Prévia do material em texto
TEORIA GERAL DO CRIME ÍNDICE 1. CONCEITO DE CRIME .........................................................................................................4 Conceito de Crime ...............................................................................................................................................................4 2. TEORIA TRIPARTITE ..........................................................................................................7 Teoria Tripartida ......................................................................................................................................................................7 3. TIPICIDADE (ELEMENTOS) ............................................................................................10 Elementos do fato típico ................................................................................................................................................. 10 4. CONDUTA ...........................................................................................................................11 Conceito .................................................................................................................................................................................. 11 Consequências ................................................................................................................................................................ 11 Formas de conduta ............................................................................................................................................................ 11 5. RESULTADO, NEXO CAUSAL E TIPICIDADE ................................................................13 Resultado ............................................................................................................................................................................... 13 Relação de causalidade................................................................................................................................................... 13 6. DOLO E CULPA ..................................................................................................................15 Dolo .......................................................................................................................................................................................... 15 Culpa........................................................................................................................................................................................ 16 7. EXCLUDENTES DA TIPICIDADE ..................................................................................... 17 Princípio da insignificância .............................................................................................................................................17 Erro de tipo ............................................................................................................................................................................ 19 Crime Impossível ................................................................................................................................................................ 19 8. ANTIJURIDICIDADE OU ILICITUDE ..............................................................................21 Conceito e Classificações ................................................................................................................................................21 Excludentes de ilicitude ...................................................................................................................................................21 1. Estado de Necessidade ...............................................................................................................................................22 2. Exercício Regular do Direito .....................................................................................................................................23 3. Estrito cumprimento do dever legal ......................................................................................................................23 4. Legítima Defesa .............................................................................................................................................................23 9. CULPABILIDADE ............................................................................................................. 25 Introdução e Conceito .....................................................................................................................................................25 1. Imputabilidade .................................................................................................................................................................25 2. Potencial Consciência da Ilicitude .........................................................................................................................27 3. Exigibilidade de conduta diversa ............................................................................................................................27 www.trilhante.com.br 4 1. Conceito de Crime Conceito de Crime O crime pode ser conceituado levando em consideração 3 aspectos: material, legal e formal (analítico). CONCEITO MATERIAL OU SUBSTANCIAL Crime é toda ação ou omissão humana que leva ou expõe a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. Essa conceituação leva em conta a relevância do mal produzido, servindo como fator de legitimação do Direito Penal em um Estado Democrático de Direito, ou seja, não basta uma lei para qualquer conduta ser considerada penalmente ilícita. CONCEITO LEGISLATIVO Crime é aquilo que a lei define como tal Vejamos a Lei de Introdução ao Código Penal e da Lei de Contravenções Penais Art. 1º Considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou de detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração penal a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente. Ou seja, quando existir pena de reclusão ou detenção, existirá crime. Se existir pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, existirá contravenção penal. CONCEITO LEGAL DO CRIME E ART. 28 DA LEI N. 11/343/2006 (LEI DE DROGAS) Se todo crime exige a cominação de uma pena de detenção ou reclusão, como fica a conduta de porte de droga para uso pessoal? Art. 28, Lei de Drogas. Quem adquirir, guardar, tiver em depósito, transportar ou trouxer consigo, para consumo pessoal, drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar será submetido às seguintes penas: I - advertência sobre os efeitos das drogas; II - prestação de serviços à comunidade; III - medida educativa de comparecimento a programa ou curso educativo. Para o STF não houve descriminalização da conduta prevista no art. 28, mas sim, a despenalização em face da supressão da pena privativa de liberdade. Concluindo que, a Lei www.trilhante.com.br 5 de Introdução ao Código Penal criou um conceito genérico de crime aplicável sempre que não existir disposição especial em sentido contrário, como é o caso do art. 28, da Lei de Drogas, que criou uma nova definição exclusivamente para o crime de posse de droga para consumo pessoal (conceito específico). CONCEITO FORMAL, ANALÍTICO OU DOGMÁTICO Esse conceito baseia-se nos elementos que compõem a estrutura do crime. Basileu Garcia adotava a posição quadripartida, ou seja, que o crime seria composto por quatro elementos: fato típico, conduta, ilicitude, culpabilidade e punibilidade. Contudo, essa posição é minoritária, tendo em vista que, a punibilidade não é elemento do crime e sim, consequência. Já a posição tripartida sustenta que o crime é composto por três elementos, quais sejam: fatotípico, ilicitude e culpabilidade. Posição essa adotada por Nelson Hungria, por exemplo. Por sua vez, Damásio E. de Jesus e Mirabete entendem que o crime é composto por fato típico e ilícito, sendo essa, a posição bipartida, pois entendem que a culpabilidade é um pressuposto da aplicação da pena. Mas qual seria o critério adotado pelo Código Penal? Não há uma resposta segura, mas adotaremos a teoria tripartida. INFRAÇÃO PENAL, DELITO, CRIME E CONTRAVENÇÃO PENAL Crime e contravenção penal são espécies do gênero infração penal, que ainda se divide em delito. Crime e delito se equivalem, contudo, em algumas situações a Constituição Federal e a legislação ordinária utilizam a palavra delito, de forma inapropriada, como sinônimo de infração penal, como acontece no art. 5º, XI, da CF e nos arts. 301 e 302, do Código de Processo Penal. Crime Contravenção Penal Pena Pena de reclusão ou detenção, isolada, alternativa ou cumulativamente com pena de multa. Pena de prisão simples ou multa, isolada ou cumulativamente. Aplicação da lei penal A lei penal brasileira é aplicada, em regra, aos crimes cometidos no território nacional (art. 5º, caput, CP) e a diversos crimes praticados no estrangeiro, em razão da sua extraterritorialidade (art. 7º, CP) A lei penal brasileira somente incide às contravenções penais praticamente no território nacional (art. 2º, LCP) Tentativa É punível a tentativa (art. 14, II, CP) Não se pune a tentativa (art. 4º, LCP) www.trilhante.com.br 6 Crime Contravenção Penal Elemento subjetivo Os crimes podem ser dolosos, culposos ou preterdolosos (arts. 18 e 19, ambos do CP) Basta a ação ou omissão voluntária (art. 3º, LCP) Culpabilidade São compatíveis com o erro de tipo (art. 20, CP) e com o erro de proibição (art. 21, CP) Admite somente a ignorância ou errada compreensão da lei, se escusáveis (art. 8º, LCP) Tempo de cumprimento das penas As penas privativas de liberdade não podem ser superiores a 30 anos (art. 75, CP) A duração da prisão simples não pode, em nenhum caso, ser superior a 5 anos Período de prova do sursis Varia entre 2 a 4 anos e, excepcionalmente, de 4 a 6 anos (art. 77, caput e §2º, CP) De 1 a 3 anos (art. 16, LCP) Prazo mínimo das medidas de segurança De 1 a 3 anos (art. 97, §1º, CP) 06 meses (art. 16, LCP) Ação penal Pode ser: - pública incondicionada - pública condicionada - privada (art. 100, CP) A ação é pública incondicionada (art. 17, LCP) www.trilhante.com.br 7 2. Teoria Tripartite Teoria Tripartida Para que alguém sofrer uma pena, existirá a necessidade de um processo penal que apure a prática de uma infração penal. Na corrente majoritária da doutrina e pelo modo como o Código Penal é estruturado, crime é fato típico, ilícito e culpável. TIPICIDADE Tipicidade é elemento do fato típico, dividindo-se em formal e material. A presença da tipicidade formal e da tipicidade material caracteriza TIPICIDADE FORMAL A tipicidade formal é o juízo de subsunção entre a conduta praticada pelo agente e o modelo descrito pelo tipo penal. Por exemplo, o ato de matar alguém tem amparo no crime previsto no art. 121, do Código Penal. TIPICIDADE MATERIAL A tipicidade material (substancial) é a lesão ou o perigo de lesão ao bem jurídico penalmente tutelado em razão da pratica da conduta legalmente prevista. Por exemplo, roubar lesiona o patrimônio, bem jurídico tutelado penalmente. CAUSAS EXCLUDENTES DE TIPICIDADE Exemplos: princípio da insignificância, erro de tipo, violência física irresistível, adequação social e outros. ILICITUDE A ilicitude é a contrariedade entre o fato típico praticado por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. O ilícito pode ser formal ou material. A ilicitude formal é a mera contradição entre o fato praticado pelo agente e o sistema jurídico em vigor. A ilicitude material é o conteúdo material do injusto, a substância da ilicitude. www.trilhante.com.br 8 CAUSAS EXCLUDENTES GENÉRICAS DA ILICITUDE As causas excludentes genéricas da ilicitude estão previstas na Parte Geral do Código Penal, aplicando-se para qualquer infração penal. Art. 23. Não há crime quando o agente pratica o fato: I - em estado de necessidade II - em legítima defesa; III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. CAUSAS EXCLUDENTES ESPECÍFICAS DA ILICITUDE (CÓDIGO PENAL E LEGISLAÇÃO EXTRAVAGANTE) As causas excludentes específicas de ilicitude podem ser definidas como aquelas previstas na Parte Especial do Código Penal e na Legislação Especial, com a aplicação unicamente a determinados crimes, como é o caso do exemplo a seguir: Art. 128 - Não se pune o aborto praticado por médico: Aborto necessário I - se não há outro meio de salvar a vida da gestante; Aborto no caso de gravidez resultante de estupro II - se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal. CULPABILIDADE Culpabilidade é o juízo de censura, o juízo de reprovabilidade que incide sobre a formação e a exteriorização da vontade do responsável por um fato típico e ilícito, com o propósito de aferir a necessidade de imposição da pena. Vejamos na tabela abaixo o que exclui a culpabilidade. Excludentes Potencial consciência da ilicitude Inexigibilidade de conduta diversa www.trilhante.com.br 9 Exigibilidade de Conduta Diversa - Coação moral irresistível - Obediência hierárquica de ordem não manifestamente legal Imputabilidade - Menoridade - Alguns casos de doença mental - Embriaguez completa causa por caso fortuito ou força maior www.trilhante.com.br 10 3. Tipicidade (Elementos) Elementos do fato típico São elementos do fato típico: 1. Conduta 2. Resultado naturalístico 3. Relação de causalidade 4. Tipicidade CRIMES MATERIAIS E ELEMENTOS São chamados materiais aqueles crimes que têm resultado naturalístico. Dessa forma, são crimes que apresentam os quatro elementos. CRIMES TENTADOS, FORMAIS OU DE MERA CONDUTA E ELEMENTOS Para os crimes tentados, formais ou de mera conduta, o fato típico somente terá presente a conduta e a tipicidade. Nos crimes formais, o tipo penal contém a conduta e resultado naturalístico, mas dispensa este último para a sua consumação. Exemplo: extorsão mediante sequestro. Nos crimes de mera conduta, o tipo penal se limita a descrever uma simples conduta, não havendo resultado naturalístico. Exemplo: crime de ato obsceno. No crime tentado, iniciada a execução, não se consuma por razões alheias à vontade do agente. Art. 14. Diz-se o crime: (...) II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. www.trilhante.com.br 11 4. Conduta Conceito Segundo a posição finalista, conduta é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dirigida a um fim, consistente em produzir um resultado tipificado em lei como crime ou contravenção penal. Consequências QUEM PODE PRATICAR A CONDUTA? Apenas seres humanos podem praticar condutas penalmente relevantes. É possível contudo admitir a prática de crimes no caso de crimes ambientais, por previsão expressa da lei de crimes ambientais. Por isso, estão excluídas condutas de outros seres vivos que não são humanos, como animais, por exemplo. É possível contudo que o animal seja utilizado como instrumento do crime, como é o caso de um ataque de cão provocado por um humano. CONDUTA DOLOSA E CULPOSA A conduta penalmente relevante deve ser aquela produzida por um ser humano, agindo com dolo ou culpa. Estudaremos mais à frente o que é considerado dolo e culpa. Formas de conduta O Código Penal, quando tipifica os crimes, faz isso por uma importante razão: para proteger bens jurídicos (vida, integridade física, patrimônio, coisa pública, etc). Existem bens jurídicos que são protegidosatravés de tipos penais proibitivos, onde o legislador lança o comando de não fazer. Por exemplo, o tipo do crime de homicídio traz o comando “não matar”. A conduta que infringe essa vedação, portanto, é uma conduta comissiva, isto é, uma ação. Por outro lado, existem tipos que exigem a proteção de bens jurídicos por meio de ações. São chamados tipos mandamentais, pois eles literalmente “mandam o indivíduo agir para evitar a lesão ao bem jurídico”. Esses são crimes chamados de omissivos, pois a inação do indivíduo gera uma lesão punível. Por exemplo, na omissão de socorro, o comando geral da norma é “preste socorro, ou aja de algum modo para tentar impedir o resultado”. A omissão, a não ação, podendo o indivíduo agir, gera a responsabilização penal. O crime omissivo se divide em dois: Crime omissivo próprio e crime omissivo impróprio. A professora Patrícia Vanzolini faz as diferenciações em seu livro, a partir das informações que compilamos na tabela abaixo. www.trilhante.com.br 12 Crime Omissivo Próprio Crime Omissivo Impróprio Violação de normas mandamentais. Violação de normas proibitivas. Tipificação expressa no CP Construção doutrinária realizada a partir da combinação de um tipo comissivo com a regra da parte geral (posição de garante). Violação de um dever geral de atuar Violação de um dever especial de evitar o resultado. Não exige posição de garante Exige a posição de garante Na Omissão Própria, a inação está descrita como crime no próprio tipo penal. O descumprimento do dever, portanto, faz a pessoa incorrer em um crime próprio (no sentido de “independente”, e não de crime somente praticável por um tipo de agente). Exemplo.: Omissão de socorro. Na Omissão Imprópria, por sua vez, o agente guarda íntima relação com a vítima, e um dever de garantir sua integridade. A omissão do agente descumpre o dever jurídico de agir, acarretando sua responsabilidade penal em razão da produção do resultado naturalístico. Por exemplo, no caso de um pai que deixa de alimentar seu filho. NEXO DE CAUSALIDADE Só é possível imputar um crime a uma pessoa se o resultado decorreu da ação ou omissão do agente. Esse é o chamado nexo de causalidade, ou relação de causalidade. Art. 13. O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Veremos com mais profundidade esse tema na aula seguinte. www.trilhante.com.br 13 5. Resultado, Nexo Causal e Tipicidade Resultado O Resultado pode ser entendido como a consequência provocada pela conduta do agente, que pode ser dividido em: • Resultado Jurídico: É a violação da norma penal, que ofende o bem jurídico tutelado. Todo crime necessariamente tem resultado jurídico. • Resultado Naturalístico: É a modificação do mundo exterior. Aqui, nem todo crime tem, pois é possível que ele seja de mera conduta. Relação de causalidade A relação de causalidade, ou nexo de causalidade, é a ligação entre a conduta e o resultado naturalístico. TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS ANTECEDENTES Para essa teoria, causa é todo fato humano sem o qual o resultado não teria ocorrido, quando ocorreu e como ocorreu. Essa é a teoria adotada para explicar a relação de causalidade. Essa teoria é limitada pela causalidade psíquica. Ou seja, não basta que o elemento tenha dado causa ao que levou ao crime, mas é preciso que o elemento tenha a intenção psíquica de causar a conduta. Ex.: O vendedor de armas legalizadas não dá causa se vender a arma a quem tem a licença, a não ser que saiba que o indivíduo quer cometer o crime e venda com a intenção de que ele alcance o resultado. CONCAUSAS Quando temos essa figura do agente que concorre para a causa, falamos que sobre a situação houve interferência de “concausas”, ou seja, causas que concorrem para o atingimento do resultado. E como esse agente que concorre é punido? Para sabermos como ocorre a punição, precisamos analisar se a causa externa ao agente ocorreu antes, durante ou depois da prática do ato típico. Além disso, precisamos analisar se o resultado se deu por causa dessa concausa ou se ele se deu, por si só, em razão da prática criminosa do agente. www.trilhante.com.br 14 Concausas absolutamente independentes São aquelas que geram o resultado independente da ação do agente, sendo totalmente desvinculadas dessa conduta. Ex.: atirar em alguém que teve uma parada cardíaca segundos antes. Responde pelo crime tentado Concausas relativamente independentes São aquelas que não têm capacidade de gerar por si só o resultado, mantendo alguma relação com a conduta. Ex.: atirar em alguém em partes não vitais, motivo pelo qual a pessoa vai ao hospital e momentos antes da alta pega uma infecção hospitalar e morre. Se essa causa externa for anterior ou concomitante à conduta criminosa, o agente responde pelo crime tentado. Se a causa externa for posterior, é preciso avaliar se ela causou por si só o resultado ou não. Se sim, responderá por crime tentado. Se não, responderá por crime consumado. TIPICIDADE A tipicidade é a adequação do fato com o tipo penal descrito na lei. A tipicidade pode ser formal ou material. • Formal: A tipicidade formal é o juízo de subsunção entre a conduta praticada pelo agente e o modelo descrito pelo tipo penal. Por exemplo, o ato de matar alguém tem amparo no crime previsto no art. 121, do Código Penal. • Material: A tipicidade material (substancial) é a lesão ou o perigo de lesão ao bem jurídico penal- mente tutelado em razão da pratica da conduta legalmente prevista. Por exemplo, roubar lesiona o patrimônio, bem jurídico tutelado penalmente. Existe a possibilidade de uma conduta típica não ser considerada crime por não haver tipicidade material? Sim. É o caso do Princípio da Insignificância, que exclui justamente a tipicidade material. www.trilhante.com.br 15 6. Dolo e Culpa Dolo O dolo, para o sistema finalista, integra a conduta e, portanto, o fato típico. É elemento psicológico do tipo penal, implícito e inerente a todo crime doloso. ELEMENTOS DO DOLO O dolo é composto por consciência e vontade. Pergunta-se: Qual a diferença entre Consciência e Vontade? Segundo Cléber Masson, consciência é o elemento cognitivo ou intelectual, é saber o que está fazendo. Por outro lado, a vontade é o elemento volitivo, é o querer fazer o que sabe estar fazendo. Apenas a consciência, ou apenas a vontade, não caracteriza o dolo. É preciso haver ambos os elementos, consciência e vontade, para caracterizar uma conduta dolosa. DOLO DIRETO Também chamado de dolo determinado, dolo intencional ou dolo imediato ou incondicionado, essa modalidade consiste na vontade do agente voltada para determinado resultado. A vontade é direcionada para uma finalidade precisa. Por exemplo, o assassino profissional que, desejando a morte da vítima, dispara um tiro certeiro. DOLO INDIRETO (INDETERMINADO) É aquele que o agente não tem a vontade voltada a um resultado determinado. É dividido em dolo eventual e dolo alternativo. • Dolo alternativo: é aquele que o agente deseja, indistintamente, um ou outro resultado possível de acontecer. É o caso do agente que atira contra a vítima com o proposito de matar ou ferir. • Dolo eventual: é aquele que o agente não quer o resultado por ele previsto, mas assume o risco de produzi-lo. É o caso do agente que atira com uma arma de longe alcance e acaba por matar um transeunte. DOLO GENÉRICO X ESPECÍFICO Antigamente, utilizava-se o termo dolo genérico para quando o agente se limitava à prática da conduta típica sem nenhuma finalidade específica. Já o dolo específico era utilizado para quando se almejava uma finalidade especial. Atualmente, com a teoria finalista, o termo dolo genérico foi substituído apenas por dolo, enquanto o dolo específico foi substituído por elemento subjetivo do tipo. www.trilhante.com.br 16 Culpa Aculpa é o elemento normativo da conduta. Os crimes culposos, em regra, são previstos em tipos penais abertos, pois a norma não diz expressamente no que consiste o comportamento culposo. Mas o crime culposo pode ser definido como: Crime culposo é o que se verifica quando o agente, deixando de observar o objetivo de cuidado, por imprudência, negligência ou imperícia, realiza, voluntariamente uma conduta que produz resultado naturalístico, não previsto nem querido, mas subjetivamente previsível, e excepcionalmente previsto e querido, que podia, com a devida atenção, ter evitado. (MASSON, p. 311, 2015) CULPA INCONSCIENTE X CULPA CONSCIENTE A culpa inconsciente é aquela em que o agente não prevê o resultado objetivamente previsível. Por sua vez, na culpa consciente, o agente após prever o resultado objetivamente previsível, realiza a conduta acreditando sinceramente que ele (o resultado) não ocorrerá. Ou seja, ao gente não quer o risco e nem o assume o risco de produzir o resultado, mesmo sabendo ser possível. Contudo, ele acredita, sinceramente, ser capaz de evitar o resultado, o que acaba acontecendo por erro de cálculo ou de execução. CRIME PRETERDOLOSO Em latim, praeter dolum, significa além do dolo. É quando a conduta dolosa acarreta a produção de um resultado mais grave do que o pretendido pelo agente. www.trilhante.com.br 17 7. Excludentes da Tipicidade Princípio da insignificância Trata-se da causa excludente de tipicidade, caracterizada pela ausência de tipicidade material do fato praticado pelo agente. Como vimos, a tipicidade material consiste na efetiva lesão ao bem jurídico tutelado pelo tipo penal. Vamos relembrar. TIPICIDADE FORMAL E MATERIAL • Tipicidade formal: caracterizada pela adequação de uma conduta humana a um tipo penal. • Tipicidade material: caracterizada pela lesão ou exposição a perigo de um bem jurídico penal- mente tutelado. Mas o que seria a efetiva lesão ao bem jurídico penalmente tutelado? Para responder a essa pergunta, o STF criou alguns parâmeros que devem ser observados para saber se o caso concreto se enquadra ou não ao princípio da bagatela. Esses vetores do princípio da insignificância são conhecidos popularmente pelo mnemônico M.A.R.I. • Mínima ofensividade da conduta do agente • Ausência de periculosidade social da ação • Reduzidíssimo grau da reprovabilidade do comportamento • Inexpressividade da lesão jurídica provocada BAGATELA PRÓPRIA X BAGATELA IMPRÓPRIA O princípio da insignificância é também chamado de “princípio da bagatela”, mas especificamente a bagatela própria. Mas o que seria a bagatela imprópria? Essa modalidade de bagatela é quando, apesar de ausentes os vetores acima listados, a pena se torna desnecessária, em função do intenso sofrimento do agente no processo de persecução penal, e as consequências do próprio crime. Pensemos por exemplo em um pai que desferiu tiros em sua filha, incorrendo em algum tipo de erro que não exclua o crime. Esse pai, que não queria cometer o crime, poderia sofrer a pena imposta pelo CP? Segundo esse princípio da bagatela imprópria, não. ENTENDIMENTOS JURISPRUDENCIAIS SOBRE O PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA Agente reincidente A reincidência não impede, por si só, que o juiz da causa reconheça a insignificância penal da conduta, à luz dos elementos do caso concreto. Até porque, não está contido nos vetores que mencionamos acima. www.trilhante.com.br 18 HC 123.108/2015 E M E N T A: “HABEAS CORPUS” – TENTATIVA DE FURTO SIMPLES (CP, art. 155, “caput”, c/c o art. 14, II) – DUAS PEÇAS DE QUEIJO MINAS – OBJETOS SUBTRAÍDOS QUE FORAM DEVOLVIDOS À VÍTIMA, QUE É UMA SOCIEDADE EMPRESÁRIA – SITUAÇÃO DE REINCIDÊNCIA QUE NÃO DESCARACTERIZA, POR SI SÓ, O FATO INSIGNIFICANTE – PRECEDENTES, NESSE SENTIDO , DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL – CONSIDERAÇÕES EM TORNO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA , QUE SE QUALIFICA COMO CAUSA SUPRALEGAL DE EXCLUSÃO DA TIPICIDADE PENAL EM SUA DIMENSÃO MATERIAL – DOUTRINA – PRECEDENTES – HIPÓTESE, NO CASO, DE ABSOLVIÇÃO PENAL DA PACIENTE (CPP, ART. 386, III) – “HABEAS CORPUS” DEFERIDO – RECURSO DE AGRAVO IMPROVIDO . (grifo nosso) Reiteração criminosa Tanto o STJ, quanto o STF negam a aplicação, em regra, do princípio da insignificância. STJ – HC 557.194/2020 AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS. FURTO SIMPLES. MAUS ANTECEDENTES. HABITUALIDADE DELITIVA. CRIMES CONTRA O PATRIMÔNIO. PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA. ATIPICIDADE MATERIAL. INAPLICABILIDADE. AGRAVO DESPROVIDO. 1. A Terceira Seção desta Corte, no julgamento do EAREsp n. 221.999/ RS (Rel. Ministro Reynaldo Soares da Fonseca, julgado em 11/11/2015, DJe 10/12/2015), estabeleceu a tese de que “a reiteração criminosa inviabiliza a aplicação do princípio da insignificância, ressalvada a possibilidade de, no caso concreto, as instâncias ordinárias verificarem que a medida é socialmente recomendável”. 2. Inviável a aplicação do princípio da insignificância ao furto praticado por acusado que ostenta diversas condenações transitadas em julgado, inclusive por crimes contra o patrimônio, o que evidencia a acentuada reprovabilidade do seu comportamento, incompatível com a adoção do pretendido postulado. 3. Agravo regimental desprovido. (grifo nosso) CRIMES MILITARES Para os crimes praticados pelos militares, entende-se que não é possível a aplicação do princípio da insignificância, tendo em vista ser necessário mostrar segurança ao cidadão. DESCAMINHO O STF e o STJ consideram insignificante a sonegação que não supere R$ 20.000,00, ao contrário do que diz a lei (REsp 1.688.878 e REsp 1.709.029). RECURSO ESPECIAL. PROPOSTA DE AFETAÇÃO PARA FINS DE REVISÃO DO TEMA N. 157. APLICAÇÃO DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA AOS CRIMES TRIBUTÁRIOS FEDERAIS E DE DESCAMINHO, CUJO DÉBITO NÃO EXCEDA R$ 10.000,00 (DEZ MIL REAIS). ART. 20 DA LEI N. 10.522/2002. ENTENDIMENTO QUE DESTOA DA ORIENTAÇÃO CONSOLIDADA NO STF, QUE TEM RECONHECIDO A ATIPICIDADE MATERIAL COM BASE NO PARÂMETRO FIXADO NAS PORTARIAS N. 75 E 130/MF – R$ 20.000,00 (VINTE MIL REAIS). AFETADO O RECURSO PARA FINS DE ADEQUAÇÃO DO ENTENDIMENTO. Considerando os princípios da segurança jurídica, da proteção da confiança e da isonomia, nos termos do art. 927, § 4º, do Código de Processo Civil, afetou-se recurso especial para fins de revisão da tese fixada no REsp n. 1.112.748/TO (representativo da controvérsia) – Tema 157 (Relator Ministro Felix Fischer, DJe 13/10/2009), a fim de adequá-la ao entendimento externado pela Suprema Corte, o qual tem considerado o parâmetro fixado nas Portarias n. 75 e 130/MF – R$ 20.000,00 (vinte mil reais) www.trilhante.com.br 19 para aplicação do princípio da insignificância aos crimes tributários federais e de descaminho. (REsp 1.688.878) (grifo nosso) Se comparar o entendimento do princípio da insignificância para o descaminho com o principio aplicado para o furto, torna-se absurdo o entendimento e os valores. SÚMULAS SOBRE A INAPLICABILIDADE DO PRINCÍPIO DA INSIGNIFICÂNCIA Súmula 589 do STJ: É inaplicável o princípio da insignificância nos crimes ou contravenções penais praticados contra a mulher no âmbito das relações domésticas. Súmula 599 do STJ: O princípio da insignificância é inaplicável aos crimes contra a administração pública. Súmula 606 do STJ: Não se aplica o princípio da insignificância a casos de transmissão clandestina de sinal de internet via radiofrequência, que caracteriza o fato típico no art. 183, da Lei 9.472/1997 (Lei das Telecomunicações). Erro de tipo O erro de tipo está previsto no artigo 20 do CP e consiste num fato típico cometido em razão de uma falsa percepção da verdade. Nesse tipo de erro, a pessoa sabe que o fato é crime, mas não sabe que o está praticando. Art. 20. O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo, se previsto em lei. O erro pode ser escusável/invencível/inevitável ou vencível/inescusável/evitável. • Erro de tipo escusável: mesmo que ele tivesse agido com cautelae prudência de um homem médio, ainda assim não poderia evitar a falsa percepção da realidade sobre os elementos constituti- vos do tipo penal. • Erro de tipo inescusável: se ele tivesse empregado cautela e a prudência de um homem médio, o resultado poderia ter sido evitado, uma vez que seria capaz de compreender o caráter criminoso do fato. Apenas o erro escusável, ou seja, inevitável é excludente de ilicitude. Crime Impossível Art. 17. Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime. www.trilhante.com.br 20 CRIME IMPOSSÍVEL X TENTATIVA No crime tentado é possível atingir a consumação, tendo em vista que os meios empregados pelo agente são idôneos e o objeto material contra o qual se dirige a conduta é um bem jurídico passível de sofrer a lesão ou o perigo de lesão. No crime impossível, por sua vez, o emprego de meios ineficazes ou o ataque a objetos impróprios inviabilizam a produção de resultado, inexistindo a situação de perigo ao bem jurídico penalmente tutelado. CRIME IMPOSSÍVEL – INEFICÁCIA ABSOLUTA DO MEIO Meio se refere ao meio de execução do crime. É quando o meio de execução do crime, por sua natureza ou essência, é incapaz de produzir o resultado, por mais reiterado que seja seu emprego. É o caso do agente que decide matar seu desafeto com uma arma de brinquedo. CRIME IMPOSSÍVEL – INEFICÁCIA ABSOLUTA DO OBJETO O objeto é a pessoa ou coisa sobre a qual recai a conduta do agente. O objeto material é absolutamente improprio quando inexistente antes do início da execução do crime, ou nas circunstancias na qual se encontra, torna impossível a sua consumação. É o caso de tentar matar uma pessoa já falecida. www.trilhante.com.br 21 8. Antijuridicidade ou Ilicitude Conceito e Classificações A ilicitude é a contrariedade entre o fato típico praticado por alguém e o ordenamento jurídico, capaz de lesionar ou expor a perigo de lesão bens jurídicos penalmente tutelados. O ilícito pode ser formal ou material. • Ilicitude formal: É a mera contradição entre o fato praticado pelo agente e o sistema jurídico em vigor. • Ilicitude material: É o conteúdo material do injusto, a substância da ilicitude. RELAÇÃO COM A TIPICIDADE Para se falar de ilicitude, há a necessidade de haver um fato típico. Assim, o juízo de ilicitude depende, obrigatoriamente, de um juízo de tipicidade, que lhe anterior. Excludentes de ilicitude As excludentes de ilicitude excluem o crime porque apesar de típico (pois houve a prática do ato descrito no Código), não houve lesão ao ordenamento, pois a ação está justificada pelas seguintes situações: Art. 23. Não há crime quando o agente pratica o fato: I - em estado de necessidade II - em legítima defesa; III - em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. O artigo 23 traz as excludentes chamadas genéricas, aplicadas a quaisquer situações típicas da parte especial. No entanto, é possível que a parte especial também traga causas específicas, em que a ilicitude será excluída. Importante ressaltar que todas as causas de excludentes que estudaremos podem gerar excessos, ou seja, pode ser que seja parcialmente descaracterizada a excludente se o agente agir de forma desproporcional, excessiva à ameaça. (art. 23, p. ú). www.trilhante.com.br 22 1. Estado de Necessidade Art. 24. Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. § 1º - Não pode alegar estado de necessidade quem tinha o dever legal de enfrentar o perigo. § 2º - Embora seja razoável exigir-se o sacrifício do direito ameaçado, a pena poderá ser reduzida de um a dois terços. É uma causa de excludente de ilicitude que depende de uma situação de perigo, caracterizada pelo conflito de interesses ilícitos, ou seja, uma colisão entre bens jurídicos pertencentes a pessoas diferentes, que se soluciona com a autorização conferida pelo ordenamento jurídico para o sacrifício de um deles para a preservação do outro. REQUISITOS Perigo atual (e iminente) É a exposição do bem jurídico a uma situação de probabilidade de dano. Essa exposiçao pode ser a perigo decorrente de: • Fato da natureza: Por exemplo, uma inundação que faz com que o agente tenha que subtrair um barco para sobreviver. • Ato de um animal: Por exemplo, um ataque de um cão bravo que faz com que o agente invada uma casa para se proteger. • Atividade humana: Por exemplo, um motorista de uma ambulância que dirige de forma veloz para chegar ao hospital e acaba atropelando um transeunte. Parte majoritária da doutrina entende ser aplicável o estado de necessidade nos casos de perigo iminente, pois o bem jurídico do indivíduo está em risco e ele não precisa esperar o risco ficar ainda maior para poder agir. Perigo não provocado pelo agente Quem cria o perigo, dolosa ou culposamente, não pode invocar a causa de justificação. Ameaça a direito próprio ou alheio O perigo deve ser direcionada a bem jurídico pertencente ao autor do fato típico ou ainda a terceira pessoa. Qualquer bem jurídico pode ser protegido Commodus Discessus www.trilhante.com.br 23 Inevitabilidade do perigo agindo de outra maneira. Ou seja, se existe um meio menos lesivo para escapar da situação de perigo, o agente deverá optar por ele. Proporcionalidade É a relação de importância entre o bem jurídico sacrificado e o bem jurídico preservado no caso concreto. Em face da teoria unitária adotada pelo art. 24, do Código Penal, o bem preservado no estado de necessidade deve ser de valor igual ou superior ao bem jurídico sacrificado. 2. Exercício Regular do Direito Se uma área do direito autoriza uma conduta, outra área do direito não pode classificá-la como crime, uma vez que o direito é uno e deve ser coerente. 3. Estrito cumprimento do dever legal O agente tem o dever/obrigação de cumprir aquilo que a lei manda, não se tratando de mera faculdade. O dever legal é todo aquele que direta ou indiretamente resulta da lei, ou de um decreto, ou decisão judicial, por exemplo. Possui natureza objetiva, se comunicando com as demais pessoas que agiram em conduta com o agente. 4. Legítima Defesa Art. 25. Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. Trata-se de causa de justificação consistente em repelir injusta agressão, atual ou iminente, a direito próprio ou alheio, usando moderadamente os meios necessários. REQUISITOS DA AGRESSÃO Injusta Toda ação ou omissão humana, consciente e voluntária, que lesa ou expõe a perigo de lesão um bem ou interesse consagrado pelo ordenamento jurídico. É atividade exclusiva do ser humano. Atual ou iminente www.trilhante.com.br 24 Atual é a agressão presente, ou seja, ela já se iniciou e ainda não encerrou a lesão ao bem jurídico, por exemplo, a vítima está sendo atacada com golpes de facada. Iminente é a agressão que está prestes a acontecer, por exemplo, o agente anuncia à vítima a sua intenção de mata-la indo em sua direção com uma faca nas mãos. Agressão dirigida a direito próprio ou alheio Qualquer bem jurídico pode ser protegido por legítima defesa. REQUISITOS DA REAÇÃO • Emprego dos meios necessários: Meios necessários são aqueles que o agente tem à sua disposi- ção para repelir a agressão injusta, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem, no momento que é praticado. • Uso moderado da força: Emprego dos meios necessários na medida suficiente para afastar a agressão injusta.Utiliza-se o perfil do homem médio para aferir a moderação dos meios necessários. Legítima Defesa e Estado de Defesa em simultaneidade: É possível que uma pessoa esteja, simultaneamente, protegida pela legítima defesa e o estado de necessidade. AGENTE DE SEGURANÇA (PACOTE ANTICRIME) O Pacote Anticrime trouxe uma outra causa excludente de ilicitude, no parágrafo único do art. 25: a legítima defesa de agente de segurança em serviço. Art. 25. (...) Parágrafo único. Observados os requisitos previstos no caput deste artigo, considera-se também em legítima defesa o agente de segurança pública que repele agressão ou risco de agressão a vítima mantida refém durante a prática de crimes. www.trilhante.com.br 25 9. Culpabilidade Introdução e Conceito Segundo a professora Patrícia Vanzolini, a culpabilidade consiste no juízo de reprovação que recai sobre o injusto penal. A culpabilidade não é sinônimo de culpa. A culpa, como já vimos, em nosso sistema finalista, é um dos elementos do tipo penal, inserida na conduta. A culpabilidade, por outro lado, é um elemento autônomo: o terceiro elemento do delito no sistema trifásico (fato típico, ilícito e culpável). É preciso muita atenção na teoria do crime, porque as situações concretas poderão facil- mente confundir o candidato. Importante ter em mente que um fato só terá sua culpa- bilidade quando ele não tiver excluída sua tipicidade ou sua ilicitude. A culpabilidade é composta de três elementos: 1. Imputabilidade 2. Consciência da ilicitude 3. Exigibilidade de Conduta Diversa 1. Imputabilidade A imputabilidade é a capacidade do indivíduo de compreender o caráter ilícito de sua conduta. Poderá se dividir em: • Nível cognitivo/intelectual: É a capacidade de entendimento do indivíduo, de compreensão real do caráter ilícito da conduta. • Nível volitivo: Capacidade de dirigir sua conduta de agir de acordo com seu nível intelectual, com sua vontade interna. IMPUTABILIDADE POR DOENÇA MENTAL A expressão doença mental deve ser interpretada em sentido amplo, englobando problemas patológicos e também os de origem toxicológica. A análise para saber se o agente será agraciado pela excludente da imputabilidade é a análise do grau de alheamento do sujeito. Se houver acometimento total de sua consciência, haverá imputabilidade. Se esse acometimento for parcial, haverá semi-inimputabilidade. Em todo caso, há de ser instaurado incidente de insanidade mental, sempre que houver dúvida quanto a integridade mental do acusado. A análise sempre é feita de acordo com o estado mental do acusado ao tempo do crime. www.trilhante.com.br 26 Art. 149. Quando houver dúvida sobre a integridade mental do acusado, o juiz ordenará, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, do defensor, do curador, do ascendente, descendente, irmão ou cônjuge do acusado, seja este submetido a exame médico-legal. Conclusões Agente no tempo do crime Agente no tempo presente Culpabilidade do agente Sanidade mental Sanidade mental Imputável Sanidade mental Insanidade mental total/parcial Processo suspenso até que o acusado se restabeleça Insanidade mental total - Inimputável Insanidade mental parcial - Semi-imputável Art. 152. Se se verificar que a doença mental sobreveio à infração o processo continuará suspenso até que o acusado se restabeleça, observado o § 2o do art. 149. § 1º O juiz poderá, nesse caso, ordenar a internação do acusado em manicômio judiciário ou em outro estabelecimento adequado. § 2º O processo retomará o seu curso, desde que se restabeleça o acusado, ficando-lhe assegurada a faculdade de reinquirir as testemunhas que houverem prestado depoimento sem a sua presença. EMBRIAGUEZ É a intoxicação aguda produzida no corpo humano pelo álcool ou por substancia de efeitos análogos, apta a provocar a exclusão da capacidade de entender o caráter ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento. São tipos de embriaguez: • Embriaguez voluntária: É aquela que o gente ingere bebidas alcoólicas com a intenção de em- briagar-se. • Embriaguez culposa: É a espécie de embriaguez em que a vontade do agente e somente beber e não embriagar-se, contudo, em razão do exagero do consumo, acaba ficando embriagado. www.trilhante.com.br 27 • Embriaguez preordenada ou dolosa: O sujeito, propositalmente, se embriaga para cometer uma infração penal. A embriaguez funciona como fator de encorajamento para a prática do crime ou da contravenção penal. • Embriaguez fortuita ou acidental: É a embriaguez que resulta de caso fortuito ou força maior. No caso fortuito, o agente não percebe ser atingido pelo álcool ou substancia de efeitos análogos, por exemplo, o indivíduo que faz o uso de medicamente que potencializa os efeitos do álcool. Na força maior, o sujeito é obrigado a beber, ou então, por questões profissionais, necessita permanecer no recinto cercado pelo álcool ou substancia de efeitos análogos. É o caso do individuo que é amarrado e injetam nele, elevada quantidade de álcool. 2. Potencial Consciência da Ilicitude Adotando-se a teoria intermediária de Hans Welzel, o conhecimento da ilicitude não importa em conhecimento da punibilidade da conduta, nem em conhecimento do dispositivo legal. O agente deve conhecer, ou pode conhecer, com o esforço devido de sua consciência, com um juízo geral de sua própria esfera de pensamentos, o caráter ilícito do seu modo de agir. É caso de excludente de culpabilidade na modalidade potencial consciência da ilicitude quando o agente age orientado por erro de proibição inevitável (invencível), de acordo com o artigo 21 do CP. Quanto ao erro de proibição vencível, ou evitável, só haverá diminuição da pena (art. 21, caput). Erro de proibição inevitável, invencível ou escusável Art. 21. O desconhecimento da lei é inescusável. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta Erro de proibição vencível, evitável ou inescusável Art. 21. (...) Parágrafo único - Considera-se evitável o erro se o agente atua ou se omite sem a consciência da ilicitude do fato, quando lhe era possível, nas circunstâncias, ter ou atingir essa consciência 3. Exigibilidade de conduta diversa A exigibilidade de conduta diversa é elemento da culpabilidade consistente na expectativa da sociedade acerca da prática de uma conduta diversa daquele que foi deliberadamente adotada pelo autor de um fato típico e ilícito. Art. 22. Se o fato é cometido sob coação irresistível ou em estrita obediência a ordem, não manifestamente ilegal, de superior hierárquico, só é punível o autor da coação ou da ordem. www.trilhante.com.br 28 As excludentes dessa modalidade são a coação moral irresistível e a obediência hierárquica. Vejamos os requisitos para a incidência de ambas as excludentes. Obediência Hierárquica Coação Moral Irresistível Ordem não manifestamente ilegal: é a de aparente legalidade, em face da crença de licitude que tem um funcionário público subalterno ao obedecer o seu superior hierárquico. Ameaça do coautor: Promessa de mal grave e iminente, o qual o coagido não é obrigado a suportar. Essa ameaça deve ser direcionada ao coagido ou a pessoa com ele intimamente relacionado. Ordem emanada de autoridade competente: o mandamento emana de funcionário público legalmente competente para fazê-lo. Inevitabilidade do perigo na posição em que se encontra o coagido Relação de Direito Público: somente existe no Direito Público. Caráter irresistível da ameaça: além de grave, o mal prometido deve ser irresistível Relação que envolve três pessoas: o superior hierárquico que dá a ordem, o funcionário público subalterno que cumpre a ordem e a vítima do crime. Presença de ao menos três pessoas envolvidas: devem estar presentes o coator, o coagido e a vítima do crime por este praticado, www.trilhante.com.br /trilhante /trilhante /trilhante Teoria Geral do Crime http://www.facebook.com/trilhante http://www.instagram.com/trilhantehttp://www.facebook.com/trilhante http://instagram.com/trilhante http://www.youtube.com/trilhante