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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESPÍRITO SANTO DEPARTAMENTO DE TEORIA DA ARTE E MÚSICA LICENCIATURA EM MÚSICA MAÉLI LIQUER DE OLIVEIRA PROCESSOS E ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO DOCENTE NO PROJETO DE MUSICALIZAÇÃO “ORQUESTRA INFANTIL DE BARRO BRANCO.” Vitória, ES 2019 MAÉLI LIQUER DE OLIVEIRA PROCESSOS E ESTRATÉGIAS DE ATUAÇÃO DOCENTE NO PROJETO DE MUSICALIZAÇÃO “ORQUESTRA INFANTIL DE BARRO BRANCO.” Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Teoria da Arte e Música da Universidade Federal do Espírito Santo como requisito parcial para obtenção de título de graduação em Licenciatura plena em Música. Aprovado em:___/___/______. Banca Examinadora _____________________________________ Professor Dr. Alexandre Siqueira de Freitas Presidente da banca – Orientador ____________________________________ Professor Dr. Potiguara Menezes Membro ____________________________________ Professor Dr. Victor Neves Membro Dedico esta monografia a Deus que é a minha fonte de inspiração e gratidão. A Ele toda honra, pois, é minha força, meu amparo e minha vitória. As vozes de um milhão de anjos não poderiam expressar, tudo o que sou, e espero ser, eu devo tudo a Ti. A Deus seja a glória. (Andraé Crouch) AGRADECIMENTO Agradeço a Deus pelo fôlego de vida, pelo extremo zelo que sempre teve comigo, por Sua sabedoria que é inesgotável e porquanto anelo estar com Ele para sempre e saber que assim será. Aos meus pais, Geraldo Peixoto de Oliveira e Luzia Liquer de Oliveira eu quero externar a minha gratidão por todos os dias de incessantes orações, pela educação que me deram, pelo amor e carinho que sempre depositaram em mim, por todos os conselhos e correções, pela força e coragem, por inúmeros sacrifícios e investimentos que fizeram para que eu chegasse até aqui e por serem meus exemplos de fé, vida e trabalho. Mãe e pai, eu vos amo imensamente, sou sequência da história de vocês, amor verdadeiro que nunca acaba. De todas as entrelinhas vocês são os melhores espaços, de cada verso poético vocês são as mais belas melodias. Não se corrompe, nem se envaidece, nossa ligação é além do natural, é Deus a viver em nós. Aos demais da família, minha irmã Kéren e meu cunhado Valdemar, agradeço por serem verdadeiros companheiros nessa jornada, apoiadores do meu trabalho, parceria fiel para qualquer momento e alicerce em horas decisivas. A minha amada Igreja Cristã Maranata de Barro Branco, que foi o local que me oportunizou vivências musicais desde o meu nascimento, me dando a oportunidade de amar a música e o louvor a Deus, aos meus irmãos em Cristo que oraram por mim, me incentivaram e me ajudaram de alguma forma, muito obrigada. Aos meus amigos e colegas gratulo pela compreensão durante minha ausência social e pelo apoio manifestado a mim nos momentos difíceis. E, por fim, não menos importante, aos meus professores da UFES que contribuíram diligentemente na minha formação, em especial ao meu orientador, Dr. Alexandre Siqueira de Freitas pelo excelente trabalho realizado, pelo carinho e por minuciosos detalhes observados e revisados. RESUMO Essa pesquisa intenciona analisar as propostas e estratégias de atuação docente no projeto de musicalização infantil da Igreja Cristã Maranata de Barro Branco, no município de Serra, estado do Espírito Santo, e visa compreender a importância da educação musical na rotina das crianças e adolescentes do projeto de musicalização. Os dados e informações coletados têm o propósito de apresentar os processos de aprendizagem que ocorrem no projeto. Esse trabalho também ambiciona ressaltar características do projeto, refletir sobre os processos de aprendizagem musical para que seja possível aprimorá-lo. Palavras-chave: educação musical; musicalização infantil; música em igreja. ABSTRACT This research intends to analyze the purpose and strategies of teaching activities in musicalization process for children at the Christian Church Maranata of Barro Branco, located in the city of Serra, Espírito Santo state. It has as a target the comprehension of how important is the musical education in the daily activies of the children involved in the project. All data and information colected intends to present all learning process that takes place during the project. Also, this work has as a purpose to highlight the main project features and bring out a deep thinking about the musical learning processes and the tools to improve it. Keywords: musical education; childhood musicalization; religious music. SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO..................................................................................................8 2. MÚSICA E SIGNIFICADO...............................................................................10 3. A MÚSICA NA RELIGIÃO CRISTÃO-PROTESTANTE: BREVE HISTÓRICO................................................................................................................11 4. ESTUDO DE CASO: PROJETO DE MUSICALIZAÇÃO “ORQUESTRA INFANTIL DE BARRO BRANCO.”..................................................................................................................14 4.1 O projeto de musicalização “Orquestra Infantil de Barro Branco”..............................14 4.2 Planejamento docente e fundamentação teórica.......................................................15 4.3 Métodos e atuação docente.......................................................................................17 5. RESULTADOS ALCANÇADOS......................................................................18 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................19 8 1. INTRODUÇÃO Muitos estudantes em cursos de música vivenciam ou vivenciaram o que a abordagem desse tema traz, que é o ensino de música em projetos sociais. A música é para todos. Todas as pessoas têm o direito de aprender e praticar música. Nessa pesquisa estará em foco o desenvolvimento da educação musical para crianças e adolescentes que não tiveram a oportunidade de ter um vínculo formal com alguma escola de música ou de ensino básico. Com esse projeto queremos afirmar que esse grupo de crianças e adolescentes podem ingressar em academias, instituições de ensino superior de música ou se tornar um profissional da área. A igreja é um desses espaços que oportunizam o ensino musical e vale ressaltar que a prática de música em igrejas tem uma base de significados culturais e que tem se aperfeiçoado cada vez mais. Muitas crianças e adolescentes têm se beneficiado da musicalização infantil e é importante que se dê espaço a esse tema para que se desenvolva propostas para um ensino de qualidade, no qual a música, na sua forma teórica e prática, seja valorizada coerentemente. A música é uma realidade dentro do universo religioso e tem ampla utilização em geral. Em igrejas evangélicas, especificamente, uma das funções dentro de seus ritos é o chamado louvor, isto é, uma afirmação e exaltação da crença adotada através da música. A expressão musical junto à manifestações religiosas resulta em um conjunto de conhecimentos, costumes e princípios. Nesse contexto, podemos evidenciar que as crenças e as práticas religiosas influenciam diretamente na performance e na educação musical. Essa é a realidade do projeto de musicalização infantilda Igreja Cristã Maranata de Barro Branco, que utiliza a música em sua função principal para cultuar, adorar e devotar a Deus. Contudo, também visa objetivos educacionais. Educar um indivíduo é um processo que requer cuidados e muita competência. É importante que o professor esteja em sintonia com todas as áreas que possam contribuir com seu trabalho, valorizando assim a interdisciplinaridade e buscando atender as especificidades de seus alunos. No desenvolvimento dessa pesquisa, vamos falar sobre a importância da educação musical, os processos de ensino aos alunos e a educação acompanhada pelo professor em conjunto com as famílias, amigos e comunidade. 9 Teca de Alencar Brito (2003) fala que a exploração no universo musical feita por crianças é algo que depende de um orientador e precisa ser um processo cauteloso para garantir que o desenvolvimento musical infantil seja construído com sentimentos, experimentações, percepções, criatividade a fim de provocar na criança segurança para realizar qualquer tipo de atividade musical. Pensando nisso, vamos detalhar neste trabalho processos que visam atender tais necessidades. Nesta pesquisa, a educação musical será apresentada com todos seus preparos e aparatos para denotar uma linha metodológica de qualidade, tanto para as crianças quanto também uma experiência de qualidade de ensino para os docentes. Bem sabemos que a música é um direito de todos os estudantes do ensino básico, porém, sabemos nem todas as crianças, adolescentes e jovens têm ou tiveram contato com um ensino musical. Por isso, colocaremos em foco um projeto social que oportuniza esses indivíduos a terem contato com a música de uma forma mais palpável, como personagens principais e não apenas como espectadores. Quando entra-se em contato com a música de maneira superficial, as informações nem sempre são bem selecionadas. Por exemplo, no ensino de canto por meio de vídeoaulas, as pessoas querem um resultado satisfatório em curto prazo. Porém, não levam em conta que precisam de um acompanhamento em tempo real, pois um vídeo gravado não identifica as características vocais, seus possíveis problemas e não atende as especificidades de cada um ou do coletivo. A divulgação de um conhecimento por tutoriais na internet com a auto aplicação do indivíduo poderá acarretar sérios problemas1. Por isso, a supervisão e o acompanhamento de um profissional qualificado são muito importantes em qualquer ensino formal ou não- formal de música. Técnicas pedagógicas estão sendo cada vez mais discutidas para que as aulas sejam prazerosas e didáticas e, como uma via de mão dupla, possa desenvolver o ensino-aprendizagem entre professores e alunos. [...] Nas condições de verdadeira aprendizagem, os educandos vão se transformando em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador igualmente sujeito do processo. (FREIRE, 1996, p. 26). 1 Em alguns casos, no entanto, quando bem estruturados e realizados, processo de autoaprendizagem podem também obter resultados satisfatórios. 10 2. MÚSICA E SIGNIFICADO Quando falamos em significado, queremos saber qual o sentido e a importância que algo possui e como relações se estabelecem a partir deste princípio. A maneira que é imputado o sentido à alguma coisa pode se tornar inerente à construção de usos e costumes a um determinado grupo. Neste panorama, entenderemos o valor que a música detém na vida cultural e cotidiana das pessoas. A aprendizagem significativa, é mencionada por Moreira (1997) baseando-se em Ausubel (1978), e explica que são conhecimentos e experiência marcantes e, por vezes, são atualizadas com o decorrer do tempo. O processo educativo se dedica ao desenvolvimento do cognitivo, o afetivo e o psicomotor. A aquisição, a organização e a assimilação de significados devem estar estruturadas a partir de experiências diretas e indiretas, fazendo conexões com o ambiente, com as histórias culturais e com as pessoas. A música como uma forma de discurso contém ideias de nós mesmos e dos outros, sendo articuladas em formas sonoras, segundo Swanwick (2003, p.18) essas ideias são capazes de realizar estímulos sensoriais, emocionais e mentais, e que, em certas situações são utilizadas em ritos, crenças e celebrações, que revelam, de algum modo, quem somos e o ambiente no qual estamos inseridos. Na aquisição de experiência musical temos sons, notas, ritmos, expressões, movimentos, interações, sentimentos e sentidos, todos esses elementos geram valores que constituem uma arte que se insere em determinada cultura, como evidencia Swanwick (2003): “[...] Podemos ver que a música não somente possui um papel na reprodução cultural e afirmação social, mas também potencial para promover o desenvolvimento individual, a renovação cultural, a evolução social e a mudança.” (2003, p. 40). A presença da estética na música vem acompanhada de experiências que podem ser previstas ou não, de acordo com a sua significação particular, pode ser alcançada uma expectativa além do ordinário, pois o uso da música quando orientado adequadamente proporciona funções e valores que trarão sentido e características específicas a um determinado grupo. Cada cultura tem seu sotaque, sua diversidade, e é necessário valorizar e garantir que essas diversas facetas sejam preservadas, evitando a intolerância e o preconceito. Por isso, quando falamos de educação musical devemos atribuir a música como forma de conhecimento, troca de 11 pensamentos, compartilhamento de situações e significados, tendo em vista que culturas não são solidificadas e que o papel do professor é fazer com que a música seja protagonista na sua missão, como por exemplo, transformar notas em melodias, melodias em estruturas e estruturas em experiências estéticas significativas, e também propiciar o progresso e melhoria, zelando pelo respeito, integridade e especificidades de culturas locais e funções sociais. 3. A MÚSICA NA RELIGIÃO CRISTÃ-PROTESTANTE: BREVE HISTÓRICO É muito comum o uso da música em espaços religiosos, ela é utilizada como forma afirmativa de uma crença e também no desenvolvimento e equilíbrio espiritual. Dentre as funções que a música desempenha na religião, podemos citar que a música pode favorecer o bem estar emocional, acalmar o corpo, iluminar os pensamentos, nutrir o espírito, fortalecer as crenças e construir valores. “A música faz parte da vida social e individual, principalmente associada às festividades ao lazer, do trabalho, da sexualidade, da religião e da cura”. (Bréscia, 2003, p.29). Podemos supor que, no período da Pré-história à Antiguidade, a música se preservava de forma orgânica, com uso de elementos da natureza, canto em grupo, movimentos corporais e fazia parte de rituais de agradecimentos aos deuses, pedidos de proteção e sobrevivência. Após a morte de Cristo, por séculos, os cristãos foram perseguidos pelos imperadores romanos e isso comprometia a execução de música cristã. Mas, a partir do império de Constantino (313 d.C.), o cristianismo passou a ser tolerado e consequentemente, houve uma ascensão da igreja, que aos poucos passou a ter influência política e econômica na sociedade. Neste período Costa (2008) relata que o cântico cristão que era congregacional passou a ser sacerdotal, isto é, adoração feita somente por um grupo de sacerdote e segundo Kazihara (2016), o clero se aproveitava de atitudes que não estavam citadas na bíblia para benefício próprio, como, aumentar seu poder e riqueza. Na parte musical, a igreja católica então introduziu o cântico litúrgico como um meio de louvar a Deus e se comunicar com os fiéis. Porém, no início desse período, a música era entoada em coro uníssono e sem uso de instrumentos. Somente homens e meninos cantavam, asmelodias monofônicas executavam notas de alturas próximas e o ritmo seguia as prosódias das palavras latinas. 12 Aos poucos, instrumentos como o órgão e a orquestra de cordas começaram a ser inseridos nas missas, acompanhando as vozes do coro polifônico como demonstra Toledo (2009): [...] “A orquestra e o órgão atuam como um acompanhamento das vozes do coro. O órgão é praticamente a redução das cordas que dá suporte harmônico para o coro com algumas interferências contrapontísticas.” (2003, p.42). Essa maneira de executar a música cristã dificultava a compreensão da congregação e a tornava inacessível aos fiéis. Por essa complexidade, somente coros instruídos e bem preparados podiam entoar os cânticos litúrgicos. No período que depois ficou conhecido como Renascimento, ocorreu a reforma protestante, tendo seu início a partir de um manifesto em 31 de outubro de 1517, no qual Martinho Lutero (1483-1546) pregou na porta da igreja de Wittenberg suas 95 teses. Outros nomes, como Calvino (1509-1564) e Knox (1505-1570), também romperam com o catolicismo e isso culminou na independência religiosa de boa parte da sociedade que não concordava com a forma que a igreja católica conduzia seus interesses religiosos, sociais e econômicos. Lutero era poeta e músico, ele traduziu as escrituras do latim para o alemão, facilitando a congregação no entendimento da palavra de Deus e expondo em suas músicas a sua própria interpretação das escrituras sagradas. Ele organizou a música congregacional adotando o estilo do canto coletivo harmonizado a 4 vozes, incluindo estruturas melódicas e rítmicas mais fáceis em comparação com as músicas que a igreja católica impusera aos fiéis. Fundamentado em Hustad (1986), Costa (2008) cita que Martinho compôs hinos para evidenciar as principais ênfases da doutrina luterana: batismo, comunhão, penitência e os dez mandamentos.” (Costa, 2008, p.7) No século XVII, grupos protestantes e seus respectivos líderes tinham o objetivo de tornar a música um instrumento de ensino das doutrinas bíblicas, utilizando elementos como poesias da época, estilos de canções populares e diversos tipos de instrumentos foram inseridos na música religiosa deste período, segundo Baggio (1997). Com o decorrer do tempo e o enfraquecimento da igreja de Roma, o movimento cristão-protestante se difundiu em diversos países, o que acabou culminando na adesão à reforma religiosa por várias denominações. A partir do século XIX, por exemplo, grupos pioneiros como presbiterianos, batistas e metodistas se denominaram evangélicos por praticarem os mandamentos e o que acreditam ser verdades contidas na bíblia e se reuniram em acampamentos para adotarem um novo 13 estilo musical que permitiria criar com liberdade melodias atraentes, refrão repetitivo e harmonia simples. Eram tocadas e cantadas inicialmente em escolas bíblicas dominicais para o público infantil. Porém, esse estilo também foi aderido por jovens e adultos da congregação que exploravam o universo do improviso em seus hinos e canções e esse estilo ainda é visto atualmente em algumas igrejas evangélicas. Após muitos anos de conflitos e disputas territoriais praticados por colonizadores pelo mundo, a música evangélica se estabelece no Brasil ao longo do século XIX com referenciais anglicanos e luteranos em seus cânticos, tendo como língua o inglês e o alemão, respectivamente, e, a partir de 1850, seus cânticos passaram a ser entoados em português como relata Costa (2008) baseando-se em Silva (1996). Após o reconhecimento legal assegurado aos protestantes em 1890 por um decreto do governo republicano, como diz Kazihara (2016), várias denominações evangélicas se ramificaram, as músicas passaram a ser cantadas em português e algumas tradições europeias perpetuaram fronteiras e gerações de forma a se adequar à contemporaneidade. Apesar do grande esforço da igreja católica em se fortalecer, a igreja evangélica teve um crescimento significativo durante o período republicano pois, com a liberdade religiosa, intensificou-se as atividades missionárias estrangeiras. Desde este momento o país recebeu inúmeras denominações evangélicas trazidas por esses missionários. (Kazihara, 2016, p. 17). Em 1950, o movimento de pentecostalismo ganhou força entre diversas denominações evangélicas e atribuiu grande relevância à música e aos novos gêneros musicais como os “corinhos de fogo” e as ministrações durante o louvor. Essa demanda de novos estilos e da inserção dos mandamentos bíblicos na música da igreja evangélica, tinha por objetivo a formação de grupos de instrumentistas e cantores voluntários (ministério de louvor) dentro das igrejas para conduzir o canto congregacional dos cultos evangélicos e, segundo sua crença, cumprir a missão de levar o evangelho a toda criatura, servindo e obedecendo a Deus motivados pelo amor fraternal segundo Witt (1995). 14 4. ESTUDO DE CASO: PROJETO DE MUSICALIZAÇÃO “ORQUESTRA INFANTIL DE BARRO BRANCO” 4.1. O projeto de musicalização “Orquestra Infantil de Barro Branco.” A Orquestra Infantil de Barro Branco é um trabalho voluntário de musicalização desenvolvido por duas estudantes de Licenciatura em Música da Universidade Federal do Espírito Santo, uma delas a autora desta pesquisa. O projeto é realizado na Igreja Cristã Maranata, situada no bairro Barro Branco, no município de Serra, estado do Espírito Santo, e tem por missão oferecer a experimentação de instrumentos musicais, iniciação ao canto coral e noções de teoria musical. Com base no capítulo anterior, podemos supor que a prática musical nas igrejas evangélicas era realizada majoritariamente por jovens e principalmente por adultos, no entanto este projeto nasceu de um desejo de musicalizar as crianças e adolescentes da igreja local onde as docentes congregam, com o objetivo de que eles sejam participantes ativos nos cultos, e também torná-los instrumentistas atuantes e protagonistas de seu próprio repertório (que é cuidadosamente selecionado). O projeto teve início em abril de 2019 e foi feito um planejamento entre as docentes e o pastor da igreja para que o trabalho fluísse de forma que atendesse as expectativas dos pais, das crianças, da congregação e das docentes, tendo em vista que este é o primeiro projeto musical realizado com as crianças e adolescentes da igreja local e levando-se em conta que é um trabalho realizado por duas docentes em qualificação. O planejamento do projeto foi desenvolvido com o objetivo de que as crianças e adolescentes pudessem ter o ensino básico de teoria e prática musical, tendo em vista que todo o aprendizado deve ser colocado em prática o mais rápido possível devido a demanda da igreja. O cronograma do planejamento dividiu-se em duas fases. A primeira fase contou com aulas de teoria musical e práticas para cada naipe e também prática em conjunto. A segunda fase foi direcionada para ensaios e, consequentemente, para a apresentação e execução dos louvores aprendidos. Neste projeto, participam aproximadamente 15 crianças e adolescentes, entre membros da igreja e visitantes assíduos, na faixa etária de 6 a 15 anos. O repertório utilizado é de domínio autoral da igreja, denominada evangélica protestante. O intuito é unir simultaneamente o canto coral infantil com a orquestra de instrumentos de 15 musicalização, fazendo com que a prática musical seja incentivada no cotidiano das classes participantes do projeto. Os instrumentos de musicalização utilizados são: flauta transversal, teclado, escaleta, ukulele, flauta doce, violino, bongô, meia lua e ganzá, e são divididos de acordo com o interesse de cada participante, sendo alguns deles compartilhados a cada apresentação. 4.2. Planejamento docente e fundamentação teórica Considerando o conteúdo lecionado pelas educadoras de música, é importanteressaltar que as aulas entram no planejamento como centro de ensino aprendizagem dos alunos e das educadoras, de forma criativa, buscando ações, desenvolvendo pesquisas e alternativas para superar as dificuldades e estabelecer significados transformadores a partir do contato direto com a educação musical, como pensa Bordignon (2014). Minha parceira de trabalho contribui dizendo que “nosso objetivo como docentes é fomentar a musicalização infantil através do canto coral e da instrumentalização. Temos a pretensão de efetivar a experimentação musical para crianças e adolescentes através de estudos teóricos e práticos que permitam aos educandos explorar as habilidades corporais e cognitivas, a criatividade, a concentração, a disciplina e a prática de conjunto.” O acompanhamento no desenvolvimento educacional do aluno precisa estar presente no planejamento, para que haja reflexão de aspectos positivos e negativos, possibilitando aos docentes a revisão de práticas e propostas pedagógicas que levem a um excelente resultado, como cita Vasconcellos (2006). A reflexão, portanto, é uma mediação no processo de transformação. Digamos assim, ela pode agir ‘através’ do sujeito. Para quem deseja a mudança resta, pois, a possibilidade de interagir com a intencionalidade dos sujeitos, favorecer a interação entre eles, de forma a que possam ter uma ação pautada numa nova concepção. (Vasconcellos, 2006, p. 11) A fundamentação teórica que baseou o trabalho desenvolvido pelas educadoras, foi dividido em duas partes, de acordo com o planejamento estipulado no 16 cronograma abaixo (quadro 1). O primeiro aporte teórico que foi aplicado na primeira fase do projeto, contou com materiais didáticos dos seguintes autores: CIAVATTA. O passo. (2003) – Com princípios de inclusão e autonomia, desenvolve a musicalidade com a utilização do corpo, da criatividade, da cultura e do coletivo. ALMADA. Arranjo. Harmonia funcional (2000; 2009) – Com métodos que nos trazem a reflexão do equilíbrio entre o simples e o complexo e a compreensão das funcionalidades dos procedimentos em estruturas musicais. BRITO. Música na educação infantil (2003) – Com propostas pedagógicas que norteiam o desenvolvimento de atividades correspondentes às especificidades da educação infantil baseado em seus trabalhos e de pesquisadores como Koellreutter, Paynter, Schafer e Delalande. O segundo aporte teórico que foi aplicado na segunda fase do projeto, contou parcialmente com a tendência pedagógica do seguinte autor: FREIRE. Pedagogia do oprimido (1987) - Que se baseia na teoria progressista, defendendo uma educação libertadora, antiautoritária, com diálogo aberto, que assegura o respeito, a ética, o combate à discriminação e à intolerância. As educadoras de música da Orquestra Infantil de Barro Branco planejaram um cronograma constando um prazo de 6 meses para que o projeto fosse aplicado, estabelecido a partir de uma reflexão sobre os processos de aprendizagem e listando as atividades a serem realizadas, sempre visando o desenvolvimento das crianças e adolescentes participantes. Levando em consideração que o canto na Igreja Cristã Maranata é uma prática congregacional efetivada desde os anos iniciais da criança, todos os participantes tocam e cantam os louvores do repertório da Orquestra Infantil. A primeira fase foi organizada com o objetivo de aplicar o conteúdo teórico trazendo técnica básicas ao canto coral e fundamentação para o ensino de instrumentos. Ela também implicou no desenvolvimento de oficinas para o ensino dos instrumentos, e na propiciação de prática de conjunto para partilhar a linguagem musical proposta, respeitando as especificidades e o desenvolvimento de cada aluno. 17 A segunda fase está pautada em produzir ensaios com a Orquestra Infantil utilizando o repertório que foi selecionado pelas educadoras juntamente com o pastor da igreja local e realizar as apresentações durante os cultos do sábado (conforme descrito no cronograma). Quadro 1- Cronograma do projeto (2019) 4.3. Métodos e atuação docente Inspirados numa proposta pedagógica de ensino freiriana, os métodos desenvolvidos pelas educadoras consideravam aspectos sociais, culturais, e humanos de cada aluno, abrindo espaço para a contribuição de cada participante da Orquestra Infantil de Barro Branco de forma ativa na construção de saberes, utilizando a linguagem do cotidiano e usufruindo do conhecimento como a peça que tem a potencialidade de transformar e incentivar a criatividade, a desenvoltura e as habilidades de cada indivíduo. Guedes e Leitão (2016) baseando-se em Paulo Freire, citam que “ao formular as bases da educação libertadora, fundamentada na teoria da ação dialógica, que substituiu o autoritarismo presente na escola tradicional, contribuiu para construir os princípios da educação comprometida com a humanização do ser humano e sua libertação. Essa concepção se materializa em atitudes, escolhas e relações empreendidas na prática pedagógica docente, em que os estudantes são vistos como sujeitos capazes de produzir conhecimento, à medida que são estimulados pelo exercício crítico e dialógico de refletir e estabelecer relações com os objetos de seu contexto social e político, compreendendo que é possível intervir e transformar a realidade.” (Guedes; Leitão, 2016, p.37) 18 Na atuação docente, durante as aulas teóricas, buscou-se estabelecer um bom diálogo com os alunos, que traziam suas dúvidas, sugestões e curiosidades. As docentes explicavam o conteúdo e estimulavam a participação efetiva dos alunos. Com o objetivo de fixar os conteúdos, as educadoras deixavam atividades escritas a serem feitas em casa pelos estudantes. Vale lembrar que, com o objetivo de facilitar a apreensão dos conteúdos teóricos, foi utilizado também recursos como vídeos, imagens, músicas e alguns instrumentos musicais. Durante os ensaios, as docentes trabalharam o repertório com arranjos e harmonias de acordo com a fluência de cada criança e adolescente em seu instrumento e observaram o desenvolvimento de cada um, para que houvesse progressos contínuos e conjuntos com o grupo. 5. RESULTADOS ALCANÇADOS Levando-se em consideração todos os aspectos mencionados neste trabalho, podemos concluir que o uso da música em igrejas evangélicas sempre teve uma grande relevância na educação musical, não formal e informal, e na criação de significados culturais. No caso do projeto da Orquestra Infantil de Barro Branco, crianças e adolescentes tiveram a oportunidade de aprender técnicas vocais básicas e de participar de oficinas de instrumentos de musicalização infantil, tornando-os protagonistas de seus repertórios em apresentações semanais. Tivemos três casos interessantes que demonstram o fruto do nosso trabalho. O primeiro é o caso de uma adolescente que não frequentava a igreja havia muito tempo e nós fizemos o convite a ela para que participasse conosco deste projeto e ela prontamente aceitou, com o objetivo de aprender o ukulele. Porém, ela não tinha o instrumento e nós emprestamos o nosso para que ela desse início as aulas. Com um mês de frequência na Orquestra Infantil de Barro Branco, ela ganhou por parte de sua mãe o instrumento e, consequentemente, a cobrança pelo investimento. Nós percebemos que isso a afetava diretamente na sua autoestima, pois ela se sentia muito pressionada. Por diversas vezes, tínhamos que auxiliá-la com conversas para que ela levasse aquele aprendizado com leveza. No decorrer do tempo, ela obteve resultados muito satisfatórios e hoje não coloca mais aquele peso que inicialmente foi imposto pela mãe. O segundo caso é o de um adolescente que sempre foi frequente nos cultos, porém apresentava um comportamento vulnerável. Mas, após a inserção 19 deste adolescente no projeto, a própria família nos contatoupara nos falar sobre a mudança e a disciplina que a música trouxe para ele. Realmente notamos que o interesse pela música aflorou o afeto e a gentileza no convívio dele conosco, com os amigos e com a família. O último caso a ser relatado é o de um casal de irmãos recém chegados no bairro, que foram inseridos no projeto. No início, apresentaram bastante agitação e dispersão de foco, mas nós persistimos em uma educação que respeita o tempo de cada criança e hoje essas crianças são as que mais se engajam no projeto. É visível a mudança desses alunos nos ensaios e cultos. Podemos concluir que a atuação dos docentes deve ser feita cautelosamente e de forma responsável, pois todos os processos geram resultados que podem ser positivos ou negativos. Portanto, o educador musical deve estar consciente do contexto de seus alunos, bem como suas especificidades e habilidades, garantir-lhes um ambiente acolhedor, que priorize o respeito, a coletividade, a empatia e que valorize desde os mais singelos aos mais grandiosos avanços. 6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMADA, C. L. Arranjo. Campinas: Editora da UNICAMP, 2001. v. 1. ________. Harmonia Funcional. 1. ed. Campinas: Editora da Unicamp, 2009. v. 1. 284p. BRESCIA, V. L. P. Educação Musical: bases psicológicas e ação preventiva. SP: Editora Átomo, 2003. São Paulo: Editora PNA, 2003. BRITO, Teca Alencar de. Música na educação infantil: propostas para a formação integral da criança. São Paulo: Peirópolis, 2003. BORDIGNON, C. Características do aprendizado musical e função dos ministérios de louvor nas igrejas evangélicas brasileiras. 2014. Monografia (Especialista em Gestão Educacional) Centro de Educação, Universidade Federal de Santa Maria. 20 CIAVATTA, L. 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