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1 Educação e tecnologia 2 3 Sumário Definição de tecnologias educacionais Compreendendo o conceito de tecnologia Tecnologias, informação e comunicação: conceitos e aproximações com a educação Afinal, o que são tecnologias educacionais? Ampliando e discutindo perspectivas Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo TDIC, conectividade e ensino-aprendizagem Interatividade e os caminhos possíveis para a autonomia Modelo de ensino a partir das competências digitais Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Nativos e imigrantes digitais Modelo geracional: reflexões necessárias Desafios relacionados às tecnologias educacionais Letramento computacional, informacional e em mídias: ponderações necessárias Alfabetização e letramento digital Fluência digital Referências CLIQUE NO CAPÍTULO PARA SER REDIRECIONADO 5 6 9 12 17 18 21 26 29 30 33 41 42 46 48 53 4 Objetivos Definição Explicando Melhor Você Sabia? Acesse Resumindo Nota Importante Saiba Mais Reflita Atividades Testando Para o início do desenvolvimento de uma nova competência; Se houver necessidade de se apresentar um novo conceito; Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado; Curiosidades indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forma necessárias; Se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast; Quando for preciso se fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens; Quando forem necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento; As observações escritas tiveram que ser priorizadas para você; Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento; Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido sobre; Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada; Quando o desenvolvimento de uma competência for concluído e questões forem explicadas. 5 @faculdadelibano_ 1 Definição de tecnologias educacionais 6 Educação e tecnologia Capitulo 1 Definição de tecnologias educacionais Compreendendo o conceito de tecnologia Iniciaremos fazendo um questionamento para podermos definir o conceito de tecnologia. Vamos lá! Qual imagem mental você associa à tecnologia? Seria um notebook? Seria uma ferramenta de pedra talhada? A partir das questões anteriores é que propomos “desconstruir” o conceito de tecnologia, avançando para além das “máquinas”. Nos exemplos anteriores, temos representadas tecnologias fundamentais à humanidade em determinado tempo. Quando falamos de tecnologia, não nos referimos apenas a computadores, celulares e internet, remetemo-nos, principalmente, às três palavras: evolução, progresso e comodidade. Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de conceituar tecnologia, reconhecer as particularidades das tecnologias quando relacionadas à informação e à comunicação (TIC) e (TDIC) e compreender a relação entre essas tecnologias e a educação, evidenciando o termo “tecnologias educacionais”. Esses conhecimentos são fundamentais para o exercício de sua profissão, afinal, a tecnologia permeia as relações humanas, portanto, é ativa nos processos de ensino-aprendizagem e, aqueles profissionais que não se atualizarem acerca dessa temática terão cada vez mais dificuldade de engajar seus alunos e, com isso, problemas variados na escola ou em outros espaços de aprendizagem serão cada vez mais acentuados. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! 7 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Com a necessidade humana, o homem moldou a pedra para caçar, um grande progresso à sua condição de vida e, consequentemente, um fator de comodidade, afinal, tem-se uma arma afiada para a disputa com os animais, travada com “mãos vazias” ou com instrumentos menos eficientes. Tem-se aqui uma tecnologia rudimentar que representa uma evolução para a humanidade. A situação anterior nos permite avançar e sistematizar o conceito de tecnologia: Na história da humanidade, vários são os exemplos de tecnologias rudimentares desenvolvidas para garantir a sobrevivência. Essas tecnologias rudimentares, a princípio em forma de instrumentos, permitiam a melhor realização das tarefas essenciais do dia a dia. Entretanto, conforme o homem foi evoluindo, passando da condição nômade para sedentário, novas demandas surgiram em decorrência da necessidade de adaptação ao meio. Assim, outras ferramentas foram criadas, essas que operam no campo simbólico, tais como a linguagem e os números. Afinal, há a formação de organizações sociais, tais como povoados e cidades com suas demandas que, com suas etapas de consolidação, contribuíram para o desenvolvimento social e cultural dos povos. O que é fundamental sabermos é que da pedra lascada para a caça, à linguagem, à máquina a vapor, ao computador, à internet, todas essas tecnologias foram decisivas para a evolução da humanidade em determinado período histórico, transformando o homem e sua cultura, influenciando diretamente em seu modo de vida das pessoas. Definição Para Kenski (2002), tecnologia é a totalidade das coisas resultantes da engenhosidade do cérebro humano. Está presente em todas as épocas, em diferentes formas de uso e para diferentes aplicações. 8 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Nesse momento, é possível que, a reflexão que abriu nossa conversa, se feita novamente, já tenha respostas e novas perspectivas, não é mesmo? Afinal, ampliamos o conceito de tecnologia identificando a totalidade daquilo que o homem constrói a partir dos diversos recursos naturais e de sua capacidade intelectual, resultando em ferramentas instrumentais ou simbólicas, que são essenciais para a transposição das barreiras naturais e a vida em sociedade. Ainda, é possível afirmar que: Conhecimentos e princípios científicos que se aplicam ao planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado tipo de atividade, chamamos de “tecnologia”. Para construir qualquer equipamento - uma caneta esferográfica ou um computador -, os homens precisam pesquisar, planejar e criar o produto, o serviço, o processo. Ao conjunto de tudo isso, chamamos de tecnologias. (KENSKI, 2002, p. 24) Portanto, ao assumirmos a tecnologia sob essa perspectiva, é evidente a relação de dependência tecnológica e o quão fundamental ela é no processo social, atuando efetivamente nos processos de mediação das ações. Vygotsky, um dos teóricos de referência da Psicologia Histórico-Cultural e no campo da educação, afirma que a relação sujeito-ambiente não se dava diretamente, era sempre mediada por um elo intermediário que se interpunha entre ele (sujeito) e o mundo, seja um objeto, seja a linguagem. Sendo assim, aproximando das nossas reflexões, para ele sem a tecnologia não haveria a mediação inicial, o que torna fundamental discutir e pensar acerca não só dos processos de mediação, mas também, desses diante das tecnologias que surgem no mundo contemporâneo, com suas especificidades e que operam significativas mudanças no modo de vida em sociedade. Essas são, a princípio, as Tecnologias da informação e comunicação (TIC), que, no contexto histórico da humanidade, relacionam-se com a informação e os processos de comunicação e, em tempos de internet e virtualização, avançam para outras denominações, como Tecnologias digitais da informação e comunicação (TDIC). 9 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Tecnologias, informação e comunicação: conceitos e aproximações com a educação O desafio que temos aqui, ao buscar conceituar TIC e TDIC, não é em apresentarmos a relação de instrumentos, ferramentas ou objetos que podem ser aceitos nessa categoria, afinal, essa lógica é simplista e reduz o próprio objetivo dessede informática. Os estudantes em processo de alfabetização desenvolvem determinado conteúdo em sala e, em um período pré-agendado e esporádico, vão a esse espaço para utilizar os recursos e realizar pesquisas, sistematizar produções, entre outras ações. Para Silva (2012), essas práticas podem até garantir o caráter de alfabetização, porém fracassam no princípio do letramento – tradicional e digital – afinal, descontextualizam as práticas sociais realizadas no ambiente virtual. A formação inicial de professores ainda está distante de enfrentar o computador e a internet como instrumentos de aprendizagem. As porcentagens que indicam a presença de disciplinas sobre tecnologias nos currículos dos cursos analisados, por si só, mostram que esse é um esforço ainda muito pequeno. A análise dessas ementas são ainda mais eloquentes para dizerem que o futuro professor não está sendo capacitado para utilizar, em sua docência, os recursos do computador- internet. Pela nomenclatura das disciplinas e pelo conteúdo que abordam, percebe-se que há preocupação com as tecnologias em si, mas não com o letramento digital do professor em formação (FREITAS, 2010 p.341). Fluência digital Dessas considerações, podemos avançar para a perspectiva da fluência digital. Essa condição de ser fluente diz respeito ao “algo a mais” para se comunicar diante das peculiaridades das TDIC. Hoje nas redes sociais é comum nos depararmos com “memes”, que são imagens com textos ou outros formatos, geralmente com conteúdos engraçados. Para compreender a 49 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 “graça” que esse recurso carrega em si, é preciso ser fluente na linguagem que o compõe, afinal, há um contexto que o significa e faz como que ele seja, portanto, engraçado ao comunicar sua mensagem. Na relação entre alfabetização, letramento e fluência digital, podemos sistematizar seus conceitos e perspectivas conforme a Figura 10: Importante O papel do professor na contemporaneidade é ser o formador de novos docentes, que terão como alunos nativos digitais. Formação que deve ter uma ancoragem consistente na epistemologia do conhecimento, compreendendo-o como algo provisório e transitório, mas que tem regras e rigor. Ou seja, o educador é aquela pessoa que tem que estar sempre aberta ao novo, para investigá-lo e ver o que ele representa para o conhecimento e para a aprendizagem. Para formar futuros professores para o trabalho com nativos digitais, faz- se necessário enfrentar a responsabilidade de uma constante atualização, a defasagem entre o seu letramento digital e o do aluno, e manter o distanciamento possibilitador de um olhar crítico diante do que a tecnologia digital oferece. Assim, espera-se que, nessa era da internet, o professor possa fazer de sua sala de aula um espaço de construções coletivas, de aprendizagens compartilhadas (FREITAS, 2010 p.349). 50 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 Portanto, a partir do desenvolvimento desses conceitos, é fato que ainda é preciso avançarmos significativamente nas práticas desenvolvidas na relação com as TDIC para que o conceito de competências digitais almejado seja alcançado. Entretanto, se ainda estivermos em alfabetização, em práticas de letramento ou já avançando para a fluência, o importante é sempre ter em mente que o objetivo maior de todo o trabalho na relação com as TDIC é a formação do sujeito competente, crítico e capaz de se comunicar, objetivos que variam de pessoa para pessoa, pois são várias as condições que permeiam essa relação tão complexa. FIGURA 10 Relação entre o processo de alfabetização, letramento e fluência digital FONTE Adaptada de Silva e Behar (2019). 51 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 Ainda, mesmo no campo das competências digitais, cabe destacarmos seu caráter dinâmico e a necessidade constante de atualização por parte dos profissionais que se predispõem a esse trabalho desafiante. Acesse No intuito de compreender um pouco melhor a maneira como o letramento digital pode ser aplicado no âmbito educacional, indica- se a leitura, na íntegra, do artigo de opinião: “Você já ouviu falar em letramento digital? Veja como trabalhá-lo!”. O artigo é de autoria de César Martins e durante a leitura será possível compreender não apenas a importância do letramento digital para a formação do indivíduo, mas especialmente, quais as consequências que podem ser alcançadas com o processo de letramento e, em especial, como se pode aplicar o letramento de maneira adequada no ambiente educacional. O artigo pode ser acessado através do link: https://escolasdisruptivas.com.br/ 52 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 Resumindo E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a inclusão digital segue um caminho que é acesso, uso e emancipação na relação com as TDIC e, dessa relação, algumas perspectivas se evidenciam. Perspectivas e conceitos que sofrem mudanças com desenvolvimento tecnológico e que permitem, na atualidade, compor o conceito de competências digitais. Vimos que alfabetizar e letrar passa a agregar as mudanças tecnológicas considerando essenciais os conhecimentos e domínios das TDIC, por exemplo: as particularidades da leitura em tela e da hipertextualidade. Portanto, evidenciou-se que essa perspectiva avança no sentido de discutir o processo de alfabetização e letramento tradicional e digital de forma conjunta, de modo concreto, porém por separá-los, acabam por fracassar no princípio do letramento tradicional e digital, descontextualizam as práticas sociais realizadas no ambiente virtual. Questão que nos permitiu avançar para o conceito de fluência digital, entendida como o “algo a mais” necessário para se comunicar diante das peculiaridades das TDIC. Desses conceitos, foi possível discutir que ainda há um extenso caminho para se concretizar as premissas das competências digitais, mas que, ao profissional que se dispõe ao desafio de trabalhar com as TDIC, é fundamental: formação do sujeito competente, crítico e capaz de se comunicar, considerando a diversidade dos sujeitos, diante das condições que permeiam essa relação tão complexa. 53 Educação e tecnologia Referências BUZATO, M. E. K. Letramentos digitais e formação de professores. São Paulo: Portal Educarede, 2006. Disponível em:http://educarede.org. br/educa/img_conteu-do/ marcelobuzato.pdf . Acesso em: 8 nov. 2021. COLL, C.; ILLERA, J. R. L. Alfabetização, novas alfabetizações e alfabetização digital. In: COLL, C.; MONEREO, C. Psicologia da Educação virtual: aprender e ensinar com as tecnologias da informação e da comunicação. Porto Alegre: Artmed, 2010. FREITAS, M.T. Letramento Digital e Formação de Professores. 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A Professora Drª Luciana Massi com o excerto a seguir nos permite algumas reflexões fundamentais para avançarmos nosso caminho de aprendizagem: O simples conceito de Tecnologias da Informação e da Comunicação, as famosas TIC, parece apontar para mudanças mais efetivas, já que a tecnologia passa a ser usada como fonte e meio de produção de informações e como nova forma de comunicação. Nos parece claro, então, que a tecnologia é uma nova forma de linguagem e sua inserção e ampliação constante tornam quase impossível a tarefa de elencar todos os exemplos que a ilustrariam: desde a internet, com sua linguagem html, redes sociais, blogs, wikis, passando por visualizações de abstrações existentes apenas no mundo virtual dos jogos e simulações; até novas formas de educação proporcionadas pelos ambientes virtuais de aprendizagem (AVA), para cursos de educação a distância (EAD) ou “blended learning”, que unem EAD e educação presencial. (MASSI, 2015, p. 1) Seriam, então, as TIC instrumentos, ferramentas, objetos, equipamentos, as “máquinas” ou as possibilidades de comunicação que elas possibilitam? O próprio termo Tecnologias da Informação e Comunicação já nos aponta a “saída” desse conceito: diz respeito às tecnologias que permitem socializar informações e possibilitam que a comunicação seja possível. Embora não possamos pensar em uma linearidade histórica efetiva para um fenômeno tão complexo, podemos perceber o desenvolvimento das TIC, a predominância das tecnologias e transformações associadas para Lévy (1990) a partir do desenvolvimento da oralidade, da escrita e da informática. Da escrita, temos o desenvolvimento das tecnologias impressas e, da informática, as digitais. Ampliando essa concepção, podemos perceber duas outras culturas que permeiam as tecnologias impressas e as digitais: 10 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Entretanto, em tempos atuais, diante da intensa e rápida produção e disseminação tecnológica, há a incorporação das tecnologias digitais, essas que operam mudanças nessas perspectivas de organização de Lévy (1990) e culturais de Santaella (2003) e marcam um novo período de desenvolvimento. As TDIC repercutem significativamente nos diversos âmbitos das atividades humanas e com elas podemos falar de uma nova cultura: a cultura digital. FIGURA 1 Cultura de massas e cultura das mídias FONTE Adaptado de Santaella (2003). Importante Mais que a tecnologia em si, essa classificação ocorre em decorrência do modo de produção, distribuição e consumo do conteúdo disponibilizado: a cultura de massa, em associação ao próprio nome, tende a ser mais massiva e passiva. Já a cultura das mídias, mais diversificadas e individualizadas. 11 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Para Santaella (2003): A cultura digital se dá em decorrência do avanço das telecomunicações, principalmente com o advento da Internet e tem como característica a convergência das mídias escrita, audiovisual, telecomunicações e a informática permitindo com que seu conteúdo seja [...] traduzido, manipulado, armazenado, reproduzido e distribuído digitalmente. (SANTAELLA, 2003, p. 60) Essa cultura prevê a maior capacidade, facilidade e agilidade em se obter, produzir e compartilhar informações, possibilitando uma forma de comunicação nominada por Lévy (1997) do tipo “todos-todos”. Uma nova sociedade se desenha e, sobre ela, Kenski (2012) aponta: O surgimento de um novo tipo de sociedade tecnológica é determinado principalmente pelos avanços das tecnologias digitais de comunicação e informação e pela microeletrônica”, afinal, é com a circulação mais eficaz da informação que vários campos da sociedade avançam, desde a economia, a medicina, à engenharia, até a educação, havendo uma infinidade de avanços positivos nessa evolução tecnológica possibilitada pelas TDIC. (KENSKI, 2012, p. 22). Entretanto, novamente a complexidade vem à luz das nossas reflexões: não apenas de pontos positivos o avanço das TDIC se manifesta, há muito ainda que precisamos pensar, avançar e corrigir, principalmente quando relacionado à condição humana de acesso e discernimento ao uso do que está ali disponível. A diversidade de conteúdos e funções dos novos aparelhos eletrônicos, em sua maioria conectados à internet, resultam em ampla velocidade e interatividade, características, entre outras, marcantes dessas tecnologias, que possibilitam a quem as usam desenvolver competências e habilidades cognitivas para a operacionalidade técnica, mas, e as questões éticas? Essas questões ainda são essenciais e precisamos discuti- las. 12 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Assim, a frase “o mundo virtual é terra de ninguém” nunca fez tanto sentido. Apesar dos avanços em termos de leis e punições, ainda é preciso educar para, com e a partir das TDIC, afinal, operamos em um campo em que as aprendizagens operacionais são necessárias, porém, é fundamental e imperativo que avancemos para o que de fato “perturba” nesse cenário tecnológico: o ser humano em desenvolvimento e a sociedade em construção. Afinal, o que são tecnologias educacionais? Ampliando e discutindo perspectivas Com as definições traçadas até aqui, é possível compreender e definir tecnologias educacionais como o uso dos recursos tecnológicos em prol do processo ensino- aprendizagem. Assim, novamente, não é possível limitar ou restringir a computadores, Explicando Melhor A Revista Galileu publicou em 24 de fevereiro de 2015, em sua versão on-line, a matéria intitulada “Quem são os trolls – e por que ninguém está livre deles”. Em seu texto, são apresentados dados resultados de uma pesquisa sobre o “comportamento troll” e quatro transtornos de personalidade obtidos pela Universidade de Manitoba, no Canadá. Sabendo que o troll pode ser definido como usuários on- line que se utilizam das redes sociais para ofender, ameaçar e perseguir pessoas que pareçam vulneráveis, o que esses dados, de fato, podem contribuir para responder à pergunta anterior? Primeiramente, esse estudo define esse comportamento como: “a prática de se comportar de forma enganosa, desordenada ou destrutiva num local social da internet por um único motivo: prazer próprio”. Ainda, após entrevistas, observaram que: “os trolls sentem um júbilo sádico com o sofrimento dos outros. Os sádicos só querem se divertir, e a internet é o seu playground”. Como segundo elemento, traz os seguintes dados: “73% dos usuários adultos de internet testemunharam um assédio on-line, e 40% deles viveram isso na pele”. 13 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 tabletes, ou projetores o conceito de tecnologias educacionais. Uma caneta e o quadro- negro são tecnologias utilizadas no processo educacional que, de longa data, ainda persistem nas relações desse processo. Dessa visão, mais que discutir “o que são” importa discutir “o porquê são” educativas e, dessa lógica, podemos afirmar que tecnologias educacionais são aquelas utilizadas em prol da educação, promovendo maior e mais qualificação do processo e do desenvolvimento social e educativo diante da disponibilização, acesso e socialização das informações. Importante Para Niskier (1993), a tecnologia educacional é concebida da “mediação do encontro entre Ciência, Técnicas e Pedagogia”, entendida como “um exercício crítico com utilização de instrumentos a serviço de um projeto pedagógico” (NISKIER, 1993, p.80). FIGURA 2 Tecnologias educacionais FONTE Freepik 14 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 As tecnologias educacionais, portanto, não se limitam às TDIC e como apontado por Brito e Purificação (2011), sua criação também se dá mediante a necessidade do ser humano. Um exemplo dessa necessidade é o ábaco. Uma tecnologia primitivaque auxiliava os povos primitivos na contagem e pode ser considerado como um primeiro “computador”. A discussão do “porquê” está diretamente relacionada à inovação educacional. É fato que a escola já avançou muito em sua apropriação de diversas tecnologias, desde o uso de materiais concretos e ferramentas tidas como tradicionais e, em tempos de internet e TDIC voltamos ao “gancho” que encerrou nosso subtítulo anterior: o conhecimento operacional e o conhecimento ético necessário para a incorporação das tecnologias digitais, ligadas em rede, no processo educacional. Um fato é fundamental e certo: não podemos mais excluir da escola e dos espaços educacionais essas tecnologias, suas linguagens e suas características. Assim, o uso do computadores e da internet acontece – com desafios e barreiras a serem transpostas, o que já é um grande passo. Para tanto, cabe pensarmos no que é preciso para que essas tecnologias contribuam para a mais reflexiva do ser humano e de um mundo melhor. Não há receitas, mas já sabemos que caminhos não seguir. O trabalho com as tecnologias no campo educacional não pode e não deve apenas substituir o “antigo” pelo “novo”, mas sim, deve potencializar a tecnologia em recurso eficaz na quebra de paradigmas da cultura de massa, promovendo a diversidade cultural que resulte na desmistificação de estigmas históricos, o respeito mútuo, a solidariedade, firmando, de fato, a “aldeia global” que tanto é propagado quando se faz referência às relações em rede. Afinal, a educação é um processo que não se encerra em si, dela se espera intervenções, significações, contextualizações, transformações, espera-se ações e reflexões! Com a incorporação das tecnologias digitais em rede na educação, é possível fazer o que há tempos clamamos para a escola: romper com didáticas tradicionais que privilegiam a transmissão de informações, o que se torna obsoleto quando se tem a “um toque” vários resultados em sites de busca, passando a privilegiar a construção de aprendizagens significativas que permitam refletir, filtrar, questionar, selecionar, organizar e tantas outras ações necessárias nesse fluxo extraordinário de informação acessível. 15 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Assim, definir tecnologias educacionais é mais que pensar em ferramentas, é pensar em uma postura perante o que essa ferramenta/ recurso permite e seu uso na educação deve ser sempre compreendido como um processo dinâmico, rápido e que se modifica diante do cenário que opera. Para nós, tenhamos sempre em mente a afirmação de Lévy (1990) nesse processo formativo e em nossas práticas profissionais, “é mais difícil, mas também mais útil apreender o real que está nascendo, torná-lo autoconsciente, acompanhar e guiar seu movimento de forma que venham à tona suas potencialidades mais positivas” (LÉVY, 1990, p.118). 16 Educação e tecnologia Definição de tecnologias educacionais Capitulo 1 Resumindo E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que tecnologia não se restringe a computadores, celulares e internet, esse termo diz respeito à totalidade das coisas resultantes da engenhosidade do cérebro humano. Está presente em todas as épocas, em diferentes formas de uso e para diferentes aplicações e se relaciona diretamente a três palavras: evolução, progresso e comodidade. Ainda, que o pensamento, que organiza o conhecimento e o processo de construção de alguma ferramenta, também é tecnologia. Avançamos para o conceito de TIC e TDIC, respectivamente, Tecnologias da Informação e Comunicação e Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação, conceituando-as, em termos gerais, como c aquelas que permitem socializar informações e possibilitam que a comunicação seja possível. Vimos que na relação com as TIC, Santaella (2003) relaciona duas culturas: a de massa e as mídias; e à TDIC à cultura digital. Cultura essa que se dá em decorrência do avanço das telecomunicações, principalmente com o advento da internet e tem como característica a convergência das mídias escrita, audiovisual, telecomunicações e a informática. No que se refere às tecnologias educacionais, vimos que elas podem ser entendidas como o encontro entre Ciência, Técnica e Pedagogia, de forma crítica, em prol de um projeto pedagógico. Além disso, não se às TDIC, mas, que são as tecnologias digitais e em rede que recuperam a discussão sobre a necessidade eminente de se quebrar paradigmas e superar práticas tradicionais, privilegiando a construção de aprendizagens significativas que permitam refletir, filtrar, questionar, selecionar, organizar e tantas outras ações necessárias nesse fluxo extraordinário de informação acessível. Para tanto, finalizamos reforçando a necessidade de se pensar além da ferramenta, sendo necessário pensar a postura perante ela quando na interface com a educação. 17 @faculdadelibano_ 2 Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo 18 Educação e tecnologia Capitulo 2 Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo TDIC, conectividade e ensino-aprendizagem Você já parou para pensar sobre seu comportamento de leitor quando está na internet? Já reparou nas conexões que realiza para além do texto inicial que acessou? Já percebeu a relação entre as diferentes linguagens que as TDIC disponibilizam para além das palavras escritas? Já analisou a interferência de se ter um banner de “promoções” ao lado de uma reportagem, ou um vídeo com um tutorial daquela receita que está ali apresentada? Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de perceber, identificar e analisar as primeiras relações das TDIC no campo da educação. Conhecer os principais objetivos relacionados à formação e, a partir dessas tecnologias, é essencial incorporá-las às práticas docentes, seja na escola, seja em acompanhamentos individuais, seja em outros espaços educacionais, permitindo planejar e atuar de forma assertiva e coerente na relação objetivos de ensino e expectativa de aprendizagem. Desconhecer as especificidades dessas tecnologias compromete sua utilização, afinal, assim como toda ferramenta utilizada em prol de um objetivo educacional, a insegurança do profissional mediante o recurso, ou a má escolha, ou a má gestão da ferramenta é operante para o fracasso. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! 19 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Quando nos propomos a discutir a interferência das TDIC no processo de aprendizagem, é necessário analisar sua estrutura para além do espaço da escola ou de educação a que se propõe. Afinal, estamos imersos nessa relação e as informações que estão disponíveis, apesar da possibilidade de alguns filtros de moderação projetados, assumem uma conexão de conectividade que, por vezes, nos faz perguntar “como cheguei nessa página?”, “como cheguei nesse conteúdo?”, se a ideia e o objetivo inicial eram divergentes do resultado final. Quem nunca acabou em um site de compra analisando o mais novo modelo de celular, ou um produto de destaque, ou qualquer outro serviço à venda, sem que essa tenha sido a ideia inicial? Ou ainda, quem ao “navegar” pela rede nunca acabou em um site com notícias de celebridades, seja sobre as roupas do tapete vermelho, seja sobre os relacionamentos de celebridades? Essas questões nos apresentam as principais características das TDIC conectadas, por sua natureza são multilinguagens, conectivas e hipertextuais, sendo que o processo de interação, leitura e associação se configura como multitarefas, não lineares, autodidáticos, exploratórios e colaborativos. É fato que na interface da educação essas características não são inéditas ou exclusivasdos ambientes conectados e virtuais, tampouco as habilidades que essas características demandam não são distantes dos objetivos de ensino e expectativas de aprendizagem que se espera nos espaços de escolarização, entretanto, com o advento das TDIC, tais características passam a ser encaradas como tendências contemporâneas que, para Lévy (1990), são ao mesmo tempo produtoras e produtos de uma ecologia cognitiva 20 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Nesse sentido, da interação com as TDIC e suas características há a demanda de habilidades relacionadas à participação ativa, criativa, lúdica e engajada por parte dos sujeitos, resultado em um novo estilo de ensino-aprendizagem. Afinal, dessa interação tecnológica há o favorecimento de novos modos de comunicação, de pensar, de lidar com a informação e de produzir conhecimentos e de agregar e rastrear informações que precisam ser consideradas, acolhidas e potencializadas. FIGURA 3 Conectividade FONTE Freepik 21 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Trazemos como imperativo, pois, conforme aponta Morin (2004) é necessário mobilizar recursos cognitivos, investimentos individuais e tenacidade para que esses novos modos de aprender se efetivem, afinal, as competências que as TDIC demandam no processo ensino-aprendizagem são inatas ao sujeito, são identificadas de maneira espontânea apenas em pequena porção, cabendo à escola e aos profissionais a responsabilidade de promover possibilidades para “uma crescente autonomia dos/as estudantes, visando seu desenvolvimento pessoal e provendo-os com ferramentas para pensar e agir de modo informado e responsável num mundo cada vez mais permeado pela ciência e tecnologia” (CASTELI et al., s. d.). Interatividade e os caminhos possíveis para a autonomia Lévy (1996, p. 97) define inteligência como o “conjunto canônico das aptidões cognitivas, a saber, as capacidades de perceber, de lembrar, de aprender, de imaginar e de raciocinar”. Com as TDIC, essas aptidões passam a ser potencializadas, ao menos no exercício do usuário da ferramenta, quando acessa as informações. E, aqui, temos o elemento que inicia nossa discussão sobre os caminhos para a autonomia necessária para a aprendizagem nesse cenário tecnológico conectado, a interatividade. FIGURA 4 Novos modos de aprender FONTE Adaptada de Venturi (2011). 22 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Esse conceito está diretamente relacionado à participação e à intervenção ativa, ou seja, quando falamos em interatividade nos remetemos à possibilidade do sujeito em atuar, contribuir, modificar, questionar, enfim, agir a partir do conteúdo/informação a ser aprendido. Com as TDIC, ampliou-se a possibilidade do estudante-autor, aquele que constrói e produz, significa e altera, complementa e adequa o que está ali disponível para sua aprendizagem, possibilidades oferecidas diante do caráter tecnológico inovador das TDIC. No campo das TDIC, a interatividade se configura em ideal de comunicação entre humanos, direta ou indiretamente mediada pela máquina. A isso, preconiza-se a ruptura de modelos comunicacionais, pregando-se a transição do modo de comunicação “massivo” para o “interativo” (LÉVY, 1999 apud ALONSO et al., 2014). É uma nova realidade que se projeta nas ações educativas “superando as antigas hierarquias, estabeleceria uma relação totalmente outra, porque capaz de se dar de todos para todos” (LÉVY, 1999, p. 79). É a possibilidade que o estudante tem de acessar tutoriais em vídeos, por exemplo, buscando novos caminhos para construir sua aprendizagem. E, é aí que o desafio se estabelece. FIGURA 5 Tecnologias e cotidiano FONTE Freepik Afinal, como categorizado por Coll e Monereo (2010), com o advento da informatização digital, avançamos para o que se atribuiu o nome de “tecnologias ubíquas” que são 23 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 aquelas tecnologias que, de tão integradas à vida das pessoas, passam a não ser mais percebidas em suas relações e interações cotidianas, o que resulta na diminuição ou ausência de reflexão acerca das influências que elas ocasionam. O conceito de tecnologia ubíqua é fundamental, pois é ele que nos permite avançar para o conceito de autonomia, para tanto, veja a seguinte situação. Digamos que “navegando” por alguma rede social, você se depara com a seguinte notícia: “Extraterrestes invadem o México – há 4 horas ninguém consegue contato com nenhuma autoridade local”. Por curiosidade – ou angústia, não é mesmo? –, você clica e lê o texto e sobre o que ele se refere. Por experiência, você não compartilha e divulga a informação sem antes verificar a veracidade da notícia. Depois do acesso e leitura crítica, você identifica que se trata de uma chamada para um novo filme, entretanto, durante o dia você vê em sua timeline diversas postagens de outros usuários da rede social sobre a notícia tendo-a como verdadeira, a ponto do estúdio que produz o filme ter que produzir um comunicado oficial para “acalmar” determinada parcela da população. Desse exemplo, podemos estabelecer o conceito de autonomia que encaminha nossas discussões. Definimos autonomia como a competência de poder escolher por si mesmo, de poder agir a partir de sua própria vontade e, principalmente, de dispor de recursos que permitam pensar de maneira crítica e reflexiva sobre essas ações exercidas, ou seja, a premissa do exercício da consciência. Freire (2009) afirma que autonomia: implica na apropriação crescente de sua posição no contexto. Implica na sua inserção, na sua integração, na representação objetiva da realidade. Daí Definição Tecnologia ubíqua “se refere à progressiva interação dos meios informáticos nos diferentes contextos de desenvolvimento dos seres humanos, de maneira que não são percebidos como objetos diferenciados” (COLL; MONEREO, 2010, p. 46). 24 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 a conscientização ser o desenvolvimento da tomada de consciência. Não será, por isso mesmo, algo apenas resultante das modificações econômicas, por grandes e importantes que sejam. A criticidade, como entendemos, há de resultar de um trabalho pedagógico crítico, apoiando em condições históricas propícias (FREIRE, 2009, p. 61). Nesse sentido, interação e autonomia são faces da mesma moeda: não se pode produzir conteúdo sem pensar sobre ele, não se pode ser autor sem conhecer as responsabilidades de sua ação. Enquanto profissionais, não podemos ignorar essas demandas e relações no processo ensino-aprendizagem. Essas premissas se consolidam enquanto legislação, a partir da homologação da Base Nacional Comum Curricular – BNCC (BRASIL, 2017) que propõe dez competências, tanto cognitivas como socioemocionais, como objetivos de aprendizagem e desenvolvimento a serem alcançados ao longo do ciclo da Educação Básica, inclusive relacionadas às TDIC. Acesse o link para saber mais: https://www.scielo.br/j/tla/a/ hYxY9gcBqqCmHRsSg8zVfQH/?lang=pt Para tanto, os caminhos possíveis para que essas competências sejam fomentadas são permeados pela educação baseada nas competências digitais, na modernização da educação escolar e na criação de oportunidades para que os estudantes sejam estimulados a desenvolver e utilizar seu senso crítico com os mais diversificados conhecimentos e na socialização do que aprenderam. É fundamental lembrar que, apesar das TIDC serem qualitativamente diferentes dos recursos convencionais, apenas sua utilização não produz as mudanças necessárias no Reflita Do que vale o estudante saber acessar a internet ou fazer o download de um jogo se ele não avança no processo de aprendizagens contextualizadas, elaboradas, significativas eessenciais, tais como: responsabilidade no uso da rede não se colocando em perigo, respeito o outro, entre outros? 25 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 processo de desenvolvimento e aprendizagem dos estudantes. Apenas o computador, o celular e/ou o tablet estarem no espaço educativo, não significa a apropriação efetiva da tecnologia sob a égide dos princípios da interatividade e autonomia. Afinal, uma aula expositiva, mecânica e de baixa interatividade, é possível tanto com o uso de multimídia como no quadro de giz, não é mesmo? Para que as TDIC possam possibilitar a modificação, amplificação e exteriorização de numerosas funções cognitivas como a memória, a percepção, a imaginação, raciocínio é preciso a qualificação da mediação pedagógica. Novamente lançamos mão de Lévy (2011), teórico-referência nas discussões sobre a cibercultura e que, sobre essa qualificação de mediação pedagógica, indica que as possibilidades são muitas e variadas quando na relação com as funções cognitivas, por exemplo: • Memória: uso de banco de dados, mapas mentais, conectores textuais, arquivos digitais, entre outros. • Imaginação: simuladores virtuais, instrumentos de criação colaborativos e de representação abstratos, jogos de narrativas, entre outros. • Percepção: sensores, realidade virtual, entre outros. • Raciocínio: principalmente por meio da inteligência artificial e pelo compartilhamento entre os indivíduos, que aumentam o potencial da inteligência coletiva. Saiba Mais Para saber um pouco mais sobre o que é cibercultura, seus conceitos e seus fundamentos, recomendamos a leitura do artigo Cibercultura: um estudo contextualizador e introdutório acessando o link: http://www. intercom.org.br/papers/nacionais/2010/resumos/r5-2207-1.pdf Nesse sentido, a mediação pedagógica se constitui na relação com a mediação tecnológica, quando, enquanto profissionais, nos apropriamos dos meios e recursos sustentados por essas tecnologias, privilegiando e promovendo práticas que ampliam as possibilidades de comunicação que rompem com o modelo unidirecional e passivo, 26 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 anteriormente previsto ao estudante. Assim, é fundamental compreendermos o modelo de ensino a partir das competências digitais. Modelo de ensino a partir das competências digitais Ensinar na relação com as TDIC deve, a priori, preconizar a promoção de práticas que permitam aos sujeitos: explorar e enfrentar as novas situações tecnológicas de uma maneira flexível, para analisar, selecionar e avaliar criticamente os dados e informação, para aproveitar o potencial tecnológico com o fim de representar e resolver problemas e construir conhecimento compartilhado e colaborativo, enquanto se fomenta a consciência de suas próprias responsabilidades pessoais e o respeito recíproco dos direitos e obrigações. (CALVANI et al., 2008, p. 186) Espera-se, portanto, que do ensino proposto os sujeitos desenvolvam competências necessárias para que estabeleçam relações com as TDIC de forma consciente e reflexiva. Para tanto, três dimensões são inerentes às competências digitais: tecnológica, cognitiva e a ética. FIGURA 6 Competências digitais FONTE Adaptada de Silva e Behar (2019). 27 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Na integração dessas três competências, espera-se que o estudante compreenda o potencial das TDIC para a construção do conhecimento de forma colaborativa e cooperativa. Em um panorama geral, podemos sistematizar as competências digitais em conhecimentos, habilidades e atitudes. Desses dois esquemas representados nas figuras anteriores, podemos ampliar o conceito de competência digital para: um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes, estratégias e sensibilização de que se precisa quando se utilizam as TICs e os meios digitais para realizar tarefas, resolver problemas, se comunicar, gestar informação, colaborar, criar e compartilhar conteúdo, construir conhecimento de maneira efetiva, eficiente, adequada de maneira crítica, criativa, autônoma, flexível, ética, reflexiva para o trabalho, o lazer, a participação, a aprendizagem, a socialização, o consumo e o empoderamento. (FERRARI, 2012, p. 3-4 apud SILVA e BEHAR, 2019) Entretanto, existem outros elementos sociais, econômicos e culturais que implicam na efetivação das competências digitais, que serão discutidos na sequência. FIGURA 6 Competências digitais FONTE Adaptada de Silva e Behar (2019). 28 Educação e tecnologia Tecnologias educacionais e as relações no processo cognitivo Capitulo 2 Resumindo E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que as TDIC conectadas são, por natureza, multilinguagens, conectivas e hipertextuais, sendo que o processo de interação, leitura e associação se configura como multitarefas, não lineares, autodidáticos, exploratórios e colaborativos. Características que não são inéditas no processo de ensino-aprendizagem, mas que, com o advento tecnológico, passam a ser encaradas como tendências contemporâneas, demandando habilidades relacionadas à participação ativa, criativa, lúdica e engajada por parte dos sujeitos. Vimos dois conceitos fundamentais relacionados ao ensino-aprendizagem na relação com as TDIC: a interatividade e a autonomia. O primeiro está diretamente relacionado ao “estudante- autor”, que constrói e significa as informações disponíveis em prol de sua aprendizagem diante das possibilidades oferecidas e do caráter tecnológico inovador das TDIC. O segundo diz respeito à competência de poder escolher por si mesmo, de poder agir a partir de sua própria vontade e, principalmente, de dispor de recursos que permitam pensar de maneira crítica e reflexiva sobre essas ações exercidas, ou seja, a premissa do exercício da consciência. Vimos a necessidade da mediação pedagógica para que as TDIC, de fato, cumpram com essas intenções e, para isso, a prática deve objetivar, principalmente, o desenvolvimento de competências digitais, essas compreendidas como um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes, estratégias e sensibilização de que se precisa quando se utilizam as TIC e os meios digitais para realizar tarefas, resolver problemas, comunicar-se, gestar informação, colaborar, criar e compartilhar conteúdo, construir conhecimento de maneira efetiva, eficiente, adequada de maneira crítica, criativa, autônoma, flexível, ética, reflexiva para o trabalho, o lazer, a participação, a aprendizagem, a socialização, o consumo e o empoderamento. 29 @faculdadelibano_ 3 Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico 30 Educação e tecnologia Capitulo 3 Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Nativos e imigrantes digitais Como vimos, as tecnologias de forma geral surgem da necessidade humana e, como consequência, transformam o modo de vida das pessoas. Esse processo se dá em um ciclo retroalimentado: necessidade – tecnologia – necessidade – tecnologia. E é assim também na relação com as TDIC. Ao facilitar o acesso à informação na viabilização e expansão da cultura digital, essas tecnologias alteram as relações estabelecidas, seja na vida em geral, seja no contexto educacional, surgindo como objeto de pesquisa/estudo para alguns teóricos que buscam melhor compreender e definir as especificidades, características e outras perspectivas dessas relações na “era digital”. Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de perceber as relações entre as condições socioeconômicas e culturais e o desenvolvimento das competências digitais trabalhadas na competência anterior. Compreender essa relação permite, principalmente, identificar os elementosque permeiam a relação TDIC – ensino – aprendizagem no contexto brasileiro. Isto será fundamental para a qualificação das TDIC em suas práticas pedagógicas, descontruindo ideias pré-concebidas e massivas acerca do conhecimento e competência dos sujeitos diante desses recursos. Sem conhecer essa relação, o trabalho pedagógico pode fracassar sem que o profissional identifique os motivos reais. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! 31 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 Entre esses teóricos, destacam-se Palfrey e Gasser (2011) principalmente por serem eles os responsáveis pelos termos: nativos e imigrantes digitais. Para eles, aqueles que nasceram após os anos 1980,por serem contemporâneos às tecnologias, teriam maiores habilidades para usar as TDIC. Seriam, portanto, os nativos digitais e o aspecto etário que definiria a condição do usuário frente a ferramenta e seu conteúdo. Já os imigrantes digitais são aqueles que não se enquadram nesse grupo. A eles caberia conviver e interagir com os nativos digitais e “se familiarizar” com a tecnologia emergente. Nesse cenário, ainda haveria um terceiro grupo, os colonizadores digitais, que seriam as pessoas que destoam do primeiro e do segundo grupo e corresponde àqueles que cresceram pré-mundo digital – em mundo analógico –, mas que são responsáveis ou vem contribuindo para a evolução tecnológica. Diferente dos imigrantes, os colonizadores atuam conectados e fazem o uso sofisticado das tecnologias. FIGURA 8 Nativos digitais FONTE Freepik Essa classificação geracional, ao ser transposta para o cenário educacional, predispõe relações conflitantes, afinal, grande parte dos professores em atuação poderiam ser categorizados como imigrantes digitais frente a turmas de nativos digitais. Mais que um rótulo, esses termos nos permitem pensar sobre a forma como cada um desses sujeitos aprende, ensina e constrói conhecimento. 32 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 É provável, portanto, que o professor aprenda e construa conhecimentos de forma diferente de seus estudantes, consequentemente, sua forma de ensinar difere da forma como os estudantes percebem o conhecimento e sua produção. Importante A perspectiva de nativos e imigrantes digitais contribui, principalmente, para evidenciar as possíveis barreiras e/ou dificuldades de comunicação que podem existir entre professores e estudantes. Se pensarmos a partir do proposto, considerando alunos e os professores de hoje, respectivamente, nativos e imigrantes digitais, é possível que nessa relação ambos busquem se fazer entender e ser compreendido por meio de “línguas diferentes”. FIGURA 9 Dificuldades comunicativas FONTE Freepik Assim, é possível que nessa relação os estudantes e suas demandas de aprendizagem coloquem em xeque as formas e métodos pelas quais os professores aprenderam e, consequentemente, ensinam. É preciso destacarmos: as análises que fizemos até aqui podem resultar em perspectivas simplistas, pressupondo-se que existam formas prontas e acabadas sendo garantia 33 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 de aprendizagem, afinal, superada a dificuldade de comunicação, não haveria motivo para que o que se ensina não seja aprendido, não é mesmo? Entretanto, sabemos que o processo educacional é complexo e não opera nessa lógica matemática, tampouco dessa forma linear. Assim, quando pensamos no impacto positivo ou negativo das inovações decorrentes das TDIC na educação, é preciso que consideremos todo o cenário que comungam nesse processo dentro e fora do espaço escolar. Portanto, é fundamental destacar as controvérsias que emergem da perspectiva geracional apresentada. Modelo geracional: reflexões necessárias Ao contrário de Palfrey e Gasser (2011), Monereo e Pozo (2010) afirmam que não devemos considerar a idade como condição determinante na relação com as TDIC. Apontam que não há um “abismo geracional”, mas sim um “abismo sociocognitivo”, ou seja, a diferença está no modo de pensar e de se relacionar com o mundo das pessoas que não utilizam as tecnologias digitais ou as que utilizam de forma esporádica ou cotidianamente. Revisitando a sua primeira categorização, Prensky (2009) também acaba considerando essas questões, tanto que sugere um novo conceito: sabedoria digital. Esse conceito se refere tanto à sabedoria decorrente do uso da tecnologia digital quanto à sabedoria de saber usá-la com ética. Assim, indiferente da faixa etária, todos podemos nos tornar sábios no mundo digital, como em qualquer aprendizagem, com maior ou menor habilidade em determinados campos de operação. Para tanto, é necessário perceber em que cenário se estabelecem as relações com as TDIC que possibilitam a sabedoria digital. Conforme dados do censo, 41% (quarenta e um por cento) das pessoas que apontaram “falta de habilidade com o computador” são “mais velhas e menos escolarizadas” (BRASIL, 2015, p. 51), a lógica etária parece fazer sentido. Entretanto, dados divulgados pelo CETIC – Centro Regional de Estudos para o desenvolvimento da sociedade da informação, publicados em 2018, apontam que 33% (trinta e três por cento) das residências não tem acesso à internet, ou seja, reduz a todos, indiferente de sua idade, a possibilidade de avanços no sentido da sabedoria digital. Essa condição – mazela – de exclusão digital decorrente das condições sociais e 34 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 econômicas pode ser definida como uma “fratura digital”. Para Mattelart (2002), em uma sociedade desigual, dois papéis se desenham: os “inforricos” - aqueles com uso proficiente das tecnologias e, os “infopobres” - sujeitos marginalizados no cenário tecnológico. No sentido de compreender a relação direta da pobreza com a exclusão digital, destaca- se o evidenciado por Sorj e Guedes (2005): A pobreza não é um fenômeno isolado. A maneira como ela é definida e percebida depende do nível de desenvolvimento cultural, tecnológico e político de cada sociedade. A introdução de novos produtos, que passam a ser indicativos de uma condição de vida “civilizada” (seja telefone, eletricidade, geladeira, rádio ou TV), aumenta o patamar abaixo do qual uma pessoa ou família é considerada pobre. Como o ciclo de acesso a novos produtos começa com os ricos e se estende aos pobres após um tempo mais ou menos longo (e que nem sempre se completa), há um aumento da desigualdade. Os ricos são os primeiros a usufruir as vantagens do uso e/ ou domínio dos novos produtos no mercado de trabalho, enquanto a falta destes aumenta as desvantagens dos grupos excluídos. Em ambos os casos, os novos produtos TICs aumentam, em princípio, a pobreza e a exclusão digital. As políticas públicas podem aproveitar as novas tecnologias para. (SORJ, GUEDES, 2005, p.102) Os autores destacam que a pobreza depende, essencialmente, da maneira como os aspectos sociais são apresentados e, por isso, na medida que surgem novos produtos e realidades na sociedade, as condições econômicas e sociais modificarão e, consequentemente, o desfavorecimento poderá surgir. Portanto, essa condição nos alerta para compreender a condição brasileira no trabalho integrado às TDIC: as condições de usuário é um fenômeno que engloba aspectos de ordens econômica e social, nos quais os mais pobres, mais velhos e menos escolarizados, os primeiros e os últimos em diferentes faixas etárias, são marginalizados do cenário tecnológico por sua condição de existência (CASTELLS, 1998). Portanto, é preciso considerar que muitos dos estudantes não estão/não se encontram inseridos na cultura digital. Embora, esses mesmos estudantes possam se engajar diante das TDIC em sua aprendizagem, precisamos estar atentos para perceber a condição 35 Educação etecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 de usuário desse estudante, fundamental na relação ensino-aprendizagem, afinal, a inabilidade ou desinteresse, ou até mesmo o “fracasso”, nesse processo pode estar relacionado diretamente ao fato de não terem acesso às tecnologias cotidianamente em decorrência de sua condição socioeconômica. No que se refere às condições apresentadas na sociedade acerca da inclusão digital, Sorj e Guedes (2005) destaca que, no Brasil, a desigualdade social também se relaciona com o uso das tecnologias da informação e que isso reflete, tão somente, a realidade global da desigualdade que acomete o país O processo desigual de disseminação do computador entre a população das diferentes cidades do Brasil reflete sem dúvida o nível desigual de riqueza e escolaridade entre as diferentes regiões e cidades, em particular entre as populações pobres das regiões Norte e Nordeste e do Centro-Sul. A posse do computador, porém, está também associada a um componente intangível: a disseminação de uma cultura de valorização da informática associada em especial à noção de que seu domínio é condição de emprego e sucesso na educação. (SORJ, GUEDES, 2005, p.102) Ainda no que se refere ao processo de exclusão digital, convém destacar que a desigualdade não é encontrada apenas no setor econômico, mas em questões de gênero, grupos etários e comunidades no geral, conforme observa Sorj e Gedes (2005) A exclusão digital se dá também no interior dos grupos pobres, entre gêneros, raças e grupos etários, e entre diferentes comunidades. A menção aos bairros pobres pode dar uma falsa visão de homogeneidade, quando tanto no interior de cada um como entre eles a desigualdade em relação à posse de computador é muito pronunciada. (SORJ, GUEDES, 2005, p.103) Dessa maneira, para Koutropoulos (2011) é importante questionar a existência de uma geração digital e as premissas – quase de mágicas – de como ensinar e trabalhar com os “nativos digitais”, afinal, esse termo carrega em si um estereótipo que precisa ser rompido e, infelizmente, em decorrência das desigualdades sociais, representa minoria da população. 36 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 Assim, precisamos considerar como fator essencial para o trabalho com as TDIC a inclusão digital entendida como a efetivação – mínima – de três ações (BARRETO, 2009; CASTELLS, 1998; MATTELART, 2002): 1º) A disponibilização da tecnologia aos usuários. 2º) A formação técnica desses para o uso. 3º) A formação intelectual crítica para refletir sobre seu papel de usuário. É fato que na escola já avançamos significativamente na disponibilização das tecnologias. Ainda é preciso avançar e para tanto, é preciso participarmos ativamente das discussões sobre políticas públicas para que a infraestrutura seja qualificada. A segunda ação podemos encarar como decorrente, afinal, tendo a “ferramenta” disponível, identificaremos a demanda do estudante e, a partir dela podemos intervir e avançar. Já a terceira ação é o que irá, de fato, superar o abismo ocasionado pela “fratura digital”, pois, é o uso proficiente e autônomo das TDIC, é sobre essa ação que avançaremos na próxima competência. Ainda no que se refere ao processo de inclusão no âmbito das tecnologias da informação, destaca-se a necessidade de inserção de políticas públicas que sejam capazes de equacionar os interesses e realidades da sociedade, conforme destaca Sorj e Guedes (2005) que se encontra disposto da seguinte maneira: As políticas públicas podem aproveitar as novas tecnologias para melhorar as condições de vida da população e dos mais pobres, mas a luta contra a exclusão digital visa sobretudo encontrar caminhos que diminuam seu impacto negativo sobre a distribuição de riqueza e oportunidades. (SORJ, GUEDES, 2005, p.106) Ainda no que se refere ao processo de inserção das tecnologias da informação nos mais diversos setores da sociedade, com o objetivo de auxiliar a acessibilidade, destaca-se que a supressão dos obstáculos para este processo deve ocorrer só a partir da retirada dos elementos que podem dificultar a acessibilidade é que será possível perceber a inclusão digital pelos setores mais marginalizados da sociedade. Além do mais, destaca-se que apenas com a inclusão, em todos os aspectos, é que será possível identificar a massificação do uso das tecnologias da informação. 37 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 As políticas de universalização de acesso devem confrontar as complexidades associadas à apropriação efetiva das TICs pelos setores mais pobres da população. O valor efetivo da informação depende da capacidade dos usuários de interpretá-la. Informação só existe na forma de conhecimento, e conhecimento depende de um longo processo de socialização e de práticas que criam a capacidade analítica que transforma bits em conhecimento. (SORJ, GUEDES, 2005, p.116) Por isso, torna-se evidente que para se conseguir a inclusão digital, de maneira ampla, o pressuposto essencial é combater a exclusão escolar, ou seja, a máxima do processo é trabalhar com uma educação ampla, inclusão e qualidade, pois conforme destaca Sorj e Guedes (2005) a inclusão digital só tem efeito quando associada com a execução de outras políticas públicas. Portanto, combater a exclusão digital supõe enfrentar a exclusão escolar. As políticas de universalização do acesso à Internet nos países em desenvolvimento serão uma quimera se não estiverem associadas a outras políticas sociais, em particular às da formação escolar. Não haverá universalização de acesso às novas tecnologias da informação e da comunicação sem a universalização de outros bens sociais. Nos países em que as taxas de analfabetismo funcional são altíssimas. (SORJ, GUEDES, 2005, p.116) A potencialização da importância no processo de inclusão educacional como pressuposto para a inclusão digital, não quer dizer que esta só pode ser aplicada quando aquela ocorrer de maneira ampla, mas tão somente destacar que são instrumentos importantes e que podem, de fato, ser trabalhadas de maneira conjunta. Inclusive, pelas formas como o processo educacional tem se apresentado, em especial em virtude dos aspectos surgidos com a pandemia da Covid-19, não há como dissociar as realidades. Obviamente, isso não significa que se deva esperar que se chegue a erradicar o analfabetismo para se desenvolver políticas de inclusão digital. Não podemos esquecer que a luta pela inclusão digital é uma luta contra o tempo. As novas tecnologias da informação aumentam a desigualdade social, de forma que a universalização do acesso não é mais do que a luta por um novo nivelamento das condições de acesso ao mercado de trabalho. (SORJ, GUEDES, 2005, p.116) 38 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 Sobre esta relação tênue que deve existir entre inclusão escolar e inclusão digital, destaca-se que decorre do processo observado no próprio mercado de trabalho, visto que é pré-requisito, atualmente, para assumir um emprego, não apenas o conhecimento técnico, mas essencial o conhecimento informático. As exigências da economia e os novos empregos obrigam a convivência de políticas públicas que trabalhem simultaneamente com diferentes setores sociais e ritmos desiguais de universalização de serviços públicos. Não se pode, porém, desconhecer o imbricamento das políticas sociais, e o fato de que o sucesso final depende de um programa integrado de universalização dos vários serviços públicos. (SORJ, GUEDES, 2005, p.117) Por isso, é compreensível e aceitável o posicionamento de Sorj e Guedes (2005) ao considerar as escolas como instrumentos essenciais para os processos de inclusão digital, visto que na medida que o aperfeiçoamento acadêmico da sociedade ocorre, hátambém, a inserção desta nova parcela da população no cenário informático. As escolas são instrumentos centrais para socializar as novas gerações na Internet. Isso não implica transformar a telemática num instrumento privilegiado do sistema educativo, nem realizar um investimento exagerado em computadores por escola. (SORJ, GUEDES, 2005, p.117) Como consequência da materialização desta relação necessária, destaca-se que será possível identificar mais nativos do que migrantes no uso das tecnologias da informação, pois desde cedo, as pessoas terão mais acesso às novas tecnologias e, os indivíduos de hoje que recebem a informatização, irão para o mercado de trabalho. Por isso, a inclusão digital, a construção de uma sociedade basicamente incluída é mecanismo lento e de longo prazo, pois os resultados só serão identificados quando os alunos de hoje assumirem o mercado de trabalho no futuro. 39 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 Resumindo E então? Gostou do que mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que Palfrey e Gasser (2011) são responsáveis pelos termos nativos, imigrantes e colonizadores digitais. Esses autores relacionaram as habilidades para o uso das TDIC com a faixa etária populacional, assim, aqueles que nasceram após os anos 80, por serem contemporâneos às tecnologias, teriam maiores habilidades e seriam os “nativos digitais”, os imigrantes seriam os que antecedem essa geração e, portanto, precisariam “se familiarizar” com a tecnologia emergente e, os colonizadores digitais, seriam as pessoas que destoam do primeiro e do segundo grupo, correspondendo àquelas pessoas que nasceram em mundo analógico, mas são responsáveis ou vem contribuindo para a evolução digital. No cenário educacional, essa perspectiva contribui para refletirmos sobre possíveis relações conflitantes em decorrência das diferenças geracionais, permitindo pensar em como cada geração constrói conhecimento e, no caso dos professores, acaba por ensinar, o que resultaria em uma barreira comunicacional. Entretanto, vimos que essa relação é mais complexa, afinal, há fatores sociais e econômicos envolvidos, que interferem no acesso e proficiência na apropriação das TDIC pelos sujeitos. Vimos que para Monereo e Pozo (2010), não há um “abismo geracional”, mas sim um “abismo sociocognitivo”, ou seja, a diferença está no modo de pensar e de se relacionar com o mundo das pessoas que não utilizam as tecnologias digitais ou as utilizam de forma esporádica ou cotidianamente. Premissa que resulta no conceito de sabedoria digital, que acolhe a todos, na possibilidade de domínio das TDIC. Vimos também que para a sabedoria digital ser algo possível, é preciso considerar a “fratura digital”, compreendendo que grande parte da sociedade não se encontra inserida na cultura digital por não terem acesso, em decorrência de sua condição socioeconômica. Fato para questionarmos a existência de uma geração digital e as “receitas mágicas” para educá-los. Ainda, vimos que na relação com as TDIC é fundamental que a inclusão digital seja efetiva e, para tanto, três ações 40 Educação e tecnologia Racionalidade instrumental e determinismo tecnológico Capitulo 3 são essenciais: 1º) a disponibilização da tecnologia aos usuários; 2º) a formação técnica desses para o uso e; 3º) a formação intelectual crítica para refletir sobre seu papel de usuário. 41 @faculdadelibano_ 4 Desafios relacionados às tecnologias educacionais 42 Educação e tecnologia Capitulo 4 Desafios relacionados às tecnologias educacionais Letramento computacional, informacional e em mídias: ponderações necessárias Vimos que para que a inclusão digital se efetive, três ações essenciais são necessárias: a disponibilização da tecnologia aos usuários, a formação técnica desses para o uso e, a formação intelectual crítica para refletir sobre seu papel de usuário. Objetivos Ao término deste capítulo, você será capaz de identificar os desafios contemporâneos relacionados à apropriação tecnológica no processo ensino-aprendizagem. Iremos perceber como as competências digitais se desenvolvem da perspectiva do letramento computacional à fluência digital. Isto será fundamental para a promoção de práticas em prol da inclusão digital e, consequentemente, para a superação da “fratura digital” discutida anteriormente. Ainda, no campo da Neuroeducação, operar no sentido de possibilitar o desenvolvimento cognitivo dos estudantes na interface com as TDIC. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Então, vamos lá. Avante! 43 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 A partir da definição apresentada acima e, tendo como pressuposto, a importância do conhecimento sobre o uso das tecnologias da informação, destaca-se que letramento digital é essencial para o processo de construção de uma estratégia para aquisição do conhecimento, visto que se utilizará de ferramentas digitais importantes para a construção de um cenário de conhecimento favorável para o desenvolvimento pessoal intelectual e pessoal. A partir do exposto, compreendo letramento digital como o conjunto de competências necessárias para que um indivíduo entenda e use a informação de maneira crítica e estratégica, em formatos múltiplos, vinda de variadas fontes e apresentada por meio do computador-internet, sendo capaz de atingir seus objetivos, muitas vezes compartilhados social e culturalmente. (FREITAS, 2010, p.340) Dessa forma, podemos perceber que a inclusão segue um caminho: acesso, uso e emancipação. Segundo Pettro (2008): Produzir informação e conhecimento passa a ser, portanto, a condição para transformar a atual ordem social. Produzir de forma descentralizada e de maneira não- formatada ou preconcebida. Produzir e ocupar espaços, todos os espaços, através das redes. Nesse contexto, a apropriação da cultura digital passa a ser fundamental, uma vez que ela já indica intrinsecamente um processo crescente de reorganização das relações sociais mediadas pelas tecnologias digitais, afetando em maior ou menor escala todos os aspectos da ação humana. Isso inclui reorganizações da língua escrita e falada, as ideias, as crenças, costumes, códigos, instituições, ferramentas, métodos de trabalho, arte, religião, ciência, enfim, todas Definição Letramentos digitais (LDs) são conjuntos de letramentos (práticas sociais) que se apoiam, entrelaçam e se apropriam mútua e continuamente por meio de dispositivos digitais para finalidades específicas, tanto em contextos socioculturais geograficamente e temporalmente limitados, quanto naqueles construídos pela interação mediada eletronicamente (BUZATO, 2006, p. 16). 44 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 as esferas da atividade humana. Até mesmo os aspectos mais pessoais, como os rituais de namoro e casamento, entre outras práticas, têm sua regulação alterada, dadas as novas formas de interação vivenciadas na cultura digital. (PRETTO, 2008, p. 78) De acordo com o que está sendo apresentado, destaca-se que o processo do letramento digital depende não apenas do acesso aos instrumentos informáticos e seu conhecimento básico sobre o uso, mas do conhecimento sobre estratégias de conhecimento para a utilização das ferramentas de maneira adequada, ou seja, os profissionais da educação devem ter conhecimento sobre as linguagens digitais que serão utilizadas pelos alunos. E, quando o profissional apresenta esta habilidade, percebe-se que o processo de integração entre professor, aluno e sistema informático tende a apresentar bons resultados. Tenho observado, por meio de nossas pesquisas, que escolas equipadas com computadores e acesso à internet e professores egressos de cursos básicosde informática educativa não têm sido suficientes para que se integrem os recursos digitais e as práticas pedagógicas. Se o desejável é que os professores integrem computador-internet à prática profissional, transformando-a para melhor inseri- la no contexto de nossa sociedade marcada pelo digital, é preciso ir muito além. Os professores precisam conhecer os gêneros discursivos e linguagens digitais que são usados pelos alunos, para integrá-los, de forma criativa e construtiva, ao cotidiano escolar. (FREITAS, 2010, p.341) Diante desta necessidade de incutir o letramento digital nos espaços educacionais, destaca-se a necessidade de compreender que as tecnologias da informação nas escolas é uma realidade e que, por isso, o primeiro passo para cumprimento da demanda no espaço educacional está sendo observado: disseminar a tecnologia. Por isso, de menor ou maior escala, o acesso às TDIC nas escolas são uma realidade, cumprindo a primeira ação, ao menos no espaço escolar, necessária para a inclusão digital. Portanto, no primeiro momento, da maneira como o sistema informático se apresenta nas escolas é possível identificar que os aspectos de inclusão estão sendo definidos. 45 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 Quando digo integrar é porque o que se quer não é o abandono das práticas já existentes, que são produtivas e necessárias, mas que a elas se acrescente o novo. Precisamos, portanto, de professores e alunos que sejam letrados digitais, isto é, professores e alunos que se apropriam crítica e criativamente da tecnologia, dando-lhe significados e funções, em vez de consumi-la passivamente. O esperado é que o letramento digital seja compreendido para além de um uso meramente instrumental. (FREITAS, 2010, p.341) Assim, nosso percurso de aprendizagem segue em busca da compreensão dos caminhos já trilhados e a serem trilhados para a sabedoria digital com vistas às competências digitais, pois como evidencia Martín-Barbero (2006 p.54): O lugar da cultura na sociedade muda quando a mediação tecnológica da comunicação deixa de ser meramente instrumental para espessar-se, condensar- se e converter- se em estrutural: a tecnologia remete, hoje, não a alguns aparelhos, mas, sim, a novos modos de percepção e de linguagem, a novas sensibilidades e escritas. (MARTÍN- BARBERO, 2006, p. 54) A partir da década de 1980, a novidade dos computadores, a principal competência priorizada nos processos educacionais era aquela relacionada à informática. O objetivo era, grosso modo, possibilitar a familiarização e a experiência com o computador. Com o avanço dessas tecnologias, passa-se dessas competências – da informação -, para as competências relacionadas à comunicação, avançando para termos como letramento informacional, Educação em Mídias, entre outros. Importante Essas perspectivas não se limitam apenas às TDIC, dizem respeito às discussões estabelecidas de forma geral às TIC e as suas influências no consumo e interferência na vida cotidiana das pessoas. 46 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 As mudanças dos conceitos estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento tecnológico decorrente e a forma como se possibilitam as relações com as tecnologias, suas funções e conexões no cotidiano. Essa base nos permite afirmar a partir das discussões propostas na segunda competência do nosso material, com base em Silva e Behar (2019), que o conceito de competências digitais foi construído à medida que as TDIC interferiam e modificavam as relações no âmbito da sociedade. Ainda, a complexidade tecnológica faz com que a cada dia uma nova necessidade “apareça” e uma nova tecnologia seja criada ou, uma anterior seja atualizada, o que não nos garante que “ter” a ferramenta digital seja sinônimo de “ser” digitalmente competente. Se, a partir do conceito de emancipação apresentado na abertura dessa competência em convergência aos termos e suas perspectivas apontados por Silva e Behar (2019), as práticas que efetivamos na interface com as TDIC seriam, de fato, convergentes para uma educação em prol da superação das desigualdades, o que possibilita a autonomia e a competência dos estudantes? Alfabetização e letramento digital A reflexão proposta não pretende ser respondida, ela nos servirá como “guia” nas análises que faremos sobre os termos que aparecem na sistematização apresentada na figura anterior e que, por vezes, povoam as práticas pedagógicas. O primeiro diz respeito à Alfabetização e Letramento digital. Aproximando ao conceito utilizado nos processos relacionado à Língua Portuguesa, entendemos alfabetização como o domínio do código escrito, com as habilidades de leitura e escrita, nessa perspectiva, o letramento, opera na compreensão do caráter comunicacional dessa ferramenta simbólica, em sua significação e identidade, ou seja, é o caráter de autonomia e emancipação na utilização da linguagem. 47 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 O letramento digital se constitui como Uma complexa série de valores, práticas e habilidades situados social e culturalmente envolvidos em operar linguisticamente dentro de um contexto de ambientes eletrônicos, que incluem leitura, escrita e comunicação. Nessa definição, letramento digital refere-se aos contextos sociais e culturais para discurso e comunicação, bem como aos produtos e práticas linguísticas e sociais de comunicação, e os modos pelos quais os ambientes de comunicação têm se tornado partes essenciais de nosso entendimento cultural do que significa ser letrado. (FREITAS, 2010, p.340) Transpondo para as TDIC, alfabetizar e letrar passa a, obrigatoriamente, agregar as mudanças tecnológicas, afinal, as demandas digitais e suas particularidades são essenciais para que a comunicação se efetive. Coll e Illera (2010) relacionam que ser alfabetizado e letrado, em tempos de tecnologias digitais, é preciso necessariamente ter conhecimentos e domínios das TDIC. Soares (2002) avança para as particularidades da leitura em tela, da hipertextualidade e das características que as TDIC agrupam ao código escrito. O letrado digitalmente interage com as tecnologias, realizando práticas como saber pesquisar, selecionar, avaliar a informação, realizar trocas entre pares, compartilhar, ser autor, sempre utilizando os recursos da Web, e utilizando diferentes ferramentas para isso (SILVA, 2012, p. 74). Nesse sentido, o processo de alfabetização e letramento – tradicional e digital – são desenvolvidos em conjunto, de modo concreto, mas acontecem em diferentes momentos. Entretanto, muito embora se configure como realidade, o letramento digital no sistema educacional se apresenta com certas limitações, pois é bastante comum, conforme evidencia Freitas (2010 p.341) que a conexão do profissional com as tecnologias da informação se dê, tão somente, a partir do uso superficial sem, portanto, se estabelecer uma conexão com os próprios instrumentos de aprendi zagem, prejudicando, portanto, a inclusão e integração do sistema educacional. Estuda-se sobre a informática na educação, mas não se forma o futuro professor, trabalhando seu letramento digital ou envolvendo-o em atividades de 48 Educação e tecnologia Desafios relacionados às tecnologias educacionais Capitulo 4 efetivo uso do computador-internet como instrumentos de aprendizagem. Debruçando-me sobre os dados e as análises dessa pesquisa, chego a pensar que essa aproximação com o letramento digital não deve ser feita, necessariamente, a partir de determinada disciplina, mas por meio de um trabalho contínuo, no interior de todas as disciplinas nas quais o professor, em sua formação inicial, possa experienciar o letramento digital no próprio processo pedagógico. (FREITAS, 2010, p.341) Uma prática que representa essa lógica é a do laboratório