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AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Edivaldo Casarini 3 1 INTRODUÇÃO À AGRICULTURA SUSTENTÁVEL Segundo Rubens Rizek Jr., Agricultura e meio ambiente precisam caminhar juntos. Essa é a máxima da qual não podemos nos desvencilhar. Com o crescimento populacional e o aumento da demanda por alimentos e outros recursos naturais, a agricultura sustentável torna-se um tema que merece destaque na política ambiental. Agricultura sustentável envolve, de acordo com a FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação), fatores como conservação do solo, da água e dos recursos genéticos animais e vegetais, conservação ambiental e uso de técnicas apropriadas, economicamente viáveis e socialmente aceitáveis (SÃO PAULO, 2014). No Brasil, apesar das questões de desmatamento e o não cumprimento das leis ambientais por parte de alguns empresários rurais, o setor agrícola está cada vez mais atento. Isso acontece, seja porque o setor percebeu que, com o tempo, as técnicas convencionais de agricultura intensiva provaram ser ambientalmente insustentáveis, seja porque a própria população tem se tornado mais consciente da importância de consumir alimentos sustentáveis e saudáveis. O Brasil progrediu muito ao longo desses anos nas questões ambientais, as leis ficaram mais rígidas para os proprietários agrícolas. Isto fez com que o Brasil se tornasse uma referência na proteção de sua fauna e flora. Neste sentido, o Brasil ainda há muito por fazer para que seja cumprida as leis ambientais, principalmente nas áreas mais remotas, dada ao seu tamanho continental. 1.1 Histórico e Evolução do Pensamento Ecológico Segundo Kamiyama (2011, p. 10-11), As primeiras formas de agricultura surgiram em torno de 10 mil anos atrás, no período da pré-história denominado NEOLÍTICO. Nesse período, ocorreram as primeiras formas de domesticação de espécies de vegetais e animais e o clima foi se tornando mais ameno e adequado ao cultivo de alimentos. O uso de técnicas, mesmo que inicialmente rudimentares, passou a fazer parte do cotidiano dos primeiros aglomerados humanos. Destaca-se o uso do fogo e de algumas ferramentas, assim como do esterco animal. 4 Entre os anos de 8 mil e 6 mil a.C., a agricultura foi se desenvolvendo de forma diferente e independente nas diversas partes do mundo, provavelmente nos vales fluviais habitados por antigas civilizações. O ser humano não necessitava mais coletar seu alimento na natureza (frutos, raízes e folhas). No Oriente Médio e na Europa desenvolveu-se, principalmente, o trigo e a cevada; no continente americano, o milho, o feijão e a batata; na Ásia, o arroz. As principais características deste período são: • A domesticação de espécies animais (...) e vegetais (...) e o aumento na produção de alimentos; Há também o surgimento das primeiras comunidades formando as aldeias, vilas e, posteriormente, cidades, início das trocas dos excedentes produzidos nas comunidades. Além disto, o desenvolvimento destes povos ocorreu próximo de rios e lagos, assumindo a função de irrigar os solos para produção de alimentos (KAMIYAMA, 2011). No século 18 ocorreu a primeira Revolução Agrícola surgindo assim a agricultura moderna com produção em maior escala, mas mantendo algumas características do passado como integração da produção agrícola e pecuária, domínio sobre técnicas em maior escala aumento do uso da rotação de culturas com plantas forrageiras (KAMIYAMA, 2011). Ainda conforme Kamiyama (2011, p. 11), a segunda Revolução Agrícola iniciou-se em meados do século 19 com uma série de descobertas científicas e avanços tecnológicos, como por exemplo: • O melhoramento genético das plantas e o uso de fertilizantes químicos; • O distanciamento da produção vegetal, da produção animal; e • A prática da monocultura. Aliadas a outras práticas agrícolas, como o uso de variedades melhoradas, irrigação, uso intensivo de insumos industriais, sobretudo os fertilizantes químicos e os agrotóxicos, e uso intensivo de máquinas agrícolas no preparo do solo caracterizaram a chamada “Revolução Verde”. Este modelo produtivo que vem sendo praticado nas últimas décadas é, também, chamado de agricultura convencional (Figura 1.1). 5 Figura 1.1. Cultura de soja irrigada com sistema de pivô central. De acordo com Kamiyama (2011, p. 12-13), A Revolução Verde teve seus méritos: aumentou a produção mundial de alimentos e diminuiu os custos de produção (benefícios repassados aos consumidores). Contudo, os resultados ambientais e sociais não foram os melhores: • Degradação dos solos pela ocorrência de erosão, acidificação, salinização e compactação; • Desmatamentos ilegais; • Erosão genética e perda da biodiversidade (...), • Contaminação da água, solos e dos alimentos pelo uso inadequado de adubos e químicos e agrotóxicos; • Intoxicação de agricultores, trabalhadores rurais e consumidores pelo uso indevido de agrotóxicos; • Aparecimento de novas pragas e surgimento de pragas resistentes; • Concentração de renda e exclusão social. Em resposta a esses impactos, surgiram diversos movimentos em prol de uma agricultura mais sustentável, ambiental e socialmente. Os diversos movimentos, cada um com suas especificidades, se voltaram para práticas agrícolas que respeitavam os recursos naturais e o conhecimento tradicional. Podemos destacar os movimentos orgânico, biodinâmico, natural, regenerativo, permacultura, dentre outros. 6 As discussões sobre os impactos ambientais e sociais da agricultura convencional, em meados dos anos 80, juntaram-se às questões ambientais globais (destruição de florestas, chuvas ácidas, acidentes ambientais, efeito estufa), saindo do ambiente agronômico e das instituições e atingindo os consumidores. Preocupados com a qualidade dos produtos que estão ingerindo e os danos ambientais causados pelo modelo convencional agrícola, os consumidores passaram a interferir no sistema de produção, por meio da demanda por produtos saudáveis, que fossem produzidos respeitando o meio ambiente e a saúde dos trabalhadores. Surgiu, então, o termo “agricultura sustentável”. Neste contexto, o Relatório de Brundtland foi fundamental para que o conceito de sustentabilidade, antes restrito a outros ramos da economia, fosse estendido para a agricultura. Também intitulado “Nosso Futuro Comum”, foi elaborado em 1987 pela CMMAD - Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento e aponta para a incompatibilidade entre desenvolvimento sustentável e os padrões de produção e consumo vigentes. 1.2 Desenvolvimento sustentável De acordo com o explanado anteriormente. Junto com todas as mudanças requisitadas pela sociedade, iniciou-se um movimento em que todo crescimento fosse de forma sustentável. Neste sentido houve a necessidade de um equilíbrio entre vários setores, social, institucional, cultural e ambiental para que todos os pontos citados sejam integrados gerando um equilíbrio com a finalidade de alcançar o desenvolvimento sustentável. Uma das mais elaboradas definições surgiu do Relatório de Brundtland (1987) que define como sendo o desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem suas próprias necessidades, ou seja, possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo um uso razoável dos recursos da terra e, ao mesmo tempo, preservando as espécies e os habitats naturais (NAÇÕES UNIDAS, 1987). Segundo Santos e Cândido (2013), Entre as variáveis que mantêm relação com a temática do desenvolvimento sustentável, destaca-se a agricultura, haja vista que, é a atividade que o homem tem relação direta com alguns recursos naturais. 7 A agricultura alimentao mundo, mas depende de recursos naturais vitais para produzir grandes quantidades a fim de satisfazer a demanda. Assim, é visível a importância de alcançar a sustentabilidade da agricultura, visto que as atividades agrícolas responsáveis pela obtenção de alimento sempre exerceram grande pressão sobre o meio ambiente. O fato é que o uso inadequado dos recursos naturais tem promovido intensa degradação ambiental, visto que levam a destruição de hábitat e de espécies potencialmente úteis para a sobrevivência do planeta. A constatação dessa realidade deve ser discutida com o intuito de encontrar possíveis caminhos para reverter e/ou minorar tal impasse. 1.3 Agricultura sustentável Segundo Villas Bôas (2010, p. 3), A produção agrícola de alimentos e biocombustível deverá aumentar em 70% para atender à demanda global da população estimada em 9,1 bilhões de pessoas até 2050, segundo a FAO. Para que isso ocorra, há a necessidade de um aumento significativo no fornecimento de energia e água (...). A disponibilidade desses recursos depende da contínua provisão de serviços ecossistêmicos, como clima equilibrado e ciclos hidrológicos saudáveis. No entanto, cientistas atestam que 60% dos ecossistemas do mundo têm sido degradados ou utilizados de forma não sustentável. Muitos serviços ecossistêmicos se deterioraram em consequência de ações voltadas ao fornecimento de outros serviços, como exemplo a própria produção de alimentos. Dessa forma, é crucial que a intensificação e a expansão agropecuária ocorram de forma sustentável, assegurando a conservação dos recursos naturais. Já o site Pensamento Verde (2013) afirma que Segundo a EMBRAPA – Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, a agricultura brasileira tem avançado de forma segura rumo à sustentabilidade ao longo das últimas décadas. O país tem feito o uso de alternativas de produção sustentável como Agricultura Orgânica, a Produção Integrada Agropecuária, a Produção Agroflorestal e a Integração Lavoura- Pecuária-Floresta (ILPF). O Brasil é o quarto maior produtor orgânico do mundo. Embora não produza em grande escala, sua produção tem aumentado cerca de 20% ao ano segundo dados da EMBRAPA. Contraditoriamente, avançam também as monoculturas de soja e cana-de- açúcar para a produção dos combustíveis renováveis, o que reduz o consumo de derivados fósseis, mas por outro lado empobrece o solo. 8 De acordo com a National Research Council (NCR, 1989 apud KAMIYAMA, 2011), A agricultura sustentável não constitui algum conjunto de práticas especiais, mas sim um objetivo: alcançar um sistema produtivo de alimento e fibras que: (a) aumente a produtividade dos recursos naturais e dos sistemas agrícolas, permitindo que os produtores respondam aos níveis de demanda engendrados pelo crescimento populacional e pelo desenvolvimento econômico; (b) produza alimentos sadios, integrais e nutritivos que permitam o bem-estar humano; (c) garanta uma renda líquida suficiente para que os agricultores tenham um nível de vida aceitável e possam investir no aumento da produtividade do solo, da água e de outros recursos; e (d) corresponda às normas e expectativas da comunidade. Outra definição é dada pela FAO onde, Agricultura sustentável é o manejo e a conservação da base de recursos naturais e a orientação tecnológica e institucional, de maneira a assegurar a obtenção e a satisfação contínua das necessidades humanas para as gerações presentes e futuras. Tal desenvolvimento sustentável (agricultura, exploração florestal e pesca) resulta na conservação do solo, da água e dos recursos genéticos animais e vegetais, além de não degradar o ambiente, ser tecnicamente apropriado, economicamente viável e socialmente aceitável (EHLERS, 1999 apud KAMIYAMA, 2011). De um modo geral, apesar das inúmeras definições existentes e de não haver um consenso em função da complexidade, as duas definições acima são as mais aceitas internacionalmente. A agricultura de hoje, onde a demanda por alimentos cresce vertiginosamente, a adoção de uma agricultura sustentável por parte dos produtores visa estabelecer um novo padrão produtivo aliando a produtividade das culturas e preservando os recursos naturais. Além disto, há a necessidade de enfatizar que o conceito da sustentabilidade é muito utilizado nas áreas da economia e que muitas vezes os conceitos de sustentabilidade aplicados aos recursos naturais e desenvolvimento econômico são antagônicos. Muitos pesquisadores com grandes trabalhos na área da ecologia e sustentabilidade no Brasil deixaram suas marcas contestando o modelo de agricultura realizada. Com isto, diversos trabalhos de pesquisas foram desenvolvidos relacionando esse modelo com problemas sociais, ecológicos e econômicos da agricultura convencional. Isto despertou a opinião pública para as questões ambientais fortalecendo o movimento agroecológico no país. 9 1.4 Agroecologia Kamiyama (2011, p. 26-27) afirma que O termo “agroecologia” é geralmente empregado para designar a incorporação de ideias ambientais e sociais aos sistemas de produção. No Brasil, o termo “agroecológico” ou “agricultura agroecológica” é algumas vezes empregado para designar um segmento da agricultura sustentável, que tem foco nos aspectos sociais da produção, como se fossem um grupo à parte do movimento orgânico crescente no país. Mas, o seu significado é mais amplo, constituindo-se em uma nova abordagem da agricultura, que integra as diversas descobertas e estudos da natureza e suas inter-relações aos aspectos econômicos, sociais e ambientais da produção de alimentos. De forma resumida, podemos dizer que a Agroecologia é a base, o alicerce, onde foram construídas as principais vertentes ou “correntes” de uma agricultura sustentável, como: • Agricultura Orgânica ou Biológica; • Agricultura Biodinâmica; • Agricultura Natural e • Permacultura. (...) A agricultura orgânica é a linha mais difundida da agroecologia. (...) Sua base técnica está na manutenção da fertilidade do solo e da saúde das plantas por meio da adoção de boas práticas agrícolas, como a diversificação e rotação de culturas, adubação orgânica, manejo ecológico de pragas e doenças e a preservação ambiental. De acordo com a Lei Federal nº 10.831, de 23 de dezembro 2003: “Considera-se sistema orgânico de produção agropecuária todo aquele em que se adotam técnicas específicas, mediante a otimização do uso dos recursos naturais e socioeconômicos disponíveis e o respeito à integridade cultural das comunidades rurais, tendo por objetivo a sustentabilidade econômica e ecológica; a maximização dos benefícios sociais; a minimização da dependência de energia não renovável, empregando, sempre que possível, métodos culturais, biológicos e mecânicos, em contraposição ao uso de materiais sintéticos; e a eliminação do uso de organismos geneticamente modificados e radiações ionizantes, em qualquer fase do processo de produção, processamento, armazenamento, distribuição e comercialização, e a proteção do meio ambiente”. 1.5 Sistema orgânico x convencional Kamiyama (2011, p. 27) diz que “A agricultura orgânica é um sistema de produção que se contrapõe ao sistema convencional. A Tabela [1.1] destaca as principais diferenças entre os dois sistemas de produção”. 10 Tabela 1.1 – Principais diferenças entre sistema convencional e orgânico. INDICADORES CONVENCIONAL ORGÂNICO Manejo do Solo Degradação ambiental por práticas inadequadas: • Monocultura • Uso intensivo de máquinas e implementos agrícolas • Baixa cobertura do solo Preservação ambiental por uso de boas práticas agrícolas: • Maior diversidade de uso do solo • Uso racional de máquinas e implementos Boa cobertura do solo Pragas e Doenças Medidas de controle: • Uso intensivo de agrotóxicos • Favorecimento de novas espécies de pragas e doenças. • Eliminação dos inimigos naturaisdas pragas pelo uso inadequado de agrotóxicos. • Uso de medidas preventivas Manejo ecológico de pragas e doenças. Quando necessário, utilização de produtos não contaminantes. Adubação Uso intensivo de adubos químicos Uso de adubos orgânicos (composto, esterco, adubo verde). Número de Espécies ou Variedades (plantas e animais) Plantas e animais selecionados para altos rendimentos Uso de variedades e espécies mais resistentes e adaptadas ao ambiente da produção Sustentabilidade Alta dependência externa de insumos e de energia não renovável Busca a autossustentabilidade dos sistemas de produção Riscos de Contaminação • Contaminação de trabalhadores rurais e consumidores por usos indevidos de agrotóxicos. • Contaminação ambiental • Produção de alimentos livres de contaminação por agrotóxicos. Preservação ambiental Impacto sobre recursos hídricos Maior impacto Menor impacto Fonte: KAMIYAMA, 2011, p. 28. 11 Segundo Kamiyama (2011), diversos estudos comparando os dois sistemas de produção foram realizados e confirmou-se o melhor desempenho na produção dos produtos orgânicos ao longo dos anos quando comparado ao sistema convencional. A autora destacou um estudo realizado por um período de 22 anos por David Pimentel, da Universidade de Cornell, Estados Unidos, comparando o cultivo orgânico de soja e milho com o método convencional. Nesse estudo, foram avaliados seus custos e benefícios ambientais, energéticos e econômicos, concluindo-se que: 1. O cultivo orgânico utiliza em média de 30% menos energia fóssil; conserva mais água no solo; induz menos erosão; mantém a qualidade do solo e conserva mais recursos biológicos do que a agricultura convencional. 2. Ao longo do tempo os sistemas orgânicos produziram mais; principalmente em condições de seca. 3. A erosão degradou o solo na fazenda convencional, enquanto que o solo das fazendas orgânicas melhorou continuamente em termos de matéria orgânica, umidade, atividade microbiana e outros indicadores de qualidade. 12 REFERÊNCIAS AGRICULTURA sustentável brasileira. Pensamento Verde, 7 maio 2013. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2019. BRASIL. Ministério da Agricultura, Agropecuária e Abastecimento. Lei n. 10.831, de 23 de dezembro de 2003. Dispõe sobre a agricultura orgânica e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, p.8, 24 dez. 2003. Seção 1. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2019. CAVEDON, A.D.; SHINZATO, E. Capacidade de uso da terra. In: CAVEDON, A. D., SHINZATO, E., JACQUES, P.D. Projeto Porto Seguro-Santa Cruz Cabrália: levantamento de reconhecimento de solos, capacidade de uso das terras e uso do solo e cobertura vegetal. Salvador: CPRM/SA, 2000. v. 4; 94 p. : il. ; mapas. Disponível em: . Acesso em: 28 jun. 2019. DRUGOWICH, M. I. (coord.) Boas práticas em conservação do solo e da água. Campinas: CATI, 2014. (Manual Técnico, 81). Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2019. KAMIYAMA, Araci. Agricultura sustentável. São Paulo: SMA, 2011. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2019. NAÇÕES UNIDAS. Report World Comission on Environment and Development: our common future. 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