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<p>NUTRIÇÃO APLICADA AO EXERCÍCIO</p><p>UNIDADE I - Noções de Nutrição e Metabolismo Aplicados à Saúde do Atleta e Esportista</p><p>Objetivos de Aprendizagem</p><p>A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem:</p><p>· Compreender a fisiologia e o metabolismo energético no exercício e em repouso.</p><p>· Diferenciar a utilização de nutrientes nos diferentes estados metabólicos (jejum, absortivo e pós-absortivo).</p><p>· Aprofundar o estudo sobre o funcionamento do sistema digestório e órgãos anexos.</p><p>· Aplicar os conhecimentos sobre a composição, as propriedades e o aproveitamento dos nutrientes pelo organismo humano, considerando as especificidades dos exercícios físicos.</p><p>1 CONTEXTUALIZAÇÃO</p><p>O ser humano precisa obter dos alimentos a energia e os nutrientes necessários para o crescimento, o desenvolvimento, a reprodução e a manutenção da vida. Neste sentido, uma alimentação adequada, em quantidade e qualidade, é capaz de manter a saúde e evitar doenças.</p><p>No entanto, para que isso aconteça, os alimentos devem ser ingeridos e digeridos, liberando os nutrientes que serão absorvidos e estarão disponíveis para a sua utilização pelo organismo.</p><p>Os alimentos fornecem os nutrientes responsáveis por regular os processos fisiológicos, auxiliar na produção e utilização de energia, na formação de tecidos novos, bem como no reparo de células já existentes. Portanto, qual seria a relação entre nutrição e atividade física? Por meio de uma alimentação adequada você consegue melhorar a capacidade de rendimento físico.</p><p>Além disso, você já deve ter notado que pessoas que praticam exercícios físicos modificam o seu padrão alimentar, o que sugere que grande parte desses indivíduos tende a cuidar mais da alimentação.</p><p>Por isso, estudar os processos de digestão, absorção e metabolismo de nutrientes, o controle neural e hormonal do comportamento alimentar e as vias de produção de energia é essencial para os fisiologistas do exercício, visto que as modificações nutricionais podem aprimorar o desempenho físico.</p><p>O capítulo a seguir explora o metabolismo energético e a utilização de nutrientes nos diferentes estados metabólicos no contexto da fisiologia do exercício.</p><p>2 Processos de digestão, absorção e metabolismo de nutrientes</p><p>No interior do trato digestório, os alimentos percorrem um caminho regulado pelo sistema nervoso e peptídeos ativos. Todo esse trânsito inicia-se na boca, quando o alimento é misturado com a saliva, formando o bolo alimentar, que progredirá para o início do processo digestivo (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>Ao longo do percurso, as contrações e as secreções digestivas modificam os alimentos de forma mecânica e química, para que sejam degradados em moléculas menores até que consigam atingir a circulação (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>Para que os nutrientes sejam eficientes na sua funcionalidade, é necessário não apenas sua absorção, mas o aproveitamento e a utilização pelas células. Neste sentido, diversos fatores podem interferir na eficiência deste processo. Estas etapas não ocorrem sempre da mesma forma, pois este comportamento é influenciado pela quantidade e tipo do alimento ingerido, bem como pelo estado nutricional, distúrbios digestivos, doenças associadas, idade e fatores emocionais do indivíduo (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>Após o processo de mastigação e deglutição dos alimentos, o bolo alimentar é impulsionado até chegar ao estômago. Neste processo, a epiglote impede que o alimento atinja as vias aéreas. Durante a passagem do alimento do esôfago para o estômago, existe um esfíncter responsável por regular esta etapa, impedindo o refluxo. No estômago, o pH é ácido, e o suco gástrico, rico em ácido clorídrico e outros componentes, auxilia no trabalho de digestão, que resulta no quimo. Este prossegue para o intestino delgado que, com pH básico e por meio de movimentos peristálticos e auxílio da bile e do suco pancreático, dá continuidade ao processo (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>2.1 SISTEMA DIGESTÓRIO E ÓRGÃOS ANEXOS</p><p>A chegada dos alimentos nos diferentes locais do trato digestório estimula o sistema nervoso central, principalmente o sistema nervoso autônomo e o sistema neuroendócrino, estimulando as funções e as secreções do trato digestório. As características dos alimentos (acidez, osmolaridade, volume) estimulam e acionam receptores, plexos nervosos e glândulas endócrinas que regularão a motilidade, ou seja, a velocidade do trânsito gastrointestinal (LUCIF JR., ANGELIS, 2008).</p><p>Os principais hormônios secretados no trato digestório, seus efeitos e ação serão discutidos na próxima seção “Controle neural e hormonal do comportamento alimentar”.</p><p>O processo inicial, a digestão na boca, é importante, pois a mastigação é responsável pela trituração do alimento, influenciando no tamanho das partículas que serão deglutidas. Além disso, a secreção da saliva pelas glândulas salivares também apresenta papel fundamental, pois ela contém a ptialina, uma amilase que auxilia na higienização oral por digerir resíduos alimentares que permanecem nos dentes. A saliva também auxilia na solubilização e lubrificação, facilitando a mastigação (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>No estômago, os alimentos são esmagados e triturados. As proteínas começam a ser digeridas em polipeptídeos menores pela ação da pepsina. As gorduras não são digeridas nesta etapa, mas passam pelo processo de emulsificação por ação da lipase (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>A pepsina é liberada na cavidade gástrica na forma de um precursor inativo, o pepsinogênio. O pepsinogênio torna-se ativo (pepsina) na presença de ácido clorídrico, presente no suco gástrico (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>A mistura das secreções gástricas com os alimentos triturados e parcialmente digeridos ou emulsificados é chamada de quimo, que passa do estômago para o intestino delgado através do esfíncter pilórico. O esfíncter pilórico controla a passagem por meio de movimentos de contração e relaxamento. O conteúdo das refeições influencia na velocidade desse esvaziamento gástrico, sendo a passagem mais lenta em refeições mais gordurosas e mais rápida em refeições líquidas (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>O intestino delgado é formado pelo duodeno, jejuno e ílio. O quimo (ácido) é neutralizado e diluído pela ação das secreções intestinais e pancreáticas, principalmente pelo efeito do bicarbonato. As enzimas digestivas (amilases, proteases e lipases) atuam na completa digestão dos carboidratos, lipídios e proteínas, sendo esta função auxiliada também por outras enzimas e pela bile. A bile atua como solubilizante dos lipídios, formando micelas que facilitam a digestão e a absorção das gorduras (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>As particularidades no processo de digestão dos carboidratos, lipídios e proteínas serão discutidas separadamente nos próximos itens.</p><p>No intestino grosso ocorre a maior atividade bacteriana do trato digestório. As colônias continuam o processo de digestão de alimentos que resistiram às fases anteriores, fermentando os carboidratos e o seu produto serve como fonte de energia para as células do cólon. No intestino grosso ocorre também a reabsorção de água, que juntamente às fibras alimentares, auxilia na consistência e no volume das fezes. A produção excessiva de gases pode ocasionar flatulências, desconforto, dores e fezes amolecidas (LUCIF JR.; ANGELIS, 2008).</p><p>FIGURA 1 – SISTEMA DIGESTÓRIO E ÓRGÃOS ANEXOS</p><p>2.2 CARBOIDRATOS</p><p>Os carboidratos são macronutrientes e constituem a maior fonte de nutriente presente nos alimentos, na forma de glicose, frutose, galactose, sacarose, lactose, amido e celulose (DEMONTE, 2008).</p><p>Por que os carboidratos estão presentes nos alimentos de origem vegetal? A molécula de carboidrato é formada pela combinação de átomos de carbono, hidrogênio e oxigênio, constituindo a fórmula geral (CH2O)n. Pode-se dizer que os carboidratos contêm, na intimidade da sua célula, água e CO2. A clorofila é a única molécula da natureza que emite energia em forma de calor após excitação dos seus elétrons pela luz. Ela utiliza esta energia</p><p>sendo convertido em lactato. Como? Adquirindo hidrogênio fornecido pelo NADH. Entretanto, o H+ livre no músculo provoca acidose muscular, causando dor e queimação (estimula terminações nervosas). A acidose também inibe a ligação entre o cálcio e a tropomiosina, ou seja, há inibição do próprio mecanismo de contração (induzindo à fadiga). A duração é intermediária, entre 10 e 90 segundos (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Na ausência de glicose disponível, ocorre a glicogenólise (quebra do glicogênio). Situação 01: no músculo, a glicose permanece com o grupamento fosfato para “prender” a molécula dentro da célula, para que a glicose seja “liberada” apenas quando solicitado (contração muscular), ou seja, quebra de glicogênio para liberação rápida de energia. Situação 02: no fígado, a glicose é degradada para que a molécula seja exportada para a corrente sanguínea para manter os níveis de glicemia durante os períodos de jejum prolongado, ou seja, quebra de glicogênio para disponibilização de glicose no sangue. Com a escassez/limitação do estoque de glicogênio muscular, ocorre a gliconeogênese. Nesta situação, a síntese de glicose acontece a partir de compostos que não são carboidratos (glicerol, lactato, aminoácidos). Quando a reserva de glicose não é suficiente, o organismo precisa sintetizar glicose por outras vias (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>À medida que o exercício progride (após 2 minutos), o sistema aeróbio predomina e o consumo de oxigênio passa a constituir um fator importante. A via aeróbica envolve a oxidação total da glicose (ciclo de Krebs e cadeia respiratória). A desvantagem da via aeróbia é a sua lentidão, sendo dependente de várias enzimas, oxigênio e a passagem do piruvato para dentro da mitocôndria. Essa é uma grande contribuição para eventos esportivos de longa duração no atletismo, como corridas e provas de rua de longa distância e, na natação, especificamente nas provas de meio fundo e de fundo (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Os lipídios e os carboidratos são os principais nutrientes que fornecem energia para a contração muscular. Os lipídios são armazenados como triacilglicerol (TAG) e as fibras musculares não conseguem oxidar o TAG diretamente. Em primeiro lugar, o TAG deve ser degradado em seus componentes (ácidos graxos e glicerol). Quando a lipólise é realizada, o glicerol é transportado ao fígado para ser convertido e utilizado para liberar a energia necessária aos exercícios. Os ácidos graxos são ativados e migram para a mitocôndria para realizar a beta-oxidação como fonte energética (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Os ácidos graxos e o glicerol derivados da lipólise são liberados na circulação. Tanto a velocidade da lipólise quanto do fluxo sanguíneo influencia a velocidade da entrada de ácidos graxos e glicerol na circulação. Durante exercícios prolongados e com intensidade moderada, verifica-se o aumento do fluxo sanguíneo no tecido adiposo. Nessas condições, a lipólise do tecido adiposo é favorecida, aumentando a disponibilidade de ácidos graxos para a captação e utilização pelo músculo esquelético (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>A proteína, se convertida à glicose via gliconeogênese, pode ser utilizada como energia. Pode também gerar ácidos graxos livres durante o jejum, via lipogênese, mas primeiramente precisa ser transformada em uma forma que lhe permita participar das vias energéticas. No entanto, o organismo utiliza pouca proteína como fonte energética: menos de 5% no repouso, menos de 10% no exercício. O nitrogênio dos aminoácidos, por não ser oxidado, torna o rendimento das proteínas difícil de ser determinado (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>FIGURA 2 – SUGESTÃO DE ESQUEMA PARA REPRESENTAR A UTILIZAÇÃO DOS SUBSTRATOS NO EXERCÍCIO: CONTRIBUIÇÃO DOS SUBSTRATOS DURANTE O METABOLISMO ENERGÉTICO</p><p>O corpo não tem uma espécie de torneirinha que abre e fecha para gastar mais ou menos carboidratos com “x” minutos e depois fecha para gastar gordura. Em princípio, no início de um exercício aeróbio o corpo utiliza mais carboidrato, mas cada um tem seus limites na medida em que são mais ou menos treinados. Depois de certo tempo, variável para cada um, o corpo começa a gastar mais gordura, mas em determinado tempo passa a economizar também a gordura, por assim dizer, a título de preservação dos órgãos vitais e vai buscar combustível na proteína muscular, induzindo um processo conhecido por catabolismo (perda de massa muscular). Talvez seja essa a razão dos maratonistas não adeptos à musculação serem tão magros. Os três sistemas metabólicos são ativados durante o exercício de forma integrada. Desde o início do exercício todos os sistemas contribuem em parte para a liberação de energia e, conforme a intensidade, há o predomínio de um sobre os outros (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Há mais de 50 anos, Randle et al. (1963) propuseram a existência de uma competição entre glicose e ácidos graxos como substratos para a síntese de ATP. Sob elevada disponibilidade de lipídios, os músculos esqueléticos utilizam predominantemente ácidos graxos para a síntese e obtenção de ATP. Sob elevada disponibilidade de carboidratos, utilizam predominantemente glicose.</p><p>A capacidade de estoque de carboidrato é limitada, fazendo-se necessária a busca por estratégias de economia e armazenamento de energia. O requerimento diário de glicose é da ordem de 300 g/dia, ao passo que a capacidade do fígado em armazenar glicogênio é de cerca de 100 g/dia. Por outro lado, as reservas de lipídios em nosso organismo são ilimitadas, o que explicaria a preferência do nosso organismo pelos lipídios em condições basais e no jejum, aumentando a disponibilidade de glicose para outros tecidos (sistema nervoso, sanguíneo e imunológico). Esse conceito ajuda a esclarecer a preferência do tecido muscular pelos ácidos graxos durante atividade moderada mantida por longo período. Nessas condições, a lipólise do tecido adiposo periférico é favorecida, aumentando a disponibilidade de ácidos graxos para a captação e utilização pelo músculo esquelético. Caso essa regulação não ocorra, os estoques de glicogênio podem ser depletados precocemente, comprometendo a performance. Em contraste, durante o exercício de alta intensidade mantido por curto intervalo de tempo, há aumento na disponibilidade e na taxa de oxidação de glicose (SILVEIRA et al., 2011).</p><p>O metabolismo energético é composto pelos processos de armazenamento e liberação de energia dos nutrientes por meio de diferentes reações químicas. A energia necessária para a contração muscular durante a realização de exercícios físicos é proveniente da hidrólise (quebra) de ATP. No entanto, sua concentração intramuscular é extremamente baixa, sendo suficiente para fornecer energia por somente alguns segundos. Com isso, conforme o período do exercício físico for prolongado, maior será a necessidade da ressíntese de ATP. Assim, o estabelecimento do sistema predominante da ressíntese de ATP depende da intensidade e da duração total do exercício.</p><p>FIGURA 3 – GRÁFICO DA DEMANDA ENERGÉTICA DOS DIFERENTES TIPOS DE METABOLISMO</p><p>FIGURA 4 – DEPENDÊNCIA METABÓLICA NAS DIFERENTES PROVAS E MODALIDADES ESPORTIVAS (DURAÇÃO ESTIMADA)</p><p>FIGURA 5 – PERCENTUAL DE PRODUÇÃO DE ENERGIA PELAS VIAS AERÓBIA E ANAERÓBIA NA PRODUÇÃO DE ATP</p><p>Aproximadamente aos 75 segundos de exercício ocorre o equilíbrio entre as duas formas de produção de ATP como fonte de energia pelas vias aeróbia e anaeróbia. Portanto, considera-se esse o momento de transição entre a produção de ATP pela via da glicólise aeróbia-anaeróbia.</p><p>A dificuldade de cálculo do custo energético - quantidade de energia necessária para realizar algo - durante a maioria das atividades físicas deve-se ao fato de a solicitação energética ser mista. Enquanto a fração aeróbia pode ser avaliada pela medição direta do VO2, a fração anaeróbia apenas pode ser quantificada por estimativa (REIS, 2011).</p><p>A realização crônica do exercício físico, ou seja, o processo de adaptação a longo prazo do treinamento físico pode promover uma mudança no perfil de utilização</p><p>de substratos energéticos, aumentando ou diminuindo a participação dos diferentes tipos de “combustíveis” durante a realização aguda de esforço (ROGATTO, 2002).</p><p>Estas mudanças constituem adaptações que não têm apenas um caráter imediato (agudo), mas também crônico, e que tornam possível não só a sobrevivência do organismo durante o decorrer do exercício, mas que também o preparam para solicitações posteriores, reparando os tecidos danificados e aumentando a sua capacidade funcional (CARNEIRO; LOPES; MOREIRA, 2002).</p><p>O aumento das necessidades dos músculos envolvidos num exercício é suprido pelo aumento do aporte local por parte dos sistemas cardiovascular, respiratório, endócrino e nervoso. Existem múltiplos sistemas de sinalização que põem em contato os tecidos periféricos com os órgãos centrais, determinando uma alteração quase imediata da sua função. Estas respostas constituem as adaptações agudas do organismo ao exercício e têm por objetivo a manutenção da capacidade funcional e a sobrevivência do indivíduo durante a sua duração (CARNEIRO; LOPES; MOREIRA, 2002).</p><p>As adaptações crônicas visam à reparação do organismo após uma agressão física, química e metabólica, procurando também aumentar a sua capacidade de sobreviver perante uma agressão da mesma natureza no futuro. Estas alterações ocorrem tanto a nível dos músculos envolvidos no exercício como nos sistemas que os sustêm, demorando horas/dias/semanas a estabelecerem-se (CARNEIRO; LOPES; MOREIRA, 2002).</p><p>A resposta inflamatória é a responsável pelas “dores musculares do dia seguinte” do exercício. Neste contexto, é fácil compreender a importância da recuperação muscular antes da aplicação de um novo estímulo. Ao contrário da maioria destes tecidos, o músculo esquelético não é capaz de aumentar o número de células que o constitui. O músculo distribui a carga por uma maior área de secção. O aumento da área de secção faz-se à custa do aumento do conteúdo do músculo em proteínas contrácteis (miosina, actina, troponina) e do aumento do número de núcleos que o constitui (visto ser um tecido sincicial). O aumento das dimensões das células musculares reflete-se num aumento global da massa do músculo, constituindo o fenômeno de hipertrofia. Ocorre um aumento da concentração das enzimas envolvidas no metabolismo glicolítico, como a desidrogenase do lactato. As alterações estruturais assumem uma particular importância na adaptação ao treino de força, conferindo, através da hipertrofia, um aumento das capacidades mecânicas. O treino de resistência induz uma resposta adaptativa que passa sobretudo pelas propriedades metabólicas do tecido muscular. Estruturalmente, verifica-se uma discreta atrofia das fibras do tipo II e uma transformação fenotípica que as aproxima das fibras tipo I. As enzimas responsáveis pela via aeróbia, ou seja, aquela que fornece a maioria da energia nos exercícios de resistência, aumentam quantitativamente. Nos músculos treinados, desenvolve-se uma maior capacidade oxidativa dos ácidos graxos e dos corpos cetônicos. Por este conceito, entende-se que, existindo um maior número de mitocôndrias e enzimas da via aeróbia, é possível obter a mesma atividade oxidativa com um estímulo menor. Para a mesma intensidade de treino, um indivíduo treinado exibe uma menor produção de lactato, um maior consumo de ácidos graxos e uma depleção de glicose e glicogênio mais lenta. É importante mencionar que as adaptações metabólicas e estruturais citadas são rapidamente reversíveis (algumas semanas) com a interrupção do treino muscular (CARNEIRO; LOPES; MOREIRA, 2002).</p><p>Durante o exercício, os seus praticantes sentem um desconforto proporcional à intensidade e que resulta da taquicardia e taqui/polipneia que se instalam. A função do sistema cardiorrespiratório é levar oxigênio, nutrientes e hormônios aos tecidos periféricos, retirando simultaneamente os subprodutos do metabolismo. Durante a prática de um exercício, em resposta ao aumento do ritmo metabólico do tecido muscular, este sistema acompanha esse aumento de função. Posteriormente, com as adaptações crônicas do tecido muscular, surge a necessidade de evolução do sistema, de forma a poder suprir as exigências crescentes (CARNEIRO; LOPES; MOREIRA, 2002).</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1. O sedentarismo aumenta a incidência de doenças cardiovasculares na vida adulta, sendo a prática de exercícios físicos aeróbios indicada para o combate e prevenção das doenças, desde que orientadas por profissionais da área de Educação Física (AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE, 2014).</p><p>A partir dessas informações, assinale a alternativa CORRETA sobre os efeitos a longo prazo do treinamento aeróbio:</p><p>A) A elevação da frequência cardíaca de repouso.</p><p>B) A redução do consumo de oxigênio máximo (VO2 máximo).</p><p>C) A redução da velocidade de corrida no início do acúmulo de lactato.</p><p>D) O aumento do recrutamento das fibras musculares tipo II, o que pode causar hiperplasia ou hipertrofia mitocondrial.</p><p>E) O aumento da capacidade metabólica e a melhora da performance mecânica do miocárdio.</p><p>3 Necessidades nutricionais nas diversas modalidades esportivas</p><p>Apesar de não haver controvérsia sobre o fato de que o balanço energético negativo causado por redução na ingestão calórica resulte em diminuição da massa corporal, há muita divergência sobre a melhor maneira de promover essa redução de consumo de calorias. O tratamento dietético é mais bem-sucedido quando aliado a um programa de modificação comportamental, que envolva aumento no gasto energético, promovendo um balanço energético negativo. Para o sucesso do tratamento dietético, devem-se manter mudanças na alimentação por toda a vida. Dietas muito restritivas e rígidas não são sustentáveis, embora possam ser usadas por um período limitado de tempo. Um planejamento alimentar flexível, que objetive reeducação, geralmente obtém mais sucesso, devendo considerar, além da quantidade de calorias, as preferências alimentares do paciente, o aspecto financeiro e o estilo de vida (ABESO, 2016).</p><p>Em longo prazo, o método, a velocidade de perda de peso, o ajuste fisiológico e a habilidade de manter as mudanças comportamentais de dieta e atividade física é que determinarão o sucesso de qualquer programa de emagrecimento. Todas as dietas hipocalóricas, se sustentadas em longo prazo, levam à perda de peso (ABESO, 2016).</p><p>A taxa metabólica basal (TMB) ou gasto energético basal (GEB) é o valor de energia mínimo necessário para manter o organismo funcionando em todas as suas funções vitais: respiração, metabolismo celular, manutenção da temperatura corporal (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Com os valores da massa corporal, estatura e idade, é possível estimar a TMB. O primeiro método validado foi há 100 anos, por Harris e Benedict, em 1919. Outros métodos preditivos também são utilizados, como a da Food and Agriculture Organization - FAO/ World Health Organization - WHO (1985) e do Institute of Medicine - IOM (2001), conforme equações apresentadas na Tabela 1.</p><p>TABELA 1 – EQUAÇÕES PREDITIVAS DA TAXA METABÓLICA BASAL</p><p>Após estimar a TMB, é necessário calcular a necessidade energética total (NET) ou gasto energético total (GET). Esse valor é a quantidade de energia que os indivíduos necessitam para suas atividades diárias, levando em consideração a prática de exercícios físicos.</p><p>No caso da TMB (OMS, 1985), o cálculo é feito multiplicando o resultado pelo fator atividade. O fator atividade é dividido em: leve, sendo 1,55 para homens e 1,56 para mulheres; moderado, sendo 1,78 para homens e 1,64 para mulheres e intenso, sendo 2,10 para homens e 1,82 para mulheres.</p><p>Para o IOM (2001), é necessário estimar por uma nova equação, conforme apresentado nas Tabelas 2 e 3.</p><p>TABELA 2 – EQUAÇÕES PREDITIVAS DO GASTO ENERGÉTICO TOTAL, SEGUNDO INSTITUTE OF MEDICINE - IOM</p><p>TABELA 3 – NÍVEL DE ATIVIDADE FÍSICA - AF, SEGUNDO INSTITUTE OF MEDICINE - IOM</p><p>As necessidades nutricionais diárias podem ser distribuídas em percentual ou grama por quilo de peso, conforme apresentado na Figura 6.</p><p>FIGURA 6 – DISTRIBUIÇÃO DE MACRONUTRIENTES</p><p>EM PERCENTUAL</p><p>FIGURA 7 – DISTRIBUIÇÃO DE MACRONUTRIENTES EM GRAMA POR QUILO DE PESO</p><p>Para atletas, existe uma recomendação específica para refeições no pré e pós-treino. No pré-treino, pode-se levar em consideração uma alimentação rica em carboidratos, sendo:</p><p>· 4 – 5 g/kg em uma refeição 3 a 4 horas antes.</p><p>· 2 – 3 g/kg de 1 a 2 horas antes.</p><p>· 1 – 2 g/kg de 30 a 60 minutos antes.</p><p>· 50 g quando a última refeição acontecer menos de 30 minutos antes do exercício.</p><p>É importante lembrar que alimentos de alto índice glicêmico em uma refeição de 30 a 60 minutos antes do exercício pode ocasionar hipoglicemia rebote, relacionada à sensibilidade à insulina ou à intensidade do exercício.</p><p>Os objetivos do consumo de carboidrato no pré-treino são: maximizar as reservas de glicose, evitar a fome durante o exercício e evitar a hipoglicemia. Recomenda-se que os alimentos consumidos sejam do hábito alimentar do praticante, sem condimentos e alimentos atípicos e que permitam esvaziamento gástrico adequado. A composição da refeição depende de fatores, como: horário do treino, duração do exercício, intensidade, modalidade esportiva, além de fatores individuais, como a tolerância gástrica, o tempo disponível para realizar a refeição e as preferências alimentares (SBME, 2009).</p><p>O que evitar no pré-treino? Alimentos gordurosos, de difícil digestão, excesso de líquidos e excesso de fibras.</p><p>A alimentação pós-treino tem como principal objetivo restabelecer as reservas de glicogênio e otimizar a recuperação muscular por meio do consumo de proteínas de alto valor biológico e carboidratos (SBME, 2009).</p><p>Após o treino, a permeabilidade da membrana plasmática da célula muscular à glicose e atividade da enzima glicogênio sintase apresentam-se elevadas, favorecendo a síntese de glicogênio. Por isso, alimentos de índice glicêmico alto ou moderado são mais indicados.</p><p>O índice glicêmico (IG) é a curva glicêmica produzida por 50 g de carboidrato (disponível) de um alimento teste em relação a 50 g de carboidrato do alimento padrão (glicose ou pão branco), ou seja, reflete a taxa de digestão e absorção (velocidade) da glicose. O IG é determinado pela relação entre a área abaixo da curva de resposta glicêmica duas horas após o consumo de uma porção do alimento teste e a área abaixo da curva de resposta glicêmica correspondente ao consumo de uma porção do alimento referência (com a mesma quantidade de carboidrato que a porção do alimento teste). O valor obtido nessa relação é multiplicado por 100 e o IG é expresso em porcentagem. Os alimentos que provocam maior aumento na resposta glicêmica apresentam elevado IG, enquanto aqueles que estão associados a uma menor resposta glicêmica têm valores menores de IG (Foster-Powell; Holt; Brand-Miller, 2002). A classificação do índice glicêmico está apresentada na Tabela 4.</p><p>TABELA 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS ALIMENTOS, SEGUNDO O ÍNDICE GLICÊMICO</p><p>A carga glicêmica (CG) quantifica o efeito total de uma determinada quantidade de carboidrato sobre a glicose plasmática, representando o produto do IG de um alimento pelo seu conteúdo de carboidrato disponível. O conceito de CG envolve tanto a quantidade como a qualidade do carboidrato consumido, o que a torna mais relevante do que o IG, quando um alimento é avaliado isoladamente (Foster-Powell; Holt; Brand-Miller, 2002).</p><p>Fórmula CG = (IG x carboidrato disponível na porção) / 100</p><p>A classificação da carga glicêmica está apresentada na Tabela 5.</p><p>TABELA 5 – CLASSIFICAÇÃO DOS ALIMENTOS, SEGUNDO A CARGA GLICÊMICA</p><p>Embora o IG seja útil para predizer a resposta glicêmica de alimentos contendo carboidrato, sua aplicabilidade clínica continua sendo questionada. As Figuras 8 e 9 apresentam uma lista de equivalência da pirâmide dos alimentos, segundo a quantidade de carboidratos, o índice glicêmico (IG) e a carga glicêmica (CG) no grupo de frutas e dos principais alimentos-fonte de carboidratos (PHILIPPI, 2008).</p><p>FIGURA 8 – LISTA DE EQUIVALÊNCIA DA PIRÂMIDE DOS ALIMENTOS, SEGUNDO QUANTIDADE DE CARBOIDRATOS, ÍNDICE GLICÊMICO (IG) E CARGA GLICÊMICA (CG) NO GRUPO DE FRUTAS</p><p>FIGURA 9 – ÍNDICE GLICÊMICO (IG) E CARGA GLICÊMICA (CG) DOS PRINCIPAIS ALIMENTOS-FONTE DE CARBOIDRATOS</p><p>Diferentemente dos macronutrientes (carboidratos, lipídios, proteínas), os micronutrientes (vitaminas e minerais) não contêm calorias, mas são fundamentais para regular as ações e as funções dos órgãos, bem como para o bom funcionamento do sistema imunológico.</p><p>As vitaminas são classificadas de acordo com a sua solubilidade, podendo ser lipossolúveis (A, D, E e K) ou hidrossolúveis (complexo B e C). As vitaminas hidrossolúveis são solúveis em água, e as vitaminas lipossolúveis são solúveis em solventes orgânicos. Essa classificação é importante para entender o processo de absorção e metabolização.</p><p>As vitaminas lipossolúveis são absorvidas no trato intestinal com as gorduras da dieta. Na corrente sanguínea, essas vitaminas circulam ligadas a proteínas específicas. A vitamina A é armazenada no fígado, enquanto a vitamina D e E são armazenadas no tecido adiposo e muscular. A vitamina K não tem capacidade de armazenamento, sendo necessário ser fornecida regularmente pela dieta (RONCADA, 2008).</p><p>A vitamina A pode ser encontrada em alimentos de origem animal (retinol ou vitamina A pré-formada): fígado, gema de ovo, leite integral, manteiga, creme de leite e queijo, bem como em alimentos de origem vegetal (carotenoides ou pró-vitamina A), cuja propriedade é a pigmentação dos alimentos amarelo-alaranjado: cenoura, abóbora, manga, mamão e vegetais verde-escuro (que mascaram a cor devido à quantidade de clorofila): couve, agrião, rúcula, espinafre e almeirão. A principal função da vitamina A é participar do processo visual (RONCADA, 2008).</p><p>A vitamina D engloba o metabólito ativo (1,25-diidroxicolecalciferol ou calcitriol) e seus precursores (vitamina D3 ou colecalciferol, vitamina D2 ou ergocalciferol e a 25-hidroxivitamina D ou calcidiol). A obtenção de vitamina D pelos alimentos é baixa, sendo a vitamina D2 proveniente de plantas e fungos e a vitamina D3 proveniente de peixes e vísceras, podendo ser sintetizada através de raios ultravioleta B (UVB). A síntese cutânea da vitamina D acontece através da ação fotoquímica dos raios UVB nos queratinócitos e fibroblastos ao converter o 7-deidrocolesterol em pré-vitamina D3 e depois em colecalciferol. Em seguida, a vitamina D2 e D3 são transportadas para o fígado, onde são hidroxiladas para formar o calcidiol, que é a forma de depósito da vitamina D. Na etapa seguinte, o calcidiol é transportado para os rins, para nova hidroxilação, formando o calcitriol, que é a forma metabólica da vitamina D. A principal função da vitamina D é auxiliar na mineralização óssea e na homeostase do cálcio e fósforo (RONCADA, 2008).</p><p>A vitamina E (ou tocoferóis) está presente no germe de trigo, amêndoas e avelãs e nos óleos vegetais (soja, girassol, algodão, milho). A vitamina E é antioxidante, sendo a principal função proteger a membrana celular contra danos oxidativos.</p><p>A vitamina K está presente nos alimentos de origem vegetal ou é sintetizada pelas bactérias intestinais. A principal função da vitamina K é auxiliar na coagulação sanguínea, devido às propriedades anti-hemorrágicas (RONCADA, 2008).</p><p>As vitaminas hidrossolúveis não são normalmente armazenadas em quantidades significativas no organismo, sendo necessário o suprimento diário dessas vitaminas. A nomenclatura deste grupo está descrita na Tabela 6.</p><p>TABELA 6 – VITAMINAS HIDROSSOLÚVEIS</p><p>Vitamina</p><p>Nome</p><p>B1</p><p>Tiamina</p><p>B2</p><p>Riboflavina</p><p>B3</p><p>Niacina</p><p>B5</p><p>Ácido pantotênico</p><p>B6</p><p>Piridoxina</p><p>B7 (ou vitamina H)</p><p>Biotina</p><p>B9</p><p>Ácido fólico</p><p>B12</p><p>Cianocobalamina</p><p>C</p><p>Ácido ascórbico</p><p>A vitamina B1 pode ser encontrada em fontes animais (carnes, vísceras e gema de ovo) e vegetais (grãos integrais). Ela é precursora da coenzima tiamina pirofosfato, que atua no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B2 pode ser encontrada nas vísceras e no leite</p><p>e seus derivados. Ela é precursora das coenzimas flavina mononucleotídeo e flavina adenina dinucleotídeo, que participam dos processos de oxirredução nas células. Além disso, a riboflavina é essencial para a formação das células vermelhas do sangue (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B3 pode ser encontrada nas carnes magras, vísceras, amendoim e levedura de cerveja. Parte da niacina pode ser sintetizada pelas bactérias da flora intestinal e parte a partir do triptofano. Ela é precursora das coenzimas nicotinamida adenina dinucleotídeo e nicotinamida adenina dinucleotídeo fosfato, que atuam como aceptores ou doadores de hidrogênio (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B5 pode ser encontrada em fontes animais (ovo e vísceras) e vegetais (couve-flor, brócolis e leveduras). Ela é precursora da coenzima A, que está envolvida no ciclo de Krebs e participa de inúmeras reações metabólicas (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B6 pode ser encontrada em leveduras, germe de trigo, cereais integrais e vísceras. Ela é precursora da coenzima piridoxal fosfato, que atua no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B7 pode ser encontrada no leite, gema de ovo e fígado. Vários sistemas enzimáticos são dependentes dessa vitamina, que age como coenzima na fixação do dióxido de carbono e na síntese e oxidação de ácidos graxos (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B9 pode ser encontrada nas vísceras, feijão e vegetais de folhas verdes. O principal papel das coenzimas ligadas a esta vitamina é a transferência de unidades de carbono para substâncias envolvidas na síntese de DNA e RNA (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina B12 está presente apenas nos alimentos de origem animal, especialmente carnes, vísceras, leite e ovos. Ela é um fator importante no metabolismo dos ácidos nucleicos, o material no qual o código genético é impresso, atua na maturação das células sanguíneas vermelhas, na formação da bainha de mielina e está envolvida no metabolismo de carboidratos, lipídios e proteínas (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>A vitamina C é amplamente encontrada nas frutas cítricas como: acerola, limão, laranja, tangerina e morango. Além disso, pode ser encontrada também nos vegetais folhosos. Sua principal função é a capacidade de ceder e receber elétrons, configurando ação antioxidante. O ácido ascórbico auxilia na reciclagem da vitamina E, é necessário para a produção e a manutenção do colágeno e auxilia no aumento da absorção do ferro não heme (de origem vegetal). Além disso, desempenha papel na imunidade (JORDÃO Júnior; Deminice; Vannucchi, 2008).</p><p>Todos os minerais que existem no organismo em proporção superior a 0,05% são definidos como macrominerais. São eles: o cálcio, o fósforo, o potássio, o sódio e o magnésio. Os microminerais são aqueles necessários em pequenas quantidades diárias (miligramas ou microgramas). São alguns exemplos: o ferro, o zinco, o cobre, o iodo, o cromo, o manganês e o selênio (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>O ferro é um mineral muito importante, visto que auxilia no transporte de oxigênio no sangue. Por isso, a deficiência de ferro pode ocasionar anemia. O ferro pode ser encontrado em alimentos de origem animal e vegetal. No entanto, a biodisponibilidade entre eles é diferente.</p><p>O termo biodisponibilidade de nutrientes diz respeito ao quanto vamos absorver e utilizar os nutrientes disponíveis nos alimentos. Por exemplo, ao ingerir 100 g de fígado bovino você absorverá pouco mais 1 mg de ferro em relação aos 5 mg de ferro presente nessa quantidade de alimento. A biodisponibilidade pode variar de acordo com as interações que esse nutriente vai sofrer, com substâncias (como medicamentos) e até mesmo com outros nutrientes.</p><p>O ferro heme, presente nos alimentos de origem animal possui maior absorção no trato gastrointestinal, que varia de 15% a 35%. O ferro não heme, presente nos alimentos de origem vegetal preserva absorção entre 2% e 20% (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>Além da biodisponibilidade, alguns nutrientes podem aumentar ou inibir a absorção do outro quando ingeridos em uma mesma refeição. O cálcio, por exemplo, é um fator de inibição de absorção do ferro heme, ou seja, em uma mesma refeição, não seria interessante incluir uma fonte alimentar de ferro heme (carnes) e uma fonte alimentar de cálcio (leite e laticínios).</p><p>No entanto, a vitamina C é um fator estimulante da absorção do ferro não heme, ou seja, ela potencializa a absorção do ferro de origem vegetal. A vitamina C pode ser encontrada nas frutas cítricas (limão, laranja, abacaxi, acerola, tangerina, kiwi, morango etc.) e no pimentão amarelo e vermelho, enquanto o ferro não heme pode ser encontrado nos folhosos verde-escuros (couve, rúcula, espinafre, agrião, brócolis etc.) e nas leguminosas (feijões, lentilha, grão-de-bico). Por isso, uma combinação bem interessante seria a união, em uma mesma refeição, de arroz com feijão, couve e suco de limão.</p><p>O cálcio é fundamental para a formação e a manutenção óssea, sendo sua ingestão inadequada associada à mobilização dos estoques corporais, podendo levar à desmineralização óssea. Ele pode ser encontrado, principalmente, no grupo do leite e seus derivados (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>O magnésio participa de reações metabólicas, atuando em enzimas da via glicolítica, no metabolismo lipídico, na ativação de aminoácidos, na transferência de CO2, na síntese de glutationa, na permeabilidade da membrana celular, na contratilidade muscular, na captação de cálcio e potássio e variações de pressão arterial. Ele pode ser encontrado nas oleaginosas (grupo das castanhas), leguminosas (grupo dos feijões) e cereais integrais (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>O zinco tem participação em mais de 300 enzimas (vital no metabolismo), ação antioxidante, participa da síntese de DNA e RNA, é constituinte da insulina, regula a atividade das glândulas sebáceas. Sua deficiência: unha esbranquiçada, acne, perda de cabelo, maior suscetibilidade a infecções, perda de memória e acuidade visual. Ele pode ser encontrado nas carnes e frutos do mar (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>O selênio é considerado um antioxidante, visto que protege o organismo na defesa contra metais pesados e ação dos radicais livres, além de ser constituinte de inúmeras enzimas e cofator durante a síntese de hormônios tireoidianos. Uma excelente fonte alimentar é a castanha-do-brasil ou castanha-do-pará (NONINO-BORGES; BORGES, 2008; CUNHA; CUNHA; GARCIA JÚNIOR, 2008).</p><p>Além da importância a respeito dos macros e micronutrientes, é essencial discutirmos as particularidades de algumas modalidades esportivas com relação às necessidades nutricionais.</p><p>O futebol é um esporte com mudanças de atividades a cada 4-6 segundos. Durante uma partida, o jogador pode percorrer entre 9-12 km. No segundo tempo estão “mais lentos”, indicando fadiga. Gasto calórico entre 3.000-4.000 kcal para atender à demanda de treinos e jogos. A quantidade e a qualidade do treino influenciam no gasto energético, além da posição do jogador, a distância percorrida e o estilo de jogo (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>Um adequado estoque de glicogênio muscular pode evitar exaustão. No entanto, a rotina intensa e os hábitos alimentares podem levar a baixos níveis de estoque de glicogênio muscular, sendo que, baixo estoque inicial pode ocasionar fadiga no jogador, percorrendo distância menor e velocidade mais lenta. Por isso, uma reposição antes da fadiga pode garantir a disponibilidade de glicose (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>O desafio é o pós-treino, pois existe uma recuperação em período restrito, às vezes inferior a 24 horas entre jogo e treinamento. É necessária a ingestão imediata de carboidrato para repor o glicogênio muscular. A maior taxa de reposição ocorre</p><p>nas primeiras 2 horas após o exercício (ativação glicogênio sintase, aumento da sensibilidade à insulina, permeabilidade da membrana celular muscular à glicose) (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>O basquetebol é uma modalidade acíclica, que exige várias capacidades motoras durante um único jogo (desde repouso a sprints), ou seja, compreende um mix de força e resistência. De qualquer maneira, mais uma vez a utilização de carboidratos tem se mostrado fundamental na manutenção do desempenho físico. Estima-se que 15% das ações do jogo estão relacionadas ao metabolismo anaeróbio, sendo que o sistema ATP-CP pode participar em até 80% dessas ações, contribuindo para até 12% da energia total gasta durante a partida. O treinamento de salto pode causar microlesões que afetam o funcionamento dos transportadores de glicose. Com a ineficiência pode ocorrer a redução do glicogênio muscular e isso sugere um aumento da oxidação de aminoácidos (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>O tênis exige condicionamento físico e inclui treinamentos de musculação, exercícios aeróbios e treinos em quadra, podendo chegar a mais de 7h/dia. Para o jogo, quanto maior a intensidade, maior a utilização de carboidratos (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>As cãibras estão mais relacionadas à fadiga e à desidratação por falta de sódio. Isso ocasiona maior perda da água corporal na termorregulação, alterando na capacidade de contração e relaxamento muscular. Além disso, a desidratação também diminui os níveis plasmáticos de potássio perdidos no suor. Segundo a American College of Sports Medicine, a teoria atualmente considerada a mais provável é que as cãibras são provocadas por um “controle neuromuscular anormal” provavelmente originado pela fadiga. O controle neuromuscular é a capacidade de comunicação entre o músculo esquelético e o sistema nervoso central e periférico. Ao fazer um exercício prolongado, o indivíduo entra em fadiga e o controle das contrações musculares pelo sistema nervoso sofre uma alteração, provocando espasmos musculares involuntários, o que define o episódio da cãibra.</p><p>A natação engloba provas de duração e distância variadas: 50 a 1.500 m e 22 segundos a 16 minutos, além de diferentes estilos: livre, costas, peito, borboleta (medley = combinação dos quatro estilos). Os atletas podem ser classificados segundo características: fundista, meio fundista e velocista. É um exercício mecanicamente complexo: dispêndio energético para manter a flutuação e adaptar-se à temperatura da água. Para se ter uma ideia, um indivíduo que nada determinada distância gasta 4x mais energia do que a mesma distância percorrida correndo (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>O ciclismo tem uma rotina de treino de aproximadamente 5h/dia, dependendo da quilometragem por semana. Um fato relevante é a adaptação das sessões de treinamento, levando ao aumento dos estoques intramusculares de triacilgliceróis. Isso faz com que 50% dos ácidos graxos oxidados sejam provenientes dessa reserva e até 60% da demanda energética é proveniente da oxidação de ácidos graxos do tecido adiposo. Por isso, uma alimentação e/ou suplementação inadequada leva ao aumento da proteólise e acúmulo de ureia plasmática. Esse catabolismo pode levar ao overtraining (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>Kreider, Fry e O’toole (1998) diferenciam o supertreinamento a curto prazo (overreaching) e a longo prazo (overtraining), observando suas distinções para a compreensão da relação do treinamento esportivo e rendimento. O supertreinamento a curto prazo é descrito como sendo o decréscimo de desempenho atlético em um curto período de tempo, em que o rendimento normal pode retornar de poucos dias a duas semanas de recuperação. Já o supertreinamento a longo prazo é caracterizado por um decréscimo persistente do desempenho atlético, acompanhado por alterações bioquímicas, fisiológicas e psicológicas, com tempo de reversão do estado ocorrendo de algumas semanas a meses de recuperação.</p><p>Um atleta de corrida - maratonista - também apresenta algumas particularidades. A recomendação de carboidrato para atletas de elite é de 8-10 g/kg de peso/dia ou entre 65-75% do valor calórico total da dieta, ou seja, a recomendação de lipídios fica bem abaixo do recomendado, o que equivale entre 10 e 20% do valor calórico total da dieta (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>No exercício com peso, uma combinação de carboidratos e proteínas nas refeições antes e depois do exercício potencializam a síntese proteica muscular, promovendo a liberação de hormônios anabólicos (GH, IGF-1, insulina, testosterona). Arginina, lisina e glutamina, por exemplo, são aminoácidos estimulantes desses hormônios e os aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) apresentam um papel importante na regulação metabólica da síntese proteica muscular, sendo a leucina essencial, porque age como mediador positivo, modulando a atividade enzimática e estimulando a atividade da via para síntese proteica. Alguns estudos defendem que após 60 minutos ocorre o aumento da síntese, outros defendem que esse tempo é maior (até 3 horas após o exercício) (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>A necessidade proteica é muito superior, podendo chegar desde 2,5 a 3,5 g/kg de peso/dia. No entanto, as recomendações atuais apontam para 1,4 a 1,8 g/kg de peso/dia para atletas de força. Além disso, o consumo de pães, batatas, massas, frutas e outros carboidratos contribuem significativamente para um balanço nitrogenado que possa refletir no aumento da massa muscular e redução da gordura corporal. Foi constatado também que a ingestão proteica acima do recomendado pode levar ao aumento da gordura corporal (HIRSCHBRUCH; CARVALHO, 2008).</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1 A prática esportiva ocasiona um aumento das demandas orgânicas de energia e de nutrientes. Considerando que a maratona é uma modalidade esportiva de longa duração, analise as afirmativas a seguir:</p><p>I- Recomenda-se o consumo de carboidratos de elevado índice glicêmico após a maratona, com o propósito de favorecer a ressíntese de glicogênio.</p><p>II- Em uma maratona, o organismo mobiliza preferencialmente os carboidratos armazenados no fígado como substrato energético para o exercício.</p><p>III- Mulheres maratonistas têm menor capacidade de mobilizar ácidos graxos durante o esforço prolongado em razão dos diferentes níveis de estrogênio entre os sexos.</p><p>IV- Indivíduos treinados apresentam maior capacidade de poupar glicogênio muscular e utilizar ácidos graxos, retardando a queda de desempenho e a fadiga muscular.</p><p>É correto o que se afirma em:</p><p>A) I e II.</p><p>B) I e IV.</p><p>C) II e III.</p><p>D) II e IV.</p><p>E) III e IV.</p><p>4 Hidratação nas diferentes fases do treinamento</p><p>Segundo Maughan e Burke (2002), além dos limites impostos pela herança genética e das melhorias obtidas pelo treino, nenhum outro fator desempenha um papel tão importante na performance atlética como a alimentação, e a hidratação é um dos aspectos mais influentes no rendimento e saúde do atleta.</p><p>A água é essencial para a vida, pois apesar dos seres humanos conseguirem sobreviver por algumas semanas sem comida, é impossível sobreviver sem água por mais que poucos dias. A água exerce inúmeras funções no nosso organismo:</p><p>· Regulação da temperatura - suor evapora e corpo resfria.</p><p>· Força e controle muscular - troca de eletrólitos dissolvidos em água.</p><p>· Lubrificação articular - base do líquido lubrificante de articulações.</p><p>· Desempenho mental - fadiga, letargia, dor de cabeça.</p><p>· Prevenção de doenças - desidratação é fator de risco para doenças renais.</p><p>As necessidades diárias de água de indivíduos saudáveis são influenciadas pela atividade física e condições ambientais. A ingestão adequada de água é de aproximadamente 3,7 L/dia e de 2,7 L/dia para homens e mulheres adultos, respectivamente, conforme apresentado na Figura 10.</p><p>FIGURA 10 – RECOMENDAÇÃO DIÁRIA PARA INGESTÃO ADEQUADA, SEGUNDO FAIXA ETÁRIA</p><p>A prática frequente de exercícios em ambientes quentes aumenta as necessidades diárias, podendo atingir e até mesmo ultrapassar 6 a 8 litros diários. Aproximadamente, 20% destas necessidades provêm da água presente</p><p>nos alimentos sólidos e o restante é fornecido pelas bebidas, incluindo água, sucos, leite, café, chá, sopas e bebidas desportivas (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>Durante o exercício, aproximadamente 75% da energia produzida pelo metabolismo é liberada sob forma de calor, resultando em elevação da temperatura corporal. Diante disso, nosso organismo aumenta a produção de suor, no intuito de resfriar o corpo pela evaporação, podendo causar a perda de grandes volumes de água e eletrólitos. Devido à necessidade da manutenção do estado de hidratação, torna-se necessária a sua avaliação antes, durante e depois de exercícios físicos, principalmente quando realizados exercícios de longa duração e/ou em condições climáticas desfavoráveis à termorregulação (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>A ingestão de líquidos “deve ser programada”, ocorrendo em momentos fixos, o que pode evitar que os indivíduos comecem exercícios físicos hipo-hidratados e minimizar a redução da massa corporal durante o exercício. Por outro lado, alguns autores têm defendido a efetividade da ingestão de líquidos de acordo com a sede como estratégia segura de reposição de fluidos (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>Considera-se como eu-hidratado o indivíduo que tenha o conteúdo “normal” da água corporal e hipo-hidratado e hiper-hidratado o indivíduo que está em deficiência ou com excesso de água corporal, respectivamente.</p><p>O consumo inadequado de líquidos pode provocar a desidratação, que em altos índices, pode ocasionar colapso respiratório, choque térmico e até mesmo a morte. Para que a reposição hídrica seja feita de maneira eficiente, é necessário considerar o tipo, a temperatura e o volume do líquido ingerido, assim como a frequência de ingestão, a velocidade de esvaziamento gástrico e a taxa de absorção intestinal (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>Valores de desidratação acima de uma perda de 2% da massa corporal já são suficientes para prejudicar o desempenho no exercício, sendo que isso está relacionado com o aumento do estresse cardiovascular e térmico, alterações das funções do sistema nervoso central e funções metabólicas. Com 1 a 2% de desidratação inicia-se o aumento da temperatura corporal em aproximadamente 0,4 oC para cada percentual subsequente de desidratação. Em torno de 3%, há redução importante do desempenho. Com 4 a 6% pode ocorrer fadiga e outras complicações térmicas. A partir de 6% existe risco de choque térmico, coma e morte (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>As três categorias de testes para a análise do estado de hidratação são:</p><p>· Testes laboratoriais: osmolaridade e concentração de sódio no plasma e osmolaridade da urina.</p><p>· Medidas não invasivas: massa corporal, temperatura, frequência cardíaca e frequência respiratória.</p><p>· Informações subjetivas: sede, turgor (elasticidade) da pele e umidade da mucosa da membrana (boca, nariz e garganta).</p><p>Considerando que a perda de 1 ml de suor equivale à redução aproximada de 1 g na massa corporal, possibilita-se a utilização das mudanças na massa corporal como medida para quantificar a água perdida durante o exercício. A alteração na massa corporal é o principal método para quantificar a perda de líquidos corporais, sendo capaz de avaliar de forma não invasiva o estado de hidratação por estimar a perda de água corporal em decorrência do exercício físico (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>As discussões sobre as melhores estratégias de hidratação parecem estar longe de um consenso sobre o assunto. No entanto, a diferença de massa corporal é uma das melhores e mais precisas formas de avaliar o estado de hidratação.</p><p>Esse tipo de avaliação é interessante de ser realizado no caso da impossibilidade de avaliar o conteúdo total da água corporal e o consumo de líquidos durante o exercício, e torna-se necessária principalmente em exercícios de longa duração realizados em ambiente quente.</p><p>Alguns sinais de desidratação são: fadiga, intolerância ao calor, tontura, urina escura, dor de cabeça, boca seca, visão turva, espasmos e até mesmo delírio.</p><p>Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte - SBME (2009), recomenda-se que o indivíduo beba entre 250 e 500 ml de água 2 horas antes do exercício. Durante o exercício, recomenda-se iniciar a ingestão nos primeiros 15 minutos e continuar bebendo 150 ml a 200 ml a cada 15-20 minutos. O volume depende da sudorese, na faixa de 600 a 2.000 ml/hora. Para atividade com duração superior a 1 hora ou muito intensa, deve-se repor o CHO na quantidade de 30 a 60 g/hora (concentração de 4 a 8% para esvaziamento gástrico e absorção intestinal) e sódio na quantidade de 0,5 a 0,7 g/litro. A temperatura adequada fica entre 15 e 20 graus celsius. Após o treino, recomenda-se continuar ingerindo líquidos para compensar as perdas adicionais de água pela urina e pela sudorese. A reidratação é maximizada quando os atletas ingerem uma quantidade de líquidos equivalente a 150% da perda do peso corporal (Hernandez et al., 2009).</p><p>Para atletas, é importante questionar sobre a presença de sal no suor (roupa branca ou com pó parecido com areia) porque pode indicar que a perda de sódio é mais acentuada na sudorese, portanto, corre mais riscos de hiponatremia. Nesses casos, água e água de coco não são suficientes para a hidratação, mas, sim, bebidas esportivas com sódio, além de alimentos salgados (durante e/ou após o treino, dependendo da duração e intensidade) (Hernandez et al., 2009).</p><p>Estudos sugerem que o leite possa ser tão ou mais eficaz na reidratação de atletas após o treino que as bebidas esportivas (SHIRREFFS; WATSON; MAUGHAN, 2007). Nesse estudo, os indivíduos que receberam leite mantiveram o balanço hídrico positivo (eu-hidratação) durante o período de recuperação pós-treino.</p><p>Outro estudo sugere que o leite misturado com achocolatado possa ser tão ou mais eficaz na recuperação do glicogênio muscular após o treino que as bebidas repositoras de carboidratos (KARP et al., 2006).</p><p>Ainda com relação à reidratação após o treino, qual a melhor bebida? Água de coco? Bebidas esportivas? Caldo de cana? Refrigerantes? A Figura 11 mostra a composição nutricional dessas bebidas.</p><p>FIGURA 11 – QUANTIDADE DE CARBOIDRATOS E ELETRÓLITOS EM 100 ML DE ALGUMAS BEBIDAS</p><p>Zonas de perigo, hiper-hidratação e hiponatremia = sangue diluído demais (baixa concentração de sódio plasmático: valores abaixo de 135 mEq).</p><p>Como o suor é hipotônico em relação ao sangue, a desidratação pode resultar em aumento da osmolaridade sanguínea. Tanto a hipovolemia como a hiperosmolaridade aumentam a temperatura interna e reduzem a dissipação de calor pela evaporação. Além disso, o aumento da temperatura interna afeta o hipotálamo e/ou as glândulas sudoríparas, retardando o início da sudorese e da vasodilatação. Como consequência, diminui o volume de ejeção ventricular (pela redução no volume sanguíneo) e aumenta a frequência cardíaca (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>A ingestão de líquidos, independente da presença de carboidrato, melhora o desempenho na primeira hora de exercício. Como a desidratação pode ocorrer não apenas devido à sudorese intensa, mas também devido à ingestão insuficiente e/ou absorção deficiente de líquidos, é importante reconhecer os elementos que influenciam na qualidade da hidratação (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>As reservas de eletrólitos, como a concentração de sódio no sangue, por exemplo, são muito bem reguladas pelos rins através de respostas hormonais (aldosterona e vasopressina), porém, em muitas situações de exercício intenso e/ou prolongado, justifica-se a adição de alguns eletrólitos às bebidas esportivas. A concentração média de sódio no suor de um adulto está em torno de 40 mEq/L. Supondo que um indivíduo de 70 kg corra por 3 horas e perca 2 L de suor por hora, a perda total de sódio é de 240 mEq (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>mEq: unidade que reflete a atividade química de um eletrólito com base na sua valência.</p><p>A inclusão de sódio nas bebidas reidratantes promove maior absorção de água e carboidratos pelo intestino durante e após o exercício. Isso se dá porque o transporte de glicose na mucosa do enterócito é acoplado com o transporte de sódio, resultando em maior absorção de água (Biesek; Alves; Guerra, 2015; Hirschbruch; Carvalho, 2008).</p><p>Com relação à composição da água mineral brasileira, Rebelo e Araújo (1999) avaliaram águas minerais não gasosas de 36 fontes brasileiras. As concentrações de sódio variaram de 1 a 59 mg/L. Atualmente, existem outras fontes não citadas no estudo, mas nenhuma delas pode ser considerada rica em sódio, segundo a classificação citada anteriormente. É importante considerar o volume de água ingerido no dia como parte da oferta dos micronutrientes. Exemplo: uma água mineral natural com composição química de 10 mg de sódio por litro representará 0,6% da quantidade diária recomendada, se consumido 1,5 L dessa água ao longo de um dia (PAIVA; PEREIRA; AZEVEDO, 2016).</p><p>O pH sanguíneo varia de 7,35 a 7,45. Quando o pH está abaixo de 7,35 considera-se acidemia e quando está acima de 7,45, alcalemia. O principal ácido gerado no nosso corpo é o ácido carbônico, que é eliminado pelos pulmões por meio da expiração. Já o bicarbonato (HCO3-) é uma base capaz de se ligar aos ácidos e neutralizá-los e por isso constitui importante sistema tampão, fundamental para manter o pH dentro da normalidade (PAIVA; PEREIRA; AZEVEDO, 2016).</p><p>Alimentos ou água (com pH básico ou ácido) não conseguem alterar o pH sanguíneo, pois os mecanismos que equilibram as concentrações de ácidos e bases são rapidamente ativados. O estômago apresenta pH em torno de 2,5 a 4,0, ou seja, ácido. O alimento chega ao estômago e estimula a secreção do ácido clorídrico (HCL). Ao mesmo tempo, existe a absorção de bicarbonato. O pH ácido do estômago é importante para a digestão dos alimentos e absorção de alguns micronutrientes, como ferro e cálcio. A água não apresenta propriedades de tamponamento eficientes. Então, 1 L de água, mesmo com pH básico, quando se mistura com suco gástrico, rico em ácido clorídrico, não é capaz de elevar o pH do estômago para mais de 4,0, ou seja, ele continua ácido (PAIVA; PEREIRA; AZEVEDO, 2016).</p><p>Evidências científicas são fundamentais para se fazer uma alegação sobre determinado tratamento ou conduta. Estudos com animais de experimentação ou estudos em que se observa determinado comportamento são importantes para gerar hipóteses, mas não para se fazer alguma alegação. As evidências científicas aparecem em resposta a resultados de estudos chamados ensaios clínicos randomizados e, de preferência, duplo-cego, e o conjunto de ensaios clínicos reunidos em metanálise (PAIVA; PEREIRA; AZEVEDO, 2016).</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1. Um grupo de 10 maratonistas brasileiros partiu no mês de março em viagem para a Rússia para participar de uma prova de maratona em Moscou. Naquele período, a temperatura média foi de -1 °C. Todos sabiam sobre o frio que os aguardava, mas ninguém no grupo tinha experiência de corrida em condições climáticas tão desfavoráveis. Quando lá chegaram, foram conhecer o circuito da prova para estabelecer os postos de hidratação. A equipe contava com um médico do esporte, um fisiologista do exercício, um fisioterapeuta e uma nutricionista. Na véspera da prova, a equipe técnica conversou com treinadores locais e obteve a informação de que a previsão meteorológica para o momento da prova seria de chuva fina, com ventos de até 40 km/h, o que produziria uma sensação térmica de -16 °C. Os treinadores locais sugeriram que os isotônicos fossem substituídos por hidratantes com uma composição hipertônica. Diante da situação, a equipe técnica discutiu a sugestão com os atletas. Cinco atletas concordaram com a utilização de hipertônicos e os outros cinco não concordaram. Assim, a equipe preparou os dois kits de hidratantes (isotônico e hipertônico) a fim de atender a ambos os grupos. No dia seguinte, a prova foi realizada e a previsão meteorológica se confirmou. Ao final da prova, apenas cinco atletas brasileiros concluíram a distância. Os outros cinco atletas abandonaram a prova no meio do percurso por razões diversas.</p><p>Considerando o texto, analise as afirmativas a seguir:</p><p>I- O grupo que conseguiu concluir a prova deve ter sido o que utilizou hidratante isotônico, pois em temperaturas extremamente baixas, o corpo desidrata mais rapidamente e tem perda significativa de eletrólitos.</p><p>II- Hidratantes isotônicos foram desenvolvidos para repor líquidos e minerais perdidos durante a transpiração, quando se pratica atividades físicas por períodos prolongados.</p><p>III- Em condições climáticas tão desfavoráveis, há acentuada queda dos estoques de glicogênio muscular, decorrente da necessidade de se manter a temperatura corporal central, assim, o atleta experimenta o surgimento de sucessivas contraturas musculares pela falta de energia.</p><p>IV- Uma solução hipertônica pode ser definida como aquela que contém concentração de eletrólitos e glicose abaixo do plasma sanguíneo.</p><p>Está correto o que se afirma em:</p><p>A) I e II.</p><p>B) I e III.</p><p>C) II e III.</p><p>D) II e IV.</p><p>E) I, II e IV.</p><p>ALGUMAS CONSIDERAÇÕES</p><p>Nesse capítulo, você aprendeu que:</p><p>Os macronutrientes contêm energia, são eles: carboidratos, proteínas e gorduras. 1 g de carboidrato e proteína fornece 4 kcal, enquanto 1 g de gordura fornece 9 kcal.</p><p>A energia presente nos alimentos não é transferida diretamente para as células, ela precisa ser metabolizada e convertida em energia química, um composto denominado adenosina trifosfato - ATP.</p><p>Durante a contração muscular é necessária a síntese de ATP. Exercícios de curta duração e alta intensidade exigem um fornecimento rápido de energia, que será proporcionado (quase que exclusivamente) pelo sistema ATP-CP.</p><p>A glicólise representa um dos principais fornecedores de ATP durante atividades de alta intensidade e de curta duração. Na ausência de glicose disponível, ocorre a glicogenólise (quebra do glicogênio).</p><p>Com a escassez/limitação do estoque de glicogênio muscular, ocorre a gliconeogênese, a partir de compostos que não são carboidratos (glicerol, lactato, aminoácidos).</p><p>À medida que o exercício progride (após 2 minutos), o sistema aeróbio predomina (ciclo de Krebs e cadeia respiratória).</p><p>Quando a lipólise é realizada, o glicerol é utilizado para liberar a energia necessária aos exercícios e os ácidos graxos são utilizados para realizar a beta-oxidação como fonte energética.</p><p>A taxa metabólica basal (TMB) ou gasto energético basal (GEB) é o valor de energia mínimo necessário para manter o organismo funcionando em todas as suas funções vitais.</p><p>O balanço energético negativo causado por redução na ingestão calórica resulta em diminuição da massa corporal. No entanto, o tratamento dietético é mais bem-sucedido quando aliado a um programa de modificação comportamental que envolva aumento no gasto energético.</p><p>Em longo prazo, a habilidade de manter as mudanças comportamentais é o que determina o sucesso de qualquer programa de emagrecimento.</p><p>A necessidade energética total (NET) ou gasto energético total (GET) é a quantidade de energia que os indivíduos necessitam para suas atividades diárias, levando em consideração a prática de exercícios físicos.</p><p>Os objetivos do consumo de carboidrato no pré-treino são: maximizar as reservas de glicose, evitar a fome durante o exercício e evitar a hipoglicemia.</p><p>A alimentação pós-treino tem como principal objetivo restabelecer as reservas de glicogênio e otimizar a recuperação muscular.</p><p>O índice glicêmico (IG) reflete a taxa de digestão e absorção (velocidade) da glicose. A carga glicêmica (CG) quantifica o efeito total de uma determinada quantidade de carboidrato sobre a glicemia.</p><p>Os micronutrientes (vitaminas e minerais) são fundamentais para regular as ações e as funções dos órgãos, bem como para o sistema imunológico.</p><p>As vitaminas são classificadas de acordo com a sua solubilidade, podendo ser lipossolúveis (A, D,</p><p>E e K) ou hidrossolúveis (complexo B e C).</p><p>Todos os minerais que existem no organismo em proporção superior a 0,05% são definidos como macrominerais (cálcio, fósforo, potássio, sódio e magnésio). Os microminerais são aqueles necessários em pequenas quantidades diárias (miligramas ou microgramas), como o ferro, o zinco, o cobre, o iodo, o cromo, o manganês e o selênio.</p><p>A água é essencial para a vida, sendo impossível sobreviver sem água por mais que poucos dias. As necessidades diárias de água são influenciadas pela atividade física e condições ambientais.</p><p>Durante o exercício, aproximadamente 75% da energia é liberada sob forma de calor, resultando em elevação da temperatura corporal (aumenta a produção de suor), podendo causar a perda de grandes volumes de água e eletrólitos.</p><p>É necessário avaliar o estado de hidratação antes, durante e depois de exercícios físicos. O consumo inadequado de líquidos pode provocar a desidratação.</p><p>Segundo a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte - SBME (2009), recomenda-se que o indivíduo beba entre 250 e 500 ml de água 2 horas antes do exercício. Durante o exercício, recomenda-se iniciar a ingestão nos primeiros 15 minutos e continuar bebendo 150 ml a 200 ml a cada 15-20 minutos. O volume depende da sudorese, na faixa de 600 a 2.000 ml/hora. Para atividade com duração superior a 1 hora ou muito intensa, deve-se repor o CHO na quantidade de 30 a 60 g/hora (concentração de 4 a 8% para esvaziamento gástrico e absorção intestinal) e sódio na quantidade de 0,5 a 0,7 g/litro. A temperatura adequada fica entre 15 e 20 graus celsius. Após o treino, recomenda-se continuar ingerindo líquidos para compensar as perdas adicionais de água pela urina e pela sudorese. A reidratação é maximizada quando os atletas ingerem uma quantidade de líquidos equivalente a 150% da perda do peso corporal.</p><p>UNIDADE III - Estratégias Nutricionais e Aplicabilidade de Recursos Ergogênicos na Prática Esportiva</p><p>Objetivos de Aprendizagem</p><p>A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem:</p><p>· Compreender as diferentes prescrições dietéticas utilizadas para o aprimoramento do desempenho esportivo.</p><p>· Conhecer os efeitos e os diferentes tipos de suplementos alimentares utilizados para complementar a conduta nutricional no exercício físico.</p><p>· Identificar o que é seguro e eficaz nas diferentes estratégias nutricionais utilizadas na prática esportiva.</p><p>· Construir um espírito investigativo na área de nutrição aplicada ao exercício.</p><p>1 CONTEXTUALIZAÇÃO</p><p>A resposta adaptativa ao treinamento físico é determinada por uma combinação de fatores: duração, intensidade, tipo de exercício e frequência do treinamento, bem como pela qualidade e quantidade de alimentos e nutrientes no período pré e pós-exercício. Está ficando cada vez mais claro que as adaptações, iniciadas pelo exercício, podem ser amplificadas ou atenuadas pela nutrição.</p><p>Há muitas adaptações que são influenciadas pela ingestão nutricional e que são importantes para o desempenho esportivo. No entanto, tais mudanças e sua relevância para os atletas são muitas vezes negligenciadas ou não recebem a atenção devida.</p><p>Existem inúmeras interações entre nutrição e exercício e inúmeros efeitos da nutrição em si que auxiliam nos resultados de desempenho dos exercícios. Do ponto de vista prático, é importante ter uma compreensão dessas interações.</p><p>Além da alimentação e hidratação, às vezes é necessária uma complementação. No entanto, antes de considerar tomar suplementos, os atletas devem primeiro focar em treinar adequadamente, ter boas práticas de recuperação e uma nutrição básica bem consolidada.</p><p>Isso porque, mesmo quando se prescreve com base em evidência científica, não há garantia absoluta de benefícios, ou seja, para um mesmo tipo de treinamento, dieta ou suplemento nutricional, as respostas variam consideravelmente entre os atletas.</p><p>O profissional que atua na área de nutrição esportiva precisa ter em mente que as respostas médias ou de grupos nem sempre importam no esporte. É papel do profissional que convive de perto com o atleta decidir se o uso de determinado suplemento vale a pena ou não, com base nas respostas individuais observadas no dia a dia de treinos e competições.</p><p>2 Estratégias nutricionais baseadas em evidências</p><p>Para os indivíduos que praticam exercícios físicos sem maiores preocupações com o desempenho, uma dieta balanceada, que atenda às recomendações dadas à população em geral, é suficiente para a manutenção da saúde e possibilita um bom desempenho físico (HERNANDEZ et al., 2009).</p><p>No entanto, sobre o desempenho esportivo de atletas, não restam dúvidas quanto às mudanças favoráveis da composição corporal e a influência positiva após o manejo dietético. A alimentação saudável e adequada à quantidade de trabalho deve ser entendida e compreendida pelos atletas de alto rendimento como sendo o ponto de partida para obter o desempenho máximo e as manipulações nutricionais e os suplementos alimentares caracterizam uma estratégia complementar (HERNANDEZ et al., 2009).</p><p>É consenso que as necessidades nutricionais de atletas são aumentadas, porém essa maior necessidade pode ser suprida por meio dos alimentos, desde que seja mantida uma alimentação equilibrada, balanceada e variada e sejam dadas condições de ingerir todos os alimentos necessários em quantidades e qualidade conforme demanda física. Os suplementos ficam então reservados àquelas condições em que não é possível a adequada ingestão alimentar, seja pela própria prática esportiva, que promove um estilo de vida que inviabiliza a ingestão alimentar adequada ou pelos casos em que se busca superação, desempenho e máxima performance competitiva (CARVALHO et al., 2003; BRAGGION, 2008).</p><p>Ao avaliar o conhecimento sobre nutrição e suplementos por praticantes de atividade física, Lopes et al. (2015) observaram um elevado consumo de suplementos, insatisfação corporal e equívocos sobre conceitos básicos em nutrição, 41,5% afirmaram que os micronutrientes são fornecedores de calorias; 79% conheciam a função dos macronutrientes, porém desconheciam as suas principais fontes alimentares.</p><p>Segundo Jeukendrup (2017), a nutrição periodizada refere-se ao uso planejado, propositado e estratégico de intervenções nutricionais específicas para melhorar as adaptações direcionadas por sessões individuais de exercícios ou planos de treinamento periódicos, ou para obter outros efeitos que melhorem o desempenho no longo prazo.</p><p>Training low</p><p>Termo para descrever o treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos. Essa baixa disponibilidade de carboidratos pode ser um baixo glicogênio muscular, baixo nível de glicogênio hepático, ingestão baixa de carboidratos durante ou após o exercício ou combinações. A justificativa para reduzir a disponibilidade de carboidratos é derivada de estudos que observaram ligações entre a disponibilidade de carboidratos e a expressão gênica, porque, geralmente, acredita-se que as adaptações de treinamento são o resultado de pequenas mudanças acumuladas na síntese proteica, que resultam em um fenótipo alterado e melhoram o desempenho. Para que esta síntese proteica ocorra, é importante que haja um sinal de estresse, transcrição e tradução, que o RNA mensageiro permaneça estável e que aminoácidos suficientes estejam disponíveis para a síntese de proteínas. Muitos desses fatores são influenciados pela nutrição. Por exemplo, as alterações metabólicas que ocorrem como resultado da contração muscular, incluindo um aumento na proteína quinase ativada por AMP (AMPK), são fatores importantes na regulação da transcrição gênica. Um único exercício de resistência aumentará o conteúdo de AMPK e de transcrição e/ou RNA mensageiro para vários genes metabólicos e relacionados ao estresse.</p><p>Normalmente, a atividade transcricional atinge seu pico nas primeiras horas de recuperação, retornando aos padrões de normalidade em 24 horas. Esses achados levaram à hipótese geral de que as adaptações de treinamento no músculo esquelético podem ser geradas pelos efeitos</p><p>cumulativos dos aumentos transitórios na transcrição gênica durante a recuperação de repetidos períodos de exercício. Estudos também demonstraram uma ligação entre a disponibilidade de carboidratos e a expressão da AMPK, uma vez que o menor glicogênio muscular resulta em maior expressão da AMPK. É provável que o glicogênio muscular influencie diretamente a AMPK porque uma subunidade da AMPK se liga a locais específicos de ligação de glicogênio, o que impede que ela seja fosforilada. No entanto, quando o glicogênio é degradado, essa AMPK torna-se mais ativa e, com baixas concentrações de glicogênio, observa-se alta atividade da AMPK. Outras moléculas sinalizadoras podem ser aumentadas em maior medida quando o exercício é realizado sob condições de restrição de carboidratos (Pilegaard et al., 2002; Wojtaszewski et al., 2003; Sanders et al., 2007; McBride; Hardie, 2009; Yeo et al., 2010; Cochran et al., 2010; Bartlett et al., 2012).</p><p>O glicogênio desempenha um papel importante na regulação da transcrição gênica no músculo, o que pode alterar a síntese de proteína. A manipulação dos estoques de glicogênio pode, portanto, ser uma ferramenta para otimizar a adaptação ao treinamento (Jeukendrup, 2017).</p><p>As estratégias nutricionais mais utilizadas, baseadas no princípio training low são a low-carb high-fat (ou ketogenic diet) e o jejum intermitente.</p><p>Foi demonstrado na década de 1920 que reduzir a ingestão de carboidratos e aumentar a ingestão de gordura resulta em maiores taxas de oxidação de gordura. No entanto, também foi observado que os sujeitos se sentiam mais fadigados e que a capacidade de exercício foi reduzida com essa prática. Burke e seus colegas realizaram uma série de estudos de dieta de baixo teor de carboidratos e alto teor de gorduras, e uma de suas observações foi que cinco dias com uma dieta low-carb high-fat já mostraram algumas adaptações à dieta que não pode ser revertida completamente, reabastecendo os estoques de glicogênio muscular. Enzimas envolvidas na oxidação da gordura foram suprarreguladas e a oxidação da gordura foi aumentada. Em nenhum dos estudos, no entanto, foram observados efeitos de desempenho melhorados. Quando os atletas estavam treinando por um longo período de tempo (sete semanas) com uma dieta rica em gordura (62% de gordura, 21% de carboidrato) ou rica em carboidratos (20% de gordura, 65% de carboidrato), foi observado que ambos os grupos melhoraram com o treinamento, mas os efeitos do treinamento foram mais profundos no grupo com alto teor de carboidratos (BURKE et al., 2000; 2002).</p><p>Há um estudo que é sempre referido como evidência dos benefícios de uma dieta cetogênica. Na década de 1980, um estudo com cinco indivíduos mostrou que uma dieta cetogênica, contendo menos de 20 g de carboidratos por dia, por um período prolongado (quatro semanas) resultou em um aumento da oxidação de gordura. Neste estudo, a capacidade de exercício foi testada apenas em baixa intensidade e, em média, não houve diferença na capacidade de exercício antes e após a dieta cetogênica (Phinney et al., 1983).</p><p>Um estudo de Stellingwerff et al. (2006) demonstrou que, embora uma dieta rica em gordura aumente a oxidação de gordura, talvez, aumentando a atividade enzimática relacionada ao metabolismo da gordura, ela pode reduzir as atividades enzimáticas relacionadas ao metabolismo de carboidratos. Assim, os autores demonstraram comprometimento da atividade da piruvato desidrogenase. Portanto, pode ser que a oxidação da gordura seja aumentada, pelo menos em parte, como resultado de uma incapacidade de usar carboidratos. Como os carboidratos são substratos importantes para exercícios de alta intensidade, tais adaptações seriam indesejadas.</p><p>De fato, um recente estudo de Burke et al. (2016) demonstrou que não houve benefícios de uma dieta cetogênica versus alta em carboidratos, ou uma abordagem mista (carboidratos maiores ou menores, dependendo do treinamento) em atletas de resistência. O desempenho de exercícios de alta intensidade não melhorou em três semanas de treinamento intensificado no grupo da dieta cetogênica, enquanto os atletas que consumiram as outras dietas fizeram melhorias substanciais no desempenho.</p><p>Até o momento, nenhum estudo demonstrou benefícios no desempenho de uma dieta cetogênica, ou seja, não há dados sobre dietas cetogênicas (low-carb high-fat diet) em atletas que justifiquem utilizá-las como parâmetro para melhorar no desempenho.</p><p>No jejum intermitente, basicamente, a última refeição é consumida entre 20 e 22 horas na noite anterior, e o exercício é realizado pela manhã antes do café da manhã ser consumido. Quando o treinamento é realizado em jejum, o glicogênio muscular não é afetado pelo jejum noturno, mas o glicogênio hepático estará muito baixo. Estudos demonstraram que o treinamento em estado de jejum pode induzir adaptações mais profundas, sendo mais efetivo para aumentar a capacidade oxidativa muscular do que o treinamento no estado alimentado. Os autores também observaram que a utilização de gordura intramuscular foi aumentada com o treinamento em jejum e notaram melhorias na regulação dos níveis de glicose no sangue (NILSSON; HULTMAN, 1973; BOCK et al., 2005; Van Proeyen et al., 2011).</p><p>No entanto, ainda há uma série de questões práticas que precisam ser respondidas, como: Quantos dias de treinamento por semana são necessários? Qual é o tipo de treinamento (intensidade e duração) mais adequado para o treinamento em jejum? Quantas semanas este treinamento deve ser realizado para ver efeitos significativos? Além disso, os estudos até o momento têm se concentrado em adaptações metabólicas e poucos abordaram os efeitos potenciais no desempenho do exercício, por exemplo, se o treinamento em jejum resulta em melhorias de desempenho em longo prazo (Jeukendrup, 2017).</p><p>Training high</p><p>Refere-se ao treinamento com alta disponibilidade de carboidratos. Os níveis de glicogênio muscular e hepático são altos no início do exercício e/ou os carboidratos são suplementados durante o exercício. Existem duas razões principais para usar essa abordagem. Primeiramente, os carboidratos são importantes para manter a qualidade do treinamento de resistência e reduzir os sintomas de fadiga e overreaching. A segunda razão está relacionada à função intestinal. Em eventos mais longos, a ingestão de carboidratos e o aumento da oxidação de carboidratos exógenos resultam em melhor desempenho de resistência (Jeukendrup, 2017).</p><p>Em um estudo clássico, Simonsen et al. (1991) avaliaram um grupo de remadores treinados que realizavam treinamento físico diariamente (duas vezes por dia) durante quatro semanas consumindo carboidrato “normal” (5 g/kg/dia) ou uma dieta rica em carboidratos (10 g/kg/dia). A produção média de energia aumentou 10,7% no grupo com alto teor de carboidratos e 1,6% no grupo com carboidratos normais. Outro estudo simulou um cenário de campo de treinamento em que os atletas realizaram uma a duas semanas de treinamento intensificado, resultando em fadiga extrema. Um achado consistente nesses estudos foi que quando os atletas foram suplementados com carboidratos e tiveram uma ingestão geral maior de carboidratos, as reduções no desempenho foram menos profundas e os sintomas de overreaching foram reduzidos. Portanto, há evidências de que, durante o treinamento extremo com o trabalho repetido de alta intensidade, é preferível uma abordagem com maior quantidade de carboidratos (Jeukendrup, 2017).</p><p>No entanto, os efeitos sobre o desempenho a longo prazo ou os efeitos de um treinamento moderado com maior ou menor quantidade de carboidrato são ainda pouco estudados.</p><p>Training the gut</p><p>Problemas gastrointestinais são muito comuns entre os atletas de endurance, variando de leve a grave. É possível que alguns desses sintomas sejam causados pelo fato de o intestino não estar adaptado para absorver adequadamente os nutrientes sob estresse. É provável que esses sintomas estejam relacionados, pelo menos em parte, ao fato de que o fluxo sanguíneo para o intestino é reduzido durante exercícios intensos</p><p>e prolongados, e a desidratação parece exacerbar esse efeito. A absorção intestinal é a principal barreira para o deslocamento de carboidratos até o músculo em contração. Treinar o intestino pode ajudar potencialmente no desenvolvimento de adaptações intestinais que melhoram a distribuição de nutrientes (especialmente carboidratos) e reduzem a prevalência ou a gravidade dos sintomas gastrointestinais durante o exercício (Jeukendrup, 2017).</p><p>A importância do trato gastrointestinal é ainda subestimada pelos atletas. O trato gastrointestinal desempenha um papel crítico no deslocamento de carboidratos e fluidos durante o exercício prolongado e, portanto, pode ser um dos principais determinantes do desempenho. A incidência de problemas gastrointestinais em atletas que participam de eventos de endurance é alta, indicando que a função gastrointestinal nem sempre é ótima nessas condições (Oliveira; Burini; Jeukendrup, 2014).</p><p>Há evidências que sugerem que o sistema gastrointestinal é altamente adaptável. O esvaziamento gástrico e o conforto estomacal podem ser “treinados” e a percepção de plenitude pode ser diminuída (LAMBERT et al., 2008; YAU et al., 2014).</p><p>Há também evidências de que a dieta tem um impacto sobre a capacidade do intestino de absorver nutrientes (COX et al., 2010). Por exemplo, uma dieta rica em carboidratos aumentará o número de transportadores de glicose no intestino, bem como a atividade dos transportadores, permitindo maior absorção de carboidratos e oxidação durante o exercício (Ginsburg; Heggeness, 1968; Karasov et al., 1983; Ferraris et al., 1992; Dyer et al., 2009). É também provável que, quando tais adaptações ocorrem, as chances de desenvolver desconforto gastrointestinal sejam reduzidas.</p><p>Para desenvolver estratégias efetivas é importante obter uma melhor compreensão dos mecanismos associados a essas adaptações. O treinamento nutricional (training nutrition) pode melhorar o esvaziamento e a absorção gástrica e provavelmente reduzir as chances e/ou a gravidade dos problemas gastrointestinais, melhorando assim o desempenho de endurance, bem como pode garantir uma melhor experiência para o atleta (Jeukendrup, 2017).</p><p>Training race nutrition</p><p>Refere-se a praticar o seu planejamento nutricional para uma corrida nas semanas que antecedem à corrida. Há considerável sobreposição entre esse tipo de treinamento e o treinamento do intestino. Se realizado regularmente, é provável que ocorram adaptações na absorção e esvaziamento gástrico. O inverso também pode ser verdadeiro: se certos nutrientes são evitados, a capacidade de absorver esses nutrientes também é reduzida. Por exemplo: seguir uma dieta restrita em carboidratos para uma competição, de modo que, na competição, menos carboidratos podem ser oxidados.</p><p>Existem outros aspectos que podem ser praticados que podem afetar o desempenho geral. Exemplos disso incluem o planejamento (durante o treinamento) de um corredor de maratona que pratica o consumo de bebidas equivalente a uma xícara ou uma garrafa enquanto corre no ritmo da corrida (simulando a competição), ou seja, essa prática refere-se a imitar, previamente, tudo o que um atleta faria no dia da competição. Considerando que o treinamento do intestino se concentraria na absorção de carboidratos, por exemplo, o planejamento nutricional para corrida (training race nutrition) inclui também a hidratação, a ingestão de cápsulas de sal, de cafeína e outras práticas que fazem parte do plano de nutrição do dia da competição de um atleta (Jeukendrup, 2017).</p><p>3 Definição e tipos de recursos ergogênicos</p><p>Os recursos ergogênicos são substâncias ou artifícios utilizados com o objetivo de melhorar o desempenho esportivo e/ou a recuperação após o exercício. A palavra ergogênico é derivada do grego: ergo (trabalho) e gen (produção).</p><p>O intuito da utilização de ergogênicos é aumentar o desempenho por meio da intensificação da potência física, da força mental ou do limite mecânico e, dessa forma, prevenir ou retardar o início da fadiga.</p><p>Diversos estudos apontam para o consumo de suplementos por grande parcela dos praticantes de atividade física, no entanto, muitos desconhecem de fato as funções destes suplementos e/ou utilizam sem orientação de profissional capacitado.</p><p>Os recursos ergogênicos podem ser classificados em cinco categorias:</p><p>1. Mecânicos: são os equipamentos esportivos mais leves, como os equipamentos ciclísticos com design aerodinâmico, ou os tênis mais leves, a fim de gastar menos energia para movimentar as pernas e aumentar a economia de corrida, entre outros.</p><p>2. Psicológicos: controle de estresse e ansiedade, com o objetivo de aumentar a concentração e a força mental.</p><p>3. Farmacológicos: esteroides anabólicos androgênicos, muitas vezes considerados como doping pelo Comitê Olímpico Internacional.</p><p>4. Fisiológicos: bicarbonato de sódio, citrato de sódio, entre outros, que dependendo da abordagem, também são considerados doping.</p><p>5. Nutricionais: incluem carboidratos, cafeína, glutamina, vitaminas e minerais antioxidantes, ou micronutrientes em geral, aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA), creatina, carnitina, entre outros.</p><p>No estudo de Pereira e Cabral (2007), observou-se que praticantes de exercício apresentavam conhecimento acerca de alimentos que são fonte de macronutrientes e sobre jejum na perda de peso, entretanto, desconheciam a função de suplementos nutricionais.</p><p>Os ergogênicos nutricionais servem principalmente para estimular o tecido muscular, por meio da oferta de energia para o músculo e aumento da taxa de produção de energia no músculo. Os nutrientes estão envolvidos com os processos geradores de energia por meio de três funções básicas:</p><p>· Fonte energética, como os carboidratos.</p><p>· Regulador de processos, como os micronutrientes.</p><p>· Estimulador do crescimento e desenvolvimento dos tecidos corporais, como os aminoácidos.</p><p>Suplementos nutricionais funcionam? De acordo com os dois “mandamentos” de Ron Maughan: 1) Se o suplemento funciona, provavelmente está proibido. 2) Se o suplemento não está proibido, provavelmente não funciona. Para saber mais, acesse: <https://ilsibrasil.org>.</p><p>Vários suplementos alimentares, incluindo carboidratos, cafeína, creatina monohidratada e beta-alanina são intensificadores de desempenho bem estabelecidos. Além disso, os efeitos benéficos da proteína na resposta adaptativa ao exercício foram bem estudados. Há também pesquisas indicando que alguns outros suplementos dietéticos podem ser valiosos para melhorar as adaptações musculares ao exercício, melhorando o desempenho cerebral, diminuindo a dor muscular ou a dor muscular tardia, reduzindo a gravidade das lesões, melhorando a recuperação da lesão e reduzindo problemas gastrointestinais. Na maior parte, esses efeitos não são ergogênicos, mas podem ajudar os atletas a treinar e/ou competir de forma mais eficaz, sem impedimentos de desempenho (RAWSON; MILES; LARSON-MEYER, 2018).</p><p>O Comitê Olímpico Internacional (COI) publicou recentemente um consenso sobre suplementos alimentares em atletas de alta performance, afirmando que a nutrição, em geral, contribui de forma pequena, porém valiosa no desempenho bem-sucedido de atletas, e os suplementos alimentares podem trazer uma modesta contribuição para esse programa nutricional (CFM, 2018). A Figura 1 apresenta as evidências e os riscos no uso de suplementos.</p><p>FIGURA 1 – EVIDÊNCIAS E RISCOS NO USO DE SUPLEMENTOS NOS EXERCÍCIOS DE FORÇA, RESISTÊNCIA E NA SAÚDE</p><p>Os suplementos de melhora direta e indireta do desempenho são os mais comercializados, porém, poucos apresentam evidência científica. As respostas aos suplementos também são muito afetadas pela genética, microbioma e dieta habitual. Essa escolha deve respeitar uma árvore de decisão, baseada nas maiores evidências científicas, avaliação nutricional completa e avaliação de risco-benefício (CFM, 2018). A Figura 2 apresenta o fluxo de avaliação do uso de suplementos.</p><p>FIGURA 2 – FLUXO DE AVALIAÇÃO DO USO DE SUPLEMENTOS</p><p>A comunidade médica e esportiva tem à disposição trabalhos de comprovado reconhecimento</p><p>para unir átomos de carbono que foram absorvidos do CO2, armazenando-o nas moléculas de glicose (CH2O)6 que são sintetizadas neste processo, ou seja, os vegetais são, portanto, autossuficientes na produção de carboidratos, enquanto os animais são dependentes do consumo de vegetais para obter energia (DEMONTE, 2008).</p><p>Os carboidratos são classificados de acordo com o número de monômeros, conforme apresentado na Tabela 1.</p><p>TABELA 1 – PRINCIPAIS CARBOIDRATOS DOS ALIMENTOS</p><p>Classe</p><p>Subgrupo</p><p>Exemplo</p><p>Açúcares</p><p>Monossacarídeos</p><p>Glicose, galactose, frutose</p><p>Dissacarídeos</p><p>Sacarose, lactose, maltose</p><p>Polióis</p><p>Sorbitol, manitol, xilitol</p><p>Oligossacarídeos</p><p>Maltoligossacarídeos</p><p>Maltodextrina</p><p>Outros oligossacarídeos</p><p>Frutoligossacarídeo</p><p>Polissacarídeos</p><p>Amido</p><p>Amilose, amilopectina, amido resistente, polidextrose</p><p>Outros polissacarídeos</p><p>Celulose, hemicelulose, inulina, gomas e mucilagens, pectina</p><p>Monossacarídeos são açúcares simples, sendo a glicose o maior exemplo encontrado no organismo. Por conter seis carbonos em sua estrutura, a glicose é chamada de hexose. Os dissacarídeos são formados pela combinação de monossacarídeos, também são considerados açúcares simples, sendo a glicose o monossacarídeo mais frequente na composição. Os açúcares estão presentes nas frutas, mel, grãos em germinação, açúcar da cana, açúcar da beterraba, açúcar do leite e açúcar de mesa (DEMONTE, 2008).</p><p>Os oligossacarídeos são carboidratos com grau maior de polimerização (3-9) do que os açúcares (1-2). Os polímeros derivados de frutose e galactose são considerados não digeríveis e sua presença nas regiões mais distais do trato digestório promove um substrato disponível aos processos fermentativos e ao desenvolvimento de microrganismos que compõem a microbiota intestinal. Por isso, é atribuído um efeito prebiótico a essa classe específica de carboidratos (DEMONTE, 2008).</p><p>Prebióticos são carboidratos não digeríveis que favorecem a saúde e o bem-estar dos indivíduos devido ao estímulo do crescimento e/ou da atividade de espécies bacterianas, de maneira seletiva, que beneficiam a microbiota intestinal humana (DEMONTE, 2008).</p><p>Os polissacarídeos contêm muitas unidades de monossacarídeos e são chamados também de carboidratos complexos. Na maioria dos vegetais ocorre uma transformação de glicose em amido durante o amadurecimento. No entanto, frutas (banana, por exemplo) transformam amido em açúcar quando amadurecem. O amido é constituído de amilose e amilopectina, em menor e maior proporção, respectivamente. A amilose tem uma estrutura linear, enquanto a amilopectina apresenta estrutura ramificada. Essa diferença é importante, pois interfere na digestibilidade dos diferentes amidos. Uma maior proporção de amilopectina, devido ao seu arranjo mais complexo, dificulta o acesso das enzimas responsáveis por sua degradação, ou seja, apresenta menor digestibilidade em relação à amilose. Além disso, existe outro fator capaz de interferir no processo absortivo do amido, que é o processamento hidrotérmico e a origem botânica. Esses fenômenos ocorrem quando o amido estiver presente em estruturas íntegras (grãos e sementes) ou quando as paredes celulares muito rígidas impedem a dispersão dos grânulos de amido (banana verde). Dessa maneira é empregado o termo amido resistente para uma classificação que depende da sua estrutura física e da suscetibilidade ao ataque enzimático da amilase pancreática. O amido é a mais importante fonte de carboidratos da dieta e está presente em cereais (grãos), legumes, raízes, tubérculos e outros vegetais (DEMONTE, 2008).</p><p>Durante o processo de mastigação, a amilase salivar secretada pelas glândulas parótidas atua no estômago para iniciar a quebra dos carboidratos, sendo a digestão completada no intestino delgado por ação das secreções pancreáticas e intestinais. Uma vez que só os monossacarídeos podem ser absorvidos, todos os polímeros de carboidratos precisam ser hidrolisados durante a digestão. Essa absorção ocorre por um sistema de transporte na mucosa intestinal, sendo a glicose e a galactose absorvidas mais rapidamente. A frutose e outros monossacarídeos (sorbitol, xilitol) passam por um processo mais lento de absorção (DEMONTE, 2008).</p><p>Após a absorção, os carboidratos são levados ao fígado, sendo a frutose e a galactose convertidas em glicose. Parte da glicose absorvida atinge a corrente sanguínea periférica, sinalizando à insulina o transporte da glicose para utilização em outras células (musculares, tecido adiposo) (DEMONTE, 2008).</p><p>FIGURA 2 – REPRESENTAÇÃO DA DIGESTÃO DE CARBOIDRATOS</p><p>A reserva de energia obtida por meio dos carboidratos (glicogênio) será discutida na seção “Vias de produção de energia”.</p><p>2.3 LIPÍDIOS</p><p>Os lipídios são macronutrientes que desempenham função energética, estrutural e hormonal no nosso organismo. Gorduras e óleos, fosfolipídios e colesterol são exemplos de lipídios e desempenham funções distintas entre eles. No contexto da alimentação, os lipídios são os nutrientes que fornecem a maior quantidade de calorias por grama, são responsáveis pelo transporte das vitaminas lipossolúveis (A, D, E, K) e aumentam o tempo da digestão. Além disso, os lipídios conferem sabor, palatabilidade e sensação de saciedade aos alimentos (SANTOS, 2008).</p><p>O colesterol é o esterol mais abundante nos tecidos, constitui parte da membrana celular e é a substância precursora na síntese de hormônios e ácidos biliares. Enquanto 25% do colesterol plasmático é proveniente da dieta, o restante é sintetizado pelo fígado (MOTTA, 2003).</p><p>Os ácidos graxos são compostos integrantes de quase todos os lipídios, podendo apresentar em sua estrutura uma cadeia linear (saturados) ou ramificada (mono e poli-insaturados). Alguns ácidos graxos não podem ser sintetizados pelo organismo, sendo necessário o seu consumo pela alimentação, são chamados ácidos graxos essenciais (SANTOS, 2008).</p><p>O ômega-3 é um ácido graxo poli-insaturado essencial. O ácido alfa-linolênico (ALA, C18:3) está presente no óleo de soja, canola e linhaça, peixes e crustáceos, óleo de fígado de bacalhau, nozes e soja; enquanto o ácido eicosapentaenoico (EPA, C20:5) e o ácido docosahexaenoico (DHA, C22:6) podem ser encontrados, principalmente, nos óleos e peixes de águas frias e algas marinhas. Embora esses ácidos graxos sejam considerados essenciais ao homem, pequenas quantidades de ALA podem ser convertidas em EPA (5%) e DHA (0,5%). O ômega-3 tem mostrado efeitos na redução das concentrações de triacilgliceróis, redução da arritmia, diminuição da agregação plaquetária e redução da pressão sanguínea (DIN; NEWBY; FLAPAN, 2004; CHAN; CHO, 2009).</p><p>O ômega-6 também é um ácido graxo essencial. Alguns estudos demonstram que a família ômega-6 produz eicosanoides inflamatórios e carcinógenos, aumentando o risco de câncer, morte súbita, doença cardíaca, vasoconstrição, aumento da pressão arterial, elevação de triacilglicerol, entre outras doenças inflamatórias (JAMES; GIBSON; CLELAND, 2000; KELLEY, 2001).</p><p>O papel biológico do ômega-6 parece estar associado a sua relação com o ômega-3. Segundo Simopoulos et al. (1999), é necessário reduzir a quantidade de ômega-6 das dietas e aumentar a concentração de ômega-3 para que haja equilíbrio na proporção entre eles. Essa afirmação tem como ponto central evidências epidemiológicas, no qual o perfil nutricional das dietas ocidentais com alto consumo de ômega-6 e baixo consumo de ômega-3 apresenta correlação com a prevalência de doenças cardiovasculares.</p><p>O ômega-3 e o ômega-6 competem pela mesma enzima (delta-6 dessaturase) e seus principais derivados competem pelos mesmos sítios de ligação (FAGUNDES, 2002). De acordo com Kelley (2001), os produtos finais desse processo, os eicosanoides, exercem funções antagônicas nos processos de sinalização celular. Enquanto os leucotrienos e tromboxanos provenientes do ômega-3 têm forte ação anti-inflamatória, aqueles provenientes do ômega-6 são agentes pró-inflamatórios (JAMES; GIBSON; CLELAND, 2000).</p><p>Atualmente, as recomendações para uma dieta saudável</p><p>científico que mostram um significativo número de suplementos contaminados (de forma dolosa ou negligente). Por isso, o uso de suplementos pode não ser seguro para o atleta nem para o profissional responsável pela prescrição, pois apesar de aparentemente inofensivos, nas cortes de justiça desportiva todos os envolvidos podem ser punidos (CFM, 2018).</p><p>Em 2014, o artigo “Perigo da contaminação de suplementos alimentares com substâncias ilícitas para os praticantes de exercício físico e esporte”, elaborado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), trouxe dados alarmantes quanto à presença de substâncias proibidas não apresentadas no rótulo dos produtos, conforme Figura 3 (CFM, 2018).</p><p>FIGURA 3 – PERIGO DA CONTAMINAÇÃO DE SUPLEMENTOS COM SUBSTÂNCIAS ILÍCITAS</p><p>O Conselho Federal de Medicina apresenta um passo a passo na prevenção contra a contaminação de suplementos:</p><p>1. Adquirir o produto em loja física, com CNPJ (de preferência), de boa reputação, idônea e que ofereça nota fiscal.</p><p>2. Exigir que a nota fiscal tenha o número do lote do fabricante referente ao produto adquirido.</p><p>3. Exigir que todos os produtos venham do mesmo lote.</p><p>4. Guardar a nota fiscal e o frasco fechado/lacrado em local seguro, com a amostra do lote anotada no documento fiscal.</p><p>5. No caso de resultado analítico adverso, avisar o setor responsável pelos resultados da organização antidopagem do atleta sobre o uso de suplementos e apresentar todo o material guardado com a respectiva documentação.</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1 Os recursos ergogênicos são substâncias ou artifícios utilizados com o objetivo de melhorar o desempenho esportivo e/ou a recuperação após o exercício. Sobre as classificações dos recursos ergogênicos, associe os itens, utilizando o código a seguir:</p><p>I- Mecânicos.</p><p>II- Psicológicos.</p><p>III- Farmacológico.</p><p>IV- Fisiológicos.</p><p>V- Nutricionais.</p><p>( ) Citrato de Sódio.</p><p>( ) Esteroides.</p><p>( ) Whey Protein.</p><p>( ) Sapatilha para corrida.</p><p>( ) Controle de estresse e ansiedade.</p><p>Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:</p><p>A) V – III – IV – I – II.</p><p>B) III – I – II – V – IV.</p><p>C) IV – III – V – I – II.</p><p>D) II – IV – I – III – V.</p><p>E) IV – II – V – I – III.</p><p>4 LEGISLAÇÃO E PRESCRIÇÃO DE SUPLEMENTOS ALIMENTARES</p><p>O desempenho físico depende de uma combinação de fatores biológicos, comportamentais e afetivos. Fatores como: motivação, humor, alimentação, rotina de treinamento, qualidade do sono, efeitos adversos ao suplemento ou mesmo uma discussão com o cônjuge, são apenas alguns exemplos que poderiam explicar variações no desempenho físico em resposta a um suplemento nutricional.</p><p>O profissional que atua na Nutrição Esportiva precisa prescrever, quando necessário, apenas suplementos que possuam respaldo científico adequado. Além de testar (e retestar sempre que possível, em dias diferentes, ao longo da temporada) a resposta de desempenho de cada atleta a um determinado suplemento nutricional.</p><p>A eficácia dos suplementos alimentares depende de vários fatores. Esportes e modalidades diferentes exigem estratégias específicas, baseadas nas características fisiológicas do exercício, tipo de treino (duração, frequência e intensidade), condicionamento físico e condição de saúde do indivíduo. Além disso, estratégias nutricionais especiais devem ser adotadas nas diferentes fases: treinamento, pré-competição, competição e recuperação.</p><p>Suplementos alimentares são produtos para ingestão oral, apresentados em formas farmacêuticas, destinados a complementar a alimentação de indivíduos saudáveis com nutrientes, substâncias bioativas, enzimas ou probióticos, isolados ou combinados (ANVISA, 2019).</p><p>Em 13 de janeiro de 1998, a Anvisa, vinculada ao Ministério da Saúde, expediu a Portaria nº 32, referente ao Regulamento Técnico para Suplementos Vitamínicos e/ou Minerais. Além disso, a Resolução nº 16/1999 aborda a questão com novos alimentos, a RDC nº 2/2002 trata das substâncias bioativas e a RDC nº 18/2010 refere-se aos alimentos para atletas.</p><p>Sobre as doses diárias de proteínas, vitaminas e minerais, recomenda-se a leitura da RDC nº 269, de 22 de setembro de 2005, na qual a Anvisa estabelece um regulamento técnico específico sobre o tema.</p><p>Atualmente, os suplementos alimentares possuem requisitos específicos de composição descritos na RDC nº 243/2018 e na IN nº 28/2018. Há, ainda, regras específicas para o uso de aditivos em suplementos, definidas na RDC nº 239/2018 (ANVISA, 2019).</p><p>A criação da categoria de suplementos alimentares teve como objetivos:</p><p>· Contribuir para o acesso da população a suplementos alimentares seguros e de qualidade.</p><p>· Reduzir a assimetria de informações existentes nesse mercado.</p><p>· Facilitar o controle sanitário e a gestão do risco desses produtos.</p><p>· Eliminar obstáculos desnecessários à comercialização e inovação.</p><p>· Simplificar o estoque regulatório vigente.</p><p>Para atingir esses objetivos, foram implementadas mudanças na legislação sanitária, que forneceram um delineamento regulatório mais claro e proporcional ao risco desses produtos, incluindo a atualização dos requisitos sanitários com base em evidências científicas. O novo marco normativo traz definições, regras de composição, qualidade, segurança e rotulagem e requisitos para atualização das listas de constituintes, limites de uso, alegações e rotulagem complementar. As regras foram também pensadas para comportar inovações e garantir que esses produtos atendam aos preceitos legais de alimentos (ANVISA, 2019).</p><p>Agora, os suplementos alimentares reúnem em uma única categoria a maior parte dos produtos que estavam enquadrados em seis categorias distintas de alimentos e uma de medicamentos: (a) suplementos de vitaminas e minerais; (b) substâncias bioativas e probióticos; (c) novos alimentos; (d) alimentos com alegações de propriedades funcionais; (e) suplementos para atletas; (f) complementos alimentares para gestantes e nutrizes; e (g) medicamentos específicos isentos de prescrição. Essa abordagem contribui para a simplificação e redução do estoque regulatório e auxilia na uniformização dos requisitos sanitários e na redução das lacunas regulatórias existentes. O novo marco normativo adotou uma separação entre suplementos alimentares e alimentos convencionais, incluindo aqueles sem histórico de uso ou com alegações de propriedades funcionais ou de saúde (ANVISA, 2019).</p><p>Embora a Resolução nº 16/1999, que aprova o regulamento técnico de procedimentos para registro de alimentos e/ou novos ingredientes, continue vigente, essa norma não será mais aplicável à regularização de produtos apresentados em formas farmacêuticas destinados a pessoas saudáveis, uma vez que o item 4.2 da Resolução nº 16/1999 foi revogado pela RDC nº 243/2018. Portanto, os produtos em formas farmacêuticas destinados a indivíduos saudáveis não poderão mais ser enquadrados na categoria de novos alimentos e novos ingredientes e deverão seguir os procedimentos específicos para inclusão nas listas positivas de suplementos alimentares (ANVISA, 2019).</p><p>A Resolução nº 16/1999 continuará a ser aplicada aos alimentos que não possuem histórico de consumo no país e aos ingredientes destinados à adição em alimentos convencionais (ANVISA, 2019).</p><p>De forma similar, a Resolução nº 19/1999, que aprova o regulamento técnico de procedimentos para registro de alimento com alegação de propriedades funcionais e/ou de saúde em sua rotulagem, permanece vigente, não será mais utilizada para regularização de alimentos em formas farmacêuticas destinados a pessoas saudáveis com alegações de propriedades funcionais ou de saúde (ANVISA, 2019).</p><p>A RDC nº 243/2018 revogou integralmente as seguintes normativas:</p><p>I Portaria SVS/MS nº 32/1998, que aprova o regulamento técnico para suplementos vitamínicos e ou de minerais.</p><p>II Portaria SVS/MS nº 222/1998, que aprova o regulamento técnico referente a alimentos para praticantes de atividade física.</p><p>I Portaria SVS/MS nº 223/1998, que aprova o regulamento técnico</p><p>para fixação e qualidade de complementos alimentares para gestantes ou nutrizes.</p><p>IV RDC nº 2/2002, que aprova o regulamento técnico de substâncias bioativas e probióticos isolados com alegação de propriedades funcional e ou de saúde.</p><p>V RDC nº 18/2010, que dispõe sobre alimentos para atletas.</p><p>Os regulamentos específicos que tratam de suplementos alimentares são:</p><p>I RDC nº 243/2018, que dispõe sobre os requisitos sanitários dos suplementos alimentares.</p><p>II IN nº 28/2018, que estabelece as listas de constituintes, de limites de uso, de alegações e de rotulagem complementar dos suplementos alimentares.</p><p>III RDC nº 239/2018, que estabelece os aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em suplementos alimentares.</p><p>No marco normativo publicado em 27 de julho de 2018, inclui-se a RDC nº 241/2018, que apesar de não ser específica para esta categoria de produtos, define requisitos para comprovação da segurança e dos benefícios à saúde dos probióticos usados em suplementos alimentares (ANVISA, 2019).</p><p>A discussão sobre a regulação de probióticos é pauta atual de muitas autoridades regulatórias do mundo, todas empenhadas em estabelecer regras proporcionais que favoreçam a oferta de produtos seguros e eficazes, sem impor barreiras desnecessárias para o acesso dos probióticos ao mercado de consumo. Ademais, os probióticos, por serem organismos vivos, possuem critérios muito próprios para a avaliação de segurança e comprovação dos efeitos benéficos, além da necessidade de demonstração da identidade da linhagem. Desta forma, a Anvisa publicou a RDC nº 241/2018, um regulamento que trata essas especificidades, o qual é aplicável não apenas a suplementos alimentares, mas também a outros alimentos convencionais que utilizam micro-organismos com intuito de trazer benefícios à saúde do consumidor (ANVISA, 2019).</p><p>O novo marco normativo de suplementos alimentares alterou a lógica anteriormente utilizada para diferenciar um suplemento enquadrado como alimento de um suplemento enquadrado como medicamento, a qual era baseada na Ingestão Diária Aceitável (IDR), ou seja, quando um produto possuía quantidades de nutrientes acima de 100% da IDR, este era considerado um medicamento (ANVISA, 2019).</p><p>Com a publicação da RDC nº 242/2018 e da RDC nº 243/2018, que alterou a RDC nº 24/2011 e revogou a Portaria SVS/MS nº 32/1998 e a Portaria SVS/MS nº 40/1998, respectivamente, os valores de IDR não são mais balizadores para definir se determinado suplemento é um alimento ou medicamento. A partir de agora, serão considerados medicamentos específicos somente os produtos à base de vitaminas ou minerais ou aminoácidos ou proteínas (isolados ou associados entre si), para uso oral, com indicações terapêuticas bem estabelecidas e diferentes das alegações estabelecidas para suplementos alimentares (ANVISA, 2019).</p><p>Os medicamentos específicos deverão seguir os critérios da RDC nº 98/2016 para serem considerados isentos de prescrição. Para diferenciar tais indicações é necessário esclarecer que alegações estabelecidas para alimentos são aquelas que descrevem o papel metabólico e fisiológico do constituinte no organismo humano (ex.: a vitamina D auxilia na absorção de cálcio e fósforo). Em contrapartida, alegações medicamentosas descrevem o efeito da substância no tratamento, cura ou profilaxia da doença (ex.: a vitamina D auxilia no tratamento da osteoporose) (ANVISA, 2019).</p><p>As formas farmacêuticas que podem ser utilizadas em suplementos alimentares são aquelas destinadas à administração oral, ou seja, pela boca, podendo ser sólidas, semissólidas ou líquidas, como cápsulas, comprimidos, líquidos, pós, barras, géis, pastilhas, gomas de mascar etc. A referência considerada para a definição de cada forma farmacêutica foi o Vocabulário Controlado de Formas Farmacêuticas, Vias de Administração e Embalagens de Medicamentos da Anvisa. Ressalta-se que os chás não são considerados suplementos alimentares, os quais deverão atender aos dispositivos constantes na RDC nº 277/2005 (ANVISA, 2019).</p><p>O marco regulatório de suplementos alimentares não se aplica a preparações magistrais (farmácias de manipulação). Esses produtos são regulamentados pela Resolução RDC nº 67/2007.</p><p>O novo marco regulatório define que os constituintes de suplementos alimentares são os probióticos e os ingredientes usados na sua composição com finalidade de fornecer nutrientes, substâncias bioativas e enzimas. Nesse caso, somente os constituintes previstos no Anexo I da IN nº 28/2018 podem ser utilizados, desde que observadas as demais condições de composição, qualidade e eficácia estabelecidas. Os aditivos alimentares e coadjuvantes de tecnologia autorizados para uso em suplementos alimentares estão listados na RDC nº 239/2018. Além disso, outros ingredientes podem ser utilizados na fabricação de suplementos alimentares, desde que usados exclusivamente para fornecer sabor, cor ou aroma ou para dissolver, diluir, dispersar ou alterar sua consistência ou forma. A combinação de diferentes ingredientes em um único produto é permitida desde que esses constituintes estejam listados na IN nº 28/2018 e que não haja restrições expressamente descritas na norma (ANVISA, 2019).</p><p>Muito embora a publicação da norma de suplementos alimentares, com a criação dessa categoria e extinção de outras, já modifique tacitamente outras normas, a revisão expressa traz mais clareza ao ambiente regulatório. Assim, conforme consta no Relatório de Análise de Contribuições da CP nº 458/2017, após a publicação do marco regulatório de suplementos alimentares, algumas normas precisam ser revistas (ANVISA, 2019).</p><p>Outro ponto relevante é a dopagem ou doping. O artigo 7º da RDC nº 243/2018 determina que não são permitidas na composição de suplementos alimentares, entre outras, as substâncias consideradas como doping pela Agência Mundial Antidoping (AMA). As substâncias consideradas como doping pela Agência Mundial Antidoping estão listadas no documento “PROHIBITED LIST” e suas atualizações.</p><p>Criada em 10 de novembro de 1999, a Agência Mundial Antidoping (AMA) - em inglês, World Anti-Doping Agency (WADA) - estabelece regras e diretrizes para combater a dopagem em escala global:</p><p>· Uso de substâncias ou métodos capazes de aumentar artificialmente o desempenho esportivo.</p><p>· Uso de substâncias ou métodos potencialmente prejudiciais à saúde do atleta ou de seus adversários, que não aumentam o desempenho, mas ainda assim são considerados dopagem.</p><p>· Uso de substâncias ou métodos que atentem contra o espírito esportivo do jogo; em outras palavras, contra o jogo limpo (fair play).</p><p>Caro acadêmico, no site da ABCD e da AMA, estão disponíveis arquivos com listas de substâncias e métodos proibidos. Disponível em: <www.abcd.gov.br>; <www.wada-ama.org>.</p><p>Além dessas normas, é importante ter conhecimento de outras duas resoluções aprovadas pelo Conselho Federal de Nutricionistas (CFN):</p><p>Resolução CFN no 390/2006: regulamenta a prescrição de suplementos nutricionais pelos nutricionistas.</p><p>Resolução CFN no 525/2013: regulamenta a prática de fitoterapia pelo nutricionista, atribuindo-lhe competência para, nas modalidades que especifica, prescrever plantas medicinais e fitoterápicos como complemento da prescrição dietética.</p><p>Ganho de força, aumento da massa muscular, redução da gordura corporal, aumento da capacidade aeróbica, redução de fadiga, rápida recuperação e outros fatores que melhorem o desempenho físico esportivo são objetivos comuns entre atletas (BECKER et al., 2016).</p><p>Se houver necessidade real de suplementar, faça uma avaliação adequada por um profissional familiarizado com as regras esportivas e antidoping. É bastante provável que os suplementos dietéticos não sejam necessários e que as deficiências nutricionais possam ser corrigidas através de fontes alimentares (CFM, 2018).</p><p>Carboidratos</p><p>O uso da suplementação com carboidratos por atletas é interessante, considerando que dependendo da duração e intensidade do treino, há perdas de fluidos corporais, queda nos níveis de glicose sanguínea e depleção das reservas</p><p>de glicogênio muscular (ACSM, 2011).</p><p>No entanto, a quantidade e o tipo de carboidrato utilizado são determinantes para que a função da suplementação seja eficaz, tendo influência direta no esvaziamento gástrico.</p><p>· Pré-treino: respeitar concentrações de até 20% para não comprometer o direcionamento do fluxo sanguíneo à musculatura durante o exercício e não provocar alteração da osmolaridade gástrica, ou seja, evitar o desconforto gástrico/náuseas por impedir “competição” do fluxo sanguíneo entre a contração muscular e o estômago.</p><p>O consumo de bebidas energéticas em um tempo de 10 a 60 minutos antes do exercício pode ser vantajoso, melhorando o foco mental e o desempenho durante o treino (CAMPBELL et al., 2013).</p><p>Chambers, Bridge e Jones (2009) sugerem que o contato das moléculas do carboidrato na boca é suficiente para ativar regiões do cérebro relacionadas à melhora do desempenho físico.</p><p>Em um estudo realizado com atletas de ginástica artística, a suplementação com maltodextrina em uma concentração de 20% em um suco sabor laranja antes da execução de exercícios, teve efeitos positivos na melhora do rendimento (BATATINHA et al., 2013). A suplementação com maltodextrina pode diminuir a fadiga central, melhorando o estado de alerta e o foco do atleta (ANDRADE et al., 2009).</p><p>A maltodextrina é um tipo de amido hidrolisado, ou seja, é um oligossacarídeo de fácil absorção, normalmente utilizada em bebidas esportivas (HENRIQUES et al., 2010; MAHAN; ESCOTT-STUMP; RAYMOND, 2012).</p><p>Outra opção de carboidrato no pré-treino é a isomaltulose, também chamada de palatinose. A isomaltulose, obtida através da fermentação bacteriana da sacarose, é um dissacarídeo com baixo índice glicêmico (KAWAGUTI; SATO, 2008). Segundo Lancha Junior, Campos-Ferraz e Rogeri (2014), carboidratos com baixo índice glicêmico, em função de sua estrutura, são digeridos e absorvidos mais lentamente, tendo menor impacto sobre a glicemia e a insulinemia. O fornecimento gradual de glicose evita a hiperestimulação das células beta pancreáticas, controlando a secreção de insulina e, consequentemente, evitando quadros hipoglicêmicos.</p><p>· Durante: respeitar concentrações até 8% para evitar os mesmos sintomas descritos anteriormente, ou seja, garantir o esvaziamento gástrico da mesma forma que repõe glicose e glicogênio.</p><p>O uso destas bebidas durante o treino é importante para manter níveis adequados de glicose, principal substrato para a geração de energia (CAMPBELL et al., 2013).</p><p>A respeito da hidratação, segundo a Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte - SBME (2009), para atividade com duração superior a 1 hora ou muito intensa, deve-se repor o carboidrato na quantidade de 30 a 60 g/hora (concentração de 4 a 8% para esvaziamento gástrico e absorção intestinal) e sódio na quantidade de 0,5 a 0,7 g/litro.</p><p>· Pós-treino: situação diferente, tendo em vista a necessidade de reposição imediata. Nesse caso, é recomendado o uso de carboidratos de alto índice glicêmico. Ocorre mobilização dos transportadores de glicose para a membrana da célula muscular, aumentando o fluxo de glicose para o interior da célula. Essa captação elevada de glicose pode permanecer por 30-60 minutos ou até 2 horas após o exercício. Nesse caso é recomendado o uso de carboidratos de alto índice glicêmico.</p><p>A adição de proteína em uma refeição com carboidrato pós-treino pode melhorar a síntese de glicogênio e a síntese proteica muscular. O efeito sinérgico tem sido associado às respostas da insulina e à maior disponibilidade de aminoácidos (ALGHANNAM; GONZALEZ; BETTS, 2018).</p><p>Suplementos derivados de proteínas</p><p>Para a síntese proteica muscular, os aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA) se mostram tão eficientes quanto todos os aminoácidos essenciais reunidos (MATA; NAVARRO, 2009).</p><p>No entanto, a síntese proteica só ocorre com a regularização da glicemia, ou seja, a secreção e a ação de hormônios anabólicos dependem da estabilização da concentração de glicose. Por isso, não seria indicada uma suplementação no pós-treino imediato, visto que fisiologicamente pode haver alteração de glicemia, pressão arterial e frequência cardíaca, comprometendo o processo de digestão e absorção.</p><p>O consumo diário total de proteína é mais importante do que uma alta ingestão proteica na refeição pós-treino. Além disso, o consumo superior a 30 g de proteína “de uma vez só” não aumenta a ressíntese proteica. Por isso, esse consumo excessivo pode ser desperdiçado pela excreção, sendo eliminado na urina e nas fezes.</p><p>A proteína do soro do leite (whey protein) possui alta quantidade de aminoácidos de cadeia ramificada: leucina, isoleucina e valina (BCAA), sendo que o percentual de BCAA no whey protein pode atingir 20% (aproximadamente 4,5 g em um scoop). Nesse sentido, o whey protein pode ser considerado um suplemento proteico com alta biodisponibilidade de aminoácidos de cadeia ramificada.</p><p>· WHEY concentrado: entre 80-90% de pureza.</p><p>· WHEY isolado: entre 90-95% de pureza.</p><p>· WHEY hidrolisado: aproximadamente 99% de pureza (peptídeos pequenos e com alta biodisponibilidade).</p><p>Sugere-se que o consumo de um suplemento de proteínas hidrolisadas tem ação mais rápida, aumentando a disponibilidade de aminoácidos na circulação sistêmica que estarão disponíveis para o anabolismo de proteínas musculares. A suplementação com proteínas do soro do leite, na maioria dos estudos, é vista como importante estratégia para aumentar a resposta de resistência no exercício e para hipertrofia muscular, sendo que as proteínas do soro podem estar associadas ou não à ingestão de carboidratos. No entanto, mais pesquisas precisam ser concluídas e devem dar atenção à relação dose/tempo de ingestão a fim de comparar os efeitos em várias formas de administração do suplemento (BECKER et al., 2016).</p><p>A taxa de esvaziamento gástrico e a concentração plasmática de aminoácidos são independentes do grau de fracionamento de proteínas e não são alteradas pelas pequenas diferenças na composição do aminoácido ou da proteína (SIQUEIRA et al., 2016).</p><p>Além disso, quando uma elevada dose de proteína é consumida, da forma que alcance altas concentrações de leucina (principal aminoácido responsável pelo estímulo da síntese proteica) os efeitos no ganho de massa muscular são similares, independentemente da fonte alimentar utilizada (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>Em exercícios extenuantes (ultraendurance) o BCAA atua no quadro de fadiga central, competindo com a entrada de triptofano no SNC e parece exercer efeitos anabólicos (principalmente leucina) aumentando a atividade da via mTOR (QUN; XINKAI; JING, 2013).</p><p>A recomendação de ingestão diária de aminoácidos essenciais equivale aproximadamente a 170 mg/kg/dia. Enquanto a de BCAA equivale entre 80-90 mg/kg/dia. Apesar do BCAA não ser degradado diretamente no fígado, ou seja, quando ingerido acaba na corrente sanguínea, estando disponível para o músculo esquelético, os estudos experimentais e em humanos sobre os efeitos ergogênicos são ainda controversos (JANG et al., 2011; FALAVIGNA et al., 2012; KNECHTLE et al., 2012; KAINULAINEN; HULMI; KUJALA, 2013).</p><p>O beta-hidroxi-metilbutirato (HMB) é produzido a partir da leucina, acelera a capacidade regenerativa do músculo, promovendo a hipertrofia ou manutenção da massa muscular, parece estimular a síntese proteica e ter efeitos na percepção de dor. Os estudos parecem mais efetivos em indivíduos não treinados. As dosagens utilizadas giram em torno de 3 g/dia, porém, os benefícios ainda são controversos (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>A carnosina é um dipeptídeo sintetizado por precursores de L-histidina e beta-alanina. Ela tem função de tamponante do pH intramuscular, sendo efetiva para evitar ou retardar a fadiga. A síntese de carnosina depende da captação desses aminoácidos pelas células musculares. A suplementação de beta-alanina está relacionada ao aumento da síntese de carnosina, sendo eficiente em exercícios de alta intensidade e curta duração (1-4 minutos). No entanto, apresenta como efeito colateral a parestesia (sensação de formigamento/coceira), sendo</p><p>menos frequente em suplementação abaixo de 1 g. O motivo pelo qual isso acontece é o aumento da concentração sanguínea de beta-alanina, que se liga a terminações nervosas sensitivas da pele (função de neurotransmissor). No entanto, mais estudos são necessários para conclusões seguras (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>A glutamina fornece energia para as células de divisão rápida (intestino, imunidade), é precursora da síntese de glutationa (antioxidante), por isso tem sido utilizada para aumentar a defesa imunológica durante períodos de treinamento intenso. Atualmente, não existe evidência científica suficiente demonstrando que a glutamina previne lesões e/ou infecções em atletas que consomem níveis adequados, o que torna sua suplementação necessária apenas com avaliação individual (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>A arginina é um aminoácido precursor de óxido nítrico, relacionado com o efeito vasodilatador, podendo melhorar a força e a potência muscular, além de estimular a secreção de GH. No entanto, quando ingerida por via oral sofre metabolização e não aumenta de maneira eficiente a argininemia para esses efeitos (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>A creatina leva à retenção hídrica intracelular, aumenta a geração de força, diminui o tempo de recuperação entre as séries, melhora o rendimento, aumenta o estímulo do exercício, amplia a magnitude de adaptação muscular, favorecendo a hipertrofia e o aumento de força. A suplementação de 0,1 g/kg/dia até 3 horas após o treino está relacionada com a melhora no ganho de força e aumento da massa magra. A creatina se mostra mais eficaz em corridas do “tipo sprint” e exercícios de força, como o levantamento de peso, mas não em esportes de endurance (corrida de longa distância). Não é recomendada a suplementação em dose única que seja acima de 5 g. É importante salientar que o transporte de creatina para o interior da célula é influenciado pela insulina, ou seja, sua suplementação associada a soluções de carboidratos proporciona o aumento da retenção de creatina no tecido muscular em torno de 60% (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>Suplementos derivados de lipídios</p><p>Os ácidos graxos são oxidados por um processo de beta-oxidação. Essa via metabólica ocorre dentro da mitocôndria, mas, para que o ácido graxo entre na mitocôndria ele precisa de um transportador, a carnitina. Os triglicerídeos de cadeia média (TCM) não necessitam de transportador para entrar na mitocôndria e, por isso, o TCM é considerado uma fonte rápida para oxidação de gorduras (poupando a utilização de glicogênio). No entanto, as evidências científicas não são conclusivas. Nesse mesmo sentido, a suplementação de L-carnitina como forma de potencializar o transporte e a oxidação de ácidos graxos ainda não se mostrou efetiva, visto que os estudos são limitados e inconclusivos (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>A tabela a seguir mostra um resumo dos efeitos de alguns suplementos citados ao longo do texto.</p><p>TABELA 1 – RESUMO DA AÇÃO, DOSAGEM E O EFEITO DE ALGUNS SUPLEMENTOS</p><p>Cafeína</p><p>A cafeína reduz a sonolência, a percepção da dor e a fadiga e estimula a lipólise e a termogênese. Ela pode ser utilizada no pré-treino (30-60 min) com doses de 3 mg/kg até 9 mg/kg. Acima disso pode ser doping positivo pela World Anti-Doping Agency (WADA) por ultrapassar 12 mcg/ml na urina. Nesse sentido, é importante contabilizar a suplementação associada à ingestão diária de café para não ultrapassar os limites de dopagem (LUSTOSA; OLIVEIRA; BENTO, 2016).</p><p>FIGURA 4 – QUANTIDADE DE CAFEÍNA CONTIDA NOS DIFERENTES TIPOS DE CAFÉ</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1. Quais são os regulamentos específicos que tratam da categoria de suplementos alimentares?</p><p>______________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________</p><p>ALGUMAS CONSIDERAÇÕES</p><p>Nesse capítulo, você aprendeu que:</p><p>Para os indivíduos que praticam exercícios físicos, uma dieta balanceada é suficiente para a manutenção da saúde e o bom desempenho físico.</p><p>Para atletas, a alimentação saudável deve ser entendida e compreendida como sendo o ponto de partida para obter o desempenho máximo e as manipulações nutricionais e os suplementos alimentares caracterizam uma estratégia complementar.</p><p>Estudos mostram elevado consumo de suplementos e baixo conhecimento em nutrição básica por praticantes de exercícios físicos.</p><p>Nutrição periodizada refere-se às intervenções nutricionais específicas para obter efeitos que melhorem o desempenho no longo prazo.</p><p>O glicogênio desempenha um papel importante na regulação da transcrição gênica no músculo, portanto, o treinamento com baixa disponibilidade de carboidratos pode ser uma ferramenta para otimizar a adaptação ao treinamento.</p><p>Reduzir a ingestão de carboidratos e aumentar a ingestão de gordura resulta em maiores taxas de oxidação de gordura, mas, os estudos mostram que essa prática aumenta a fadiga e reduz a capacidade de exercício.</p><p>Estudos demonstraram que o treinamento em estado de jejum pode ser mais efetivo para aumentar a capacidade oxidativa muscular, aumentar a utilização de gordura intramuscular e melhorar a regulação dos níveis de glicose no sangue. No entanto, os estudos são escassos e inconclusivos em melhorias de desempenho em longo prazo.</p><p>Os carboidratos são importantes para manter a qualidade do treinamento de resistência e reduzir os sintomas de fadiga.</p><p>Treinar o intestino pode ajudar no desenvolvimento de adaptações que melhoram a distribuição de nutrientes e reduzem a prevalência ou a gravidade dos sintomas gastrointestinais durante o exercício.</p><p>Recomenda-se praticar o planejamento nutricional para uma corrida nas semanas que antecedem à corrida.</p><p>Os recursos ergogênicos são substâncias ou artifícios utilizados com o objetivo de melhorar o desempenho esportivo e/ou a recuperação após o exercício.</p><p>Os recursos ergogênicos podem ser classificados em cinco categorias: mecânicos, psicológicos, fisiológicos, farmacológicos e nutricionais.</p><p>Os nutrientes estão envolvidos com os processos geradores de energia por meio de três funções básicas:</p><p>1. fonte energética, como os carboidratos;</p><p>2. regulador de processos, como os micronutrientes;</p><p>3. estimulador do crescimento e desenvolvimento dos tecidos corporais, como os aminoácidos.</p><p>Os suplementos alimentares considerados intensificadores de desempenho bem estabelecidos são: carboidratos, cafeína, creatina monohidratada, beta-alanina e proteínas.</p><p>O Comitê Olímpico Internacional publicou um consenso afirmando que a nutrição, em geral, contribui de forma pequena, porém valiosa no desempenho bem-sucedido de atletas, e os suplementos alimentares podem trazer uma modesta contribuição.</p><p>As respostas aos suplementos são afetadas pela genética, microbioma e dieta habitual.</p><p>Existem trabalhos que mostram um significativo número de suplementos contaminados, ou seja, o uso de suplementos pode não ser seguro para o atleta nem para o profissional responsável pela prescrição.</p><p>O Conselho Federal de Medicina apresenta um passo a passo na prevenção contra a contaminação de suplementos: adquirir o produto em loja física; exigir que a nota fiscal tenha o número do lote do fabricante; exigir que todos os produtos venham do mesmo lote; guardar a nota fiscal e o frasco fechado/lacrado; avisar o setor responsável no caso de resultado analítico adverso.</p><p>Prescrever, quando necessário, apenas suplementos que possuam respaldo científico adequado.</p><p>Fatores como: motivação, humor, alimentação, rotina de treinamento, qualidade do sono, efeitos adversos ao suplemento ou mesmo uma discussão com o cônjuge, podem afetar o desempenho físico em resposta a um suplemento nutricional.</p><p>Atualmente, os suplementos alimentares possuem requisitos específicos de composição descritos na RDC nº 243/2018 e na IN nº</p><p>28/2018. Há, ainda, regras específicas para o uso de aditivos em suplementos, definidas na RDC nº 239/2018.</p><p>O artigo 7º da RDC nº 243/2018 determina que não são permitidas na composição de suplementos alimentares, entre outras, as substâncias consideradas como doping pela Agência Mundial Antidoping.</p><p>A Agência Mundial Antidoping estabelece regras e diretrizes para combater a dopagem em escala global: uso de substâncias ou métodos capazes de aumentar artificialmente o desempenho esportivo; uso de substâncias ou métodos potencialmente prejudiciais à saúde do atleta ou de seus adversários, que não aumentam o desempenho, mas ainda assim são consideradas dopagem; uso de substâncias ou métodos que atentem contra o espírito esportivo do jogo; em outras palavras, contra o jogo limpo (fair play).</p><p>O uso da suplementação com carboidratos por atletas é interessante, no entanto, a quantidade e o tipo de carboidrato utilizado são determinantes para que a função da suplementação seja eficaz, tendo influência direta no esvaziamento gástrico.</p><p>A adição de proteína em uma refeição com carboidrato pós-treino pode melhorar a síntese de glicogênio e a síntese proteica muscular.</p><p>A suplementação com proteínas do soro do leite é vista como importante estratégia para aumentar a resposta de resistência no exercício e para hipertrofia muscular.</p><p>Quando uma dose de proteína é consumida, da forma que alcance altas concentrações de leucina, os efeitos no ganho de massa muscular são independentes da fonte alimentar utilizada.</p><p>A creatina leva à retenção hídrica intracelular, aumenta a geração de força, diminui o tempo de recuperação entre as séries, melhora o rendimento, aumenta o estímulo do exercício, amplia a magnitude de adaptação muscular, favorecendo a hipertrofia e o aumento de força.</p><p>A cafeína reduz a sonolência, a percepção da dor e a fadiga e estimula a lipólise e a termogênese e pode ser utilizada no pré-treino com dosagens que não ultrapassem as recomendações, ou pode ser considerada doping.</p><p>image6.png</p><p>image7.png</p><p>image8.png</p><p>image9.png</p><p>image10.png</p><p>image11.png</p><p>image12.png</p><p>image13.png</p><p>image14.png</p><p>image15.png</p><p>image16.png</p><p>image17.png</p><p>image18.png</p><p>image19.png</p><p>image20.png</p><p>image21.png</p><p>image22.png</p><p>image23.png</p><p>image24.png</p><p>image25.png</p><p>image26.png</p><p>image27.png</p><p>image28.png</p><p>image29.png</p><p>image30.png</p><p>image31.png</p><p>image32.png</p><p>image1.png</p><p>image2.png</p><p>image3.png</p><p>image4.png</p><p>image5.png</p><p>enfatizam a presença de ácidos graxos insaturados em detrimento dos saturados e trans (gordura vegetal hidrogenada), ou seja, a qualidade dos lipídios na dieta representa um componente importante para a redução do risco cardiovascular (AHA, 2000).</p><p>Os lipídios são classificados pelas suas composições químicas e propriedades físicas, conforme apresentado na Tabela 2.</p><p>TABELA 2 – CLASSIFICAÇÃO DOS LIPÍDIOS</p><p>Classe</p><p>Exemplo</p><p>Simples</p><p>Ácidos graxos</p><p>Mono, di e triglicerídeos</p><p>Ceras</p><p>Compostos</p><p>Fosfolipídios</p><p>Glicolipídios</p><p>Lipoproteínas</p><p>Derivados</p><p>Álcoois</p><p>Visto que os lipídios são insolúveis em meio aquoso, seu transporte pela corrente sanguínea se dá por partículas denominadas lipoproteínas. As prostaglandinas e os tromboxanos derivados do metabolismo lipídico desempenham importantes funções hormonais (SANTOS, 2008).</p><p>Os lipídios são quase completamente absorvidos, participando desse processo: a bile, a lipase gástrica e a lipase pancreática. Inicialmente, a digestão dos lipídios começa na boca, pela ação da lipase lingual, dando continuidade no estômago pela ação da lipase gástrica. A presença de gordura no intestino delgado promove a liberação de hormônios que retardam o esvaziamento gástrico. A lipase pancreática é responsável pela maior parte da hidrólise do triacilglicerol (SANTOS, 2008).</p><p>O triacilglicerol é formado a partir de três ácidos graxos ligados a uma molécula de glicerol e constitui uma das formas de armazenamento energético mais importante no organismo, depositado no tecido adiposo e muscular. O triacilglicerol da dieta (exógeno) é hidrolisado pela ação das lipases pancreáticas e sais biliares para formar glicerol e ácidos graxos livres que, posteriormente, serão reesterificados a triacilglicerol. Após a reesterificação, o triacilglicerol é associado a outros lipídios e apolipoproteínas para formar quilomícrons (MOTTA, 2003).</p><p>Os quilomícrons são moléculas grandes, transportadas pelo sangue para todos os tecidos e são a principal forma de transporte do triacilglicerol exógeno para os tecidos. Após uma refeição, os quilomícrons são formados na mucosa intestinal, sofrem modificações e interagem com a lipase lipoproteica, resultando na hidrólise do triacilglicerol. Com a redução do tamanho das partículas, os quilomícrons remanescentes, pobres em triacilglicerol, são captados pelo fígado e catabolizados (MOTTA, 2003).</p><p>O triacilglicerol é continuamente sintetizado no fígado e excretado na forma de VLDL (endógena). Em menor extensão, a mucosa intestinal também secreta VLDL (exógena). As partículas residuais são conhecidas como “VLDL remanescentes” (ou IDL), que são rapidamente convertidas em LDL ou removidas da circulação pelo fígado (MOTTA, 2003).</p><p>A LDL é considerada uma partícula aterogênica, pois constitui mais de 60% do colesterol total plasmático. No entanto, a fração HDL exerce um papel importante no transporte reverso do colesterol dos tecidos para o fígado, conferindo a esta partícula uma ação cardioprotetora, porque ela atua na captação do colesterol dos tecidos, sendo catabolizado no fígado, incorporado à bile e depois eliminado (MOTTA, 2003).</p><p>FIGURA 3 – REPRESENTAÇÃO DA DIGESTÃO E ABSORÇÃO DE LIPÍDIOS</p><p>A capacidade de armazenamento do excedente de lipídios parece ser ilimitada, visto que os adipócitos são capazes não somente de aumentar de tamanho (hipertrofia), como também de criar células novas (hiperplasia) (QUEIROZ et al., 2009). A reserva de energia obtida por meio dos lipídios (triacilglicerol) será discutida na seção “Vias de produção de energia”.</p><p>2.4 PROTEÍNAS</p><p>Assim como os carboidratos e os lipídios, as proteínas também são macronutrientes e contêm carbono, hidrogênio e oxigênio. No entanto, é o único que possui nitrogênio em sua composição. As proteínas são formadas por combinações de aminoácidos e exercem função estrutural, reguladora, de defesa e transporte (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>O metabolismo do nitrogênio será discutido na seção “Vias de produção de energia”.</p><p>Alguns aminoácidos são considerados essenciais e devem ser fornecidos pela dieta. Outros são capazes de ser sintetizados pelo organismo. Os aminoácidos livres estão em equilíbrio na célula e nos fluidos biológicos decorrentes do anabolismo e catabolismo, o chamado turnover proteico (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>As proteínas são polímeros de aminoácidos unidos por ligações peptídicas. No organismo, os aminoácidos seguem três destinos: anabolismo (síntese), catabolismo (degradação) e produção de energia. Por essas vias, os aminoácidos auxiliam na construção e manutenção dos tecidos, formação de enzimas, hormônios, anticorpos e na regulação de processos metabólicos (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008). As proteínas podem ser classificadas pelas suas funções biológicas, conforme apresentado na Tabela 3 a seguir.</p><p>TABELA 3 – CLASSIFICAÇÃO DAS PROTEÍNAS</p><p>Os aminoácidos participam da síntese proteica do metabolismo energético e apresentam outras funções específicas, como precursores de vitaminas e neurotransmissores. Os aminoácidos podem ser classificados em essenciais, condicionalmente essenciais e não essenciais, de acordo com sua síntese ou obtenção pela dieta, conforme apresentado na Tabela 4 a seguir.</p><p>TABELA 4 – CLASSIFICAÇÃO DOS AMINOÁCIDOS</p><p>A relação entre os aminoácidos de cadeia ramificada e a regulação da síntese proteica muscular será discutida na seção “Vias de produção de energia”.</p><p>Diferentemente dos carboidratos e lipídios, no qual a digestão inicia-se na boca, a digestão das proteínas inicia-se no estômago por um processo de desnaturação, permitindo que as proteínas se tornem mais vulneráveis à ação da pepsina. Todo esse processo estimula a liberação de colecistocinina (CCK) do duodeno. A CCK estimula a liberação de enzimas digestivas, tanto pelo pâncreas quanto pelas células da mucosa intestinal (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>O colágeno é um importante constituinte do tecido conjuntivo intercelular das carnes. Para que as enzimas digestivas penetrem nas carnes e possam digeri-las, é necessário que as fibras do colágeno sejam inicialmente digeridas. Isso é uma característica importante da pepsina, que é capaz de exercer esta função (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>Quando o conteúdo gástrico se mistura com o suco pancreático encerra-se a atividade da pepsina. A presença do quimo no intestino estimula a liberação de secretina e CCK, que acarretam na secreção de bicarbonato e enzimas pancreáticas. O suco pancreático contém enzimas digestivas que são secretadas dentro do duodeno como precursores inativos. Estes são ativados por enzimas que estão presentes na membrana dos enterócitos. Os produtos finais da digestão de proteínas são aminoácidos livres e pequenos peptídeos que, posteriormente, serão hidrolisados (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>Dependendo do tipo e quantidade de aminoácido presente em cada proteína, elas podem ser absorvidas pelo nosso organismo em maior ou menor quantidade, ou seja, a proporção de aminoácidos determina a qualidade da proteína daquele alimento. As proteínas com todos os aminoácidos em quantidades adequadas são chamadas de alto valor biológico e podem ser encontradas em alimentos como: ovo, carnes (bovina, suína, peixes e aves), leite e derivados e soja (única fonte vegetal de alto valor biológico). Na ausência ou redução de um ou mais aminoácidos considerados essenciais (o corpo não produz e é necessário obter pela alimentação), a proteína é considerada de baixo valor biológico e suas fontes alimentares são: feijão, lentilha, grão de bico, ervilha, entre outros vegetais (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>Apesar das proteínas de origem vegetal serem limitantes, existem alimentos que se complementam entre si. Nesse sentido, a mistura de cereais (arroz, trigo, milho) e leguminosas (feijão, lentilha, ervilha) na mesma refeição e em proporções adequadas, apresentam valor nutricional similar às proteínas de origem animal, do ponto de vista de aminoácidos. Por exemplo, enquanto o arroz é pobre no aminoácido lisina, mas</p><p>rico nos aminoácidos metionina e cistina, o feijão apresenta situação inversa, ou seja, eles se completam (TIRAPEGUI; ROGERO; LAJOLO, 2008).</p><p>As necessidades nutricionais nas diversas modalidades esportivas serão discutidas no próximo capítulo.</p><p>Atividades De Estudo:</p><p>1 Os nutrientes são substâncias encontradas nos alimentos que são absorvidas e metabolizadas no organismo. Eles são fonte de energia e matéria-prima para o funcionamento das células. Sobre os processos de digestão, absorção e metabolismo de nutrientes, assinale a alternativa CORRETA:</p><p>a) ( ) Durante o processo de mastigação, a amilase salivar secretada pelas glândulas parótidas atua no estômago para iniciar a quebra dos lipídios.</p><p>b) ( ) Visto que os lipídios são insolúveis em meio aquoso, seu transporte pela corrente sanguínea se dá por partículas denominadas lipases.</p><p>c) ( ) Inicialmente, a digestão das proteínas começa na boca pela ação da pepsina, dando continuidade no estômago.</p><p>d) ( ) O pepsinogênio é responsável pela maior parte da hidrólise e emulsificação das proteínas.</p><p>e) ( ) Uma vez que só os monossacarídeos podem ser absorvidos, todos os polímeros de carboidratos precisam ser hidrolisados durante a digestão.</p><p>3 Controle neural e hormonal do comportamento alimentar</p><p>Os fatores neuronais, endócrinos e intestinais atuam e interagem na regulação da ingestão de alimentos e de armazenamento de energia. Na maioria dos humanos, o peso corporal pode ser mantido em uma condição estável. Isso significa que podemos ter o mesmo peso corporal durante muitos anos, chama-se peso usual ou habitual. No entanto, para ter um peso constante, é necessário que haja equilíbrio de energia, ou seja, entre o consumo e o gasto energético.</p><p>Seu cérebro está sempre ligado. Ele cuida dos seus pensamentos e movimentos, da sua respiração e dos seus batimentos cardíacos. Ele trabalha duro, mesmo enquanto você está dormindo. Isso significa que o seu cérebro requer um fornecimento constante de energia. Energia essa proveniente dos alimentos, e a qualidade dessa energia faz toda a diferença para o seu bom funcionamento (SARRIS et al., 2015).</p><p>Você já parou para pensar que sistemas neuroquímicos e neuroendócrinos podem interferir na ingestão e no metabolismo de nutrientes? Isso acontece por meio de um complexo circuito de neurotransmissores e neuromoduladores, que, de forma integrada, interferem nas sensações de fome, saciedade, esvaziamento e plenitude gástrica, ou seja, a partir da interação com os neurônios, sinalizadores de adiposidade informam ao cérebro a quantidade de energia corporal armazenada como excessiva (HALLSCHMID et al., 2008).</p><p>Como isso é possível? Primeiramente, o cérebro é informado sobre a quantidade de alimentos ingeridos e sobre o seu conteúdo em nutrientes. Por meio de sinais, quimiorreceptores e mecanorreceptores presentes no trato gastrointestinal, monitoram a atividade fisiológica e passam informações ao cérebro. Essas informações constituem uma classe de “sinais de saciedade” e formam parte do controle do apetite pré-absortivo. A fase pós-absortiva inicia-se quando os nutrientes sofrem digestão e podem ser metabolizados nos tecidos ou órgãos periféricos, ou podem entrar diretamente via circulação, enviando sinais metabólicos da saciedade (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>Você sabia que os fatores neuroendócrinos participam da manutenção do balanço energético do nosso organismo, evitando a perda ou o ganho de peso? Eles são capazes de aumentar a termogênese e estimular a saciedade em momentos de muita oferta energética, bem como estimular a fome em momentos de privação. Entre esses mediadores, os mais importantes são a leptina, a grelina e a insulina (SIMPSON; MARTIN; BLOOM, 2009).</p><p>A leptina e a insulina são hormônios secretados em proporção à massa adiposa e atuam estimulando o catabolismo (SIMPSON; MARTIN; BLOOM, 2009; KHOK; JAKOBSDOTTIR; DRENT, 2007). No sistema nervoso central, a insulina e a leptina interagem com receptores hipotalâmicos, favorecendo a saciedade. Os peptídeos intestinais, combinados a outros sinais, podem estimular (grelina e orexina) ou inibir (colecistocinina, leptina e oximodulina) a ingestão alimentar. Todos atuam nos centros hipotalâmicos, que são os grandes responsáveis pelo comportamento alimentar (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>A leptina é uma proteína secretada pelos adipócitos. Ela é considerada uma molécula-chave na regulação do peso corpóreo e no balanço de energia, visto sua capacidade de regular o apetite e o gasto energético. As concentrações de leptina são influenciadas pela adiposidade, fatores hormonais e nutricionais (KLOK; JAKOBSDOTTIR; DRENT, 2007).</p><p>A grelina é responsável por estimular o apetite. Ela é produzida no estômago e no intestino e sinaliza, no cérebro, a vontade de comer. Ela atua na regulação da ingestão alimentar, no peso corporal, na síntese do hormônio de crescimento e na secreção de gastrina e insulina (KLOK; JAKOBSDOTTIR; DRENT, 2007).</p><p>A insulina exerce ações metabólicas, neurotróficas, neuromodulatórias e neuroendócrinas no cérebro e participa da regulação da ingestão de alimento e peso corporal (PLIQUETT et al., 2006).</p><p>FIGURA 4 – HOMEOSTASE DO PESO CORPORAL</p><p>Entre os principais hormônios liberados com a presença do alimento na luz gastrointestinal estão a colecistocinina (CCK), secretina, gastrina, peptídeo YY (PYY) e peptídeo semelhante ao glucagon 1 (GLP-1). A presença de alimentos na luz intestinal favorece o aumento de CCK, gastrina e secretina, estimulando com isso a secreção gástrica e a secreção pancreática exócrina. O esvaziamento gástrico, a motilidade gastrointestinal e as funções biliares são promovidas pelo CCK e PYY, enquanto o estímulo da secreção do suco gástrico, o impedimento do refluxo e o aumento do esvaziamento gástrico são promovidos pela gastrina (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>O mecanismo de controle da fome pelo GLP-1 ainda não está totalmente elucidado, mas acredita-se que envolva uma via vagal e mecanismos centrais diretos, uma vez que a ativação hipotalâmica do receptor de GLP-1 diminui a ingestão alimentar. Perifericamente, o GLP-1 aumenta o tempo de esvaziamento gástrico, contribuindo para a saciedade (CUMMINGS; OVERDUIN, 2007; KINZIG; D’ALESSIO; SEELEY, 2002).</p><p>A Tabela 5 apresenta alguns dos hormônios com os estímulos para sua secreção, principais efeitos e ação.</p><p>TABELA 5 – HORMÔNIOS GASTROINTESTINAIS</p><p>Hormônio</p><p>Estímulo</p><p>Efeito</p><p>Ação</p><p>Gastrina</p><p>Aminoácidos</p><p>Distensão</p><p>pH > 3</p><p>Aumenta a produção de HCL, de enzimas digestivas e bile.</p><p>Melhora a digestibilidade.</p><p>Secretina</p><p>Quimo ácido</p><p>Aumenta a secreção de bicarbonato, reduz pH e motilidade.</p><p>Retarda o esvaziamento gástrico.</p><p>CCK</p><p>Aminoácidos</p><p>Gorduras</p><p>Aumenta a secreção enzimática.</p><p>Estimula a produção da bile, a contração da vesícula e a secreção pancreática; retarda o esvaziamento gástrico.</p><p>GLP-1</p><p>Glicose</p><p>Estimula a secreção de insulina.</p><p>Efeito nas células beta pancreáticas, retarda o esvaziamento gástrico.</p><p>O hipotálamo recebe respostas do córtex e do cérebro, sendo considerado o “porteiro” da sinalização do apetite. O hipotálamo apresenta dois grandes grupos de neuropeptídeos (orexígenos e anorexígenos) envolvidos na regulação da ingestão alimentar. O controle hipotalâmico do apetite é um mecanismo complexo e está ligado a sistemas e sinais que atuam via circuitos de recompensa (HEISLER et al., 2007).</p><p>Cada parte do hipotálamo exerce uma influência. O hipotálamo lateral está envolvido nos sistemas catecolaminérgico e serotoninérgico e participa do controle circadiano da alimentação. O hipotálamo basomedial está relacionado com o aumento na ingestão de alimentos. Associado ao hipotálamo, o neuropeptídeo Y (NPY) é um importante regulador do peso corporal e da ingestão alimentar, com ação em diferentes receptores. Os neurônios do núcleo arqueado do hipotálamo expressam neurotransmissores anabólicos (orexígenos, responsáveis pela sensação de fome) e catabólicos (anorexígenos, responsáveis pela saciedade). A ingestão alimentar é modulada também pelas estruturas límbico-corticais</p><p>do cérebro, como a amígdala e o córtex pré-frontal, que estabelecem mecanismos de feedback com o hipotálamo lateral e estão relacionados à atribuição de valor hedônico ao alimento, como sabor, aparência, textura etc. (HEISLER et al., 2007; WARD et al., 2008; WADE et al., 2008; SIMPSON; MARTIN; BLOOM, 2009).</p><p>O hipocampo também participa do controle da alimentação, possui funções na motivação para consumo de alimentos e no controle do comportamento alimentar. Além disso, o eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (HPA) participa no controle da ingestão energética e na preferência pela gordura (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>O balanço na ingestão de carboidratos parece envolver a ação do ácido gama-aminobutírico (GABA), da noradrenalina e do NPY, em associação com corticosterona e glicose circulantes no sangue (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>A serotonina também apresenta controle sobre a fome e a saciedade. Ela age por meio de seu receptor, inibindo e deprimindo o efeito de alguns neurônios. Estes mecanismos associados produzem saciedade e estímulo à termogênese. O consumo de uma refeição altamente proteica aumenta o nível sanguíneo de muitos aminoácidos, contribuindo com mais aminoácidos neutros competindo com o triptofano, resultando em reduzida entrada de triptofano no cérebro e reduzida síntese de serotonina. Estudos sugerem que a serotonina esteja também envolvida no controle da ingestão de alimento, com altos níveis de serotonina diminuindo a ingestão energética total, ou seletivamente diminuindo a seleção de carboidratos com relação à proteína (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>A histamina é um dos neurotransmissores que suprimem o apetite, sendo que a interação de neurônios histaminérgicos com outros neurônios em centros de saciedade ainda não está clara. A histamina inibe a liberação de noradrenalina no hipotálamo e suprime a ingestão alimentar, apresentando ação anorética (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>Existem dois sistemas neuronais que estão associados à ingestão alimentar excessiva e, consequentemente, ao excesso de peso: o sistema canabinoide e o sistema serotoninérgico (WARD et al., 2008).</p><p>Diversos autores têm adotado uma perspectiva evolucionista para explicar a ineficácia dos sistemas regulatórios do organismo em controlar o excesso de peso e o aumento do consumo de alimentos na sociedade moderna abundantes na literatura (BERTHOUD, 2007; ROLLS, 2007a; GRABENHORST; ROLLS; BILDERBECK, 2008; WARDLE, 2007; MIETUS-SNYDER; LUSTIG, 2008).</p><p>Considera-se que, durante a evolução da espécie humana, o sistema nervoso desenvolveu mecanismos dedicados à procura de alimento e à defesa contra a inanição. O cérebro se especializou em escolher os alimentos mais em função de seus aspectos sensoriais, como cor, formato, sabor e textura, do que de sua equivalência metabólica em termos de proteína, carboidrato ou gordura (ROLLS, 2007b).</p><p>Sob condições usuais, o alimento é ingerido após a percepção da fome e a ingestão termina quando a sensação de saciedade é alcançada. Sistemas distintos são responsáveis pelo início e término do consumo de alimento; cada um é regulado por sinais de respostas oriundos do sistema central e periférico, incluindo trato gastrointestinal, fígado, cérebro e sistemas sensoriais periféricos (LANDEIRO; QUARANTINI, 2011).</p><p>Mietus-Snyder e Lustig (2008) apresentaram um modelo teórico que integra os diferentes fatores cerebrais envolvidos na alimentação: fome, recompensa e estresse. Para os autores, os centros de controle que regulam o apetite e o gasto de energia situam-se entre hipotálamo, área tegmental ventral e amígdala. Cada uma destas áreas percebe uma sensação distinta, mas complementar que leva ao comportamento alimentar. Projeções descendentes dos neurônios hipotalâmicos podem modular a ingestão de alimento modificando a capacidade de controle da fome. Sob ação crônica de insulina podem inibir a sinalização da leptina que, por sua vez, provoca diminuição da atividade simpática e aumento da atividade vagal, reduzindo o gasto de energia e promovendo seu armazenamento.</p><p>Além disso, a ação crônica da insulina na área tegmental ventral desregula as vias hedônicas da recompensa que, por seu turno, aumentam o comportamento de busca do alimento, e isto resulta na ingestão excessiva de energia. Finalmente, a ativação crônica da amígdala, sob condições de estresse, depressão ou ansiedade, aumenta a secreção de cortisol, que leva ao acúmulo de gordura visceral e aumento na sinalização da leptina, perpetuando o ciclo vicioso de ganho de peso.</p><p>Leia o texto “Como o sistema nervoso controla o comportamento alimentar” - entrevista da Agência FAPESP com o pesquisador brasileiro Ivan de Araújo, professor associado da Yale School of Medicine. Disponível em: <http://agencia.fapesp.br>.</p><p>O processo de digestão e absorção de nutrientes está coordenado por uma complexa interação neuroendócrina. Estímulos sensoriais, emocionais, entre outros influenciam os diferentes sistemas, afetando as sensações provocadas pelo alimento e interferindo nas funções e secreções fisiológicas.</p><p>A microbiota tem alguma influência no controle neural e hormonal do comportamento alimentar? Os microrganismos que vivem no intestino estão em contato com as células do sistema imunológico e epiteliais do intestino. Estas bactérias desempenham um papel essencial na sua saúde: protegem o revestimento do intestino; garantem que eles forneçam uma barreira contra toxinas; limitam a inflamação; melhoram a absorção de nutrientes dos alimentos e ativam caminhos neurais que viajam diretamente entre o intestino e o cérebro (KHANNA; TOSH, 2014).</p><p>Com o avanço do sequenciamento genético humano, tem sido possível estudar a variedade de comunidades de microrganismos presentes no intestino e, com isso, algumas evidências têm mostrado a associação entre a microbiota e gut-brain axis (eixo cérebro-intestino).</p><p>FIGURA 5 – EIXO CÉREBRO-INTESTINO</p><p>Quais seriam os mecanismos através dos quais a microbiota intestinal pode sinalizar para o cérebro? Ativação do nervo vago; produção de antígenos microbianos que recrutam respostas de células B imunes; produção de metabólitos microbianos e sinalização enteroendócrina a partir de células epiteliais do intestino. Por meio dessas vias de comunicação, o eixo microbiota-intestino-cérebro controla processos fisiológicos centrais, como neurotransmissão, neurogênese, neuroinflamação e sinalização neuroendócrina (FOSTER; RINAMAN; CRYAN, 2017).</p><p>A exata composição da microbiota ainda é desconhecida, mas existe consenso de que aproximadamente 90% das bactérias pertencem aos filos Bacteroidetes e Firmicutes, principalmente os gêneros Bacteroides, Prevotella, Lactobacillus, Faecalibacterium e Enterococcus.</p><p>Considerando a ideia de que existem diferenças na colonização intestinal de indivíduos magros e obesos, estudos vêm sugerindo o uso de probióticos para o gerenciamento do peso corporal. Apesar de serem limitados os estudos em humanos, há indícios de que a manipulação da microbiota intestinal pode vir a ser uma abordagem terapêutica contra a obesidade e outras doenças metabólicas (NUNES et al., 2017; PAREKH; BALART; JOHNSON, 2015).</p><p>Probióticos são microrganismos vivos que, quando administrados em quantidades adequadas, podem conferir benefícios à saúde de seu hospedeiro (NOVA et al., 2016).</p><p>Conheça mais sobre os microrganismos em: COLLEN, A. 10% humano. Rio de Janeiro: Sextante, 2016.</p><p>4 VIAS DE PRODUÇÃO DE ENERGIA</p><p>O metabolismo é a soma de todas as transformações químicas. São inúmeras reações catalisadas por enzimas: obtenção, armazenamento, utilização de energia e transformação de precursores por meio de uma rede de reações químicas. As funções englobam o processo de obtenção e utilização de energia, síntese de moléculas estruturais e funcionais, crescimento e desenvolvimento celular e remoção de produtos de excreção. O metabolismo consiste em duas fases: vias catabólicas (degradação) e anabólicas (biossíntese). As vias anabólicas são processos endergônicos e redutivos que necessitam de fornecimento de energia. Enquanto as vias</p><p>catabólicas são processos exergônicos e oxidativos que liberam energia (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Os alimentos são constituídos de nutrientes que fornecem energia - carboidratos, proteínas e gorduras - denominados macronutrientes. Quando oxidados, perdem/doam prótons (H+) e elétrons (e-) e seus átomos de carbono (C) são convertidos a CO2. As coenzimas oxidadas capturam os prótons e elétrons, tornando-se coenzimas reduzidas. Para que se tornem novamente oxidadas, as coenzimas doam os prótons e elétrons para o O2 que é convertido a H2O. A energia gerada neste processo é utilizada para sintetizar um composto rico em energia - adenosina trifosfato (ATP), ou seja, a energia derivada dos alimentos deve ser convertida em ATP para que possa ser utilizada pelas células em processos químicos (biossíntese), mecânicos (contração muscular) e elétricos (estímulo nervoso). Resumidamente, o ATP funciona como uma forma da transformação de energia, não pode ser estocado e seu uso é imediato (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>FIGURA 6 – ESQUEMA SIMPLIFICADO DA PRODUÇÃO DE ATP</p><p>Coenzima é uma molécula unida a uma proteína, que tem uma função enzimática catalítica (transporte de elétrons).</p><p>A capacidade dos organismos em regular os processos metabólicos é chamada de homeostase. A Figura 7 mostra, de maneira resumida, as vias metabólicas que serão apresentadas a seguir.</p><p>FIGURA 7 – VIAS METABÓLICAS</p><p>4.1 GLICÓLISE</p><p>A glicose é capaz de gerar ATP na ausência de oxigênio (anaeróbio) - processo muito importante na liberação rápida de energia - e esse estágio é conhecido como glicólise. A glicólise ocorre no citoplasma. Nessa reação, o ATP age como um doador de fosfato para fosforilar a glicose. Com a quebra da glicose e a formação do ácido pirúvico, o piruvato torna-se disponível para ser utilizado no processo de respiração celular (mitocôndria) ou fermentação láctica. A fermentação láctica ocorre nas células musculares, quando sujeitas à solicitação (devido a um déficit de fornecimento de oxigênio, o músculo passa a funcionar em anaerobiose, reoxidando o NADH através da redução do ácido pirúvico em ácido láctico) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Na ausência de oxigênio, o piruvato formado na glicólise não consegue entrar na mitocôndria para iniciar o ciclo de Krebs, ou seja, ele permanece no citoplasma sendo convertido em lactato. Como? Adquirindo hidrogênio fornecido pela coenzima NADH (reduzida). Dessa forma, a coenzima volta a ser NAD+ (oxidada) e pode ser reutilizada pela glicólise (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>A vitamina B3 é precursora da coenzima nicotinamida adenina dinucleotídeo (NAD) e a vitamina B2 é precursora da coenzima flavina adenina dinucleotídeo (FAD). Ambas participam de inúmeras etapas do metabolismo energético. A função dessas coenzimas é levar elétrons ricos em energia para a cadeia respiratória, que produzirá ATP utilizando a energia desses elétrons.</p><p>4.2 CICLO DE KREBS</p><p>Também conhecido como ciclo do ácido cítrico, o ciclo de Krebs é a etapa de oxidação completa da glicose porque todos os hidrogênios e elétrons serão retirados, restando apenas CO2 e H2O (moléculas inorgânicas), ou seja, grande parte do que você ingere sob a forma de carboidratos é oxidado/quebrado até virar CO2, que cai na corrente sanguínea, chega no pulmão e é eliminado (expiração) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O ciclo de Krebs oxida compostos orgânicos e as coenzimas NAD+ e FAD capturam e levam esses elétrons para a cadeia respiratória. Com a energia desses elétrons, a cadeia respiratória produz ATP. Diretamente, o ciclo de Krebs produz pouco ATP (1 para cada piruvato). Como a glicólise produz 2 piruvatos, o ciclo vai gerar 2 ATPs, mas ele também produz NADH e FADH2 que, na cadeia respiratória, vão gerar um total de 28 ATPs. Então, levando em conta a produção indireta de ATP, visto que o NADH e o FADH2 foram gerados no ciclo de Krebs, ele produz cerca de 95% da energia que uma célula humana precisa. A primeira etapa (conversão do piruvato em acetil-CoA) ainda não é considerada o ciclo de Krebs, mas as etapas seguintes, como a união do acetil-CoA com o oxalacetato, iniciam o ciclo (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.3 CADEIA TRANSPORTADORA DE ELÉTRONS</p><p>A cadeia respiratória acontece na membrana interna da mitocôndria, mais precisamente nas cristas mitocondriais. As coenzimas NADH e FADH2 dirigem-se à cadeia respiratória e liberam o par de elétrons que é recebido pelo complexo I ou II, respectivamente. Para cada NADH serão produzidos 2,5 ATPs e para cada FADH2 será produzido 1,5 ATPs. O complexo I utiliza a energia do par de elétrons para bombear 4 H+ que estavam dentro da mitocôndria. Esses elétrons são atraídos por uma molécula de O2. A partir dessa atração, os elétrons migram até chegar ao O2 e formar H2O (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Do lado de fora da membrana interna da mitocôndria é positivo e do lado de dentro é negativo. Então, para que o fosfato inorgânico (Pi) possa entrar na mitocôndria para gerar ATP, por ter carga negativa, ele precisa de alguma molécula com carga positiva para ajudá-lo. No caso, esta molécula é o hidrogênio. O hidrogênio, por ter carga positiva, é atraído pelas cargas negativas e ao entrar “puxa” o Pi para dentro da mitocôndria. Outros 3 H+ também atraídos pela carga negativa, entram na mitocôndria passando pela ATP sintase. Nesse momento, a enzima gira. Nesse movimento ela une um Pi a um ADP, formando ATP. Esta etapa também é chamada de fosforilação oxidativa e refere-se à fosforilação do ADP em ATP, utilizando para isso a energia liberada na cadeia transportadora de elétrons (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.4 VIA DAS PENTOSES</p><p>Via alternativa/desvio à glicólise, que leva à produção de ribose-5-fosfato e NADPH. A ribose-5-fosfato é constituinte dos nucleotídeos que compõem os ácidos nucleicos (DNA, RNA) e constituinte de várias coenzimas. O NADPH atua como coenzima doadora de hidrogênio em reações de proteção contra compostos oxidantes e infecções bacterianas e sínteses de ácidos graxos, colesterol e hormônios esteroides. Ocorre no citoplasma de tecidos com biossíntese de lipídios (fígado, tecido adiposo, glândulas mamárias, ovários, testículos, glândulas adrenais), eritrócitos, córnea, cristalino e células de proliferação (pele, medula óssea, mucosa intestinal) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Estas células desempenham funções diferentes e precisam da ativação desta via para que isto aconteça. Por exemplo, as células de proliferação necessitam de pentoses para sintetizar DNA, RNA e coenzimas. Enquanto os tecidos com biossíntese de lipídios, os eritrócitos, a córnea e o cristalino necessitam de NADPH para as reduções biossintéticas ou para defesa contra radicais livres (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Qual a relação entre NADPH e radicais livres? A glutationa é um antioxidante fundamental para a proteção dos fosfolipídios da membrana das hemácias, frente a danos oxidativos. No entanto, para que a glutationa esteja em sua forma ativa garantindo a integridade dessas células, ela depende da ação da coenzima NADPH (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.5 GLICOGÊNESE</p><p>O glicogênio é o resultado da união de moléculas de glicose ligadas umas às outras (união de monômeros). A glicogênese é o processo de síntese de glicogênio, ou seja, acrescenta unidades de glicose às extremidades da molécula. A molécula de glicogênio é ramificada. A enzima ramificadora desloca moléculas de glicose para uma região mais interna do glicogênio (criando uma ramificação). A glicogênio sintase une mais glicoses pela ligação alfa-1,4 em todas as ramificações. Isso acontece constantemente, criando novas ramificações. Qual é a vantagem de o glicogênio ser ramificado? Ele se torna mais solúvel em água e torna a degradação do glicogênio mais rápida. Por quê? Esse processo ocorre a partir de sua extremidade e essas ramificações deixam mais extremidades livres (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O glicogênio pode ser armazenado no fígado e no músculo e serve como fonte de energia para inúmeros tecidos. O glicogênio hepático tem a função de manter a homeostase glicêmica e é suficiente para abastecer o corpo</p><p>por aproximadamente 8 horas (jejum) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.6 GLICOGENÓLISE</p><p>Consiste na remoção (liberação) sucessiva de moléculas de glicose, a partir das extremidades, por ação da enzima glicogênio fosforilase. A glicogenólise é o processo de degradação de glicogênio (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>No músculo, a glicose permanece com o grupamento fosfato justamente para “prender” a molécula dentro da célula, para que a glicose seja “liberada” apenas quando solicitado (contração muscular). No fígado, a glicose 6-fosfato é degradada em glicose para que a molécula seja exportada para a corrente sanguínea para manter os níveis de glicemia durante os períodos de jejum prolongado (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Qual a diferença entre a glicogenólise que acontece no fígado e a que acontece no músculo? No músculo, a epinefrina desencadeia “luta-ou-fuga”, com a quebra de glicogênio e fornecimento de energia rápida. No fígado, o glucagon ativa a quebra de glicogênio para a disponibilização de glicose no sangue (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Qual o efeito da insulina e do glucagon no metabolismo do glicogênio? A insulina é consequente de elevadas taxas de glicose. Assim, a insulina sinaliza que é necessário diminuir a glicose, ou seja, utilizar essa glicose (glicólise) ou armazená-la (glicogênese). Consequentemente, a insulina age como um modulador negativo da glicogenólise (quebra de glicogênio) e da gliconeogênese (produção de glicose). O glucagon é consequente de baixas taxas de glicose. Assim, o glucagon sinaliza que é necessário disponibilizar glicose, ou seja, produzir/formar glicose (gliconeogênese) ou quebrar/degradar glicogênio (glicogenólise). Consequentemente, o glucagon age como modulador negativo da glicogênese (produção de glicogênio) e da glicólise (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>FIGURA 8 – METABOLISMO DO GLICOGÊNIO HEPÁTICO</p><p>4.7 GLICONEOGÊNESE</p><p>Síntese de glicose a partir de compostos que não são carboidratos. A gliconeogênese é importante para manter os níveis de glicemia nessas situações (jejum prolongado). A partir de quais compostos isso é possível? Glicerol, lactato e aminoácidos (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Esse processo é como se fosse a glicólise “ao contrário”, ou seja, o glicerol, o lactato e os aminoácidos são convertidos em piruvato no fígado, para que este seja convertido em glicose.</p><p>Existe um momento de cooperação metabólica entre músculo e fígado. No músculo esquelético em alta atividade, a velocidade da glicólise é maior do que a do ciclo de Krebs. Então, uma grande parte do piruvato será convertida a lactato, o qual é captado pelo fígado, tornando-se substrato para a gliconeogênese. Nesta situação, o fígado e o músculo estabelecem uma relação de interdependência. O músculo consome glicose produzindo lactato, o lactato é levado ao fígado e lá é convertido novamente em glicose (glicose-lactato-glicose). Este ciclo de reações é conhecido como ciclo de Cori, conforme ilustrado na Figura 9.</p><p>FIGURA 9 – CICLO DE CORI</p><p>4.8 SÍNTESE DE ÁCIDOS GRAXOS</p><p>Os lipídios são transportados pelas lipoproteínas plasmáticas para utilização ou armazenamento. Os triacilgliceróis constituem a forma de armazenamento mais abundante do organismo. Os triacilgliceróis são, principalmente, armazenados no citoplasma dos adipócitos (células do tecido adiposo), mas podem ser armazenados também nas células musculares (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O glicogênio faz ligação de hidrogênio com água, por isso, seu armazenamento é pesado e limitado. Os lipídios são insolúveis e, por isso, é muito mais “leve” armazená-los.</p><p>A síntese de ácidos graxos tem como substrato o acetil-CoA e produz, inicialmente, o ácido palmítico. Ocorre, principalmente, no fígado. Após a degradação em piruvato, origina-se acetil-CoA. O excesso de produção de acetil-CoA inibe a enzima isocitrato desidrogenase, ou seja, o citrato não consegue dar continuidade ao ciclo de Krebs e é transportado da mitocôndria para o citoplasma, onde é degradado em oxaloacetato e acetil-CoA. O acetil-CoA, por meio de um processo enzimático, com o auxílio da proteína carreadora de acila e da cisteína, leva à formação do ácido palmítico (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O palmitato pode ser convertido em outros ácidos graxos saturados com um número maior de carbonos (mais longos). Esse processo chama-se elongação e é realizado por enzimas elongases no retículo endoplasmático. O processo de conversão do palmitato em ácidos graxos insaturados chama-se dessaturação e é realizado por enzimas dessaturases (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Os ácidos graxos podem ser incorporados em triacilgliceróis para armazenamento de energia, ou em fosfolipídios de membranas, dependendo da necessidade do organismo.</p><p>4.9 SÍNTESE DE TRIACILGLICEROL E SÍNTESE DE COLESTEROL</p><p>Processo de acilação do glicerol 3-fosfato, ou seja, reação que resulta da inserção de um radical acila em uma molécula. Isso envolve três moléculas de ácidos graxos unidos a uma molécula de glicerol (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Um indivíduo adulto sintetiza em torno de 800 mg de colesterol por dia, que corresponde a aproximadamente 70% do colesterol total diário. O restante, aproximadamente 300 mg ou 30%, é fornecido pela dieta. O colesterol é sintetizado, principalmente, pelo fígado e intestino delgado e é transportado na circulação pelas lipoproteínas (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Acetil-CoA é a precursora do colesterol e a coenzima atuante é NADPH. O colesterol, além de ser um componente estrutural de membranas, é precursor de sais biliares, hormônios esteroides e vitamina D. A síntese é complexa e envolve a condensação de moléculas de acetil-CoA entre outras dezenas de reações de fosforilação, descarboxilação, isomerização e redução, até produzir um composto de 30 carbonos, o esqualeno (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O esqualeno sofre oxidação e ciclização, gerando lanosterol. A etapa final da via envolve mais reações, incluindo oxidação, ciclização e redução por NAPDH, em que o lanosterol é finalmente convertido em colesterol. Para produzir uma molécula de colesterol são gastos dezoito ATPs e dezenas de NADPH (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.10 LIPÓLISE E BETA-OXIDAÇÃO</p><p>A lipólise é o processo de degradação dos triacilgliceróis. O glicerol é liberado na circulação como intermediário de glicólise ou gliconeogênese, enquanto os ácidos graxos são transportados para serem utilizados como fonte de energia (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>A beta-oxidação é o processo de utilizar ácidos graxos como fonte de energia. Para ser oxidado, primeiramente ele é convertido em uma forma ativa (acil-CoA). A membrana interna da mitocôndria é impermeável, por isso, os grupos acila precisam estar ligados à carnitina para serem transportados para o interior da mitocôndria. A beta-oxidação é um ciclo, ela começa e termina com a molécula de acil-CoA. Ela pode ser chamada de ciclo de Lynen. O rendimento da beta-oxidação do ácido palmítico é de 106 ATPs (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.11 SÍNTESE DE CORPOS CETÔNICOS</p><p>Em uma oxidação eficiente do acetil-CoA pelo ciclo de Krebs ocorrem níveis compatíveis de oxaloacetato (proveniente do piruvato no metabolismo de carboidratos) para formação do citrato (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Na ausência de carboidratos, devido à baixa concentração de piruvato e, consequentemente, baixa conversão em oxaloacetato, a gliconeogênese será ativada. A partir da gliconeogênese, aminoácidos serão consumidos (catabolismo) para a formação de oxaloacetato. No entanto, a baixa concentração de oxaloacetato reduz a velocidade do ciclo de Krebs e, consequentemente, ocorre um acúmulo de acetil-CoA, que será direcionado para a formação de corpos cetônicos (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Por que a cetogênese é ativada na ausência de glicose? No jejum, o fígado está fazendo gliconeogênese para a produção de glicose, tendo-se então um excedente de acetil-CoA. No fígado, dentro da mitocôndria, o acetil-CoA acumulado sofre ação de enzimas e se juntarão para a formação dos corpos cetônicos. Estes corpos cetônicos saem da mitocôndria e são lançados na corrente sanguínea, migrando para os tecidos</p><p>neural (cérebro) e muscular, que são consumidores dessas substâncias para a produção de energia na ausência de glicose (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O processo envolve a união de duas moléculas de acetil-CoA, formando acetoacetil-CoA. Posteriormente, ocorre a união da acetoacetil-CoA com outra molécula de acetil-CoA, formando HMG-CoA. Em seguida, ocorre a quebra da HMG-CoA, formando o primeiro corpo cetônico (acetoacetato). Os outros corpos cetônicos podem ser formados com a saída do CO2 (acetona) ou com a entrada de H+ (beta-hidroxibutirato) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>4.12 JEJUM E PERDA DE GORDURA</p><p>Nosso organismo pode utilizar carboidrato, proteína e lipídio como fonte de energia, afinal todos eles podem ser convertidos em acetil-CoA.</p><p>A insulina e os hormônios contrarreguladores (glucagon, por exemplo) são responsáveis pelo equilíbrio da glicemia. Níveis baixos de glicemia, como ocorre no jejum, levam à liberação de hormônios contrarreguladores, que atuam aumentando a produção endógena de glicose (gliconeogênese e glicogenólise), promovendo lipólise e proteólise. Neste momento, tanto a glicose quanto a gordura e a proteína vão gerar acetil-CoA, porém, para que este acetil-CoA seja destinado à produção de ATP, ele deve ser condensado com o oxaloacetato para formar citrato no ciclo de Krebs (FREIRE JR. et al., 2019).</p><p>A principal “fonte” de oxaloacetato é o carboidrato, mas se o indivíduo estiver em jejum, a glicose será destinada principalmente para os órgãos vitais, portanto não estará muito disponível para virar oxaloacetato, ou seja, o exercício físico utilizará o estoque de glicogênio muscular. Então, como fica? Se a glicose está escassa, “alguém” vai ter que ser convertido em oxaloacetato e a gordura não origina oxaloacetato. Neste caso, a proteína será destinada para a produção de oxaloacetato (FREIRE JR. et al., 2019).</p><p>Isto significa que tanto a lipólise quanto a proteólise estão intensas, ou seja, ocorre perda de gordura corporal, bem como perda de massa magra.</p><p>4.13 DEGRADAÇÃO DE AMINOÁCIDOS E CICLO DA UREIA</p><p>O conjunto de aminoácidos originados das proteínas degradadas não é igual ao conjunto de aminoácidos para compor as proteínas que serão sintetizadas. Os excedentes não podem ser armazenados, eles são oxidados e seu nitrogênio é excretado. Um adulto saudável elimina diariamente uma quantidade de nitrogênio correspondente a 100 g de proteína e renova aproximadamente 400 g de proteína/dia (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>A degradação de aminoácidos apresenta um padrão: remoção do grupo amino e oxidação da cadeia carbônica. O grupo amino é convertido em ureia e as cadeias carbônicas são convertidas em compostos comuns ao metabolismo dos carboidratos e das gorduras. As enzimas envolvidas são chamadas aminotransferase ou transaminase, e a coenzima participante é a piridoxal-fosfato (derivada da vitamina B6) (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O processo de transaminação é a transferência do grupo amino para o α-cetoglutarato, formando glutamato, e a cadeia carbônica é convertida no α-cetoácido correspondente. A cadeia carbônica pode ser convertida em: piruvato, acetil-CoA ou intermediários do ciclo de Krebs, sendo o destino: oxidação pelo ciclo de Krebs, utilização pela gliconeogênese, produção de glicose e/ou participação no metabolismo lipídico (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>O glutamato segue dois caminhos: nova transaminação ou desaminação. O grupo amino é transferido para oxaloacetato, formando aspartato ou é liberado como amônia (NH3), que é convertida em íon amônio (NH4), precursores da ureia. A ureia é sintetizada a partir de amônia, aspartato e CO2. É produzida no fígado, transportada para o rim e excretada na urina. É o principal produto de excreção, já que não há reserva de proteína. A quantidade excretada por um adulto saudável corresponde a 30 g/dia (MARZZOCO; TORRES, 2017).</p><p>Atividades de Estudo:</p><p>1. Analise o esquema da respiração celular a seguir:</p><p>Com base nas informações contidas no esquema e nos conhecimentos sobre respiração celular, analise as afirmativas a seguir:</p><p>I - A glicose é totalmente degradada durante a etapa A, que ocorre na matriz mitocondrial.</p><p>II - A etapa B ocorre no citoplasma da célula e produz menor quantidade de ATP que a etapa A.</p><p>III - A etapa C ocorre nas cristas mitocondriais e produz maior quantidade de ATP que a etapa B.</p><p>IV - O processo anaeróbico que ocorre no citoplasma corresponde à etapa A.</p><p>É correto o que se afirma em:</p><p>A) I e II.</p><p>B) I e III.</p><p>C) III e IV.</p><p>D) I, II e IV.</p><p>E) II, III e IV.</p><p>ALGUMAS CONSIDERAÇÕES</p><p>Nesse capítulo, você aprendeu que:</p><p>Os alimentos são processados no trato digestório. As enzimas digerem as macromoléculas em partículas menores. Os nutrientes liberados atingem a circulação para serem utilizados pelos órgãos e tecidos. Diversos fatores interferem nesse processo, diminuindo ou estimulando as etapas de digestão, absorção e metabolização dos nutrientes.</p><p>Os carboidratos servem como combustível e reserva de energia e são os nutrientes que predominam nos mais diversificados tipos de dietas. Diferentes alimentos contêm os mais diversos tipos de carboidratos. Por exemplo: raízes e tubérculos contêm amido, enquanto frutas contém frutose, mel sacarose, açúcar glicose e leite lactose. Todos os carboidratos são degradados até se transformarem em glicose. A sua reserva é chamada de glicogênio, ficando estocado no fígado e no músculo para exercer diferentes funções metabólicas.</p><p>Os lipídios são essenciais na alimentação. Sua origem pode ser vegetal ou animal, exercendo inúmeras funções no organismo. A bile facilita a digestão dos lipídios pela emulsificação e os lipídios circulam no sangue com o auxílio das lipoproteínas. Alguns ácidos graxos são essenciais, sendo necessária sua ingestão pelos alimentos. O ômega-3 e o ômega-6 atuam de maneira antagônica e, por isso, é importante manter um equilíbrio na proporção de ingestão desses ácidos graxos. O armazenamento lipídico é chamado de triacilglicerol e pode ser estocado em quantidade ilimitada.</p><p>A proteína fornece aminoácidos para síntese proteica e os aminoácidos essenciais devem ser fornecidos pela alimentação. As proteínas de origem animal apresentam maior biodisponibilidade do que as de origem vegetal. Não existe reserva de proteína no organismo, ou seja, todo excesso é metabolizado.</p><p>Fatores neuronais, endócrinos e intestinais atuam e interagem na regulação da ingestão de alimentos e de armazenamento de energia. Isso acontece por meio de um complexo circuito de neurotransmissores e neuromoduladores que, de forma integrada, interferem nas sensações de fome, saciedade, esvaziamento e plenitude gástrica. Eles são capazes de aumentar a termogênese e estimular a saciedade em momentos de muita oferta energética, bem como estimular a fome em momentos de privação. Entre esses mediadores, os mais importantes são a leptina, a grelina e a insulina.</p><p>Estímulos sensoriais, emocionais, entre outros, influenciam os diferentes sistemas, afetando as sensações provocadas pelo alimento e interferindo nas funções e secreções fisiológicas. Os microrganismos que vivem no intestino estão em contato com as células do sistema imunológico e epiteliais do intestino. Estas bactérias desempenham um papel essencial na sua saúde: protegem o revestimento do intestino; garantem que eles forneçam uma barreira contra toxinas; limitam a inflamação; melhoram a absorção de nutrientes dos alimentos e ativam caminhos neurais que viajam diretamente entre o intestino e o cérebro.</p><p>As vias metabólicas estão integradas em diferentes reações e processos enzimáticos. A glicose é capaz de gerar energia rapidamente, mesmo na ausência de oxigênio e esse estágio é conhecido como glicólise. Na ausência de oxigênio, o piruvato formado na glicólise não consegue entrar na mitocôndria para iniciar o ciclo de Krebs, ou seja, ele permanece no citoplasma sendo convertido em lactato. O ciclo de Krebs é a etapa de oxidação completa da glicose, em que as coenzimas capturam e levam elétrons ricos em energia para a cadeia respiratória.</p><p>O glicogênio é o resultado da união</p><p>de moléculas de glicose ligadas umas às outras e esse processo é chamado de glicogênese. A glicogenólise é o processo inverso, ou seja, a degradação de glicogênio em glicose para que a molécula seja exportada para ser utilizada no processo de contração muscular ou homeostase glicêmica. A gliconeogênese acontece na ausência de carboidratos, quando é necessário sintetizar glicose a partir de outros compostos: glicerol, lactato e aminoácidos.</p><p>A lipólise é o processo de degradação dos triacilgliceróis. O glicerol é liberado na circulação como intermediário de glicólise ou gliconeogênese, enquanto os ácidos graxos são transportados para serem utilizados como fonte de energia pela beta-oxidação.</p><p>Na degradação de aminoácidos ocorre o processo de remoção do grupo amino e a oxidação da cadeia carbônica. O grupo amino é convertido em ureia e as cadeias carbônicas são convertidas em compostos comuns ao metabolismo dos carboidratos e das gorduras.</p><p>UNIDADE II- Avaliação Nutricional, Planejamento Alimentar e Hidratação</p><p>Objetivos de Aprendizagem</p><p>A partir da perspectiva do saber-fazer, são apresentados os seguintes objetivos de aprendizagem:</p><p>· Compreender as etapas do processo de avaliação dietética.</p><p>· Reconhecer o papel da água, eletrólitos e outras substâncias importantes para a hidratação nas diferentes fases do treinamento.</p><p>· Entender a prática do nutricionista no atendimento aos atletas e esportistas.</p><p>· Aplicar os conhecimentos sobre o planejamento dietético de atletas e esportistas visando prevenir, recuperar, aprimorar ou manter a saúde e a performance.</p><p>· Utilizar os conceitos teóricos com vistas à melhor utilização dos nutrientes para uma adequada conduta nutricional para atletas e esportistas.</p><p>1 CONTEXTUALIZAÇÃO</p><p>Devemos sempre ensinar os princípios da alimentação saudável com o objetivo de promover a saúde. Para tal, precisamos conhecer os hábitos alimentares dos indivíduos e os diversos fatores que influenciam sua alimentação. Resta ainda a missão de individualizar as recomendações. É essencial conhecer a atividade esportiva, o objetivo e o dia a dia do indivíduo para aumentar a eficiência do planejamento alimentar.</p><p>Não existe receita de bolo, algo que pode ser prescrito e seguido por todas as pessoas de todas as modalidades esportivas. Para que o objetivo seja alcançado, deve existir comunicação, confiança, respeito, ética, planejamento e dedicação.</p><p>Trabalhar com nutrição e exercício físico pode ser um desafio. Por ser uma área nova, faltam estudos suficientes e a maior parte dos estudos é feita com e para atletas de elite, ou seja, existe uma escassez de dados no que se refere aos não atletas. Isso se torna um problema na medida em que indivíduos que praticam atividade física com menor frequência e intensidade podem acabar seguindo as recomendações dietéticas feitas para atletas.</p><p>Por falta de opção, o próprio profissional acaba utilizando recomendações que não são específicas para o público com o qual trabalha, o que torna a presença de novos estudos ainda mais necessária. O maior desafio é justamente adaptar as recomendações e os protocolos às modalidades específicas e à própria intensidade de treinamento. Por isso, muitas vezes acaba sendo um processo de tentativa e erro. Ainda é um trabalho que requer muita flexibilidade, criatividade e conhecimento técnico.</p><p>Atuar na área requer um conhecimento específico e dirigido. Contudo, parece que mitos e informações errôneas desencorajam os consumidores a dar passos simples em direção a uma alimentação saudável. O medo de ter que largar alimentos favoritos e a necessidade de muito tempo para manter controle da dieta são algumas das justificativas para não melhorar os hábitos alimentares. As pessoas ainda pensam que há inúmeros obstáculos a vencer no caminho em direção a uma alimentação saudável. Isso se dá pelo fato de ainda se sentirem muito confusas com as informações conflitantes sobre nutrição.</p><p>O desafio para os profissionais é preencher a lacuna entre as atitudes e os comportamentos das pessoas. O elemento-chave na promoção de hábitos saudáveis é mostrar que a alimentação saudável pode ser prazerosa e fácil de ser mantida. Isso pode ser alcançado por meio de ideias práticas, positivas e factíveis, para superar os obstáculos na tentativa de melhorar a alimentação.</p><p>2 Atividade aeróbia, anaeróbia e utilização de substratos energéticos</p><p>Os alimentos são constituídos de nutrientes que contêm energia - carboidratos, proteínas e gorduras - denominados macronutrientes. Caloria (Kcal) é a unidade padrão para medida de energia e corresponde à quantidade de energia térmica necessária para aumentar a temperatura de 1 kg/litro de água em 1 oC. O conteúdo energético dos alimentos é a energia total disponível de um alimento, que é medida pela bomba calorimétrica. Uma amostra de alimento é incinerada numa atmosfera de oxigênio por ignição com carga elétrica. O recipiente é imerso em água e a elevação da temperatura é utilizada para calcular a energia térmica gerada. À medida que o alimento queima por descarga elétrica, uma camada de água absorve a energia térmica liberada. O calor liberado pela oxidação do alimento representa o valor energético total do alimento. Este valor representa 4 kcal/g de carboidratos e proteínas e 9 kcal/g de gorduras (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>FIGURA 1 – BOMBA CALORIMÉTRICA</p><p>No entanto, a energia presente nos alimentos não é transferida diretamente para as células, ela precisa ser metabolizada e convertida em energia química (um composto denominado adenosina trifosfato - ATP), ou seja, a energia derivada dos alimentos deve ser convertida em ATP para que possa ser utilizada pelas células em processos químicos (biossíntese), mecânicos (contração muscular), elétricos (estímulo nervoso) etc. Resumidamente, o ATP funciona como uma moeda energética da célula (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Durante a contração muscular é necessária a síntese de ATP. Em nossas células, a creatina é convertida em fosfocreatina (PCr). Esta molécula ajuda na produção de energia doando o seu grupo fosfato ao ADP, regenerando o ATP. Quando quantidades extras de ATP estão disponíveis nas células, grande parte da sua energia é utilizada para sintetizar fosfocreatina, formando um reservatório de energia. Desse modo, quando o ATP passa a ser utilizado na contração muscular, a energia da fosfocreatina é transferida rapidamente (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Situação: dar uma corrida rápida para pegar um ônibus, subir um lance de escada, carregar um objeto pesado por uma distância curta. Tem duração máxima de 10 segundos. Exercícios de curta duração e alta intensidade exigem um fornecimento rápido de energia, que será proporcionado (quase que exclusivamente) pelo sistema ATP-CP. Exemplos: um chute a gol, um lançamento longo, uma cobrança de falta ou lateral no futebol; uma corrida de 100 m, um arremesso de peso, um lançamento de dardo ou disco no atletismo; um golpe de judô; um saque (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>No capítulo sobre suplementos alimentares será abordado o potencial da creatina exógena a fim de aprimorar o desempenho.</p><p>O ATP deve ser ressintetizado em um ritmo rápido para que o exercício possa continuar. A energia para fosforilar o ADP provém principalmente da glicose e/ou do glicogênio armazenado, com subsequente formação do lactato. Essa energia liberada é rápida e sem oxigênio, porém pouco ATP é ressintetizado. A glicólise representa um dos principais fornecedores de ATP durante atividades de alta intensidade e de curta duração, como corridas de até 1.000 metros e provas de 100 a 200 metros na natação. Tem duração máxima de 2 minutos. A glicólise ocorre no citoplasma. Com a quebra da glicose e formação do ácido pirúvico, o piruvato torna-se disponível para ser utilizado no processo de respiração celular (mitocôndria) e/ou fermentação (transformado em lactato) (MCardle; Katch; Katch, 2016).</p><p>Na ausência de oxigênio, o piruvato formado na glicólise não consegue entrar na mitocôndria para iniciar o ciclo de Krebs, ou seja, ele permanece no citoplasma</p>