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CAPÍTULO II A Delimitação do Campo de Estudos da Carreira Focado ainda na tarefa de investigar novas formas de compreen- são da questão da escolha, do projeto e da carreira, com base psicossocial, e de forma ampliada, buscou-se um contato com o que vinha sendo produzi- do conceitualmente, a partir da dimensão social e administrativa, acerca das estruturações organizacionais de carreira (carreira externa ou objetiva), tendo como base o campo de estudos da carreira das chamadas Ciências da Gestão, composta pela Administração e pela Psicologia Organizacional e do Trabalho, e fazendo a tentativa de articulação com as Ciências do Tra- balho, compostas pela Psicologia Social do Trabalho e das Organizações, Sociologia do Trabalho e Orientação Profissional. A divisão do campo de estudos do trabalho e dos processos or- ganizativos do trabalho em Ciências da Gestão e Ciências do Trabalho é uma proposta de C. Dejours (comunicado em palestra, 11 de abril, 2007) que incorporei aos meus estudos e reflexões, pois é uma classificação muito interessante para compreender as diferenças de foco, forma e resul- tados das reflexões e investigações específicas de campo. Ciências da Gestão: focada na análise e intervenção da (e na) ges- tão dos processos organizativos do trabalho como um todo e envol- vendo a Administração, a Psicologia Organizacional (Tradicional) e a Orientação e Gestão de Carreira (anteriormente a Psicologia Vocacio- nal e a Orientação 11 Estas áreas têm um foco mais subjetivante e de ajustamento e/ou adaptação da pessoa ao mercado do trabalho, por isso estão, aqui, associadas às Ciências da Gestão (Ribei- ro, 2009b).44 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 45 Ciências do Trabalho: focada na análise e intervenção do (e no) trabalho e das (e nas) relações organizativos do Emblema moderno da trajetória de vida de trabalho por quase trabalho construídas continuamente, envolvendo a Psicologia Social todo século XX, a carreira se configurou como a sequência predefinida de do Trabalho e das Organizações, a Sociologia do Trabalho e a Orien- cargos e funções dentro de uma empresa com o objetivo de estruturar a tação Profissional (Ribeiro, 2009b, p. 119-120). trajetória de trabalho dos seus funcionários, na chamada carreira organi- zacional. Só existia nas empresas e instituições, ou seja, a carreira era determinada pelo vínculo à empresa, com apenas uma exceção, que era o A tarefa de delimitação do campo de estudos da carreira, buscan- do fazer uma articulação entre o que vem sendo produzido nos dois campos caso da atribuição de uma carreira às pessoas com uma identidade profis- sional de prestígio, originando expressões como carreira médica e carrei- acima citados, teve lugar em algumas de minhas produções (Ribeiro, ra política (Ribeiro, 2009a). 2009a, 2009b, 2011e), as quais serão sintetizadas no próximo tópico. Vale salientar que apenas uma parte restrita dos trabalhadores era socialmente reconhecida como tendo uma carreira, pois quem não 2.1 GÊNESE E CONSOLIDAÇÃO DA CARREIRA tivesse as condições acima descritas não tinha o reconhecimento de sua trajetória de trabalho como carreira, o que levou o campo das carreiras a ser um campo restrito de estudos e intervenção ao longo de quase todo Embora a concepção original de carreira, gerada do latim via século XX. carraria, signifique padrão de um percurso, curso da ação, caminho (Chanlat, 1995; Martins, 2001; Ribeiro, 2011e), a carreira consolidou sua Segundo Gunz e Peiperl (2007), autores de um dos mais com- pletos handbooks de Estudos da Carreira, a temática da carreira não teve representação como um constructo teórico e prático constituído um grande destaque, apenas se tornando fenômeno de estudo e interven- no início do século XX para sistematizar a progressão das pessoas no ção, de forma mais intensa, a partir dos anos 1970 em função dos proces- interior das empresas (dimensão objetiva dos planos organizacionais de SOS de reestruturação produtiva e flexibilização do mundo do trabalho carreira, na chamada carreira organizacional ou externa), que resultou, (mais adiante discutidos), pois, até então, carreira era sinônimo dos pla- também, na configuração de sua dimensão subjetiva (desenvolvimento e nos organizacionais de carreira, em geral estáveis e perenes, sem muitas trajetória psicológica das pessoas no mundo do trabalho, na chamada mudanças no tempo, não se configurando como um fenômeno com gran- carreira interna ou desenvolvimento vocacional). des possibilidades de investigação. A carreira tem como característica central ser um constructo norte-americano Everett Hughes, considerado um dos primei- teórico-técnico que surgiu para atender as demandas de organização do ros estudiosos da carreira, definiu, de forma genérica, carreira como "a mundo do trabalho ao longo, principalmente, da primeira metade do sécu- sequência de papéis, status e cargos percebidos por dada pessoa" (Hughes, lo XX associada às fábricas num mundo estruturado pela normatividade, 1958, p. 404), mas apontava que, tradicionalmente, ela foi pensada, de previsibilidade e estabilidade do modelo taylorista-fordista que teve sua forma padronizada e predeterminada, em termos de cargos e funções, gênese marcada pelas influências da Administração Científica, da Psico- sendo estas as conexões centrais das pessoas com seu trabalho e que defi- metria e das concepções mecanicistas de ser humano, ou seja, a ideia "da niram carreira como carreira organizacional ao longo de quase todo pessoa certa para o lugar certo" (Ribeiro, 2009b, 2011e). século XX, como apontam autores mais contemporâneos especialistas na "Está ligada, de forma significativa, ao individualismo, capita- temática, como Dutra (1996), D. T. Hall (1976, 1996, 2002), London e lismo e organização burocrática que emergiu no século XX na América" Stumph (1982), Schein (1971, 1978, 1993) e Van Maanen (1977). (Young, Valach & Collin, 2002, p. 225). Apesar desta definição de carreira, Hughes (1937) já apontava, nos anos 1930, sua dupla dimensão, ou seja, a dimensão objetiva descri- ta na definição anteriormente postulada de carreira organizacional 12 Representações sociais são maneiras coletivas de interpretar e pensar a realidade (constituição e organização social das trajetórias de cargos e funções cotidiana entendidas como síntese de saberes (cognitivo, social e afetivo) que se cons- pelas empresas e/ou instituições), nomeando-a de carreira objetiva, trói no processo de relação pessoa-mundo e que é (re)apresentada ao mundo e às pes- soas que produzem e são produzidos no mundo (Ribeiro, 2009b). articulada com sua dimensão subjetiva constituída pelo movimento das pessoas no trabalho e pela consequente interpretação deste movimento,46 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 47 nomeando-a de carreira subjetiva, pois haveria outros elementos estru- ção de si no trabalho e da estruturação do mundo do trabalho, e auxiliar turadores da carreira como as realizações socioprofissionais e reconhe- na elaboração de estratégias de desenvolvimento e de orientação profissio- cimento social. nal e de carreira (foco: orientação vocacional e escolha/desenvolvimento "Na trajetória de carreira, a pessoa encontra seu lugar nestas vocacional e de carreira). formas (da carreira organizacional), conduz sua vida ativa em referência A Administração e a Psicologia Organizacional centraram seus às outras pessoas e interpreta o significado da vida que tem que viver" esforços e objetivos nas empresas e seguiram construindo os planos de (Hughes, 1958, p. 413), ou seja, a carreira seria uma trajetória de cargos e carreira organizacionais, enquanto que a Psicologia Vocacional e a Orien- funções padronizados (carreira organizacional objetiva), mas também o tação Profissional se focaram principalmente nos jovens, e elaboraram sentido atribuído a esta trajetória (carreira ações e estratégias de Orientação Profissional desenvolvidas, em geral, Mais tarde, Donald Super e Edgar Schein irão corroborar esta em instituições educacionais. diferenciação, marcando a existência das carreiras interna e externa (Schein, 1971; Super, 1957). livro Man and their Work, de Hughes (1958), e The Psycho- 2.2 PRINCIPAIS DEFINIÇÕES DE CARREIRA E SEUS logy of Careers, de Super (1957), são produções emblemáticas desta dife- RESPECTIVOS AUTORES renciação, sendo que o primeiro marcaria a ideia da carreira organizacional (Ciências da Gestão) e o segundo a ideia da carreira subjetiva (Ciências do o senso comum, como indicador das principais representações Trabalho). Esta dupla dimensionalidade da carreira marca uma dicotomia sociais elaboradas e reconhecidas de carreira, a define como progresso prática e teórica ao simultaneamente definir carreira como artefato admi- profissional, vida de trabalho marcada por uma profissão ou sequência de nistrativo (ferramenta de gestão de pessoas utilizada para sistematizar as empregos ao longo da vida. Arthur, Hall e Lawrence (1989) apontam que etapas concretas exigidas por uma empresa para organizar a trajetória e o vários campos do saber criaram definições para carreira, principalmente a progresso dos seus funcionários) e como processo psicossocial (maneira Administração, a Psicologia, a Sociologia e a Economia. como a vida de trabalho de uma pessoa é construída ao longo do tempo e A Administração construiu e consolidou a definição do que é do espaço e como é percebida e interpretada por ela), fazendo emergir os estudos da carreira por parte dos dois grandes agrupamentos teóricos já carreira (concepção da carreira organizacional já anteriormente apresen- mencionados Ciências da Gestão e Ciências do Trabalho, que, tradicio- tada) através de autores como Douglas Hall, Edgar Schein, Everett nalmente, não estabeleceram estudos ou ações conjuntas, desenvolvendo-se Hughes e John Van Maanen (Dutra, 1996; D. T. Hall, 1976, 1996, 2002; de forma independente e dicotômica (Ribeiro, 2009b, 2011e). London & Stumph, 1982; Schein, 1971, 1978, 1993; Van Maanen, 1977). A concepção de carreira organizacional ou externa é fruto da A carreira organizacional também é denominada de carreira ob- elaboração de estudos das chamadas Ciências da Gestão, com fins prag- jetiva (Hughes, 1937, 1958), carreira externa (Schein, 1993), carreira máticos de gestão organizacional das pessoas (dimensão administrativa), burocrática (Chanlat, 1995) e carreira corporocrática (Kanter, 1997). visando o funcionamento organizacional eficiente e o aumento da produti- A Psicologia, cujo eixo central é a pessoa, principalmente atra- vidade e da competitividade (foco: gestão de pessoas e planos de carreira). vés dos teóricos da Psicologia Vocacional e da Orientação Vocacional, A concepção de carreira subjetiva ou desenvolvimento voca- produziu muitas concepções de carreira, variáveis em função de sua base cional no trabalho, por sua vez, é fruto da elaboração de estudos das teórica, através de autores como Frank Parsons, John Holland e Donald chamadas Ciências do Trabalho, principalmente do campo da Orientação Super, sendo definida como: Profissional, visando compreender os processos psicológicos de constru- a) expressão da vocação no mundo do trabalho para o Enfoque Teórico (Crites, 1974; Dawis & Lofquist, 1984, Parsons, 1909/2005); 13 Como veremos adiante, significados serão concebidos como "construções elaboradas coletivamente em um determinado contexto histórico, econômico e social concreto. Já os sentidos são uma produção pessoal decorrente da apreensão individual dos signifi- 14 o Enfoque Teórico Traço-Fator em Orientação Profissional tem base mecanicista e cados coletivos, nas experiências cotidianas" (Coutinho, 2009, p. 193). postula que cada pessoa se caracteriza por um conjunto de traços psicológicos e fato-48 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 49 b) veículo de autorrealização pelo trabalho para o Enfoque As Ciências da Gestão geraram o modelo axial ou estrutural Teórico (Holland, 1973, 1997); (forma tradicional e que deu origem a ideia de carreira organizacional, ou c) ciclo evolutivo vital de experiências no trabalho e de saliên- seja, analisá-la a partir de sua estrutura ou plano construído pelas empre- cia de papéis sociais para o Enfoque Teórico Desenvolvi- sas), se constituindo como (Super, 1953, 1985). Um artefato administrativo ou uma ferramenta para gerir a trajetória A Sociologia define carreira como "desempenho de papéis sociais de cargos e funções a ser trilhada pelos funcionários de determinada no trabalho (Berger & Luckmann, 1980); mobilidade social (Boudon & empresa. Era previamente elaborada pela gerência, ganhava o nome de Bourricaud, 1994); estruturas de trabalho inseridas em organizações plano de carreira ou simplesmente carreira e todo aquele que ingres- sasse numa empresa deveria ser inserido neste plano (Ribeiro, 2011e, (Blau & Duncan, 1967)" (Ribeiro, 2009b, p. 121). E a Economia vê a p. 306-307). carreira como uma resposta às forças do mercado de trabalho. As concepções iniciais de carreira, tanto nas Ciências da Gestão quanto nas Ciências do Trabalho, tinham seu foco em processos de ajus- E as Ciências do Trabalho propuseram modelos mais focados tamento e/ou adaptação da pessoa ao mundo do trabalho com base epis- na dimensão psicológica, como já anteriormente citado, através de três temológica do e do concepções distintas: a) Modelo dos Perfis (descrição de díades de ajustamento en- tre pessoa e trabalho), como propôs Frank Parsons (Parsons, res individuais específicos e estáveis, que podem ser mensurados por técnicas psico- 1909/2005); métricas. Estes traços se desenvolvem na relação com o ambiente até a puberdade pa- ra depois se estabilizar. As ocupações podem ser descritas objetivamente em termos b) Tipológica (descrição de estruturas genéricas de carreira, dos traços exigidos para um desempenho eficiente, funcionando como referência entendidas como relação do tipo da pessoa com o tipo cor- prescritiva. Quanto melhor o ajustamento vocacional, maior será a satisfação e o su- respondente de ambiente), como propôs John Holland (Hol- cesso profissional. Seu principal pensador foi o norte-americano Frank Parsons (Ri- land, 1973, 1997); beiro & Uvaldo, 2011a). 15 Enfoque Teórico Tipológico em Orientação Profissional tem base funcionalista, c) Desenvolvimentista (estabelecimento de um ciclo de etapas postula que as escolhas são uma expressão da personalidade, ou seja, pessoas de per- sequenciais e previsíveis, necessárias para o progresso da sonalidades semelhantes criam ambientes físicos e interpessoais característicos, que pessoa no trabalho), como propôs Donald Super (Super, podem ser categorizados através de uma tipologia. Além dos tipos de personalidade, há uma tipologia do ambiente, compreendendo que cada tipo de ambiente tem um 1953, 1985). modo particular de resolver suas questões no âmbito tanto das relações sociais, apre- sentando estilos característicos de interação interpessoal, como também no das estra- tégias específicas de resolução de problemas. As pessoas buscam contextos em que Para Gunz e Peiperl (2007), "é muito difícil identificar um pa- possam realizar tarefas agradáveis e evitar as desagradáveis, realizando ajustamentos drão organizado no campo de estudos de carreira" (p. 40), campo que se vocacionais constantes. Seu principal pensador foi o norte-americano John Holland mantém até hoje fragmentado, com grandes lacunas entre os estudiosos (Ribeiro & Uvaldo, 2011a). da carreira organizacional (Ciências da Gestão) e da escolha profissional 16 Enfoque Teórico Desenvolvimentista em Orientação Profissional tem base e do desenvolvimento de carreira (Ciências do Trabalho), embora, em funcionalista e analisa o processo de desenvolvimento vocacional ao longo do ciclo vital em termos das adaptações sucessivas que cada pessoa realiza na sua relação seus estudos, Donald Super, Edgar Schein e Douglas Hall tenham tentado com a realidade e na possibilidade das representações mentais oriundas deste pro- aproximar as áreas. cesso, nomeada de autoconceito, e da saliência dos papéis a cada momento de vida. Seu principal pensador foi o norte-americano Donald Super (Lassance, Paradiso & Silva, 2011). como funciona esta pessoa funcionamento, este, imutável e constante (Guba, 17 Mecanicismo concebe o ser humano como máquina, ou seja, a pessoa seria uma 1990). máquina dividida em partes que, ao se relacionarem, produziriam, por exemplo, o 18 Funcionalismo concebe o ser humano como um sistema integrado de funções, comportamento que obedece a relações de causalidade previamente estabelecidas. sendo uma estrutura imutável e constante, que, entretanto, se adapta diante das exi- Para entender como uma pessoa faz uma escolha seria, apenas, necessário compreender gências externas e internas (Guba, 1990).50 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 51 De qualquer forma, Gunz e Peiperl (2007) propõem uma siste- matização do que já foi produzido em termos de um campo de estudos da carreira, mesmo dando margem a reducionismos, discordâncias e imper- Autores Níveis de Análise feições, porque "os critérios de classificação científica não se aplicam por completo e não podem ser satisfeitos em sua totalidade" (Crites, 1974, p. 30), através de uma topologia (níveis de análise da carreira) e uma taxo- Individual Institucional Contextual nomia (subcampos de estudos da carreira), conforme se vê no Quadro 1 (traduzido de Gunz & Peiperl, 2007). Sonnenfeld & Kotter (1982) Enfoque dos traços Enfoque da estrutura Enfoque do ciclo social de vida Topologia Taxonomia Arthur & Lawrence (1984) Diferenças individuais Estudos Estágios de vida organizacionais Individual Personalidade, interesses, valores, sucesso, escolha profissional, perfil, carrei- Young & Collin (1986) Biográfico Ecológico Hermenêutico ra interna, ajustamento vocacional D. T. Hall (1987) Planejamento Administração Espectro de carreira de carreira de carreira Institucional Sistemas de carreira, padrões de carreira, contrato psicológico, planejamento e gestão da carreira Gingras, Spain & Circunscrita Organizacional Estendida Cocandeau-Bellanger (2006) Contextual Identidade, estágios e desenvolvimento de carreira, ciclo de vida Quadro 2. Exemplos de sistematização no estudo das carreiras. Quadro 1. Topologia e taxonomia dos estudos de carreira. De forma geral, pode-se constatar que os estudos de carreira re- 2.3 o CAMPO DE ESTUDOS DA produzem as principais áreas dedicadas a esta temática, cada qual com CARREIRA um nível diferenciado de foco e de objetivos, ou seja, a Administração em nível institucional (e organizacional), a Psicologia em nível individual Antes de apresentar e discutir as mudanças na configuração do e a Psicologia Social em nível contextual, como se vê em sistematizações campo de estudos da carreira, será realizada uma breve reflexão sobre a feitas nos últimos 25 anos por autores tanto nas Ciências da Gestão quan- questão central e desencadeadora deste processo focada nas transforma- to nas Ciências do Trabalho (Quadro 2 traduzido de Gunz & Peiperl, ções do mundo do trabalho e seus impactos sobre os trabalhadores, as 2007). carreiras e o próprio mundo do trabalho, principalmente através de es- Os enfoques teóricos caminhavam em paralelo, mas não relacio- tudos sob a perspectiva alargada da área da Psicologia Social e, especi- nados, fazendo com que a carreira fosse explicada através de uma dico- ficamente da área da Psicologia Social do Trabalho, que tem como obje- tomia entre desenvolvimento vocacional (não visto como carreira) e pla- tivo a compreensão das relações possíveis entre pessoas e mundo do nos organizacionais de carreira (concepção tradicional de carreira organi- trabalho em seu cotidiano, nos seus mais variados aspectos, como senti- zacional), perfazendo um problema epistemológico crônico, pois, apesar dos e significados do trabalho, práticas e atividades de trabalho, condi- da pluralidade de enfoques, cada um privilegiava um aspecto isolado ções e processos organizativos do trabalho, e trajetórias e identidades de (Ribeiro, 2009a). trabalho.52 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 53 2.3.1 A Função do Trabalho para a Realização Humana e a Dependendo das condições para sua realização e da organização Estruturação do Mundo do Trabalho em que ele é executado, pode conferir ou retirar a humanidade: é nesta ambiguidade que pode ser analisado o trabalho, entendendo que todo A importância do trabalho para a vida humana evoluiu ao lon- trabalho requer um esforço físico e mental, empreendido através de uma go dos tempos com a própria evolução do ser humano. Segundo Marx (1867/1980), o trabalho "é um processo de que participam o homem e a ação sobre o mundo, que volta para si mesmo, é detentor de uma meta ou objetivo, ou seja, todo trabalho é uma ação intencional que visa um resul- natureza, processo em que o ser humano com sua própria ação impulsi- tado ou produto, sendo que este processo pode gerar transformação ou ona, regula e controla seu intercâmbio material com a natureza" alienação (sofrimento) e o que definiria o produto do trabalho seria o fato (p. 202), ideia que Lukács (1982) avança atribuindo ao trabalho uma dele ser reconhecido psicossocialmente como trabalho: pessoa e socieda- dimensão ontológica fundante da sociabilidade humana, para além da de devem legitimar determinada ação como trabalho para que ela seja ultrapassagem do limite natural, sendo sua forma elementar de ação, reconhecida como tal. que permite às pessoas transformar a natureza, se autotransformar e transformar as relações psicossociais num processo dialético que as inscreve na vida, como produtoras e produtos de uma sociedade (proto- Esforço Penoso Fabricação forma do ser social). trabalho seria a atividade central a partir da qual nascem to- Latim Laborare Operare das as objetivações humanas e a sociedade: trabalhar é "sair de si" e se autoconstruir pela atividade de trabalho, construindo, desta maneira, a Italiano Lavorare Operare subjetividade, a cognição, a identidade e a própria sociedade neste pro- cesso (Clot, 2006; Dejours, 1999a). Francês Travailler Ouvrer Importante salientar que o trabalho carrega em sua essência Espanhol Trabajar Obrar uma dualidade ontológica fundante que o faz ser, ao mesmo tempo, ação de emancipação, realização e fabricação de si e do mundo e ação de so- Português Laborar Trabalhar frimento, esforço penoso e alienação de si e do mundo. Inglês Labour Work Alemão Arbeit Werk Realização de uma obra que seja expressão da vida humana e traga reconhecimento e permanência, ou seja, inscrição social e possibilida- Resultante Robotização e Sofrimento Emancipação e Realização de de construção de uma história: TRABALHO como EMANCIPA- Psicossocial ÇÃO (gerador de vida); Esforço rotineiro e repetitivo, sem reconhecimento, nem permanên- cia, mera realização de uma atividade que não deixa vestígios, nem Quadro 3. Expressão linguística da dualidade ontológica fundante do produto final, não faz história, que aproxima o homem do animal e re- trabalho em sete línguas ocidentais. duz a subjetividade humana à sua dimensão real mínima (a dimensão fisiológica) desconectando, então, as dimensões temporais de passado, presente e futuro e impedindo a construção de projetos de vida: TRA- H. Arendt (1958/1987) coloca que o trabalho contribuiria para BALHO como ROBOTIZAÇÃO (gerador de vazio existencial e doen- uma vida ativa entendida como a possibilidade de existir e laborar na ças) (Ribeiro, 2006, s/n). construção do mundo e das relações psicossociais, se constituindo em dimensão fundante da condição humana de existência, condição humana que, segundo a autora, se construiria a partir de três dimensões: Esta dualidade ontológica pode ser identificada via construções linguísticas das principais culturas ocidentais, conforme se pode visuali- zar no Quadro 3, elaborado com base em Albornoz (1986). o labor (labour), que é a atividade mecânica; o trabalho propriamente dito (work), que é a produção de bens duráveis e permanentes na vida54 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 55 mundana; e a ação (action), que é a possibilidade da construção da neste processo, a práxis social, definida como o modelo das relações e história subjetiva e social pelas trocas e laços que o trabalho em sua práticas sociais, bem como a teoria deste modelo social. trabalho e os totalidade possibilita (Ribeiro, 2004a, p. 65). processos e a organização do trabalho seriam centrais para a estruturação e dinâmica sociais, por isso se constituiriam como protoforma do ser A impossibilidade de uma vida ativa, mediada pelo trabalho, social. produziria uma vida sem sentido, uma dificuldade de reconhecimento Em sua dimensão subjetiva, Dejours (1999a, 2003) aponta que a social e uma situação de vulnerabilidade social (Castel, 1995). relação pessoa-trabalho seria a única possibilidade de acesso ao que ele trabalho pode ser analisado a partir de suas várias dimensões chama de real, que seria aquilo que escapa ao conhecimento e apreensão constituintes: psicológica, socioeconômica e psicossocial, mas sempre da pessoa e a interpela constantemente requisitando resistência, adaptação guardando sua dualidade ontológica fundante, conforme podemos visua- ou mudança, convocando-a a dar sentido a sua relação com o trabalho e lizar na Figura 1, por mim elaborada. com o mundo sociolaboral: "O real é a parte da realidade que resiste à simbolização" (Dejours, 1997, p. 41). DIMENSÃO DIMENSÃO DIMENSÃO É pelo trabalho que eu consigo transcender minha natureza e me PSICOLÓGICA PSICOSSOCIAL SOCIOECONÔMICA emancipar enquanto ser dotado de humanidade, pois ela permitiria a sig- nificação da experiência do contato de si mesmo com o real, experiência geradora de sofrimento, mas também de emancipação. INSTITUIÇÕES E SELF IDENTIDADE PAPÉIS SOCIAIS o trabalho media o acesso ao real e possibilita o engajamento do cor- po no mundo; as relações com os outros (mundo intersubjetivo); a construção de um lugar e de uma identidade no campo psicossocial; a FUNDANTE DAS produção de sentidos; e o reconhecimento social (Ribeiro, 2010b, p. FUNDANTE DA FUNDANTE DA RELAÇÕES 334). SUBJETIVIDADE PRÁXIS SOCIAL PSICOSSOCIAIS o trabalho seria o mediador primordial desta relação com o real, Figura 1. Relação entre as dimensões constituintes do trabalho. relação esta sempre estabelecida entre o eu e o outro, geradora da psico- dinâmica do trabalho. Dejours (1999a) explicita isto através de uma figu- Cada dimensão não é separada da outra, pois o trabalho é uma ra triangular, sendo que cada vértice é fundamental para que o trabalho coisa Esta divisão apenas fixa três zonas do continuum existente que possa ser reconhecido como trabalho: a falta de um dos vértices destitui- contém dois extremos (dimensões psicológica e social) e uma zona in- ria a ação da capacidade potenciadora de ser trabalho. termediária (dimensão psicossocial) e pode ser analisada separadamente, trabalho para ser trabalho deve partir do EU (dimensão subje- mas nunca sem levar em conta a outra dimensão, porque o continuum tiva), se realizar no REAL do mundo (dimensão concreta) e ser legitima- marca uma qualidade dialética de relação, na qual a transformação de do pelo OUTRO (dimensão social), configurando a relação EU-OUTRO- uma gera uma transformação nas outras que, por sua vez, retornam para a -REAL que definiria a relação psicossocial inerente ao trabalho ou a psi- dimensão inicial transformada (Ribeiro, 2004a). codinâmica do trabalho como nomeia Christophe Dejours. Esta relação Em sua dimensão socioeconômica, segundo Marx (1867/1980) (EU-OUTRO-REAL), fundante da psicodinâmica do trabalho, pode ser e Lukács (1982), o trabalho é, como já apontado, a protoforma do ser analisada pelas suas três dimensões constituintes, conforme podemos ver social nos últimos séculos, ou seja, se constitui na dimensão ontológica na Figura 2 (retirada de Dejours, 1999a). da subjetividade e da identidade humana, permitindo a produção de si e da sociedade numa relação dialética de transformação recíproca, gerando,Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 57 56 Marcelo Afonso Ribeiro (1) fenômeno temporário nas vidas dos empregados, gerado por um REAL desequilíbrio pontual no mercado ou pela falta de oferta de trabalho com condições dignas; (2) escolha voluntária por uma vida sem traba- lho assalariado; (3) necessidade capitalista de um exército de reserva. Em geral, a quantidade de pessoas em situação de desemprego não era significativa e elas eram auxiliadas por benefícios das políticas de as- sistência social, embora esta situação de bem-estar social nunca tenha sido uma realidade plena no Brasil (Ribeiro, 2010b, p. 334-335). Segundo Blanch (2003) e Novo (2005), a sociedade salarial ge- rou um Mecanismo ou Sistema Emprego-Desemprego que organizava a EU OUTRO vida dos trabalhadores, como se vê na Figura 3 por mim elaborada com base nos autores citados. Figura 2. Psicodinâmica do trabalho: relação eu-outro-real. EMPREGO DESEMPREGO Em sua dimensão psicossocial, segundo Dejours (1999a), po- demos dizer que as pessoas precisam do outro para se organizar subjeti- NÚCLEO ESTÁVEL NÚCLEO TEMPORÁRIO vamente e precisam do trabalho para se organizar identitariamente, ou OU VOLUNTÁRIO seja, a relação com o outro busca contribuir na constituição da subjetivi- dade (campo afetivo e relacional), e a relação com o trabalho é fundamen- tal para colaborar na constituição da identidade humana (campo social). A Figura 3. Sistema Emprego-Desemprego (mundo do trabalho tradicional). dimensão psicossocial, portanto, marca a relação entre o psicológico e o social e demonstra, concretamente, as alterações operadas em ambos os Esta sistematização do mundo do trabalho produzia uma vida extremos, sendo um ótimo indicador do que acontece no mundo do traba- sociolaboral definida por uma previsibilidade (Tempo de Chronos), lho, tanto às pessoas quanto à sociedade, via identidade. rigidez, continuidade, homogeneidade, normatividade e pelo emprego Marcada a importância indelével do trabalho como potencial es- como forma primordial de vínculo ao mundo do trabalho, gerando uma truturador da existência humana e mediador primordial da relação com o experiência de vida psicossocial estável e de adaptação a uma ordem de mundo e com os outros, em suas três dimensões constituintes, cabe pen- coisas predefinidas. Como já apontado anteriormente, a situação socio- sar como sua institucionalização se processou analisando como a sociedade laboral sofreu transformações a partir dos anos 1970 por conta do avan- e as relações se estruturaram em torno do trabalho, originando o mundo tecnológico, da globalização econômica e da necessidade de aumen- do trabalho, e como ele tem afetado a vida sociolaboral das pessoas. tar a produtividade e a competitividade no mercado de trabalho, que vem gerando um processo de desmodernização e de transição definido 2.3.1.1 Sistema Emprego-Desemprego como estruturador do com consequente fragilização e heterogeneização das estruturas sociais, mundo do trabalho tradicional flexibilização e do trabalho e descontinuidade de vida A sociedade do trabalho, definida sob a égide da sociedade sala- (Sennett, 1998; Touraine, 1998). rial do emprego, gerou um mercado formado pelo conjunto de empregos existentes, definido como vínculo assalariado de trabalho, no qual um 19 o mundo do trabalho pode ser analisado, de um lado pelas Ciências da Gestão foca- trabalhador vende sua força de trabalho para um capitalista em troca de das no aumento da produtividade; e de outro lado, pelas Ciências do Trabalho, foca- um salário, gerando a associação direta entre trabalho e emprego. das na melhoria das condições e das relações humanas no trabalho. A forma como se adjetiva a mudança da organização e dos vínculos ao trabalho depende do olhar Ciências que se desemprego, neste contexto, seria um(a) dirige ao ou seja, a flexibilização seria o termo empregado pelas58 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 59 2.3.1.2 Sistema Trabalho Estável - Trabalho Vulnerável gerada pela vinculação ao mundo do trabalho, configurando Não-Trabalho como estruturador do mundo do um novo formato ao mundo do trabalho marcado pela potencialidade trabalho contemporâneo maior de exclusão do trabalho (Castel, 2009). Sistema Emprego- Subemprego-Desemprego, nomeado desta maneira, manteria o emprego A estrutura homogênea e estável de mundo vigente começou a dar lugar como central no mundo do trabalho, sendo que vários autores contempo- a uma estrutura heterogênea, sempre transitória, instável e em mudança constante (Tempo de Kairós), quebrando a lógica moderna do Sistema râneos vêm discutindo a permanência da centralidade do trabalho, princi- Emprego-Desemprego. Este sistema permaneceu como lógica organiza- palmente do emprego, para a organização social. tiva, mas vislumbrou o surgimento da categoria do subemprego, que Corroborando as reflexões realizadas por Antunes (1999) e Les- englobava todas as formas de trabalho caracterizadas pela precarização sa (2002), o trabalho não perdeu sua centralidade, mas o emprego sim. e flexibilização da organização do trabalho e dos vínculos com o mundo Lessa (2002), ao analisar a centralidade do trabalho na contemporaneida- do trabalho, e o aumento considerável do desemprego, principalmente o de, faz um questionamento fundamental: "qual centralidade, qual traba- desemprego estrutural (Singer, 1998), sendo esta a característica central lho?", deixando claro que houve uma ruptura na centralidade do trabalho da atual fase do capitalismo (Mészáros, 2006). Segundo Mattoso (1994), como atividade cotidiana privilegiada e na centralidade política do traba- pode-se apontar quatro tendências principais da (1) Fun- cional (inespecificidade dos postos e processo de trabalho, bem como lhador pela fragmentação e heterogeneização da classe trabalhadora, que- dos requisitos dos trabalhadores para o desenvolvimento do trabalho); brando, em parte, com o próprio senso de classe, entretanto não houve (2) Legal e contratual (desregulamentação das condições contratuais de uma ruptura na centralidade ontológica do trabalho, ou seja, trabalhar trabalho); (3) Espaço-temporal (falta de regularidade em termos de es- ainda seria indispensável para a existência humana. paço de trabalho e tempo despendido com o mesmo); e (4) Salarial Segundo Lessa (2002), o trabalho concreto segue sendo neces- (diminuição do salário fixo pela venda da força de trabalho como regra). sário para construção da práxis social e o trabalho abstrato para reprodu- Com a diminuição do emprego tradicionalmente estabelecido, o subem- aparece como forma de inserção no mundo do trabalho, alterna- ção do tiva ao emprego, e numa tentativa de saída da situação de desemprego, Cônscio desta transformação da dinâmica do mundo do traba- que tem assolado um contingente cada vez maior de trabalhadores desde lho, propus uma alteração na terminologia do sistema postulado por então (Ribeiro, 2010b, p. 335-336). Blanch (2003) e Novo (2005), retirando a centralidade do emprego e utili- zando o termo genérico "trabalho" e suas expressões no mundo do traba- Sistema Emprego-Desemprego se modifica e daria origem, lho contemporâneo para apresentar um retrato esquemático deste momen- segundo Blanch (2003) e Nova (2005), ao Sistema Emprego-Subem- to atual do trabalho, originando um Sistema com três expressões das rela- prego-Desemprego, formado por três núcleos distintos de agrupamentos ções psicossociais e vínculos sociolaborais: Trabalho Estável (substituin- dos trabalhadores em função da estabilidade ou da vulnerabilidade psi- do emprego), Trabalho Vulnerável (substituindo subemprego) e Não- -Trabalho (substituindo o desemprego), conforme podemos ver na Figura 4, por mim elaborada. da Gestão, apontando que a única maneira de desenvolvimento para o capitalismo se- ria pela ruptura da rigidez anteriormente fixada, sendo essa a importância da flexibili- zação para trabalhadores e capitalistas; enquanto que as Ciências do Trabalho nomea- riam o mesmo fenômeno de precarização, pois esta mudança pioraria a vida dos tra- 21 Estes conceitos serão definidos ao final desta seção. balhadores e suas condições de trabalho em nome do desenvolvimento do capital (Ri- 22 Marx (1867/1980) fala em um trabalho concreto e em um trabalho abstrato. pri- beiro, 2010b, p. 335). meiro refere-se ao trabalho como um fim em si mesmo, produtor de valores-de-uso 20 subemprego pode ser definido como formas precárias e/ou flexíveis de empregos e ontologia da existência humana; enquanto o segundo aponta o trabalho como um geradas pela ruptura total ou parcial de direitos, benefícios e garantias que o vínculo meio, mero produtor de valores-de-troca, que constitui a lógica instrumental, ou se- empregatício trazia, por isso aqui nomeada de subemprego como uma categoria in- ja, o trabalho seria apenas um meio para conseguir o fim maior, que é o capital, se ferior de emprego. Torna-se a alternativa mais utilizada por um grande número de tornando alienado, pois seu produto não é apropriado e não se constitui numa ativi- trabalhadores como saída à situação de desemprego e resistência à informalidade dade humanizadora em função de transformar as relações humanas de trabalho em (Ribeiro, 2010b). relações mercantis transformação da sociabilidade (Ribeiro, 2004a, 2010b).60 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 61 flexissegurança ou estabilidade contemporânea, na qual a TRABALHO TRABALHO segurança advém da capacidade de negociar e manter vín- ESTÁVEL VULNERÁVEL NÃO-TRABALHO culos com o mundo do trabalho, mesmo que temporaria- mente, embora estejam submetidos a uma vulnerabilidade NÚCLEO NÚCLEO NÚCLEO psicossocial e a uma fragilização das proteções ESTÁVEL DEGRADADO sociolaborais; INSTÁVEL c) o núcleo degradado é composto por trabalhadores que tem dificuldade de estabelecer qualquer tipo de vínculo com o Figura 4. Sistema Trabalho Estável Trabalho Vulnerável Não-Tra- mundo do trabalho, por mais precarizado que seja, e viven- balho (mundo do trabalho contemporâneo). ciam uma situação de não-trabalho, extremamente danosa para sua vida e relação psicossocial e com pouca ou nenhu- a) o núcleo estável é composto por trabalhadores que mantêm ma proteção sociolaboral. um vínculo mais duradouro e com melhores condições de trabalho e proteções sociolaborais, em função de serem Vale marcar que a construção de si nestes núcleos é sempre de- mais e/ou dispostos a se adaptar às demandas finida relacionalmente, nunca por uma característica pessoal ou uma de- do trabalho, se constituindo ou não em um vínculo empre- manda clara e objetiva do contexto. gatício. Pode, também, ser chamado de núcleo central dos Segundo Castel (2009), a luta por melhores condições de traba- trabalhadores; lho travada no Sistema Emprego-Desemprego dá lugar à luta contra a b) o núcleo instável é composto por trabalhadores que tem di- exclusão do trabalho no proposto Sistema Trabalho Estável Trabalho ficuldade de manter um vínculo mais duradouro, em função Vulnerável Não-Trabalho, o que torna o trabalhador mais frágil e com de uma menor qualificação e uma maior dificuldade da menos poder de pleitear uma vida melhor de trabalho, em geral, disponí- adaptação, vivendo a situação de temporário como uma si- vel para a submissão à flexibilização como saída para a exclusão tuação permanente, a qual deve se adaptar e conviver, bus- (Mészáros, 2006). cando gerar continuidade através da somatória de trabalhos A configuração do mundo do trabalho, assim, se torna mais he- e empregos, em geral, associados a formas flexíveis ou pre- terogênea, fragmentada, flexível e complexa, rompendo com a normativi- cárias do trabalho em tempo parcial, temporário, teletraba- dade anteriormente constituída e deixando os trabalhadores sem parâme- lho, terceirização e/ou informalidade, algumas delas já exis- tros de referência definidos, sendo levados a viver na flexissegurança ou tentes no sistema tradicional, mas agora exercidas por mais estabilidade contemporânea, como única possibilidade atual de segurança trabalhadores como fuga para a situação de desemprego no mundo do trabalho (Antunes, 1999; Blanch, 2003). diante da impossibilidade de ter um emprego. Apesar desta medo do não-trabalho, em geral, representado socialmente situação de transitoriedade, conseguem viver na chamada como desemprego, segue sendo um fantasma potencial que assombraria à quase relegando as pessoas a uma situação de instabilidade, 23 É importante salientar que a qualificação não é uma qualidade absoluta e objetiva- insegurança, falta de referências seguras, desconfiança dos padrões pas- mente definida por uma formação educacional ou por um conjunto de conhecimentos sados e desconhecimento do que fazer para o futuro. e habilidades que uma pessoa possua. Antes disso, ela se constitui como uma qualida- de psicossocialmente produzida, não claramente intercambiada e que teria uma função Castel (1997) aponta que o mundo do trabalho vem sofrendo um: muito clara de regulação do mundo do trabalho. Neste sentido, dizer que uma pessoa é mais ou é menos qualificada significa inseri-la na dinâmica psicossocial do mundo do trabalho e entender sua qualificação, não como um valor absoluto, mas sempre um va- 24 Estes conceitos serão definidos ao final desta seção. lor relativo a esta dinâmica, de difícil objetivação e que se transforma em função do 25 Em recente pesquisa (Ribeiro, 2007a), jovens universitários de cursos tecnológicos contexto sociolaboral no qual o trabalhador se encontra, produzindo privilégios para indicaram, de forma espontânea, que a principal ameaça para seu futuro profissional alguns e vulnerabilidade psicossocial para a grande maioria (Ribeiro, 2009b). seria o desemprego (94,44%).62 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 63 Processo gradativo de fraturas em seu tecido pela flexibilização e des- mundo sociolaboral e vivem imersos na insegurança, instabilidade e regulamentação das últimas décadas, abrindo espaço para construções desproteção sociais. Estão impedidos, de forma parcial ou total, de menos normativas, o que tem favorecido uma pequena parcela da po- acessar bens coletivos como saúde, educação e trabalho, antes garanti- pulação e deixado a outra grande parcela em situação de vulnerabili- dos pela inclusão no trabalho (Ribeiro, 2011f, p. 60). dade e, no extremo, vivendo uma desfiliação (Ribeiro, 2011f, p. 60). Segundo Castel (2009), a maioria da população está concentra- Segundo Castel (2009), esta situação vem sendo gerada por um da nas zonas de vulnerabilidade e exclusão em condições objetivas e ma- processo de ruptura da coesão social com três zonas de variação desta teriais de vida bem precárias e com restrições significativas nos suportes coesão: integração, vulnerabilidade e exclusão (vide Figura 5, traduzida sociais e na possibilidade de autonomia e escolha. de Castel, 1995). Castel (1995), Blanch (2003) e Novo (2005) fizeram propostas de sistematização das relações sociais e laborais na contemporaneidade, cada um a partir de uma dimensão distinta, mas sob o mesmo prisma de ZONA DE ZONA DE ZONA DE que há grupos mais integrados e grupos mais vulneráveis, em termos de INTEGRAÇÃO VULNERABILIDADE EXCLUSÃO vinculação ao mundo sociolaboral, que serão aqui articuladas, conforme visualizamos na Figura 6, elaborada por mim, com base nas propostas de sistematização dos autores elencados. Desestabilização Precariedade laboral Excluídos dos estáveis Fragilidade social ESTABILIDADE ESTABILIDADE FALTA DE MODERNA CONTEMPORÂNEA ESTABILIDADE VÍNCULO SOCIAL RUPTURA SOCIAL TRABALHO TRABALHO ESTÁVEL NÃO-TRABALHO Figura 5. Zonas de variação da coesão social. VULNERÁVEL NÚCLEO NÚCLEO NÚCLEO ESTÁVEL DEGRADADO INSTÁVEL a) Integração (ou filiação): pessoas que se beneficiam da estrutura- ção social, têm acesso aos bens sociais, têm seus direitos sociais ga- rantidos e conseguem constituir lugar na sociedade, estabelecer víncu- los, ter reconhecimento e construir uma trajetória sociolaboral. São ZONA DE ZONA DE ZONA DE grupos por excesso, nos quais as pessoas têm as melhores condições objetivas e materiais de vida, o que redunda em boas oportunidades de INTEGRAÇÃO VULNERABILIDADE DESFILIAÇÃO educação e trabalho (Castel, 2009); b) Vulnerabilidade: pessoas que vivem em condições precárias de Figura 6. Estruturação e dinâmica sociolaboral contemporânea. vida, em termos de acesso a bens e direitos sociais, construindo sua trajetória de forma transitória e descontínua, mas ainda assim tendo É importante salientar que: um lugar e um certo reconhecimento social, apesar de estarem instala- dos na precariedade e com pouca proteção social; c) Exclusão (ou desfiliação): grupo dos que lutam Como um movimento processual e dinâmico, há uma pressão mútua contra as impossibilidades de construção de lugares e trajetórias no entre as três zonas propostas, que não seriam estados substantivos, mas relações dinâmicas e processuais, que definem um continuum psi- cossocial, ou seja, as relações e a organização social possuem as três 26 Castel (1997) denomina de "supranumerários" o conjunto de pessoas existentes no zonas que não são separadas e isoladas e sim são dimensões de um mundo que se encontram sem emprego e sem condições clássicas de proteção e segu- mesmo processo, que é o processo de organização e relação social, atra- rança sociais. vés do qual as pessoas circulam entre as zonas (Ribeiro, 2011f, p. 60).64 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 65 Em suma, a sistematização proposta objetivou fazer um retrato Proponho, aqui, uma apropriação da noção de vulnerabilidade esquemático da vida de trabalho, em termos das possibilidades de vínculo de Castel (1995), que, com base na proposta que se encontra em Paiva e condições de trabalho, bem como dos suportes psicossociais gerados (2008), transformou-se na noção de vulnerabilidade psicossocial defini- nestas relações, procurando deixar claro que, ao passar por um período de da nos meus estudos como: transição, a organização e a dinâmica sociolaboral carregam elementos do mundo do trabalho tradicional, como a estabilidade moderna e o vínculo Uma diminuição da possibilidade de estabelecer vínculos e redes so- empregatício, em relação direta com elementos do mundo do trabalho ciais, não uma fragilidade pessoal, nem institucional, e sim relacional, contemporâneo, como a flexissegurança (ou estabilidade contemporânea), ou seja, a vulnerabilidade psicossocial seria a resultante de contextos o trabalho temporário e a vulnerabilidade psicossocial. de intersubjetividade, isto é, espaços delimitados (sociais, culturais, A estabilidade moderna será definida como o modelo de or- laborais, econômicos, simbólicos) de relação, geradores de vulnerabi- ganização e dinâmica sociolaboral determinado por bases objetivas e lidade, nos quais as pessoas se encontram em dificuldade de estabele- sólidas para o vínculo com o mundo do trabalho e a realização do traba- cer vínculos em alguma dimensão significativa da vida, como o traba- lho, gerador de segurança e continuidade vital e, consequentemente, de lho (Ribeiro, 2011f, p. 60-61). uma vida e uma trajetória de trabalho, sendo uma responsabilidade do contexto gerar esta segurança, ou seja, um modelo mais baseado no Neste contexto, é mister ampliar a compreensão do fenômeno social. do desemprego, por exemplo, tratando-o como não-trabalho, concepção A estabilidade contemporânea (ou flexissegurança) será de- mais abrangente que incluiria a concepção tradicional do desemprego, finida como o modelo de organização e dinâmica sociolaboral determi- mais focado em uma análise política e econômica, e requisitaria a colabo- nado por bases menos objetivas e mais fluídas para o vínculo com o ração teórica da Psicologia Social e, mais especificamente, da Psicologia mundo do trabalho e a realização do trabalho, que necessitam muito Social do Trabalho, que é chamada para mais da ação das pessoas na relação como o contexto de trabalho para gerar segurança e continuidade vital e, consequente, uma vida e uma Auxiliar na reflexão teórica e técnica relativa ao desemprego, pois ele, trajetória de trabalho com sentido, sendo um modelo mais baseado na atualmente, se institucionalizou como um fato psicossocial, gerando relação psicossocial. um papel e uma identidade social para a pessoa em situação de de- É importante lembrar que a estabilidade moderna foi uma con- semprego, geralmente associado a atributos de deslegitimação (Goffman, 1975), e provocando impactos significativos na vida dos quista social, rompida na contemporaneidade, pois sem uma base social trabalhadores e de suas famílias, como: isolamento social, transtornos fortemente estruturada, as pessoas ficam mais submetidas aos seus esfor- identitários, ruptura de vínculos, doenças e desconstrução de projetos individualizados, numa postura bem mais ativa e, neste contexto, "a de vida (Ribeiro, 2010b, p. 337). mudança é a norma e a estabilidade deve ser ativamente alcançada e man- tida" (Hosking & Bass, 2001, p. 358), sendo esta a situação da estabilida- de contemporânea que, ao demandar uma atividade maior por parte das A definição da concepção de trabalho e da dinâmica e estrutura pessoas, pode resultar em dois caminhos: do mundo do trabalho, bem como das propostas conceituais da estabili- dade moderna e contemporânea e da vulnerabilidade psicossocial, tam- a) aqueles que conseguem negociar suas relações e vínculos bém auxiliarão na construção da concepção de carreira psicossocial. com o trabalho, em função de suportes subjetivos e objeti- Assim, com a gradativa flexibilização, complexificação e hete- vos que dispõem e se beneficiam desta situação, gerando in- tegração socioloaboral; rogeneização do mundo do trabalho a partir dos anos 1970, as concepções de carreira tiveram que ser revistas e ampliadas, pois as experiências e b) aqueles que têm dificuldades subjetivas e/ou objetivas de trajetórias de trabalho se tornaram mais plurais e menos normativas do fazer esta negociação e se vulnerabilizam por conta desta si- que antes, ocasionando: (a) um alargamento da concepção de carreira tuação, gerando uma vulnerabilidade ou desfiliação socio- anteriormente só construída nas empresas e agora, também, construída no laboral. mundo do trabalho de maneira genérica; (b) a ruptura dos padrões de66 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 67 carreira e a emergência de construções mais relacionais; e (c) a mudança É importante salientar que a carreira organizacional tradicional de foco das empresas para as relações possíveis entre pessoa-trabalho ainda existe nas empresas, não houve a substituição de um modelo por (dentro e fora das empresas) com maior responsabilidade e atividade por outros, entretanto outras formas de sua configuração coexistem já há al- parte das pessoas; e (d) fragmentação profissional e ruptura do vínculo gumas décadas com ela, como deixa claro Falcoz (2001). mais direto entre formação e atuação profissional e ocupacional (Ribeiro, Com essas transformações do mundo do trabalho que vem se 2007b, 2009b). desenrolando nos últimos 40 anos, a carreira organizacional sofreu, tam- Este panorama contemporâneo gerou um desenvolvimento maior bém, modificações profundas como concepção e ferramenta administrati- no campo de estudos da carreira, que passava a se constituir, definitiva- va, fazendo com que as Ciências da Gestão, em geral, de base funciona- mente, em um fenômeno a ser amplamente estudado, por conta de suas lista ou sistêmica, iniciassem um processo de validação de trajetórias de muitas expressões, variações e dimensões. Desenvolvimento, este, tanto trabalho, antes não consideradas como carreiras, fora do espaço organiza- no campo das Ciências da Gestão quanto das Ciências do Trabalho, em cional, resultando na ruptura parcial dos modelos normativos (planos de termos teóricos, conceituais e metodológicos. Assim, os pensadores da carreira ou carreira externa) e dando origem a novas concepções de car- carreira e do desenvolvimento vocacional começaram, então, a repensar reira, tendo como pressupostos centrais que a carreira não seria mais linear, suas bases de análise e de definição da carreira, inclusive para continua- envolveria a relação contínua entre pessoa e empresa e seria elemento de rem a ser uma referência para o mundo do trabalho, o que implicou em interesse conciliado entre ambas (D. T. Hall, 2002). mudanças teóricas e metodológicas (Ribeiro, Silva & Uvaldo, 2011). Assim, o recurso encontrado por estudiosos e profissionais das Ciências da Gestão como tentativa de compreender as novas configura- 2.3.2 Estudos contemporâneos da carreira no campo das ções da carreira e com uma impossibilidade de gerar uma concepção he- Ciências da Gestão gemônica e abrangente de carreira, em função da heterogeneidade de trajetórias de trabalho construídas na contemporaneidade, foi a utilização No campo das Ciências da Gestão, houve uma movimentação de metáforas para descrever e analisar as novas formas das carreiras con- intensa, e temporâneas, mais heterogêneas e menos normativas (Ribeiro, 2009a, 2011e). Alguns estudiosos de carreira, numa visão apocalíptica, chegaram a Em 2010 realizei um estudo (Ribeiro, 2011e) que consultou os anunciar o fim das carreiras, assim como foi anunciado o fim dos em- principais periódicos científicos da área da Psicologia e da Administração pregos e o final da história, pensamentos típicos de momentos de tran- nas últimas duas décadas (1990-2010), localizando os artigos teóricos e sição de modelos como vive o mundo do trabalho há algumas décadas. relatos de pesquisa que apontavam como os trabalhadores vinham cons- Mudança e transformação, não significam, necessariamente, uma des- truindo suas carreiras nas últimas décadas, e as principais metáforas de truição definitiva, mas sim desconstrução e reestruturação, mesmo porque as carreiras possibilitam o vínculo entre indivíduo e mundo do carreira propostas nestes textos foram: trabalho e a sua compreensão, em termos de identidade e representa- a) carreira de Proteu: proposta por Douglas Hall, a carreira ção social, sendo extremamente necessárias para o desenvolvimento seria gerenciada pela pessoa, não pela empresa, e seria ba- humano e social (Ribeiro, 2011e, p. 311). seada num contrato psicológico proteano (foco na pessoa) e num comprometimento organizacional de curto prazo (D. T. D. T. Hall (1996) faz uma síntese muito interessante sobre esta Hall, 1976, 2002). "É a mudança da carreira na organização situação de transição no campo de estudos das carreiras no título do seu para uma carreira baseada na autodireção em busca do su- livro The career is dead Long live the career, assinalando que A carrei- cesso psicológico no trabalho" (Ribeiro, 2011e, p. 313); ra está morta, ou seja, a carreira organizacional não seria mais o modelo b) carreira sem fronteiras: proposta por Michael Arthur e dominante para carreira no mundo do trabalho, contudo e, de forma si- Denise Rousseau, além de ser governada pela pessoa, como multânea, novos modelos surgiram, ampliando suas formas no mundo do aponta a metáfora da carreira proteana, a carreira não seria trabalho, gerando novas oportunidades e restrições, por isso Longa vida à mais confinada a uma única empresa, emprego, profissão, carreira. domínio de saber, sendo marcada pela flexibilidade e pelas68 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 69 oportunidades geradas pelo mundo do trabalho (Arthur, 1994; Concluindo, a carreira nas Ciências da Gestão segue sendo a Arthur & Rousseau, 1996); carreira organizacional, mas se amplia para a carreira proteana, que asso- c) carreira multidirecional: proposta por Yehuda Baruch, a ciada à carreira sem fronteiras, parece resumir bem todas as propostas carreira seria marcada por uma autodefinição de padrões de formuladas, que podem ser genericamente definidas, conforme proposta carreira e sucesso, que indicariam as possibilidades de tra- de alguns autores, como pós-empresarial ou flexível (Baruch, 2004; Kanter, balho, dentro e fora das empresas, numa associação entre a 1997; Tolfo, 2002). carreira proteana e a carreira sem fronteiras (Baruch, 2004, 2006); 2.3.3 Estudos contemporâneos da carreira no campo das Ciências do Trabalho d) carreira caleidoscópio: proposta por Sherry Sullivan e Lisa Mainiero, a carreira seria uma reorganização dos diferentes No campo das Ciências do Trabalho, também houve uma mo- aspectos da vida com o intuito de formar um padrão de car- vimentação intensa, não no sentido de tentar identificar as novas formas reira diferente adaptado à situação particular do momento, da carreira, como nas Ciências da Gestão, mas buscando explicar os pro- em um processo contínuo de reconstrução da carreira. A cessos de construção das carreiras e gerando uma reflexão acerca das metáfora do caleidoscópio representa bem esta ideia, pois as bases de compreensão da vida de trabalho definida pelas relações pessoa- peças de um caleidoscópio são sempre as mesmas, mas a -mundo do trabalho. cada movimento do mesmo forma-se uma nova configura- Hartung (2005) indica que a Orientação Profissional postulava o ção (Cabrera, 2007; Mainiero & Sullivan, 2005, 2006); ajustamento e a adaptação como as operações clássicas de relação pessoa e) carreira portfolio: proposta por Mary Mallon, a carreira se- e contexto, focados nos processos subjetivos para a compreensão da vida ria constituída pelo modelo do autoempreendimento flexível, de trabalho, como as noções de escolha e desenvolvimento vocacional. no qual as pessoas oferecem uma diversidade de práticas la- Segue dizendo que, em um mundo instável e descontínuo, compreender borais ao mundo do trabalho e constroem sua vida de traba- como uma pessoa se ajusta ou se adapta a um lugar no mundo do trabalho lho pelo conjunto destas atividades (Duberley, Mallon & seria insuficiente para o entendimento mais amplo do seu desenvolvimen- Fenwick, 2006; Fenwick, 2006; Templer & Casey, 1997); to de carreira, pois tanto as pessoas quanto os contextos estão em cons- f) carreira organizacional: concepção de carreira já definida tante transformação. que segue sendo o modelo mais presente nas empresas Young e Borgen (1990), Collin (1998) e Bailyn (1989) consta- (Falcoz, 2001; London & Stumph, 1982; Schein, 1978, taram que, 1993; Van Maanen, 1977). Num mundo em transição mais complexo, heterogéneo e flexível, a Outras metáforas menos presentes na literatura especializada da busca de leis gerais e padrões normativos de carreira, com base na es- tabilidade do mundo social e do trabalho, se tornou um caminho me- área também já foram propostas como a ideia das carreiras nômades (Ca- todológico pouco eficaz, pois numa realidade marcada pela instabili- din, Bender, Saint-Giniez & Pringle, 2000), da carreira espiral (Evans, dade e mudança constante, o foco das pesquisas deveria ser a explora- 1986), da constelação das carreiras (Higgins & Thomas, 2001) e do pan- ção qualitativa, ao invés da comprovação quantitativa de hipóteses, o demônio de carreira (Brosseau, Driver, Eneroth & Larsson, 1996). que permitiria a análise da mudança e não da estabilidade, como se Pode-se dizer, dessa maneira, que as Ciências da Gestão transfe- tem realizado por tradição (Ribeiro, Silva & Uvaldo, 2011, p. 222). riram o foco de estudos da organização de trabalho (empresas), tradicio- nalmente sistematizadoras das carreiras, para os trabalhadores que seriam Hartung (2005) propõe que a tarefa contemporânea para a com- os atuais responsáveis pelo planejamento e gestão das carreiras. o foco preensão das carreiras seria entender como as pessoas constroem suas na estruturação social passa para o foco na construção individualizada, carreiras, ou seja, que processos estão em jogo na relação entre pessoa e caminho que vem se demonstrando teoricamente insuficiente, para anali- mundo do trabalho, que geram a construção da carreira, como uma cria- sar a vida de trabalho como um processo psicossocial. ção original oriunda desta relação.70 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 71 Neste sentido, a análise da carreira exigiu novos estudos mais cessos complexos das relações pessoa-trabalho, focados em processos de focados em processos de construção do que de ajustamento ou adaptação, construção, mais heterogêneos e psicossociais, e menos normativos, atra- buscando novas bases epistemológicas menos positivistas e mais interpre- vés dos seguintes modelos (Ribeiro, 2011g): tivistas, como o construtivismo e o construcionismo (Greene, 1990). A a) Modelo do Arco-Iris de Carreira. modelo proposto por perspectiva construtivista pode ser assim definida, segundo Guba (1990): Donald Super busca articular o desenvolvimento vocacional com uma perspectiva contextual de base construtivista. Para Ontologia realista (a realidade objetiva existe, mas há somente a tal, postula que a carreira seria um processo psicossocial de possibilidade de construção de representações sobre a realidade, não adaptação recíproca entre pessoa e contexto gerado na arti- de acesso à realidade mesma, que seria inacessível diretamente Gu- culação entre a dimensão do Life-span (ciclo de vida ou di- ba, 1990); mensão temporal e evolutiva do desenvolvimento vocacio- Epistemologia subjetivista, pois o conhecimento emerge da repre- nal) e dimensão do Life-space (espaço de vida ou dimensão sentação do indivíduo sobre si mesmo e sobre o contexto no qual esta- espacial do contexto sociocultural constituído de papéis so- ria inserido e refletiria a realidade, pois "realidades existem na forma ciais), ou seja, a carreira seria o processo resultante da arti- de construções mentais múltiplas, locais e específicas, tecidas social e culação espaço-temporal contínua entre os principais papéis experiencialmente, dependentes, para sua forma e conteúdo, das pes- sociais vividos por cada pessoa ao longo da vida (Lassance, soas que as detêm" (Guba, 1990, p. 27); Paradiso & Silva, 2011; Super 1985, 1990); Metodologia hermenêutica e dialética, pois as "construções indivi- duais são eliciadas e refinadas hermeneuticamente e comparadas e b) Modelo Transicional. modelo proposto por Nancy contrastadas dialeticamente, com o auxílio da geração de uma ou mais Schlössberg, de base construtivista, versa que diante da construções nas quais haveria um consenso substancial" (Guba, 1990, instabilidade do mundo contemporâneo fica muito difícil p. 27) (Ribeiro, 2011g, p. 20). analisar as trajetórias de carreira, então a solução seria compreender os processos de transição de carreira, como Já a perspectiva construcionista pode ser assim definida, segun- forma de explicação das formas predominantes que cada do Guba (1990): pessoa utiliza em seu desenvolvimento de carreira (Maga- lhães, 2011; Schlössberg, 1984, 2005); Ontologia relativista (realidade intersubjetivamente construída via c) Modelo o modelo propos- discurso e práticas sociais); to por Fred Vondracek e colegas, de base construtivista, pos- Epistemologia intersubjetivista, pois o conhecimento emerge da tula que a carreira (ou desenvolvimento vocacional) seria re- trama intersubjetiva, sendo um discurso sobre a realidade, nunca a rea- sultante da interação entre dois processos dinâmicos: o desen- lidade mesma; volvimento ao longo da vida de cada pessoa, entendida como Metodologia dialógica e transformativa, como propõe Santos (2003) uma estrutura interna e permanente do organismo numa epi- ao postular uma hermenêutica diatópica, ou seja, a interpretação sobre gênese predeterminada (mudança previsível e predefinida pe- a realidade é construída e negociada na relação psicossocial, que cria a las características do organismo), interligado com um contex- própria realidade com o discurso e as práticas resultantes desta rela- to multidimensional de mudança probabilística (mudança não ção. A hermenêutica diatópica "exige uma produção de conhecimento previsível) (Ribeiro, 2011g; Vondracek, 1990, 2001); colectiva, interactiva, intersubjectiva e reticular" (Santos, 2003, p. d) Modelo do Life Designing. o modelo proposto pelos 448) (Ribeiro, 2011g, p. 21-22). membros do Life Design International Research As Ciências do Trabalho, em geral, têm tentado propor concep- ções da carreira menos centradas unicamente em processos subjetivos e 27 o Life Design International Research Group é composto pelos seguintes pesquisado- mais relacionais e contextualizadas, por conta da crescente instabilidade res: Mark L. Savickas (EUA), Jean Guichard (França), Maria Eduarda Duarte (Portu- gal), Jean-Pierre Dauwalder (Suíça), Jérome Rossier (Suíça), Salvatore Soresi (Itália), do mundo, buscando construir concepções que abarcassem os atuais pro- Laura Nota (Itália), Rauol Van Esbroeck (Bélgica) e Annelies Van Vianen (Holanda).72 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 73 de base construtivista, amplia a concepção de carreira para rumos da investigação em Psicologia Vocacional e desenvolvimento de construção da vida (Life Design), entendida como a narrati- carreira, concluiu-se que, diante de um mundo do trabalho heterogêneo, va processual da articulação entre a construção da carreira complexo e fragmentado, as pesquisas que tinham a carreira como fe- (career construction), a construção de si (self-making) e a nômeno central: modelagem da identidade (identity shaping), geradora de um senso de identidade e da adaptabilidade psicossocial, Deveriam levar em conta um estudo extensivo das pessoas (desenvol- coerente e conectada, construída através de um agenciamen- vimento vocacional), das organizações do trabalho (desenhos de car- to (ação) biográfica na relação de coconstrução eu-outro. reira), e da relação entre ambos; uma análise do mundo do trabalho Em suma, a carreira seria a narrativa da vida de trabalho como dimensão psicossocial heterogénea constituída de uma diversi- com um senso de identidade, coconstruída na relação eu- dade de contextos e dinâmicas de carreiras em relação às outras di- outro (Duarte, 2009a; 2009b, 2011; Guichard, 2009; Sa- mensões sociais (família, educação, lazer, Estado); e um estudo explo- vickas et al., 2009); ratório aprofundado sobre as populações não-tradicionais e minorias e) Modelo Contextualista da Ação. modelo proposto por no mundo do trabalho (Ribeiro, Silva & Uvaldo, 2011, p. 223). Richard Young e Ladislav Valach, de base construcionista, aponta que a carreira se definiria por projetos colocados em Assim, uma ampliação do escopo da análise do fenômeno da prática através de ações contextualizadas, constituindo uma carreira seria importante e desejável, o que promoveu um conjunto de narrativa de vida que permitiria a construção de si direcio- pesquisas sobre as possíveis relações que poderiam ser estabelecidas en- nado ao outro, sendo organizadora de si e do contexto atra- tre trabalho e pessoas com características psicossociais específicas, como vés do estabelecimento de coerência e continuidade das pessoas em situação de sofrimento mental (Ribeiro, 2006, 2007b, 2009d), ações e projetos, o que possibilitaria a criação de uma estru- pessoas com deficiência (Ribeiro & Ribeiro, 2008a, 2008b, 2012; Paiva tura e de um processo dentro do qual se compreenderia esta Silva & Ribeiro, 2011), pessoas em situação de desemprego (Ribeiro, narrativa de vida definida como carreira (Young & Valach, 2007b, 2009e, 2010b; Ribeiro, Farina & Neves, 2008) e jovens em situa- 1996, 2009; Young, Valach & Collin, 2002). ção de vulnerabilidade psicossocial (Ribeiro, 2007a, 2010a, 2011f), bem como uma análise psicossocial dos fenômenos em questão como a "lou- Como conclusão, pode-se dizer que a Orientação Profissional, cura", as "deficiências", o "desemprego" e as "juventudes". representando o campo das Ciências do Trabalho, tem buscado propor Todos os fenômenos psicossociais elencados estão colocados concepções mais contextualizadas, que levem em conta a relação pessoa- entre parênteses para destacar que são categorias de significação e nomea- -mundo do trabalho e a compreensão das três dimensões envolvidas neste ção que estão em mudança, e mudam porque o mundo como um todo tem processo, a saber: subjetiva, social e relacional. vivido um momento de transição, no qual modelos consolidados seguem Mas, será que as produções da Orientação Profissional seriam atuando, mas não mais de forma hegemônica, e novos modelos surgem suficientes para entrar em contato com as principais contribuições do para conviver com os modelos tradicionalmente estabelecidos (Ribeiro, campo das Ciências do Trabalho? 1999b, 2002, 2004a). 2.3.4 Ampliação e diversificação do escopo da análise no Colocar um fenômeno entre parênteses representa uma importante campo de estudos da carreira demarcação epistemológica no âmbito da tradição do pensamento filo- sófico existencial: consiste na idéia de que o fenômeno não existe em As contribuições já apresentadas são fundamentais para a si, mas é construído pelo observador, é um constructo da ciência, e só compreensão da carreira da contemporaneidade, entretanto, em estudo existe enquanto inter-relação com o observador. E, portanto, se o ob- realizado em 2006 e publicado em 2011 (Ribeiro, Silva & Uvaldo, servador, sujeito do conhecimento constrói o fenômeno, este é parte 2011), que tinha como um de seus objetivos fazer o levantamento dos do primeiro, é parte de sua cultura e de sua subjetividade (Amarante, 1999, p. 49).74 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 75 Além disso, como proposto em Ribeiro, Silva e Uvaldo (2011), identidade (Dubar, 2000; Ybema et al., 2009), os estudos faz-se necessária, atualmente, "uma análise do mundo do trabalho como das condições e organização do trabalho na contemporanei- dimensão psicossocial heterogénea constituída de uma diversidade de con- dade (Blanch, 2003; Castel, 1997), os estudos das possibili- textos e dinâmicas de carreiras em relação às outras dimensões sociais" dades de relação e vinculação com a realidade psicossocial (p. 223). (Bauman, 2005; Giddens, 1991; Touraine, 1998), os estudos Numa breve síntese dos estudos realizados, podemos dizer que culturais (S. Hall, 2003), entre outros. os mesmos geraram muitos achados que permitiram a compreensão de cada grupo em específico, entretanto, é possível traçar algumas conclu- Estas conclusões mais genéricas levam a pensar que, se há uma sões genéricas que ajudariam na construção de uma concepção de carrei- multiplicidade de possibilidades de construção das relações com o mundo ra, principalmente tomando como recomendações que: do trabalho, a compreensão destes processos também se torna mais com- a) a análise e a compreensão da vida de trabalho atualmente só plexa e seria necessário refletir se a noção de carreira ainda faz sentido no poderia se dar através do contato aprofundado e heterogê- mundo contemporâneo, o que nos leva a uma encruzilhada: manter ou neo com o cotidiano dos trabalhadores, pois estas análises não o conceito de carreira? têm gerado resultados diferenciados em contextos seme- lhantes; b) o mundo do trabalho vive um momento de transição, no 2.4 POR QUE MANTER A CONCEPÇÃO DE CARREIRA? qual as estruturações tradicionais seguem operando, mas com menos força e mais fragilidade, e novas estruturações Se antes havia um consenso acerca da concepção de carreira re- ainda não se consolidaram, o que tem gerado situações an- presentada pela concepção da carreira organizacional por conta do fato tagônicas de tentativa de volta ao passado simultâneas a de que a carreira só existia e era legitimada no interior das empresas, mergulhos incertos no futuro (Dubar, 2000); agora a conjuntura sociolaboral contemporânea trouxe a necessidade de c) a contemporaneidade, ao desconstruir concepções hegemô- ampliar a noção de carreira, reconhecendo também como carreira as traje- nicas, abre possibilidades, ao mesmo tempo em que deixa as tórias fora do contexto corporativo. pessoas sem referências seguras às quais se basearem para Este reconhecimento introduz um problema conceitual, a saber: a construir suas vidas de trabalho; concepção de carreira será estendida para toda e qualquer trajetória legiti- d) as macronarrativas teóricas parecem não dar conta de expli- mada de trabalho ou ela permanece representando os planos organizacio- car a complexidade e a pluralidade de experiências e fenô- nais de carreira e haveria a necessidade de criação de um novo termo para menos do mundo contemporâneo, fazendo com que as nar- designar as trajetórias de trabalho fora do contexto organizacional? rativas das pessoas sejam uma fonte de informação preciosa De início, devemos argumentar a dupla problemática implicada para a compreensão do mundo do trabalho e das vidas de em ambas as ações, seja de manutenção terminológica e ampliação con- trabalho; ceitual, seja de transformação terminológica e conceitual. e) a dificuldade atual de todos, não somente dos mais vulnerá- De um lado, temos que a manutenção do termo "carreira" opera veis, para a construção das relações com o mundo do traba- uma ampliação conceitual e facilita a comunicação acadêmica, pois os lho, relações que estão, de um lado, muito mais flexíveis, estudiosos da carreira irão identificar que é uma produção acadêmica desprotegidas e complexas e, de outro lado, muito mais pertinente ao seu campo, entretanto, carrega em si a tradição histórica abertas à originalidade e multiplicidade de possibilidades associada às empresas do termo carreira como carreira organizacional, para estas construções (Ribeiro, 2007b). Estas mesmas con- podendo impedir sua ampliação. clusões já foram apontadas nos mais variados campos de es- De outro lado, a transformação terminológica e conceitual da tudos como os estudos organizacionais (Alvesson & Will- concepção de "carreira" rompe com a tradição de vínculo às empresas e mott, 1996; Sveningsson & Alvesson, 2003), os estudos da da conceituação de carreira como carreira organizacional, entretanto, uma76 Marcelo Afonso Ribeiro Carreiras: Novo Olhar Socioconstrucionista para um Mundo Flexibilizado 77 nova proposta terminológica dificultaria a comunicação e o intercâmbio, tem ampliado a utilização do termo "carreira" para as mais variadas situa- e correria o risco de não ter impactos no campo das carreiras, tanto em ções de trabalho. termos acadêmicos quanto em termos das práticas, fundando uma nova Parte desta conclusão emergiu, também, das minhas próprias área de estudos. pesquisas sobre a temática das carreiras, principalmente as investigações É importante lembrar que a tarefa do pesquisador é tridimensio- realizadas com pessoas com deficiência (Paiva Silva & Ribeiro, 2011; nal, ou seja, visa a realização de pesquisas (produção de conhecimentos a Ribeiro & Ribeiro, 2008a, 2008b, 2012), pessoas em situação de desem- partir de investigações), a construção de teorias (produção de concepções, prego (Ribeiro, 2007a, 2007b, 2009e, 2010b; Ribeiro, Farina & Neves, noções e teorias) e o suporte direto ou indireto às práticas (resolução de 2008), pessoas em situação de sofrimento mental (Ribeiro, 2006, 2007a, problemas sociais e da prática profissional), sendo sua função social basea- 2009d), e jovens em situação de vulnerabilidade psicossocial (Ribeiro, da na articulação entre estas três dimensões (Greene, 1990; Guba, 1990). 2011f), corroborando o que havia sido dito por Blustein, Schultheiss e A questão seria: colocar em ação um processo gerador de uma Flum (2004), que "dar àqueles tradicionalmente marginalizados na nova construção a partir de outra ótica, fundando, assim, uma nova área nossa sociedade, abre a possibilidade de discursos alternativos para o de estudos ou colocar em ação um processo de desconstrução e recons- campo dos estudos da carreira" (p. 428). trução a partir da história conceitual e prática existente, promovendo a A proposta socioconstrucionista não separa a dimensão teórica renovação da área instituída? da produção de conhecimento da dimensão política de ação no mundo e Esta questão parece estar em processo de resolução, sendo tare- versa que "o significado das palavras é decorrente do seu uso social, das formas pelas quais são utilizados nos relacionamentos existentes" (Rasera fa a ser realizada neste início de século XXI, questão para a qual eu já me & Japur, 2005, p. 23), através dos sistemas socioculturais historicamente posicionei ao fazer uma proposta conceitual de manutenção do termo situados de significação, o que faz da linguagem uma forma de ação social carreira e de retomada de sua concepção etimológica original, oriunda do e construção ativa do mundo. latim via carraria, com uma significação ampliada de padrão de um per- curso, curso da ação ou trajetória, aplicada às relações entre as pessoas e Neste sentido, manter o termo "carreira", antes somente desig- o mundo do trabalho, sintetizada na ideia de uma trajetória de vida de nado para um seleto grupo de trabalhadores, é colocar em ação a proposta trabalho (Ribeiro, 2009a, 2011d, 2011e). metodológica do Socioconstrucionismo e gerar uma transformação cultu- ral, que advém de um processo continuado de desconstrução (explicitação Por que este posicionamento de manutenção terminológica e do processo de construção do fenômeno através do processo investigati- ampliação conceitual? vo), de democratização (produção dialogada do conhecimento entre todos Com base no referencial teórico do Construcionismo Social, os envolvidos) e reconstrução (proposição de novos vocabulários ou no- que será o eixo analítico do presente livro, há vários aspectos relevantes vas visões para os vocabulários já existentes, que promovam a transfor- para esta escolha. mação cultural), conforme postulou Gergen (1997). A proposta socioconstrucionista coloca que uma concepção teó- Cohen, Duberley e Mallon (2004) já haviam apontado que "o rica, por exemplo, "carreira", seria um discurso (macronarrativa social poder conceitual da concepção da carreira é justamente o fato de que ela que representa os posicionamentos coletivos em dado momento sócio- vincula a pessoa ao mundo social mais amplo e mutante" (p. 409), ideia -histórico), mas que todo posicionamento é atravessado cotidianamente que pode ser complementada pelo fato que manter a concepção de carrei- por micronarrativas alternativas até ser reconstruído. ra somente para aqueles que trabalham em empresas é elitizar o conceito A produção acadêmica e o contato cotidiano com trabalhadores e manter o status quo (Blustein, Schultheiss & Flum, 2004). das mais variadas realidades sociolaborais têm apontado uma noção de Em termos políticos, ampliar o escopo da utilização do termo que a carreira agora se ampliou para uma construção realizada na relação carreira para as relações ampliadas e estendidas entre pessoas e mundo do estendida e geral dos trabalhadores com o mundo do trabalho. Esta con- trabalho, é contribuir na desconstrução de um discurso elitizado e na clusão parece ser uma tendência tanto no campo das Ciências da Gestão, construção de um discurso mais democratizador, lembrando que os dis- quanto das Ciências do Trabalho, ou seja, representa a do cotidiano e cursos estão intimamente associados à distribuição de poder na sociedade e a de grande parte da academia que se dedica ao estudo das carreiras e ter uma carreira, como já apontado, tem sido um fator de prestígio social.78 Marcelo Afonso Ribeiro Se as diversas micronarrativas acadêmicas e do cotidiano dos trabalhadores têm indicado a necessidade de ampliar a concepção de car- reira, se coloca um desafio inicial de caráter teórico: como postular uma concepção de carreira que consiga oferecer elementos para a leitura da carreira como fenômeno psicossocial ampliado e estendido para todas as relações de trabalho entre pessoas e mundo do trabalho? Em síntese, o desafio seria: como compreender, conceitualmente, a carreira na contem- poraneidade?