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1 Semana 7. APG O mal de Parkinson é um quadro patológico crônico de caráter progressivo e degenerativo. Uma disfunção no sistema nervoso central acarreta degenerações resultantes do depósito anômalo da proteína alfa- sinucleina em agregados denominados corpos de Lewy. O resultado desse acúmulo provoca uma redução intensa na síntese de dopamina, um neurotransmissor essencial na realização dos movimentos voluntários do corpo. Em sua ausência, particularmente em uma pequena região encefálica denominada substância negra, o controle motor é comprometido, originando os sinais e sintomas clássicos da doença. A doença de Parkinson (DP) é a segunda doença neurodegenerativa mais comumadepois da Doença de Alzheimer, afetando cerca de 1% da população acima de 60 anos no Brasil, a prevalência é estimada em cerca de 3,3% em pessoas com idade acima de 65 anos. A prevalência da doença de Parkinson aumenta com a idade, um aumento dos casos da doença é esperado, pois cada vez mais a população está envelhecendo. Embora a DP seja uma doença que atinge ambos os sexos, os estudos epidemiológicos demonstram uma maior frequência da doença no sexo masculino. Os fatores levados em consideração que podem contribuir para isso vão desde o estilo de vida, à exposição a fatores ambientais, e até uma possível ação neuroprotetora dos estrogênios. Estudos recentes acerca da incidência da doença apontam que ela atinge mais indivíduos brancos que negros. A variedade mais comum de parkinsonismo ocorre sem causa evidente; esta forma idiopática é denominada doença de Parkinson ou paralisia agitante quando não existem características atípicas e quando a doença não é secundária a uma causa conhecida, além de existir resposta mantida ao tratamento com medicação dopaminérgica. Uma fase pré-clínica, que antecede a doença em vários anos antes do desenvolvimento do déficit motor, é agora reconhecida, durante a qual pode existir hiposmia, constipação, ansiedade, depressão e distúrbio comportamental do sono REM (movimento rápido dos olhos, de rapid-eye movement). Encefalite letárgica Na primeira metade do século XX, a doença de Parkinson costumava se desenvolver em pacientes com uma história de encefalite de Economo. Como esse tipo de infecção não é encontrado atualmente, os casos de parkinsonismo pós-encefalítico estão se tornando cada vez mais raros. 1. Fármacos terapêuticos: muitos fármacos, como fenotiazinas, butirofenonas, metoclopramida, reserpina e tetrabenazina, podem causar uma síndrome parkinsoniana reversível. Esse conhecimento é importante porque a síndrome geralmente é reversível com a suspensão da medicação causadora, embora os sinais e sintomas possam levar meses para desaparecer. 2. Substâncias tóxicas: toxinas ambientais, como pó de manganés ou dissulfito de carbono, podem levar ao parkinsonismo; o manganės usado na manufatura caseira de metcatinona parece ter sido responsável por parkinsonismo em usuários desta droga estimulante ilegal por vias intravenosas. O distúrbio também pode ocorrer como uma sequela de envenenamento grave por monóxido de carbono ou exposição a gases durante a soldagem. 3. MPTP (1-metil-4-fenil-1,2,5,6-tetra-hidropi- 3 ridina) uma forma de parkinsonismo induzido por drogas foi descrita em indivíduos que sintetizaram e autoadministraram um análogo da meperidina, o MPTP. Este composto é metabolizado e dá origem a uma toxina que destrói, seletivamente, os neurônios dopaminérgicos na substância negra e os neurônios adrenérgicos no locus ceruleus, induzindo uma forma grave de parkinsonismo em humanos e primatas. Infartos subcorticais múltiplos na substância branca podem levar a sinais e sintomas sugestivos de parkinsonismo, em geral acompanhados por reflexos tendinosos vivos e respostas extensoras plantares. O tremor costuma ser pouco pronunciado e, em alguns pacientes, as anormalidades da marcha são especialmente evidentes (“parkinsonismo do corpo inferior”). Boxeadores e pessoas engajadas em certas modalidades desportivas, como futebol, podem desenvolver uma síndrome de demência (demência pugilística), distúrbios comportamentais e psiquiátricos, parkinsonismo, além de déficits piramidais e cerebelares de- correntes de traumatismo craniano recorrente de encefalopatia traumática crônica. O parkinsonismo raramente ocorre com uma base familiar. O parkinsonismo autossômico dominante pode resultar de mutações de um ou de vários genes, incluindo a-sinucleína (SNCA), repetição quinase 2 rica em leucina (LRRK2, de leucine-rich repeat kinase 2) e ubiquitina carboxiterminal esterase L1 (UCHLI). Mutações na parkina (PARK2) e DJ1 causam parkinsonismo autossômico de início precoce e parkinsonismo esporádico de início na juventude. Vários outros genes e regiões cromossómicas foram sentam fatores de suscetibilidade, incluindo o gene para a B- glicosidase (GBA), o defeito enzimático no distúrbis de armazenamento nonómico da doença de Gaucher. As principais características fisiopatológicas da DP são a progressiva degeneração dos neurônios mielinizados da parte compacta da substância negra (SNpc) e a presença de inclusões citoplasmáticas, conhecidas como 2 Semana 7. APG corpúsculos de Lewy, que são formadas principalmente por α-sinucleína e ubiquitina. A degeneração dos neurônios dopaminérgicos da via nigroestriatal leva a uma intensa redução dos níveis de dopamina no estriado, bem como em outros núcleos da base. Os núcleos ou gânglios da base compõem um grupo de núcleos subcorticais que possuem como função primordial o controle dos movimentos voluntários, são eles: estriado (caudado e putâmen), globo pálido (interno e externo), núcleo subtalâmico, e substância negra (parte compacta e reticulada). Os núcleos da base podem ser considerados como uma alça lateral moduladora que regula o fluxo de informação do córtex cerebral para os neurônios motores da medula espinhal. Áreas motoras corticais projetam de maneira somatotópica para o estriado, estabelecendo conexões sinápticas excitatórias glutamatérgicas com neurônios GABAérgicos espinhosos médios. Esses neurônios dão origem a duas eferências estriatais, chamadas de vias direta e indireta, que comunicam o estriado com o globo pálido interno e a parte reticulada da substância negra (SNpr), através dos quais toda informação processada deixa os núcleos da base. Na via direta, os neurônios projetam-se de maneira monossináptica à SNpr e ao segmento interno do globo pálido; estes, por sua vez, fazem uma retransmissão para o tálamo ventral anterior e ventral lateral. Como o neurotransmissor de ambas as ligações é o GABA, que é inibitório, o efeito final da estimulação da via direta é um impulso excitatório para o córtex. Na segunda via, chamada indireta, neurônios GABAérgicos projetam-se para o segmento externo do globo pálido, daí para o núcleo subtalâmico e, finalmente, para o globo pálido interno. Todavia, esta ligação final do núcleo subtalâmico para o globo pálido interno e SNpr é uma via glutamatérgica excitatória. Por conseguinte, o efeito final da estimulação da via indireta a nível do estriado, consiste na redução do efluxo excitatório do tálamo para o córtex cerebral. O aspecto chave desse modelo de função dos gânglios da base, que é responsável pelos sintomas observados na DP, consiste no efeito diferencial da dopamina proveniente da substância negra compacta (SNpc) nas vias direta e indireta. Os neurônios do estriado que dão origem à via direta expressam fundamentalmente receptores D1 excitatórios, enquanto os neurônios que formam a via indireta expressam primariamente neurônios D2, inibitórios. Dessa forma, a dopamina liberada no estriado tende a aumentar a atividade da via direta e reduzir a da via indireta,enquanto a depleção que ocorre na DP tem efeito oposto. O efeito final da redução de influxo dopaminérgico na DP consiste em acentuado aumento do efluxo inibitório da SNpr e do globo pálido interno para o tálamo e redução da excitação do córtex motor. A perda de neurônios dopaminérgicos está associada com o início, apesar de lento, dos sintomas motores, havendo uma relação direta entre a duração da doença, extensão da perda de dopamina e disfunção motora. Os sintomas motores clássicos da DP são bradicinesia, tremor de repouso, rigidez muscular e instabilidade postural e estes só se manisfestam quando já houve perda de cerca de 60% dos neurônios nigrais e depleção de 80% do conteúdo de dopamina do estriado. Sintomas não-motores como déficits cognitivos, distúrbios do sono, disfunção olfatória e depressão são outras manifestações incapacitantes comuns da doença. Tremor: o tremor de 4 a 6 Hz do parkinsonismo é caracteristicamente mais evidente em repouso; ele aumenta durante o estresse emocional e frequentemente melhora durante a atividade voluntária. O tremor costuma iniciar na mão ou no pé, em que toma a forma de flexão-extensão rítmica dos dedos das mãos ou dos pés ou uma pronação-supinação rítmica do antebraço. O tremor frequentemente envolve a face na região perioral. Rigidez: ou aumento do tônus, ou seja, aumento da resistência ao movimento passivo, é uma característica clínica da doença. O distúrbio do tônus é responsável pela postura fletida dos paciente. A resistência em geral é uniforme durante toda a variação do movimento em uma articulação em particular, afetando os músculos agonistas e antagonistas da mesma forma diferente dos achados na espasticidade, em que o aumento do tônus costuma ser maior no início de um movimento passivo (fenômeno do canivete) e mais acentuado em alguns músculos do que em outros. Hipocinesia: característica mais incapacitante desse distúrbio é a hipocinesia (algumas vezes denominada bradicinesia ou acinesia) uma lentidão do movimento voluntário e uma redução no movimento automático, como o balanço dos braços durante a marcha. A face do paciente fica relativamente imóvel (hipomimia ou fácies em máscara), com aumento da fissura palpebral, piscamento infrequente, certa fixação da expressão facial e um sorriso que se desenvolve e desaparece lentamente. A voz tem um volume baixo (hipofonia) e tende a ser pouco modulada. Os movimentos finos ou rapidamente alternantes estão comprometidos, mas a força não está diminuída quando existe tempo suficiente para que ela se desenvolva. A letra na escrita manual é pequena (micrografia), trêmula e difícil ler. Marcha e postura anormal: o paciente geralmente tem dificuldade de se levantar da cama ou de uma poltrona e tende a adotar uma postura em flexão quando está em pé. Muitas vezes é difícil começar a andar, por isso o paciente pode se inclinar cada vez mais para a frente enquanto caminha no mesmo lugar, antes de ser capaz de avançar. A marcha, em si, é caracterizada por pequenos passos arrastados e pela ausência do balanço dos braços que normalmente acompanha a locomoção; em geral 3 Semana 7. APG existe uma instabilidade para virar, e pode ser difícil parar o movimento. Manifestações não motoras: Anosmia é um sintoma precoce (mas não é específico da doença); Declínio cognitivo; Disfunção executiva e alterações da personalidade são comuns; Depressão e ansiedade; Parestesia; Urgência miccional e incontinência decorrente da urgência miccional, além de constipação; Hipotensão postural (relacionada com o tratamento dopaminérgico ou a inatividade; Distúrbios do sono; Dermatite seborreica. Diagnóstico deve ser feito por um neurologista, com base no histórico médico do paciente, uma boa anamnese e com o suporte de exames físicos e laboratoriais. No exame físico, é primordial avaliar os membros superiores, buscando identificar possíveis tipos de tremores. Pode pedir ao paciente que estenda os braços e realizar atos cotidianos como beber um copo de água ou despejar água em um recipiente. Analisar o tipo de marcha, atentando se esta possui inclinação anterior lenta e arrastada, assimetria dos movimentos do braço característicos da doença de Parkinson, além de que uma marcha tida como cerebelar pode ser sinal atípico de parkinsonismo. O tônus muscular e a força da musculatura em movimentos ativos e passivos geralmente denotam hipertonia muscular com consequente limitação dos movimentos passivos dos segmentos dos membros, o que conduz a notar uma resistência que cede lentamente aos sacões sucessivos, lembrando os movimentos de uma roda denteada. Sobre o exame motor para identificar comprometimento, pode- se solicitar ao paciente que batuque com o polegar e o indicador sobre a mesa com ambas as mãos, pedir que este escreva uma frase, na procura por micrografia, fenômeno marcado por padrões irregulares e atos abruptos e inesperados indicativos de Parkinson. Os exames de tomografia computadorizada e ressonância magnética são complementares, ou seja, servem para o diagnóstico diferencial de outras condições que podem causar os sintomas. A tomografia cerebral auxilia a quantificar a dopamina circulante no cérebro, apesar de a evolução da doença já ser nítida com análise clínica. Critérios de exclusão absolutos (incompatíveis com um diagnóstico de DP): Alterações cerebelares, como marcha cerebelar ou ataxia dos membros; Paralisia do olhar supranuclear vertical para baixo ou desaceleração seletiva das sacadas verticais para baixo; Diagnóstico de demência frontotemporal nos primeiros 5 anos após o início da doença; Características parkinsónicas restritas aos membros inferiores por > 3 anos; Tratamento durante o ano anterior com um bloqueador do recetor de dopamina que pode estar associado a parkinsonismo induzido por fármacos ausência de resposta à levodopa em altas doses com (pelo menos) doença moderada; Perda sensorial cortical (por exemplo, agrafestesia, astereognosia), apraxia ideomotora e/ou afasia progressiva; Neuroimagem funcional normal do sistema dopaminérgico pré-sináptico Critérios de apoio para o diagnóstico: Melhoria clara e significativa dos sintomas com fármacos dopaminérgicos; Discinésia induzida por levodopa; Tremor de repouso de um membro (unilateral ou bilateral); Perda olfativa ou desnervação simpática cardíaca em imagens de medicina nuclear. O objetivo do tratamento é tratar as características sintomáticas motoras e não motoras da doença, para melhorar a qualidade de vida. Tratamento conservador: Fisioterapia; Terapia ocupacional; Apoio emocional. A terapia da DP consiste essencialmente na reposição de dopamina, inibição de sua degradação ou no uso de agonistas dopaminérgicos, para o tratamento sintomático das principais características clínicas da doença. A maioria dos pacientes faz uso da levodopa, considerada o padrão ouro no tratamento da DP. A levodopa é uma amina precursora de dopamina, oralmente ativa e absorvida no intestino delgado, sendo logo descarboxilada pela enzima dopa descarboxilase e apenas uma pequena dose chega inalterada no SNC. A meia vida plasmática da levodopa é muito curta, não passando de 90 minutos. Assim, uma alta dose é requerida para que haja efeito, o que leva a vômitos e náuseas nos pacientes. Para bloquear os efeitos periféricos da dopamina e aumentar a biodisponibilidade da levodopa, ela é coadministrada com a carbidopa ou a benzerazida, que são inibidores da descarboxilase do ácido amino aromático. Apesar destes efeitos, a levodopa reduz os sintomas motores da DP, no entanto, não diminui outros sintomas, nem impede a degeneraçãonigroestriatal. A terapia com a levodopa é altamente efetiva durante os primeiros estágios do tratamento, no entanto, o tratamento a longo-prazo causa, em combinação com a progressão da doença, o desenvolvimento de movimentos involuntários denominados discinesias. Flutuações na concentração de levodopa no sangue e no cérebro, produzidas na administração periódica de levodopa podem levar a estimulação de receptores dopaminérgicos no estriado, o que pode causar flutuações na resposta clínica levando as discinesias, As discinesias são geralmente movimentos involuntários hipercinéticos, sendo os distônicos e de coréia/coreiformes, os mais comuns. Além da levodopa, drogas que são prescritas atualmente no tratamento da DP incluem agonistas dos receptores de DA, tais como, selegilina (inibidor de MAO-B), amantadina (anti-viral com influência na síntese da DA), inibidores de catecol-O-metil transferase (COMT) e anticolinérgicos. 4 Semana 7. APG As intervenções cirúrgicas para DP mostraram-se benéficas para alguns sintomas refratários. No entanto, estas cirurgias apresentam indicações específicas e a eficácia a longo prazo é limitada. Recentes avanços nessa área têm levado a uma maior quantidade de procedimentos cirúrgicos. A estimulação cerebral profunda tem sido atualmente a intervenção de escolha, por ser uma técnica potencialmente mais segura do que outras opções disponíveis. Apesar da pesquisa farmacológica intensiva e dos avanços realizados nas últimas décadas, os tratamentos disponíveis não alteram a progressão do processo neurodegenerativo da DP. A maioria dos pacientes irá ainda sofrer eventualmente durante o tratamento, com complicações motoras que são difíceis de controlar e significantemente diminuem a qualidade de vida, sendo, portanto, necessária a descoberta de estratégias neuroprotetoras para diminuir ou parar a progressão da doença. Tremor essencial: causa neurológica mais comum de tremor de ação. O tremor essencial geralmente afeta as mãos e os braços e é aparente quando os braços estão estendidos ou quando estão envolvidos em atividades. O tremor essencial costuma ser simétrico. Demência de corpos de Lewy: caracterizada clinicamente por demência com alucinações visuais, cognição flutuante, RBD e parkinsonismo. A demência ocorre antes do desenvolvimento dos sinais de parkinsonismo. Para o tratamento são usados os inibidores da colinesterase, os antipsicóticos atípicos e o exercício regular. Degeneração corticobasal: forma distinta de parkinsonismo que é um distúrbio de movimento assimétrico progressivo. As características cognitivas da degeneração corticobasal incluem afasia, apraxia, alterações comportamentais, perda da função executiva e disfunção visuoespacial. Na imagem é observada atrofia cortical assimétrica. Paralisia supranuclear progressiva: clinicamente apresenta-se com instabilidade postural com história de múltiplas quedas. A paralisia supranuclear progressiva é a forma degenerativa mais comum de parkinsonismo. O distúrbio inclui disartria, disfagia, rigidez e sintomas cognitivos. A RMN mostra o “sinal do colibri” ou atrofia proeminente do mesencéfalo sem atrofia pontina. O tratamento é de suporte, com medidas farmacológicas e não farmacológicas. Atrofia de múltiplos sistemas (MSA, pela sigla em inglês): grupo de sintomas neurodegenerativos fatais e raros. A atrofia de múltiplos sistemas apresenta-se com parkinsonismo acinético rígido, disfunção autonómica e urogenital, ataxia cerebelar e sinais piramidais. A falta de resposta à levodopa pode ajudar a distinguir a MSA da DP, sendo que a MSA progride mais rapidamente do que a DP. O diagnóstico é clínico e o tratamento é sintomático, pois não há tratamentos modificadores de prognóstico disponíveis.