações mais agudas contra 
o Espírito Santo, a começar com os arianistas, que negavam a divindade 
de Cristo, mas também a do Espírito Santo. Os movimentos tropiciano117 e 
pneumatomaciano118 chamaram atenção de Atanásio e dos pais capadócios.
117 Os tropicianos eram uma seita do Egito; o nome vem de tropos, “figura”. Atanásio assim o denomi­
nou por causa da exegese figurada deles. Eles diziam ser o Espírito Santo um anjo e uma criatura.
118 Os pneumatomacianos surgiram depois dos tropicianos. O termo pneumatomachoi vem de pneu- 
ma, “espírito”, e machomai, “falar mal, contra”, ou seja, eram os “opositores do Espírito”. 0 nome 
foi dado por Atanásio ao grupo religioso liderado por Eustáquio de Sebaste (300-380), que não 
aceitava a divindade do Espírito Santo.
C d p í t u l o 9 • QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO
Os tropicianos ensinavam ser o Espírito Santo um anjo, mas Atanásio 
(295-373) bispo de Alexandria refutou essa heresia com muita propriedade. 
E, Basílio de Cesareia (329-379) que, a princípio, tinha sido pneumatoma- 
ciano, depois de pesquisas profundas nas Escrituras, reconheceu a divin­
dade do Espírito Santo e procurou convencer o seu amigo, Eustáquio de Se- 
baste, líder dos pneumatomacianos, mas não conseguiu trazer 0 seu amigo 
para a ortodoxia cristã.119
Gregório de Nazianzo (329-389) afirma na quinta Oração Teológica 
XXXVI o seguinte:
O Antigo Testamento manifestou claramente 0 Pai e 
obscuramente o Filho. O Novo manifestou o Filho e obscuramente 
indicou a divindade do Espírito Santo. Hoje, 0 Espírito habita 
entre nós e se dá mais claramente a conhecer. Porque teria sido 
inseguro proclamar abertamente 0 Filho antes de ser conhecida 
a divindade do Pai; ou antes de ser reconhecida a divindade do 
Filho, impor-se, por assim dizer, a do Espírito Santo... Era muito 
melhor que, por adições parciais e, como diz Davi, por ascensões 
de glória em glória, brilhasse progressivamente 0 esplendor da 
Trindade... Vede como a luz foi chegando aos poucos, e a ordem, 
pela qual Deus se fez revelar a nós.120
Gregório escreveu com elegância e clareza sobre a Trindade e, espe­
cialmente, sobre 0 Espírito Santo por meio de epístolas, poemas e sermões, 
sendo as Orações Teológicas cincos sermões.
Em Gregório de Nazianzo encontra-se sua extraordinária contribui­
ção para a vitória final da fe nicena. Ele organizou os dados da revelação 
divina, registrados nas Escrituras, e afirmou categoricamente que o Espí­
rito Santo é Deus. O Concilio de Constantinopla, 381, descreveu o Espírito 
como Deus e como “o Senhor e provedor da vida, que procede do Pai e 
é adorado e glorificado com o Pai e com o Filho”. Gregório de Nazianzo 
considerava o termo “santo”, aplicado ao Espírito, como consequência di­
reta de sua natureza e não um resultado de fonte externa. Ele é santo em
119 SOARES, Esequias. A razão da nossa fé: Assim cremos, assim vivemos. Rio de Janeiro: CPAD, 2017, 
pp. 78-84; há um histórico mais amplo sobre as controvérsias pneumatológicas.
120 NACIANCENO, Gregorio. Los discursos teológicos. Madrid, Espana: Editorial Ciudad Nueva, 1995, 
p. 254; GOMES, Cirilo Folch. Antologia dos santos padres. São Paulo: Edições Paulmas, 1985, p. 254.
126 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
si mesmo (Is 63.10), assim, não precisa ser santificado, pois é Ele quem 
santifica (Rm 15.16).
A religiões não cristãs desconhecem a identidade do Espírito Santo e 
os grupos religiosos heterodoxos que não acreditam na doutrina bíblica da 
Trindade defendem conceitos equivocados sobre Ele. Hoje, o movimento 
das testemunhas de Jeová segue a linha dos pneumatomacianos e alguns 
grupos dos muçulmanos, e dos tropicianos.
0 Espírito Santo e as testemunhas de Jeová
O movimento das testemunhas de Jeová nega a divindade e a persona­
lidade do Espírito Santo. Seus líderes alegam que o fato de o Espírito Santo 
falar, ensinar, dar testemunhos, ouvir, etc. não prova que Ele tenha perso­
nalidade, mas que se trata apenasde figura de linguagem.121 Justifica esse 
raciocínio, com meias verdades citando 1 João 5.7,8: “Pois há três que dão 
testemunho: o Espírito, a água e 0 sangue”. Então, seus teólogos argumen­
tam: A água e 0 sangue dão testemunhos, e nem por isso a água e o sangue 
têm personalidade.122 Trata-se, pois de uma aplicação infeliz. O texto sagra­
do em tela é uma reiteração do versículo 6: “Este é aquele que veio por meio 
de água e sangue, Jesus Cristo. Ele não veio somente com a água, mas com a 
água e com 0 sangue. E o Espírito é o que dá testemunho, porque 0 Espírito 
é a verdade”. A água é o batismo e a unção de Jesus Cristo. O sangue é o san­
gue expiador que Ele derramou na cruz. Estes dois elementos são provas da 
obra que Jesus realizou, sendo também o Espírito Santo uma testemunha 
viva dessas coisas, tanto naquele tempo quanto agora.
Querer igualar o Espírito Santo com a água e o sangue, e fazendo disso 
um meio para “provar”, na Bíblia, que 0 Espírito Santo é impessoal, é muito 
inconsistente. Em nenhum lugar das Escrituras encontramos serem a água 
e 0 sangue pessoas e, não obstante, encontramos em toda a Bíblia as provas 
da personalidade do Espírito Santo, pelos seus atributos pessoais.
Eles dizem ainda: “Quanto ao ‘Espírito Santo’, a suposta terceira Pessoa 
da Trindade, já vimos que não se trata de uma pessoa, mas da força ativa 
de Deus”.123 Os argumentos apresentados nesse mesmo parágrafo contra a 
personalidade do Espírito Santo se baseiam em analogias falsas:
12 1 Raciocínios à Base das Escrituras, p. 399.
122 Deve-se Crer na Trindade?, p. 22.
123 Poderá Viver. . p. 40 § 17.
c a p í t u l o 9 • QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO
João, o Batizador, disse que Jesus batizava com espírito 
santo, assim como João batizava em águas. Portanto, assim como 
água não é pessoa, tampouco o espírito santo é pessoa . . . depois 
da morte e ressurreição de Jesus, quando o espírito santo foi 
derramado sobre os seguidores deste . . . A Bíblia diz: “Todos eles 
ficaram cheios de espírito santo” (Atos 2:4) Ficaram eles “cheios” 
duma pessoa?
João batizava com água, Jesus batiza no Espírito Santo, água não é pes­
soa, logo, 0 Espírito Santo também não pode ser pessoa. Esse é o primeiro 
argumento. O segundo, 0 Espírito Santo foi derramado, como pode uma 
pessoa ser derramada? Terceiro argumento, como pode uma pessoa ser 
cheia de outra?
Essa comparação entre batismo no Espírito Santo e batismo nas aguas 
é muito pobre. É argumento inconsistente, uma vez que o batismo nas 
águas representa imersão nelas, significando nova vida com Cristo (Rm 
6.4,s), e 0 batismo no Espírito Santo significa ser alguém revestido dele. Em 
1 Coríntios 10.2, lemos que 0 povo de Israel foi batizado em Moisés, nem por 
isso Moisés perdeu a sua personalidade.
O Senhor Jesus foi derramado como água (SI 22.14). O apóstolo Paulo 
disse: “Quanto a mim, já estou sendo oferecido por libação, e 0 tempo da 
minha partida chegou” (2 Tm 4-6). A TNM verteu essa passagem da seguin­
te forma: “Pois eu já estou sendo derramado como oferta de bebida, e a hora 
do meu livramento está próxima”. Como pode 0 apóstolo Paulo, sendo pes­
soa, ser derramado? O Senhor Jesus Cristo e o apostolo Paulo são pessoas 
reais, e nenhuma testemunha de Jeová questiona isso. Mas, trata-se de uma 
figura de linguagem, certamente responderão os líderes das testemunhas 
de Jeová. Por que essa “figura de linguagem” não pode ser também aplicada 
ao Espírito Santo?
Respondendo ao terceiro questionamento, “como pode uma pessoa ser 
cheia de outra?” Curiosamente, eles ensinam que Satanás é uma pessoa: 
“Satanás, 0 Diabo, é uma pessoa real... Tanto Deus como o Diabo são pes­
soas espirituais”.124
Veja que a própria Tradução do Novo Mundo expressa em Lucas 22:3: 
“Então Satanás entrou em Judas, 0 chamado Iscariotes”. Agora pergunta­
124 Poderá Viver. . p. 18 g 7.
128 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
mos a eles: “Como pode uma pessoa entrar em outra? Agora uma pessoa 
pode entrar em outra? Isso mostra que seus teólogos estão equivocados, 
pois personalidade não é sinônimo de corporeidade.
0 fato de alguém estar cheio do Espírito Santo, ou revestido dele, não 
quer dizer que ele seja impessoal. Para esses mesmos argumentos nós te­
mos a resposta com outra pergunta: “Como pode ser Jesus uma pessoa e ser 
alguém morada dele? Disse Jesus: “Se alguém me ama, guardará a minha 
palavra; e o meu Pai o amará, e viremos para ele e faremos nele morada” 
(Jo 14.23). O apóstolo Paulo disse: “meus filhos, por quem, de novo, estou 
sofrendo as dores de parto, até que Cristo seja formado em vocês” (G14.19). 
Como pode Jesus ser formado em alguém, sendo ele uma pessoa? Paulo 
disse ainda: “Cristo vive em mim” (G12.20). Como explicar isso? Esses aria- 
nistas negam também a personalidade do Senhor Jesus Cristo por causa 
disso? Claro que não. Por que, pois, negam a personalidade do Espírito San­
to utilizando-se do mesmo argumento?
Personalizar não prova personalidade. Eles citam Provérbios 1.20-23; 
Mateus 11.19 e Lucas 7.35 querendo provar que a sabedoria personificada 
não é uma pessoa.125 Os “filhos da sabedoria” é uma expressão hebraísta que 
diz respeito aos efeitos ou às obras da sabedoria. A Bíblia não personaliza o 
Espírito Santo, pois não há necessidade disso, por ser Ele uma pessoa. Em 
nenhum lugar da Bíblia diz que a sabedoria é uma pessoa, nem apresenta 
atributos pessoais e divinos. É 0 contrário do Espírito Santo. Esse argumento, 
portanto, dos líderes das testemunhas de Jeová é sem sustentação bíblica que 
só pode convencer seus seguidores, e, mesmo assim, porque elas são priva­
das de examinar qualquer tratado teológico, fora de sua organização religiosa.
O Espírito Santo não tem identificação pessoal? Eles ensinam ainda 
que 0 Espírito Santo não tem identidade pessoal porque esse nome ocorre 
vinte e uma vezes no Novo Testamento sem o artigo.126 Os integrantes des­
se movimento não ensinam que 0 artigo grego aponta o objeto ou chama 
a atenção para ele, e que a sua ausência pode ou não indicar indefinição. 
0 nome de Jesus ocorre mais de novecentas vezes no Novo Testamento e 
aparece cerca de trezentas e cinquenta vezes sem o artigo, e nem por isso
125 Ajuda ao Entendimento da Bíblia. Brooklyn, N.Y., USA: Watchtower Bible and Tract Society of New 
York, Inc.; International Bible Students Association, 1971, pp. 542, 543.
126 Ibidem, p. 543.
c a p í t u l o 9 • QUEM É 0 ESPÍRITO SANTO 129
Jesus deixa de ter identidade pessoal. Se eles se preocupassem em ensinar 
a Bíblia assim como ela é, e a defender sua doutrina sem preconceito, os 
seus mestres teriam publicado (no lugar onde diz que o artigo definido não 
aparece vinte e uma vezes, onde ocorre a expressão “Espírito Santo”) que 
setenta e três vezes o Espírito Santo aparece com o artigo definido, mas não 
o fazem. Isso é falta de honestidade acadêmica.
0 Espírito Santo e o islamismo127
O pensamento islâmico sobre o Espírito Santo é confuso. Uns acreditam 
que ele seja o anjo Gabriel ao interpretar a expressão “Espírito Sagrado” no 
Alcorão 2.253, visto que Gabriel trouxe a mensagem de Deus para Maria e se­
gundo a tradição islâmica, teria revelado o Alcorão a Maomé. Mas, segundo a 
Bíblia, o Espírito Santo é o próprio Deus (At s.3,4; 2 Co 3.17,18). O termo “espí­
rito” aparece vinte vezes no Alcorão, segundo David Goldmann, em sua obra 
Islam and the Bible, “e cada vez a palavra é entendida para se referir a um ser 
criado que possui um corpo sutil que penetra em outro corpo”.128 Isso signi­
fica para os muçulmanos que “espírito” diz respeito a um ser criado (Alcorão 
15.29) que possui um corpo sutil e é capaz de penetrar num corpo rústico. 
Eles consideram os anjos e os gênios nessa categoria. Desse modo, afirmar 
que “Deus é Espírito” (Jo 4.24) para eles é uma blasfêmia. 0 problema está no 
contexto religioso e cultural deles, pois essas palavras de Jesus significam que 
a natureza de Deus é imaterial, que ele é invisível e simples, ou seja, não se 
compõe de matéria ou figura corpórea (Rm1.20; Cl 1.15; 1 Tm 1.17).
Os intelectuais muçulmanos se apegam às palavras do Alcorão atribuí­
das a Jesus: “sou para vós o Mensageiro de Allah, para confirmar a Tora, que 
havia antes de mim, e anunciar um Mensageiro, que virá depois de mim, 
cujo nome é Ahmad” (Alcorão, 61.6). Eles interpretam essa passagem corâ- 
nica como cumprimento da promessa que Jesus fez sobre a vinda do Con­
solador, do Paracleto. Desse modo, Ahmad ou Mohammad, seria o Conso­
lador. A palavra grega periclytós significa “renomado ao redor, ilustre”, que 
eles interpretam ter 0 mesmo significado de “Ahmad”. Assim, concluem 
que Maomé é o Consolador prometido por Jesus.
127 O presente tópico foi extraído do livro Teologia Sistemática em Diálogos. SOARES, Esequias & 
SOARES, Daniele. Teologia sistemática em diálogos. Recife, PE: Editora Bereia Acadêmica, 2019, 
pp. 117,118.
128 GOLDMANN, David. Islam and the Bible: Why Two Faiths Collide. Chicago: Moody Publishers, 
2004, p. 43.
130 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Segue a explicação sobre isso. A palavra grega usada para Consolador 
é outra, paraklêtos, e não periklytós. Periklytós não é uma palavra bíblica, 
não aparece em lugar algum da Bíblia Sagrada. Além disso, não é possível 
aplicar as características do Consolador descritas em João 14 a 16 a qual­
quer ser humano. Jesus disse que o Consolador é 0 próprio Espírito Santo 
(Jo 14.26). A promessa do Senhor Jesus é de que 0 “a fim de que esteja com 
vocês para sempre” (Jo 14.16). Trata-se de um ser que não morre, que 
vive para sempre, e Maomé declarou-se mortal. Jesus disse também que 0 
Consolador “habita convosco e estará em vós” (Jo 14.17 - TB) e que “quan­
do, porém, vier o Consolador, que eu enviarei a vocês da parte do Pai, 0 
Espírito da verdade, que dele procede, esse dará testemunho de mim” (Jo 
15.26). Nenhum muçulmano admite que Maomé tenha sido enviado ao 
mundo pelo Senhor Jesus.
c a p í t u l o 10
0 PECADO CORROMPEU 
A NATUREZA HUMANA
A
s Escrituras afirmam que “o pecado é a transgressão da lei” (1 Jo 
3.4 - ARA). A doutrina do pecado é chamada na teologia de hamar- 
tiologia, do grego, hamartia, “pecado”, e, íogos, “palavra, estudo, 
tratado”. Quando se afirma que o pecado corrompeu a natureza 
humana, estamos dizendo que a Bíblia fala de maneira clara e di­
reta: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 3.23). Na teologia, 
isso se chama “depravação total”, que começou com a Queda no Éden (Gn 
3.6-19), conhecido ainda como pecado original, mas ele já existia no Univer­
so antes da criação de Adão.
A DOUTRINA BÍBLICA DO PECADO E SUA EXTENSÃO
Gênesis é o livro das origens de todas as coisas: dos céus e da terra, do 
homem e do pecado, do sacrifício e da promessa de redenção, do casamento 
e da família, do homicídio, das nações, das línguas e da nação de Israel. É 
de suma importância saber como todas essas coisas vieram à existência e o 
pecado é uma delas, pois isso nos ajuda a compreender toda a existência da 
maldade do mundo e das pessoas.
O pecado é descrito de diversas maneiras e existem dezenas de termos 
hebraicos e gregos na Bíblia para descrever sua origem, suas causas, às 
vezes, sua natureza e, até mesmo, suas consequências.
132 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Os termos mais comuns na Bíblia para o pecado são o hebraico hãttã ’â 
e o seu equivalente grego na Septuaginta e no Novo Testamento, hamar- 
tia. O verbo hãtã’ significa literalmente “errar o alvo” (Jz 20.16; Pv 19.2), 
cuja raiz aparece quinhentos e noventa e cinco vezes no Antigo Testamento. 
Essa palavra é usada também no campo secular na quebra de uma lei civil 
(Gn 41.9; Ec 10.4), mas seu uso comum diz respeito ao pecado contra Deus 
(SI 103.10; Dn 9.16). “O ser humano erra 0 alvo e desvia-se do objetivo da 
vida estabelecido pelo Criador por causa de uma disposição inata que há em 
todas as criaturas humanas”.129 Nas traduções dos termos, encontramos: 
erro, iniquidade, transgressão, maldade, impiedade, engano, sedução, re­
belião, violência, perversão, orgulho, malícia, concupiscência, prostituição, 
injustiça. Todas essas coisas estão impregnadas nos seres humanos e são 
manifestos nos relacionamentos em todas as esferas da vida.
No Éden
O capítulo 3 de Gênesis mostra como 0 pecado foi introduzido na hu­
manidade por meio de Adão e Eva. Deus os criou perfeitos e sem pecado, 
Ele disse: “— Façamos o ser humano à nossa imagem, conforme a nossa 
semelhança... “Assim Deus criou o ser humano à sua imagem, à imagem 
de Deus o criou; homem e mulher os criou” (Gn 1.26,27). O ser humano 
foi criado em santidade à imagem de Deus, no entanto, se corrompeu pelo 
pecado: “Deus fez 0 ser humano reto, mas ele se meteu em muitos proble­
mas” (Ec 7.29); “mas eles se meteram em muitos èxtravios” (TB); “mas ele 
se meteu em muitas astúcias” (ARA), de tal de modo que somente em Cristo 
é possível a sua restauração a Deus.
A imagem e semelhança de Deus em Adão e Eva revela uma ressonân­
cia dos atributos relativos de Deus no primeiro casal e, dentre eles, a liber­
dade de escolha que na teologia se chama “livre arbítrio”. Essa capacidade 
veio de Deus, Ele fez 0 ser humano livre e, por isso, eles fizeram voluntaria­
mente uma escolha errada ao comer 0 fruto proibido. “E 0 Senhor Deus or­
denou ao homem: — De toda árvore do jardim você pode comer livremente, 
mas da árvore do conhecimento do bem e do mal você não deve comer; 
porque, no dia em que dela comer, você certamente morrerá” (Gn 2.16,17). 
Mas, aconteceu que a mulher deu ouvido à voz da serpente, desobedeceu à
129 SOARES, Esequias. A Razão da Nossa Fé: Assim cremos, assim vivemos. Rio de Janeiro: CPAD, 
2017, p. 85.
c a p í t u l o 10 ■ 0 PECADO CORROMPEU A NATUREZA HUMANA
ordem divina; ela comeu do fruto proibido e o seu marido comeu com ela: 
“Vendo a mulher que a árvore era boa para se comer, agradável aos olhos e 
árvore desejável para dar entendimento, tomou do seu fruto e comeu; e deu 
também ao marido, e ele comeu” (Gn 3.6). Essa serpente é identificada mais 
adiante na Bíblia como Satanás; “E foi expulso 0 grande dragão, a antiga 
serpente, que se chama diabo e Satanás, 0 sedutor de todo o mundo (Ap 
12.9). A Queda do Éden é resultado de uma escolha errada e voluntária do 
primeiro casal.
A palavra “morte” significa “separação”; quando Adão e Eva desobede­
ceram a Deus e comeram do fruto proibido, a morte espiritual aconteceu 
de maneira imediata, seus olhos foram abertos e perceberam que estavam 
nus e procuraram se esconder da presença de Deus ao ouvirem a voz do Se­
nhor soar no jardim. Antes, o homem e a sua mulher já “estavam nus e não 
se envergonhavam” (Gn 2.25). Depois que “os olhos de ambos se abriram; 
e, percebendo que estavam nus, costuraram folhas de figueira e fizeram 
cintas para si” (Gn 3.7). O pecado trouxe separação, houve uma ruptura na 
comunhão com Deus. O que aconteceu foi a morte espiritual. Deus fez túni­
cas de peles de animais para o casal cobrir a sua nudez, “O Senhor Deus fez 
roupas de peles, com as quais vestiu Adão e sua mulher” (3.21). Um animal 
foi sacrificado no lugar de Adão, desde esta Queda, eles perderam a comu­
nhão com Deus e ficaram separados dEle, eles procuraram se esconder da 
presença divina quando Deus chamou Adão (Gn 3.8-10).
O sacrifício salta à vista de qualquer leitor do Antigo Testamento. Esse 
ritual é tão antigo quanto a humanidade. O pecado é aquilo que separa o 
ser humano do Deus Criador, por isso, o ritual é importante para buscar a 
reconexão com o divino, “0 salário do pecado é a morte”, explica o apóstolo 
Paulo (Rm 6.23); quando 0 animal é sacrificado no altar, ele está morrendo 
no lugar do pecador. Todo o sistema sacrificial fundamenta-se na ideia de 
substituição, e isso implica expiação, redenção, perdão e sacrifício vicário à 
base de sangue: “porque é 0 sangue que fará expiação pela vida” (Lv 17.11).
A Bíblia revela a origem do pecado, mas a Queda do Éden foi uma etapa 
do desastre. A serpente é 0 próprio Satanás, 0 autor do pecado que já havia 
sido expulso do céu antes mesmo da criação deAdão e Eva. A Bíblia diz 
que Satanás é o maioral dos demônios (Mt 12.24; 25.41). No princípio, Deus 
criou o querubim ungido, perfeito em sabedoria e em formosura, o qual era 
0 selo da simetria (Ez 28.12-15). Ele se rebelou contra Deus e foi expulso do 
céu (Is 14.12-15). Com sua queda, vieram com ele os anjos que aderiram à
134 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
rebelião, uma parte deles continua em prisão (2 Pe 2.4; Jd 6). Apesar de a 
Bíblia não fornecer detalhes sobre os demônios, estas passagens bíblicas 
podem explicar a sua origem.
A Queda do Éden afetou a toda humanidade
No capítulo primeiro de Romanos, 0 apóstolo Paulo denuncia a corrup­
ção geral dos gentios, desenhando um quadro sombrio da condição humana 
diante de Deus. No capítulo seguinte, é a vez de tratar do estado dos judeus 
(2.1-3.19). Ambos os povos, judeus e gentios estão no mesmo bojo — “Pois 
já temos demonstrado que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo 
do pecado” (Rm 3.g).
A conjunção grega dió, “por isso, em razão de que”, ou, “portanto” 
(ARC), em Romanos 2.1 mostra a ligação com o texto do capítulo anterior. 
A mensagem é dirigida aos judeus, ainda que de maneira velada no início 
do discurso, mas logo o judeu é identificado pelo fato de condenar os outros 
(2.9,10). Os judeus aprovariam tudo o que 0 apóstolo Paulo diz sobre o peca­
do dos gentios (Rm 1.18-32). Porém, o mesmo apóstolo está mostrando que 
os judeus são inescusáveis também, pois acusam os outros, mas praticam 
a mesma coisa. Paulo usa a expressão “ó homem” como prova da rigorosa 
imparcialidade do julgamento divino, num estilo conhecido como diatribe, 
é uma forma de severa crítica.
A intenção paulina é mostrar a extensão do pecado e não denunciar 0 
fracasso dos judeus. Havia mesmo entre os pagãos muitos moralistas, entre 
eles Sêneca, que foi preceptor de Nero, quando 0 referido imperador ainda 
era menino. A seção da epístola aos Romanos 2.1-3.19 diz respeito a judeus e 
gentios. Isso significa que tantos os devassos como os moralistas estão sob 
o pecado. Trazendo essa situação para a atualidade, entendemos que, tantos 
os iníquos, identificados em Romanos 1.18-32, como os pecadores “respei­
táveis” — religiosos e moralistas, identificados em Romanos 2, precisam 
nascer de novo, necessitam de um encontro com Jesus (Jo 3.3).
A Bíblia revela a corrupção geral dos seres humanos e a extensão da 
pecaminosidade humana em toda a sua totalidade (Is 1.5,6), corpo, alma e 
espírito;130 e, não fica somente nisso, envolve ainda o intelecto, a vontade, 
a consciência, a razão e a liberdade.131 Todos se extraviaram, não há quem
130 Romanos 2.9; 8.10; 2 Coríntios 7.1.
13 1 Isaías 1.3; Jeremias 17.9; 1 Coríntios 8.7; Efésios 4.18; 1 Timóteo 4.2; Tito 1.15; 3.3.
c a p í t u l o 10 ■ 0 PECADO CORROMPEU A NATUREZA HUMANA
faça o bem (SI 54.1); por isso, não há no mundo quem não peque (1 Rs 8.46; 
Ec 7.20). Mas, a imagem de Deus no ser humano caído não foi erradicada, 
ela está desfigurada, mas não aniquilada (Gn 9.6; Tg 3.9); isso inclui o livre- 
-arbítrio, pois os pecadores têm liberdade de escolha (Js 24.15; Jo 7.17; 2 Pe 
3.5; Ap 22.17). Este assunto está detalhado no capítulo 9 da Declaração de Fé 
das Assembléias de Deus.
Como a Queda do Éden afetou a toda a humanidade?
Apecaminosidade humana é um fato inquestionável revelado na Bíblia 
e confirmado pela experiência humana desde o limiar da história humana. 
Mas, a Bíblia não mostra como essa transmissão do pecado de Adão passou 
a todos os humanos, no entanto, afirma que se trata de um fato incontestá­
vel e que essa tragédia humana veio pela desobediência de um só homem, 
Adão: “assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo 
pecado veio a morte, assim também a morte passou a toda a humanidade, 
porque todos pecaram” (Rm 5.12). O apóstolo explica que 0 primeiro ho­
mem, Adão, é terreno (1 Co 15.45-47) e, na comparação entre Adão e Jesus, 
Paulo conclui que “assim como trouxemos a imagem do homem terreno, 
traremos também a imagem do homem celestial” (1 Co 15.49)- É uma com­
paração similar a de Romanos 5.12-21.
São duas informações teológicas de grande importância encontradas 
nessa perícope de Romanos 5.12-21. A primeira que o pecado original veio 
de um só homem e a segunda, que a prova dessa verdade é o fato de a morte 
ter passado para todas as pessoas: “Portanto, assim como por um só ho­
mem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado veio a morte, assim também 
a morte passou a toda a humanidade, porque todos pecaram” (Rm 5.12). 
Essa é a declaração mais contundente revelando que a transgressão de Adão 
passou para toda a humanidade.
Em Romanos 1.18-32, 0 apóstolo apresenta a mais longa lista de pe­
cados encontrada em todas as suas epístolas. A outra lista aparece em 
Romanos 3.9-18, sendo que a maioria desses atos pecaminosos é citação 
do Antigo Testamento. A depravação dos gentios e a denúncia contra os 
judeus são a fotografia da humanidade corrupta, sem Deus, judeus e gen­
tios num mesmo bojo: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” 
(Rm 3.23). Todas as pessoas foram concebidas em pecado (SI 51.5), exceto 
0 Senhor Jesus (Hb 4.15; 7.28), que foi concebido pelo Espírito Santo (Mt 
1.20; Lc 1.35).
136 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
A extensão do pecado envolve todas as pessoas, a corrupção se deu na 
sua totalidade, corpo, alma e espírito (Rm 2.9; 8.10; 2 Co 7.1); intelecto e von­
tade (Is 1.3; Jr 17.9); consciência e razão (1 Tm 4.2; Tt 1.15). Tudo isso diz 
respeito no tocante à extensão, do pé à cabeça, (Is 1.5,6) e não se refere à 
intensidade. O pecado é uma realidade na vida de todas as pessoas, desde o 
ventre materno (SI 51.S; 58.3). O ser humano está incapacitado de conhecer a 
Deus por seus próprios esforços. Mas, a imagem de Deus no ser humano caí­
do não foi erradicada, está desfigurada (Gn 9.6; Tg 3.9), como já foi dito an­
teriormente; isso inclui também 0 livre-arbítrio, pois é Deus quem concede 
a todos pecadores a liberdade de escolha (Js 24.15; Jo 7.17; 2 Pe 3.5; Ap 22.17).
A HERESIA QUE NEGA 0 ADVENTO DO PECADO
As religiões não cristãs geralmente negam a doutrina cristã do pecado 
original, como o islamismo. Para os muçulmanos, haverá um dia de juízo, 
isso no fim dos tempos, quando as boas obras de cada pessoa serão postas 
numa balança contra as más ações. Se as boas ações superarem as más, 
essa pessoa irá para o paraíso, caso contrário, irá para o inferno. Nesse 
sistema não há lugar para a doutrina do pecado original e nem da expiação.
0 pelagianismo
O pelagianismo é a principal e a mais antiga heresia que nega a doutri­
na do pecado original. Esse ensino surgiu no seio da igreja no quarto século. 
O nome vem de Pelágio, um teólogo britânico, monge erudito (360-420), 
que se transferiu para Roma em 409. Foi contemporâneo de Agostinho de 
Hipona (354-430). A sua teologia destoa do pensamento cristão ensinado 
pelas igrejas no que diz respeito ao pecado e à salvação. É contrária à dou­
trina bíblica que declara: “todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Rm 
3.23); e, ainda, a da salvação pela graça de Deus e não pelas obras humanas 
(Ef 2.8, 9; Tt 3.5,6).
O ensino central de Pelágio nega que a Queda do Éden tenha afetado a 
raça humana, argumentando que 0 pecado de Adão não foi transmitido à 
toda a humanidade e nem a morte física é resultado do pecado dele. Acres­
centa ainda que cada alma é criada imediatamente por Deus, no nascimento 
de cada pessoa, portanto, ela não pode vir ao mundo maculada pelo pecado 
de Adão, que esse pecado diz respeito somente ao próprio Adão e não pode 
ser imputado sobre o destino de sua posteridade. Constava no seu ensino
c a p í t u l o W ■ 0 PECADO CORROMPEU A NATUREZA HUMANA
que o ser humano estava destinado a morrer mesmo que Adão não tivesse 
pecado. Além desses pontos, rejeita ainda a graça de Deus, porque Adão foi 
apenas um mal exemplo para a humanidade e, em contrapartida, Jesus foi 
simplesmente um bom exemplo. A consequência desse ensino, então, é que 
cada um não depende da graça epode ser salvo pelos seus próprios esforços.
A doutrina pelagiana enfatiza também a ideia do total livre-arbítrio. Se­
gundo o pelagianismo, os seres humanos possuem a graça e a capacidade 
de optar livremente por Deus, por se tratar de uma criatura feita à imagem 
de Deus, as pessoas têm condições morais e espirituais para fazerem o bem 
e evitar o mal e salvarem-se com suas próprias forças.
A princípio, a sua doutrina teve acolhida popular e não era considerada 
herética porque parecia um assunto ético e não teológico. A controvérsia não 
foi desencadeada com o próprio Pelágio, mas com Celéstio, jurista romano 
de origem britânica, um dos principais porta-vozes das idéias pelagianas. A 
fonte da doutrina pelagiana são os escritos dos seus oponentes, não existe 
nada da lavra do próprio Pelágio. Agostinho foi o primeiro a constatar o pe­
rigo dessa doutrina pelagiana, pois via nisso uma doutrina de autorreden- 
ção disfarçada e completamente contra o pensamento soteriológico cristão; 
ensinava as pessoas a chegarem à salvação se baseando simplesmente na 
sua natureza criada e na decisão de sua livre vontade e não na dependência 
da graça de Deus.
0 semipelagianismo
É um meio-termo entre Agostino de Hipona e Pelágio. Todos os pontos 
da teologia pelagiana se resumem nisto: a inexistência do pecado original 
e a defesa da capacidade humana para a sua própria salvação. A doutrina 
pelagiana foi rejeitada pela igreja e formalmente condenada pelo Concilio 
de Éfeso em 431. Mas, um monge chamado João Cassiano (360-435), edu­
cado em Belém, em Israel, que viveu muitos anos como monge no Egito e, 
em 415, fixou residência em Marselha, no sul da França, onde fundou dois 
mosteiros, procurou um meio termo entre a posição extremada do pelagia­
nismo e o pensamento de Agostinho de Hipona. Essa doutrina passou a ser 
conhecida como semipelagianismo, incluiu:
... as crenças de que 0 pecado original e o livre arbítrio não 
se excluem entre si; que a vontade divina e a humana cooperam 
e são fatores coeficientes na regeneração; que a regeneração é
138 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
a bênção divina sobre a vontade humana; e que a culpa vem, 
não do pecado original, senão por um ato individual cometido 
voluntariamente.132
Esse pensamento não se sustenta biblicamente e os teólogos arminia- 
no-wesleyanos rechaçam, terminantemente, a ideia de mérito humano.
0 islamismo
Entre as várias diferenças teológicas entre cristianismo e islamismo, a 
Bíblia e o Alcorão, está também a hamartiologia, pois esta religião rejeita a 
doutrina bíblica do pecado original (Alcorão, 30.30). Afirma um documento 
oficial islâmico sobre 0 tema: “O Islão adotou uma posição única perante o 
assunto, uma posição que não foi compartilhada por nenhuma religião do 
nosso conhecimento”.133 Sua doutrina não é totalmente original, há muita 
semelhança com o pelagianismo.
Não existe na religião islâmica a ideia da corrupção total do gênero hu­
mano de que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 
3.23), de que não há um justo sequer (SI 14.3; 53.3; Rm 3.10). O ensino dessa 
religião é que a humanidade não tem nada com o pecado de Adão, pois todo 
0 ser humano nasce bom, quando peca, pede perdão, e Allah, o nome da 
divindade deles, o perdoa: “A ideia de pecado original ou de criminalidade 
hereditária não tem lugar dentro dos ensinamentos do Islão... 0 homem 
nasce num estado natural de pureza”, declara o documento mais adiante.134 
Desse modo, não precisam de Jesus. Se não há pecado, logo não há necessi­
dade de salvação.
132 TAYLOR, Richard S. Op. cit., p. 636.
133 ABDALATI, Hammudah. O Islão em Foco, 16. International Islamic Federation of Student Organi- 
zations, Beirut, Lebanon / Damascus, Syria: The Holy Koran Publishing House, 1978, p. 59.
134 Ibidem, p. 60.
cdpí tu lo 11
A SALVAÇÃO NÃO É 
OBRA HUMANA
S
oteriologia é a doutrina da salvação, esse termo teológico vem do 
grego sotêria, “salvação”, e, logos, “palavra, estudo, tratado”, que no 
contexto teológico diz respeito ao livramento do poder da maldição 
do pecado e à restituição do ser humano à comunhão com Deus. A 
salvação é um ato da graça soberana de Deus pelo mérito de Jesus 
Cristo, não vem das obras humanas, e a restauração do relacionamento do 
ser humano com Deus se dá por meio de Jesus Cristo. E esse o sentido da 
palavra “salvação” quando dizemos a alguém que Jesus salva.
A SALVAÇÃO SOB A GRAÇA DE DEUS
Esse livramento espiritual é um ato da soberana vontade de Deus e não 
vem de nossa própria justiça, a salvação é pela graça de Deus: “Porque pela 
graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de vocês, é dom de Deus; 
não de obras, para que ninguém se glorie” (Ef 2.8-9); “ele nos salvou, não por 
obras de justiça praticadas por nós, mas segundo a sua misericórdia. Ele nos 
salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo” (Tt 3.5).
A incapacidade humana para salvar-se
Assim como acontece em Romanos que, antes de apresentar uma ex­
posição da provisão divina para a redenção humana, ou seja, desenvolver o
140 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
tema da justiça de Deus pela fé em Jesus previamente anunciada (Rm 1.17), 
o apóstolo apresenta primeiro a corrupção geral do gênero humano (1.18- 
32); da mesma maneira, ele procede em Efésios 2.1-10. O apóstolo mostra 
primeiro 0 estado de miséria em que viviam os efésios, revela a fotografia 
espiritual de todos os seres humanos (w. 1-3), uma maneira de descrever 
a situação espiritual de todos os seres humanos. Em seguida, apresenta a 
graça de Deus como fonte da salvação. A descrição dessa condição peca­
minosa da natureza humana confirma a extensão da corrupção do gênero 
humano, estudado no capítulo anterior.
“Ele lhes deu vida, quando vocês estavam mortos em suas transgres­
sões e pecados” (v. 1). Mesmo apresentando uma expressão contunden­
te que serve para reforçar a dura realidade do pecado: “mortos em suas 
transgressões e pecados” (v. 1), o apóstolo Paulo mostra o que pretende 
anunciar mais adiante, a graça de Deus, com as palavras introdutórias, 
“Ele lhes deu vida, quando vocês...” Isso ele retoma mais adiante no v. 
5: “estando nós mortos em nossas transgressões”, mas, dessa vez, nessa 
passagem, o apóstolo se inclui como o faz no v. 3a, “entre eles também 
nós todos andamos no passado”. Sendo ele um judeu, nesse caso, se iden­
tifica também com esses “mortos”, usando a construção grega kai ontas 
hêmas;13S com isso, ele reafirma o que revela em Romanos: “Temos nós 
alguma vantagem? Não, de forma nenhuma. Pois já temos demonstrado 
que todos, tanto judeus como gregos, estão debaixo do pecado” (Rm 3.9). A 
morte aparece como metáfora para tornar mais vivida e pitoresca a gravi­
dade da pecaminosidade humana.
O apóstolo usa mais duas expressões para mostrar a triste realidade 
de toda a raça humana, que os pecadores andam, “segundo o curso deste 
mundo [katá ton aiõna tou kosmou], segundo 0 príncipe dapotestade do ar” 
(v.2). O apóstolo emprega fraseologia similar da segunda parte desse versí­
culo mais adiante, em Efésios 6.12, “principados e potestades”. Esses dois 
termos em “contra os principados, contra as potestades” aparecem juntos, 
pelo menos, dez vezes no Novo Testamento. Os “principados”, archai, em 
grego, cuja ideia é primazia e poder; as “potestades”, exousíai, denotam li­
berdade para agir. Paulo emprega 0 termo tanto para os anjos (Rm 8.38; Cl 
1.16) como para os demônios investidos de poder (1 Co 15.24; Cl 2.15). Des­
135 Antes de sua experiência com Cristo no caminho de Damasco Paulo se considerava o maior crente 
de sua comunidade (G1 1.14); mas depois de sua conversão ao Senhor Jesus, ele se vê como o prin­
cipal dos pecadores (1 Tm 1.13-15).
c a p í t u l o 11 ■ A SALVAÇÃO NÃO É OBRA HUMANA
se modo, a expressão se refere a governos ou autoridades tanto na esfera 
terrestre como na esfera espiritual, mas, na segunda parte do v. 2 é uma 
referência ao estado espiritual do mundo.
A terceira parte que afirma, “do espírito que, agora, opera nosfilhos da 
desobediência” (v. 2c); mostra que os pecadores são guiados pelo espírito 
das trevas e são identifcados por mais uma expressão, “filhos da desobe­
diência”, que revela o grave estado espiritual dos pecadores. Trata-se do es­
pírito do deus deste sistema de coisas: “nos quais o deus deste mundo [aiõn] 
cegou o entendimento dos descrentes” (2 Co 4.4); “deste século” (ARC); em 
outras palavras, o próprio Satanás.
No v. 3, depois de esclarecer a influência maligna atuante nos seres 
humanos, Paulo revela a inclinação da carne que leva aos desejos ilícitos, 
e conclui afirmando que os pecadores são “por natureza filhos da ira” (v. 
3). Essa perícope introdutória de Efésios 2.1-10 resume todo 0 pensamento 
bíblico soteriológico, no que diz respeito à salvação pela graça de Deus e 
sobre a impossibilidade de alguém angariar a vida eterna por seus próprios 
meios e esforços.
A salvação somente pela graça
O apóstolo Paulo mostra o contraste entre o estado espiritual da misé­
ria humana e como é possível a restauração à comunhão com Deus. Além 
disso, deixa claro a impossibilidade de qualquer pessoa por si mesma anga­
riar a salvação por meio de seu próprio esforço, e até mesmo, de desejar a 
salvação ou sentir a necessidade de Deus, senão por intervenção direta de 
Deus por meio do Espírito Santo.
Os três primeiros versículos de Efésios 2.1-10 podem ser considerados 
um breve compêndio de expressões teológicas para descrever a pecami- 
nosidade humana e o propósito é mostrar a impossibilidade de alguém se 
chegar a Deus por seu próprio esforço, isso porque nem mesmo deseja a 
salvação, pois seu pensamento é norteado pelos desejos da carne.
Mas, a partir do v. 4, Paulo começa a falar da graça de Deus e de sua 
iniciativa para salvar os pecadores, mostrando que nada podemos fazer em 
favor de nós mesmos para a salvação: “Mas Deus, sendo rico em misericór­
dia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em 
nossas transgressões, nos deu vida juntamente com Cristo — pela graça 
vocês são salvos” (w. 4,5). As expressões “Ele lhes deu vida” (v.i); ou: “vos 
vivificou” (ARC); ou ainda: “nos deu vida juntamente com Cristo” (v. 5) re­
142 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
velam a ação do Espírito Santo em favor dos pecadores, que a salvação só é 
possível mediante a graça de Deus, sem ela ninguém pode ser salvo.
Essa passagem bíblica elimina qualquer pensamento pelagiano e semi- 
pelagiano, tentativa de salvação com ajuda humana ou de qualquer esforço 
adicional para completar a obra de Cristo. O termo “graça” significa literal­
mente “favor imerecido”, o favor divino. O apóstolo Paulo mostra primeiro 
o estado de miséria dos seres humanos (w. 1-3). Em seguida, apresenta a 
graça de Deus, a fonte da salvação. A descrição do estado espiritual humano 
mostra a condição pecaminosa da natureza humana e confirma a extensão 
da corrupção do gênero humano. O apóstolo emprega algumas expressões 
para reforçar a dura realidade humana de que não somos merecedores.
“Porque pela graça vocês são salvos, mediante a fé; e isto não vem de 
vocês, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (w. 8,9). 
A exegese do texto significa que a expressão “isto não vem de vocês, é dom 
de Deus” não se refere à fé, mas à salvação, que é pela graça. Isso fica claro 
porque o apóstolo emprega 0 pronome demonstrativo no gênero neutro na 
forma, touto, que concorda com 0 substantivo neutro, dõron, “dom, dádi­
va”; no entanto, a cláusula “isto é dom de Deus” diz respeito à salvação pela 
graça, pois as palavras “fé” e “graça”, pistis e charis, são femininas. Se essa 
expressão em tela se referisse à fé, o demonstrativo estaria no feminino, 
tautê. Assim, a fé não está incluída no “dom de Deus”. Como afirma o res­
peitado erudito da língua grega A. T. Robertson: “a graça é a parte de Deus 
e a fé, é a nossa”.136 De modo, como dizia Norman Geisler, “a fé é o meio e a 
salvação é o fim. O meio vem antes do fim”.137
Então, o dom de Deus é a graça, de modo que a fé vem antes da graça, 
antes da regeneração (Jo 3.16; At 16.31; Rm 5.1). A salvação, sim, é pela 
graça de Deus mediante a fé em Jesus, e esse dom não vem das obras, 
pois não se trata de uma recompensa: “não de obras, para que ninguém 
se glorie” (Ef 2.9).
Mas, há algo mais que precisa ser esclarecido. As expressões “mortos 
em ofensas e pecados” (v. 1) e “mortos em nossas ofensas” (v. 5) não de­
vem ser entendidas literalmente por se tratar de uma metáfora, uma das 
figuras de linguagem para descrever o estado da queda espiritual dos seres 
humanos. Entendemos que “morte espiritual” na Bíblia mostra que a hu­
136 ROBERTSON, A. T. Imágenes Verbales en el Nuevo Testamento, tomo 4. Barcelona, Espana: Clie, 
1989, p. 691.
137 GEISLER, Norman. Teologia Sistemática, vol. 2. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 386.
c a p í t u l o 11 ■ A SALVAÇÃO NÃO É OBRA HUMANA
manidade caída está separada de Deus (Is sg.2) e não significa aniquilação 
espiritual total. Como que a humanidade morta espiritualmente pode re­
conhecer os atributos de Deus? A Bíblia mostra que isso é possível, veja 
Romanos 1.19, 20. Como pôde Adão, já em estado de pecado, morto espiri­
tual, ouvir a voz de Deus soar no jardim (Gn 3.10)? Apesar de a imagem de 
Deus no ser humano estar desfigurada, todos os seres humanos ainda são 
imagem de Deus (Gn 9.6; Tg 3.9). Aceitar 0 convite do Espírito Santo para a 
salvação não é 0 mesmo que um esforço para angariar a vida eterna, não é 
de capacidade humana. Deus disponibilizou salvação para quem quiser ser 
salvo (Ap 22.17).
A salvação Deus propôs para todos os povos, tribos e nações, de manei­
ra simples para que tanto os sábios como os indoutos pudessem alcançá-la. 
A receita é a fé em Jesus: “Creia no Senhor Jesus e você será salvo — você e 
toda a sua casa” (At 16.31). O ato de crer no Unigênito Filho de Deus confor­
me as Escrituras significa ter a vida eterna.
“Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os 
homens” (Tt 2.11); ou: “trazendo salvação a todos os homens” (TB, ARC); 
ou: “se manifestou salvadora a todos os homens” (ARA, NVI). Trata-se de 
uma exegese ruim interpretar que essa graça salvadora se refere apenas à 
igreja, ou somente aos crentes ou ainda só aos escolhidos, pois a parte final 
do texto grego afirma, pasin anthõpois, “a todos os homens”, ou seja, a todas 
as pessoas. Na verdade, essa é a intenção do Espírito Santo; a vontade de 
Deus é que todos os seres humanos sejam salvos: “que deseja que todos os 
homens sejam salvos, e que cheguem ao pleno conhecimento da verdade” 
(1 Tm 2.4 - TB); “que quer que todos os homens se salvem e venham ao co­
nhecimento da verdade” (ARC); “o qual deseja que todos os homens sejam 
salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (ARA). O texto grego é 
claro ao mostrar que essa salvação se refere a todas as pessoas. O que essas 
duas passagens bíblicas revelam, além de muitas outras, é que todos os se­
res humanos são salváveis, a salvação está à disposição de todas as pessoas, 
é a graça de Deus.
A salvação não é algo para o futuro (Jo 5.24). O pecador recebe a vida 
eterna a partir do momento em que aceita a Jesus Cristo em sua vida como 
seu Salvador pessoal, ou seja, quando passa a crer em Jesus. A receita é 
simples: crer no coração que Deus ressuscitou a Jesus dentre os mortos 
e confessar publicamente o nome de Jesus. É 0 que afirma a Bíblia em 
Romanos 10.9,10.
144 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Entendendo a dinâmica da salvação
Das cinco solae - fid e , Scriptura, Christus, gratia e Deo gloria - a gratia 
é o tema mais controvertido. Os grandes teólogos da Igreja como Agostinho 
de Hipona, Lutero, Zuínglio, Calvino, Armínio, Wesley e os seguidores das 
respectivas linhas teológicas estão de acordo no que diz respeito à salvação 
somente pela graça divina, conforme a soteriologia paulina. O termo “gra­
ça” significa, literalmente, “favor imerecido”, o favor divino do qual não 
somos merecedores. Graça não é mérito e nem o ato de o pecador receberdois dias de ida e mais dois de volta, e é possível que Trófimo tenha sido 
o enviado com essa convocação, visto que fazia parte da comitiva de Paulo 
e era de Éfeso (At 21.29).
0 discurso
A mensagem de Atos 20 foi dirigida, originalmente, aos líderes de Éfeso 
e continua valendo para todos os cristãos em todos os lugares e em todas 
as épocas. Os anciãos, mencionados no v. 17, mais adiante, são chamados 
de bispos (At 20.28). Nessa passagem, ao dizer que eles foram constituídos 
pelo Espírito Santo para “apascentardes a igreja de Deus”, mostra que eles
c a p í t u l o 1 ■ QUANDO AS HERESIAS AMEAÇAM A UNIDADE DA IGREJA
eram pastores. A função primordial do pastor é alimentar, guiar e proteger 
o rebanho (Lc 15.4-6), usando uma linguagem metafórica, isso quer dizer, 
proteger das heresias, como fizeram Moisés e Davi (Êx 3.1; SI 78.70-72). Os 
cuidados pastorais são ensinos de Jesus (Mt 7.15-20).
A terceira parte desse discurso é a mais dramática (At 20.31). A expres­
são “depois da minha partida” (At 20.29) é uma palavra profética; o apóstolo 
não está apenas se referindo à sua morte, mas também ao avanço dos here- 
ges na igreja depois do período apostólico, no futuro. Paulo usa uma lingua­
gem metafórica para identificar os falsos doutrinadores, comparando-os 
a “lobos vorazes” (At 20.29); “lobos ferozes”(TB); “lobos cruéis” (ARC). O 
apóstolo Pedro, depois de ensinar que 0 Espírito Santo inspirou os profetas 
do Antigo Testamento (2 Pe 1.19-21), mostrou que a presença do verdadeiro 
nem sempre é suficiente para impedir a manifestação do falso. Ao falar a 
respeito dos autênticos profetas hebreus, ressaltou que também havia entre 
o povo falsos profetas, como haveríam de surgir no meio da igreja falsos 
mestres (2 Pe 2.1).
Dois pontos devem ser destacados nessa parte do discurso: origem dos 
falsos mestres e o propósito deles (At 20.30). Os lobos vorazes haveríam de 
surgir dentro da própria igreja, “dentre vós mesmos”, e que “se levantarão 
homens que falarão coisas perversas, para atraírem os discípulos após si”. 
Os discípulos deles ainda estão por aí e podem ser classificados em grupos: 
os internos e os externos.
Os internos são os que estão em nosso meio nas igrejas. Eles ousam 
questionar a doutrina e certos pontos doutrinários até mesmo nos nossos 
púlpitos. Uma declaração de fé não deve ser de autoria particular, pois ela 
expressa 0 pensamento e a vida diária da igreja ou da denominação de uma 
determinada época. A nossa Declaração de Fé das Assembléias de Deus no 
Brasil serve como proteção contra as falsas doutrinas e contribui para a 
unidade do pensamento doutrinário da igreja para “que digais todos uma 
mesma coisa” (1 Co 1.10) e para a instrução dos novos convertidos. Mas, o 
que se vê, com certa frequência, é que tais ensinadores se posicionam como 
alguém que tem autoridade sobre a igreja e não dão 0 mínimo respeito ao 
nosso documento, a Declaração de Fé.
A situação dos outros, os externos, é mais grave, pois muitos deles se 
posicionam acima das Escrituras, sem o menor pudor espiritual. Usam as 
redes sociais para “corrigir” a Bíblia e discordar abertamente dos profetas 
e dos apóstolos bíblicos. Tais pessoas consideram seus discursos atuais e
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
a mensagem da Bíblia desatualizada, por isso, estão oferecendo um novo 
evangelho (2 Co 11.13-15). Os heresiarcas externos da atualidade e seus se­
guidores estão lá fora.
Nossos desafios
Os desafios da igreja dizem respeito ao conhecimento de nossas cren­
ças e práticas e à vigilância espiritual. É necessário que cada membro tenha 
um conhecimento sólido e profundo da nossa fé e de como expor nossas 
crenças à luz da Bíblia. O nosso objetivo com a apologética é equipar o povo 
de Deus com argumento bíblico para que cada um possa defender a sua fé e 
ajudar os seus irmãos, principalmente os novos convertidos, na compreen­
são da Bíblia. Portanto, é tarefa da igreja atual “batalhar pela fé que uma 
vez foi dada aos santos” (Jd 3), para manter os cristãos “na doutrina dos 
apóstolos” (At 2.42).
Quanto à vigilância, convém esclarecer que a palavra que mais aparece 
no Novo Testamento grego para “vigiar” é 0 verbo gregoréo, “vigiar, estar 
alerta, ser vigilante”, usado pelo apóstolo (At 20.31) e aparece vinte e duas 
vezes. Essa guarda diz respeito à integridade e firmeza na fé (1 Co 16.13) e 
na oração (Cl 4.2) e, principalmente, contra as ciladas de Satanás (1 Pe 5.8). 
E uma advertência solene a todos os crentes em todos os lugares e em todas 
as épocas para viverem atentos em todos os momentos da vida (Ef 6.18). A 
vigilância é o ato ou efeito de vigiar, o estado de quem permanece alerta, de 
quem procede com precaução para não correr riscos. E isso nos mais diver­
sos aspectos da vida humana. O verbo “vigiar” aparece na Bíblia no sentido 
de estarmos atentos em todos os aspectos da vida cristã.
0 QUE É APOLOGÉTICA
O termo provém do substantivo grego apologia, que, literalmente, sig­
nifica “defesa, resposta”, e aparece oito vezes no Novo Testamento,1 sendo 
duas referentes ao contexto apologético em tela (Fp 1.15,16; 1 Pe 3.15).
Uma necessidade imperiosa da apologética cristã
Os primeiros cristãos enfrentaram os movimentos que ameaçavam 
os fundamentos do cristianismo. Essa ameaça vinha dos grupos religiosos
1 Atos 22.1; 25.16; 1 Coríntios 9.3; 2 Coríntios 7.11; Filipenses 1.7 ,16 ; 2 Timóteo 4.16; 1 Pedro 3.1S.
c a p í t u l o I ■ QUANDO AS HERESIAS AMEAÇAM A UNIDADE DA IGREJA
sectários e dos críticos intelectuais judeus e pagãos, tanto no campo doutri­
nário como também contra os cristãos. O apóstolo Paulo prega e defende o 
evangelho: “alguns proclamam Cristo por inveja e rivalidade, mas outros o 
fazem de boa vontade. Estes o fazem por amor, sabendo que estou incumbi­
do da defesa do evangelho” (Fp 1.15,16). Os primeiros discursos apologéticos 
apostólicos foram apresentados pelo apóstolo Paulo em Listra, durante a 
sua primeira viagem missionária (At 14.15-20) e, no Areópago, em Atenas, 
por ocasião de sua segunda viagem (At 17.22-31).
Quanto ao ataque aos cristãos, o apóstolo Pedro tratou sobre 0 assunto. 
Ele nos ensina a defender o evangelho com essas palavras: “pelo contrário, 
santifiquem a Cristo, como Senhor, no seu coração, estando sempre pre­
parados para responder a todo aquele que pedir razão da esperança que 
vocês têm” (1 Pe 3.15). O termo “responder”, na expressão “preparados para 
responder”, no texto grego, é apologia. Uma tradução mais precisa seria 
“preparados para [uma] defesa”, como aparece na Versão Espanhola: “para 
presentar defensa” (Reina-Valera’6o); e, nas versões inglesas: to make a de- 
fense, “para fazer uma defesa” (ESVA 2016); to give a defense, “para dar uma 
defesa” (HCSB, NKJV), to make your defense, “para fazer sua defesa” (NR- 
SVUE). Convém ressaltar que a primeira epístola de Pedro trata do sofri­
mento do cristão em razão da sua fé em Jesus. Ela foi dirigida a judeus e não 
judeus convertidos à fé cristã dispersos nas diversas províncias do Império 
Romano: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia (1 Pe 1.1), para ensiná-los 
a viverem num mundo de perseguição e encorajá-los a se manterem firmes 
em Jesus (4.12-16). Esse texto sagrado não tem prazo de validade, continua 
valendo como guia espiritual para os nossos dias.
A Apologética Cristã apresenta a resposta a todo sistema anticristão. O 
centro desse debate é Deus, seu Filho Jesus Cristo e a Bíblia. Essa resposta, 
segundo 0 apóstolo Pedro, deve ser “com mansidão e temor” (1 Pe 3.15 ARC), 
mesmo àqueles que nos criticam e blasfemam contra a nossa maneira de 
viver: “com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam mal de 
vocês, fiquem envergonhados esses que difamam a boa conduta que vocês 
têm em Cristo” (v. 16).
A Apologética Cristã é a defesa da fé cristã diante dos ataques dos ateus 
e críticos, da pretensa ciência, pois a verdadeira ciência não contradiz a Bí­
blia, 0 mesmo, diga-se da história, da filosofia, da ética, das outras religiões 
e teologias. Uma avaliaçãoa dádiva divina também é mérito. A diferença está na compreensão de cada 
um sobre o modus operandi divino no processo salvífico.
Agostinho de Hipona mudou o seu pensamento sobre a doutrina da gra­
ça de Deus durante do seu confronto contra o pelagianismo. Antes da contro­
vérsia pelagiana, ele acreditava que Deus quer que todos sejam salvos, que 
Deus nunca viola o livre-arbítrio. Depois da discussão, Agostinho limitou a 
graça de Deus apenas para alguns escolhidos. É a doutrina da predestinação.
O que Agostinho chama de graça operativa é o monergismo, termo teo­
lógico do grego monos, “único”, e ergon, “ação, obra”, ou seja, uma única 
ação divina. Seria o modo como Deus opera na conversão do pecador sem 
qualquer participação humana, trata-se de um processo puramente divi­
no. Nesse ensino, a regeneração é obra exclusiva de Deus, uma operação 
do Espírito Santo, sendo o ser humano completamente passivo, a vontade 
humana é zero.
Mas, essa doutrina não se sustenta biblicamente, pois está claro na Bíblia 
que existe a cooperação do divino e do humano para a salvação e para a cons­
trução do caráter humano. Essa doutrina é conhecida, teologicamente, como 
“sinergismo”, que literalmente significa “trabalhar juntos”, vem da preposi­
ção grega syn, “com, junto”, e de ergon, “ação, obra”. Isso foi bem explicado na 
Segunda Edição do Fórum de Teologia Pentecostal realizada em Teresina, PI, 
nos dias 25 a 28 de junho de 2024, sinergismo: “Estabelece a doutrina da coo­
peração da vontade humana com a graça divina, e vê a fé como uma resposta 
pessoal ao ato anterior, que nos chama à salvação, a quem deseja responder”.
Esse conceito está de acordo com a Bíblia, pois cada pessoa pode aceitar 
ou recusar o chamado divino: “O Espírito e a noiva dizem: — Vem! Aquele 
que ouve, diga: — Vem! Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba 
de graça a água da vida” (Ap 22.17). Não há mérito algum alguém aceitar 
0 convite para a salvação, essa decisão vem da infusão do Espírito na vida 
humana, que o capacita para tomar a decisão, mas tudo vem de Deus (Ef
c a p í t u l o 11 ■ A SALVAÇÃO NÃO É OBRA HUMANA
2.1-10). Sinergismo não é semipelagianismo, são posições diferentes. Essa 
dinâmica sinergista é clara e frequente na Bíblia.138
SOTERIOLOGIAS INADEQUADAS NO PASSADO
A doutrina que ensina a salvação como resultado de esforço pessoal 
ou como recompensa humana ou por seus proprios méritos existe desde 
0 tempo dos primeiros cristãos. Os principais e mais conhecidos grupos 
antigos que defendem um pensamento soteriológico similar são os galacio- 
nistas, identificados como judaizantes, conforme estudado no capitulo 2, 
e os gnósticos, no capítulo 3. Os membros desse movimento ensinavam a 
salvação através de um conhecimento místico, e não pela fé em Jesus.
A outra soteriologia inadequada antiga e, ao mesmo tempo, atual é 0 
reencarnacionismo. O registro mais antigo da crença reencarnacionista 
aparece nos Upanishadas, a parte mais importante dos Vedas, escritos sa­
grados do hinduísmo, datado de 2000 a.C. A maior parte dessas crenças é 
derivada do hinduísmo, e, na atualidade, 0 mais conhecido no Brasil é 0 
sistema kardecista.
Reencarnação não é o mesmo que encarnação. A Bíblia fala da encar­
nação do Verbo como outra maneira de dizer que Deus se fez homem, Je­
sus Cristo, pois Jesus veio em carne (Jo 1.14; 1 Jo 4.1; 1 Tm 3.16). O termo 
“reencarnação” significa “voltar na carne”, pois seus adeptos acreditam 
que, na morte física, a alma não entra num estágio final, mas volta ao ciclo 
de renascimentos, evoluindo ou regredindo; outros creem que a alma pode 
se transmigrar para seres inferiores, como animais, e até mesmo insetos, 
como o movimento Hare Krishna na atualidade.
No hinduísmo, essa doutrina é chamada em sânscrito, língua sagrada 
dos Vedas, de samsara, que significa “passagem por estágios sucessivos”139 
ou ainda, “vagueação interminável da alma”.140 O reencarnacionismo é uma 
crença defendida por quase todas as religiões derivadas do hinduísmo. Mas, 
era também defendido no Ocidente na antiguidade, na Grécia e em Roma,
138 Seguem algumas passagens bíblicas: Isaías 1.18; 55.6,7; Ezequiel 33.11; Joel 2.32 cf Atos 2.21; Mateus 
11.28; Marcos 1.15; João 1.12; Romanos 10.13; 2 Pedro 3.9; 1 João 1.9; Apocalipse 3.20.
139 SCHLESINGER, Hugo e PORTO, Humberto. Dicionário Enciclopédico das Religiões, vol. II. Petró- 
polis: RJ: Vozes, 1995, p. 2.283.
140 MATHER, George A. & NICHOLS, Lary A. Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo. São Paulo: 
Vida, 2000, p. 386.
146 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
entre eles estão o matemático grego Pitágoras141 e o principal expoente es- 
toico, Sêneca, orador e poeta, filósofo e político, senador romano.142
Todos os ramos reencarnacionistas defendem a imortalidade da alma, 
acrescida de invenções. Os antigos hindus, os gregos, os gnósticos e os karde- 
cistas tem em comum a busca da perfeição por meio de um progresso evolu­
tivo até que esses ciclos da roda de renascimento parem de girar. A doutrina 
da reencarnação é colocada como “única que corresponde à ideia da justiça de 
Deus” no sentido de aperfeiçoar moralmente o ser humano. Trata-se de uma 
crença em que o Senhor Jesus não faz parte. Alan Kardec escreveu:
A doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o 
homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde 
à ideia da justiça de Deus com respeito aos homens de condição 
moral inferior, a única que pode explicar o nosso futuro e 
fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o meio de 
resgatarmos os nossos erros através de novas provas. A razão 
assim nos diz, e é o que os Espíritos nos ensinam.143
Essas crenças são contrárias à teologia bíblica, pois nelas não há espaço 
para a doutrina da ressurreição dos mortos, da redenção pela fé no sacrifí­
cio de Jesus no Calvário, do julgamento divino sobre os infiéis e do inferno 
ardente. Trata-se de uma oposição à fé cristã, é a doutrina da salvação pelo 
esforço humano, pregada também pelos muçulmanos, mórmons, testemu­
nhas de Jeová, kardecistas e por diversos ramos do espiritismo. Além disso, 
trata-se ainda da doutrina da segunda oportunidade, defendida, geralmen­
te, pelos grupos religiosos heterodoxos.
A Bíblia ensina ser a morte um caminho sem retorno e que ao ser hu­
mano está ordenado morrer só uma vez (2 Sm 2.22; SI 78.39; Hb 9.27). Essas 
passagens mostram 0 quão antibíblica é a doutrina da reencarnação. O Se­
nhor Jesus Cristo morreu pelos nossos pecados na cruz do Calvário, nada 
há mais que possa salvar o ser humano, só Jesus, ele é o único Salvador! Ele 
mesmo há de julgar o mundo, os vivos e os mortos (At 17.31; 2 Tm 4.1).
1 4 1 HARVEY, Paul. Dicionário Oxford de Literatura Clássica Grega e Latina. Rio de Janeiro: Jorge Zohar 
Editor, 1987, p. 398.
142 ALMEIDA, Zélia Cardoso de. A Tragédia Latina: Origem e História. Texto ainda não publicado, p. 9.
143 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1978, p. 84.
capí tulo 12
A IGREJA TEM 
UMA NATUREZA 
ORGANIZACIONAL
0
 estudo sobre a igreja é vasto e envolve vários aspectos, origem, 
eleição, natureza, adoração, forma de governo, ordenanças, mis­
são, destino, relação com o estado, entre outros. É muito comum 
falar entre os crentes sobre a igreja como universal, bem como a 
igreja local ou igrejas locais. Esses dois conceitos estão no Novo 
Testamento, universal (Mt 16.18; 1 Co 12.28; E f 3.21) e local ou locais (Rm 
16.5; 1 Co 1.2; 2 Co 1.1; G11.2).
TITO E AS IGREJAS NA ILHA DE CRETA
A ilha de Creta foi anexada ao império romano em 67 a.C., unindo-a 
a Cirene, no Norte da África, nos termos da Líbia, como uma só provín­
cia. A situação espiritual de Creta era desanimadora. As igrejas estavam 
desorganizadas, e o grande descuido no comportamento daqueles crentes 
é denunciado no capítulo 2 de Tito. Parece que o relaxamento espiritual 
era consequência de um desleixo natural, que era característico dos creten- 
ses (1.12,13). Não se chega a um estado tãodeplorável como esse em pouco 
tempo. Outro problema ali é que havia judaizantes rebeldes, mercenários e 
provocadores de divisão (1.10-16).
A carta a Tito é uma das chamadas epístolas pastorais, das quais três 
são pessoais que somam-se às duas que Paulo enviou a Timóteo. O termo
148 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
“epístolas pastorais” é uma classificação didática e externa, atribuído em 
época mais recente, por D. N. Berdot, em 1703, e isso foi seguido por Paul 
Anton, em 1726. Embora não mencionem a palavra “pastor”, essas cartas 
dão importantes diretrizes para os líderes das igrejas.
Tudo indica que Paulo escreveu a Tito estando ele em Nicópolis, na cos­
ta oeste da Grécia, ou mais provavelmente, a caminho dessa região: “Estou 
resolvido a passar 0 inverno ali” (Tt 3.12); pois ele diz, “ali”; e, não, “aqui”. 
Como as epístolas a Timóteo, Tito dá importantes diretrizes para os pasto­
res em todos os lugares e em todas as épocas.
Tito é chamado de “verdadeiro filho” do apóstolo Paulo (1.4), expressão 
que o apóstolo Paulo também dedica a Timóteo (1 Tm 1.2). Tito era grego 
(G1 2.3), convertido, provavelmente, em Antioquia. Seu nome não é mencio­
nado em Atos dos Apóstolos, mas aparece nove vezes no Novo Testamento, 
além da epístola que lhe fora destinada e traz 0 seu nome, em 2 Coríntios, 
como ajudante de confiança do apóstolo,144 duas em Gaiatas (2.1,3) e uma 
em 2 Timóteo 4.10, em que afirma que ele estava em missão em Dalmácia. 
Foi companheiro do apóstolo Paulo em suas viagens missionárias, ajudou o 
apóstolo em Roma e Nicópolis (3.12).
Não se sabe como ele foi constituído pastor da ilha de Creta pelo apósto­
lo Paulo para colocar “em ordem as coisas restantes”, bem como em cada ci­
dade “constituísse presbíteros, conforme prescreví a você” (Tt 1.5). Os rela­
tos de Atos omitem esse trecho do itinerário de Paulo. O apóstolo passou por 
Creta durante a sua quarta viagem, na condição de prisioneiro com destino 
a Roma, num local chamado “bons portos” (At 27.8), pelo que parece, não 
foi nessa ocasião que ele deixou Tito em Creta. É possível que os peregrinos 
cretenses que estavam em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2.11) sejam 
os fundadores das igrejas na ilha.
O livro de Atos se encerra deixando o apóstolo em prisão domiciliar 
em Roma (At 28.30,31). Depois da liberdade de sua primeira prisão, muito 
pouco ou quase nada se sabe das atividades de Paulo, mas se tem conhe­
cimento de que ele continuou em plena atividade. Foi nessa ocasião que 
visitou Creta, e esteve também em outras localidades do império romano 
entre 62 e 67, pois ele diz que foi absolvido na sua primeira audiência (2 
Tm 4.16,17).
144 2 Coríntios 2.13; 7.6,13,14; 8.6,16,23; 12.18 [duas vezes].
c a p í t u l o 12 ■ A IGREJA TEM UMA NATUREZA ORGANIZACIONAL
0 QUE É A IGREJA?
A resposta a essa pergunta deve ter seus fundamentos nas Escrituras e 
isso porque o conceito de igreja para os católicos romanos não se sustenta 
no Novo Testamento, é completamente diferente do pensamento das igre­
jas evangélicas. A igreja é o corpo místico de Cristo, una, santa e universal 
assembléia dos fiéis remidos de todas as eras e em todos os lugares, chama­
dos do mundo pelo Espírito Santo para seguir a Cristo e adorar a Deus. Esse 
conceito está nosso 8o. artigo de fé do nosso Cremos, parte de uma síntese 
da Declaração de Fé das Assembléias de Deus, e respaldado pelas seguintes 
passagens bíblicas (í Co 12.27; J ° 4-23>1 Tm 3.15; Hb 12.23; Ap 22.17). Nesse 
sentido, a igreja é universal e um organismo. Podemos definir organismo 
como forma individual de vida, um ser ou algo vivente. Isso na eclesiologia 
significa ser a igreja um organismo porque é um corpo espiritual e vivo, 
cuja vida espiritual é gerada pelo Espirito Santo (1 Co 3.16,17; 6.19; E f 2.21). A 
descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes marcou o início da jornada 
da Igreja e vemos o seu final glorioso no epílogo da história humana, em 
Apocalipse. Todos nós fazemos parte dessa história.
A natureza da igreja de Cristo
A igreja, quanto à sua natureza, é universal e local; às vezes, essas 
duas naturezas estão presentes. Saulo de Tarso “queria destruir a igreja” 
(At 8.3), ou: “assolava a igreja” (ARC, ARA). Ele ia de casa em casa, sua 
perseguição era contra os discípulos de Jesus, contra as comunidades 
que se reuniam nas casas em nome de Jesus (At 12.12). Quando Jesus se 
revelou a Saulo no caminho de Damasco, lhe perguntou: “Saulo, Saulo, 
por que você me persegue?” (At 9-4)) quando Saulo pergunta quem esta 
falando com ele, Jesus responde: “Eu sou Jesus, a quem você persegue” 
(v. 5). Isso indica que Saulo estava perseguindo a igreja como corpo es­
piritual de Cristo, de modo que a igreja local é ao mesmo tempo reco­
nhecida também como igreja universal. A verdade é que as igrejas locais 
integram a igreja universal.
A doutrina que estuda a Igreja se chama eclesiologia, de eklesia, lite­
ralmente “chamado para fora”, de um verbo grego ekkaleo, “chamar, con­
vocar”, que não aparece no Novo Testamento grego e só aparece duas ve­
zes na Septuaginta, “e chamaram Ló” (Gn 19.5); “chamarás pacificamente” 
(Dt 20.10, LXX). O substantivo ekklesía aparece cento e quinze vezes no
150 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Novo Testamento e apenas cinco vezes não se traduz por “igreja”, em Atos 
t9-32,39 e 41, cuja ideia nessas passagens é de “ajuntamento” ou “assem­
bléia”. As outras duas vezes, em Atos 7.38 e Hebreus 2.12, o termo se refere 
à congregação de Israel.
Como corpo de Cristo podemos afirmar que a igreja é um organismo 
vivo que gera vida, considerando a sua natureza espiritual, e, ao mesmo 
tempo, como igreja local uma organização. Nesse sentido, pode-se dizer 
que a Igreja é toda congregação ou assembléia que se reúne em torno do 
nome de Jesus Cristo como Senhor e Salvador professando fé nele publi­
camente e de forma diversificada, incluindo o batismo e a Ceia do Senhor 
(nas reuniões específicas) aberto a todas as pessoas. É igreja no sentido 
completo da palavra como Jesus mesmo prometeu estar presente nela por 
meio do Espírito Santo até à consumação dos séculos (Mt 18.20; 28.20). 
Encontramos na epístola de Paulo a Tito alguns lampejos dessa natureza 
organizacional.
A INSTITUCIONALIDADE BÍBLICA DA IGREJA
O que significa a institucionalidade bíblica da igreja? Significa dizer 
que a organização da igreja é bíblica, principalmente no que diz respeito 
às igrejas locais. A organização eclesiástica a que o apóstolo Paulo instrui 
a Tito não se restringe a uma única estruturação ministerial. Estabelecer 
presbíteros de cidade em cidade: “Foi por esta causa que deixei você em 
Creta: para que pusesse em ordem as coisas restantes, bem como, em cada 
cidade, constituísse presbíteros, conforme prescreví a você” (Tt 1.5).
O apostolo já vinha fazendo e ou instruindo os líderes durante a sua 
carreira apostólica: “E, promovendo-lhes, em cada igreja, a eleição de 
presbíteros, depois de orar com jejuns, os encomendaram ao Senhor, em 
quem haviam crido” (At 14.23). Essa eleição é por aclamação, 0 termo gre­
go é cheirotonêsantes, “tendo estendido a mão”, do verbo cheirotoneõ, “fa­
zer eleger, promover a eleição, escolher, designar, eleger”; de cheir, “mão” 
e tonos, “tensão, elevação”, que indica “votar com mão levantada”. Esse 
verbo aparece mais uma vez no Novo Testamento, quando diz que um 
irmão anônimo foi “eleito pelas igrejas” para acompanhar Tito numa mis­
são (2 Co 8.19). A eleição, escolha ou designação de presbíteros na região 
de Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia e do companheiro de Tito pelas 
igrejas, foi por aclamação.
c a p í t u l o 12 • A IGREJA TEM UMA NATUREZA ORGANIZACIONAL
0 governo espiritual da igreja de Cristo
São três os principais sistemas de governo espiritual da igreja: epis­
copal, presbiteriano e congregacional. No sistema episcopal, a autoridade 
espiritual é delegada por Deus ao bispo, ou a uma ordem de bispos, como 
o modelo papal; no sistema presbiteriano, a autoridade regional é confe­
rida aos presbitérios, e aautoridade nacional, aos concílios; e, no sistema 
congregacional, a autoridade é local, não existindo uma autoridade oficial 
externa. Todas essas formas de governo têm suas variações.
Os defensores de cada um desses sistemas acreditam ter fundamen­
tação bíblica. Os episcopais acreditam que Tiago exercia a autoridade de 
bispo, pois parece ter presidido a assembléia de Jerusalém: “Depois que eles 
terminaram, Tiago tomou a palavra e disse: — Irmãos, ouçam o que tenho 
a dizer” (At 15.13). Mas, no modelo presbiteriano Tiago é interpretado como 
moderador, pois afirma na carta enviada às igrejas depois do concilio: “Pois 
pareceu bem ao Espírito Santo e a nós” (At 15.28), e não “Pareceu bem a 
mim, Tiago”, ou algo similar. Mas, outros veem em Tiago um modelo con­
gregacional, pois ele aparece como pastor de uma igreja local, de Jerusalém: 
“Ele, porém, fazendo-lhes sinal com a mão para que se calassem, contou- 
-lhes como o Senhor o tinha tirado da prisão. E acrescentou: — Anunciem 
isto a Tiago e aos irmãos. E, saindo, foi para outro lugar” (At 12.17), um 
modelo eclesiástico que parece se identificar com 0 aplicado por Paulo e 
Barnabé (At 14.23). Temos nessas passagens um exemplo das diversas in­
terpretações sobre 0 governo espiritual da igreja. Nenhum desses sistemas 
é definitivo e, além disso, há pontos de intersecção em todos eles. Não há 
no Novo Testamento uma forma dogmática de governo da igreja que sirva 
como regra fixa de governo eclesiástico.
A instrução paulina
A organização eclesiástica a que o apostolo Paulo instrui a Tito não se 
restringe a uma estruturação ministerial. O Novo Testamento revela a ori­
gem e o desenvolvimento desse governo. O apóstolo menciona “os bispos e 
diáconos” (Fp 1.1). O contexto da epístola a Tito dá a entender que o relaxo e 
o descuido que estava levando as comunidades cristãs da ilha de Creta era 
reflexo de uma cultura da região (Tt 1.12). Isso está além de um problema 
meramente ministerial. O apóstolo tinha em mente uma organização da 
igreja. Quando se fala em institucionalizar, dar caráter institucional ou de 
tornar institucional significa estabelecer organização.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
0 Novo Testamento mostra que havia certo tipo de organização nas 
igrejas, mas não um mesmo padrão para todas as províncias do império 
onde havia igrejas. Por exemplo: havia local e horário e ordem no culto 
(1 Co 14.26,40), reunião de ministério para consagração de presbíteros, 
segundo 0 contexto da época de uma igreja emergente (At 24.23), foi reali­
zado um concilio para tratar de assuntos doutrinários (At 15.6). As igrejas 
dispunham de pessoas nos serviços sociais para atender as famílias eco­
nomicamente fragilizadas, os capítulos 8 e 9 de 2 Coríntios tratam do as­
sunto (Rm 15.25-27), havia na igreja de Corinto 0 que, hoje, chamaríamos 
de comissão de ética (1 Co 5.2-5) e também tesouraria (1 Co 16.1-3).
A QUESTÃO ATUAL
Havia no século 19 e no início do século 20 uma reação da população 
americana contra o formalismo e a liturgia das igrejas protestantes. Isso re­
sultou em duas frentes religiosas distintivas. Por um lado, o surgimento dos 
movimentos heterodoxos; o unitarismo foi revitalizado, surgem 0 mormo- 
nismo, o Novo Pensamento, a Ciência Cristã, a Escola da União do Cristia­
nismo, a Teosofia, o Espiritismo Moderno e as testemunhas de Jeová.145 Por 
outro lado, aparece o Movimento de Santidade, Holiness, que seguiu uma 
posição oposta, trazendo um grande avivamento que serviu como 0 berço 
do pentecostalismo moderno, do qual vieram os pioneiros como Charles 
Fox Pahram e William Joseph Seymour entre outros. Charles Fox Pahram, 
aos vinte anos de idade, assumiu o pastorado de uma igreja, em Eudora, 
Kansas, mas, em 1895, ele entregou a licença de pregador local, deixando o 
denominacionismo para sempre. De modo que se tornou itinerante inde­
pendente até o fim da vida.146
O movimento pentecostal moderno surgiu num contexto antideno- 
minacionalista nos Estados Unidos e isso teve alguns reflexos no Brasil, 
principalmente entre os pioneiros, mas 0 impacto não foi tão radical como 
a liderança dos precursores do movimento da Rua Azusa, em Los Angeles 
(1906-19x0).
145 LATOURETTE, Kenneth Scott. Uma História do Cristianismo, vol. 2. São Paulo: Hagnos, 2006. pp. 
1701,1702; BOWMAN, JR. Robert M. Por Que Devo Crer na Trindade. São Paulo: Editora Candeia, 
1996 . p. 4 5 -
146 SOARES, Esequias. O pentecostalismo brasileiro: Um guia histórico e teológico para compreender 0 
pentecostalismo no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2021, p. 31.
c a p í t u l o 12 ■ A IGREJA TEM UMA NATUREZA ORGANIZACIONAL 153
A data inicial do moderno Movimento Pentecostal é primeiro de ja­
neiro de 1901, em Topeka, Kansas, EUA, numa Escola Bíblica liderada por 
Pahram. Mas, as comunidades pentecostais dos primeiros vinte e cinco 
anos desse século eram vistas pela sua liderança como movimentos e não 
como denominação. Interessante que Pahram faleceu em 1926 e Seymour 
em 1922, mas nenhum deles esteve presente na primeira Assembléia 
Geral que criou as Assembléias de Deus em abril de 1914, nos Estados 
Unidos da América. Até essa data, havia entre os pioneiros aqueles que 
entenderam que era chegada a hora de rever o sentimento antidenomina- 
cionalista de Parham e de outros líderes que havia entre os pentecostais 
da santidade, isso para evitar um crescimento desordenado. Nesse con­
texto, então, foi criado o Concilio das Assembléias de Deus nos Estados 
Unidos, a partir do qual essas comunidades pentecostais passaram a ser 
chamadas “Assembléias de Deus”.
No Brasil, não foi diferente. O movimento iniciado pelos missionários 
Daniel Berg e Gunnar Vingren era conhecido como “Missão de Fé Apostóli­
ca”, 0 mesmo nome dos movimentos de Pahram e Seymour e outros na épo­
ca. Quando Gunnar Vingren registrou a igreja em 4 de janeiro de 1918, ado­
tou o nome “Assembléia de Deus”.147 Diante do avanço da obra no Brasil, era 
necessário estruturar o movimento pentecostal e criar um órgão máximo 
para manter a identidade e a unidade doutrinária das Assembléias de Deus 
no país e, dessa forma, trazer solução para as questões de ordem doméstica, 
interna e externa. Foi com base nesses ideais que os pioneiros brasileiros e 
suecos criaram a Convenção Geral das Assembléias de Deus em 1930.
Não é difícil entender que organização e organismo não são elemen­
tos excludentes em si mesmos, mas 0 contrário, se complementam, pois 
a organização ajuda no arranjo entre muitos organismos individuais num 
sistema geral. A igreja é 0 povo de Deus do novo concerto, é uma comu­
nidade internacional, uma congregação supranacional de estrangeiros e 
peregrinos (1 Pe 2.11). Seria humanamente impossível ela cumprir a sua 
agenda missionária, evangelização, ensino da Palavra e serviço social em 
nosso país e no mundo sem uma estrutura organizacional.
147 ARAÚJO, Isael. Dicionário do movimento pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, pp. 45-50; SOA­
RES, Esequias. Op. cit., p. 74.
capí tulo 13
PERSEVERANDO NA FÉ 
EM CRISTO
A
 perseverança na fé em Cristo se distingue daquela expressão teo­
lógica “perseverança dos santos. O presente estudo diz respeito à 
insistência do crente em se manter fiel diante das perseguições e 
heresias e rejeitar qualquer ensino contrário à Palavra de Deus. 
Vivemos numa sociedade pluralista com uma vasta diversidade de 
crenças e práticas, algumas com roupagem, aparentemente, bíblica, outras, 
mais ousadas, declarando sua posição contra a Bíblia. Qual a nossa atitude 
diante dessas heresias? Por que e para que aprender e se manter inteirado 
no ensino? Qual o fundamento da nossa fé?
DIANTE DAS HERESISAS É PRECISO PERSEVERANÇA
O Senhor Jesus adverte a sua igreja contra os falsos profetas (Mt 7.15-20) 
e, no sermão profético pronunciado em Jerusalém na última semana do seu 
ministério terreno, Ele inclui os falsos cristos (Mt 24.4,5). Os apóstolos nos 
advertem contra os falsos apóstolos e falsos mestres (2 Co 11.13,14; 2 Pe 2.1).
A exortação paulina
O apóstoloPaulo exorta a Timóteo apermanecer na fé em Jesus, “Quan­
to a você, permaneça naquilo que aprendeu e em que acredita firmemente, 
sabendo de quem você o aprendeu” (2 Tm 3.14). Visto que Timóteo apren­
156 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
deu de sua mãe Eunice, uma judia piedosa, de sua avó Loide (At 16.1; 2 Tm
1.5) e do próprio apóstolo (2 Tm 2.2), a quem o chama de “verdadeiro filho 
na fé” (1 Tm 1.2). Essa perseverança diz respeito à fidelidade do cristão em 
se manter na fé diante das perseguições e das heresias, esse é o sentido 
deste capítulo. A herança espiritual que Timóteo recebeu do lar e o aprendi­
zado apostólico são “as sagradas letras” (2 Tm 3.15), uma expressão bíblica 
alternativa para “Escrituras Sagradas”, a Bíblia (v. 16), o único instrumento 
moral e espiritual estabelecido por Deus para aferir a nossa conduta diante 
de Criador, da sociedade, da nação e da família.
A experiência do apóstolo Paulo nas suas viagens missionárias são pre- 
núncios dos últimos tempos. Ele apresenta alguma coisa, nesse sentido, nas 
epístolas pastorais, principalmente nas duas a Timóteo, pois elas se desta­
cam também pelo seu caráter apologético. São refutações às heresias contra 
os gnósticos, às “fábulas ou - a genealogias intermináveis” (1 Tm 1.4; 4.7; 
Tt 3.9), e à ciência. A expressão “falsamente chamada ciência” (1 Tm 6.20 - 
ARC), sem dúvida, é um combate ao sistema gnóstico, que chegou ao ápice 
no século 2. Mas, hoje, temos diversas frentes, são diversos grupos cujos 
pensamentos e doutrinas divergem da teologia evangélica, mas nem por 
isso, deixamos de manifestar o nosso respeito e afeto pelos seus seguidores, 
conforme nos manda o Senhor Jesus e seus apóstolos (Mt 7.12; Mc 12.29-31; 
Rm 13.9,10). Mas, sem deixarmos de defender a verdade bíblica.
Embora Irineu de Lião tenha combatido o tal sistema em sua obra Con­
tra as Heresias, em 180, as seitas gnósticas já existiam nos dias apostólicos. 
0 apóstolo Paulo está combatendo dois principais grupos heréticos em sua 
geração: os gnósticos emergentes, e os judaizantes, os falsos “doutores da 
lei” (1 Tm 1.7), da “circuncisão” (Tt 1.10) e as “fábulas judaicas” (Tt 1.14). A 
exortação de Paulo a Timóteo, “permaneça naquilo que aprendeu e em que 
acredita firmemente”, está de acordo com o ensino de Jesus no seu discurso 
profético, “mas aquele que perseverar até ao fim será salvo” (Mt 24.13). Nes­
se discurso escatológico, Ele fala da aparição de muitos cristos (Mt 24.4,5), 
guerras e calamidades (w. 6,7) e crise religiosa (w. 11,12).
A crise religiosa em nosso tempo
A crise religiosa aponta para 0 crescimento da apostasia nos últimos anos 
e tem alcançado proporções estarrecedoras. Não só com o aparecimento dos 
falsos profetas, mas também de fundadores de movimentos religiosos he­
terodoxos (Mt 24.11). Estas coisas levam as pessoas à frieza espiritual e ao
c a p í t u l o 13 ■ PERSEVERANDO NA FÉ EM CRISTO 157
indiferentismo religioso (v. 12). O apóstolo Paulo afirma que a apostasia gene­
ralizada é coisa para os últimos tempos (1 Tm 4.1-3; 2 Tm 3.1-5)-
O conhecimento destas coisas leva o crente a esperar com paciência e a 
suportar as perseguições religiosas e de toda a ordem. O cristão na atualida­
de está vivendo no meio de uma sociedade perversa e corrompida (Fp 2.15), 
e, muitas vezes, pensando em abandonar a fé. O apologista cristão desde o 
período apostólico sofre perseguição por causa daquilo em que crê e pelo erro 
que combate. Não somente diante das heresias, mas também das persegui­
ções, devemos manter a perseverança. Mas, se ele conhece o sinal dos tempos, 
resiste às tentações e persiste até 0 fim. Essa passagem apresenta um duplo 
sentido quanto à salvação. Ela será física, e, analisando à luz de Lucas 21.18-19, 
engloba também a salvação da alma, a espiritual. Vale também para a perse­
verança na fé em Cristo, independente deste penodo do principio de dores.
APRENDENDO, SENDO INTEIRADO E SABENDO
Por que é necessário aprender, ser inteirado e saber? 0 aprendizado é 
uma prática inerente à fé cristã. A arte de ensinar e tão antiga quanto a hu­
manidade, pois é de suma importância no processo de perpetuar e propagar 
costumes, leis e cultura. Onde há ensino, há mestres envolvidos. A Bíblia 
está repleta de referências a ensinos e mestres. O ministério do ensino ocu­
pa espaço relevante no cristianismo, aparece na lista dos dons da graça de 
Deus: “se é ensinar, haja dedicação ao ensino” (Rm 12.7).
Essa é a vontade de Deus desde o limiar da história do seu povo. Encon­
tramos esse ensino desde o Antigo Testamento, e Moisés prescreveu essa 
doutrina para ser aplicada diariamente no lar a partir da fase infantil (Dt 
6.4-9). O ensino na cultura judaica era responsabilidade da família, mas era 
uma das funções dos profetas, Deus os levantou, os preparou e os inspirou 
para ensinar e admoestar os hebreus sobre 0 perigo da idolatria. Eles eram 
instrutores ungidos e divinamente escolhidos para instruir a nação a viver 
na presença de Javé (Os 12.10). Os profetas tinham também a responsabili­
dade de tornar conhecida a revelação divina e anunciar as coisas futuras (Dt 
18.21,22). Deus sempre quis que 0 ser humano conhecesse a sua vontade e 
somente Ele sabe o que é bom para as suas criaturas. Por isso, é importante 
aprender e ficar inteirado nas Sagradas Letras.
O ministério de Jesus se baseava numa trilogia: pregar 0 evangelho, 
ensinar, curar enfermos e libertar os oprimidos pelo diabo (Mt 4.23). Os
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
nossos pioneiros iniciaram o trabalho no Brasil seguindo esse padrão, e é 
assim que procedemos ainda hoje. As duas principais palavras gregas usa­
das no Novo Testamento para ensino são didachê, “instrução, ensino”, e di- 
daskalia, “ensino, doutrina”. Essas palavras transmitem a ideia tanto do ato 
de ensinar como a substancia do ensino. A primeira aparece para indicar os 
ensinos gerais de Jesus (Mt 7.28; Jo 7.16,17) e também para a “doutrina dos 
apóstolos” (At 2.42). A segunda possui o mesmo sentido (Mt 15.9; Mc 7.7). 
E nas epístolas pastorais que elas aparecem com o sentido mais rígido de 
crenças ou corpo doutrinai da igreja (Tt 1.9).
O ensino de Jesus abrange valores espirituais, são instruções que abran­
gem vários aspectos da vida, na área social e espiritual, contribuem na cons­
trução de uma sociedade piedosa e civilizada, libertam 0 homem da ignorân­
cia e da cegueira e protegem os cristãos de serem levados por “todo o vento 
de doutrina”, como escreveu o apóstolo Paulo “para que não mais sejamos 
como crianças, arrastados pelas ondas e levados de um lado para outro por 
qualquer vento de doutrina, pela artimanha das pessoas, pela astúcia com 
que induzem ao erro” (Ef 4.14). Deus tem interesse no bem-estar social e es­
piritual do ser humano, e 0 Senhor Jesus Cristo, ainda hoje, escolhe homens 
e mulheres para o exercício desse sublime ministério. Fazer discípulo não 
é a mesma coisa que fazer membro de igrejas. O discipulado não é opção, é 
mandamento divino para a edificação e crescimento espiritual de cada cris­
tão. Isso, por si so, já revela a importância do ensino no ministério.
TENDO AS ESCRITURAS COMO 0 FUNDAMENTO
As religiões mundiais e seus movimentos dissidentes delas possuem di­
versos escritos sagrados. No cristianismo, a fonte de autoridade é a Bíblia 
Sagrada. A autoridade bíblica deriva sua origem em Deus, o que nos permite 
chamar a Bíblia de a Palavra de Deus. Isso encerra a superioridade das Escri­
turas como plena e total garantia de infalibilidade, mas não falta quem, inde­
vidamente, reivindica essa mesma autoridade, ou até mais que as Escrituras.
Como Timóteo, nós sabemos que temos aprendido da Bíblia por meio 
da igreja, visto que a Escola Bíblica Dominical é sua maior agência de en­
sino. Nossas crenças e práticas se fundamentam na Palavra de Deus, não 
existe fonte mais segura. Precisamos manter na Palavra de Deus, primeiro, 
porque essa é a vontade de Deus e porque ela é inspirada por Deus: “Toda 
a Escritura e inspirada por Deus e util para o ensino, paraa repreensão,
c a p í t u l o 13 • PERSEVERANDO NA FÉ EM CRISTO
para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus 
seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Tm 3.16,17). 
Nenhuma literatura no mundo possui essa prerrogativa.
Muçulmanos e mórmons
O islamismo rejeita a Bíblia. Don McCurry, que serviu como missio­
nário durante vinte anos entre os muçulmanos, afirma que, entre 95 e 150 
anos depois da morte de Maomé, os teólogos islâmicos, em debates com 
cristãos, descobriram grandes disparidades entre os seus relatos e os bí­
blicos.148 Os teólogos islâmicos descobriram que 0 Alá do Alcorão não é o 
mesmo Javé do Antigo Testamento e o Jesus do Alcorão não é o mesmo do 
Novo Testamento. A mensagem da Bíblia é uma, e a do Alcorão é outra. Não 
podendo aceitar 0 equívoco do seu profeta, resolveram ensinar que a Bíblia 
foi falsificada por judeus e cristãos.149
No entanto, não há registro de que Maomé e os califas ortodoxos, algu­
ma vez, tivessem atacado a Bíblia. O Alcorão parece reconhecer a autentici­
dade das Escrituras Sagradas dos judeus e cristãos: “E depois deles (profe­
tas), enviamos Jesus, filho de Maria, corroborando a Tora que o precedeu; 
e lhe concedemos o Evangelho, que encerra orientação e luz, corroborante 
do que foi revelado na Tora e exortação para os tementes” (Alcorão, 5.46); 
“É impossível que este Alcorão tenha sido elaborado por alguém que não 
seja Deus. Outrossim, é a confirmação das (revelações) anteriores a ele e 
a elucidação do Livro indubitável do Senhor do Universo” (Alcorão, 10.37).
Os termos “profetas” e “revelações” entre parênteses são interpolação 
do tradutor, e não se trata, portanto, de glosas acrescidas por nós. Na pri­
meira passagem corânica, se afirma que Jesus e o Evangelho confirmam 
a Torah, uma referência à Lei de Moisés. A segunda relata ser o Alcorão a 
confirmação das revelações anteriores, ou seja, as Escrituras Sagradas dos 
judeus e cristãos. O versículo encerra chamando a Bíblia “Livro indubitável 
do Senhor do Universo”.
Os mórmons afirmam acreditar na Bíblia, mas com certas restrições. O 
artigo 8 das suas Regras de Fé declara: “Cremos ser a Bíblia a palavra de Deus, 
0 quanto seja correta sua tradução; cremos também ser 0 Livro de Mórmon 
a palavra de Deus”. Mas, no livro Regras de Fé, de James E. Talmage, no qual
148 MCCURRY, Don. Esperança Para os Muçulmanos. Londrina, PR: Descoberta Editorial, 1999 p. 69.
149 ABDUL-HAQQ, A. Âkbar. Sharing Your Falth With a Muslim. Minneapolis, USA: Bethany
Fellowship, 1980, p. 38.
160 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
explica suas confissões de Fé, afirma: “Não há e não pode haver uma tradução 
absolutamente fidedigna desta e de outras Escrituras”. Mais adiante, na mesma 
página, ele recomenda que os mórmons leiam a Bíblia distinguindo “entre a 
verdade e os erros dos homens”. Isso mostra ser a restrição, “quanto seja cor­
reta a sua tradução”, nada mais que uma maneira sutil de dizer que não creem 
na Bíblia. O Livro de Mórmon chama de néscios os que procuram a Bíblia: “Tu, 
tolo, dirás: Uma Bíblia; temos uma Bíblia e não necessitamos mais de Bíblia! 
Teríeis obtido uma Bíblia, se não fosse pelas mãos dos judeus?” (2 Nefi 29.6).
As testemunhas de Jeová
O fato de afirmar, simplesmente, que reconhece a Bíblia como a Palavra 
de Deus em si mesma não é 0 bastante, pois há grupos que defendem essa 
crença, mas são unitaristas, como as testemunhas e Jeová e unicistas e como a 
Voz da Verdade. A questão delas em relação à Bíblia é diferente, nenhuma delas 
nega a inspiração divina e a autoridade bíblica, 0 problema é que a autoridade 
espiritual delas, como as testemunhas de Jeová, são as publicações de sua reli­
gião, principalmente a revista A Sentinela. E muito comum ver as testemunhas 
de Jeová nas praças e nas esquinas, oferecendo a quem interessar um “Curso 
Bíblico Gratuito”, na verdade, trata-se de um curso sobre A Sentinela. Elas acre­
ditam que ninguém no mundo, qualquer que seja 0 seu grau de instrução ou 
de erudição, jamais poderá compreender a Bíblia sem a ajuda da A Sentinela.150
Finalizamos reafirmando 0 que vem sendo dito desde 0 primeiro capí­
tulo. A Apologética Cristã apresenta a resposta a todo sistema anticristão. O 
centro desse debate é Deus, seu Filho Jesus Cristo e a Bíblia. Essa resposta, 
segundo 0 apóstolo Pedro, deve ser “com mansidão e temor”, mesmo àque­
les que nos criticam e blasfemam contra 0 nosso modus vivendi: “Mas fa­
çam isso com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naqui­
lo em que falam mal de vocês, fiquem envergonhados esses que difamam a 
boa conduta que vocês têm em Cristo ” (v. 16).
O nosso objetivo com a apologética é equipar o povo de Deus com argu­
mento bíblico para que cada um possa conhecer e defender a sua fé, ajudar 
os seus irmãos, principalmente os novos convertidos, na compreensão da 
Bíblia e, além disso, permanecer fiel até o fim (Ap 3.11). Portanto, continua 
sendo a tarefa da igreja atual “exortá-los a lutar pela fé que uma vez por 
todas foi entregue aos santos” (Jd 3), para manter os cristãos “na doutrina 
dos apóstolos” (At 2.42).
150 A Sentinela, 01/06/1968, p. 327; 15 de agosto de 1981, p. 19; 15 de julho de 1983, p. 27.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
As heresias afetam os pontos principais da fé cristã, isso no 
que diz respeito à Trindade: Deus Pai, o Senhor Jesus Cristo e 
o Espírito Santo; ao ser humano: natureza, pecado, salvação, 
origem e destino; aos anjos; à igreja e às Escrituras Sagradas. 
Esses movimentos religiosos estão dividindo igrejas e separan­
do famílias, rompendo com os valores ortodoxos do cristianismo 
evangélico.
As principais doutrinas da íé cristã precisam ser preservadas e 
os crentes são chamados para essa responsabilidade. Esses pontos 
são inegociáveis e jamais devemos ceder um milímetro sequer. O 
pastor e teólogo Esequias Soares, desenvolveu os treze capítulos 
deste livro em uma estrutura didática: os fundamentos bíblicos, 
as heresias relativas a cada ponto doutrinário, a reação da igreja 
e a refutação aos argumentos de seus hercsiarcas c seguidores.
Quando refutamos as heresias, estamos evangelizando e tam­
bém defendendo o rebanho de Cristo dos erros doutrinários das 
crenças heterodoxas.histórica pode revelar quatro funções da Apo­
logética: defender a fé cristã dos grupos heterodoxos e heresias, refutar os
20 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
erros que se opõem aos ensinos bíblicos, persuadir os contradizentes para 
que eles se convertam ao evangelho e vindicar a aceitabilidade do cristianis­
mo pelas autoridades do mundo. Trata-se de uma defesa com argumentos e 
fundamentação bíblica, respondendo às objeções contra a fé cristã.
Os dados históricos revelam a importância e o papel da Apologética 
Cristã na vida da igreja, tanto na construção do pensamento teológico cris­
tão como nas questões atuais da sociedade. Quando Jesus disse: “Ame o 
Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu 
entendimento e com toda a sua força” (Mc 12.30) e acrescentou o termo 
“entendimento”, que não aparece em Deuteronômio 6.4-6, de cujo texto Ele 
retirou essa declaração, estava ensinando que devemos amar a Deus com 
0 coração e a mente, uma fé lógica e racional. Dizia Agostinho de Hipona: 
“creio para entender”, baseando-se na parte final de Isaías 7.9, em que a 
Septuaginta usa a expressão: “se não o crerdes não compreendereis” (po­
rém, o Texto Massorético afirma: “se não o crerdes, certamente, não ficareis 
firmes”). Isso foi, mais tarde, defendido por Anselmo de Cantuária. A Apo­
logética mostra que o cristianismo é racional, os dados da revelação podem 
ser explicados de maneira metódica e sistemática, portanto, são aceitáveis.
0 QUE SÃO HERESIAS?
O Novo Testamento grego usa um só termo para “seita” e “heresia”, é 
a palavra hairesis, traduzida por “seita” em Atos;2 e por “heresias”.3 A Sep­
tuaginta emprega o vocábulo no sentido de “escolha” ou “eleição” (Gn 49.5; 
Lv 22.18,21). Significa também uma inclinação ou preferência filosófica ou 
escola de pensamento, tomar para si mesmo uma escolha. O significado 
dessa palavra é complexo. Agostinho de Hipona disse que era “inteiramente 
impossível, ou em todo o caso a cousa mais difícil” definir “heresia”.4
No Novo Testamento, esse vocábulo aparece com o sentido de “parti­
do, espírito sectário” e, nem sempre, representa uma ruptura com o siste­
ma convencional de determinada comunidade. Os saduceus e os fariseus 
eram seitas que formavam facções dentro do próprio judaísmo (At 5.17;
26.5). Paulo advertiu para que não houvesse no seio da igreja essas divi­
2 Atos 5.17; 15.5; 24.5; 26.5; 28.22.
3 1 Coríntios 11.19; Gálatas 5.20; e 2 Pedro 2.1.
4 BUCKLAND, A. R.; WILLIAMS, L. Dicionário Bíblico Universal, 2‘ ed. Penha, RJ: Livros Evangélicos, 
s/d., p. 352.
c a p í t u l o 1 ■ Q U A N D O AS HERESIAS AM EA Ç A M A U N ID A D E DA IG REJA
sões (hairesis) e condenou as inovações doutrinárias que viessem a dividir 
a igreja (1 Co 11.19 ; G1 S.20). O apóstolo Paulo chama de hereges os que 
teimavam em seguir seus próprios pensamentos, contrariando os princí­
pios básicos da fé cristã, e a essas pessoas o apóstolo recomenda, depois 
de duas admoestações, evitar tais heréticos (Tt 3.10).
É verdade que 0 cristianismo foi também chamado de “seita”, mas, por 
pessoas que estavam do lado de fora e por pessoas que não conheciam a 
verdadeira natureza da fé cristã e que se opunham ao evangelho de Cristo 
(At 24.5,14; 28.22).
A primeira referência ao termo “heresia” com o sentido moderno de 
erro doutrinário, aplicado aos que abandonaram a verdadeira fé para seguir 
grupos sectaristas com doutrinas peculiares, encontramos em 2 Pedro 2.1. 
Os pais da igreja usavam o termo hairesis ou haeresis (latim) para designar 
a teologia dos grupos religiosos heterodoxos, que rejeitavam a tradicional 
doutrina dos apóstolos, como Irineu de Lião; Tertuliano de Cartago; Agosti- 
no de Hipona (354-430); entre outros.
Seitas são grupos religiosos isolados que expõem uma doutrina rejeitada 
pela patrística e pelos reformadores do século XVI e contraria o pensamento 
dos apóstolos. A doutrina sectária é contra a ortodoxia cristã sobre Deus, 0 
mundo, o homem e a salvação. As seitas são uma ameaça ao cristianismo 
histórico e um problema para as igrejas. Hoje estão bem aparelhadas para 
o combate da fé cristã. Apresentam-se, muitas delas, com uma estrutura 
organizacional de provocar admiração em qualquer empresa multinacional, 
parecendo um império, como as testemunhas de Jeova e os mórmons.
OS DESAFIOS
Os adeptos das seitas estão no contexto de Mateus 28.19. São pessoas 
que precisam conhecer a Jesus. Muitos deles nunca tiveram a oportunidade 
de ouvir a verdade da Palavra de Deus. Essas vitimas estão incluídas nos 
grupos ainda não alcançados pelo evangelho. A evangelização deles consti­
tui-se um grande desafio para as igrejas. Isso acontece porque, além de ser 
um trabalho árduo, é também arriscado que alguém se tome um deles. Os 
apologistas precisam conhecer bem as crenças dos hereges, seus argumen­
tos, bem como refutá-los. Requer-se ainda conhecimento sólido e profundo 
de nossa fé, de como expor nossas crenças à luz da Bíblia. Além disso, é 
preciso, sobretudo, a unção do Espírito Santo, pois somente a persuasão
22 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
sem o poder do Espírito Santo faz com que esses adeptos se sintam en­
vergonhados por ser a sua religião desacreditada e, geralmente, tornam-se 
ainda mais inimigos do cristianismo bíblico.
Convém salientar que é dever dos cristãos estarem “sempre preparados 
para responder com mansidão e temor a qualquer que vos pedir a razão da 
esperança que há em vós” (1 Pe 3.15). O próprio apóstolo Paulo considerava- 
-se apologista (Fp 1.16). O Senhor Jesus Cristo é o apologista por excelência, 
defendeu a verdade revelada nas Escrituras (Mc 7.9-13).
Cdpítulo 2
SOMOS CRISTÃOS
Martinho Lutero disse: “Quem sabe distinguir corretamente o 
evangelho da lei deve agradecer a Deus e pode estar certo de que 
é um teólogo”. O cristianismo nasceu no contexto judaico, mas 
não é judaico; recebeu do judaísmo rica herança espiritual, teo­
lógica e ética, mas não é judaísmo. Por isso, não é seita. A fé 
cristã é centrada em Cristo e não depende de ritos e praticas judaicas para 
levar as pessoas à salvação. Veja que o apóstolo Paulo era um judeu ultra- 
nacionalista, doutor da Lei de Moisés, praticante inveterado da religião dos 
hebreus e principal expoente das doutrinas centrais de seus antepassa­
dos. Ele se considerava o homem mais crente dentre eles (G1 1.14). O que 
aconteceu com Paulo, como pôde chegar a conclusões inovadoras sobre os 
propósitos de Deus? Ele se despojou de todas as coisas, porque Deus lhe 
revelou que nada disso era necessário para a salvação. Para Deus, a fé em 
Jesus basta para a humanidade.
PREVENINDO-SE CONTRA A TENDÊNCIA JUDAIZANTE
Os primeiros membros da igreja primitiva eram judeus. Com a expan­
são do cristianismo entre os não judeus, principalmente gregos e romanos, 
o número deles ia aumentado; à medida que 0 tempo passava, a presença 
de judeus ia diminuindo. Como resultado do avanço do evangelho entre as
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
nações, os povos fora da comunidade de Israel, chamados gentios (1 Co 12.2; 
E f 2.11), surge 0 problema sobre 0 estilo de vida delas. Foi nesse contex­
to que surgiram os judaizantes, judeus convertidos ao evangelho de Jesus 
Cristo, de origem farisaica, os quais insistiam na tese de que os gentios con­
vertidos à fé cristã deviam viver de acordo com a lei de Moisés. O apóstolo 
Paulo combateu com muita ênfase essa doutrina.
Tão logo Paulo retorna de sua primeira viagem missionária, fica sa­
bendo que os irmãos das igrejas da Galácia haviam adotado 0 legalismo 
judaico. Os responsáveis por esse desvio eram os legalistas judeus e, por 
isso, são chamados de judaizantes. Esse termo é proveniente do verbo 
grego ioudaizõ, “viver como judeu, adotar costumes e ritos judaicos”, e 
aparece apenas uma única vez no Novo Testamento (G1 2.14).
Atos 9.26-30 relata a primeira visita de Paulo a Jerusalém já como 
discípulo de Jesus. Ele fugia dos judeus de Damasco. Essa fuga aconteceu 
tres anos depois de sua conversão (G11.18). Apesar do seu testemunhoem 
Damasco, os discípulos em Jerusalém ainda viam Saulo com suspeita. Foi 
nessa sua curta visita que Barnabé o introduziu no seio da igreja e o apre­
sentou aos apóstolos, testificando da sua experiência com Jesus (w. 26-28). 
Mas, os judeus de Jerusalém também procuravam matá-lo por causa do seu 
testemunho (v. 29). Por isso, 0 Senhor Jesus mandou que ele se retirasse 
depressa da cidade, como 0 próprio Paulo testifica mais adiante: “Ande logo 
e saia imediatamente de Jerusalém, porque não aceitarão o seu testemunho 
a meu respeito” (At 22.18). Assim, os irmãos o acompanharam até o porto de 
Cesareia Marítima, onde embarcou para a sua cidade natal, Tarso (At 9.30).
Catorze anos depois da sua conversão a Cristo, Paulo sobe pela segun­
da vez a Jerusalém por uma revelação” (G1 2.1,2), numa visita rápida para 
levar os donativos para os irmãos pobres de Jerusalém (At 11.27-30). Não 
confundir essa visita de Paulo com a sua ida ao Concilio de Jerusalém, re­
gistrada em Atos is. Gálatas foi escrita antes do referido Concilio. Somando 
os anos mencionados nessa epístola, podemos afirmar que essa visita acon­
teceu antes de sua primeira viagem missionária.
Barnabé e Tito integravam a comitiva de Paulo. Barnabé era judeu, 
natural de Chipre (At 4-36), 0 fato de Tito ser grego constituiu um ris­
co para Paulo, mas não foi uma provocação introduzir um incircunciso 
no seio dos judeus. Os judaizantes queriam que Tito fosse circuncidado. 
Onde quer que Paulo fundasse igrejas, os judaizantes iam em seu encalço 
para despregar o que ele pregava. O evangelho que Paulo anunciava era
c a p í t u l o 2 • SOMOS CRISTÃOS 25
algo novo tanto para os gentios como para os judeus. Paulo chegou a ser 
tolerante com os fracos na fé, a ponto de circuncidar Timóteo (At 16.3); 
mas nessa reunião em Jerusalém, em que expôs o evangelho que pregava 
aos gentios, ele não cedeu nem um pouco, “nem por uma hora”(Gl 2.5). A 
indignação de Paulo não era com sua posição ou seu status de apóstolo de 
Cristo. A questão era, como declara duas vezes, a “verdade do evangelho” 
(G1 2.5,14). Tanto Paulo como os demais apóstolos viam em tudo isso dois 
problemas sérios: a ameaça à liberdade cristã e o perigo de o cristianismo 
tornar-se mera seita judaica. Estava em jogo a verdade do evangelho e o 
futuro do próprio cristianismo. Isso explica por que 0 apóstolo Paulo foi 
tão contundente com os judaizantes.
Não é necessário muito esforço para se perceber 0 quanto Paulo e Bar- 
nabé foram pressionados pelos judaizantes diante dos demais apóstolos de 
Jerusalém. Parece que, dos apóstolos, somente João, Pedro e Tiago estavam 
presentes (G1 2.9). Os outros deviam estar em plena atividade missionária 
em outras regiões. Esses judaizantes, chamados de “falsos irmãos”, conse­
guiram “furar o bloqueio”, entrando sem serem convidados à reunião (G1 
2.4). Eram inimigos da liberdade cristã, do evangelho, de Paulo e do pró­
prio cristianismo. O pior de tudo é que essas pessoas estavam infiltradas na 
igreja e conseguiam até entrar em reuniões apostólicas.
c
A TENDÊNCIA JUDAIZANTE NO INÍCIO DA IGREJA
Essa tendência apareceu muito cedo na história da igreja, já existia an­
tes mesmo da primeira viagem missionária de Paulo, talvez em Antioquia 
da Síria. A reunião tensa de Paulo em Jerusalém, depois de sua conversão a 
Cristo, é uma evidência disso (At 11.27-30; G1 2.1-3).
As igrejas da Galácia
As igrejas da província romana da Galácia foram fundadas por Paulo 
e Barnabé por ocasião da primeira viagem missionária de Paulo, que co­
meçou no ano 46 e terminou em 48 e ocupa os capítulos 13 e 14 de Atos. 
Atravessando a ilha de Chipre, terra natal de Barnabé (At 4-36), foram para 
0 continente, passando por Perge, cidade da Panfília, depois para a Antio­
quia da Pisídia. Expulsos da cidade de Antioquia da Pisídia, Paulo e Barna­
bé partiram para Icônio. Como as hostilidades eram as mesmas da cidade 
anterior, e havendo motim tanto dos judeus como dos gentios, foram para
26 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
a região da Licaônia, fundando igrejas nas cidades de Listra e Derbe. Dali 
retomaram para Antioquia da Síria, visitando e confirmando as igrejas em 
Listra, Icônio e Antioquia da Pisídia (14.22) e estabelecendo pastores nativos 
para cada uma dessas igrejas (14.23).
Ao saber das ultimas notícias da Galácia, o apóstolo ficou surpreso e in­
dignado com essa mudança de pensamento tão rápida (G11.6). Ele chamou 
esses gálatas de desertores e empregou o verbo grego metatithesthe,5 usado 
na antiguidade quando alguém desertava do exército ou quando se rebelava 
contra ele. Esse verbo significa “deixar, abandonar, desertar, mudar de pen­
samento, virar a casaca”; indica ainda mudança de partido político, filosofia 
e religião. Em outras palavras, aqueles irmãos estavam abandonando a fé. O 
apóstolo chamou esse desvio de “outro evangelho” e amaldiçoou todo aque­
le que viesse a adotar tal doutrina (G11.6-9).
Os judaizantes exigiam a circuncisão dos gentios convertidos ao Senhor 
Jesus (At 15.1,5). Isso significava minar a essência do cristianismo, reduzir a 
fé cristã a uma mera seita judaica. Os apóstolos tiveram que convocar uma 
assembléia para tratar o assunto. À luz de Atos 14.27 - 15.2, o Concilio de 
Jerusalém aconteceu depois dessa viagem em virtude do grande número 
de gentios convertidos e havia também muita controvérsia sobre o modus 
vivendi — “maneira de viver” — desses novos crentes. Havia judeus con­
vertidos ao cristianismo que queriam impor aos gentios as práticas judaicas 
como condição para a salvação.
0 Concilio de Jerusalém
Houve grande debate logo na abertura da reunião em Jerusalém até 
que o apóstolo Pedro tomou a palavra (At 15.7), chamando a atenção dos 
ouvintes. Ele evocou a revelação que recebeu para ir à casa de Cornélio, 
lembrando que, com essa experiência, Deus o havia escolhido para falar 
aos gentios (At 10). Pedro, antes de qualquer outro apóstolo, foi o primeiro 
que Deus escolheu para pregar aos gentios, portanto, tinha autoridade para 
falar sobre o assunto.
O fato de os gentios haverem recebido o Espírito Santo como os judeus 
receberam no dia de Pentecostes mostrava que não havia mais diferença 
entre judeus e gentios convertidos a Cristo, pois ambos foram purificados
5 O verbo metatíthêmi, “transportar, trasladar, remover”, que na voz média, metatithesthe, indica pas­
sar de um partido para outro; abandonar um ponto de vista para seguir outro.
c a p í t u l o 2 • SOMOS CRISTÃOS 27
pela fé em Jesus (At 15.9). No versículo seguinte, Pedro reconheceu que nem 
mesmo os judeus puderam suportar 0 jugo da lei: “Agora, pois, por que vo­
cês querem tentar a Deus, pondo sobre o pescoço dos discípulos um jugo 
que nem os nossos pais puderam suportar, nem nós?”. Então, como po­
deríam esses judaizantes impor esse peso sobre os gentios, e 0 pior, como 
condição para a salvação (At 15.5)?
A declaração de Pedro: “cremos que somos salvos pela graça do Senhor 
Jesus, assim como eles” (At 15.11) significa que judeus e gentios são salvos 
pela graça sem as obras da lei. Esse discurso petrino revela que ele concor­
dou com Paulo na discussão de Antioquia, um fato acontecido anteriormen­
te (G1 2.14). São as mesmas palavras que Paulo usou em Gálatas 2.16. Com 
isso, Pedro votava contra os judaizantes.
Paulo e Barnabé falaram sobre suas experiências com os gentios de 
Antioquia, corroborando o discurso de Pedro. A experiência de Paulo e 
Barnabé durante a primeira viagem missionária era um testemunho vivo 
de como Deus tratou com os gentios de maneira extraordinária. Isso era a 
prova de que as tradições judaicas não servem para a salvação. Esse teste­
munho de Paulo e Barnabé, somado ao discurso de Pedro, testificava contra 
os judaizantes.
Tiago esperou que Pedro, Paulo e Barnabé apresentassem o seu pa­
recer sobre 0 assunto para depois tomar a palavra. Ele abre seu discurso, 
reafirmando a fala de Pedro, dizendo: que: “Simão acaba de relatar como, 
primeiramente, Deus visitou os gentios, a fim de constituir entre elesum 
povo para o seu nome” (At 15.14). As palavras de Pedro se revestiam de peso 
extraordinário, visto que o próprio Tiago, pastor da igreja de Jerusalém (At 
12.17; 21.8; G1 2.9) e líder do Concilio (15.13,19), usou o discurso de Pedro 
para substanciar a sua fala.
Tiago seguiu nesse mesmo diapasão e buscou subsídios no próprio tex­
to das Escrituras Sagradas, 0 Antigo Testamento. A expressão “povo para o 
seu nome” era usado com referência a Israel (2 Cr 7.14). No entanto, Tiago 
reconhecia que a igreja era um povo com essa dignidade, constituído de 
judeus e gentios convertidos ao Senhor Jesus. A citação de Amós 9.11,12 (At 
15.15-18) é apenas uma das muitas passagens do Antigo Testamento que 
prevê a salvação dos gentios.6 Jesus determinou que se pregasse a todas as 
nações (Mt 28.19; Lc 24.47; At 1.8).
6 Gênesis 22.18; Salmos 22.27; Isaías 9.2; 42.4; 45.22; 49.6; 60.3; 66.23; Daniel 7.14.
28 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
Tiago chamou Pedro pelo seu nome hebraico “Simão”. Isso mostra que 
Tiago não entendia que Pedro fosse a Pedra, como reivindica a Igreja Católi­
ca. A citação parafraseada que Tiago faz das palavras de Pedro se reveste de 
suma importância porque descarta a possibilidade de o cristianismo ser uma 
seita judaica. Assim como Israel é um povo, da mesma maneira seria a Igreja.
No Sinai, Deus mandou Moisés consultar o povo, para confirmar se ele 
aceitava as leis e os estatutos do Senhor, na condição de Israel ser povo de 
Deus (Êx 19.5,6). A resposta do povo foi afirmativa. Com a igreja, isso não é 
diferente, em Jesus somos um “povo seu especial, zeloso e de boas obras” 
(Tt 2.14 - ARC). As três características de Israel são aplicadas por Pedro 
também à Igreja: “Vocês, porém, são geração eleita, sacerdócio real, nação 
santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamar as virtu­
des daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9). 
Esse mistério da vocação dos gentios é assunto no qual Paulo se aprofundou 
em Efésios 3, mas Tiago, nesse Concilio, já havia antecipado o tema.
A TENDÊNCIA JUDAIZANTE NOS DIAS ATUAIS
O tema continua atual, pois essas práticas ainda continuam. O relato 
apostólico nos dois primeiros capítulos da carta aos Gálatas é didático e útil 
na prevenção contra a atual tendência judaizante, mas convém ainda desta­
car a decisão do Concilio de Jerusalém, que foi clara:
Por isso, julgo que não devemos perturbar aqueles que, 
entre os gentios, se convertem a Deus, mas escrever-lhes que 
se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como da 
imoralidade sexual, da carne de animais sufocados e do sangue.
Porque Moisés tem, em cada cidade, desde tempos antigos, os que 
o pregam nas sinagogas, onde é lido todos os sábados (At 15.19-21).
Segundo o erudito judeu messiânico David H. Stern, “essas quatro 
proibições são uma variante das leis estabelecidas desde os tempos de Noé, 
e apresentada no Talmud como os requisitos de Deus para toda a humani­
dade desde os dias de Noé (i. e., antes que ‘judeus’ e ‘gentios’ fossem defini­
dos)”.7 A parte parentética é original. Não há nessas orientações apostólicas
7 STERN, David H. Comentário Judaico do Novo Testamento. Rio de Janeiro: BvBooks, 2021, pp. 300,301.
c a p í t u l o 2 ■ SOMOS CRISTÃOS
nenhuma regra que os atuais judaizantes cumprem, tais como, a guarda do 
sábado, a observância rigorosa do kashrut,8 liturgia seguindo, em parte, ri­
tos da sinagoga, como uso do shofar, “trompa”, geralmente feito de chifre de 
carneiro; uso de talit, o manto ou xale usado para oração e o uso do kippar, 
o solidéo que os judeus religiosos usam sobre a cabeça.
Os gentios não aprenderam esses costumes porque nunca tiveram 
quem os ensinasse, por essa razão, o estilo de vida deles era discrepante. 
Aplicar essa conduta judaica aos gentios como exigência para a redenção 
era o mesmo que afirmar que a graça do Senhor não era suficiente. A lei de 
Moisés seria o complemento para a salvação. Isso reduziría o cristianismo 
a uma mera seita do judaísmo e, além disso, confundiría com a identidade 
judaica. Nesse caso, era como se os cristãos de hoje usassem Talit e kippar; 
seguissem a dieta khosher e fossem obrigados a guardar o sábado, além de 
outros ritos, como condição para serem salvos.
Outro ponto que caracteriza os judaizantes de hoje é a questão do sá­
bado, que é o sétimo dia da semana no calendário judaico, marcado para 
repouso e adoração. Foi introduzido em Israel pela lei, isto é, é o sábado 
legal dado aos israelitas no Sinai. Nenhum outro povo na história recebeu 
a ordem para guardar este dia, é exclusividade de Israel. O sábado e a cir­
cuncisão são os dois sinais distintivos do povo judeu ao longo dos séculos 
(Gn 17.11). Duas vezes é dito que 0 sábado é um sinal distintivo entre Deus 
e a nação de Israel (Êx 31.13,17). A presença de Deus era o marco distintivo 
de Israel como Seu povo, como diz Gordon Fee, “mas essa identidade estava 
sujeita à obediência à Torá, a lei”. Mas, durante todo o tempo do ministério 
de Paulo, os judaizantes viviam continuamente no encalço dele até mesmo 
no seio das igrejas iniciadas por Paulo, ensinando os crentes a observarem 
a Torá para que fossem identificados como povo de Deus. Mas, “Paulo argu­
mentava, pelo contrário, que 0 Espírito, e somente 0 Espírito dá identidade 
ao povo de Deus sob a nova aliança”.9
Qual 0 significado do termo "cristão"?
A origem do nome “cristão” ocorreu num clima de zombaria e igno­
rância. Foi uma designação sarcástica cunhada pelos pagãos da cidade de 
Antioquia. Esse nome só aparece três vezes no Novo Testamento (At 11.26;
8 Kashrut é o termo hebraico para as leis dietéticas do judaísmo, diz respeito aquilo que é permito ao 
judeu comer.
9 FEE, Gordon D. Paulo, o Espírito e o Povo de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2015, p.130.
30 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
26.28; 1 Pe 4.16). Hoje, significa redenção e 0 ostentamos como estandarte 
de honra. O nome “nazareno” era sinônimo de desprezo, em virtude de ser 
Nazaré uma cidade pobre e sem expressão para a elite judaica dos dias de 
Jesus Cristo. No caso de Antioquia, parece que era mais um tom jocoso do 
que desprezo. Com 0 passar do tempo, ambas palavras foram transforma­
das num título honroso e glorioso que enche de vida e de alegria a alma de 
todo o crente em Jesus. Os judeus convertidos ao Senhor Jesus rejeitam esse 
termo e chamam a si mesmo de messiânicos.
A desinência “ão” significa “seguidor de”, ou “povo de”. No grego é 
christianoi e no latim, língua de Roma, é christianus. A palavra “cristão” sig­
nifica “seguidor de Cristo”. Parece que os habitantes de Antioquia pensavam 
que “Cristo” fosse um nome próprio. Daí, a razão de chamar os discípulos de 
“cristãos”. Esse nome já era muito conhecido nos dias de Nero, imperador ro­
mano. Os historiadores romanos, não cristãos, como Suetônio, Tácito, Plínio 
e outros usaram esse nome para designar os discípulos de Jesus.
0 cristianismo
A religião cristã é flexível quanto à forma de adoração e permite várias 
liturgias. Todos os ramos do cristianismo, incluindo os cristãos nominais, 
têm sua forma litúrgica distintiva, desde 0 cerimonialismo ornamental das 
igrejas Católica Romana, Ortodoxa e mesmo algumas protestantes, como a 
Episcopal ao modelo simples dos evangélicos, principalmente, dos pente- 
costais. O cristianismo é transcultural, ou seja, trata-se de transformação 
como resultado do contato de duas diferentes culturas. Vemos essa variação 
nas estratégias do apóstolo Paulo na evangelização dos gentios e dos judeus. 
A mensagem do Evangelho permanece a mesma apesar da diversidade de 
costumes dos povos.
O Senhor Jesus nasceu “conforme a lei” (G14.4); cresceu e viveu dentro da 
cultura judaica; reconheceu as Escrituras Hebraicas e a autoridade de Moi­
sés. Todavia, não pregou costumes judaicos, e nem seus apóstolos judaizaram 
o mundo. O apóstolo Paulo não deu aula sobre 0 Tetragrama no Areópago de 
Atenas, para explicar 0 nome “Jeová” ou “Javé”, antes, estava preocupado em 
desfazer o escândalo dacruz com a mensagem da ressurreição. A epístola aos 
Gálatas é uma apologia à liberdade cristã, contra toda a forma de legalismo. 
A salvação é um ato da graça de Deus, somos salvos pela fé em Jesus (G12.16). 
Acrescentar algo mais que isso, como condição para salvação, descaracteriza 
totalmente o cristianismo revelado no Novo Testamento.
c a p í t u l o 2 ■ SOMOS CRISTÃOS 31
Os missionários respeitaram a cultura dos povos evangelizados, eles 
não judaizaram o mundo. Não exigiram dos gentios o aprendizado da lín­
gua hebraica para fazer suas orações e nem exigiram recitar em hebraico 
o Shemá, confissão de fé dos judeus: Shema Israel Adonay Eloheino Adonay 
echad, “Ouve, Israel, o SENHOR, Nosso Deus, é o único SENHOR” (Dt 6.4). 
Os judeus religiosos recitam esse versículo três vezes ao dia, no entanto, os 
gentios não foram obrigados a seguir esse padrão. Tampouco lhes foi exigi­
do a prática da circuncisão, da guarda do sábado, da observação do kasherut, 
do uso do kipar, do talit, do shophar na liturgia e nem outras práticas.
O cristianismo é supra cultural, muito diferente do islamismo, que ara- 
bizou 0 mundo que eles conquistaram. É importante que 0 missionário, a 
igreja e 0 ministério saibam disso. Muitos, por falta de preparo, se escanda­
lizam quando vão visitar o campo missionário, num país de cultura muito 
diferente da nossa, como na África, por exemplo, esperam ver uma igreja 
brasileira cantando hinos da Harpa Cristã e com a mesma liturgia nossa e 
ficam desapontados ao constatarem algo diferente.
Esses problemas existiram também nos dias apostólicos, mas eles ain­
da estavam começando e, a cada dia, se deparavam com uma experiência 
nova, mas nós estamos aqui para aprender com os seus erros e acertos. A 
igreja de Jerusalém enviou o homem certo para Antioquia, Barnabé, por ser 
cipriota, talvez tivesse mais jeito de lidar com os gentios (At 11.22).
Barnabé foi o primeiro que entendeu essa nova realidade. Vendo que os 
costumes daqueles gentios eram muito diferentes das tradições judaicas e 
que aqueles irmãos estavam alegres e eram fervorosos no espírito, mas que 
eram provenientes de outra cultura, lembrou-se de Saulo, pois sabia que 
0 Senhor Jesus o havia chamado para pregar e ensinar aos gentios. Saulo 
era de Tarso, grande centro cultural, e conhecia a cultura grega. Ninguém 
melhor do que Saulo para ensinar esses novos crentes e de costumes estra­
nhos. Barnabé não hesitou em buscá-lo em Tarso para essa nobre tarefa (At 
11.25). Antioquia conquistou essa importância na história do cristianismo 
em virtude dessa estrutura bem organizada por Barnabé e Saulo.
As boas novas são uma mensagem transcultural, isto é, se adapta a 
qualquer cultura. O evangelho é um só e é suficiente para todos os povos e 
culturas e para todas as épocas. O evangelho que esses apóstolos pregaram 
é 0 mesmo que pregamos hoje. O método de apresentar esse evangelho pode 
ser diversificado conforme cada cultura e situação. É disso que muitos ain­
da não se deram conta.
capí tulo 3
A ENCARNAÇÃO 
DO VERBO
0
 Senhor Jesus perguntou certa vez, “Quem os outros dizem que é o 
Filho do Homem?” (Mt 16.13). Ninguém acertou a resposta: “Uns di­
zem que é João Batista; outros dizem que é Elias; e outros dizem que é 
Jeremias ou um dos profetas” (Mt 16.14). Somente Pedro acertou, mas 
Jesus esclareceu que isso só foi possível em virtude da revelação de 
Deus, e isso mostra que ninguém pode conhecer a Jesus se não for pelo Espírito 
Santo. O apóstolo Paulo disse: “ninguém pode dizer que Jesus é 0 Senhor, senão 
pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3 - ARC). Foi, então, em tomo da cristologia que 
muitos manifestaram suas opiniões, cada uma mais exótica e mais excêntrica 
do que a outra, durante o longo período da história do cristianismo.
Desde os primeiros séculos do cristianismo, houve tentativa de respos­
ta para essa pergunta, porém, muitos tropeçaram porque se abeberaram 
em fontes erradas e estribaram-se em métodos inadequados. Essa busca 
resultou em grupos religiosos isolados e seus líderes tornaram-se os gran­
des heresiarcas do passado. Porém, 0 Espírito Santo já tinha falado de an­
temão pelo ministério do apóstolo Paulo sobre os pregadores de um Jesus 
estranho aos evangelhos (2 Co 11.4).
HERESIAS QUE NEGAM A CORPOREIDADE DE CRISTO
O primeiro movimento a negar que 0 Senhor Jesus veio em carne foi 0 
gnosticismo, um sistema eclético-filosófico-religioso que surgiu no primei­
34 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
ro século da Era Cristã. O movimento buscava conciliar toda as religiões 
e decifrar-lhes o sentido por meio da gnose. Seu período áureo foi entre 
135-160 d.C., mas há evidência deles no seu estágio incipiente na época do 
apóstolo João, em seus últimos dias.
O termo gnosticismo provém do grego gnõsis, que significa “conheci­
mento”. Os membros desse movimento ensinavam a salvação por meio de 
um conhecimento místico, e não pela fé em Jesus. Eles eram grupos muito 
diversificados em suas doutrinas, pois diferiam de lugar para lugar, e em 
seus períodos. Essa doutrina era nada mais que um enxerto das filosofias 
pagãs nas doutrinas vitais do cristianismo. Esses movimentos negavam o 
cristianismo histórico, pois segundo essa doutrina, 0 Senhor Jesus não teve 
um corpo, isto é, não veio em carne, o seu corpo seria uma mera aparência, 
que chamavam de corpo docético.
Quando 0 apóstolo João enfatiza que “o Verbo se fez carne” (Jo 1.14) e 
que “e todo espírito que não confessa isso a respeito de Jesus não procede de 
Deus” (1 Jo 4.3 - ARC), está respondendo ao embrião desse movimento que 
já existia em algumas igrejas. É bom lembrar que os escritos joaninos são do 
final do primeiro século e foram escritos na cidade de Éfeso, então capital 
da Asia menor, onde surgiu 0 gnosticismo.
Há indício da presença deles em Colossos, cidade próxima a Éfeso. Há 
no capítulo 2 de Colossenses um vocabulário incomum nos escritos pauli- 
nos que muitos expoentes do Novo Testamento dizem que são termos técni­
cos ou expressões do gnosticismo, por exemplo: philosophia, “filosofia” (Cl 
2.8) como alternativa gnóstica; plêrõma, “plenitude” (Cl 2.9); gnõsis, “conhe­
cimento” (Cl 2.18). O conteúdo desse capítulo 2 parece revelar uma mistura 
eclética do judaísmo com o gnosticismo incipiente.
Os grupos gnósticos e suas principais crenças
Ebionitas. Os ebionitas eram outra comunidade de judeus cristãos (sécu­
los II e IV). O nome “ebionita”, segundo Tertuliano, veio de um certo Ebion, 
gnóstico que sucedeu Cerinto (Contra Todas as Heresias, III), certo mentor 
dos judaizantes, mas Eusébio de Cesareia afirma que 0 nome veio por causa 
da manifestação da “pobreza de seu intelecto” (História Eclesiástica, Livro 
III, 27). A palavra hebraica é ‘ebion, “pobre”, pois pregavam a pobreza com 
base em Mateus 5.3. Segundo Irineu de Lião, os ebionitas “acerca do Senhor 
pensam da mesma forma que Cerinto” (Contra as Heresias, Livro 1.26,2).
c a p i t u l o 3 ■ A ENCARNAÇÃO DO VERBO 35
Eusébio de Cesareia afirma que os ebionitas criam em Jesus como o 
seu Messias, mas negavam sua deidade, e entre eles havia os que negavam 
a concepção virginal de Jesus, no ventre de Maria, por obra e graça do Espí­
rito Santo. Viviam o ritual da lei e os costumes judaicos, eram hostilizados 
tanto pelos judeus quanto pelos cristãos. Repudiavam as epístolas paulinas 
e chamavam o apóstolo Paulo de apóstata. Tinham um evangelho próprio, 
apócrifo, chamado de Evangelho aos Hebreus. Eles estavam divididos em 
três grupos: os nazarenos, os ebionitas fariseus e os gnósticos ou essênios. 
Eram numerosos no final do primeiro século, mas, aos poucos, foram desa­
parecendo do palco e perdendo-se de vista no cenário da história.
Gnosticismo sírio. Era o de Saturnino, também conhecido como Saturnilo 
(120 d.C.). De acordo com seu ensino, Jesus Cristo não nasceu, não teve forma 
e nem corpo, foi simplesmente visto de forma humana em mera aparência, 
o chamado corpo docético, do grego dokeõ “parecer”, de aparência. Segundo 
ele, Cristo veio para destruir0 Deus do Antigo Testamento e salvar os que 
cressem nele. Esse representante da escola síria ensinava que o Deus dos ju­
deus era apenas um dos sete anjos. Seguia a linha de Meandro,10 cujo ensino 
era de que tudo veio à existência mediante os anjos, e o seu número era sete.
Gnosticismo egípcio. Era o de Saturnino, mas ampliado e desenvolvido 
por Basílides, por volta do ano 130. Sua essência foi transmitida por Valenti- 
no de maneira poética e popular em 140. Basilides ensinava que Cristo era a 
Mente primogênita do Pai Ingênito, o Deus dos judeus. Negava a crucificação 
de Cristo, dizia que Simão, o cirineu, transfigurou-se e foi equivocadamente 
crucificado, e que o populacho 0 tomou por Jesus. Assim sendo, Cristo ape­
nas presenciou a crucificação de Simão, seu sósia. Essa crença pode parecer 
tão bizarra hoje, como é, mas deu muito trabalho às igrejas na época, pois as 
informações não circulavam como na atualidade. Os Evangelhos Sinóticos 
registram simplesmente que Simão foi constrangido a levar a cruz de Jesus 
(Mt 27.32; Mc 15.21; Lc 23.26). O próprio Jesus foi crucificado (Jo 19.17,18).
Gnosticismo judaizante. Era um gnosticismo muito parecido com as 
doutrinas dos ebionitas. Cerinto, o mentor dos judaizantes, teve ligações
ic Segundo Irineu de Lião, Simão Mago, de Samaria (At 8.9-21), fundou um ramo do movimento 
gnóstico. Meandro, ou Menandro, foi seu discípulo e depois, sucessor (Contra as Heresias I.23.1-5).
36 EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
com os ebionitas no final do primeiro século. Cerinto negava o nascimento 
virginal de Jesus Cristo. Segundo ele, Jesus foi concebido normalmente de 
José e Maria, e a sua sabedoria e poderes miraculosos advieram-lhe pelo 
recebimento do Espírito Santo, no seu batismo, perdendo tudo quando foi 
crucificado e voltando à condição original.
Cerinto ensinava ainda o docetismo, doutrina segundo a qual o Senhor 
Jesus não teve corpo humano físico, mas somente uma aparência dele. Foi 
outro problema doutrinário para a igreja dos dois primeiros séculos. A Bí­
blia ensina a concepção e o nascimento virginal de Jesus (Mt 1.18-23; Lc 1.31- 
35). São inúmeras as passagens bíblicas que revelam, de maneira direta e 
indireta, 0 corpo humano físico de Jesus (Rm 1.3; 8.3; Fp 2.5-8; 1 Tm 3.16) e, 
também que são os enganadores que negam essa verdade (1 Jo 4.2,3; 2 Jo 7).
Gnosticismo pôntico. Foi 0 desenvolvido por Marcião (falecido em 165) 
natural de Sinope, província do Ponto, na Ásia Menor.11 Transferiu-se para 
Roma em 135 d.C., e a partir daí, passou a considerar 0 Deus de Israel mau, 
e, depois de muitas “reflexões”, considerou-o fraco. Segundo ele, o Senhor 
Jesus não era 0 Filho do Deus do Antigo Testamento, e Cristo teria revelado 
um Deus até então desconhecido. Marcião dizia que todos os cristãos deve­
ríam rejeitar as Escrituras Sagradas dos judeus e o Deus nelas reveladas. 
Esse heresiarca aparece hoje na lista dos antissemitas. Mas, a resposta de Je­
sus sobre 0 primeiro e grande mandamento reduz a cinzas essa doutrina de 
Marcião, quando citou a confissão de fé do judaísmo (Dt 6.2,5; Mc 12.28-30).
Marcião selecionou para si uma coleção de livros autorizados contendo 
as epístolas paulinas (sem as pastorais e mutiladas todas as passagens que 
revelam ser Cristo 0 Filho do Deus do Antigo Testamento), pois, segundo 
ele, somente Paulo entendeu 0 evangelho de Cristo, e os demais apóstolos 
caíram “no erro do judaísmo”. Ele incluiu no seu cânon 0 Evangelho de Lu­
cas, mutilando todas as passagens que afirmam que o Deus dos patriarcas 
Abraão, Isaque e Jacó é 0 Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. Ele amputou 
a genealogia de Jesus do Evangelho de Lucas e essa extirpação é um forte 
indício de sua recusa em aceitar Jesus de Nazaré como ser humano e como 
judeu. Marcião negava que Cristo era verdadeiramente humano, mas quan­
to ao seu corpo, não se sabe se na opinião dele era apenas uma aparência ou 
de substância etérea.
1 1 WALKER, W. História da Igreja Cristã, vols. I e II, 2a ed. Rio de Janeiro: Juerp/Aste, 1980, pp. 82, 83.
c a p í t u l o 3 • A ENCARNAÇÃO DO VERBO
A resposta da patrística
Os pais da igreja rebateram as heresias gnósticas, a repulsa deles contra os 
heresiarcas era muito forte. Irineu de Lião foi o principal expositor cristão que 
combateu o gnosticismo em sua obra Adversus Haereses [Contra as Heresias]. 
Ele foi discípulo de Policarpo, e este, do apóstolo João. Tomou-se bispo de Lião, 
Gália, atual França, em 177, sendo 0 teólogo que mais se destacou dentre os 
demais pais da igreja do século II. Irineu conta que o apostolo João, nas termas, 
notou a presença de Cerinto e precipitou para a saída, pois no seu interior se 
encontrava “0 inimigo da verdade”.12 Esse relato é confirmado mais tarde pelo 
historiador da Igreja, Eusébio de Cesareia (História. Eclesiástica, Livro 3.XX- 
VIII). Irineu relata ainda que, um dia, Marcião se aproximou de Policarpo e o 
saudou dizendo: “prazer em conhecê-lo” e a resposta de Policarpo foi: “Eu te 
conheço como o primogênito de Satã” (Contra as heresias, Livro m.3,4).
Tertuliano de Cartago, uma cidade do Norte da África, advogado roma­
no de formação intelectual estoica e convertido ao cristianismo, tornou-se 
conhecido como o “Pai do cristianismo latino”. Ele refutou diversas heresias 
e, entre elas, o gnosticismo em Contra Marcião, Contra Valentino. Hipolito 
de Roma (170-236), discípulo de Irineu, combateu o gnosticismo bem como 
outras heresias em Refutação a todas as Heresias.
A AFIRMAÇÃO APOSTÓLICA DA CORPOREIDADE DE JESUS
O prólogo do Evangelho de João declara com todas as letras que “0 Ver­
bo se fez carne e habitou entre nós [...] e vimos a sua glória” (Jo 1.14). Como 
homem o Verbo recebeu um nome e seu nome completo é: “Senhor Jesus 
Cristo”, além de inúmeros títulos.
0 Senhor Jesus Cristo
Senhor. O nome “Senhor” fala da divindade de Jesus. A Septuaginta tradu­
ziu milhares de vezes os nomes Adhonay e Yahweh pelo nome grego Kyrios, 
que traduzimos como “Senhor”, um nome divino. Dizer: “César é Senhor”, 
seria reconhecer a divindade dele. Era por isso que os cristãos primitivos 
recusavam chamar a César de Senhor. O apóstolo Paulo disse: e ninguém 
pode dizer que Jesus é o Senhor, senão pelo Espirito Santo (1 Co 12.3
12 CESAREIA, Eusébio de. História Eclesiástica. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p. 107.
EM DEFESA DA FÉ CRISTÃ
ARC). A salvação humana depende dessa confissão de reconhecimento da 
divindade de Jesus: “Se com a boca você confessar Jesus como Senhor e em 
seu coração crer que Deus o ressuscitou dentre os mortos, você será salvo” 
(Rm 10.9). Portanto, o nome grego Kyrios é 0 correspondente dos nomes 
hebraicos Adhonay e Yahweh, e é usado tanto para o Pai como para 0 Filho.
Jesus. Era um dos nomes judaicos mais comuns em Israel no período do Novo 
Testamento. O erudito e pesquisador judeu da vida de Jesus, Dr. David Flus- 
ser, afirma que o historiador Flávio Josefo menciona “vinte homens com este 
nome”, a começar por Josué, filho de Num, o sucessor de Moisés.13 O nome 
Jesus, yeshu’â, significa “salvação”, e provém do hebraico yehôshu’â, “Josué”, o 
significado é “Iavé é salvação”. Josué era chamado de hôshêa bin nün, “Oseias 
filho de Num” (Nm 13.8; Dt 32.44). Hôshêa significa “salvação”. Moisés mudou 
seu nome para yehôshu’â bin nün “Josué filho de Num” (Nm 13.16).
Cristo. Messias e Cristo são palavras idênticas. Só que Messias é palavra 
hebraica e Cristo é palavra grega: “Achamos 0 Messias! (‘Messias’ quer dizer 
‘Cristo’)” - (Jo 1.41); “Eu sei que virá 0 Messias, chamado Cristo” (Jo 4.25). 
Ambas significam “0 Ungido”. Jesus é o Salvador Ungido, 0 único que pode 
salvar os pecadores (At 4.12; Tt 2.13).
Diante dessas explicações, fica cada vez mais clara a inconsistência de 
algumas escolas gnósticas que afirma que Jesus seria uma referência à sua 
humanidade, e Cristo, à sua divindade - a doutrina docética. O apóstolo 
João enfatiza que está anunciando o que viu e ouviu, um fato histórico, so­
bre um Jesus histórico, que veio em carne. 0 apóstolo chama

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