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Roberta Hernandes • Ricardo Gonçalves Barreto MANUAL DO PROFESSOR ENSINO FUNDAMENTAL | ANOS FINAIS COMPONENTES CURRICULARES: ARTE, CIÊNCIAS, EDUCAÇÃO FÍSICA, GEOGRAFIA, HISTÓRIA, LÍNGUA INGLESA, LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA 8 O ANO ANO O 6 CAPA_INTEGRADORES_8e9ANO_PNLD2020_MP.indd 1 10/28/18 11:24 AM O ANO ANO O Roberta Hernandes Bacharel e licenciada em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) Mestre e doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP) Professora e Coordenadora de Língua Portuguesa na Rede Particular de Ensino Ricardo Gonçalves Barreto Bacharel e licenciado em Letras pela Universidade Mackenzie (SP) Mestre e doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP) Autor de livros didáticos e consultor em Educação São Paulo, 1a edição, 2018 ENSINO FUNDAMENTAL | ANOS FINAIS COMPONENTES CURRICULARES: ARTE, CIÊNCIAS, EDUCAÇÃO FÍSICA, GEOGRAFIA, HISTÓRIA, LÍNGUA INGLESA, LÍNGUA PORTUGUESA E MATEMÁTICA MANUAL DO PROFESSOR 8 6 Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 1 10/28/18 11:05 AM II Direção geral: Guilherme Luz Direção editorial: Luiz Tonolli e Renata Mascarenhas Gestão de projeto editorial: Mirian Senra e Heloisa Pimentel Edição: Antonio Alexandre Facciolli, Regina Gomes de Souza e Beatriz Nogueira Camargo Gerência de produção editorial: Ricardo de Gan Braga Planejamento e controle de produção: Paula Godo, Roseli Said e Márcia Pessoa Revisão: Hélia de Jesus Gonsaga (ger.), Kátia Scaff Marques (coord.), Rosângela Muricy (coord.), Ana Curci, Ana Maria Herrera, Ana Paula C. Malfa, Brenda T. M. Morais, Célia Carvalho, Cesar G. Sacramento, Claudia Virgilio, Diego Carbone, Gabriela M. Andrade, Hires Heglan, Luiz Gustavo Bazana, Amanda T. Silva e Bárbara de M. Genereze (estagiárias) Arte: Erika Tiemi Yamauchi (coord.) Diagramação: Nathalia Laia (assist. arte), Gustavo Vanini e Tatiane Porusselli (manual do professor) Iconografi a: Sílvio Kligin (ger.), Denise Durand Kremer (coord.), Iron Mantovanello Oliveira e Thaisi Lima (pesquisa iconográfi ca) Licenciamento de conteúdos de terceiros: Thiago Fontana (coord.), Celestina Perestrelo, Flávia Zambon, Liliane Rodrigues, Luciana Sposito (licenciamento de textos), Erika Ramires, Luciana Pedrosa Bierbauer, Luciana Cardoso Sousa e Claudia Rodrigues (analistas adm.) Tratamento de imagem: Cesar Wolf e Fernanda Crevin Ilustrações: Mário Kanno e Primo da Cidade ilustras & Co. Cartografi a: Eric Fuzii (coord.) Design: Erika Tiemi Yamauchi (proj. gráfi co) e Adilson Casarotti (capa) Ilustrações de capa: Nathalia Laia e Twin Design/Shutterstock Todos os direitos reservados por Editora Ática S.A. Avenida das Nações Unidas, 7221, 1o andar, Setor D Pinheiros – São Paulo – SP – CEP 05425-902 Tel.: 4003-3061 www.atica.com.br / atendimento@atica.com.br Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Hernandes, Roberta Da escola para o mundo, 8º e 9º anos : ensino fundamental, anos fi nais / Roberta Hernandes, Ricardo Gonçalves Barreto. — 1. ed. — São Paulo : Ática, 2018. Suplementado pelo manual do professor. Bibliografi a. ISBN: 978-85-08-18995-3 (aluno) ISBN: 978-85-08-19161-1 (professor) 1. Ensino fundamental. I. Barreto, Ricardo Gonçalves. II. Título. 2018-0101 CDD: 372 Julia do Nascimento - Bibliotecária - CRB-8/010142 2018 Código da obra CL 713630 CAE 630115 (AL) / 630116 (PR) 1a edição 1a impressão Impressão e acabamento Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 2 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR APRESENTAÇÃO Caro professor, Este Manual tem o objetivo de fornecer suporte e sugerir caminhos para o seu trabalho em sala de aula com os projetos integradores. Acreditamos na importância da mediação do professor na construção de uma sala de aula dinâmica e criativa e na formação de jovens com saberes e valores que os capacitem para a atuação cidadã no século XXI. Este Manual apresenta textos e fundamentação teórica para que você possa compreender a organização da coleção, os princípios que a norteiam e as escolhas teórico-metodológicas que fizemos. Compreender políticas públicas de educação e conhecer autores e documentos que discu- tem escolhas curriculares e a função da escola devem ser objeto de estudo do professor. Analisar conceitos e a teoria em que estão alicerçados bem como estar disposto a refletir sobre novas propostas e enfrentar novos desafios é o que torna o trabalho do professor ao mesmo tempo tão desafiador e tão recompensador. Além de mostrar como a obra está estruturada e em que está fundamentada, nos preo- cupamos em apresentar alternativas de como ela pode ser usada no dia a dia da sala de aula. Há textos de apoio e bibliografia que fornecem subsídios para o trabalho com os projetos, mostrando as aprendizagens que eles possibilitam, desde as conceituais às procedimentais e socioemocionais, complementando o cotidiano da sala de aula e formando, verdadeiramente, um aluno pronto para as demandas contemporâneas. Buscamos a escrita de um material claro e acessível, alinhado com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que dialoga criticamente com ela no desenvolvimento das Competências Gerais e das Habilidades dos vários componentes curriculares. Este Manual procura dar ele- mentos para que você estabeleça um alinhamento com essas diretrizes e esclareça dúvidas sobre o trabalho com os projetos em seu dia a dia, fortalecendo suas escolhas, ajudando-o a planejar seu curso e a estabelecer conexões possíveis com outros componentes e saberes. O Manual pode ser lido linearmente e também pode ser consultado em seus itens a partir de questões específicas, para entender melhor algum tópico ou buscar alguma complementa- ção às suas aulas. Esperamos que ele possa ser útil para ajudar você a enriquecer a sala de aula e tornar sua prática pedagógica ainda mais significativa. Os autores III Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 3 10/28/18 11:05 AM IV ORIENTAÇÕES GERAIS 1 Fundamentos .............................................................................................................................. V O que este Manual oferece ao professor ............................................................................................ IX O que esperar do trabalho com projetos ............................................................................................... X Como o trabalho com projetos propicia a aprendizagem inter e transdisciplinar ..................... XVI As competências socioemocionais ..................................................................................................... XVIII Como o trabalho com projetos ajuda a desenvolver as competências socioemocionais ...... X XIII Como o professor põe em prática e avalia as competências socioemocionais .........................X XV Fundamentação teórico-metodológica ...........................................................................................X XV Alinhamento com os documentos governamentais ................................................................ X XVI Temas integradores e o trabalho com projetos ....................................................................... X XVIII Como trabalhar com projetos na prática ............................................................................................X X X Como articular aulas específicas para o trabalho com projetos ................................................X X XV Os projetos no dia a dia da sala de aula ......................................................................................... X X XVI Como motivar a equipe para os projetos .....................................................................................X X XVIII A importância da situação-problema ou desafio ......................................................................X X XVIII 2 O adolescente no contexto escolar .............................................................................XXXIXter muito clara a necessidade de incorporar procedimentos de pesquisa que não necessariamente sejam típicos da sua própria formação acadêmica e, por último, compreender que algumas etapas do desenvol- vimento dos projetos devem necessariamente ficar por conta dos alunos, pois, para que eles sejam capazes de construir suas aprendizagens, é fundamental que a vivên- cia durante a pesquisa seja uma vivência aberta, em que o aluno possa testar hipóteses, pensar respostas alter- nativas aos problemas colocados e também trocar essas experiências com os colegas. De início, um projeto de trabalho demanda do professor um reequilíbrio dos termos que compõem sua relação com seus alunos e com os conhecimentos que deve ensinar. Em uma metodologia mais tradicional, o professor ocupa o cen- tro de irradiação dos conteúdos, pois é ele que determina suas escolhas, suas articulações, suas interpretações váli- das e como os alunos devem reproduzi-los. A postura ativa é totalmente comandada do professor, fazendo com que o conhecimento adquirido pelos alunos se restrinja, quando muito, àquilo que foi explorado nas aulas expositivas, nas leituras recomendadas e nos exercícios praticados. Como se pode ler no fragmento acima, o esforço de ado- tar a estratégia de projetos de trabalho não está no princí- pio (equivocado) de que sua realização dependeria de um esforço pedagógico surpreendente, um acúmulo enorme de conhecimentos, por parte dos professores, para torná-lo viável para ser levado adiante pelos alunos. Esse equívoco efetivamente pode ocorrer, se imaginarmos a realização de um projeto de trabalho situado no interior de uma pedagogia tradicional em que um único professor deve ser conhecedor de todos os conteúdos a serem trabalhados, pois é ele que Um dos aspectos que nos parece importante descre- ver neste inventário de última hora é que os Projetos não podem ser aplicados de maneira generalizada e seguindo um ímpeto inovador sem desvirtuá-los. Não porque exijam um complexo acúmulo de saberes, mas sim porque requerem uma vontade de mudança na maneira de fazer do professorado e um assumir o risco que implica adotar uma inovação que traz consigo, sobretudo, uma mudança de atitude profissional. HERNÁNDEZ, Fernando; VENTURA, Montserrat. A organização do currículo por projetos de trabalho o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Penso, 2017. p. 10. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 16 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XVII valida esses conteúdos dizendo aos alunos o que pode ser considerado certo ou errado. É próprio dos projetos de trabalho um pressuposto que, mesmo não explicitado por Hernández e Monserrat nesse fragmento lido, determina em grande medida sua nature- za pedagógica: a articulação de vários campos do saber na busca por respostas que devem ser construídas pelos alunos a partir de temas e questões desafiadoras. Ou seja, a concepção de projeto que apresentamos aqui necessa- riamente tem um caráter inter, multi ou transdisciplinar. As definições teórico-conceituais sobre as relações entre os diferentes componentes de ensino podem ocor- rer em níveis distintos de organização: multidisciplinar- mente, interdisciplinarmente, transdisciplinarmente. A necessidade de buscar alternativas para uma proposta pedagógica que ultrapassasse um processo de ensino- -aprendizagem excessivamente acadêmico e pouco re- lacionado à complexidade da vida fora da escola tem na metodologia de projetos uma resposta à importância da integração das novas problemáticas da vida social e cien- tífica, das novas organizações do trabalho e das novas formas de expressão humana, aspectos fundamentais para que os alunos reconheçam suas experiências es- colares como decisivas para se integrarem no mundo. A necessidade de incorporar os projetos integradores a momentos planejados dentro do currículo não deve ser atribuída, portanto, a uma mudança radical que, segundo a compreensão de muitos, via a escola como esvaziada da tarefa histórica de transmissora de conhecimentos acumulados pela humanidade, mas sim a uma nova abor- dagem da relação entre a escola e o mundo, segundo a qual a mera transmissão de conhecimentos não é sufi- ciente para entendê-lo em sua complexidade atual. O ponto crucial dessa transformação, como aponta o fragmento lido, está na “mudança de atitude profissional”, o que significa uma maneira nova de os professores se re- lacionarem tanto com o conhecimento que acumularam em sua formação quanto com o modo de propor alternativas para que os alunos aprendam esses mesmos conhecimen- tos. O termo “atitude” carrega dois significados complemen- tares: uma ação, um fazer algo; e um valor que embasa essa ação. A “atitude profissional”, portanto, aponta para uma prática (nesse caso, pedagógica, já que falamos do traba- lho do professor) amparada em um conjunto de crenças e valores (ou seja, em um posicionamento frente a algo). A “atitude profissional”, no contexto escolar, relaciona-se a uma ética do trabalho, mas também a um modo de ver o ensino-aprendizagem como algo passível de ser modificado por sua escolha de atuação. Diferenças conceituais entre multi, inter e transdisciplinaridade Para Nildo Nogueira (2001), no viés da multidis- ciplinaridade, “não existe nenhuma relação entre as disciplinas, assim como todas estariam no mesmo nível sem a prática de um trabalho cooperativo”. Por essa razão, evidencia-se um pressuposto de justapo- sição e uma independência entre os saberes de cada componente integrados ao projeto. Para termos uma visão clara de como se constitui essa relação entre os componentes, podemos imaginar, por exemplo, situações nas quais professores de diferentes compo- nentes aproveitam espaços, circunstâncias, recursos comuns para que seus alunos façam atividades cujo significado se construa somente para cada um des- ses componentes, em separado. Língua Portuguesa Matemática Arte Educação Física Ciências História Geografia Língua Inglesa Esquema que representa a relação multidisciplinar entre os componentes do Ensino Fundamental II, em que não ocorre interação entre os diferentes componentes. Frigotto (1995) defende que a interdisciplinari- dade é “uma necessidade relacionada à realidade concreta, histórica e cultural, constituindo-se assim como um problema ético-político, econômico, cultural e epistemológico”. Ou seja, é o interesse ou a neces- sidade de conhecer um aspecto da realidade que não se explica totalmente pela abordagem de conteúdos e práticas de um único componente que torna fun- damental a unificação de frentes diferentes que se complementam para a resolução de um problema. No esquema a seguir, que deve ser considerado apenas como um exemplo, perceba que os componentes se inter-relacionam formando blocos em torno de pro- blemas que podem ser explorados somente na inter- secção de componentes. A Matemática não resolve o projeto sem a participação da História e da Geografia, por exemplo. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 17 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXVIII Educação Física Ciências Matemática História Geografia Arte Língua Portuguesa Língua Inglesa Esquema que representa a relação interdisciplinar entre os componentes do Ensino Fundamental, em que ocorrem interações necessárias entre os diferentes componentes. Menezes (2001) explica a transdisciplinaridade como a superação da departamentalização do saber em diferentes disciplinas buscando a intercomuni- cação entre as disciplinas, suprimindo as fronteiras entre elas. Para tanto, temas transversais devem ser abordados e, embora cada campo de conhecimento mantenha suas especificidades, ocorre um intercâm- bio frequente entre eles, formando, inclusive, novos campos. Podemos citar como exemplo conhecimentos que estão na Física e também na Química, de onde se cria a Físico-química como uma área de conhecimentoao mesmo tempo nova, mas que mantém um vínculo com suas disciplinas de origem. Como se pode ver no esquema abaixo, o início do projeto pode ocorrer em atividades propostas por uma disciplina, mas sequen- ciadas em outras ou em algumas disciplinas ao mesmo tempo, desde que o aluno tenha experimentado o co- nhecimento de conceitos fundamentais e de problemas particulares e de aspectos metodológicos específicos de cada componente para acumular um saber que lhe permita transitar para outra disciplina. Assim, o aluno vai desenvolvendo um percurso no qual os saberes acumulados vão lhe dando uma competência maior para abordar problemas que não podem ser solucio- nados a partir de uma única disciplina. Outro aspecto importante: é claro que não é necessário que todos os componentes curriculares estejam num mesmo proje- to; eles devem se agrupar a partir do desafio proposto. Língua Portuguesa Matemática Arte Educação Física Ciências História Geografia Língua Inglesa Esquema que representa a relação transdisciplinar entre os componentes do Ensino Fundamental II, em que os saberes transitam de um componente para outro. Todo projeto desenvolvido em sala de aula pressupõe a troca e a construção de conhecimentos coletivos. Nem todos eles têm natureza inter e transdisciplinar. Para que isso ocorra, é necessário que intencionalmente o projeto aponte para articulações entre componentes em seu início, ao longo e ao final de sua execução, conside- rando-os, inclusive, no produto final proposto. Em mo- mentos específicos, é importante que alguns conceitos relacionados a conteúdos isolados presentes no projeto possam ser abordados com a profundidade esperada. Não se deve acelerar o ritmo das etapas a fim de atender às necessidades de um cronograma externo a elas. Cada aluno aprende os conteúdos no seu ritmo. Por outro lado, os projetos têm data de início e de término; por isso, é importante garantir uma avaliação contínua para eles, como veremos adiante. Um projeto bem-sucedido não ne- cessariamente é aquele em que os alunos se saem bem em todas as atividades e etapas previstas. É possível, por exemplo, que uma dificuldade inicial seja superada por um aluno numa etapa posterior, e ele possa, de algum modo, encontrar maneiras diferentes das estipuladas inicialmente para se vincular ao projeto. Se numa primei- ra atividade em grupos o aluno encontrou dificuldades para expor sua opinião, ele deve ser estimulado a se re- colocar em outras etapas e assim ter a oportunidade de construir um caminho para si no projeto, no seu ritmo, mas obedecendo a direcionamentos comuns. É preciso lembrar sempre aos alunos o caráter coletivo e social da aprendizagem por projetos. As competências socioemocionais As competências socioemocionais incluem um con- junto de habilidades voltadas para o modo como cada um mobiliza suas emoções no contato com o outro e na convivência em sociedade. Ser capaz de gerenciar seus projetos de vida, autoconhecer-se e buscar colaborar com empatia na vida comunitária são alguns dos objetivos buscados pelo desenvolvimento de competências so- cioemocionais. No campo da pedagogia, entre as importantes discus- sões teóricas sobre o papel da escola na formação social de crianças e jovens, estão as ideias desenvolvidas por John Dewey (1859-1952). O autor é responsável por um dos modelos que até hoje influencia a compreensão das relações entre escola e sociedade e de como desen- volver aprendizados por meio de situações ligadas à resolução de problemas reais, com práticas criativas e de cooperação. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 18 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XIX John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco O filósofo norte-americano defendia a democracia e a liberdade de pensamento como instrumentos para a maturação emocional e intelectual das crianças [...] Dewey é o nome mais célebre da corrente filosófica que ficou conhecida como pragmatismo, embora ele preferisse o nome instrumentalismo – uma vez que, para essa escola de pensamento, as ideias só têm im- portância desde que sirvam de instrumento para a re- solução de problemas reais. No campo específico da pedagogia, a teoria de Dewey se inscreve na chamada educação progressiva. Um de seus principais objetivos é educar a criança como um todo. O que importa é o crescimento – físico, emocional e intelectual. O princípio é que os alunos aprendem melhor rea- lizando tarefas associadas aos conteúdos ensinados. Atividades manuais e criativas ganharam destaque no currículo e as crianças passaram a ser estimuladas a experimentar e pensar por si mesmas. Nesse contex- to, a democracia ganha peso, por ser a ordem política que permite o maior desenvolvimento dos indivíduos, no papel de decidir em conjunto o destino do grupo a que pertencem. Dewey defendia a democracia não só no campo institucional, mas também no interior das escolas. Estímulo à cooperação Influenciado pelo empirismo, Dewey criou uma esco- la-laboratório ligada à universidade onde lecionava para testar métodos pedagógicos. Ele insistia na necessidade de estreitar a relação entre teoria e prática, pois acredi- tava que as hipóteses teóricas só têm sentido no dia a dia. Outro ponto-chave de sua teoria é a crença de que o conhecimento é construído de consensos, que por sua vez resultam de discussões coletivas. “O aprendizado se dá quando compartilhamos experiências, e isso só é possível num ambiente democrático, onde não haja barreiras ao intercâmbio de pensamento”, escreveu. Por isso, a escola deve proporcionar práticas conjuntas e promover situações de cooperação, em vez de lidar com as crianças de forma isolada. Seu grande mérito foi ter sido um dos primeiros a chamar a atenção para a capacidade de pensar dos alu- nos. Dewey acreditava que, para o sucesso do processo educativo, bastava um grupo de pessoas se comunican- do e trocando ideias, sentimentos e experiências sobre as situações práticas do dia a dia. Ao mesmo tempo, reconhecia que, à medida que as sociedades foram fi- cando complexas, a distância entre adultos e crianças se ampliou demais. Daí a necessidade da escola, um espaço onde as pessoas se encontram para educar e ser educadas. O papel dessa instituição, segundo ele, é reproduzir a comunidade em miniatura, apresentar o mundo de um modo simplificado e organizado e, aos poucos, conduzir as crianças ao sentido e à compreen- são das coisas mais complexas. Em outras palavras, o objetivo da escola deveria ser ensinar a criança a viver no mundo. “Afinal, as crianças não estão, num dado momento, sendo preparadas para a vida e, em outro, vivendo”, ensinou, argumentando que o aprendizado se dá jus- tamente quando os alunos são colocados diante de pro- blemas reais. A educação, na visão deweyana, é “uma constante reconstrução da experiência, de forma a dar-lhe cada vez mais sentido e a habilitar as novas gerações a responder aos desafios da sociedade”. Edu- car, portanto, é mais do que reproduzir conhecimentos. É incentivar o desejo de desenvolvimento contínuo, preparar pessoas para transformar algo. A experiência educativa é, para Dewey, reflexiva, re- sultando em novos conhecimentos. Deve seguir alguns pontos essenciais: que o aluno esteja numa verdadeira situação de experimentação, que a atividade o interes- se, que haja um problema a resolver, que ele possua os conhecimentos para agir diante da situação e que tenha a chance de testar suas ideias. Reflexão e ação devem estar ligadas, são parte de um todo indivisível. Dewey acreditava que só a inteligência dá ao homem a capacidade de modificar o ambiente a seu redor. Liberdade intelectual para os alunos A filosofia deweyana remete a uma prática docente baseada na liberdade do aluno para elaborar as pró- prias certezas, os próprios conhecimentos, as próprias regras morais. Isso não significa reduzir a importância do currículo ou dos saberes do educador. Para Dewey, oprofessor deve apresentar os conteúdos escolares na forma de questões ou problemas e jamais dar de antemão respostas ou soluções prontas. Em lugar de começar com definições ou conceitos já elaborados, deve usar procedimentos que façam o aluno raciocinar e elaborar os próprios conceitos para depois confron- tar com o conhecimento sistematizado. Pode-se afir- mar que as teorias mais modernas da didática, como o construtivismo e as bases teóricas dos Parâmetros Curriculares Nacionais, têm inspiração nas ideias do educador. [...] FERRARI, Márcio. John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco. Revista Nova Escola. 1o out. 2008. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2018. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 19 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXX todas as potencialidades de cada indivíduo: memó- ria, raciocínio, sentido estético, capacidades físicas, aptidão para comunicar-se. • No momento em que os sistemas educacionais for- mais tendem a privilegiar o acesso ao conhecimento, em detrimento das outras formas de aprendizagem, é mister conceber a educação como um todo. Essa pers- pectiva deve no futuro inspirar e orientar as reformas educacionais, seja na elaboração dos programas ou na definição de novas políticas pedagógicas. DELORS, Jacques (Org.). Educação: um tesouro a descobrir – destaques. São Paulo: Faber-Castell; Brasília, DF: Unesco, 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. Os quatro pilares da educação Pistas e recomendações • A educação ao longo da vida baseia-se em quatro pi- lares: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a conviver e aprender a ser. • Aprender a conhecer, combinando uma cultura ge- ral, suficientemente ampla, com a possibilidade de estudar, em profundidade, um número reduzido de assuntos, ou seja: aprender a aprender, para benefi- ciar-se das oportunidades oferecidas pela educação ao longo da vida. • Aprender a fazer, a fim de adquirir não só uma qua- lificação profissional, mas, de uma maneira mais abrangente, a competência que torna a pessoa apta a enfrentar numerosas situações e a trabalhar em equipe. Além disso, aprender a fazer no âmbito das diversas experiências sociais ou de trabalho, ofereci- das aos jovens e adolescentes, seja espontaneamen- te na sequência do contexto local ou nacional, seja formalmente, graças ao desenvolvimento do ensino alternado com o trabalho. • Aprender a conviver, desenvolvendo a compreensão do outro e a percepção das interdependências – rea- lizar projetos comuns e preparar-se para gerenciar conflitos – no respeito pelos valores do pluralismo, da compreensão mútua e da paz. • Aprender a ser, para desenvolver, o melhor possível, a personalidade e estar em condições de agir com uma capacidade cada vez maior de autonomia, dis- cernimento e responsabilidade pessoal. Com essa finalidade, a educação deve levar em consideração As ideias de Dewey foram importantes para pensar a es- cola no início do século XX. Ele já chamava a atenção para a necessidade de um aluno crítico, atuante na construção de conceitos e de seu próprio saber, e para o valor democrático da educação. Questionar e construir o conhecimento por meio da criatividade estavam no horizonte desse pensador. Apesar de progressista, sua escola não é considerada crítica dos conteúdos, ou seja, não se propõe a uma transformação da realidade, mas a um ajustamento do aluno aos lugares em que vive e às funções que ocupa e que pode ocupar. A necessidade de preparar o aluno não só para conteúdos conceituais e procedimentais, mas também para conteúdos atitudinais tornou-se uma das marcas da chamada educa- ção para o século XXI. Jacques Delors aponta, no texto a seguir, para a necessidade de considerar quatro dimensões na formação integral do indivíduo: o aprender a conhecer, o aprender a fazer, o aprender a conviver e o aprender a ser. A primeira ideia que se destaca no texto de Delors é que não há uma prevalência entre essas aprendizagens; todas são igualmente fundamentais e o projeto curricular deve saber articular atividades que favoreçam seu desenvol- vimento. Sabe-se, porém, que o aprender a conhecer e o aprender a fazer têm merecido destaque na formação de sujeitos desde o processo de industrialização iniciado na Europa no século XVIII. Desde então, a preocupação em integrar-se ao mundo de forma mais genérica passa pela ênfase em aprendizagens básicas e se volta para o mundo do trabalho. Para Delors, a educação deve respeitar um modelo de desenvolvimento mais valorizador da natureza e dos ritmos humanos. Isso quer dizer que nenhum trabalho deve se so- brepujar às condições básicas de integralidade das pessoas, o que significa a somatória dos seus interesses e de suas possibilidades. No que diz respeito à natureza, ela não pode ser vista como a fonte inesgotável de recursos atendendo a uma finalidade do consumo. Olhar para o homem inserido num processo de transformação da existência, para Delors, é dar ênfase ao lugar do trabalho ao mesmo tempo em que se deve também planejar um lugar para o futuro. O espaço de planejamento desse futuro, sem dúvida, é a escola. Cada jovem e criança que ingressa no ambiente escolar, indepen- dentemente de aspectos específicos de cada componente do currículo, dá início ao planejamento de um futuro não só individual como também social. A proposta de Delors, nesse sentido, não é reconfigurar cada uma das atividades que são propostas nesse espaço, mas sim ressignificá-las de acordo com que chamou de pilares da educação. No panorama escolar, isso significa que professores e alunos não devem se dedicar exclusivamente ao estudo de conteúdos conceituais e procedimentais, mas que a escola deve incluir em seu projeto o desenvolvimento do saber conviver e do saber ser. Ou seja, os alunos devem apren- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 20 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXI der aspectos inerentes às práticas sociais. Do ponto de vista prático, desenvolver valores associados aos pilares do saber conviver e do saber ser não é apenas organizar uma tarde de troca de ideias sobre determinado filme, pela simples razão de que nenhuma aprendizagem se resolve pontualmente. Por outro lado, se é trabalhado ao longo de um curso o conceito de ciência vinculado às necessidades sociais (de que maneira o progresso científico se associa ao bem-estar da humanidade, como a ciência e a tecnologia apontam para um futuro melhor, qual é o compromisso dos cientistas e dos institutos em que realizam suas pesquisas com a comunidade em seu entorno?) a ideia do que vem a ser ciência para o aluno passa a ter um sentido bastante distinto daquele relacionado muitas vezes à alta ciência (cientistas altamente especializados, com pouco diálogo com a sociedade, preocupados prioritariamente com seus currículos pessoais). A complexificação da realidade contemporânea, por- tanto, tem exigido outras habilidades e competências na formação dos alunos, principalmente aquelas relacionadas ao compartilhamento de experiências, à integração de sabe- res para solução de problemas e à aceitação de diferentes pontos de vista sobre o real multifacetado. Por essa razão, a atenção para as competências socioemocionais transfor- ma-se numa necessidade, e elas precisam ser trabalhadas de modo deliberado nas escolas. Atividades individuais e coletivas, quando propostas no ambiente escolar, devem considerar não apenas aspectos cognitivos, mas também aspectos socioemocionais. Não se trata apenas de saber se o aluno tem condições de operar com determinado conceito ou conteúdo, mas também de avaliar como consegue fazê-lo, considerando limitações e componentes socioemocionais que estarãorelaciona- dos ao que lhe é solicitado. Uma proposta de apresentação oral, por exemplo, precisa contar com uma preparação que trabalhe a autoconfiança do aluno. Conhecer seus limites e estratégias indica caminhos para superá-los, tornando o aluno mais potente na realização de um projeto. A empatia é outro componente socioemocional fundamental no manejo de trabalhos em grupo e também na troca de ideias coletiva na formulação de um debate. Outro ponto importante é a construção de uma postura positiva frente ao conhecimento. Quando se deseja que o aluno valorize manifestações artísticas e culturais, inú- meras propostas podem ser feitas, mas elas não necessa- riamente garantirão que o aluno compartilhe dos mesmos gostos e escolhas com seus pares e professores. O que deve estar no horizonte da escola é propiciar vivências e fruições que levem o aluno a uma atitude de respeito à diversidade. Fazer suas próprias escolhas a partir do contato com o co- nhecimento faz parte da formação integral do indivíduo. O respeito ao outro e aos direitos humanos deve guiar essas escolhas por um viés democrático, inclusivo, sustentável e solidário. Muitos desses aspectos, se não são trabalhados na es- cola e de forma intencional, acabam não sendo discutidos num foro mais amplo, para além dos valores individuais e familiares. Cabe à escola propor alternativas, como as que o trabalho com projetos integradores pode propiciar, para que, na definição de seu projeto de vida, o aluno conside- re suas necessidades inseridas nas demandas do mundo contemporâneo, buscando inserir-se nele de forma crítica e atuante para que seja capaz de fazer escolhas alinhadas a parâmetros de cidadania com autonomia, criticidade, res- ponsabilidade e liberdade. São várias as possibilidades de leitura das competên- cias socioemocionais propostas pela BNCC. Um desses caminhos é não entender socioemocional como mais uma dimensão somada a outras, da mesma forma que a aqui- sição de conhecimentos específicos dos componentes. É possível formular, portanto, interpretações e aplicações dos componentes socioemocionais em sua relação com os vários saberes (saber conhecer, saber fazer, saber conviver e saber ser). A Competência 1, por exemplo, tem como foco o processo de construção do saber e sua valorização. Esse conheci- mento, porém, não deve ser destacado de seu processo histórico, e deve se referir ao mundo físico, social, cultural e digital. Deve, isso sim, colaborar para a construção de uma sociedade justa, democrática e inclusiva, aspectos que dizem respeito não só a valores coletivos, como também a escolhas e valores individuais. Não se pode falar em valorizar e fruir manifestações artísticas diversas, como propõe a Competência 3, sem implicar o aluno na vivência particular das situações de produção e troca de bens artísticos e culturais. O domínio e a exploração de diferentes linguagens, previstos na Com- petência 4, valorizadas tanto no âmbito escolar quanto no âmbito social, requerem dos alunos uma aproximação gra- dativa da linguagem como forma de expressão. Sabe-se que o domínio de diferentes linguagens nesse momento da escolaridade contribui para configurar a identidade de cada aluno, pois elas são usadas para manifestar seus gostos e seus posicionamentos frente a problemas locais e globais e como ferramenta de compartilhamento de informações, experiências, ideias e sentimentos. Há aí, componentes socioemocionais evidentes e que devem ser contemplados no desenvolvimento dessa competência. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 21 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXII Algumas das competências gerais da BNCC estão dire- tamente ligadas ao desenvolvimento socioemocional. Um exemplo são as articulações propostas pela Competência 6 entre o mundo do trabalho, o exercício da cidadania e a defini- ção de projetos pessoais. Nesse sentido, os alunos devem, a partir de situações de ensino-aprendizagem propostas pelos professores, desenvolver a capacidade de gerar alternativas futuras para sua própria vida, assim como entender quais papéis sociais podem exercer nas comunidades em que tran- sitarem. Estabelecer projetos de vida permite uma relação mais contundente com várias das aprendizagens que reali- zam ao longo de sua vida escolar. É claro que a relação não deve ser direta, como trabalhar um conteúdo disciplinar que explore as relações de trabalho nas comunidades em que as escolas se inserem. Um projeto com esse fim deve ser uma etapa para uma reflexão mais ampla, em que os alunos possam projetar modos de vida futuros. O cerne da Competência 8 encontra-se na autocom- preensão de características físicas e emocionais no con- texto da diversidade humana. Momentos em que o aluno possa realizar uma autoavaliação de seu desempenho, em situações estabelecidas pelo professor, favorecem o co- nhecimento de limites e de interesses por parte dos alunos. Observar sua trajetória pontuada por momentos autorrefle- xivos favorece também um tratamento menos conflituoso com a autoimagem e com seu potencial de aprendizagem, rebatendo, assim, estereótipos ou modelos que predefinam o que é ou não ser um bom aluno ou um bom cidadão, por exemplo. Conhecer seus próprios limites emocionais, reco- nhecer desafios como possibilidade de avanço e não como crítica ao insucesso, autocuidar-se e apreciar-se devem se tornar atitudes importantes na troca entre os alunos nos momentos de sala de aula. A Competência 9 pressupõe uma atitude fundamental na vivência em sociedade: a empatia. A escola deve entender que as relações de empatia, cooperação, respeito, diálogo e capacidade de mediação de conflitos fazem parte do con- junto de experiências significativas que um currículo deve contemplar. O professor, portanto, não deve partir da ideia de que certos saberes relacionados à vida social estejam plenamente compreendidos e articulados ao modo de ser dos alunos. Boa parte das regras sociais válidas em várias sociedades são desenvolvidas nas escolas, pois podem ser entendidas como aprendizagens a serem construídas a partir da relação com o outro. A diversidade é um pressu- posto democrático de qualquer comunidade. Ao longo dos Anos Finais do Ensino Fundamental, o aluno pode participar de atividades em que se coloque no lugar do outro, em que vivencie problemas que atingem os jovens, ainda que não diretamente a ele, e pensar em alternativas para a convi- vência social que repudiem toda espécie de preconceito. Por fim, a Competência 10 volta-se para o campo da atuação cidadã permeada por princípios solidários, sus- tentáveis, inclusivos e democráticos. A fim de que a pers- PENIDO, Anna. Dimensões e Desenvolvimento das Competências Gerais da BNCC. Movimento pela Base; Center for Curriculum Redesign. Disponível em: . Acesso em: 12 out. 2018. c ré d it o a rt e : R e g ia n y S il v a /P o rv ir Este infográfico apresenta as 10 Competências Gerais da BNCC organizadas de forma esquemática. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 22 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXIII pectiva socioemocional seja a base das ações de ordem pessoal e coletiva, é importante que as situações de ensi- no-aprendizagem sejam marcadas por responsabilidade, resiliência, autonomia e determinação. Pensar um mundo solidário e sustentável requer um olhar para o outro e para suas próprias escolhas que privilegie alternativas mais inclusivas e coletivas. Para isso, o espaço escolar deve propiciar o contato com problemas relacionados à realidade social e propor ao aluno o desafio de, em conjunto com os colegas e com a mediação do professor, enfrentá-los com criatividade e ousadia. Como o trabalho com projetos ajuda a desenvolver as competências socioemocionais Como apontamos no item anterior, o desenvolvimento das competênciassocioemocionais está relacionado a um trabalho em que o aluno tenha protagonismo e possa vi- venciar papéis diversos na construção do conhecimento e na valorização não apenas do que Delors chama de saber conhecer e saber fazer, mas também vincular-se ao saber conviver e ao saber ser. Somente aprendendo com o outro e se autoconhecendo, o aluno é capaz de fazer escolhas ci- dadãs e eticamente responsáveis. Conhecer seus gostos e interesses, bem como seus limites e dificuldades é outro ponto fundamental, já que muitas das escolhas que fazemos ao longo da vida estão ligadas a esse tipo de reflexão: o que pretendemos estudar após o Ensino Básico; a profissão que escolheremos; o modo como desejamos atuar no mundo. Numa sociedade que passa por transformações cada vez mais velozes, a importância de desenvolver consciência so- bre esses processos torna-se ainda mais premente. O texto a seguir situa a importância de trabalhar as competências socioemocionais no contexto contemporâneo. Competências socioemocionais Educação para o século 21 Mais exercícios, mais repetição e mais testes podem até resultar em uma nota maior, mas não prepararão o aluno de forma integral e, muito menos, darão conta de desenvolver todas as competências que ele necessita para enfrentar os desafios do século 21. Enquanto o mundo abre espaço e cobra que os jovens sejam pro- tagonistas de seu próprio desenvolvimento e de suas comunidades, o ensino tradicional ainda responde com modelos criados para atender demandas antigas. A rea- lidade é que o ser humano é definitivamente complexo e, para desenvolvê-lo de maneira completa, é necessário incorporar estratégias de aprendizagem mais flexíveis e abrangentes. Uma das saídas para reconectar o indivíduo ao mun- do onde vive passa pelo desenvolvimento de competên- cias socioemocionais. Nesse processo, tanto crianças como adultos aprendem a colocar em prática as me- lhores atitudes e habilidades para controlar emoções, alcançar objetivos, demonstrar empatia, manter re- lações sociais positivas e tomar decisões de maneira responsável, entre outros. Uma abordagem como essa pode ajudar, por exemplo, na elaboração de práticas pedagógicas mais justas e eficazes, além de explicar por que crianças de um mesmo meio social vão trilhar um caminho mais positivo na vida, enquanto outras, não. Longe de ser um modismo, a preocupação com o de- senvolvimento dessas características sempre foi objetivo da educação e precisa ser entendido como um processo de formação integral, que não se restringe à transmis- são de conteúdos. Então o que muda? Para que consiga alcançar esse propósito, a inclusão de competências socioemocionais na educação precisa ser intencional. “A gente está falando de uma mudança de cultura, de compreensão de vida, do que a gente acredita que é o ser humano, o conhecimento, a aprendizagem e de qual é o papel da escola”, explica Anita Abed, consul- tora da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura). “O conhecimento em si deve ser amplamente significativo e prazeroso, algo da ordem socioemocional”, diz. A nova visão não implica em deixar de lado o grupo de competências conhecidas como cognitivas (interpre- tar, refletir, pensar abstratamente, generalizar aprendi- zados), até porque elas estão relacionadas estreitamente com as socioemocionais. Pesquisas revelam que alunos que têm competências socioemocionais mais desen- volvidas apresentam maior facilidade de aprender os conteúdos acadêmicos. No livro “Uma questão de ca- ráter”, o escritor e jornalista americano Paul Tough vai além, e coloca que o sucesso no meio universitário não está ligado ao bom desempenho na escola, mas sim à manifestação de características como otimismo, resi- liência e rapidez na socialização. O livro ainda explica que competências socioemocionais não são inatas e fixas: “elas são habilidades que você pode aprender; são habilidades que você pode praticar; e são habilidades que você pode ensinar”, seja no ambiente escolar ou dentro de casa. Evolução do debate A discussão sobre o papel e a importância das com- petências socioemocionais ganhou corpo no mundo inteiro ao longo das últimas décadas. Nos anos 90, o surgimento do Paradigma do Desenvolvimento Humano, proposto pelo PNUD (Programa das Na- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 23 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXIV ções Unidas para o Desenvolvimento) e a publicação do Relatório Jacques Delors, organizado pela Unesco, representaram um importante passo para o debate so- bre a importância de uma educação plena, que consi- dere o ser humano em sua integralidade. O primeiro texto coloca as pessoas no centro dos pro- cessos de desenvolvimento e aponta a educação como oportunidade central para prepará-las para escolhas e ajudá-las a transformar seu potencial em competências. Já o relatório da Unesco sugere um sistema de ensino fundado em quatro pilares: (i) aprender a conhecer, (ii) aprender a fazer, (iii) aprender a ser, e (iv) aprender a conviver. A partir desse momento, especialistas das mais di- versas áreas, como economia, educação, neurociên- cias e psicologia, começaram a definir quais seriam as competências necessárias ao alcance dos quatro pilares propostos e se haveria outros grandes objetivos para o aprendizado. Para isso, os estudos investigaram a relação entre desenvolvimento socioemocional e desen- volvimento cognitivo, bem como o elo de ambos com os diversos contextos de aprendizagem (escola, família, comunidade, ambiente de trabalho, etc.) e com diversos indicadores de bem-estar ao longo da vida (renda, saúde e segurança, entre outras). Segundo o especialista em educação de Hong Kong Lee Wing On, as competências e habilidades listadas por essas pesquisas estão intimamente conectadas com as chamadas soft skills (habilidades maleáveis, em li- vre tradução), que compreendem um conjunto de ca- racterísticas sociais, reguladoras e comportamentais (Heffron, 1997; Heckman e Kaultz, 2012). Também se relacionam com o conceito de capital social (Putnam, 1995), que é determinado pelo nível de cooperação en- tre integrantes de uma comunidade. Esses conceitos abrangem capacidades que se modificam a partir de experiências e da interação com outras pessoas (por isso o termo soft, em contraposição aos menos maleáveis inteligência e conhecimento, tal como medidos por testes de desempenho e QI). Mais recentemente, as atenções se voltaram a como levar para as escolas e disseminar o desenvolvimento de competências socioemocionais. Na esteira, organismos multilaterais como a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) passaram a produzir conhecimento para apoiar governos e insti- tuições a criarem políticas e práticas voltadas intencio- nalmente para a promoção dessas competências, com apoio de métodos específicos para este fim. Competências socioemocionais. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. Nas discussões pedagógicas atuais, o foco tem sido, cada vez mais, o que chamamos de formação integral do aluno: uma formação que contemple suas múltiplas inser- ções sociais e pessoais, suas interações com os grupos em que transita e suas demandas afetivas. Isso quer dizer que não se entende o conhecimento acadêmico, por si só, como absoluto. Ele está relacionado com a multiplicida- de de vivências que também fazem parte da inserção do aluno na vida social. Outro fator fundamental à formação integral é protagonismo dos alunos no ensino por projetos. Protagonismo não quer dizer que os alunos não possam se aproximar dos professores ou dos colegas para resolver dúvidas pontuais ou para entender melhor certa atividade. Ou seja, ser protagonista não quer dizer isolar-se de toda e qualquer interação na construção de conhecimento, mas sim que o aluno ocupa um lugar centralna troca que esta- belece com os outros. Esse é um dos preceitos básicos do que chamamos de sociointeracionismo: o aluno aprende com as interações que consegue promover com os cole- gas, o material didático, o professor e a busca pessoal por mais conhecimento. Oportunizar aos alunos a vivência de inúmeras interações socioemocionais planejadas no inte- rior do currículo tem como objetivo que eles se preparem para uma complexidade que existe no mundo ao seu redor. O vínculo da escola com a vida, de um modo produtivo e consciente, se dá, dessa forma, para além de buscar temas que exploram o que se acredita ser a realidade no interior da sala de aula. Um mundo complexo como o contemporâneo pressupõe uma sala de aula que comporte a flexibilidade necessária para compreender o mundo e interagir nele, além de considerar a complexidade dos seres humanos envolvi- dos nesse processo de ensino-aprendizagem. Como o texto aponta, o trabalho com as competências socioemocionais não se reduz a um modismo. É por meio do desenvolvimento dessas competências que se pode atingir a formação de valores dentro da escola. A valorização de atitudes baseadas em empatia, no compartilhamento de conhecimentos, na contribuição com as causas de outros tem como ponto de partida o desenvolvimento dessas com- petências. Não é necessário, segundo o texto, abandonar a visão de currículo centrada nas aprendizagens cognitivas, já que elas estão relacionadas às socioemocionais. O que é preciso é instigar os alunos a ampliar sua própria reflexão sobre o que aprenderam, vendo no conhecimento algo mais amplo do que memorizar conteúdos ou aprender a executar tarefas. Portanto, explorar o significado pessoal e social do conhecimento é uma etapa que fortalece a metarreflexão e prepara o aluno para se tornar cada vez mais autônomo na compreensão, no compartilhamento e no posicionamento crítico frente aos conhecimentos que circulam na sociedade. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 24 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXV Como o professor põe em prática e avalia as competências socioemocionais Todo trabalho com projetos pressupõe o trabalho com atitudes diante do conhecimento e com as competências socioemocionais. Como o foco não é o conteúdo ou o proce- dimento voltado para um único componente, mas sim um trabalho coletivo e que mobiliza mais de um componente, trata-se, necessariamente, de uma aprendizagem que prevê múltiplas tarefas, de natureza vária e que serão, em algum momento, construídas coletivamente. Como todos os projetos previstos nesta coleção se cons- troem por meio de atividades individuais e coletivas, é im- portante destacar como as competências socioemocionais são trabalhadas em diferentes momentos dos projetos. As atividades individuais propõem o trabalho com habilidades e conteúdos e mobilizam também competências socioe- mocionais. Ao buscar entender e explicar a realidade para colaborar com sua comunidade na relação entre o global e o local, por exemplo, o aluno estará realizando tarefas que incluem uma atitude frente aos desafios propostos, um tipo de aprendizado de outra ordem. Não basta nesse caso pedir a ele que responda questões sobre o tema, mas sim propor discussões que o levem à ação, dentro de um conjunto de valores de cidadania que prezam a sociedade democrática e a transformação social. Em outros momentos, o aluno é convidado a falar de si, a tratar de suas emoções e escolhas, como é o caso da escrita de sua autobiografia de leitor. Mas é sobretudo nas atividades em grupo que as com- petências socioemocionais são trabalhadas, na proposta desta coleção. Como todos os projetos preveem produtos coletivos ou que, embora individualmente construídos, com- ponham um todo representativo do conjunto de alunos, as competências socioemocionais ocupam neles um lugar de destaque. Colocar-se no lugar do outro, manifestar empatia pelas dificuldades que um colega apresente, cooperar com a solução de problemas, demonstrar e exercitar princípios éticos e inclusivos ao longo do projeto são ações esperadas dos alunos na realização dos projetos propostos. Ao propor a realização de um projeto, o professor pode, primeiramente, apresentar aos alunos quais são suas ex- pectativas em relação às atitudes previstas. Durante a execução do projeto, o professor deve intervir sempre que julgar necessário e mediar desde conflitos no interior de grupos de trabalho até dificuldades específicas dos alunos e resistências quanto à realização de atividades pontuais. A depender do que esteja acontecendo, o professor pode propor alternativas que garantam a continuidade do projeto e a vinculação do aluno a ele. Se, por exemplo, o aluno en- frenta dificuldades em encontrar um grupo para trabalhar, o professor pode montar os grupos e incluí-lo em um deles. Se o aluno apresentar dificuldades para realizar uma ativi- dade sozinho, pode propor que se sente junto a um colega para realizar o trabalho em dupla. Em vários momentos dos projetos, o professor é alertado a valorizar alunos com habilidades específicas, como saber tocar instrumentos, gostar de escrever textos jornalísticos ou criar histórias em quadrinhos, ser hábeis desenhistas ou ter habilidades manuais que facilitem a construção de artefatos. Saber compartilhar esses saberes com outros colegas auxilia na concretização de produtos coletivos e é uma atitude que deve ser valorizada quando se trabalha com projetos. Ao final de cada projeto há uma proposta de avaliação que privilegia questões socioemocionais. É esperado que, a cada projeto realizado e a cada avaliação e autoavaliação pela qual o aluno passe, ele possa aprimorar atitudes e au- toconhecer-se para atuar de modo mais protagonista e mais coletivo. Valorize esse momento do projeto e, se achar con- veniente, inclua questões que façam o aluno refletir sobre seu percurso, apontando eventuais falhas e pontos em que pode se aprimorar. Indique sempre aos alunos que registrem essa etapa final em seus Diários de bordo. Antes de cada projeto pode-se retomar o final do anterior e destacar o que se deseja que seja mais bem resolvido no projeto que se inicia. Pedir aos alunos que proponham metas pessoais é outra estratégia que pode ser profícua na aprendizagem de atitudes e competências socioemocionais. Fundamentação teórico-metodológica Não podemos dizer que o trabalho com projetos seja uma novidade no âmbito escolar. Existe uma base reflexiva consistente, realizada por muitos educadores, a respeito do que é necessário para que um projeto faça parte do currí- culo escolar de um modo mais amplo, imaginando-o como uma estratégia fundamental que possa integrar saberes e procedimentos, desenvolver habilidades e competências. Como já foi dito, boa parte dos professores que traba- lham cotidianamente nas escolas, o fazem de maneira iso- lada, avaliando, por essa razão, os resultados a que chegam individualmente, ignorando um conjunto variável de ca- pacidades que é reconhecido pelos alunos, muitas vezes, como o mais importante em sua trajetória de formação. Ou seja, o aluno aprende globalmente, mas o professor o avalia pontualmente. Não podemos afirmar que necessariamente o aluno aprende melhor quando o conteúdo é fragmentado. Entre- tanto muitos estudiosos da educação afirmam o oposto: a capacidade dos alunos de aprender conteúdos inter-re- lacionando-os e mobilizando conhecimentos adquiridos Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 25 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXVI em tempos e circunstâncias diferentes é, no geral, pouco explorada pelo professor. Os currículos se organizam por blocos ordenados de conteúdos, muitas vezes desco- nectados entre si. Ainda que se queira estabelecer uma relação progressiva entre esses blocos, caminhando de aspectos mais simples para outros mais complexos, o que podemos afirmar é que, num modelo tradicional, o aluno, ao passar de um blocode conhecimento para ou- tro, interioriza como modelo daquela ciência essa mesma sequenciação. Ela se torna absoluta, um paradigma de aprendizagem dos conteúdos daquela disciplina, justifi- cado por colocações como “Mas essa é a única forma de aprender esse conteúdo” ou “Antes de aprender X, você não consegue aprender Y”. Por outro lado, propostas que se articulam a partir de questões desafiadoras podem potencializar maneiras novas de trabalho em sala de aula junto aos alunos e até mesmo a ressignificação de uma perspectiva pedagógica fundada em condutas mais combinadas de habilidades e competências que são, no geral, reconhecidas somente como voltadas a certos componentes. É o caso de alguns conteúdos que envolvem as tecnologias digitais. Esse con- teúdo em si não se apresenta como parte tradicional de um currículo, porém, seu ingresso nos Componentes Ciências, Geografia e Língua Portuguesa, a partir da BNCC, propicia uma abertura para que seja problematizado no interior de outros conteúdos. O que se faz aqui, portanto, é a criação de um novo intervalo, em que capacidades e habilidades necessárias para a vida em sociedade se tornem alvo de atividades pedagógicas planejadas intencionalmente por um grupo de professores. O trabalho com projetos integradores, segundo di- versos estudiosos da história da educação, remonta à concepção da educação clássica grega, que tinha como pressuposto a formação de um indivíduo no contexto de uma civilização. Platão, em A república, ressalta o papel da filosofia como um projeto educativo voltado para a sociedade, como uma estratégia de formação para que as pessoas pudessem exercer sua liberdade e suas po- tencialidades. Dessa reflexão parte a ideia da formação integral do ser humano. A ideia de projeto, de educação e de sociedade, nesta raiz que vem da Antiguidade clássica vê o potencial de apren- dizagem do ser humano como um motor de transformação da sua própria realidade, que só se constitui plenamente a partir de um projeto que integre as várias ciências com as quais compreendemos o mundo que nos cerca. Esse é o conceito da paideia grega: em sua formação, as ciências que pensam a natureza possuíam uma relevância tão grande quanto a aprendizagem da dança e da música, assim como a literatura era tão significativa quanto a Matemática e a Astronomia. De certa forma, esta é uma inspiração para a escolha dos componentes que dialogam nos projetos inte- gradores desta coleção. Contemporaneamente, com a hiperespecialização dos conteúdos disciplinares e com o tecnicismo que passou a dominar muitos dos projetos curriculares, passou-se a colocar aprendizagens fundamentais para formação de valores e atitudes em segundo plano. A ênfase em saberes conceituais e em procedimentos tornou-se sinônimo de currículo “forte”. Ao passo que atividades que integram diversas competências (incluindo as socioemocionais) passaram a designar currículos fracos e pouco impac- tantes do ponto de vista das necessidades de formação social do indivíduo. A sociedade que se desenha por trás desse confronto entre “currículos fortes” e “currículos fra- cos” é justamente a sociedade que se quer transformar por meio da contribuição dos projetos integradores tais quais são pensados nesta proposta: ciências se relacio- nam com compreensões sobre sujeito social; Matemática se tornando uma espécie de possibilidade de leitura das expressividades simbólicas da música; patrimônio como um ponto de convergência de aspectos históricos, geo- gráficos e artísticos; tecnologias digitais como um ponto a partir do qual podemos ler o passado e pensar o futuro, dentre outras propostas desta obra. Nessa perspectiva, vários autores contribuem com a fundamentação desta obra, ora como inspiração, ora como referência direta. O primeiro deles: Paulo Freire e sua proposição segundo a qual todos podem aprender; Fernando Hernández e seus diversos parceiros, pela sistematização de um currículo a partir de projetos de trabalho; John Dewey, pela visão da educação como um agente de democratização da sociedade; Jeremy Bruner por sua concepção da progressão do currículo em espiral e pelo conceito de processo de descoberta no ensino; David Ausubel, pelo conceito de aprendizagem significativa e, por fim, Léa Depresbiteris, pela clareza por meio da qual compreende o processo de avaliação da aprendizagem dos alunos. Alinhamento com os documentos governamentais A homologação da Base Nacional Comum Curricular em dezembro de 2017 apontou para o movimento de articular nacionalmente um projeto comum de educação para o Brasil. Veja a seguir como a BNCC é definida: Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 26 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXVII Um documento de caráter normativo que define o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica, de modo a que tenham assegurados seus direitos de apren- dizagem e desenvolvimento, em conformidade com o que preceitua o Plano Nacional de Educação (PNE). BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, DF, 2017. p. 7. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2018. Orientada por princípios éticos, políticos e estéticos, a BNCC visa à formação de uma sociedade justa, democrática e inclusiva. Nesse sentido, elenca dez Competências gerais e explicita por meio delas a importância da educação vincu- lada a valores, atitudes e ações que se espera desenvolver com os alunos ao longo de sua formação na educação bá- sica. O olhar para aspectos atitudinais e socioemocionais aponta para a necessidade de formar não apenas jovens preparados no sentido técnico do termo, mas também no sentido integral, que contemple a atuação social e a con- tribuição cidadã na comunidade. Esta coleção reconhece o valor dessa escolha e busca, por meio dos projetos integra- dores propostos, formar jovens capazes de interferir social- mente, por meio de conhecimentos, saberes, competências e habilidades, no entorno que compõe a comunidade escolar e a realidade para além dos muros da escola. Outro ponto de convergência desta coleção com a BNCC é o reconhecimento da necessidade de refletir sobre o que aprender, como ensinar, como promover redes de aprendi- zagem (fundamentais no trabalho com projetos) e como avaliar o aprendizado alcançado. Segundo a BNCC, No novo cenário mundial, reconhecer-se em seu con- texto histórico e cultural, comunicar-se, ser criativo, ana- lítico-crítico, participativo, aberto ao novo, colaborativo, resiliente, produtivo e responsável requer muito mais do que o acúmulo de informações. Requer o desenvolvimento de competências para aprender a aprender, saber lidar com a informação cada vez mais disponível, atuar com discernimento e responsabilidade nos contextos das cul- turas digitais, aplicar conhecimentos para resolver proble- mas, ter autonomia para tomar decisões, ser proativo para identificar os dados de uma situação e buscar soluções, conviver e aprender com as diferenças e as diversidades. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, DF, 2017. p. 14. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2018. O compromisso educativo proposto pela Base é o da formação integral do aluno. Acreditamos que o aprendizado por projetos integradores possibilita ao aluno vivências que o encaminham no sentido de uma aprendizagem global. Seja pelo caráter não linear dos projetos, seja por sua com- plexidade e necessidade de busca por fontes variadas na construção do conhecimento, seja pelas várias atitudes que mobiliza e pelos valores que promove, os projetos são um caminho significativo na formaçãointegral de jovens aprendizes. A possibilidade de trilhar múltiplos caminhos estabelece parcerias entre componentes e campos do co- nhecimento e a oportunidade de vivenciar práticas culturais e científicas diversas também contribui para uma amplia- ção de repertório e para uma prática não discriminatória e contrária a qualquer forma de preconceito, como prevê o texto da Base. Um dos pontos presentes na Base quanto aos conteú- dos dos componentes curriculares diz respeito à ação de contextualizar esses conteúdos e utilizar estratégias para trabalhar com eles, exemplificando-os, conectando-os, tor- nando-os significativos para os alunos a partir da realidade do tempo e do lugar nos quais se situam suas aprendiza- gens. Esse é o caminho proposto pela aprendizagem por projetos que, além de mobilizar conteúdos de vários com- ponentes e situá-los a partir de uma questão ou problema diretamente relacionado com a comunidade de que o aluno participa, propõe um olhar inter e/ou transdisciplinar em sua realização. Outro ponto que aproxima a BNCC da aprendi- zagem por projetos é a necessidade de utilizar estratégias mais dinâmicas, interativas e colaborativas em relação às propostas de ensino. Se o objetivo é formar um aluno mais engajado e ativo em sua aprendizagem; utilizar metodologias e estratégias mais ativas e diversificadas; pôr em prática não apenas conheci- mentos, mas também atitudes e procedimentos; olhar para as necessidades de diferentes comunidades e culturas de origem, os projetos integradores constituem um caminho para a realização dessas intenções em sala de aula. Ao discutir as especificidades dos Anos Finais do Ensino Fundamental, o documento da BNCC chama a atenção para alguns pontos, entre eles a necessidade de ressignificar as aprendizagens do Ensino Fundamental Anos Iniciais antes de passar à complexificação delas, própria dos Anos Finais do Ensino Fundamental, e também para a importância de fortalecer a autonomia dos alunos nessa etapa de ensino. A escola pode também, segundo o documento, “contribuir para o delineamento do projeto de vida dos estudantes, ao estabelecer uma articulação não somente com os anseios desses jovens em relação ao seu futuro, como também com a continuidade dos estudos no Ensino Médio” (BNCC, p. 60). Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 27 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXVIII A reconstrução da realidade nas instituições escolares Educar é uma ação profundamente política e ética, apesar de os discursos conservadores e liberais preten- derem dissimular esta idiossincrasia. Portanto, o êxito das intervenções educacionais está ligado a um compro- misso consciente e cuidadoso com a comunidade à qual se pretende servir; não devemos esquecer que por isso a escola é uma instituição com frequência obrigatória. Se a instituição escolar desempenha um papel im- portante na estratégia de preparação de sujeitos ativos, críticos, solidários e democráticos para uma sociedade que queremos transformar nessa direção, é óbvio que poderemos ou não ser bem-sucedidos nesta missão, na medida em que as salas de aula e instituições escolares convertam-se em um espaço em que essa mesma so- ciedade que nos rodeia possa ser submetida a revisão e crítica, e possamos desenvolver as habilidades impres- cindíveis para participar e aperfeiçoar a comunidade concreta e específica da qual fazemos parte. Assim, não se trata de transformar as culturas das etnias minoritárias ou sem poder, o mundo feminino, a classe trabalhadora etc., em suplementos do currícu- lo escolar; em temas complementares para que nossa consciência possa ficar mais tranquila. Entretanto, esta é a tônica de trabalho em muitas das nossas sa- las de aula quando desenvolvem o que poderíamos chamar de “currículo de turistas”. Currículos nos quais a informação sobre comunidades silenciadas, marginalizadas, oprimidas e sem poder é apresentada de maneira deformada, com grande superficialidade, centrada em episódios descontextualizados, etc. Sua forma mais generalizada se traduz em uma série de Cabe à escola e às propostas pedagógicas apresentadas por ela garantir experiências que possibilitem seu desenvolvimen- to e que o aluno se sinta capaz de projetar um futuro em que os estudos e sua formação integral estejam em seu horizonte. Ao tratar da passagem dos Anos Iniciais aos Anos Finais do Ensino Fundamental, o texto da BNCC destaca que o cui- dado de “realizar as necessárias adaptações e articulações, tanto no 5o quanto no 6o ano, para apoiar os alunos nesse processo de transição, pode evitar ruptura no processo de aprendizagem, garantindo-lhes maiores condições de su- cesso” (BNCC, p. 57). Acreditamos que, tanto na passagem do 5o para o 6o ano quanto na passagem do ciclo 6o/7o para o ciclo 8o/9o, é necessário estarmos atentos para o momento cognitivo e psicossocial vivido pelo aluno e cuidar para que os desafios propostos não estejam além do que ele é capaz de realizar naquele momento. Projetos com produtos mais concretos e com questões desafiadoras mais mediadas foram pensados tanto para o volume 1 desta coleção quanto para o primeiro projeto previsto para cada ano seguinte(7o, 8o e 9o). Como veremos adiante, a questão da adolescência na escola nos coloca uma série de desafios e nenhum outro segmento de ensino apresenta saltos em termos de personalidade e capacida- des de atuação cognitiva tão significativos quanto cada um dos quatro anos finais do Ensino Fundamental. Transforma- ções corporais e mudanças significativas na capacidade de abstração dos alunos se darão ao longo dessa etapa. Propor projetos e dinâmicas que considerem essa com- plexidade pode tornar a tarefa de formar esses jovens algo mais significativo e uma forma de aproximar o professor de seus alunos. A organização da BNCC em seus vários componentes obedece a lógicas próximas: em Língua Portuguesa, há eixos de organização que apontam para campos de atuação, prá- ticas de linguagem, objetos de conhecimento e habilidades. Em Língua Inglesa, a organização se dá por eixos, unida- des temáticas, objetos de conhecimento e habilidades. Nos demais componentes (Arte, Educação Física, Matemática, Ciências, Geografia, História e Ensino Religioso), a organiza- ção se dá por unidades temáticas, objetos de conhecimento e habilidades. Essas formas de organização apontam para uma visão mais articulada do conhecimento ao retirar o foco dos conteúdos e lançá-lo sobre habilidades que podem ser trabalhadas conjuntamente por mais de um componente, especialmente no desenvolvimento de um projeto integra- dor. Nessa perspectiva, o conteúdo não é visto como um fim em si mesmo, mas como um viabilizador de construção das competências e habilidades que estão em seu escopo. Esse é também o objetivo do trabalho por projetos integradores do modo como está proposto nesta coleção. Temas integradores e o trabalho com projetos A importância do trabalho com temas integradores, ou seja, temas que estão relacionados ao contemporâneo e que afetam a vida humana em escala global, como preser- vação do meio ambiente, processo de envelhecimento, edu- cação em direitos humanos, trabalho, ciências e tecnologia e diversidade cultural, entre outros, deve ser considerada pelos educadores ao proporem o trabalho com projetos a seus alunos. Uma das possibilidades do trabalho com esses temas é a reconstrução da realidade, ou seja, a problematização do status quo por meio de projetos e temas selecionados para ampliar a reflexão dos alunos e aprofundar seu senso crítico. É o que nos aponta o texto de Jurjo Santomé, trans- crito a seguir. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 28 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXIX lições ou unidades didáticas isoladas, destinadas a proporcionar aos estudantes uma tomada de contato com realidades e problemas de grande atualidade. Trata-se de propostas de trabalho desligadas das pro- gramaçõesvigentes no centro escolar, temáticas que não cabem nos recursos didáticos mais usados, os livros-texto. Fazer um currículo de turistas é trabalhar esporadicamente, por exemplo, um dia por ano, em temas como a luta contra os preconceitos racistas, ou dedicar-se a refletir sobre as formas adotadas pela opressão das mulheres, ou da classe trabalhadora, pes- quisar a poluição, as guerras, os idiomas oprimidos, etc. As situações sociais cotidianamente silenciadas e que, em geral, são apresentadas como questões proble- máticas nessa sociedade concreta na qual está situada a instituição escolar (as etnias oprimidas, as culturas nacionais silenciadas, as discriminações de classe so- cial, gênero, idade etc.) passam a ser contempladas de uma perspectiva distante, como algo que não tem a ver com cada uma das pessoas que se encontram nessa sala de aula, algo estranho, exótico, ou mesmo problemático. Além disso, habitualmente se esclarece que sua solução não depende de ninguém em concreto, que está fora do nosso alcance; as situações são con- templadas, porém afirma-se que não temos capacidade de incidir sobre elas. Podemos falar da existência de um “currículo de tu- ristas” sempre e quando esse tipo de temáticas referen- tes à diversidade sejam tratadas da seguinte maneira: 1. Trivialização. Isto é, estudando os grupos sociais diferentes dos majoritários com grande superficiali- dade e banalidade, de uma perspectiva similar à das pessoas que fazem turismo, analisando, por exemplo, aspectos como seus costumes alimentares, seu folclo- re, suas formas de vestimenta, seus rituais festivos, a decoração de suas moradias, etc. 2. O tratamento da informação como recordação ou dado exótico, com uma presença quantitativa muito pouco importante nos recursos didáticos disponíveis (semelhante às recordações de uma viagem turística). Esta forma de trabalhar a diversidade social e cul- tural seria aquela na qual, entre o total de unidades didáticas a trabalhar em determinada etapa educa- cional, ou entre os recursos didáticos disponíveis na sala de aula, só uma parte muito pequena servisse como “recordação” dessas culturas silenciadas e/ou diferentes. Por exemplo, quando na biblioteca exis- tir apenas um livro que contempla estas dimensões multiculturais; ou quando no conjunto de recursos didáticos ou brinquedos houver apenas uma boneca negra [...]. 3. Desligando as situações de diversidade da vida co- tidiana nas salas de aula. É uma das formas mais frequentes de enfrentar a diversidade. Este é o caso da situação que conhecemos como “o dia de...”. Em um dia determinado, ou em apenas uma disciplina, nos detemos neste tipo de problemáticas sociais; no resto dos dias do curso escolar essas realidades são silenciadas, ou mesmo atacadas. [...] 4. A estereotipia, ou o recurso a imagens estereotipadas das pessoas e situações pertencentes a essas diferen- tes classes. Recorre-se a explicações justificativas das situações de marginalidade baseadas em estereóti- pos. [...] Tentar transformar esses falsos estereótipos em algo objetivo é uma das estratégias maniqueístas utilizadas para perpetuar situações de marginaliza- ção e opressão. 5. A tergiversação. Deforma-se ou oculta-se a história e as origens dessas comunidades objeto de margina- lização e/ou xenofobia. Este é o caso mais perverso de tratamento curricular, pois tratar-se-ia de cons- truir uma “história à medida” para que situações de opressão sejam “naturais”. Explica-se que, se existem grupos marginalizados ou oprimidos, isto se deve à sua inferioridade genética, à sua vagabundagem, à sua maldade inatas, etc. As tergiversações também ocorrem quando se recorre a explicações da margi- nalização fundamentando-a na estrutura familiar dessas populações, na qual ainda conservam costu- mes bárbaros ou hábitos de vida inadequados. [...] Uma política educacional antidiscriminatória não pode reduzir-se a uma série de lições ou unidades didá- ticas isoladas destinadas ao estudo desta problemática. Não podemos dedicar apenas um dia por ano à luta contra os preconceitos raciais e a marginalização. Um currículo democrático e respeitador de todas as cul- turas é aquele no qual estão presentes problemáticas durante todo o curso escolar, todos os dias, em todas as tarefas acadêmicas e em todos os recursos didáticos. Uma educação democrática e não excludente não é aquela que trabalha com conteúdos culturais fragmen- tados, que representam apenas a história, tradições, produtos e vozes dos grupos sociais hegemônicos (em geral, a denominada cultura europeia, que representa os interesses e valores dos grupos sociais com poder econômico, social, político, militar e religioso). Ao contrário, uma educação antimarginalizadora tem de ser planejada e desenvolvida com base na revisão e reconstrução do conhecimento de todos e cada um dos grupos e culturas do mundo (Torres Santomé, J., no prelo). Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 29 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXX Um dos pontos abordados no texto é a ligação da escola com a comunidade a que pertence, o olhar para o outro, que vive no seu entorno. Sabemos da importância de es- tudar fenômenos gerais, que extrapolam o lugar e o tempo do aluno e dão a ele a possibilidade de reconhecer-se num universo de referências que não está limitado à dimensão prática de sua existência. É importante entrar em contato com saberes que não traduzem diretamente os fenômenos sociais e naturais que os alunos são capazes de observar. No entanto, esse olhar mais abrangente não pode excluir o olhar para sua própria realidade e suas possibilidades de in- tervir nela. Os projetos desta coleção buscam um constante diálogo com a comunidade de pertencimento do aluno. Os produtos finais buscam devolver à comunidade parte do que foi desenvolvido pelos alunos, sempre de modo significativo para eles. A partir do estudo da energia, é proposto pelos alunos que a comunidade repense seus gastos com energia elétrica numa abordagem que parta da possibilidade de redução do consumo. Identificar problemas dentro e fora da sala de aula e propor atividades que possam integrar a comunidade e diminuir situações de preconceito são ações efetivas de atuação da escola no caminho da cidadania. Os projetos escapam à armadilha de tratar de temas como a condição feminina, etnias minoritárias e o desrespeito à sua cultura de modo pontual, ou, como aponta Santomé, desenvolver um “currículo de turistas”. Culturas e práticas silenciadas e marginalizadas durante séculos exigem apro- fundamento e visibilidade para que a situação em que se encontram seja revertida. Práticas como tratar de temas es- pecíficos apenas em um dia do ano ou realizar uma manhã de debates sobre o assunto dificilmente revertem situações construídas e solidificadas quase que diariamente pelos dis- cursos hegemônicos. Combater o silenciamento e dar voz à diversidade é uma das tarefas que toda escola que se quer democrática e inclusiva deve incorporar. Nesta coleção, as questões relacionadas à diversidade não são tratadas de modo “trivializado” já que manifesta- ções da cultura popular encontram espaço de discussão tanto quanto questões relacionadas a grupos majoritários. O tratamento dado a esses temas também não é visto como algo exótico, de que se deva recordar, simplesmente, como algo visitado e registrado. Como as atividades propostas pressupõem fruição, experimentação e um estudo dos sentidos que estão por trás dessas manifestações, não se incorre no risco do exotismo. Um exemplo é a encenação do Bumba meu Boi proposta num dos projetos do 7o ano. Na medida em que os alunos estudam e recriam a festa como protagonistas e pessoas da comunidade também participam ativamente, é promovida a conexão de saberes de ordens distintas e valorizada a cultura popular. O combate à estereotipia se faz a partir de múltiplos olhares sobre um mesmo tema. Somente desconstruindo históriasé possível considerar a superação de maniqueís- mos. Desnaturalizar toda forma de opressão e de olhar so- bre o outro que o reduza a estereótipos e a uma história considerada menor ou menos desenvolvida, é pressuposto de uma educação voltada para a diversidade. Nesta coleção, os projetos buscam mostrar outras possibilidades de leitu- ra de mundo e da realidade, propondo-se a desenvolver a crítica e a construir práticas educacionais mais inclusivas. Entre os temas socialmente relevantes trabalhados nesta coleção estão: a relação entre o uso que fazemos da água e o meio ambiente; o respeito e a valorização do idoso, visto como um importante portador de saberes e de culturas; questões relacionadas à saúde e à prática de atividade física; educação em direitos humanos; ciência e tecnologia e diversidade cultural. Pode-se destacar também a visibilidade que é dada para questões relacionadas à mu- lher, à cultura indígena e à cultura afro-brasileira. Como trabalhar com projetos na prática Trabalhar com projetos demanda tão somente um profes- sor interessado em construir o conhecimento junto com seus alunos, compartilhando com eles etapas, decisões coletivas e o prazer de construir algo coletivamente. As recompensas por escolher essa metodologia, por outro lado, são inúmeras: alunos dispostos e focados; autorregulação dos alunos diante dos objetivos e tarefas a serem cumpridos; uma sala de aula dinâmica, em que o professor ocupa o papel de mediador e destina o protagonismo a seus alunos; a expectativa da con- cretização do estudo por meio de um produto final significativo. É preciso construir práticas educacionais para que os alunos e alunas desmascarem as dinâmicas políticas, históricas e semióticas que condicionam nossas inter- pretações, expectativas e possibilidades de intervir na realidade. Os estudantes têm conhecimentos prévios, conceitos, experiências de vida, concepções da vida, expectativas, preconceitos aprendidos fora da escola, nos contextos familiares, de bairro e especialmente na mídia. Uma es- cola antimarginalização é aquela na qual todo esse co- nhecimento prévio, quase sempre adquirido de maneira passiva, é comparado com a ajuda da crítica, construído e reconstruído democraticamente, levando sempre em consideração as perspectivas de classe social, gênero, sexualidade, etnia e nacionalidade. [...] SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 30 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXXI Para o professor que inicia o trabalho com projetos in- tegradores, seguem algumas indicações úteis. Ao escolher um projeto que pretende desenvolver (são quatro opções por ano), é importante verificar os componentes envolvi- dos e as habilidades trabalhadas. Com base no diálogo com os professores dos demais componentes envolvidos, você pode lhes propor o desenvolvimento conjunto desse proje- to, podendo negociar quantas aulas cada um vai destinar a esse trabalho. Por exemplo: se cada professor envolvido destinar uma aula semanal para o segundo projeto do 6o ano, Cordel, que envolve três componentes, será possível desenvolvê-lo com folga no tempo, considerando que cada projeto tem a duração prevista de um bimestre. Se não for possível constituir uma parceria, ou seja, se nenhum outro professor puder participar do projeto, você pode realizá-lo mesmo assim, redimensionando as atividades e o tempo e, eventualmente, destinando duas ou três aulas a mais para as etapas que demandem mais trabalho. Isso varia muito de projeto para projeto: em alguns, as etapas preparatórias de- mandam mais tempo que a construção do produto final; em outros, acontece o inverso: a execução do produto demanda mais tempo. A partir do envolvimento dos alunos e de sua adesão, componha juntamente com eles um cronograma para o projeto e exponha-o em um lugar acessível a todos (um cartaz colado na sala de aula, por exemplo). Os próprios alunos vão ajudar você a administrar o tempo. Decidido o projeto e organizado um cronograma, é hora de estimular a curiosidade e o interesse dos alunos por meio da pergunta-desafio que abre o projeto. Explore a pergunta, detecte os conhecimentos prévios dos alunos sobre o tema, pergunte a eles que expectativas têm em relação ao projeto e só então passe à realização das tarefas. Durante a realiza- ção do projeto, cuide para que haja variedade na formação das duplas, trios e grupos maiores. Conforme o produto que estiver sendo desenvolvido, talvez seja necessário manter o mesmo grupo. Se não for esse o caso, opte pela rotatividade. Ela proporciona maior contato entre os alunos e impede que alguns problemas se consolidem. Um aspecto importante quanto à organização, quando se trabalha com projetos, diz respeito a antecipar necessi- dades. Programe sua sequência de aulas considerando as etapas a serem executadas e, se por acaso for necessário trazer materiais para a montagem de um artefato, combine com os alunos uma data anterior para receber e guardar os materiais, de modo que a execução da atividade não fique prejudicada pelo eventual esquecimento dos alunos. Outro ponto significativo diz respeito à organização da sala. O espaço deve estar limpo e as carteiras e materiais a serem usados dispostos de modo a não apresentar riscos aos alunos e possibilitar a circulação do professor pela sala, mas o arranjo de uma sala destinada ao trabalho com proje- tos integradores pode ser muito diverso daquele usado em uma aula convencional. Devido à discussão dos alunos em grupos, haverá um grau maior de ruído; para a construção de artefatos, haverá produção de lixo (que deve ser reco- lhido pelos alunos, um pouco antes do final da aula); pro- vavelmente, a circulação dos alunos pela classe será maior do que a usual, etc. Todas essas situações fazem parte do trabalho com projetos e devem ser administradas. Se even- tualmente ocorrer muita desorganização, retome alguns combinados com os alunos e estabeleçam em conjunto o que é aceitável e o que não é nessas aulas. Com alunos de 6o ano, e mesmo com os maiores, é recomendável fazer um cartaz com as regras para as aulas de projetos, para que todos se sintam comprometidos com esse espaço coletivo. A conclusão dos projetos propostos nesta coleção prevê o compartilhamento dos produtos finais com a comunidade. Embora haja sugestões de como fazer isso para cada um dos projetos, é preciso considerar o contexto de cada comuni- dade escolar e, se for preciso, adaptar essas finalizações. Algumas comunidades são muito receptivas para atividades aos sábados e para a criação de espaços de convivência. Certamente receberão bem um encerramento de projeto que promova uma feira de produtos locais ou um sábado espor- tivo na escola. Outras podem ser resistentes a esse tipo de atividade e, nesse caso, vale a pena repensar, juntamente com a equipe gestora da escola, a forma de compartilhamen- to do produto final. Atividades simples e pontuais podem substituir as que foram propostas e cumprir igualmente o objetivo principal: proporcionar a troca entre os alunos e a comunidade. Mais que apenas uma exposição orgulhosa do produto alcançado, a ideia é que os alunos possam comparti- lhar conhecimento, mostrar o percurso que executaram para chegar ao produto, destacar o que aprenderam. Essa pos- sibilidade é que deve ser garantida ao final de cada projeto. A avaliação é outro ponto importante. Diferentemente de conteúdos específicos, que são avaliados de forma pontual, os projetos requerem uma avaliação contínua. Isso significa acompanhar o projeto e intervir nele a todo momento. Não basta desencadear o projeto e deixá-lo livremente na mão dos alunos. Observar e mediar cada etapa e atividade do projeto permite ao professor resolver conflitos e impas- ses e garantir a qualidade do processo e sua finalização, sem surpresas. Eventualmente, em funçãoQuem são os alunos do Ensino Fundamental em seus Anos Finais e como eles aprendem ............................................................................................................................ X X XIX Como os projetos podem favorecer o desenvolvimento dos adolescentes ..................XLV 3 Formas de avaliação ............................................................................................................XLVI 4 Estrutura da coleção ................................................................................................................... L Perfil de cada parte do livro ........................................................................................................................ L Progressão dos projetos de um ano para o outro ........................................................................ LIV Sobre as competências ..............................................................................................................................LV 5 Quadro dos volumes ............................................................................................................... LVI 6 Bibliografia de apoio ............................................................................................................LVIII 8o ano .................................................................................................................................... LX 9o ano............................................................................................................................... LXXIII Reprodução do Livro do Aluno ............................................................................................. 1 ORIENTAÇÕES POR ANO SUMÁRIO Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 4 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR V Sempre que nos propomos a pensar a educação e a refle- tir sobre como efetivar certas escolhas e ideias a respeito de ensino e aprendizagem, estamos buscando responder a perguntas como: Quais são as finalidades últimas da educa- ção? Que tipo de sociedade e de cidadão queremos e deve- mos formar? A partir dessas questões se organizam as leis da educação, os currículos das escolas, os planejamentos dos professores e as atividades dos alunos. Ou seja, do plano mais amplo à tarefa mais simples, o que se procura é refletir sobre a função social da escola. No texto a seguir, esse tema é apresentado por Coll e Martín. ORIENTAÇÕES GERAIS 1 Fundamentos A função social da escola Todos nos desenvolvemos em diferentes contextos educativos, e a escola é apenas um deles. Assim como su- cede atualmente em muitas culturas, na nossa também não existia escola até um momento histórico bastante recente. Diante da falta das instituições de educação for- mal, a tarefa de fazer com que os novos membros façam parte do grupo social correspondente, desenvolvendo neles as capacidades próprias de sua cultura, é garanti- da mediante outro tipo de práticas sociais, fundamen- talmente aquelas que se desenvolvem no contexto da família e dos grupos de pares, e mediante a progressiva incorporação das crianças e dos jovens às atividades produtivas dos adultos. Nesses casos, a socialização e o desenvolvimento individual dos membros das novas gerações se torna possível graças à sua participação nas atividades e práticas sociais que ocorrem em tais con- textos de desenvolvimento (Solé, 1998). Nas sociedades modernas, o aumento do conhecimento e da especialização exige novas aprendizagens cuja aqui- sição não pode ser garantida mediante a participação desses tipos de práticas e de atividades, mas requer uma ajuda intencional, planejada e sistemática. A institucio- nalização da educação escolar no decorrer do século XIX, assim como sua universalização e ampliação progressiva durante o século XX, são justificadas pelo fato de que tal ajuda é decisiva para que crianças e jovens possam adquirir e desenvolver determinadas capacidades con- sideradas fundamentais no grupo social do qual fazem parte. Embora seja evidente que, objetivamente, a institui- ção escolar desempenha muitas outras funções – trans- missão da cultura, construção da identidade nacional, reprodução da ordem social, formação da mão de obra de acordo com as exigências do mercado de trabalho, etc. – a existência da educação escolar, especialmente, em seus níveis básicos e obrigatórios, só se legitima plenamente mediante sua indispensável função de contribuir para que as crianças e os jovens adquiram e desenvolvam as competências necessárias para se incorporarem como membros de pleno direito à sociedade à qual pertencem. Desse ponto de vista, a escola é uma instituição uti- lizada pela sociedade para oferecer aos membros das novas gerações as experiências de aprendizagem que lhes permitam se incorporar ativa e criticamente a ela. A importância de sua função justifica que a escolariza- ção seja considerada um direito de qualquer cidadão, e seu descumprimento represente um ataque à igualdade de oportunidades (Puelles, 1996). A escola assim enten- dida é um dos recursos educativos que os grupos sociais possuem, assim como também é depositária de uma missão concreta. De fato, ao contrário do que sucede na maioria dos outros contextos de desenvolvimento, a instituição escolar precisa definir explicitamente suas intenções educativas, isto é, estabelecer sua parcela de responsabilidade na tarefa de contribuir com o desen- volvimento e com a socialização das pessoas. Entre outras funções, o currículo desempenha jus- tamente a de concretizar as intenções educativas da escola mediante a identificação daquelas capacidades que, embora imprescindíveis para o desenvolvimento e a socialização dos alunos, não são garantidas – ou são insuficientes – pelos outros contextos educativos dos quais também participa. Assim, o currículo constitui um projeto social (Coll, 1987; Coll, Darder e Pelach, 1991). Nele se estabelece o perfil dos futuros cidadãos com cuja formação a sociedade deseja contribuir. Deve ser, portanto, um projeto social amplamente debati- do, assumido e impulsionado. Nele deve ser definido o papel a ser desempenhado pela educação escolar no desenvolvimento dos futuros cidadãos e cidadãs com o nível de precisão suficiente para nortear a tarefa daque- les que têm de desenvolver tal função: os professores. O estabelecimento das intenções educativas que de- vem reger a atuação da escola é, acima de tudo, o re- sultado de uma análise sobre o tipo de sociedade que temos e também uma decisão sobre o tipo de sociedade que queremos formar. [...] COLL, César; MARTÍN, Elena. Aprender conteúdos e desenvolver capacidades. Porto Alegre: Artmed, 2004. p. 13-14. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 5 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORVI Segundo os autores, a escola tem um papel para além da família e do círculo de convivência social da criança e do jovem. Essa afirmação suscita algumas reflexões. Primeiro, o fato de a escola estar integrada à sociedade não significa que sua função seja reproduzir integralmente a sociedade. Segundo, a escola dispõe de um conjunto de saberes que só ela pode transmitir, o que inclusive justifica sua própria existência. Pela importância da escola, ao lado de outras institui- ções sociais, na formação ampla dos cidadãos, ela é um direito de todos, não pode ser oferecida apenas a alguns. Toda sociedade democrática tem como base um conjunto de valores, entre eles igualdade de oportunidades, universali- zação do acesso a uma tradição de cultura e possibilidade de formar cidadãos críticos, capazes de fazer escolhas. Toda escola democrática, portanto, deve ser uma escola inclusiva. O aprimoramento do currículo escolar é um aspecto fun- damental que não pode ser resumido a um ou dois momen- tos de um curso de formação, presencial ou à distância. Ele tem que ser tratado como um dos principais focosde obstáculos imprevistos, é possível redimensionar o projeto, cortando uma atividade ou outra, diminuindo o tempo em uma etapa, simplificando o produto final. Tudo isto pode acontecer e, caso ocorra, é melhor que seja a partir de decisões tomadas pelo professor e comunicadas previamente aos alunos e não de modo atropelado e improvisado. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 31 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXXII Como o trabalho com projetos prevê a mobilização con- tínua de competências socioemocionais e de conteúdo con- ceituais e procedimentais, é importante que, a cada projeto finalizado, seja previsto um tempo para sua avaliação e autoavaliação, ou seja, um tempo para os alunos avaliarem o desempenho da classe nesse projeto e também um tempo para se autoavaliarem. Incentive-os a registrar conquistas e frustrações, objetivos cumpridos e metas para os próximos projetos. Para o professor que já trabalhou com projetos integra- dores, o objetivo da coleção é fornecer os subsídios neces- sários para que possa desenvolvê-los de modo organizado e conseguir o melhor resultado possível. As etapas e os produtos de cada projeto são dimensionados para desen- volvimento em um bimestre e preveem alguns itens fun- damentais para sua execução, como: a necessidade de um cronograma compartilhado; a utilidade de um suporte para registro de atividades, ideias, trocas de opinião; a suces- são de etapas para se chegar ao produto final; os materiais necessários para a realização de alguns experimentos e o passo a passo de alguns procedimentos, como a realização de entrevistas, de visitas virtuais a museus, de criação de pipas, de montagem de um boletim informativo, etc. Se você não tiver experiência em projetos, pode também usar os desta coleção de modo mais livre, partindo da pro- posta dada e alterando etapas, acrescentando conteúdos, debatendo com os alunos alterações nos produtos finais e na forma de compartilhamento, se for o caso. Como todo material de apoio didático, esta coleção é um guia, sendo possível realizar alterações, adaptações e construção de novos caminhos a partir da escolha e do planejamento do(s) professor(es) envolvido(s) e da comunidade escolar em que se inserem. Um dado significativo no trabalho com projetos nesta coleção é que eles não foram pensados como substitutos das aulas do curso regular. Ou seja, os projetos aqui apre- sentados não têm como objetivo ensinar os conteúdos mo- bilizados em cada projeto. Eles se propõem a complementar as aulas do curso regular, retomar e eventualmente apro- fundar a discussão de alguns conceitos, mas não substituir as aulas regulares em que tais conceitos são apresentados pelo professor responsável pelo componente. Assim, é pos- sível afirmar que os vários componentes contribuem para a discussão das questões propostas em cada projeto a partir de habilidades selecionadas e não que serão apresentados conteúdos a partir dos projetos. Algumas das características próprias do trabalho com projetos são apresentadas no texto a seguir e ajudam a pensar nas questões que devemos considerar quando op- tamos por essa metodologia. Algumas características básicas dos projetos Destaco aqui alguns dos traços próprios do trabalho com projetos, numa seleção arbitrária e não exaustiva, mas que encaminha à discussão dos aspectos ligados ao complexo trabalho de avaliação na educação básica. • Ruptura com o esquema tradicional de ensino por disciplinas. Toda a nossa formação de alunos e pro- fessores tem sido tradicionalmente centrada no ensino e aprendizagem de domínios de conhecimentos con- sagrados, a partir de um esforço individual e coletivo de estudiosos que dedicaram sua inteligência e seu tempo à construção desses campos de saber. Foi im- portante e mesmo indispensável que assim ocorresse, como ouvi do grande físico e filósofo David Bohm, em uma conferência na Universidade de Berkeley, em 1980. Se não tivesse sido assim, como poderia o homem deslindar fios condutores que o ajudassem a encontrar caminhos em meio ao caos e à comple- xidade do emaranhado constituído pela massa geral de informações a serem desvendadas? Assim, como disse Bohm, o homem foi dividindo essa massa em compartimentos de porte compatível com sua própria capacidade de elaboração, dando lugar ao nascimento e desenvolvimento de disciplinas, que vieram então facilitar o necessário domínio dos diferentes campos de trabalho e desenvolvimento da própria humanida- de. Entretanto, prosseguia Bohm, o que foi necessário, imprescindível mesmo, em períodos iniciais de cons- trução do conhecimento em seus múltiplos setores, passou a ser inconveniente, com o correr do tempo, quando foram surgindo itens que não se enquadram num ou noutro desses setores, mas necessitam de ele- mentos de uns e de outros para a construção do seu conhecimento. Insinua-se assim a ideia do aporte de várias disciplinas no trato com uma multiplicidade de temas importantes para a vida do homem e da so- ciedade. O recurso de divisão do saber em campos ou compartimentos, uma estratégia didática indispensá- vel, no dizer de Bohm, passou a se revelar insuficiente ou desapropriado para enfrentarmos os desafios im- postos hoje à construção do conhecimento, quer em âmbito geral, coletivo do desenvolvimento científico e tecnológico, quer no individual, de desenvolvimento de cada aluno, em seu processo de formação através do sistema de escolarização. O trabalho com projetos na educação básica procura romper com o modelo centrado nas disciplinas, focalizando temas que ul- trapassam suas fronteiras e demandam dos alunos um esforço de busca em diferentes campos e fontes de informação, em um modo de abordagem mais con- dizente com a natureza dos fenômenos estudados e com seu próprio desenvolvimento pessoal. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 32 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXXIII • Possibilidade de reunir o que já foi aprendido pelo aluno e o que pode vir a sê-lo, nos vários campos de conhecimento. Os projetos envolvem, necessariamen- te, o conjunto de conhecimentos já acumulados pelos alunos e toda a gama virtualmente possível de novos conhecimentos a serem adquiridos, sem que se possa estabelecer limites ou tipos específicos. Eles se abrem para o novo, sempre a partir de pontos já constituí- dos, que asseguram o caminho preparatório para o salto ao que há de vir. Não se pode prever exatamente até onde se vai chegar, em termos de conhecimento novo, mas se pode garantir o melhor aproveitamento do que já está dominado pelo aluno, na busca de todo novo conhecimento que ele conseguir desenvolver. As possibilidades de abertura são ilimitadas, levando a escola a se projetar para além de suas fronteiras, procurando aproveitar bem os recursos que possui dentro dessas fronteiras e ampliar, através dos pro- jetos, o seu alcance, multiplicando os alvos de sua ação. Os projetos irradiam a influência da escola na comunidade e por sua vez captam possíveis influên- cias desta sobre a própria escola, numa simbiose vital para a vida escolar e o desenvolvimento dos alunos. Já se pode aqui vislumbrar o desafio posto para uma avaliação voltada para aprendizagens significativas. • Participação ativa, dinâmica, dos alunos, desen- cadeando forças em geral apassivadas no modelo escolar tradicional. Enquanto no modelo orientado para as disciplinas a iniciativa se concentra na trans- missão do conhecimento acumulado pelo professor, no trabalho com projetos são os alunos estimulados a proporem um estudo, com o auxílio do professor, mas num movimento originário de seus interesses e perspectivas. Desencadeiam-se assim forças muitas vezes adormecidas durante o trabalho escolar, no qual os alunos ficam retidos em uma posição passi- va, apenas receptiva, armazenando informações por certo importantes e úteis para o seu crescimento, mas deixandode liberar energias também indispensáveis para ele. Com os projetos pode-se combinar a indis- pensável transmissão do capital de conhecimentos acumulados com a necessária abertura aos novos continentes a serem conquistados pelos alunos, pela sua própria iniciativa, de acordo com sua própria dinâmica e ainda com a vantagem de fazer a ponte em direção à realidade que os cerca. Como são eles mesmos que propõem os temas a serem estudados, fica assegurada essa vinculação, como nos ensina o mestre Paulo Freire. Com os projetos talvez se con- siga a conexão entre o já vivido e o porvir, tão difícil, mas tão desejada pelos professores conscientes de sua função-chave nessa relação. • Construção de conhecimento pela investigação pró- pria dos alunos. Este é um desafio assumido pela estratégia de trabalho por projetos, que se aproxima muito de uma visão atual sobre a atitude de pesquisa própria aos alunos. O próprio conceito de pesquisa tem sido objeto de intensa discussão, tanto no que se refere à sua concepção no âmbito acadêmico cien- tífico, quanto no do trabalho dos alunos da educa- ção básica. Eu mesma tenho tido oportunidade de analisá-lo, dentro de estudo sobre as relações entre o professor da escola de educação básica e a pesquisa (Lüdke, 2001). Já se pode considerar consensual a valorização de uma atitude de pesquisa, traduzida sempre que possível em atividades de pesquisa, por parte de todo professor da educação básica, traço con- siderado inerente ao professor da educação superior. Em que condições isso ocorre e que tipos de pesquisas têm sido mais encontrados junto àqueles professores são objetos da nossa pesquisa já mencionada. No que se refere aos alunos da escola básica, também já tive ocasião de me pronunciar, em livro com Marli André, publicado em 1986, mas que continua atualizado por alunos de graduação e pós-graduação em educação (Lüdke e André, 1986). Ao discutir o conceito de pesquisa, afirmamos nesse livro a importância de o aluno do Ensino Fundamental não receber esse conceito de forma truncada e restrita, como algumas vezes ocorre, quando o professor reduz a atividade de pesquisa do aluno à simples mecânica de recorte e colagem de figuras ou à mera repetição de verbe- tes de dicionários e enciclopédias. Se o professor se preocupar em introduzir o aluno em uma verdadeira atitude de indagação, com perguntas a respeito de um verdadeiro problema aos seus olhos, mesmo com alunos das séries iniciais, a seu modo e em seu nível, claro, se forem eles estimulados a buscarem respostas para essas perguntas em várias fontes e a partir de sua própria iniciativa e depois forem encaminhados para a articulação dessas respostas em torno do problema inicial, já teremos uma boa iniciação aos passos intro- dutórios de toda pesquisa. É preciso distinguir aqui as noções de temas e de problemas, pois os temas são em geral propostos pelos professores, preocupados com a evolução linear de suas disciplinas, compostas por uma sucessão de temas. Mas a ideia de projeto procura romper com essa lógica, focalizando um pro- blema, ligado a um ou mais temas e levando a tan- tos outros, sem esgotar os conhecimentos oferecidos pelas disciplinas, mas servindo-se deles de maneira criativa, em elaborações próprias aos níveis de desen- volvimento dos alunos envolvidos. Nunca se sabe ao certo aonde vai dar o desenrolar de um projeto com Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 33 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXXIV os alunos, lembram os autores Hernández e Ventura já citados (1998). Isso em termos de construção de conhecimento, pois em relação a processos e atitudes creio que se pode antever um crescimento certo dos alunos em direção a uma postura muito favorável ao desabrochar de futuros pesquisadores. • Articulação entre trabalho individual e coletivo e valorização de atitudes e comportamento sociais. Como extensão das características comentadas no item anterior, o trabalho com projetos estimula tanto a iniciativa individual, quanto a feita em conjunto pelos alunos. Eles terão oportunidade de ver suas ideias sendo discutidas e talvez seguidas por todo o grupo, assim como aprenderão a considerar e a res- peitar ideias de outros colegas, a partir das decisões tomadas pelo próprio grupo. Diferentemente da ótica individualista, que supõe o sucesso de cada um iso- ladamente, a partir do domínio dos conhecimentos previstos e verificados pela avaliação tradicional, o trabalho com projetos privilegia a evolução de todo o grupo, sem desconsiderar, por certo, o crescimento de cada um de seus membros. Supõe-se que o esforço co- letivo envolve todos os participantes do grupo, e seu sucesso se reflete em cada um deles. Todos aprovei- tam do alcance dos objetivos esperados e sobretudo do processo de atingi-los. Mais uma vez é bom lem- brar o desafio que isso representa para uma avaliação coerente com a busca de aprendizagens significativas. • Combinação entre o trabalho escolar e o de várias outras instituições e agências. Trabalhando com projetos, a escola multiplica as fontes de informação e de interação para os alunos, por tantas agências e instituições quantas estejam disponíveis na comu- nidade e mesmo além dela. As famílias são logo as primeiras lembradas, pois estão naturalmente envol- vidas no processo de educação de seus filhos, tendo o maior interesse em oferecer sua contribuição, dentro dos limites de cada uma delas. Mesmo considerando esses limites, nossas escolas têm em geral aproveitado muito pouco da contribuição das famílias, dadas as condições usuais de trabalho até o presente. Com os projetos é possível que se desenvolva na escola um jeito mais aberto para todas as fontes de informação e de formação acessíveis aos estudantes. Além das famílias, são importantes nesse contexto as igrejas, os clubes, as associações profissionais, as ONGs, as bibliotecas, os museus, enfim todas as instituições que possam ajudar a escola e seus alunos na busca do conhecimento necessário para a sua formação. A dinâmica de procurar informações em diferentes fontes e pela própria iniciativa já representa para o aluno um processo formativo fundamental, que vai acompanhá-lo em toda a sua escolaridade e, muito além, em toda a sua vida profissional e como cidadão, como já foi comentado. Os projetos servirão de eixo para articular a contribuição das várias entidades en- volvidas, cada uma dentro de suas possibilidades e do interesse para o projeto em andamento. O importante é a integração das atividades ligadas aos projetos ao programa geral de formação proposto pela escola, ou seja, o seu projeto pedagógico. Com isso elas ganham legitimidade e cidadania, como partes integrantes do processo educacional. E a avaliação, como fica? Toda a discussão a respeito da ideia de projetos e de como pode ser interessante trabalhar com eles na edu- cação básica deixa em suspenso o aspecto relativo à ava- liação. Só foi possível destacar nesse texto algumas das características que considero mais relevantes e sugesti- vas, para provocar a discussão de tema tão interessante para nossas escolas e nossos professores. Há vários outros pontos que merecem consideração e têm sido tratados pela bibliografia já mencionada. Em todos eles se vislumbra a sombra da avaliação, como sempre um dos aspectos mais complexos e difíceis de enfrentar no processo educativo. Lembro-me sempre de um alerta de Gimeno Sacristán, que inspirou várias análises em nossa pesquisa sobre o processo de ava- liação na escola básica (Lüdke e Mediano, 2002): uma excelente proposta pedagógica pode ser inteiramen- te solapada por uma avaliação inadequada (Gimeno, 1988). Embora não devam ser considerados como panaceia ou solução salvadora para os problemas vividos em nossas escolas, os projetos representam uma via inte- ressante para conjugar recursos, já utilizados por elas de maneira mais ou menos esparsa,com uma consciência clara por parte de nossos professores de que o esforço escolar tem que se aproximar mais das necessidades dos alunos, de maneira mais produtiva e eficaz. Ter as crianças na escola é uma parte do direito constitucional que ainda não conseguimos garantir a todas elas em nosso país. Mas já estamos mais do que convencidos de que isso não basta, de que é preciso assegurar um percurso escolar bem-sucedido a todas elas, oferecendo as bases necessárias à formação do cidadão. Os projetos entram no conjunto de recursos sugeridos para nos aproximarmos mais do cumprimento desse dever da es- cola. Não nos precipitemos pensando que eles podem se converter na mola mestra do processo de escolarização, ou do currículo escolar. Por certo há outros elementos constitutivos básicos com os quais os projetos entram em colaboração. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 34 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXXV Como pensar a dimensão avaliativa desses novos colaboradores do trabalho escolar? Pelos aspectos dis- cutidos acima se pode perceber que o jeito tradicional de tratar a avaliação da aprendizagem não parece com- patível com as inovações propostas pelo trabalho com projetos. O rompimento com a linearidade da transmis- são de conhecimentos pelas disciplinas, a dinâmica en- volvida no processo, cuja iniciativa se volta sempre para o aluno, a articulação entre envolvimento individual e coletivo, a integração de várias fontes formadoras, a própria imprevisibilidade de metas precisas fazem dos projetos objetos à espera de uma avaliação a sua altura. É preciso também romper com a ótica tradicional na avaliação, próxima da verificação do que foi ensinado pelo professor, aproximando-a mais do que foi apren- dido pelo aluno. [...] LÜDKE, Menga. O trabalho com projetos e a avaliação na educação básica. In: SILVA, Janssen Felipe; HOFFMANN, Jussara; ESTEBAN, Maria Teresa (Org.). Práticas avaliativas e aprendizagens significativas: em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre: Mediação, 2003. p. 69-74. Como reforça o texto de Lüdke, a possibilidade de romper com compartimentações e de investigar temas significati- vos é uma das características da aprendizagem a partir de projetos. A ideia da hiperespecialização, que ganhou espe- cial relevo ao longo do século XX, revelou-se insuficiente para a investigação do complexo mundo contemporâneo. Mobilizar conteúdos e habilidades para resolver problemas e intervir socialmente é uma das vantagens dos projetos integradores, que auxiliam na aprendizagem significativa de conteúdos e procedimentos que, isoladamente, pareceriam pouco relevantes aos olhos dos alunos. Outra marca do trabalho com projetos é a ponte que es- tabelece entre o que o aluno já aprendeu e o que pode apren- der, estimulando a autonomia na busca pelo conhecimento e na investigação de questões que se mostram instigantes. O projeto tem, assim, a possibilidade de colocar tanto o aluno como a escola em contato direto com a realidade que os cerca. Rompe, também, com a ideia transmissiva do conhe- cimento e coloca o aluno numa situação de protagonismo. O conhecimento aprendido é posto a serviço de uma maior e diferente construção de conhecimento por parte do aluno. O projeto propõe, nesse sentido, um diálogo entre o já vivido e o porvir, entre a realidade tal qual a temos e a proposta de futuro que desejamos pôr em prática. Uma questão também importante no trabalho com pro- jetos diz respeito à valorização da pesquisa como proce- dimento e não como finalidade em si. Nesse contexto, não se realiza uma pesquisa para obter conhecimentos prévios para uma aula ou para complementar o estudo de um tema que pode nem ser retomado em aula. A pesquisa, assim como o projeto como um todo, considera a busca por fon- tes variadas uma atitude investigativa e não uma cópia de informações de modo acrítico. Nesse sentido, incentiva a formação de futuros pesquisadores e promove uma atitu- de questionadora, que pode e deve ser levada para outros campos de estudo e de procedimentos. Como vimos, um projeto integrador articula trabalho co- letivo e individual (voltado para o coletivo). Isso quer dizer que a negociação de ideias, a busca por consenso, a tomada de decisões coletivas e democráticas compõem o cenário de aprendizagens ligadas ao projeto. Rompe-se, assim, com a prática individualista proposta pela avaliação tradicional. Cada aluno, cada membro de um grupo é importante no trabalho com projetos, mas a evolução do grupo como um todo é o que dá o tom desse tipo de trabalho. A mobilização de várias instâncias sociais também é outra marca dos projetos, como aponta Lüdke. Família, co- munidade escolar, museus, bibliotecas do bairro ou da cida- de, prefeitura, lideranças comunitárias e outros se tornam parceiros na busca por conhecimento e na atuação cidadã dos alunos. Parcerias com essas instituições mostram ao aluno possibilidades de intervenção e o capacitam para ocupar papel decisivo em sua comunidade. Por fim, toda a abordagem dos projetos é diversa da tra- dicional e, nessa medida, deve comportar uma avaliação também diversa, em que o aluno esteja sempre envolvido e em que o coletivo seja considerado, como veremos adiante. Ao trabalhar com projetos, o professor deve ter em mente que importa menos o que foi ensinado pelo professor e mais o que foi aprendido pelos alunos. Essa é uma noção que deve acompanhar os professores ao trabalhar esta coleção e assim diminuir sua expectativa em ter o processo todo em suas mãos, como costuma acontecer na sala de aula tradicional. Inovar, compartilhar e construir juntos devem ser ações presentes no horizonte do professor mediador de projetos integradores. Como articular aulas específicas para o trabalho com projetos Muitas são as possibilidades de concatenar o curso regu- lar dos componentes com o desenvolvimento dos projetos integradores. É preciso definir de antemão como se dará essa articulação e organizar a sequência de aulas para otimizar o tempo. Reservar uma aula por semana para o projeto pode ser uma alternativa. Dependendo dos conceitos a serem re- tomados e utilizados em um determinado projeto, o professor pode definir uma aula fixa para o projeto no começo ou no final da semana. Pode também combinar com os professores Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 35 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXXVI coparticipantes do projeto que algumas de suas aulas sejam destinadas a ele e que se responsabilizem por etapas e/ou atividades ligadas mais diretamente ao seu componente. Atividades e etapas que envolvam coleta, pesquisa e organização de dados precisam ser consideradas separa- damente e dimensionadas no tempo. Se, por exemplo, uma entrevista é feita para coleta de dados, será necessário organizar esses dados e sistematizá-los numa etapa pos- terior. Nesse caso, combine com os alunos o momento da entrevista e destine ao menos uma semana entre a entre- vista e o tratamento dos dados. Caso contrário, corre-se o risco de não ter material para trabalhar em aula devido ao pouco tempo previsto para a entrevista, que ocorrerá fora da sala de aula. Atividades que incluem formulação e teste de hipóte- ses também necessitam de um tempo diferenciado para sua realização. Não adianta acelerar o processo e deixar de fazer o mais importante: os próprios alunos chegarem a conclusões parciais e testá-las. A partir do conteúdo base do projeto, podem ser pro- postas algumas conexões no curso regular com atividades específicas do projeto. Se o professor de Língua Inglesa do 7o ano, por exemplo, estiver trabalhando com a leitura de notícias, pode realizar algumas das atividades do projeto 1, Notícias no mundo, como parte de sua sequência regu- lar de aulas. O mesmo pode acontecer com o professor de Educação Física do 9o ano se estiver trabalhando com a relação entre esporte e saúde. Ele pode realizaralgumas atividades do projeto 1, Futebol e rendimento, em suas aulas regulares, aproximando o projeto e seu curso a partir da temática comum. Alguns dos produtos finais propostos na coleção podem ser utilizados nas aulas de componentes específicos de modos diversos, complementando os cursos regulares. A Biblioteca volante prevista no projeto 1 do 8o ano, Auto- biografia de leitor, pode ser usada em sala de aulas pelos professores de Língua Portuguesa e Língua Inglesa para organizar, por exemplo, rodas de leitura entre os alunos. As máquinas simples criadas pelos alunos no projeto 4 do 7o ano podem ser utilizadas nas aulas de Ciências para apre- sentar e problematizar conceitos de Mecânica. Ou seja, o professor pode, no desenvolvimento dos projetos, estar atento a essas conexões e aproveitá-las em seus cursos, aumentando assim o interesse dos alunos pelos projetos. A finalização ou compartilhamento de um projeto tam- bém pode prever o envolvimento dos cursos regulares. Mes- mo professores que não tenham participado diretamente do projeto podem e devem se envolver nas atividades de compartilhamento dos produtos finais junto à comunidade. Esta costuma ser uma boa oportunidade para ver o aluno em situações diferenciadas de atuação. Muitas vezes, alunos tímidos em sala de aula ou, ao contrário, muito falantes e agitados, demonstram muita adequação em atividades em que podem demonstrar liderança e expor oralmente resultados alcançados. O compartilhamento, primeiramen- te, em sala de aula, e, posteriormente, com a comunidade, possibilita aos professores estabelecerem outro tipo de relação com os alunos e resulta, muitas vezes, numa sala de aula, mesmo do curso regular, mais tranquila e adequada. Valorizar o que os alunos podem desempenhar de melhor fortalece os vínculos e a autoestima deles em seu processo de aprendizagem. Após a finalização dos projetos, retome com os alunos os pontos altos de cada etapa e mostre-lhes que notou e valorizou as contribuições individuais e coletivas. Chame a atenção para o quanto essa postura é importante na cons- trução do conhecimento e o quanto ela pode ser estendida a outros momentos na escola, como nas aulas dos cursos regulares, em eventos promovidos pela escola, como tor- neios esportivos e festas da comunidade escolar, e mostre a eles o quanto possuem potencial para fazer mais quando trabalham de modo organizado e com objetivos claros, com cada um contribuindo com o que tem de melhor e buscando solucionar eventuais problemas, especialmente de adequa- ção e cooperação com o trabalho coletivo. Os projetos no dia a dia da sala de aula Um dos fatores que determina uma boa implementação dos projetos integradores na sala de aula diz respeito ao uso do tempo. É importante que, em cada momento destinado às atividades do projeto, os alunos estejam com o material necessário em mãos, tenham feito a retomada do que foi trabalhado anteriormente, estejam organizados espacial- mente na sala para se concentrar no trabalho previsto. É importante destacar que os alunos manifestam sua con- centração e preparação para o trabalho de modo diferente de ano para ano e muitas vezes de turma para turma. Nem sempre uma classe calada é uma classe concentrada. É comum, nessa faixa etária, que os alunos conversem pa- ralelamente como forma de aquecimento para a realização das atividades propostas. É fundamental, porém, que o pro- fessor estabeleça com os alunos um pacto pelo trabalho. Ou seja, que fique claro que, nos momentos de orientação para a realização das tarefas, os alunos prestem atenção e, mais do que isso, tirem suas dúvidas sobre o que se espera que eles façam. Uma boa orientação e um espaço aberto para sanar dúvidas cria um ambiente pedagógico tranquilo e fa- vorável para a exploração e a construção de conhecimentos que muitas vezes vão além do projeto. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 36 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXXVII No que diz respeito aos eventuais conflitos que até cer- to ponto são esperados na experiência de trabalhar com projetos, alguns pontos podem servir para uma reflexão do professor. Nas etapas finais do ensino fundamental, os alunos possuem, em maior ou menor grau, experiências relacionadas com o trabalho coletivo. Mesmo em projetos curriculares de escolas que tenham os conteúdos como centro do processo ensino-aprendizagem, é esperado que os alunos tenham passado por situações em que a nego- ciação dos papéis necessária para a formação de grupos de estudo, de pesquisa e de produção de conhecimento tenha sido marcante para cada um deles. Por outro lado, talvez poucas tenham sido as oportunidades em que os alunos possam ter refletido sobre essa experiência como um modo de tornar mais claro para eles como se organiza um projeto de trabalho coletivo. Recomendamos que, no início de cada projeto integrador, o professor vá discutindo com os alunos quais os papéis que eles podem assumir em algumas ativi- dades. Ao designar, em todas as ocasiões, alguns alunos que “falam melhor” para apresentar uma síntese das discussões sobre um determinado tema, por exemplo, acaba-se criando uma espécie de expectativa negativa naqueles alunos que nunca são chamados para fazê-lo. Nos projetos integrado- res, devemos ter claro que um indicador de qualidade da aprendizagem não deve ser o de desempenho individual, deslocado do desempenho do grupo como um todo. Cabe ao professor (e essa é uma maneira muito eficiente de resolver conflitos) discutir com os alunos quais deles gostariam de liderar etapas do projeto, fortalecendo, assim, eventuais fu- turas competências relativas ao liderar, ao compartilhar, ao expressar-se adequadamente, ao sintetizar resultados e ao expor, a partir de sua fala pessoal, ideias criadas pelo grupo. O professor deve encarar conflitos que surgem em pro- jetos longos como etapas de ajustamento entre os alunos da turma. Muitas vezes, uma atividade dentro de um projeto requer uma clareza e um planejamento pessoal de trabalho (mesmo que intuitivo, por parte do aluno) que deem conta de uma complexidade metodológica para a qual o próprio aluno, individual ou coletivamente, não se sinta pronto. Esse é um daqueles famosos momentos em que, depois de dadas as orientações para a realização da atividade pelo professor, o aluno, em duplas, trios, grupos ou mesmo individualmente, se pergunta: “O que é que eu faço agora?” ou “O que é que é pra fazer?”. Esse instante de hesitação deve ser visto pelo professor não como um problema de falta de interesse, de desatenção ou de falta de compromisso para com o traba- lho. Ocorre aqui um aspecto importante da proposta dos projetos integradores tal como formulada neste Manual: os alunos vivenciam ao longo das atividades programadas uma série de ajustamentos que dizem respeito não somente aos conteúdos que irão ser trabalhados, mas também ao modo como eles devem ser trabalhados, ao tipo de relação que eles devem estabelecer entre os componentes curriculares e ao tipo de contribuição (a partir do repertório de cada alu- no) que deve ser mobilizada para dar conta do que lhe é soli- citado. Ao se dar conta dessa problemática, o professor pode colocar-se numa posição de observador do modo como os alunos se colocam diante das dificuldades impostas pelos projetos, para atuar com base no que observa. Distanciar-se dos alunos em situações de trabalho individual ou coletivo observando como eles se aproximam dos problemas pro- postos ao mesmo tempo que compartilham suas certezas e dúvidas pode fazer com que o professor conheça mais profundamente o modo de aprender de cada um de seus alunos. Um exemplo: se o professor observa um aluno que parece pouco contribuir nos momentos de discussão em pequenos grupos, ficando alheio a debates mais acirrados, o professor pode, em uma próxima atividade, atribuir-lhe a tarefa de anotar as ideias que são discutidas. É uma forma de aproveitar e tornar positivoalgo que geralmente é visto como negativo em termos de conduta, atitude ou predispo- sição para o estudo. Intervenções pontuais do professor, portanto, ajudam a fazer pequenos ajustes que vão garan- tindo o fluxo do trabalho, o cumprimento das etapas do cro- nograma e, acima de tudo, integrando progressivamente cada aluno no projeto em curso. Um dos efeitos esperados da observação do aluno em relação a si próprio e ao seu grupo no momento de execução das etapas previstas nos projetos é que, gradativamente, melhore as suas atitudes de autonomia na autorregulação de seu estudo. Ao se destacar a importância da interação entre os alunos para a realização dos projetos integradores, o que se quer também destacar, e que para alguns pode parecer um paradoxo, é a crescente evolução da autonomia dos alunos em relação ao seu estudo individual dos temas, problemas, conceitos, metodologias inerentes a cada um dos projetos propostos. Muitos podem entender a interação entre os alu- nos, que se traduz em estratégias coletivas, compartilhadas, de discussão em grupos, como um reforço à dependência do aluno ao grupo do qual faz parte: seriam alunos que partici- pam muito bem das atividades coletivas, mas pouco sabem o que fazem quando lhes é solicitada uma contribuição indi- vidual. Como, portanto, seria possível esse mesmo aluno ser autônomo em relação ao seu próprio estudo se não consegue se manifestar em situações em que deve ser avaliado como indivíduo? É preciso, portanto, que tanto as aulas regulares quanto a proposta de aprendizado por projetos deem conta de desenvolver habilidades e competências que tornem o aluno capaz de trabalhar individualmente e em grupo, alternando demandas a partir das atividades propostas. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 37 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXXXVIII Os dois polos da avaliação do professor em relação ao desenvolvimento da aprendizagem de seus alunos são o coletivo, como trabalham em equipes, e o individual, quando diz respeito ao seu próprio processo. Consideramos, por- tanto, que, para dar conta da natureza da aprendizagem que se espera nos projetos integradores, todo processo de ensino-aprendizagem deva sempre prever situações de intervenção pontuais e ao longo do desenvolvimento do projeto, por parte do professor, nas dinâmicas dos grupos. Dessa forma, o aluno é visto, em sua singularidade, em seus momentos de dúvida ou de dificuldades específicas e tam- bém no decorrer das etapas. Como motivar a equipe para os projetos A melhor forma de motivar professores e alunos para o trabalho com projetos é propondo parcerias produtivas e solidárias em que todos compreendam que estão desenvol- vendo um trabalho conjunto e coletivo. Para alguns perfis de professor, os projetos se mostram boas alternativas pela possibilidade de trabalhar com colegas com quem compar- tilham valores e perspectivas sobre o conhecimento. Para outros, são oportunidades de mediar propostas e dividir o trabalho de educar com outros colegas, aprendendo e ensinando conjuntamente. Outros, ainda, gostam de obser- var os alunos em situações distintas das do cotidiano das aulas e têm a satisfação de chegar a uma finalização e a um produto concreto. Há também quem aprecie a oportunidade de envolver a comunidade escolar na formação dos alunos e na realização dos projetos. A abertura de cada projeto e também a questão desafia- dora colocada em seu início cumprem a função de motivar os alunos. A escolha do projeto pelo professor pode ocorrer em função do tema (seja por estar contemplado em seu planeja- mento, seja pelo interesse que tenha por ele, principalmente se não tiver outras oportunidades de abordá-lo) ou em função das habilidades contempladas pelo projeto, como uma forma de aplicar na prática um conteúdo que, eventualmente, tenha sido trabalhado de forma disciplinar em suas aulas. Na abordagem inicial com os alunos, que podem estar contaminados pelo imediatismo e pela profusão de ima- gens com que lidam cotidianamente, uma boa estratégia de estímulo é mostrar-lhes, junto com o objetivo do projeto, o produto final pretendido. Ou seja, apresentar-lhes tanto o desafio que terá de ser cumprido como aonde se pretende chegar, o que produzirão, indicando a necessidade de tra- balho em grupo e de envolvimento. Vale lembrar que a motivação para a realização do pro- jeto, depois de iniciado, vem do cumprimento das etapas e atividades estimulantes e inspiradoras. Sentir-se capaz, de- safiado em sua curiosidade, valorizado por suas conquistas, parabenizado por sua liderança e corresponsável pelos seus estudos motiva todo jovem que está se dedicando a uma prática nova, como a de realizar os projetos integradores desta coleção, a se esforçar e trabalhar mais. Por fim, dependendo da duração e do grau de dificuldade proposto por determinado projeto, vale realizar, de tempos em tempos, retomadas que deixem claras as conquistas até o momento e renovem a motivação da equipe. Os professo- res, que podem sentir que fizeram tanto e ainda há tanto por fazer, devem se motivar e perseguir o objetivo final, e assim poder ajudar os alunos a não perder de vista os objetivos primeiros do projeto e motivá-los a persistir e chegar ao produto final, com a recompensa do trabalho completo e a possibilidade de troca com a comunidade. A importância da situação-problema ou desafio Diferentemente de um conteúdo específico ou de um tema de estudo que um professor apresente a seus alunos de modo disciplinar, não cabe, em uma aprendizagem por projetos, que ela seja iniciada de modo protocolar, apre- sentando o tema e indicando a sequência prevista de aulas para esse trabalho: aula 1, aula 2, etc. O projeto deve partir de uma questão, de um desafio, de uma situação-proble- ma que demande um olhar investigativo e que supere uma abordagem linear e burocrática de conteúdos. Se houver a sensação, por parte do aluno, de que o pro- jeto está sendo colocado pro forma, ou seja, os conteúdos e temas serão abordados de modo tradicional e disciplinar, mas sob uma aparência de trabalho com projetos, ele já se iniciará de modo falho, com poucas chances de mobilizar efetivamente os estudantes. Daí o papel central ocupado pelo desafio ou pela situação-problema na proposição de projetos integradores. O caminho a ser trilhado via Etapas e Atividades deve conduzir o aluno a uma reflexão construída e a um envolvimento crescente com o desafio proposto. Nesta coleção, há questões colocadas na forma de convite, mas também questões propostas como problemas a serem resolvidos, devendo ser obtida uma resposta ou um produto, e outras que funcionam como fomentadoras de problemá- ticas mais amplas, para as quais o aluno deve se voltar e se posicionar, ainda que seja necessário, para isso, propor um recorte que aproxime o desafio das possibilidades investiga- tivas de um aluno dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Questões como: “De onde vem a água que eu bebo?”, “Qual é a relação entre os números e a música?”, “O que é ser um craque da bola?”, “Como e onde surgiu a escrita?”, “Com quantos ângulos se faz uma pipa?” ou “Como fazer um cordel?” atuam para instigar a curiosidade dos alunos e motivá-los para realizar as atividades propostas a fim de chegar a uma resposta, a um produto. A expectativa deles Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 38 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XXXIX será realmente chegar a uma resposta, ou seja, definir quem é craque de bola, construir uma pipa, escrever e montar um livreto de cordel, estudar a distribuição e o tratamento da água, estabelecer relações entre a música e os números. Outro grupo de questões propõe aos alunos uma autorre- flexão, implicando-os em sua subjetividade e em aspectos socioemocionais, na construção de si mesmos como pes- soas, (re)conhecendo suas predileções. É o caso de questões como: “Que brasileiro eu desejo ser?” ou “Por que aleitura literária nos transforma?”. Nesses casos, não é possível che- gar a uma resposta única; a ideia é justamente que os alunos possam construir o seu caminho, refletir e se fortalecer, a partir do autoconhecimento, em suas escolhas pessoais. Há ainda questões que funcionam como um convite para que o aluno conheça mais e melhor alguns temas que, prova- velmente, estuda ao longo do Ensino Fundamental, mas nos quais nem sempre tem a oportunidade de se aprofundar. É o que acontece em questões como: “Vamos construir uma máquina simples?”, “Como fazer as notícias circularem?” ou “Vamos fazer uma festa do boi?”. Mesmo a questão “Quais são os patrimônios culturais da sua região?” tem a mesma inten- ção: convidar os alunos a conhecer mais sobre um assunto e criar algo que possa ampliar a circulação de informações sobre ele, ou seja, tornar-se porta-voz e corresponsável por multiplicar pela comunidade um saber a que se teve acesso. O diálogo entre a ciência e sua aplicação aparece em desafios como: “Como saber se vai chover?” ou “Como re- duzir o consumo de energia?”. Para isso, será necessário retomar conteúdos trabalhados nos componentes curricu- lares envolvidos no projeto, mobilizar esses conhecimentos e realizar tarefas para que se chegue a uma resposta de valor social que, muito significativamente, transforme-se em conhecimento compartilhado com a comunidade. Por fim, outra possibilidade são as questões que pro- põem uma reflexão complexa, para a qual o projeto (e tam- bém o produto final proposto) busca alternativas, a partir de um recorte, sem desconsiderar o tamanho da problemática apontada. É o que vemos nas questões: “Como é possível integrar o local ao global?” e “Será que o mundo inteiro cabe no meu smartphone?”. Mesmo sendo essas questões atuais e significativas para todo jovem, não podemos nos furtar a apresentá-las na forma de desafio para eles, sempre garan- tindo que o resultado final seja possível de ser alcançado a partir das propostas da coleção e da mediação do professor. Trabalhando a partir de questões e desafios, garantimos a adesão dos alunos a uma problemática variada que pos- sa, ao longo de seu percurso pelos Anos Finais do Ensino Fundamental, aproximá-los da realidade que os cerca de modo crítico e com possibilidade de protagonismo e inser- ção social relevante. 2 O adolescente no contexto escolar Quem são os alunos do Ensino Fundamental em seus Anos Finais e como eles aprendem Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, os alunos es- tão perto de entrar na adolescência ou já são adolescen- tes. Esse é um período da vida marcado tanto por novas descobertas como pela vivência de conflitos que muitas vezes incidem no ambiente escolar. O texto a seguir apon- ta como esse é um fenômeno relativamente recente na história do Ocidente. A adolescência como fenômeno recente É a adolescência uma fase psicológica necessária? Tra- ta-se de um período natural ou é mais uma construção artificial, um produto de determinada organização so- cial e cultural? É possível que existam leitores que se surpreendam por começarmos com essas perguntas nossa análise da Psicologia Evolutiva dos adolescentes, pois talvez considerem que a adolescência seja uma épo- ca com um status tão específico como o da infância, da adultez ou da velhice, por cujo caráter mais ou menos natural ou artificial não nos indagamos. Por que, então, formular essas perguntas em relação à adolescência? Costumamos entender por adolescência a etapa que se estende, grosso modo, dos 12-13 anos até aproxima- damente o final da segunda década da vida. Trata-se de uma etapa de transição, na qual não se é mais criança, mas ainda não se tem o status de adulto. É aquilo que Erikson (1968) chamou de uma “moratória social”, um compasso de espera que a sociedade oferece a seus membros jovens, enquanto se preparam para exercer os papéis adultos. Todavia, a adolescência, tal como a conhecemos no Ocidente, no final do século XX, é, até certo ponto, um produto de nosso século. Muitos rapazes e moças ocidentais, que consideramos adolescentes, podem ser caracterizados por ainda estar no sistema escolar, em algum outro contexto de aprendizagem profissio- nal ou em busca de um emprego estável; por ainda Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 39 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXL dependerem dos pais e morando com eles; por esta- rem realizando a transição de um sistema de apego centrado, em parte, na família, para um sistema de apego centrado no grupo de iguais, para um sistema de apego centrado em uma pessoa do outro sexo; por sentirem-se membros de uma cultura de idade (cultu- ra adolescente), que se caracteriza por ter suas próprias modas e hábitos, seu estilo de vida próprio, e seus próprios valores; por ter preocupações e inquietudes que não são mais as da infância, mas que ainda não coincidem com as dos adultos. São essas algumas das marcas de identidade dos adolescentes ocidentais que conhecemos. [...] Mas, com o que já foi mencionado, basta-nos para afirmar que esse tipo de adolescência, que acabamos de descrever sucintamente, nem sempre existiu, ou pelo menos não existiu com os traços descritos. Certamente, os filósofos gregos da antiguidade, como depois os pen- sadores e escritores posteriores, já tinham identificado alguns anos da vida das pessoas, que se caracterizavam por serem aqueles em que as crianças começam a se tornar indisciplinadas, a questionar a autoridade dos pais, a ter desejos sexuais, etc. Porém, os sujeitos aos quais esses escritores e pensadores se referiam consti- tuíam uma minoria muito pequena da população, entre os treze e os vinte anos. Por muitos séculos, até o final do XIX, as crianças eram incorporadas ao mundo do trabalho em algum momento entre os sete anos e o iní- cio da puberdade [...]. Eram poucas as que estudavam, poucas que o faziam acima dos 10-12 anos, e aquelas que o faziam, geralmente, não estavam reunidas por níveis diferenciados de idade, nem permaneciam por muito tempo no sistema educativo. Não existia uma cultura adolescente, nem a adolescência era considerada como uma fase particular do desenvolvimento. No que concerne ao ocidente, o final do século XIX marca um ponto de ruptura com a situação que se acaba de descrever. A revolução industrial muda muitas coisas e o faz de maneira bastante notável. Começou, com a industrialização, a se tornar importante a capacitação, a formação, o estudo. Embora os filhos de operários continuassem se incorporando ao mundo do trabalho em idades muito precoces, os filhos das classes médias e altas tenderam a permanecer nas escolas, que aumen- taram em número, desenvolveram programas especí- ficos e mais complexos, tornaram-se mais exigentes. Finalmente, os filhos dos operários também passaram a adotar o mesmo estilo de vida, quando, conforme avan- çava o século, foi sendo introduzido, nos diversos países ocidentais, o conceito de escolaridade obrigatória, que se foi ampliando até chegar, na atualidade, na maioria dos países europeus, aos dezesseis anos. Não são poucos os rapazes e moças que continuam seus estudos, após a escolaridade obrigatória, permanecendo no sistema escolar vários anos mais. O que foi dito significa que, em nossa cultura ociden- tal, a incorporação dos adolescentes ao status adulto retardou-se notavelmente, formando-se, em conse- quência, um novo grupo que, como foi indicado, de- senvolve, além disso, seus próprios hábitos e maneiras, e que enfrenta problemas peculiares. Como vimos, as coisas se passavam de forma dife- rente, em outros momentos históricos de nossa cultura, e ainda continuam sendo de outra maneira em outras culturas muito diferentes da nossa, nas quais a incor- poração à condição de adulto se dá precocemente, com tudo o que isso implica na formação de uma família, acesso às responsabilidades e comportamentos adultos, etc. [...] Do dito segue-se que é preciso fazer uma distinçãoentre dois termos, que possuem um significado e um alcance muito diferente: puberdade e adolescência. Chamamos puberdade ao conjunto de modificações físicas que transformam o corpo infantil, durante a segunda década de vida, em corpo adulto, capacita- do para a reprodução. Chamamos de adolescência um período psicossociológico que se prolonga por vários anos, caracterizado pela transição entre a infância e a adultez. Como se torna evidente, a puberdade é um fenômeno universal, para todos os membros da nossa espécie, como fato biológico que é, e como momento da maior importância em nosso calendário maturativo comum. A adolescência, por seu turno, é um fato psi- cossociológico não necessariamente universal e que não adota necessariamente, em todas as culturas, o padrão de características adotado na nossa, na qual, além disso, deu origem a uma importante variação histórica que, ao longo de nosso século, foi configurando a adolescência que nós conhecemos [...] PALÁCIOS, Jesús. O que é a adolescência. In: COLL, César; PALÁCIOS, Jesús; MARCHESI, Álvaro. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. v. 1. p. 263-265. O texto de Palácios parte do fato de que, ao tratarmos da adolescência, dois vieses são tomados como pontos ini- ciais de reflexão – a adolescência como fenômeno natural, cujos fatores podem ser, em ampla medida, considerados universais (todos os seres humanos possuem um corpo que será maturado rumo à idade adulta), ou como organização cultural (o sentido, as expectativas de papéis desempenha- dos em relação a ações de grupo de pertencimento, ritos de passagem próprios de cada comunidade, etc.). Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 40 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XLI O próprio Palácios coloca que a dúvida sobre o que venha a ser a adolescência pode ser uma surpresa aos leitores, já que ela seria vista como uma etapa de transição com sta- tus definido. Na sequência de sua argumentação, retoma a concepção de adolescência como uma “moratória social”, o que a coloca como uma espécie de entrelugar e, por essa formulação, um período da vida sem uma finalidade em si mesma. Somos adolescentes para esperarmos a vida adul- ta. Essa construção racionalista e cronológica esvazia todo e qualquer sentido da adolescência em si, pois a vê como um caminho a ser trilhado de modo basicamente inevitável por qualquer ser humano. Se pudermos arriscar algumas críticas a essa interpreta- ção, cabe discutir como social e individualmente os adoles- centes se preparam para o exercício de papéis adultos e qual a importância da instituição escolar nessa constituição. Se houver um entendimento por parte dos professores de que a adolescência é uma etapa de espera e de exercício de papéis sociais a serem desenvolvidos como adultos, a seleção de conhecimentos, o modo de problematizá-los, a aprendiza- gem de procedimentos relacionados a esses conteúdos e, fundamentalmente, os valores sociais do estudo seriam colocados à prova. Isso ocorre porque tudo que se apren- de na escola passaria a ser somente um conhecimento de segunda importância, já que é quase “natural” que, com a maturidade, os adolescentes se transformarão em adultos. Todavia, como afirma Palácios, a adolescência pode ser vista como um produto social e cultural de nosso tempo. Acre- ditar que os jovens devem ser preparados para o ingresso na vida adulta e programar espaços e dinâmicas em que possam experimentar a vida adulta sem arcar com as consequências e responsabilidades do ingresso nela é um constructo de nossa sociedade. O que se espera do adolescente também varia no tempo. O jovem do século XX não é o mesmo do século XXI. Exigências como formação de família, ingresso no mundo do trabalho e assunção de responsabilidades várias não se colocam da mesma forma para os jovens do século XXI como eram encaradas até o final dos anos 1990. A pergunta não é mais quem é o adolescente ao final de parte de sua formação básica escolar, mas sim o que esse adolescente é capaz de aprender, quais são seus interes- ses, quais são as necessidades básicas de conhecimento nos grupos e nas comunidades em que vive, como ele pode ter uma participação democrática e ecológica significativas, como pode integrar grupos de trabalho respeitando suas ca- racterísticas pessoais e seu potencial de contribuição para a sociedade. Essa é a problemática que passa a orientar as escolhas curriculares e que está na fundamentação dos projetos integradores propostos por esta coleção. Assim, ao falarmos de adolescência, temos que buscar compreendê-la enquanto um fator cultural e não biológi- co, apesar de ambos estarem interligados. É importante destacar que as mudanças fisiológicas que ocorrem nesse período do desenvolvimento, denominado puberdade, ocor- rem em todo ser humano, sendo um fenômeno universal. Entretanto, como vimos, a adolescência não segue esse mesmo padrão. Em algumas comunidades mais primitivas não existe esse momento de transição. Assim que os cor- pos dos indivíduos começam a sofrer alterações, os jovens são inseridos nos papéis adultos assumindo todas as res- ponsabilidades sociais, como trabalho, matrimônio, função paterna, materna, entre outros. Esse panorama da adolescência aponta alguns caminhos e propõe alguns desafios para a escola atual. Como desafio, todo professor deve pensar em algumas questões durante seu processo de planejamento, questões essas que podem transcender, em um primeiro momento, o universo imediato de seus alunos, mas que se relacionam a vivências contem- porâneas partilhadas por muitos jovens: • A relação entre o jovem e o mundo digital; • A oferta e o compartilhamento de informações; • A cultura jovem e as demandas de uma sociedade de- mocrática e inclusiva; • A importância da escola para os adolescentes. No contexto brasileiro, o jovem do século XXI, em sua ampla maioria, é um jovem hiperconectado. A relação dos jovens com seus celulares e com as redes sociais, por exemplo, extrapola o ambiente familiar e em poucos mo- mentos ocorre um uso específico do aparelho. Muitos de- les utilizam o celular quase o tempo todo, seja na escola, seja em casa, seja em ambientes públicos, como cinemas e parques. Estar de posse de seu celular e se comunicar com outros jovens é uma marca de pertencimento. Mais do que constatar esse fato, a escola deve articular ações que preparem o jovem para uma relação produtiva com os dispositivos digitais e com as novas possibilidades de so- cialização e de interação humana que eles propiciam. Não por acaso, vêm surgindo novas propostas didático-pedagó- gicas que se valem de dispositivos utilizados pelos alunos em situações fora da sala de aula como ferramentas para a construção de conhecimento. Esse movimento de integração da realidade social carac- terística de nossa época, que passa pelo uso de dispositivos digitais, não apenas aproxima os alunos da escola, mas também aproxima diversos estratos da realidade à esco- la. Há uma diferença didático-pedagógica quando esses dispositivos e os conhecimentos que eles mobilizam são integrados a práticas cotidianas de ensino-aprendizagem. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 41 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXLII Não cabe aqui uma simplificação que coloque o foco dessas aprendizagens somente na aquisição e no desenvolvimen- to das competências digitais. A leitura de informações de forma quase que instantânea e o acesso a documentos históricos e registros geográficos de culturas antigas com um simples clique na tela do computador ou do celular ou a possibilidade de conexão rápida com vários pontos de vista sobre assuntos relevantes apontam para outro modo de pensar a dinâmica da sala de aula e o significado da escola para os alunos. Cabe destacar ainda uma tarefa complexa e desafiado- ra para a escola contemporânea: mostrar aos alunos quealgumas competências e habilidades necessárias à sua formação não são totalmente garantidas via consulta a sites e blogs, por exemplo. Imaginemos um aluno que tenha que estudar um conceito que, por sua natureza, podemos julgar inter ou transdisciplinar, como o de energia. O acesso de um aluno a um vídeo em que tal conceito é sintetizado, em uma linguagem que lhe é acessível, permite quais tipos de aprendizagem? Como parece estar claro na própria constru- ção da pergunta, permite que o aluno incorpore uma síntese desse conceito. Um estudo em que o aluno deva consultar algumas fontes, comparar alternativas conceituais e pensar as diferenças do conceito de energia em componentes cur- riculares distintos traz para ele algo muito mais complexo do que uma síntese como a oferecida pelo vídeo. Em suma, o estudo feito por meio de um vídeo não necessariamente promove a compreensão do conceito de energia que talvez seja necessário, segundo os critérios do professor, para a formação do aluno. Para que servem então, os vídeos de 5 minutos? Para uma introdução ou síntese do tema, ou seja, como parte do processo de ensino proposto pelo profes- sor. A proposta dos projetos integradores nesse sentido é ampliar as possibilidades de conhecimento e domínio dos alunos de várias estratégias para a aquisição e construção do conhecimento. O acesso a um blog que apresente uma informação muito bem articulada pode conviver com outras estratégias menos modernas, como a leitura de textos di- dáticos sobre o tema. Ao contrário do que se possa imaginar, nem todo o conhe- cimento que se produziu e se produz no mundo está dispo- nível para acesso gratuito de todos. Essa é uma discussão que deve ser levada adiante com os alunos, pois ela revela em grande medida o modo como cada um deles configura a realidade. É comum entre os jovens a preocupação com a circulação de opiniões, que muitas vezes têm maior trânsito do que os conhecimentos científicos ou jornalísticos. Isso se deve, em parte, ao valor que tem, atualmente, a cultura de massas em detrimento de outras possibilidades culturais, como a científica, a literária, a filosófica, a estética, etc. É importante que o professor se lembre de que ser capaz de formular opiniões e fundamentá-las é uma das aprendiza- gens essenciais que os alunos devem desenvolver no Ensi- no Fundamental, uma vez que essa competência depende da capacidade de construir argumentos consistentes e de discernir fontes confiáveis de pesquisa. Devemos, contudo, lembrá-los de que muito do que se veicula como “informa- ção” ou “verdade” nas redes sociais não se configura como um conhecimento fundamentado como o que se veicula na escola. É importante que o aluno saiba disso, pois tem sido muito comum, em atividades escolares, que o aluno cite ter retirado uma informação da internet, tratando-a como uma verdade inquestionável. É lógico que os alunos pen- sem assim. Para eles, a internet é algo global, maior e mais abrangente que a escola e, portanto, pode ser portadora de uma verdade universal. Cabe ao professor fazer com que os alunos, progressivamente, questionem a veracidade das informações num contexto em que a cultura se torna mas- sificada. O trabalho com projetos integradores pode, como o faz esta coleção, trazer a discussão das chamadas fake news para o contexto da sala de aula, preparando os alunos para enfrentar esse fenômeno de modo crítico e mediado. A cultura jovem é bastante rica e diversa e apresenta demandas específicas quando nos voltamos para o desejo de construção de uma sociedade democrática e inclusi- va. A escola, em sua construção curricular, precisa fazer o esforço de conhecer os interesses juvenis, aproximar-se deles e mostrar aos adolescentes como a chamada cultura adulta se relaciona com a sua própria. O valor da leitura, por exemplo, perpassa a vida dos jovens. Que livros eles leem? De que modo compartilham o que leem? Têm suas escolhas e gostos respeitados pelos demais? Em caso negativo, o que fazer para mudar isso? Outro esforço importante é o de colocar a cultura jovem num circuito, fazendo-a dialogar com a cultura da sociedade como um todo. Os patrimônios culturais de uma determina- da região, por exemplo, podem ser compreendidos como parte de uma cultura da qual o jovem faz parte e com a qual contribui e não como algo estranho a ele. Ao produzir um almanaque que divulgue patrimônios de sua região por meio de atividades criadas pelos próprios alunos e a partir de um estudo também efetivado por eles, o jovem tem a oportunidade de imprimir sua marca e sua linguagem na cultura que o constitui e que ele ajuda a moldar e construir. O jovem tem muito com que contribuir na sala de aula e no diálogo com o mundo adulto a partir das chamadas tecnologias digitais. No entanto, como esse conhecimento ainda está em formação, é fundamental o apoio da escola Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 42 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XLIII no uso reflexivo dessas possibilidades. Como vimos, ser familiarizado e estar constantemente conectado, não signi- fica que os jovens tenham total consciência das dimensões ética e política necessárias para um uso crítico das redes e das tecnologias digitais. A escola é um lugar privilegiado de trocas e um am- biente propício para discussões sobre o que está em jogo quando, por exemplo, viralizações e fake news fomentam comportamentos baseados em opiniões que se tornaram mais relevantes que os fatos em si. O espaço escolar e as atividades pensadas e trabalhadas pelos professores inten- cionalmente têm não apenas o objetivo de alertar os alunos quanto a esses fenômenos, mas também prepará-los para combatê-los e para desenvolver uma atitude crítica e cuida- dosa em relação ao desaparecimento da distinção entre o público e o privado que tem se dado contemporaneamente. Acreditar que apenas o espaço familiar é suficiente para essas discussões é desconsiderar não apenas o papel for- mativo da escola como o fato de que, fora de seu ambiente escolar, o aluno assume outros papéis sociais e precisa ser formado para atuar neles de modo crítico e responsável. Tão importante quanto o aluno identificar fake news e compor- tamentos de pós-verdade é o aluno não reproduzir boatos e não propagar discursos de ódio. Outro fenômeno que merece destaque é a superexposi- ção vinculada ao uso das redes sociais. Se as tecnologias digitais proporcionam facilidade de criar vínculos e comu- nicação abrangente, também podem se constituir espaços perigosos de exposição desnecessária e de interações que levem ao cyberbullying e ao preconceito. Discutir essa di- nâmica chamando a atenção dos alunos para a tentação que as redes sociais trazem para que cada um viva em sua própria bolha, sem lugar para discussões e divergências, é fundamental para uma sociedade que se queira pautada em valores coletivos e solidários. O contato com a diferença e com o livre pensamento, garantido pelos cursos regula- res e também, nesta coleção, pelos projetos integradores propostos, é uma forma de garantir um espaço em que o jovem possa exercitar a troca com respeito e, fazendo o necessário esforço da empatia, entender o lugar do outro e colocar-se nele. A escola contemporânea deve, portanto, estar atenta a toda essa dinâmica e buscar atuar tanto para contemplar esse jovem quanto para mostrar a ele formas de atuação social que não engessem modos de ver o mundo e de atuar sobre ele, mas que o capacitem, por meio da criatividade e da atuação cidadã, a continuar a olhar para o mundo e se posicionar sobre ele desde já. Lembremos mais uma vez que a escola não está apartada do mundo e da realidade que circunda o aluno, pelo contrário, está inserida nela. Os problemas que atingem os jovens na escola não estão des- vinculados no contexto de realidade que os cerca. Atuar sobre a realidade não é tarefa para o “depois da escola”. Deve fazer parte da vida da criança e do jovemdesde seu ingresso na escola, respeitando-se sua capacidade de com- preender a problemática social e, também, sua possibilidade de intervir nela. Visto que cada pessoa vem de um meio diferente e possui formas diversas de construir um mesmo conceito, torna-se necessário, na atividade pedagógica, conhecer os alunos a partir de uma série de dados que lhes digam respeito, dos mais específicos e pessoais até outros que ajudem o professor a situar seu momento de desenvolvi- mento em relação à sua formação mais ampla como sujeito. Ou seja, todo trabalho pedagógico se funda na com- preensão sobre os alunos com os quais concretamente se trabalha. O professor, por essa razão, deve se perguntar sobre quem são os alunos que compõem sua sala de aula (saber de onde vêm e quais são seus interesses e motiva- ções é tão importante quanto efetuar um levantamento de seus saberes prévios) com a mesma atenção que ques- tiona o que deve mobilizar em termos de conhecimentos, estratégias, avaliações para auxiliá-los em suas trajetórias educacionais. O diagnóstico inicial de desempenho do aluno contribui para que o professor observe e reconheça níveis de conhecimento em que o aluno se encontra e se foram ou não desenvolvidos habilidades e competências esperadas para uma determinada situação de ensino-aprendizagem. É muito importante que se tenha uma visão sobre o alu- no como um ser político e social, dotado de senso crítico, que pode ser sujeito do seu próprio conhecimento, sempre considerando as especificidades de sua inserção em um currículo. É através da avaliação diagnóstica que o profes- sor pode se perguntar como o aluno aprende e em nome do que o faz. Cada uma dessas questões, por sua vez, possui uma dimensão valorativa que diz respeito ao que o aluno carrega consigo sobre o sentido social e pessoal relacionado ao ato de estudar. Crianças e adolescentes cuja trajetória tenha sido pouco significativa em ambientes escolares desenvol- vem uma relação diferente com o conhecimento escolari- zado em comparação com outros que tenham vivenciado experiências significativas com o ensino. Outro aspecto importante é o valor dado ao estudo durante a formação familiar e social, como é o caso de certos conhecimentos ou práticas culturais (a leitura, por exemplo), que são valo- rizados ou não, dependendo do contexto familiar e social. Entretanto, todos esses elementos não se constituem como Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 43 7/15/19 11:43 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXLIV determinantes fechados a partir dos quais se modelam al- guns comportamentos previsíveis. A maneira como cada aluno ordena referências anteriores de sua vida escolar, familiar e social como uma condição para se situar em cada etapa de sua formação na escola em um dado momento é individual e assim deve ser investigada pelo professor. No caso das crianças e adolescentes que se encontram nos Anos Finais do Ensino Fundamental não é diferente. Essa faixa etária apresenta, talvez, a maior transformação no que diz respeito a aspectos físicos e sociais até os psicológicos e comportamentais, se comparada a outros momentos de sua vida escolar. Uma das marcas de grupo que as crianças e adolescentes desse segmento escolar apresentam pode ser sintetizada em sua relação com o corpo. Este passa a ser o ponto de referência de um conjunto de atitudes que passam a configurar uma certa identidade, formada a partir da expe- rimentação de usos e comportamentos que se fazem notar tanto pela sua singularidade quanto, paradoxalmente, pelo pertencimento a um grupo: os modos de vestir, os gestos, as transformações no modo de falar e se expressar articu- lam-se à maneira como os alunos se portam nos múltiplos espaços em que circulam, inclusive a escola. A procura por traços de distinção pode ser entendida não apenas como referência a comportamentos gerais de grupos nos quais os jovens desejam se inserir, mas tam- bém como indicadores que os separam da criança que foi quando estudava nos Anos Iniciais do Fundamental. Há um sentimento vivo, por parte de crianças e adolescentes em sua passagem pelo Fundamental II, de que não são mais as mesmas pessoas de outrora. Consideram-se mais “adultos” em comparação com o que foram, mesmo que repliquem atitudes que tinham até o final do 5o ano. Essas características não podem ser desconsideradas pelos professores durante a elaboração do currículo e, mais detidamente, na elaboração e proposição de projetos de tra- balho junto aos alunos. A escolha de atividades desafiadoras que envolvam, por exemplo, níveis de reflexão mais com- plexos e não somente mecânicos, pode significar, para os alunos que cursam os Anos Finais do Ensino Fundamental, um reconhecimento da sua capacidade de dar respostas a situações que não se identificam com o universo infantil. Para eles, significa um novo posicionamento em relação ao processo ensino-aprendizagem: diferentemente de um postura passiva frente ao conhecimento, o professor passa a ter interesse nas opiniões do alunos quanto a problemas investigados pelos diferentes componentes curriculares. Ser reconhecido em uma nova posição no sistema que articula professor-conhecimento-aluno o faz se sentir observado e respeitado. Como afirma Roehrs: O adolescente é um ser que se encontra em uma fase peculiar do desenvolvimento humano e, deve ser percebido em seu contexto, com características biopsí- quicas, intelectuais e emocionais específicas, enfren- tando toda a sorte de infortúnios de uma sociedade em rápido processo de transformação. A adolescência é considerada a etapa de transição entre a infância e a idade adulta, marcada por significativas mudanças e transformações biológicas, psíquicas e sociais. Cons- titui-se uma etapa crucial do crescimento e desenvol- vimento na qual culmina todo o processo maturativo biopsicossocial do indivíduo. É um período de contra- dições, ambivalências; turbulento, repleto de paixões, dorido, caracterizado por conflitos relacionais com o meio familiar e social. ROEHRS, Hellen et al. Adolescência na percepção de professores do Ensino Fundamental. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n. 2, jun. 2010. Disponível em:. Acesso em: 19 set. 2018. Um dos pontos que chama a atenção nas análises so- bre o perfil das crianças e adolescentes que frequentam as escolas diz respeito à importância da compreensão das especificidades de seu modo de ser. Ao contrário de concepções ultrapassadas, o período em que os alunos frequentam o Ensino Fundamental nos Anos Finais não se resume a uma espera pela continuação e término da Educação Básica no Ensino Médio. Há uma série de ha- bilidades, conteúdos e valores que possuem um efetivo significado nessa etapa da escolaridade. Se, para muitos, os Anos Finais do Ensino Fundamental apresentam, de modo geral, alguns conflitos que se traduzem no questio- namento dos alunos sobre qual a relevância da vivência escolar e de que modo é possível ou não se inserir nesse contexto, é nessa fase de desenvolvimento que os ado- lescentes mostram-se prontos para a análise e a forma- ção de opiniões pautadas pela compreensão de aspectos abstratos que constituem os fenômenos da natureza, as relações sociais, o domínio das linguagens escrita e oral e da matemática. Por se encontrarem em uma fase de passagem entre a infância e a vida adulta, os estágios que antecedem pro- priamente a adolescência, mas que já fazem parte das vi- vências escolares dos Anos Finais do Ensino Fundamental (principalmente o 6o ano e parte do 7o ano), é comum os alunos começarem a apresentar uma série de conflitos, que resultam em questionamentos de seu lugar na escola e da finalidade da aprendizagem de conhecimentos, proce- dimentos e atitudes trabalhados em um projeto curricular. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd44 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XLV Os comportamentos contraditórios dos alunos nessa fase fazem com que, muitas vezes, estabeleçam preferências por determinadas atividades, cursos, componentes curri- culares ou professores, com os quais tentam estabelecer vínculos que envolvem tanto aspectos relacionados a uma dimensão afetiva quanto interesses intelectuais. Nesse sentido, a escola (e mais precisamente a sala de aula) torna-se um espaço em que convergem os con- flitos relacionais com outros meios, como a família e as situações sociais com as quais interagem as crianças e os adolescentes. Não se pode, portanto, isolar o trabalho pe- dagógico das outras circunstâncias que afetam os alunos. A convivência escolar possui um papel decisivo no equilí- brio sempre relativo que os alunos procuram estabelecer em seu processo de amadurecimento. Dinamicidade na rotina de sala de aula é uma das exigências mais frequen- tes dos alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental em quaisquer componentes curriculares, indicando, ao contrário do que se possa pensar, um verdadeiro interesse em estar nas aulas de um modo ativo por parte dos alunos. Para eles, cabe ao professor estimular seu interesse, dado que compreendem, no geral, os conteúdos como “algo que deve ser aprendido”; portanto, algo que não se relaciona diretamente com o que sabem. A dinamicidade da sala de aula, com seus vários profes- sores e exigências distintas para a construção de conhe- cimentos, é um dos fatores que regula outros espaços so- ciais pelos quais os alunos transitam. A postura conflituosa, nesse sentido, não é algo que deva ser considerado como uma marca negativa desse momento da escolarização de crianças e adolescentes. Pelo contrário. Por detrás de al- guns conflitos, há sujeitos presentes na sala de aula. Saber canalizar o desejo de se fazer notar a partir de alguns posi- cionamentos, de certo modo rebeldes, para a mobilização de interesses e possibilidades criativas, argumentativas, investigativas, sem simplesmente reproduzir um conheci- mento alheio, pode ressignificar a maneira como os alunos agem no espaço escolar. A escola tem papel fundamental no desenvolvimen- to do adolescente, contribui com a formação global do jovem e da sociedade. Papel que extrapola o ato de ensinar e envolve o educar crianças e jovens de- senvolvendo sua identidade e subjetividade. Faz parte do dia a dia dos professores o incentivo à cidadania, à responsabilidade social e a incorporação de hábitos saudáveis. É o segundo núcleo da vida do ser humano e também é um local em que se trabalha com a cons- trução do conhecimento. Assim, o aprimoramento A relação entre família, escola e aluno, segundo o que pudemos ler, deve ser considerada como uma unidade no processo ensino-aprendizagem. Quando falamos aqui em família, tomamos um núcleo da sociedade. Ou seja, em rela- ção a uma dimensão social mais ampla, é o núcleo da família que a todo momento, de modo mais ou menos intencional e articulado, dialoga com a escola. É, portanto, importante que parte da produção escolar seja, de tempos em tempos, compartilhada e problematizada junto à família e à comu- nidade. O mundo social não pode se limitar a ser apenas um objeto da análise e da aprendizagem dos alunos (algo que alguns componentes já o fazem), mas deve também ser convidado a partilhar as construções de saberes que são fruto de sua observação e análise. Por essa razão, é fundamental para a metodologia dos projetos integradores que família e comunidade (estratos da sociedade) venham à escola debater os resultados dos projetos realizados e finalizados pelos alunos. Como os projetos podem favorecer o desenvolvimento dos adolescentes Formar alunos para se integrarem de modo ativo à So- ciedade da Informação é uma tarefa desafiadora em razão de sua complexidade. Podemos entender o termo comple- xidade no sentido a ele dado pelo pensador E. Morin, ou seja, como uma espécie de paradigma a partir do qual se estabelecem as relações entre sujeitos e objetos, ordem e desordem, objetividade e subjetividade, racionalidade e incerteza, dicotomias que envolvem qualquer atividade de construção de conhecimentos. O que se pode verificar, na maioria das atividades conduzidas pelos professores em muitas escolas, é justamente um tipo de apresentação do conhecimento pouco complexo no que diz respeito às possibilidades apontadas pelo paradigma acima destacado por Morin: os encontros entre os alunos e o conhecimento, mediado pelo professor, são muitas vezes burocráticos, repetitivos e desestimulantes, marcados por uma descon- sideração dos interesses que as crianças e os jovens pos- suem. Para Morin, da relação interpessoal entre estudante adolescente e docentes resulta em benefício para as demais pessoas envolvidas, as famílias e amigos. ROEHRS, Hellen et al. Adolescência na percepção de professores do Ensino Fundamental. Revista da Escola de Enfermagem da USP, São Paulo, v. 44, n. 2, jun. 2010. Disponível em: . Acesso em: 19 set. 2018. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 45 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXLVI 3 Formas de avalia•‹o A avaliação é um momento privilegiado na relação en- sino-aprendizagem. Ela deve estar presente em todas as etapas dessa relação, permitindo que alunos e professo- res percebam seu grau de envolvimento nesse processo e acompanhem sua dinâmica. Dessa forma, é um momento de fundamental importância para que cada aluno perceba como está desenvolvendo sua aprendizagem e para que o professor perceba como está se dando seu ensino. É importante que a avaliação esteja prevista no projeto político-pedagógico da escola e do professor, de forma coe- rente com os princípios pedagógicos. Assim, ela deve estar em consonância com os procedimentos teórico-metodoló- gicos adotados, considerando-se os diferentes contextos em que ocorre. A avaliação constitui um dos momentos fundamentais de qualquer processo de ensino-aprendizagem. Antes de propor qualquer espécie de estudo e proposta, o professor precisa refletir sobre o que pretende alcançar enquanto re- sultado, o que pretende que seus alunos aprendam e como deseja verificar se tais conhecimentos foram apreendidos. Ao planejar o ensino de determinados conteúdos e con- ceitos, o professor precisa prever os recortes que irá propor, as etapas necessárias à execução desse projeto e como promoverá a avaliação e discutirá com os alunos o resultado alcançado. Diferentemente do que pensam alguns, a ava- liação não diz respeito prioritariamente ao professor, mas é um processo que deve, necessariamente, envolver o aluno. O aluno tem o direito de ter algum tipo de devolutiva sobre o que conseguiu ou não aprender em determinado processo e sobre determinado tema. De posse desse balanço, cabe ao professor reencaminhar o percurso, rever estratégias e cor- rigir rotas, enquanto ao aluno cabe uma autoavaliação em relação às suas estratégias de estudo, a eventuais dúvidas conceituais e ao modo como vem enfrentando o desafio de trabalhar com determinados conceitos e projetos. Ao trabalharmos com projetos integradores, um ponto inicial importante é a apresentação de questões desafiadoras que coloquem o aluno frente a situações-problema que ele se sinta capaz de vencer e que instiguem sua curiosidade para a realização daquele projeto. Nesse contexto, a avaliação nos coloca alguns desafios quando se trata de projetos: é neces- sário que ela seja tão processual quanto a própria proposta, que considere aspectos socioemocionais e que seja proposta de maneira distinta das avaliações formais. Cabe à educação do futuro cuidar para que a ideia de unidade da espécie humana não apague a ideia de diversidade e que a da sua diversidade não apague a da unidade. Há uma unidade humana. Há uma diversi- dade humana. A unidade não estádo professor, algo que o torna mais capaz de ensinar o que ele considera legítimo de ser ensinado. Se o século XXI é o século da chamada sociedade do conhecimento (Hargreaves, 2004), isto é, a sociedade em que o conhecimento é o principal recurso para a produção e a criação de riqueza, prosperidade e bem-estar para a população, a tarefa da escola e do professor torna-se, no mínimo, desafiadora. Ao lado do excesso de informações com que somos bombardeados cotidianamente, e de certo modo contraditoriamente, surge quase que um desinteres- se pelo conhecimento e uma banalização dele. O conheci- mento parece estar em todo lugar e em nenhum lugar ao mesmo tempo. Esse panorama reforça a necessidade de formar um alu- no preparado para os desafios que está enfrentando (a vida do aluno não começa depois da escola, ela está em curso o tempo todo e deve sempre ser considerada no horizonte educativo) e que enfrentará depois de finalizar sua forma- ção na educação básica. A sociedade do conhecimento pre- vê a necessidade de investir em capital intangível, humano e social. Hoje, a produção de riquezas é determinada não só pela força de trabalho, mas pelo nível científico, pelo progresso tecnológico e pela capacidade de aprendizagem das sociedades. Isso quer dizer que, diferentemente da so- ciedade industrial, em que a força mecânica do trabalhador da fábrica (que impulsionava as máquinas por uma quan- tidade de horas de trabalho) era o essencial para o avanço econômico, na sociedade atual é a capacidade de dominar Competências e habilidades Competência pode ser definida como o desempe- nho eficaz nos diferentes âmbitos da vida, por meio de ações nas quais se mobilizam habilidades de ma- neira inter-relacionada, considerando componentes atitudinais, procedimentais e conceituais. Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhe- cimentos (conceitos e procedimentos), habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho. Habilidade pode ser definida como a ação realizada pelo aluno, mobilizada a partir da articulação de dife- rentes conteúdos. Representa uma ampla diversidade de ações independentemente do conteúdo utilizado. Procedimento pode ser definido como o conjunto de ações ordenadas com um fim, ou seja, direciona- das para a realização de algo, com etapas e sequên- cias claras. diferentes linguagens e tecnologias, de resolver problemas, de propor soluções inovadoras e de interagir em grupos que determina o perfil do trabalhador ideal. Desde os anos 1980, com a gradativa inserção da in- ternet como suporte de busca de informações e acesso a conteúdos, a educação voltada para a exclusiva ou preva- lente transmissão de conhecimentos sofre um processo de questionamento e reavaliação. Ensinar o quê? Ensinar para quê? Nesse contexto, busca-se formar alunos diferentes dos que eram formados para reproduzir informações em quantidade. Hoje, o aluno que desejamos formar deve ser competente, criativo e crítico, não apenas reprodutor de conhecimento e cumpridor de tarefas. Ensinar desenvolvendo competências e habilidades sig- nifica formar um aluno crítico e capaz de mobilizar os co- nhecimentos adquiridos para resolver situações-problema e enfrentar questões complexas tanto na vida escolar como além dos muros da escola. Nessa perspectiva de ensino, o conteúdo deixa de ser o foco principal dos planejamentos. Procedimentos, habili- dades e competências passam a também ser considerados para compor a formação ampla e integral do aluno. Essa é uma mudança de perspectiva que vem ocorrendo no ensino regular, dentro mesmo do planejamento dos professores no trabalho com seus componentes curriculares. Deixa-se, por exemplo, de enfatizar o ensino de datas para enfatizar Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 6 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR VII a reflexão crítica, opta-se pela reflexão do como fazer e do raciocínio que conduz à resolução de um problema em vez de priorizar-se o ato mecânico de repetir uma série de exercícios. No caso da opção pelos projetos integradores, a formação integral do aluno é enfatizada, uma vez que a própria integração dos conteúdos não obedece aos pa- drões de trabalho tradicional com os conteúdos em sala de aula, mas priorizam um enfoque eminentemente inter ou transdisciplinar. O trabalho por projetos integra pelo menos dois componentes curriculares, podendo, de acordo com o modo como o currículo está organizado em cada escola e a partir da ação do professor no planejamento de suas ações educativas, ser ampliado para envolver outros conteúdos e procedimentos que acrescentem problematização às apren- dizagens que os alunos desenvolvem durante o projeto. Num planejamento para trabalhar com projetos integra- dores, o centro deixa de ser uma simples lista de tópicos, subtópicos, sequenciação e aferição de aprendizagem para tornar-se um organismo mais vivo e complexo. É como se o professor pudesse seguir uma espécie de roteiro mental (selecionando modos de introduzir o tema, propondo novas perguntas desafiadoras quando se chegou a uma resposta rápida e esquemática demais, por exemplo) ou mesmo físico (em alguns casos, com planejamentos aula a aula, semana a semana ou por tema) com base em uma lista de pergun- tas e problematizações. Se num trabalho disciplinar há a certeza de que determinados conteúdos e conceitos são imprescindíveis e até mesmo que devem seguir uma ordem padronizada, outras questões podem ser levantadas pelo professor ao planejar um trabalho com projetos. • O que é essencial que meu aluno saiba sobre esse con- ceito/tema para formar-se de modo integral? • Que valores e atitudes estão previstos na discussão desse conceito/tema? • De que modo os conhecimentos prévios dos alunos po- dem ser acessados no início do estudo e considerados ao longo do desenvolvimento do projeto? • Que estratégias de mediação do conhecimento posso utilizar ao longo deste projeto? • Como vou acompanhar o processo de desenvolvimento do projeto e que recursos vou usar para avaliá-lo? Essas questões evidenciam que planejar o ensino para o trabalho com projetos integradores pressupõe um profes- sor mediador, que lança desafios e propõe uma questão ou problema a ser resolvido (ou discutido) ao longo da apren- dizagem de um determinado tema num período específico. Nessa perspectiva, o aluno se encontra numa postura mais ativa/investigativa e o professor na função de mediador e articulador das aprendizagens propostas. Questionar as representações “únicas” da realidade [...] A terceira ideia que dá sentido à educação para a compreensão é a que se propõe em termos de que aquilo que se aprende deva ter relação com a vida dos alunos e dos professores, ou seja, deva ser interessante para eles. O que não quer dizer, como a tradição da Escola ativa preconizou, “partir dos interesses dos alunos” e muito menos do que “gostariam de estudar ou saber”. Seguir esse caminho ao pé da letra significaria reduzir suas possibilidades como apêndices, limitar suas ulterio- res aprendizagens do que “não sabem” que lhes possa interessar, e a contextualização do que conhecem de maneira parcial ou fragmentária. Essa concepção supõe que a educação escolar possa possibilitar a aquisição de estratégias de conhecimento que permitam ir além do mundo tal como estamos Os documentos governamentais apontam para esse caminho, como trataremos adiante. Uma vez que a Base Nacional Comum Curricular pensa o currículo com foco em competências e habilidades, há uma opção para o diálogo entre os componentes, para uma abordagem que concebe o conteúdo não como um fim em si mesmo, mas como uma possibilidade de desenvolver conceitos, habilidades e com- petências, indo além da memorização e buscando o diálogo inter e transdisciplinar. Não bastaapenas nos traços biológicos da espécie Homo sapiens. A diversidade não está apenas nos traços psicológicos, culturais, sociais do ser humano. Existe também diversidade propriamente biológica no seio da unidade humana; não apenas existe unidade cerebral, mas mental, psíquica, afetiva, intelec- tual; além disso, as mais diversas culturas e sociedades têm princípios geradores ou organizacionais comuns. É a unidade humana que traz si os princípios de suas múltiplas diversidades. Compreender o humano é com- preender sua unidade na diversidade, sua diversidade na unidade. É preciso conceber a unidade do múltiplo, a multiplicidade do uno. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2001. p. 55. tural em que diversas formas de produzir o conhecimento circulam e interagem. O modelo de aula que transforma o professor em um transmissor de conteúdos e os alunos em meros receptores passivos tem levado tanto ao dis- tanciamento das aprendizagens de temas importantes e estimulantes quanto da formação de estudantes capazes de observar e interferir na realidade em que se inserem. Alguns estudos têm revelado não somente o desinteres- se dos alunos pela escolarização, mas também a sensação de que aquilo que aprendem em sala de aula não possui sen- tido para quem dedica uma parte relevante de seu tempo aos estudos. No caso específico dos alunos que frequentam os Anos Finais do Ensino Fundamental, a percepção é de que ocorre uma ruptura progressiva entre o desejo de aprender e as situações de aprendizagem propostas no cotidiano de estudo pelos professores. Entre todos os desdobramentos possíveis diante desse quadro insatisfatório, observa-se a frequência às aulas por obrigação e pouca participação em atividades complementares propostas pelos professores. Ficam apáticos diante de qualquer iniciativa, fato que gera frustração e desinteresse em atingir os objetivos de apren- dizagem estabelecidos. No atual contexto social, em que o cotidiano é atravessa- do por uma quantidade enorme de informações de todos os tipos, o papel da escola deve ser o de um espaço sociocul- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 46 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XLVII A questão do erro, por exemplo, ganha outros contornos: O que se considera erro quando se está desenvolvendo um projeto? O fato de o produto final não ter ficado como se pla- nejou? O fato de alguma etapa ter tido que ser reorganizada ou cumprida de forma distinta? Outra pergunta que pode ser colocada é: Todo erro é igual? Ou seja, um erro pontual na execução de uma ativi- dade específica tem o mesmo peso e a mesma relevância de um erro em uma testagem de hipótese que não saiu confor- me prevista inicialmente? Muitas vezes, o que chamamos de erro é aquilo que o aluno foi capaz de construir até aquele momento e que é fundamental para o professor poder ob- servar o aluno a partir de um instante do que foi vivido por ele no trabalho com determinado conceito ou na realização de determinado procedimento. O aluno se equivocar, por exemplo, na leitura de um infográfico ou na localização de um país no mapa revela um problema pontual, que pode ser resolvido mediante uma intervenção específica e um redirecionamento. Outras vezes, o erro se relaciona com a não compreensão do que se pede em uma atividade e aí vale investir na troca com os colegas e em desenvolver estraté- gias para leitura e compreensão de enunciados. Há casos, ainda, em que não se trata propriamente de erro, mas de uma dificuldade particular: o aluno pode compreender como se escreve uma história em quadrinhos e gostar mesmo de lê-las e criá-las, mas ter dificuldade na criação de diálogos e na elaboração dos desenhos que a compõem. Nesse caso, pode-se estipular um passo a passo mais detalhado e re- forçar a necessidade de cooperação entre os elementos do grupo responsável por essa escrita (vale frisar que ativida- des criativas e extensas, como a criação de uma história em quadrinhos ou de um almanaque, são sempre, nesta coleção, propostas como atividades em grupo), de modo que o aluno se sinta seguro para superar essa dificuldade. Segundo uma metodologia tradicional, a avaliação tem sido encarada de modos muito diversos ao longo do tempo: • um momento para replanejar dinâmicas de sala, pro- postas de tarefa; • um modo de compreender como o aluno está construin- do sua relação com o conhecimento; • um caminho para entender o erro e seu sentido em um momento específico da aprendizagem; • uma forma de mensurar os conteúdos absorvidos pelo aluno; • um modo de levantar hipóteses sobre como o aluno está construindo sua relação com o conhecimento; etc. É certo que a avaliação não deve ser entendida, em ne- nhuma circunstância, como um modo de punir/demonstrar ao aluno o que ele não sabe devido a desvios de compor- tamento/questões disciplinares. Ou seja, a avaliação não deve se constituir como um instrumento de poder numa relação desigual entre o professor, visto aqui como superior e detentor exclusivo do conhecimento, e o aluno, visto como inferior, obrigado a assumir uma atitude passiva diante da avaliação que recebe. Ambos, professor e aluno, devem ser considerados no processo avaliativo, em suas respectivas funções e papéis. Se, numa abordagem cotidiana e disciplinar, em sala de aula, a avaliação pode ser entendida como uma mensuração pontual da aprendizagem do aluno em dado conceito e/ou procedimento e também como uma reorientação para uma aprendizagem melhor e mais efetiva por parte do aluno, esse se faz um caminho obrigatório no caso do trabalho com proje- tos. Se algumas etapas específicas dos projetos podem conter conteúdos que mereçam uma mensuração que reoriente o ca- minho (por exemplo, é preciso compreender o funcionamento de uma máquina simples antes de criar uma), o projeto como um todo não pode ser avaliado com base em uma somatória de atividades e etapas fragmentadas, desconsideradas em sua organicidade e continuidade. Se o aluno precisou de ajuda para, por exemplo, entender as características da água isso não significa que ele chegue ao final do projeto sem ter com- preendido o sistema de distribuição e tratamento da água, ao participar da construção da maquete. Isso significa que algumas aprendizagens pontuais podem ocorrer com maior ou menor dificuldade, mas não impedirão que o resultado al- mejado seja alcançado pelo conjunto de alunos. Seja pontual ou contínua, a avaliação só faz sentido quando leva ao desenvolvimento do educando. Nesse sentido, só se deve cobrar aquilo que foi ensinado. Uma pergunta que o professor pode se fazer ao finalizar um pro- jeto é: Os alunos estão efetivamente se apropriando dos resultados da avaliação como forma de avançar em relação a seu processo de aprendizagem? Outro ponto que compõe a avaliação e faz parte dela é a devolutiva dos resultados avaliativos para os alunos. Há muitos modos de conduzir essa devolutiva quando se aborda a avaliação de projetos integradores. Sugerimos a seguir algumas delas e algumas abordagens possíveis. • Avaliação coletiva do projeto. A classe toda forma um cír- culo e o professor propõe algumas questões para serem avaliadas por todos: Como foi trabalhar neste projeto? Seus conhecimentos prévios sobre o tema ajudaram você nesse estudo? Você sente que aprendeu mais so- bre este assunto? Gostou de participar do projeto? Nesse caso é importante garantir que todos os alunos tenham a oportunidade de falar e respeitar aqueles que queiram se pronunciar pouco, por não gostarem de se expor. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 47 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXLVIII • Avaliação individual do projeto por escrito. O professor propõe algumas questões que os alunos copiam em seus Diários de bordo e que funcionam como um roteiro de avaliação do projeto. As perguntas podem, por exemplo, ser as mesmas propostasno item anterior ou ser com- binadas com outras mais pessoais, na medida em que os alunos escreverão respostas, mas não será preciso compartilhá-las com a classe. • Avaliação em grupos. Cada grupo de trabalho senta jun- to e constrói sua avaliação do projeto. Nesse caso, o professor pode propor questões que contemplem as participações individuais de cada membro do grupo e também questões para que o grupo se avalie como um todo, mensurando de que modo atuaram na construção do trabalho coletivo, da classe toda. Esse é um tipo de avaliação muito adequada para projetos como o Bumba meu boi ou o Patrimônio material e imaterial, em que tarefas realizadas por grupos compõem o produto final da classe: a encenação de uma festa de boi e um alma- naque sobre os patrimônios da região da turma, no caso. • Avaliação oral individual ou em grupo. Quando o projeto tiver apresentado problemas específicos ou, pelo con- trário, tiver sido muito bem-sucedido, uma boa estraté- gia é fazer uma devolutiva oral com cada aluno ou com cada grupo de alunos. Nela, é possível chamar a atenção dos alunos para aquilo que conseguiram realizar, para o que viu de positivo no trabalho de cada um deles e que deve ser valorizado, etc. Pode também ser aproveitada a oportunidade para apontar comportamentos e atitudes que não devem ser repetidos em projetos futuros. Um exemplo: Você realizou bem as atividades X e Y, mas não teve uma atitude de cooperação com seus cole- gas, o que é necessário para trabalhos coletivos como este. Espero que num próximo projeto você possa agir de modo diferente, etc. Essas estratégias são todas igualmente válidas; o de- senrolar de cada projeto é que determina a maior ou menor adequação de cada uma. É possível ainda que, em função da ocorrência de momentos particulares de avaliação processual, o projeto não necessite de uma avaliação final formal, podendo apenas ser finalizado da forma que o professor decidir: os alu- nos podem ser convidados a fazer um desenho que represente o que o projeto significou para eles ou elaborar uma lista de frases que simbolize o que vivenciaram durante o projeto. No texto a seguir, Depresbiteris e Tavares sintetizam algumas das ideias aqui apresentadas a partir da utilização dos projetos como instrumentos de avaliação, chamando a atenção para aspectos específicos que marcam o uso dessa metodologia. Projetos como instrumentos de avaliação Em sua origem etimológica, a palavra projeto vem do latim – projectus – ação de lançar para frente, es- tender-se. No uso corrente do dicionário (Houaiss), os sig- nificados para projeto são diversos: ideia, desejo, intenção de fazer ou realizar (algo) no futuro, plano, descrição escrita e detalhada de empreendimento a ser realizado. Em educação, o projeto vem sendo considerado po- deroso recurso para tornar o educando elemento ativo em sua aprendizagem. Na verdade, todo projeto nasce de uma boa questão, que transcende as disciplinas escolares e até os limites do espaço físico da escola. Alguns aspectos determi- nam uma boa questão: um deles de que é necessário que ela seja construída coletivamente, por professores e alunos. Quando se fala de projetos, pode-se pensar de forma mais específica, como produto esperado em algumas disciplinas, ou dentro de uma abordagem da própria pedagogia de projetos. Historicamente, os projetos em educação aparecem com Kilpatrick em 1919, com base nas ideias de Dewey. A ideia central da pedagogia de projetos é articular os saberes escolares com os saberes sociais, de maneira que, ao estudar, o aluno não sinta que está aprendendo algo abstrato e fragmentado. Ele compreende o valor do que aprende. [...] Os conteúdos não se tornam atomizados, estanques, mas se estruturam de maneira relacionada e coorde- nam-se ao redor do eixo de um problema a resolver. Rompe-se com a imposição de conteúdos de forma rígida e preestabelecida, incorporando-os, na medida em que se constituem parte fundamental para o desen- volvimento do projeto. [...] Por meio de projetos, o aluno enfrenta situações-pro- blema para serem estudadas de maneira sistematizada e para que, por meio delas, consiga aprender. Os professores e alunos assumem novos papéis. O professor torna-se pesquisador e compartilha com os alunos as responsabilidades pela construção do conhe- cimento. Aos alunos cabe desenvolver uma postura ativa perante o processo de ensino-aprendizagem e reconhecer outras fontes de informação além do pro- fessor e ambientes de aprendizagem que transcendem a sala de aula. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 48 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XLIX Nesse processo, os educandos integram os conteúdos das disciplinas, o que facilita sua interação com a rea- lidade, de forma crítica e dinâmica. A metodologia de projetos, trabalhada desde a educação infantil, inclui uma série de princípios de aprendizagem que promovem a capacidade de pensar, expressar-se, desenvolver habilidades de planejamen- to, investigação, análise, síntese, tomada de decisões, avaliação e interação. [...] De modo geral, a avaliação, dentro da ótica dos pro- jetos, é desenvolvida, ao longo de todo o processo, bus- cando verificar a capacidade do aluno de resolver uma situação problemática real, dando enfoque à mobiliza- ção e articulação de recursos. Segundo Nogueira, existem várias formas de avaliar projetos: • Avaliação realizada pelos e com os alunos sobre o processo pelo qual passaram no desenvolvimento do projeto. A avaliação engloba expectativas, interesses, satisfações, aquisições e descobertas. • Avaliação do envolvimento dos alunos e das equipes, com definição dos instrumentos adequados de coleta de informações. • Avaliação das aquisições do que os alunos aprende- ram no processo. • Avaliação do projeto com base nos objetivos plane- jados. [...] Outro aspecto importante é o de que o próprio aluno pode se avaliar com a realização de seu projeto. [...] DEPRESBITERIS, Léa; TAVARES, Marialva Rossi. Diversificar é preciso: instrumentos e técnicas de avaliação de aprendizagem. São Paulo: Senac, 2009. p. 139-147. O trabalho com projetos tem como uma de suas marcas, como apontam as autoras, a possibilidade de colocar os alunos diante de desafios, lançá-los na busca pelo conhe- cimento de modo ativo. As autoras apontam que todo projeto nasce de uma boa questão, que, na perspectiva delas, deveria ser constituída coletivamente, por professores e alunos. Sabemos que a reali- dade das escolas e dos professores, no entanto, nem sempre possibilita ações dessa natureza. A presente coleção busca garantir que, a partir de questões desafiadoras interessantes e potentes, o aluno possa exercitar uma participação ativa em seus estudos. Os caminhos para a realização desses projetos podem ser muitos e diferenciados e os professores, junta- mente com seus alunos, podem escolher modos diversos de percorrer o estudo, alterando e adaptando atividades que julguem necessárias. Há, inclusive, sugestões de percursos e caminhos ao longo das orientações específicas de cada etapa que buscam evidenciar essas escolhas possíveis. Fundamentalmente, os projetos coordenam saberes e componentes em torno de um problema ou desafio a ser resolvido e, dessa forma, cada projeto desta coleção prevê uma avalição ampla, que considera o projeto durante seu processo de execução, o produto final a que foi possível chegar e também a maneira encontrada para compartilhar com a comunidade os resultados alcançados. Como vimos anteriormente e o texto das autoras corro- bora, é importante considerar várias formas de avaliar um projeto: utilizando estratégias que envolvam alunos e pro- fessores, considerando objetivos planejados, levando em conta os aprendizados previstos por aquele projeto e mes- mo promovendo a autoavaliação do aluno de seu processo de trabalho. Todas essas possibilidadesde trabalho e de avaliação são contempladas nesta coleção, em diferentes projetos, e cabe ao professor escolher o caminho que quer trilhar com seus alunos no uso dessa metodologia. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 49 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORL 4 Estrutura da cole•‹o Esta coleção está organizada em dois volumes. Um vol- tado para o 6o e 7o anos e o outro para o 8o e 9o anos. Para cada ano são apresentadas quatro propostas de projetos. Cada ano tem uma cor predominante, que ajuda na sua identificação. A obra obedece a uma mesma estrutura inter- na, sinalizada também graficamente, o que ajuda professo- res e alunos a se familiarizarem com as diferentes etapas e seções de trabalho. Perfil de cada parte do livro Abertura de projeto Na abertura do projeto o tema é apresentado ao aluno por meio de uma pergunta desafiadora. A mobilização dos alunos por meio de sua curiosidade é um dado importante no trabalho com projetos. A pergunta que abre o primeiro projeto do livro: “De onde vem a água que eu bebo?”, por exemplo, implica o aluno na busca pela resposta e, ao mes- mo tempo, chama sua atenção para um fato que poderia ser tratado por ele como natural, como se água fosse um bem que não tivesse que ser obtido pelo homem por meio de um processo de produção que envolve muitas etapas. Todas as aberturas de projeto buscam despertar o interesse dos alunos por meio de questões investigativas ou convites para um estudo ampliado do tema proposto, com imagens chamativas e adequadas para a faixa etária em que se en- contram os alunos. 37 PROJETO 3 MATEMÁTICA E BRINCADEIRAS Ilustração de um festival de pipas na China. Foi publicada na revista semanal inglesa The Graphic em 13 de setembro de 1879. › Com quantos ângulos se faz uma pipa? B ib li o te c a A m b ro s ia n a , M il ã o , It a li a /A lb u m /F o to a re n a 6o ano 8o ano 9o ano 7o ano7o ano 87 PROJETO 3 › Vamos fazer uma festa do boi? É ric a C at ar in a Po nt es /F ut ur a P re ss M ar co A nt on io S á/ P ul sa r Im ag en s E dm ar B ar ro s/ Fu tu ra P re ss À esquerda, em cima, grupo Bumba meu boi da Fé em Deus, em São Luís (MA), em 2013. Acima, cortejo do Arrastão do Boi Pavulagem, em Belém (PA), em 2016. Ao lado, apresentação do Boi Bumbá Garantido, em Parintins (AM), em 2016. BUMBA MEU BOI 8o ano É ric a C at ar in a Po nt es /F ut ur a P re ss É ric a C at ar in a Po nt es /F ut ur a P re ss À esquerda, em cima, grupo Bumba meu boi da Fé em Deus, em São Luís (MA), em 2013. Acima, cortejo do Arrastão do Boi Pavulagem, em Belém (PA), em 2016. Ao lado, apresentação do Boi Bumbá Garantido, em Parintins (AM), em 2016. 67 PROJETO 4 PREVISÃO DO TEMPO › Como saber se vai chover? N O A A /N A S A Desde as primeiras sociedades, prever as condições meteorológicas era essencial para a lavoura e para muitas outras atividades humanas. Recentemente, a previsão do tempo passou por um grande avanço com a ajuda de imagens obtidas por satélites meteorológicos, como esta, do satélite GOES-16. Ela foi criada com um conjunto de imagens do dia 15 de janeiro de 2017, às 13 h 7 min. Nela é possível ver o continente americano. 9o ano 67 4 N O A A /N A S A Desde as primeiras sociedades, prever as condições meteorológicas era essencial para a lavoura e para muitas outras atividades humanas. Recentemente, a previsão do tempo passou por um grande avanço com a ajuda de imagens obtidas por satélites meteorológicos, como esta, do satélite GOES-16. Ela foi criada com um conjunto de imagens do dia 15 de janeiro de 2017, às 13 h 7 min. Nela é possível ver o continente americano. 145 PROJETO 4TRANSMISSÃO DIGITAL › Será que o mundo inteiro cabe no meu smartphone? A ld o M u ri llo /i S to ck p h o to /G e tt y I m a g e s Cada vez mais nos comunicamos por meio de dispositivos que facilitam a transmissão de informações. Em contrapartida, as pessoas se sentem mais isoladas do que nunca. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 50 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LI Introdução ao projeto Na introdução ao projeto é indicado ao aluno o que ele fará ao longo do projeto e também são apresentados os componentes que serão usados na investigação da ques- tão desafiadora. Na introdução ao projeto 1 do 9o ano, Fute- bol e rendimento, por exemplo, o aluno toma conhecimento de que mobilizará conhecimentos de Educação Física e Matemática para realizar várias atividades, desde pes- quisar sobre craques atuais até comparar desempenho de jogadores e estudar o futebol no Brasil ao longo do tempo. Nessa seção o aluno também já fica sabendo qual será a atividade final de seu projeto e como ela será compartilha- da com a comunidade. Saber aonde se quer chegar e como se planejar para alcançar esse resultado é um dos pontos que todo trabalho com projetos deve considerar. No caso deste projeto, o produto final, um álbum de figurinhas, será compartilhado com a comunidade num evento esportivo organizado pelos alunos. 47 L u c ia n a W h it a k e r/ P u ls a r Im a g e n s DIÁRIO DE BORDO O Diário de bordo tem papel fundamental na organização do projeto. Use-o para registrar informações, dados coletados em pesquisas e entrevistas e outras descobertas sobre o tema. Reserve uma página para o cronograma do projeto a fim de acompanhar a realização e os prazos das etapas. Introdução ao Projeto 3 Você já ouviu falar de patrimônio cultural? Sabe o que é um patrimônio cultural material? E um patrimônio cultural imaterial? Sabe quais são os patrimônios culturais de sua região? Durante o trabalho com o projeto, você vai descobrir a resposta para essas e outras questões so- bre os patrimônios culturais brasileiros e vai produzir, com seus colegas, um almanaque sobre os pa- trimônios da região em que vivem. Vamos usar conhecimentos de Língua Portuguesa e Arte para realizar várias atividades: . Estudar os patrimônios culturais brasileiros. . Analisar textos verbais e visuais sobre os patrimônios. . Pesquisar os patrimônios de sua região. . Levantar dados e selecionar informações relevantes para a escrita do almanaque. . Criar um almanaque para divulgação dos patrimônios de sua região. . Fazer o lançamento do almanaque para a comunidade. A preservação dos patrimônios culturais possibilita seu estudo e a compreensão de seu valor para a identidade brasileira. Na foto, estudantes assistem a uma congada em frente à Igreja Nossa Senhora do Rosário, ambos patrimônios culturais do Brasil. Tiradentes (MG), foto de 2014. DE OLHO NO TEMPO Como o projeto tem várias etapas, é importante elaborar um cronograma para organizar as tarefas e viabilizar sua realização sem atropelos. Converse com o professor e os colegas para definir o número de aulas que será destinado a ele. Faça com a turma um cartaz com o cronograma ou, individualmente, uma anotação no Diário de bordo para acompanhar os prazos de cada etapa. Juntos ainda, escolham a data para o lançamento do almanaque. O professor pode ajudá-los na divisão e na gestão do tempo. 88 DIÁRIO DE BORDO Chegou a hora de registrar a finalização do projeto em seu Diário de bordo. Você já refletiu sobre muitos conceitos referentes ao clima, analisou modelos explicativos que justificam a va- riação climática do planeta, elaborou previsões meteorológicas locais e compreendeu, com um olhar científico, fenômenos que muitas pessoas explicam com base no senso comum. Falta registrar suas impressões pessoais sobre o projeto. Não se esqueça de relatar também o que aconteceu na reunião sobre o clima que você e seus colegas organizaram. . Selecione imagens da estação meteorológica que vocês criaram, dandodestaque para cada dispositivo. . Copie as tabelas com os dados de previsão de chuvas e verifique se ela se confirma. . Resuma em uma ou duas frases o que aprendeu sobre clima neste projeto. . Descreva o sentimento de ter participado de um projeto em que se discutiram assuntos tão importantes como aquecimento global e seus impactos ambientais e humanos. Converse com o professor e os colegas sobre como foi estudar o clima de modo tão aprofundado. . Certamente, você já conhecia algo sobre o tema. O projeto ampliou seu conhecimento? De que modo isso ocorreu? Você acredita que o assun- to deveria continuar a ser discutido para que você pudesse expandir o que já sabe? . Gostou de participar da construção de dispositivos para a montagem da estação meteorológica? . Qual foi sua participação na reunião de divulgação dos dados de previ- são de chuva para a comunidade? . Como você avalia seu desempenho? . Os convidados gostaram da reunião? Como fazer para que mais pessoas conheçam os dados de previsão de chuva que vocês coletaram e organizaram? Veja algumas ideias: . Montar folhetos impressos com algumas informações gerais e uma ta- bela que contenha dados obtidos pela estação meteorológica e distri- buir para a população do bairro, comunidade ou cidade. . Disponibilizar uma versão digital dos dados no site da escola. . Criar um calendário com a previsão de chuvas para a região e distribuir para as famílias da escola. Para ajudar professor e aluno a orga- nizar o tempo, esta seção indica alguns dos principais momentos do projeto, orienta sobre a necessidade de estimar um tempo para cada etapa e, quando necessário, chama a atenção para pla- nejar um tempo maior para algumas das etapas e atividades previstas. De olho no tempo Diário de bordo Os registros de cada projeto foram pensa- dos para serem feitos num mesmo suporte: um caderno que funcione como um espaço em que constem resolução de atividades, levantamento de hipóteses, sínteses, esbo- ços de produtos finais, comentários autorais, enfim, tudo que ajude o aluno a construir seu processo de trabalho e também a preservar a memória do percurso. No final do projeto, o Diário de bordo é retomado. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 51 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLII 77 ETAPA 3 c y n o c lu b /S h u tt e rs to ck Trocas de calor garantem o equilíbrio térmico, podendo trazer uma sensação de bem-estar. Como medir a variação do clima?Primeiro, é importante deixar claro alguns conceitos: . Temperatura é uma grandeza escalar (aquela que só é totalmente definida quando se utilizam um número e uma unidade de medida) que indica o estado de vibração das moléculas de um corpo. . Calor é a quantidade de energia que flui entre dois corpos por causa da diferença de temperatura entre eles. Ou seja, quando dois objetos com temperaturas diferentes são colocados em conta- to, flui energia do corpo de maior temperatura para o de menor temperatura, com a finalidade de equilibrar o estado de vibração molecular e atingir o chamado equilíbrio térmico. ATIVIDADE 1 » No dia a dia, em geral as pessoas medem a temperatura tendo como parâmetro as sensações de quente ou frio que experimentam no próprio corpo. Mas será que podemos confiar em nossas sensa- ções para determinar as temperaturas? É possível obter uma medida precisa dessa forma? . Você vai realizar o experimento a seguir em casa, com a supervisão de um adulto. Não se esqueça de anotar os resultados em seu Diário de bordo e comparar as respostas com as dos colegas. 76 ETAPA 1 Não se sabe ao certo quando a música surgiu como um produto da cultura humana. Foram encontra- das imagens muito antigas, do início da civilização, que retratam pessoas fazendo música com o auxílio de instrumentos. Arqueólogos descobriram flautas feitas de ossos que teriam entre 20 e 30 mil anos. Com o tempo, em várias regiões do mundo, fazer música tornou-se comum em diferentes culturas. Relatos datados do ano 4 mil a.C., no antigo Egito, regis- tram a existência de festas em que as pessoas cantavam embaladas pelo som produzido por toques de bastões de metal em discos de madeira. Chineses, in- dianos, gregos e romanos, entre outros povos, celebravam situações diversas com acompanhamento de música. MòSICA NA PRƒ-HISTîRIA A palavra música, do grego mousik•, que quer dizer “arte das musas”, é uma referência à mi- tologia grega e sua origem não é clara. Muitos acreditam que a música já existia na pré-história e se apresentava com um caráter religioso, ritualístico em agradecimento aos deuses ou como forma de pedidos por proteção, boa caça, entre outros. Se pensarmos que a dança aparece em pinturas rudimentares da pré-história não é difícil acreditar que a música também fazia parte dessas orga- nizações. Nessa época podemos imaginar que muitos sons produzidos provinham, principalmente, dos movimentos corporais e sons da natureza e, assim como nas artes visuais e na dança, a música começou a ser aprimorada utilizando-se de objetos dos mais diversos. [...] Música: um pouco de História. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2018. Parede da tumba do nobre Rekhmire mostra mulheres tocando vários instumentos. Essa pintura é do século XV a.C. e fica em Luxor. A lira e a cítara eram instrumentos de cordas muito populares entre os gregos. A lira é um instrumento musical tão antigo quanto a flauta. Aprender a tocar cítara era considerado fundamental na educação de jovens gregos. F ra n c is D zi k o w s k i/ A lb u m /F o to a re n a O d ile N o e l/ R e d fe rn s /G e tt y I m a g e s To m o J e s e n ic n ik /S h u tt e rs to ck Lira Cítara » No dia a dia, em geral as pessoas medem a temperatura tendo como parâmetro as sensações de quente ou frio que experimentam no próprio corpo. Mas será que podemos confiar em nossas sensa- 77 Nome das notas É bom saber que a nomenclatura das notas que Pitágoras descobriu não foi dada por ele. Os nomes dó, ré, mi, fá, sol, lá, si teriam sido atribuídos às notas pelo monge italiano Guido D’Arezzo, que viveu no século XI, e depois pelo musicólogo italiano Giovanni Battista Doni, que viveu no século XVII. As escalas musicais são um bom exemplo de sequências or- denadas e bem definidas. Assim como as sequências numéricas, as escalas musicais seguem um padrão definido de intervalos, até que se retorne novamente para a mesma nota (uma oitava acima). A escala musical descoberta por Pitágoras é básica para o desenvolvimento da música ocidental. Ela inspirou a criação de vários instrumentos musicais e de outras escalas. Tocando apenas uma das metades da corda, Pitágoras obtinha a mesma nota, mais grave ou mais aguda, dependendo de qual tocasse. Concluiu, então, que as oitavas estão numa razão de 2 para 1 em relação às sete primeiras notas musicais. As imagens C e D mostram exemplos de mais duas notas que Pitágoras descobriu usando frações e proporções. Ele continuou o experimento, registrando outras notas além dessas. A Matemática dá o tom A Matemática pode ser vista na Música em muitos de seus elementos: a teoria dos conjuntos, a álge- bra, a teoria de razões e proporções e a teoria dos números estão entre eles. Por exemplo, a escala musical – um conjunto de notas musicais – foi construída com base no raciocí- nio matemático. A primeira escala musical foi criada no século VI a.C. pelo filósofo Pitágoras. Ele iniciou uma série de experimentos com sons, usando um monocórdio, instrumento musical de uma só corda. Assim, ele chegou a uma de suas mais importantes conclusões: a relação entre os sons tem uma lógica matemática. Pitágoras percebeu que, ao tocar uma corda bem esticada, ela vibrava e produzia um determinado som. Resolveu então dividir a corda nas proporções 1 para 2 (1:2), 2 para 3 (2:3) e 3 para4 (3:4), verificando como eram os sons produzidos quando tocava essas partes da corda. Ele percebeu que os sons eram diferentes, mas a maioria era agradável e combinava entre si. Repetindo tal procedimento com a compo- sição das razões, ele construiu novos intervalos, chegando à escala pitagórica (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si). Veja as imagens. 1 2 3 4 5 6 7 8 dó ré mi fá sol lá si dó dó: uma oitava acima do primeiro dó É possível começar a escala com qualquer uma das sete notas. A oitava sempre repete a primeira nota, com variação de som. Il u s tr a ç õ e s : P ri m o d a C id a d e ilu s tr a s & C o ./ A rq u iv o d a e d it o ra 1 Corda sendo tocada Corda sendo tocada Corda Cantoneira Vibração da corda Nota dó Nota sol Nota fá Nota dó (oitava de dó)1 2 A C B D 2 3 3 4á 3 á 4 São oito notas: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. A última nota repete a primeira, mas com uma diferença no som. Por ser a oitava nota, é chamada de oitava. ETAPA 1 26 Você já leu ou viu um livreto de cordel? Já parou para pensar de onde vem esse tipo de literatura? Os livretos costumam ser vendidos em feiras, pendurados em um cordão, daí o nome cordel. Em geral, são escritos em versos rimados e têm capas ilustradas com xilogravuras, isto é, gravuras entalhadas em madeira. A literatura de cordel é uma manifestação tradicional da cultura popular brasileira, especial- mente do interior do Nordeste. xilogravuras arte ou técnica de fazer gravuras sobre pranchas de madeira. Os desenhos são entalhados em uma matriz de madeira, que é usada como um carimbo para imprimir várias cópias em papel. manifestação tradicional produção cultural que pode ser difundida oralmente ou por meio da escrita e é transmitida ao longo do tempo, de geração em geração. A oralidade no cordel Os cordéis estão ligados à tradição oral, pois em geral contam histórias contadas e ouvidas muitas vezes ao longo do tempo. Essas histórias são memorizadas e por fim escritas por um autor que escolhe uma versão para publicar. Ainda hoje, muitas pessoas sabem de cor essas narrativas e continuam a con- tá-las em família ou em grupos, na comunidade. Você já participou de uma contação de histórias? Há também cordéis que foram criados da imaginação dos autores, escrevendo ou reescrevendo histórias sem o uso da tradição oral. L u c a s L a c a z R u iz /P u ls a r Im a g e n s M a rc e lo S o a re s /A c e rv o d o a rt is ta O repente, arte de improvisar versos, normalmente desafiando outro cantador a responder, continuar seu canto, tem muito em comum com a literatura de cordel. Embora os cordéis sejam escritos e o repente seja essencialmente oral, com os cantadores exibindo seus dotes vocais, domínio da viola e talento para criar versos, ambos são representantes da cultura nordestina e se autoinfluenciam: cantadores usam cordéis como base para seus cantos e os cordéis podem ser baseados em histórias cantadas pelos repentistas. tradição oral transmissão oral de feitos, lendas, ritos, costumes, fatos, etc., feita no decorrer dos tempos, de geração em geração. Matriz de madeira com desenho já entalhado recebendo tinta. Ela só adere nas partes mais elevadas do desenho: são as que vão ficar pretas na impressão; as demais ficam em branco. Ateliê em São José dos Campos (SP). Foto de 2018. Xilogravura do cordel Os violeiros, de Marcelo Soares (2003). M a rc e lo S o a re s /A c e rv o d o a rt is ta O repente, arte de improvisar versos, normalmente desafiando outro cantador a responder, continuar seu canto, tem muito em comum com a literatura de cordel. Embora os cordéis sejam escritos e o repente seja essencialmente oral, com os cantadores exibindo seus dotes vocais, domínio da viola e talento para criar versos, ambos são representantes da cultura nordestina e se autoinfluenciam: cantadores usam cordéis como base para seus cantos e os cordéis podem ser baseados em histórias cantadas pelos repentistas. Xilogravura do cordel Os violeiros, de Marcelo Soares (2003). Se liga Neste boxe estão presentes tanto informa- ções complementares sobre os temas abor- dados no projeto quanto dicas para ajudar o professor durante algum procedimento ou etapa nele previstos. Etapas Cada projeto é dividido em etapas que geram subpro- dutos. Esses subprodutos podem tanto ser uma apresen- tação oral que sintetiza o que foi aprendido/discutido até ali quanto outros que preveem a criação de algo. No caso do projeto 2 do 7o ano, Matemática e música, cada etapa do projeto prevê a construção, pelos alunos, de instrumentos musicais que serão utilizados numa apresentação musi- cal para a comunidade na Atividade Final. A divisão de um projeto em etapas facilita não apenas sua execução, mas também a organização do tempo. É possível prever quantas aulas serão usadas em cada etapa e cuidar de sua execução de forma planejada. Citações Ao longo das etapas e das atividades do projeto são utilizados textos de especialistas ou notícias que apresentam ou aprofundam temas e conceitos, discutem ideias, apresen- tam dados e trazem informações importantes para a continuidade do projeto. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 52 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LIII Atividades Nesta coleção, as atividades apresentam uma diversi- dade de propostas e de modos de realizá-las. Há atividades pontuais e atividades mais extensas, que podem ser feitas individualmente, em duplas, trios ou grupos. Elas contemplam desde a leitura e compreensão de textos de apoio quanto a criação de dispositivos que verifiquem hipóteses a respeito de seu funcionamento. No projeto 4 do 7o ano, Máquinas simples Você vai precisar de » papel de seda colorido » varetas de bambu com 40 cm e 60 cm de comprimento e espessura de 3 milímetros » carretel de linha no 10 » tesoura sem pontas » cola » 1 palito de dente ou de fósforo e o dia a dia, depois de apresentados alguns mecanismos aos alunos, é proposto que discutam seu funcionamento por estratégias como a construção de um carrinho de brinquedo e a observação de máquinas simples no cotidiano, por exem- plo. As atividades contemplam propostas escritas, orais e práticas, considerando que os projetos devem buscar uma formação global dos alunos. 18 Refletir sobre nossas escolhas em uma autobiografia revela nossa identidade como leitor. . Qual foi o primeiro livro de que você gostou? Como era a história? Por que gostou? . Como você escolhe os livros que vai ler? Quem influencia suas escolhas? . Você frequenta livrarias? E bibliotecas? . Você compra livros físicos? E livros digitais? . Você acessa sites, blogs ou vídeos sobre livros e leituras? . Que tipo de história mais interessa a você? Por quê? . Você se identifica com os personagens quando lê um livro? Como isso acontece? . Você já mudou seu modo de pensar depois de ler um livro? Escreva sobre isso. . Algum livro já ajudou você em algum momento difícil de sua vida? Como? . Que livros você pretende ler no futuro? Tem uma lista? Quais são eles? ATIVIDADE 5 » Você já elaborou uma lista com suas preferências de leitura e também já escreveu sua autobiogra- fia de leitor. Reúna-se com os colegas em trios ou quartetos e troque essas experiências com eles. a) Conte aos colegas quais são seus livros preferidos e as razões que o levaram a essa escolha. Comente também algum aspecto que achar importante da sua autobiografia. Use o Diário de bordo como apoio à sua fala, se necessário. b) Ouça também o que os colegas têm a dizer. Anote no Diário de bordo questões que lhe chama- rem a atenção na fala deles. K la u s V e d fe lt /G e tt y I m a g e s B le n d I m a g e s /G e tt y I m a g e s Roteiro 18 . Você já mudou seu modo de pensar depois de ler um livro? Escreva sobre isso.. Algum livro já ajudou você em algum momentodifícil de sua vida? Como? . Que livros você pretende ler no futuro? Tem uma lista? Quais são eles? ATIVIDADE » Você já elaborou uma lista com suas preferências de leitura e também já escreveu sua autobiogra- fia de leitor. Reúna-se com os colegas em trios ou quartetos e troque essas experiências com eles. a) Conte aos colegas quais são seus livros preferidos e as razões que o levaram a essa escolha. Comente também algum aspecto que achar importante da sua autobiografia. Use o Diário de bordo como apoio à sua fala, se necessário. b) Ouça também o que os colegas têm a dizer. Anote no Diário de bordo questões que lhe chama- rem a atenção na fala deles. 33 ETAPA 3 Você conhece as ilustrações que costumam aparecer nos cordéis? Sabia que é possível criar belas ilus- trações com materiais simples, como isopor? Chegou a hora de ilustrar o cordel! Vamos aprender como fazer? ATIVIDADE 1 » É divertido criar ilustrações usando uma base de isopor. Vamos conhecer essa técnica. Para fazer uma isogravura, siga estes passos: Desenhe na bandeja usando o lápis preto e apertando forte para marcar o isopor. Também é poss vel usar um palito de madeira com tinta preta, como mostrado na foto. 1. Passe a tinta com o rolo sobre toda a superf cie da placa. 2. Retire o papel com cuidado para não borrar.4. a) Faça um ou mais desenhos utilizando a técnica da isogravura. Imprima no papel sulfite. b) Coloque os desenhos feitos para secar. Depois, com os demais colegas, monte uma exposição na sala de aula. ATIVIDADE 2 » Agora é o momento de ilustrar o cordel da classe. a) Conversem sobre qual será o tema de cada ilustração. Decidam se o cordel de vocês será mais cômico ou mais sério, se vão ilustrar uma cena inteira da estrofe ou usar apenas uma imagem que compõe a cena, por exemplo. b) Para decidir a quantidade de ilustrações, é importante definir primeiro: . o tamanho e o formato do papel que será utilizado; . o tamanho da ilustração que deverá ser feita. » bandeja de isopor » lápis preto » rolo de pintura pequeno » tesoura sem pontas » tinta guache de cores diversas » folhas de papel sulfite Você vai precisar de Im a g e n s : R it a B a rr e to / A c e rv o d a f o tó g ra faCOMO FAZER ISOGRAVURAS Pressione a placa de isopor sobre a folha de papel (na foto, o papel usado é preto) para carimbar o desenho. 3. 106 ATIVIDADE 2 » Organize uma corrida com seus colegas! Montem, com a ajuda do professor, uma rampa, ou seja, um plano inclinado (mais uma máquina simples!). Cada um deve soltar seu carrinho do alto da rampa para ver até onde ele consegue chegar! F e rn a n d o F a v o re tt o /C ri a r Im a g e m 5. Corte 4 c rculos de papelão um pouco menores que as tampinhas. 8. Com as tintas e os adesivos, personalize seu carrinho. Tente dar um toque pessoal para que seu carro chame a atenção de todos! 7. Cole os c rculos de papelão nas pontas dos palitos. Assim, as tampinhas ficam fixas e não escapam. 6. Fure as 4 tampinhas bem no meio e encaixe-as nos palitos. 4. Encaixe os palitos nos furos atravessando a garrafa por dentro. 3. Com ajuda do professor, faça 4 furos na parte inferior, onde serão colocados os eixos das rodinhas. Il u s tr a ç õ e s : P ri m o d a C id a d e i lu s tr a s & C o ./ A rq u iv o d a e d it o ra 106 ATIVIDADE 2 » Organize uma corrida com seus colegas! Montem, com a ajuda do professor, uma rampa, ou seja, um plano inclinado (mais uma máquina simples!). Cada um deve soltar seu carrinho do alto da rampa para ver até onde ele consegue chegar! 5. Corte 4 c 8. Com as tintas e os adesivos, personalize seu carrinho. Tente dar um toque pessoal para que seu carro chame a atenção de todos! 7. Cole os c Assim, as tampinhas ficam fixas e não escapam. 4. Encaixe os palitos nos furos atravessando a garrafa por dentro. 3. Com ajuda do professor, faça 4 furos na parte inferior, onde serão colocados os eixos das rodinhas. ETAPA 2 105 1. Peça ao professor que corte a garrafa PET. Ela deve ficar deitada, na posição horizontal. O corte será feito apenas na parte superior. Deve ter o formato de um " U", tomando como ponto de partida a boca ou o fundo da garrafa. 2. Use fita adesiva para cobrir a parte cortada da garrafa PET. Dessa forma você não corre o risco de se machucar quando mexer no carrinho. COMO FAZER UM CARRINHO DE GARRAFA PET » 1 garrafa PET » 4 tampas de plástico do mesmo tamanho (você pode substituir por tampas de potes de vidro, desde que sejam grandes o suficiente para que a garrafa PET não raspe no chão) » 2 palitos de churrasco de 20 cm » 1 pedaço de papelão » pistola e bastão de cola quente » fita adesiva » tinta colorida e adesivos » uma chave de fenda ou algo similar para fazer os furos » tesoura sem pontas Você vai precisar de Nesta etapa, você e seus colegas vão construir uma máquina simples. Diferentemente de Arquimedes, que construiu máquinas para defender sua cidade natal, Siracusa, vocês vão construir um brinquedo para se divertir usando princípios básicos das máquinas simples. ATIVIDADE 1 È Rodas e eixos também são considerados máquinas simples. Aliás, a criação da roda talvez seja uma das mais importantes invenções de todos os tempos! Vamos construir um carrinho de gar- rafa PET? Siga os passos a seguir: Il u s tr a ç õ e s : P ri m o d a C id a d e i lu s tr a s & C o ./ A rq u iv o d a e d it o ra Como fazer Este boxe indica o passo a passo de conteúdos procedimentais necessá- rios para elaborar um produto ou sub- produto de um projeto: como realizar entrevistas, elaborar uma exposição oral, criar uma pipa, construir um carri- nho com materiais reutilizados, visitar virtualmente um museu, entre outros tantos procedimentos. A diversidade de procedimentos a serem executados aponta para a experimentação própria do trabalho com projetos, e as orienta- ções da seção fornecem o apoio neces- sário para possibilitar o protagonismo do aluno. Você vai precisar de Boxe que indica o material necessário para a realização de algum artefato ou experimento. No caso, é indicado o material necessário para a confecção de pipas. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 53 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLIV Atividade final Na atividade final o aluno concretiza o produto que en- cerra o estudo proposto pelo projeto. Essa atividade, embo- ra conte com a participação de cada aluno, pode apresentar um viés coletivo e sempre será compartilhada, de algum modo, com a comunidade. No caso do projeto 3 do 7o ano, Bumba meu boi, a atividade final é uma encenação da festa Seções finais As três seções que encerram cada um dos projetos têm por objetivo promover o balanço do que foi feito, comparti- lhando com o aluno a tarefa de avaliar seu percurso. Na seção Avaliação, o aluno é convidado a refletir não apenas sobre o que aprendeu em termos conceituais, mas também em ter- mos socioemocionais: opinar se gostou ou não de participar de um projeto coletivo; dizer se ficou satisfeito ou não com o produto elaborado; e indicar quais foram as atividades do projeto que preferiu fazer e aquelas em que sentiu dificuldade. A seção Como divulgar propõe ao aluno que reflita sobre como aquilo que aprendeu e compartilhou com a comunidade pode atingir um público mais amplo, considerando especialmente as tecnologias digitais disponíveis e alternativas que utilizem a criatividade dos alunos e visem à participação na vida social da comunidade. No projeto 3 do 8o ano, Patrimônio material e imaterial, o almanaque pode ser distribuído em bibliotecas 47 ATIVIDADE FINAL FESTIVAL DE PIPAS » Depois de estudar muitas coisas sobre as pipas e de trabalhar na construção da sua, chegou o momento de compartilhar com a família e a comunidade o que aprendeu. a) Com a ajuda da direção da escola e dos professores, escolham um lugarem que possam empinar pipas sem risco de atingir a fiação elétrica ou antenas de TV. b) Com os colegas e o professor, façam um teste para ver se as pi- pas voam. c) Em seguida, combinem a data para realização do evento e como ele será. Haverá apresentação geral do trabalho e depois das pipas? d) Para divulgar o festival de pipas, preparem cartazes, com indica- ção de data e local, e distribuam pela escola e pela cidade. Visi- tem as outras turmas da escola para convidá-las pessoalmente. » Lembre-se de partilhar sua pipa com os convidados. Deixe que eles também sintam o gosto de dominar os céus! O local Praças e parques públicos são bons lugares por serem espaços abertos, com capacidade de abrigar muitas pessoas. Se sua escola fica perto de um espaço com essas características, seria adequado realizar o festival nesse local. Festival de pipas num parque em Moscou, na Rússia. Foto de 2016. Y u ly a o /i S to ck /G e tt y I m a g e s 72 ATIVIDADE FINAL BOLETIM INFORMATIVO COM NOTÍCIAS EM PORTUGUÊS E INGLÊS » Chegou a hora de montar o boletim informativo.a) Formem grupos. Cada grupo deve selecionar as notícias que vão entrar no boletim com base no material que foi organizado nas atividades anteriores. b) Com o professor, façam a montagem do boletim com a contribuição de cada grupo.c) Acrescentem imagens para ilustrar as notícias.d) O boletim pode ser disponibilizado de modo físico, em um mural da escola, ou de modo digital, postado no site da escola, por exemplo. O tamanho do boletim vai depender do número de notícias escolhido para fazer parte dele.e) Convidem a comunidade para conhecer o boletim informativo de vocês. Pode ser no final do período de aula, por exemplo.f) Uma ideia é fazer um evento de lançamento do boletim. Pode ser preparada uma apresentação em que vocês contam como foi o processo de criação e o que aprenderam sobre como as notícias circulam no mundo e sobre a importância de buscar notícias e fontes confiáveis. » computador com programa de edição de texto » papel kraft » folhas de papel sulfite » lápis e canetas coloridas » imagens (fotos, ilustrações, gráficos, etc.) » tesoura sem pontas e cola Você vai precisar de Antes de iniciarem a montagem do boletim informativo, decidam o número de not cias que vai compor essa edição. É poss vel usar apenas duas not cias de cada grupo ou mais. Sigam os passos abaixo para a composição do boletim: 1. Antes de digitar a versão final do boletim, revisem as not cias. Elas devem ser curtas e precisas. Para o boletim em formato de mural, usem as folhas de papel sulfite para imprimir as not cias e colar no papel kraft. Para a versão digital, acessem um programa de edição de texto que auxilie na criação de textos jornal sticos e digitem as not cias no modelo de Boletim informativo. 4. Criem uma diagramação parecida com as dos boletins digitais, usando imagens com legendas e textos divididos em duas ou mais colunas, por exemplo. Lembrem-se de usar imagens para equilibrar as informações verbais e não verbais. 5. Organizem a quantidade de not cias e decidam sua localização, cuidando da estética e do formato e tamanho da letra, procurando garantir a legibilidade do boletim. 3. COMO MONTAR UM BOLETIM INFORMATIVO Decidam de que modo vão indicar aos leitores que se trata de um boletim com not cias em português e em inglês. Vejam se haverá um espaço delimitado para as not cias em português e outro para as not cias em inglês, se elas estarão misturadas ou agrupadas por assunto. 2. diagramação disposição gráfica de textos e imagens em uma página. vel usar apenas duas not R e p ro d u ç ã o /C E I S ã o J o rg e 87 ATIVIDADE FINAL PREVISÕES SOBRE O CLIMA » É hora de compartilhar com a comunidade as informações sobre o clima que você e seus colegas coletaram na estação meteorológica que construíram. a) Produzam um calendário em forma de folheto com as informações obtidas nas coletas, segui- das de previsões de chuva calculadas para um período de cerca de uma semana. b) Organizem uma reunião para apresentar as informações coletadas e compará-las com as ca- racterísticas climáticas da cidade ou região. c) Convidem os pais, responsáveis e colegas da escola para essa reunião e distribuam o calendá- rio para eles. O convite pode ser estendido a entidades de classe relacionadas à preservação ambiental ou a agricultores, por exemplo. Profissionais ou pesquisadores que trabalham com o clima também podem ser convidados. d) Promovam um passeio dos convidados pela estação meteorológica, com uma explicação do funcionamento de cada dispositivo, após a reunião. e) Façam um registro fotográfico para marcar o evento. A n d re D ib /P u ls a r Im a g e n s À direita da foto, avista-se tempestade. Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, em Alto Paraíso de Goiás (GO). Imagem obtida por drone, em dezembro de 2017. 87 158 ATIVIDADE FINAL » Chegou a hora de organizar o fórum, um debate sobre os jovens e a comunicação digital. a) Definam a data, façam cartazes para convidar a comunidade escolar, incluindo pais e amigos, e reservem uma sala da escola onde haja cadeiras para todos. b) Exponham os pôsteres que vocês criaram no local do evento.c) No dia do fórum, cada grupo vai apresentar seus argumentos para as questões da Atividade 4 da Etapa 2. d) Um mediador deverá controlar o tempo de fala de cada grupo. Após as apresentações, o me- diador vai organizar os pedidos de fala da plateia a favor ou contra as colocações dos grupos. e) Lembrem-se de que a comunidade escolar também tem direito a expor seus pontos de vista. Abram espaço para que os convidados se expressem e incentivem a participação de todos. 1. Preparem uma lista com as respostas e os argumentos do grupo. 2. Combinem a divisão das falas entre os componentes do grupo. 3. Cuidem do tempo de exposição de cada um, treinando antes e contando o tempo no cronômetro do celular. 5. Falem com calma e clareza e cuidem da expressão corporal. Evitem ficar com as mãos nos bolsos ou encostados na parede e prestem atenção na fala dos colegas e na dos outros grupos. 4. Ensaiem as falas. Vocês podem se alongar em certos argumentos para convencer a plateia da validade de seus pontos de vista. COMO FAZER UMA EXPOSI‚ÌO ORAL Você já conhece parte dessas instruções. Veja a página 115. FÓRUM SOBRE OS JOVENS E A COMUNICAÇÃO DIGITAL H e ro I m a g e s / G e tt y I m a g e s 124 DIÁRIO DE BORDO Você já registrou muita coisa neste projeto. Vamos relembrar? Já listou imagens escolhidas para representar o Brasil a partir de vídeos de divulgação para o exterior; registrou os dados cole-tados de entrevistas e informações sobre o que as pessoas acham que as define como brasileiras; escreveu regras de convivência escolar com base na Declaração Universal dos Direitos Humanos e da Constituição de 1988; anotou reflexões sobre tribos juvenis; criou o argumento de sua HQ e fez o esboço dela. Para finalizar o projeto, anote suas impressões sobre ele, enfatizando o que ele foi capaz de mobilizar em você, possibilitando a autorreflexão e o autoconhecimento. Por exemplo: . Fotografe a capa de sua HQ e cole-a no Diário. . Escreva quem eram seus colegas de grupo neste projeto e que sonhos compartilhavam para o futuro. . Aponte que preconceitos você repudia e de que forma tratou deles em sua HQ. . Indique ao menos três aprendizagens que este projeto trouxe para você. . Crie uma frase e desenhe ou descreva uma imagem que defina quem você gostaria de ser daqui a 5 anos. Vai ser bacana retomar esse Diário daqui a alguns anos e ver se seus projetos e sonhos se realizaram ou se alteraram e por quê. Como foi, para você, escrever a sua HQ? . Você refletiu sobre o brasileiro que quer ser e sobre seus sonhos para o nosso país? . Gostou do resultado? . Os visitantes gostaram da HQ? . Teve mais facilidade para criar o texto da HQ ou para desenhá-la/criar as imagens usando o computador? . Você considera importanterefletir sobre como superar a discriminação e o preconceito? . Acha que a arte, no caso as HQs, podem ajudar as pessoas, fazendo-as rever seus valores e atitudes? Como vocês poderiam fazer com que mais pessoas conhecessem a HQ de vocês? . Distribuindo os exemplares que sobrarem do lançamento para alunos de outras classes? . Postando uma versão digitalizada da HQ no site da escola? . Separando alguns exemplares da HQ para ficarem disponíveis para leitura em pontos culturais da cidade ou do bairro, como bibliotecas públicas, centros culturais, museus? 36 DIÁRIO DE BORDO Como vocês poderiam divulgar para mais pessoas o cordel produzido por vocês? . Tirando fotos do evento de lançamento e postando no site da escola e em redes sociais? . Deixando alguns cordéis disponíveis para leitura na biblioteca da esco- la e da cidade? . Que tal deixar nos corredores da escola os cartazes feitos para convi- dar as pessoas para o lançamento? Outros alunos e pessoas da comuni- dade escolar podem se interessar e procurar pelo cordel de vocês. . Você gostou de fazer o cordel? Do que você gostou mais? . Você ouviu e respeitou as opiniões dos colegas, mesmo quando não concor- dava com elas? . Você teve autonomia/liberdade para expor suas ideias? . De que parte você gostou mais: escrever ou ilustrar o cordel? . Você concordou com todas as decisões tomadas pelo grupo? Isso foi fácil ou difícil para você? . Você gostou do resultado final? . Os convidados gostaram dos cordéis produzidos por vocês? Com a orientação do professor, complemente seus registros no Diário de bordo. Até aqui você já registrou muita coisa: a narrativa oral que ouviu de uma pessoa mais velha; impressões pes- soais em várias etapas do projeto; a tabela com a sugestão de temas para o cordel; entre outras atividades. Agora, redija um texto de finalização do projeto com sua opinião sobre ele. Você pode escrever sobre: . Os melhores momentos do projeto e suas contribuições. . Os momentos mais difíceis e como foram superados. . Opiniões ouvidas de quem assistiu à apresentação. Seu registro pode também conter imagens: . Uma foto da plateia assistindo à apresentação. . Uma foto do seu cordel para guardar de lembrança. . Uma foto do grupo trabalhando. . Um exemplo de ilustração que você fez para o cordel, usando o seu carimbo ou isogravura. e também ser postado em sites, multiplicando o número de leitores e mostrando aos alunos que um almanaque é feito para ser publicado e lido, extrapolando a mera atividade es- colar pontual. Por fim, a seção Diário de bordo volta-se para o registro sistemático do percurso desenvolvido ao longo do projeto. Além dos momentos de uso do Diário de bordo indicados ao longo do projeto, ao final é sempre sugerido um roteiro para a elaboração de algumas anotações com o intuito de registrar a memória do projeto, por exemplo, com frases, imagens e comentários. Progressão dos projetos de um ano para o outro É importante, num trabalho com projetos, apresentar temas que despertem a curiosidade do aluno e que possam mobilizar diferentes conteúdos, habilidades e competên- cias para sua execução. Os temas selecionados para esta coleção buscam aliar o interesse pelo aprofundamento de tópicos que muitas vezes são tratados de modo rápido na sala de aula, quando o são – como a relação entre figuras geométricas e as pipas, a história da escrita e a arte do cordel – e a realidade que cerca os alunos num país tão diverso e extenso como o Brasil. A sequência dos projetos de cada ano foi pensada con- siderando uma progressão. No caso do volume 1, parte-se de projetos cujas propostas são mais concretas, como a água, que faz parte da vida de todos nós, para propostas de boi proposta e dirigida pelos alunos. São eles que vão criar o roteiro da festa, o figurino, a trilha sonora e o cenário e, na atividade final, encenar a festa para a comunidade, que será convidada a participar dela. Assim como a questão desafiadora proposta na abertura do projeto, a atividade final é um convite ao protagonismo dos alunos. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 54 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LV que preveem maior abstração, como o estudo da história da escrita. O mesmo se dá ao longo do 7o ano, partindo das notícias que circulam no mundo e chegando à discussão sobre as máquinas simples. A temática da água pode se apresentar de modos muito diferentes em cada região de nosso país, mas certamente é uma preocupação de todos. A importância do acesso à informação de qualidade e o lu- gar da arte, especialmente a popular, em nossas vidas, são outros temas que não estão restritos à escola, circulam so- cialmente e podem ser discutidos e problematizados pelos alunos a partir dos projetos do volume 1. No caso do volume 2, parte-se de um projeto de autorre- flexão, ligado à experiência direta dos alunos, a autobiogra- fia de leitor, e passa-se, gradativamente, a projetos em que o conhecimento conceitual demanda mais do aluno, como o estudo da energia e do clima. Ao longo do 9o ano, o mesmo se dá: o tema do futebol, de conhecimento dos alunos e que faz parte de seu cotidiano, inicia o ano, e temas mais complexos, como o da relação entre o global e o local e o da transmissão digital, o encerram. Os temas neste volume continuam a abordar questões relevantes e relacionadas ao universo juvenil, como a cobrança por rendimento no futebol atual, o poder de transformação da leitura literária e o funcionamento e o impacto da transmissão digital de da- dos e informações. Refletir sobre quem somos por meio da literatura e das identidades brasileiras, bem como discutir a relação peculiar que nós brasileiros temos com o futebol, por exemplo, abrangem não só interesses que perpassam nossa cultura como também estão fortemente relacionados ao momento vivido pelos alunos no fechamento da etapa do Ensino Fundamental. Ao iniciar o trabalho com os projetos, explique aos alunos que cada um propõe uma pergunta-desafio e uma série de atividades que terão de ser cumpridas para que o objetivo final seja atingido. Pergunte a eles se já trabalharam com projetos e, a partir do que responderem, comente que todo projeto pressupõe planejamento, pesquisa, eventuais levan- tamentos de hipóteses, discussão de resultados e, a partir da síntese proposta na atividade final, uma apresentação para a comunidade. Todas as etapas, inclusive a apresentação final, serão avaliadas, para que os próprios alunos possam tomar consciência do que aprenderam com cada projeto. Como vimos, nos projetos pensados para esta coleção, os alunos farão registros de maneira pessoal, em um cader- no chamado Diário de bordo, que será criado por eles. Assim como os antigos navegantes registravam suas impressões de viagem em diários de bordo, cada aluno vai poder escre- ver sobre suas descobertas em seu diário, construindo a memória dos projetos que realizar. No desenvolvimento de cada projeto também existe uma progressão importante. As etapas funcionam como uma preparação, passo a passo, para a construção do produto final. Desse modo, cada etapa tem um objetivo de estudo com subprodutos e colabora para chegar, de modo cuidado- so, ao produto que será compartilhado com a comunidade. Na estratégia de trabalho com projetos, é fundamental que o produto estabeleça uma relação entre o aluno, a escola e o meio, extrapolando o aprendizado da sala de aula. Nesse sentido, não apenas o produto deve ter significado para o aluno e a comunidade, mas também a trajetória percorrida. Sobre as competências Todas as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular serão trabalhadas nesta coleção. Enumeramos a seguir as competências gerais que serão enfatizadas: 2 Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem pró- pria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade,para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conheci- mentos das diferentes áreas. 3 Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e cultu- rais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. 4 Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações, experiên- cias, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que levem ao entendimento mútuo. 5 Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhe- cimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 7 Argumentar com base em fatos, dados e informações confiá- veis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos hu- manos, a consciência socioambiental e o consumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. 8 Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas. 10 Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentá- veis e solidários. A numeração das competências gerais indicadas corresponde à numeração utilizada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 55 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLVI Projetos integradores 6o ano Título do projeto Componentes curriculares Produto final Progressão de aprendizagem Projeto 1 Água • Ciências • Geografia Maquete da distribuição e do tratamento da água na região O aluno que ingressa no 6o ano do Ensino Fundamental vive um período de transição. Está pronto para desafios maiores, mas precisa de um olhar atento do professor nes- te início do novo ciclo. O primeiro projeto proposto retoma um tema relevante e propõe um desafio (perguntar-se de onde vem a água que consumimos) e um produto final (maquete) acessíveis para alunos nessa faixa etária e no grau de maturidade cognitiva em que se encontram. Os projetos do ano vão, progressivamente, propondo desa- fios maiores, sempre considerando o interesse da faixa etária e a possibilidade de os alunos vencerem os desafios propostos. Estudar o cordel e suas ilustrações e construir coletivamente um livreto de cordel, bem como criar sua própria pipa, são desafios que aliam o estudo a um caráter lúdico, próprio não apenas da faixa etária, mas também do trabalho com projetos. O último projeto do ano pressupõe um pouco mais de abstração, não apenas pelo tema, mas também porque a criação dos infográficos pressupõe re- presentação visual. Projeto 2 Cordel • Arte • História • Língua Portuguesa Livreto coletivo de cordel Projeto 3 Matemática e brincadeiras • Arte • Matemática Festival de pipas Projeto 4 História da escrita • Geografia • História • Língua Portuguesa Infográfico sobre o surgimento da escrita Projetos integradores 7o ano Título do projeto Componentes curriculares Produto final Progressão de aprendizagem Projeto 1 Notícias no mundo • Língua Inglesa • Língua Portuguesa Boletim informativo com notícias em português e inglês Os projetos propostos para o 7o ano consideram um aluno já mais adaptado ao novo ciclo de aprendizagem e ainda muito curioso e disposto para o trabalho. Os temas dos projetos buscam dar conta da diversidade de saberes importantes na formação dos alunos nesse momento de sua escolaridade. Inicialmente, o trabalho com as notícias propicia um olhar para o tratamento da informação e uma perspectiva crítica sobre aquilo que circula em mídias diversas. O aluno, inserido na sociedade da informação, precisa ser preparado para buscar e ler notícias de forma reflexiva no século XXI. Ao mesmo tempo, o contato entre a Matemática e a Arte propicia uma abordagem desses componentes que se estende para além do óbvio e pres- supõe um aluno atuante e mobilizado. Essa autonomia crescente é necessária no projeto seguinte, em que os alunos lideram uma encenação de festa do boi. O projeto final trabalha com um tema que envolve conhecimentos científicos, reflexão sobre o próprio corpo e também a construção de máquinas simples, que serão expostas para a comunidade, pressupondo amadurecimento, or- ganização e trabalho em equipe. Projeto 2 Matemática e música • Arte • Matemática Orquestra de instrumentos musicais construídos pelos alunos Projeto 3 Bumba meu boi • Arte • Língua Portuguesa Encenação do Bumba meu Boi Projeto 4 Máquinas simples e o dia a dia • Ciências • Educação Física Criação de máquinas simples 5 Quadro dos volumes Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 56 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LVII Projetos integradores 8o ano Título do projeto Componentes curriculares Produto final Progressão de aprendizagem Projeto 1 Autobiografia de leitor • Arte • Língua Inglesa • Língua Portuguesa Biblioteca volante Na passagem para o ciclo que encerra o Ensino Funda- mental, os projetos propostos para os alunos pressu- põem um autoconhecimento e uma reflexão contínua e crítica sobre a ciência no cotidiano. No primeiro projeto do 8o ano, os alunos são mobilizados para conteúdos socioemocionais que fortalecerão escolhas e autoes- tima, ao pensar sobre si mesmos, seus interesses e gostos. Nos projetos seguintes, o contato com a ciência e com a arte se dá por via da experimentação, com ati- vidades práticas que não apenas aproximam os alunos de conteúdos conceituais, mas também os tornam pro- gressivamente capazes de transformar esse conteúdo em conhecimentos significativos, que extrapolam a sala de aula. Projeto 2 Energia • Ciências • Geografia Debate com a comunidade sobre alternativas para reduzir o consumo de energia elétrica Projeto 3 Patrimônio material e imaterial • Arte • História • Língua Portuguesa Almanaque para divulgar patrimônios culturais da região Projeto 4 Previsão do tempo • Ciências • Geografia • Matemática Previsões sobre o clima Projetos integradores 9o ano Título do projeto Componentes curriculares Produto final Progressão de aprendizagem Projeto 1 Futebol e rendimento • Educação Física • Matemática Álbum de figurinhas Pensado para vencer resistências iniciais, próprias des- sa faixa etária, o projeto inicial do 9o ano trabalha um tema atrativo que certamente faz parte do universo de alunas e alunos: o futebol. O tema das identidades, por sua vez, busca dar vazão a uma série de inquietações próprias dessa fase de vida dos alunos, relacionadas a projetos de vida e escolhas que definirão quem eles são, como se entendem no mundo. Num processo que ultrapassa o indivíduo e aborda o mundo para além das fronteiras físicas, o tema da globalização coloca o aluno diante de alguns dos desafios que ele, como cidadão do século XXI, será convidado a discutir e sobre os quais se posicionar. Num passo adiante, e em um nível de abstra- ção um pouco maior, o aluno encerra seu trabalho com os projetos integradores no Ensino Fundamental com uma discussão sobre as tecnologias digitais e seu impacto na vida deles e da sociedade. Projeto 2 Identidades brasileiras • Geografia • História • Língua Portuguesa História em quadrinhos Projeto 3Entre o global e o local • Geografia • História Feira de exposição dos produtores locais Projeto 4 Transmissão digital • Ciências • Língua Portuguesa Fórum sobre os jovens e a comunicação digital Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 57 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLVIII ARAÚJO, Ulisses Ferreira de. Temas transversais e a estra- tégia de projetos. São Paulo: Moderna, 2003. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Brasília, DF, 2017. p. 14. Disponível em: . Acesso em: 9 out. 2018. BRUNER, Jerome. A cultura da educação. Porto Alegre: Artmed, 2001. BUCK INSTITUTE FOR EDUCATION. Aprendizagem baseada em projetos: guia para professores de ensino fundamental e médio. Tradução: Daniel Bueno. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2008. CARVALHO, Alysson; SALLES, Fátima; GUIMARÃES, Marília. (Org.). Desenvolvimento e aprendizagem. Belo Horizonte: Ed. da UFMG; Proex – UFMG, 2002. COLL, César; PALÁCIOS Jesús; MARCHESI, Álvaro (Org.). Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evo- lutiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. v. 1. ___________ ; MARTÍN, Elena. Aprender conteúdos e desenvolver capacidades. Porto Alegre: Artmed, 2004. _____________; POZO, Juan Ignacio; SARABIA, Bernabé; VALLS, Enric. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. COMPETÊNCIAS socioemocionais. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. DELORS, Jacques. Educação: um tesouro a descobrir – destaques. São Paulo: Faber-Castell; Brasília, DF: Unes- co, 2010. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. DEPRESBITERIS, Léa. Avaliação da aprendizagem: casos comentados. Pinhais: Melo, 2011. ___________ ; TAVARES, Marialva Rossi. Diversificar é preciso: ins- trumentos e técnicas de avaliação de aprendizagem. São Paulo: Senac, 2009. 6 Bibliografia de apoio FERRARI, Márcio. John Dewey, o pensador que pôs a prática em foco. Revista Nova Escola. 1o out. 2008. Disponível em: . Acesso em: 30 set. 2018. FREIRE, Paulo. A pedagogia da autonomia: saberes ne- cessários à prática educativa. 43. ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011. FRIGOTTO, Gaudêncio A. A interdisciplinaridade como necessidade e como problema nas ciências sociais. In: JANTSCH, Ari Paulo; BIANCHETTI, Lucídio (Org.). Interdisci- plinaridade: para além da filosofia do sujeito. Petrópolis: Vozes, 1995. HABERMAS, Jürgen. Teoria analítica da ciência e dialética. In: OS PENSADORES: Walter Benjamin, Max Horkheimer, Theodor W. Adorno, Jürgen Habermas. São Paulo: Abril Cultural, 1975. HARGREAVES, Andy. O ensino na sociedade do conhecimen- to: educação na era da insegurança. Porto Alegre: Artmed, 2004. HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual, mudança educativa e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2000. ___________ . Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998. ___________ ; VENTURA, Montserrat. A organização do currículo por projetos de trabalho: o conhecimento é um caleidoscópio. Porto Alegre: Penso, 2017. HOBSBAWM, Eric. Era dos extremos: o breve século XX: 1914- -1991. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. JAEGER, Werner. Paideia: a formação do homem grego. 6. ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013. LUCKESI, Cipriano Carlos. Avaliação da aprendizagem esco- lar: estudos e proposições. São Paulo: Cortez, 2005. LÜDKE, Menga. O trabalho com projetos e a avaliação na edu- cação básica. In: SILVA, Janssen Felipe; HOFFMANN, Jussara; ESTEBAN, Maria Teresa (Org.). Práticas avaliativas e apren- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 58 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LIX dizagens significativas: em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre: Mediação, 2003. p. 69-74. MASINI, Elcie F. Salzano; MOREIRA, Marco Antonio. Aprendi- zagem significativa: a teoria de David Ausubel. São Paulo: Centauro, 2001. MENEZES, Ebenezer Takuno de; SANTOS, Thais Helena dos. Transdisciplinaridade. In: DICIONÁRIO interativo da educação brasileira – Educabrasil. São Paulo: Midiamix, 2001. Disponível em: . Acesso em: 29 set. 2018. MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2001. NICOLESCU, Basarab; MORIN, Edgar; FREITAS, Lima de. Car- ta da transdisciplinaridade. In: NICOLESCU, Basarab. O ma- nifesto da transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999. Disponível em: . Aces- so em: 27 set. 2018. NOGUEIRA, Nildo Ribeiro. Pedagogia dos projetos: uma jorna- da interdisciplinar rumo ao desenvolvimento das múltiplas inteligências. São Paulo: Érica, 2001. PALÁCIOS, Jesús. O que é a adolescência. In: ; COLL, César; MARCHESI, Álvaro. Desenvolvimento psicológico e educação: psicologia evolutiva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. v. 1. p. 263-265. PERRENOUD, Philippe. Avaliação: da excelência à regulação das aprendizagens. Porto Alegre: Artmed, 1999. ___________ . Dez novas competências para ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000. ___________ . Por que construir competências a partir da escola?: desenvolvimento da autonomia e luta contra as desigual- dades. Pinhais: Melo, 2010. PLATÃO. A república. 6. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gul- benkian, 1949. ROEHRS, Hellen et al. Adolescência na percepção de profes- sores do Ensino Fundamental. Revista da Escola de Enferma- gem da USP. São Paulo, v. 44, n. 2, jun. 2010. Disponível em: . Acesso em: 19 set. 2018. ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. E-book. São Paulo: WMF Martins Fontes, [s.d.]. SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. SAUL, Ana Maria. Avaliação emancipatória: desafio à teoria e à prática de avaliação e reformulação de currículo. São Paulo: Cortez, 1994. SILVA, Janssen Felipe; HOFFMANN, Jussara; ESTEBAN, Maria Teresa. (Org.). Práticas avaliativas e aprendizagens signi- ficativas: em diferentes áreas do currículo. Porto Alegre: Mediação, 2003. VALLS, Enric. Os procedimentos educacionais: aprendiza- gem, ensino e avaliação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1996. VASCONCELLOS, Celso dos Santos. Avaliação: concepção dialética – libertadora do processo de avaliação escolar. São Paulo: Libertad, 2005. v. 3. (Cadernos Pedagógicos do Libertad). ZABALA, Antoni (Org.). Como trabalhar os conteúdos proce- dimentais em aula. 2. ed. São Paulo: Artmed, 1999. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 59 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLX ORIENTAÇÕES POR ANO — 8º ANO _ Nesta etapa dos Anos Finais do Ensino Fundamental, o aluno participará de quatro projetos ligados às competências socioemo- cionais, à produção e ao consumo de energia, à diversidade cultural brasileira e ao estudo do clima. O objetivo dos projetos integradores Projeto 1 – Autobiografia de leitor 80 ano Projetos Componentes curriculares Produtos Competências gerais da BNCC Habilidades Projeto 1 Autobiografia de leitor Arte Língua Inglesa Língua Portuguesa Biblioteca volante 3 6 8 EF69LP44 EF69LP46 EF08LI06 EF08LI07 EF69AR03 Projeto 2 Energia Ciências Geografia Debate com a comunidade so- bre alternativas para reduzir o consumo de energia elétrica 7 10 EF08CI01 EF08CI04 EF08CI05 EF08CI06 EF08GE15 Projeto 3 Patrimônio material e imaterial Arte Língua Portuguesa Almanaque para divulgarmais que os alunos, por exemplo, sejam capazes de reconhecer e descrever ca- racterísticas de um folheto de cordel. Eles também devem ter condições de planejar e produzir seu próprio folheto, dentro de uma proposta articulada e contextualizada. O mesmo deve se dar com conceitos relevantes de quaisquer componentes, cujo aprendizado não deve estar apenas a serviço de reconhecer um determinado saber e ser capaz de resolver exercícios sobre ele, mas também de utilizá-lo como ferramenta na investigação de um tema maior, extra- polando o circuito da repetição e viabilizando a problema- tização e a aplicação desses conceitos na construção de habilidades e competências. Esse é o caso do conceito de fração, por exemplo, importante tanto na linguagem mate- mática como na compreensão de conceitos musicais, como escala e notas musicais. A opção pelo trabalho com projetos integradores possibi- lita, ainda, um olhar crítico e reflexivo para a realidade. Per- mite, também, a partir da diversidade de temas e recortes possíveis, um olhar que rompa com a chamada “representa- ção única da realidade”. Sobre a importância desse desafio, passemos ao texto a seguir, em que Fernando Hernández aborda o tema. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 7 7/15/19 11:41 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORVIII acostumados a representá-lo, por meio de códigos lin- guísticos e sinais culturais estabelecidos e “dados” pelas matérias escolares e pela bagagem outorgada pelo grupo social ao qual pertence. Essa visão do conhecimento é uma forma de teoria ou ideologia para interpretar a realidade, que se encontra limitada, em boa parte, pela persistência do currículo acadêmico organizado por disciplinas como única forma possível de levar adiante o ensino. Uma aproximação à história do currículo e às matérias que o integram revela que a escolha do que deve ser ensinado na Escola respondeu a decisões explicáveis por circunstâncias históricas, e não devido à “essencialidade” ou ao caráter fundamental de de- terminadas matérias disciplinares (Hargreaves, Earl e Ryan, 1996). Partindo dessa perspectiva, uma tarefa fundamental do currículo escolar consistiria na proposta de ques- tões do tipo: Como se produziu esse fenômeno? Qual é a origem dessa prática? Sempre foi assim? Como o percebiam as pessoas de outras épocas e lugares? Con- sideravam-nos tal como nós? Como se explicam essas mudanças? Por que se considera uma determinada vi- são como natural? Por que se excluem outras interpre- tações? Como esse fenômeno afeta nossas vidas e as de outras pessoas? A partir dessas e de outras perguntas, procuraria buscar-se, com os alunos, fontes diversas que apresentem respostas que sejam reflexo de como o conhecimento não é estável e que a realidade não se “fixa” em função das interpretações que se produzem em cada momento. Com isso, a cultura escolar adquire a função de re- fazer e de renomear o mundo e de ensinar os alunos a interpretar os significados mutáveis com que os indiví- duos das diferentes culturas e tempos históricos dotam a realidade de sentido. Ao mesmo tempo que lhes abre as portas para compreender suas concepções e as de quem os rodeiam. Essa tarefa vem acompanhada pelo questionamento da ideia da “verdade” e da “objetividade” e das visões unilaterais que impõem um único ponto de vista como interpretação de um fenômeno. Gergen (1992) recolhe uma série de argumentos e referências que apoiam uma visão do conhecimento baseado num certo relativismo derivado de algumas mudanças na concepção do que pode constituir a “identidade” dos fenômenos e dos in- divíduos, com respeito a como foram constituídos pelas formas de racionalidade produzidas pela modernidade. A partir dessa perspectiva, o ensino da interpretação seria a parte central de um currículo que adota um enfoque para a compreensão, onde se tenta enfrentar o duplo desafio de ensinar os alunos a compreender Conforme exposto no texto, a ideia não é partir daquilo que possa ser considerado interessante pelo aluno num sentido individual e/ou descontextualizado do conjunto de saberes previstos para a escola trabalhar. Ou seja, a escola, em sua função social, tem o compromisso de propor o traba- lho com determinados conceitos, conteúdos, habilidades e competências. Além disso, como aponta ainda Hernández, essa ideia poderia gerar uma fragmentação perigosa, com a repetição de alguns temas e com a abordagem de outros pelos quais o aluno não tenha interesse. A ideia é pensar e propor temas e questões que, do ponto de vista do traba- lho escolar, dialoguem tanto com o jovem aprendiz quanto com a realidade que o cerca. Ou seja, o viés de abordagem é tão importante e significativo quanto aquilo que se escolhe trabalhar em sala de aula. Planejar o ensino por projetos pode se alinhar, e esta é a proposta desta coleção, com aquilo que Hernández no- meia como a possibilidade de adquirir estratégias de co- nhecimento que permitam ir além do mundo como estamos acostumados a representá-lo. Ou seja, um conteúdo que usualmente é abordado numa determinada perspectiva pode, por meio de um projeto e de uma adequada questão desafiadora, favorecer a desconstrução dos modos de ver e analisar a realidade, ampliando o horizonte de discussão e formando o aluno para múltiplos olhares sobre o real. Até porque, como aponta o texto, as disciplinas que compõem o currículo do que deve ser ensinado na escola obedecem também a circunstâncias históricas e a escolhas que res- ponderam a questões do seu tempo; não há uma “essen- cialidade inata” nelas. As respostas às questões do nosso tempo, o século XXI, podem, nesse sentido, incorporar a complexidade e os múltiplos olhares e competências que nossa época propõem. Uma aprendizagem por projetos pode, portanto, propor questões que discutem fenômenos, questionam olhares estabelecidos, problematizam mudanças, incorporam interpretações diversas, relacionam tais fenômenos a nossas vidas e práticas cotidianas, buscando romper com uma visão fixa e única do saber. Agindo assim, es- taríamos atendendo a uma importante função da cultura escolar, segundo Hernández, a de renomear o mundo e ensinar os alunos a interpretar os sinais mutáveis com que as interpretações sobre os fenômenos da realidade, a tratar de compreender os “lugares” desde os quais se constroem e assim “compreender a si mesmos”. [...] HERNÁNDEZ, Fernando. Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 1998. p. 27-28. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 8 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR IX os indivíduos dotam a realidade do mundo. Mais do que isso, estaríamos possibilitando aos alunos a construção de outras e novas realidades, escapando à ideia de que a escola estaria a serviço apenas da reprodução dos saberes. Um aluno formado integralmente deve ser capaz de atuar a fim de transformar a sociedade a partir dos desafios que se colocam em seu tempo. Interpretar a realidade, a partir de projetos integradores, é inserir-se na realidade que se estuda e estabelecer com ela um diálogo frequente e capaz de construir conhecimen- to e não apenas recebê-los, desconstruir estereótipos em vez de aceitá-los, questionar verdades únicas e realidades aparentemente imutáveis. O que este Manual oferece ao professor A função de um Manual, geralmente, é compartilhar com o professor os arranjos conceituais, comportamentais e valorativos que estão na base das opções didático-meto- dológicas mobilizadas pela obra. O professor deve, por essa razão, considerar que conteúdos, problemáticas e saberes estão expostos aqui a fim de que a leitura do Manual, feita em partes ou como um guia de apoio ao planejamento, pro- picie uma base segura para suas ações junto aos alunos. O Manual, dessa forma, não deve ser entendido como uma lista de conteúdos disciplinares ou como uma receitapa- trimônios culturais da região 2 3 10 EF89LP24 EF89LP25 EF89LP28 EF69LP39 EF69AR34 Projeto 4 Previsão do tempo Ciências Geografia Matemática Previsões sobre o clima 2 5 7 EF08MA04 EF08MA10 EF08CI14 EF08CI15 EF08CI16 Fazem parte destas orientações informações que visam a ajudar no planejamento do trabalho com cada um dos projetos e facilitar o acesso a textos e atividades complementares. De modo geral, é possível encontrar aqui: 1. Uma apresentação dos elementos que compõem cada projeto: • Título • Objetivo • Justificativa • Componentes curriculares • Avaliação • Diário de bordo • De olho no tempo • Perfil do professor Objetivo Há muito de subjetividade e autoconhecimento nesse projeto, que abre espaço para a troca entre os jovens: o desenvolvimento da empatia, compreendendo-se na diversidade humana e reco- nhecendo suas emoções, neste caso, por meio da própria leitura, e também da leitura dos colegas. O projeto propicia fruir a literatura em português e em inglês, incentivando os alunos a ampliarem seu horizonte cultural. O desafio é escrever uma autobiografia de leitor e, a partir dela e das reflexões desencadeadas por ela, montar uma biblioteca volante que incentive o aumento de leitores na escola. A consciência de si mesmo, sua identidade como leitor e seus valores diante da leitura podem ser trabalhados nesse projeto para o autoconhecimento e o desenvolvimento da autoestima. O senso comum afirma que os jovens leem pouco e não se interessam pela leitura, mas será que essa afirmação procede? É importante ouvir os alunos e, paralelamente à discussão sobre o lugar da leitura em suas vidas, trabalhar a empatia, possibilitando que eles ouçam os colegas, respeitem as escolhas alheias, compreendam diferenças e aceitem a diversidade entre eles. • Referências complementares • Competências e habilidades da BNCC 2. Um quadro-resumo de cada projeto com previsão das etapas e da progressão da aprendizagem. 3. Sugestões didáticas complementares às propostas no Livro do Aluno, como atividades extras; ideias para ampliar a exploração de determinado tema, que visam, muitas vezes, a vivências mais imersivas; leituras complementares para ampliar o tema trabalhado; e caminhos alternativos para trabalhar alguma eta- pa do projeto de modo diverso do apresentado, numa tentativa de alcançar um maior número de realidades de sala de aula. propostos por esta coleção é despertar a curiosidade dos alunos para temas relevantes do ponto de vista tanto local como mundial a fim de inseri-los em debates mais amplos no que diz respeito à cultura global. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 60 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXI Justificativa Um dos objetivos centrais do trabalho com projetos é dar voz e protagonismo aos alunos na discussão de temas pertinentes a sua formação, propiciando também que realizem e finalizem ações que tenham um sentido para além da sala de aula, na vida prática deles e da comunidade em que estão inseridos. Garantir à comunidade o acesso aos livros, responsabilizar-se pelas indicações a ser feitas e pelo funcionamento dessa biblioteca são ações que inserem os alunos no centro do projeto. Componentes curriculares • Arte – Na leitura de obras ou fragmentos em português e inglês, os alunos analisarão situações em que as artes visuais se inte- gram à linguagem gráfica, em capas de livros. • Língua Inglesa – Os alunos trabalharão a apreciação de textos narrativos em inglês, especialmente trechos de romance, como forma de valorização do patrimônio cultural em língua inglesa. Vão explorar também ambientes virtuais para acessar e usufruir da produção artística literária em língua inglesa. • Língua Portuguesa – Os alunos vão trabalhar com a discussão de valores e visões de mundo em textos literários, discutindo como o contato com a literatura fornece múltiplos olhares so- bre a própria identidade. Participarão também de práticas de compartilhamento, com rodas de leitura e a realização de um sarau, apresentando sua apreciação e seus comentários sobre as obras escolhidas por eles. Avaliação Várias são as estratégias de avaliação para um projeto. É possí- vel avaliar um produto de cada etapa, por exemplo. Não é necessá- rio, nesse caso, quantificar o trabalho, mas corrigir a rota e propor novos desafios, a depender do caso. Algumas atividades previstas em cada uma das etapas, como a criação de uma autobiografia de leitor, a escrita de sinopses e de resenhas, podem ser usadas como atividades avaliativas de produção de texto. Outras dimensões da aprendizagem por projetos também devem ser consideradas na avaliação, como aquelas relativas à interação entre os alunos, o auxílio mútuo, a cooperação. Diário de bordo Esse é um suporte importante para garantir a memória dos projetos e sua organização no decorrer das atividades e etapas previstas. Considere a faixa etária, os interesses dos alunos e suas possibilidades no momento de escolher o suporte que vão utilizar para o diário. Ele pode ser produzido em um caderno reservado para esse fim, do qual os alunos possam fazer a capa e customizar a seu modo, ou em uma mídia digital, utilizando aplicativos de aparelhos celulares ou programas de produção de texto online. O importante é garantir o registro de modo eficiente. De olho no tempo O cronograma pode ser organizado de modos diversos nesse projeto. Uma sugestão é aproximar os alunos do tema de modo sensível, com depoimentos espontâneos sobre sua relação com os livros e a leitura e, posteriormente, quando houver maior ade- são deles, propor um ritmo mais intenso de trabalho. Se a adesão acontecer de imediato, é possível considerar apenas a divisão das etapas no tempo, atentando para a data em que pretendem inau- gurar a biblioteca volante. Perfil do professor O projeto trabalha prioritariamente com a leitura e deve ser liderado pelo professor de Língua Portuguesa. O professor de Língua Inglesa será um parceiro importante do projeto em várias das atividades previstas, potencializando a leitura em ambas as línguas. Referências complementares CANCLINI, Néstor García. Leitores, espectadores e internautas. São Paulo: Iluminuras, 2008. FISHER, Steven Roger. História da leitura. São Paulo: Unesp, 2006. MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. Competências Gerais Reproduzimos a seguir o texto das competências, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, vão ser indicados apenas o número (mesma numeração da BNCC) e um breve texto de cada competência por falta de espaço. Nesse projeto, serão trabalhadas com maior destaque as seguin- tes competências: 3 Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. 6 Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cida- dania e ao seu projeto de vida. 8 Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com auto- crítica e capacidade para lidar com elas. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Habilidades Aqui reproduzimos o texto integral de cada habilidade, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, elas podem ser indicadas apenas pelo código. Nesse projeto, serão trabalhadas as seguintes habilidades: • Arte (EF69AR03) Analisar situações nas quais as linguagens das artes visuais se integram às linguagens audiovisuais (cinema, animações, vídeos etc.), gráficas (capas de livros, ilustra- ções de textos diversos etc.), cenográficas,coreográficas, musicais etc. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 61 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXII • Língua Inglesa (EF08LI06) Apreciar textos narrativos em língua inglesa (con- tos, romances, entre outros, em versão original ou simplificada), como forma de valorizar o patrimônio cultural produzido em língua inglesa. (EF08LI07) Explorar ambientes virtuais e/ou aplicativos para acessar e usufruir do patrimônio artístico literário em língua inglesa. • Língua Portuguesa (EF69LP44) Inferir a presença de valores sociais, culturais e humanos e de diferentes visões de mundo, em textos literários, reconhecendo nesses textos formas de estabelecer múltiplos olhares sobre as identidades, sociedades e culturas e conside- rando a autoria e o contexto social e histórico de sua produção. (EF69LP46) Participar de práticas de compartilhamento de leitura/recepção de obras literárias/manifestações artísticas, como rodas de leitura, clubes de leitura, eventos de contação de histórias, de leituras dramáticas, de apresentações teatrais, musicais e de filmes, cineclubes, festivais de vídeo, saraus, slams, canais de booktubers, redes sociais temáticas (de lei- tores, de cinéfilos, de música etc.), dentre outros, tecendo, quando possível, comentários de ordem estética e afetiva e justificando suas apreciações, escrevendo comentários e rese- nhas para jornais, blogs e redes sociais e utilizando formas de expressão das culturas juvenis, tais como, vlogs e podcasts cul- turais (literatura, cinema, teatro, música), playlists comentadas, fanfics, fanzines, e-zines, fanvideos, fanclipes, posts em fanpa- ges, trailer honesto, vídeo-minuto, entre outras possibilidades de práticas de apreciação e de manifestação da cultura de fãs. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Quadro: Projeto 1 – Autobiografia de leitor Etapas Progressão da aprendizagem Reflexão sobre as relações entre a leitura do texto e a leitura do mundo. O início do projeto propõe uma aproximação afetiva do aluno com a literatura, que é fun- damental para estabelecer conexões desta com a leitura de mundo. Realização de uma roda de leitura e, posteriormente, um sarau, para propiciar a reflexão sobre o lu- gar ocupado pela lei- tura na vida do aluno. A troca de experiências leitoras e a manifesta- ção de preferências, previstas para acontecer entre os alunos nessas atividades, visam à ampliação da reflexão sobre o papel da lite- ratura em sua vida. Escrita de sinopses e resenhas de obras selecionadas pelos alunos. Os gêneros textuais trabalhados nessa etapa são usados para a divulgação de obras literá- rias nos mais diversos suportes: sites, blogs, jornais, revistas, etc. Os alunos realizam ati- vidades de leitura e produção de texto para se apropriarem das marcas desses gêneros. Organização da bi- blioteca volante a partir da arrecada- ção de títulos para o acervo. Os alunos aqui atuam na criação da biblioteca volante. Para isso, precisarão usar estratégias como arrecadar livros ou mesmo arrecadar fundos (com uma rifa ou um torneio esportivo, por exemplo) para a compra dos livros. Montagem da bi- blioteca, que além de livros oferece si- nopses e resenhas. Os alunos criam vídeos, escrevem resenhas e sinopses e as disponibilizam para consulta dos interessados em emprestar os livros da biblioteca volante. Inauguração da bi- blioteca com a co- munidade escolar. No evento de inauguração, os alunos incenti- vam o empréstimo a partir de suas próprias experiências leitoras, que são compartilha- das com o público. Sugestões complementares Etapa 1, Atividade 4 – Sugestão de vídeo Após essa etapa proponha aos alunos que assistam a um trailer do filme War of the Worlds e a um clip da música “Radio Ga Ga”, da banda inglesa Queen. Acesse os vídeos, digitando em um mecanis- mo de busca: “War of the Worlds (2005) Movie Clip” e “Queen – Radio Ga Ga (Official Video)”. Peça-lhes, em seguida, que apontem que relação existe entre os vídeos. Tanto o trecho do filme quanto o clip da música fazem referência à obra Guerra dos mundos, livro de H. G. Wells. Se os alunos não tive- rem repertório, recomende-lhes uma pesquisa sobre a obra na in- ternet. Disponível em: . Acesso em: 12 out. 2018. Etapa 2 – Sugestão de filme Após a introdução dessa etapa, antes de iniciar as atividades, assista com os alunos a uma animação que reconta o livro The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger. Acesse o vídeo, digitando: “The Catcher in the Rye by J. D. Salinger (Book Summary and Review) – Minute Book Report”. Em seguida, proponha aos alunos que formem duplas e que, oralmente, cada um reconte para o colega uma obra de sua preferência. Etapa 2 – Sugestão de livro PENNAC, Daniel. Como um romance. Porto Alegre: L± Rio de Janeiro: Rocco, 2011. Nessa obra, o professor francês Daniel Pennac aborda a relação entre jovens, professores e a literatura: uma relação afetiva que as crianças constroem com a leitura e também de como os jovens costumam reagir (mal) ao imperativo da leitura que escola e pais costumam tentar impingir inutilmente a eles. Enfim, a obra trata da importância de construir o sentido da leitura com os jovens. Vale a pena não apenas lê-la, mas selecionar trechos que possam ser discutidos em sala de aula. Etapa 4, Atividade final – Caminho alternativo Se não for possível organizar a biblioteca volante por falta de livros para compor o acervo, pode-se montar uma caixa com as resenhas e sinopses e disponibilizá-la na biblioteca da escola. É pos- sível também organizar visitas quinzenais ou mensais à biblioteca e indicar aos alunos que escolham uma obra para ser emprestada e lida, a partir das indicações feitas pelos colegas. O importante é garantir que a definição de preferências pelos alunos e a escrita da autobiografia de leitor sejam realizadas, pois trabalham com a autorreflexão e com competências socioemocionais. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 62 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXIII Objetivo A reflexão sobre a importância de direitos e responsabilidades que cada cidadão deve ter, a partir de um posicionamento sólido em contextos locais e globais, extrapolando interesses individuais e considerando o bem comum, é um dos pressupostos que susten- tam esse projeto. Em vários momentos, os alunos serão levados a considerar alguns fatores objetivos e subjetivos na tomada de decisões relacionadas ao uso sustentável da energia, avaliando as consequências de suas ações diárias e os impactos que elas podem provocar em um plano mais amplo, o do espaço social. A ideia é que esse estudo propicie o desenvolvimento de valores relacionados a uma postura ética, que entende a energia como um bem cujo consumo deve ser compartilhado de modo responsável. Um dos objetivos centrais do projeto é possibilitar a participação ativa na proposição, implementação e avaliação de soluções para problemas locais e seus desdobramentos regionais, nacionais e globais resultantes de uma mudança positiva de atitude diante da utilização da energia. Justificativa Algumas ações simples serão debatidas no decorrer das etapas aqui previstas, tomando como ponto de partida o conceito físico de energia e sua relação com toda a matéria que compõe o Universo. O conhecimento sobre a matriz energética brasileira, em um plano mais geral, e o consumo de energia domiciliar, em um plano mais restrito, podem ser considerados alguns dos conceitos-chaves a ser apropriados pelos alunos no decorrer do projeto. Ao final, os alunos discutirão, juntamente com a comunidade escolar, alternativas para a redução de consumo de energia. Componentes curriculares • Ciências – Os alunos vão discutir o que é energia, quais são os tipos de energia possíveis, como ela se encontra na natureza e como é fundamentalpara a existência e manutenção da vida. Tomarão como ponto de partida suas noções sobre o assunto para, progressivamente, construir conceitos que lhes permiti- rão entender os modos por meio dos quais ocorrem interações físicas que determinam suas transformações. • Geografia – Os alunos vão discutir sobre a produção, a distribui- ção e o consumo da energia pela sociedade. O conhecimento das fontes renováveis e os impactos de seus usos, ou não, também serão discutidos. Avaliação Acompanhar a construção dos conceitos de energia, energia renovável, consumo e matriz energética deve ser a prioridade. Parte desse acompanhamento pode ser feita com base no desempenho individual dos alunos nas atividades previstas no projeto. Uma leitu- ra mais detalhada da aprendizagem pode ser realizada por meio de solicitações de escrita de pequenos parágrafos no Diário de bordo ou da proposição de situações-problema relativas à demanda de consumo alto versus oferta baixa de energia em certas regiões do Projeto 2 – Energia Brasil – solicitando aos alunos, por exemplo, alternativas de aumen- to de oferta de energia a partir de fontes renováveis, considerando relações de custo-benefício. Diário de bordo O diário deve funcionar como um autêntico suporte para o re- gistro pessoal dos alunos. Incentivar seu uso, estabelecendo mo- mentos específicos em que a turma deve fazer anotações, ajuda na sistematização de conteúdos que serão mobilizados nas etapas do projeto. Em conversas individuais, durante o acompanhamento da realização de atividades, indique pontos que cada aluno pode acrescentar em seu diário. Assim, aos poucos, essa passará a ser uma ferramenta natural de apoio para o estudo. De olho no tempo De certo modo, o tempo para cada etapa pode ser mais ou me- nos uniforme. Um aspecto que deve ser considerado, porém, é o conhecimento prévio dos alunos na etapa inicial, em que se deve construir o conceito de energia, para que eles abandonem a noção do senso comum. Nesse caso, poderá ser necessário um tempo maior, para acrescentar explicações e, talvez, leituras paralelas de textos presentes em materiais didáticos. Perfil do professor Pelo fato de o projeto trabalhar com o conceito de energia como conhecimento gerador da problemática proposta e em função de ser a relação oferta-consumo a aprendizagem mais relevante para a formação do aluno, a liderança na condução do projeto deve ser do professor de Ciências, trabalhando em coparticipação com o professor de Geografia. Referências complementares FURTADO, Ricardo Cavalcanti. Custos ambientais da produção de energia elétrica. Rio de Janeiro: Synergia, 2013. MONTANARI, Valdir. Energia nossa de cada dia. São Paulo: Moderna, 1998. PIPE, Jim. Energia eólica. São Paulo: Callis, 2016. Competências Gerais Reproduzimos a seguir o texto das competências, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, vão ser indicados apenas o número (mesma numeração da BNCC) e um breve texto de cada competência por falta de espaço. Nesse projeto, serão trabalhadas com maior destaque as seguintes competências: 7 Argumentar com base em fatos, dados e informações con- fiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o con- sumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 63 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXIV 10 Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabi- lidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Habilidades Aqui reproduzimos o texto integral de cada habilidade, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, elas podem ser indicadas apenas pelo código. Nesse projeto, serão trabalhadas as seguintes habilidades: • Ciências (EF08CI01) Identificar e classificar diferentes fontes (renová- veis e não renováveis) e tipos de energia utilizados em residên- cias, comunidades ou cidades. (EF08CI04) Calcular o consumo de eletrodomésticos a partir dos dados de potência (descritos no próprio equipamento) e tempo médio de uso para avaliar o impacto de cada equipamento no consumo doméstico mensal. (EF08CI05) Propor ações coletivas para otimizar o uso de energia elétrica em sua escola e/ou comunidade, com base na seleção de equipamentos segundo critérios de sustentabilida- de (consumo de energia e eficiência energética) e hábitos de consumo responsável. (EF08CI06) Discutir e avaliar usinas de geração de energia elétrica (termelétricas, hidrelétricas, eólicas etc.), suas seme- lhanças e diferenças, seus impactos socioambientais, e como essa energia chega e é usada em sua cidade, comunidade, casa ou escola. • Geografia (EF08GE15) Analisar a importância dos principais recursos hídricos da América Latina (Aquífero Guarani, Bacias do rio da Prata, do Amazonas e do Orinoco, sistemas de nuvens na Ama- zônia e nos Andes, entre outros) e discutir os desafios relacio- nados à gestão e comercialização da água. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Quadro: Projeto 2 – Energia Etapas Progressão da aprendizagem Apresentação do conceito de energia. O objetivo é que o aluno se aproprie do con- ceito de energia para trabalhá-lo nas etapas subsequentes. Estudo da organi- zação da produção, distribuição e con- sumo de energia no Brasil. Depois de formular o conceito de energia, os alunos observarão como sua oferta se distri- bui pelo Brasil. Leitura e com- preensão das in- formações dispo- nibilizadas em uma fatura de energia elétrica. A ideia é aproximar os alunos da discussão sobre os usos da energia. O conceito-chave é consumo. Discussões sobre a desigualdade no consumo entre países desenvolvidos e em desenvolvimento possibilitarão a formulação de hipóteses sobre fatores econômicos, polí- ticos e sociais que determinam diferenças a ser identificadas pelos alunos. Discussão com a comunidade sobre alternativas para reduzir o consumo de energia elétrica. Ainda que não seja possível transformar com- pletamente os hábitos de consumo de energia elétrica da comunidade, é importante debater o tema e incentivar atitudes que possam fazer diferença na vida das pessoas e do planeta. Sugestões complementares Etapa 1 – Sugestão de leitura Leia a seguir uma notícia sobre a descoberta de uma menina de um método de geração de energia. No texto, pode-se observar que, a partir de algo simples, mas genial, uma jovem estudante conse- guiu projetar uma alternativa barata para a geração de energia que pode ser utilizada em contextos variados. Essa iniciativa mostra como o conhecimento básico de Ciências pode nos ajudar a resolver problemas cotidianos e estimula os alunos na busca por soluções criativas por meio da ciência. Menina de 13 anos cria método de geração de energia limpa de R$ 15 Seu protótipo acende uma lâmpada usando a vibração causada pela água quando a chuva cai Energia renovável não é algo barato. Mesmo instalar painéis fotovoltaicos domés- ticos no telhado de casa, para uso próprio, pode sair por mais de R$ 20 mil. A america- na Maanasa Mendu, de Ohio, não gostou dessa perspectiva de fatura do cartão de crédito e criou seus próprios métodos limpos para virar o jogo. Aos 13 anos de idade, Mendu aplicou um material piezoelétrico para extrair energia da vibração do vento e da chuva por um preço ínfimo – e de quebra levou o prêmio de melhor cien- tista jovem dos Estados Unidos. Um material piezoelétrico é um cristal que é capaz de gerar tensão elétrica quando submetidoa pressão mecânica. Em outras palavras, cada vez que as superfícies do protótipo de Mendu são atingidas por gotas de chuva ou pressionadas pelo vento, elas geram um pouquinho de energia. Uma ideia genial em um mundo como o nosso, em que a atmosfera não descansa. A pré-adolescente precisou de um pouco de ajuda, claro. Quando entrou no Desafio de Cientistas Jovens [...], seu proje- to ainda envolvia apenas geração tradicional de energia eólica. painéis fotovoltaicos dispositivos usados para converter a energia da luz do Sol em energia elétrica. tensão elétrica é a diferença energética que causa o movimento dos elétrons entre dois pontos, resultando em corrente elétrica. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 64 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXV Ela chegou à versão atual (e à final do concurso) com a ajuda de sua mentora científica, a engenheira Margaux Mitera. A ideia tem vantagens notáveis do ponto de vista financeiro – a princípio, a máquina de Mendu pode ser produzida por apenas US$ 5 (R$ 15,60). A inspiração para o projeto veio da situação socioeconô- mica da Índia. Após uma visita ao país, ela ficou chocada com Etapa 2, Atividade 4 – Sugestão de respostas Quadro-resumo das fontes de energia Tipos de fonte Descrição Pontos positivos Pontos negativos Biomassa Toda matéria orgânica, de origem vege- tal ou animal, utilizada na produção de energia. Sua obtenção se dá por meio de recursos renováveis, como plantas, lixo, excrementos, madeira, resíduos agrícolas. É uma fonte renovável; polui pouco e é barata; agride pouco o ambiente; corrói pouco os equipamentos utilizados no processo. Desflorestamento de ambientes e des- truição de hábitats; tem um menor poder calorífico quando comparado com outros combustíveis; contribui para a formação de chuvas ácidas; dificuldade de transpor- te e armazenamento da biomassa sólida. Carvão vegetal Obtido a partir da queima da madeira. Possui outros usos, como a medicina natural. Aumenta a poluição (pela queima) e o desmatamento, desequilibrando o meio ambiente. Eólica É a energia obtida pelo acionamento de hélices movidas pelos ventos. É inesgotável; não emite gases poluen- tes; não gera resíduos; diminui a emissão de gases de efeito estufa (GEE). Produz ruído constante; mata inúmeras aves que voam perto das hélices; nem sempre há vento soprando para produzir energia. Gás natural O gás natural é um combustível fóssil que pode ser encontrado em bacias sedimen- tares marinhas e terrestres; nem sempre está associado ao petróleo. Se comparado ao petróleo ou ao carvão mineral, produz uma combustão mais limpa, não necessita de estocagem, como é mais leve que o ar não apresenta problemas de vazamento. É uma fonte não renovável; sua extração pode prejudicar o meio ambiente; pode poluir a atmosfera. Geotérmica Obtida a partir do calor que existe no in- terior da Terra. É uma energia renovável (não se esgo- ta); polui pouco a atmosfera com CO2; não depende de condições meteorológicas ideais. Dificuldade de encontrar locais com ele- vado potencial geotérmico; emite cheiro desagradável; custo elevado; esgota ra- pidamente os recursos locais. Hidráulica É conhecida como energia hídrica ou hi- drelétrica; sua obtenção se dá por meio do aproveitamento da energia potencial e cinética das correntes de água em rios, mares ou em quedas-d’água. Praticamente não polui; é uma energia renovável; a água represada pode, de- pendendo do projeto, ser usada para ir- rigação de plantações perto das usinas; como as usinas atuais são automatiza- das, têm baixo custo para funcionar; os preços para o consumidor não apresen- tam muita variação. Se a chuva nas cabeceiras dos rios dimi- nui, pode diminuir a geração de energia elétrica; se a represa for construída em local habitado, as pessoas têm de se mu- dar para outro lugar; impacto ambiental na construção da usina; a mudança no fluxo das águas pode alterar os ecossis- temas. Mares e oceanos É o aproveitamento dos movimentos de mares e oceanos. Constância das marés; é uma fonte inesgotável de energia; não há falhas; não polui. Sua implantação pode gerar impactos ambientais; custo elevado. Nuclear Obtida a partir da divisão de átomos de determinado elemento químico. Não libera gases de efeito estufa na atmosfera; a usina não precisa de uma grande área para sua construção; pouca quantidade de resíduos; não depende de fatores climáticos. Produz lixo nuclear radioativo; é cara; há possibilidades de acidentes nucleares; gera problemas ambientais pelo aqueci- mento da água usada para resfriamento. o número de pessoas que não tinham acesso a água limpa e energia elétrica. Ela ganhou um prêmio de US$ 25 mil, e agora pretende melhorar o protótipo e eventualmente desenvolver uma versão comercial do projeto. Menina de 13 anos cria método de geração de energia limpa de R$ 15. Revista Galileu. Disponível em: . Acesso em: 7 ago. 2018. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 65 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXVI Petróleo Produzida a partir da extração e do bene- ficiamento do petróleo. Tem grande capacidade de gerar ener- gia; sua distribuição pelo mundo é am- pla; há tecnologias avançadas de seu refinamento. Polui o meio ambiente; é não renovável; emite substâncias tóxicas na atmosfera. Solar É obtida a partir da captação da emissão da luz solar. Não polui; vem se tornando cada vez mais acessível; países com captação de luz solar são ideais, é uma solução para lugares isolados. Tecnologia de alto custo. do campo magnético foram considerados sete critérios de funcionamento do gerador. Os primeiros testes com o reator demonstraram resul- tados promissores e conseguiram manter o plasma sobre controle com os campos magnéticos. Em 2015, os primeiros testes foram realizados com hélio, que foi observado por meio de câmeras instaladas e dispositivos de medição, du- rando um décimo de segundo e atingindo uma temperatura próxima a 1 milhão de graus Celsius. A escolha inicial do hélio é porque ele é mais fácil de ionizar que o hidrogênio, o qual foi testado em fevereiro de 2016. Para novos testes, projetou-se a instalação de placas de carbono para proteger as paredes do recipiente de plasma, permitindo atingir maior potência, maiores temperaturas e descargas mais longas que um segundo. A previsão é de que o Wendelstein 7-X comece a funcio- nar em 2019 e utilize o deutério (isótopo do hidrogênio e abundante no planeta). No caso do hidrogênio, por exemplo, 6 g podem gerar energia suficiente para abastecer uma casa com quatro pessoas por pouco mais de 150 dias. Inicial- mente, o reator só vai gerar energia suficiente para o seu funcionamento. O próximo passo é aumentar a eficiência dos reatores e, em alguns anos, produzir energia limpa em larga escala. Máquina de fusão nuclear alemã pode gerar energia limpa no futuro. Blog da Engenharia. Disponível em: . Acesso em: 12 out. 2018. Etapa 2 – Sugestão de leitura Máquina de fusão nuclear alemã pode gerar energia limpa no futuro Parece assustador falar em fusão nuclear, mas a máquina alemã pretende reproduzir o processo de fusão que ocorre no Sol, sem radiação e produzindo energia limpa, diferente da fissão nuclear. Na fissão nuclear um átomo é forçado a dividir-se em dois mais leves, gerando energia e também resíduos tóxi- cos e radioativos. Por outro lado, na fusão nuclear, dois átomos colidem propositalmente, formando um terceiro átomo mais pesado e liberando energia, sendo o átomo produzido não tóxico, normalmente. A ideia de fusão nu- clear não é nova, começou a ser desenvolvida em meados do século passado, mas só passou a serproduzida pelos alemães recentemente. Wendelstein 7-X é o nome do reator alemão que promete reproduzir as reações que ocorrem no Sol. Como o objetivo é imitar a fusão que ocorre nas estrelas, o reator é chamado de “stellerator”. Ele possuir 16 metros de extensão em forma de anel, com cinquenta bobinas supercondutoras e o formato é proveniente de resultados de cálculos de otimização. Foram nove anos de construção do gerador e mais de um milhão de horas de montagem, finalizada em abril de 2014, quando começou a ser preparado para testes. As experiências começaram em dezembro de 2015 e os resultados foram publicados em um artigo da revista Nature em novembro de 2016. Os átomos de gás que são fundidos se repelem porque apresentam carga elétrica de mesmo sinal, mas uma gran- de quantidade de calor força os átomos a se aproximarem, resultando em plasma. O plasma não é sólido nem líquido e é difícil encontrar uma forma de geração que sobreviva às altas condições de pressão promovidas pelo calor. Para isso, pensou-se em manter o gás e o plasma contidos por campos magnéticos, mantendo uma distância da superfície do gerador (para que ela sobreviva). A diferença do Wendelstein 7-X para outros geradores é que ele utiliza campos magnéticos em 3D ao invés de 2D, de forma que não é necessário utilizar corrente elétrica e também provou ser mais estável. Para testar o gerador, os pesquisa- dores usaram uma luz fluorescente para delinear o trajeto de um elétron, verificando o campo magnético. Para otimização Etapa 3, Atividade final – Caminho alternativo Outra hipótese de trabalho para análise de dados sobre o con- sumo de energia elétrica na comunidade é definir como objeto de estudo a própria escola e seu consumo de energia elétrica durante determinado período de tempo. Para isso, os alunos devem ter aces- so às faturas de energia elétrica da escola e fazer um levantamento dos espaços em que ocorre consumo de luz e dos equipamentos elétricos utilizados na escola. Se não for possível organizar o debate proposto como encer- ramento do projeto, uma alternativa é transformar as sugestões dos alunos em cartazes explicativos e distribuí-los pela escola, alertando a todos sobre como reduzir o consumo de energia elétrica. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 66 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXVII Projeto 3 Ð Patrim™nio material e imaterial Objetivo A valorização e a fruição de manifestações artísticas e cultu- rais, assim como a atenção à diversidade cultural e artística do Brasil, estão previstas na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e são fundamentais para a formação de repertório dos alunos e sua educação para o bem comum, extrapolando interesses indivi- duais. Observar heranças do passado e reconhecer-se nelas, ainda que tenham uma matriz étnica diversa da sua, leva o aluno a olhar para o outro e a respeitar a diversidade, aspectos centrais de uma sociedade democrática e plural. Justificativa A confecção de um almanaque, produto final do projeto, propicia o trabalho com múltiplos gêneros textuais e linguagens e, ao mesmo tempo, tem caráter informativo e lúdico. Sua montagem pode mobili- zar diferentes habilidades e potencializar a criatividade dos alunos. Componentes curriculares • Língua Portuguesa – Os alunos realizarão pesquisas e divulga- ção dos resultados. Além disso, assistirão a uma videoaula e anotarão informações. Farão também entrevistas sobre patri- mônio cultural, definindo o recorte temático e os entrevistados. • Arte – Os alunos analisarão o patrimônio cultural material e imaterial de sua região, buscando valorizá-lo e divulgá-lo para um público mais amplo. Avaliação No decorrer das etapas do projeto, algumas atividades podem ser avaliadas pontualmente, como as entrevistas, o levantamento de da- dos e o compartilhamento dessas informações com a classe. Também é possível avaliar o almanaque, seja como produto coletivo e concreto das discussões e aprendizados realizados, seja pelo envolvimento dos alunos em sua confecção. O importante é não atribuir uma nota única ao projeto, buscando abranger na avaliação a complexidade que um trabalho com tantas etapas envolve: atividades escritas e orais, momentos de trabalho individual e coletivo, produtos parciais e finais. É importante ainda que os alunos façam uma autoavalia- ção para expressar seus aprendizados, dúvidas e frustrações, pois é essencial que tenham oportunidade de assumir o protagonismo também no momento de balanço e fechamento do projeto. Diário de bordo Nesse projeto há muitas informações importantes que podem ser registradas no Diário de bordo para facilitar a síntese das discus- sões sobre patrimônios materiais e imateriais, como a entrevista com o especialista sobre patrimônios culturais. O diário pode ser utilizado também para o registro da videoaula, para o levantamento dos patrimônios da região e para o rascunho das atividades que vão compor o almanaque. De olho no tempo É fundamental organizar um cronograma do projeto, prevendo o tempo necessário para a execução de atividades mais demoradas, como o registro da videoaula, a realização de entrevistas e a criação das atividades que farão parte do almanaque. A forma de distribuição dos trabalhos entre os grupos na etapa de criação dos conteúdos do almanaque deve ser levada em conta para essa organização. Perfil do professor Pelo caráter do projeto, que prevê tanto a realização de ativi- dades de pesquisa e escrita como discussões sobre o conceito de patrimônio cultural por um viés artístico, ele pode ser liderado pelo professor de Língua Portuguesa, com o apoio do professor de Arte. Referências complementares FUNARI, Pedro Paulo; PELEGRINI, Sandra C. A. Patrimônio histórico e cultural. Rio de Janeiro: Zahar, 2006. SILVA, Fernando Fernandes da. As cidades brasileiras e o patrimônio cultural da humanidade. 2. ed. São Paulo: Peirópolis/Edusp, 2012. Competências Gerais Reproduzimos a seguir o texto das competências, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, vão ser indicados apenas o número (mesma numeração da BNCC) e um breve texto de cada competência por falta de espaço. Nesse projeto, serão trabalhadas com maior destaque as seguintes competências: 2 Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investi- gar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. 3 Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural. 10 Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabi- lidade, flexibilidade, resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos, democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Habilidades Aqui reproduzimos o texto integral de cada habilidade, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, elas podem ser indicadas apenas pelo código. Neste projeto, serão trabalhadas as seguintes habilidades: • Arte (EF69AR34) Analisar e valorizar o patrimônio cultural, mate- rial e imaterial, de culturas diversas, em especial a brasileira, incluindo suas matrizes indígenas, africanas e europeias, de diferentes épocas, e favorecendo a construção de vocabulário e repertório relativos às diferentes linguagens artísticas. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 67 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXVIII • Língua Portuguesa (EF89LP24) Realizar pesquisa, estabelecendo o recorte das questões, usando fontes abertas e confiáveis. (EF89LP25) Divulgar o resultadode pesquisas por meio de apresentações orais, verbetes de enciclopédias colaborativas, reportagens de divulgação científica, vlogs científicos, vídeos de diferentes tipos etc. (EF89LP28) Tomar nota de videoaulas, aulas digitais, apresen- tações multimídias, vídeos de divulgação científica, documentá- rios e afins, identificando, em função dos objetivos, informações principais para apoio ao estudo e realizando, quando neces- sário, uma síntese final que destaque e reorganize os pontos ou conceitos centrais e suas relações e que, em alguns casos, seja acompanhada de reflexões pessoais, que podem conter dúvidas, questionamentos, considerações etc. (EF69LP39) Definir o recorte temático da entrevista e o en- trevistado, levantar informações sobre o entrevistado e sobre o tema da entrevista, elaborar roteiro de perguntas, realizar entrevista, a partir do roteiro, abrindo possibilidades para fazer perguntas a partir da resposta, se o contexto permitir, tomar nota, gravar ou salvar a entrevista e usar adequadamente as informações obtidas, de acordo com os objetivos estabelecidos. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Quadro: Projeto 3 – Patrimônio material e imaterial Etapas Progressão da aprendizagem Conceituação de patrimô- nio material e seu papel na construção da memória e identidade dos povos. O início do projeto está focado na concei- tuação do patrimônio cultural material, para aproximar o aluno desse conceito e mostrar-lhe, por meio de atividades, a diversidade de patrimônios materiais do Brasil. Ampliação do conceito de patrimônio, com a inclu- são do estudo dos patri- mônios imateriais. O conceito de patrimônio se amplia e o patrimônio imaterial é discutido, em sua riqueza e diversidade de saberes e práticas. Pesquisa sobre os patri- mônios materiais e imate- riais da região em que vive o aluno. A partir da discussão proposta, os alu- nos pesquisam sobre os patrimônios de sua região, levantando dados e entre- vistando estudiosos do tema. Montagem do almanaque. A montagem do almanaque requer or- ganização e trabalho em grupo. Depois de retomar algumas informações sobre esse suporte, os alunos dividem-se em grupos e criam as atividades que farão parte do almanaque, usando, para isso, o material pesquisado, tanto informati- vo como iconográfico. Lançamento do almana- que para a comunidade. O lançamento tem um papel fundamental, como síntese do que foi trabalhado: divul- gar os patrimônios da região e chamar a atenção da comunidade para sua impor- tância e necessidade de preservação. Sugestões complementares Introdução ao projeto – Sugestão de vídeo Uma boa estratégia para iniciar a discussão do tema é compar- tilhar com os alunos algum vídeo sobre um patrimônio cultural que seja relevante para eles. Depois de assistir ao vídeo, ou a mais de um, peça-lhes que opinem sobre as razões para que essas manifes- tações ou construções sejam consideradas relevantes e dignas de preservação. Deixe que se expressem livremente, sem se preocupar com a sistematização, que acontecerá no decorrer das etapas do projeto. Seguem algumas sugestões de vídeos: Jongo: Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2018. Capoeira: Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2018. Olinda: Disponível em: ; . Acesso em: 20 set. 2018. São Miguel das Missões: Disponível em: . Acesso em: 20 set. 2018. Etapa 1 – Atividade complementar Na Etapa 3 deste projeto, os alunos farão uma pesquisa sobre os patrimônios culturais de sua região. Neste momento, então, a ideia é fazer uma sondagem sobre os conhecimentos prévios dos estudantes e sobre o que pensam das edificações de sua região, chamando a atenção para o tema, que será explorado de modo sistematizado mais adiante. Proponha aos alunos que conversem com os colegas sobre sua região e respondam às questões propostas. a) Há construções tombadas pelo Iphan? Quais? b) Que outra(s) construção(ões) de sua cidade você acha que de- veria(m) ser tombada(s) como patrimônio cultural? Por quê? c) Se não há construção tombada, você acha que alguma que de- veria ser? Por quê? Etapa 2, Atividade 1 Nessa atividade, é solicitado aos alunos que assistam a uma videoaula e tomem notas com base em um roteiro. Além dos pontos sugeridos pelo roteiro para registro, a videoaula em questão aborda muitas outras informações que podem despertar o interesse dos alunos, entre elas: • O surgimento da primeira legislação sobre patrimônio que extra- pola o individual se deu durante a Revolução Francesa, devido à depredação de edifícios e castelos. Nessa discussão, ainda prevalece um caráter elitista na concepção de patrimônio, já que apenas edifícios considerados singulares, importantes e grandiosos são considerados patrimônio. • No fim da Segunda Guerra Mundial ocorre uma primeira trans- formação na concepção de patrimônio. Um grupo de intelectuais critica o racismo e a desigualdade de gênero que estão nas bases do nazismo e luta por liberdade religiosa e direitos civis. A esse movimento, junta-se a criação da ONU e da Unesco, enti- dades que passam a monopolizar o debate em torno da questão do patrimônio. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 68 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXIX • Outro ponto a destacar é a visão eurocêntrica da antiga noção de patrimônio, que ignorava os patrimônios dos países do cha- mado “terceiro mundo”, pois, supostamente, não haveria nesses países patrimônios de relevância e distinção a ser preservados. Suas manifestações estariam ancoradas apenas na oralidade, em danças, festas, e esse tipo de manifestação não se enqua- drava na visão de patrimônio da época. • A definição de patrimônio imaterial presente na videoaula pode ser retomada com os alunos: o patrimônio cultural imaterial é aquele que não é de cal, de pedra, mas sim ligado a festas, a manifestações, a histórias transmitidas oralmente. Etapa 2, Atividade 3 – Leitura complementar Uma definição mais completa do jongo no Sudeste pode ser apresentada aos alunos. intrigas secundárias como no romance ou na novela; e (iv) uma unidade de técnica e de tom [...] que o romance não mantém. COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 67. Jongo no Sudeste O jongo é uma forma de expressão que integra percussão de tambores, dança coletiva e elementos mágico-poéticos. Tem suas raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos afri- canos, sobretudo os de língua bantu. É cantado e tocado de diversas formas, dependendo da comunidade que o pratica. Consolidou-se entre os escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar localizadas no Sudeste brasileiro, principalmente no vale do Rio Paraíba do Sul. É um elemento de identidade e resistência cultural para várias comunidades e também espaço de manutenção, circulação e renovação do seu universo simbólico. Jongo no Sudeste. Iphan. Disponível em: . Acesso em: 24 jul. 2018. Etapa 4 – Leitura complementar Se julgar necessário, retome com os alunos as definições dos gêneros textuais que serão usados no almanaque. Seguem algu- mas delas. Apresentação Texto inicial de obra literária ou genérica, de um periódico ou de uma revista pelo qual se apresenta o conteúdo e/ou o seu autor ou autores [...]. Dele podem constar os objetivos do autor, os patrocínios recebidos, os agradecimentos, as circuns- tâncias de elaboração da obra, etc. Podem constar também a amplitude e a importância do tema, do assunto e os pontos de vistas abordados, o perfil do público a que se destina, a filosofia adotada, comparações com outras publicações, etc. COSTA, Sérgio Roberto.Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 33. Conto Em contraste com o romance, que geralmente é mais lon- go, o conto é mais curto (short story, no inglês), isto é, de configuração material narrativa pouco extensa, historica- mente verificável. Essa característica de síntese traz outras: (i) número reduzido de personagens ou tipos; (ii) esquema tem- poral e ambiental econômico, muitas vezes restrito; (iii) uma ou poucas ações, concentrando os eventos e não permitindo Crônica Originalmente, a crônica limitava-se a relatos verídicos e nobres [...]. Contemporaneamente, no jornalismo, em co- luna de periódicos, assinada, pode vir em forma de notícias, comentários, algumas vezes críticos e polêmicos, abordando temas ligados a atividades culturais [...], políticas, econômicas, de divulgação científica, desportivas, etc. [...] Quanto ao estilo, geralmente é um texto curto, breve, sim- ples, de interlocução direta com o leitor, com marcas bem típicas da oralidade. [...] COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 71. Receita [...] Em culinária, são instruções que orientam a prepara- ção de uma iguaria. Em todos os casos, predomina uma lin- guagem instrucional com uso de formas verbais (imperativo, infinitivo) de valor imperativo ou impessoal. Em culinária, a receita estrutura-se geralmente em duas partes: Ingredientes e Modo de Preparo (Confecção), incluindo-se, muitas vezes, a maneira de servir. COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 157. Etapa 5, Atividade final – Caminho alternativo É possível que haja dificuldades para entrevistar um especia- lista nos patrimônios da região, mesmo considerando que podem ser pesquisadores da cultura, funcionários de museus e centros culturais, professores de História e de Arte, artistas representativos da região e outras pessoas que tenham conhecimento acumulado sobre o tema. Nesse caso, proponha uma busca na biblioteca ou na internet sobre o tema. Outra fonte alternativa são as pessoas mais velhas da comunidade, aquelas que guardam a memória das manifestações culturais regionais. Se não for possível fazer muitas cópias dos almanaques, pode- -se fazer apenas um para cada aluno ou apenas um exemplar para a biblioteca da escola. Tão importante quanto a materialização do almanaque é que ele alcance seu objetivo, mostrando aos alunos a relevância desses espaços na preservação da cultura e das iden- tidades de sua região. Reportagem Texto jornalístico (escrito, filmado, televisionado), que é veiculado por órgãos de imprensa, resultado de uma atividade jornalística (pesquisa, cobertura de eventos, seleção de dados, interpretação e tratamento), que basicamente consiste em adquirir informações sobre determinado assunto ou aconte- cimento para transformá-las em noticiário. [...] COSTA, Sérgio Roberto. Dicionário de gêneros textuais. Belo Horizonte: Autêntica, 2008. p. 160. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 69 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXX Objetivo A reflexão sobre os conteúdos articulados em torno dos fenô- menos climáticos pode se tornar uma ferramenta poderosa para desenvolver aprendizagens que não são específicas de uma ou outra disciplina. Além disso, é possível, a partir desse projeto, pro- piciar aos alunos algumas experiências de observação e registro de transformações no mundo natural, trabalhando habilidades relacio- nadas ao levantamento de hipóteses e à previsão de resultados que envolvem a regularidade de fenômenos climáticos. Com isso, com- portamentos relacionados à postura científica podem ser enfatiza- dos, ressignificando o papel da ciência como produtora de sentido, e não como um conjunto desmotivado de regras e conhecimentos. Justificativa O produto final do projeto, um conjunto de dados sobre variação climática que possibilite a elaboração de ferramentas de previsão de chuvas para a região em que se localiza a escola/comunidade, tem um valor significativo para os alunos nessa fase de escolari- zação, na medida em que permite disseminar para fora dos limites da escola conhecimentos que podem influir na vida das pessoas: informações sobre o microclima da região onde a escola se situa se tornam um ponto de partida para a tomada de decisões importantes relacionadas ao dia a dia em espaços de produção agrícola ou em espaços caracterizados como zonas de risco. Componentes curriculares • Ciências – Os alunos analisarão fenômenos associados ao cli- ma, o que lhes permitirá compreender alguns de seus concei- tos fundamentais e estruturas explicativas. É também foco do projeto a reflexão e o domínio de processos, práticas e procedi- mentos da investigação científica, em especial a formulação de hipóteses, a observação e o registro, a verificação teórica que sustenta interpretações e a validação de fontes. • Geografia – A abordagem do tema central desse projeto, o clima, permitirá o resgate de conhecimentos trabalhados anteriormen- te pelos alunos, aprofundando sua compreensão perceptiva da paisagem por meio da análise de formas de representação e pensamento espacial, além da ampliação gradativa de repre- sentações gráficas, fundamentais para o desenvolvimento do raciocínio geográfico. • Matemática – Os alunos realizarão atividades de identificação de sequências numéricas, construindo algoritmos relacionados a fenômenos climáticos. Com isso, espera-se poder auxiliá-los no desenvolvimento do raciocínio lógico e do espírito de inves- tigação, capacitando-os a produzir argumentos matemáticos convincentes e a recorrer aos conhecimentos adquiridos para compreender o mundo ao redor. Avaliação No decorrer das etapas desse projeto, muitas atividades podem ser avaliadas pontualmente, em especial aquelas que envolvem a apresentação ou a retomada de conteúdos relacionados aos componentes que integram a proposta. Atividades de natureza procedimental, como a montagem de instrumentos de medição de variáveis climáticas, podem propiciar um retorno individual aos alunos, com possibilidade de refazer ou melhorar as versões entre- gues anteriormente, dando-lhes, assim, a oportunidade de produzir dispositivos mais precisos e confiáveis. É importante promover ainda uma autoavaliação em que os alunos possam expressar seus aprendizados, dúvidas, frustrações, assumindo o protagonismo também no momento de balanço do projeto. Diário de bordo O Diário de bordo tem o objetivo, nesse projeto, de reunir ano- tações diversas, individuais e coletivas, sínteses de pesquisa e de discussões, de levantamento de hipóteses e de validação de ideias. Nele podem ser registrados: a conclusão sobre a relação entre o movimento da Terra e as estações do ano, a tabela com a descrição das zonas climáticas da Terra, o resultado do experimento sobre as sensações da temperatura da água e, enfim, os dados das leituras dos vários instrumentos de medição da estação montada. Também é desejável que os alunos façam anotações de natureza pessoal, como descobertas que tenham feito no decorrer do projeto e registros de suas ideias. De olho no tempo Por se tratar de um projeto com muitas atividades, que, a princípio, podem ser consideradas em sua singularidade, cabe o cuidado com a organização do cronograma, no qual podem ser inseridos também, sempre que possível, momentos para uma amarração de ideias conduzida pelo professor. Com isso, não apenas os prazos de realização das atividades ficam garantidos, como também se observa o nexo entre as passagens concei- tuais e metodológicas pressupostas na organização do projeto. Espaços para esclarecer dúvidas conceituais ou para desdobra- mentos decorrentes do interesse dos alunos também devem ser previstos no cronograma. Perfil do professor Apesar de a importância do projeto ser mais calcada na arti- culação do que nos conhecimentos específicos de cada compo- nente, sugere-se que sua conduçãoseja liderada pelo professor de Ciências. Referências complementares FERREIRA, Lúcia da Costa et al. (Org.). Clima de tensão: ação hu- mana, biodiversidade e mudanças climáticas. Campinas: Unicamp, 2017. (Coleção Unicamp 50 Anos). NOBRE, Carlos A.; MARENGO, José A. (Org.). Mudanças climáticas em rede: um olhar interdisciplinar. São José dos Campos: INCT, 2017. Projeto 4 – Previsão do tempo Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 70 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXXI Competências Gerais Reproduzimos a seguir o texto das competências, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, vão ser indicados apenas o número (mesma numeração da BNCC) e um breve texto de cada competência por falta de espaço. Nesse projeto, serão trabalhadas com maior destaque as seguintes competências: 2 Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investi- gar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas. 5 Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de in- formação e comunicação de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal e coletiva. 7 Argumentar com base em fatos, dados e informações con- fiáveis, para formular, negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o con- sumo responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Habilidades Aqui reproduzimos o texto integral de cada habilidade, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, elas podem ser indicadas apenas pelo código. Nesse projeto, serão trabalhadas as seguintes habilidades: • Ciências (EF08CI14) Relacionar climas regionais aos padrões de circula- ção atmosférica e oceânica e ao aquecimento desigual causado pela forma e pelos movimentos da Terra. (EF08CI15) Identificar as principais variáveis envolvidas na previsão do tempo e simular situações nas quais elas possam ser medidas. (EF08CI16) Discutir iniciativas que contribuam para restabe- lecer o equilíbrio ambiental a partir da identificação de altera- ções climáticas regionais e globais provocadas pela intervenção humana. • Geografia Desenvolver o pensamento geográfico, fazendo uso das lin- guagens cartográficas e iconográficas e de diferentes gêneros textuais que envolvam informações geográficas. (Adaptado da competência específica de Geografia número 4.) • Matemática (EF08MA04) Resolver e elaborar problemas, envolvendo cálculo de porcentagens, incluindo o uso de tecnologias digitais. (EF08MA10) Identificar a regularidade de uma sequência nu- mérica ou figural não recursiva e construir um algoritmo por meio de um fluxograma que permita indicar os números ou as figuras seguintes. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Quadro: Projeto 4 – Previsão do tempo Etapas Progressão da aprendizagem Reflexão sobre a relação entre as variações climá- ticas e seus impactos, em contextos de desarmonia entre meio ambiente e ocupação humana. O aluno inicia sua reflexão a partir de informações relacionadas às variações climáticas e seus impactos sociais e am- bientais em diferentes partes do mundo. Estudo dos conceitos de rotação e translação ne- cessários para entender a diferença de incidência da radiação solar nas di- versas regiões do plane- ta em momentos deter- minados do ano. O foco se volta para a retomada de no- ções sobre variações térmicas consti- tuídas pelos movimentos de rotação e translação e sua influência nas tempe- raturas anuais em todo o planeta. Conceituação para a aquisição de uma ter- minologia científica na descrição de fenômenos climáticos. Os conceitos de temperatura, calor, po- luição térmica e mudanças climáticas vão sendo trabalhados de maneira pro- gressiva nessa etapa. Produção dos instru- mentos que serão usa- dos na montagem da estação meteorológica na escola. Com base no estudo de alguns fenôme- nos climáticos e de suas determinações em regiões diversas, os alunos cons- troem instrumentos de coleta e medição de dados a fim de observar como se dá o clima local. Montagem da estação meteorológica na esco- la e registro dos dados coletados numa tabela. Construídos os instrumentos, os alunos verificarão como ajustá-los de modo a produzir dados e como interpretar e re- lacionar os dados entre si para projetar previsões de clima. Compartilhamento dos dados coletados por meio da estação meteo- rológica da escola com a comunidade. O momento final prevê a discussão tanto do modelo de coleta e produção dos da- dos como de seus resultados. Sugestões complementares Introdução ao projeto – Sugestão de vídeo Para iniciar o projeto, assista com os alunos a vídeos sobre questões relacionadas ao clima na Terra. Essa pode ser uma boa maneira de preparar as discussões em sala de aula. Há vários vídeos que tratam de aspectos relacionados à meteorologia. Faça uma pesquisa na internet pelos seguintes títulos: Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 71 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXXII • “ABC da Astronomia: Rotações”, da TV Escola. • “Como funciona uma estação meteorológica”, da Climatempo Meteorologia. • “Como os satélites meteorológicos enxergam a Terra”, da Clima- tempo Meteorologia. • “Sensações térmicas”, da Climatempo Meteorologia. Pode-se selecionar mais temas para pesquisa, alguns deles resultantes das discussões em sala de aula. É fundamental, po- rém, não perder de vista o cronograma de trabalho, de modo que haja tempo suficiente para a realização das tarefas propostas em todas as etapas. Etapa 3 – Atividade 1 Antes de realizar o experimento com água, pode-se realizar como preparação, em sala de aula, o seguinte exercício: pedir aos alunos para descrever sensações (em especial relacionadas à tem- peratura) ao tocar diferentes objetos. Se possível, nesse exercício de percepção, dê oportunidade a todos os alunos para descrever suas sensações. Conforme os alunos forem verbalizando o que sentem ao tocar os objetos (que devem apresentar diferenças tér- micas), o professor pode auxiliá-los na escolha das palavras que traduzam melhor o que querem expressar. Etapa 3, Atividade 2 A variação de gêneros textuais, incluindo esquema, charge e infográfico, possibilita um tratamento mais dinâmico dos concei- tos. Não se trata, como muitas vezes pode ocorrer, de requisitar aos alunos que decorem termos e os relacionem a fenômenos científicos. A proposta é que os alunos compreendam que há vá- rias formas de veiculação de conhecimentos científicos, ou seja, que eles atravessam vários campos da sociedade a fim de atingir múltiplas finalidades. Em temas com repercussão social, como é o caso do aquecimento global e seus impactos no planeta, é de se esperar que informações com maior ou menor grau de comple- xidade científica circulem em campos distintos, até mesmo em espaços escolares. Essa, inclusive, pode ser uma discussão a ser conduzida com os alunos. Etapa 4, Atividade final – Caminho alternativo Caso a montagem da estação meteorológica ou a coleta de dados a partir dela apresentem problemas e não possam ser realizadas, po- de-se pedir aos alunos que coletem dados em sites governamentais (que são atualizados quase diariamente) e apresentem prospecções quanto ao clima em território nacional. Nessecaso, a previsão para o clima local será substituída por uma previsão em nível regional. B a n c o d e i m a g e n s /A rq u iv o d a e d it o ra Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 72 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXXIII ORIENTAÇÕES POR ANO — 6 º ANO_ Projeto 1 – Futebol e rendimento Os projetos do 9o ano têm um caráter de síntese de discussões empreendidas ao longo da coleção e durante o ano e demandam dos alunos maior nível de abstração e de trabalho conceitual, ao mesmo tempo que promovem discussões relevantes da contemporaneida- de. A proposta é suscitar o envolvimento dos alunos partindo de temas de seu interesse: o futebol, que propicia uma autorreflexão sobre o corpo e a questão da autoimagem; as identidades brasilei- 9O ano Projetos Componentes curriculares Produtos Competências Gerais da BNCC Habilidades Projeto 1 Futebol e rendimento Educação Física Matemática Álbum de figurinhas 8 9 EF89EF05 EF89EF08 EF89EF09 EF09MA06 EF09MA21 Projeto 2 Identidades brasileiras Geografia História Língua Portuguesa História em quadrinhos 1 7 8 EF09GE01 EF09GE03 EF09HI16 EF09HI23 EF09HI26 EF09HI36 EF69LP51 Projeto 3 Entre o global e o local Geografia História Feira de exposição dos produtores locais 1 7 EF09GE01 EF09GE02 EF09GE03 EF09GE11 EF09HI27 EF09HI33 EF09HI36 Projeto 4 Transmissão digital Ciências Língua Portuguesa Fórum sobre os jovens e a comunicação digital 7 10 EF89LP02 EF89LP12 EF89LP15 EF09CI05 Fazem parte dessas orientações informações que visam a ajudar no planejamento do trabalho com cada um dos projetos e facilitar o acesso a textos e atividades complementares. De modo geral, é possível encontrar aqui: 1. Uma apresentação dos elementos que compõem cada projeto: • Título • Objetivo • Justificativa • Componentes curriculares • Avaliação • Diário de bordo • De olho no tempo • Perfil do professor • Referências complementa- res • Competências e habilidades da BNCC 2. Um quadro-resumo de cada projeto com previsão das etapas e da progressão da aprendizagem. 3. Sugestões didáticas complementares às propostas no Livro do Aluno, como atividades extras; ideias para ampliar a exploração de determinado tema, que visam, muitas vezes, a vivências mais imersivas; leituras complementares para ampliar o tema traba- lhado; e caminhos alternativos para trabalhar alguma etapa do projeto de modo diverso do apresentado, numa tentativa de al- cançar um número maior de realidades de sala de aula. Objetivo A discussão sobre futebol e sobre esportes em geral, nessa faixa etária, pode propiciar uma reflexão mais ampla sobre o corpo e suas transformações. Numa fase em que mudanças corporais podem levar a uma baixa autoestima ou à tentativa de atender a padrões estéticos irreais, é importante ajudar os alunos a desen- volver a capacidade de lidar com essas mudanças relacionadas ao crescimento, avaliando riscos relativos à saúde em determinadas práticas, como o excesso de exercícios físicos ou a utilização de dietas pouco confiáveis. Outro aspecto importante do projeto é esclarecer que os crité- rios para definir o que seria um craque atualmente não são univer- sais nem objetivos, ou seja, que pode ser muito diferente o que cada pessoa considera fundamental para determinar o que é um craque. ras, que permitem refletir sobre sua identificação como brasileiro; e a discussão sobre o próprio papel no mundo em relação a dinâmicas em curso, como o embate entre o global e o local e o lugar que as tecnologias digitais ocupam na vida de todos hoje em dia. Nesses projetos finais, o aluno desempenha ainda mais o papel de protago- nista e prepara-se, por meio deles, para os desafios que encontrará na próxima etapa de seus estudos, o Ensino Médio. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 73 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXXIV Nesse sentido, o projeto propicia a compreensão da perspectiva do outro e a identificação de diferentes pontos de vista em relação a um mesmo tema. Justificativa A partir de um tema pertencente ao universo do aluno, o produto final pressupõe o trabalho com levantamento de critérios e dados, organização em gráficos e análises comparativas que tornarão o estudo contextualizado e com aplicação concreta, facilitando uma apreensão significativa desses conceitos. Componentes curriculares • Educação Física – O trabalho com o projeto propiciará aos alu- nos identificar as transformações históricas do futebol e o modo como é apresentado pela mídia. Também vai propiciar a discus- são sobre padrões de saúde, além de problematizar a prática esportiva excessiva e o uso de medicamentos para ampliação do rendimento esportivo ou potencialização das transforma- ções corporais. • Matemática – A proposta é que os alunos trabalhem com dados sobre os rendimentos dos jogadores a partir da construção de representações numéricas, algébricas ou gráficas de relações entre variáveis. Espera-se também que os alunos possam ana- lisar criticamente gráficos relacionados ao tema do projeto. Avaliação A avaliação do projeto poderá ser feita tanto a partir da observa- ção de algumas mudanças práticas nos alunos, como uma atitude mais saudável e positiva em relação ao corpo, como por meio das atividades propostas pontualmente, como a montagem de tabelas e de gráficos comparativos. É importante levar em conta na avaliação do projeto que as atividades relacionadas à Educação Física e à Matemática precisam ser igualmente consideradas, sem privilégio de uma ou outra. Diário de bordo Ressalte para os alunos que o registro das atividades desse projeto no Diário de bordo pode propiciar boas memórias. Estudar sobre autoimagem, corpo e saúde, temas do campo de interesse dos alunos e relacionados diretamente com eles, merece reflexão e anotações pessoais, que ajudem a retomar essas discussões ao longo do projeto e também posteriormente. As anotações sobre futebol e jogadores preferidos também são interessantes de ser registradas e, eventualmente, comparadas com o que eles pensa- rão sobre o tema daqui a algum tempo. De olho no tempo Não é difícil gerenciar o tempo nesse projeto, que prevê várias etapas com tarefas pontuais e outras mais prolongadas, como a Etapa 4, dedicada à montagem do álbum. É fundamental reservar aulas para a troca de figurinhas entre os alunos e a montagem do álbum, de modo que todo o esforço dos alunos para a realização do projeto não culmine na frustração de não poder vê-lo finalizado em sua experiência mais lúdica. Perfil do professor O tema do projeto, ligado essencialmente ao corpo, à prática esportiva e ao futebol, pressupõe como líder o professor de Edu- cação Física. Seria importante, no entanto, que ele contasse muito de perto com a colaboração do professor de Matemática e, even- tualmente, com o auxílio do professor de Ciências nas discussões sobre mudanças corporais na adolescência. Referências complementares GUTTERMAN, Marcos. O futebol explica o Brasil: uma história da maior expressão popular do país. São Paulo: Contexto, 2009. WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. Competências Gerais Reproduzimos a seguir o texto das competências, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, vão ser indicados apenas o número (mesma numeração da BNCC) e um breve texto de cada competência. Neste projeto, serão trabalhadas com maior destaque as seguintes competências: 8 Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com auto- crítica e capacidade para lidar com elas. 9 Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimentoe valo- rização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes, identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Habilidades Aqui reproduzimos o texto integral de cada habilidade, conforme a BNCC. Nas orientações específicas que acompanham o Livro do Aluno, elas podem ser indicadas apenas pelo código. Nesse projeto, serão trabalhadas as seguintes habilidades: • Educação Física (EF89EF05) Identificar as transformações históricas do fenô- meno esportivo e discutir alguns de seus problemas (doping, cor- rupção, violência etc.) e a forma como as mídias os apresentam. (EF89EF08) Discutir as transformações históricas dos padrões de desempenho, saúde e beleza, considerando a forma como são apresentados nos diferentes meios (científico, midiático etc.). (EF89EF09) Problematizar a prática excessiva de exercícios físicos e o uso de medicamentos para a ampliação do rendimen- to ou potencialização das transformações corporais. • Matemática (EF09MA06) Compreender as funções como relações de de- pendência unívoca entre duas variáveis e suas representações numérica, algébrica e gráfica e utilizar esse conceito para analisar situações que envolvam relações funcionais entre duas variáveis. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 74 10/28/18 11:07 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXXV (EF09MA21) Analisar e identificar, em gráficos divulgados pela mídia, os elementos que podem induzir, às vezes propositada- mente, erros de leitura, como escalas inapropriadas, legendas não explicitadas corretamente, omissão de informações impor- tantes (fontes e datas), entre outros. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Quadro: Projeto 1 – Futebol e rendimento Etapas Progressão da aprendizagem Discussão do tema es- porte e saúde. O início do projeto propõe a reflexão sobre uma prática esportiva saudável que propor- cione aos alunos qualidade de vida. Como os adolescentes costumam ser suscetíveis a discursos que prometem resultados em tempo reduzido e com pouco esforço, é fun- damental tratar desse assunto com eles. Aqui também é introduzido o conceito de desempenho no futebol. Breve histórico do fu- tebol com o objetivo de proporcionar aos alu- nos a possibilidade de observar esse esporte como produto de uma cultura em constante transformação. Nessa etapa, o conceito de desempenho, abordado na etapa anterior por meio de dados estatísticos e de hipóteses formu- ladas a partir de dados matemáticos, é re- tomado sob outras premissas, tais como análise e opinião sobre quem foi o melhor jogador de determinado período. Criação das figurinhas que farão parte do ál- bum. A partir de critérios pensados e escolhidos por eles mesmos, os alunos criam as figu- rinhas que vão compor seu álbum, consi- derando, por exemplo: habilidade técnica, conquistas e desempenho em jogos. Montagem dos álbuns e troca de figurinhas. Além de montar seu álbum usando as figu- rinhas criadas na etapa anterior, os alunos devem trocar outras figurinhas entre si, fazendo uso de critérios variados e dialo- gando/negociando com os colegas. Organização de um sábado esportivo para compartilhamento dos álbuns. Além da possibilidade de mostrar à comu- nidade escolar os álbuns que montaram, os alunos poderão pôr em prática algumas das discussões sobre esporte e saúde desenvolvidas no projeto organizando o sábado esportivo. Sugestões complementares Etapa 1, Atividade 1 – Atividade complementar Após a atividade que inicia essa etapa, a discussão sobre padrões de beleza pode ser ampliada. Se possível, pesquise na internet as duas pinturas indicadas a seguir para propor a atividade aos alunos. Ela trabalha a habilidade de Educação Física (EF89EF08) , ao discutir as transformações históricas dos padrões de beleza, con- siderando a forma como são apresentados nos diferentes meios (científico, midiático, etc.), no caso, duas pinturas. Atividade 1 Os padrões de beleza não são estáticos, eles mudam de socie- dade para sociedade e também no decorrer do tempo, dentro de uma mesma sociedade. Observe as obras de arte indicadas para responder às questões propostas. Detalhe da pintura Júpiter e Io, de Correggio, 1532-1533 (óleo sobre tela, 162 cm × 73,5 cm). A lb um /F ot oa re na /M us eu d e A rt e A m er ic an a W hi tn ey , N ov a Yo rk , E U A A lb um /F ot oa re na /M us eu d e H is tó ria d a A rt e, V ie na , Á us tr ia Interior de Nova York, de Edward Hopper, c. 1921. (óleo sobre tela 61,6 cm x 74,3 cm). a) As duas pinturas são bastante distantes no tempo. As mulheres retratadas apresentam um mesmo padrão de beleza? Resposta pessoal. O esperado é que os alunos percebam que as telas apresentam mulheres que representam padrões de beleza dis- tintos. Na tela de Correggio, a mulher tem formas arredondadas, é mais roliça e apresenta até celulite. Já na tela de Hopper, a mulher é magra, como mostram suas costas e braços definidos, musculosos. b) Os temas das duas pinturas também são diferentes: a tela de Corregio aborda um tema mitológico, o amor de Júpiter por Io, enquanto a tela de Hopper trata de uma cena contemporânea, uma jovem em seu apartamento, que fica em Nova York, nos Estados Unidos. Aponte outras diferenças entre as telas e tam- bém semelhanças entre elas. Resposta pessoal. As telas têm algumas semelhanças: as duas mu- lheres estão predominantemente de costas, ocupam o centro da tela, são brancas. O uso das cores em tons pastel também aproxima as duas telas. Quanto às diferenças, a tela de Correggio apresenta um jogo entre claro e escuro que ilumina Io e deixa camuflada a fi- gura de Júpiter. Na tela de Hopper, a luz invade o ambiente, que tem seus detalhes revelados, como o relógio à direita, na estante, e o quadro pendurado na parede. Etapa 1, Atividade 2 – Atividade complementar A seguir propomos uma atividade que trabalha a habilidade de Educação Física (EF89EF09) , problematizando a prática excessiva de exercícios físicos e o uso de medicamentos para a ampliação do rendimento ou potencialização das transformações corporais. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 75 10/28/18 11:08 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXXVI Atividade 2 Leia a seguir um trecho de uma entrevista que o goleiro Fernan- do Prass concedeu a um jornal. “Esporte de alto nível não é saúde, você leva o corpo ao extremo”, diz Prass [...] Alguns jogadores de futebol reclamam da dor contínua no dia a dia. Como é para você? Esporte de alto nível não é saúde, porque você leva seu corpo ao extremo. A gente mesmo diz na fisioterapia que não é para curar lesão, mas para te testar, para quando você tiver dor você conseguir aguentar jogar mesmo assim. O atleta de alto nível convive com a dor no jogo, no treino. Às vezes em casa, dormindo. Você tem que cuidar para que a dor não te limite. Mas ela sempre vem. Eu não lembro há quanto tempo que eu jogo que eu não sinto algum desconforto. [...] “Esporte de alto nível não é saúde, você leva o corpo ao extremo”, diz Prass. Folha de S.Paulo. Disponível em: . Acesso em: 27 jul. 2018. a) Converse com os colegas e responda: por que, segundo Fernan- do Prass, um jogador de futebol profissional precisa levar seu corpo ao extremo? Porque sua profissão exige isso, que suporte a dor como algo normal para quando tiver de jogar mesmo machucado e com dor. b) Você já teve algum problema decorrente de uma atividade físi- ca? O que fez para prevenir que isso acontecesse novamente? Resposta pessoal. Item a: Comente com os alunos que atualmente há um questiona- mento, mesmo entre profissionais do esporte, dos limites a que se deve levarde como promover ações interdisciplinares, visto que não tem um caráter prescritivo. O Manual expõe uma concep- ção específica sobre o processo de ensino-aprendizagem resultante de escolhas curriculares. Ou seja, o Manual expli- cita não apenas a importância dos conteúdos trabalhados, mas especialmente sua vinculação com o currículo de cada componente. Ao propor o trabalho com projetos integradores, esta obra apresenta uma escolha pela abordagem inter e trans- disciplinar no tratamento de conteúdos, saberes, habilida- des e competências. Isto significa que os projetos vão pres- supor o diálogo entre componentes e o trânsito de saberes entre eles, com o objetivo de chegar a um produto alcançado por meio da investigação. Uma metodologia de trabalho com projetos, portanto, trata de conhecimentos que não são integralmente abordados em nenhum componente. Um conjunto significativo de saberes que podem fazer parte da formação de nossos alunos costuma ficar de fora quando a opção metodológica é de cunho tradicional. Aliás, numa perspectiva tradicional, costuma-se com- preender o aprofundamento como uma complexificação de saberes já abordados: a descrição de uma paisagem geográfica, por exemplo, realizada em várias etapas da formação escolar pelos alunos, é revisitada agregando-lhe outros elementos, que se tornam fundamentais quando tratamos de progressão. No recorte oferecido pelos pro- jetos integradores, não é apenas mais um conhecimento de um componente que esteja sendo trabalhado que seria agregado em estruturas cognitivas já prontas, mas também capacidades de outras ordens, de outros campos de saber. Quando se propõe uma metodologia de projetos integra- dores, não se trata de fazer ajustes em aspectos pontuais do currículo ou mesmo em elementos situados na concep- ção de ensino-aprendizagem: trabalhar com projetos pres- supõe uma mudança de cultura que significa compartilhar estratégias e conteúdos entre componentes; propor uma abordagem de conceitos por meio da problematização e da investigação contínuas; colocar o aluno como protagonista do processo, rompendo o ciclo da transmissão de conteúdos por si só; entender a aprendizagem como uma nova forma de interpretar, refletir sobre e generalizar os aprendizados. Ao propor um projeto em que o aluno investiga as rela- ções entre a Matemática e a Música, por exemplo, os conteú- dos de cada um dos componentes envolvidos no estudo, a Matemática e a Arte, são mobilizados ao mesmo tempo, com o intuito de se adquirir uma aprendizagem cuja existência somente se encontra nos dois componentes em conjunto. O estudo das frações, por si só, não garante a compreen- são da escala musical. Por sua vez, tocar um instrumento não implica, necessariamente, a compreensão das frações. Na articulação entre ambos os componentes e a partir do lugar de centralidade ocupado pelo aluno nas atividades propostas são construídos os saberes e vivências de um projeto com esse tema. Outro aspecto relevante no trabalho com projetos é a possibilidade de se trabalhar com competências socioemo- cionais. Estudar em grupo com um objetivo comum, muitas vezes coletivo, e partir de questões que se relacionam com o universo do aluno e que permitem vivenciar experiências de autoconhecimento e autoconfiança são aspectos fun- damentais para que o aluno se sinta confiante em formular hipóteses sobre problemas dos quais ele não tem domínio pleno. Como se pode notar, a dimensão socioemocional é importante em toda aprendizagem e possui aspectos parti- culares no que se refere ao Ensino Fundamental. Como ve- remos adiante, há, nessa fase de formação dos alunos, uma variação muito grande de estados psíquicos e emocionais, o que torna importante que as propostas desenvolvidas em sala de aula possam reforçar a cooperação, o diálogo e a su- peração de conflitos, que são vivências previstas nessa faixa etária. O trabalho com projetos, ao propor uma metodologia e uma sala de aula diversa da do cotidiano, pode se configurar como um potencializador de vivências positivas pelos alunos. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 9 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORX Este Manual abordará tanto questões relacionadas aos aspectos teóricos que fundamentam a escolha do trabalho por projetos quanto questões relacionadas às competên- cias socioemocionais, às especificidades do trabalho com projetos na sala de aula, ao universo do adolescente e a como ele aprende. Abordará também aspectos comple- mentares ao trabalho com projetos, como a importância do desafio proposto e formas de avaliação adaptadas a essa metodologia. O objetivo é garantir um respaldo nas iniciativas de trabalho, seja de uma equipe formada por vários professores, seja de um professor que desenvolva individualmente experiências de trabalho com projetos integradores, contando com a colaboração esporádica de seus colegas. Mais do que fornecer uma receita de como trabalhar por projetos, este Manual e a coleção oferecem caminhos e indi- cações para fortalecer a escolha do professor e demonstrar que essa abordagem, tão importante na formação integral do aluno, pode ser incorporada à rotina da sala de aula, com a participação dos alunos, e trazer a recompensa de ver finalizados produtos em que os jovens se reconhecem e com os quais estabelecem uma relação significativa. O que esperar do trabalho com projetos Um dos pontos estruturantes do trabalho com proje- tos é a possibilidade de propor o contato dos alunos com a realidade que os cerca mediados pela escola. Muitas vezes nos questionamos, como professores, sobre os limites que existem, dentro do cotidiano da sala de aula, para trabalhar temas que possibilitem aos alunos reconhecer conexões e construir relações com a realidade. Se um dos papéis da escola é possibilitar esse contato do aluno com temas rele- vantes socialmente, a vantagem do trabalho com projetos é promover o contato do aluno com a realidade via mediação da escola. Por meio dos projetos, propomos questões que extrapolam a escola, mas que são desenvolvidas e media- das com adultos educadores e com o respaldo do ambiente escolar. Não se trata de propor ao aluno que se lance ao mundo, mas de proporcionar, dentro do ambiente escolar, esse contato tão enriquecedor com o mundo. O trabalho com projetos nas suas dimensões ética, con- ceitual, procedimental e comunicacional pode ser desenvol- vido e organizado para dar conta de todos os aspectos que o professor precisa garantir na sua atividade educadora. Não se trata, por exemplo, de simplesmente pedir ao aluno que faça uma pesquisa, uma entrevista, uma visita ao museu, e acreditar que isso está dando conta de estabelecer o diálogo entre a escola e o mundo. Trata-se de planejar intencional- mente ações que levem à aquisição de conhecimentos e procedimentos. Preparar o aluno para uma entrevista, por exemplo, pressupõe considerar a ética que envolverá as questões a serem propostas ao entrevistado, a correção e a otimização do que se vai perguntar, o tratamento que será dado às respostas obtidas, a discussão desses resultados alcançados e também a sistematização de informações. Ou seja, quando se trabalha com projetos, procedimentos como a entrevista são recursos para a aquisição de um saber e não um fim em si mesmo. A mediação do professor é funda- mental para orientar o aluno a observar cada tarefa, cada procedimento como parte de um todo maior, de um projeto que se completa por meio de atividades e etapas diversas. O trabalho com procedimentos sempre foi importante e significativo, mas muitas vezes esteve restrito ao chamado currículo oculto. Ensinar a ler um texto literário, informati- vo ou argumentativo; ensinar a retirar dados de um texto e interpretá-los; ensinar a fazer a leitura de imagens, sejam elas pinturas, charges, mapas ou infográficos, e ensinar a levantar hipóteses para testar fenômenosum atleta, sob risco de prejudicar sua saúde e abreviar sua carreira. Estudos têm sido feitos para evitar lesões e a sobrecarga física dos atletas. Item b: Estimule não só a troca de ideias, mas também que os alu- nos tirem dúvidas, contando eventuais problemas que tenham tido e ouvindo opiniões sobre o que pode ser mudado. Se o problema relatado pelo aluno não puder ser encaminhado por você, indique a ele que busque a ajuda de um profissional da saúde. Etapa 1, Atividade 2 Ao discutir questões como: O que faz de um jogador de futebol um craque? Todas as pessoas têm as mesmas aptidões físicas e poderiam se tornar craques do futebol?, os alunos poderão conhecer as potencialidades do próprio corpo e compreender a diversidade humana, inclusive quanto a limites corporais, aspectos fundamen- tais para que os alunos desenvolvam a autoestima, conforme prevê a Competência Geral 9 da BNCC. Além disso, o olhar crítico sobre o fenômeno das celebridades midiáticas prepara-os para a reflexão sobre si mesmos e sua relação com o outro, sobre o respeito às di- ferenças e divergências, especialmente as de opinião, e para trocar ideias sobre temas polêmicos de forma democrática. Considerando que a proposta desse projeto é, a partir da discussão sobre o fu- tebol, tratar de temas que envolvam corpo, saúde, limites físicos, potencialidades, autoestima e critérios como o de desempenho, essa é uma discussão importante. Etapa 1, Atividade 4 – Atividade complementar Esta atividade pode dar continuidade à leitura de gráficos. Ao analisar e identificar, em dois gráficos distintos, tanto o ponto de vista de sua representação como as informações que transmitem, os alunos poderão questionar a qualidade daquilo que é, diariamen- te, divulgado pela mídia de entretenimento, que trata do noticiário esportivo. A ideia é que os alunos passem a efetuar uma leitura mais cuidadosa dos dados e, principalmente, de como esses dados estão organizados, desenvolvendo a habilidade (EF09MA21) . Proposita- damente, parte-se de erros na produção da informação para que os alunos não apenas possam debater o caráter restrito das informa- ções contidas na atividade como também sejam capazes de refletir sobre a má qualidade de certas notícias relacionadas ao futebol. Atividade Peça aos alunos que leiam os gráficos a seguir. Vitórias Empates Derrotas Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2018. Saldo de gols do Brasil contra... Argentina 0 5 10 15 20 25 –4 –2 0 2 4 6 8 Saldo negativo Saldo positivo Bolívia 0 5 10 15 20 25 –4 –2 0 2 4 6 8 Saldo negativo Saldo positivo Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 76 10/28/18 11:08 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR LXXVII Chile 0 5 10 15 20 25 –4 –2 0 2 4 6 8 Saldo negativo Saldo positivo Colômbia 0 5 10 15 20 25 –4 –2 0 2 4 6 8 Saldo negativo Saldo positivo Disponível em: . Acesso em: 30 jul. 2018. Os dois gráficos apresentam uma incompletude que dificulta sua compreensão. a) Que informações estão incompletas ou confusas neles? b) Que alterações você faria em cada gráfico para corrigir esses equívocos? Resposta pessoal. Item a: No primeiro gráfico, a parte em branco de uma das porcen- tagens do gráfico de setores induz a pensar que o time não teve derrota alguma durante o período analisado. No segundo gráfico, não é clara a informação referente ao eixo Y (a escala de 0 a 25 indica exatamente o quê?) e não há legenda para as colunas cinza, de modo que não é possível saber o que elas indicam. Procure promover com os alunos uma discussão acerca dos diferen- tes tipos de gráfico que poderiam ser utilizados e qual seria a melhor escolha para cada caso. Item b: Sugestão de resposta: para o primeiro gráfico, pode-se alte- rar a cor branca para outra de maior contraste com o fundo ou então criar uma borda entre os setores. Para o segundo, seria necessário implementar a legenda “Número de partidas” para o eixo Y e espe- cificar a que se refere a coluna cinza. Etapa 2, Atividade 2 Terminada a discussão da Atividade 2, proponha um mo- mento de descontração com a audição dos hinos dos clubes de futebol para os quais os alunos torcem e também de alguns times pouco conhecidos ou estrangeiros. Outra ideia é fazer um levantamento dos escudos dos times de todo o mundo. Podem ocorrer muitas surpresas, tais como a existência de times “ir- mãos” (com distintivos semelhantes) em lugares totalmente imprevisíveis. Etapa 2 – Atividade complementar Ao final dessa etapa, depois que os alunos refletiram sobre o desempenho no futebol, sobre as relações entre esporte de alto rendimento e saúde e aprenderam um pouco sobre a história do futebol, seria interessante que organizassem um debate sobre o futebol atual. Ajude-os a organizar mesas-redondas para debater questões relacionadas ao esporte. Essas mesas costumam propor temas de modo que cada participante possa expor sua opinião sobre o assunto contrapondo pontos de vista. A seguir, orientações de como conduzir a atividade com os alunos. Atividade 1 A mesa-redonda de vocês terá como temas a discussão do que define um craque e se o futebol de hoje pode ser chamado de fute- bol arte (ou seja, um futebol bonito, que encanta com jogadas de efeito) ou se ele se contenta com resultados. Organizem as mesas de acordo com os passos indicados a seguir. Como organizar uma mesa-redonda Siga os passos abaixo. 1. Formem grupos com quatro ou cinco participantes. 2. Elejam um mediador para a mesa. 3. O mediador apresenta uma questão por vez para ser deba- tida. Ele também expõe suas opiniões, além de organizar a ordem das falas e cuidar para que todos tenham um tempo para falar. 4. Cada participante deve expor sua opinião sobre o tema. 5. Use o Diário de bordo para preparar sua fala e também para registrar ideias que tenha durante a fala de outro participante. Sugestão de roteiro para a discussão nas mesas-redondas • Hoje em dia os clubes de futebol investem dinheiro para ganhar campeonatos ou para dar espetáculo? • Os clubes se tornaram dependentes dos patrocinadores para conseguir montar seus times? • Os altos salários e as quantias gastas pelos clubes garan- tem um bom desempenho de seus jogadores? • A torcida consegue empurrar um time para a vitória? • Times com craques atraem mais torcida para o estádio? • Quem são os craques do futebol de hoje? • Para você, o que um jogador precisa para ser craque? • Você acha que as mídias sociais atrapalham ou ajudam os jogadores? Respostas pessoais. Uma das marcas da mídia esportiva, espe- cialmente a do futebol, é organizar mesas-redondas que debatem os mais variados temas, desde os resultados alcançados pelos ti- mes até o comportamento dos jogadores. Ao se colocarem como protagonistas nessa atividade, os alunos podem refletir também sobre a validade das informações e das opiniões veiculadas por esses programas, desenvolvendo seu senso crítico. Combine com os alunos o tempo destinado para as mesas-re- dondas. Se possível, destine uma aula inteira para o debate, que mediador pessoa res- ponsável por organizar um debate, distribuindo a fala entre os partici- pantes. Integradores_Vol02_MP_Geral_LXaXCVI.indd 77 10/28/18 11:08 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORLXXVIII costuma interessar os alunos, não só pelo tema, mas também pelo formato. Alguns pontos colocados para discussão podem ser retomados após a realização da mesa-redonda: • Hoje em dia os clubes de futebol investem dinheiro para ga- nhar campeonatos ou para dar espetáculo? • Os clubes se tornaram dependentes dos patrocinadores para conseguir montar seus times? • Os altos salários e as quantias gastas pelos clubessão alguns dos procedimentos estruturantes da relação que cada compo- nente estabelece com o conhecimento. No entanto, muitas vezes considerava-se que tais procedimentos deveriam ser aprendidos autonomamente pelos alunos. Ou seja, se o professor estivesse tratando de determinado tema, uma questão da Geografia física ou política, por exemplo, e pedis- se aos alunos que recorressem a determinado mapa, acre- ditava-se que, naturalmente, os alunos seriam capazes de realizar essa leitura. Se não conseguissem, seria preciso repetir esse tipo de atividade até que os alunos superassem essa dificuldade. Contemporaneamente, com a crescente importância do trabalho com as tecnologias de comunica- ção e com a valorização de atividades ligadas à oralidade, acrescentou-se a essa visão a necessidade de, por exemplo, o aluno ser capaz de realizar exposições orais com base em banners ou apresentações digitais utilizando slides como apoio e de criar infográficos e realizar um fórum de debate. É preciso certo cuidado quando se propõe a execução de algum produto que não tenha relação direta com o que se está trabalhando em aula ou que exija um conhecimento que não temos certeza de que o aluno detenha. Por vezes, no dia a dia da sala de aula, isso acaba acontecendo devi- do ao tempo escasso para realizar determinada atividade. Assim, por exemplo, embora um estudo se concentre no levantamento de critérios para discutir um determinado problema relacionado ao futebol, o produto final propos- to pelo professor, um vídeo, fica a cabo exclusivamente dos alunos, sem mediação ou tempo de aula destinado a ele. Nessas condições, originam-se produtos de natureza muito diferente: alunos que dominem a linguagem de pro- dução de vídeos poderão desenvolver ótimos trabalhos (o Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 10 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XI dos. Nas várias etapas da realização de um projeto, é im- portante que ocorram sínteses parciais, tanto para avaliar o que se aprendeu até ali quanto para redimensionar o tra- balho que se terá pela frente. O compartilhamento desses resultados deve ser considerado não como uma atividade em si, mas como parte importante do projeto. Várias são as estratégias que podem ser usadas com esse fim – desde exposições orais até debates e trocas de ideias, passando pelo registro e divulgação das informações relevantes obti- das na realização de uma pesquisa em grupo. O importante é garantir uma progressão e que não haja uma espécie de vácuo entre a proposta inicial e a finalização do projeto, tratando o meio do caminho, o percurso, como pouco sig- nificativo. Trabalhar com os alunos a importância dessa construção passo a passo permite que eles se apropriem dos objetivos e atuem no sentido de garanti-los e de tornar a experiência a mais significativa possível. Cabe ainda, quando se trabalha por projetos, considerar seu caráter coletivo. Sabemos que ninguém constrói um projeto sozinho, seja ele escolar ou não. Os alunos precisam saber disso e vivenciar a necessidade da troca e da intera- ção próprias desse tipo de metodologia. Atividades em gru- po, contribuições individuais em uma discussão coletiva e interações socioemocionais de toda ordem estão previstas na aprendizagem por projetos. Nesse sentido, o professor precisa saber que são esperados percalços. Quando inicia- mos a realização de um projeto, devemos considerar que podem ocorrer momentos de negociação e até mesmo de tensão entre os alunos. Esperar que os alunos concordem em todos os pontos de imediato e que não haja dissenções no grupo é não levar em conta o momento psíquico-emo- cional que os alunos do Ensino Fundamental em seus anos finais estão vivendo. Em cada um desses momentos de conflito, é preciso agir de acordo com as possibilidades de negociação dadas por eles. Ou seja, não há fórmulas prontas para a gestão dos conflitos. A própria vivência dos alunos em circunstâncias desse tipo na sala de aula ajuda-os a construir um repertório de mediação socioemocional para utilizar em novas situações. Por fim, é preciso lembrar que o trabalho com compe- tências e habilidades não se dá no vazio. Ninguém possui habilidades e competências per si; todos nos tornamos com- petentes em algo para algo. Ou seja, conteúdos e conceitos continuam a ocupar papel importante na aprendizagem por projetos. A diferença se dá no modo como eles são mobiliza- dos e com que finalidade. César Coll chama a atenção para o lugar ocupado pelos conteúdos em diferentes propostas metodológicas, da mais transmissiva à mais construtivista, no texto a seguir. que não está diretamente relacionado com o que se vinha estudando em sala ou com o que foi proposto e ensinado pelo professor); outros alunos, que não dominem esse co- nhecimento e que tenham mais dificuldades, podem acabar não vendo seu esforço valorizado e, mais sério do que isso, podem finalizar a atividade sem ter aprendido o procedi- mento necessário para se chegar ao produto estipulado. Ou seja, propor o uso de diferentes linguagens e a execução de produtos criativos para finalizar um estudo pressupõe preparar os alunos para serem competentes para realizá-los e fornecer o apoio necessário para que o consigam. Não basta dizer: Quero que vocês pensem num modo criativo para criar uma revista sobre o tema X. É preciso esclarecer aos alunos a relevância do produto escolhido para aquela situação e ensinar a eles não apenas como realizá-lo, mas também como se apropriar desse conhecimento para utili- zá-lo em outras ocasiões. Construir infográficos, fazer uma pipa, organizar um sarau e promover um fórum de discussão são procedimentos vinculados a experiências sociais que os alunos podem mobilizar em momentos distintos de sua vida, dentro e fora dos muros da escola. Nesta coleção, por meio de seções específicas, o aspec- to procedimental é contemplado, sempre que necessário, para apoiar o trabalho do professor e do aluno. Tanto a re- lação de materiais necessários para a produção de algo quanto os passos que organizam a execução do produto fazem parte das orientações de trabalho. Na medida em que o produto solicitado ao aluno pressupõe o trabalho com um procedimento, ele estará amparado nessa construção. Quando se propõe aos alunos, por exemplo, que montem uma Biblioteca volante para facilitar o acesso da comuni- dade a obras significativas selecionadas por eles, é preciso indicar-lhes como fazê-lo. Algo simples para nós, adultos, pode gerar dúvidas e problemas na condução do processo. A montagem de uma biblioteca volante pressupõe comprar livros ou obtê-los por doações; organizá-los num espaço que seja móvel; encontrar algum mecanismo para controlar empréstimos e devoluções; considerar um suporte com informações sobre os livros para que a escolha das pes- soas seja apoiada por critérios, etc. Apoiar os alunos com informações e sequenciação de tarefas não é tolher seu protagonismo ou sua criatividade, mas respaldá-los para que possam efetivamente agir, ser capazes de realizar o que é proposto. Pedir-lhes que façam algo e deixá-los livres para isso pode, ao contrário, desestimulá-los na realização de tarefas mais complexas, especialmente quando os re- sultados alcançados não são os esperados por eles e pelos professores, os mediadores do processo. Outro ponto relevante quando se aborda a aprendizagem por projetos está relacionado à comunicação dos resulta- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 11 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXII mente, mas, sim, aquela que garante algumas condições ideais para que os alunos desenvolvam as suas poten- cialidades e capacidades cognitivas, afetivas, sociais e de aprendizagem. Novamente, por motivos históricos e muito especialmente pela sua ligação com determi- nadas teorias do desenvolvimento e da aprendizagem – entre outras, a teoria genética elaborada por Piaget e pela escola de Genebra –, esta concepçãoalternativa da educação escolar esteve associada a uma interpretação cognitivista e construtivista do ensino e da aprendiza- gem que outorga uma importância decisiva à atividade do aluno. As propostas curriculares inspiradas nesta concepção tendem, logicamente, a destacar a impor- tância da criatividade e da descoberta na aprendiza- gem escolar, a atribuir à atividade do aluno um papel decisivo na aprendizagem, a minimizar e a relativizar a importância dos conteúdos e a conceber o professor mais como um guia, um facilitador ou um orientador da aprendizagem do que como um transmissor do saber constituído. Há um fato que vale a pena destacar neste confronto de concepções alternativas da educação escolar, é que ambas são propostas com um caráter monolítico. No que se refere estritamente aos conteúdos, a importân- cia que lhe é atribuída pela concepção “tradicional” aparece intimamente vinculada a uma interpretação transmissiva e cumulativa do ensino e da aprendiza- gem, enquanto o seu questionamento ou a relativização na concepção “progressista” está associada a uma inter- pretação cognitiva e construtivista da aprendizagem. Dessa forma, a rejeição de uma concepção transmissiva e cumulativa do ensino e da aprendizagem – rejeição justificada pelo que hoje sabemos sobre o funciona- mento psicológico – trouxe consigo uma rejeição ou, pelo menos, um questionamento e uma relativização da importância dos conteúdos. [...] COLL, César; POZO, Juan Ignacio; SARABIA, Bernabé; VALLS, Enric. Os conteúdos na reforma: ensino e aprendizagem de conceitos, procedimentos e atitudes. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. p. 10-11. Os conteúdos na educação escolar [...] O que importa, então, não é tanto a reivindicação em si, da importância dos conteúdos nas propostas cur- riculares, mas sim compreender as razões que justifi- cam essa reivindicação, o que se entende por conteúdos nessas propostas e qual o papel que desempenham na complexa trama de decisões relativas ao para que, o que, quando e como ensinar e avaliar. Vamos por partes. A que se deve a tendência men- cionada de minimizar a importância dos conteúdos? É justificada a crítica de que os conteúdos tiveram e continuam a ter um peso excessivo na educação es- colar? No que se refere à primeira pergunta, acredito que esta tendência é uma reação às limitações e erros do que poderíamos chamar de uma concepção “tradi- cional” da educação escolar. Resumindo ao máximo e talvez simplificando demais, esta concepção entende basicamente a educação escolar como a realização de uma série de aprendizagens de conteúdos específicos, sistematicamente planejados, graças aos quais os alunos e alunas incorporam e interiorizam os conhecimentos e a esses a sociedade confere maior importância num dado momento. A partir dessa forma de entender a educação escolar, uma pessoa educada é a que apreen- deu, no sentido estrito do termo, o que é considerado, em nível social, o saber constituído, o saber verdadeiro. Tal visão da educação, por outro lado, esteve asso- ciada historicamente a uma interpretação do ensino e da aprendizagem em termos de pura transmissão e recepção, ou seja, com uma interpretação “transmis- siva” e “cumulativa”. Como é lógico a partir de tais suposições, as propostas curriculares elaboradas no marco dessa concepção enfatizam a transmissão de conhecimentos, fazem com que os conteúdos desem- penhem um papel de coluna vertebral no ensino e na aprendizagem, atribuem aos alunos e alunas um papel essencialmente receptivo e concebem o professor ou a professora como os responsáveis pela transmissão do saber constituído. A reação crítica diante dessa concepção mais tradi- cional da educação escolar – que continua tendo, não obstante, uma vigência considerável na prática – cris- talizou-se, principalmente a partir de certas interpre- tações pedagógicas dos estudos mais recentes sobre a psicologia infantil e a psicologia do desenvolvimento, em uma concepção alternativa, apresentada em geral como “progressista” ou “centrada no aluno” que é a negação, quase ponto por ponto, do que se afirmou anteriormente. Assim, nesta concepção alternativa, entende-se que a educação escolar ideal não é a que transmite os saberes constituídos e legitimados social- O texto não se refere propriamente à importância dos conteúdos nas propostas curriculares, mas ao papel que desempenham quando nos perguntamos, especialmente, o que e como ensinar e avaliar. Valorizar excessivamente os conteúdos faz parte de uma abordagem denominada tradicional e que pressupõe a interiorização de conteúdos específicos, sistematicamente planejados e supostamen- te interiorizados pelos alunos. Nessa perspectiva trans- missiva, os conteúdos ocupavam toda a cena escolar e se considerava que isso garantiria o manejo pelos alunos dos Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 12 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XIII lidades de leitura de problemas que envolvem dimensões éticas e afetivas, assim como problemas socioeconômi- cos e ambientais. Uma abordagem que ignora os anseios existenciais, o interesse livre pelo conhecimento e por sua construção contínua por parte dos alunos forja, em princí- pio, uma escola excludente. Os currículos que subsidiam as práticas nas escolas ex- plicam-se, muitas vezes, por meio de modelos universais de educação, de Estado e de sociedade, deixando de lado fatores que dizem respeito à realidade em transformação em que estão inseridos os alunos, os docentes e a pró- pria escola. Essa construção, que é histórica, acabou por reforçar práticas de ensino reprodutoras de conteúdos e mecanismos de aprendizagem desarticulados do mundo e de sua dinâmica. Por outro lado, o aluno idealizado por muitos professores é aquele dotado de um conhecimento acadêmico e livresco, capaz de reproduzir fotograficamente o que lhe foi transmitido, mas sem a capacidade de tomar os conhecimentos como base para um entendimento da realidade que o cerca. Pouca importância se dá para um olhar que ultrapasse o saber científico em seu aspecto disciplinar. A atenção do ensino recai, em geral, sobre a transmissão de modelos, leis e teorias que devem ser entendidas e aplicadas à realização de atividades a eles associadas. O contexto sociocultural que influencia e sofre influência das produções científicas e tecnológicas não é abordado, fazendo com que os alunos criem a ilusão de que há somente uma forma de aprender/ saber/estudar determinados conhecimentos. Pensar os saberes em suas mais diversas relações, com a tecnolo- gia, com a arte, com a ética, com o cotidiano, resumiria um movimento de transformação metodológica que, longe de esvaziar os conhecimentos culturalmente relevantes que fazem parte da formação considerada, por muitos docen- tes, básica para os alunos, possibilitaria a recolocação da relação ensino-conhecimento-aprendizagem. A proposta de uma reflexão sobre as finalidades da edu- cação humanista e científica aponta não só para a neces- sidade de uma redefinição do papel da escola na formação dos alunos, mas também reforça a ideia de que é importante agregar novas possibilidades pedagógicas ao cotidiano es- colar. Controvérsias ou tensões sintetizam alguns dos im- passes vivenciados pelos professores no dia a dia de suas escolhas metodológicas: quantidade de matéria versus qualidade da formação; alfabetização científica e técnica versus feitos científicos extraordinários; uma alfabetização “disciplinar” versus a proposição de problemas; construção de conhecimentos centrados no individual ou no coletivo; as ciências em uma abordagem “clássica” versus as ciên- conceitos envolvidos. Numa abordagem dita progressista, por sua vez, o processo de aprendizagem estaria quase todo voltado para a atividade do aluno em tarefas de na- tureza criativa. Os conteúdos estariam, nessa proposta, praticamente esvaziados de seu sentidoanterior. Nesse contexto, a aprendizagem por projetos, combina- da a outras concepções educacionais, faz uma espécie de síntese de aspectos positivos presentes em várias propos- tas: a valorização de conteúdos essenciais; a importância da participação do aluno nas decisões sobre o que e como aprender e como divulgar essa aprendizagem; a possibili- dade da autoavaliação como elemento integrado ao próprio domínio dos conteúdos; a alternância entre momentos in- dividuais, em duplas e em grupos de trabalho; a abertura para trocas de ideias e de experiências com a comunidade em que a escola está inserida. Toda construção reflexiva sobre a formação escolar de crianças e adolescentes deve levar em consideração que a família e a comunidade do estudante são fundamentais nesse processo. A escola está situada dentro de uma gama de fatores sociais, políticos, econômicos, éticos, religiosos, culturais, e muitos outros, o que nos leva a considerá-la um espaço atravessado por elementos pouco contemplados nos projetos curriculares. Ainda marcada por uma pers- pectiva tradicional, centrada na aprendizagem de conteú- dos conceituais ordenados em esquemas pouco abertos a contribuições efetivas por parte dos alunos, a realidade de sala de aula se mostra, na maioria das vezes, distante de problemas que fazem parte do universo de interesses dos alunos ou que possam redimensionar sua leitura de mundo. O conhecimento na escola, em especial nos Anos Finais do Ensino Fundamental, possui uma característica dupla e conflituosa: de um lado, apresenta-se de modo bastante especializado, dividido em áreas ou disciplinas identifica- das a partir não apenas de um conjunto de saberes, mas também de procedimentos; de outro lado, esses mesmos conhecimentos e procedimentos são trabalhados junto aos alunos como mecanismos estanques, sedimentados por uma cultura científica que deixa de lado um caráter experi- mental, empírico e especulativo. Dizendo de outro modo, o conhecimento como “coisa pronta” torna-se, muitas vezes, um conjunto de regras e saberes cuja complexidade e cará- ter “acabado” afastam e desinteressam o aprendiz. Em linhas gerais, propostas como essa tendem a esta- belecer entre professores, saberes e alunos uma relação pouco produtiva no que diz respeito a uma formação que se quer ativa e crítica. A escola atual tem como desafio proporcionar uma educação que dialogue com os múltiplos aspectos da vida humana, traduzidos nas várias possibi- Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 13 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXIV Considerando que a ruptura contemporânea entre um saber cada vez mais acumulativo e um ser interior cada vez mais empobrecido leva a uma ascensão de um novo obscurantismo, cujas consequências no plano individual e social são incalculáveis; Considerando que o crescimento dos saberes, sem precedente na história, aumenta a desigualdade entre aqueles que os possuem e aqueles que deles são despro- vidos, gerando assim desigualdades crescentes no seio dos povos e entre as nações de nosso planeta; Considerando ao mesmo tempo que todos os desafios enunciados têm sua contrapartida de esperança e que o crescimento extraordinário dos saberes pode levar, a longo prazo, a uma mutação comparável à passagem dos hominídeos à espécie humana; Considerando o que precede, os participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinarida- de (Convento de Arrábida, Portugal, 2-7 de novembro de 1994) adotaram a presente Carta, que contém um conjunto de princípios fundamentais da comunidade dos espíritos transdisciplinares, constituindo um con- trato moral que todo signatário desta Carta faz consigo mesmo, sem qualquer pressão jurídica e institucional. Artigo 1: Qualquer tentativa de reduzir o ser humano a uma definição e de dissolvê-lo em estruturas formais, quaisquer que sejam, é incompatível com a visão trans- disciplinar. Artigo 2: O reconhecimento da existência de diferentes níveis de Realidade, regidos por lógicas diferentes, é ine- rente à atitude transdisciplinar. Toda tentativa de reduzir a Realidade a um único nível, regido por uma única lógica, não se situa no campo da transdisciplinaridade. Artigo 3: A transdisciplinaridade é complementar à abordagem disciplinar; ela faz emergir do confronto das disciplinas novos dados que as articulam entre si; e ela nos oferece uma nova visão da Natureza e da Realidade. A transdisciplinaridade não busca o domínio de várias disciplinas, mas a abertura de todas elas àquilo que as atravessa e as ultrapassa. Artigo 4: O ponto de sustentação da transdiscipli- naridade reside na unificação semântica e operativa das acepções através e além das disciplinas. Ela pres- supõe uma racionalidade aberta, mediante de um novo olhar sobre a relatividade das noções de “definição” e de “objetividade”. O formalismo excessivo, a rigidez e o exagero da objetividade, incluindo a exclusão do sujeito, levam ao empobrecimento. Artigo 5: A visão transdisciplinar é resolutamente aberta na medida que ultrapassa o campo das ciências exatas devido ao seu diálogo e sua reconciliação, não apenas com as ciências humanas, mas também com a arte, a literatura, a poesia e a experiência interior. cias de todos os dias; disciplinas “puras” versus disciplinas contextualizadas; abordagem teórica versus experimental; o estudo da língua como norma ou como uso; matemática aplicada ou não; disciplinaridade, interdisciplinaridade ou transdisciplinaridade. Ainda que esquemático e até mesmo ilusoriamente orga- nizado a partir de uma perspectiva binária, esse resumo das tensões retrata a complexidade das situações que carac- terizam qualquer currículo escolar, tanto em sua dimensão mais ampla (que envolve o conjunto de componentes em um dado segmento de ensino) quanto no que diz respeito às decisões de cada um dos professores. A escola tem como objetivo central garantir a todas as crianças e jovens brasi- leiros, mesmo em locais com condições socioeconômicas desfavoráveis, o direito de usufruir do conjunto de conhe- cimentos reconhecidos como necessários para o exercício da cidadania e para sua formação pessoal. Todo projeto cur- ricular voltado para o Ensino Fundamental deve centrar-se na formação básica do cidadão, a partir da compreensão do ambiente natural e social, do sistema político, da tecnologia, das artes e dos valores em que se fundamenta a vida em sociedade. Para agirmos em consonância com a realidade em que a própria escola se insere, podemos afirmar que o currículo deve ter em vários momentos a integração de componentes a partir de uma abordagem, pelo menos, interdisciplinar. É o que afirma o documento a seguir sobre a educação inter- disciplinar criado por três grandes pensadores da educação no final do século XX, período em que ocorreu uma intensa reflexão sobre a construção do currículo nas escolas. Carta da Transdisciplinaridade (I Congresso Mundial de Transdisciplinaridade – Convento da Arrábida, 6 de novembro de 1994. Fonte: O Manifesto da Transdisciplinaridade. Basarab Nico- lescu – São Paulo: TRIOM, 1999.) Preâmbulo Considerando que a proliferação atual das disciplinas acadêmicas e não acadêmicas leva a um crescimento exponencial do saber, o que torna impossível qualquer visão global do ser humano; Considerando que somente uma inteligência capaz de abarcar a dimensão planetária dos conflitos atuais poderá enfrentar a complexidade de nosso mundo e o desafio contemporâneo da autodestruição material e espiritual de nossa espécie; Considerando que a vida está fortemente ameaçada por uma tecnociência triunfante, que obedece apenas à lógica assustadora da eficácia pela eficácia; Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 14 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSOR XV Tomemos alguns dos itens para explicá-los no âmbito do que seria a transdisciplinaridade no contexto escolar. O primeiro ponto dizrespeito à concepção que entende a transdisciplinaridade não como uma mera alternativa pe- dagógica, mas sim como uma possibilidade de auxiliar os alunos a observar os conhecimentos de maneira não seto- rizada. Essa conduta não se faz apenas com a participação dos alunos em uma experiência pedagógica interdisciplinar situada em um dos anos de sua formação, pois os alunos devem desenvolver meios para construir conhecimentos que sejam mais amplos que o que lhes proporcionam as disciplinas. O segundo aspecto que merece ser destacado se refere à relação entre a realidade em que as escolas se inserem e a conduta transdisciplinar que permite aos alunos compreen- der essa mesma realidade. Ou seja, há problemas sociais, políticos, culturais, científicos, econômicos, existenciais, que somente podem ser compreendidos a partir da propo- sição de uma abordagem transdisciplinar. Outro ponto que deve ser notado num projeto curricular é o que podemos sintetizar como as alterações positivas das práticas do dia a dia nas salas de aula. Quando propiciamos aos alunos o desenvolvimento de atividades que se articulam num pro- jeto transdisciplinar, renovamos o repertório de conheci- mentos e um conjunto de práticas e metodologias que não costumam ser comuns em situações puramente discipli- nares. Essa atitude fomenta novos interesses por parte dos alunos na medida em que ultrapassa as barreiras das abordagens tradicionais que muitos conteúdos apresentam. Artigo 6: Com relação à interdisciplinaridade e à multidisciplinaridade, a transdisciplinaridade é mul- tirreferencial e multidimensional. Embora levando em conta os conceitos de tempo e de História, a transdis- ciplinaridade não exclui a existência de um horizonte trans-histórico. Artigo 7: A transdisciplinaridade não constitui nem uma nova religião, nem uma nova filosofia, nem uma nova metafísica, nem uma ciência das ciências. Artigo 8: A dignidade do ser humano é também de ordem cósmica e planetária. O aparecimento do ser humano sobre a Terra é uma das etapas da história do Universo. O reconhecimento da Terra como pátria é um dos imperativos da transdisciplinaridade. Todo ser humano tem direito a uma nacionalidade, mas, a título de habitante da Terra, ele é ao mesmo tempo um ser transnacional. O reconhecimento pelo direito internacional da dupla cidadania – referente a uma na- ção e a Terra – constitui um dos objetivos da pesquisa transdisciplinar; Artigo 9: A transdisciplinaridade conduz a uma ati- tude aberta em relação aos mitos e religiões e àqueles que os respeitam num espírito transdisciplinar; Artigo 10: Não existe um lugar cultural privilegiado de onde se possa julgar as outras culturas. A abordagem transdisciplinar é ela própria transcultural; Artigo 11: Uma educação autêntica não pode privi- legiar a abstração no conhecimento. Ela deve ensinar a contextualizar, concretizar e globalizar. A educação transdisciplinar reavalia o papel da intuição, do imagi- nário, da sensibilidade e do corpo na transmissão dos conhecimentos; Artigo 12: A elaboração de uma economia transdis- ciplinar está baseada no postulado de que a economia deve estar a serviço do ser humano e não o inverso; Artigo 13: A ética transdisciplinar recusa toda atitude que se negue ao diálogo e à discussão, qualquer que seja sua origem – de ordem ideológica, cientificista, religio- sa, econômica, política, filosófica. O saber comparti- lhado deveria levar a uma compreensão compartilhada, baseada no respeito absoluto das alteridades unidas pela vida comum numa única e mesma Terra; Artigo 14: Rigor, Abertura e Tolerância são as carac- terísticas fundamentais da atitude e da visão trans- disciplinares. O rigor na argumentação que leva em conta todos os dados é a melhor barreira em relação aos possíveis desvios. A abertura comporta a aceitação do desconhecido, do inesperado e do imprevisível. A tolerância é o reconhecimento do direito às ideias e verdades contrárias às nossas. Artigo final: A presente Carta da Transdisciplina- ridade foi adotada pelos participantes do Primeiro Congresso Mundial de Transdisciplinaridade e não reivindica nenhuma outra autoridade além de sua obra e sua atividade. Segundo os procedimentos que serão definidos de acordo com as mentes transdisciplinares de todos os países, esta Carta está aberta à assinatura de qualquer ser humano interessado em promover nacional, inter- nacional e transnacionalmente as medidas progressi- vas para a aplicação destes artigos na vida cotidiana. Convento da Arrábida, 6 de novembro de 1994. Comitê de Redação: Basarab Nicolescu, Edgar Morin e Lima de Freitas NICOLESCU, Basarab; MORIN, Edgar; FREITAS, Lima de. Carta da Transdisciplinaridade. In: NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom, 1999. Disponível em: . Acesso em: 27 set. 2018. Integradores_Vol02_MP_Geral_IaLIX.indd 15 10/28/18 11:05 AM ORIENTAÇÕES GERAIS - MANUAL DO PROFESSORXVI Assim, problemas que são abordados a partir de um viés predeterminado e com pouca possibilidade de intervenção dos próprios alunos se tornam, pela transdisciplinaridade, objetos de renovadas possibilidades de construção. Como o texto acima afirma, e ao contrário do que se cos- tuma pensar, uma abordagem transdisciplinar não se pro- põe a eliminar os conteúdos das disciplinas. Pelo contrário, o saber do professor, determinado pela sua formação e pela sua experiência docente, ganha um novo sentido para os próprios alunos e para os docentes em geral, que podem, a partir desse enfoque, trabalhar muitas vezes com aspectos mais avançados desses conhecimentos. Por fim, outro aspecto importante a ser considerado numa metodologia de trabalho transdisciplinar diz respei- to aos conteúdos socioemocionais. Há nessa metodologia um realinhamento dos centros de interesse de construção de saberes que não ficam necessariamente presos ou re- duzidos às propostas que cada disciplina propõe. Os alunos devem se envolver com os momentos de definição da pro- blemática, compreensão dos conteúdos envolvidos para o entendimento dessa mesma problemática e a proposição de hipóteses de sua interpretação, tornando-se protago- nistas na construção dos conhecimentos. Além disso, as vivências, experiências e subjetividades trabalhadas por meio da transdisciplinaridade buscam dar ao aluno um lugar de sujeito e de centralidade no processo e na valoração do estudo efetivado. Aspectos como interesse, curiosidade, sensibilidade tornam-se centrais nas fases de execução das atividades pensadas para contemplar um viés socioe- mocional do processo de aprendizagem. Como o trabalho com projetos propicia a aprendizagem inter e transdisciplinar Em um de seus livros, Hernández e Ventura investigam a fundamentação de mudanças pedagógicas baseadas na criação de projetos nas escolas. Leia o trecho a seguir. O primeiro ponto que chama a atenção na proposição acima é a de que a incorporação de atividades curriculares organizadas por meio da estratégia de projetos de traba- lho não deve surgir de uma necessidade de inovação, de transformação das práticas corriqueiras de sala de aula como uma ação isolada. Isso significa que, ao adotar um caminho para o desenvolvimento do processo de ensi- no-aprendizagem, é preciso que ele esteja pautado pela própria necessidade do professor de modificar o modo como trabalha. Portanto, a adoção de uma metodologia de projetos deve contar com a disponibilidade de transformar, ao menos em parte, o funcionamento da sala de aula por parte do professor. Ou seja, o professor deve sentir uma real necessidade de: abordar os conteúdos de uma forma compartilhada com outros componentes que não os que ele leciona; propiciar aos alunos formas de conhecimento e construção de saberes que não se limitam a um único componente;