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O AMBIENTE E AS DOENÇAS DO TRABALHO UNIDADE II ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL Autoria Elisa Maria Amate Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração SUMÁRIO UNIDADE II ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL ................................................................................................................5 CAPÍTULO 1 SAÚDE DO TRABALHADOR: O COLETIVO E O INDIVIDUAL .......................................................................... 5 CAPÍTULO 2 ANAMNESE OCUPACIONAL ....................................................................................................................................... 15 CAPÍTULO 3 AGRAVOS À SAÚDE RELACIONADOS AO TRABALHO E AO AMBIENTE............................................... 18 REFERÊNCIAS ........................................................................................................................................28 5 UNIDADE II ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL CAPÍTULO 1 SAÚDE DO TRABALHADOR: O COLETIVO E O INDIVIDUAL A epidemiologia, como área moderna do conhecimento científico, foi fundamental para a elaboração de questões que permitiram a incorporação da relação ambiente-saúde, em termos atuais, no campo da saúde coletiva. Com a introdução das ciências sociais no campo da epidemiologia, o estudo com foco no indivíduo passou a ser na coletividade, possibilitando o debate com as categorias “população” ou “grupos populacionais” tradicionalmente adotadas pela epidemiologia (Tambelinni; Câmara, 1998). Rigotto (2003) aborda que todo o perfil de adoecimento e morte de uma população poderia ser interpretado no contexto da relação sociedade-natureza, em que doença é sinal de alteração do equilíbrio homem-ambiente, produzida por transformações produtivas, territoriais, demográficas e culturais. E, segundo Tambelinni e Câmara (1998), a intromissão do homem nas coisas da natureza, ou por ela conservadas – ecossistemas –, cria condições de aparecimento e difusão de doenças causadas por agentes etiológicos biológicos, o que determinaria os fatores condicionantes de agravos e, consequentemente, de epidemias. Cada indivíduo tem uma resposta à exposição ambiental, que varia de acordo com a sua suscetibilidade condicionada por fatores relacionados à idade, ao estado nutricional, à predisposição genética, ao estado geral de saúde, ao comportamento e ao estilo de vida, entre outros. Há o fator de que algumas doenças podem ter longo tempo de latência para se manifestar, a exemplo da silicose, que tem um percurso insidioso e prolongado. O conhecimento das condições patológicas mais comumente observadas numa população é de grande relevância e interesse para gestores públicos e profissionais que atuam na promoção, na prevenção e na assistência em saúde. Os levantamentos epidemiológicos e o processamento de dados advindos de arquivos e sistemas de 6 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL informação devem servir de base para os corretos planejamento e elaboração de medidas de saúde contextualizadas às reais necessidades da população assistida. Nesse contexto, a epidemiologia ganha destaque como ferramenta útil e indispensável. A definição de exposição humana e de populações expostas é crucial para identificação das situações de risco (Radicchi; Lemos, 2009) e, principalmente, para orientar as ações de saúde relativas à gestão SST, definir o perfil de saúde e adoecimento dos trabalhadores, elaborar indicadores e estatísticas de saúde e acidentes de trabalho, entre outras possibilidades. Para tanto, o conhecimento de epidemiologia é crucial para o devido acompanhamento dos trabalhadores, delineando-se estudos com metodologias adequadas a resultados palpáveis. Uma forte aliada da epidemiologia, como ferramenta de análise da associação do fator de risco ao agravo do trabalho, é a estatística. Ela é importante ferramenta para constatar a associação de variáveis de causa e efeito e, por conseguinte, a relação causal entre uma variável com as demais e/ou vice-versa. Os estudos epidemiológicos devem valorizar os sinais e sintomas precoces dos agravos, uma vez que as ações de saúde nessa fase são mais efetivas e podem evitar o desenvolvimento completo do agravo. Há muitas incertezas em estimar tanto as exposições como os efeitos e suas relações (Rigotto, 2003). Por outro lado, a reação adversa a um contaminante pode assumir várias formas que afloram, desde sinais mais simples, como um desconforto físico ou psicológico, passando por alterações fisiológicas de difícil interpretação, doenças clínicas de intensidade variável e até a morte (Radicchi; Lemos, 2009). Segundo Rigotto (2003), algumas doenças podem ter longo tempo de “incubação” para se manifestar. Não obstante os avanços na produção de conhecimento nas últimas décadas, principalmente no campo da epidemiologia, ainda se tem muita incerteza no bojo das relações saúde-doença-ambiente, especialmente quando se é incisivo no estabelecimento das correlações ou na medição de impactos das condições do ambiente sobre a saúde. Contudo, a sociedade em si – muito marcada pelo positivismo – sempre demandará evidências, valores, medições, avaliações quantitativas, em suma, números para justificar mudanças de prioridades ou do modo de agir, permitindo o monitoramento de níveis de poluição, estabelecer prioridades de acordo com os recursos disponíveis e com a relação custo-benefício de algumas ações (Rigotto, 2003). 7 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II A consciência da importância da relação do trabalho com a saúde da população trabalhadora e não trabalhadora cresceu à medida que os profissionais da área de saúde do trabalhador e afins detiveram o conhecimento das tecnologias e das metodologias para a avaliação e o controle dos riscos originados a partir dos ambientes de trabalho. Esse é outro dos motivos que levou grupos de instituições de pesquisa e ensino a delinearem a sua área de atuação de maneira mais abrangente, sob a denominação de “Trabalho, Ambiente e Saúde”. Esse motivo vem fortalecendo o desenvolvimento de uma área técnica de intervenção nos serviços públicos sob a denominação de saúde ambiental dentro de muitas instituições de pesquisa, como a Fiocruz e o próprio Ministério da Saúde (Tambelinni; Câmara, 1998). De forma a atender às demandas da sociedade supracitadas, enquanto alternativa viável e tangente ao conhecimento e à detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, veio a proposta do Sistema Nacional de Vigilância Ambiental em Saúde. Além da definição do escopo de atuação desse sistema, ele tem a finalidade de identificar as medidas de prevenção e controle dos fatores de risco ambientais relacionados às doenças ou a outros agravos (Câmara, 2005). 1.1. Vigilância em saúde A esse respeito, acompanhe o seguinte trechos das revistas de Epidemiologia e Ciência & Saúde Coletiva: O termo Vigilância tem sua origem nas ações de isolamento e quarentena no pós-II Guerra Mundial, especialmente nos Estados Unidos da América (EUA) do período da Guerra Fria, o conceito de Vigilância esteve associado à ideia de “inteligência”, em razão dos riscos de guerra química e ou biológica. Nos EUA, a vigilância evoluiu, passando a significar a ação coordenada para controle de doenças na população, constituída de monitoramento, avaliação, pesquisa e intervenção. No Brasil, até a década de 1950 do século passado, o conceito de Vigilância era compreendido como o conjunto de ações de observação sistemática sobre as doenças na comunidade, voltadas para medidas de controle. Somente a partir da década de 1960, essas ações ganham uma estruturação de programa, incorporando as medidas de intervenção. Desde então, essas ações foram estendidas ao controle da produção, do consumo de produtos e da fiscalização de serviços de saúde, sob a denominação de VigilânciaINTERNACIONAL DO TRABALHO. Conferência Internacional do Trabalho: Convenção 161. Brasília, DF: MTE, 2024. ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Normas e Convenções. Disponível em: https://normlex. ilo.org/dyn/normlex/es/f?p=NORMLEXPUB:12000:0::NO:::. Acesso em: 27 jul. 2024. 34 REFERÊNCIAS ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. Saúde do trabalhador. Brasília, DF: OMS/OPAS, 1997. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index. php?option=com_content&view=article&id=378:saude-do-trabalhador&Itemid=685. Acesso em: 12 dez. 2023. ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE. La salud y el ambiente en el desarrollo sostenible. Washington D.C.: Publicación Científica n. 572, 2000. PARANÁ (Estado). Secretaria de Estado da Saúde. Superintendência de Vigilância em Saúde. Centro Estadual de Saúde do Trabalhador. 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Foi apenas na década de 1980 que “a vigilância passou a ser apresentada mais claramente sob o ponto de vista de articulação com outras ações de saúde”. Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), por exemplo, definiram esse novo sistema onde “as ações referentes aos dados coletados (coleta, análise e interpretação) se articulam à informação periódica como instrumento da prevenção”, o que implica uma ação de controle sobre os riscos ambientais para a saúde (Barata, 2022, pp. 3-4). Também no Brasil, somente em meados da década de 1980 é que são promovidas iniciativas para se instituir, no âmbito do setor Saúde, ações de Vigilância da Saúde do Trabalhador e do Meio Ambiente, de acordo com a Constituição de 1988 e a Lei Orgânica de Saúde de 1990. Mas é a partir do ano 2000 que o Ministério da Saúde formula a denominada Vigilância Ambiental, onde “a vigilância ambiental em saúde se configura como um conjunto de ações que proporcionam o conhecimento e a detecção de qualquer mudança nos fatores determinantes e condicionantes do meio ambiente que interferem na saúde humana, com a finalidade de recomendar e adotar as medidas de prevenção e controle dos fatores de riscos e das doenças ou agravos relacionados à variável ambiental”. No novo enfoque a necessidade de monitorar o ambiente é decorrente do reconhecimento de que ele não é dado, mas está em permanente construção e transformação pela ação do homem e da própria natureza. Nos setores ambientais e do trabalho, adota-se o termo Monitorar, para o qual são utilizados indicadores quantitativos, geralmente. Entretanto, para a Vigilância em Saúde, sob a ótica da Saúde Coletiva, monitorar é mais do que um ato de medição instrumental. Uma nova compreensão da causalidade com a crescente importância de eventos e doenças não relacionadas com agentes biológicos transmissíveis, houve a exigência de agregar-se mais um nível de prevenção, ditado pelas condições social, econômica e cultural das populações que não podem mais ser reduzidas a um único agente causal. Para o qual, aliás, não haveria uma vacina ou antibiótico capaz de prevenir ou curar. Então, o foco das ações passou, obrigatoriamente, para as condições determinantes. 9 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Na investigação de um acidente de trabalho, o contexto é conformado pelas características do processo produtivo, política de recursos humanos, condições de vida do trabalhador; a causa, dependendo do tipo de acidente, pode ser uma prensa sem mecanismo protetor, a falta de manutenção de uma máquina, o vazamento de uma tubulação, um curto-circuito, o piso irregular, o rompimento de um cabo etc. A Saúde Coletiva trouxe um novo enfoque para o entendimento do processo saúde-doença, visto como “algo em permanente transformação e que a (cuja) ação se dá num meio que não é só reativo, mas sobretudo transformável.” A construção de um sistema de vigilância ambiental de interesse para a saúde requer que o contexto seja devidamente valorizado. Para tanto, não só as bases de dados oriundas de monitoramentos quantitativos são necessárias, como também devem ser integradas técnicas de avaliação de risco que incluam dados qualitativos. O Princípio da Precaução é outro conceito que deve servir de guia para a ação em vigilância ambiental, isto é, não se deve priorizar a ação apenas pela ocorrência de doenças e desastres ou acidentes, mas antecipar esses eventos pelo reconhecimento, anterior, dos riscos e dos contextos nocivos à saúde. O Princípio da Precaução foi desenvolvido na Alemanha, para justificar a intervenção regulamentadora e de restrição das descargas de poluição marinha – na ausência de provas consensuais quanto aos seus efeitos e danos ambientais. Esse princípio tem sido tomado como referência em outras áreas e caracteriza-se por requerer que as decisões acerca de processos industriais e produtos perigosos sejam deslocadas da ponta final do processo para a ponta inicial. Por essa razão, a promoção e a prevenção terão, necessariamente, que prevalecer no enfoque da vigilância ambiental. A Saúde Ambiental, assim proposta, integra as dimensões histórica, espacial e coletiva das situações, a partir de um compromisso ético com a qualidade de vida das populações e dos ecossistemas em questão. A necessidade de implementar ações de Vigilância em Saúde Ambiental e do Trabalhador (VISAT) é uma questão que surge desde que essa ação pública foi consignada na Constituição Federal de 1988 e, particularmente, ao longo da trajetória de construção da área da saúde do trabalhador no Brasil. É uma estratégia que visa ultrapassar a dimensão assistencial que prevalecia (e ainda prevalece em certa medida) nos primeiros programas de saúde do trabalhador, anteriores ao advento do Sistema Único de Saúde (SUS), e precursores dos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST). O foco principal 10 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL dessas iniciativas era diagnosticar, orientar e acompanhar as doenças decorrentes do trabalho, com a perspectiva de criar condições para que a rede pública viesse a se constituir em instância efetiva para assistência à saúde dos trabalhadores, além de iniciar algumas ações de vigilância de acidentes de trabalho. Com a atuação da VISAT, voltada para a intervenção nos ambientes, processos e formas de organização do trabalho geradoras de agravos à saúde, passa-se a incorporar a dimensão preventiva da saúde do trabalhador. Ou seja, somente com ações interventoras de vigilância é possível interromper o ciclo de doença e morte no trabalho. Esta dimensão prevencionista de atenção à saúde cabe, principalmente, à Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador - RENAST, por meio dos CEREST, os seus núcleos executivos de ação efetiva. A VISAT é um componente do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde que visa à promoção da saúde e à redução da morbimortalidade da população trabalhadora, por meio da integração de ações que intervenham nos agravos e seus determinantes decorrentes dos modelos de desenvolvimento e dos processos produtivos. Na Portaria n. 1.823, de agosto de 2012, que instituiu a Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT), consta como objetivo prioritário o fortalecimento da Vigilância em Saúde do Trabalhador. Coerente com a PNSTT, na agenda do Ministério da Saúde foi definido como prioridade fortalecer a VISAT e a sua integração com os demais componentes da Vigilância em Saúde, com vistas à promoção da saúde e de ambientes e processos de trabalho saudáveis. A partir daí, a proposta nacional de ação estratégica, estabelecida pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), foi intensificar as ações de vigilância na área de saúde do trabalhador, tendo como meta ampliar o número de CEREST desenvolvendo essas ações, de modo que, até 2015, todos eles estejam realizando essas ações. Existe uma razoável produção de textos de VISAT, onde encontramos material detalhado sobre seu conceito e sua forma de ser. Parte desta produção diz respeito às diversas modalidades de VISAT, inclusive no trato com agravos específicos, caso dos vários tipos de acidentes, agrotóxicos, silicose, asbestose, benzeno, lesões por esforços repetitivos, entre outras. É possível também observar algumas experiências de VISAT sobre determinados segmentos econômico-produtivos, caso dos ramos químico, petroquímico, siderúrgico, frigorífico, agronegócio(agroindústria), construção civil, transporte, elétrico, setor saúde e educação, e sobre determinados contextos socioeconômicos de grupos populacionais específicos, caso do trabalho infantil, trabalho informal e cooperativado, entre outros. 11 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Observamos, também, que existe uma base legal para a ação em VISAT dispersa em várias legislações nacionais, estaduais e municipais, a exemplo da Lei Orgânica da Saúde 8.080, da Portaria MS n. 3.120, de 1 de julho de 1998, de nível federal e das constituições e códigos sanitários de vários entes estaduais e municipais. Entretanto, ao observarmos a VISAT numa perspectiva de ação pública coordenada, articulada e harmônica entre aqueles que vêm se esforçando para desenvolver suas ações, vemos o quanto ainda falta para afirmarmos que existe um sistema de Vigilância em Saúde do Trabalhador no Brasil, sob essa ótica. Apesar de serem muitas as iniciativas, são minoritários os casos em que se pode falar de implementação de ações sistemáticas de VISAT, isto sem contar que em muitos locais do país sequer elas existem. Este texto, sintético e simplificado em suas indagações e formulações, traz alguns elementos para discussão que poderão ser considerados na IV Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (CNSTT), a ser realizada este ano, 2014, em Brasília, e também por todos aqueles que vêm de alguma forma contribuindo para o aprimoramento da VISAT no Brasil. Em síntese, nosso roteiro de discussão baseia-se nos seguintes tópicos: (1) o lugar de fala da VISAT – para passar do discurso à ação; (2) a formação de agentes de VISAT; (3) o resgate dos trabalhadores enquanto sujeitos da ação de VISAT; (4) as estratégias de articulação intersetorial com outras áreas do Estado; (5) o diálogo estruturante dos pares (Vasconcelos; Gomez; Machado, 2014, pp. 4618-4619). Não se pode falar em integração de setores, de participação da comunidade ou de estruturação de um sistema de Vigilância em Saúde do Trabalhador (VISAT) sem a matéria-prima básica: informação sobre saúde. A disciplina básica que mais nos oferece meios para produzir as informações acerca da saúde da população é a epidemiologia (Câmara, 2005). A VISAT é definida na Portaria GM/MS n. 3252, de dezembro de 2009, enquanto componente do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde, que objetiva a promoção da saúde e a redução da morbimortalidade dos trabalhadores brasileiros, através de ações integradas que impactem nos agravos e seus determinantes decorrentes do trabalho. O sistema de informação (SI) sobre acidentes e agravos do trabalho – em específico o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) – trata da constituição de “um conjunto de procedimentos organizados que, quando executados, proveem informação de suporte à organização” de serviços de saúde (Brasil, 2004). A princípio, o propósito dos sistemas de informação a respeito de acidentes de trabalho é fornecer informações fidedignas sobre o impacto desses acidentes, seja pelas lesões provocadas, 12 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL seja no tocante a aspectos associados às suas origens, o que pode ser usado como ferramenta de prevenção. Segundo Freitag e Hale (apud Brasil, 2004), os procedimentos relacionados a seguir visam facilitam ao usuário a melhor visualização e compreensão das fases de um SI, que inclui a seleção e a análise de eventos em saúde: » Detecção ou reconhecimento e registro dos eventos com criação de banco de dados. » Escolha de eventos para uma análise minuciosa; análise e criação de banco de dados complementar. » Desbravar os bancos de dados e emitir relatórios com o detalhamento dos aspectos identificados distribuídos minimamente conforme as características de tempo e lugar e pessoa, inserindo aspectos do processo de causa dos acidentes. Sempre que possível, os dados deverão ser distribuídos de forma a permitir visualização de sua evolução temporal. » Na tentativa de reconhecimento de necessidades de saúde, deve-se interpretar incluindo: padrões de processos causais; identificação, seleção de prioridades a serem abordadas e recomendações; necessidades de aprimoramento da formação de pessoal. » Implementação e acompanhamento das recomendações com avaliação de impacto de providências recomendadas e adotadas efetivamente, como os aspectos do próprio sistema – o que significa analisar os aspectos como o tempo decorrido entre a ocorrência de agravos e sua detecção pelo próprio sistema. Também demanda a avaliação dos tipos e da proporção de eventos ocorridos que o sistema detecta efetivamente. Todo esse conjunto de medidas serve de fonte de retroalimentação (feedback) do sistema, construindo o seu aperfeiçoamento contínuo. A notificação compulsória de agravos à saúde do trabalhador em rede de serviços sentinela foi estabelecida pela Portaria n. 777/GM, de 28 de abril de 2004. Em 2014, as portarias n. 1.271, de 6 de junho, e n. 1.984, de 12 de setembro, revisaram as listas de doenças, agravos e eventos de notificação compulsória no território nacional, incluindo aqueles relacionados ao trabalho. A última portaria emitida foi a PRC n. 4, de 28 de setembro de 2017, que trouxe novas atualizações. 13 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Quadro 2. Relação de alguns sistemas de informação (SI) da Vigilância em Saúde. SIs importantes para a Vigilância SIAB: Sistema de Informações de Atenção Básica SIAMED: Sistema de Informações de Medicamentos SIA-SUS: Sistema de Informações Ambulatoriais de Saúde SIH/SUS: Sistema de Informações Hospitalares SIM: Sistema de Informação de Mortalidade SINAN: Sistema Nacional de Agravos de Notificação SINASC: Sistema de Informações de Nascidos Vivos SINITOX: Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas SISAGUA: Sistema de Inf. de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano Observação: Aqueles em negrito no quadro, têm relação direta com a notificação em Saúde do Trabalhador no SUS. Fonte: elaborado pela autora. O Sistema Nacional de Agravos de Notificação (SINAN) é alimentado pelo registro (notificação) e investigação de casos de agravos e doenças que constam da lista nacional de doenças de notificação compulsória (Portaria de Consolidação n. 4, de 28 de setembro de 2017, anexo V - Capítulo I), que faculta às unidades federativas e aos municípios incluir outros problemas de saúde importantes em sua região (SINAN, 2018). Para a inserção de dados, existe a ficha individual de notificação (FIN). Ela é preenchida pelas unidades assistenciais até mesmo quando há suspeita da ocorrência de problema de saúde de notificação compulsória ou de interesse nacional, estadual ou municipal. A FIN deve ser encaminhada aos serviços responsáveis pela informação e/ou vigilância epidemiológica das secretarias municipais de saúde (SEMUS), que devem repassar semanalmente os arquivos em meio magnético para as secretarias estaduais de saúde (SES). Já a comunicação das SES com a Secretaria de Vigilância Sanitária (SVS) deverá ocorrer quinzenalmente, de acordo com o cronograma definido pela SVS no início de cada ano. A notificação compulsória é obrigatória para os médicos e outros profissionais de saúde bem como para os responsáveis pelos serviços públicos e privados de saúde, que prestam assistência em saúde à população, de acordo com o art. 8o da Lei n. 6.259, de 30 de outubro de 1975 (Brasil, 1975). A notificação deve ser realizada frente à suspeita diagnóstica ou confirmação de doença ou agravo, em conformidade ao estabelecido no anexo da referida lei, observando-se, também, as normas técnicas estabelecidas pela Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (MS). 14 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL As diretrizes para a vigilância dos agravos e das doenças monitorados por meio de unidades sentinelas, como forma de estratégia em saúde, constam na Portaria n. 1.984, de12 de setembro de 2014 (Brasil, 2014), situação prevista no artigo n. 11, da portaria anterior: “A relação das doenças e agravos monitorados por meio da estratégia de vigilância em unidades sentinelas e suas diretrizes constarão em ato específico do Ministro de Estado da Saúde”. Monitorar indicadores-chave em unidades de saúde selecionadas (unidades sentinelas) que sirvam como alerta precoce para o sistema de vigilância é o objetivo da estratégia de vigilância sentinela. Ela se configura enquanto modelo de vigilância realizado por meio de um estabelecimento de saúde estrategicamente selecionado para a vigilância da morbidade, da mortalidade ou dos agentes etiológicos de interesse da saúde pública, segundo norma técnica específica estabelecida pela Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS/MS). Para a VISAT, é nítido que os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CERESTs) serão essas unidades sentinelas, servindo de apoio técnico a toda rede do SUS. Os dados públicos adquiridos por meio dessas notificações serão divulgados pelas autoridades de saúde aos profissionais de saúde, aos órgãos de controle social e à população em geral. Demais informações referentes aos canais de comunicação para notificação (endereço eletrônico oficial, o número de telefone, fax, endereço de e-mail institucional ou formulário para notificação compulsória) serão divulgadas pela SVS/MS, e pelas secretarias de saúde dos estados, do Distrito Federal e dos municípios. 15 CAPÍTULO 2 ANAMNESE OCUPACIONAL Na anamnese ocupacional, deve ficar evidente o que o(a) trabalhador(a) faz, como faz, com que produtos e instrumentos ele entra em contato, quanto faz, onde, em que condições e há quanto tempo faz (Lucca, 2012). Segundo Lucca (2012), as doenças relacionadas ao trabalho, em sua maioria, apresentam quadro clínico similar ao das doenças comuns. Estabelecer o nexo com o trabalho não é tarefa fácil, em especial para aquele profissional que não está habilitado ou habituado a relacionar as informações aos fatores de risco presentes no ambiente de trabalho com as atividades desenvolvidas pelo paciente trabalhador durante a sua anamnese clínica. A anamnese é fundamental porque objetiva tanto construir a história clínica-ocupacional completa quanto não se limitar à profissão do paciente, explorando sintomas, sinais clínicos e exames complementares. Segundo diretrizes do Conselho Federal de Medicina (1998), alguns parâmetros devem ser considerados no estabelecimento de nexo causal. Além do exame clínico (físico e mental) e dos exames complementares, quando necessários, deve o profissional de saúde considerar as seguintes informações: » histórico clínico-ocupacional, primordial em qualquer diagnóstico e/ou investigação de nexo causal; » conhecimento a respeito do local de trabalho e da organização do trabalho, incluindo a realização da atividade; » informações epidemiológicas da empresa e de grupos ocupacionais similares (homogêneos); » literatura atualizada; » aparecimento de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto a condições agressivas; » reconhecimento de riscos físicos, químicos, biológicos, mecânicos, estressantes e outros; » relato de vida e a experiência dos trabalhadores; » conhecimento e práticas de outras disciplinas e de seus profissionais, sejam ou não da área da saúde. 16 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL O objetivo é avaliar se as queixas e o quadro clínico têm relação com as atividades de trabalho. O profissional deve considerar a multiplicidade de fatores envolvidos na determinação das doenças e, em especial, daquelas desencadeadas ou agravadas pelas condições em que o trabalho é realizado. Nesse sentido, é de fundamental importância valorizar o conhecimento e os sentimentos dos pacientes sobre seu trabalho e os fatores de risco potencialmente causadores de doença. Em algumas situações, esses riscos podem ser de natureza química; em outras, intrinsecamente relacionados à gestão e à organização do trabalho ou até mesmo da ausência de trabalho e, majoritariamente, são decorrentes da ação sinérgica desses fatores. Além do adoecimento que resulta da articulação de agravos que atingem a população geral, em função de sua idade, gênero, grupo social ou inserção em um grupo específico de risco, o trabalhador pode ter sua condição clínica agravada pelo trabalho. No entanto, o médico deve suspeitar de uma doença desencadeada ou agravada pelas condições de trabalho a partir da anamnese ocupacional, cujos componentes básicos incluem: » análise detida das queixas que motivam a busca de atenção médica; » história ocupacional pregressa; » descrição detalhada do processo de trabalho no emprego atual ou do trabalho supostamente relacionado à doença sob investigação; » características da organização do trabalho do emprego atual ou do trabalho supostamente relacionado à doença sob investigação, além do compartilhamento de informações individuais e coletivas. Durante a investigação das queixas, devem ser valorizadas as informações sobre o momento de surgimento dos sintomas e sua relação com o trabalho. Exposição a agentes de risco específicos ou a realização de determinadas tarefas são fundamentais, verificando-se a relação temporal entre o surgimento de sinais e sintomas e a jornada de trabalho. Na mesma linha de atuação médica, o levantamento de informação quanto ao desaparecimento ou à melhora de sintomas nos finais de semana, feriados prolongados e férias pode fortalecer a hipótese de tratar-se de um agravo relacionado ao trabalho. A associação dos sintomas com mudanças recentes no ambiente ou processo de trabalho também deve ser investigada (Lucca, 2012). A anamnese ocupacional tem que contemplar todos os riscos aos quais o trabalhador está exposto, assim como avaliar as condições psicossociais desse trabalhador para realmente atingir o nível de prevenção adequado. Além disso, o profissional de saúde deve adotar uma postura ética para com o cliente interno e externo, preservando a 17 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II identidade do trabalhador, acolhendo-o de forma humanizada, pois a origem de suas demandas ou queixas, em suma, está associada às angústias ou condições de vida, ora manifestadas por sintomas que traduzem o sofrimento na mente, no corpo ou na insatisfação com o trabalho (Lucca, 2012). Por meio do Manual de Anamnese Ocupacional (2001), o Ministério da Saúde concebe um instrumento a ser utilizado nos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador que compõem a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST), a ficha de resumo de atendimento ambulatorial em saúde do trabalhador (FIRAAST). Ela foi elaborada ainda como instrumento passível de utilização como prontuário eletrônico e de informatização a partir das experiências dos CEREST/MG, CEREST/BH e CEREST/Contagem. Essa ficha foi criada como instrumento epidemiológico que contribui para conhecimento, investigação, sistematização, padronização e intercâmbio de dados e informações úteis ao planejamento em saúde, à capacitação de recursos humanos, ao atendimento, à vigilância, à avaliação de serviços de saúde do trabalhador e à divulgação pública mais ampliada (Pinheiro et al., 1993), por meio dos sistemas de informação em saúde componentes do SUS. O manual explicita todos os itens necessários na ficha de consulta e de retorno, sendo um norteador importante para aqueles serviços que ainda não dispõem de instrumentos validados para o atendimento em SST. Importante atentar para o Manual de Anamnese Ocupacional (2006a), lá você vai encontrar perguntas-chave para a investigação de agravos em ST em seu serviço de saúde. 18 CAPÍTULO 3 AGRAVOS À SAÚDE RELACIONADOS AO TRABALHO E AO AMBIENTE Para Rigotto (2003), a ocorrência de acidentes e doenças ocupacionais é oriunda de novas tecnologias e novas relações de trabalho. Essas, por sua vez, trazem novos valores, novos hábitos e introduzemnovos riscos tecnológicos, de natureza física, química, biológica, mecânica, ergonômica e psíquica, que interferem na saúde humana no ambiente de trabalho. Conforme o primeiro manual de acidente de trabalho do Ministério da Saúde (Brasil, 2006d), o acidente tem o caráter de um evento agudo, que causa lesão corporal ou perturbação funcional temporária ou permanente, como seria o caso de uma intoxicação aguda por agrotóxico ou uma amputação de membros ou mesmo dos acidentes ocorridos no trajeto do trabalhador entre sua residência e o local de trabalho, seguindo ao que se define como: Todo evento súbito ocorrido no exercício de atividade laboral, independentemente da situação empregatícia e previdenciária do trabalhador acidentado, e que acarreta dano à saúde, potencial ou imediato, provocando lesão corporal ou perturbação funcional que causa, direta ou indiretamente (concausa) a morte, ou a perda ou redução, permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho. Inclui-se ainda o acidente ocorrido em qualquer situação em que o trabalhador esteja representando os interesses da empresa ou agindo em defesa de seu patrimônio; assim como aquele ocorrido no trajeto da residência para o trabalho ou vice-versa (Brasil, 2006d, p.9). Devido ao seu expressivo impacto na morbimortalidade da população, os acidentes constituem-se em importante problema de saúde pública e objeto prioritário das ações do SUS, que, em conjunto com outros segmentos dos serviços públicos e da sociedade civil, devem continuar a buscar formas efetivas para o seu enfrentamento. Entre esses outros setores dos serviços públicos e sociedade civil, encontramos universidades e institutos de pesquisa, Ministério Público, Ministério do Trabalho e Emprego e outros correlatos. Vale dizer que são pouco estudadas as sequelas crônicas e de instalação tardia de acidentes adequadamente reconhecidos como provenientes do trabalho, e aquelas que 19 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II só tardiamente são identificadas como relacionadas aos acidentes inicialmente não são registradas como do trabalho (Brasil, 1999). Em 2011, foram registrados cerca de 700 mil acidentes e doenças do trabalho entre os trabalhadores assegurados da Previdência Social. Observe que esse número, que já é alarmante, não inclui os trabalhadores autônomos (contribuintes individuais) e as empregadas domésticas. Tais eventos provocam enorme impacto social e econômico sobre a saúde pública no Brasil. Entre esses registros, foram contabilizadas 15.083 doenças relacionadas ao trabalho. Parte desses acidentes e doenças resultou em afastamento de 611.576 trabalhadores de suas atividades devido à incapacidade temporária (309.631 até 15 dias e 301.945 com tempo de afastamento superior a 15 dias), e outra parte teve o diagnóstico de incapacidade permanente (14.811 trabalhadores). Os óbitos ocorreram com 2.884 cidadãos (Brasil, 2013). Para se ter a real dimensão da importância do tema saúde e segurança do trabalho, basta observar que, no Brasil, em 2011, registrou-se cerca de uma morte a cada 3 horas, motivada pelo risco decorrente dos fatores ambientais do trabalho e ainda uma média de 81 acidentes e doenças do trabalho reconhecidos a cada hora na jornada diária. Nesse mesmo ano, foi observada uma média de 49 trabalhadores por dia que não mais retornaram ao trabalho devido a invalidez ou morte (Brasil, 2013). Ao longo de uma década, os acidentes de trabalho tiveram queda de 25,6% no Brasil, segundo dados do Relatório do Anuário Estatístico de Acidentes de trabalho de 2021: foram de 720.629 registros, em 2011, para 536.174 registros, em 2021, totalizando 184.455 acidentes a menos (Brasil, 2023). A publicação realizada pelo Observatório Nacional apresentou o impacto da pandemia da covid-19 nos dados de afastamentos por doenças relacionadas ao trabalho em 2021, evidenciando a segunda maior quantidade anual nos últimos 10 anos, com 19.348 casos, enquanto o recorde tinha sido registrado em 2020, com 33.575 casos. Em relação ao ano de 2019, anterior à pandemia, os acidentes por doença aumentaram 234,6%, no ano de 2020, e 92,8%, em 2021 (Brasil, 2023). Entre os setores da economia que tiveram um maior número de trabalhadores afastados por acidentes de trabalho, o setor de atividades de atendimento hospitalar desponta, registrando 62.852 casos, o que corresponde a 11,7% do total de acidentes de 2021; 20 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL em seguida, está administração pública em geral, com 14.925 acidentes; o setor de transporte rodoviário de carga está na quarta posição entre os setores com muitos afastamentos por acidente, com 14.735 casos, e a construção civil (construção de edifícios), que por anos foi um setor extremamente insalubre e incapacitante, no último relatório, ocupou a sexta posição, com 10.641 afastamentos (Brasil, 2023). Na classificação proposta por Schilling (1984), segundo a sua relação com o trabalho (nexo de causalidade), as doenças do trabalho podem ser reunidas em três grupos, conforme nos mostra o próximo quadro. Quadro 3. Divisão em categorias segundo classificação de Schilling. Grupos de doenças Exemplos de patologias Grupo I: doenças em que o trabalho é causa necessária e suficiente; tipificadas pelas “doenças profissionais” em que o nexo com o trabalho é direto. Intoxicações por chumbo devido à exposição a esse agente químico nas atividades de fabricação de baterias; silicose, nas atividades da fabricação de cerâmica; e asbestose nas atividades de mineração, extração e fabricação de cimento amianto. Grupo II: doenças em que o trabalho pode ser um fator de risco, contributivo, mas não necessário, denominadas “doenças do trabalho”, tendo-se por exemplo as doenças “comuns”, mais comuns ou mais precoces em determinadas ocupações e para as quais o nexo causal é de natureza fundamentalmente epidemiológica. Doenças osteomusculares relacionadas ao trabalho, à hipertensão arterial; as neoplasias malignas em determinados grupos ocupacionais ou ramos de atividade constituem exemplos típicos. Grupo III: doenças em que o trabalho provoca um distúrbio latente, ou agrava uma doença já estabelecida ou preexistente, isto é, com causa, também denominada “doenças do trabalho”. Doenças alérgicas de pele e respiratórias, e distúrbios mentais em determinados grupos ocupacionais ou ramos de atividade. Fonte: Schilling, 1984. Por sua vez, as doenças relacionadas ao trabalho surgem de modo insidioso, após manifestação aguda, como as dermatoses, as lesões por esforços repetitivos, as intoxicações por substâncias químicas, a perda da audição e incluem, ainda, o desgaste e o sofrimento psíquico, as alterações genéticas e as doenças crônico-degenerativas, que podem se manifestar em câncer ou alterações da reprodução (Rigotto, 2003). Em 1999, os Ministérios da Previdência Social e da Saúde elaboraram uma lista que discrimina 210 patologias reconhecidas como relacionadas ao trabalho, a Lei n. 3.048 de 1999. Cumprindo também a determinação do art. 6o, §3o, inciso VII, da Lei n. 8.080 (Brasil, 1990), o Ministério da Saúde elaborou a Lista Brasileira de Doenças, segundo a Classificação Internacional de Doenças (CID-10), em que são atribuídos os agentes patogênicos causadores das doenças profissionais ou do trabalho. Schilling (1984) foi referencial teórico para a definição e elaboração da Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho, disposta na Portaria de Consolidação n. 5, de 28 de setembro 21 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II de 2017, Anexo LXXX da (Brasil, 2017a), com a finalidade de orientar os profissionais de saúde sobre a possível relação do adoecimento com a exposição a riscos para a saúde presentes no trabalho. Ela está organizada em “dupla entrada”: » Lista A: considera o agente ou grupos de agentes patogênicos responsáveis pelo adoecimento ou que guardam evidências sólidas de nexo causal entre a exposição e a doença.» Lista B: tem como referência os códigos dos grupos de patologias do CID-10, com elenco de aproximadamente 400 agravos relacionados ao trabalho. » Lista C: elaborada com base na significância estatística da associação entre a doença identificada como responsável pela incapacidade do(a) trabalhador(a) e a atividade econômica da empresa à qual o segurado é vinculado. Segundo Brasil (2018), em 2007 a Previdência Social acrescentou às listas A e B a lista C (Anexo II do Decreto Federal n. 3.048/1999, alterado pelo Decreto Federal n. 6.042/2007), criando-se assim o Nexo Técnico Epidemiológico (NTEP), que passou a ser utilizado nas avaliações médico-periciais (Brasil, 1999; Brasil, 2007; Silva Junior et al., 2014). 3.1. Mas o que é Nexo causal? De acordo com o art. 2o da Resolução CFM n. 1488-1988, para estabelecer a relação (nexo) causal entre os transtornos de saúde e as atividades do trabalhador, além do exame clínico e complementares, o médico deve considerar: » a história clínica e ocupacional; » o estudo do local de trabalho; » o estudo da organização do trabalho; » os dados epidemiológicos; » a literatura atualizada; » a ocorrência de quadro clínico ou subclínico em trabalhador exposto a condições agressivas; » a identificação dos “fatores’’ de riscos; 22 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL » o depoimento e a experiência dos trabalhadores; » os conhecimentos e práticas multiprofissionais. Para Teixeira (2016), o estabelecimento da relação causal entre o dano ou doença e o trabalho é tanto um processo social quanto uma presunção sem existência de prova absoluta, caso existam argumentos que permitam isso. A presunção na legislação de vários países veio no intuito de beneficiar o trabalhador e evitar discussões intermináveis sobre essa relação de causalidade. Porém, o próprio autor põe em pauta que o nexo causal é estabelecido ao se considerarem: 1. a natureza da exposição; 2. o grau ou a intensidade de exposição; 3. o tempo de exposição; 4. o tempo de latência; 5. a especificidade da relação causal e a força da associação (o agente está contribuindo para os fatores causais da doença?); 6. o tipo de relação causal com o trabalho – classificação de Schilling, por exemplo;. os registros anteriores. 7. as evidências epidemiológicas. A figura a seguir, mostra as etapas de investigação da relação causal entre doença e trabalho, que resume as etapas que podem auxiliar o médico ou qualquer outro profissional a identificar elementos de sustentação da sua hipótese diagnóstica e decisão sobre o nexo de causalidade. 23 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Figura 3. Fluxo para investigação da relação doença e trabalho. 1o Atendimento História ocupacional: há fatores ou situação de risco identificados e caracterizados? NÃO SIM Evidência de história clínica compatível com DP/DRT? NÃO SIM Dados epidemiológicos e/ou procedimentos complementares excluem e/ou confirmam a hipótese de exposição e/ou de dano compatível com DP DRT? SIM DP DRT típica Schilling I Diagnóstico sindrômico, indiferenciado Excluir outras causas não ocupacionais Quadro atípico, misto, evolução incaracterística Schilling II ou III NÃO DNO** Excluir causas ocupacionais Conclusão História clínica é compatível com DP/DRT? SIM História Ocupacional: há fatores ou situação de risco identificados e caracterizados? NÃO NÃO ** DNO: Doenças não ocupacionais. Fonte: adaptada de Brasil; Opas, 2001; Teixeira, 2016. 24 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL O reconhecimento da relação entre o dano-doença e o trabalho tem implicações legais importantes nas esferas previdenciária, trabalhista, cível e criminal, além do desencadeamento de ações preventivas a nível individual e coletivo (Teixeira, 2016). Para esse mesmo autor, são necessárias informações complementares sobre os fatores de risco, tendo-se como base fundamental os registros de estudos e os levantamentos ambientais quanti-qualitativos contidos no Programa de Prevenção de Riscos Ambientais (PPRA) e em outros documentos que podem ser solicitados ao empregador. Apenas para se ter ideia do potencial adoecedor que agentes físico, químico e biológico podem ter sobre a saúde humana, o Ministério da Saúde condensou no Caderno n. 41 – Atenção Básica – Saúde do trabalhador (2018) todos os efeitos à saúde de cada um desses agentes, como consta no quadro seguinte. Quadro 4. Efeitos à saúde humana dos fatores de risco no ambiente de trabalho. Categoria Exemplos de riscos Possíveis efeitos sobre a saúde humana Atividades em que podem estar presentes Físicos Ruído Efeitos auditivos: surdez, zumbidos. Efeitos extra-auditivos: gastrite, insônia e outras manifestações de estresse. Trabalhos com máquinas barulhentas, motores, britadeiras, motoristas de ônibus. Temperaturas extremas Desidratação, cãibras pelo calor, fadiga, alergia respiratória, sinusite, resfriados frequentes. Trabalho na rua e a céu aberto, frigoríficos, cozinhas industriais, ambientes com ar- condicionado. Iluminação Problemas de visão, dor de cabeça, acidentes. Várias atividades na indústria e no setor de serviços, costureiras e manicures, podem ter pouca iluminação ou em excesso, prejudicando a visão do(a) trabalhador(a). Radiações ionizantes e não ionizantes – Ultravioleta, infravermelho, raio X etc. Câncer de pele, anemia aplástica, leucemia e catarata. Agricultores e trabalhadores na rua, trabalhadores em hospitais e consultórios dentários que operam raio X, soldadores etc. Químicos Substâncias químicas que podem estar presentes nos ambientes de trabalho na forma de poeiras, fumos, névoas, neblinas, gases ou vapores. Ex.: agrotóxicos Queimaduras, náuseas, vômito, cefaleia, alergia, asma brônquica, câncer, doenças gástricas e intestinais, neurológicas, hepáticas, renais, entre outras. Também podem provocar acidentes decorrentes de explosões e incêndios. Elas penetram no organismo pela via respiratória, pela pele ou pelo trato GI provocando intoxicações aguda ou crônica. Inúmeras atividades econômicas, desde a prestação de serviços à agricultura, silvicultura, empresas de dedetização e serviço público de combate a zoonoses etc. 25 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Categoria Exemplos de riscos Possíveis efeitos sobre a saúde humana Atividades em que podem estar presentes Mecânicos Máquinas com partes móveis não protegidas, calandras e cilindros, guilhotinas, prensas e uso de instrumentos cortantes ou perfurantes etc. Acidentes diversos (quedas, fraturas, esmagamento, amputação, traumatismo). Trabalhador da construção civil, motoristas de transportes coletivos, padeiros, metalúrgicos, trabalhadores em vias públicas profissionais de saúde etc. Biológicos Vírus, fungos e bactérias, animais peçonhentos Doenças contagiosas, envenenamento por picada de cobra ou escorpião ou outros. Profissionais de saúde, manicure, trabalhadores rurais etc. Psicossociais Jornadas de trabalho longas, esforços físicos exagerados com posturas forçadas e carregamento de peso. Ritmo acelerado, trabalho repetitivo e monótono, trabalho em turnos e noturno. Desemprego ou vínculos precários etc. Doenças Osteomusculares, sofrimento mental, desmotivação, depressão, distúrbios do sono, estresse etc. Trabalhadores de linhas de montagem e telemarketing, carregadores, bancários. Trabalhadores informais e com vínculos precários. Fonte: adaptado de Brasil, 2001; 2018. A identificação precoce de efeitos da exposição ocupacional a fatores de risco pode exigir a realização de alguns exames complementares específicos, como os exames toxicológicos ou Raio X padrão OIT, por exemplo. Para Teixeira (2016), o profissional ou a equipe responsável pelo atendimento do trabalhador com diagnóstico de doença ou dano relacionado ao trabalho devem assegurar que haja: » orientaçãoao trabalhador e a sua família de seu problema de saúde e todos os encaminhamentos necessários para a recuperação da saúde e melhora da qualidade de vida; » afastamento da fonte geradora de doença, seja o setor ou mesmo o trabalho, caso a permanência signifique agravamento do quadro clínico; » conduta terapêutica adequada, com os devidos procedimentos de reabilitação; » emissão da comunicação de acidente de trabalho (CAT) com o preenchimento do laudo do exame médico (LEM). Em caso dos funcionários públicos, verificar a legislação específica; 26 UNIDADE II | ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL » notificar à autoridade sanitária utilizando os instrumentos específicos, como preconiza a legislação estadual e municipal, viabilizando os procedimentos de vigilância em saúde. O autor ainda recomenda que a Superintendência do Trabalho e o sindicato da categoria sejam comunicados sobre o caso. Veja também o Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho (2001) e outros protocolos do MS, disponíveis em nossa biblioteca virtual. Enquanto norteadora das ações de vigilância compulsória no SUS, incluindo os agravos relacionados ao trabalho supracitados, a Portaria n. 1.271, de 6 de junho de 2014 (Brasil, 2014), trata da Lista Nacional de Notificação Compulsória de Doenças, e aquelas de notificação exclusiva das unidades sentinelas do SUS estão previstas na Portaria n. 1.984 (Brasil, 2014). Essas normas constituem uma parte do variado leque de acervo criado pelos órgãos públicos responsáveis pelo monitoramento em SST, direta ou indiretamente, portanto, é importante frisar que os materiais foram fruto de anos de trabalho do Ministério da Saúde, tais como: Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho (2001), protocolos de atendimento e notificação para acidentes graves, fatais e com crianças e adolescentes, doença osteomuscular relacionada ao trabalho (DORT), perda auditiva induzida por ruído (PAIR), pneumoconioses etc. Esses materiais visam ao atendimento igualitário, em todo o território nacional, a todos os trabalhadores atendidos pelo SUS, compreendendo os procedimentos entre o primeiro atendimento até a notificação, recomendações e parâmetros para seu diagnóstico, tratamento e prevenção de incapacidade laboral. Veja os principais protocolos a seguir. Quadro 5. Principais protocolos na área de Saúde do Trabalhador. Principais protocolos em ST 1. Trabalho infantil 2. Anamnese ocupacional 3. Acidentes de trabalho graves, fatais 4. Exposição a material biológico 5. Exposição ao chumbo metálico 6. Perda auditiva induzida pelo ruído (PAIR) 7. Pneumoconioses 8. Risco químico 9. Câncer relacionado ao trabalho 10. Dermatoses ocupacionais 11. Doenças osteomusculares Fonte: elaborado pela autora. 27 ENTRE A SAÚDE COLETIVA E A INDIVIDUAL | UNIDADE II Neste capítulo, pudemos aprender um pouco mais sobre a investigação de agravos relacionados à saúde do trabalhador, tanto em abordagem coletiva quanto individual, e a responsabilização dos entes públicos e privados no monitoramento desses agravos – dados que refletem o impacto direto no nível de saúde da população brasileira (número de incapacitados, mortes, famílias seguradas etc.). Além disso, reiteramos que a notificação compulsória não exime o empregador de emitir o comunicado de acidente de trabalho (CAT), direcionado principalmente à concessão do benefício previdenciário daqueles trabalhadores regidos pela Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). A partir desse ponto, você já se perguntou de que forma é realizado o monitoramento dos agravos em saúde da imensidão de trabalhadores informais? Se sim, reflita a respeito da abordagem do profissional de saúde da rede que não consegue visualizar a determinação do trabalho na saúde do paciente atendido em sua unidade de saúde. Esses e outros questionamentos poderemos trazer para o nosso cotidiano em busca de respostas. O Ministério da Saúde divulgou no dia 29 de novembro de 2023 uma atualização da lista de doenças relacionadas ao trabalho. Foram incluídas 165 novas patologias na portaria publicada no “Diário Oficial da União”. O documento é composto por duas partes: a primeira apresenta os riscos para o desenvolvimento de doenças; e a segunda estabelece as doenças para identificação, diagnóstico e tratamento. De acordo com o governo, a “quantidade de códigos de diagnósticos passa de 182 para 347”. A nova listagem foi uma das entregas da 11ª edição do Encontro da Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador. Leia mais em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2023/novembro/ ministerio-da-saude-atualiza-lista-de-doencas-relacionadas-ao-trabalho-apos- 24-anos. 28 REFERÊNCIAS ACIDENTES de Trabalho caem 25,6% no Brasil em 10 anos. Ministério da Previdência Social, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/previdencia/pt-br/noticias/2023/maio/acidentes-de-trabalho-caem- 25-6-no-brasil-em-10-anos#:~:text=Os%20dados%20s%C3%A3o%20do%20Anu%C3%A1rio,%2C2%20 acidentes%20(2021). Acesso em: 30 dez. 2023. AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA. Cartilha sobre agrotóxicos. Brasília, DF: Anvisa, 2011. 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