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Elda Rizzo de Oliveira O QUE É edição BENZEÇÃO editora brasiliense2016 coleção primeiros 142 passosLEITURAS Elda Rizzo de Oliveira AFINS As Culturas Populares no Capitalismo - Néstor Garcia Canclini A Ordem Médica - Poder e Impotência do Discurso Médico Jean Clavreul Pesquisa Participante - Carlos Rodrigues Brandão (org.) QUE É Repensando a Pesquisa Participante - Carlos Rodrigues Brandão (org.) BENZEÇÃO Coleção Primeiros Passos o que são Comunidades Alternativas - Carlos A. P. Tavares edição o que é Cultura - José Luiz dos Santos o que é Cultura Popular 1 Antônio Augusto Arantes o que é Espiritismo - Roque Jacinto o que é Etnocentrismo - Everardo P. Rocha o que é Magia - João Ribeiro Júnior o que é Medicina Alternativa - Alan Indio Serrano o que é Medicina Popular - Elda Rizzo de Oliveira o que é Religião - Rubem Alves o que é Umbanda - Birman Coleção Primeiros Os Cavaleiros do Bom Jesus - Uma Introdução às Religiões Populares - Rubem César Fernandes editora brasilienseCopyright Elda Rizzo de Oliveira Capa e ilustrações: Ettore Bottini Revisão: Adriana de Oliveira Rangel Vivaldo Ifanger ISBN: 85-11-01142-0 edição 1985 ÍNDICE - bendição, bendicção, bendizer, benzer, benzimento, benzeção 7 - As bruxas, os feiticeiros, as curandeiras, as benzedeiras 17 - A descoberta do dom, o aprendizado do ofício da benzeção e a sua legitimidade 32 - Os pedidos de sortilégio, de bruxaria e de benzeção 46 - o trabalho de benzer 53 Benzeção, uma das expressões da medicina popular 67 EDITORA BRASILIENSE S/A A eficácia da benzeção 78 RUA AIRI, 22 - TATUAPÉ - Contribuição da benzeção na construção de CEP 03310-010 - SÃO PAULO-SP um novo mundo 97 TELEFONE E FAX: (0xx11) 218-1488 - Indicações para leitura 105 e-mail: brasilienseedit@uol.com.br brasiliense home page:BÊNÇÃO, BENDIÇÃO, BENDICÇÃO, BENDIZER, BENZER, BENZIMENTO, às amigas Marise Manoel e Sonia Firette Nunes da Silva pela BENZEÇÃO deste texto. Como é que se explica a autora diante do seu leitor quando, ao apresentar os resultados da sua ciência, se dá conta de que não conseguiu dissimu- lar a sua maneira de ler o mundo, de lidar com as pessoas e de projetar seus sonhos na construção de um novo mundo? Não falo, neste pequeno livro, apenas sobre o que estudei ou li em jornais, na literatura rica ou nos textos acadêmicos. Falo sobre o que Para vivi, pesquisei, participei e senti. Falo sobre a benzeção como um processo em-se-fazendo, no Elizabeth Torquato Goes, cuja aqui e no agora. Falo sobre as benzedeiras e as suas vida é o ponto de encontro benzimentos, passes, exorcismos. Falo do trabalho, da ternura e da de um trabalho feito no calor da hora. Não como um fenômeno captado na sua aparência, mas8 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 9 falo de uma história, a história da expropriação de um dos muitos sujeitos das classes populares nossa sociedade. Significa ainda entender de que que operam o seu ofício por meio de um saber modo alguns conteúdos religiosos, sobretudo os que lhes é próprio. do catolicismo popular, permeiam as relações Para começar a trabalhar essas questões, convido entre as pessoas. você, leitor, a percorrer comigo o caminho das Para clarificar essas dificuldades, tomemos as muitas maneiras de benzer, para que a gente definições contidas no dicionário de Aurélio possa, juntos, separar a contribuição de cada Buarque de Hollanda. Nele, benzer significa: profissional da bênção nesse campo tão complexo. 1) "fazer o sinal da cruz (sobre pessoa ou coisa), Mas o exercício de separação destas diferentes recitando certas fórmulas litúrgicas, para consa- práticas de bênção não é o mesmo para entendê-las grá-la ao culto divino ou chamar sobre ela o favor isoladamente. Ao contrário. Elas só têm sentido, do céu; abençoar." Nesse sentido, o ato da bênção para efeitos da nossa abordagem, quando vistas é um ato de súplica, de imploração, de pedido nas suas inúmeras relações. insistente aos deuses para que eles se dispam dos seus mistérios e se tornem mais presentes, mais concretos. Para que tragam boas novas, produzindo benefícios aos mortais. múltiplas e variadas formas Desse modo, a é um veículo que possi- bilita a seu executor estabelecer relações de solida- o que constitui um ato de benzer? Por que as riedade e de aliança com os santos, de um lado, pessoas se benzem? Quais são os diferentes tipos com os homens, de outro, e entre ambos simulta- de pessoas que benzem em nossa sociedade? neamente. A é então um instrumento pelo Ao formularmos essas indagações, leitor, temos qual homens produzem serviços e símbolos de soli- a impressão de que estamos diante de um mundo dariedade para si e para sujeitos da classe social da de experiências muito próximas de nós, muito qual fazem parte. na maioria das vezes, eles pro- conhecidas. Mas, ao buscarmos respostas para elas, duzem através da religião a que pertencem. deparamo-nos com acentuadas dificuldades. Res- Há ainda outros sentidos para a 2) pondê-las significa penetrar na essência da nossa "tornar próspero; coroar com bom resultado" cultura. Significa penetrar nas diferentes formas alguém ou alguma coisa. Explicita-se nesse ato um de organização da experiência coletiva de vida em desejo; 3) "fazer benzeduras; 4) admirar-se, 5) passar bons fluidos; 6) produzir10 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 11 benzimentos. Profissionais, como jogadores de futebol, nada- Pode ser também um cumprimento. Às vezes, dores, corredores de carro, atletas, etc., antes de um ato de despedida. Mas, regularmente, ela é um iniciarem a sua partida, esporte ou corrida, também elemento de coesão entre as pessoas, aglutinando-as. se benzem. Diante de uma prova, do desconhecido É uma experiência que fortalece e torna vivas as ou do temido, passando por uma cruz ou igreja, no relações entre as pessoas e os grupos sociais de geral, as pessoas se benzem. Em nossa sociedade, as que são parte. pessoas buscam nos oratórios de votos de A objeto múltiplo e específico do ato fé espalhados pela cidade: nos santuários, cruzes, de benzer, pode ainda possuir um efeito de exorci- capelas, casas, grutas, nas beiras e curvas de estra- zação do mal, que repara a tragédia, a dor, a das, etc. Buscam quando fazem uma aflição e o sofrimento. peregrinação em romarias a santuários como Em nossa sociedade, a bênção é um elemento Aparecida do Norte, Bom Jesus de Pirapora e Bom muito importante para entender a vida das pessoas. Jesus dos Perdões. Na prática, a bênção envolve um grande conjunto A bênção é, então, uma prática social que de gente, formado por quase todas as pessoas da acompanha todos nós. Por isso é o conjunto nossa sociedade: pais benzem filhos, tios benzem de pessoas que dão e se benzem em nossa sobrinhos, benzem netos, padrinhos benzem sociedade: ele abarca desde pessoas com relações afilhados, benzedeiras benzem clientes, padres de parentesco, de amizade, de compadrio, de benzem fiéis, etc. Como uma extensão da solida- clientela e de Essas últimas riedade vivida pelos camponeses, na roça qualquer executam a geralmente através de alguma pessoa mais velha benze a mais moça. Qualquer igreja ou agência religiosa, com o seu apoio ou o profissional do sagrado, seja padre, capelão, rezador seu estímulo, em nome dela, que as controla e e rezadeira de terços, de ladainhas ou de outros legitima. Mas existem também os profissionais da tipos de reza, benzedeiras, e até parteiras, todos que são autônomos, porque benzem em benzem. Porque são, de um modo ou de outro, suas próprias casas. Voltaremos adiante a essa também reconhecidos como alguém que possa questão. benzer. Tanto para as pessoas que moram nas cidades quanto para as que moram no campo, a é uma prática que as acompanha no cotidiano.12 Elda Rizzo de que é Benzeção 13 As os seus sentidos padrinho. Esta é vista como possuidora de um e os poderes que veiculam valor restrito à família, veiculando um pequeno poder, marcando aí, talvez, uma diferença funda- mental quanto ao seu exercício. Por que são diferentes entre si as pessoas que Ao realizarem a sua padres e pastores benzem? Em que consistem essas diferenças? fazem uma manipulação dos membros da sociedade Em primeiro lugar, as bênçãos possuem princípios, dos mortos para produzirem soluções a problemas fundamentos e finalidades diversas. A feita de doenças, de aflições e de sofrimentos para os por pessoas da família, pelos pais, avós ou padri- membros da sociedade dos vivos. Os atos de nhos, por exemplo, serve a um uso distinto daquele realizados por esses profissionais são feitos em feita por um padre. rituais coletivos, na igreja ou em espaços outros, Por quê? Desde o ponto de vista de que a mas sempre com o seu apoio. Por isso eles podem primeira é feita individualmente e a outra coleti- ser feitos em nome dela, para ela e através dela. vamente, até o poder que cada uma carrega. Esses o modo como cada profissional encaminha a sua fatores também determinam o sentido da revela a sua formação religiosa e a sua visão sua direção e sua extensão. o padre, por exemplo, de mundo, da qual a sua bênção é uma das expres- benze num sacramento, numa missa, num batizado, No ato da cada pessoa que benze num velório, num enterro, numa confissão. Utiliza, revitaliza determinados símbolos sagrados. Esses para tanto, a Igreja e os seus símbolos (púlpito, símbolos passam uma dada visão do aprendido e batina, água benta, discurso, bíblia, santos etc.). do que pode ser reconstruído. Não como símbolos Ele aprofunda o sentido religioso da sua bênção soltos e dispersos, mas como símbolos que per- e a quem ela deva se estender, de modo muito meiam a produção social da vida e as relações entre peculiar. Em segundo lugar, a bênção que ele faz as pessoas. contém um poder de representação da vida e das Médiuns da Umbanda, do Candomblé, do necessidades, e o modo como se dá o exercício Kardecismo, do Esoterismo, pastores da Seicho- regular dessa é que a torna legítima. Em No-lê, da Cura Divina, do Pentecostalismo, profis- outras palavras, o modo como as pessoas, no geral, sionais dessas religiões que florescem e se diferen- fazem um reconhecimento sobre a realizada ciam rapidamente por todo o país benzem e por um padre ou um pastor é diferente daquele de também produzem passes e exorcismos. Se antes a uma bênção realizada por um pai, um tio ou um bênção era executada mais em templos, com a14 Elda Rizzo de Olivein o que é Benzeção 15 multiplicação dessas religiões, multiplicam-se tam- Mas aquilo que separamos de modo aparente- bém os espaços onde essas costumam mente tão claro e divisor fácil faz parte de um ocorrer: indo de casas, galpões e barracos de mundo muito mais complexo do que uma visão madeira a garagens. Tais veiculam as superficial pode captar e revelar. fórmulas de salvação; são garantidas em nome do Reside a importância de estudar uma cultura sagrado e destinadas a uma clientela que se reúne e uma sociedade que produzem estratégias distintas regularmente em dias e horas marcados durante para resolver os seus problemas, explicar a sua a semana. existência material e o modo como as pessoas se Sempre nessas se instrumentalizam inserem nesse espaço. Onde lutam, enfrentam-se, determinadas noções de milagre, de mistério e de trabalham, amam, sofrem e constroem a essência poder. Tais noções são, grande parte das vezes, da vida, como um processo social que é a história reinventadas do próprio catolicismo popular de da humanidade. origem rural e trazidas para dentro dos limites das Então, o que nos saltava aos olhos como um chamadas religiões populares. Essas religiões fenômeno cotidiano e tangível, vai se revelando formam uma clientela que não procura apenas um em toda a sua complexidade de relações e em tipo de mas recorre a várias igrejas ao toda a sua multiplicidade de significados. Os mais mesmo tempo, sem que essa busca se antagonize variados modos de produzir bênçãos implicam no seu universo de compreensão e de representação formas diferenciadas de saber-fazer esse ato, às do mundo. Sempre a bênção fornece alguns mode- vezes um ofício. Implicam diferentes maneiras de los de ação individual ou coletiva para as pessoas, atualizar a memória desse ato e a visão do mundo orientando-as nos seus comportamentos. que o sustenta e o produz. E de produzir, na Como uma dimensão da história dos homens, a singularidade de cada ato, as diferentes falas sociais. convive com outras formas de produção Penetrar na essência da cultura através da de respostas: aquelas que se destinam à saúde, é conseguir entender qual é a sua proposta ofertadas pela medicina erudita. Sempre, de um e em que medida ela possibilita enxergar outras lado, os bens da religião, procurando oferecer dimensões da vida social das pessoas e de seus respostas às doenças e às aflições, através de mundos. o modo como cada pessoa benze e recebe que visam à cura do corpo e à salvação a está relacionado à percepção que ela faz da alma. E de outro lado, a ciência, as formas do seu papel social nesse espaço. Ao modo como eruditas de cura operando em sentido parecido. memoriza as informações, trabalha os símbolos16 Elda Rizzo de Oliveira e recria as suas práticas sociais. Vista no conjunto diferenciado de forma de produzir desde curas até proteção aos homens, a bênção continua a existir como alguma coisa que possui, ainda que possa ser pequena, uma autonomia frente a outras formas de solução. De todas as pessoas que benzem, vou falar daqui para a frente de um tipo especial: as benzedeiras populares. Falando sobre elas, falo sobre o seu ofício. Vamos então, leitor, olhar para o mundo AS BRUXAS, os FEITICEIROS, AS da cultura popular através do ofício da CURANDEIRAS, AS BENZEDEIRAS Para que a gente consiga entender o exercício profissional da benzedeira nos dias atuais, primei- ramente há que se tocar em duas questões anteriores muito importantes: 1) de como na Idade Média era realizado o controle social sobre a população, através da Igreja Católica; 2) de como, nos dias atuais, se exprime esse mesmo controle através do exercício político da medicina erudita. Ainda que tratadas rapidamente, a consideração dessas duas questões é de fundamental importância, na medida em que nos ajuda a entender o ofício da benzedeira, não apenas como um modo de curar no qual utiliza símbolos religiosos -, mas como um instrumento de intervenção no processo histórico-social, ainda que ela não o faça de forma consciente e crítica. Tal ofício é produzido e rein-18 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 19 ventado nas estreitas brechas do saber erudito e à sua revelia, quando este tenta impor-lhe a sua visão de mundo como se ela expressasse as necessidades da sociedade em seu conjunto. o controle social feito pelos Tribunais do Santo Ofício sobre as bruxas Se voltarmos os olhos na história, veremos que numa época um pouco situada entre os séculos XVI e XVIII, a Igreja entrava no campo da saúde curando pessoas, através de assistências de caridade e de rituais de exorcismo. No entanto, pessoas que se acreditavam com poderes sobrena- turais para fazer curas, adivinhações do passado, presente ou futuro, e por serem consideradas inferiores - do ponto de vista econômico e social - e ainda por romperem com as normas, a ordem e os valores que a Igreja defendia, faziam desafios a ela. Então, qualquer intriga, fuxico ou futrica ligado à sua vida, ao seu trabalho ou às relações sociais que as vinculavam, qualquer pequeno ato conside- rado um deslize moral, que não conseguiam expli- car, por exemplo, era decifrado rapidamente como estando associado à posse de bruxaria, de feitiçaria e de magia, sem mesmo que elas pudessem se A benzedeira, enquanto cientista popular, fala em defender. nome de uma20 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 21 Tais acusações estão presentes desde a Antigüi- caria, constituía uma ameaça, uma dade, embora somente na etapa de transição da uma tida como muito perigosa para os Idade Média para a Idade Moderna, onde os feudos valores da época. Tal postura era mesmo conside- ainda guardavam de repressão e rada herege, isto é, descrente e desafiante aos dependência ao poder local masculino, é que dogmas da Igreja, e portanto, a Deus. E era passível, ganham grande impulso. Eram consideradas um ainda, dos mesmos castigos, ameaças e torturas que delito feminino. principalmente sobre cabiam às bruxas. A Inquisição produziu os mais a população feminina que trabalhava no campo, duradouros e sanguinários crimes contra a humani- mas não exclusivamente. dade registrados na história, momento em que Desamparadas, sofrendo as pressões sociais emerge como profissão promissora a de caçador dessa época, essas mulheres eram perseguidas, de bruxas. oprimidas, rejeitadas, torturadas, punidas e lançadas Ao longo da história, contudo, surgem novas vivas em fogueiras até a sua morte. Essas acusações formas de tratar os males do corpo e da alma. e execuções caracterizavam uma visão de mundo Não mais predominando a valorização excessiva da de uma época marcada por formas drásticas de alma apregoada pela Igreja. No Renascimento violência e de punição, que tudo legitimava em aparece uma outra concepção de doença e de cura, nome da preservação da alma das pessoas e da cuja estava centrada no corpo. Surgem aí expulsão dos seus demônios. novas colocações para a morte, para a dor, novas As ações de caça às bruxas, as denúncias, as classificações para a doença e novas explicações perseguições, as prisões, os castigos, as torturas e para a loucura. Corpo e alma passam a ser vistos as execuções, nessa etapa histórica, não se davam isoladamente. Supera-se o enfoque mágico-reli- de forma isolada e esparsa. Mas sob forma institu- gioso que associava às doenças a presença de algum cionalizada, através do Tribunal do Santo Ofício. demônio que necessitasse ser exorcizado em Havia toda uma teoria que guiava essas práticas e rituais próprios. A doença passa a ser localizada no estava codificada em bulas, códigos medievais, corpo humano, visível, próximo, real, concreto, leis e manuais vindos da Igreja, ou feitos para o seu uso. Sempre visando defender os seus interesses. Isso inicia-se no século XVIII, por causa do Resistir à Inquisição ou contestá-la, por exemplo, nascimento da clínica médica, momento em que buscando novas outras maneiras para explicar as se dá a formulação do discurso médico sobre a ações que se diziam ser ligadas à bruxaria e feiti- doença, discurso técnico, que se separava cada vez22 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 23 mais da visão de magia, demônios, séculos XIX e XX, intensificam-se as internações bruxaria. Dá-se, concomitantemente, o processo de uma verdadeira separação entre ciência e cultura. em manicômios, momento em que emerge o controle social pela psicanálise, que promove a ascensão da loucura como doença. Nesse campo, ela reivindica para si o monopólio da consciência o controle social dado pela e o da inconsciência dos seus doentes. ciência médica e pela psiquiatria Ainda no século XIX, tecnicamente mais afastada da religião, mas ainda politicamente apoiada por ela, a medicina cria uma ampla forma de controle A história, então, se transforma, porque ela é social, através do isolamento das doenças, da um processo de luta, onde os valores sociais mu- criação dos modelos de higiene, regulando e nor- dam, redefinem-se. Onde os diferentes grupos e matizando as cidades e a sociedade. Ela está atrás classes sociais se recolocam estrategicamente nos da criação de prisões, manicômios, hospitais, seus embates, visando garantir seus interesses hospícios, quartéis, cemitérios e zonas de prosti- políticos e econômicos específicos. Criam-se, como vimos, novas formas de controle tuição, feitos em nome da segregação das pessoas, das doenças e dos doentes. Estendeu-se o campo social, através das novas concepções de doença de atuação da medicina erudita aos diferentes nessas novas condições históricas da Idade Moderna. domínios da vida dos homens; direta ou subterra- As doenças passam a ser vistas de modo distinto neamente passou a regular os costumes da época, às manifestações tidas como sendo de bruxaria, inclusive, pautando uma moralidade nas práticas magia e Não mais através dos inquisi- sexuais, as quais ela subordinava às noções de nor- dores e exorcistas, mas pela ciência, pelo saber malidade ou patologia. Era o momento em que a que começava a ser codificado em livros de medi- medicina podia se fortalecer, porque a época cina. Agora a sua observação é guiada por valores exigia isso dela e lhe dava esse espaço. que respondem a um modo próprio de existência Essa é a prática médica importada para o Brasil. dessa época. o que antes pudesse ser visto como Aqui também se fazia o controle social através da manifestações de bruxaria, magia e norma, da lei, que regulava, disciplinava e isolava principalmente nos séculos XV e XVI, passa a ser as pessoas, prendia-as e higienizava as cidades, os analisado como manifestações de histeria que se portos, etc., momento em que nasce a saúde tratavam em hospitais, no século XVIII. Nos pública. Essa medicina reparava na superfície oso que é Benzeção 25 24 Elda Rizzo de Oliveira como conhecemos nos dias atuais, inclusive no problemas urbanos, ainda que a distribuição da Brasil, que assume características específicas. riqueza socialmente produzida se mantivesse Uma medicina estreitamente voltada à medica- inalterada. Os ricos desfrutando da sua riqueza, e lização da sociedade, e com isso interferindo expropriando os pobres através do seu trabalho. direta e favoravelmente na neutralização das o controle social das doenças talvez fosse feito tensões sociais, e contando com a sua principal mais para proteger a classe dominante, represen- aliada, as multinacionais do remédio. tada pelo branco, o latifundiário e o burguês, do que apresentar uma real preocupação com os pobres. o encarceramento dos "loucos", "tarados" e Benzedeiras, curandeiras e em hospícios, e dos pobres, doentes feiticeiras: as médicas populares e expropriados em asilos, marca uma nova forma e o ofício da benzeção de controle social. Este visava garantir, ao mesmo tempo, a realização de dois fenômenos: a ordem Qual é a imagem que fazemos de uma pessoa nas cidades e a ascensão do poder dos médicos na que benza? sociedade. A validade que a ciência dava para a Geralmente é a de que seja uma mulher, casada, loucura, de um lado, bem como a busca excessiva mãe de alguns filhos, pobre, que conheça rezas, da normalidade, de outro, assegurava, através da ervas, massagens, cataplasmas, chás e simpatias, lei, da norma e dos preceitos utilizados em seu que tenha um quê de mistério, que lide com a favor, a subordinação dos doentes e da sociedade magia, feitiçaria e bruxaria. E essa imagem corres- ao conhecimento médico. Garantia, então, sob o ponde àquilo que é a benzedeira. Ela é tudo isso rigor a separação do doente e dos e um pouco mais. Ela é uma cientista popular que expropriados do convívio social e o seu isola- possui uma maneira muito peculiar de curar: mento em nome de um tratamento e de sua devo- combina os místicos da religião e os truques da lução à sociedade, em condições de produzir, magia aos conhecimentos da medicina popular. pessoas que eram, do ponto de vista do capital, De modo semelhante ao médico feiticeiro improdutivas. indígena, ao que se tornou um especialista A mudança de ênfase para a compreensão da na ciência de curar doenças através da medicina doença, fundada agora na separação corpo-alma, é popular, dos conhecimentos da magia e da religião, a gênese da especialização da prática médica tal26 Elda Rizzo de que é Benzeção 27 a benzedeira é, na sociedade urbana, uma pessoa uma cidade grande e não fazem parte de corpora- que possui uma função similar. Mas também ções profissionais do tipo sindicato ou Igreja. evoca alguma lembrança das bruxas discutidas São religiosas, mas nem sempre igrejas. páginas atrás: ela faz adivinhações, às vezes lê Profissionalmente, as benzedeiras são autônomas. sorte, lida com o mistério e com as coisas do além. Elas não dependem de outros profissionais da É, contudo, no estreito espaço que escapa ao bênção para executar seu ofício. Na sua prática controle que fazem a medicina e a religião eruditas profissional, elas são independentes para determi- na nossa sociedade, que a benzedeira formula o nar que tipo de benzeção querem fazer, quais seu trabalho nos dias atuais. fórmulas usar e em que circunstâncias fazê-lo. Vou discutir em seguida quem é a Elas benzem em suas próprias casas, destinando, de que modo se apresenta a sua profissão numa muitas vezes, um cômodo qualquer a esse fim. sociedade que forma também outros tipos de Não se subordinam a outras benzedeiras, com profissionais que lidam com a cura do corpo e objetivo de receberem delas o fundamento para o da alma, como médicos e padres. Para entender a seu trabalho, pois não pertencem a nenhuma benzedeira temos de entender primeiramente o seu hierarquia. Trabalham por conta própria, deter- trabalho, que espelha muito de sua vida e do seu minando a rigidez ou a flexibilidade do seu ofício, mistério. Entendê-la através do seu trabalho com a disciplina que criam e com a autoridade facilita a compreensão sobre como ela cria as suas que desejam. redes de relações sociais e de que modo participa A benzedeira articula o seu trabalho, na cidade, do processo social. de modo diferente de como fazia na roça, seu lugar de origem. Por quê? Na cidade, a benzedeira faz do seu ofício uma profissão. Um meio de comple- o ofício da benzedeira mentar a sua renda, ou de consegui-la integral- mente. Por isso, ela teme/ polícia, a imprensa, as instituições religiosas como os centros espíritas A benzedeira, enquanto uma cientista popular, kardecistas, umbandistas, esotéricos, as igrejas fala em nome de uma religião. Ela não pode ser pentecostais e toda forma de organização religiosa entendida sem que sua religião seja considerada. do tipo igreja. Teme também os médicos e os A maior parte das benzedeiras é católica. Encon- padres. Num certo sentido compete com eles, na tram-se espalhadas em diversas vilas e bairros de medida em que o seu trabalho se realiza num28 Elda Rizzo de que é Benzeção 29 mesmo espaço que o deles, no espaço urbano. e orações às jaculatórias (que continham fórmulas Na roça, a benzedeira produzia o seu of de pedido ou de evitação) e ao cumprimento de através de um exercício que caracterizava uma práticas cerimoniais. Articulava promessas às espécie de clínica geral. Como era menor a quan- estratégias da medicina popular das plantas, das tidade de problemas apresentada no campo, era ervas, das raízes e outras fórmulas, passando esse também mais diversificada a sua atuação, que conhecimento, inclusive, pelo reconhecimento recobria várias áreas. Ela atendia desde casos que simbólico e eficaz do atendimento ao seu envolviam benzimento ao cavalo para bicheira, à Na cidade, o trabalho da benzedeira passa por cabra e à vaca para darem mais leite, à plantação transformações, porque a cultura da qual é parte para que prosperasse, até às pessoas: crianças, se recria, se renova, se atualiza. Por um lado, um adultos, mulheres que iam dar à luz, etc. dos elementos unificadores do catolicismo popular Na roça eram poucas as benzedeiras e amplo do campo e a sua recomposição na cidade é o seu seu leque de atuação. Eram todas católicas. Viviam enriquecimento por meio de novos símbolos e num espaço de relações de produção marcado pela a inclusão de novas modalidades de benzedeiras afetividade familiar e comunitária (solidariedade e, portanto, de Por outro lado, dá-se entre os vizinhos, mutirão, trocas cerimoniais, uma multiplicação dessas especialistas de cura e festas sazonais, lazer). Viviam num espaço geográ- uma profissionalização do seu trabalho ao mesmo fico restrito, no qual recriavam um universo de tempo que um empobrecimento da sua cultura experiências marcado por símbolos sagrados. rural original. Mas, na cidade, seu constitui Paralelamente, elas tinham uma relação uma resistência política e cultural à medicina forte com a natureza e possuíam um saber muito erudita que conseguiu proliferar os seus serviços de útil sobre a agricultura: produziam uma classifi- cura e ampliar a sua clientela, acobertando, inclu- cação e uma seleção de plantas, ervas, raízes que sive, os membros das classes populares. eram utilizadas como recursos terapêuticos. Desse Seu trabalho se organiza de modo muito parti- conhecimento, contudo, parte poderia ser conhe- cular na cidade. Como já disse, diferente dos cida e partilhada por toda a comunidade. A outra médicos e dos padres, as benzedeiras não formam parte era o segredo do ofício, transmitido às sindicatos, nem corporações religiosas. Mas, seme- noviças em condições muito particulares. aos médicos, elas atuam numa relação Era um conhecimento que articulava alguns direta com os seus fregueses. símbolos do catolicismo popular. Articulava rezas o of das benzedeiras se assemelha ao trabalho30 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 31 dos magos e xamãs nas sociedades primitivas, no na cidade é muito mais amplo para alguém que vem que se refere a serem profissionais populares, do campo em função do processo de divisão social embora os magos e os criassem confrarias, do trabalho, dos processos de indus- corporações profissionais, e assim submetiam trialização e de urbanização crescentes. feiticeiros e menores aos seus trabalhos. Numa pesquisa de campo que realizei em Cam- A benzedeira está inserida de modo particular pinas, entre 1978 e 1980, encontrei seis modalida- na sociedade. Por isso seu trabalho é marcado por des religiosas de benzedeiras: católica, corrente uma dimensão singular. Essa dimensão é o funda- católica, crente, kardecista, umbandista e esotérica. mento da sua autonomia profissional. Deve haver muitas outras modalidades religiosas de profissionais populares da Mas veja, leitor, elas compõem um gradiente de Benzedeiras: várias modalidades cura, representado num dos extremos pela benze- e em proliferação deira católica, noutro, pelo esotérico. No meio encontram-se as da corrente católica, as crentes, as Vimos que originalmente a benzedeira no kardecistas e as umbandistas. E as variações entre campo era católica. Na sua vinda para a cidade, elas são significativas, desde o modo como elas se contudo, ela começa a entrar em contato com definem e se apresentam para a clientela, o tipo de novas religiões emergentes, como o Kardecismo, clientela, a utilização dos recursos terapêuticos, até o Pentecostalismo (na sua expressão Assembléia a questão da remuneração profissional. Essas dife- de Deus e Igreja Quadrangular), com a Umbanda, renças entram para o modo como elas lidam com as Candomblé, Esoterismo e outras. coisas e se enxergam na vida, isto é, acabam por Essas diferentes religiões lhes oferecem novos definir a sua visão de mundo. modelos de ação, que serão recriados nos seus De que modo as benzedeiras aprendem o conhe- trabalhos. É nesse momento que começamos a cimento do seu presenciar uma ampla diferenciação do conteúdo do trabalho da benzedeira na cidade, uma prefe- rência para trabalhar com males específicos e o exercício de uma prática que fundamenta a criação de uma medicina popular autenticamente urbana. Isso porque o leque de especializações do trabalhoque é Benzeção 33 escolha do seu ofício. Esse momento é a desco- berta do dom de Leitor, quando indagamos a uma benzedeira como começou a benzer, ela vai nos contar uma longa e detalhada história, onde mescla símbolos reais com mitos, para explicar que é possuidora de um dom. Para que você tenha uma visão um pouco A DESCOBERTA DO DOM, mais precisa sobre que estou falando, isto é, uma o APRENDIZADO DO OFÍCIO opinião substancial sobre modo como a benze- deira se percebe portadora de um dom, transcrevo DA BENZEÇÃO E A um depoimento que uma delas me fez na ocasião SUA LEGITIMIDADE da pesquisa: "Faz vinte e cinco anos que eu benzo. Oração eu fazia Como é que se estrutura um dos saberes que se desde pequenica. A primeira que eu recebi foi adquire fora do processo da Divisão Social do quando a minha caiu e não voltava. Fui no Trabalho? Pergunto sobre os momentos de conhe- quarto, ajoelhei e pedi para Deus que me desse fé, para cer, de ensinar e aprender o ofício da benzeção no que minha voltasse. Cheguei na cozinha, ela ato em que todo esse processo volta a repetir-se. voltou. E sempre estou recebendo graças. Porque o Como é que circulam as idéias que firmam acordos poder de Deus cura. A fé, a simplicidade e a vontade de entre homens e santos, sujeitos e mundos, como fazer os outros felizes (me levaram a ajudar os outros). um processo em-se-fazendo, isto é, em sentido vivo? Quem tem fé sofre calado. Quem nasce com o dom de Não podemos compreender o trabalho da benzedeira já nasce com ele. Não aprendi com ninguém. benzedeira sem que estudemos o que a move para Foi pela minha fé. Desde pequenica tenho dom, mas, realizá-lo. Em outras palavras, não podemos antes, fazia oração. Não benzia. Agora benzo e entender todo o conhecimento que fundamenta faço oração. Não tenho estudo, mas tenho muitas seu trabalho sem antes localizar na sua vida a ciências das coisas divinas. Tenho vidência também. percepção que ela tem de um sentimento que Vejo as coisas visíveis e as invisíveis. Sempre tive uma marca um momento especial, determinante na vida de muito sofrimento, muita coragem, muita fé e simplicidade. É só Deus mesmo, Nossa Senhora Apare-34 Elda Rizzo de Oliveir que é Benzeção 35 cida que livra a gente e guarda. A vida são mistérios, a vida é margosa". Geralmente, a descoberta do dom pela benzedeira ocorre paralelamente ao reconhecimento de algum acontecimento forte na sua vida. No caso citado, por exemplo, quando a benzedeira reconhece o atendimento a um pedido de para uma situação desesperadora, vindo de poderes sobrena- turais. Mas há outras situações em que ocorre o reconhecimento da existência do seu dom: quando a benzedeira depara com alguma doença quando ocorre uma revelação, por exemplo, uma visão de que uma santa a protege numa estrada perigosa; ou quando ela ouve uma voz que a orienta no sentido de retribuir, às pessoas, a graça da que recebe dos santos; ou ainda quando, na ausência de outras benzedeiras, ela precisa aprender o conhecimento do trabalho para poder benzer as crianças que ficavam doentes. As vezes recebe o dom de pessoas de sua família, como de uma de uma tia; outras vezes, quando possui uma característica de bondade ou de habilidade para ajudar as pessoas e isso é identificado por outra pessoa como sendo um dom, ou tem-se ainda todas essas situações combinadas de diversas maneiras entre si. o reconhecimento de que ela seja portadora de um dom é uma condição necessária, mas ainda não é uma condição suficiente para que ela possua o A descoberta do dom.36 Elda Rizzo de Oliveiro que é Benzeção 37 conhecimento do seu trabalho. o reconhecimento diferentes males; 3) guardar no coração todos os do dom é o reconhecimento de um marco na sua ensinamentos; 4) aprender determinadas orações vida: antes do dom e depois do dom. Esse marco a em dias especiais. converte numa nova pessoa, num alguém muito No caso da benzedeira da corrente católica, da especial. Alguém que está construindo um novo pro- crente, da kardecista, da umbandista e do esotérico, jeto de vida. Possuir um dom é sentir-se diferente. o fundamento do seu trabalho é adquirido em o dom impõe um of o ofício da instituições religiosas, como nos centros kardecistas, É interessante notar, nas explicações que as nos templos pentecostais, nos terreiros de umbanda benzedeiras formulam sobre o aparecimento do seu e nos centros esotéricos, respectivamente. Aqui, o dom, que muitas vezes nelas está presente uma sinal indicador de que eles possuem um dom se afirmação da sua autonomia profissional e de como manifesta na trajetória que percorrem para buscar elas se percebem na sociedade em que vivem. No o conteúdo do seu trabalho: no segundo caso, exemplo acima citado, o dom da benzedeira dá-se o desenvolvimento desse dom através de aulas respondeu pela vida da e, nessa condição de com médiuns e a passagem por provas públicas autonomia, ela não procurou por um médico, para testar o seu dom, como a de curar uma pessoa como também poderia ter procurado. que tenha sido desenganada pela medicina erudita há muito tempo; no terceiro caso, o aprendizado da a manipulação do discurso bíblico e das o aprendizado do ofício curas miraculosas, a ênfase nos projetos de salvação; no quarto, o desvelamento de sofrimentos inexpli- cáveis, pela teoria de reencarnação; no quinto caso, Para tanto, ela terá de aprender o fundamento o aprendizado dos pontos cantados, a teoria da do seu trabalho. Neste primeiro caso, ela é católica, reencarnação, o aprender a se comportar enquanto por exemplo, o conhecimento do seu trabalho é tomada, o atravessar provas que consolidem o seu aprendido por meio dos familiares mãe, nora, dom; no sexto, o aprendizado da leitura da sorte prima), pessoas do lado materno, geralmente, e em bola de cristal, no baralho e as provas por obedecendo a certas regras, como: 1) não ensinar que passa o benzedor esotérico fazem dele uma para ninguém as orações a não ser quando mudar-se pessoa instrumentalizada ao seu exercício pro- de cidade ou de bairro, ou quando encerrar o fissional. ofício; 2) o aprendizado de diferentes orações para Nos centros espíritas, nos terreiros de umbanda38 Elda Rizzo de Olivein que é Benzeção 39 e nos centros esotéricos, a benzedeira aprende a organizado, isoladamente, na sociedade. Mas, num produzir as manobras corporais, o transe, o fenô- segundo, essa mesma condição responde pela meno da possessão dos espíritos, aprende também iniciativa que a benzedeira cria para buscar as as técnicas de concentração, irradiação, vidência, pessoas, o local e as condições em que deseja iluminação, às vezes, quiromancia, cartomancia, aprender conteúdo do seu ofício. Ela pode leitura de sorte em búzios, em bola de cristal, aprender com parentes, amigos e até mesmo com aprende a lidar com doenças e sofrimentos, a profissionais que possuem uma religião distinta produzir as os passes e os exorcismos. da sua. Como você mesmo pode ver, leitor, as regras de transmissão do conhecimento popular do ofício da benzeção não são um emaranhado de dados o processo de sua incoerentes, uma invenção isolada de formas de legitimação profissional ensinar e aprender. Essas regras são sólidas e dão propriedade à relativa autonomia que possuem as o momento chave, o mais importante quanto ao benzedeiras, mesmo vivendo numa sociedade que sistema de transmissão do seu saber, é o da sua historicamente as subjuga. Essas regras consolidam legitimação profissional. De que modo, então, as uma dada trajetória de qualificação profissional próprias benzedeiras e as pessoas da comunidade para o exercício de uma ciência popular. Há reconhecem na benzedeira uma agente legítima coerência entre o modo como elas pensam o seu ao exercício da sua profissão? ofício e o modo como o executam. Não basta apenas que a própria benzedeira reconheça a existência de um dom na sua vida. É necessário também que a própria comunidade A autonomia profissional, onde ela mora, onde atua, seus vizinhos, sua a auto-afirmação da benzedeira família, as pessoas que lhe são chegadas partilhem com ela desse momento tão singular. É necessário que essas pessoas queiram que tal dom exista, que Outro traço fundamental para entender a a elejam como uma pessoa especial, capacitada, benzedeira é a sua autonomia profissional. Num detada de poderes sobrenaturais, para que ela, primeiro momento, essa característica do seu benzedeira, possa, em contrapartida, oferecer-lhes trabalho torna específico o modo como ele está uma visão fetichizada da sua vida e da sua própria40 Elda Rizzo de Olivein que é Benzeção 41 imagem. Uma visão carregada de auto-referências de copa e cozinha, um doce, um arroz). Quarto, socialmente valorativas, como as de ser sempre uma quando ela começa a ficar mais conhecida, sendo boa pessoa, de ser sempre solidária com os pobres, procurada por pessoas de fora da comunidade, de não ser nunca preconceituosa, de possuir uma indo diferenciar os males que enfrenta, buscando indiscutível fé em Deus e nos santos, etc. conhecer novas orações e fórmulas, aprendendo a Desde o início do processo de legitimação social combiná-las para debelar o mal e a ampliar o leque do seu trabalho, isto é, do processo de reconheci- de doenças que benze. No final desse quarto mento do seu ofício feito pelas pessoas - dentre momento, ela passa de uma médica popular, que elas, os seus clientes e também as outras benze- exercita uma espécie de clínica geral na deiras todas estão acreditando nela. Esse pro- para uma especialista em alguns males. cesso se realiza na demonstração concreta desse Aprofundar-se no conhecimento do ofício dom, na cura efetiva dos males do cliente, e, significa penetrar no universo da magia, descobrir portanto, na sua eficácia, assunto que retomaremos fórmulas, relacionar àquelas já existentes e cons- adiante. truir uma bateria de técnicas e ensinamentos sobre Esse processo comumente é marcado por alguns a cultura popular que lhe permita localizar objetos momentos. Primeiro, como já disse, quando ela perdidos, trazer de volta maridos errantes, resolver percebe o seu dom. Segundo, quando ela começa conflitos familiares, identificar a causação de a acreditar na sua capacidade de curar, reconhe- várias modalidades de doenças, e até, para algumas cendo-se preparada para tanto, ou seja, quando delas, aprender a interpretar sonhos e enveredar ela começa a produzir benzeções às pessoas da sua pelas encruzilhadas da cosmologia e pelas trilhas esfera familiar, às pessoas das suas relações consan- da Umbanda. como aos filhos, irmãos e sobrinhos, Esse é o momento em que a prática da benzeção conhecendo um tipo apenas de Terceiro, se separa das demais atividades domésticas e quando ela estende a sua prática de benzeção aos começa a exigir da benzedeira um espaço para sua vizinhos, amigos e famílias que moram na sua realização. É a passagem da prática para o ofício comunidade. ela sente a necessidade de aprender da momento em que se processa uma algumas outras orações específicas para males com relação utilitária, expressa em pagamentos por benzedeiras mais experientes, e quando, ainda serviços prestados, muitas vezes, obedecendo equi- muito timidamente, começa a aceitar alguma valência de troca entre a benzeção feita e a sua recompensa pelo seu ofício (geralmente um objeto remuneração. É onde o ofício começa a ser social-42 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 43 mente regulado, posto sob normas. É o momento benzedeiras se sentem comprometidas com o em que a benzedeira já acumulou muitas expe- ensinamento da benzeção a outras benzedeiras, às riências profissionais, possui um grande repertório noviças, observando-se sempre a relação mais de casos de curas fantásticas, de proezas e de velha/mais moça, isto é, mestre/aprendiz. Ensinam- relatos para contar. É também o momento em que lhes a partilhar segredos e cumplicidade com os manipula mecanismos de legitimação do seu ofício, deuses, a conhecer as orações, as artes. as técnicas como aumentar a quantidade dos seus clientes, a e as estratégias para lidar com o sobrenatural, com distância que eles percorrem para vê-la, a compo- o social, com os deuses com os homens, recriando sição social da sua clientela, incorporando os esse saber e vencendo os desafios. Encorajam as filhos de médicos, ou aqueles que o farmacêutico noviças para o aprendizado dos segredos das lhe manda. É ainda o momento que confronta mais plantas medicinais e dos malefícios da natureza. abertamente o seu saber com o do médico para a Ensinam-lhes os conhecimentos necessários para cura do quebrante; do diabete, para caso do que elas consigam decifrar a vida pretérita, pre- simioto; que afirma produzir uma melhora geral na sente e futura dos clientes. condição de vida (material e afetiva) dos seus o conhecimento que sustenta todo processo clientes, que dispensa o uso de alguns textos nas de validação social do ofício da benzedeira varia porque já os conhece de cor, e busca muito entre elas. Desde a percepção que fazem do por outros como "A Cruz de Caravaca", "São seu dom, passando pelo aprendizado propriamente Cipriano", ou, às vezes, "Breviário de Nostrada- essencial do conteúdo do seu saber, pela autonomia mus", textos da literatura popular, todos contendo que determina a busca que fazem junto a outras receitas de feitiçaria, magia e benzedeiras (para o aprendizado de orações e Na maneira de as benzedeiras verem o mundo, e jaculatórias), até o reconhecimento que a comuni- o seu processo de legitimação dentro dele, sempre dade faz do seu ofício. Tudo isso varia em função estarão: de um lado, os clientes e, do outro, a da sua opção religiosa, da cidade onde mora e do constelação de relações de que eles participam, modo como está inserida nessa sociedade. Em como os amigos, as famílias, os parceiros, às vezes outras palavras, todo esse saber oscila e se multi- o médico, o padre, a professora, legitimando ou plica entre a prática e o ofício da entre realimentando o seu dom, para que ele se mante- a pura e simples vocação, expressa primeiramente nha sempre aceso e atuante. na sua capacidade pessoal de doação ou por uma É dentro desse processo de legitimação que as opção profissional mais definida.44 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 45 Esse conjunto de conhecimentos forma um neidades culturais de uma sociedade desigual. Mas corpo estruturado de relações vivas que se mantêm é no jogo dos interesses políticos, na criação das e se reproduzem porque são Elas sinte- suas alianças e antagonismos que se definem a tizam e traduzem uma dada maneira de ler o sua ciência e a articulação desta à sua vida. mundo e as necessidades das classes populares. E o processo de produção e de reprodução do assim, essas relações se atualizam em forma e em saber da benzeção é o mesmo que mantém vivas conteúdo permanentemente. Elas não são com- e sólidas as formas e questões substantivas pelas postas de atos e palavras desarticulados e vazios quais a benzedeira resiste à opressão feita pela de conteúdo. Elas transpiram um modo de traduzir classe dominante. E como cria alternativas para a a vida, de perceber as ameaças e os perigos e de experiência religiosa e médica, ainda que muitas fazer algo para eliminá-los, extingui-los. vezes as exprima sob formas conformistas, resigna- o processo de produção e de legitimação do seu das e fatais. ofício leva anos. Ele é um saber de práticas rituais, A que tipo de situação todo esse saber é dirigido? levado adiante por pessoas que possuem algum Quais são os problemas que as benzedeiras são tipo de legitimidade na comunidade. Esse pro- capazes de enfrentar? Isso será visto, leitor, nos cesso de conhecer é gerado em linguagem e forma capítulos que se seguem. simples, ricas e diretas. E para os seus iguais, como um alguém de dentro da sua própria classe. Ele se dá dentro de um mundo vasto e inteiramente organizado, dividido internamente, habitado por símbolos e lógicas próprias. É vivificado através de relações sociais originais e parcialmente autô- nomas. Tais relações decifram o seu trabalho e a sua vida como um processo constante de luta entre os opressores e os dominados. As regras do saber da benzeção formariam somente uma ciência popular, médica e religiosa, paralela à ciência erudita se elas não fossem o produto de relações sociais antagônicas na socie- dade, manifestando concretamente as heteroge-cruzamentos desse campo é a nossa segunda questão. Essa forma de apresentar, por um lado, as razões que levam os fregueses a procurar as benzeções e, por outro, essas razões entendidas com estratégias sociais e políticas, impossibilita-nos uma visão localizada e setorial desse fenômeno. Mas per- mite-nos entender como é que ele se insere num contexto mais e complexo de relações, que os PEDIDOS DE uma visão superficial do problema não dá conta DE BRUXARIA E DE BENZEÇÃO de apreender. Razões que movem as pessoas Vamos discutir neste curto capítulo mais duas à busca de benzeções questões importantes para entender os atos de Toda benzeção realizada por essa cien- Geralmente, as pessoas procuram as tista popular que é a benzedeira responde a uma quando apresentam um problema que já sabem, situação concreta. Quais são as razões que levam de antemão, que é para a benzedeira resolver. Por as pessoas a buscar a Essa é a primeira exemplo, é comum mulheres discutirem problemas pergunta. conjugais e afetivos: as meninas sobre namorados, Quando a benzedeira produz a sua forma de mães sobre os estudos dos filhos ou de sua moral. combate à tragédia ou à doença numa cidade que Homens, com problemas nos negócios, no emprego, oferece outras opções de solução, a benzeção se ou desempregados, ou ainda para decidirem sobre apresenta como uma estratégia social e política mudança de casa, venda de alguns objetos, ou que as pessoas utilizam na sua vida cotidiana. sobre objetos roubados ou perdidos. Pessoas com Como estratégia, a benzeção constitui um dos conflitos familiares, afetivos, querendo combater momentos possíveis entre várias outras opções de o alcoolismo, os conflitos profissionais; estudantes cura que se interceptam nesse campo de relações em vésperas de exame, jogadores em vésperas da sociais muito complexas. Descobrir alguns dos48 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 49 partida, costureiras, feirantes, mães pobres, vizi- cionalmente rural e católica, e reúne na sua pessoa nhos, parentes, amigos. qualidades de rezadeira, conselheira, raizeira, Fora disso, há uma série de doenças para as ervateira, curandeira e percorrendo as esferas quais uma quando não resolve, do mais obscuras da magia e da as áreas ponto de vista do cliente, encaminha à solução. mais temidas. É muito comum nos consultórios populares da Sintetizando, então: as são respostas benzedeira mães virem se queixar de que seus a problemas e ansiedades concretas, pessoais, filhos apresentam problemas como bichas, simioto, familiares ou de terceiros. Problemas que se situam brotoeja, coceira, sapinho, bronquite, destronca- em três níveis: 1) num que exprime a relação das dura, mau-jeito, torcimento de braço, de pé, ou pessoas com seu próprio organismo (a maior que suas crianças estão assustadas, com quebrante, parte das doenças); 2) num que exprime a relação mau-olhado, inveja, olho gordo ou moleza e das pessoas entre si mesmas (conflitos profissionais, abrição de boca. Ou as próprias mães apresentam afetivos, conjugais); 3) num que exprime a relação problemas de recaída de dieta, barriga caída, das pessoas com os deuses (os casos de demanda, varizes, hérnia, dores no peito, nas costas, nos pés, loucura). tombos, machucaduras, problemas de circulação; Esses problemas são reais. São ainda produzidos pessoas com encosto que procuram pela benzedeira por uma sociedade muito desigual, que oferece para fazer uma demanda. opções desiguais de cura para as diferentes pessoas Como você mesmo pode rastrear, é o e classes sociais. São problemas cotidianos, muito campo de trabalho da benzedeira. Mas ele tem uma heterogêneos, e refletem, em última instância, o coisa de específico se comparado ao de outros modo como os seus portadores estão inseridos profissionais populares de cura. As benzedeiras nessa sociedade. Muitas vezes são problemas que estão mais ligadas à religião do que o raizeiro, o possuem uma origem social, mas estouram diferen- ervateiro, por exemplo, e constroem um discurso temente em cada pessoa. Dizem respeito aos religioso em cima do uso da medicina popular. princípios do autoritarismo, individualismo e Esse campo popular de cura é um espaço de competição. trabalho autônomo. Embora marcado por gestos, Para a sua solução nem sempre a benzedeira é falas e símbolos religiosos, é um campo em que a acionada com exclusividade. Mas os fregueses profissional, a benzedeira, atua num espaço não- formam uma clientela bastante rotativa e, portanto, eclesial. Ela é na cidade uma profissional, tradi- flutuante. E atestam uma coisa: o poder que tem50 Elda Rizzo de Olivein 0 que é Benzeção 51 a benzedeira, entre os seus iguais, de oferecer-lhes um mundo rico, onde, num dado momento, essas respostas. aparecem de forma cristalina com um peso maior Dado o tipo de percepção que a benzedeira sobre um ou vários dos planos abaixo discutidos: fizer sobre o problema que o freguês lhe apresenta, ele terá como resposta um simples benzimento 1) próprio modo de organização dos serviços feito em três vezes, no qual utiliza as jaculatórias de medicina erudita, as imensas filas de espera conhecidas; uma novena, que é também uma forma pelo atendimento previdenciário, as receitas de porém realizada em nove dias, com onerosas, etc.; velas queimando dentro de copos com óleo; ou 2) o modo e as circunstâncias em que as repre- uma consulta, que demanda um trabalho ritual sentações sobre as doenças são percebidas mais elaborado. Mas todas essas situações se pelas diferentes pessoas e classes sociais; subordinam, de um modo ou de outro, à religião 3) os recursos de que dispõem no momento para dessas versáteis cientistas. Os fundamentos sagrados o enfrentamento do problema; do seu saber religioso se mesclam à sua criatividade 4) a questão da opção da automedicação, indus- e à sua autonomia profissional, gerando os arti- trializada, às vezes indicada pelo farmacêutico, fícios profanadores da magia, e, dessa fusão, brota ou a própria medicação caseira; a sua como uma resposta que varia entre 5) o tipo de problema apresentado e a sua per- essas mulheres, mesmo que elas pertençam à sistência; mesma religião. 6) o grau de experiência urbana da 7) as informações sobre determinadas benzedei ras para determinados tipos de mal; Estratégias da procura pelas benzeções 8) a utilização de saídas que passam pelas soluções capitalistas do tipo pulseira e anel sabona, guaraná em pó; Páginas atrás falei que as estratégias da procura 9) as tentativas de cura com a ioga, macrobiótica pelas se forjam num amplo e complexo e outras vias orientais; campo de relações. A lógica da procura pelas 10) a residência da benzedeira lhes é expressa momentos de um comporta- 11) a questão da curiosidade. mento que possui múltiplas determinações. Nela alguns fatores se cruzam e se interceptam, espe- A formulação das estratégias e das trajetórias de52 Elda Rizzo de Oliveira cura através da medicina popular da benzedeira expressam, portanto, o concreto do comporta- mento entre as benzedeiras, outros profissionais, o cliente e a comunidade. Pertencem ao âmbito das relações sociais mais gerais. São como comporta- mentos vividos, determinados social e historica- mente, na medida em que constituem diferentes opções para as pessoas, grupos e classes sociais. Dessa maneira, essas estratégias políticas e sociais expressas em trajetórias de cura, diferentes o TRABALHO DE BENZER para cada pessoa, devem ser pensadas em conexão com outros problemas produzidos pela sociedade, e não como fatos isolados, autônomos. Devem ser pensadas considerando-se ainda o elemento unifi- cador das diferentes maneiras que as pessoas criam As jaculatórias, as rezas da benzedeira para viver o processo histórico comum ao médico, Para escrever este capítulo selecionei algumas benzedeira ou cliente, mas que marcam o modo rezas, fórmulas e jaculatórias interessantes, utili- como cada um se percebe na vida e no mundo. zadas durante as que formam uma das faces do saber da benzedeira. Assim você, leitor, poderá conhecer um pouco mais de perto o con- teúdo da súplica e os símbolos que a benzedeira manipula durante o exercício de seu ofício. o material apresentado abaixo foi extraído de um estudo folclórico realizado no interior mato- grossense e goiano, denominado Rezas, Benze- duras, Et Cetera, de Ático Vilas-Boas da Mota. Essas jaculatórias mostram o poder que a benze- deira tem de preservar o seu trabalho, enquanto produzido em regiões rurais, e através do catoli- cismo popular.54 Elda Rizzo de Olivein que é Benzeção 55 Para benzer arca caída, espinhela Jesus Cristo quando andou no mundo, três coisas ele levantou: arca, vento, espinhela caída. Assim eu peço a que levanta esta arca pelo amor de Deus. Para benzer mordedura São Bento em Roma sentado numa pedra mármore sofrendo uma grande dor, quando Jesus Cristo chegô e ele falô: Jesus Cristo que qui cura água de fonte e raminha de monte. Se fô água mina, se fô cobra, a cobra Para benzer cobreiro Na proteção do senhô que fez céu e a terra, eu entrei em Roma, em romaria benzendo cobra, cobraria. Corto cabeça, corto meio, corto cobreiro. Mal entrei em Roma, romaria, benzendo largatixa, largatixaria, corto cabeça, corto rabo, corto meio. Entrei em Roma, romaria, corto cabeça, corto meio, corto rabo, corto cobreiro. Mal entrei em Roma, romaria "Jesus Cristo, quando andou pelo mundo, três coisas ele benzendo sapo, saparia, levantou: arca, vento e espinhela caída ". corto cabeça, corto meio, corto meio, corto rabo,56 Elda Rizzo de Olivein 0 que é Benzeção 57 corto cabeça, corto cobreiro, À sombra de uma árvore com os poderes de Deus e da Virgem Maria. Já sabendo do ocorrido mesmo ele rezou A oração Para benzer E a mulher má se desengasgou Eu costuro carne quebrada Para benzer quebrante, mau-olhado e olho ruim Nervo torto e osso rendido (3 vezes) Carne quebrada, Com dois eu te vejo, Nervo torto e osso rendido 3 eu quebro encanto Assim mesmo eu costuro (3 vezes) a palavra de Deus Carne quebrada, e a Virgem Maria é quem cura Nervo torto e osso rendido Quebrante, maloiado e oi ruim. em louvor de São Frutuoso Leve o que trouxes isso mesmo eu coso. Deus, benza fulano ( ) com a Cruz. Deus, defenda de mau-olhado, de quebrante, de macumba, de de malefício e de todos os males que vos Para benzer mal-de-engasgo fizeram. Quem está fazendo ferro? Homem bom e mulher má, eu sou aço; esteira velha Brás deitar Quem está fazendo é o demônio São Brás, Bispo, disse. e eu vos embaraço, com os poderes de Deus, Jesus e Nosso Senhor confirma o que eu dizer a Virgem Maria. Este engasgo sobe ou desce. Com os poderes de Deus e da Virgem Maria. Para benzer doença-do-ar Ela tinha uma comida de peixe escondida, Esperando o Bispo sair. Fulano ) Ela pôs a comida e comeu. Ar te deu se engasgou, lembrando que o Bispo Ar te daria Desengasgaria. Quem te curaria Mandou o marido dele que se encontrava ó Virgem Maria58 Elda Rizzo de que é Benzeção 59 se for de sol ar-do-sol Sereno somá, ar-do-fogo tira essa dô de cabeça E joga nas onda do mar. ar-da-lua Deus é salvo, Deus é virge, Deus é claridade ar-das-estrelas, Seu vosso dia ar-de-constipação, Sarai esta dô de cabeça com esta Ave Maria. ar-de-foia A Ave Maria Essas são algumas das fórmulas mais conhecidas. Quem te curaria. São também chamadas de jaculatórias, isto é, orações curtas, simplificadas, reduzidas, fervorosas Para benzer erisipela e suplicantes. No ato da as jaculatórias se mesclam ao uso das orações consagradas pelo São Pedro quando andou pelo mundo encontrou fulano código católico erudito, como as do Pai-Nosso, a (...) com isipela, Isipela - isipelão, que ele tem no Ave-Maria, Glória-ao-Pai. tutano, no tutano, deu no osso, do osso deu na carne, da Geralmente, as jaculatórias são rezadas sobre carne deu no sangue, do sangue deu na pele, da pele o local enfermo do corpo da pessoa que está caiu no chão, isipela, isipelinha, isipelão. sendo benzida, e a benzedeira as repete três vezes. Na maior parte dos casos, a benzedeira Para benzer dor-de-cabeça manipula ramos de plantas (arruda ou guiné, pimenta malagueta ou ou o rosário, Saiu Juliana mais Fabiano acompanhado do gesto eficaz do sinal da cruz, Encontrou Nossa Senhora. antes, durante e depois da Como parte Ela perguntou o que tem Juliana mais Fabiano do ato da as jaculatórias são oferecidas Dor de cabeça, sinhora. a um santo de devoção da benzedeira: São Bento, Quer qui eu ti sare? Jesus Cristo, Nossa Senhora do Alívio, São Sararei Brás, Santa Efigênia, São Judas ou a Todos os Ajunta caco cum caco, muleira cum muleira Santos. Estarei curado cum os puderes de Deus e da Virgem Na própria passagem dos ensinamentos dessas jaculatórias de uma benzedeira para outra, elas60 Elda Rizzo de Olivein que é Benzeção 61 vão se fragmentando, às vezes perdendo alguns cura a um santo de sua devoção, São Judas ou elementos e ganhando novos. Nossa Senhora Aparecida. 2) A benzeção da corrente para dor de garganta A recriação das benzeções na cidade A benzedeira invoca os seus guias médicos em Vou descrever agora alguns momentos da prática estado de concentração numa saleta sombria no profissional das benzedeiras na cidade. Através deles fundo da sua casa, onde havia copos com óleo e você poderá ter uma visão clara da multiplicidade vela queimando. Pede-lhes uma orientação para o de elementos que unificam e diferenciam esse lado caso da cliente e indica o uso de água morna, da cultura popular. Poderá enxergar também de vinagre e sal, em gargarejo, durante três dias conse- que modo a religião de cada benzedeira a orienta cutivos. Paralelamente, a cliente deve tomar um no seu ofício de benzer, que apresenta um con- banho de defesa (com pétalas e ramos de mato) teúdo singular. para controlar a inveja. 3) A benzeção crente: para problemas nos negócios Benzeções: múltiplas e diferenciadas Estalando os dedos ao largo do corpo do cliente, 1) A benzeção católica: para MAU-JEITO ou pretendendo com isso expulsar os maus espíritos, a RENDIDURA benzedeira crente em seguida lê a Bíblia e cria espontaneamente uma oração. Ao chamar o nome da criança, a benzedeira reza Esse é o momento também em que invoca a o credo, apontando para o local enfermo. Risca Deus, ao Espírito Santo e a Jesus pede-lhes força três cruzes de sal no mesmo local, alternando-as, para afastar da vida do cliente a inveja, o mau- até completar a marcação que é feita num rosário olhado e a macumba. de contas que, em pé, ela segura. Finaliza a benzeção São ainda parte da benzeção os presságios que chamando novamente o nome da criança, rezando tem, indicando ao cliente o local onde encontra, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria e suplicando a por exemplo, aquilo que atrapalha a sua vida.62 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 63 Indica-lhe o uso de óleo santo contra as pessoas tação, participa dessa benzeção ao responder invejosas e o olho gordo. fórmulas e frases e o seu nome (por três vezes), enquanto a benzedeira bate fortemente o pé 4) A kardecista: para problema no pé direito no chão, outras três vezes. A interação entre ela e ele é rápida, e ambos Após pedir uma iluminação para os seus guias repetem fórmulas como: hei de vencer! A benze- num cômodo de sua casa, a benzedeira toma um deira invoca os seus guias, uma possessão de terço grande, como sua ferramenta de trabalho, e espíritos, afirmando-lhe que essa consurta lhe pede à cliente para que pule o terço quando ela trará a orientação necessária. passá-lo à altura do seu joelho. Como se tossisse muito forte, estalando os Outro recurso que ela utiliza são galhos de dedos com as duas mãos, a benzedeira, com a voz plantas, que bate enfaticamente à frente do local alterada (mais grave e mais forte) pergunta nova- enfermo. Faz-lhe inúmeras perguntas (sobre mente sobre o problema do cliente e indica-lhe religião, vida, namoro, etc.), e toma uma tesoura, uma solução (aplicação de salmoura, amarrada para cortar simbolicamente o mal, enquanto a numa faixa). Puxa fortemente a perna do cliente cliente responde às suas fórmulas para que o mal e explica-lhe que esse movimento traria o joelho seja cortado e afastado, três vezes. ao seu lugar. Indica-lhe um banho de imersão no pé, com Explica-lhe esta possessão de espíritos e impõe água morna e sal, três vezes seguidas, utilizando o credo. a saída do seu guia do seu corpo. Fala alto, tosse e ordena-lhe: sai Baiano, sai! Reafirma a expli- 5) A benzeção umbandista: cação dada pelo guia ao cliente e dá-lhe outros para joelho machucado detalhes, como por exemplo, a possibilidade de substituir o uso da atadura por um pano ou uma meia. A prática umbandista é um ritual mais complexo, onde a especialista em primeiro lugar benze a parte enferma com as mãos em cruz. Em seguida 6) A benzeção invoca seus guias no seu altar que contém vários para estômago caído santos, lemanjá, Penacho de Caboclo, Zé Pilintra, em meio às velas brancas. o cliente, sob sua orien- A benzeção esotérica em alguma coisa se asse- melha à benzeção católica. o cliente, sob suaElda Rizzo de que é Benzeção 65 64 orientação, encosta-se numa parede com os braços mesma categoria religiosa de benzedeira. vezes, estendidos na posição vertical, e o benzedor mede as benzeções se estendem para outros espaços três dedos do osso esterno para baixo e diagnostica (terreiro, cachoeira), quando o problema apresen- tado pelo cliente ultrapassa os recursos domésticos o seu problema. Em seguida o benzedor aplica-lhe um forte de cura, como nos casos de para toque na altura do estômago, com a finalidade de o qual há necessidade de uma demanda para recolocar o estômago no lugar pelo susto que o devolver o ódio e a fúria ao seu malfeitor. Umas cliente leva. Explica-lhe a origem do seu problema, operam o benzimento em dias da e apresenta-lhe a benzeção como a única forma semana, geralmente em três vezes, com ou sem de curar, feita com as mãos em cruz. Em outras hora marcada, cobrando ou não, usam mais plantas, ele utiliza rezas, explicações mágicas, sal, vinagre, chá, ervas, massagem, velas, óleo do solicita um trabalho com dimensões mais comple- que outras; asseguram ou não a privacidade do cliente, utilizam ou não altares, fazem ou não xas, na cachoeira. Esses são os seis modos distintos pelos quais os jejuns, possuem uma clientela rotativa (maior ou especialistas populares realizam o seu ofício na menor), utilizam rezas e jaculatórias consagradas cidade: o católico, o da corrente católica, o da pelo catolicismo; fazem passes, consultas, contro- crente, o da kardecista, o da umbandista e o lam ou não a clientela e, às vezes, utilizam medi- camentos esotérico. Vimos então nesses exemplos que a Em alguns casos, as benzedeiras, sobretudo as não é apenas realizada aos familiares da benzedeira, mediúnicas, usam outros recursos nas suas benze- nem apenas a pessoas da comunidade, mas também ções, como leitura de sorte em búzios, cartas, a clientes. Para realizá-la, a benzedeira opera a operam com astrologia, passando de uma ética realidade de cura dentro de um duplo domínio: devocional católica a uma mágica, próxima à o da religião e o da medicina popular. Ela trabalha bruxaria, confrontam ao modo com ou sem possessão, através dos passes, benzi- capitalista de medicar no Brasil (medicina oficial) mentos, sozinha e se destaca de outros profissionais um dos modos populares de produzir curas, no que também podem benzer, como o padre, o qual criam um estilo próprio de trabalhar. E isso pastor, a parteira. só é possível porque a benzeção cria relações Há variações significativas entre esses especialistas sociais, vinculando as pessoas sem embaraço. de cura popular e mesmo no interior de uma As variações internas, dadas pelas diferentesElda Rizzo de Olivein servem para transmitir a você, ainda que rma simplificada e incompleta, pelo pequeno o deste texto, a idéia de que, por mais que especialistas sejam expropriados num con- social desigual, eles preservam, alimentam, e transformam o pequeno espaço no exercem a sua autonomia, ainda que relativa cial. BENZEÇÃO, UMA DAS EXPRESSÕES DA MEDICINA POPULAR Se fizermos uma pesquisa nos jornais do final do século passado e início desse século, veremos claramente o modo irreverente e hostil como foram reprimidas as benzedeiras em suas atividades de cura e de benzeção. Em nome da preservação dos "bons costumes" - que encobriam, na verdade, a defesa dos interesses econômicos e políticos dos "homens de bem", fazendeiros enriquecidos às pressas com as propriedades e o comércio de café, principalmente na região do Vale do Paraíba, Campinas e Ribeirão Preto - sempre nas sessões policiais, os jornalistas conclamavam as autoridades para que realizassem prisões aos "macumbeiros, mandingueiros, benzedeiras, curandeiros, feiti- ceiros, vadios e desocupados" que exerciam uma prática ilegal da medicina, portanto, charlatanismo.68 Elda Rizzo de que é Benzeção 69 Um outro registro que encontramos sobre as sindicato, compõem um grupo de pessoas que é a literatura folclórica, que relata prestam serviços à comunidade. longas e detalhadas pesquisas de campo, embora se São profissionais que se deslocaram de uma fizesse sobre esses dados uma análise muito desar- sociedade rural para uma sociedade urbana, onde ticulada e ainda marcada por uma visão preconcei- recriaram o seu trabalho com novos elementos, tuosa que a tudo via como restos de um passado reconstruíram suas regras, seus ritos, empobre- remoto, distante, usado por aqueles que ignoram cendo-os, num certo sentido. Profissionais que o novo, o moderno, isto é, a medicina erudita. criaram um e complexo sistema de prestação Contudo, tais análises se davam dentro dos limites de serviços que oscila entre a religião e a profissão, im ostos à investigação feita nessas épocas. partindo de uma dada visão de mundo que une os Não é nenhum desses caminhos que escolhi, seus iguais. entretanto, para interpretar as Abordo Portanto, o que vamos discutir neste capítulo neste capítulo as como a conquista e não é uma invenção isolada da cabeça do antro- a preservação de um espaço de resistência, uma pólogo. As características do ofício da demonstração de força, por pequena que ela seja, raramente abordadas nos estudos sobre medicina ao saber erudito. popular, fazem parte de uma história, de uma Tal resistência se faz na nossa sociedade através cultura e, ao mesmo tempo, de um processo de de um processo permanente de embate entre as produção da vida. Somente alcançando esse espaço diferentes classes sociais, dominantes e dominadas, social onde ele ocorre é que podemos perceber as e os seus especialistas correspondentes. Para essa suas diferenciações simbólicas. o ofício da ben- visão, as constituem práticas sociais zeção constitui um sistema próprio de cura, relati- realizadas não por pessoas isoladas que fazem o vamente autônomo. É um ofício artesanal dentro seu trabalho às escondidas, na periferia das cidades, de um modo de produção capitalista. mas por especialistas populares de cura que ofere- cem respostas compromissadas para os da sua classe social, por uma espécie de união com os Em busca dos sentidos da benzeção excluídos. Especialistas socialmente produzidos, que realizam seu ofício dentro de determinadas condições e que, embora não tenham representa- Quem vê uma especialista popular de saúde tividade em corporações profissionais do tipo benzendo alguém jamais pode imaginar o forte70 Elda Rizzo de 0 que é Benzeção 71 significado que esse ato encerra. Vista aos pedaços, soluções. nos seus fragmentos, como uma parte daquilo que A benzeção realiza um dos momentos mais é rústico, pitoresco ou exótico, a benzeção não importantes da medicina popular. Nela, os arti- é capaz de acrescentar nada à vida das pessoas. fícios e estratégias do saber popular, criados e Mas essa visão externa não só não a define como recriados pela cultura popular, como os conheci- também não a caracteriza, nem na sua capacidade mentos sobre plantas, banhos, receitas, chás, de multiplicação, nem na capacidade de diferen- simpatias, massagens, escalda-pés, suadouros, garra- ciação dos seus símbolos. fadas, medicamentos caseiros e, excepcionalmente, Compreender a benzeção é penetrar na sua industrializados, se corporificam nas concepções essência, é buscar o significado da sua prática terapêuticas das benzedeiras. social, entendendo de que modo esse lado da Enquanto no campo o sistema da benzeção era cultura popular, tão fragmentado, hostilizado, de orientação predominantemente católica, como rejeitado e marginalizado, é recriado com força vimos através das jaculatórias, na cidade esse e autonomia. É buscar uma significação extraída ofício perpassa os diferentes contextos religiosos de relações sociais definidas, que trazem consigo católico, evangélico e mediúnico - e as diferentes uma concepção de mundo, da benzedeira com classes sociais. Constitui instrumentos, trabalhos o seu cliente, com o seu ofício, com a sua vida e ferramentas de cura, apresentando diferenças cotidiana. entre cidades e regiões, porque representa um Falar dos atos concretos da por corpo estruturado de saber que é sensível às dife- dentro, é enxergar que eles são parte de um sistema rentes mudanças processadas no interior de uma de produção de serviços e respostas populares de sociedade dinâmica como é a brasileira. Há casos cura, males, doenças, aflições e tragédias, opera- em que a benzeção é vista pela própria benzedeira cionalizados através de símbolos, gestos, crença, como uma caridade, e há casos em que é encarada fé e de assistência, feitos por pessoas escolhidas. como um trabalho, sobretudo por ser exercida Não é um qualquer que pode produzir benzeções numa cidade, onde o trabalho surge como uma aos problemas cotidianamente vividos por aqueles necessidade de sobrevivência. que se situam na sua própria classe social. Somente Vivendo experiências muito profundas na as benzedeiras, porque partilham com eles de uma cultura popular, as benzedeiras recriam essas visão de mundo, expressa no modo de conceber experiências via uma prática não-eclesial e, por as necessidades, a história, os sofrimentos e as isso mesmo, marcada por uma singularidade, pela72 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 73 busca de um estilo próprio de trabalhar. Assim é Embora o elemento divisor interno a elas seja que nos diferentes tipos de benzeção o que se dado pela sua opção religiosa, a sua religião não evidencia é a criatividade da benzedeira quanto à as separa, necessária e estruturalmente na socie- utilização das suas ferramentas de trabalho, das dade, porque não divide a sua posição de classe. palavras, do tom de voz, do tempo que gasta, das A religião diferencia internamente pessoas que plantas que utiliza, da cinza, água, sal, alho, gestos compõem esse mesmo sistema de curar, de aliviar com as mãos, vinagre, aconselhamentos, jacula- a dor, e que possui leis, princípios e fundamentos tórias, etc. construídos em cima de uma observação empírica. Então, uma visão que enxerga a benzeção aos Mas não fraciona a classe social da qual fazem pedaços não consegue perceber toda a riqueza parte, onde, ao mesmo tempo, tal como a benzeção desses processos sociais que há atrás do rústico, acontece na nossa sociedade, é antagônica à do quantas formas concretas de viver se medicina erudita. escondem atrás dessa concepção autoritária e Quando inserimos essa discussão num marco insensível, que tem muitas vezes, como pressuposto, ampliado, podemos relativizar o peso dos rótulos que a escolha pela medicina erudita seja a forma expressos nos adjetivos rústico, exótico e pitoresco ideal de curar para o conjunto da sociedade. atribuídos à benzeção e buscar uma nova cono- Assim, longe de constituir uma expressão tação ao ofício da benzedeira, agora enxergando-o atomizada de resquícios de formas antigas e como um modo de intervir no processo social. superadas de produzir curas, ela é uma expressão Ainda que ela não o faça criticamente e ainda que verdadeira de parte das necessidades, dos senti- se dê dentro de limites vis mentos culturalmente definidos e historicamente A oposição popular/erudito só acontece entre possíveis da cultura popular, realizada por espe- sujeitos socialmente desiguais. Quando estudamos cialistas de cura do corpo e da alma. o fenômeno da cura popular, inserindo-o na A produção desse conhecimento se relaciona a mica da sociedade brasileira como um todo, perce- uma história concreta construída pelos campo- bemos os mecanismos internos à luta de classes que neses, quando dialogavam com a natureza e se caracteriza um processo histórico comum, mas, ao apropriavam dos seus recursos e benefícios, trans- mesmo tempo simbolizado diferentemente nas formando-os em alimentos, objetos ou remédios. histórias de lutas de médicos e benzedeiras, e de começa a se forjar a visão de mundo dessas médicos contra benzedeiras. especialistas populares.74 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 75 Benzeção, um dos momentos do confronto popular/erudito o ofício da benzeção sintetiza um dos momentos concretos e possíveis em que aparece o confronto popular/erudito, onde a benzedeira antagoniza o seu conhecimento ao dos médicos e ao dos padres. o ofício da benzeção é um dos momentos em que a benzedeira propõe uma releitura da religião e da medicina através de uma relação de freguesia. É um dos momentos em que a benzedeira se faz existir enquanto um sujeito concreto. Alguém que realiza alguma coisa própria, um trabalho, numa relação com pessoas. Mesmo que não acreditem que alguém pobre e analfabeto, na maioria das vezes, traga alguma contribuição para se pensar a questão das doenças e aflições. Esse ofício se coloca como um conjunto de saber-fazer específico, constituindo ele mesmo, simultaneamente, um ofício transformador, que se constrói e se recria permanentemente, mesmo à revelia do saber erudito. É o modo como a ben- zedeira e os seus clientes percebem, representam e participam da cultura popular. o confronto popular/erudito se estabelece mesmo no momento em que a benzedeira desen- volve uma prática de orientação conservadora, para Esse ofício é o modo como a benzedeira e os seus a qual recupera propostas idealistas de reparação clientes percebem, representam e participam da dos fatos, movida afetivamente, por exemplo, a cultura popular.76 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 77 pregar o perdão, a resignação ou a reproduzir a mesmo tempo, faz as suas concessões à ciência moral sexual dominante. o simples fato de ela erudita. penetrar num campo de saúde considerado de Por ser uma ciência que exerce uma atividade domínio erudito, subtraindo dele, historicamente, sobre e entre as pessoas é que, do nosso ponto de um espaço no qual constitui o seu setor, um setor vista, é incorreto situá-la isoladamente, como um de cura popular no qual vincula-se com os seus fenômeno fragmentado. Ela é uma entre outras, por meio de uma relação de troca, juntamente com guardando, portanto, relação com a totalidade de outros profissionais populares de cura, como a outros fenômenos sociais ligados à saúde e à parteira, o curandeiro, o ervateiro, o rezador, etc., religião. Por isso, somente quando vista de uma já é um ato de resistência política e cultural. perspectiva ampliada é que a entendemos politi- Ainda que o seu saber não seja crítico e ques- camente. Ou seja, articulada ao modo como a tionador, o fato de oferecer para a população uma sociedade brasileira produz os diferentes serviços outra alternativa de cura que não a massacra, de cura, desde quando a benzedeira migra e intro- porque é mais próxima de suas vidas, já traz em si o duz junto com outros camponeses a medicina espaço de resistência à dominação de classe, o popular na cidade como respostas a uma deter- espaço de resistência à cultura erudita. minada demanda de necessidades que se transfor- Embora seja a benzedeira quem determine a mam historicamente. E apresentam uma dada direção do seu trabalho, ela não o faz individual- configuração no modo como a benzedeira vive o mente. o mais revolucionário de sua prática é o momento histórico. caráter social da sua ciência popular. Essa ciência não é produzida solitariamente em gabinetes, institutos de pesquisa ou em universidades. Mas é gerada coletivamente, na sua relação direta com os oprimidos. É uma ciência que não pretende dogmatizar-se nem isolar-se dos valores sociais. Essa ciência sintetiza uma visão de mundo muito própria, uma autêntica expressão da compreensão da vida, onde identifica os oprimidos e os opres- sores. Ela é construída por meio de um processo dialético onde cria as suas resistências, mas, aoo que é Benzeção 79 medicina alienava as pessoas do convívio social era internando-as e proclamando, de um lado, o que era a saúde e, de outro, a doença, concepções que passavam pelos interesses políticos que ela própria defendia. Agora que você já dispõe de vários dados sobre o ofício da desde o modo como ele se apresenta nas cidades grandes, concorrendo, num certo sentido, com outros ofícios, como o do A EFICÁCIA DA BENZEÇÃO padre, do pastor, do médico e também entre os diferentes tipos de benzedeira, as formas usuais com que as benzedeiras obtêm a essência do seu trabalho, o conhecimento de inúmeras jaculatórias Juntos, leitor, vimos uma maneira de interpretar que elas usam até as peculiaridades do seu instru- o mundo através do controle social exercido pelos mental de convido-o a descobrir comigo Tribunais da Inquisição sobre as pessoas que car- os segredos que se escondem na eficácia do seu regavam a marca, ou melhor, o estigma de bruxaria trabalho. o estudo da eficácia da benzeção é uma e feitiçaria. Em seguida, vimos de que modo a questão e pouco pesquisada, embora todo medicina erudita, encarnando um dos poderes pesquisador de formas alternativas de cura esbarre vindos de uma ciência sustentada pela ideologia nela. É uma questão para a qual também possuo dominante, substituiu o poder religioso de contro- mais indagações do que respostas amarradas. lar a sociedade, não mais por meio daquelas bruxas que reivindicam poderes sobrenaturais, mas por meio das pessoas a quem ela rotulava de doentes. E isso a medicina fazia através de um saber tido e Medicina erudita X benzeção identificado como politicamente neutro, isto é, que se dizia objetivo. Mas que, na verdade, desde Não é porque a medicina erudita rotula, hostiliza Renascimento sustentava hábil e cinicamente o e rejeita saber da benzedeira que este é ou não confronto de poder estabelecido entre as pessoas, eficaz. Uma maneira de contestar ou rebater a grupos e classes sociais. Um dos modos como a visão preconceituosa, presente nas acusações que80 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 81 os médicos, no geral, fazem às benzedeiras, a seu meno que se dá numa área considerada por ela ofício e sua eficácia - cumprindo o que em antro- como sendo marginal. pologia se chama de uma colocação etnocêntrica, Para sermos justos com relação aos próprios isto é, vista pela lente dos seus próprios valores médicos, precisamos entender, entretanto, que é discutir esse assunto por outra ótica. Discuti-lo reflete-se, no conteúdo da prática médica erudita e partindo do caminho inverso percorrido por eles. na sua maneira de ver mundo, a lógica do capital, Mas vamos por partes. a do lucro. E, portanto, não podemos criticar Na sociedade em que vivemos, a quem é permi- essa medicina sem criticar também a sociedade tido o poder de rotular? Não é àquele que ocupa onde ela é gerada e transformada. uma posição privilegiada na estrutura de classes Quais são os critérios que a medicina erudita Não é àquele que pode expropriar, despojar, utiliza para negar a medicina praticada pela benze- construir uma visão de mundo em cima da defesa deira? São aqueles que recobrem a eliminação dos seus interesses específicos e querer impô-la (ou não) dos sintomas da doença. Os critérios da ao conjunto da população como sendo a melhor? supressão dos sintomas são critérios de validação Rótulos, etiquetas só podem ser criados e aplica- feitos pela medicina erudita para pensar a sua dos, com uma forma e um conteúdo próprios, própria prática. São critérios de uma eficácia quando a fala de quem o faz carrega uma força, temporária. E possuem dimensões reduzidas e um poder e indica uma direção para tanto. Uma pobres do ponto de vista social. Portanto, não direção nascida de uma relação de força que se podem aplicar-se, sem distorções, à medicina da fundamenta nos critérios sempre estabelecidos pelo benzedeira. Tais critérios não vêem a sociedade saber erudito, que esconde o seu poder atrás de no seu movimento, na sua dinâmica. Não apreen- todo seu aparato científico do qual é parte dem a existência de um processo histórico-social seu linguajar técnico. atravessando a questão das doenças. Só servem para Numa sociedade desigual, como é a nossa, afirmar a hegemonia dos próprios médicos. dividida em classes sociais, monopólio do saber Por esses critérios, a própria medicina erudita erudito de curar concentra-se nas mãos dos mé- não pode também ser considerada completamente dicos. Muitas vezes, em nome desse monopólio, eficaz. Ela já conseguiu demonstrar, enquanto uma a medicina erudita invalida ou incapacita tudo prática social, a sua impotência para lidar com as aquilo que ela não consegue explicar. Mesmo doenças de nossa sociedade. Paralelamente à multi- quando sequer se interessa por estudar um fenô- plicação da oferta dos seus serviços de saúde, dentreElda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 83 os oferecidos pelo INAMPS, havia uma sua eficácia. Muitos dos recursos desse ofício não osão incontida e uma acentuada diferenciação são divulgados como deveriam porque as multi- doenças, sobretudo nas classes mais pobres. nacionais do remédio que controlam o mercado porque a doença é o resultado de um processo farmacêutico, através de campanhas e pesquisas rico de deterioração das condições concretas junto aos médicos e à população, acabam por ida de uma dada população e, por isso, a sua determinar o próprio conteúdo de qualquer moda- não se relaciona apenas com a técnica médica. lidade de prática erudita, como aquela na qual os n disso, a história registra que o processo de medicamentos são impostos como uma rápida cialização da medicina erudita ocorreu parale- solução. Para essa visão, não há, portanto, espaço ente ao seu afastamento da cultura popular e para outro tipo de prática de cura que não se guie de sua rejeição. por essa lógica. Soma-se a isso o fato de que os e certo modo, para casos individuais, mas não médicos ainda que as benzedeiras invadem o conjunto da população, a medicina erudita um campo, o campo da saúde, que é de domínio bém possui o seu grau de eficácia. Até maior, exclusivo deles. ez, do que a medicina popular da Mas, você pode argumentar comigo, leitor, que que criticamos nela em favor dessa é quanto ao conhece pessoas que não são médicos nem des- do como ela está inserida na nossa sociedade. frutam de uma posição econômica e social privi- o modo como o Estado formula as legiada na nossa sociedade, e que nem por isso íticas oficiais de saúde como resultado de uma crêem na eficácia da E, como os médicos, erminada concepção da problemática das pensam que pelo fato de as benzedeiras objetiva- Criticamos também a própria organização mente serem ignorantes do ponto de vista do saber serviços de saúde e a sua distribuição de modo oficial, elas não possuam um saber alternativo, igual à população. De outro lado, quanto ao seu relativamente autônomo, e com uma validação na teúdo, criticamos a larga utilização na sua sua cultura. itica de medicamentos industrializados e Respondo-lhe que você tem razão. A força que do como os seus profissionais se relacionam reside na palavra dita pelo médico contra a eficácia m a grande população consumidora dos seus da benzeção e as próprias atitudes preconceituosas viços. dirigidas contra a benzedeira e outros profissionais No tocante à benzeção há fortes razões políticas populares de cura, como o ervateiro, o raizeiro, a e ocultam a não-divulgação do seu ofício e da parteira, etc., recriam-se entre os próprios domi-Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 85 am-se entre aqueles que ingenuamente trajetória profissional em escolas eruditas. essa visão como estando identificados Esse modo e estanque de ver o portanto, como sendo sua. Sem se dar mundo, aos pedaços, ordenando as coisas entre e essa visão é produzida historicamente boas e más, começa a ser imposto para o conjunto rar a ideologia da dominação de uma da população, através de uma ideologia presente outra. Nesse momento, substantiva- nos comportamentos e nas relações e que identifica o poder de mascarar e de distor- as coisas e os fenômenos sociais como sendo dade dos fatos. E isso acaba ficando naturais. Revela-os como se eles tivessem sido a sua maneira de ler mundo e de se sempre assim, em qualquer tempo, e não fossem iante dele, nas diferentes maneiras de produzidos por um processo histórico de luta entre vida, a sociedade, a existência material e os dominantes e os dominados. enzeção. Para essa visão, a bênção deve ser realizada pelo epção médica que apreende a saúde, padre, pelo pastor, a cura pelo médico ou pelo funções vitais de modo isolado e técnico psiquiatra, donos do discurso um ção à concepção feita pelo leigo - que detendo o monopólio do corpo e outro o da visão mistura todas as coisas) não pode consciência (que para essa visão, são divididos, benzeção como uma prática calcada em separados, não formam uma unidade, diga-se de distintos dos seus. Para essa visão, as passagem). Portanto, não há espaço para a benze- as são ignorantes e, portanto, seu traba- deira. E quem a o faz porque não sce ineficaz. Aliás, uma pessoa ignorante conhece a ciência que orienta as formas eruditas opinar num campo que é de domínio de de solução. tas eruditos, que já trazem uma herança Quem quiser se aprofundar mais nessa questão da classe dominante e que se formaram deve ler um outro texto meu denominado o que é mais elitizadas do país, tendo medicina popular, desta mesma Coleção, onde ezes feito cursos no exterior. Quando ela discuto, inclusive, a recomendação feita pela les reagem e rotulam-na. Reativam, nesse Organização Mundial de Saúde aos países subdesen- um modo de pensar muito próprio volvidos para que valorizem os seus curandeiros alismo. Reivindicam para o seu trabalho como meta para resolverem seus problemas de es morais, absolutas e incondicionais, de saúde até o ano 2000. til e verdadeiro porque trilharam uma86 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 87 A benzeção No tocante às se os vemos assim, entre as medicinas populares ficamos impedidos de romper com o véu de aparên- cia que as recobre e de buscar novas maneiras de No que tange às diferentes expressões da medi- ler esse fenômeno. Em si, as plantas curam, mas os cina popular, desde a medicina praticada pelas ritos de benzeção cumprem um papel importante benzedeiras, ervateiros, raizeiros, parteiras até nesse contexto. Eles nos fazem alcançar novos aquelas nascidas na cidade como a Umbanda e o espaços no mundo dos homens socialmente dife- Pentecostalismo, gostaria de esclarecer uma questão renciados e formular novas indagações, como por fundamental que muitas vezes é tratada de modo exemplo: não pode haver um outro modo de reticente, ou marcada por uma visão preconcei- manipular a realidade e de produzir soluções que tuosa ou equivocada. No campo concreto de cura não se inscreva nos restritos domínios daquilo que popular, onde acontecem essas expressões da a ciência erudita já sistematizou (e dogmatizou) ? medicina popular, as diversas medicinas populares Não pode haver uma outra maneira de se pensar cruzam-se e espelham um mundo de práticas a questão da eficácia, a do ponto de vista dos muito diferenciadas. Mais rico do que a nossa oprimidos? percepção burguesa consegue captar. Mas nem sempre aqueles que utilizam as medicinas atribuem uma explicação transcendental à sua eficácia. Nem Benzeção/cultura popular sempre as explicações apresentadas para a sua eficácia se fundamentam em forças ocultas, mági- cas ou religiosas atuando sobre as plantas, os Uma outra maneira de entender a eficácia do ritos, ou sobre o corpo do doente. Esses tipos de sistema da benzeção é enxergá-la de perto, por argumentação podem estar presentes, mas vamos dentro, nos seus aspectos internos, ou seja, nos colocá-los nos seus devidos lugares. Eles exprimem termos em que ela é formulada, acreditada e vivida. um dos vários momentos desses diferentes cruza- Essa colocação diante dela nos impede de submetê- mentos da medicina popular que se dão num la, arbitrariamente, a uma posição de inferioridade mesmo campo. Mas não é o único. Embora muito com relação à medicina erudita, como fazem os importante, nem sempre é o dominante, o que médicos, ao afirmarem o seu poder contra ela. significa uma distorção da realidade enxergá-lo Como se a sua fala fosse inocente e liberada, a desse modo. medicina erudita a expropria.88 Elda Rizzo de Oliveira que é Benzeção 89 Como os feiticeiros das sociedades tribais, as benzedeiras acreditam fortemente na eficácia do A valorização do relacionamento seu trabalho. Mas essa condição, por si só, ainda entre as pessoas não valida o seu ofício. A benzeção é a síntese de um trabalho que permite que se associem aos o campo da eficácia simbólica na medicina das ritos, as doenças, os males, as incertezas, as ansie- dades. Repetidos um sem-número de vezes, os ritos benzedeiras ocorre não apenas quando se dá a vão sendo recriados, acrescidos de estratégias de eliminação dos sintomas. Ele é muito mais amplo; cura com o sal, o vinagre, o alho, o óleo, a água e ocorre quando elas trazem para dentro dele pessoas as plantas medicinais. Nesse processo vão sendo e problemas produzidos dentro da cultura popular, resgatadas explicações que se passam no cotidiano revitalizando-a. Nesse ato, ainda que elas não saibam, inscrevem a eficácia social do seu ofício da vida social das pessoas e vão ganhando um dentro de um marco próprio, revelador de grande vigor. No concreto do seu acontecer, os ritos são como fios que alinhavam as malhas da uma dada intervenção no processo histórico-social. cultura popular. Eles redescobrem algumas noções E que pode ser traduzida nos seguintes termos: o pressuposto que fundamenta o saber científico de justiça, direito, liberdade e vislumbram um sonho, uma utopia: de concretizar na prática um como sendo o mais puro, o mais objetivo, eficaz mundo justo, que resista cada vez mais à violência e neutro de valores sociais, portanto o mais verda- e à hegemonia entre os homens. Tal sonho é deiro, serve a um uso relativo, isto é, para outras sustentado por um complexo sistema de classifica- pessoas, mas não para nós. É um pressuposto ção do corpo, da saúde, dos fenômenos orgânicos, falso, ideológico. Possui distorções. Serve para derivado de uma mesma classificação do mundo ocultar outras distinções, aquelas de classe social e da vida feita a um só tempo. E traz resultados (expressas nas desigualdades, no individualismo, parcialmente eficazes: indica mudanças e ordena no autoritarismo, competição, etc.). Acreditamos que uma prática de cura seja válida para nós experiências marcadas por um permanente apren- dizado da vida, identificada como um todo. quando ela arrebanha as pessoas e faz com que elas criem relacionamentos, que troquem experiências, conversem sobre as suas tragédias, valorizem a ecologia, o modo como as crianças enxergam a vida e idealizem outras formas de viver e de ser socialmente.90 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 91 Não queremos, contudo, leitor, que você feche afetividade e solidariedade que sustenta a existência este livro com a sensação de que assumimos inge- de um nós próprio, assumido pelos diferentes nuamente uma posição idealista que vem mar- grupos sociais no interior da cultura popular. Eles cando a percepção de alguns intelectuais, cuja falam sobre a cultura popular, da cultura popular, prática fica obscurecida por um viés ideológico. para a cultura popular e contra a cultura erudita. Tal visão ingênua exprime que o saber vindo do De modo direto, claro, profundo e, muitas vezes, povo, em si é bom, transformador e eficaz. E irreverente. assim, esses intelectuais acabam por perder de Os ritos de benzeção são eficazes porque reite- vista a própria necessidade de transformação ram e reforçam uma ideologia própria à cultura desse saber. A questão política do saber popular popular. Desse modo, atingem as pessoas nas suas é, entretanto, uma questão extremamente comple- identidades totais (corpo, espírito e relações xa, para a qual temos mais ensaios do que teorias. sociais). Essa eficácia recolhe para dentro de uma mesma cultura os mitos, os símbolos, os gestos e as falas sagradas unificando-os. Nesse sentido, Benzeção, a busca da criação trazem de volta à identidade das pessoas e do grupo de que elas são parte o sentimento de união de uma identidade comum dos fracos, de solidariedade e o de mútuo reconhecimento entre quem faz o rito e quem Para avançar nessa reflexão, vou me apoiar em recebe. Ainda fazem, às vezes, a contestação Carlos Rodrigues Brandão, que, retomando um da injustiça. Eles são, pois, vividos e partilhados outro antropólogo francês como sendo de posse de todos, já que todos Claude Lévi-Strauss, produziu uma explicação neles. Esses ritos, então, conectam a tra- muito profunda para a eficácia de dois ritos reli- dição de um grupo, ligando o passado ao presente. giosos do catolicismo popular, a Folga e a Folia. Variando em graus e de cultura para Sua explicação se aplica quase diretamente à cultura, a eficácia da benzeção sintetiza uma eficácia da dádiva, através da qual a cultura encontra uma Os ritos de benzeção são eficazes não porque linguagem para expressar um sentimento crista- apenas recriam uma maneira própria de os opri- lizado numa prática social que toca a todos porque midos lerem o mundo. Mas também porque espe- lhes diz respeito. Em outras palavras, esse saber Iham uma identidade forjada numa relação de possibilita desvendar uma lógica para a explicação92 Elda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 93 dos segredos, dos mistérios, decifrar relações sociais comunidade a viver e a se realizar como comunidade. entre pessoas e grupos sociais, solidarizar-se com Pensam a vida pessoal do devoto, a família e a vida a dor daqueles que sofrem. Além disso, ele produz coletiva. reflexões sobre a inserção dos oprimidos na socie- dade. Cria esperanças e forja reciprocidades. Na eficácia, produz-se um encontro dessa fragmen- tação, num esforço onde se multiplicam essas Eficácia/visão de mundo: unidades. Na eficácia sempre é preservado o atestada pelo grupo princípio da pessoalidade, da proximidade e do calor humano, como um princípio coerente com as necessidades coletivas da comunidade onde A realidade da eficácia relaciona-se ao modo ele se faz. como as pessoas percebem as coisas. E essa per- Afirma Carlos Rodrigues Brandão em seu livro cepção está condicionada ao modo como elas Casa de Escola (Campinas, Papirus, pp. 59-60): vêem o mundo, que, por sua vez, depende da sua posição na estrutura de classes de uma sociedade Por carregar o peso de muitas ocasiões em que desigual. Nesse sentido, ganha uma nova força, aquilo foi feito, dito e repetido, produziu efeitos sociais outra afirmação de Carlos Rodrigues Brandão, em esperados, e não raro, gerou pequenos milagres de o Ardil da Ordem (Campinas, Papirus, p. 38). âmbito local. Um saber entre camponeses não é sábio e eficaz porque é verdadeiro e sagrado. Ele torna-se Que ele (o povo parênteses meus) precisa que aquilo verdadeiro e sagrado porque a tradição o tornou social- (o rito parênteses meus) seja real; precisa acreditar mente acreditado entre todos, ou seja, sábio e eficaz. coletivamente na realidade absoluta do seu modo ances- Ele, enfim, faz milagres, pune abusos, atualiza votos de tral de pensar o mundo e a vida. Precisa configurar, ao fé, distribui aproxima pessoas, provoca lágri- mesmo tempo, a sua identidade de classe e de categoria, mas, reproduz o ethos (o tom da cultura parênteses e a ordem social interna do ser social desta classe ou meus). Confirma o que se sabe solidariamente e, para categoria. Não é porque uma crença é verdadeira que todos os efeitos, atesta não só a verdade do poder e da uma comunidade inteira acredita nela; é porque a proteção do padroeiro em nome de quem tudo é feito, comunidade acredita coletivamente nela é que ela é como também o poder que existe no próprio ato de verdadeira. Como Claude Lévi-Strauss conclui, ao saber-fazer. (Esses ritos parênteses meus) ajudam a estudar as artimanhas e as crenças de um entre muitosElda Rizzo de Oliveira o que é Benzeção 95 feiticeiros dos Kwakliut, um grupo tribal do Canadá distribui tão desigualmente em nossa sociedade. para quem os seus são tão importantes. Negar essa evidência é ultrapassar o pensado e o vivido consolidado na própria história da luta de A questão da eficácia da benzeção relaciona-se, classes sociais. como vimos, na sua essência, a como esse conjunto E, nesse sentido, a proposta da benzeção se de saber-fazer constitui um valor a quem a benze- opõe sólida e radicalmente à medicina ofertada ção serve. Torna-se um valor para as pessoas que se pelo INAMPS e pelas empresas médicas. Uma constroem juntas, que se descobrem juntas para a medicina típica de uma etapa específica do processo vida, para o trabalho, para amor, para as outras de acumulação de riquezas que se faz através da pessoas e para a criatividade. Essa eficácia rela- indevida apropriação do produto coletivo do ciona-se a como tal ofício é regulado pela comuni- trabalho humano. Uma medicina que repara a força dade local, condição de ele existir e transpor a sua de trabalho do operário, do peão, do servente, do forma oculta para uma manifesta. bóia-fria, aliviando os seus sintomas e controlando Várias pessoas afirmam que se curaram de as suas sensações corporais para recolocá-lo na quebrante, cobreiro, bucho virado, etc., e que se fábrica, na indústria, na plantação, de forma sentem mais aliviadas. As pessoas, então, atestam semelhante a como, no dizer de Ivan Illich, um a cura; por isso, ela é eficaz. Se não apresentasse mecânico repara as peças quebradas de um carro. alguma eficácia, já teria sido capturada e sufocada É na condição de resistência a isso que a ben- pela medicina erudita e pela ideologia dominante. zeção deve ser vista. Não como um resquício de A existência da fé, ao responder mais às neces- formas antiquadas de curar, algo já superado pela sidades das classes oprimidas da nossa sociedade, ao ciência moderna. Mas como um ato de resistência lado da ciência que desigualiza os usos dos seus política e cultural feito como alguma coisa própria, serviços - ambas, contudo, constituindo alternati- através de uma cultura que contesta e rejeita a vas que integram um arco de opções desiguais linguagem da opressão, da dominação e da explo- para os diferentes sujeitos sociais - exprimem ração entre os homens. Deve ser vista como uma mais do que uma simples oposição de contraste. singela contribuição para um novo projeto de Exprimem uma oposição política. Exprimem mundo. Contribuição vinda de um grupo de diferentes formas de acesso a um saber e a uma pessoas que está do lado dos oprimidos, identifi- experiência que condicionam, particularmente, cando-se com a sua luta e com os seus sofrimentos. formas muito variadas de acesso ao poder que se E mais do que isso, dando a eles uma explicaçãoElda Rizzo de Oliveira sentido próprios. Contribuição vinda de um de pessoas que ainda não passou pelo pro- de desumanização que acompanha o enrique- to de bens materiais numa sociedade hostil é a nossa. CONTRIBUIÇÃO DA BENZEÇÃO NA CONSTRUÇÃO DE UM NOVO MUNDO Falar sobre democracia em nossa sociedade, leitor, é falar sobre um momento histórico atual e sobre uma prática profundamente desejada, mas inevitavelmente conquistada aos pedaços e aos atropelos. Agravada pelo peso desses anos negros de autoritarismo e de arbítrio sobre as nossas consciências, impedindo que nos manifestássemos politicamente nas ruas, nos sindicatos, nas univer- sidades, temos uma grande dificuldade em crer que as mais humildes pessoas, aquelas vindas do povo, tragam alguma contribuição, por mais simples que seja, na construção de um novo mundo. A priori negamos o fato de que pessoas que foram alijadas ou excluídas do ensino oficial, considerado legítimo pela sociedade e pelo Estado,

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