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FISIOTERAPIA CARDIOVASCULAR OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > Descrever os princípios e fundamentos da fisioterapia na área cardiovascular. > Diferenciar os recursos fisioterapêuticos utilizados na área cardiovascular. > Conceituar a atuação do fisioterapeuta na área cardiovascular. Introdução A fisioterapia tem crescido enquanto profissão, o que é resultado do maior en- volvimento do fisioterapeuta em pesquisas e na assistência em saúde. Essa expansão tem fortalecido a atuação especializada em algumas áreas, como a área da fisioterapia cardiovascular. Os cuidados em saúde com foco na atenção ao sistema cardiovascular têm ganhado força tanto pela busca da prevenção quanto pela importância do fisioterapeuta nos processos de reabilitação cardiovascular. O fisioterapeuta que trabalha nessa área desenvolve conhecimentos específicos, que fortalecem sua atuação profissional e promovem uma atenção mais precisa. É importante que todo fisioterapeuta compreenda a sua relação profissional com os distúrbios que afetam o sistema cardiovascular, ainda que não atue direta- mente nessa área. Afinal, tais distúrbios podem afetar direta ou indiretamente seu plano de tratamento. Neste capítulo, você vai estudar a atuação do fisioterapeuta na área cardiovascular. Você vai conhecer os princípios e fundamentos do trabalho nessa área, bem como os seus recursos específicos. Fundamentos da fisioterapia cardiovascular Geanderson dos Santos Rodrigues Bases da fisioterapia cardiovascular O coração e os vasos sanguíneos garantem o fluxo sanguíneo em todo o organismo, realizando o transporte de nutrientes e oxigênio (O2) para os tecidos e eliminando excretas (resíduos metabólicos) e gás carbônico (CO2). Além disso, viabilizam o transporte de uma série de elementos (hormônios e anticorpos, por exemplo) entre órgãos específicos, mantendo a homeostase. Os distúrbios cardiovasculares estão relacionados a deficiências no organismo que envolvem falhas do coração ou do sistema vascular e que podem gerar desequilíbrios funcionais. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), entidade ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), são consideradas doenças cardio- vasculares: doença coronariana, doença cerebrovascular, doença arterial periférica, doença cardíaca reumática, cardiopatia congênita, trombose ve- nosa profunda e embolia pulmonar (OPAS BRASIL, 2017). É preciso considerar ainda que outros distúrbios (neurológicos, musculoesqueléticos, traumáticos, metabólicos, etc.) podem ter ação direta ou indireta sobre a função cardíaca e o sistema vascular. O fisioterapeuta precisa atentar aos impactos de sua conduta, sempre considerando a repercussão terapêutica sobre o sistema cardiovascular, ainda que não atue diretamente com esse sistema. A partir disso, ele tanto promove a melhor evolução do paciente quanto mensura os riscos gerados por cada ação. No âmbito das doenças cardíacas e vasculares, o fisioterapeuta atua avaliando, prevenindo e tratando os indivíduos na busca pela maior inde- pendência funcional. Ele pode se deparar com essas demandas em serviços de todos os níveis de atenção à saúde (primária, secundária e terciária) e atende a elas contribuindo para a reabilitação funcional. O avanço tecnológico e a possibilidade de produção científica têm gerado o crescimento de cursos e pesquisas científicas sobre o sistema cardiovascular (MARQUES et al., 2017). Como resultado desse desenvolvimento, no Brasil, o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Coffito), por meio da Resolução nº 454, de 25 de abril de 2015, reconheceu a especialidade em fisioterapia cardiovascular. Esse reconhecimento reforçou a importância da capacitação do profissional na área cardiovascular. Veja as atribuições e competências do fisioterapeuta na área cardiovascular: � avaliação fisioterapêutica, monitoramento e acompanhamento de indivíduos, estabelecendo diagnóstico cinético-funcional e prognóstico fisioterapêutico; Fundamentos da fisioterapia cardiovascular2 � emissão de laudos, relatórios e pareceres, além de encaminhamento a outros profissionais ou serviços; � estabelecimento e análise da capacidade cardiovascular e respiratória do indivíduo; � interpretação de exames clínico-funcionais; � aplicação e interpretação de testes e escalas funcionais; � prescrição e execução de plano de tratamento baseado nas evidências analisadas (conforme classe funcional e risco cardiovascular), dentro de limites clínicos de segurança; � trabalho em equipe multidisciplinar, contribuindo com as informações devidas para a melhor evolução do indivíduo; � orientação do indivíduo e/ou de seus responsáveis sobre o quadro cinético-funcional e demais aspectos relevantes para a melhor evo- lução do tratamento; � determinação de condições de alta fisioterapêutica conforme cada nível de atenção (COFFITO, 2015; MARQUES et al., 2017). Um ponto importante das condutas do fisioterapeuta na área cardiovas- cular são as suas responsabilidades individuais e coletivas. Individualmente, o fisioterapeuta tem o papel de profissional de primeiro contato, ou seja, tem autonomia para avalizar, prescrever e intervir em seu campo de atuação. Entretanto, distúrbios cardiovasculares implicam déficits e riscos para a saúde do indivíduo. Assim, abordar um paciente exclusivamente na fisiote- rapia pode gerar falhas nas condutas do profissional. Ainda, as informações obtidas pela sua atuação geram conteúdos importantes para análises de outros profissionais. Coletivamente, o fisioterapeuta acaba contribuindo com a equipe multidisciplinar ou favorecendo que o indivíduo busque a melhor assistência à sua saúde por meio do encaminhamento devido. Na atenção a indivíduos cardiopatas ou com doenças vasculares, o fi- sioterapeuta envolvido na reabilitação cardiovascular precisa compreender processos e protocolos como forma de análise, interpretação e promoção de ações em um contexto específico. Tal contexto muitas vezes envolve equipes multidisciplinares ou a participação multiprofissional na atenção à saúde do paciente. Tudo isso reforça a importância de o fisioterapeuta conhecer suas responsabilidades, seus recursos e seus limites de atuação. Diante de tanta informação, o conhecimento do fisioterapeuta na área cardiovascular precisa ser valorizado de forma prática e aplicável. São muitos os campos de atuação e muitas as estratégias passíveis de desenvolvimento. Um exemplo são as ações preventivas. Segundo a Opas Brasil (2017, documento Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 3 on-line), “[...] as doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no mundo: mais pessoas morrem anualmente por essas enfermidades do que por qualquer outra causa”. A Opas ainda reforça que a maioria das doenças pode ser prevenida por meio de mudanças comportamentais que reduzem fatores de risco (consumo de dietas inapropriadas, tabaco, sedentarismo e abuso de álcool, principalmente). Seja por prevenção primária ou secundária, o fisioterapeuta dispõe de conhecimento suficiente para conscientizar a população sobre as melhores práticas (inclusive, conforme resolução do Coffito (2015), a prevenção faz parte do rol de atribuições do fisioterapeuta). A participação e o estímulo ao desenvolvimento de ações que promovem benefícios relativos aos cuidados cardiovasculares — seja por pesquisa científica ou projetos educativos, entre outros recursos — conferem ganhos diretos e indiretos ao profissional e à sociedade. A Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) criou e disponibilizou o “cardiômetro”. Trata-se de um medidor na internet que alerta sobre o número de mortes por doenças do coração. Para encontrar o cardiômetro, utilize o seu site de buscas favorito. Recursos da fisioterapia cardiovascular De forma geral, o fisioterapeuta dispõe de uma série de recursos terapêuticos para desenvolver tratamentos. Entre eles, estão os exercícios físicos e a bio- mecânica, que visam a reduzir ou eliminar condiçõesfísicas limitadas causadas por condições agudas e/ou crônicas (MAIR et al., 2008). Algumas técnicas e aparelhos acabam sendo mais aplicados em áreas específicas, devido à sua importância e/ou à sua especificidade. Na área cardiovascular, os recursos fisioterapêuticos podem variar muito, conforme o comprometimento clínico e cinético-funcional do indivíduo. A seguir, você vai conhecer procedimentos, técnicas e equipamentos relevantes para essa área, distribuídos entre recursos avaliativos e terapêuticos. Fundamentos da fisioterapia cardiovascular4 Recursos avaliativos Os recursos avaliativos estão relacionados a procedimentos que visam a captar informações pertinentes ao funcionamento do organismo do indivíduo. Essas informações podem ser extraídas no momento da abordagem ou por algum exame prévio, permitindo inclusive comparação para compreender a evolução do tratamento ou da doença. Primeiramente, é imprescindível que o profissional faça a anamnese com- pleta do paciente e colete as informações do exame físico: avaliação de sinais vitais, antropometria, perimetria, auscultas cardíaca e pulmonar, inspeção e palpação (inclusive considerando posturas diferentes), flexibilidade, marcha, avaliação funcional e dados sobre qualidade de vida (PAPA et al., 2020). Na abordagem ao paciente com doença cardiovascular, o uso dos recursos avaliativos pode variar bastante. Isso ocorre porque os recursos utilizados dependem do tipo de serviço em que o paciente está (ambulatorial, hospitalar ou domiciliar), do quadro clínico do indivíduo (estabilidade hemodinâmica, nível de consciência, agravos associados, etc.), dos recursos disponíveis no momento (o serviço pode não ter todos os recursos, ou os recursos existentes podem estar em manutenção), etc. Assim, é importante que o fisioterapeuta saiba acompanhar objetiva e subjetivamente o paciente, ou seja, que saiba avaliá-lo tanto por meio de dados objetivos dos aparelhos quanto por meio da resposta clínica obtida durante a abordagem. No Quadro 1, veja os recursos avaliativos e as suas descrições. Quadro 1. Recursos avaliativos utilizados pelo fisioterapeuta cardiovascular Método/recurso avaliativo Descrição Importância Oxímetro Aparelho que capta índices de saturação de oxigênio na circulação periférica simultaneamente. A redução e o aumento do índice de saturação podem representar, respectivamente, baixa e elevação da oxigenação no organismo, podendo indicar necessidade de alguma intervenção. (Continua) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 5 Método/recurso avaliativo Descrição Importância Frequencímetro Aparelho que capta pulso arterial ou pulso cardíaco referindo como dado a frequência cardíaca (FC). A redução e o aumento da FC, bem como do ritmo cardíaco, são acompanhados como parâmetros de segurança das intervenções. Conforme cada proposta terapêutica, podem ser referência para a determinação da progressão da terapia. Esfigmomanômetro Aparelho que mensura as pressões arteriais (PAs) sistólicas e diastólicas. Permite compreender como estão as pressões no sistema vascular, indicando se a ação terapêutica é possível (ou qual é o limite dela). Tanto a redução quanto o aumento das pressões podem exigir do profissional uma intervenção imediata. Estetoscópio Aparelho que auxilia na aferição da PA e permite a ausculta pulmonar e cardíaca. A ausculta cardíaca permite acompanhar o ritmo e os sons cardíacos. A ausculta pulmonar permite verificar como está a ventilação nos pulmões do indivíduo. Balança Aparelho que mensura o peso. O peso do indivíduo pode ser utilizado tanto como referência direta para o tratamento quanto para cálculos ou ajustes em aparelhos e condutas. (Continuação) (Continua) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular6 Método/recurso avaliativo Descrição Importância Fita métrica Instrumento que permite medidas antropométricas. A mensuração de dados antropométricos auxilia em cálculos e/ou ajustes de aparelhos, permitindo melhor conforto, segurança e resposta terapêutica. Escala de Borg e escala visual analógica Instrumentos que permitem registros das percepções do indivíduo de maneira subjetiva. O acompanhamento subjetivo do esforço do paciente ou de suas sensações contribui como resposta clínica, permitindo avaliar a continuidade da abordagem. Ventilômetro Aparelho que permite avaliar a mecânica pulmonar determinando volumes e capacidades do sistema pulmonar. Permite determinar dados diante do contexto fisiológico e fisiopatológico do indivíduo, gerando dados para acompanhamento. Manovacuômetro Aparelho que permite avaliar a mecânica pulmonar por meio das pressões respiratórias de inspiração e expiração. Permite determinar dados diante do contexto fisiológico e fisiopatológico do indivíduo, gerando dados para acompanhamento. Espirometria Exame que avalia volumes e fluxos de ar no sistema respiratório. Permite determinar dados diante do contexto fisiológico e fisiopatológico do indivíduo, gerando dados para acompanhamento. (Continua) (Continuação) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 7 Método/recurso avaliativo Descrição Importância Testes de aptidão e avaliação cardiorrespiratória Testes aplicados conforme protocolos específicos (teste de caminhada, teste de velocidade da marcha, entre outros). Permitem a mensuração de dados para estabelecer cargas e diagnósticos cinético- -funcionais, bem como a geração de dados comparativos para a reavaliação. Teste ergométrico Teste aplicado conforme protocolos específicos com apoio de esteiras e cicloergômetros. Permite a mensuração de dados para estabelecer cargas e diagnósticos clínico e cinético-funcionais, bem como a geração de dados comparativos para a reavaliação. Ergoespirometria ou teste cardiopulmonar de exercício Teste aplicado em protocolos específicos com apoio de esteiras e cicloergômetros; analisa dados referentes aos gases expirados durante o exercício. Permitem a mensuração de dados para estabelecer cargas e diagnósticos clínico e cinético-funcionais, bem como a geração de dados comparativos para a reavaliação. Durante a internação hospitalar, é possível que o indivíduo seja monitorado por outras ferramentas, como eletrocardiograma e monitor de frequência respiratória. Ele também pode realizar exames complementares de maneira mais rápida e com mais frequência (por exemplo, radiografias, hemogramas e gasometrias). Tais exames auxiliam na avaliação e promovem melhor ajuste das condutas terapêuticas. Recursos terapêuticos Os recursos terapêuticos são os métodos e aparelhos utilizados na inter- venção, ou seja, são os elementos que visam a promover mudanças em de- terminado indivíduo. Tais recursos buscam respostas fisiológicas e causam impacto no metabolismo. Dessa forma, reforça-se a importância dos recursos avaliativos, pois por meio deles o fisioterapeuta tem base para avaliar/reava- (Continuação) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular8 liar e conduzir o tratamento a partir de uma proposta segura e com resposta fisiológica suficiente para promover a evolução do indivíduo. O recurso terapêutico tem uma finalidade específica ou pode promover determinado impacto. Ele precisa ser selecionado criteriosamente com base nas características clínicas e cinético-funcionais do indivíduo. Não se trata de uma escolha aleatória e exclusiva: é preciso que o fisioterapeuta analise se o recurso terapêutico atende de fato às necessidades e possibilidades do indivíduo. No Quadro 2, veja alguns recursos comuns na abordagem aos indivíduos com doenças cardiovasculares. Quadro 2. Recursos terapêuticos utilizados na fisioterapia cardiovascular Recurso terapêutico Descrição Objetivo Esteira ergométrica Equipamento que permite ao indivíduo caminhar ou correr sobre ele. Gerar um esforço, aumentando o trabalho cardíaco, acelerando o metabolismo e promovendogasto energético. Permite atingir níveis de esforço específicos conforme proposta terapêutica. Cicloergômetro ou bicicleta ergométrica Equipamento que permite ao indivíduo sentar e manter uma movimentação ativa (cíclica) de membros inferiores. Proporcionar que pacientes com déficits (ou impedimentos) de marcha possam gerar um esforço, aumentando o trabalho cardíaco, acelerando o metabolismo e promovendo gasto energético. Permite atingir níveis de esforço específicos conforme proposta terapêutica. Cicloergômetro portátil Aparelho que permite movimentação ativa cíclica de membros inferiores e superiores; o paciente pode utilizá-lo deitado ou sentado. Atender a condições clínicas limitantes; permitir que pacientes acamados realizem exercícios/esforços; permitir esforços por meio de exercícios com membros superiores. (Continua) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 9 Recurso terapêutico Descrição Objetivo Halteres, pesos e faixas de resistência elástica Instrumentos com pesos graduados. Promover exercícios e gerar esforços conforme capacidade do indivíduo; contribuir para melhorar a adaptação do indivíduo a esforços variados. Alongamentos e mobilizações Técnicas aplicáveis com suporte do fisioterapeuta. Preparar o organismo para a realização de atividades; prevenir lesões; promover maior conforto durante as abordagens; promover analgesia e outros efeitos. Treinamento muscular respiratório Aparelhos que permitem treinamento da musculatura respiratória. Estimular o aumento de força e de resistência (endurance) musculoesquelética e melhorar a autonomia funcional. Eletroestimulação Equipamentos que utilizam correntes elétricas moduladas para intervenção terapêutica. Atuar em casos em que o quadro clínico e cinético-funcional impede ações ativas e assistidas. Programas de exercícios Conjunto de ações variadas (recursos terapêuticos diversos) estabelecidas de maneira parametrizada. Condensar ações terapêuticas de maneira organizada, criando um ciclo de ações sequenciais para gerar adaptabilidade e ganhos funcionais. Além dos recursos listados no Quadro 2, conforme a estrutura e a dis- ponibilidade no local onde o serviço é prestado, ações estratégicas podem compor e complementar as ações terapêuticas. Por exemplo, no atendimento domiciliar, o fisioterapeuta pode estabelecer como meta determinado número de voltas no quarteirão; ele ainda pode utilizar instrumentos lúdicos, criando obstáculos e estabelecendo objetivos. (Continuação) Fundamentos da fisioterapia cardiovascular10 Outro aspecto importante é a adaptabilidade dos recursos ao perfil do indivíduo. Determinados distúrbios cinético-funcionais e limitações clíni- cas e anatômicas exigem que o fisioterapeuta promova atendimentos com acessibilidade, garantindo que o indivíduo tenha o suporte adequado para o cuidado de sua saúde. Atuação do fisioterapeuta A atuação do fisioterapeuta constitui uma importante abordagem ao paciente na reabilitação cardiovascular. O fisioterapeuta pode atuar do período de pré-intervenção (no caso de cirurgias programadas, por exemplo) e prevenção até as demais fases do tratamento (MAIR et al., 2008). Como você viu anteriormente, o fisioterapeuta possui capacidade técnica suficiente para conduzir atendimentos de maneira autônoma. Entretanto, indivíduos com déficits funcionais provenientes de alterações cardiovascula- res demandam maior atenção de outros profissionais, especialmente médicos cardiologistas e angiologistas. Assim, antes de iniciar suas atividades, o fisioterapeuta deve ter em mente o seu papel nas relações multiprofissionais/ multidisciplinares. Comunicar-se com a equipe, verificar o perfil fisiopatológico do paciente e confrontar os dados com sua avaliação cinético-funcional são ações importantes. Caso o indivíduo ainda ignore um potencial problema cardiovascular, é importante conscientizá-lo sobre os cuidados a se tomar e fazer o encaminhamento ao profissional adequado. Espaços que dispõem de equipes multidisciplinares (como hospitais e clínicas especializadas) permitem que a relação do fisioterapeuta com os demais profissionais seja mais produtiva. Entretanto, independentemente do local onde presta o serviço, o fisioterapeuta deve considerar elementos relevantes na condução de casos em que há distúrbios do sistema cardio- vascular envolvidos. Nas subseções a seguir, veja as principais característi- cas da atuação do fisioterapeuta em serviços hospitalares, ambulatoriais e domiciliares, respectivamente. Serviço hospitalar Serviços hospitalares normalmente são distribuídos em unidades de tra- tamento intensivo (UTI) e enfermarias, respectivamente de maior e menor grau de atenção à saúde. Os pacientes que estão nos serviços hospitala- res demandam cuidados técnicos específicos, devendo ser acompanhados continuamente de acordo com seu grau de comprometimento. No ambiente Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 11 de uma UTI, o monitor pelo qual são acompanhados sinais vitais oferece parâmetros para que a equipe decida sobre as condutas a serem adotadas. O nível de atenção pode variar muito, mesmo dentro de um mesmo setor. Além disso, nem sempre o nível crítico alto ou baixo pode ser suficiente para determinar a conduta a ser realizada com o indivíduo. Nesse contexto, o fisioterapeuta participa ativamente. Em linhas gerais, o gasto metabólico, a interferência dos procedimentos sobre o paciente (medicações, procedimentos, cirurgias, etc.) e os sinais clínicos interferem diretamente nas escolhas das condutas a serem adotadas. A disponibilidade de recursos também é um critério que pode causar interferências. Cabe ao fisioterapeuta interagir com as equipes, apresentar suas propostas de intervenção e compartilhar informações sobre suas condutas. Hospitais com serviços especializados de cardiologia adotam critérios e protocolos específicos. É comum a participação do fisioterapeuta no pós- -operatório imediato de cirurgia cardíaca. Além disso, em serviços em que o processo de reabilitação adota protocolos de reabilitação cardiovascular, o fisioterapeuta participa desde a primeira fase, atuando na segunda e na terceira à medida que o paciente evolui. Programas de reabilitação cardiovascular adotam três fases princi- pais para classificar e acompanhar o indivíduo. Veja a seguir. � Fase I: compreende a fase intra-hospitalar, ou seja, processos de reabilitação que se iniciam na UTI e se desenvolvem na enfermaria até a alta hospitalar. � Fase II: período de atenção ambulatorial (após alta hospitalar), com duração média de três meses. � Fase III: com duração de três a seis meses (ou mais, algumas vezes conside- rando subdivisão com a fase IV), envolve programas de exercícios físicos sob supervisão de fisioterapeutas e educadores físicos. De acordo com a condição clínica e cinético-funcional do indivíduo, ele pode ser inserido diretamente em alguma fase, sem passar pela fase I (PAPA et al., 2020). Serviço ambulatorial Serviços ambulatoriais (ou clínicos) envolvem indivíduos cujo diagnóstico já está sendo construído, ou indivíduos que estão sendo acompanhados devido a alguma doença. Serviços ambulatoriais em reabilitação cardiovascular adotam Fundamentos da fisioterapia cardiovascular12 critérios e procedimentos específicos voltados à manutenção periódica das ações terapêuticas, garantindo a continuidade da evolução do tratamento. Nesses serviços, o fisioterapeuta tem mais autonomia e demanda mais responsabilidades do paciente. Como o acompanhamento não ocorre 24 horas por dia, como no serviço hospitalar, o fisioterapeuta precisa, além de executar o tratamento no momento do encontro, orientar as condutas do indivíduo em casa. Considerando que cada indivíduo tem um perfil único e pode apresentar necessidades diversas, entender como transmitir as infor- mações e saber orientar são tarefas novas a cada abordagem. No atendimento ambulatorial,o fisioterapeuta que atua na área cardiovas- cular precisa determinar parâmetros de trabalho. Todas as respostas fluem de informações prévias, exames, (re)avaliação, anamnese e outros elementos do histórico do paciente; essas respostas precisam ser ponderadas para a devida aplicação terapêutica. A rotina de atendimentos ambulatoriais precisa ser bem preparada e direcionada para que o paciente aproveite melhor a sua passagem pelo serviço. Serviço domiciliar O serviço domiciliar, ainda que realizado por uma equipe multidisciplinar, reflete a necessidade de maior atenção do fisioterapeuta. O profissional pode encontrar o indivíduo em seu melhor estágio de recuperação, mas também pode encontrá-lo instável. É comum ouvir de indivíduos que: não seguiram devidamente o plano de tratamento, não tomaram o remédio corretamente, ingeriram dieta inapropriada para o seu quadro, etc. Assim, a (re)avaliação é primordial e garante a segurança do profissional e a saúde do paciente. Uma característica importante do atendimento domiciliar realizado pelo fisioterapeuta é a capacidade de fazer com que o indivíduo explore seu ambiente, trazendo aprimoramento mais específico às suas demandas. Por exemplo: um indivíduo que tem dificuldades de realizar mudanças de decú- bito na sua cama pode ser treinado no próprio local; um indivíduo que tem dificuldades de sair e caminhar pelo bairro pode ser estimulado a partir de sua realidade e ainda obter ganhos por meio da interação social. Referências COFFITO. Resolução nº 454, de 25 de abril de 2015. Reconhece e disciplina a especia- lidade profissional de fisioterapia cardiovascular. Brasília: COFFITO, 2015. Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=3215. Acesso em: 21 out. 2020. Fundamentos da fisioterapia cardiovascular 13 MAIR, V. et al. Perfil da fisioterapia na reabilitação cardiovascular no Brasil. Fisio- terapia e Pesquisa, v. 15, n. 4, dez. 2008. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo. php?script=sci_arttext&pid=S1809-29502008000400003&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 21 out. 2020. MARQUES, B. K. L. et al. Educação para a saúde cardiovascular de estudantes do en- sino médio. Interfaces - Revista de Extensão da UFMG, v. 7, n. 1, jan./jun., 2019. https:// periodicos.ufmg.br/index.php/revistainterfaces/article/view/19075/16156. Acesso em: 21 out. 2020. MARQUES, M. R. et al. Introdução à profissão: fisioterapia. Porto Alegre: SAGAH, 2017. OPAS BRASIL. Doenças cardiovasculares. Brasília: OPAS Brasil, 2017. Disponível em: https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5253:d oencas-cardiovasculares&Itemid=1096. Acesso em: 21 out. 2020. PAPA, V. et al. Reabilitação cardiovascular baseada em exercício físico na insuficiência cardíaca- fase hospitalar e ambulatorial. Revista da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo, v. 30, n. 2, supl. 2020. Disponível em: https://www.researchgate. net/publication/342937171_REABILITACAO_CARDIOVASCULAR_BASEADA_EM_EXER- CICIO_FISICO_NA_INSUFICIENCIA_CARDIACA-_FASE_HOSPITALAR_E_AMBULATORIAL. Acesso em: 21 out. 2020. Leituras recomendadas COFFITO. Resolução n. 80, de 9 de maio de 1987. Baixa Atos Complementares à Resolu- ção COFFITO-8, relativa ao exercício profissional do FISIOTERAPEUTA, e à Resolução COFFITO-37, relativa ao registro de empresas nos Conselhos Regionais de Fisioterapia e Terapia Ocupacional, e dá outras providências. Brasília: COFFITO, 1987. Disponível em: https://www.coffito.gov.br/nsite/?p=2837. Acesso em: 21 out. 2020. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Cardiômetro. Rio de Janeiro: SBC, 2020. Dis- ponível em: http://www.cardiometro.com.br/. Acesso em: 21 out. 2020. SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA. Fatores de risco. Rio de Janeiro: SBC, 2020. Disponível em: https://www.coracao.org.br/fatores-de-risco. Acesso em: 21 out. 2020. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Fundamentos da fisioterapia cardiovascular14