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Gustavo Penna O ciclo celular eucariótico é tradicionalmente dividido em quatro fases sequenciais: G1, S, G2 e M(Mitótica), as células quiescentes que não estão ativamente no ciclo encontram-se no estado G0. As fases G1, S e G2 são, em conjunto, chamadas de interfase. Sistema de Controle do Ciclo Celular Na maioria das células eucarióticas, o sistema de controle do ciclo celular controla a progressão do ciclo celular em três principais pontos de transição reguladora. O primeiro é o Início (ou ponto de restrição) no final de G1, onde a célula se compromete à entrada no ciclo celular e à duplicação dos cromossomos. O segundo é a transição de G2 /M, onde o sistema de controle dispara um evento mitótico precoce que leva ao alinhamento de cromossomos no eixo mitótico na metáfase. O terceiro é a transição entre metáfase e anáfase, onde o sistema de controle estimula a separação das cromátides-irmãs, levando à conclusão da mitose e da citocinese. Se detecta problemas dentro ou fora da célula, o sistema de controle impede a progressão através de cada uma dessas transições. A progressão do ciclo celular é auxiliada por proteínas denominadas ciclinas e enzimas associadas às ciclinas, denominadas quinases dependentes de ciclina (CDK). As CDK sintetizadas de modo constitutivo adquirem a atividade de quinase –capacidade de fosforilar substratos proteicos – pela formação de complexos com as ciclinas relevantes. O aumento transitório na síntese de determinada ciclina leva, portanto, a um aumento da atividade de quinase da CDK parceira de ligação apropriada; quando a CDK completa o seu ciclo de fosforilação, a ciclina associada é degradada, e a atividade da CDK diminui. Assim, à medida que os níveis de ciclina aumentam e diminuem, a atividade das CDK associadas também aumenta e diminui. Foram identificadas mais de 15 ciclinas. A ciclinas D, E, A e B aparecem de modo sequencial durante o ciclo celular e ligam-se a uma ou mais CDK. Existem quatro classes de ciclinas, cada uma definida pelo estágio do ciclo celular no qual se ligam às Cdks e em que atuam. 1. As G1 /S-ciclinas ativam Cdks no final de G1 e, com isso, ajudam a desencadear a progressão ao Início, resultando no comprometimento à entrada no ciclo celular. Seus níveis diminuem na fase S. 2. As S-ciclinas se ligam a Cdks logo após a progressão ao Início e ajudam a estimular a duplicação dos cromossomos. Os níveis das S-ciclinas permanecem elevados até a mitose, e essas ciclinas também contribuem ao controle de alguns eventos mitóticos iniciais. 3. As M-ciclinas ativam Cdks que estimulam a entrada na mitose na transição G2 /M. Os níveis de M-ciclinas diminuem na metade da mitose. Na maioria das células, uma quarta classe de ciclinas, as G1-ciclinas, ajuda a regular as atividades das G1 /S- ciclinas, as quais controlam, no final de G1, a progressão ao Início. Em células de vertebrados, existem quatro Cdks. Duas interagem com ciclinas G1, uma com ciclina G1 /S e S, e uma com ciclinas S e M. A proteína ciclina não somente ativa sua Cdk parceira, mas também a direciona para proteínas-alvo específicas. Como resultado, cada complexo de ciclina-Cdk fosforila um conjunto diferente de proteínas-substrato. Estudos estruturais em três dimensões de proteínas Cdk e ciclinas têm revelado que, na ausência de ciclinas, o sítio ativo na proteína Cdk é parcialmente obstruído por uma alça proteica, como uma pedra bloqueia a entrada de uma caverna. A ciclina ligada faz a alça se mover do sítio ativo, resultando em uma ativação parcial da enzima Cdk. A ativação total do complexo de ciclina-Cdk ocorre, então, quando uma outra cinase, a cinase ativadora de Cdk (CAK), fosforila um aminoácido próximo à entrada do sítio ativo da Cdk. Isso causa uma pequena mudança conformacional que aumenta ainda mais a atividade da Cdk, permitindo que a cinase fosforile de maneira eficiente suas proteínas-alvo e, desse modo, induza eventos específicos do ciclo celular. O aumento e a diminuição dos níveis de ciclinas são os determinantes primordiais da atividade das Cdks durante o ciclo celular. A fosforilação de um par de aminoácidos na cavidade do sítio ativo da cinase inibe a atividade de um complexo de ciclina-Cdk. A fosforilação desses sítios por uma cinase conhecida como Wee1 inibe a atividade das Cdks, enquanto a desfosforilação desses sítios por uma fosfatase conhecida como Cdc25 aumenta a atividade das Cdks. A ligação de proteínas inibidoras Cdk (CKIs) inativam complexos ciclina-Cdk. A estrutura tridimensional de um complexo de ciclina-Cdk-CKI revela que a ligação de CKI estimula um grande rearranjo na estrutura do sítio ativo da Cdk1, tornando-o inativo. As células usam as CKIs primordialmente para auxiliá-las na regulação das atividades de G1 /S-Cdks e S-Cdks no início do ciclo celular. Proteólise regulada desencadeia a transição metáfase-anáfase O principal regulador da transição entre metáfase e anáfase é o complexo promotor da anáfase, ou ciclossomo (APC/C), um membro da família enzimática de ubiquitinas-ligase. O APC/C catalisa a ubiquitinação e a destruição de dois tipos principais de proteínas. A primeira é a securina, que protege as ligações proteicas que mantêm os pares de cromátides-irmãs unidos no início da mitose. A destruição de securinas na metáfase ativa a protease(separase) que separa as cromátides- irmãs e desencadeia a anáfase, como descrito mais tarde. As S-ciclinas e as M-ciclinas são os segundos principais alvos do APC/C. A destruição dessas ciclinas inativa a maioria das Cdks da célula. O resultado é que muitas proteínas fosforiladas por Cdks da fase S ao início da mitose são desfosforiladas por várias fosfatases na célula em anáfase. Essa desfosforilação de alvos das Cdks é necessária para a conclusão da fase M, incluindo as etapas finais da mitose e citocinese. Seguindo sua ativação na metade da mitose, APC/C permanece ativa em G1 para fornecer um período estável de Cdk inativa. Quando G1/S-Cdk é ativada em G1 tardio, APC/C é inativado já que a atividade de Cdk inibe a Cdh1(ver adiante), desativando o APC/C, permitindo, desse modo, um acúmulo da ciclina no próximo ciclo celular. O sistema de controle do ciclo celular também utiliza outra ubiquitina-ligase chamada SCF. Ela tem várias funções na célula, mas seu principal papel no ciclo celular é ubiquitinar certas proteínas CKI em G1 tardio, ajudando, portanto, o controle da ativação de S-Cdks e replicação de DNA. SCF é também responsável pela destruição das ciclinas G1/S na fase S inicial. As modificações na atividade de APC/C durante o ciclo celular, ocorrem inicialmente como resultado das trocas nas suas associações com uma subunidade ativadora – tanto Cdc20(estimulada pela atividade de M-Cdk) na metade da mitose ou Cdh1 a partir do final da mitose através de G1 precoce. Tais subunidades ajudam o APC/C a reconhecer suas proteínas-alvo. Com a ajuda de duas proteínas adicionais chamadas E1 e E2, APC/C liga cadeias poliubiquitina à proteína-alvo. O alvo poliubiquitinado é, então, reconhecido e degradado em um proteassomo. A atividade de SCF depende das subunidades ligadas ao substrato chamadas proteínas F-box. Contudo, diferentemente da atividade do APC/C, a atividade da SCF é constante durante o ciclo celular. A ubiquitinação pela SCF é controlada por mudanças no estado de fosforilação de suas proteínas-alvo, uma vez que as subunidades de F-box reconhecem somente proteínas específicas fosforiladas. Quando as condições para a proliferação celular são adequadas, vários sinais externos e internos estimulam a ativação do complexo G1-Cdk, que por sua vez estimula a expressão de genes que codificam G1/S-ciclinase S- ciclinas. Então, a ativação resultante de G1/S-Cdk controla a progressão através do Início da transição. Fase S As G1/S-Cdks desencadeiam uma onda de atividade das S-Cdks, que inicia a duplicação dos cromossomos na fase S e também contribui para alguns eventos iniciais da mitose. As preparações para a replicação de DNA começam na mitose tardia e G1, quando as helicases de DNA se ligam a múltiplas proteínas na origem de replicação, formando o complexo pré-replicativo (pré-RC)-complexo formado por Cd6c e Cdt1. Essa etapa é ocasionalmente chamada de licenciamento das origens de replicação, é válido ressaltar que as proteínas do pré-RC são recrutadas pelo complexo de reconhecimento de origem (ORC). A ativação de S-Cdk leva à fosforilação específica de proteínas iniciadoras, as quais promovem a formação de um grande complexo proteico que ativa helicases de DNA, que desenrolam o DNA nas origens para iniciar a sua replicação. Uma vez que a origem de replicação tenha sido iniciada nessa via, as duas helicases se movem para fora da origem na forquilha de replicação, e a origem não pode ser reutilizada até que uma nova pré- RC seja adicionada no final da mitose. Ao mesmo tempo que S-Cdk inicia a replicação de DNA, muitos mecanismos previnem a ligação de novas pré- RCs. S-Cdk fosforila e dessa forma inibe proteínas ORC e Cdc6. A inativação do APC/C no final de G1 também ajuda a evitar a formação do pré-RC. Na mitose tardia e G1 precoce, APC/C desencadeia a degradação de um inibidor Cdt1 chamado geminina, permitindo, assim, que Cdt1 se torne ativa. Quando APC/C é inativada em G1 tardia, ocorre o acúmulo de geminina e a inibição de Cdt1. Nessas várias vias, a formação de pré-RC é impedida da fase S à mitose, assegurando, dessa forma, que cada origem seja ativada apenas uma vez por ciclo celular. O sistema de controle recompõe o ciclo da seguinte forma: No final da mitose, a ativação do APC/C leva à inativação das Cdks e à degradação da geminina. ORC e Cdc6 são desfosforiladas e Cdt1 é ativada, permitindo a formação do pré-RC para preparar a célula para a próxima fase S. A duplicação cromossômica requer a duplicação da estrutura da cromatina A produção de proteínas da cromatina aumenta durante a fase S, a fim de que sejam fornecidas as matérias- primas necessárias para empacotar o DNA recém- sintetizado. Mais do que isso: as S-Cdks estimulam um grande aumento da síntese das quatro subunidades de histonas que formam os octâmeros de histonas no núcleo de cada nucleossomo. O empacotamento da cromatina ajuda a controlar a expressão gênica. Em algumas partes do cromossomo, a cromatina está altamente condensada e é chamada de heterocromatina, enquanto em outras regiões existem estruturas mais abertas chamadas eucromatina. No final da fase S, cada cromossomo replicado consiste em um par de cromátides-irmãs idênticas, ligadas uma à outra ao longo de sua extensão. Essa coesão de cromátides-irmãs monta o palco para uma mitose bem- sucedida, pois facilita bastante a ligação das duas cromátides-irmãs a polos opostos do fuso mitótico. A coesão de cromátides-irmãs depende de um grande complexo de proteínas chamado coesina, que se liga a diversos locais ao longo do comprimento de cada cromátide-irmã assim que o DNA é replicado na fase S. Mitose A mitose é tradicionalmente dividida em cinco etapas – prófase, prometáfase, metáfase, anáfase e telófase –, inicialmente definidas com base no comportamento do cromossomo como visto em microscópio. Uma vez concluída a mitose, o segundo principal evento da fase M – citocinese – divide a célula em duas metades, cada uma com um núcleo idêntico. Uma das características mais notáveis do controle do ciclo celular é que uma única proteína-cinase, a M-Cdk, ocasiona todos os diversos e complexos rearranjos celulares que ocorrem nos estágios iniciais da mitose. A M-Cdk não atua sozinha na fosforilação de proteínas- chave envolvidas no início da mitose. Duas famílias adicionais de cinases, as cinases similares a Polo e as cinases Aurora, também dão importantes contribuições ao controle dos eventos mitóticos iniciais. A desfosforilação ativa a M-Cdk no início da mitose A ativação da M-Cdk começa com o acúmulo de M-ciclina (ciclina B em células de vertebrados). A síntese de M- ciclina aumenta durante G2 e M, devido principalmente ao aumento da transcrição do gene M- -ciclina. O aumento da proteína M-ciclina leva a um correspondente acúmulo do M-Cdk à medida que a célula se aproxima da mitose. Embora nesses complexos a Cdk seja fosforilada em um sítio ativador pela CAK a cinase Wee1 a mantém em um estado inativo, por meio de fosforilação inibidora em dois sítios adjacentes. Assim, quando a célula chega ao fim de G2, ela contém um estoque abundante de M-Cdk, que está preparada e pronta para agir, mas está inibida por fosfatos que bloqueiam o sítio ativo da cinase. O que desencadeia a ativação do estoque de M-Cdk é a ativação da proteína-fosfatase Cdc25, que remove os fosfatos inibidores que restringem a M-Cdk. Ao mesmo tempo, a atividade inibidora da cinase Wee1 é suprimida, assegurando ainda mais que a atividade da M-Cdk aumente. Os mecanismos que desencadeiam a atividade da Cdc25 no início da mitose não são bem entendidos. Uma possibilidade é que as S-Cdks que estão ativas em G2 e no início da prófase estimulem a Cdc25. Curiosamente, a Cdc25 também pode ser ativada, ao menos em parte, pelo seu alvo, a M-Cdk. A M-Cdk também pode inibir a Wee1. A capacidade da M-Cdk de ativar seu próprio ativador (Cdc25) e inibir seu próprio inibidor (Wee1) sugere que a ativação da M-Cdk na mitose envolve ciclos de retroalimentação positiva. De acordo com esse modelo, a ativação parcial da Cdc25 (talvez pela S-Cdk) leva à ativação parcial de uma subpopulação de complexos de M-Cdk, que, então, fosforilam mais moléculas de Cdc25 e Wee1. Isso leva a uma maior ativação da M-Cdk, e assim por diante. Tal mecanismo rapidamente promoveria a ativação de todos os complexos de M-Cdk na célula. A condensina ajuda a configurar os cromossomos duplicados para a separação