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UNIDADE 1 O SIGNIFICADO SOCIAL DA PROFISSÃO COMO PRODUTO HISTÓRICO EMERGÊNCIA DO SERVIÇO SOCIAL COMO PROFISSÃO Compreender o significado da profissão, na sociedade brasileira, é, antes de tudo, refle- tir sobre a sua história e o contexto em que se construíram as bases do Serviço Social. Desta forma, refletiremos sobre a formação social brasileira e de que maneira momen- tos históricos e políticos motivaram o surgimento de uma profissão tão importante: o assistente social. Figura 01. Elemento que possibilitou o surgimento de uma profissão Fonte: 123RF Para esboçar o cenário que motivou o surgimento da profissão, contamos com as déca- das de 1920 a 1930. Isso porque, nessas décadas, houve um contexto de expansão do capitalismo e com acontecimentos internacionais e nacionais relacionados à economia e à política. "A crise de 1929"Ocasionada pela queda na bolsa de Valores de Nova York. Movimento de outubro de 1930. Significou a queda da República Velha e da oligarquia cafeeira no Segundo lamamoto e Carvalho (2006), esses dois momentos geraram como conse- quência a reorganização do Estado brasileiro e, principalmente, na forma como o país produzia, por meio da agroexportação. 6Essa reorganização da economia brasileira tinha ligações diretas com as transforma- ções na forma de produzir e reproduzir no capitalismo. Transformações que dizem res- peito à forma como o capitalismo desenvolvia-se globalmente. Figura 02. Transformação do capitalismo 1 Fonte: 123RF Assim, nas primeiras décadas do século XX, o capitalismo atingia um estágio até então nunca vivenciado, chegava a sua fase monopólica. O capitalismo monopolista constituiu- -se no estágio mais alto do capitalismo em escala planetária. A fase anterior à monopo- lística é o capitalismo concorrencial, que chega a seu ápice entre os anos 1860 a 1880. Capitalismo concorrencial. Período do capitalismo, no século XIX, cujas bases capitalistas amparavam-se na concorrência (BEHRING; BOSCHETTI, 2007). Capitalismo monopolista. Período no final do século XIX, até os anos 1930, caracterizado pelo desenvolvimento industrial, monopolização dos bancos, mudança nos padrões de pro- dução e consumo (BEHRING; BOSCHETTI, 2007). Com a formação de grandes conglome- rados industriais e bancários que acumulavam grandes quantidades de capital, o capitalis- mo atinge o seu auge, chegando à fase do que alguns autores chamam de Imperialismo. Figura 03. Fase imperialista do capitalismo Nessa etapa de desenvolvimento do capitalis- mo imperialista ou monopólico, a exploração do trabalho e das pessoas também chega a condições alarmantes, pois, para produzir o capital, é necessário a força de trabalho hu- mana. Isso porque, a partir do trabalho vivo, a natureza é transformada em mercadorias úteis. Nessa dinâmica, o homem vende a sua força de trabalho ao capitalista, que repassa para o trabalhador apenas uma parte do valor gerado a partir da força de trabalho (ALMEI- Fonte: 123RF DA; ALENCAR, 2011). Dessa maneira, ao vender a mercadoria, o capitalista obtém a mais valia, significando o excedente do lucro obtido ou a sobra resultante da explora- ção da força de trabalho. Nesse processo, gera acumulação de capital para o capitalista e exploração e desigualdade para o trabalhador. (ALMEIDA; ALENCAR, 2011) Fundamentos sócio-históricos do serviço social 7O significado social da profissão como produto histórico Diante desse contexto, em escala global, o aumento da produção do capitalismo em sua fase imperialista, consequentemente, aumenta também a produção da pobreza e da desi- gualdade na medida em que gera acumulação de riqueza para uns e pobreza para outros. 1 Nesse contexto, retomando o período entre as décadas de 1920 e 1930, diante do cenário de mudanças e o aumento da exploração do operariado, verificamos que a resposta dos trabalhadores à exploração foi iniciar movimentos de luta por melhores condições de vida e trabalho. Figura 04. Desigualdade Segundo lamamoto e Carvalho (2006), a questão social é entendida como manifestação cotidiana da vida social, expressa na contradição funda- mental entre capital e trabalho. Ainda assim, para os autores, a questão social também é rebeldia da classe explorada que reivindica pelo seu re- conhecimento como classe por parte do Estado e da burguesia. No período de expansão do capitalismo, no ce- Fonte: 123RF nário brasileiro, junto a esse processo, há junta- mente manifestação da questão social. Com o crescimento dos centros urbanos, bem como dos proletários e de seus movimentos de luta, crescem as manifestações da questão social. É nesse momento, em resposta à questão social e suas expressões, que surge o Serviço No entanto, o surgimento da profissão tem estreitas relações com a ação social da Igreja, nesse primeiro momento. lamamoto e Carvalho (2006) afirmam que, no período da década de 1920, a profissão em seu estágio inicial surge como departamento espe- cializado da ação social da Igreja, ligado ao movimento católico laico. Veremos mais a frente que essa relação inicial com a Igreja está ligada ao contexto de expansão e desenvolvimento do capitalismo. Não podemos perder de vista o panorama histórico, político e econômico em que se situa a emergência da profissão. Um dos movimentos importantes ocorridos na década de 1920, chegando a seu auge nesse período, é a primeira fase da reação católica. Esse processo é marcado, dentre outras questões, pela mobilização católica em resposta ao afastamento das relações entre a Igreja e o Estado. Afastamento que ocorre após a aprovação da Constituição Republicana de 1981, a qual: Retirava a obrigatoriedade do ensino religioso em escolas; Proibia a participação da Igreja no congresso; Proibia a abertura de comunidades religiosas, dentre outras ações. Observamos como consequência desses fatos a diminuição da participação da Igreja na sociedade. A importante participação de Dom Sebastião Leme no movimento de reação católica. 8Dom Sebastião Leme construiu um documento em que mobilizava a organização católica para retomada das bases da Igreja na sociedade. A influência romana católica no movimento de reação católica no Brasil. 1 Um dos pontos importantes do movimento de reação católica consistiu na influência eu- ropeia da Igreja romana. Centro Dom Vital também teve participação importante no movimento de reação católica. Centro Dom Vital consistiu em um dos mais importantes espaços de formação intelec- tual da Igreja. Centro formou intelectuais que ativamente no movimento da reação católica. IMPORTANTE O termo proletário significa a classe trabalhadora oposta à classe burguesa. Para Karl Marx (1982), a classe proletária é revolucionária essencialmente a caminho da emancipação hu- mana. Existem diversos autores que trazem interpretações diferentes para a categoria prole- tariado. Para conhecer mais sobre essas diferenças, sugerimos a leitura das obras de Sérgio Lessa, "Trabalho e proletariado no capitalismo Paulo Netto, "Introdução ao estudo do método de Marx". Figura 05. Luz Segundo lamamoto e Carvalho (2006), durante o período da República Velha, a relação entre a Igreja e o Estado estreitou-se. Isto ocorreu mesmo com as divergências por parte da Igreja em relação aos posicionamentos do Esta- do. cenário econômico que permeava essa relação já estava amparado pela expansão do capital e o aumento da luta proletária. Com a crise de 1929, o reordenamento mundial da eco- nomia motivou a reorganização da economia brasileira. Desta forma, com a crise política e econômica, a oligarquia do café chega ao fi m, dando início à organização de um novo grupo com representantes do café, mas também com a representação do Estado e de militares. É nesse momen- Fonte: 123RF to que se instala o movimento militar, da década de 1930, apresentado por Imamoto e Carvalho (2006). Nesse período, os rumos de produção econômica brasileira sofrem mudanças para se adaptar aos novos padrões de acumu- lação capitalistas monopolista. segundo momento do movimento de reação católica inicia-se, partir do fim da Repú- blica Velha, em 1930. cenário é de intensa luta de classes, entre a classe burguesa e o proletariado, e de um amplo cenário de miséria. Fundamentos sócio-históricos do serviço social 9significado social da profissão como produto histórico Figura 06. Luta de classes entre a classe burguesa e o proletariado 1 Fonte: 123RF Nesse contexto, segundo lamamoto e Carvalho (2006), a Igreja será chamada para conter os movimentos da classe trabalhadora e manter a ordem social, espaço que permite à Igreja a retomada das suas bases de recatolização da sociedade, um dos objetivos do movimento de reação católica. Figura 07. Igreja Fonte: 123RF Com a relação entre a Igreja e o Estado ampliada, há uma expansão de instituições católicas voltadas à formação de intelectuais. As instituições passam a formar com base nas encíclicas papais, a exemplo da Rerum Novarum e Quadragésimo Anno. Segundo Abreu (2018), as encíclicas papais orientavam para a intervenção sobre a questão social. A partir desse pensamento, para a Igreja, a questão social é entendida como um problema moral. Figura 08. Intervenção cristã sobre a questão social 10Figura 09. Luta de classe por melhores A importância do surgimento dessas instituições condições de trabalho religiosas dá-se a partir da ação social da Igreja e de suas práticas doutrinárias. É como decor- rência do desenvolvimento das obras sociais e 1 do movimento de apostolado social, os quais desenvolvem ações junto ao proletariado, que o Serviço Social surge no Brasil. De acordo com lamamoto e Carvalho (2006), a primeira instituição que motivou o surgimento do Serviço Social, no Brasil, foi o Centro de Estudos e Ação Social de São Paulo, em 1932, motivado Fonte: 123RF por incentivo do Estado e da burguesia que ne- cessitava de maior intervenção de controle, na sociedade, lembrando que o cenário da época é de intensa luta de classes. Sendo assim, o objetivo do Centro de Estudos e Ação Social é de formar para a doutrina social da Igreja, com profundos conhecimentos para a compreensão dos problemas da sociedade. Para tanto, segundo lamamoto e Carvalho (2006), as aulas do centro eram ministradas por Adéle Lo- neaux, representante da Escola de Serviço Social da Europa. Percebam que, desde o início do movimento de reação católica, a Igreja brasileira recebe influências da Igreja romana e da Europa. Em 1936, é criada a primeira Escola de Serviço Social do Brasil, em São Paulo. A escola volta-se para a formação técnica e especializada. lamamoto e Carvalho (2006) afirmam que, ao mesmo tempo em que surge a formação originária pela Igreja católica, institui- ções estatais também necessitam de atuação especializada e técnica. Desta forma, a criação da primeira escola é fruto da necessidade do Estado de uma profissão especializada. Vale destacar, também, que a Igreja teve participação nesse processo, mas não foi resultado unicamente da Igreja, como também do Estado e em maior proporção. 1° Congresso Pan-Americano 1° Congresso Pan-Americano, realizado em 1945, no Chile, recebeu delegações de vários países, inclusive do Brasil. O tema central do congresso foi o intercâmbio interamericano de formação para o Serviço Social. Figura 10. Intercâmbio interame- ricano de formação para o Serviço Social Fundamentos sócio-históricos do serviço social 11O significado social da profissão como produto histórico 1° Congresso Brasileiro de Serviço Social 1° Congresso Brasileiro de Serviço Social, promovido pelo Centro de Estudos e Ação 1 Social, foi o primeiro grande evento que reuniu entidades particulares e governamentais ligadas ao Serviço Social. Figura 11. Congresso brasileiro de serviço social Fonte: 123RF 2° Congresso Pan-Americano de Serviço Social Realizado em 1949, no Rio de Janeiro, teve como tema central "O Serviço Social e a Família". Figura 12. Congresso Pan-Americano de serviço social R A Z Salvador BRAS Martin Vaz CRE Belo Nitoria Islands PARAGUAY Rio de Janeiro - Curitiba Florianopolis Alegre Rivera Salto URUGUAY A Fonte: 123RF 2° Congresso Brasileiro de Serviço Social Realizado em 1961, no Rio de Janeiro, teve como objetivo discutir o "Desenvolvimento central para o Bem-Estar Nacional". 12Figura 13. Congresso brasileiro de serviço social 1 Fonte: 123RF Nesse sentido, observamos o ingresso de profissionais especializados e técnicos, em espaços demandados pelo Estado. Com isso, há também a criação de setores no pró- prio Estado para o desenvolvimento da política de Assistência Social e ampliação do controle e reajustamento de grupos sociais. Assim, verificamos que a emergência de um profissional especializado vem desse contexto apresentado. A partir da década de 1960, conforme lamamoto e Carvalho (2006), o Brasil vivencia transformações acentuadas que acarretam no crescimento da profissão, principalmente no que se refere à técnica. O contexto em que se deu tal expansão ocorreu antes, na década de 1940, com a expansão da economia. Expansão econômica e ideologia desenvolvimentista. A expansão da profissão ocorreu entre os anos de 1947 a 1961, após um quadro amplo de crescimento econômico e de afirmação do desenvolvimentismo como ideologia. Do que se trata a ideologia desenvolvimentista: A ideologia desenvolvimentista é definida pela expansão econômica, visando à riqueza da nação e à superação do pauperismo. Período marcado pela abertura econômica para investimentos estrangeiros e industriali- zação pesada. A partir da década de 1940, o cenário econômico brasileiro demonstrava taxas de cresci- mento positivas, decorrente, dentre outros motivos, da abertura da internacionalização da economia brasileira. Abertura de novos campos de atuação profissional: Acompanhando o crescimento industrial, a profissão passa a atuar no seguimento empre- sarial, assim como nos interiores, em programas voltados para as populações rurais, em escolas e organismos internacionais. Para Martinelli (2000), o surgimento do Serviço Social como profissão tem como pano de fundo a marca do capitalismo e das variáveis que estão interligadas a ele, como a Fundamentos sócio-históricos do serviço social 13O significado social da profissão como produto histórico alienação, a contradição e o antagonismo. É no contexto das contradições entre clas- ses, na opressão e exploração da vida humana, da ampliação das desigualdades e da necessidade de controle social que o assistente social é chamado para intervir. No 1 entanto, veremos a seguir, que esse contexto de atuação profissional é contraditório, histórico, político e apresenta um significado. 1.1. A CENTRALIDADE DO SIGNIFICADO DA PROFISSÃO NO PROCESSO DE REPRODUÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS Figura 14. Pensando fora da caixa Para compreender o significado histórico da profissão, é necessário ultrapassar o olhar para além do Servi- Social. Segundo Yazbek (2009), para compreender esse significado, precisamos analisar sob qual lógica esse processo ocorreu, na sociedade, e apresentar, principalmente, as relações amplas que contextuali- zam esse significado. Antes de adentrar no significado da profissão, vamos refletir sobre o conceito de relações sociais de pro- dução apresentado por Imamoto e Carvalho (2006). Adentrar no entendimento desse conceito é, antes de tudo, compreender como as relações sociais ocorrem e sob quais contextos. Assim, segundo os autores, as relações sociais de pro- Fonte: 123RF dução significam as relações capitalistas, pois o proces- de produção capitalista expressa também a interação entre pessoas e a forma de viver em sociedade. Em outras palavras, na produção, também são expressas ideias, culturas e formas de pensar. Dessa forma, quando remetemos à produção social, não estamos falando de produção de mercadorias, mas sim de relações sociais que expressam cotidiano das pessoas. Este está permeado por relações de produção capitalistas, produzidas e reproduzidas na vida social. Ainda neste contexto, estão expressos o capital e o trabalho de modo contraditório. Figura 15. Cidade de contradições Fonte: 123RF 14Quando nos referimos à produção, nesse sentido, estamos falando da vida social e nela a totalidade dinâmica da vida. Dentro desse contexto, existem dois principais agentes, o capitalista e o trabalhador assalariado, ambos com interesses contraditórios. 1 Segundo Faleiros (1999), as relações sociais são vínculos que os homens criam entre si, mas determinados pelo modo de produção capitalista. Nesta, o excedente do traba- lho é apropriado pelo capitalista. Assim, são produzidas também, nesse processo, de- sigualdades, pobreza e subordinação de uma classe que detém os meios de produção perante a outra que detém a força de trabalho. CONCLUSÃO Então, conforme lamamoto e Carvalho (2006), dentro desse conjunto de produção das rela- ções sociais, também está inserida a profi ssão de Serviço Social. É na sociedade, em meio às relações sociais de produção, que o signifi cado da profi ssão é atribuído, lem-brando que o Serviço Social surge, no Brasil, tendo como contexto o desenvolvimento e expansão do capitalismo, da indústria e dos centros urbanos. Figura 16. Relações sociais Dessa forma, é importante compreender como se desenvolvem as relações sociais, na sociedade capitalista, a partir da contradição entre capital e trabalho, para situar que a atuação do assistente social também é permeada por contradições que, conforme Yazbek (2009), signifi cam que o Serviço Social tanto participa do processo de reprodução dos interesses do capital e das classes burguesas, como participa das respostas às necessidades das classes trabalhadoras. A autora afirma que o campo de atuação do traba- lho profissional está situado em meio às relações de poder e de interesses. Mas isso não quer dizer que, Fonte: 123RF por atuarmos em situação de correlação de forças, temos que estar neutros ou passivos diante de circunstâncias que acometem o cotidia- no profissional. Figura 17. Relações de poder Fonte: 123RF Fundamentos sócio-históricos do serviço social 15O significado social da profissão como produto histórico Assim, compreendemos por correlação de forças, a partir do pensamento de Faleiros (1999), o entendimento de intervenção profissional, no espaço de confrontação de inte- resses distintos, que envolvem a sociedade e os grupos sociais em situação de poder e 1 exploração. Para o autor, a relação que atribuímos no cotidiano com as instituições, ou o Estado, ou na própria sociedade, está além das intervenções e articulações imedia- tas e nas intervenções de condições de vida, de trabalho, relacionadas ao contexto de relações sociais capitalistas. É nesse espaço político, histórico, contraditório, permeado por interesses distintos e re- lações de poder que está situado o significado da profissão na sociedade. Entender que o espaço em que atuamos está permeado por um contexto amplo, para além do interior da profissão, permite-nos analisar criticamente a conjuntura que nos rodeia. Segundo lamamoto e Carvalho (2006, p. 75), a atuação do assistente social está polari- zada por interesses de duas classes: "Como as classes sociais e suas personagens só existem em relação, pela mútua mediação entre elas, a atuação do Assistente Social é necessariamente polarizada pelos interesses de tais Apreender as demandas do capital e do trabalho: perceber que seremos chamados pelo Estado para atuar por meio das Políticas Sociais, ou por setores empresariais ou indus- triais, mas também estaremos respondendo às necessidades dos usuários dos serviços, os trabalhadores. Desse modo, Almeida e Alencar (2011) afirmam que o cotidiano de atuação profissional do assistente social é permeado por diversas expressões da questão social represen- tadas nas desigualdades sociais, na precarização das relações de trabalho, na retirada de direitos sociais. Para tanto, é necessário que estejamos atentos, pois o espaço de atuação profissional é tensionado por desigualdades e resistências, exigindo uma postura profissional pro- positiva para a necessária apreensão da realidade e projeção da sua intervenção com base no Código de Ética Profissional, ou seja, posicionar-se em favor da equidade e da justiça social. SAIBA MAIS O código de Ética Profissional do Assistente Social foi aprovado, em 1993, e, juntamente com a Lei que Regulamenta a Profissão, a Lei n. 8.662/93, integra o Projeto Ético Político do Serviço Social. Ambos os documentos estão disponíveis no link:especializado. É nesse sentido que o Serviço Social é reconhecido como profissão, na divisão social do trabalho. Figura 18. Profissão especializada 1 Fonte: 123RF Figura 19. Coletivo Entendemos por divisão social do trabalho, funda- mentada em Marx (1982), a diferenciação e a va- riedade de trabalhos em suas atividades singula- res e de representação na sociedade. Além disso, dentro dessa especificidade, ocorre a venda da força de trabalho assalariado e especializado ao empregador, seja ele o Estado, empresas, seja a indústria, que as emprega como força de trabalho coletiva. Ou seja, enquanto profissão que apre- senta significado na sociedade e necessidade na Fonte: 123RF reprodução social, o assistente social está inserido na divisão social do trabalho, desenvolvendo uma atuação capacitada e especializada, por meio de políticas sociais, atuando nas variadas expressões da questão social, na garantia de acesso aos direitos sociais. Com isso percebemos que o assistente social também insere-se em processos de trabalho coletivos. Nesse sentido, lamamoto (2009) afirma que não existe um único processo de trabalho e que ele não pertence ao Serviço Social, mas a profissão insere- -se nos processos de trabalho coletivos e nas suas multiplicidades. Nessa perspectiva, adentramos à reflexão sobre o uso da nomenclatura correta ao referir sobre a atuação profissional. A autora afirma que, ao resumir a atuação do assistente social ao desen- volvimento de uma prática, retiramos todo o aparato conceitual, teórico, metodológico e político, construído a partir do movimento da realidade. Desta forma, o uso correto para designação da atuação profissional denomina-se de trabalho profissional. Nesse movimento, também foram consideradas as reflexões so- bre processos de trabalho, descartando a ideia da existência de um único processo interno e próprio do Serviço Social, como se a profissão estivesse para além dos pro- cessos de trabalho coletivos. Fundamentos sócio-históricos do serviço social 17O significado social da profissão como produto histórico Figura 20. profissional Com isso, destacamos a importância para refletir sobre esses pontos, com a intenção de reafirmar a importân- cia do plano histórico, político, econômico, social e cul- 1 tural em que a profissão está inserida. Devemos consi- derar, em nossas análises e reflexões, a teia complexa das relações sociais, em contraposição às análises isoladas, desconsiderando o contexto social em que se insere a profissão. Assim, conforme Yazbek (2009), a atuação do assistente social, na divisão social do trabalho, sofre modificações, no decorrer do tempo. Desta forma, a atuação profis- sional do assistente social está inserida, na sociedade, em vários espaços sócio-ocupacionais que, segundo lamamoto (2009), também sofrem mudanças conforme transformações, no mundo do trabalho, em decorrência, dentre outros motivos, dos processos de mundialização Fonte: 123RF e financeirização do capital. Nesse contexto, surgem novas demandas e necessidades ao profissional de Serviço Social, exigindo dele novas habilidades, competências e atribuições. Mas, ao mesmo tempo, temos que ter clareza desse cenário de contradições para que a capacitação profissional contínua esteja estreitamente interligada ao projeto profissional, na defesa intransigente dos direitos sociais e garantia de acesso aos bens de serviços. Assim, um movimento de leitura crítica da constante contradição histórica inerente às relações sociais, bem como uma leitura analítica das instituições em que desenvolvemos nossa atuação profissional, faz perceber que o espaço ocupacional da profissão também está permeado dessas contradições e transformações constantes (IAMAMOTO, 2009). Na Tabela 01, confira cinco espaços ocupacionais em que o assistente social desenvol- ve suas atribuições e competências. Tabela 01. Espaços ocupacionais: atribuições e competências do assistente social nesses espaços. O assistente social pode atuar em escolas e institutos de formação técnica, in- tegrando equipes multidisciplinares, como também pode atuar em faculdades e Educação universidades, ensinando em cursos de Serviço Social ou coordenando o curso em instituições de ensino superior. A atuação do assistente social, na saúde, segundo os Parâmetros de Atuação do CFESS (2010), envolve o atendimento ao direito dos usuários, ações socioassis- Saúde tenciais, ações socioeducativas, gestão e planejamento e assessoria e formação profissional. O trabalho do assistente social no espaço sociojurídico ocorre no Poder rio, no Ministério Público, na Defensoria Pública, na execução penal e no sistema Sociojurídico prisional, na execução de medidas socioeducativas, na segurança pública em instituições policiais, em programas de políticas públicas de segurança e em ser- viços de acolhimento institucional e familiar. 18trabalho do assistente social na assistência social envolve a atuação nos Cen- tros de Referência em Assistência Social, CRAS, e nos Centros de Referência Assistência social Especializados de Assistência Social, CREAS. Nesses espaços, o assistente so- cial atua na identificação de demandas presentes na sociedade para formular 1 respostas profissionais de enfrentamento das expressões da questão social. A atuação na questão ambiental pode acontecer em organizações não gover- namentais, em órgãos do Estado, ou em associações e cooperativas. A atuação nesse espaço pode ocorrer com base nas Políticas Ambientais, a exemplo da Po- Meio ambiente lítica Nacional de Educação Ambiental, Política Nacional de Meio Ambiente e de Resíduos Sólidos. Precisamente, os assistentes sociais atuam na gestão ambien- tal ou no desenvolvimento de ações em educação ambiental (SANTOS, 2018). Fonte: Elaborada pela autora (2019). CONCLUSÃO Nesta unidade, compreendemos a emergência do Serviço Social como profissão. Para explanamos um breve contexto histórico fundamental, para compreender a che- gada da profissão no Brasil. Vimos que tal contexto perpassa, principalmente, pelas transformações da economia brasileira ocasionadas pela expansão do capitalismo mo- nopolista em escala planetária. Transformações que ocorreram por dois momentos históricos: a queda da bolsa de va- lores de Nova York, em 1929, e a queda da oligarquia cafeeira, em 1930. Dois momen- tos históricos que sofrem consequência diretamente da expansão do capitalismo global que rebatem localmente. No Brasil, temos a reorganização da economia e na forma de produzir. Toda essa mudança visava à expansão das forças produtivas do capital que estava em sua fase imperialista/ monopolista. Em meio ao cenário de expansão do capitalismo e da desigualdade, vimos que a Igreja inicia, em 1920, o movimento de reação católica que tinha como objetivo ampliar as bases da Igreja na sociedade, assim como tentar recuperar as relações com o Estado. A partir desse movimento, verificamos que é criado o Centro de Estudos e Ação Social, em 1932. Este visava a formação intelectual com base na doutrina social da Igreja. E, por sua vez, a formação dos intelectuais visava ampliar as bases de expansão da ideo- logia da Igreja na sociedade. Nesse contexto, vimos que esse processo colaborou para, juntamente com o Estado, a criação da primeira Escola de Serviço Social do Brasil, em 1936. Isso porque o estado necessitava de um profissional com formação técnica e especializada, para atuar no controle da população. Desse modo, no contexto das contradições entre classes, na opressão e exploração da vida humana, da ampliação das desigualdades e da necessi- dade de controle social, que o assistente social é chamado para intervir. Com isso, verificamos a centralidade do significado da profissão no processo de repro- dução das relações sociais. Vimos a necessidade de compreender o contexto histórico da sociedade e as relações sociais, pois é nesse movimento amplo de analisar a socie- dade que é possível identificar o significado histórico e social da profissão. Além observamos os conceitos de relações sociais de produção com base no pensamento de lamamoto e Carvalho (2006) e a correlação de forças, fundamentado em Faleiros (1999). Fundamentos sócio-históricos do serviço social 19O significado social da profissão como produto histórico Por fim, refletimos sobre o Serviço Social como especialização do trabalho coletivo. Nesse momento, verificamos a profissão inserida na divisão social e técnica do tra- balho, o conceito de divisão social e de técnica do trabalho, além de refletir sobre os 1 processos de trabalho coletivos e o Serviço Social, e as transformações ocorridas nos espaços ocupacionais de atuação profissional. 20REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABREU, M. M. Serviço Social e organização da cultura: perfis pedagógicos da prática profissional. São Paulo: Cortez, 2018. 1 ALMEIDA, N. L. T.; ALENCAR, M. M. T. Serviço Social, trabalho e políticas públicas. São Paulo: Saraiva, 2011. BEHRING, E. R.; BOSCHETTI, I. Política Social: fundamentos e história. São Paulo: Cortez, 2007. CFESS, Conselho Federal de Serviço Social. Parâmetros para atuação do assistente social na saúde. Série trabalho e projeto profissional nas políticas sociais. Brasília, 2010. Disponível em: http://www.cfess.org. Acesso em: 14 fev. 2019. FALEIROS, V. de P. Estratégias em Serviço Social. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1999. IAMAMOTO, M. V.; CARVALHO, R. Relações sociais e Serviço Social no Brasil. 19. ed. São Paulo: Cortez, 2006. IAMAMOTO, M. V. Os espaços sócio-ocupacionais do assistente social. In: CFESS/ABESS (Org.). Serviço Social: direitos sociais e competências profissionais. Brasília: CFESS/Abepss, 2009. MARTINELLI, M. L. Serviço Social: identidade e alienação. 6. ed. 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