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1 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 2 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 3 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Núcleo de Educação a Distância GRUPO PROMINAS DE EDUCAÇÃO Diagramação: Rhanya Vitória M. R. Cupertino PRESIDENTE: Valdir Valério, Diretor Executivo: Dr. Willian Ferreira. O Grupo Educacional Prominas é uma referência no cenário educacional e com ações voltadas para a formação de profissionais capazes de se destacar no mercado de trabalho. O Grupo Prominas investe em tecnologia, inovação e conhecimento. Tudo isso é responsável por fomentar a expansão e consolidar a responsabilidade de promover a aprendizagem. 4 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Prezado(a) Pós-Graduando(a), Seja muito bem-vindo(a) ao nosso Grupo Educacional! Inicialmente, gostaríamos de agradecê-lo(a) pela confiança em nós depositada. Temos a convicção absoluta que você não irá se decepcionar pela sua escolha, pois nos comprometemos a superar as suas expectativas. A educação deve ser sempre o pilar para consolidação de uma nação soberana, democrática, crítica, reflexiva, acolhedora e integra- dora. Além disso, a educação é a maneira mais nobre de promover a ascensão social e econômica da população de um país. Durante o seu curso de graduação você teve a oportunida- de de conhecer e estudar uma grande diversidade de conteúdos. Foi um momento de consolidação e amadurecimento de suas escolhas pessoais e profissionais. Agora, na Pós-Graduação, as expectativas e objetivos são outros. É o momento de você complementar a sua formação acadêmi- ca, se atualizar, incorporar novas competências e técnicas, desenvolver um novo perfil profissional, objetivando o aprimoramento para sua atu- ação no concorrido mercado do trabalho. E, certamente, será um passo importante para quem deseja ingressar como docente no ensino supe- rior e se qualificar ainda mais para o magistério nos demais níveis de ensino. E o propósito do nosso Grupo Educacional é ajudá-lo(a) nessa jornada! Conte conosco, pois nós acreditamos em seu potencial. Vamos juntos nessa maravilhosa viagem que é a construção de novos conhecimentos. Um abraço, Grupo Prominas - Educação e Tecnologia 5 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 6 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Olá, acadêmico(a) do ensino a distância do Grupo Prominas! É um prazer tê-lo em nossa instituição! Saiba que sua escolha é sinal de prestígio e consideração. Quero lhe parabenizar pela dispo- sição ao aprendizado e autodesenvolvimento. No ensino a distância é você quem administra o tempo de estudo. Por isso, ele exige perseve- rança, disciplina e organização. Este material, bem como as outras ferramentas do curso (como as aulas em vídeo, atividades, fóruns, etc.), foi projetado visando a sua preparação nessa jornada rumo ao sucesso profissional. Todo conteúdo foi elaborado para auxiliá-lo nessa tarefa, proporcionado um estudo de qualidade e com foco nas exigências do mercado de trabalho. Estude bastante e um grande abraço! Professora: Adriana Penna 7 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S O texto abaixo das tags são informações de apoio para você ao longo dos seus estudos. Cada conteúdo é preprarado focando em téc- nicas de aprendizagem que contribuem no seu processo de busca pela conhecimento. Cada uma dessas tags, é focada especificadamente em partes importantes dos materiais aqui apresentados. Lembre-se que, cada in- formação obtida atráves do seu curso, será o ponto de partida rumo ao seu sucesso profisisional. 8 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S CAPÍTULO 02 OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 13 28 15 A Criança e o Adolescente na Constituição Federal e no ECA _____ Nascimento Saudável __________________________________________ Perfil da Criança e Adolescente _________________________________ CAPÍTULO 03 SAÚDE DA CRIANÇA Necessidades e Vulnerabilidade da Criança _____________________ 25 18Violência contra Criança e Adolescente _________________________ Crescimento e Desenvolvimento _______________________________ 29 29 33 Triagem Neonatal ______________________________________________ Desnutrição e Alimentação Saudável ___________________________ Doenças da Infância ___________________________________________ 35 CAPÍTULO 04 SAÚDE DO ADOLESCENTE Necessidades e Vulnerabilidade do Adolescente _______________ 40 CAPÍTULO 01 INTRODUÇÃO 9 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Avaliação no Atendimento ao Adolescente _______________________ 42 A Consulta de Enfermagem _____________________________________ 43 Algumas Dinâmicas de Grupo __________________________________ 47 CAPÍTULO 05 SAÚDE DA FAMÍLIA CAPÍTULO 06 SAÚDE BUCAL 54 57 Agravos Bucais ________________________________________________ Níveis de Atenção e Ação de Enfermagem _______________________ 62Referências ____________________________________________________ 10 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Linha de Cuidados (LC), de maneira geral, seria uma proposta de (re)organização da rede de saúde, de forma a atender as necessi- dades a partir de um aporte das vulnerabilidades em saúde. Ou seja: várias ações, um cardápio delas que seria definido a partir das priori- dades nas necessidades em saúde no âmbito individual ou coletivo, determinadas por pactos nas diferentes instâncias. As LC envolvem vontade política e ao mesmo tempo saberes e ações. Vontade política porque ela precisa ser programada e articulada em nível estadual, regional e municipal e essa organização e integração dependem de instâncias macro. Envolve saberes e ações porque na prática, os atores precisam ter conhecimentos das situações de saúde- -doença de forma racional e integrada, de modo a enfrentar as vulne- rabilidades, os riscos, os agravos, enfim, as condições específicas do ciclo de vida dos diversos públicos que irá atender. INTRODUÇÃO 10 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 11 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Pois bem, pensando em necessidades, vulnerabilidades e ações é que neste módulo que denominamos LC em Saúde Coletiva I, trataremos das crianças, adolescentes, família e saúde bucal. Veremos detalhes espe- cíficos de cada um desses grupos e no tocante à saúde bucal, os agravos e os níveis de atenção desejáveis aos profissionais da Enfermagem. Em se tratando das crianças, a organização da assistência tem em sua agenda, cinco LC definidas como prioritárias: nascimento sau- dável; crescimento e desenvolvimento; distúrbios nutricionais; doenças prevalentes na infância e violência infantil; que estão ilustrada no fluxo- grama a seguir. Fonte: Contim (2012, p. 101). Quanto aos adolescentes e jovens, estes estão numa faixa de transição onde os sentimentos parecem mais uma “teoria do caos”. As influências que recebem são variadas: da trajetória de vida; das famí- lias; da classe social; do estilo de vida; do grupo; do local onde moram; das relações de gênero; da diversidade sexual; e estas influências pre- cisam ser vistas com olhos atentos porque as possibilidades que virão dessas “miscelâneas”afecções não-vi- rais, antitérmico e/ou outras medidas para diminuir a hipertermia, bron- codilatadores, analgésico; • oxigenoterapia; • manter a alimentação, a não ser que haja contraindicação; • estimular a hidratação; Sobre as doenças sexualmente transmissíveis (DST) e a AIDS, elas acontecem via transmissão vertical do HIV e da sífilis da mãe para o filho. Para diagnóstico e tratamento, devem ser oferecidos exames sorológi- cos, tratamento e profilaxia adequados no pré-natal, no parto e no puerpério. Imediatamente após o nascimento, o recém-nascido (RN) de mãe soropositivo deve receber quimioprofilaxia e continuar durante as seis primeiras semanas de vida. Como se contraindica o aleitamento materno, o RN é alimentado com fórmula láctea infantil. Não podemos esquecer dos problemas bucais, afinal de con- tas, ao introduzir alimentos, é necessário alertar para não introduzir açúcar na dieta (mamadeiras, chás, sucos) e proceder a higiene bucal (dependendo da faixa etária com panos, gaze, escova e fio dental). Lembremos que o aleitamento materno promove a saúde dos dentes e o crescimento correto dos ossos da face, prevenindo futuros problemas de fala e ortodôntico. A ação dos medicamentos sobre a estrutura dentária, a crono- logia e os incômodos que acompanham a erupção dos dentes, o uso excessivo de chupetas, a ação protetora do flúor contra a cárie dentária devem ser alvo da atenção permanente da equipe de saúde. No acompanhamento do crescimento e desenvolvimento, a equipe de saúde tem oportunidade de identificar as necessidades es- peciais das crianças que merecem abordagem mais específica na área da saúde mental. Para essas crianças, pode-se desenvolver um trabalho que objetive estreitar o vínculo família-criança, incluí-las em atividades de 39 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S socialização e em oficinas culturais e esportivas e realizar a psicotera- pia individual e familiar. Para as demais, que apresentam sinais mais severos (indicativos de autismo, psicose, neurose), é necessário en- caminhá-las ao recurso de referência para que possam receber uma assistência mais intensiva (KAWAMOTO, 2009). Segundo a UNICEF, 10% das crianças nascem ou adquirem algum tipo de deficiência e cerca de 70 a 80% das sequelas podem ser evitadas ou minimizadas por meio de procedimentos de possível ope- racionalização. A criança deve receber atenção integral e multiprofissional, com atuação integrada da equipe de saúde com a família, comunidade e equipamentos sociais, de forma a promover a inclusão e a participa- ção social da criança. Durante o atendimento ou visita domiciliar, a equipe de saúde deve estar atenta a alguns sinais de alerta, tais como ausência de respos- ta aos estímulos sonoros, apatia aos estímulos do ambiente, dificuldade em fixar visualmente o rosto dos pais e objetos do meio ambiente, atraso nas aquisições psicomotoras, comportamento estereotipado e repetitivo. Dessa forma, além de seguir as linhas de cuidado da atenção à criança, a equipe de saúde deve introduzir medidas preventivas ade- quadas que abordem de forma oportuna e precoce as alterações obser- vadas (KAWAMOTO, 2009). A organização do trabalho sobre as necessidades e vulne- rabilidades da criança envolve diversas ações, que vão desde o aco- lhimento na admissão, passando pela qualidade dos cuidados pres- tados, até a resolutividade dos problemas da criança e sua família. Dentre as atribuições do Enfermeiro, nas políticas de aten- ção voltadas à criança, está o cuidado integral na promoção da saúde, proteção contra os agravos, diagnóstico, tratamento, reabi- litação e manutenção da saúde destes sujeitos e de suas famílias em todas as etapas do desenvolvimento humano. Dessa forma, o enfermeiro e a equipe de enfermagem têm um importante papel a desempenhar no cuidado à saúde integral da criança, acompanhando o crescimento e desenvolvimento, es- timulando o aleitamento materno, realizando orientações alimen- tares, quanto à vacinação e nas situações de violência contra a criança (CONTIM, 2012). 40 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Kawamoto (2009) fala com muita propriedade que os adoles- centes necessitam de uma atenção especial, pois esta fase de transição será de maior ou menor risco, dependendo das garantias físicas, psi- cológicas e sociais existentes, portanto vamos refletir um pouco sobre esse público que é visto por uns com bons olhos, alegres, animados, cheios de vida e por outros como verdadeiros “aborrecentes”. NECESSIDADES E VULNERABILIDADE DO ADOLESCENTE Os atuais problemas dessa população refletem a desestruturação familiar, sociopolítica e econômica do país; em consequência disso, temos: - a maioria possuindo grau de escolaridade abaixo daquele de- sejável para a sua faixa etária; SAÚDE DO ADOLESCENTE 40 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 41 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S - aumento de adolescentes no mercado de trabalho e tendo de enfrentar extensas jornadas, remuneração mais baixa, atividades impróprias para a sua idade (facilitando acidentes), falta de legislação trabalhista específica e outros; - aumento no número de gravidez e doenças sexualmente transmissíveis, decorrente das falhas nos programas de saúde e de educação sexual; - as causas externas (acidentes de trânsito, atropelamentos, homicídios e suicídios) sendo a primeira causa de morte nessa faixa etária; esse dado nos revela que os adolescentes são as grandes víti- mas da violência social e da ausência de opções (KAWAMOTO, 2009). Para diminuir e/ou prevenir esses problemas, as ações básicas de saúde deverão ser desenvolvidas por uma equipe multiprofissional, que terá por objetivo o adolescente e a sua integração com a família e com a comunidade. Neste programa, serão desenvolvidas ações básicas referen- tes ao crescimento e desenvolvimento, à anticoncepção, às doenças sexualmente transmissíveis, à imunização, ao atendimento psicológico e social (quando necessário), ao tratamento odontológico e ao pré-natal de baixo risco. As ações educativas devem permear todas essas ações e se- rem direcionadas ao adolescente e família, pois, muitas vezes, os pais abdicam do papel de orientadores por despreparo, por considerar que o adolescente já detém o conhecimento, pela dificuldade em manter o diálogo com os filhos. Sugere-se o seguinte roteiro de atendimento: • contato inicial, normalmente feito pela enfermagem, em que se estabelece um diálogo sobre sua vida, o que espera desse atendi- mento, o que levou a procurá-lo e como se sente atualmente; • consulta clínica e/ou pediátrica para realização de anamnese, exame físico geral e exame físico especial; • consulta psicológica, sendo a primeira entrevista com o ado- lescente, a segunda com os pais e as demais com o adolescente, inter- calando-se com os pais, de acordo com a necessidade; • consulta odontológica para tratamento e prevenção de pro- blemas bucais; • encaminhamento aos demais recursos ou profissionais de saúde, quando necessário; • inserção nos grupos educativos que têm por objetivo esclare- cer, orientar, discutir, integrar e trocar experiências entre adolescentes e/ou familiares com os profissionais de saúde; • integração do adolescente nas atividades comunitárias 42 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S (KAWAMOTO, 2009). AVALIAÇÃO NO ATENDIMENTO AO ADOLESCENTE Segundo Martins, Albuquerque e Cubas (2012), a adolescên- cia constitui-se como uma geração, com maneira própria de pensar e agir na sociedade. Dessa forma, o adolescente possui comportamentos próprios, que é denominado como “síndrome da adolescênciaál- cool, tabaco e outras drogas; - identificar “forma de andar a vida”, ou seja, qual seu projeto de vida, suas dúvidas e medos, e a presença de resiliência (MARTINS; ALBUQUERQUE; CUBAS, 2012). Essa etapa de interação entre o profissional e o adolescente é permeada por observação constante das expressões verbais e não ver- bais, tais como a forma de se comunicar, de olhar, a expressão corporal. Essa observação permitirá uma maior compreensão e uma coerência entre o expressado e os sentimentos do adolescente. Durante a coleta, algumas questões importantes relacionadas ao autocuidado devem ser investigadas, tais como: rotinas diárias de hi- giene corporal e cuidado com o ambiente íntimo (quarto, material escolar, calçados, entre outros); assim como em relação à autoestima, como a opinião sobre si mesmo, as crenças e a aceitação de críticas e elogios. É nesse momento que se levantam as possíveis vulnerabilida- des e potencialidades, já descritas. O exame físico complementa a coleta de dados e deve ser realizado com privacidade, discrição, calma e esclarecimento de todos os passos a serem realizados, utilizando-se de linguagem de fácil com- 46 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S preensão e evitando a exposição desnecessária do corpo. Essa etapa é um ótimo momento para avaliar o estado de saúde do adolescente e para realizar orientações sobre as transformações físicas e emocionais. Nem sempre é possível realizar o exame físico completo na pri- meira consulta, vai depender da demanda trazida pelo adolescente e do vínculo com o profissional de saúde, sendo imprescindível a presença de outro profissional de saúde no momento do exame físico. O exame físico compõe-se da avaliação: - de sinais vitais, aferição de medidas antropométricas, avalia- ção de alterações nutricionais; - da consciência; orientação; marcha; equilíbrio; alterações posturais (desvios); tônus; força muscular; e presença de tiques; - da cavidade bucal; - das acuidades auditivas e visuais; - das alterações na pele e mucosas (acne, marcas de nascen- ça, lesões, presença de tatuagens, piercings); - alterações do sistema cardiovascular (varizes, retenção hídri- ca, enfartamento ganglionar); - estadiamento puberal (critérios de Tanner); - alterações genitais (alterações urinárias, secreções e lesões características das doenças sexualmente transmissíveis, presença de fimose, testículos, realizar o exame das mamas e ginecológico (inspe- cionar a vulva e vagina) e a coleta de material para exame citopatológi- co, condições de higiene; - alterações psicoemocionais (comportamentos de agressivi- dade, nervosismo, depressão, ansiedade, hiperatividade, apatia, mani- festações de possíveis abusos físicos, sexuais, medos e preocupações) (MARTINS; ALBUQUERQUE; CUBAS, 2012). Para o adolescente conhecer o funcionamento do próprio cor- po e os cuidados a ele associados emerge como de grande importância. Alguns dos problemas mais preocupantes nessa faixa etária, e que por isso se configuraram como áreas prioritárias nesse atendimento, tratam justamente da saúde reprodutiva e da sexualidade (FERREIRA, 2006). A partir dessa investigação e levantamento de problemas, de- fine(m)-se o(s) diagnóstico(s) de enfermagem, o(s) qual(is) fornece(m) a base para as intervenções, prescrições de enfermagem e o estabele- cimento de resultados. Cabe ressaltar que são priorizadas as interven- ções mais emergentes, podendo-se retomar, em outra oportunidade, as questões identificadas, mas que são de menor risco ou que podem aguardar a sua resolução. O planejamento das ações normalmente ocorre de maneira na- tural, diluído nas etapas anteriores. Entretanto, vale ressaltar que é uma 47 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S etapa importantíssima para o monitoramento e avaliação dos resultados. Ponto importante a ser destacado é o registro da consulta de enfermagem que deve, por necessidade legal e por compromisso ético com o cuidado, ser efetivado no prontuário do adolescente. Em todo o processo de atendimento ao adolescente, devem ser verificadas situações de maior vulnerabilidade, dentre elas as relacionadas: • com a alimentação, como a obesidade, a desnutrição, a buli- mia e a anorexia; • com os transtornos da saúde mental, como a depressão, o desejo do suicídio e o uso de drogas e álcool; • com a ergonomia, como os problemas de postura e coluna vertebral; • com a sexualidade, como a gravidez indesejada, o uso de anticoncepcionais sem acompanhamento e as doenças sexualmente transmissíveis; • com a vida em família e sociedade, como as violências, den- tre elas, a doméstica, a patrimonial, a psicológica e a social (MARTINS; ALBUQUERQUE; CUBAS, 2012). ALGUMAS DINÂMICAS DE GRUPO Como a adolescência é uma etapa em que se espera uma con- dição de saúde equilibrada, normalmente o adolescente não procura serviços de saúde de forma espontânea. Sendo assim, momentos vivenciados em espaços como a es- cola devem ser aproveitados para desenvolver tanto a aprendizagem como os cuidados com a saúde. Uma das maneiras de trabalhar com adolescentes conteúdos para o cuidado com o processo saúde-doença são as dinâmicas de gru- po, que muito embora não façam parte de um atendimento individual, como a Consulta de Enfermagem, podem potencializar as intervenções propostas durante esta. Segundo Priotto (2009), para que elas sejam efetivas, são im- portantes alguns pontos: • ter claro o que se pretende atingir, ou seja, os objetivos de- vem ser bem delimitados; • analisar se apenas um encontro é suficiente ou se são neces- sário momentos prévios para estabelecer vínculo; • usar criatividade com vários recursos (fotos, música, filmes dentre outros); • estabelecer combinados, inclusive de horários; 48 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S • permitir inclusão de pessoas de ambos os sexos, como parti- cipantes e condutores. O objetivo maior de trabalhar dinâmicas com adolescentes é estimular a participação, autonomia, independência e responsabilidade. Portanto, é fundamental que esse processo seja o mais coletivo possí- vel, dividindo o poder de decisão sobre os temas abordados e os papéis a serem desenvolvidos no decorrer da dinâmica. Outro ponto muito importante para o desenvolvimento de di- nâmicas é a integração de uma equipe interdisciplinar, dividindo-se nos papéis de condutor, facilitador e observador. Entretanto, todos eles devem ter como característica fundamental a sociabilidade em: aceitar interação, não julgar, demonstrar interesse, ser expressivo na comuni- cação, saber ouvir, respeitar opiniões, saber esclarecer, saber distinguir o plano terapêutico do não terapêutico, ajudar a resolver situações de conflito e nunca prometer o que não pode cumprir. Muitos autores se dedicam a apresentar dinâmicas para traba- lhar com vários temas, dentre eles Priotto (20090); Lopes et al. (2001) e Magalhães (2011). Como o tema a ser abordado deve ser compartilhado entre os participantes, quando o enfermeiro coordenar ou participar de dinâmi- cas, é imprescindível que ele tenha uma lista de possíveis dinâmicas a serem utilizadas e que avalie se a infraestrutura disponível permite o desenvolvimento de determinados temas. Além disso, trabalhar com dinâmicas exigem certa habilidade; dessa forma, participar anteriormente ou praticar a dinâmica pode aju- dar muito na sua condução. Jogos e técnicas não podem ser usados sem critérios, muito menos aleatoriamente; portanto, é necessário ter preparo e capacitação prévia, evitando imprevistos que possam desestabilizar o grupo (LO- PES et al., 2001; MAGALHÃES, 2011), Preparar-se para usá-las exige conhecimento das técnicas e seus objetivos, existindo dinâmicas com foco na apresentação dos par- ticipantes ou integração e outras paratrabalhar assuntos específicos como sexualidade, prevenção de DST, prevenção do uso de drogas, violência, entre outras. 49 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S O Programa Saúde da Família (PSF) começa a ser estruturado quando o Ministério da Saúde (MS), em 1991, implanta o Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), com o objetivo de promover a redução da mortalidade materna e infantil, em especial nas regiões Norte e Nordeste, por meio da extensão da cobertura dos serviços de saúde para as áreas menos favorecidas. Contudo, com base na experiência acumulada no estado do Ceará com o PACS, o MS percebe a importância do desenvolvimento das ações dos Agentes Comunitários da Saúde (ACS) para o fortaleci- mento dos serviços básicos de atenção à saúde nos municípios e co- meça a enfocar a família como unidade de ação programática de saúde. Com isto, o indivíduo passa a ser visto dentro de um contexto coletivo (ROSA; LABATE, 2005; VIANA; DAL POZ, 1998). A despeito da grande expectativa de que o PSF possa se tornar SAÚDE DA FAMÍLIA 49 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 50 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S a estratégia de reestruturação da Atenção Básica (AB) e das mudanças nas condições políticas e institucionais e de financiamento destinadas a acelerar este processo, para Pereira et al. (2006), poucas foram as ci- dades com sistemas de saúde complexos que implantaram o Programa como estratégia substitutiva do modelo assistencial vigente. Num primeiro momento foi considerado um programa de saúde focalizado nas populações pobres, principalmente as mais marginali- zadas de acesso aos cuidados básicos de saúde. Entretanto, em sua modelagem teórica e prática, foi redirecionado como um instrumento capaz de reorganizar e reestruturar o Sistema Público de Saúde, ou seja, o enfoque do programa deverá ter uma perspectiva de estratégia de mudança de modelo de atenção à saúde (VIANA; DAL POZ, 1998). Ao longo dos mais de 20 anos de sua implementação, o PSF passou por diferentes concepções. Inicialmente, segundo Canesqui e Spinelli (2008), foi concebido enquanto um programa de assistência à saúde, destinado às ações de prevenção, promoção e proteção do indi- víduo/família/comunidade no contexto da Atenção Primária. Atualmen- te, é defendido como uma estratégia de reorientação focada no modelo assistencial de Vigilância a Saúde, na tentativa de reorganizar o modelo assistencial, segundo os preceitos da Atenção Básica. Entende-se que, ao se organizar este modelo, é preciso que também se organize o processo de trabalho em saúde, de modo que leve ao rompimento da dinâmica médica centrada do modelo hegemô- nico de organização e com a forma de trabalho da equipe. Isto, entre- tanto, requer mudanças nos microprocessos deste trabalho em saúde, os quais estão relacionados ao espaço relacional (espaço intercessor) do trabalhador com o usuário. Só então será possível qualificar o cui- dado prestado como baseado na escuta e no uso de tecnologias leves (acolhimento, vínculo, responsabilização). Assim, é possível elevar-se o coeficiente de autonomia do usuário, além de desestabilizar o alto grau de normatização das práticas presentes no PSF, argamassa da Atenção Básica no país (ABRAHÃO, 2008; CAMPOS, 2005; MERHY, 2002). Enfim, são instrumentos do PSF para alcançar seus objetivos: o vínculo e a criação de laços de compromisso e de corresponsabiliza- ção entre profissionais de saúde e a população. Por conseguinte, a possibilidade de vínculo resulta da disposição de acolher de uns e da decisão de buscar apoio em outros. Vínculo é, por- tanto, “[...] a circulação de afeto entre pessoas” (CAMPOS, 2005, p. 28). O vínculo é um dispositivo utilizado para estimular os grupos e as organiza- ções a participarem da resolução de seus problemas. Na verdade, o que se quer é ajudar o usuário a adquirir autonomia (NASCIMENTO et al., 2010). Mas vamos para a Estratégia Saúde da Família (ESF)! 51 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Nessa reorganização dos serviços de saúde, a ESF vai ao en- contro dos debates e análises referentes ao processo de mudança do paradigma na área da saúde – um novo modelo que valorize as ações de promoção e proteção da saúde, prevenção das doenças e atenção integral às pessoas. Estes pressupostos devem ser capazes de produzir um impacto positivo na orientação do SUS e na superação dos anterio- res, que eram calcados na supervalorização das práticas de medicina curativa, especializada e hospitalar, no excesso de procedimentos tec- nológicos e medicamentosos e, sobretudo, na fragmentação do cuidado. A operacionalização da ESF acontece mediante a implanta- ção de equipes multiprofissionais em unidades básicas de saúde. Estas equipes são responsáveis pelo acompanhamento de um número defi- nido de famílias, localizadas em uma área geograficamente delimitada. A Saúde da Família como estratégia estruturante dos sistemas municipais de saúde tem provocado um importante movimento com o intuito de reordenar o modelo de atenção no SUS. Busca maior racionalidade na utilização dos demais níveis assis- tenciais e tem produzido resultados positivos nos principais indicadores de saúde das populações assistidas pelas equipes de saúde da família. São características do seu processo de trabalho: - definir o território de atuação das Unidades Básicas de Saúde (UBS); - programar e implementar atividades, priorizando a solução dos problemas de saúde mais frequentes; - desenvolver ações educativas que possam interferir no pro- cesso saúde- doença da população e ampliar o controle social na defe- sa da qualidade de vida; - desenvolver ações focalizadas sobre os grupos e fatores de risco comportamentais, alimentares e/ou ambientais, com a finalidade de prevenir o aparecimento ou a manutenção de doenças e danos evitáveis; - atender de forma integral, contínua e organizada à população adscrita, com garantia de acesso ao apoio diagnóstico e laboratorial; - implementar as diretrizes da Política Nacional de Humaniza- ção, incluindo o acolhimento; - realizar o primeiro atendimento das urgências médicas e odontológicas; - avaliar as ações implementadas; - desenvolver as ações intersetoriais, integrando projetos so- ciais e setores afins, voltados para a promoção da saúde; - apoiar as estratégias de fortalecimento da gestão local e do controle social. Vale destacar que no processo de trabalho da ESF deve-se 52 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S fazer uma definição precisa do território de atuação e manter atualizado o cadastramento das famílias utilizando, de forma sistemática, os da- dos sociais, econômicos, culturais, demográficos e epidemiológicos do território por meio do Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB) (NASCIMENTO et al., 2010). 53 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S A saúde bucal é parte integrante e inseparável da saúde geral e, portanto, relacionada com as condições de vida, ao acesso à informa- ção e aos serviços de saúde. No Brasil, que é um país de economia açucareira desde o tem- po da colonização, o consumo de alimentos ricos em açúcar (um dos principais fatores da cárie dental) é elevado em razão de seu baixo cus- to em relação aos demais nutrientes e/ou ao apelo do mercado de con- sumo (KAWAMOTO, 2009). Para tentar minimizar esse problema da cárie dental, alguns mu- nicípios passaram a realizar a fluoretação das águas de abastecimento público e a prestar assistência centralizada nas crianças em idade esco- lar, tratando a cárie dental erealizando bochechos com solução fluorada. Saúde Bucal, todavia, significa, não somente, a presença de dentes e gengivas sadias, mas também, a ausência de dores crônicas SAÚDE BUCAL 53 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 54 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S e de outras doenças/agravos bucais, o desempenho das funções fisio- lógicas da mastigação, deglutição, fonação como já dito na introdução. Essa compreensão mais ampla do significado de saúde bucal “obrigou” o poder público e os profissionais a redirecionarem as ações tan- to no que diz respeito ao público-alvo como quanto a sua complexidade. Veremos estas ações, mas antes vamos tomar conhecimento de alguns agravos bucais. AGRAVOS BUCAIS A boca exerce um papel importante tanto no relacionamento social como na alimentação. Portanto, a saúde bucal irá interferir na nossa aparência estética, na comunicação verbal, na forma de cortar e mastigar os alimentos, entre outros. É errado o conceito de que não há necessidade de se preocu- par com a saúde da primeira dentição, porque tais dentes serão substi- tuídos pelos permanentes. A saúde bucal da primeira dentição é importante porque: - facilita o relacionamento social e a alimentação; - a queda prematura dos dentes de leite pode provocar a mi- gração do permanente e diminuição do espaço para os outros dentes nascerem; - as cáries profundas podem desencadear abscessos (coleção de pus) que provocarão má-formação do dente permanente. Os três agravos bucais mais comuns no Brasil são a cárie den- tal, problemas periodontais e má oclusão. a) Cárie Dental Os dentes são estruturas rígidas em que se observam: - coroa – parte visível do dente; - raiz – implantada na mandíbula ou maxilar superior, fixando o osso nessa estrutura óssea; - colo do dente – região estreita entre a coroa e a raiz, circun- dado pela gengiva; - dentina – formada por substância orgânica calcificada e sais minerais, constitui o corpo do dente, cujo prolongamento na raiz cons- titui o canal; - esmalte – reveste externamente a dentina com a finalidade de protegê-la; 55 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S - cemento dentário – tecido ósseo modificado que reveste a raiz do dente. A cárie é uma doença infecciosa em que as bactérias cariogê- nicas (que produzem cárie) formam colônias que se aderem à superfície dentária por meio da placa bacteriana dental. A placa bacteriana dental é uma película de difícil visualização, que recobre os dentes. Na presença de resíduos alimentares, principal- mente açúcar, as bactérias produzem ácidos que irão acometer o esmalte do dente (provocando a cárie) e a gengiva (provocando a gengivite). Resumidamente, pode-se dizer que a evolução da cárie é: • no esmalte – é indolor, com o ácido destruindo inicialmente a superfície externa do esmalte e iniciando a sua descalcificação; se não for tratada, ocorre a formação de uma pequena cavidade no esmalte; • na dentina – com o aumento da cavidade, a cárie atinge a dentina, provocando dor leve ou moderada; • no nervo (polpa) – a cavidade se aprofunda e a cárie atinge o nervo, provocando dor intensa; • formação do abscesso – com a destruição da polpa, as bacté- rias podem atingir o osso, formar um abscesso (coleção de pus), provo- car edema no local e disseminar a infecção para outras partes do corpo. Para ocorrer a cárie são necessário, basicamente, três requisitos: presença de hidratos de carbono (principalmente açúcar), bactérias para produzir o ácido e menor resistência do dente frente ao ataque do ácido. O flúor é, comprovadamente, o elemento que aumenta a resis- tência do dente contra a cárie, pois age fortalecendo o esmalte dentário, remineralizando as lesões iniciais (pré-cariosas) e dificultando o desen- volvimento de bactérias produtoras de ácido. Não existem provas de que uma alimentação enriquecida de vita- minas, minerais e proteínas seja um fator de proteção contra a cárie dental. A diminuição da secreção salivar, provocada pela remoção das glândulas salivares, radiação, efeito medicamentoso, e outros, propicia o desenvolvimento das cáries por não desempenhar adequadamente o seu papel de limpar a cavidade bucal, destruir as bactérias, entre outros. A prevenção da cárie bucal envolve medidas coletivas que de- vem ser realizadas pelo governo, e ações individuais que são feitas pelo próprio indivíduo no seu dia a dia, ou na procura de um atendimento odontológico. Consideram-se medidas de prevenção: - uso de flúor – fluoretação da água de consumo público, bo- chechos com flúor diário ou semanal, aplicação tópica de flúor; controle regular da fluoretação da água para garantir níveis adequados de flúor na água, evitando a sub ou superdosagens; 56 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S - aplicação do selante, que é uma película de material plástico que protege mecanicamente o dente contra a ação da cárie dental; indi- cado para os dentes sem cárie; - aplicação de cariostático nas crianças pequenas que pos- suem cárie, mas não permitem a reparação; tem por objetivo dificultar a evolução da cárie; - higienização bucal para remover a placa bacteriana e resídu- os alimentares: técnica correta de escovação, uso de fio dental e esco- va de dente adequada à arcada dentária; - controle da dieta cariogênica, ou seja, uso moderado de ali- mentos ricos em hidratos de carbono, principalmente açúcar; - consulta dentária periódica para remoção da placa bacteriana e restauração (tratamento da cárie). b) Problemas Periodontais São processos inflamatórios de caráter crônico, provocados pelos microrganismos existentes na placa bacteriana dental. A placa bacteriana provoca a inflamação dos tecidos gengivais por causa da ação de suas enzimas e toxinas; dessa forma, a gengiva sangra com facilidade e a sua retração expõe o colo do dente, tornando o dente mais sensível. A placa bacteriana pode se calcificar e formar pequenos cálculos denominados tártaro, que se aderem ao dente. A inflamação crônica do tecido gengival, o tártaro e a placa bacteriana agravam os processos inflamatório e infeccioso, pois provo- cam uma maior retração da gengiva e a formação de bolsas de pus que irão destruir a parte óssea de sustentação do dente. Com a perda da sustentação, o dente fica com mobilidade que provocará dor e, muitas vezes, a perda do dente. As duas principais causas são a idade e a higiene oral incorre- ta; mas deve-se também levar em consideração as condições econô- micas e educacionais da população, pois esses fatores interferem nas condições boas ou ruins da higiene bucal. Indicam-se dois métodos para prevenir e controlar a doença periodontal: - remoção individual da placa bacteriana dental por meio de uma escovação correta e uso de fio dental; - remoção profissional da placa bacteriana dental, feita periodi- camente por um profissional; mas para um melhor resultado é necessá- ria uma correta higiene oral diária. 57 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S c) Má Oclusão Considera-se normal a oclusão quando existe uma correspon- dência aceitável entre os dentes de cada maxilar e entre as arcadas superior e inferior. Considera-se má oclusão quando o indivíduo apresenta: - relação aceitável entre os maxilares, mas inadequada entre os dentes; - relação incorreta entre as arcadas dentárias, provocando a projeção para frente de um ou de ambos os maxilares. A má oclusão pode trazer como consequência a mastigação incorreta dos alimentos e problemas estéticos, de comunicação e na articulação têmporo-mandibular. A disfunção da articulação que permite a movimentação do maxilar inferior (mandíbula)provoca dor no local, otalgia, cefaleia e outros sintomas. A má oclusão decorre de fatores genéticos e ambientais. As medidas preventivas para os problemas oclusivos são válidas para as causas ambientais, devendo-se orientar a população para: - evitar hábitos incorretos, como o uso de chupeta por tempo prolongado, respirar pela boca, manutenção de objetos rígidos entre os dentes, entre outros; - procurar tratamento médico para tratar a obstrução crônica das vias respiratórias, que obrigam as pessoas a respirarem pela boca; - prevenir e controlar as cáries dentais, pois cáries extensas provocam rotação ou inclinação do dente (KAWAMOTO, 2009). NÍVEIS DE ATENÇÃO E AÇÃO DE ENFERMAGEM A atenção odontológica deve ser desenvolvida em três níveis interligados entre si, com dinamização do processo de referência e con- trarreferência. Nível 1 – Atenção Básica: É realizada pela rede de Unidades Básicas de Saúde (UBS), com ou sem Programa de Saúde da Família (PSF). A população da área de abrangência da UBS deve receber educação em saúde bucal e ter garantido o acesso ao diagnóstico, à prevenção e ao controle da dor e da doença/agravos, por meio de ações coletivas e individuais. 58 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S A busca de ações domiciliares ou nas casas de repouso para pacientes acamados deve ser uma estratégia a ser adotada, assim como a capacitação dos cuidadores quanto à saúde bucal. Aqui então encontramos ações coletivas e ações assistenciais que são: a) Ações Coletivas: Abrangem os procedimentos coletivos e as ações de educação em saúde nos grupos específicos na UBS, no domicílio ou nos espaços comunitários. Nos procedimentos coletivos a equipe de saúde bucal desen- volve atividades de educação e prevenção em saúde bucal, rastrea- mento das doenças bucais, realização de fluorterapia na população de risco, bochechos com solução de flúor, escovação dentária supervisio- nada e encaminhamento dos casos que requerem tratamento. As ações de educação em saúde destinam-se a grupos espe- cíficos, podendo ou não ter caráter de continuidade. Deve-se abordar os fatores de risco comuns a outras doenças que não as bucais, como por exemplo, a relação entre o consumo de carboidratos com a cárie dentária e diabetes; a relação do tabaco com a doença periodontal e os diversos tipos de câncer. b) Ações Assistenciais: A promoção da saúde bucal deve ocorrer em todas as unida- des, mesmo aquelas que não contam com recursos humanos e mate- riais específicos de saúde bucal. Já para as ações de maior complexidade se faz necessário um consultório/módulo odontológico com recursos humanos especializados e contendo equipamentos e insumos específicos. O tratamento dos problemas bucais pode se realizar por meio da eliminação de focos, tratamento periodontal e restaurações. Nível 2 - Serviços de Pronto Atendimento e Pronto Socorro As principais atividades a serem realizadas nos serviços de urgência são o tratamento de odontalgias, abscessos dento-alveolares, hemorragias dentárias e alveolite, atendimento a politraumatizados. Para desenvolver essas atividades, é necessário que os recur- 59 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S sos de saúde atendam as 24 horas do dia, que se realize os procedi- mentos odontológicos efetivos (por exemplo, drenagem de abscessos) e não apenas medicação e encaminhamentos (KAWAMOTO, 2009). Nível 3 - Atenção Especializada Aqui encontraremos os Centros de Especialidades Odontológi- cas (CEO); os Serviços de atendimento Especializado em DST/AIDS e Atendimento em âmbito hospitalar. a) Centros de Especialidades Odontológicas (CEO) O usuário é encaminhado de uma UBS para o CEO que realiza o diagnóstico bucal, com ênfase no diagnóstico e detecção do câncer bucal, a periodontia especializada, a cirurgia oral menor dos tecidos moles e duros, endodontia, serviço de prótese e atendimento aos porta- dores de necessidades especiais. b) Serviços de Atendimento Especializado em DST/AIDS Apesar do atendimento a pessoas portadoras de DST/AIDS não poder ser recusado por nenhum recurso de saúde, as unidades es- pecializadas nesses agravos realizam os procedimentos previstos para atenção básica. Quando a complexidade do atendimento extrapolar o âmbito desse serviço, os usuários são encaminhados ao CEO. c) Atendimento em Âmbito hospitalar Tradicionalmente, o atendimento direciona-se aos indivíduos com trauma buco-maxilo-facial. Mas essa prática tende a se modificar ao se considerar a perspectiva do “cuidado integral” e que há uma inte- ração entre doença bucal e doença sistêmica. Nessa perspectiva, tor- na-se importante a atenção odontológica aos pacientes hospitalizados em função de doenças sistêmicas. Quanto às ações de enfermagem, nas unidades de saúde que possuem atendimento odontológico, a enfermagem em conjunto com o dentista, pode atuar na provisão, manutenção, limpeza, desinfecção e esterilização dos materiais, como também, ajuda no preparo psicológico 60 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S do cliente. A maior participação da enfermagem, entretanto, é na aten- ção primária, ou seja, nos programas de educação para a saúde bucal, orientando a população quanto a medidas de promoção e prevenção dos problemas odontológicos. Esse processo de educação pode ser realizado individualmen- te, nos grupos de pessoas que frequentam diariamente o mesmo espa- ço social (creches, escolas, fábricas, entre outros) e nos grupos organi- zados da unidade básica. O desenvolvimento das ações educativas requer uma aborda- gem multiprofissional e interdisciplinar e, dessa forma, a enfermagem participa das orientações que visam controlar a placa bacteriana e a in- gestão de alimentos cariogênicos, reforçar o esmalte dentário e diminuir os hábitos que desencadeiam a má oclusão: - manter a higiene bucal escovando os dentes após as refei- ções – usar escovas de cerdas macias, creme dental com flúor e fio dental após a escovação; - fazer, no mínimo 1 vez/dia, uma higiene oral mais criterio- sa, porque após a remoção da placa bacteriana, ela demora de 24 a 48 horas para se formar novamente, amadurecer e tornar-se um fator agressivo à saúde bucal; - solicitar orientação do dentista quanto ao bochecho com so- lução de flúor e usar vasilhames de plástico para evitar a ação do flúor no vidro do copo; - reduzir a frequência do consumo e a quantidade de açúcar nos alimentos, ingerindo alimentos doces quando for possível escovar os dentes logo a seguir (por exemplo, às refeições); - evitar manter objetos rígidos entre os dentes – taxas por sa- pateiros, uso incorreto do cachimbo pelos fumantes, entre outros; - usar protetores bucais durante a prática de esportes que pro- piciam fraturas dentais; - esclarecer nos grupos de gestantes e de adolescentes, que as mudanças hormonais propiciam alterações gengivais, assim como, os episódios de vômitos (provocado pela bulimia ou espontâneo) provo- cam abrasões dentárias; - consultar o dentista anualmente e sempre que necessário; - orientar os pais quanto à responsabilidade para com a saúde bucal dos filhos: • aleitamento materno exclusivo – fator importante de proteção contra a cárie, oclusopatias e fluorose; • alimentação – esclarecimento quanto ao papel cariogênico do leite não materno e da mamadeira noturna, evitar oferecer doces no 61 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S período entre as refeições; • chupeta – o uso contínuo, ou por período prolongado, da chu- peta, ou a sucção dos dedos ou o bico da mamadeira incorreto são fatores que propiciam a má oclusão dentária; • flúor – nas cidades em que a água não for fluoretada, os pais deverão procurar orientação médica ou dodentista quanto ao uso do flúor; • higiene oral – limpeza da cavidade bucal a partir do apare- cimento dos primeiros dentes do bebê, realizar a higiene das crianças até os 5 anos de idade e após os 6 anos, treiná-las para executarem o procedimento sozinhas; • respiração bucal – procurar orientação do dentista ou do mé- dico (KAWAMOTO, 2009). 62 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S KAWAMOTO, Emilia Emi; SANTOS, Maria Cristina Honório dos; MATTOS, Thalita Maia de. 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Esse programa que foi iniciado em 1994, o “Programa Saúde da Família” ou PSF como ainda é conhecido por muito, passou a ser denominado Estratégia de Saúde da Família (ESF), não possui caráter programático, e sim características estratégicas de mudança do padrão de atenção à saúde da população. Com isso, as práticas da ESF visam ter como foco do trabalho a família e constitui uma prática que combate a fragmentação do saber e do indivíduo avançando para além da sim- ples intervenção médica sob o corpo anátomo-fisiológico centrado no saber médico (GUIMARÃES, 2012). Essas equipes são responsáveis pelo acompanhamento de um número definido de famílias, localizadas em uma área geográfica deli- mitada. As equipes atuam com ações de promoção da saúde, preven- ção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes, e na manutenção da saúde desta comunidade. A abordagem integral consiste na visualização do indivíduo como um todo, levando em consideração seus aspectos físicos, emo- cionais, intelectuais e sociais. A última unidade, dedicamos à Saúde Bucal porque ela é parte integrante e inseparável da saúde geral, portanto, relacionada com as condições de vida, ao acesso à informação e aos serviços de saúde. Lembramos que muito além da presença de dentes e gengi- vas sadias, a ausência de dor crônica e outras doenças, a saúde bucal também visa ao desempenho das funções fisiológicas da mastigação, deglutição e fonação. Ressaltamos em primeiro lugar que embora a escrita acadêmi- ca tenha como premissa ser científica, baseada em normas e padrões da academia, fugiremos um pouco às regras para nos aproximarmos de vocês e para que os temas abordados cheguem de maneira clara e objetiva, mas não menos científicos. Em segundo lugar, deixamos claro que este módulo é uma compilação das ideias de vários autores, in- cluindo aqueles que consideramos clássicos, não se tratando, portanto, de uma redação original e tendo em vista o caráter didático da obra, não serão expressas opiniões pessoais. Ao final do módulo, além da lista de referências básicas, en- contram-se outras que foram ora utilizadas, ora somente consultadas, mas que, de todo modo, podem servir para sanar lacunas que porven- tura venham a surgir ao longo dos estudos. 13 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S A CRIANÇA E O A ADOLESCENTE NA CONSTITUIÇÃO FEDERAL E NO ECA Somente após a Declaração dos Direitos da Criança pela ONU, em 1959, que ocorreu um movimento de conscientização sobre os direi- tos da população infanto-juvenil. No Brasil, na tentativa de se elaborar uma política de assistência a essa população, foram elaboradas várias propostas, entre elas, a Política Nacional ao Bem-Estar do Menor, em 1964, e o Código de Menores, em 1979. Mas essas propostas eram assistencialistas, privavam a participação da sociedade e atribuíam ao Judiciário um sistema de processo inquisi- torial. Além disso, faltavam mecanismos que levassem a uma prática de respeito aos direitos da criança e do adolescente (KAWAMOTO, 2009). OS DIREITOS DA CRIANÇA E DO ADOLESCENTE 13 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 14 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Durante a elaboração da Constituição de 1988, tornou-se mais evidente a necessidade de mudar as regras no relacionamento entre a sociedade brasileira e a sua população infanto-juvenil e eis que essa constatação levou a elaboração do Estatuto da Criança e do Adolescen- te (ECA), que se transformou na Lei nº 8.069/1990. Portanto, a criança e o adolescente brasileiro têm os seus direi- tos assegurados pela Constituição Federal de 1988 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Apesar de a criança e o adolescente usufruírem dos demais direitos gerais descritos na Constituição Federal de 1988, existe o artigo 227 que trata especificamente dessa faixa etária: É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao ado- lescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência e opressão. Quanto ao Estatuto da Criança e do Adolescente, este dispõe sobre os seus direitos fundamentais e determina as ações da política de atendimento por parte do governo e da sociedade. Os pontos principais do Estatuto abordam: a) Os direitos fundamentais: • o direito à vida e à saúde; • o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade; • o direito à convivência familiar e comunitária; • o direito à educação, à cultura, ao esporte e ao lazer; • o direito à profissionalização e à proteção no trabalho. b) A garantia de prioridade na efetivação dos direitos funda- mentais acima descritos. c) Os meios de se prevenir a ocorrência de ameaça ou violação dos direitos da criança e do adolescente. d) A política de atendimento das entidades governamentais e não-governamentais que serão fiscalizadas pelo Judiciário, pelo Minis- tério Público e pelos Conselhos Tutelares (o Conselho Tutelar é órgão autônomo existente em cada município, composto por membros eleitos pelos cidadãos locais e encarregado pela sociedade de zelar pelo cum- primento dos direitos definidos no Estatuto). e) As medidas de proteção quando os direitos forem ameaça- dos ou violados por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, ou por falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis. f) Os direitos individuais, as garantias processuais, as medidas socioeducativas e remissão de ato infracional (crime ou contravenção 15 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S penal). g) As medidas pertinentes aos pais ou responsáveis. h) O acesso à Justiça por intermédio da Defensoria Pública, Ministério Público e Poder Judiciário (KAWAMOTO, 2009). PERFIL DA CRIANÇA E ADOLESCENTE O desenvolvimento humano da criança e do adolescente irá variar de acordo com a hereditariedade, maturação neurofisiológica e ação do meio ambiente em que vivem. Existem crianças que se sentam, sem apoio, aos 9 meses e outras aos 10 meses; adolescentes que têm a sua primeira menstruação aos 11 anos e outras aos 13 anos. Essas diferenças não significam problemas no desenvolvimento, mas caracte- rísticas individuais que devem ser respeitadas. O desenvolvimento humano engloba quatro aspectos básicos que são muito estudados seja pela Psicologia, Pedagogia, Neurologia e outras áreas afins: • físico-motor – é o crescimento orgânico, a maturação neurofisio- lógica e a capacidade de manipular objetos e de exercitar o próprio corpo; • intelectual – refere-se à capacidade de pensar e raciocinar; • afetivo-emocional – compreende a forma como o indivíduo integra as suas experiências (é o sentir); • social – é o modo como o indivíduo reage perante às situa- ções que envolvem outros indivíduos. Veremos brevemente as principais características físicas e pa- drões de comportamento por faixa etária, lembrando que essa divisão por idade é e deve ser flexível. De 0 a 9 anos Logo após o nascimento, o contato da criança com o meio am- biente é muito pequeno e superficial, sendo que ela ainda responde ao estado novo de desconforto e tensão por meio do choro ou de atos re- flexos. Com o passar dotempo, os movimentos voluntários começam a aparecer em substituição a determinados reflexos que gradativamente desaparecem. A criança começa a responder melhor ao estímulo do meio am- biente, a desenvolver a coordenação motora, a emitir sons que futura- mente se transformarão em palavras. Inicialmente, senta-se com apoio, engatinha, levanta-se com 16 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S apoio, anda com ajuda e, finalmente, começa a caminhar sozinha. Ge- ralmente, os primeiros dentes a nascer são os incisivos, e essa primeira dentição é considerada provisória. Ao final do primeiro ano de vida, as fontanelas devem estar fechadas, com a posterior fechando-se antes da anterior. Ao redor de 2-3 anos, a criança desenvolve o controle do es- fíncter urinário e anal. De acordo com Piaget, no período de 0 a 2 anos, a criança utiliza a inteligência prática (percepção e movimentos) para conquistar o universo que a cerca. A partir de 2 anos, acontece o aparecimento da linguagem, que provocará modificações nos aspectos intelectual, afetivo e social da crian- ça. A linguagem acelera o desenvolvimento do pensamento e a criança passa a procurar a razão de tudo (fase do “porque?”). Com o aumento do interesse pelas atividades e objetos, ela passa a elaborar seus próprios valores e a avaliar suas próprias ações a partir dessa escala (desenvolvi- mento de uma escala de valores por volta de 6 a 7 anos). A partir de 5-6 anos, o ritmo de crescimento diminui, os dentes provisórios são substituídos pelos permanentes, desenvolve-se a coor- denação motora fina, o que permite uma melhor habilidade nas ativida- des manuais. Freud explica que a função sexual, a busca do prazer, existe desde o início da vida, sendo nesta fase, a infância, que o prazer é en- contrado no próprio corpo erotizado e a criança passa a partir daí por diferentes fases do desenvolvimento sexual: • fase oral – a boca é a zona de erotização; • fase anal – o ânus é a zona de erotização; • fase fálica – o órgão sexual é a zona de erotização; • período de latência – é um “intervalo” na evolução da sexua- lidade, com diminuição das atividades sexuais. O complexo de Édipo é um evento que ocorre nas crianças entre 2 a 5 anos e que servirá como base na estruturação da personalidade do indivíduo. No complexo de Édipo, o pai do menino é o seu rival, que im- pede o acesso ao objeto do seu desejo, que é a mãe. Para tentar con- quistá-la, o menino passa a identificar-se com o pai, imitando o seu comportamento; posteriormente, a criança desiste da mãe, trocando-a pelo mundo social e cultural. Esse evento ocorre também com as me- ninas, Complexo de Eléctra, sendo invertidas as figuras de desejo e de identificação (KAWAMOTO, 2009). 17 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S De 9 a 12 anos A criança começa a perder o aspecto facial infantil, o cresci- mento torna-se mais rápido, aumentam a sudorese e as atividades das glândulas sebáceas e aparecem algumas características sexuais se- cundárias: • nas meninas – aparecimento de pelos pubianos, tecido ma- mário em desenvolvimento, hipersensibilidade mamária e aumento do diâmetro transverso da pelve; • no menino – aumento do tamanho do testículo e do pênis, modificação da cor do escroto, e aumento temporário dos seios. Segundo Piaget, inicia-se a formação da personalidade com a afirmação da vontade e a criança organizando seus próprios valores morais e sociais; ela se torna mais autônoma em relação ao adulto, es- colhe seus amigos e grupos de colegas. Aos 11-12 anos, a grupalização com o sexo oposto diminui. De 12 a 18 anos É discutível e variável a determinação da faixa etária e caracterís- ticas da adolescência, mas, de acordo com o Estatuto da Criança e do Ado- lescente, considera-se adolescente a pessoa entre 12 e 18 anos de idade. É um período de transição entre a infância e a fase adulta, du- rante o qual o adolescente passa por grandes transformações físicas e psicológicas. As principais transformações são: • funcionamento dos órgãos sexuais com produção de hormô- nios sexuais que provocarão interferências na área psíquica e no cres- cimento físico; • crescimento físico mais intenso, com o sistema esquelético crescendo mais rapidamente do que o sistema muscular, mãos e pés crescendo em proporção mais rápida do que o resto do corpo; durante esse período de crescimento acelerado, ocorrem falhas na coordena- ção motora, postura incorreta e cansaço mais fácil; • aparecimento dos 4 dentes do siso (3ª molar), o que pode provocar ou acentuar alterações na arcada dentária, em razão da falta de espaço para os novos dentes; • nas meninas ocorre a ovulação, menstruação, crescimento dos pelos pubianos e axilares, desenvolvimento das mamas, maior de- posição de tecido adiposo localizado e acnes; • nos meninos, ocorre o crescimento de pelos axilares, pubia- 18 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S nos, faciais e torácicos, a voz se torna mais grossa, maior deposição de tecido muscular, acnes, produção de espermatozoides e aparecimento de ejaculações noturnas. De acordo com Freud, a última fase do desenvolvimento psi- cossexual (fase genital) ocorre na adolescência. Nessa fase, o objeto de erotização ou de desejo localiza-se não mais no próprio corpo, mas em objeto externo ao indivíduo (uma outra pessoa); com isso, o indivíduo procura uma identidade sexual que defina o seu papel sexual e satisfaça a sua sexualidade. Esse conjunto de transformações leva o adolescente a procu- rar uma nova identidade e a construir um projeto de vida. Esse processo de busca leva o indivíduo a apresentar o que chamamos de “comporta- mento típico dos adolescentes”: • negação das suas transformações, apegando-se a uma autoi- magem que foi construída ao longo dos anos; • sentimento de ambivalência entre a necessidade de perma- necer na fase infantil e o desejo de continuar o seu desenvolvimento; • reformulação dos sentimentos em relação aos pais de sexo oposto e diminuição da ambivalência em relação aos pais do mesmo sexo; • questionamento da autoridade dos adultos, mas aceitando os padrões impostos pelo grupo de adolescentes; procura de apoio nos grupos de amigos que vivenciam o mesmo processo, formando as “pa- nelinhas”; • busca de formas de realização, tanto afetivas como profissio- nais (para o momento e para o futuro); • tentativas de satisfazer a sua sexualidade experimentando as di- ferentes formas de realização (afagos, beijos, masturbação, entre outras); • inicialmente, pensamentos imaginativos e mente com ha- bilidade para adquirir novos conhecimentos; com o passar do tempo, desenvolvimento de pensamento abstrato e analítico, e elaboração da própria filosofia de vida. Ao final da adolescência, o indivíduo fisicamente adulto evolui na direção da maturidade psicológica, pois, do exercício da reflexão, ocorre um equilíbrio entre os seus ideais e a realidade (KAWAMOTO, 2009). VIOLÊNCIA CONTRA CRIANÇA E ADOLESCENTE Quase 20 anos atrás, a temática da violência, que aflige crian- ças e adolescentes na realidade brasileira, começava a mobilizar todos os setores da sociedade, já sendo reconhecida como relevante pro- blema de saúde pública. Os serviços de saúde constituem-se em um 19 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S dos setores da sociedade mais requisitados para atuarem frente a essa questão. O Ministério da Saúde (MS) e instituições internacionais que atuam no país, como a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), tem buscado se posicionar frente ao tema, em conjunto com distintas organizações governamentais e não governamentais da área da saúde (BRASIL, 1997 apud CONTIM, 2012). No Brasil, estima-se que aproximadamente 600 mil criançase adolescentes sejam vítimas das diversas formas de violência domés- tica. Os casos notificados de violência contra crianças e adolescentes representam uma parcela insignificante diante da realidade de ocorrên- cias, o que pouco contribui para o dimensionamento epidemiológico do problema (GABATZ et al., 2010). O MS aponta que as agressões constituem a primeira causa de morte de jovens entre 5 e 19 anos de idade, sendo que a maior parte dessas agressões provém do ambiente doméstico. Registra-se que, no Brasil, em 2005, as agressões constituíam a primeira causa de óbito na faixa etária de 0 a 19 anos de idade (39,7%), com proporção expressiva na faixa etária de 15 a 19 anos (55,1%) (MARTINS, 2010; OPAS, 2003). A OMS define violência como o uso intencional de força ou poder físico, como ameaça ou concretamente, contra si mesmo, outra pessoa, um grupo ou comunidade, causando ou possibilitando lesões, morte, danos psicológicos ou privações. Para alguns grupos sociais, a violência intrafamiliar contra a criança foi, e continua sendo, justificada, em geral, como maneira de educar e até de demonstrar carinho e afeto (GABATZ et al., 2010; OPAS, 2003; BRASIL, 2011). A história da infância tem mostrado que as desigualdades entre adultos e crianças em situações de violência existem há muito tempo. Mais recentemente, no final do século XIX e início do século XX, surgi- ram as primeiras ações de proteção das crianças. Lembremos que os direitos das crianças e adolescentes estão definidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, bem como no ECA, de 1990, estatuto que prevê a partir de uma doutrina de proteção integral, estratégias legais de proteção às crianças, designa- das como medidas de proteção. Nessa direção, o MS, em consonância com os pressupostos do ECA, deu sequência à implementação da Linha de Cuidados para a Atenção Integral à Saúde de Crianças, Adolescentes e suas Famílias em Situação de Violências - Orientação para gestores e profissionais de saúde, com o propósito de sensibilizar e orientar os gestores e profis- sionais de saúde para uma ação contínua e permanente para a atenção integral à saúde de crianças, adolescentes e suas famílias em situação 20 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S de violência (BRASIL, 2011). No ECA, essa linha de cuidado está contemplada no artigo 5°: nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negli- gência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punindo na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais. Porém, segundo Corazza (2000), várias crianças e adoles- centes sofrem violência de natureza física, sexual e psicológica, assim como negligência e abandono. Esses tipos de violência tornam-se ame- aças ao direito à vida e à saúde de crianças e adolescentes. Cabe aos serviços de saúde conhecer os tipos e natureza da violência, bem como as suas formas e manifestações, além das consequências da exposi- ção, para poderem atuar no cuidado, em todas as dimensões. A violência contra a criança e o adolescente é apresentada na literatura, classicamente, como: violência física, violência psicológica, violência sexual e negligência. Citando vários autores, Contim (2012) resume assim essas violências: a) A violência física é a mais frequente, pois a vítima, que está em desenvolvimento é indefesa frente ao agressor, que na maioria das vezes é o sujeito legalmente constituído, advindo do seio familiar. Esse tipo de agressão caracteriza-se por qualquer ação única ou repetida, danosa à integridade física da criança ou adolescente, cometida sem- pre com caráter intencional, ou seja, não acidental. O dano pode variar desde lesões leves até a morte. b) A violência psicológica caracteriza-se como toda ação ou omissão que pode desencadear sintomas agudos de sofrimento e, pro- gressivamente, vir a bloquear ou impedir o curso normal do desenvol- vimento, num processo crônico que deixará sequelas em vários níveis de gravidade. As consequências surgem como sinais de angústia e an- siedade, que acabam por determinar problemas comportamentais, que fogem ao padrão habitual e motivam a procura dos serviços de saúde. A violência psicológica provoca danos à autoestima, à identi- dade, interferindo de maneira negativa no desenvolvimento da crian- ça, causando-lhe grande sofrimento mental. É importante ressaltar que essa atitude pode se expressar sobre a forma de ação ou omissão. Ameaças de abandono e a depreciação da criança ou adolescente blo- queiam seus esforços de autoaceitação e interferem de maneira nega- tiva no seu desenvolvimento. c) A violência sexual acontece no âmbito doméstico e é pratica- 21 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S da por sujeito em condições superiores de idade, posição social ou eco- nômica e inteligência, usando-se de autoridade sobre a criança indefe- sa. Esse sujeito comete um dano físico ou psicológico, contrariamente à vontade da criança ou por consentimento obtido a partir de indução ou sedução enganosa. Em geral, o ato sexual com penetração acontece depois de algum tempo de sedução da vítima pelo adulto. Vários casos de violência sexual infantil não são denunciados, e muitas crianças sofrem caladas diante desse acontecimento e crescem em um ambiente que as reprime e não contribui para o seu pleno crescimento e desenvolvimento. O atendimento desses casos na rede pública de saúde ou em serviços de emergência deve ser feito por uma equipe multiprofissio- nal, a qual deve estar preparada, tanto técnica como emocionalmente, para cuidar dessa criança e da família/responsável que a acompanha. d) A negligência é a omissão de cuidados, sendo mais comum em crianças. Em sua forma mais branda, pode ser encarada como uma falta de vigilância e segurança. Já em sua forma mais grave, o pacien- te se apresenta com retardo no crescimento e desenvolvimento, como resultado de alimentação inadequada. Enquadram-se na negligência emocional todos os sinais apresentados pela criança, que apontam para a despreocupação dos responsáveis com o desenvolvimento, o bem-estar e a segurança da criança ou do adolescente. Nesse contexto, o cuidado às crianças vítimas de violência representa um desafio, não só quando chegam aos serviços de saú- de, mas também quando estão em instituições de abrigo, exigindo dos profissionais conhecimentos acerca das políticas públicas e normas de encaminhamento de vítimas e agressores. A esses profissionais, cabe viabilizar o tratamento das situações de violências na sua dimensão física, e, a necessidade de se desenvolver um cuidado integral. O profissional da saúde, no exercício pleno de sua profissão, tem o dever ético e legal de denunciar casos de violência contra a criança e o adolescente. Porém, nem sempre é o que acontece. Muitos profissio- nais sentem apreensão em invadir o espaço familiar, alguns temem reta- liações por parte do agressor e outros consideram que têm conhecimento insuficiente para os procedimentos de notificação (CONTIM, 2012). Em algumas situações de violência física, sexual grave e ne- gligência, que demandam medidas urgentes do profissional de saúde, é necessário que se faça uma avaliação do risco, pois essas situações envolvem ações de caráter clínico e de proteção. As ações de proteção incluem o afastamento da criança ou adolescente do autor da agressão e o acolhimento institucional, sendo passíveis de serem solicitadas de forma emergencial aos órgãos de proteção legal (GABATZ et al., 2010; MARTINS, 2010; OPAS, 2003). 22 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S O MS preconiza que o atendimento seja prestado por equipe multiprofissional, composta por médicos, psicólogos, enfermeiros e as- sistentes sociais, cabendo aestes executarem funções-chave do setor da saúde no sistema de proteção à criança, tais como: • identificação e notificação dos casos suspeitos; • implementação de serviços para diagnóstico e tratamento; • promoção e interação com agências de proteção, que visam atender às demandas judiciais; • fornecimento de informações aos pais sobre necessidades, cuidados e tratamento de seus filhos; • identificação e suporte para famílias de risco para maus-tratos; • desenvolvimento e condução de programas de prevenção pri- mária; • fornecimento de capacitação e participação em equipes mul- tidisciplinares (GABATZ et al., 2010; BRASIL, 2011; CORAZZA, 2000). Nessa direção, a qualidade do acolhimento, o atendimento competente e afetivo e a amplitude das relações estabelecidas pelos profissionais de saúde com seus usuários facilitam o acesso às ações de saúde oferecidas e às linhas de cuidado definidas pelos serviços e suas equipes, possibilitando maior capacidade de identificação dos ca- sos de violência, mesmo aqueles mais difíceis (CONTIM, 2012). O acolhimento facilita a abordagem da pessoa que se encontra num contexto de violência. A criação de um ambiente em que a criança e sua família se sintam seguros e confiantes, com oportunidade de ex- pressar o que sentem e conversar sobre a situação de violência na qual estão envolvidos é de grande valia. Ressalte-se que o preparo da equipe é primordial, sendo que essa capacitação deve acontecer de forma con- tinuada para uma atuação mais abrangente, evitando intervir unicamente sob o enfoque do atendimento clínico (CORAZZA, 2000; CONTIM, 2012). O trabalho em equipe é muito importante para a realização de ati- vidades que favoreçam a reflexão coletiva sobre o problema da violência, sobre as dificuldades que crianças, adolescentes e suas famílias enfren- tam para compartilhar esse tipo de problema, sobre os direitos assegura- dos pelas leis brasileiras e sobre o papel do setor saúde em sua condição de corresponsável na garantia desses direitos (DESLANDES, 1997). Entre os profissionais envolvidos neste cuidado à criança, estão o(a) enfermeiro(a) e a equipe de enfermagem. Nesse cenário, a equipe de enfermagem tem como enfoque o bem-estar e o conforto do cliente, exigindo desses profissionais esforços constantes no entendimento da complexidade e fragilidade do ser humano sob sua responsabilidade. O esquema abaixo mostra os procedimentos que devem ser adotados no caso de violência doméstica contra crianças. 23 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Procedimentos no caso de violência doméstica contra criança Fonte: CONTIM (2012, p. 131). Para melhor atender a essa população em situação de vulne- rabilidade, a equipe de Enfermagem deve dispor de protocolos para a assistência, como forma de garantir a continuidade de um trabalho integrado com a equipe multiprofissional, atuando na orientação e no acolhimento dos familiares (CORAZZA, 2000; DESLANDES, 1997). Um dos papéis mais importantes do(a) enfermeiro(a) é o de educador, pois este promove a capacitação de sua equipe para a rea- lização do cuidado dentro do contexto de trabalho em que estão inse- ridos. Tal capacitação acontece por meio de dinâmicas de grupo, entre outros programas, instrumentalizando, fortalecendo e incentivando a equipe para atuar individual ou coletivamente, e agir sobremaneira na vida de crianças e adolescentes e de suas famílias (CONTIM, 2012). 24 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S A criança é e deve ser objeto de prioridade governamental e da sociedade. No entanto, ainda é necessário melhorar a atenção dispensada à criança brasileira, como mostram os indicadores de saúde: índice de mortalidade inadequado (apesar da redução na última década), recur- sos de saúde deficientes tanto no quantitativo como na qualificação dos profissionais, morte precoce pela demora ao acesso aos serviços de saúde resolutivos e qualificados (KAWAMOTO, 2009). Para melhorar a qualidade de vida dessas crianças, é neces- sário implantar um conjunto de soluções para resolver os problemas Sociais, econômicos, educacionais e de saúde. A assistência deve con- templar a criança desde o primeiro atendimento na unidade básica de saúde até atenção especializada dos casos mais graves. SAÚDE DA CRIANÇA 24 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 25 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Nas unidades de saúde, as atividades mínimas com as crian- ças ou mães são: inscrição, consulta médica, consulta de enfermagem, imunização, visita domiciliar, reuniões em grupo; de acordo com os re- cursos e a necessidade, pode-se programar consultas odontológicas, com o psicólogo, entre outros. Toda criança deve ter um acompanhamento de saúde mensal no primeiro ano de vida, aumentando-se o espaço entre as consultas para as crianças maiores: trimestralmente para as de 1 a 2 anos, e se- mestralmente para as de 2 a 5 anos. As linhas de cuidado da atenção integral da saúde da criança, com articulação entre os diversos níveis de atenção, devem ter como principais eixos o nascimento saudável e os cuidados com as crianças de 0 a 10 anos (KAWAMOTO, 2009). NECESSIDADES E VULNERABILIDADE DA CRIANÇA O conceito de vulnerabilidade vem sendo discutido no cam- po da saúde coletiva como um potencial instrumento para a transfor- mação das práticas de saúde em que, a partir de sua identificação de problemas críticos, são elaboradas ações de intervenção, articulando os princípios de universalidade, equidade e integralidade, preconiza- dos pelo SUS, destacando a abordagem que incorpora a perspectiva da determinação social da saúde-doença. Essa concepção entende a saúde como um processo de subjetivação determinada por contextos sociais, culturais e históricos específicos, possibilitando, desta forma, a articulação entre indivíduo e coletivo na prática cotidiana (NICHIATA et al., 2008; MUÑOZ; BERTOLOZZI, 2007). Um dos indicadores que expressam as vulnerabilidades ou potencialidades diferenciadas é o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), que procura aferir o avanço de uma população, não consideran- do apenas a dimensão econômica, mas também outras características sociais, culturais e políticas que influenciam a qualidade da vida huma- nas. Um dos fatores apontados mundialmente para o desenvolvimento humano é a atenção às crianças, adolescentes e mulheres, envolvendo fatores de natureza biológica quanto da autonomia relativa e ambígua que esses sujeitos desfrutam na família e na sociedade, levando a pro- blemas, perigos e riscos, destacados nas literaturas médica e sociológi- ca, assim como na mídia (CONTIM, 2012). A situação de vulnerabilidade pressupõe duas vertentes: a pri- meira compreende as várias dimensões da pobreza que precisam ser consideradas em um contexto de vulnerabilidade social, em que se en- 26 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S globam renda, escolaridade e ciclo de vida familiar. A segunda vertente apresenta a segregação espacial presente nos centros urbanos, norte- ada pela escassez de recursos financeiros, cognitivos ou de qualquer outra natureza, acumulados por indivíduos e famílias e de acesso ao mercado, bens e serviços públicos e privados influenciando as condi- ções de vida das populações como um todo (NICHIATA et al., 2008; MUÑOZ; BERTOLOZZI, 2007; CONTIM, 2012). Diante desse contexto, o conceito de vulnerabilidade apresen- ta-se como um convite renovador das práticas de saúde entendidas como práticas sociais e históricas, por meio do trabalho com diferentes setores da sociedade e da transdisciplinaridade, permitindo repensar sobre essas práticas, contribuindona busca de mudanças políticas, cul- turais, cognitivas e tecnológicas, que promovam impacto nos perfis epi- demiológicos. Contudo, a vulnerabilidade não renega o modelo biológi- co tradicional, muito pelo contrário, reconhece-o, mas busca superá-lo (SILVA; PANHOCA, 2007; BARRA et al., 2010 apud CONTIM, 2012). Dessa forma, as linhas de cuidado enquanto política pública de atenção pressupõem uma visão global das dimensões da vida dos usuários em toda a sua amplitude, possibilitando respostas precisas e objetivas, resultando na interação entre esse usuário e a equipe de trabalho. Para que esse resultado seja positivo, torna-se necessária a visão integral da rede de assistência, potencializando os recursos dis- poníveis para oferecer a resposta mais adequada, completa e resolutiva à necessidade do usuário (BRASIL, 2004). A organização da assistência à saúde em linhas de cuidado co- loca-se como uma estratégia para a superação da desarticulação dos diversos níveis de atenção à saúde (como o distanciamento entre a aten- ção primária e a atenção hospitalar) e para a garantia da continuidade do cuidado integral, desde as ações de promoção até as de tratamento e reabilitação, com um fluxo ágil e oportuno em cada nível de atenção (primário, secundário e terciário), com um sistema de referência e con- trarreferência comprometido, até a recuperação completa do indivíduo. Diante da abordagem de risco e de vigilância, o planejamento da assistência integral à criança destaca ações que devem ser executadas de forma cotidiana e organizadas de maneira consistente em cada unidade de saúde. Dessa forma, a atenção adequada (imediata e continuada) des- tinada a cada criança inclui o aproveitamento das oportunidades de ação em saúde, sem perdas, não deixando de responder de forma qualificada e resolutiva às situações em que pode haver graves prejuízos à saúde da criança ou mesmo risco de vida, como observado no estudo dos óbitos. A vigilância à saúde é compreendida como a postura ativa de que o serviço deve assumir em situações de maior risco, sendo dirigida 27 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S em particular às crianças com maior vulnerabilidade, desencadeando ações estratégicas específicas para minimizar os danos, por meio do adequado acompanhamento de saúde. Significa intensificar o cuidado e não perder de vista aquelas pessoas com maior necessidade de aten- ção (CONTIM, 2012). Nessa perspectiva, a criança deve ser atendida por uma equipe multidisciplinar, que compreenda suas necessidades e direitos enquanto indivíduo. No contexto da atenção primária, a Sistematização da Assis- tência de Enfermagem (SAE) deveria ser uma realidade contínua e eficaz, que envolvesse o cuidado integralizado, visando à promoção da saúde. Nessa direção, na assistência à saúde prestada à criança em todas as fases de crescimento e desenvolvimento cabe ao Enfermei- ro(a), enquanto componente da equipe, que deve realizar a Consulta de Enfermagem com o objetivo de contribuir para a resolutividade e integralidade das ações de saúde, propiciando a avaliação do estado de saúde do indivíduo durante o ciclo vital, tendo em vista o controle da evolução de algumas doenças de natureza transmissível e crônico-de- generativa (COSTA; FRACOLLI, 2007 apud CONTIM, 2012). Nas Unidades de Atenção Primária à Saúde (UAPS), sejam Unidades Básicas de Saúde (UBS) híbridas ou mistas, assim como Uni- dade de Estratégia Saúde da Família (UESF), o(a) Enfermeiro(a) inte- gra as práticas de outros trabalhadores de saúde, compondo a equipe multiprofissional, respondendo à produção de serviços em saúde, sen- do esses parte de um processo coletivo de trabalho que tem como fina- lidade produzir ações de saúde, caracterizando-se por um saber espe- cífico, com ações contínuas e articuladas com os demais membros da equipe, na construção dos objetos comuns de trabalho no setor saúde. Dessa forma, é essencial que o enfermeiro, inserido no proces- so de trabalho da APS, tenha consciência da necessidade de mudança do modelo assistencial, buscando priorizar ações enfocadas na preven- ção, promoção e na assistência à saúde da criança, incorporando-as como instrumento de produção em saúde. Diante disto, o enfermeiro que assiste a criança deve enfocar seu cuidado não somente na doen- ça, no biológico, mas perceber que a criança é um ser social em desen- volvimento, que necessita ser atendida conforme sua situação social, cultural, psicológica, econômica (CARVALHO et al., 2008; FIGUEIRE- DO; MELO, 2003 apud CONTIM, 2012). Em suas diferentes abordagens de cuidado, o enfermeiro exer- ce papel fundamental na assistência à criança. Esse processo de aten- dimento é iniciado na fase de vida intrauterina, durante as Consultas de Enfermagem no pré-natal e por meio do exame físico obstétrico, visan- do identificar anormalidades e viabilizar condutas com vistas ao cresci- 28 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S mento e desenvolvimento do recém-nascido (CARVALHO et al., 2008; FIGUEIREDO; MELO, 2003 apud CONTIM, 2012). Na continuidade a esse cuidado, incluem-se atividades de enfer- magem implementadas ao longo dos primeiros meses de vida da criança, tais como, as consultas de acompanhamento do crescimento e desen- volvimento infantil, em que, de modo geral, são feitas mensurações dos índices antropométricos, que incluem peso, estatura, perímetros cefálico, torácico e abdominal, pregas cutâneas tricipital e subescapular. A avaliação deve ser feita periodicamente pelo enfermeiro na tentativa de investigar alterações provenientes de doenças que desen- cadeiam anormalidades morfológica e estrutural do corpo infantil. Nes- se contexto, a consulta realizada por enfermeiros(as) na APS constitui uma estratégia de atendimento direcionada ao acompanhamento do crescimento e desenvolvimento infantil, com vistas à promoção, prote- ção e recuperação da saúde. Nesse processo sistematizado de trabalho, o enfermeiro iden- tifica prováveis respostas humanas que culminam na elaboração de diagnósticos de enfermagem, estabelecendo precocemente condutas preventivas ou intervencionistas destinadas a possibilitar o processo de cuidar da criança. Além das informações objetivas levantadas a partir dos índices antropométricos, as Consultas de Enfermagem facilitam o diálogo e o aconselhamento da mãe ou responsáveis pelos cuidados da criança no que se refere às vulnerabilidades e agravos que podem comprometer a qualidade de vida desse sujeito, seus familiares e a co- munidade em que está inserido (CONTIM, 2012). NASCIMENTO SAUDÁVEL A atenção clínico-ginecológica à mulher é importante para garantir o intervalo interpartal, a prevenção da gravidez indesejada ou de alto risco, diagnosticar e tratar doenças/problemas que podem comprometer a gesta- ção, a saúde da mulher e do recém-nascido (KAWAMOTO, 2009). Mais da metade das mortes maternas e neonatais ocorre du- rante a internação para o parto. Esse dado alerta para a necessidade de se organizar a referência e a contrarreferência da gestante para o parto e, dessa forma, garantindo a assistência no pré-natal, parto e puerpério. Resumidamente, as ações de saúde a serem ofertadas pelos sistemas de saúde são o pré-natal, parto institucional (ou parto domiciliar seguro nas regiões mais carentes de recursos), atenção ao puerpério, ur- gências e emergências maternas e atenção imediata ao recém-nascido. Ao recém-nascido deve ser assegurado o direito ao atendimen- 29 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S to na sala de parto, ao alojamento conjunto, acompanhamento pós-alta e, quando necessário, acesso às Unidades de Tratamento Intensivo e de Cuidados Intermediários. TRIAGEM NEONATAL Segundo Kawamoto (2009), a “Primeira Semana Saúde Inte- gral” abrange um conjuntode ações na ótica de que todo recém-nascido deve ser acolhido na UBS para a checagem das condições da saúde da mãe e da criança, desde a sua primeira semana até um mês de vida. A equipe deve estar atenta para ouvir a mãe ou seus familia- res, observar e avaliar a mamada, enfatizar a importância do aleitamen- to materno exclusivo, aplicação de vacinas, agendamento da consulta pós-parto para a mãe e de acompanhamento para a criança. A Portaria GM/MS nº 822/2001 instituiu o Programa Nacional de Triagem Neonatal, mais conhecido como o teste do pezinho que é a coleta de sangue em papel-filtro por punção cutânea no pé do bebê, a partir do 5º dia de vida, e tem como objetivo detectar e tratar precoce- mente a fenilcetonúria, o hipotireoidismo congênito, a fibrose cística, a anemia falciforme e as outras hemoglobinopatias. CRESCIMENTO E DESENVOLVIMENTO O acompanhamento do Crescimento e Desenvolvimento (C&D) infantil é considerado um dos fatores relacionados à melhoria dos indi- cadores do nível de saúde da população, tratando-se da expressão da potencialidade relacionada ao estado nutricional adequado, bom estado de saúde, alimentação adequada e boas condições de vida. Dessa for- ma, a avaliação do crescimento e desenvolvimento é recomendada com frequência para que se indique, por medidas antropométricas e sinais, as condições gerais de vida que prevalecem nas sociedades (BRASIL, 2004; 2002; ROMANI; LIRA, 2004). O crescimento humano é um processo dinâmico e contínuo que ocorre desde a concepção até o final da vida, sendo expresso pelo aumento do tamanho corporal. Constitui um dos melhores indicadores de saúde da criança, refletindo as suas condições de vida no passado e no presente. Assim, todo ser humano nasce com um potencial genético de crescimento, que poderá ser ou não alcançado, dependendo das condições de vida a que esteja exposto, desde a concepção até a idade adulta, considerando-se os fenômenos de substituição e regeneração 30 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S de tecidos e órgãos (CONTIM, 2012). O processo de crescimento está intimamente ligado a fatores intrínsecos (genéticos, metabólicos e malformações, muitas vezes cor- relacionados) e extrínsecos, dentre os quais destacam-se: o ambiente, a alimentação, a saúde, a ocorrência de doenças, a higiene, as con- dições de habitação e saneamento básico, o acesso aos serviços de saúde e os cuidados gerais com a criança, que atuam acelerando ou retardando esse processo. Sabe-se que a avaliação periódica do ganho de peso permite o acompanhamento do progresso individual de cada criança, identificando aquelas de maior risco de morbimortalidade e sinalizando o alarme preco- ce para a desnutrição, que é causa básica da instalação ou do agravamen- to da maior parte dos problemas de saúde infantil (ROMANI; LIRA, 2004). O desenvolvimento infantil envolve vários aspectos, indo des- de o crescimento físico até a maturação neurológica, comportamental, cognitiva, social e afetiva da criança. Tem como produto tornar a criança competente para responder às suas necessidades e às do seu meio, considerando seu contexto de vida (BRASIL, 2004, 2002). O desenvolvimento neuropsicomotor da criança é resultado da interação entre características biológicas e fatores socioculturais. Den- tre essas interações, a desnutrição crônica (redução na velocidade de crescimento, com peso e altura deficitários para a idade) é considerada o maior fator de risco para alterações no desenvolvimento infantil, jun- tamente com a estimulação cognitiva inadequada, deficiência de iodo e anemia ferropriva (BRASIL, 2004; ROMANI; LIRA, 2004). A vigilância do desenvolvimento compreende todas as ativida- des relacionadas à promoção do desenvolvimento normal e à detec- ção de problemas no desenvolvimento, na atenção primária à saúde da criança. É um processo contínuo, flexível, envolvendo informações dos profissionais de saúde, pais, professores e outros (BRASIL, 2004; SANTOS; LEMOS; LAMOUNIER, 2010 apud CONTIM, 2012). Vários são os fatores que podem ser responsáveis pelos pro- blemas de desenvolvimento nas crianças. Dessa forma, o desenvolvi- mento infantil é decorrente de interações entre as características bio- lógicas e as experiências oferecidas pelo meio ambiente. No entanto, alterações em alguma dessas áreas podem alterar o seu ritmo normal. A probabilidade de que isso ocorra é chamado de risco para o desenvol- vimento (SANTOS; LEMOS; LAMOUNIER, 2010 apud CONTIM, 2012). O início do controle do crescimento e desenvolvimento se inicia na maternidade, logo que a criança nasce, através da avaliação física antropométrica e das respostas aos estímulos desempenhados pelo re- cém-nascido. 31 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S Os problemas do desenvolvimento na criança podem se apre- sentar de diversas maneiras, como alterações no desenvolvimento mo- tor, na linguagem, na interação pessoal-social, e no cognitivo. Algumas vezes, ocorrem comprometimentos que afetam uma ou mais funções, e a criança apresenta alterações funcionais mistas no seu desenvolvimento. As questões clínicas das crianças com problemas no desenvolvimento variam muito, não só no tipo de atraso como também na intensidade des- se atraso (SANTOS; LEMOS; LAMOUNIER, 2010 apud CONTIM, 2012). Existe, ainda, um grupo de crianças que não apresentam sinto- mas clínicos de atraso no desenvolvimento, porém não receberam estí- mulos adequados sob o ponto de vista psicossocial, apesar de estarem bem nutridas e sadias, podem não alcançar seu potencial pleno. Diante desses fatores, é muito importante não só diagnosticar os desvios, mas também promover o bom desenvolvimento dessas crianças (SANTOS; LEMOS; LAMOUNIER, 2010 apud CONTIM, 2012). O desenvolvimento, ao contrário do crescimento, pode ser difí- cil de medir ou avaliar, porém é possível estabelecer padrões e áreas do desenvolvimento a serem avaliados. O importante é compreender que o desenvolvimento da criança ocorre de forma multidimensional, integral e contínua, interagindo com o ambiente em que vive (CONTIM, 2012). A identificação de problemas de desenvolvimento pode ser fei- ta pelos profissionais ou pela família da criança. As alterações encon- tradas em condições de risco previamente definidas, por exemplo, no caso de crianças portadoras de síndrome de Down, são mais fáceis de ser diagnosticadas, por apresentarem características físicas peculiares à síndrome, porém as alterações de maior gravidade exigem do profis- sional supervisão clínica e maior rapidez na identificação. Alterações no desenvolvimento motor são mais perceptíveis do que alterações de linguagem e cognitivas. As deficiências graves são reconhecidas ainda na infância, e os distúrbios de linguagem, hiperatividade e transtornos emocionais não são comumente diagnosticados antes dos três ou qua- tro anos de idade. Da mesma forma, distúrbios de aprendizagem rara- mente são identificados antes do ingresso da criança na escola. A vigilância do desenvolvimento deve ser acompanhada pelos familiares e profissionais, para que possam ajudar na identificação das alterações, encaminhando, o mais precocemente possível, as crianças para tratamento (CONTIM, 2012). No desenvolvimento infantil, habilidades próprias são rapida- mente adquiridas, sendo que agravos como a ocorrência da desnutri- ção associados a fatores sociais, ambientais e biológicos inviabilizam o funcionamento metabólico, acarretando consequências negativas per- manentes, manifestadas principalmente no período escolar (BRASIL, 32 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S 2004; 2002; SANTOS et al. apud CONTIM, 2012). O ambiente familiar é um dos principais elementos para a ade- quada estimulação, pois ele envolve aspectos físicos e afetivo-sociais,de- correntes de condições estáveis de vida, tanto socioeconômicas quanto psicossociais. Esses processos são mecanismos constituintes dessa inte- ração, contribuindo para que a criança desenvolva sua percepção, dirija e controle seu comportamento, permitindo adquirir conhecimentos e habili- dades, estabelecendo relações e construindo seu próprio ambiente físico e social. Dessa forma, entende-se que a família desempenha, ainda, o papel de mediadora entre a criança e a sociedade, possibilitando a sua socializa- ção, elemento essencial para o desenvolvimento cognitivo infantil. Sendo o acompanhamento do crescimento e desenvolvimento considerado o eixo norteador da assistência à saúde da criança, com ênfase na vigilância de fatores que podem interferir nesse processo, o acompanhamento desse grupo etário pelas unidades e serviços de saúde configura-se como uma das ações mais importantes para a redu- ção do coeficiente de mortalidade infantil e seus componentes, visando alcançar a melhoria da qualidade de vida desse estrato populacional. O monitoramento do crescimento e desenvolvimento é de fundamental importância para a promoção à saúde e prevenção de agravos, possibilitando a identificação de problemas nutricionais, alterações no desenvolvimento neuropsicomotor e situações de risco, e em casos de agravos, a atuação de forma precoce minimi- za as possíveis intercorrências. Ações simples, como pesar, medir e avaliar os marcos do de- senvolvimento e aquisição de novas habilidades, devem estar regis- tradas na Caderneta de Saúde da Criança. Essas medidas devem ser incorporadas pelas equipes de saúde em sua rotina de atendimento. Para que esse processo ocorra de forma segura, faz-se ne- cessária a capacitação continuada dos profissionais de saúde, o seguimento dos protocolos estabelecidos, bem como o trabalho integrado das equipes. O seguimento da criança deverá ser feito como medida que visa estreitar e manter o vínculo da criança e da família com os serviços de saúde, propiciando oportunidades de abordagem para a promoção da saúde, de hábitos de vida saudá- veis, a vacinação, a prevenção de problemas e agravos, provendo o cuidado em tempo oportuno (CONTIM, 2012). 33 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S DESNUTRIÇÃO E ALIMENTAÇÃO SAUDÁVEL Segundo a OMS, desnutrição proteico-calórica, mais recente- mente denominada desnutrição energético-proteica (DEP), trata-se de uma síndrome composta por “uma variedade de condições patológicas decorrentes da falta concomitante de calorias e de proteínas, em dife- rentes proporções, mais frequente nos lactentes e nos pré-escolares e geralmente associada a infecções repetidas (BRESOLIN; BRICKS, 2010 apud CONTIM, 2012). A DEP atinge mais de 200 milhões de crianças menores de 5 anos nos países em desenvolvimento e é responsável por mais de 25%, (quase 12 milhões), de mortes anuais nos países em desenvolvimento, estando geralmente associada à infecção. A maior parte dos óbitos em crianças de países em desenvolvimento está relacionada à dieta inade- quada, infecção e desnutrição. A desnutrição infantil foi descrita pela primeira vez por Wa- terlow e Vergara, em 1956. Pesquisas apontavam para uma doença com aspectos dietéticos e históricos semelhantes: aleitamento materno prolongado; desmame inadequado com consumo de cereais, especial- mente milho cozido, grãos e pimenta; ausência de ingestão regular de carne, leite, peixes e ovos; dieta pobre em calorias, mas principalmente em proteínas (CONTIM, 2012). Uma estratégia do MS (1995) e preconizada pela OMS, a Aten- ção Integrada às Doenças Prevalentes da Infância (AIDPI) foi considera- da uma importante ferramenta para otimizar o tempo destinado à atenção às crianças que procuram os serviços de saúde. Tem como finalidades promover a redução da mortalidade na infância, reforçar o conceito de integralidade da atenção à saúde da criança e fortalecer a capacidade de planejamento e resolução na atenção primária, dispondo ao pessoal de saúde as ferramentas para a resolução adequada dos problemas mais frequentes que afetam a saúde da criança (CONTIM, 2012). No Brasil, como na maioria dos países em desenvolvimento, mesmo com a melhora do estado nutricional das crianças nos últimos anos, a redução da prevalência da desnutrição infantil e da taxa de mortalidade infantil continua sendo um problema de saúde pública atin- gindo, particularmente, as crianças com menos de três anos de idade (DANTAS; MUNIZ, 2009 apud CONTIM, 2012). Baixo nível de renda familiar, inadequação dos serviços de saúde, habitações insalubres, inadequação de saneamento, hábitos alimentares inadequados, crenças sobre nutrição, baixa escolaridade dos cuidadores, problemas psicológicos, desestruturação familiar, vitimização infantil são 34 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S fatores desencadeadores da DEP. O período que vai do desmame até os cinco anos de idade é nutricionalmente o mais vulnerável do ser humano, pois coincide com situações de maior exposição a patógenos, desmame, crescimento rápido, perda da imunidade passiva e desenvolvimento do sis- tema imune; sendo determinantes do aumento das necessidades nutricio- nais. A identificação das famílias em maior situação de vulnerabilidade a DEP é essencial para o desenvolvimento de ações de saúde específicas a essa população (BRESOLIN; BRICKS, 2010 apud CONTIM, 2012). Partindo das justificativas acima, é evidente que nos primeiros anos de vida, a alimentação saudável é essencial para o crescimento e desenvolvimento da criança. Dessa forma, a alimentação qualitativa e quantitativamente adequada proporciona ao organismo a energia e os nutrientes necessários para o bom desempenho de suas funções e para a manutenção de um bom estado de saúde (MONTEIRO et al., 1995; LEÃO; FIGUEIREDO FILHO, 2003 apud CONTIM, 2012). O estabelecimento de hábitos alimentares saudáveis na pri- meira infância e daí por diante, contribui sobremaneira para a garantia de uma vida saudável que seguirá esse curso de boas práticas de ali- mentação saudável. Avanços na área da nutrição e de novas tecnologias de produção, transporte e conservação dos alimentos estão levando a ocorrência de maior oferta alimentar e mudanças de hábitos dietéticos. Agrega-se a es- ses fatores a importância da vigilância, qualidade, composição, biossegu- rança e aos aspectos toxicológicos dos novos alimentos disponíveis para a alimentação da criança (MONTEIRO et al. 1995 apud CONTIM, 2012). Nesse contexto, o leite materno é o alimento ideal para as crianças nos primeiros seis meses de vida porque atende as necessida- des nutricionais da criança, permite uma fácil digestão e aproveitamento dos nutrientes, fornece proteção contra as infecções, promove a relação afetiva entre a mãe e o filho e é prático, econômico e higiênico. Como nenhum outro alimento pode substituir com vantagens o leite materno, o desmame precoce e/ou substituição de leite mater- no por fórmulas artificiais são consideradas fatores fundamentais para o aumento da mortalidade e de doenças infantis. Define-se desmame precoce como sendo a introdução de outros alimentos (principalmente leite de vaca) antes de a criança completar seis meses. Por outro lado, contraindica-se o aleitamento materno para as mães HIV positivas; as demais doenças e tratamento medicamentoso deverão ser avaliados quanto aos riscos e benefícios (KAWAMOTO, 2009). Recomenda-se o seguinte esquema alimentar: • no alojamento conjunto da maternidade – iniciar amamenta- ção na primeira hora após o parto e sempre que a criança desejar; 35 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S • até os 6 meses – leite materno exclusivo, sob livre demanda e com intervalo entre as mamadas não superior a 5 horas; neste período, nãohá necessidade de oferecer líquidos à criança; • 6 a 7 meses – introdução da água, uma refeição de sal (almo- ço), sucos, papas de frutas e de cereais; • 8 a 11 meses – introdução da segunda refeição de sal (jantar). A transição do aleitamento para a introdução de novos alimen- tos deve ser criteriosa, com a família sendo alertada quanto à importân- cia da dieta equilibrada como forma de prevenir as deficiências nutricio- nais, as doenças crônicas, sobrepeso e obesidade. É recomendável que a UBS realize avaliação nutricional anual de todas as crianças de 0 a 6 anos da sua área de abrangência. Vários municípios desenvolvem ações de Vigilância Alimentar e Nutricional, incluindo avaliação de consumo alimentar, além da identi- ficação e priorização do atendimento das famílias e crianças em progra- mas de distribuição de alimentos e de transferência de renda. Outra ação é o Banco de Leite Humano, com as mães com excesso de produção de leite doando-o para o Banco. Após a pasteuri- zação, ele irá atender, prioritariamente, os recém-nascidos prematuros e os internados nas unidades neonatais (KAWAMOTO, 2009). DOENÇAS DA INFÂNCIA Transtornos alimentares, doenças diarreicas, doenças respira- tórias, DST/AIDS e transtornos mentais são algumas das doenças que podem surgir na infância. É verdade que a mortalidade infantil no continente americano diminuiu em decorrência de disfunções por doenças infecciosas, embo- ra ainda apresentem algo em torno de 28% das mortes em menores de cinco anos de idade. Sobre a desnutrição energético proteica (DEP) já falamos um pouco, mas ela junto com a anemia carencial ferropriva continuam como as duas principais doenças causadas por deficiências nutricionais. A desnutrição energético proteica decorre da ingestão insufi- ciente de energia (carboidratos e lipídios) e proteínas. Pode ocorrer em virtude da falta de condições econômicas para comprar o alimento, o desmame precoce e a introdução inadequada e incorreta de alimentos. Existe um círculo vicioso entre desnutrição e infecção: a des- nutrição predispõe o indivíduo para os processos infecciosos, e estes reduzem a ingestão, absorção ou aproveitamento dos nutrientes, agra- vando ainda mais o estado nutricional. 36 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S A DEP afeta principalmente as crianças que, em consequência, irão apresentar um atraso no crescimento e desenvolvimento. A anemia ferropriva caracteriza-se pelo reduzido teor de hemo- globina e ferro no sangue em razão da carência alimentar de ferro, perda sanguínea crônica (pelas parasitoses intestinais, hemorragias, hemorroi- das sangrantes, entre outras), e ingestão insuficiente que atenda às ne- cessidades aumentadas na infância, adolescência, gravidez e lactação. Em crianças de 6 a 24 meses, ela pode ser decorrente de san- gramento durante o parto, nascimento com reserva insuficiente de ferro e desmame precoce. O desmame precoce favorece este tipo de anemia porque o leite de vaca, além de ser pobre em ferro, é pouco absorvido pelo organismo. Como tratamento, preconiza-se: • alimentação equilibrada de nutrientes para cobrir o déficit e repor as perdas nutricionais; • aleitamento materno exclusivo até os 6 meses de idade; leite artificial fortificado em ferro e vitamina C, este último, por auxiliar e me- lhorar a absorção de ferro; • ingestão de alimentos ricos em ferro, junto com frutas ricas em vitamina C; • administração de sulfato ferroso; • tratamento das causas que provocam perda sanguínea crôni- ca (KAWAMOTO, 2009). Contrapondo-se à desnutrição, o sobrepeso e a obesidade são os agravos que acometem as crianças que são desmamadas preco- cemente e amamentadas com leite enriquecido com carboidratos, que comem exageradamente carboidratos, lipídios e proteínas. É importante (re)lembrar que bebê/criança gordinho não é si- nônimo de saúde. O sobrepeso e a obesidade estão aumentando na população infantil, o que preocupa os profissionais de saúde. A correção é simples e complexa ao mesmo tempo: aleitamento materno e hábi- tos alimentares saudáveis. É complexa porque demanda em mudança dos hábitos e da cultura alimentar, aumenta o tempo para preparar o alimento (os industrializados e semiprontos são mais fáceis, rápidos e apetitosos); e, fundamentalmente, a criança e a família devem querer a mudança no hábito alimentar. Por isso, na maioria das vezes, faz-se necessário o acompanhamento do nutricionista e do psicólogo. A diarreia caracteriza-se pela perda de água e eletrólitos por causa do aumento da frequência das evacuações, diminuição da con- sistência das fezes e aumento do conteúdo líquido fecaI. Nas diarreias agudas também pode ocorrer presença de muco e sangue. A doença diarreica aguda é uma das principais causas de morbi- 37 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S dade e mortalidade infantil nos países em desenvolvimento, por favorecer a instalação da desidratação e agravar o estado nutricional das crianças. As causas que facilitam a instalação das doenças diarreicas são saneamento básico precário, desmame precoce, higiene inadequa- da das mãos e alimentos, entre outros. Como se considera a diarreia infecciosa aguda um processo au- tolimitado, não se recomenda como tratamento a administração de antibi- óticos, suspensão de alimentação e a administração de soro por via en- dovenosa como medida preventiva da desidratação (KAWAMOTO, 2009). A terapia de escolha atual é a TRO (terapia de reidratação oral), com o objetivo de manter o equilíbrio orgânico por meio da hidratação da criança por via oral com uma solução de glicose e eletrólitos. As condutas terapêuticas preconizadas têm como objetivo principal evitar a desidratação, frisando-se que durante o período de reidratação, a criança deve ser reavaliada com frequência. Quanto às doenças respiratórias, as mais comuns em crianças são a gripe, faringite, amigdalite, adenoidite, otite média, sinusite, bron- quite e pneumonias. Constituem, em conjunto com as doenças diarreicas, um grave problema de saúde pública, em virtude do alto índice de mortalidade e morbidade, principalmente nas crianças menores de 2 anos. Para diminuir a morbimortalidade, é necessário implantar as medidas preventivas que visam combater as causas das doenças respi- ratórias. Essas causas são: a) Da criança: diminuição da resistência física provocada pela desnutrição, desmame precoce, diarreias constantes, deficiência de vitamina C, imunização incompleta, utilização inadequada de medica- mentos (exemplo: antibióticos para tratar as infecções virais), reinterna- ções por doenças respiratórias. b) Do meio ambiente: poluição e contaminação do meio am- biente, habitação inadequada, com excesso de moradores, casas úmi- das e mal arejadas, moradores tabagistas. c) Das condições sociais: baixo nível cultural e educacional da população quanto aos aspectos preventivos e de tratamento. A infecção respiratória aguda caracteriza-se pela presença de um ou mais sinais e sintomas de tosse, dificuldade respiratória, chiado, coriza, otalgia e dor de garganta. Considera-se a criança com risco de morte quando apresenta um ou mais dos seguintes sinais ou situações: • hipertermia ou hipotermia: dado importante em menores de 2 meses e desnutridos graves; • acentuada palidez cutâneo-mucosa; • desnutrição grave; 38 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S • edema generalizado; • desidratação; • impossibilidade de beber ou sugar; • convulsão ou estado pós-convulsivo; • alternância entre agitação e prostração acentuada; • estridor (respiração ruidosa) em repouso; • crises de apneia; • cianose; • insuficiência respiratória. O tratamento varia de acordo com o tipo de afecção e gravida- de, mas basicamente consiste em: • medicamentoso – antibioticoterapia para aspreventiva. São Paulo: Santos Editora, 1990. PRIOTTO, E.P. Dinâmicas de grupo para adolescentes. Petrópolis: Vo- zes, 2009. 66 LI N H A S D E C U ID A D O S E M S A Ú D E C O LE TI V A I - G R U P O P R O M IN A S ROMANI; S.A.M.; LIRA, P.I.C. 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