Prévia do material em texto
Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui Política Externa e Integração Regional A Política Externa Brasileira no Século XX Responsável pelo Conteúdo: Prof. Me. Alexandre Rodrigues de Sousa Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • A Política Externa Brasileira Durante a República Velha; • A Crise de 1929 e seus Impactos no Brasil; • O Nacional-Desenvolvimentismo e a Política Externa Varguista; • A “Política por outros Meios”; • O Brasil Na II Guerra Mundial; • Independência, Alinhamento e Pragmatismo da Política Externa Brasileira nos Anos de Guerra Fria. Objetivo • Compreender a evolução da Política Externa Brasileira da República Velha ao fim dos governos militares. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o último momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como suges- tões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpre- tação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! A Política Externa Brasileira no Século XX Fonte: Getty Im ages UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Contextualização Leia o trecho a seguir, extraído do acervo do jornal o Estadão: “Petróleo, arma política.O primeiro choque do petróleo teve início em outubro 1973, quando os países árabes membros da Opep embargaram o fornecimento de petróleo para os Estados Unidos, Japão e Europa Ocidental em represália à ocupação de territórios palestinos pelos israe- lenses durante a Guerra do Yom Kippur. O embargo obrigou alguns paí- ses europeus e o Japão a racionar energia e levou o mundo à recessão. Um ano antes da crise, em matéria publicada em 16 de julho de 1972, o Estado expressou sua preocupação com o uso político da commodity: “O petróleo não é somente uma fonte de riqueza. É uma arma política. Toda a atividade dos países industriais depende dele. Os hidrocarbonetos fornecem-lhes entre dois terços e três quartos da energia que os move (...)”. O Brasil não foi diretamente atingido pela decisão da Opep, o bom relacio- namento com as nações produtoras garantiu o fornecimento. No entanto, o aumento das importações afetou nossa balança comercial. O cresciment o retraiu. Então, para dar fôlego ao milagre econômico, o governo passou a tomar mais empréstimos no exterior. A dívida externa do País saltou de US$ 17,2 bilhões em 1974 para US$ 43,5 bilhões em 1978. O segundo choque, em 1979, foi iniciado pela Revolução Iraniana, que derrubou o Xá Reza Pahlevi em fevereiro de 1979, e agravado pela Guerra Irã- -Iraque iniciada em setembro de 1980, eventos que afetaram as expor- tações desses dois países. O preço do barril de petróleo bateu recordes e o mundo viveu uma nova crise. Os choques de 1973 e 1979 ajudaram a compor o precário cenário da econômica brasileira na década de 1980, com encolhimento do PIB, moratória e inflação galopante.” Bomba vazia em 1979. Cena comum nos tempos de racionamento. Antônio Lúcio/Estadão, disponível em: https://bit.ly/3jXFgXv Qual a relação entre a política externa brasileira dos anos 1970 e a crise referenciada? Ficou curioso? 6 7 A Política Externa Brasileira Durante a República Velha Da Monarquia à República: O Reconhecimento Internacional A proclamação da República brasileira, que ocorreu no Rio de Janeiro, em quinze de novembro de 1889, foi rapidamente reconhecida e aclamada no âmbito regional. Figura 1 Fonte: Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo A Argentina foi o primeiro país a fazê-lo, seguida por Venezuela, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, México e Equador. Os Estados Unidos é o último país do continente americano a formalizar seu reconhecimento. No Continente europeu, o novo governo republicano enfrentou resistências. Algumas nações condicionaram seu reconhecimento à promulgação de uma nova Constituição brasileira – foi o caso da Alemanha e da Grã-Bretanha. Outras, a exem- plo da França – que tinha com o Brasil questões de fronteira envolvendo a Guiana Francesa e o Amapá – anteciparam-se diplomaticamente. Exceção, a Rússia somente reconheceu o governo republicano brasileiro após o falecimento de D. Pedro II, em 1892. Intervenção Estrangeira Durante a Revolta da Armada Em setembro de 1893, durante o governo de Floriano Peixoto, deflagrou-se, no Rio de Janeiro, o episódio hoje conhecido como Revolta da Armada. Em essência, tratou-se de um levante comandado por Custódio de Melo – almi- rante brasileiro que havia exercido as funções de ministro da Marinha, ministro da 7 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Guerra e ministro interino das Relações Exteriores do Brasil – supostamente apoiado por monarquistas. Insatisfeitos com a recém-proclamada República e com o governo instituído, os rebelados exigiam a renúncia do presidente e ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro. Diante do quadro – e sem forças navais suficientes para se contrapor – o Governo brasileiro pediu a ajuda de forças internacionais – embarcações de guerra estrangei- ras fundeadas na baía de Guanabara – no que foi atendido. A ameaça e as negociações envolvendo diplomatas e militares se estenderam por seis meses. Frustrado em seu intento, o movimento foi debelado e seus líderes rece- beram asilo político em Portugal. Fronteira Sul: Argentina e a questão de Palmas Antes ainda da mudança na forma de Governo, a Argentina tinha se manifestado a respeito dos limites com o Brasil na região dos atuais estados brasileiros do Paraná e de Santa Catarina. Os portenhos requeriam a posse da região de Palmas, no oeste catarinense. Na ten- tativa do caminho diplomático, o então Ministro das Relações Exteriores do Brasil resolveu assinar, em 1890, Tratado no qual dividia as terras entre Brasil e Argentina. Reprovado o Tratado pelo Congresso Nacional, a questão foi ao arbítrio interna- cional, a cargo do presidente norte-americano Grover Cleveland. Da parte do Estado brasileiro, o caso fora confiado ao historiador, geógrafo e diplomata José Maria da Silva Paranhos Junior, Barão do Rio. Analisadas as exposições de ambas as partes, a arbitragem conferiu ao Brasil o ganho da causa, em 1895. Mapa palmas argentina 1895, disponível em: https://bit.ly/3k27fFn Fronteira Norte: França e a questão do Amapá Também em 1895, a diplomacia brasileira incumbiu-se de outra questão de fron- teira – dessa vez com a Guiana Francesa – no Amapá, norte do país. Os franceses pretendiam – sem justa alegação – a relocação do marco fronteiriço, o que lhes garantiria um território duas vezes maior. A questão foi arbitrada pelo Conselho Federal Suíço que, após analisar a funda- mentação do representante brasileiro – o Barão do Rio Branco – decidiu favoravel- mente para o Brasil. Mapa Suriname em 1906, disponível em: https://bit.ly/2H8nGBG 8 9 Atlântico: a Inglaterra e a questão da Ilha da Trindade Sob a alegação de que o território estava desocupado há mais de um século, decidiu a Inglaterra ocupar, em 1895, a Ilha de Trindade – situada ao largo da costa do atual estado do Espírito Santo – incorporando-a aos domínios britânicos. Munido de farta documentação – e do reconhecimento pregresso da própria coroa inglesa acerca da posse brasileirasobre o arquipélago – protestou o Brasil, causa para a qual, dada à legitimidade de seus direitos e títulos, recusou a solução por arbitramento, mas aceitou a mediação oferecida pelo rei Carlos I, de Portugal. Reconhecidos os direitos do Brasil e a posse legítima daquele território, as cortes de Londres mandaram retirar os marcos de sua ocupação temporária da ilha brasileira. Fronteira Oeste: a Bolívia e a questão do Acre A questão do Acre envolveu terras que originalmente não pertenciam ao Brasil, porém estavam sendo ocupadas e exploradas por nacionais. O Tratado de Petrópolis, elaborado por Rio Branco e assinado em 1903, garan- tiu a solução do caso de forma pacífica, por meio do pagamento de indenização à Bolívia no valor de dois milhões de libras esterlinas e do compromisso de construção de uma estrada de ferro na região banhada pelos rios Madeira e Mamoré. Fronteira Norte: Inglaterra e a questão do Pirara Em 1904, outro caso de demarcação de fronteira submetido ao arbítrio inter- nacional, envolveu o interesse da Inglaterra (e Guiana Inglesa) na América do Sul. Contrariando Acordos anteriormente firmados entre as partes, o rei italiano, na pre- sidência do caso, deu ganho aos ingleses, garantindo-lhes – desde o litoral norte do subcontinente – uma saída fluvial para o rio Amazonas. Alguns anos depois, a questão foi revisada e a região reintegrada ao Brasil. Fronteira Norte: Holanda e a questão do Suriname Também referente à fronteira Norte do Brasil, o Barão do Rio Branco, então Ministro das Relações Exteriores, assinou, juntamente com o representante da Holanda, no Rio de Janeiro, em 1906, Tratado que definiu o limite entre Brasil e Guiana Holandesa. A linha foi definida com base no critério geográfico do divisor de águas que, por definição, separa os rios que banham territórios adjacentes. Fronteira Oeste: Colômbia Em 1907, outra importante questão de limites foi resolvida pacificamente sob a pre- sidência do Barão do Rio Branco à frente do Itamaraty, dessa vez, junto à Colômbia. Pelo Tratado de Limites e Navegação Fluvial, de 1907, os dois países definiram a linha de fronteira entre ambos, de comum acordo e com base no princípio do uso e posse, o que beneficiou os nacionais habitantes daquela distante região. 9 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Fronteira Oeste: Peru O trecho da fronteira Oeste brasileira, em que o país faz divisa com o Peru, é o segundo mais extenso, com pouco menos de três mil quilômetros. A linha demarcatória foi definida com base em acidentes geográficos da região – rio Javari e divisores de águas adjacentes – que instruíram o Tratado de Limites entre Brasil e Peru, assinado em 1909, sob a gestão do Barão do Rio Branco. Fronteira Sul: Uruguai Tratado de Limites, em 1851, garantia ao Brasil a posse exclusiva da navegação da Lagoa Mirim e Rio Jaguarão, limítrofes com o Uruguai. Como um gesto de cordialidade internacional, o Brasil renunciou ao privilégio e, por meio de ato firmado em 1909, estabeleceu naquelas águas lindeiras o regime de condomínio uruguaio-brasileiro. Figura 2 Fonte: Pixabay A I Guerra Mundial e o Brasil A crise nos Balcãs, de 1914, foi o estopim da Guerra entre os impérios centrais e as potências aliadas. De modo geral, acreditava-se que a Guerra não se prolongasse, porém ela gradu- almente transformou-se em uma Guerra de desgaste, de trincheiras. Um relativo equilíbrio de forças entre os contendores levou-os a concentrarem seus esforços na fabricação de armas e equipamentos e, pela primeira vez, pratica- mente toda a população, todos os recursos das nações, viram-se envolvidos no cha- mado esforço de Guerra, o que rendeu ao conflito a designação de grande Guerra. 10 11 Direta ou indiretamente, o mundo todo tomou parte no conflito, porém foi no território francês que a Guerra alcançou a máxima intensidade, particularmente, em sítios como Marne e Verdun, a Leste de Paris. Como origens profundas do conflito, podemos assinalar os atritos provocados pelo imperialismo das grandes potências, reunidas sob dois grandes grupos: o sis- tema diplomático alemão, origem da Tríplice Aliança, e o sistema articulado pelos franceses, a Tríplice Entente. Além disso, os ressentimentos nacionalistas e as rivalidades político-econômicas entre as nações serviram para agravar as tensões. Tais rivalidades podem ser, de modo didático, agrupadas em conflito franco-alemão (disputas pela posse da região Alsácia- -Lorena), conflito anglo-alemão (concorrência comercial e naval), conflito russo-alemão (disputas por zonas de influência), conflito austro-russo (questões étnico-culturais). Ademais, o crescente desequilíbrio de poder, a corrida armamentista e a chamada “Paz Armada” acirraram as disputas. Nos campos da diplomacia e da política exter- na, a prática de alianças secretas entre países gerou, gradativamente, um ambiente de intrigas e desconfianças e acirrou ainda mais as tensões entre os grupos, nações e seus interesses. A saída da Rússia, em 1917, e a entrada dos Estados Unidos foram dois aconteci- mentos que mudaram o curso da Guerra e levaram a Alemanha a capitular. A I Guerra Mundial transformou profundamente a Economia dos Estados euro- peus, colocou em risco sua hegemonia e criou o cenário necessário para o concurso de novos atores. Considerada uma das principais responsáveis pelas perdas sofridas pelos governos aliados, a Alemanha sofreu grandes sanções socio-político-econômicas que, poucos anos mais tarde, nutririam um sentimento de revanche e serviriam como argumento para a escalada da crise, que culminaria no próximo conflito global. Outra importante consequência foi a fundação da Sociedade das Nações – origem da Organização das Nações Unidas – inspirada nas propostas do presidente norte- -americano Woodrow Wilson. Mesmo distante do epicentro dos conflitos, o Brasil foi alvo de ataques e atuou – ainda que moderadamente – tanto no campo diplomático quanto no militar. Sucessivos ataques a navios de bandeira brasileira por submarinos alemães fize- ram com que o Brasil, em 1917, declarasse guerra à Alemanha e participasse do conflito ao lado da França e das demais nações do tríplice entente. Dentre as contribuições significativas, o Brasil atuou no patrulhamento do Atlântico, enviou médicos e aviadores para a Europa, e contribuiu no fornecimento de alimentos e matérias-primas. Como consequências do conflito, as importações brasileiras provenientes da Europa diminuíram, as exportações de alimentos e matérias-primas aumentaram 11 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX e – para compensar os efeitos da diminuição da oferta de manufaturados e bens de consumo importados – o governo adotou medidas de estímulo à produção nacional, principalmente, no setor fabril. Além disso, a quantidade de empresas e investimentos estrangeiros no Brasil aumentou, com destaque para o capital norte-americano. A Crise de 1929 e seus Impactos no Brasil A Crise de 1929 Após o término da I Guerra Mundial, a Europa estava destruída. Além das mi- lhões de vidas perdidas, os países, as cidades e as indústrias estavam em colapso e imersas em um profundo esforço de reconstrução. Figura 3 Fonte: Getty Images Nesse cenário, em termos econômicos, os Estados Unidos foram beneficiados – como potência credora no Mercado internacional – por meio de empréstimos conce- didos tanto a vencedores quanto a vencidos no conflito. Dessa maneira, contribuíram significativamente para a recuperação da Europa, ao mesmo tempo em que suas exportações para o velho continente também cresceram. A abundância em recursos e meios, aliada à forte demanda durante a guerra, levaram a um crescimento exponencial e a uma superprodução. Embora lenta, a produção nos países europeus foi sendo gradualmente retomada, ocasionando uma igualmente gradual redução nas importações. Entretanto, nos Estados Unidos, os níveis de produção foram mantidos constantes e aoritmo acelerado dos tempos de guerra. 12 13 Isso levou a um excedente de estoques que o Mercado doméstico americano não conseguia absorver. À exceção da União Soviética – estatizada, de Economia pla- nificada e não sujeita às flutuações do Mercado do capital – a crise rapidamente se alastrou por praticamente todo o mundo. Na Bolsa de valores de Nova Iorque, as ações caem cerca de 40% em apenas 1 mês. A produção industrial recua 54% entre 1928 e 1932, enquanto o número de desempregados sobe de quatro milhões para 13, 5 milhões. Diante da crise sem precedentes, o liberalismo entrou em crise e deflagrou mui- tas mudanças na Política Econômica, levando o governo a uma posição muito mais dirigista da Economia. Tal função, bem como a restauração econômica do país, ficaram a cargo do democrata Franklin Roosevelt e de sua política conhecida como New Deal. Reflexos no Brasil Os efeitos da crise sobre as economias norte-americana e europeia se fizeram sen- tir no Brasil – e na América Latina, de modo geral – com a redução das exportações. No caso do Brasil, 70% das divisas geradas no comércio exterior provinham da ex- portação de café e os Estados Unidos eram, na época, nosso maior importador do grão. A redução trouxe uma séria crise na balança comercial brasileira. De algum modo, a indústria foi beneficiada, vez que, em certa medida, acolheu capitais anteriormente destinados aos investimentos no café. Também a moeda brasileira se desvalorizou, com a consequente elevação dos preços dos produtos estrangeiros e estímulo à fabricação doméstica de produtos similares aos importados, a chamada substituição de importações. Dez anos depois do fim da Guerra, a chamada crise de 1929 e o agravamento da crise na Europa levaram à redução da procura e dos preços do café e de outros produtos primários. Mesmo com o aumento das exportações de borracha, a balança comercial foi bastante prejudicada pelos eventos do período, contribuindo em grande medida para a eclosão da revolução de 1930. O Nacional-Desenvolvimentismo e a Política Externa Varguista Apresentação Getúlio Vargas governou o país por quase duas décadas, em dois períodos distin- tos: de 1930 até 1945 e, depois, de 1950 a 1954. 13 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Tendo chegado ao poder com a chamada Revolução de 1930, seu governo foi marcado por profundas transformações e pelo início da modernização política e econômica do Brasil. No que se refere à política externa brasileira durante seu governo, muitos autores costumam descrevê-la como ambivalente. Gerson Moura, por exemplo, refere-se à “equidistância pragmática”. O pesquisa- dor americano Frank McCann é mais explícito ao usar a expressão “política de cima do muro”. Para compreender a questão, é necessário relembrarmos a Crise de 1929 e seus efeitos catastróficos sobre a Economia mundial e doméstica. Naquele contexto, as primeiras medidas de Vargas ao assumir o poder, foram de forte cunho nacionalista e focadas no desenvolvimento. Dentre outras medidas, iniciou a implantação de indústrias de base, criou o Con- selho Nacional do Café – principal produto na pauta de exportações brasileiras – e suspendeu o pagamento da dívida externa brasileira. Paralelamente, tratou de revigorar os laços comerciais com os Estados Unidos, maior importador brasileiro à época, ao mesmo tempo em que estabeleceu boas relações com os comerciantes alemães. Também assolados pela crise de 1929, Estados Unidos e Alemanha, visualizaram no comércio internacional, um componente importante para a recuperação econô- mica. Nessa lógica, percebiam o Brasil como um importante Mercado consumidor e fornecedor de matérias-primas. Consciente de seu papel nas relações com aquelas potências, porém sem perder de vista os objetivos e interesses nacionais, Vargas preservava a “equidistância” e, negociando de parte a parte, procurava criar as melhores condições e oportunidades para os negócios brasileiros. Esse “duplo jogo” de Vargas fica bem caracterizado ao analisarmos os tratados e acordos comerciais firmados com os dois países, à época. À parte a semelhança entre os interesses, os Estados Unidos e a Alemanha dos anos 1930 situavam-se em espectros políticos, ideológicos e econômicos absoluta- mente diferentes e tão profundos quanto as diferenças entre a liberal-democracia e o nazifascismo. No correr da década, com o acirramento das tensões na Europa e com os alemães sob Hitler seguindo a passos largos rumo à confrontação, o espaço de manobra – e barganha – de Vargas foi naturalmente diminuindo, até que, com o início da guerra, o Brasil – assim como o resto do mundo – viu-se forçado a optar por um lado. 14 15 A “Política por outros Meios”: O Brasil na II Guerra Mundial II Guerra Mundial Conforme já vimos na Unidade Didática anterior, a declaração de guerra – ou a celebração da paz – é um ato institucional de política externa. Portanto, os pontos que nos interessam nesse tópico são exatamente a compreensão das conjunturas que envolveram o ato em si, das alternativas em jogo, das motivações e dos seus reflexos. Figura 4 Fonte: Getty Images A II Guerra Mundial, maior conflito da História até hoje, teve seu marco inicial na invasão da Polônia por tropas alemãs, em 1º de setembro de 1939. Mais brutal e intensa que a Guerra Mundial anterior, ela se estendeu até 1945 e fez mais de 50 milhões de vítimas fatais. Tão logo o conflito se iniciou na Europa, o Governo brasileiro – à semelhança do que fizera em 1914 – declarou-se neutro. O Decreto nº 4623, de 5 de setembro de 1939, da Presidência da República, “manda observar completa neutralidade durante a guerra entre a Alemanha e a Grã Bretanha.” Em última análise, a medida visava a proteger a vida e resguardar os interesses do país que, neutro, poderia continuar comerciando com países de ambos os lados contendores. A abundância de matérias-primas existentes no Brasil, tais como borracha, miné- rio de ferro e manganês – estratégicas para a produção de material bélico – desper- tavam interesses de ambos os lados. 15 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Conforme nos informa Frota: A neutralidade brasileira sofria fortes pressões quer dos pró-aliados, quer dos simpatizantes do nazifascismo. Discursando a bordo do encouraçado Minas Gerais, em 11 de junho de 1940, (...) Vargas deixou escapar a fra- se: ‘Passara o tempo dos liberalismos imprevidentes, com as democracias políticas substituindo as democracias econômicas’. Para muitos analistas pareceu que o governo de Vargas pendia ou poderia vir a se declarar favorável aos nazifascistas. (FROTA, 2000, p. 640-1) Barganhando interesses e adesões, o governo de Vargas finalmente conseguiu, junto ao americano EXIM Bank, o financiamento para a implantação da Usina Side- rúrgica de Volta Redonda. Tratava-se de um empreendimento fundamental para a Economia brasileira que, em 1940, ainda importava aço a preços bastante elevados. A concessão do crédito pôs fim à ambiguidade do Governo brasileiro e definiu o alinhamento com os Estados Unidos. Quando, em 1941, os Estados Unidos – que até então haviam se mantido igual- mente neutros – viram-se na situação de romper sua neutralidade, o governo Vargas também mudou o tom do discurso com relação ao conflito, rompendo as relações com a Alemanha e os países do Eixo por ela liderados. Com os Estados Unidos, o Brasil assinou Acordos e optou pelo envio de uma força militar com cerca de 20 mil homens para lutar na Guerra. Consequências para o Brasil A participação na Guerra contribuiu para o prestígio do Brasil no âmbito interna- cional, por haver apoiado a luta contra o totalitarismo. Também permitiu a participação do país por ocasião da criação da Organização das Nações Unidas. No âmbito regional, o Brasil tomou parte do Tratado Interamericano de Assistên- cia Recíproca (TIAR), pela defesa contra agressores de fora do continente americano. No campo econômicodoméstico, a criação da Companhia Siderúrgica Nacional foi determinante para o desenvolvimento da indústria de base no país, vital para o crescimento e desenvolvimento econômico. 16 17 Independência, Alinhamento e Pragmatismo da Política Externa Brasileira nos Anos de Guerra Fria A Guerra Fria A expressão Guerra Fria refere-se ao período pós-Segunda Guerra Mundial no qual Estados Unidos e União Soviética, à frente dos blocos ocidental e oriental de países, disputavam o poder e a hegemonia mundial. Figura 5 Fonte: Getty Images Embora as datas de início e fim do período ainda sejam motivo de debate entre especialistas e historiadores, admite-se, em geral, o período que se estende de 1947, com o surgimento da doutrina Truman, até 1991, ano da dissolução da União Soviética. Embora as duas superpotências da época não tenham se confrontado diretamente, as chamadas “guerras por procuração” foram um artifício largamente empregado, conforme se viu, por exemplo, da guerra da Coreia, na crise de Berlim e na crise dos mísseis em Cuba. Em função do valor estratégico ou mesmo da posição geográfica em relação aos polos contendores, os países da América Latina, da Ásia, da África e a da Europa Oriental tornaram-se zonas de disputas periféricas permanentes – e de influência – tanto de americanos quanto de soviéticos. 17 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Alinhamento A América Latina, em particular, sempre foi considerada uma área de influência dos EUA, desde o século XIX, com a Doutrina Monroe. Em seu livro Aliança Brasil-Estados Unidos 1937/1945, Frank McCann relata: O interesse americano no Brasil aumentou nos anos trinta, por duas razões: a política da boa vizinhança e a ascensão do nazismo alemão. O desejo de Franklin Roosevelt de criar uma boa vizinhança no continente significava que os Estados Unidos renunciariam à intervenção direta em favor de formas mais sutis de dominação. Em verdade, na busca de mer- cados pós-Depressão, os Estados Unidos se voltaram para a América Latina como área lógica para ressarcir suas perdas no comércio inter- nacional em outras partes; de fato, os primeiros acordos recíprocos de comércio foram celebrados com países sul-americanos. As autoridades norte-americanas falavam em termos de iguais oportunidades para todos no mercado latino-americano, mas o que eles queriam dizer era iguais oportunidades com base nas regras americanas. Como os homens de negócio dos Estados Unidos podiam usar moeda-corrente, ao contrário de seus competidores alemães, a insistência americana para os alemães negociarem com essas moedas era fundamental à exigência de que se retirassem do mercado. Os EUA buscavam, mais do que a convivência de vizinhos, uma hegemonia econômica e política. Os líderes brasileiros não se opunham seriamente a essa hegemonia, porque estavam conven- cidos de que tinham mais a ganhar do que a perder com a aquiescência. Confiavam em que o Brasil mantivesse sua posição na América do Sul e eles, sua posição no País. (MCCANN, 1995) No contexto da Guerra Fria, o subcontinente passou a ser considerado uma área Estratégica – e ainda mais valorizada após a Revolução cubana nos anos 1950. Alinhada à essa visão estratégica, a Organização dos Estados Americanos (OEA) foi criada, em 1948, com o propósito de promover a cooperação regional entre os Estados americanos e fomentar a solução de controvérsias no âmbito do próprio continente. Conforme já vimos, durante a primeira metade do século XX, a política externa brasileira tinha como uma de suas metas principais a inserção do Brasil no contex- to hemisférico. Nesse enfoque, a relação com os Estados Unidos adquiriu crescente importância. Não apenas no aspecto político-militar, mas, particularmente, no aspecto econômico, a aliança com os norte-americanos era vista como estratégica para o avanço da indústria no Brasil. A política do alinhamento com os Estados Unidos se fortaleceu durante o período da II Guerra (1939 -1945) e – juntamente com o que especialistas chamaram de “bar- ganha nacionalista” nas relações com Washington – o alinhamento permaneceu como um traço marcante de nossa política externa até praticamente o início dos anos 1960. 18 19 A assinatura do Acordo de Assistência Militar Recíproca, em 1952, durante o segundo mandato de Getúlio Vargas, e a chamada Operação Pan Americana, em 1958, no governo de Juscelino Kubitschek, são alguns exemplos que ilustram bem o alinhamento – e a barganha nacionalista – característicos do período. Sem romper o alinhamento com os Estados Unidos, Juscelino Kubitschek, na década de 1950, abriu a Economia brasileira visando a atrair o capital internacional para a consecução de seu projeto desenvolvimentista, materializado por seu Plano de Metas. A medida, de fato, atraiu muitos investimentos e fomentou a instalação de empre- sas no país. Política Externa Independente A chamada política externa independente inaugurada por Jânio Quadros, em 1961, e continuada por João Goulart (1961-1964), de modo sintético, visava a uma inserção do Brasil no cenário internacional fundamentada em cinco princípios: 1. Fomento das exportações; 2. Defesa do Direito Internacional; 3. Coexistência pacífica; 4. Apoio à descolonização; e 5. Desenvolvimento nacional e ajuda externa. De acordo com Selcher (1978, p. 15, apud SOUTO, 2013, p. 16): “[...] de forma concreta, o Brasil reconhece países socialistas, opõe-se às pressões diplomáticas contra Cuba, condena o colonialismo português na África e aproxima-se dos países latino-americanos”. Do ponto de vista econômico, os defensores da política externa independente argumentavam que a ampliação das exportações para além dos limites dos Estados Unidos e da Europa – parceiros tradicionais – a exemplo dos países africanos e asi- áticos recém-independentes ou mesmo das nações socialistas, garantiria o acesso a novos mercados consumidores e a geração de mais divisas para o Brasil. Ao mesmo tempo, do ponto de vista político, argumentava-se que o Brasil deveria orientar sua política externa para uma posição intermediária entre os países do primeiro mundo e os ditos de terceiro, de acordo com a Teoria dos Mundos, dos anos 1940. Dentro dessa lógica, justificava-se a atuação brasileira no âmbito do movimento dos países não alinhados, como uma possibilidade de novas parcerias econômicas, bem como uma aproximação com os países do Bloco Socialista, particularmente, União Soviética, China e Cuba. Considerando-se o momento particular do início dos anos 1960, caracterizado como um dos mais tensos do período da Guerra Fria, as perspectivas da política 19 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX independente de Jânio Quadros eram vistas – de acordo com os registros da época – com preocupação pela Casa Branca. A renúncia de Jânio Quadros fez ascender João Goulart, que tratou de dar enca- minhamento à política externa independente de seu antecessor. Nesse sentido, apoiou a descolonização da África Portuguesa, não acompanhou o voto dos Estados Unidos quando da expulsão de Cuba da Organização dos Estados Americanos e nacionalizou Empresas estrangeiras, dentre outras medidas polêmicas à época e contrárias aos posicionamentos e interesses norte-americanos no Continente. Governos militares Alinhamento automático A política externa brasileira no governo de Castelo Branco (1964-67) caracteri- zou-se pelo chamado alinhamento automático com os Estados Unidos. Diante do cenário internacional e da conjuntura da época, Castelo rejeitou os pres- supostos da política independente e reafirmou a posição do Brasil no contexto bipolar: [...] no presente contexto de uma confrontação bipolar, com radical divór- cio político-ideológico entre os dois respectivos centros, a preservação da independência pressupõe a aceitação de um certo grau de interde- pendência, quer no campo militar, quer no econômico, quer no político. (LAGO, 1990, p. 235, apudSOUTO, 2013, p. 16) Internamente, o debate sobre os rumos da política externa se concentrava em dois grupos. Os nacionalistas defendiam o rompimento de qualquer política que sujeitasse o Brasil a outra nação. Por outro lado, os moderados eram favoráveis ao alinhamento com o bloco liderado pelos norte-americanos. Sob o enfoque econômico, o alinhamento com os Estados Unidos levado a termo pelos castelistas garantiu ao Brasil a obtenção de recursos por meio de empréstimos junto ao Banco Mundial e ao Fundo Monetário Internacional. Com investimentos diretos, os norte-americanos contribuíram para a recupera- ção da Economia brasileira, criando condições para o desenvolvimento da indústria nacional e para a criação das condições que culminariam, gradativamente, no cres- cimento econômico brasileiro. Com tais propósitos, a diplomacia brasileira não hesitou em romper, no ano de 1964, as relações diplomáticas com a socialista República de Cuba. Na política de alinhamento, em 1965, assinou, junto à United States Agency for Development, acordo de cooperação no campo do ensino. No campo da segurança internacional, o Brasil apoiou a criação da Força Interamericana de Paz e atuou em intervenção armada na República Dominicana (1965/1966), com o intuito de impedir a revolução social naquele país. 20 21 Na infraestrutura, a política externa brasileira foi orientada para o fortalecimento do país na região do cone sul. Juntamente com o Paraguai, o Brasil assinou o Acordo de Itaipu – à época, uma das maiores usinas hidrelétricas até então construídas – garantindo o abastecimento de energia elétrica, fundamental para o desenvolvimento da indústria de ambos os países. Diplomacia da Prosperidade A política externa brasileira no governo do presidente Costa e Silva (1967/1969) ficou conhecida como Diplomacia da Prosperidade. Durante o período, as relações diplomáticas – particularmente em relação aos Estados Unidos – sofreram modificação, caracterizada pela busca por alternativas à hegemonia dos EUA. Nesse aspecto, o Itamaraty sob Costa e Silva lembrou traços do independentismo do período anterior. Costa e Silva defendia a aliança com outros países do chamado terceiro mundo, com o propósito de modificar a inserção do Brasil no Sistema Internacional. No pe- ríodo, o Brasil passou a compor o recém-criado grupo dos 77. No Setor Econômico, novos empréstimos foram obtidos para o financiamento de obras de infraestrutura. No campo da segurança, o Brasil recusou-se a assinar o Tratado de Não Prolife- ração Nuclear. No ambiente regional, o Brasil investiu na harmonização e na unificação dos Estados da região por intermédio da Comissão Especial de Coordenação Latino- -Americana (CECLA), da qual os Estados Unidos não faziam parte. O objetivo era fortalecer a posição brasileira junto aos países da América Latina, tensionando as relações com os Estados Unidos. Diplomacia do Interesse Nacional A política externa brasileira no Governo do presidente Médici (1969/1974) ficou co- nhecida como Diplomacia do Interesse Nacional, cuja orientação estava voltada para o abandono da solidariedade terceiro-mundista e reaproximação com os Estados Unidos. Os anos do governo Médici foram marcados pela euforia resultante do chamado mi- lagre econômico brasileiro. No período, os índices de crescimento da Economia brasi- leira bateram recordes, alcançando, de 1969 a 1973, média próxima aos 10% anuais. No campo da segurança, o país seguiu em sua recusa com relação ao Tratado de Não Proliferação Nuclear e avançou com os projetos de qualificação tecnológica e fomento de uma indústria armamentista nacional. 21 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Ao mesmo tempo, buscou atrair investimentos por meio do fortalecimento das relações com outros polos do Capitalismo – Japão e Alemanha, por exemplo. No campo econômico-estratégico, ampliou a extensão do mar territorial de 12 para 200 milhas em 1970 – posicionamento contrário ao norte-americano. Em um cenário no qual a América Latina – em maior ou menor grau – continuava sendo um palco dos embates político-ideológicos característicos da Guerra Fria, o Brasil despontava perante os Estados Unidos como um aliado importante para a estabilidade da região. Naquela conjuntura, preconizava a doutrina Nixon o desengajamento dos Estados Unidos em algumas frentes, com a ascensão gradual de potências médias aliadas. Na América do Sul, o Brasil figurava como o país com melhores condições de desempenhar tal função. Com relação aos demais países do chamado terceiro mundo, a política externa fez-se prioritariamente por intermédio do estabelecimento e do fortalecimento de relações bilaterais. Foi o caso da América do Sul, da América Central e da África. Com os países do Golfo da Guiné, o Brasil assinou convênios de cooperação técnica e comercial, ao mesmo tempo em que disponibilizou linhas de crédito para aquisição de produtos brasileiros. Também dentro do interesse nacional, nossa diplomacia se aproximou dos países árabes, atento às questões energéticas e de abastecimento referentes ao petróleo. Em 1971, outra ação político-diplomática relevante foi a reaproximação com a comunista República Popular da China que, gradualmente, cresceria em importância para o comércio exterior brasileiro. No nível regional, o período foi marcado por diversas medidas com foco na integra- ção do subcontinente, no setor de transportes, energia, infraestrutura e na segurança. Pragmatismo Responsável A chamada primeira crise do petróleo, de 1973, impactou severamente a Econo- mia mundial, por conta do aumento no preço dos combustíveis. Com uma matriz de transportes centrada no modal rodoviário, o Brasil sofreu com a crise e definiu a questão energética como um dos pontos centrais do período. Nesse quadro, o governo do presidente Geisel (1974/1979) buscou a aproxima- ção com os países árabes – fornecedores mundiais de petróleo – e fomentou os investimentos em matrizes alternativas. O álcool combustível e a energia nuclear estavam no centro dessa estratégia econô- mica. A política externa do período ficou conhecida como pragmatismo responsável. 22 23 Coerente com essa lógica, o Brasil assumiu posições polêmicas à época, como, por exemplo, o voto antissionista na ONU, em cooperação com potências regionais como Iraque e Arábia Saudita. Na mesma linha, estabeleceu Acordos Industriais no Setor de Defesa para venda de armamentos e veículos. Geisel denunciou o acordo militar Brasil-Estados Unidos, lançando-se em uma política externa independente. Ao mesmo tempo, o Brasil firmou com os alemães o Acordo para construção da primeira Usina Nuclear brasileira, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro. Materializando o fomento do Comércio Exterior com o Bloco Soviético e outros países com os quais já possuíamos vínculos, o Brasil reatou relações diplomático- -comerciais com a República Popular da China, em 1974. Nas Nações Unidas e em outros fóruns mundiais, o país pautou sua atuação não apenas nos aspectos político-ideológicos, mas também – de modo bastante pragmá- tico – em seus próprios interesses político-econômico-comerciais. Nesse sentido, reconheceu a independência das colônias portuguesas na África, a exemplo de Angola, onde estabeleceu Embaixada, além de Moçambique e Guiné-Equatorial. No entorno regional, procurou estreitar a cooperação, abandonando o discurso ufanista de grande potência. Aproximou-se da Argentina no intuito de construir soluções para problemas ante- riores, a exemplo da questão das barragens hidrelétricas da bacia do Prata. Com os demais países amazônicos, lançou a Iniciativa Amazônica, propondo uma estratégia comum para a exploração da região e a reafirmação das soberanias nacionais de cada um dos membros. Diplomacia do Universalismo A política externa brasileira no governo Figueiredo (1979/1985) ficou conhecida como Diplomacia do Universalismo. Último presidente do períodomilitar, Figueiredo enfrentou uma conjuntura bas- tante desfavorável. Na Economia doméstica, os reflexos do endividamento e das crises de petróleo faziam com que a inflação chegasse à casa dos três dígitos. Na po- lítica, os imperativos da transição de militares para civis e questões como a anistia. No campo internacional, conflitos no Oriente Médio agravavam tanto os embates político-ideológicos entre Washington e Moscou, quanto o quadro recessivo provo- cado pela crise do petróleo. 23 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Nesse cenário, o governo Figueiredo procurou dar prosseguimento ao pragma- tismo do quadriênio anterior, particularmente, diante da elevação das taxas de juros pelos credores internacionais, pressionando a Economia dos países com dívidas. Reconhecendo-se como país de Terceiro Mundo, a diplomacia brasileira conti- nuou a atuar nos fóruns internacionais em convergência com o Movimento dos paí- ses não alinhados, denunciando as estruturas políticas e econômicas internacionais. Em relação ao Oriente Médio e à China, o Brasil intensificou sua cooperação, alcançando resultados relativamente positivos, apesar das dificuldades decorrentes da Guerra entre Irã e Iraque. Em relação à África e à América do Sul, o Brasil manteve sua presença no conti- nente africano, porém, a recessão dos anos 1980 e os efeitos dos sucessivos conflitos limitaram os resultados da ação brasileira. No que se refere à América do Sul, o Brasil procurou fortalecer a cooperação político-econômica com os países da região, principalmente, no cone sul. Figura 6 Fonte: Getty Images Nova República A política externa brasileira no governo de José Sarney (1985/1990) refletiu, em boa medida, as mudanças que caracterizaram os períodos de transição que atravessou. No campo econômico, a grave crise econômica que marcou os anos 1980 levou o Brasil a decretar moratória em 1987, suspendendo o pagamento de juros e rene- gociando a dívida externa com o Fundo Monetário Internacional. No campo da segurança, militares brasileiros foram enviados para a Angola e para a América Central, em missões de paz sob a égide de organismos internacionais. No âmbito regional, o Brasil assinou acordo de cooperação econômica com a Argentina, visando à criação de um Mercado comum na região que mais tarde daria origem ao Mercosul. Na América Central, reatou as relações diplomáticas com a República de Cuba. 24 25 O final dos anos 1980/ início dos anos 1990 foi um período marcado por profun- das transformações políticas, econômicas e sociais no nível global. A queda do muro de Berlim, a eclosão da Guerra do Golfo e a dissolução da União Soviética mudaram a ordem mundial e as relações internacionais. No âmbito da América do Sul, a assinatura do Tratado de Assunção, em 26 de março de 1991, criou o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e foi, sem dúvida, um dos pontos mais importantes na política externa brasileira durante o governo de Fernando Collor (1990/1992). Em dezembro daquele mesmo ano a União Soviética foi dissolvida, declarando-se independentes todas as antigas repúblicas soviéticas e dando origem à atual Comu- nidade de Estados Independentes (CEI). A dissolução da antiga União Soviética é considerada por muitos especialistas e his- toriadores como o fim do período da Guerra Fria e o início da atual Era da Globalização. 25 UNIDADE A Política Externa Brasileira no Século XX Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Relações entre a estratégia e a política COUTO, A. C. Relações entre a estratégia e a política. Nação e Defesa. Lisboa: IDN, 1982. v. 21. Foreign Policy Analysis: Actor‐Specific Theory and the Ground of International Relations HUDSON, V. M. Foreign Policy Analysis: Actor‐Specific Theory and the Ground of International Relations. Foreign Policy Analysis, Estados Unidos, 2005. Temas da agenda internacional: o Brasil e o mundo PECEQUILO, C. S. Temas da agenda internacional: o Brasil e o mundo. Curitiba: InterSaberes, 2017. O Brasil e o Mundo: A Política Externa e suas Fases VIZENTINI, P. F. O Brasil e o Mundo: A Política Externa e suas Fases. Porto Alegre: FEE, 1999. Leitura Constituição (1988) BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. https://bit.ly/37ecDlw Portaria Normativa Nº 69/GM-MD, de 27 de Julho de 2020 BRASIL. Ministério da Defesa. Portaria Normativa nr. 9/GAP/MD, de 13 de janeiro de 2016. Aprova o Glossário das Forças Armadas – MD35-G-01, Brasília, 2015. https://bit.ly/31fC9Tk 26 27 Referências LESSA, C. (Org.). Relações Internacionais do Brasil: temas e agendas. São Paulo: Saraiva, 2012. v.1 e v.2. MCCANN, F. Aliança Brasil – Estados Unidos, 1937-1945. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora, 1995. SNYDER, R.; BRUCK, H. W.; SAPIN, B. Decision-Making as an Approach to the Study of International Politics. Estados Unidos, 1954. OLIVEIRA, H. A. Política Externa Brasileira. São Paulo: Saraiva, 2005. SILVA, A.; RIEDIGER, B. Política Externa Brasileira: uma introdução. Curitiba: Inter- Saberes, 2016. 27