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N O Ç Õ ES D E D IR EI TO A D M IN IS TR AT IV O 249 Art. 71. O controle externo, a cargo do Congresso Nacional, será exercido com o auxílio do Tribunal de Contas da União, ao qual compete: XI - representar ao Poder competente sobre irregulari- dades ou abusos apurados. Dentre as competências de controle externo do Con- gresso Nacional previstas no artigo 71, temos a hipó- tese trazida pela questão no inciso XI. Resposta: Certo. 2. (CESPE-CEBRASPE – 2016) Com relação à respon- sabilidade civil do Estado, aos serviços públicos e ao controle da administração pública, julgue o item subsequente. A função fiscalizatória exercida pelos tribunais de con- tas dos estados constitui uma expressão de controle do Poder Legislativo sobre os atos da administração pública. ( ) CERTO ( ) ERRADO Art. 70. A fiscalização contábil, financeira, orçamen- tária, operacional e patrimonial da União e das enti- dades da administração direta e indireta, quanto à legalidade, legitimidade, economicidade, aplicação das subvenções e renúncia de receitas, será exercida pelo Congresso Nacional, mediante controle exter- no, e pelo sistema de controle interno de cada Poder. Art. 71. O controle externo, a cargo do Congresso Nacional, será exercido com o auxílio do Tribunal de Contas da União, ao qual compete: O Tribunal de Contas auxilia o Poder Legislativo no controle externo. Nesse contexto, são importantes os artigos 70 e 71 da Constituição Federal, que espe- cificam a natureza do controle e as hipóteses especí- ficas do seu exercício. Resposta: Certo. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO Nos dias atuais, temos a total compreensão da ideia de responsabilidade civil e extracontratual do Estado. Significa dizer que ao Estado é imputado o dever de ressarcir particulares pelos prejuízos praticados na conduta de seus agentes, independentemente de qual- quer acordo ou pacto estabelecido. Todavia, essa concepção que temos atualmen- te não “brotou da terra”: ela foi o resultado de uma longa evolução histórica sobre a forma de atuação do Poder Público na esfera privada. Por isso, é importan- te analisar a evolução histórica da responsabilidade estatal, tendo como foco os países ocidentais, sobre- tudo o Brasil. EVOLUÇÃO HISTÓRICA DAS TEORIAS DE RESPONSABILIDADE De modo geral, pode-se afirmar que a responsa- bilidade civil da Administração passou por três gran- des fases. A primeira fase, denominada Teoria da Irresponsabilidade, adveio na época dos Estados Absolutistas, onde havia uma concentração do poder político nas mãos de uma única pessoa. O Monarca, assim, praticava atos que jamais poderiam ensejar a reparação pelos danos, uma vez que o Monarca fazia a sua vontade ter força de lei. A fundamentação dessa soberania dos reis absolutistas era baseada na teoria político-teológica de que eles eram representantes de Deus na terra, investidos desse Poder por obra divina. Tal teoria seria superada com o advento do Estado de Direito francês, sobretudo do julgamento pelo Tribu- nal de Conflitos da França, denominado Aresto Blanco, no ano de 1873. O julgamento consistia na imputação ao Estado do dever de reparar danos causados por um vagão da Companhia Nacional de Manufatura do Fumo, que havia atropelado uma menina enquanto brincava na rua. A Teoria da Responsabilidade Subjetiva foi a primeira tentativa de explicar a imputação ao Estado do dever de reparar os danos patrimoniais e demais prejuízos causados pela conduta de seus agentes. Por essa corrente teórica, o Estado passaria a adquirir uma segunda personalidade denominada “fisco”, sen- do esta uma personalidade patrimonial, capaz de res- sarcir os particulares pela prática de atos de gestão. No caso apresentado, o Estado acabou se tornando o ente responsável por reparar a família pela mor- te da menina. Ocorre que a grande inovação se deu quando a corte julgadora decidiu que a responsabi- lidade do Estado não poderia ter o seu fundamento retirado do Direito Civil. Assim, a responsabilidade estatal tem seu fundamento ligado às noções de res- ponsabilidade mais amplas do que o âmbito de Direito Civil, o que significa que, para o Estado ser conside- rado responsável, deve haver a comprovação de que este agiu com culpa lato sensu, abrangendo as hipóte- ses de dolo (intenção de lesar), bem como as de negli- gência, imprudência e imperícia (culpa stricto sensu). Essa era a grande dificuldade dessa teoria: pelo fato da relação entre a Administração Pública e o parti- cular ser desigual, a vítima muitas vezes não possuía meios suficientes para comprovar a conduta dolosa ou culposa do Estado. No Brasil, adotamos a teoria subjetiva no Direito Público, EXCEPCIONALMEN- TE, nos casos de omissão da Administração, ou na possibilidade de ação regressiva desta perante seus agentes. A terceira teoria, denominada Teoria da Res- ponsabilidade Objetiva, surge nos meados de 1946. Consiste no afastamento da necessidade de compro- vação de dolo ou culpa do agente público, tendo por fundamento do dever de indenizar a concepção de risco administrativo. Quem presta um serviço públi- co, assume o risco dos prejuízos que eventualmente causar a outrem. Não cabe, dessa forma, a discussão sobre aspectos subjetivos da responsabilidade estatal, exceto nas hipóteses de ação regressiva. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO NO DIREITO BRASILEIRO Responsabilidade por ato Comissivo e Omissivo do Estado A Constituição Federal de 1988 adotou a teoria da responsabilidade objetiva, na variação de risco admi- nistrativo, que admite algumas excludentes ao dever de indenizar, conforme se depreende da leitura do art. 37, § 6º, da CF/1988: “As pessoas jurídicas de direi- to público e as de direito privado prestadoras de servi- ços públicos responderão pelos danos que seus agentes, nessa qualidade, causarem a terceiros, assegurado o direito de regresso contra o responsável nos casos de dolo ou culpa”. 250 Observe que o texto constitucional imputa as pes- soas jurídicas de direito privado, como sociedades de economia mista e empresas públicas, o dever de repa- rar na mesma modalidade que as pessoas da Adminis- tração Direta. A Lei nº 8.112/1990, que dispõe sobre o regime dos servidores públicos, apresenta uma seção sobre responsabilidades dos agentes públicos, colocando em destaque a responsabilidade objetiva. Temos no art. 112 da referida Lei: “A responsabilida- de civil decorre de ato omissivo ou comissivo, dolo- so ou culposo, que resulte em prejuízo ao erário ou a terceiros”. O dever estatal de indenizar os particulares possui dois fundamentos distintos: a legalidade e a igualda- de. Na hipótese de o Poder Público praticar um ato ilícito, causador de danos patrimoniais para a coleti- vidade, o dever de indenizar advém do princípio da legalidade, uma vez que a atuação do agente público deve ser feita sempre de acordo com a lei (secundum legem). Há, também, casos em que a Administração pratique atos lícitos, mas que também podem causar prejuízos especiais ao particular. Nessas hipóteses, o dever de indenizar advém do princípio da isonomia, que pressupõe a igual repartição dos encargos sociais. REQUISITOS PARA A DEMONSTRAÇÃO DA RESPONSABILIDADE DO ESTADO Para que haja a configuração da responsabilidade civil do Estado, é importante a presença de três ele- mentos: a) um ato do agente público, b) dano ao particular, c) nexo de casualidade entre o dano e o ato praticado. Em relação ao segundo elemento, a doutrina cos- tuma apontar quais são os danos que ensejam o dever de indenizar, isso é, quais são os denominados danos indenizáveis. Assim, considera-se dano indenizável: z Dano anormal: é o dano que ultrapassa os incon- venientes naturais e esperados da vida em socie- dade. A vida em sociedade é caracterizada pelo advento de certos incômodos normais e toleráveis a todos os cidadãos. Tais desconfortos só enseja- ram o dever de indenizar se forem considerados intoleráveis. Assim, por exemplo, a feira colocadaem rua residencial não enseja dever de indenizar. z Dano específico: é aquele que atinge uma certa pessoa, ou uma certa categoria de pessoas. Dessa forma, se o ato da Administração é capaz de causar danos de modo geral, para toda a coletividade, não se caracteriza dano indenizável. Por exemplo: não é considerado dano indenizável o aumento da tari- fa do transporte público, haja vista que todos as pessoas daquela cidade sofrerão com tal medida. RESPONSABILIDADE POR AÇÃO E RESPONSABILIDADE POR OMISSÃO A responsabilidade por ação é aquela que se carac- teriza pelo ato comissivo. O Estado pode causar danos aos particulares tanto por ação ou por omissão. Quan- do o ato é comissivo, não há questionamento acerca da culpa do Estado em sua conduta. Nesse caso, a responsabilidade objetiva do Estado se dará pela pre- sença dos seus pressupostos: o fato administrativo, o dano e o nexo causal existente entre os dois. Todavia, quando a conduta estatal for omissiva, será preciso distinguir se a omissão constitui ou não fato gerador da responsabilidade civil do Estado. Isso significa que nem toda conduta omissiva caracteriza-se em um dever de indenizar, configurando-se na respon- sabilização do ente estatal. Somente quando o Estado se omitir diante do dever legal de impedir a ocorrência do dano é que será civilmente responsável. Ainda sobre a omissão, há uma discussão dou- trinária a respeito da responsabilidade omissiva ser objetiva ou subjetiva. A primeira corrente, defendida por juristas como Hely Lopes Meirelles, defende que se a Constituição Federal não distinguiu a responsabi- lidade por ação e omissão, então não deve o intérprete fazê-lo também. Porém, a corrente majoritária defendida por juristas como Celso Antônio Bandeira de Mello diz que a responsabilidade civil por omissão é sempre subjetiva. Nesses casos, o Estado raramente é o autor do ato danoso. Por isso, só responderá se restar com- provado que ele tinha o dever legal de agir para impe- dir o resultado, e não o faz. Há uma análise subjetiva da conduta do Poder Público. Assim, o entendimento mais correto é de que a responsabilidade civil do Esta- do, no caso de conduta omissiva, só ocorrerá quando presentes os elementos que caracterizam a culpa em sentido amplo, logo, responsabilidade subjetiva. CAUSAS EXCLUDENTES E ATENUANTES DA RESPONSABILIDADE DO ESTADO Dentro do âmbito da teoria objetiva da responsa- bilidade estatal, existem duas vertentes distintas. A primeira, denominada risco integral, dispõe que o Estado possui o dever de indenizar todo e qualquer dano causado pela prática de seus atos, não admitindo nenhuma excludente. Trata-se de uma variação radi- cal, em que a Administração se transforma em um indenizador universal. Não é adotado em nenhum país, sendo adotado no Brasil somente como exce- ção em alguns casos específicos, como nos acidentes de trabalho, na indenização coberta pelo seguro obri- gatório para automóveis (DPVAT) etc. A segunda vertente, denominada teoria do ris- co administrativo, é a adotada como regra geral no direito brasileiro. Tal teoria reconhece algumas exclu- dentes da responsabilidade do Estado. Excludentes são circunstâncias que, como o próprio nome diz, afastam o dever de indenizar durante a sua ocorrên- cia. São, ao todo, três modalidades: z Culpa exclusiva da vítima: são hipóteses em que o prejuízo é consequência da intenção delibera- da da própria vítima. O prejudicado, ao utilizar o referido serviço público, acaba sofrendo danos por uma ação tomada por ela mesma, não haven- do qualquer relação com as condutas do Poder Público. É o caso, por exemplo, de pessoa que se joga na frente de viatura policial para ser atrope- lada. Não se confunde com a culpa concorrente, que se traduz no dano causado pela conduta recí- proca do Estado e da própria vítima. Neste caso, há uma análise pericial para determinar os dife- rentes graus de culpa de cada agente, ensejando reparação. z Força maior: é o evento imprevisível e involuntá- rio que rompe o nexo de casualidade entre o ato da Administração e o prejuízo sofrido pela vítima. Geralmente são causados pela força da natureza. É o caso, por exemplo, do desabamento de terras N O Ç Õ ES D E D IR EI TO A D M IN IS TR AT IV O 251 que arruínam as casas de um bairro, devido às for- tes chuvas. Não se confunde com o caso fortuito, em que o dano decorre de ato humano, ou da pró- pria Administração, como o desabamento de uma estrada. O caso fortuito enseja o dever de respon- sabilidade somente se tal evento for causado pelo agente público. z Culpa de terceiro: é a hipótese em que o prejuí- zo é atribuído a pessoa estranha aos quadros da Administração Pública. Dessa forma, não há como o Estado ser imputado responsável por atos pra- ticados por pessoas que não fazem parte de sua composição. Curioso é o caso dos danos causados pelas enchentes, sobretudo em cidades onde o escoamento das águas é precário, como ocorre em algumas regiões da cidade de São Paulo. Como regra geral, o Estado não se responsabi- liza por prejuízos causados pelas enchentes. A 3º Câma- ra de Direito Público do TJ/SP negou provimento à AC nº 0170440220058260602 interposta por três proprietários de imóveis afetados pelas fortes chuvas do início do ano de 2012, que pleiteavam pedido de indenização pelos danos causados pelas chuvas, pois as galerias pluviais de seu bairro não eram suficientes para escoar toda a água, caracterizando-se em falta no serviço público. Segundo voto do relator, porém, não havia qualquer prova que defina a ocorrência de qualquer falta de ser- viço que possa ser atribuída ao Município e que tenha sido causa concorrente para o evento. Todo aquele que se sentir prejudicado por con- duta comissiva ou omissiva de agente público pode pleitear, pela via administrativa ou judicial, a devi- da reparação pelos danos causados. Na via adminis- trativa, basta que o prejudicado formule o pedido a autoridade competente, que instaurará processo administrativo para apurar a responsabilidade e o pagamento de indenização. Porém, é preferível que a vítima utilize a via judi- cial, hipótese mais comum haja vista o direito de peti- ção, que se caracteriza no dever do Poder Judiciário de atender todas as demandas feitas pelos cidadãos. O direito à indenização da vítima se instrumentaliza pela ação indenizatória. A ação indenizatória, dessa forma, é aquela proposta pela vítima contra a pessoa jurídica que o agente público causador do dano per- tence. Conforme dispõe o art. 206, § 3º, V, do Código Civil, o prazo prescricional para a propositura de ação indenizatória é de três anos, contados da ocorrência do evento danoso. Lembrando também que sempre há a possibilida- de de direito de regresso, por parte do ente público, contra o agente que, de fato, praticou a conduta dano- sa. Óbvio, quando a culpa recair totalmente sobre um agente ou um pequeno grupo de agentes públicos, o Estado não pode ser o único a arcar com os prejuí- zos da reparação, ele possui direito de regresso. Ain- da que os agentes não indenizem a vítima, sobre eles podem recair a ação regressiva com essa finalidade específica. Significa dizer que os agentes públicos só podem responder de forma subjetiva, devendo inde- nizar o Poder Público pela prática de seus atos. RESPONSABILIDADE DO ESTADO SEGUNDO REITERADAS DECISÕES DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL (STF) É bem comum que algumas questões exijam do candidato conhecimentos sobre a jurisprudência de determinada matéria. De fato, a teoria da responsa- bilidade extracontratual do Estado abrange diversas casuísticas que podem gerar algumas dúvidas, sobre as quais a doutrina faz pouca menção. Observe as seguintes ementas relacionadas com a referida matéria, todas extraídas do STF: EMENTA: RECURSO EXTRAORDINÁRIO. REPERCUS- SÃO GERAL. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO POR MORTE DE DETENTO. ARTIGOS 5º, XLIX, E 37, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. 1. A responsabilidadecivil estatal, segundo a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 37, § 6º, subsume-se à teoria do risco admi- nistrativo, tanto para as condutas estatais comissivas quanto paras as omissivas, posto rejeitada a teoria do risco integral. 2. A omissão do Estado reclama nexo de causalidade em relação ao dano sofrido pela vítima nos casos em que o Poder Público ostenta o dever legal e a efetiva possibilidade de agir para impedir o resultado danoso. 3. É dever do Estado e direito subjetivo do pre- so que a execução da pena se dê de forma humanizada, garantindo-se os direitos fundamentais do detento, e o de ter preservada a sua incolumidade física e moral (artigo 5º, inciso XLIX, da Constituição Federal). 4. O dever constitucional de proteção ao detento somente se considera violado quando possível a atuação estatal no sentido de garantir os seus direitos fundamentais, pressuposto inafastável para a configuração da respon- sabilidade civil objetiva estatal, na forma do artigo 37, § 6º, da Constituição Federal. 5. Ad impossibilia nemo tenetur, por isso que nos casos em que não é possível ao Estado agir para evitar a morte do detento (que ocorreria mesmo que o preso estivesse em liberdade), rompe-se o nexo de causalidade, afastando-se a res- ponsabilidade do Poder Público, sob pena de adotar- -se contra legem e a opinio doctorum a teoria do risco integral, ao arrepio do texto constitucional. 6. A morte do detento pode ocorrer por várias causas, como, v. g., homicídio, suicídio, acidente ou morte natural, sendo que nem sempre será possível ao Estado evitá-la, por mais que adote as precauções exigíveis. 7. A responsa- bilidade civil estatal resta conjurada nas hipóteses em que o Poder Público comprova causa impeditiva da sua atuação protetiva do detento, rompendo o nexo de causalidade da sua omissão com o resultado danoso. 8. Repercussão geral constitucional que assenta a tese de que: em caso de inobservância do seu dever especí- fico de proteção previsto no artigo 5º, inciso XLIX, da Constituição Federal, o Estado é responsável pela mor- te do detento. 9. In casu, o tribunal a quo assentou que inocorreu a comprovação do suicídio do detento, nem outra causa capaz de romper o nexo de causalidade da sua omissão com o óbito ocorrido, restando escorreita a decisão impositiva de responsabilidade civil estatal. 10. Recurso extraordinário DESPROVIDO. (RE 841526, Relator(a): LUIZ FUX, Tribunal Pleno, julgado em 30/03/2016, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-159 DIVULGAÇÃO 29-07-2016 PUBLICAÇÃO 01-08- 2016) 252 Um tema que costuma cair bastante em questões de prova diz respeito à morte do preso. Segundo enten- dimento do STF, o Estado tem o dever de garantir que a pessoa do detento cumpra sua pena com dignidade, respeitados os seus direitos humanos fundamentais. Assim, quando um detento morre dentro da prisão, demonstra-se uma omissão do Estado de atuar em garantir seus direitos. Até mesmo em casos de suicí- dio é possível a responsabilização civil do Estado. Ementa: RECURSO EXTRAORDINÁRIO COM REPER- CUSSÃO GERAL RECONHECIDA. DIREITO CONSTITUCIO- NAL E ADMINISTRATIVO. RESPONSABILIDADE CIVIL DO ESTADO POR OMISSÃO. ART. 37, § 6º, DA CONSTI- TUIÇÃO FEDERAL. FISCALIZAÇÃO DO COMÉRCIO DE FOGOS DE ARTIFÍCIO. TEORIA DO RISCO ADMINIS- TRATIVO. RESPONSABILIDADE OBJETIVA. NECESSI- DADE DE VIOLAÇÃO DO DEVER JURÍDICO ESPECÍFICO DE AGIR. 1. A Constituição Federal, no art. 37, § 6º, consagra a responsabilidade civil objetiva das pessoas jurídicas de direito público e das pessoas de direito privado prestadoras de serviços públicos. Aplicação da teoria do risco administrativo. Precedentes da COR- TE. 2. Para a caracterização da responsabilidade civil estatal, há a necessidade da observância de requisitos mínimos para aplicação da responsabilidade objeti- va, quais sejam: a) existência de um dano; b) ação ou omissão administrativa; c) ocorrência de nexo causal entre o dano e a ação ou omissão administrativa; e d) ausência de causa excludente da responsabilidade estatal. 3. Na hipótese, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo concluiu, pautado na doutrina da teoria do risco administrativo e com base na legislação local, que não poderia ser atribuída ao Município de São Paulo a responsabilidade civil pela explosão ocorri- da em loja de fogos de artifício. Entendeu-se que não houve omissão estatal na fiscalização da atividade, uma vez que os proprietários do comércio desenvol- viam a atividade de forma clandestina, pois ausente a autorização estatal para comercialização de fogos de artifício. 4. Fixada a seguinte tese de Repercussão Geral: “Para que fique caracterizada a responsabilida- de civil do Estado por danos decorrentes do comércio de fogos de artifício, é necessário que exista a violação de um dever jurídico específico de agir, que ocorrerá quando for concedida a licença para funcionamen- to sem as cautelas legais ou quando for de conheci- mento do poder público eventuais irregularidades praticadas pelo particular”. 5. Recurso extraordinário desprovido. (RE 136861, Relator(a): EDSON FACHIN, Relator(a) p/ Acórdão: ALEXANDRE DE MORAES, Tribunal Pleno, julgado em 11/03/2020, ACÓRDÃO ELETRÔNICO REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-201 DIVULG 12-08-2020 PUBLIC 13-08-2020) Fogos de artifício são produtos altamente perigosos e que podem causar danos a diversas vítimas, seja ela o adquirente do produto, ou ainda terceiros. Observe que, no caso mencionado, a vítima adquiriu fogos de artifícios de forma clandestina dos proprietários do comércio. Não houve, assim, a aquisição de licença para a venda desses produtos. Sendo assim, firmou- -se entendimento de que só caberá responsabilida- de civil do Estado quando restar comprovado que houve a violação de um dever jurídico específico de agir, como no caso de concessão de licença para pessoa incapaz ou sem os cuidados específicos. Assim, é hipótese de responsabilidade subjetiva. CONSTITUCIONAL. RESPONSABILIDADE DO ESTA- DO. ART. 37, § 6º, DA CONSTITUIÇÃO. PESSOAS JURÍDI- CAS DE DIREITO PRIVADO PRESTADORAS DE SERVIÇO PÚBLICO. CONCESSIONÁRIO OU PERMISSIONÁRIO DO SERVIÇO DE TRANSPORTE COLETIVO. RESPON- SABILIDADE OBJETIVA EM RELAÇÃO A TERCEIROS NÃO-USUÁRIOS DO SERVIÇO. RECURSO DESPROVIDO. I. A responsabilidade civil das pessoas jurídicas de direito privado prestadoras de serviço público é objetiva relativamente a terceiros usuários e não- -usuários do serviço, segundo decorre do art. 37, § 6º, da Constituição Federal. II. A inequívoca presença do nexo de causalidade entre o ato administrativo e o dano causado ao terceiro não-usuário do serviço público, é condi- ção suficiente para estabelecer a responsabilida- de objetiva da pessoa jurídica de direito privado. III. Recurso extraordinário desprovido. (RE 591874, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 26/08/2009, REPERCUSSÃO GERAL - MÉRITO DJe-237 DIVULG 17-12-2009 PUBLIC 18-12-2009 EMENT VOL-02387-10 PP- 01820 RTJ VOL-00222-01 PP-00500) Outro caso que é bastante comum e costuma cair em questões de prova diz respeito ao serviço públi- co de transporte coletivo. Indaga-se como recairia a responsabilidade do Estado quando, por exemplo, um motorista de ônibus atropela um civil andando na rua, que é considerado um terceiro não-usuário do serviço. Segundo o entendimento do STF, as pessoas jurídicas concessionários do serviço de transporte possuem responsabilidade civil objetiva quando o dano for causado contra terceiros, sejam eles usuários do serviço ou não. A presença do nexo de casualidade é bastante evidente. EXERCÍCIOS COMENTADOS 1. (CESPE-CEBRASPE – 2019) No que diz respeito a des- vio e excesso de poder e à responsabilidade civil do Estado, julgue o item subsecutivo. É possível responsabilizar a administração pública por ato omissivo do poder público, desde que seja inequí- voco o requisito da causalidade, em linha direta e ime- diata, ou seja, desde que exista o nexo de causalidadeentre a ação omissiva atribuída ao poder público e o dano causado a terceiro. ( ) CERTO ( ) ERRADO A doutrina costuma conceituar a responsabilida- de extracontratual do Estado como a obrigação de reparar danos causados a terceiros em decorrência de comportamentos comissivos ou omissivos, materiais ou jurídicos, lícitos ou ilícitos, imputáveis aos agentes públicos. Ainda que seja por uma conduta omissiva, não há a necessidade de comprovar dolo ou culpa na conduta omissiva do agente público. Resposta: Certo. 2. (CESPE-CEBRASPE – 2019) Julgue o item a seguir, acerca das disposições constitucionais a respeito de direito administrativo.