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PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) 1. Introdução A reação em cadeia da polimerase (PCR) nada mais é do que a replicação in vitro do DNA. Foi desenvolvida na década de 1980 por Karry Mullis, que conseguiu pela primeira vez amplificar pequenos fragmentos de DNA. Em 1988, foi descoberta uma enzima DNA polimerase termoestável, isolada de Thermus aquaticus, permitindo que esse processo ganhasse automação (Saiki et al., 1988). O impacto desse método foi enorme, pois possibilitou facilidade, rapidez, versatilidade na manipulação de ácidos nucléicos, o que tornou a técnica poderosa e imprescindível em grande parte dos procedimentos realizados atualmente. É utilizada, por exemplo, na realização de sequenciamento, como diagnóstico de doenças, detecção de mutações pontuais, entre outros. A PCR permite a amplificação de sequências genômicas em amostras complexas e molecularmente heterogêneas, oferecendo alta sensibilidade e especificidade (TYRELL, 1997). Quando combinada com métodos auxiliares, como a extração e purificação de ácidos nucleicos, além da separação dos fragmentos genômicos de acordo com o peso molecular, é possível elaborar protocolos altamente eficientes e de alto desempenho, atendendo aos objetivos estabelecidos. 2.1. Princípios Conforme mencionado, a PCR envolve a amplificação in vitro de uma região específica do genoma de qualquer organismo, resultando na produção de milhões Técnicas de Biologia Molecular Introdução a técnica de PCR- Reação em Cadeia da Polimerase e PCR em Tempo Real de cópias (TYRRELL, 1997). Para tanto, a técnica se fundamenta no processo de replicação do genoma que ocorre in vivo, utilizando os mesmos elementos essenciais que a célula emprega para replicar a molécula de ácido nucleico. Portanto, os componentes básicos para a reação em cadeia da polimerase são: a) A amostra de DNA extraído e purificado, que contenha o segmento a ser amplificado. b) dNTPs: mistura de nucleotídeos (adenina, timina, guanina e citosina) em suas formas trifosfatadas livres – ou dNTPs (dATP, dTTP, dGTP e dCTP, respectivamente) - em concentrações iguais, que serão inseridos nas novas cópias de DNA replicadas. c) Cloreto de magnésio, que serve como cofator para a enzima. d) Solução tampão, que mantém o pH ótimo para a atividade enzimática e favorece a hibridização do primer. e) Par de primers ou iniciadores, que são fragmentos de DNA sintetizados em laboratório, contendo sequências conhecidas que flanqueiem a região desejada, em ambos os sentidos da fita-alvo e, assim, delimitem a região de replicação. O tamanho ideal de um primer é de 18 a 30 bases, não devendo ser menor que 15, pelo risco de comprometer a especificidade do anelamento. f) Enzima Taq polimerase, enzima termoestável responsável pela síntese das novas fitas. Após os protocolos de extração, purificação e quantificação do DNA da amostra, prepara-se a mistura de reação (mix da PCR) com os elementos acima descritos. A preparação segue um protocolo estabelecido, com cálculos de quantidades e concentrações dos reagentes feitos previamente. Após a preparação e aliquotagem do mix nos microtubos de 0,5 µL ou de 0,2 µL ou em placas é feita a adição da amostra de DNA a ser analisada. A reação em cadeia da polimerase se dá em um aparelho chamado termociclador. Este consiste em um bloco no qual são posicionados os microtubos ou a placa, que é capaz de aquecer ou resfriar de acordo com o sentido da corrente elétrica aplicada. Assim, a reação é controlada e orientada pela variação da temperatura em dados períodos de tempo. As fases da PCR podem ser divididas nas seguintes etapas fundamentais: desnaturação do DNA, anelamento de primers à seqüência alvo em fita simples e uma etapa de extensão do primers anelados por uma DNA polimerase termoestável (72 a 78°C). Desnaturação - Consiste no aumento da temperatura, a fim de romper as pontes de hidrogênio que unem as fitas de DNA contidas na solução, separando a dupla-fita em fitas únicas, conforme ilustrado na Figura 1. Figura 1. Etapa de desnaturação da PCR. Processo em que ocorre a separação das fitas de DNA por aquecimento da temperatura. Autora: Joane Maíra Cavalcante A desnaturação se dá entre 91 e 95ºC, dependendo do protocolo utilizado e dura geralmente, cerca de dois minutos. Nessa etapa, tanto as moléculas de DNA da amostra analisada quanto dos primers, são separadas e têm seus sítios de ligação expostos. Após um período de tempo em que uma quantidade ótima de moléculas foi separada, o termociclador reduz a temperatura, para iniciar a etapa de anelamento. Anelamento – Nessa etapa, a temperatura é reduzida para a temperatura ótima de religação das pontes de hidrogênio. Assim, os primers podem se ligar às sequências-alvo na fita de DNA original, que servirá como molde para a nova fita, representado na Figura 2. Figura 2. Etapa de anelamento da PCR. Fase em que ocorre a redução da temperatura para que ocorra o anelamento dos primers e/ou iniciadores. Autora: Joane Maíra Cavalcante A temperatura ótima de anelamento varia de acordo com o primer utilizado (geralmente entre 40 e 65ºC, por cerca de um minuto e meio), e é informada pelo fabricante, bem como o tempo ideal para a duração dessa etapa. Nela, a temperatura favorece a religação das pontes de hidrogênio entre as moléculas. Um componente do par de primers tem como alvo uma região específica, que antecede imediatamente a sequência-alvo na fita de DNA no sentido 5’- 3’ (primer forward), enquanto que o outro componente do par tem como alvo a região que antecede a mesma sequência, mas na fita complementar, ou seja, no sentido 3’-5’ (primer reverse). Extensão – Temperatura ótima de atividade da enzima Taq polimerase, promovendo, assim, a extensão do fragmento a partir do ponto em que o primer anelou na etapa anterior, conforme ilustrado na Figura 3. Figura 3. Etapa de extensão da PCR. Nessa etapa ocorre a síntese do DNA pela atuação da Taq DNA Polimerase através da adição dos oligonucleotídeos. Autora: Joane Maíra Cavalcante Em seguida, a temperatura é novamente elevada para, geralmente, 72ºC, que é a temperatura ótima para acoplamento e ação da enzima Taq polimerase, que caracteriza a fase de extensão das fitas. Essa extensão se dá pela adição das moléculas de dNTP disponíveis no meio, de acordo com a base nitrogenada da fita molde. A extensão ocorre tanto nas fitas de sentido 5’-3’, quanto nas de sentido 3’-5’, criando novas fitas na conformação de dupla-hélice, correspondente à região-alvo delimitada pelos primers. Os íons de magnésio fornecidos pelo cloreto de magnésio adicionado à mistura são utilizados pela enzima como cofator para a sua atividade de síntese da nova fita. Ao término de um “ciclo” (desnaturação, anelamento e extensão), este é repetido várias vezes (de 35 a 40, de acordo com o protocolo), de modo que haja um aumento exponencial de moléculas, já que a cada ciclo o número de cópias da sequência-alvo é duplicado. Assim, ao final do processo, cada tubo conterá uma grande quantidade de DNA dupla-fita correspondente à região-alvo. O produto de uma reação de PCR é geralmente chamado de amplicon. 2.2. Variações da PCR 2.2.1. PCR em Tempo Real A PCR em tempo real (ou qPCR) permite que a reação seja monitorada em tempo real (sem necessidade da eletroforese), bem como que a quantidade de ácido nucleico produzida seja quantificada, por meio da emissão e da captação de radiação fluorescente durante o processo. Para tanto, a qPCR utiliza um termociclador com um sistema óptico de captação da emissão de luz fluorescente, associado a um computador com um software que analisa e processa os dados durante e ao final da reação. Além disso, a qPCR utiliza um sistema de sondas de fluorescência, de modo que a quantidade de material gerado é diretamente proporcional à emissão de fluorescência, que pode ser quantificada com notável precisão. Dois sistemas de fluorescência são majoritariamenteutilizados: SYBR Green e TaqMan. O corante SYBR Green intercala em qualquer fragmento de DNA dupla- fita emitindo fluorescência a partir daí, conforme apresentado na Figura 4. A discriminação entre os sinais é feita por meio da análise da curva de dissociação (calculada a partir do ponto de melting da sonda). Figura 4. Etapas da PCR em Tempo Real utilizando o corante de fluorescência SYBR Green (agente intercalante de DNA de fita dupla) que se liga ao DNA durante a síntese da nova fita. Autora: Joane Maíra Cavalcante Já o sistema TaqMan, utiliza sondas que se anelam logo após o local de anelamento do primer na sequência alvo, Figura 5. As sondas são pequenas sequências de oligonucleotídeos sintética, contendo um corante apresentador (reporter), emissor de fluorescência, na extremidade 5’, e um corante silenciador (quencher), que inibe a emissão de fluorescência por proximidade, na extremidade 3’. Enquanto a sonda está intacta, a proximidade do quencher inibe a emissão de fluorescência do reporter. Quando a Taq polimerase se anela ao primer e cliva a sonda pela sua atividade endonucleásica, o reporter é separado do quencher e liberado no meio, emitindo, assim, sua fluorescência, que é captada e analisada pelo sistema óptico. Outros sistemas de detecção têm sido desenvolvidos e testados, a fim de obter um equilíbrio entre custo, praticidade e eficiência para otimizar a qPCR. Exemplos de uso: Detecção/quantificação de patógenos, detecção de mutações, expressão gênica (com RNA/cDNA). Figura 5. Representação das etapas da PCR em Tempo Real utilizando o sistema de sondas de hidrólise (TaqMan). Durante a fase de extensão, a medida que ocorre a síntese da fita do DNA a sonda é clivada e então é emitido o sinal de fluorescência. Autora: Joane Maíra Cavalcante 2.2.2. PCR de transcriptase reversa (Reverse Transcription) – RT- PCR A PCR de transcriptase reversa (Reverse Transcription PCR), tal como a técnica convencional, tem como objetivo reproduzir in vivo a replicação do genoma original que, nesse caso, é RNA. A técnica utiliza a enzima transcriptase reversa para converter o RNA em cDNA, conforme representado na Figura 6. O cDNA é então usado como modelo para a reação qPCR. RT- qPCR é usado em uma variedade de aplicações, incluindo análise de diversos vírus de RNA, análises de expressão gênica (RNA mensageiro), validação de RNAi, validação de microarranjos, detecção de patógenos, testes genéticos e pesquisa de doenças. São utilizados primers que se anelarão à fita de RNA, permitindo o acoplamento da transcriptase reversa. Após a síntese de cópias de cDNA a partir dos moldes de RNA, geralmente se utilizam enzimas que degradem seletivamente moléculas de RNA (geralmente RNAse H) e, em seguida, se submete o produto à PCR convencional. O bom desempenho de um protocolo de RT-PCR está em função da seleção adequada dos diferentes tipos de primers disponíveis e da boa conservação da amostra (dado que o RNA é mais instável que o DNA e facilmente degradável), e geralmente é associado à técnica de qPCR. Figura 6. Representação esquemática da ação da enzima transcriptase reversa durante a RT-PCR, e subsequente submissão à PCR convencional Autora: Joane Maíra Cavalcante Questões sobre a aula prática 1) Cite pelo menos 2 aplicações da técnica de PCR e da RT-qPCR. 2) O que é um primer? Ele será o mesmo quando se estuda diferentes regiões genômicas? Por que? 3) Qual a função do MgCl2? 4) Por que o DNA deve ser submetido a temperatura de 95º.C durante os ciclos de PCR? 5) Por que a reação tem que ser submetida a 72º.C durante os ciclos de PCR? 6) O que é cDNA? 7) Qual enzima é usada para transforma RNA em DNA? 8) Qual a diferença da PCR, qPCR e RT-PCR?