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Resumo Geral de Teoria do Crime (Unidade 2): Crime e Fato Típico: Os conceitos de crime e de fato típico são relacionados, já que o fato típico é considerado o primeiro elemento que caracteriza um crime. O fato típico é a indicação de que um ato praticado consiste em uma conduta que a lei considera como criminosa. É composto por quatro elementos: conduta, resultado, nexo causal (relação de causalidade) e tipicidade. A conduta é o comportamento (ação) praticado pela pessoa. Exemplos: agredir alguém, dirigir sob efeito de bebida alcoólica (e assumir o risco de causar um acidente de trânsito). O resultado é a modificação causada pela ação tomada. Por exemplo: lesão corporal causada na pessoa agredida, morte de uma pessoa por atropelamento. O nexo de causalidade é a comprovação da relação entre o ato e o resultado. Por exemplo: nas situações citadas, o nexo de causalidade é a comprovação da relação existente entre a agressão e as lesões causadas ou a comprovação de que o atropelamento aconteceu em razão da embriaguez ao volante. Já a tipicidade é o enquadramento da lei para conduta praticada. Exemplo: o crime de lesão corporal é determinado no artigo 129 do Código Penal (ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem). O crime de homicídio na direção é enquadrado no artigo 302 do Código de Trânsito Brasileiro (praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor). Esses conceitos são estabelecidos na teoria do delito, que explica quais são as características que devem ter qualquer crime. Esta teoria entende que é preciso de três características básicas para converter uma ação em um delito: · Tipicidade – que a conduta seja tipificada no Código Penal como um delito. · Antijuridicidade/ ilicitude – é a conduta humana que é contrária a um direito · Culpabilidade - é a vontade culposa. Divide-se em dolo (vontade plena da ação e do resultado) e culpa (vontade viciada da ação e do resultado) Ou seja, é preciso ter um fato típico, antijurídico e culpável. A ausência de uma destas características não permite que ocorra a punibilidade do ato. O fato típico é composto pelos elementos: a) Conduta dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva; b) Resultado; c) Nexo de causalidade entre a conduta e o resultado; d) Tipicidade. A ilicitude é a relação em contrariedade entre a conduta do agente e a lei. Crimes Omissivos, Comissivos e de Conduta Mista: Crimes Comissivos: Os crimes comissivos, ou de ação, são os crimes em que o agente ou o sujeito ativo, aquele que pratica o crime, age de forma positiva (por meio de uma ação, e não de uma omissão). Nesse sentido, temos o crime de roubo previsto no art. 157 do Código Penal Brasileiro. Crimes Omissivos: Os crimes omissivos, ou de omissão, como o próprio nome avisa, são aqueles em que o sujeito ativo deixa de fazer alguma coisa que deveria fazer. Os crimes omissivos podem ser próprios ou impróprios. Crimes Omissivos Próprios: Também chamados de crimes omissivos puros, o sujeito deixa de ter uma atitude cuja omissão se encontra tipificada expressamente no Código Penal. Um exemplo clássico disso é o crime de omissão de socorro, previsto no art. 135 do CP. Nessa hipótese, o sujeito deixa de socorrer alguém que está em perigo e esse deixar de fazer, por si só, constitui o crime de omissão de socorro, não existindo qualquer ação positiva necessária por parte do sujeito ativo para tal tipificação. Observe-se que, em regra, omissões não são criminosas para o direito penal, punindo-se apenas condutas comissivas, ou seja, aquelas realizadas por ação. Crimes Omissivos Impróprios: Ato contínuo, passemos a analisar os crimes omissivos impróprios, também chamados de espúrios ou comissivos por omissão, que são os tipos de crimes não previstos expressamente no Código Penal pois que se dão por meio de uma interpretação específica do art. 13, §2º do CP. Crimes de Conduta Mista: Por fim, temos um conceito simples e rápido que decorre dos institutos estudados anteriormente: os crimes de conduta mista. Nesses crimes, existe uma conduta de fazer junto com uma conduta de não fazer. Explica-se melhor com um exemplo: o crime de apropriação de coisa achada. Tal crime se tipifica com a ação de achar + a omissão do não entregar a coisa a seu dono. Resultados: Há duas espécies de resultado: .Resultado jurídico (ou normativo); .Resultado material (ou naturalístico); O resultado jurídico guarda relação com o bem jurídico. Resultado jurídico significa lesão ou exposição a perigo de lesão do bem jurídico que o tipo penal pretende tutelar. As infrações penais sempre tutelam algum bem jurídico. Neste particular, há: .Crimes simples; .Crimes pluriofensivos; Crimes simples tutelam apenas um bem jurídico, ao passo que crimes pluriofensivos tutelam mais de um bem jurídico. É pluriofensivo, pois o crime se consuma por meio da ofensa a mais de um bem jurídico. O roubo, por exemplo, é um crime pluriofensivo, pois tutela o patrimônio e a integridade corporal. Todo crime possui resultado jurídico, pois consuma-se mediante lesão ou exposição de bem jurídico à lesão. Em contraposição, nem todo crime possui resultado material. O resultado material (ou naturalístico) é a alteração do mundo exterior. É, então, a modificação do mundo exterior provocada pela conduta. Quanto ao resultado jurídico, há: .Crime de dano; .Crime de perigo; O crime de dano é o crime que se consuma mediante lesão ao bem jurídico. Os crimes de perigo, por sua vez, consumam-se com a mera exposição do bem jurídico ao perigo de lesão. O crime de perigo subdivide-se em: .Crime de perigo concreto (ou real); .Crime de perigo abstrato (ou presumido); No crime de perigo concreto (ou real), o crime se consuma com a efetiva exposição do bem jurídico a perigo. Em paralelo, no crime de perigo abstrato (ou presumido), o crime se consuma INDEPENDENTEMENTE da efetiva exposição do bem jurídico a perigo. Isso porque, no crime de perigo abstrato, a própria lei PRESUME que a conduta expõe o bem jurídico a perigo. O crime de embriaguez ao volante, por exemplo, é um crime de perigo abstrato. Classificação dos Crimes Quanto ao Resulta Material (ou Naturalístico): Quanto ao resultado material (ou naturalístico), o crime poderá ser: .Crime material; .Crime formal; .Crime de mera conduta. O crime material consuma-se com a produção do resultado material (ou naturalístico). É o que ocorre, por exemplo, na hipótese de homicídio que depende da morte da vítima. A morte da vítima é o resultado naturalístico do crime de homicídio. Em paralelo, o crime formal consuma-se independente da produção do resultado material (ou naturalístico). O crime formal é também chamado de crime de resultado antecipado, pois consuma-se antes da produção do resultado material. O crime de extorsão, por exemplo, é compreendido pela doutrina como espécie de crime formal. O crime de mera conduta é aquele que se consuma independentemente do resultado naturalístico. Aqui, contudo, diferente do crime formal, NÃO HÁ RESULTADO NATURALÍSTICO. Um exemplo de crime de mera conduta é o porte ilegal de armas. Observe que o mero ato de portar a arma não gera nenhum resultado naturalístico. Causalidade: O nexo de causalidade é um conceito essencial no campo do direito penal, estabelecendo o vínculo entre a conduta do agente e o resultado do crime. No entanto, sua aplicação nem sempre é direta. Nexo Causal e Concausas: O nexo causal refere-se ao vínculo entre a ação e o resultado do crime, estabelecendo uma relação de causa (conduta) e efeito (resultado). Em muitos casos, a conduta do agente é diretamente responsável pelo resultado. No entanto, há situações em que outras causas, denominadas concausas, contribuem para o resultado, podendo ser absolutamente independentes ou relativamente independentes. Causas Absolutamente Independentes: As causas absolutamente independentes não têm origem na conduta do agente. Elas atuam por si só, produzindo o resultado independentemente da ação do agente. Existem três tipos de causasabsolutamente independentes: Preexistentes: São causas que existiam antes da conduta do agente e produzem o resultado independentemente da sua atuação. Um exemplo seria quando alguém dispara uma arma contra outra pessoa, que, no entanto, morre devido a um envenenamento anterior. Concomitantes: São causas que não têm relação com a conduta e produzem o resultado no exato momento da ação. Por exemplo, uma pessoa desfere um golpe de faca em outra que, no mesmo momento, é atingida por um objeto que cai sobre sua cabeça. Supervenientes: São causas que surgem depois da conduta do agente. Por exemplo, alguém administra veneno a outra pessoa, mas antes que o veneno faça efeito, a vítima sofre um acidente fatal. Causas Relativamente Independentes: As causas relativamente independentes tiveram origem na conduta do agente, mas surgem de forma independente, produzindo o resultado por si só. Existem três tipos de causas relativamente independentes: Preexistentes: São causas que, ao tempo da conduta do agente, concorreram para a produção do resultado. Por exemplo, alguém desfere um golpe de faca em uma pessoa hemofílica, contribuindo para sua morte. Concomitantes: São causas que surgem exatamente no momento da conduta do agente e contribuem para o resultado. Por exemplo, alguém atira em outra pessoa, que sofre um ataque cardíaco no mesmo instante. Supervenientes: São causas que surgem depois da conduta do agente e contribuem para o resultado. Por exemplo, alguém desfere um golpe de faca em outra pessoa, que posteriormente sofre um acidente e morre no caminho para o hospital. Teoria da Imputação Objetiva: A teoria da imputação objetiva consiste basicamente no seguinte: só pode ser responsabilizado penalmente por um fato, a um sujeito só pode ser imputado o fato), se ele criou ou incrementou um risco proibido relevante e, ademais, se o resultado jurídico decorreu desse risco (isto é: se a lesão ou o perigo concreto de lesão ao bem jurídico decorreu desse risco, ou seja destaca que a Teoria da Imputação Objetiva complementa a dimensão do desvalor com novos aspectos. Tipicidade e Tipo Penal: Por imposição do princípio do nullum crimen sine lege, o legislador, quando quer impor ou proibir condutas sob a ameaça de sanção, deve, obrigatoriamente, valer-se de uma lei. Quando a lei em sentido estrito descreve a conduta (comissiva ou omissiva) com o fim de proteger determinados bens cuja tutela mostrou-se insuficiente pelos demais ramos do direito, surge o chamado tipo penal. Tipo, como a própria denominação nos está a induzir, é o modelo, o padrão de conduta que o Estado, por meio de seu único instrumento, a lei, visa impedir que seja praticada, ou determina que seja levada a efeito por todos nós. Tipicidade Penal - Tipicidade Formal O Fato Típico é composto pela conduta do agente, dolosa ou culposa, comissiva ou omissiva pelo resultado; bem como pelo nexo de causalidade entre aquela e este. Mas isso não basta. É preciso que a conduta também se amolde, subsume-se a um modelo abstrato previsto na lei, que denominamos tipo. Tipicidade quer dizer, assim, a subsunção perfeita da conduta praticada pelo agente ao modelo abstrato previsto na lei penal, isto é, a um tipo penal incriminador. A adequação da conduta do agente ao modelo abstrato previsto na lei penal (tipo) faz surgir a tipicidade formal ou legal. Essa adequação deve ser perfeita, pois, caso contrário, o fato será considerado formalmente atípico. Quando afirmamos que só haverá tipicidade se existir uma adequação perfeita da conduta do agente ao modelo em abstrato previsto na lei penal (tipo), estamos querendo dizer que por mais que seja parecida a conduta levada a efeito pelo agente com aquela descrita no tipo penal, se não houver um encaixe perfeito, não se pode falar em tipicidade. O Tipo penal é uma norma que descreve condutas criminosas em abstrato. Quando alguém, na vida real, comete uma conduta descrita em um tipo penal, ocorre a chamada tipicidade Tipos de Crime: Quais são os tipos de crimes? O Código Penal do Brasil lista os seguintes crimes, subdivididos em títulos: 1- Crimes contra a administração pública; 2- Crimes contra a pessoa; 3- Crimes contra o patrimônio; 4- Crimes de imprensa e contra a honra; 5- Crimes ambientais; 6- Crimes eleitorais; 7- Crimes de responsabilidade; 8- Crimes contra a propriedade imaterial; 9- Crimes contra a organização do trabalho; 10- Crimes contra o sentimento religioso e contra o respeito aos mortos; 11- Crimes contra a dignidade sexual; 12- Crimes contra a família; 13- Crimes contra a incolumidade pública; 14- Crimes contra a paz pública; 15- Crimes contra a fé pública. Erro de Tipo: o Erro de Tipo seria o engano (erro) que recai sobre os elementos que compõem o Tipo Penal. Ele exclui o dolo (a vontade de praticar o fato punível), mas permite a punição pela culpa, se o Tipo Penal permitir. Quais são os erros de tipo? A doutrina reconhece duas modalidades de Erro de Tipo, o erro acidental e o erro essencial. Erro Essencial: É aquele que ocorre quando a falsa percepção impede o sujeito de compreender a natureza criminosa do fato. Por exemplo: matar um homem supondo tratar-se de animal bravio. Recai sobre elementos ou circunstâncias do tipo penal ou sobre os pressupostos de fato de uma excludente da ilicitude Além disso, o Erro de Tipo Essencial pode ser invencível (desculpável) ou vencível (indesculpável). De forma simples, o Erro Invencível é aquele que não pode ser evitado pela diligência normalmente aplicada à situação, e ele exclui o dolo e a culpa. Já o Erro Vencível é aquele que seria evitado pela maioria das pessoas que aplicassem a diligência normal que a situação exigisse e afastasse apenas o dolo. Erro Acidental: Já o Erro Acidental, não afasta o dolo nem a culpa, pois o agente atua com consciência da ilicitude do fato, se enganando em relação a elemento não essencial do fato ou erra na execução. Ele ainda pode ser dividido em: . Erro sobre objeto (error in objeto); . Erro sobre pessoa (error in persona); . Erro na execução (aberratio ictus); resultado diverso do pretendido (aberratio criminis); . Aberratio causae. Erro sobre objeto (error in objeto): Neste erro o agente atua com dolo de praticar uma conduta ilícita, mas o erra sobre o objeto da ação. Exemplo: o agente quer furtar uma corrente de ouro, mas acaba furtando uma bijuteria. Erro sobre pessoa (error in persona): Neste erro, o agente que age com o dolo de matar A, mas acaba matando B, e responderá como se tivesse matado A. Resultado diverso do pretendido (aberratio criminis): Neste tipo de erro, temos o exemplo da pessoa que joga uma pedra querendo acertar uma vidraça, mas acaba por atingir uma pessoa. Nesta situação, responderá o agente por lesão corporal culposa. Aberratio causae: Aqui falamos de um erro quanto à causa do resultado, ou seja, é o caso do agente que querendo matar A afogado joga-o de uma ponte, mas a vítima morre de traumatismo por se chocar com pedras/pilares. O agente queria matar de uma forma, mas a vítima acabou morrendo por outro motivo. Qual a diferença entre erro de tipo e erro de proibição? No erro sobre elementos do tipo (CP, art. 20), o engano recai sobre elemento do tipo penal e exclui o dolo. No erro sobre a ilicitude do fato (CP, art. 21), o engano incide sobre a ilicitude do comportamento do sujeito, refletindo na culpabilidade, de forma a excluí-la ou atenuá-la.” Ilicitude: Antijuridicidade ou ilicitude é o fato típico que é contrário ao ordenamento jurídico. Trata-se do comportamento que se enquadra no texto legal e que não possui autorização para ser praticado, não incorre em nenhuma hipótese excludente e traz circunstâncias que não justificam a sua prática. Causas Legais da Exclusão da Antijuridicidade: No artigo 23 do Código Penal, são consideradas excludentes de ilicitude: o estado de necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito. Dessa forma, não haverá crime se o agente praticar o fato munido detais descriminantes. Estado de necessidade: O Código Penal define estado de necessidade como uma situação em que o agente, para salvar seu direito ou o de outra pessoa de perigo atual não provocado por si mesmo, sacrifica um outro direito, pois, nas situações fáticas, não se era exigível sacrificar o direito protegido. Nesse sentido, o perigo pode tanto resultar de ação da natureza como de ação humana (entretanto, se a ação humana for uma agressão injusta, o caso poderá ser enquadrado como legítima defesa). Legítima defesa: Já a legítima defesa ocorre quando o agente, defendendo-se ou defendendo outrem de uma agressão injusta, fere outro bem jurídico. Nesse sentido, ao contrário do estado de necessidade, o perigo/agressão sempre resulta de uma ação humana. Nesse sentido, os requisitos da legítima defesa, segundo Paulo Queiroz, são: I) agressão injusta; II) atual ou eminente; III) que busca defender direito próprio ou de terceiro; IV) empregando meios necessários e moderados. Assim, em primeiro lugar, a agressão deve ser injusta. Ou seja, a agressão necessariamente vem de um ser humano, a não ser que, vindo de algum animal, este tenha sido mandado por um humano Estrito cumprimento do dever legal: Além disso, o artigo 23 do Código Penal trata do estrito cumprimento do dever legal, mesmo que não o defina. Dessa forma, se alguém age no estrito cumprimento de um dever que a lei o obriga, é claro que não estará cometendo um crime. Pelo contrário, estará totalmente de acordo com a lei. Essa excludente é voltada aos agentes do poder público, pois são eles as pessoas as quais o ordenamento jurídico obriga determinadas condutas, como no caso de bombeiros e policiais. Entretanto, segundo Paulo Queiroz, particulares também podem se valer dessa excludente nos casos em que estiverem exercendo uma função pública, como um jurado ou perito. Exercício regular de direito Finalizando o artigo 23, um agente munido do exercício regular de direito não estará cometendo crime, pois sua conduta consiste em um poder ou uma faculdade legal. Ou seja, se uma lutadora de muay thai, seguindo as devidas regras do esporte, ferir outra durante a luta, não responderá por crime algum, pois o ordenamento jurídico permite essa situação. É muito comum, por exemplo, no futebol, jogadores chutarem a canela de outros (sem querer), causando feridas ou contusões consideráveis, porém que fazem parte da dinâmica do esporte. Consentimento válido do ofendido Ainda há o consentimento válido do ofendido, a não ser nos delitos que violam bens jurídicos coletivos ou indisponíveis. Dessa forma, os requisitos desta discriminante são: I) consentimento por agente capaz; II) disponibilidade do bem jurídico objeto do consentimento; III) ausência de vício de consentimento. Nesse sentido, pessoas consideradas incapazes pelo ordenamento jurídico não podem consentir, nem mesmo pessoas que estejam sem condições físicas/psíquicas para consentir, como sob o efeito de drogas. Causas supralegais de justificação Além das causas de justificação acima mencionadas, há autores, como Juarez Tavares, que explicam as causas supralegais de justificação. Essas causas, embora não expressas explicitamente no ordenamento jurídico, podem ser admitidas nos princípios e na interpretação das normas. Portanto, segundo o autor, elencam-se nessas causas os seguintes requisitos: I) existência de um motivo para atuar; II) não implicação de uma grave violação de direito alheio ou ofensa da dignidade humana; III) possibilidade de os efeitos serem perfeitamente assimilados pela vítima ou terceiros; IV) possibilidade de o bem jurídico ser descartado ou se situar fora do âmbito de proteção. O consentimento presumido, por exemplo, pode ser uma excludente de ilicitude. Ele pode se dar em casos extremos, em que o médico não consegue o consentimento da vítima nem de sua família, mas precisa agir. Culpabilidade: A culpabilidade, entendida como relação psíquica, é própria do modelo causal de Liszt, Beling e Radbruch, dominante na primeira metade do século XX, dando lugar à chamada “teoria psicológica da culpabilidade”. O conceito psicológico de culpabilidade é formado por dois elementos: a) a capacidade de culpabilidade (ou imputabilidade), como capacidade geral ou abstrata de compreender o valor do fato e de querer conforme a compreensão do valor do fato, excluída ou reduzida em situações de imperfeição (imaturidade) ou de defecção (doença mental) do aparelho psíquico; b) a relação psicológica do autor com o fato, existente como consciência e vontade de realizar o fato (dolo) ou como causação de um resultado típico por imprudência, imperícia ou negligência (culpa). A culpabilidade é um dos elementos da teoria do delito que mais evolui, pois evolui à medida que progride a própria teoria do delito, sendo multifacetada, pois seu desenvolvimento teórico teve a contribuição de diferentes teorias e concepções. A culpabilidade é o conceito mais debatido da Teoria do Delito, até aqui, em toda a teoria tem estado presente o homem, mas na culpabilidade o enfrentamos mais do que nunca. Por outro lado, é uma espécie de coroamento da teoria, e todos os erros que tenhamos cometido nos estratos inferiores aqui terão repercussão. Quando os alicerces de um edifício são mal construídos, o problema mais árduo é conseguir que suporte os últimos andares da obra, por essas razões, a culpabilidade é o mais apaixonante estrato da teoria do delito. Teorias Modernas da Culpabilidade: 1 - Teoria causal naturalista ou psicológica da culpabilidade De acordo com essa teoria a culpabilidade significava a ligação, o vínculo psicológico que ligava o agente ao fato ilícito por ele cometido. Assim os autores Liszt, Beling e Bellavista de acordo com uma visão analítica do delito, dividiram-na sobre dois aspectos sendo um externo e outro interno. Nos quais o aspecto externo seria ação típica e antijurídica, e o interno seria a culpabilidade como citada anteriormente, sendo atribuída a essa somente elementos anímicos puramente subjetivos. Para essa teoria a culpabilidade seria o lugar para abordar os elementos subjetivos dolo e culpa, uma vez que eram considerados as únicas espécies de culpabilidade. Antes de aferir dolo e culpa era necessário analisar a imputabilidade do agente, ou seja, se era capaz de responder pelo injusto penal praticado ou somente capacidade de ser culpado. Para essa teoria a culpabilidade somente poderia ser afastada diante de causas que eliminasse o vínculo psicológico como o erro, que elimina o elemento intelectual, e a coação, que suprime o elemento volitivo do dolo. 2 - Teoria normativa ou psicológico-normativa: A partir das modificações no sistema anterior por Frank, principalmente no que diz respeito ao tipo penal e a culpabilidade, introduziu elementos subjetivos e normativos no tipo. A culpabilidade deixa de ser mero vínculo psicológico da agente ao fato e passa a ser tratada como um juízo de censura ou reprovação pessoal. Agora mais que os elementos subjetivos do dolo e culpa, para que o agente pudesse ser punido deveria se observar nas condições que tal estivesse inserido podia exigi-lo prática de conduta conforme o direito. Foi revisto também a relação entre tipicidade e antijuridicidade, que aquela deixa de ser mero indício dessa para ser a sua razão de existência. A estrutura da culpabilidade passa a ter novos contornos, ficando com o seguintes conteúdos; a) Imputabilidade: possibilidade de ser responsabilizar alguém a prática de determinado fato típico; b) Dolo e culpa: dolo = vontade mais consciência, e culpa vontade defeituosa; c) Exigibilidade de conduta diversa: não atua com culpa a pessoa a quem não era razoável exigir uma conduta diversa da realizada; 3 - Teoria da ação final: Essa teoria vem para modificar profundamente o sistema causal, redefinindo o conceito de ação, que agora não é mais um mero ato voluntário que venha causar uma modificação no mundo exterior, passa agora a analisar o delito utilizando o pressuposto de que causalidade é obrada inteligência humana. A ação é por isso um acontecer final. Toda conduta humana vem impregnada de finalidade, assim o dolo não podia mais ser analisado na culpabilidade e é transportado para o tipo, afastando dele a consciência sobre a ilicitude do fato para sua configuração. 4 - Teoria social da ação: Essa teoria procura fundir aspectos do causalismo e do finalismo, definindo ação como fenômeno social, ou seja, a ação como conduta socialmente relevante dominada ou dominável pela vontade humana. Porém tal teoria vem sendo repudiada pela maior parte dos autores pela dificuldade de estabelecer parâmetros para definição de alguns conceitos, como por exemplo o que seria uma conduta socialmente relevante. 5 - Teoria funcionalista Resumidamente essa teoria desenvolve um sistema entendido como racional-final ou funcional do direito, tendo em vista que para seus elaboradores partem do princípio de que a formação do sistema jurídico penal não pode vincular-se a realidades prévias, só podendo se guiar pelas finalidades do Direito Penal. Esse funcionalismo parte de pressupostos tem como núcleo a chamada teoria dos fins da pena. Elementos da Culpabilidade: Imputabilidade: A imputabilidade é a capacidade de culpabilidade, ou seja, a possibilidade de se atribuir, imputar fato típico e ilícito ao agente. Potencial Consciência Da Ilicitude: Também elemento da culpabilidade, a Potencial Consciência de Ilicitude consiste na particular condição que guarda o agente em conhecer, ou ao menos de poder conhecer a ilicitude (ou antijuridicidade) de determinada conduta. Exigibilidade De Conduta Diversa: Não sendo suficiente para caracterizar a Culpabilidade do agente a Imputabilidade e a Potencial Consciência da Ilicitude, a Exigibilidade de Conduta Diversa também é elemento essencial para caracterizá-la. A Exigibilidade de Conduta diversa consiste na possibilidade de exigir do agente que ele haja de forma legal, ou seja, conforme o direito diante de uma determinada situação. É a análise acerca da coerência em poder exigir que o agente determinasse sua conduta de determinada forma. Excludentes de Culpabilidade: Excludente de culpabilidade é a possibilidade de descaracterização de um delito com base em situações que afastam ou excluem a culpa e, consequentemente, a sanção. De forma mais simples, trata-se de uma circunstância que desvia ou exclui um sujeito da culpa, deixando de ser qualificado como delito e de ser cabível a punição, mesmo que ele tenha realizado a ação. Pode-se dizer que o excludente de culpabilidade não é mencionado diretamente em nenhum artigo do Código Penal brasileiro, ele se encontra nas circunstâncias em que o caso gerador do ato ilícito é atípico em relação à penalidade prevista em lei. Quando o excludente de culpabilidade pode ser usado? O excludente de culpabilidade pode ser alegado quando o sujeito apresentar as seguintes circunstâncias: . Doença, desenvolvimento incompleto ou retardo mental; . Menoridade penal; . Coação ou ordem hierárquica superior; não conhecimento do ato ilícito; .Estado de embriaguez completa, desde que por motivo fortuito ou força maior. Isso acontece, por exemplo, em casos de embriaguez involuntária, onde o sujeito, sem qualquer conhecimento, acaba ingerindo substância que altera o seu estado de discernimento. Também ocorre em situações nas quais uma pessoa não tem conhecimento de uma doença mental e se manifesta pela primeira vez na condução de seu veículo. Actio Libera in causa no Direito Penal: Denomina-se actio libera in causa a ação de quem usa deliberadamente um meio para se colocar em estado de incapacidade física ou mental, parcial ou plena, no momento da ocorrência do fato delituoso. Também se funda na ação de quem, apesar de não ter a intenção de praticar o delito, podia prever que tal meio o levaria a cometê-lo. Neste caso, pode ser entendido também como dolo eventual. Quando se fala em actio libera in causa por culpa ou dolo eventual, refere-se sempre ao resultado criminoso: há dolo eventual quando o agente, tendo previsto o resultado, prossegue em suas ações, assumindo o risco de vir a produzi-lo, e culpa quando devendo prevê-lo, não o fez, ou acreditou verdadeiramente que o resultado não se concretiza. Causa Supralegal da Excludente de culpabilidade: A causa supralegal mais difundida do excludente de culpabilidade é a inexigibilidade de conduta diversa. Isso significa que na circunstância em que o crime ocorreu não se poderia exigir que o sujeito adotasse outro comportamento sem ser o de praticar o delito. São exemplos de causas supralegais de exclusão da culpabilidade: A) Cláusula de consciência. Nos termos da cláusula de consciência, estará isento de pena aquele que, por motivo de consciência ou crença, praticar algum fato previsto como crime, desde que não viole direitos fundamentais individuais B) Desobediência civil: a desobediência civil representa atos de insubordinação que têm por finalidade transformar a ordem estabelecida, demonstrando sua injustiça e a necessidade de mudança. Fontes do Direito Penal (Mediatas e Imediatas): As fontes formais imediatas são aqueles fatos que, por si só, são fatos geradores do direito, como por exemplo, as normas legais. As fontes formais mediatas são os costumes, os princípios gerais do direito, a jurisprudência e a doutrina.