Prévia do material em texto
Titulo li · REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS ; 175
prevaleçam sobre os interesses e circunstâncias de qualquer outro indivíduo,
e vedam que o ser humano seja tratado como um meio ou instrumento, mas
sempre como um fim em si mesmo.
Dessa forma, quer nos parecer que nada impede que se anote no registro
do natimorto o nome escolhido pelos pais não como reconhecimento de um
direito moral, ou para distingui-lo dos demais participes de atos da vida civil
(dos quais nunca chegou a participar), mas em respeito à sua condição humana,
que não pode ter o tratamento dispensado à mera coisa, reduzido a um simples
número de registro; e ainda como reconhecimento do direito dos pais de sepul
tar de forma digna o filho ansiosamente aguardado, que não chegou a respirar.
Convém destacar que o Capítulo XVII das NSCGJ foi atualizado pelo
Provimento CG 41/2012, e o dispositivo acima citado passou a considerar le
gítima a inclusão, por livre opção dos pais, do nome da criança nascida morta
no assento a ser lavrado no Livro C-Auxiliar.
4.5. O princípio da imutabilidade do nome
O princípio da imutabilidade do prenome e do nome de famfüa tem por
objetivo garantir a segurança jurídica e a estabilidade dos atos da vida civil. O
prenome, como elemento constitutivo do nome) individualiza a pessoa no seio
da sociedade e, se fosse possível a sua alteração ao talante da pessoa concernente,
haveria grave risco de dano aos negócios e interesses de terceiros. Por isso mes
mo, o art. 58 da Lei 6.015/1973 dispõe que o prenome é definitivo. No entanto,
este mesmo dispositivo estabelece a exceção ao princípio da imutabilidade do
prenome no caput e no § 1. º· Outras exceções são previstas em leis especiais
como o Estatuto do Estrangeiro (art. 43, III) e a Lei 9.807/1999, que determinou
a redação do parágrafo único do art. 58 da Lei de Registros Públicos.
Destarte, inicialmente, o prenome é imutável, por ser princípio de ordem
pública (art. 58 da LRP), mas pode sofrer alterações nos seguintes casos:
a) nome que expuser ao ridículo;
b) apresentação de erro gráfico evidente (ex.: Sandra, em vez de Sandro);
c) causar embaraço no setor comercial e na vida pública da pessoa, por
causa de homonímia;
d) apeli\fo público e notório que venha a substituir o nome no ambiente
em que vive a pessoa, salvo se proibido por lei;
e) necessidade de proteção de vítimas e testemunhas de crimes: é feito
requerimento ao juiz competente para os registros públicos, ouvido o
Ministério Público, podendo o registro ser revertido após a cessação
da ameaça; o procedimento corre em segredo de justiça;
176 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Gui/henne Loureiro
f) tradução de nome estrangeiro (art. 43, III, da Lei 6.815/1980 -Estatuto
do Estrangeiro);
g) adoção (art. 47, § 5.0
, da Lei 8.069/1990 - Estatuto da Criança e do
Adolescente).
Além dessas hipóteses, uma corrente da jurisprudência admite a flexibili
zação do princípio da imutabilidade do prenome, sempre que não se vislumbrar
dano ao princípio da segurança jurídica e da estabilidade dos atos da vida civil.
Nesse sentido, a seguinte ementa:
"Em matéria de prenome, predomina a regra da imutabilidade. Entretanto,
não se pode perder de vista a finalidade da norma, que é a de conferir estabi
lidade e segurança a identificação das pessoas e, por consequência, as relações
jurídicas. Caso concreto em que, tratando-se de uma criança de 5 anos, nenhum
prejuízo se visualiza'.
Também a modificação do nome de familia somente é possível nos casos
previstos na lei em hipóteses excepcionais (art. 56, LRP): a regra é a imutabili
dade do nome. O rol legal que autoriza a alteração do sobrenome é ainda mais
restritivo: a) a adoção; b) o casamento, quando é facultado a qualquer dos nu
bentes acrescer o nome do outro, inclusive podendo ambos modificar o nome
mediante o acréscimo do sobrenome do consorte; c) a separação judicial ou o
divórcio, uma vez que o cônjuge que alterou o seu patronímico pelo casamento
poderá voltar a utilizar o nome que possuía antes de se casar; d) a inclusão de
sobrenome de ascendente, por exemplo, de sobrenome avoengo (patronímico
dos avós), desde que não prejudique o patronímico dos demais ascendentes; e)
a união estável; f) a anulação ou declaração de nulidade do casamento (quando
os ex-cônjuges voltam a ter o nome que dispunham antes de casar, exceto se se
tratar de casamento putativo e optar o cônjuge de boa-fé por permanecer com
o nome de casado).
A jurisprudência raramente admite a mudança do sobrenome além destas
hipóteses previstas em lei de forma taxativa. Assim, por exemplo, o STJ já negou
a supressão de nome de família por motivos religiosos, por falta de previsão
legal, conforme se observa do seguinte aresto:
«Registro civil. Nome de família. Supressão por motivos religiosos. Ausência de
previsão legal. Inadmissibilidade. 1. O pedido formulado pelos recorrentes tem
por objeto a supressão do patronúnico paterno - utilizado para identificar
a famí1ia, composta por um casal e três menores de idade - em virtude das
dificuldades de reconhecimento do sobrenome atual dos recorrentes como
designador de uma família composta por praticantes do Judaísmo. 2. As
regras que relativizam o princípio da imutabilidade dos registros públicos
não contemplam a possibilidade de exclusão do patronímico paterno por
razões de ordem religiosa - especiahnente se a supressão pretendida prejudica
•
Título li • REGISTRO CIVIL DAS PESSOAS NATURAIS 177
o apelido familiar, tornando impossível a identificação do indivíduo com
seus ascendentes paternos. Art. 56 da Lei 6.015/1973. 3. O art. 1.565, § L",
do CC/2002 em nenhum momento autoriza a supressão ou substituição do
sobrenome dos nubentes. Apenas faculta a qualquer das partes o acréscimo
do sobrenome do outro cônjuge aos seus próprios patronímicos. 4. Recurso
especial a que se nega provimento'' (REsp 1.189.158/SP, Rei. Min. Nancy
Andrighi, 3.• T., D/e 11.02.2011),
Em outro caso concreto, o STJ já negou pedido de uma famfüa judaica de
retirada do sobrenome do pai, convertido ao judaísmo, para que o casal e os
três filhos menores fossem identificados apenas pelo apelido materno, uma vez
que o sobrenome paterno não os identificava adequadamente na comunidade
judaica. A mesma Corte também não homologou sentença estrangeira que de
feriu a mudança do sobrenome por razão não prevista na legislação brasileira
(utilização do sobrenome como identificador conforme costume americano)
(STJ - SEC 3.999/EX - US - Corte Especial - Rel. Min. João Otávio de Noro
nha - DJ 01.08.2011).
A doutrina cita ainda a possibilidade de mudança de prenome por mo
tivo de modificação cirúrgica do sexo, em virtude da entrada em vigor da Lei
9.708/1998, que alterou o art. 58 da Lei 6.015/1973 (torna possível a alteração
do nome por apelido público e notório pelo qual é conhecido no meio em que
vive), A jurisprudência tem se mostrado conservadora no que tange a essa última
hipótese. O Supremo Tribunal Federal já se manifestou pela impossibilidade ·
de alteração do registro civil para o operado. Nos casos de hermafroditismo é
maior a possibilidade de sucesso na ação de alteração de sexo e de prenome
(Ap. Cív. 4425/1993 do TJRJ).
De qualquer forma, deve ser considerada a possibilidade de o juiz autorizar
a mudança do nome, e mesmo do sobrenome, em casos justificáveis e quando
não houver violação dos valores protegidos pela ordem legal, A supressão da
partícula "de" do patronímico de crianças, que ainda não exercem atos da vida
civil, não viola o princípio da imutabilidade do nome, uma vez que não im
pede a identificação da origem fàmiliar e não implica em prejuízo aos valores
protegidos pela norma legal.
Recentemente, o STJ decidiu que a mãe pode pretender a alteração do
sobrenome no registro dos filhos em razão de ter voltado a usar o nome de
solteira após o divórcio. Contrariando o parecer do Ministério Público, segundo
o qual os dados consignados no registroe convalescem pela passagem
do tempo. Obviamente o notário, no exercício de seu dever de aconselhamento,
deve alertar as partes sobre a anulabilidade (ex.: ausência de anuência do cônju
ge ou de descendente, etc.), mas estas podem insistir na demanda da escritura
pública por entenderem que o defeito será sanado. Tais casos de anulabilidade
são assemelhados a negócios jurídicos sob condição resolutiva: produzem efeitos
jurídicos enquanto não declarada a nulidade pelo juiz e tornam-se perfeitos se
20. L Moissetde Espanés, La fundón calificadora dei registradoryel artículo 1.277 dei CódígoCivil,JA,doctrina,
1974-125.
confirmado pelo interessado que não anuiu ao ato na sua formação ou pelo
decurso do tempo.
De qualquer forma, independentemente da natureza da invalidade,
apenas o defeito manifesto, desde logo perceptível pelo exame do título e dos
dados e documentos que constam do Registro, pode ser objeto do exame de
qualificação.
O vício subjetivo (erro, dolo, coação ou fraude contra credor) não pode
ser pesquisado pelo registrador, mas apenas pelo juiz em sede de jurisdição
contenciosa. Da mesma forma não pode o registrador negar o registro de es
critura de compra e venda pela não observância do direito de preferência (ex.:
venda de imóvel alugado sem notificação do locador para exercício do direito
de preempção). Tal venda não é anulável: o titular do direito de preferência
pode simplesmente haver o imóvel para si, se depositar o mesmo preço (e nas
mesmas condições) pago pelo terceiro.
Trata-se, portanto, de uma venda com condição resolutiva, e não um ne
gócio jurídico inválido. Enquanto não declarada a nulidade por meio de ação
judicial, o negócio jurídico é válido e produz seus efeitos de direito (é eficaz).
Ademais, o negócio anulável pode ser sanado posteriormente e convalesce
pelo decurso do tempo (art. 169, CC). De fato, conforme dispõem os arts.
172 a 176 do Código Civil, o negócio anulável pode ser confirmado expressa
ou tacitamente pelas partes ou anuentes, e a vontade ou a anuência pode ser
manifestada posteriormente à celebração do ato, observando-se o princípio da
atração das formas.
A nosso ver, qualquer nulidade manifesta do documento, seja a que afete
as formalidades extrínsecas como o conteúdo do documento notarial, deverá
ser observada pelo registrador por ocasião do exame de qualificação, quaudo
se tratar de vício que implica na nulidade absoluta e não mera anulabilidade
do negócio jurídico documentado Mas convém salientar mais uma vez que os
limites e alcances da qualificação registrai sofrem alterações de acordo com a
natureza do título apresentado a registro: notarial, judicial, administrativo e
documento particular.
Deve-se ter em mente que o registrador (e também o juiz corregedor)
desempenha atividade administrativa. Embora possa examinar os requisitos
formais, e até mesmo intrínsecos, não pode reexaminar as decisões dos órgãos
jurisdicionais. Ao proceder ao exame de qualificação dos títulos judiciais, não
lhe cabe adentrar no mérito da decisão judicial que determinou o registro,
mas tão somente examinar os requisitos formais do título e sua adequação aos
princípios registrais. Nesse sentido, a lição de Afrânio de Carvalho:
"Assim como a inscrição pode ter por base atos negociais e atos judiciais, o
exame da legalidade aplica a uns e a outros. Está visto, porém, que, quando
-· • ::: •
lr-;;;'J~' REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA
"··~-- ~----------- -- ---·-
Luiz Guilherme Loureiro
tiver por objeto atos judiciais, será muito mais limitado, cingindo-se à cone
xão dos respectivos dados com o registro e à formalização instrumental. Não
compete ao registrador averiguar senão aspectos externos dos atos judiciais,
sem entrar no mérito do assunto neles envolvidos, pois, do contrário, sobre
poria a sua autoridade à do Juiz".
Portanto, na hipótese de título judicial, o poder de qualificação do regis
trador é mais limitado do que aquele concernente ao título notarial e ao par
ticular, em que, além de poder examinar as formalidades extrínsecas, o oficial
de registro de imóveis pode, inclusive, proceder ao exame de seu conteúdo,
vedando o acesso à publicidade registrai de documentos notariais e particulares
que contiverem atos ou negócios jurídicos nulos, nos quais as nulidades sejam
absolutas e manifestas.
O limite mais amplo na qualificação de documentos notariais ou parti
culares encontra justificativa na lei. Tanto o notário quanto o registrador são
profissionais do Direito a quem a lei impõe o dever de velar pela segurança,
validade e eficácia do negócio jurídico (art. 1° daLei8.935, de 1994). Mas a fim
ção notarial dirige-se, predominantemente, à realização da segurança dinâmica
ou do tráfico jurídico, enquanto a função registrai tem por escopo a segurança
estática. O notário como autor do documento notarial responde obviamente
por sua segurança e validade, e pode, inclusive, lavrar escritura pública que não
seja passível de registro imediato, desde que cumpra seu dever de informação e
aconselhamento e os interessados demandem a realização do negócio jurídico
permitido pelo sistema legal ( v.g., venda de imóvel momentaneamente indis
ponível em virtude de penhora em execução fiscal ou bloqueio da matricula) .
Tal contrato pode ser do interesse das partes, contentando-se o adquirente com
a possibilidade de prenotação de seu título e aquisição d.o direito de prioridade
ou preferência. até o desaparecimento do obstáculo ao registro ( v.g., pagamento
da divida fiscal e levantamento da penhora).
Em outras palavras, o notário participa da formação do direito, seja for
malizando juridicamente a vontade das partes, seja pré-constituindo prova: o
documento notarial pode ser percebido em dois planos distintos - o plano do
actum (negócio jurídico documentado ou conteúdo) e o plano do dictum ou
instrumentum (o instrumento ou continente). O notário se preocupa com o
que é certo e o que é justo, já a função registradora se limita à legalidade estrita
e sua preocupação é o que é seguro ou certo. Por isso, a qualificação notarial
não limita o exame de legalidade do registrador, que pode examinar a legali
dade do negócio jurídico contido no título. Apenas não pode este profissional
contrapor-se à fé pública do documento notarial, uma vez que a fé pública não
pode ser contrariada pela Administração (art. 19, II, da CF) e apenas pode ser
impugnada em sede judicial.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
/.-----,
! 559
Sobre a qualificação registrai mais ampla do título notarial, cabe citar a
decisão assim ementada:
"Registro de Imóveis. Escritura pública. Qualificação notarial. Aspectos
intrínsecos e extrínsecos do título. Abrangência. Finalidade diversa da quali
ficação notarial. Indicação dos documentos exibidos por ocasião da lavratura
do ato notarial. Omissão. Comprovação da notificação, da destituição do
incorporador e Comissão de Representantes e do cumprimento da notificação
referida no artigo 63, caput, da Lei n. 4.591, de 1964. Necessidade. Autoriza
ção do MM. Juízo da Falência da incorporadora e identificação daquele que
assumirá sua responsabilidade. Desnecessidade. Decreto falimentar afastado.
Anuência da antiga proprietária do terreno a quem coube unidades a serem
atribuídas. Irrelevância. Equiparação aos demais adquirentes. Dúvida pro
cedente. Recurso desprovido" (CSMSP, Apel. Cív., Voto 21.176).
Em suma, a qualificação do título notarial (e do particular) não se limita
aos aspectos intrínsecos: abrange também o conteúdo do título, ou seja, o ne
gócio jurídico formalizado pelo notário, observados os aspectos supracitados.
Em se tratando de título judicial, a qualificação registrai se limita aos aspectos
formais do documento judicial e aos obstáculos advindos do próprio Registro,
tais como a violação dos princípios da continuidade e da especialidade, por
exemplo. Quando o título judicial se referir à aquisição originária da propriedade
imóvel, sequer essesprincípios impedem a sua inscrição.
É o caso, por exemplo, em que a carta de arrematação ou adjudicação é
considerada forma originária da aquisição de propriedade segundo a jurispru
dência do Superior Tribunal de Justiça e do Conselho Superior da Magistratura
de São Paulo, conforme a seguinte ementa:
"Registro de imóveis. Carta de arrematação. Forma originária de aquisição
de propriedade. Precedentes do Conselho Superior da Magistratura com base
na orientação do Superior Tribunal de Justiçá' (Apelaçfo Cível 0008020-
61.2009.8.26.0358, Dje 28.0J.2013).
Logo, a inexistência de relação judicial entre o adquirente e o precedente
titular do direito real, a ausência de nexo causal entre o passado e a situação
jurídica atual (ou de elos na corrente de transmissões imobiliárias), não impede
a inscrição desse título judicial.
6.3.1. Possibilidade de reconhecimento de inconstitucionalidade de norma
legal pelo registrador
Tradicionalmente, o princípio da legalidade decorre da lei como fonte
primordial do Direito, ou seja, do denominado princípio da primazia da lei,
REGISTROS PÚBLICOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
cunhado no século XIX, com o início do processo de codificação das normas
jurídicas, que foi inaugurado com a publicação do Código Civil francês de 1804,
o chamado Código de Napoleão. Nos tratados clássicos sobre a teoria do Direito
e mesmo nos manuais atuais, a lei serve como parâmetro para a classificação
hierárquica das demais fontes: abaixo dela estão a jurisprudência, os costumes
e os regulamentos e os atos de execuçãb da norma e, acima, encontramos a
Constituição.
Mas, se alei antes era o ponto no qual os eixos se cruzavam (demais fontes
jurídicas), hoje se observa uma reorientação das ordens jurídicas nacionais,
dentre as quais está a brasileira, em torno do eixo da constitucionalidade que,
na verdade, possui um vínculo de complementaridade com a legalidade. O ad
vento das modernas constituições de natureza normativa, com reflexo direto e
imediato na regulação das situações jurídicas das mais diversas áreas do Direito
(direito civil, administrativo, processual etc.) implica em uma reavaliação da lei
como ponto central do sistema de fontes jurídicas.
Essa nova organização do sistema de fontes substitui aquela que existia antes
e podia ser representada como um sistema de degraus, em que a lei é colocada
ao centro e as outras fontes tiram sua força normativa da lei que reenvia, ela
própria, a outras fontes. Assim, a lei era praticamente a única verdadeira fonte do
direito - ou, dito de outra maneira, a fonte das fontes. Por outro lado, atualmente,
mesmo que a lei continue no centro do sistema, os efeitos jurídicos das outras
fontes não dependem mais dela (ou apenas dela), mas dependem sobretudo da
Constituição. Por consequência, a Constituição regulamenta essencialmente o
sistema de fontes do direito que se apresenta mais como uma cascada de fontes.
Esta transformação ou mudança de paradigmas fica dara quando apresen
tamos as seguintes proposições complementares: no Estado legal, a constitucio
nalidade era apenas um componente - acessório - da legalidade; atualmente,
no Estado de direito é a legalidade que passou a ser vista como um elemento
da constitucionalidade.
A constitucionalização da ordem jurídica não significa uma substituição
das regras de direito civil, penal ou administrativo por normas constitucionais:
quer dizer apenas que, progressivamente, a constitucionalidade se torna um dado
ou uma dimensão da ordem jurídica aplicável ao conjunto dos setores cobertos
por esta e suscetível de influenciá-lo no que tange a um certo número de pontos.
Não obstante, a nossa doutrina mais qualificada entende que a Admi
nistração não pode deixar de aplicar uma lei sob o fundamento de que ela é
inconstitucional, por lhe faltar competência para tanto.
Ainda no que tange ao tema do princípio da legalidade no sentido de
princípio da hierarquia das normas, observa-se uma importante evolução na
jurisprudência do Conselho Superior da Magistratura ao reconhecer que o re-
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS 561
gistrador pode deixar de aplicar uma norma legal, por ocasião da qualificação
registrai, diante de sua manifesta inconstitucionalidade.
Segundo a doutrina mais autorizada, o administrador não tem competência
para declarar ou reconhecer a inconstitucionalidade de lei ou ato normativo.
Para Celso Bandeira de Mello, num processo administrativo tributário não pode
ser discutida a constitucionalidade da lei: "porque este tribunal é um tribunal
administrativo e um tribunal administrativo se aloca no plano sublegal; e por
se alocar no plano sublegal, ele não tem poderes para contender aquilo que re
sulta da lei".21 Também para Gilmar Mendes, com a ampliação dos legitimados
a arguir a inconstitucionalidade pela via principal. a interpretação que defende
a possibilidade de a Administração pública negar eficácia a leis que considere
inconstitucionais não pode ser aceita, uma vez que a Constituição de 1988
"outorgou aos órgãos do Executivo, nos planos estadual e federal o direito de
instaurar o controle abstrato de normas·: 22
Esta também é a orientação jurisprudencial dominante: "O controle de
constitucionalidade da lei ou dos atos normativos é da competência exclusiva
do poder judiciário. Os poderes executivo e legislativo, por sua chefia - e isso
mesmo tem sido questionado com o alargamento da legitimação ativa na ação
direta de inconstitucionalidade -, podem tão só determinar aos seus órgãos
subordinados que deixem de aplicar administrativamente as leis ou atos com
forca de lei que considerem inconstitucionais':23
Em sede de dúvida registrai, a jurisprudência do Conselho Superior da
Magistratura assim já se manifestou: "Definitivamente, em sede administrativa,
nem o Juízo Corregedor Permanente, nem a Corregedoria-Geral da Justiça
ou o Conselho Superior da Magistratura podem modificar critérios expressos
em lei ou dá-la por inconstitucional. ( ... ) Pacificou-se o entendimento de que
a inconstitucionalidade não se reconhece nesta esfera administrativa, fora das
formas jurisdicionais de controle".24
Apesar da doutrina e da jurisprudência em contrário, sempre sustentamos
que o notário e o registrador, por exercerem profissão jurídica, podem e devem
aplicar as regras da ciência jurídica e da hermenêutica no desempenho de suas
funções. E a teoria da hierarquia do ordenamento jurídico sustentada por Kelsen
e aperfeiçoada por outros autores é clara no sentido de que a legitimidade das
normas inferiores do sistema depende da competência e dos limites que lhe são
21. Bandeira de Mello. Direito Administrativo Brasileiro, 75/12.
22. Mendes, Gilmar, F. no Poder Executivo e o Poder Leglslativo no controle de constitucionalidade~ Seleções
Jurfdicas, Rio de Janeiro, p. 22,jul. 1997
23. ADI 221 MC / DF - Relator{a): Min. Moreira Alves. Publicação: DJ OATA-22-10-93 PP-22251. Ementa: Vol.
01722-01 PP-00028 Julgamento: 29/03/1990 - Tribunal Pleno,
24. Apelação Cível 97.021-0/0, da Comarca de Jundiaf
. .. .. ..
~-
'
r,;.~I ! _____ _ REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA Luiz Guilherme Loureiro
assinados pelas normas superiores. Segundo esta teoria consagrada na doutrina,
o sistema jurídico tem uma forma piramidal, cujo cume é a Constituição.
Esta explicação da normatividade do direito, sendo dependente das rela
ções internas entre as leis, passa a ser baseada no conceito de sistema jurídica e
não mais no conceito de norma. A análise do conceito de lei passa, portanto, a
depender da análise de sistema jurídico, pois a compreensão de algumas espécies
de leis depende do entendimento de suas relações internas com outras leis. Ou
seja, a análise da estrutura do sistema jurídico é, portanto, indispensável para
a definição da existência, validade e vigência de uma lei. Daí decorre, dentre
outras, a tese segundo a qual: "De acordo com todo sistema jurídico vigente em
determinado momento,nenhum ato futuro pode criar leis ou afetar a aplicação
das leis a menos que haja naquele sistema vigente naquele momento uma lei
que confira àquele ato este poder". 25
Em suma, dentre as normas constitucionais estão aquelas que estabelecem
poderes ou competências para os legisladores e além dos limites formais, a Lei
Maior estabelece limites materiais a serem observados pelas normas de grau
inferior. Sempre ultrapassados tais limites, a lei não é legitima e é considerada
excluída do sistema jurídico, ou mesmo inexistente, por conflitar com outra
norma interna de hierarquia constitucional. Da mesma forma, a doutrina mais
autorizada considera que as normas constitucionais sobre direitos fundamentais
têm aplicação imediata inclusive nas relações entre particulares. Ora, como apli
cador da norma jurídica o registrador deve antes interpreta-la e, por isso, pode
reconhecer a nulidade ou a ilegitimidade uma lei por flagrante incompatibilidade
com o sistema normativo quando confrontada com as sua normas superiores.
Em uma decisão recente, o Conselho Superior da Magistratura reconhe
ceu que o registrador pode deixar de aplicar a lei quando se mostrar patente a
violação da norma constitucional. No caso concreto, o registrador, para funda
mentar a exigência do recolhimento de imposto, baseou-se em lei municipal
fragrantemente contrária à norma constitucional, fundando-se no fato de não
ser possível verificar a ilegalidade e a inconstitucionalidade da norma no âmbito
administrativo.
Ao decidir a Apelação, reconheceu-se que o registrador agiu de acordo
com precedentes da Corregedoria Geral da Justiça e do CSM no mesmo sen
tido. Contudo, o órgão colegiado assentou que tais precedentes ressalvam que
se a inconstitucionalidade for manifesta é possível reconhecê-la nesta esfera
administrativa.
O órgão paulista acrescentou que há precedentes recentes, baseados em
julgados do Tribunal de Justiça de São Paulo, do Superior Tribunal de Justiça
25. Joseph Raz, O conceito de sistemajurfdico, p. 228.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS 563
e do Supremo Tribunal Federal, no sentido de que a despeito das legislações
municipais que determinam o recolhimento do ITBI nos casos de compromis
so de compra e venda, este, de acordo com a Constituição Federal e o Código
Civil, tem incidência e é devido apenas quando a escritura pública de compra
e venda (ou por instrumento particular nos casos previstos em lei) é apresen
tada para registro, pois, somente neste momento ocorre a efetiva transferência
da titularidade do domínio ao comprador, do contrário, o alienante continua
proprietário do imóvel.
Portanto, não apenas no tema relativo ao fato gerador do ITBI, mas em
qualquer outra matéria sobre a qual recai o exame registrai, é possível deixar de
aplicar a norma legal inferior, desde que sua inconstitucionalidade for escancara
da ou manifesta. Para tanto, o registrador deve se valer da jurisprudência pacífica
que reconheça, ainda que em sede de controle indireto, a inconstitucionalidade
de determinada norma legal. Em se tratando de controle direto ou abstrato da
constitucionalidade, a lei já afirma que as sentenças constitucionais, uma vez
transitadas em julgado, produzem efeitos vinculantes em relação aos demais
órgãos judiciários e às autoridades administrativas, aí incluído o registrador
(art. 28, parágrafo único, Lei 9.869, de 1999). A mesma eficácia é apresentada
pelas Súmulas vinculantes de nossa Corte Suprema, que detém a última palavra
acerca da constitucionalidade ou inconstitucionalidade de lei ou ato normativo
(v. p. ex. art. 102, par. 2, CF).
6.4. Efeitos da qualificação registrai
Por ocasião do exame de qualificação, pode o registrador deparar-se com
três situações: a) o título é perfeito, não havendo necessidade de diligências
saneadoras de irregularidades; b) há vícios a serem reparados; e c) título apre
senta vício insanável.
No primeiro caso, procede-se ao registro sem maiores delongas.
No segundo caso, o registrador deve indicar ao apresentante, por escrito
e fundamentadamente, todas as exigências a serem sanadas dentro do restante
do prazo de 30 dias a partir da data do protocolo. Todas as exigências devem ser
apresentadas de uma só vez, vedando-se a exposição por "capítulos~ Embora a lei
não estabeleça prazo para o término da qualificação, normas das Corregedorias
de Justiça de vários Estados determinam que seja realizada no prazo de 10 dias, a
partir do protocolo, para que sobrem 20 dias para o cumprimento das exigências
pelo apresentante (o prazo máximo para a realização do registro é de 30 dias).
Em São Paulo, as normas regulamentares determinam que a qualificação
será feita no prazo de dez ou cinco dias em se tratando de título eletrônico, salvo
prazo diver~o. previsto em lei ou mandado judicial. O prazo poderá ser prorro
gado por dez dias, no máximo, quando se tratar de caso complexo, tema novo
:~-- -------~~~~ROS PÚBLICOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Lourei_'° _____ _
de acordo com o estado de conhecimento, ou quando houve volume expressivo
de trabalho (quantidade de títulos protocolados no dia). Quando o interessado
cumprir as exigências formuladas, o registro deve ser feito no prazo de cinco dias.
No caso de vício insanável, a tornar impossível o registro) o registrador
deverá, por ocasião do exame de qualificação, devolver o título ao apresentan
te (p. ex.: defeito de forma, imóvel situado em jurisdição de outro serviço de
registro de imóveis, existência de outro título prioritário, etc.), anotando-se tal
fato no Protocolo. Apenas os títulos que constem expressamente do rol do art.
167, I, da Lei 6.015/1973 podem ser registrados: não podem ser inscritos títulos
que se encontram fora do âmbito da norma legal (p. ex.: promessa de compra
e venda de imóvel com cláusula de arrependimento).
No exame de qualificação cabe ao registrador verificar, ainda, a auten
ticidade do título. Nos negócios jurídicos, cabe-lhe aferir se a manifestação
da vontade realmente partiu das partes. No instrumento particular (vedada
a apresentação de cópia, ainda que autenticada) não bastam a qualificação
dos contratantes e a apresentação dos documentos de identidade e número
de inscrição no cadastro de pessoas físicas do Ministério da Fazenda (CPF):
é preciso que as firmas respectivas estejam reconhecidas por tabelião (basta o
reconhecimento por semelhança). Tratando-se de escritura pública, deve ser
conferido o sinal público do tabelião. No título judicial, deve ser verificado se
a assinatura do juiz foi reconhecida por escrivão.
Conforme lembra Afrânio de Carvalho, o registrador deve verificar a in
dividuação do imóvel, objeto do direito, para apurar se ela corresponde ao que
consta do Livro de Registro, bem como o nome e qualificação do alienante, que
devem coincidir com aquele que consta do registro como titular do domínio.
Havendo necessidade, as partes devem averbar as mudanças no nome ou no
estado civil do proprietário.
Havendo divergências entre a escritura e o registro no que tange à descrição
do imóvel, as partes devem providenciar a lavratura de escritura de rerratifica
ção para que a descrição dela constante coincida com a do registro. Vale dizer,
a situação do imóvel constante do título deve corresponder com a constante
do registro. Se neste constar a existência de ônus ou gravames (p. ex.: hipoteca,
penhora, etc.) não mencionada no título, o registrador deve exigir a retificação
do mesmo para o fim de incluí-los.
Tratando-se de escritura pública, raramente se observa a falta de harmonia
entre título e registro, uma vez que o tabelião, para lavratura do instrumento
notarial, exige a apresentação de certidão atualizada do registro do imóvel, e
reproduz no título a descrição que consta na inscrição.
Finalmente, o registrador deve fiscalizar o recolhimento do tributo cabível
(p. ex.: ITB!, ITD, contribuição previdenciária, enfiteuse) e, quando for o caso,
Título V • REGISTRO DE IMÓVEISa quitação das despesas de condomínio, salvo, quanto a esta, se houver dispensa
do comprador (que responde pela obrigação propter rem). Nos termos do art.
134, VI, do Código Tributário Nacional, os registradores e tabeliães respondem
solidariamente com o contribuinte pelos tributos devidos, no caso de impos
sibilidade de exigência do cumprimento da obrigação principal pelo último.
Cumpre ressaltar, entretanto, que não cabe ao registrador pretender calcular
o valor correto do tributo, salvo, obviamente, caso de manifesta fraude ou elisão
fiscal: não lhe cumpre exercer o papel de fiscal, mas tão somente verificar a regu
laridade do recolhimento dos tributos devidos no negócio jurídico documentado.
"Caso constem da escritura pública ou do extrato de título particular com força
de escritura pública (v.g., contrato para aquisição de imóvel intermediado por
instituição financeira vinculada ao SFH ou SFI) os dados do recolhimento do
tributo - natureza do tributo, contribuinte, valor, importância recolhida, data,
banco, autenticação bancária-, não poderá o registrador exigir a apresentação
do comprovante do recolhimento. Caso contrário, deverá ser anexada ao título
a guia de recolhimento respectiva.
No caso de alienação ou oneração, a qualquer título, de imóvel ou direito
a ele relativo, em que figurar corno alienante pessoa jurídica, o registrador deve
exigir a apresentação da certidão negativa de débito ( CND) perante o INSS, Re
ceita Federal e Dívida Ativa da União, quando não conste sua apresentação no
corpo da escritura pública. Tratando-se de escritura particular, deve ser exigida
a apresentação da CND por ocasião do registro. Até mesmo para o registro de
carta de sentença, em geral é necessária a apresentação das certidões negativas
de débito, quando a hipótese envolve transmissão de propriedade de imóvel
pertencente à pessoa jurídica (art. 47, !, "b'; da Lei 8.212/1991).
De acordo com as instruções normativas da Receita Federal, que re
gulamentam a lei em questão, somente não será exigida a apresentação das
certidões negativas de débito quando a alienante tiver por objeto empresarial
a comercialização de imóveis e o bem pertencer ao seu ativo circulante. Tendo
em vista a constante alteração das instruções normativas da Receita Federal,
deve o registrador manter atualizado seu acervo de legislação e regulamentos
administrativos.
Também deve ser apresentada a CND do INSS de pessoa física ou jurídica,
no caso de averbação de construção civil A CND do INSS tem prazo de validade
de 60 dias, a contar da data de sua expedição (Decreto 3.048, de 1999), e a da
Receita Federal tem prazo de validade de seis meses, podendo ser apresentada
a cópia autenticada eletronicamente do documento, impressa diretamente do
site da Receita Federal na internet.
Cumpre observar que a jurisprudência mais recente do CSM de São Pau
lo, em consonância com decisões reiteradas do STF, inclusive a ADI 173 que
.. .• ..
1.-:
r.
566 REGISTROS PÚBLICOS-TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
julgou inconstitucional vários dispositivos do art. 1 ºda Lei 7.711, de 1988, tem
decidido pelo descabimento da exigência das certidões negativas de débito,
por se tratar de forma indevida de coação à quitação de tributos a caracterizar
verdadeira sanção política vedada por nossa Constituição. 26 No entanto, várias
Cárnaras de Direito Público do TJSP têm decido em mandados de segurança
que o registrador é obrigado a exigir a certidão negativa de débito nos termos
previstos no art. 47 da Lei 8.212, de 1991, que, embora contenha norma idêntica
à considerada sanção política pelo STF, não foi objeto da ação declaratória de
inconstitucionalidade. Tais decisões fundam-se na concepção antiga de que, no
cumprimento da legalidade estrita, não cabe ao registrador interpretar a lei ou
reconhecer a inconstitucionalidade da norma.
Tal questão, portanto, permanece polêmica e, na prática, tem-se exigido a
apresentação dos documentos supracitados. Em suma, no exame de qualifica
ção cabe ao registrador tão somente analisar os aspectos extrínsecos, ou seja,
aqueles de ordem formal do título submetido a registro. O exame dos elemen
tos intrínsecos não é atribuição do registrador. A irregularidade formal a ser
identificada pelo registrador é aquela perceptível do exame visual do próprio
título, o vício que pode ser percebido visualmente, sem necessidade de exame
de outros documentos ou fatos, e que implicam desrespeito às normas e aos
princípios norteadores do sistema de registro imobiliário.
Destarte, não pode o registrador se valer de elementos extratabulares, ou
seja, não presentes no título ou no registro, para negar o acesso ao fólio real.
A atividade do registrador é de cunho administrativo, não devendo este pro
fissional atuar além do âmbito da legalidade estrita. As situações fálicas, sem
respaldo nos assentamentos registrários, escapam, portanto, aos limites estritos
de conhecimento próprio aos delegados incumbidos da atividade de registro
de imóveis. O registrador não tem poder jurisdicional: não lhe cabe examinar
provas e verificar fatos não constantes do registro e do título.
7. PRINCÍPIO DA PRIORIDADE
Uma das diferenças fundamentais entre os direitos reais e os direitos pes
soais consiste no fato de que os primeiros gozam do ius preferendi, ou seja, a
faculdade que tem o titular de um direito real de obter preferência no exercício
de seu direito com respeito a outro direito real posterior, de igual ou distinto
conteúdo, que recaia sobre a mesma coisa. O direito de prioridade reflete a antiga
máxima romana: prior tempere, potior iure. Ao contrário, nos direitos pessoais,
26. Nesse sentido, Apelação Clve1 0013759-77.2012.8.26.0562, ReL Des. José Renato Nalini, voto n. 21.178; e
ainda a Consolidação Normativa do Rio Grande do Sul, c'ujo ait. 682, VII, que prevê a obrigação de apre·
sentação da CND fornecida pelo INSS e pela SRF, foi revogado pelo Provimento 35, de 2008.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS .--------- ---
e-
! 567
salvo expressa disposição legal, o credor não pode reclamar preferência na sa
tisfação de seu crédito com relação aos credores posteriores do mesmo devedor.
Em matéria de Registro de Imóveis, o direito de preferência ou prioridade
se materializa por intermédio do acesso ao registro do documento que contém
um direito real imobiliário: o título que é prenotado em primeiro lugar tem
prioridade no registro em relação aos títulos que materializam direitos reais
contraditórios sobre o mesmo imóvel, protocolados posteriormente.
Conforme determina o art. 182 da Lei 6.015/1973, por ocasião do protoco
lo. todos os títulos recebem um número de ordem, de acordo com a sequência
rigorosa de sua apresentação. Esse número de ordem determinará a prioridade
do título e esta a preferência dos direitos reais, ainda que vários títulos sejam
apresentados simultaneamente pela mesma pessoa ( art. 186). Da mesma forma,
estabelece o art. 1.493, parágrafo único, do Código Civil que o número de ordem
determina a prioridade, e esta, a preferência entre as hipotecas.
Quando a lei utiliza o termo "prioridade~ está se referindo à sequência
temporal na apresentação do título ao protocolo. Já "preferênciá' refere-se à
primazia do direito real que decorre da prioridade definida pelo protocolo.
Não obstante, os direitos de prioridade ou de preferência podem ser usados
como sinônimos.
Logo, o título apresentado em primeiro lugar no Registro assegura a pre
ferência na aquisição do direito real respectivo. Havendo, pois, concurso de
direitos reais sobre o mesmo imóvel, prevalece aquele cujo título foi anterior
mente protocolado no Serviço de Registro de Imóveis.
7. l. Tipos de prioridade
A prioridade pode ser excludente ou não excludente (também chamada
"prioridade de grau"). A primeira se configura quando se trata de direitos
incompatíveis entre si, como ocorre, por exemplo, em escrituras públicas de
compra e venda do mesmo imóvel a doisadquirentes diferentes, ou ainda
entre um documento notarial que instrumenta a venda do imóvel e outro que
institui uma hipoteca sobre o mesmo bem a distinta pessoa. Por outro lado, a
prioridade não excludente ou de grau se produz quando ingressam no Registro
documentos que instrumentam direitos compatíveis entre si, como é o caso de
duas ou mais hipotecas sobre o mesmo imóvel em favor de credores diversos.
Nesse caso, não há exclusão do direito real contido no documento protocolado
posteriormente, mas sim o estabelecimento de uma posição hierárquica entre
os direitos reais lirrútados, como ocorre, notadamente, na concorrência entre
duas ou mais hipotecas sobre um mesmo imóvel.
As consequências dos dois tipos de prioridade são as seguintes: se a priori
dade é excludente, o documento que tem prioridade será registrado e impedirá
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
L .• __L_ ··-·-·-. -
o acesso do outro título ao fólio real; se a prioridade não é excludente, ambos os
documentos serão inscritos, mas o que ingressa em primeiro lugar terá priori
dade quanto ao grau ou posição daquele apresentado a registro posteriormente.
Logo, o termo "prioridade" ou "preferênciá' faz alusão tanto à prioridade
excludente ou de superioridade como a prioridade de grau. No primeiro caso,
como vimos, tratase de direitos reais incompatíveis e, no segundo, de direitos
reais compatíveis. Ou seja, como observa Falho, o princípio da preferência, no seu
aspecto substantivo, pode ter dois sentidos: um excludente e outro hierárquico27
.
O princípio da prioridade pode ser visto desde um ponto de vista material e
desde um ponto de vista formal. Sob o primeiro ponto de vista, exterioriza apre
ferência de uma dada situação jurídica sobre outra, seja por incompatibilidade,
seja por oponibilidade, fixando a prelação daquela que acede anteriormente ao
Registro (prior tempore, potior iure ). Por outro lado, sob o ponto de vista formal
significa que o registrador não deve registrar direitos incompatíveis, vale dizer,
não pode registrar no mesmo dia títulos pelos quais se constituem contendo
direitos reais contraditórios (art. 190 da Lei 6.015/1973).
Ademais, deve praticar os assentos do Livro Protocolo segundo a estrita
ordem cronológica em que os documentos são apresentados e lavrar os registros
de acordo com a ordem de prenotação dos títulos (no caso da prioridade de
grau) ou negar a inscrição do documento que contém direito real incompatível
com aquele presente no titulo anteriormente prenotado e registrado.
Não obstante, o registrador não pode impedir a prenotação ou protocolo do
título que instrumentaliza direito real incompatível com aquele instrumentado
em documento já prenotado, mas ainda não registrado. Pode ocorrer que, por
ocasião do exame de qualificação, o registrador vislumbre vício no documento
prenotado em primeiro lugar. Tratando-se de vício insanável, o registro é im
possível e o documento posterior será qualificado e poderá ser registrado. Na
hipótese de vício sanável, não cumprindo o interessado as exigências formuladas
pelo registrador no prazo de trinta dias a contar da data da prenotação, esta é
automaticamente cancelada e o documento posteriormente apresentado poderá
ter acesso ao fólio real. Em outras palavras, o título apresentado em primeiro
lugar será registrado previamente, assegurando a preferência do direito real nele
representado e até mesmo obstando o acesso ao cadastro imobiliário de títulos
representativos de direitos reais contraditórios ao previamente protocolado.
Títulos contraditórios são aqueles que dizem respeito ao mesmo imóvel.
Tais títulos podem se referir a direitos reais excludentes ou não excludentes. São
exemplos de títulos excludentes duas escrituras de venda do mesmo imóvel, a
adquirentes diversos. Salvo na hipótese de condomínio, um imóvel não pode
27. Miguel N. Falbo, EI princípio de prioridad registrai en la Argentina, Revista dei Notariado, n. 811, p. 1259.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
pertencer a duas pessoas diversas. São direitos reais contraditórios. mas não
excludentes, duas ou mais hipotecas ou a propriedade e um direito real limitado
sobre o mesmo imóvel.
De acordo com o princípio da prioridade, se o titular do domínio vender o
mesmo imóvel para "A' e depois para "B'; será proprietário do bem não aquele
que obteve a lavratura da escritura de compra e venda precedentemente, mas
aquele que protocolar seu título no Registro em primeiro lugar. Caso "B" pro
tocole previamente seu título, ainda que lavrado em época posterior à de «x: ele
se tornará proprietário. Este último não adquirirá a propriedade e tão somente
poderá exigir do vendedor a restituíção do preço e indenização por perdas e
danos (sem prejuízo da configuração de ilícito penal).
No caso de duas ou mais hipotecas recaírem sobre o mesmo imóvel, terá
preferência aquela cujo título foi protocolado em primeiro lugar. De acordo com
a sistemática do Código Civil, nada impede a coexistência de várias hipotecas
sobre o mesmo imóvel (art. 1.476 do Código Civil). Havendo concurso de hi
potecas, o credor da hipoteca registrada anteriormente tem preferência sobre
os demais credores hipotecários. No caso de execução da hipoteca e alienação
do imóvel, o recurso obtido será utilizado para pagar o credor da primeira hi
poteca (hipoteca de primeiro grau) e, se houver saldo, serão pagos os credores
das hipotecas posteriores (hipoteca de segundo grau, de terceiro grau, etc.).
Na hipótese de concorrência de hipoteca com outro direito real limitado,
dispõe o Código Civil que "subsistem os ônus reais constituídos e registrados
anteriormente à hipoteca, sobre o mesmo imóvel" (art. 1.474). Logo, o registro
da hipoteca não prejudica o usufruto anteriormente registrado: o usufrutuário
manterá o direito de usar e gozar o imóvel, mesmo no caso da execução da
garantia real.
A contrario sensu, não subsistem os ônus reais constituídos e regístrados
após a hipoteca, salvo quando se tratar de outra hipoteca. No que se refere à
insubsistência dos ônus reais constituídos após a hipoteca, há duas correntes na
doutrina: a) para a primeira corrente, são nulos os ônus constituídos e registrados
posteriormente; b) para a segunda, o novo direito real limitado não é inválido,
mas é ineficaz perante a hipoteca. Esta segunda opiníão é a mais correta. Se o
proprietário pode vender o imóvel hipotecado (art. 1.475 do Código Civil),
pode, com maior razão, instituir direito real limitado (usufruto, superfície,
etc.). No entanto, o credor hipotecário, que registrou seu título anteriormente,
não será prejudicado pelo registro do novo direito real no caso de execução da
garantia real.
O direito de propriedade também não exclui um direito real limitado. O
proprietário ''A' pode, por exemplo, vender a prédio para "B" e, após, outorgar
servidão em favor do imóvel de "C''. Na hipótese de "C" protocolar anterior-
570 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme loureiro
mente seu título de servidão, poderá ser prenotada e registrada a propriedade
em nome de "B''. Este, entretanto, receberá um domínio limitado pela servidão
(ou outro direito real limitado). Na hipótese de ser protocolada em primeiro
lugar a escritura de compra e venda, não poderá ser feito o registro da servidão.
Isso porque haveria violação do princípio da continuidade (apenas o titular do
domínio pode outorgar um direito real limitado e, no caso, o proprietário é "B"
e não mais .. A").
O protocolo, portanto, estabelece a ordem de precedência do registro, de
forma que tal ato é de extrema importãncia para a parte interessada. Por isso,
o legislador estabelece uma série de cuidados a serem observados pelo regis
trador. Protocolados no mesmo dia, títulos pelos quais se constituam direitos
reais contraditórios (ex.: Escritura de usufruto e escritura de compra e venda
relativas ao mesmo imóvel), deverá ser registrado em primeiro lugar o títuloprenotado sob número de ordem mais baixo (ex.: usufruto) e o outro título,
quando possível o seu registro, somente poderá ser inscrito nos dias subsequentes
(art. 190 da Lei 6.015/1973).
Da mesma forma, ele não pode, em nenhuma hipótese, recusar o protocolo
de um título, ainda que verifique, desde logo, a existência de exigência fiscal
ou dúvida; e deve fornecer recibo ao apresentante, com o respectivo número
de ordem.
Todo esse cuidado é justificado pelos graves efeitos que advêm da priori
dade conferida pela prévia prenotação de um título constitutivo de direito real
imobiliário.
A única exceção ao princípio da prioridade está prevista no art. 1.495 do
Código Civil: quando for protocolada escritura de hipoteca que mencione a
constituição de hipoteca anterior. ainda não registrada, o registrador deverá
suspender o registro pelo prazo de trinta dias, a fim de possibilitar que o inte
ressado promova a inscrição da garantia precedente. Decorrido o trintídio sem
a apresentação do título anterior, será registrada a hipoteca posterior, que obterá
preferência. Tem-se considerado que o Estatuto do Idoso não contém exceção
ao princípio da prioridade ou preferência registrai: o idoso tem preferência no
atendimento dos serviços em geral, devendo ser atendido prioritariamente nos
balcões ou guichês de pedido e recebimento de certidões e outros documentos,
mas não no protocolo de título, que deve observar estritamente a ordem de
chegada, isto é, da apresentação do título para prenotação.
8. PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE
De acordo com o princípio da especialidade, todo imóvel que seja objeto
de registro deve estar perfeitamente individualizado. Tratando-se de inscrição
de direito real de garantia (alienação fiduciária, hipoteca, anticrese e penhor),
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
,-
i 571
não só o imóvel, como também a dívida garantida especificada, com indícação
do valor total em moeda nacional, montante das prestações, se for o caso, e taxa
de juros, se houver.
A identificação do imóvel é feita mediante a indicação de suas características
ê'confrontações, localização, área e denominação, código e dados constantes
do CCIR (certificado de cadastro de imóvel rural), se rural; ou logradouro e
número, se urbano, e sua designação cadastral, se houver (art. 176, § 1.0 , II, 3,
letras "à' e "b'; da Lei 6.015/1973).
A descrição geométrica do imóvel não é suficiente para a observância do
princípio da especialidade. Deve haver uma amarração geográfica, que marque a
posição do imóvel no espaço, e essa amarração são os nomes dos confrontantes,
enquanto não instituído um cadastro em que todos os imóveis se enquadrem
dentro de meridianos e paralelos.
As confrontações - que abrangem os limites e os nomes dos confrontantes
- são os elementos que melhor identificam o imóvel. As linhas confinantes de
wn imóvel, com o seu cumprimento no terreno, são f1x:as, mas os confrontantes
podem mudar, são variáveis. Isso causa certa dificuldade na identificação. Para
Afrânio de Carvalho, a existência da expressão "confrontando com quem de
direito': aposta na escritura ou no registro, viola o princípio em tela. O notário
e o registrador devem mencionar o nome dos confrontantes, ao indicarem a
amarração geográfica do imóvel em tela ( v.g., "confrontando com José da Silva
ou seu sucessor").
A descrição constante do título deve coincidir (mas não necessariamente
ser idêntica) com aquela que consta do registro. O tabelião, via de regra, re
produz na escritura pública a descrição constante do registro. Pode ocorrer de
esta descrição ser imperfeita, mas, neste caso, não pode o registrador negar o
registro do título sob o fundamento de que não foi observado o princípio da
especialidade.
Nesse sentido, a seguinte ementa:Exceções aparentes a este princípio
estão nos arts. 195-A e 195-B da LRP, e se referem unicamente a imóveis pú
blicos. De acordo com o primeiro dispositivo legal, o Município pode solicitar
a matrícula de imóvel público, ou de parte dele, oriundo de parcelamento do
solo urbano, ainda que não inscrito ou registrado. De acordo com o segundo, a
União, os Estados e o Distrito Federal poderão requerer a abertura de matrícula
de totalidade ou de parte de imóvel urbano, sem registro anterior.
Na verdade, não constituem verdadeiras exceções ao princípio do trato
sucessivo, cuja finalidade é garantir a segurança e a completude da publicidade
registrai, cujo objeto é a propriedade privada estática e dinâmica (negócios
jurídicos imobiliários). O domínio público, por ser inalienável e pelo fato de
sua legitimidade não depender do registro, não constitui, em regra, objeto do
sistema de registro de imóveis. Tanto é que os entes públicos têm a faculdade de
optar pelo registro ou não dos imóveis públicos, até porque o domínio público
não é constituído pelo registro, e sim pela ordem normativa (ex.: bens públicos
previstos na CF, expropriação, registro de loteamento).
O trato sucessivo é um mecanismo técnico que tem por objetivo manter
o enlace ou a conexão dos registros, mediante a ordem regular dos sucessivos
titulares registrais de modo a garantir uma continuidade perfeita dos assentos
em relação ao tempo, sem nenhum salto. Dessa forma, procura-se garantir que
todos os atos aquisitivos, modificativos ou extintivos de direitos reais relativos a
um determinado imóvel constem de sua matrícula, com a finalidade de refletir
o histórico jurídico de cada imóvel matriculado".
Vale dizer, dos assentos existentes em cada fólio deverá resultar o perfeito
encadeamento do titular do domínio e dos demais direitos registrados, assim
como a correlação entre as inscrições e suas modificações. Os elementos do
trato sucessivo são os seguintes29
:
A) Sujeito. Deve haver identidade entre a pessoa que outorga o ato dispo
sitivo e a que figura no Registro como a titular do direito que se dispõe.
28. Ramón M. Roca Sastre, lnstituciones de derecho hipoteca rio, t. li, p. 308.
29. Cf. M. Falbo, Doctrina general dei tracto sucesivo en el derecho argentino, Revista Notarial, n. 854, p. 75.
:.
• ..
r- -\
i ~ ·---·-R_E_G_IST_R_~~ P_ú_B_LIC_O~_:- TE?_Rl_A_E P_R_AT_IC_A __ ·_L_uiz_G_u~1_he_,m_:._~oureiro __________ ~
B) Objeto. Deve existir coincidência na descrição do imóvel constante do
fólio real e do documento a ser registrado. Ademais, o direito transferido
deve estar inscrito no Registro em nome daquele que o transfere.
C) Oportunidade e efeito. A exigência de prévia inscrição deve existir no
momento da prática do registro respectivo e não naquele em que é
lavrado o documento a ser levado a registro, sem prejuízo do dever do
notário de verificar e aconselhar a parte quanto à necessidade de registro
de título anterior a fim de observar a continuidade dos assentos, sob
pena de recusa do acesso do documento notarial à publicidade registrai.
A inobservância do trato sucessivo não afeta a validade do documento
notarial, mas surge como obstáculo ao seu registro.
Assim, por exemplo, consta da matrícula do imóvel que "X' é seu
proprietário. Este vem a falecer e, por sucessão, o imóvel é transmitido a
"B". O herdeiro, por sua vez, vende o bem a "C". O comprador não poderá
registrar seu título caso não tenha sido registrado o formal de partilha (ou
escritura de inventário e partilha) pelo qual o imóvel tenha sido atribuído
ao herdeiro "B". Para que seja preservada a continuidade do registro, deve
antes ser registrado o título para que "B" passe a figurar na matrícula como
novo proprietário, para, então, ser registrado o título pelo qual este transfere
o domínio do imóvel a "C''.
Não só o nome do titular, com sua qualificação, deve ser coincidente no
registro e no título. Assim, se consta no registro que o proprietário do imóvel é
casado e na escritura de compra e venda em que figura como vendedor constar
seu estado civil como divorciado, deve ser providenciada a averbação do divór
cio, bem corno do esclarecimento da realização de eventual partilha, antes do
registro deste título. Da mesma forma, constando da escritura que o proprietário
é casado, deve ser providenciada a averbação do nome do cônjuge e do regime
de bens do casamento, em homenagem ao princípio da continuidade.
Nesse sentido, a seguinte ementa:
"Contrato de locação - Indeferimento - Divergência entre o registro imobiliá
rio e o título apresentado, quanto ao número do CPF, nome e estado civil das
locadoras - Necessidade de prévia averbação da alteração ou da retificação
do registro - Recurso não provido" (LEX 205/351 - JTJ).
Não basta a informação do estado civil. É pacífico o entendimento de
que a prévia averbação do casamento ou da extinção da sociedade conjugal é
indispensável ao registro da transmissão do imóvel por quem consta no título
como "casado': porquanto tais fatos apresentam evidentes reflexos patrimoniais,
cuja publicidade deve ser assegurada.
Título V • REGISTRO OE IMÓVEIS 575 1
Nenhum título antecedente, sejam quais forem a sua natureza e espécie,
inclusive o título judicial, foge ao alcance do princípio da continuidade. Assim,
por exemplo, não poderá ser registrada uma carta de arrematação em ação de
execução. se o imóvel arrematado não estiver registrado em nome do executa
do, salvo se houve reconhecimento, em decisão judicial, de fraude à execução.
De acordo com o Conselho Superior da Magistratura do TJSP: "Já decidido,
no âmbito jurisdicional, que a alienação de tais lotes pelo coexecutado a ter
ceiros fraudou a execução (fls. 11), a circunstância de figurarem na matrícula
imobiliária como atuais proprietários pessoas que não ocupam o polo passivo
do processo de execução, não ofende o princípio registrário da continuidade".
O princípio da continuidade não comporta exceção. Nem mesmo o des
membramento do cartório quebra a continuidade do registro. O desmembra
mento territorial do cartório, em virtude do qual o imóvel passou à jurisdição
de nova serventia, não prejudica a continuidade dos assentos que lhe dizem
respeito, uma vez que estes são transportados para o livro do novo cartório,
mediante certidão atualizada (art. 229 da Lei 6.015/1973). A lei não diz o que
se entende por "certidão atualizada'; mas normas das Corregedorias de Justiça
de vários Estados estipulam que é aquela expedida a menos de trinta dias.
Cabe observar que a desapropriação judicial pode ser registrada, inde
pendentemente de prévio registro do título do expropriado. No entanto, não
há, neste caso, exceção ao princípio da continuidade porque a desapropriação
é forma originária de aquisição de propriedade e o Estado recebe o imóvel sem
nenhum ônus real que acaso o agravasse.
O princípio da continuidade não exige, ainda, o registro anterior de promes
sa de venda que anteceder a escritura definitiva de compra e venda. O registro do
contrato preliminar é optativo, não cabendo ao registrador impor sua inscrição
prévia para o ingresso da escritura definitiva. O promitente comprador do imóvel,
quando no contrato não tiver sido estipulada cláusula de arrependimento, pode
registrar seu título para obter um direito real oponível erga omnes (direito real
de aquisição). Entretanto, se não optar pelo registro, será titular de um direito
obrigacional que o vincula unicamente ao compromissário vendedor.
A ausência do registro da promessa de venda não ofende o princípio da
continuidade, uma vez que na matrícula constará como proprietário do imóvel
o outorgante da escritura definitiva de compra e venda. Não haverá lapso na
cadeia de domínios. Este é o entendimento pacífico da jurisprudência:
"Nesse caso, o registro da escritura pública de compra e venda é possível
sem o prévio registro do compromisso de compra e venda e de sua cessão
pelos compromissários adquirentes. Nãohá aí qualquer afronta ao princípio
registrário da continuidade, entendimento, aliás, já acolhido por este Con
selho Superior da Magistratura no julgamento da Ap. Cív. n. 43.481-0/9, da
Comarca de São Vicente, relatada pelo eminente Des. Nigro Conceição':
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • ll.Jíz Guilherme Loureiro
9.1. Individuação do imóvel como requisito indispensável para
assegurar a continuidade dos registros
Vimos que, para a observância. do princípio da especialidade, o imóvel
deve ser perfeitamente caracterizado e individuado, sob pena de não ser o
título aceito a registro. A correta identificação do imóvel é necessária não só
para conferir segurança jurídica, mas também para assegurar a continuidade
dos registros.
Para garantir a continuidade dos registros e a segurança dos atos transmis
sivos ou constitutivos de direitos reais imobiliários, faz-se necessária a presença
de elementos minudentes de identificação do imóvel. Para que seja observado o
perfeito encadeamento registrai, a descrição constante do título deve coincidir
com aquela constante da matrícula ou do registro anterior (transcrição). A
exigência de coincidência de caracterizações não significa, entretanto, que elas
devem ser idênticas: basta que não sejam divergentes. Discrepâncias secundá
rias na descrição do imóvel, quando este ficar precisamente individuado, não
autorizam a recusa do registro do título.
Basta, para a compatibilidade do título com o registro a que se vincula e
a certeza do domínio, que a descrição do imóvel no título se ajuste com aquela
constante do registro precedente, para que seja resguardado o princípio da
continuidade (RT 523/118). Não cabe ao oficial exigir que a descrição do título
seja idêntica àquela do registro, "não sendo dogmáticos os elementos de iden
tificação exigidos" (RT 523/118).
Com efeito, pequenas discrepâncias ou '(incoincidência entre o título e o
registro pode ser superada se do Cartório constam elementos que permitem
o registro, com as características dadas ao imóvel no titulo" (AC 1992-0, de
02 .12 .1982). De acordo com o CSM/SP, embora a caracterização do imóvel não
coincida com a que consta do registro existente, o registro do título é possível se
a descrição contiver pontos comuns com a constante da matrícula, como vias
de circulação e confrontações (Ac 1.036-0, de 11.05.1982).
Em outras palavras, ainda que a descrição contida no título não seja idêntica
à do registro, deve ser aquele acolhido quando as características nele assinaladas,
com os elementos arquivados em cartório, permitam concluir que efetivamente
se trata do imóvel registrado. O espírito da norma legal é garantir a segurança
do ato de alienação imobiliária, de forma que um excessivo rigor por parte do
registrador (ao exigir identidade das descrições) viola o direito do adquirente
em se tornar proprietário ou titular do direito real em questão.
Por outro lado, havendo divergências com os característicos e confronta
ções constantes do registro anterior, o título não poderá ser registrado. Não se
pode, por via do registro, acertar ou retificar característicos referentes à área e
às confrontações inexistentes na transcrição anterior (RT 499/115).
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
10. PRINCÍPIO DA PARCELARIDADE OU CINDIBILIDADE DO
TÍTULO
De acordo com o princípio em tela, o título pode ser cindido, isto é, o re
gistrador pode aproveitar ou extrair certos elementos nele insertos que poderão
ingressar de imediato no fólio real, desconsiderando outros que, para tanto,
exigem outras providências.
O princípio da cindibilidade dos títulos resulta de construção pretoriana
que substituiu a jurisprudência que vigorava no anterior sistema registrai.
Por força desta nova orientação, pode o registrador, a requerimento do
interessado, averbar mandado de penhora de imóvel no qual conste a existên
cia de construção não averbada na matrícula respectiva. Neste caso, cinge-se
o título judicial, extraindo-se os elementos relativos ao imóvel penhorado,
desconsiderando-se aqueles que se referem à construção não averbada. Em outras
palavras, havendo requerimento do interessado, o registrador pode aproveitar
o mandado de penhora de imóvel onde foi construída uma casa, ainda que tal
construção não tenha sido averbada na matrícula e isso por força do princípio
da cindibilidade do título.
11. PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE VERACIDADE OU DA
LEGITIMIDADE
O Registro de Imóveis é fundamentalmente um instrumento de publici
dade. Portanto, é necessário que as informações nele contidas coincidam com
a realidade para que não se converta em elemento de difusão de inexatidões e
fonte de insegurança jurídica, contrariando, dessa forma, sua finalidade básica.
O problema de inexatidões registrais é ainda mais grave nos sistemas de
inscrição constitutivo, como é o caso do nosso país, pois origina direitos reais
que não existem na vida real, incapazes de gerar efeitos jurídicos, mas, entretanto,
devido à publicidade, causam inúmeros transtornos. De qualquer forma, todo
sistema registrai deve velar para que seu conteúdo corresponda à realidade, em
maior ou menor grau, segundo os diversos modelos nacionais.
O direito brasileiro garante o conteúdo registral, protegendo os particu
lares que atuam acreditando que os dados publicados são verazes e exatos. A
presunção de veracidade pode ser juris tantum ou juris et de jure. No primeiro
caso, temos o princípio da legitimação ou legitimidade. No segundo caso, trata
-se do princípio da fé pública.
O princípio da legitimação pode ser definido como aquele princípio hipo
tecário em virtude do qual o registro é presumido exato até demonstração em
contrário. Para que tal presunção seja destruída, é preciso impugnar o conteúdo
do assento perante os tribunais, cabendo ao impugnante o ônus de provar sua
.. .• ·-
REGISTROS PÚBLICOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
inexatidão. Enquanto não cancelado o registro inexato, continua produzindo
efeitos.
Logo, presume-se que os direitos reais existem na realidade extrarregistral,
que pertencem ao titular registrai na forma determinada no assento. A presun
ção abrange a existência do direito, sua titularidade e sua forma e conteúdo.
Sendo inverídica a existência do direito registra!, cabe ao interessado mover a
ação competente para anular o assento, sendo seu o ônus de provar o vício do
registro ou do título que lhe deu origem. Sendo inexato o registro no tocante
ao conteúdo do direito, deve ser o assento retificado por via administrativa ou
judicial, conforme as circunstâncias do caso concreto.
A presunção da titularidade de um direito real de uso e gozo implica ne
cessariamente na presunção de que este é o legítimo possuidor do imóvel e que
deve ser tratado como tal. Surte, portanto, efeitos legitimadores. Tanto isso é
verdade que não se pode decretar administrativamente a nulidade do registro,
ainda que se trate de vício visível e patente ( art. 214 da Lei de Registros Públicos),
quando se tratar de inscrição vigente a longo prazo, suscetível de fundamentar
a prescrição aquisitiva em favor do titular registrai. Apenas em sede jurisdicio
nal seria possível decretar a nulidade de tal registro. Mas se o titular registrai,
ainda que não seja o verdadeiro proprietário, em razão do vício do registro,
pode adquirir o bem por usucapião, se comprova que, de fato, exerceu a posse
sobre o imóvel pelo tempo necessário à aquisição originária da propriedade. O
registro, ainda que viciado, faz presumir a posse pública, pacífica, ininterrupta
e de boa-fé durante o tempo de vigência do assento .
A presunção de legitimidade do registro, entretanto, não é absoluta. Ao
contrário do sistema alemão, no direito brasileiro o registro não sana as irre
gularidades do título que lhe dá suporte. Se este for eivado de nulidade, nulo
será também o registro. De qualquer forma, enquanto não declarada a nulidade
do título e promovido o cancelamento do registro. a inscriçãoproduz todos os
efeitos que lhe são inerentes.
Presume-se a veracidade do registro, mas, se o seu teor não exprimir a
verdade, poderá o interessado reclamar que se retifique ou anule (art. 1.247 do
Código Civil). Cancelado o registro, o proprietário poderá reivindicar o imóvel
ainda que tenha sido adquirido por terceiro de boa-fé.
Destarte, dentre dois interesses juridicamente relevantes - a proteção da
propriedade pela proibição da venda a non domino e a proteção do terceiro de
boa-fé-, a ordem jurídica brasileira optou pelo primeiro. Aquele que compra
um imóvel de quem não é o verdadeiro dono, ainda que confiando nas infor
mações constantes do registro, poderá perder o bem para o titular do domínio.
Conforme foi visto, o proprietário poderá requerer o cancelamento do registro
viciado e reivindicar o imóvel, independentemente da boa-fé ou do título do
terceiro adquirente.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
,---
! 579
--~---:_ ____ ,
As únicas exceções a essa regra são previstas nos arts. 1.817 e 1.827, pará
grafo único, do Código Civil. De acordo com o primeiro dispositivo, são válidas
as alienações onerosas de bens hereditários a terceiros de boa-fé, praticadas pelo
herdeiro, antes da sentença de exclusão. Já o segundo estatui que são eficazes as
alienações feitas, a título oneroso, pelo herdeiro aparente a terceiro de boa-fé.
Nestas duas hipóteses o legislador privilegia o terceiro de boa-fé em detrimento
do verdadeiro dono (o herdeiro ou herdeiros verdadeiros). Este poderá, tão
somente, demandar perdas e danos do herdeiro aparente, mas não terá ação
rCivindicatória contra o adquirente de boa-fé.
O princípio da legitimação atua também em matéria de cancelamento:
cancelado um registro, presume-se extinto o direito ao qual dito assento se referia.
A presunção de veracidade registrai produz ainda reflexos no direito pro
cessual civil. O favorecido por ela está exonerado de comprovar a titularidade
do direito real em tela: basta provar sua condição de proprietário (ou de titular
de direito real limitado) mediante a apresentação da certidão do registro. Logo,
não se poderá demandar nenhuma ação contraditória do domínio do imóvel
ou direito real inscrito contra o titular registrai sem que haja pedido prévio ou
concomitante de anulação do registro correspondente.
12. PRINCÍPIO DA FÉ PÚBLICA REGISTRAL
Pelo princípio da fé pública, a existência do direito registrado ou a inexis
tência do direito cancelado prevalecem absolutamente em relação ao terceiro de
boa-fé que, confiando nos assentos do Registro de Imóveis, celebrou o negócio
jurídico com o titular aparente.
Este princípio significa que aquele que adquire um direito real sobre um
bem imóvel inscrito no Registro de Imóveis deve ser protegido em sua aquisição
ainda quando haja inexatidão ou nulidade no registro. Por força deste princípio,
o conteúdo do registro se presume exato com uma presunção iuris et de iure.
Os sistemas jurídicos que optaram pela aplicação do princípio da fé pública
privilegiam a seguridade do tráfico jurídico sobre bens imóveis, em relação
ao direito do verdadeiro proprietário. Logo, aquele que compra um imóvel de
quem não é o verdadeiro proprietário adquire legitimamente a propriedade,
desde que o alienante figure no Registro como dono do bem.
É o caso do sistema germânico, adotado também por outros países como
a Espanha. Neste sistema é protegida a confiança que os dados inscritos no
Registro suscitam no terceiro que adquire um bem imóvel. Este adquire o
direito real tal como figura no Registro, ainda que o alienante não seja o ver
dadeiro titular. Para tanto, é necessário que o terceiro esteja de boa-fé e que a
alienação seja onerosa. Na ausência da boa-fé, não há confiança no Registro a
ser protegida. Já a onerosidade da aquisição não é substancial ao princípio da
El REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
confiança registra!, mas considerou-se que era mais justo proteger o interesse do
verdadeiro proprietário (ou titular de outro direito real) do que o adquirente a
título gratuito. Assim, mesmo que o donatário esteja de boa-fé, ele não adquire
a propriedade se o doador. embora figure como dono no Registro, não seja o
verdadeiro proprietário do imóvel ( v.g., o registro é nulo).
No entanto, no atual direito brasileiro, o princípio da fé pública é atenua
do, uma vez que o registro inválido. ou lastreado em negócio jurídico nulo ou
anulado, e que por tal motivo venha a ser cancelado, não protege o terceiro de
boa-fé. Entre a segurança jurídica da transação imobiliária e o direito do verda
deiro proprietário, optou o legislador brasileiro por privilegiar este último valor.
Conforme foi visto no item 4.3.l, o prejudicado por uma inscrição in
verídica tem ação de retificação contra quem quer que seja, mesmo contra o
terceiro de boa-fé que adquiriu o imóvel a título oneroso. Apenas no caso de
aquisição onerosa de bens hereditários, alienados por herdeiro aparente, é que
a ordem legal tutela o adquirente de boa-fé (arts.1.817e1.827, parágrafo único,
do Código Civil).
Logo, em nosso país, quem compra um imóvel de quem não é dono corre
o risco de perder o bem, ainda que o vendedor apareça no Registro como ti
tular da propriedade. É o caso, por exemplo, de quem compra imóvel de uma
pessoa jurídica cuja falência venha ser decretada logo após, verificando-se que
a alienação fraudava o direito falimentar; ou de terceiro que compra um imóvel
de quem posteriormente é considerado evicto. Mesmo estando de boa-fé ( des
conhecia o estado falimentar ou a evicção ), e confiando no teor do registro, o
adquirente corre o risco de perder a propriedade.
Não obstante, o Código Civil de 2002 inovou ao diminuir o prazo da
usucapião ordinária de dez para cinco anos, quando o imóvel houver sido ad
quirido onerosamente, com base no registro constante do respectivo cartório,
cancelado posteriormente, desde que os possuidores nele tiverem estabelecido
a sua moradia. ou realizado investimento de interesse social e econômico (art.
1.242, parágrafo único).
De qualquer forma, o legislador brasileiro, ao contrário de seus congêneres
espanhol e alemão, não adotou o princípio da fé pública absoluta, em que os
interesses do terceiro de boa-fé e da segurança jurídica das operações imobiliárias
prevalecem sobre o interesse do verdadeiro proprietário do imóvel.
Finalmente, cumpre assentar que a fé pública ampara apenas os direitos
que são inscritos, não os fatos a eles ligados, de forma que a eventual inexatidão
destes não se convalida em favor do titular inscrito, por ficar fora do abrigo do
princípio ora analisado. Sempre que a verdade registra! não coincidir com a
verdade real, o registro deve ser retificado para que reflita aquilo que se verifica
no mundo real.
Título V · REGISTRO DE lMÓVEJS 581
13. PRINCÍPIO DA CONCENTRAÇÃO
Alguns autores denominam "princípio da concentração" a regra abstrata
consagrada no art. 54 da Lei n. 13.097, de 2015, pois dela deriva que todos os
fatos, atos ou situações jurídicas devem ser tornados públicos na matrícula do
imóvel, para que possam ser oponíveis contra o terceiro de boa-fé que adquira
a propriedade ou algum direito real imobiliário. A redação do artigo em exame
assim dispõe:
'l\rt 54. Os negócios jurídicos que tenham por fim constituir, transferir ou
modificar direitos reais sobre imóveis são eficazes em relação a atos jurídicos
precedentes, nas hipóteses em que não tenham sido registradas ou averbadas
na matrícula do imóvel as seguintes informações:
I - registro de citação de ações reais ou pessoais reipersecutórias;
II - averbação, por solicitação do interessado, de constrição judicial, do
ajuizamento de ação de execução ou de fase de cumprimento de sentença,
procedendo-se nos termos previstos do art. 615-A da Lei n° 5.869, de 11 de
janeiro de 1973 - Código de Processo Civil;
III - averbação de restrição administrativa ou convencional ao goro de direitosregistrados, de indisponibilidade ou de outros ônus quando previstos em lei; e
IV - averbação, mediante decisão judicial, da existência de outro tipo de
ação cujos resultados ou responsabilidade patrimonial possam reduzir seu
proprietário à insolvência, nos termos do inciso II do art. 593 da Lei nº 5.869,
de 11 de janeiro de 1973 - Código de Processo Civil.
Parágrafo único. Não poderão ser opostas situações jurídicas não constan
tes da matrícula no Registro de Imóveis, inclusive para fins de evicção, ao
terceiro de boa-fé que adquirir ou receber em garantia direitos reais sobre o
imóvel, ressalvados o disposto nos arts. 129 e 130 da Lei nº 11.101, de 9 de
fevereiro de 2005, e as hipóteses de aquisição e extinção da propriedade que
independam de registro de título de imóvel".
Como se denota da norma, os ônus, encargos e gravames reais, decor
rentes de atos da vontade ou da lei, não afetam o título do adquirente da pro
priedade do imóvel ou outro direito real imobiliário quando não estiverem
inscritos no Registro de Imóveis. O caput do dispositivo legal dispõe que os
"atos jurídicos precedentes'; que não tenham tido acesso à publicidade registrai,
não prejudicam a eficácia dos negócios jurídicos constitutivos, translativos
ou modificativos de direitos reais imobiliários (grifo nosso). Dentre estes
atos jurídicos se encontram as citações de ações reais ou reipersecutórias, as
averbações da existência de execução e de constrições judiciais (penhora e
arresto); as restrições administrativas (v.g. Reserva Legal, indisponibilidades
legais) ou convencionais (v.g. indisponibilidades decorrentes de atos de von-
-
i 58;; REGISTROS PÚBLICOS-TEORIA E PRÁTICA • LuizGui/hermeloureiro
! .-L'----
tade) e outros ônus legais; e, a existência de ações de evicção ou que possam
levar o alienante do imóvel à situação de insolvência, como as ações paulianas
e revocatórias (incisos I, II, III e IV).
Por sua vez, a norma do parágrafo único deste artigo é clara ao dispor
que «não poderão ser opostas situações iurídicas não constantes da matrí
cula no Registro de Imóveis, inclusive para fins de evicção, ao terceiro de
boa-fé que adquirir ·ou receber em garantia direitos reais sobre o imóvel"
(grifo nosso).
Para melhor compreensão dos dispositivos legais contidos no art. 54, e
incisos, da Lei n. 13.097, de 2015, é conveniente relembrar alguns conceitos
essenciais do Direito.
13.1. Conceitos jurídicos essenciais
Ao se referir a "atos jurídicos'; na verdade o legislador se refere à noção
de fato jurídico em sentido amplo. A esta noção essencial se vinculam outras,
igualmente importantes, que se referem aos efeitos produzidos por estes eventos
na ordem jurídica e nas relações entre os sujeitos. Destarte, são três as concepções
essenciais referidas na norma em exame: fato, situação e relação jurídica. Destas
concepções decorrem outras definições de figuras jurídicas citadas direta ou
indiretamente na norma em exame.
13.1.1. Fato jurídico
Fatos jurídicos são todos os acontecimentos aos quais o direito objetivo
atribui como consequência a aquisição, a perda, ou a modificação de um direito
subjetivo. Assim como a vontade do homem não basta por si só para produzir
consequências jurídicas se a lei não as faz depender dela, assim também apenas
a lei não produz nunca por si consequências jurídicas se não se realizam alguns
fatos, como explicitado na antiga máxima ex facto oritur jus. Todos os fatos
voluntários ou involuntários, enquanto produzem consequências jurídicas são
fatos jurídicos.30
Nesse sentido ainda a lição de Enneccerus, para quem fato jurídico é um
fato que tem eficácia ou importância jurídica, aquele que, por si ou junto com
outros, determina um efeito jurídico. O fato jurídico em sentido amplo com
preende o ato jurídico, que é a exteriorização ou atuação da vontade humana e se
distinguem em atos positivos (ou atos em sentido estrito) e negativos, segundo
a vontade se manifeste em um fazer ou em um omitir; e os negócios jurídicos,
que são aqueles atos onde as declarações de vontade, ou seja, as exteriorizações
30. Covlello, N., Doctrina general dei derecho civil, p. 333 e ss.
Titulo V • REGISTRO DE IMÓVEIS
da vontade se dirigem a uma consequência jurídica e a regulam: é a vontade do
negócio o que determina os efeitos jurídicos permitidos pelo direito. 31
Destarte, considera-se como fato jurídico todo evento que seja idôneo,
segundo o nosso ordenamento legal, a produzir efeitos jurídicos. O Direito existe
para tutela a pessoa, de modo que as normas jurídicas são regras de conduta para
tornar possível e aperfeiçoar a vida em sociedade. Para tanto, fatos observáveis
no mundo real, relevantes para o homem, são considerados idôneos pela norma
para a produção de efeitos jurídicos: tais eventos passam a ter releváncia jurídica,
como é o caso, por exemplo, do nascimento com vida, da morte e do exercício
da posse de um bem. Como é cediço, o nascimento faz surgir a personalidade;
a morte implica na transferência dos direitos (v.g. propriedade imobiliária) do
falecido a seus herdeiros; e a posso justa, passado o tempo previsto na norma
legal, tem como consequência a aquisição originaria da propriedade da coisa.
Mesmo os fatos contrários ao direito são juridicamente relevantes: o ato ilícito
gera consequências jurídicas como a responsabilidade civil.
Vale dizer, o fato previsto na norma, uma vez concretizado no mundo
real, torna-se uma realidade jurídica, produzindo os efeitos consagrados no
ordenamento, como aqueles acima exemplificados. O mesmo fato é, a rigor,
juridicamente relevante para mais de um fim. O fato tem, assim, diversa qualifi
cação jurídica, função diferenciada segundo se encaixe em uma ou outra ordem
de interesses normatizada. Por isso a ciência do direito diferencia o fato como
evento natural ou humano, que é sempre um (v.g. morte) e sua qualificação (v.g.
extinção dos direitos personalíssimos, sucessão na propriedade, etc.).
Destarte, é de máxima importância analisar a estrutura e a função do fato
jurídico: identificar o que ou como ele é e para que ele serve. Quanto à estrutura,
o fato pode ser, por exemplo: unilateral ou bilateral; instantãneo, continuativo
ou periódico; simples ou complexo; etc. A função de um fato jurídico pode ser
a constituição ou a eficácia de um direito (v.g. publicidade, forma). a extinção
de obrigação (v.g. quitação) ou sua exigibilidade (v.g. interpelação, notificação,
protesto); a prova de situações jurídicas (v.g. forma).
A estrutura e a função estão relacionadas, de modo que para a realização
de certo fim um fato deve ter uma certa estrutura e não outra: por exemplo, a
função da publicidade jurídica é obtida com o registro (procedimento registrai)
e não com o cadastro; a constituição de direitos reais imobiliários se obtém com
a publicidade registrai imobiliária e não com a inscrição do título no Registro
de Títulos e Documentos; etc.
Pode ocorrer que uma mesma função seja realizada através de várias estrutu
ras. Mas a escolha desta estrutura não é deixada ao arbítrio dos interessados, mas
31. Enneccerus. Derechocivil- parte general, vol. 2, p. 5 e ss.
depende a função do negócio, aqui entendida como síntese dos seus efeitos essenciais
ou, como é mais comum, da concreta situação que se pretende constituir, modificar
ou extinguir.32 Por exemplo, a cessão de direito do devedor fiduciante à propriedade
imobiliária somente é válida com a anuência do credor fiduciária, enquanto a cessão
de direitos deste não depende da manifestação da vontade do primeiro.
No primeiro caso, a ausência de declaração de vontade de terceiro (credor),
por si só, impede a realização do efeito visado na norma legal; no segundo caso
e em outras espécies de cessão de contratos (ex. cessão de promessa de compra
e venda de imóvel loteado) não se exige outra declaração a não ser aquelas do
cedente e cessionário.
Os profissionais do direito, como o notário e o registrador, portanto,devem atender à realidade da ocasião
do parto, o Ministro Sidnei Beneti considerou ser possível a analogia com a Lei
8.560, de 1992, que assegura o direito de alterar o sobrenome materno no termo
de nascimento em razão de casamento (REsp 1.041.751).
178 REGISTROS PÚBLICOS-TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
O próprio interessado pode alterar o nome desde que não prejudique os
apelidos de familia, após completar a maioridade, ou adquirir emancipação, no
prazo decadencial de um ano (v.g., acrescentar sobrenome materno, de avós,
de padrasto, alterar a ordem dos sobrenomes, tradução de nome estrangeiro,
etc.). Passado o prazo, somente pode ser alterado o nome mediante ação judicial
(art. 57, § 8.0
, LRP).
Recentemente, a Lei 11.924/2009 incluiu na Lei de Registros Públicos
(Lei 6.015/1973) a previsão de que um( a) enteado( a) adote o patronímico do
padrasto ou madrasta, valorizando esta espécie de relação afetiva que privilegia
a situação real da familia em que vive o indivíduo.
4.6. Proteção do nome
O Código Civil, no seu art. 17, prevê a proteção ao nome ao dispor:
"o nome da pessoa não pode ser empregado por outrem em publicações ou
representações que a exponham ao desprezo público, ainda quando não haja
intenção difamatória".
O art. 18, por seu turno, explicita que "sem autorização não se pode usar
nome alheio em propaganda comercial''. A lei especial já protege o nome civil,
vedando a utilização do nome de pessoas conhecidas e famosas como marca ou
sinal distintivo e ainda como nome empresarial. O Código Civil veda o uso do
nome em propaganda comercial sem autorização. A interpretação da expressão
"propaganda comercial" deve ser ampla, uma vez que se tem em vista a proteção
de um direito fundamental da pessoa humana.
Destarte, o uso indevido do nome de outrem, com objetivo patrimonial,
deve ser vedado, mesmo porque implicaria enriquecimento sem causa. O Supe·
rior Tribunal de Justiça, em determinado caso concreto, considerou que houve
violação do direito personalíssimo com a utilização, sem autorização, do nome
e título do Cônsul honorário de Grão-Ducado, no lançamento de empreendi
mento imobiliário. Entendeu-se que a ré pretendia tirar proveito econômico da
utilização de nome alheio, de forma a locupletar-se.
O titular do nome pode exigir que cesse a lesão ao seu direito de perso
nalidade e ainda reclamar perdas e danos. Em caso de uso indevido do nome
em propaganda, por exemplo, o interessado pode mover ação em que demande
ao juiz a fixação de multa diária para evitar a lesão ou sua intensificação, sem
prejuízo de perdas e danos.
O pseudônimo goza da mesma proteção legal conferida ao nome, o que
não significa, a nosso ver, que ele substitui o nome nas funções deste último.
Vale dizer, em um documento oficial em que se exige menção ao nome, este
não pode ser substituido pelo pseudônimo a pretexto de que ambos os sinais
usufruam da mesma proteção legal. Da mesma forma, quando se exige a assi-
Título Ili · REGISTRO CIVIL DE PESSOAS JURÍDICAS : 373 '
juiz desconsiderar a existência da pessoa jurídica e responsabilizar diretamente
o patrimônio dos sócios para a devida reparação de danos.
Cumpre observar, porém, que para a aplicação da teoria da desconsidera
ção da personalidade jurídica não basta a mera insolvência da sociedade, mas
é preciso que tenha havido má-fé na utilização da separação patrimonial. Não
havendo comprovação de mau uso ou fraude no gerenciamento da empresa,
prevalece a regra de limitação da responsabilidade do sócio, suportando o credor
o dano daí decorrente (RT 768/349) .
., Capítulo 2. Da associação e entidades afins
1. CONCEITO DE ASSOCIAÇÃO
O conceito legal de associação é dado pelo art. 53 do Código Civil: é uma
união de pessoas que se organizem para fins não econômicos. Associação é
um agrupamento de pessoas, organizado e permanente, para fim lícito ou, em
outras palavras, é um agrupamento de pessoas, duradouro no tempo, que tem
por finalidade um objetivo não econômico. Não se confunde, portanto, com a
outra espécie de pessoa jurídica formada pela reunião de pessoas: a sociedade.
Diferencia ainda da fundação: embora persigam fins não econômicos, a asso
ciação é uma reunião de pessoas, enquanto a fundação é uma reunião de coisas,
ou seja, uma universalidade de bens.
O direito de criar associação é garantido pela Constituição Federal, desde
que, obviamente, tenha fins lícitos (art. 5.0
, XVII). A liberdade de associação
nem sempre foi protegida pelo direito. Na França revolucionária, por exemplo,
considerava-se que a associação era contrária ao interesse comum, pois per
vertia a vontade geral, interpondo entre o indivíduo e o Estado agrupamentos
centrados em torno de interesses particulares.
Foi somente na metade do século XIX que o direito à associação passou a
ser reconhecido nas constituições. Para isso, teve grande importância o pensa
mento de Stuart Mill, segundo o qual o indivíduo era frágil demais para fazer-se
ouvir pelo Estado. Dessa forma, para que o indivíduo pudesse fazer valer o seu
direito e fazer ouvir sua voz pelo Estado, seria imprescindível que ele pudesse
associar-se a outros indivíduos, somando sua força com as destes outros.
1.1. O princípio da liberdade de associação
O princípio da liberdade de associação, constitui um direito fundamental
da pessoa humana, de forma que não pode ser contrariado pela lei infraconsti
tucional. Em decorrência desse princípio, e conforme previsto expressamente
374 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA Luiz Guilherme Loureiro
na nossa Lei Maior. não há necessidade de autorização estatal para a criação das
associações, e estas somente poderão ser compulsoriamente dissolvidas ou ter
suas atividades suspensas por decisão judicial, transitada em julgado (art. 5.0
,
XVIII e XIX, CF). A lei pode estabelecer requisitos para a instituição de uma
associação, desde que não implique interferência arbitrária do Poder executivo
na vida associativa.
Nesse sentido, já decidiu o Superior Tribunal de Justiça que: "A Constitui
ção assegura plena liberdade de associação. Não podem prevalecer as restrições
da Lei 6.251/1975 face à Constituição Federal de 1988. Ninguém é obrigado a
associar-se ou a permanecer associado. As associações são dotadas de autono
mia de organização e funcionamento" (MS 1.291-0/DF - J.• Seção - Rei. Min.
Milton Luiz Pereira - Ementário STJ 9 /314 ).
Logo, ninguém poderá ser compelido a associar-se ou a permanecer as
sociado. Ainda que se trate de associação profissional ou sindicato, não pode
o empregado ou aquele que exerce determinada profissão ser compelido a
tornar-se membro. A liberdade de associação profissional e sindical constitui
princípio constitucional e favorece o fortalecimento das categorias profissionais.
Em suma, segundo o princípio da liberdade associativa, portanto, as pessoas
podem livremente constituir uma associação (ou sindicato), sem necessidade
de autorização e sem interferência na vida associativa. Esta apenas será extinta
por vontade das partes ou então por força de decisão judicial transitada em
julgado. As pessoas são livres para agruparem-se em associações ou mesmo
para se negarem a associar-se.
Na associação, não há entre os associados direitos e obrigações recíprocos.
Isso não quer dizer que os associados não tenham direitos. O próprio Código
Civil reconhece a eles o direito de voto e outros direitos e deveres atribuídos pelo
estatuto, mas estes direitos e deveres não são recíprocos entre os associados, e
sim oponíveis em face da associação.
Também nesse aspecto a associação se distingue da sociedade. O registro
do contrato social produz duas espécies de efeitos: cria uma pessoa jurídica - a
sociedade - titular de direitos e obrigações perante os sócios e estabelece um
vínculo jurídico entre estes, com direitos e deveres recíprocos. Já o registro da
associação dá ensejo tão somente a um vínculo jurídico entre a pessoa jurídica
e os associados,devem
qualificar corretamente o negócio jurídico, identificando o interesse a ser tute
lado e a estrutura a ser observada para a obtenção do efeito legal. Qualificação,
portanto, é a individuação da relevância jurídica do fato e, consequentemente,
da normal legal aplicável.
13.1.2. Situação jurídica
A situação não se confunde com o fato: este é um fenômeno concreto, um
"ser"; enquanto aquela é um "dever ser". Por exemplo, da assinatura de uma nota
promissória (fato) surge, por força da norma legal, um efeito, que é a obrigação
de pagar a soma em dinheiro escrita na cártula. A obrigação de pagar (conduta
prevista na lei) não é o pagamento. A obrigação é um efeito que deriva da emis
são da nota promissória, enquanto o pagamento é um fato, cuja concretização
ou não resulta em outros efeitos jurídicos distintos (extinção da obrigação ou
surgimento da pretensão à execução forçada).
Os efeitos que decorrem da concretização de um evento regulado pela lei
constituem a noção de situação jurídica. Vale dizer, a situação jurídica é um
gê?ero que compreende as várias modalidades de efeito que podem decorrer
de um fato jurídico, como a constituição, modificação ou extinção de direitos,
deveres, obrigações, etc. Estas situações jurídicas relevantes surgem da conjunção
da norma jurídica com o fato concreto. Elas decorrem da aplicação da norma
abstrata sobre o fato efetivamente realizado. Trata-se sempre de situações sub
jetivas juridicamente relevantes, tais como, de um lado, o direito subjetivo, o
poder jurídico, a faculdade, o privilégio (situações jurídicas ativas) e, de outro,
o dever, a obrigação, a sujeição, (situações jurídicas passivas), o ônus, etc.
Em outros termos, a situação jurídica é o efeito previsto pelo ordenamento
que deflui da concretização de um dado evento natural ou humano: toda situação
32. V. Pertingieri, Perfis do direito civi1, p. 94 e ss.
Titulo V • REGISTRO DE IMÓVEIS
jurídica encontra sua origem num fato, voluntario ou natural, que o ordenamento
considera relevante e por isso estabelece urna especial tutela.
Assim, é possível falar em situação jurídica em sentido amplo e em sen
tido restrito. Em sentido amplo, a situação jurídica é a resultante universal da
aplicação de urna norma jurídica e, neste aspecto, pode haver situação jurídica
mesmo que não se trate de situações de um sujeito: a norma jurídica existe para
ser aplicada e existem normas que não se relacionam especificamente a pessoas,
isso é, não valoram posições de sujeitos; como é o caso da norma meramente
qualificativa de uma coisa como imóvel ou infungivel.33 Por sua vez, em sentido
restrito, as situações jllrídicas se referem a uma situação subjetiva, ou seja, são
situações de pessoas, resultantes da valoração que o ordenamento empresta
aos efeitos de determinados fatos jurídicos. São estas as situações jurídicas que
levamos em consideração para a compreensão da norma em exame.
Na lição de Oliveira Ascensão, "situações jurídicas são situações de pes
soas, resultantes da valoração histórica da ordem jurídica": a norma jurídica
se exprime, no ponto de vista formal ou técnico, pela modelação de situações
jurídicas subjetivas. 34 Sob este aspecto, as situações jurídicas são urna realidade
normativa. Elas resultam da aplicação de uma ou mais normas, mas não se
confundem com as normas aplicadas, pois se passa de uma disciplina geral e
abstrata, para uma regulação individual e concreta.
Do ponto de vista objetivo, portanto, a situação é um interesse que se con
cretiza, em regra, na esfera de um sujeito e tem natureza patrimonial, pessoal
ou existencial, ou todos eles em conjunto. Embora a regra seja objetiva, com a
verificação de situações reais correspondentes à sua fattispecie (previsão abs
trata), ela se toma subjetiva e se concretiza na esfera jurídica do destinatário:
surgem então as diversas situações jurídicas, cujo conteúdo depende de vários
elementos, inclusive da identidade do sujeito titular de tais situações (v.g.
verificando-se um ato ilícito, surge para a vítima um direito à indenização, cujo
montante vai depender de vários fatores, inclusive de sua identidade subjetiva:
menor, trabalhador, idoso, pessoa com deficiência, etc.).
As situações subjetivas podem ser consideradas sob dois aspectos: o fun
cional e o normativo ou regulamentar. O ordenamento atribui a cada situação
subjetiva uma função social. Existem situações que são funções sociais e outras
que "tem" função social. No ordenamento o interesse é tutelado apenas enquanto
atende não apenas o interesse do particular, mas também àquele da coletividade.
Na maior parte das vezes, portanto, o interesse dá lugar a uma situação jurídica
complexa, composta tanto de poderes, quanto de deveres, obrigações, ônus.35
33. Oliveira Ascensão, Teoria gera/: relações e situações jurídicas, p. 10.
34. Ob. cit., p. 11.
35. Perlingieri, ab. cit., p. 107.
-
--·
O segundo aspecto da situação subjetiva é o normativo ou regulamentar.
A juridicidade traduz-se no poder de realizar ou de exigir que outros realizem
(ou se abstenham de realizar) determinados atos e encontra confirmação em
princípios e regras jurídicas. Nesse aspecto, a situação constitui uma norma de
conduta que pode significar a atribuição ao sujeito - no interesse próprio ou
de terceiro - do poder às vezes de realizar, outras vezes de não realizar deter
minadas atividades ou atos.
O sujeito não é essencial para a existência da situação jurídica, podendo
apenas existir interesses e, portanto, situações que são tituladas pelo direito
apesar de não terem ainda um titular (v.g. doação ao nascituro, expectativas de
direito, etc.). Logo, o sujeito não é parte imanente da situação jurídica e esta
constitui um interesse ou centro de interesses mais ou menos complexo.
Em suma, toda situação jurídica tem por origem a concretização de um
evento juridicamente relevante. Trata-se dos efeitos do fato jurídico, natural ou
humano, lícito ou ilícito; efeitos, estes, tutelados pelo ordenamento por serem
relevantes para a pessoa e para a coletividade (função social). A princípio, da
concretização do evento regulado pela norma (v.g. nascimento) surge uma si
tuação subjetiva complexa, isso é, direitos subjetivos, deveres, obrigações, ônus,
etc.; e não apenas direitos ou deveres.
Por isso a doutrina classifica as situações jurídicas em simples e complexas.
Estas podem ser unissubjetivas ou plurissubjetivas como é o caso das relações
jurídicas, conforme sejam da titularidade de um ou mais sujeitos. Outras clas
sificações distinguem as situações jurídicas em ativas e passivas, distinção, esta,
de grande utilidade na análise das situações jurídicas elementares ou unissub
jetivas; e pessoais e patrimoniais, conforme tenham ou não valor econômico.
Em suma, quando uma norma, a fattíspecie abstrata, incide sobre um fato
concreto, produz-se um efeito; o interesse previsto na norma traduz-se no inte
resse objetivo do destinatário da lei, que pode lhe conferir uma posição ativa ou
de vantagem - tais como direitos subjetivos, poderes e faculdades - ou impor-lhe
situações passivas complexas: deveres genéricos, obrigações, sujeições e deveres
funcionais. Em outras palavras, a situação jurídica em sentido estrito (situação
subjetiva) é um gênero que compreende várias espécies: direitos subjetivos, po
deres, faculdades, privilégios, deveres, obrigações, encargos, ônus, sujeições, etc.
No mais das vezes, de um dado fato jurídico não surge apenas um efeito,
como o nascimento de um direito subjetivo, mas vários efeitos ou situações jurí
dicas. O registro de uma escritura de compra e venda, por exemplo, faz surgir a
propriedade imobiliária e dá origem não só ao direito subjetivo de propriedade,
às faculdades de usar, gozar e dispor, ao poder de reivindicar o imóvel das mãos
de quem quer se encontre; mas também aos deveres, obrigações e sujeições daí
decorrentes (função social, relações de vizinhança, obrigações tributárias, etc.).Da relação destas situações jurídicas e o sujeito (ou outro centro de interesses
previsto na lei) surge a noção de titularidade.
13.1.3. Titularidade
Titularidade é a ligação entre situação e sujeito ou, mais exatamente, entre
a situação e objeto. As situações jurídicas quase sempre são de titularidade de
um sujeito (pessoa ou sujeito de direito), mas existem situações tuteladas pelo
ordenamento que não possuem um titular: nossa ordem jurídica tutela interesses
do nascituro e estabelece direitos, deveres, obrigações e outras situações jurídicas
referentes a entes despersonalizados (v.g. sociedade em conta de participação,
espolio, massa falida, etc.).
Um exemplo claro de situação jurídica que não recai sobre um sujeito é a
responsabilidade pelas obrigações de imposto predial urbano e taxas imobiliá
rias devidas pelo antigo proprietário na aquisição da propriedade por meio de
arrematação judicial do imóvel. Em tal hipótese a responsabilidade tributaria
não recai no adquirente (arrematante), mas sim no preço da arrematação (art.
130, par. único, CTN). O dinheiro depositado e não a pessoa do sucessor é que
responde pela obrigação.
Daí que a titularidade quase sempre é a relação entre sujeito e situação
jurídica, mas pode também recair sobre um objeto ou ente sem personalidade,
como vimos acima. De qualquer forma, a titularidade se apresenta de diversas
formas: pode ser atual ou potencial (v.g. expectativa de direito); substancial
ou formal; ocasional ou institucional. A titularidade é atual quando existente
e imediatamente relevante. É potencial quando ainda não existe o título para
a aquisição da titularidade definitiva: o sujeito ainda não é titular da situação,
mas já possui um título para adquirida. É o caso da compra e venda com condi
ção resolutiva e da propriedade fiduciária: o devedor fiduciante já tem o título
para adquirir a propriedade, mas a aquisição de tal direito está condicionada
ao pagamento integral do preço ajustado.
A titularidade ocasional existe nas hipóteses em que uma situação pode
pertencer ou se vincular a um sujeito qualquer, ou seja, o sujeito é ilimitadamente
infungível. A titularidade institucional ou orgânica, ao contrário, é aquela que
não pode ser adquirida por outros sujeitos, pois vindo a faltar o titular originário,
a situação se extingue (v.g. direitos intuito personae', direito ao nome, imagem
e outros direitos personalíssimos, etc.).
Outra distinção se refere à titularidade substancial e formal e se refere à
quantidade de poder que um determinado sujeito tem em relação ao bem. Tal
distinção é relevante sobretudo no direito de propriedade. Por exemplo, nos
casos de instituição de direitos reais de usufruto e também na enfiteuse, o pro
prietário é o titular formal da situação proprietária, cabendo-lhe o a faculdade
is~-;: REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
L------·----~- -------- , ___ _
ou poder de disposição, a tutela da propriedade e a expectativa de retornar à
propriedade plena; e o usufrutuário ou enfiteuta tem o domínio substancial,
isso é, é o titular das faculdades de usar e gozar.
Finalmente, a titularidade pode ser temporânea e não temporânea. Tem
porânea é aquela titularidade exercida por um tempo determinado, ou mesmo
indeterminado mas não perene ou perpetuo (v.g. usufruto). Ao contrário, a não
temporânea é titularidade de uma situação tendencialmente de tempo indefinido,
como a propriedade e a servidão.
13.1.4. Título
Outro conceito importante para nosso estudo é o de título, por ser dire
tamente relacionada à função da situação jurídica. Para a doutrina tradicional
título jurídico é o fato ou conjunto de fatos que dá lugar à aquisição ou consti
tuição de um direito, ou seja, o fundamento do direito ou também seu modo de
aquisição. Vários autores, entretanto, distinguem "título" da "fonte" da relação
ou situação jurídica.
Segundo esta orientação, fonte é o fato que dá causa á relação ou situação,
enquanto título é a causa ou razão que a justifica e a caracteriza. Com efeito,
na usucapião a fonte é a mesma - a posse do bem como se dono fosse - mas
o titulo pode ser diverso: pode existir um "justo título" ou não. Por exemplo,
a aquisição originaria pode ter por título a compra a non domino por terceiro
de boa-fé que confia no registro imobiliário (registro que é nulo), ou seja, pode
decorrer da usucapião ordinária. Mas também é possível a usucapião sem justo
título, desde que se trate de posse justa exercida pelo tempo previsto em lei sem
interrupção.
Na primeira hipótese, a denominada usucapião favor tabulas, o terceiro de
boa-fé que registra a escritura de compra e venda pode ver o seu título anulado
em ação de evicção proposta pelo verdadeiro dono, pessoa diversa daquela que
lhe vendeu o imóvel. No entanto, se o registro tiver sido feito há mais de cinco
anos, considera-se que houve usucapião pois a inscrição comprova a posse de
boa-fé ininterrupta pelo decurso do prazo legal. Nesta hipótese, embora a causa
da aquisição da propriedade seja a mesma (registro), o título é diverso: não é
mais o negócio jurídico (escritura de compra e venda), uma vez que é nulo, mas
a lei. A aquisição da propriedade não é derivada, mas originaria.
De qualquer forma, entre fonte e título existe uma estreita vinculação, de
modo que em geral são considerados sinônimos como se percebe da definição
tradicional de título jurídico acima apresentada.
Em tema de direito real nosso ordenamento seguiu o modelo do direito
romano e tem importância a distinção entre titulo e modo de aquisição de um
direito real como a propriedade: o contrato faz surgir um direito pessoal ao
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
·~~~~~· ·~~~--~~-
domínio, mas este apenas se adquire efetivamente com a tradição do bem (coisa
móvel) ou com o registro do título (coisa imóvel - art. 1.245, CC). Assim, nosso
ordenamento seguiu o sistema do título e modo em matéria de aquisição da
propriedade e outros direitos reais.
13.1.5. Relação jurídica
A relação jurídica é uma relação de sujeitos regulada pela norma. Mas
há hipóteses em que em um polo da relação está um sujeito indeterminado,
tal como ocorre nas relações jurídicas-reais, sobretudo a propriedade. A pro
priedade é a relação entre uma pessoa e uma coisa, na qual o primeiro retira
monopolisticamente certas utilidades do bem. Mas se existe um sujeito que é
titular de uma relação de propriedade, existe também, de outra parte, um sujeito
não determinado, mas a coletividade, que tem o dever de respeita-la. Em outras
hipóteses, existe uma relação entre centros de interesses determinados (relações
ou situações com estrutura interna), mas o sujeito titular de uma ou ambas as
situações não existem ainda. Se a atualidade do sujeito não é essencial à existên
cia da situação, significa que pode existir uma relação juridicamente relevante
entre dois ou mais centros de interesses, sem que ela traduza necessariamente
em relação entre sujeitos. Exemplo é a aceitação da herança com benefício do
inventario: os dois patrimônios não se confundem. O herdeiro pode ser credor
do de cujus. A obrigação não se extingue pelo fato de o credor e o devedor se
reúnam na pessoa de um só sujeito - o herdeiro, mas continua a existir junto
com as duas distintas responsabilidades patrimoniais. A situação ativa e a passiva
continuam a existir embora o titular seja o mesmo sujeito, junto com as duas
distintas responsabilidades patrimoniais. 36
13.2. Efeitos das situações jurídicas que influem na propriedade
Destarte de acordo com as normas supracitadas, qualquer que seja a
situação jurídica passiva, somente será oponível ao adquirente do imóvel se o
respectivo título ou ato tiver sido levado à publicidade registrai. Estas situações,
como se constata de sua noção e da norma do art. 54 da Lei n. 13.097, são das
mais diversas índoles. Ao tratar de "atos jurídicos': o caput da norma em exame
se refere, em regra, aos direitos reais imobiliários,sobretudo os denominados
direitos limitativos da propriedade que alguns doutrinadores também chamam
de ônus reais, tais como os direitos reais de uso e gozo sobre bens de outrem
(usufruto, servidão, superfície), os direitos reais de garantia (alienação fidu
ciária, hipoteca, anticrese) e os direitos reais de aquisição (compromissos de
compra e venda).
36. Nesse sentido, v. Perlingieri, ob. dt., p. 114.
'
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
----------·----------
Para ser mais exato, a ausência de registro dos respectivos títulos, nos ne
gócios jurídicos entre vivos, implica na não existência de tais direitos reais em
favor de terceiros, de forma que não há se falar em ineficácia face ao registro
superveniente do titulo de terceiro de boa-fé, mas sim em inexistência de qual
quer ato, título ou direito contrário ou incompatível com aquele incorporado no
título inscrito. A propriedade e os direitos reais de uso e gozo também podem ser
transferidos por ato causa mortis e, neste caso, o registro do formal de partilha
ou escritura de inventário e partilha (ou adjudicação) não tem efeito constitutivo,
mas simplesmente declarativo. Aí sim, o direito real existe independentemente
do registro, mas a ausência da inscrição do título respectivo importa na ineficácia
do direito o.u ônus real em face do terceiro de boa-fé.
As situações jurídicas mencionadas nos incisos II a IV do art. 54 constituem
situações subjetivas passivas que limitam ou restringem posição jurídica do
titular da propriedade ou de outro direito real imobiliário, tais como os deveres
genéricos, obrigações, sujeições e deveres funcionais. Estas situações passivas
implicam em vinculações ou adstrições de três ordens: débitos, sujeições e
ônus (aspecto passivo). Os débitos não se confundem com as obrigações, que
são figurar autônomas e complexas correspondentes aos créditos. Os débitos
são vínculos elementares que entram na composição de situações jurídicas
complexas, podendo inclusive surgir em direitos não creditícios: o dever do
proprietário de imóvel rural de preservar a mata nativa e de não prejudicar
direitos que terceiros tenham obtido por justo título são débitos integrados ao
direito de propriedade.
As sujeições são figuras autônomas que se contrapõem a outras figuras
autônomas como o poder (potestas) e os ônus. Por exemplo, o poder do pro
prietário de reivindicar o imóvel, inclusive por meio de ação de evicção, não é
um direito potestativo. não tem autonomia, mas é um mero aspecto do direito
de propriedade. A contrapartida deste poder é a sujeição, pois o terceiro (v.g.
evicto) nada pode fazer diante de tal situação. Tal situação de sujeição também
corresponde à posição passiva do executado ou terceiro adquirente do imóvel
em face do credor exequente que averba a penhora do imóvel no Registro de
Imóveis. Este tem o "ônus" de averbar a penhora, isso é, deve suportar um
sacrifício para obter um resultado favorável previsto em lei: a presunção erga
omnes de presunção de que o adquirente conhecia a existência da constrição
judicial e, portanto, a alienação do imóvel, embora válida, não produz efeitos
face ao exequente (fraude à execução).
Assim, o adquirente do imóvel que registra seu título (titular registrai) pode
encontrar-se em situação de débito ou sujeição em relação ao verdadeiro dono
( v.g. evictor) ou a qualquer outro terceiro em relação ao negócio jurídico que
celebrou com o alienante (antigo titular registrai}- pessoa física ou jurídica, de
direito privado ou público - que tenha, em virtude de ato de vontade ou de lei,
Titulo V • REGISTRO DE IMÓVEIS 591 .
uma situação ativa de poder sobre o imóvel. No entanto, por força das normas
em exame ( art. 54 e incisos I a IV), para que sejam oponíveis ao novo titular da
situação real imobiliária e tornem ineficaz o negócio jurídico ou direito inscrito,
os títulos ou fontes (fatos jurídicos em sentido amplo) de tais situações passivas
devem ser previamente registradas ou averbadas. Sem que o interessado cumpra
o ônus da inscrição, não poderá se valer da posição jurídica de vantagem em
face do titular registra!.
O parágrafo único do art. 54 vai na mesma direção, ainda com maior força
e amplitude. Segundo tal dispositivo legal, não poderão ser opostas situações
jurídicas não constantes da matrícula no Registro de Imóveis ao adquirente de
boa-fé, assim considerado aquele que adquire a propriedade ou outro diréito
real imobiliário confiando na exatidão das informações publicadas na matrícula
do imóvel, as quais não incluem a existência de tais situações subjetivas ativas
e passivas.
Em outras palavras, em caso de não averbação da penhora, não poderá a
venda do imóvel do executado ao terceiro de boa-fé considerada ineficaz face ao
credor exequente. Inexistindo inscrição de hipoteca, usufruto, etc., o adquirente
recebe a propriedade livre destes ônus. A indisponibilidade do imóvel não pode
ser alegada pelo interessado se ele não providenciou a inscrição da cláusula
de inalienabilidade, da penhora em execução fiscal ou da hipoteca cedular.
As obrigações referentes a créditos tributários e condominiais não poderão
ser cobradas do novo proprietário se inexistir registro (em sentido amplo) da
existência das ações ou das constrições judiciais respectivas.
O mesmo sucede com a sucessão nas obrigações reais, na sujeição ao
poder do verdadeiro proprietário ou titular de direito real imobiliário (diverso
do titular registra! que alienou o bem) e, enfim, com quaisquer outras situações
subjetivas: nenhum direito, poder ou faculdade de terceiro estranho ao Registro
é oponível contra o adquirente do imóvel que registra seu título; e este não pode
ser considerado sujeito a um dever, obrigação, responsabilidade ou outra situa
ção passiva cujo título ou fonte não tiver sido objeto de registro ou averbação
no fólio real. Da mesma forma, nenhum ônus, gravame ou encargo decorrente
de fato, ato ou relação jurídica anterior pode recair sobre a propriedade imo
biliária do terceiro de boa-fé, ou seja, daquele que, confiando nas informações
constantes do Registro - que não davam conhecimento ou cognoscibilidade de
tais situações - adquire o imóvel.
13.3. O princípio da concentração como corolário da publicidade
registrai
Na verdade, a norma legal não traz nenhuma inovação no sistema de
Registro de Imóveis. Esta instituição foi criada, como vimos, com uma estru-
tura e função voltadas para a segurança jurídica, a validade e eficácia dos atos,
negócios jurídicos e direitos de natureza real ou que de qualquer modo incidem
na situação proprietária do titular registrai.
O caput do art. 54 de Lei 13.097, ao dispor que os "atos jurídicos" anteriores
que não tenham sido registrados não "prejudicam a eficácia dos negócios jurídi
cos constitutivos, translativos ou modificativos de direitos reais imobiliários': o
que significa dizer que não são oponíveis contra o novo proprietário ou titular
registrai de direitos reais sobre o imóvel. A expressão "atos jurídicos'', como
se depreende da interpretação literal, teleológica e sistemática do dispositivo,
é utilizada em sentido amplo, abrangendo também os negócios jurídicos que
constituem os títulos para a constituição, modificação ou extinção dos direitos
em geral.
Como vimos acima, sem o registro deste título, quando se trata de relação
jurídica entre vivos, o direito real sequer existe, uma que nosso Direito segue
o sistema do título e modo. Os direitos reais imobiliários apenas são adquiri
dos - nos atos entre vivos - pelo registro do título (art. 1.245, CC). Na falta do
registro imobiliário, portanto, não há se falar em ineficácia, mas em inexistên
cia do direito real. No caso de outros atos ou negócios jurídicos que afetam a
situação proprietária, como o testamento com cláusula de inalienabilidade, aí
sim, a falta de acesso à publicidade registrai implica na sua ineficácia face ao
adquirente do imóvel.
Na hipótese desucessão causa mortis, a propriedade e outros direitos
são transmitidos com a morte do titular e o registro é apenas declarativo. De
qualquer forma, a ausência de registro do formal de partilha impede que qual
quer direito seja oposto ao novo proprietário. Na prática, tal hipótese é difícil
de concretizar, no que tange à propriedade (ou outro direito real) por meio do
registro, o adquirente deve ter o título outorgado pelo falecido (princípios da
disponibilidade ou legitimidade e da continuidade) e tal negócio obriga não
apenas o alienante, como seus sucessores.
Destarte, o art. 54 da Lei 13.097, de 2015, apenas reafirma e reforça o
princípio da publicidade e seus efeitos materiais e formais. Apenas existem, para
fins de oponibilidade a terceiros, aqueles fatos, títulos ou direitos efetivamente
inscritos no Registro de Imóveis, ou, segundo um antigo bordão, "o que não
existe no registro, não existe no mundo': Esta consequência decorre do fato
de o terceiro não ter tido a oportunidade de conhecer a existência de ônus ou
gravame que, se fosse de seu conhecimento, o faria desistir do negócio jurídico
ou contrata-lo em termos e condições diversas.
Em um novo contexto mundial de competição dos Direitos pela atração de
investimentos estrangeíros e estabilidade do ambiente de negócios, fomentada pela
divulgação de índices de desempenho econômico dos diversos países por parte
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
,-
' 593
~ .•.•....
de instituições internacionais (v.g. Relatório Doing Businnes do Banco Mundial),
o legislador claramente optou por tornar mais claros os efeitos da publicidade
registra! e diminuir os riscos e os custos de transação nos mercados imobiliário
e creditício. Tanto é que a mesma Lei 13.097 (art. 59), alterou a Lei 7.433, de 1985
(lei da escritura pública), para suprir a exigência de cer.tidões judiciais e de outra
natureza pelo tabelião de notas, por ocasião da lavratura de escrituras públicas,
com exceção daquelas referentes ao pagamento do tributo cabível e à matrícula do
imóvel. Ou seja, para a pesquisa de externalidades que podem afetar as transações
imobiliárias, basta a consulta à matrícula do imóvel não sendo mais necessária
quálquer busca de documentos em outros arquivos, registros ou cadastros. salvo
no caso de expressa determinação legal em contrário (v.g. certidões fiscais para
a lavratura de escritura pública de inventário e partilha).
13.4. Exceções à regra do art. 54 da Lei n. 13.097
Cumpre observar que a norma em exame apenas afirma que as situações
jurídicas pretéritas não são oponíveis ao adquirente do imóvel ou novo titular
de direitos reais imobiliárias, quando não estiverem averbadas ou registradas
na matrícula do imóvel em questão. Daí decorre que as situações jurídicas
nascidas da situação proprietária ou do direito real imobiliário do novo titular
obviamente produzem consequências ativas e passivas, como vimos acima, na
sua posição jurídica.
As outras exceções previstas no seu parágrafo único do art. 54, referem-se às
hipóteses de aquisição e extinção da propriedade que independam de registro de
título de imóvel e os fatos previstos nos artigos 129 e 130 da Lei 11.101, de 2005.
Logo, as situações jurídicas como a aquisição originaria da propriedade
ou outro direito real imobiliário podem ser opostas contra o novo adquirente
do imóvel, ainda que não exista informação de ação de usucapião ou de outra
medida na matrícula do imóvel Em tais hipóteses o direito é adquirido ex novo,
como se não existisse quálquer outro direito ou situação jurídica sobre o imóvel.
Destarte, tal norma não pode ser oposta aos imóveis de domínio público, como
os adquiridos por desapropriação direta ou indireta e os terrenos de marinha,
por exemplo.
Também são eficazes em relação ao novo adquirente, ainda que não
publicados no Rl, as situações jurídicas nascidas com o fato da insolvência
do empresário ou sociedade empresaria, tais como a fraude à execução ou a
fraude ao credor caracterizada pela alienação ou oneração de imóvel da massa
falida, ainda que não tenha existido a intenção de fraudar credores (art. 129, Lei
11.101). Em outras palavras, não produzem efeitos em relação à massa falida
os registros de direitos reais e de transferência de propriedade entre vivos, por
título oneroso ou gratuito, ou a averbação relativa a imóveis realizados após a
Título VI • TABELIONATO DE NOTAS 1021
manifestar, com a aposição de suas firmas, sua concordância com conteúdo do
documento notarial.
Como afirmamos acima, todos esses atos devem se dar em uma única
audiência, de forma contínua em uma mesma dimensão temporal e espacial.
É o que se infere da leitura do art. 215 do Código Civil, cujos incisos apresen
tam as etapas a serem cumpridas em uma mesma data e lugar. Essa dimensão
espaço-temporal em que se dá a identificação e juízo de capacidade das partes,
lavratura, leitura, homologação e autorização da escritura pública, isto é, em que
a vontade negocial é plasmada no documento notarial, é denominada unidade
do ato ou audiência única.
Por força desse princípio, consagrado no art. 215 do Código Civil, todos os
atos supracitados devem ser simultâneos, ou seja, observar uma mesma dimen
são temporal. Não obstante, alguns regramentos normativos estaduais, como
é o caso do Rio Grande do Sul, de Pernambuco e de São Paulo, admitem que
a escritura pública seja assinada pelas partes em momentos distintos e mesmo
em datas distintas. A nosso ver, tais normas administrativas violam o disposto
no art. 215 do Código Civil e mais que ilegais, são inconstitucionais, uma vez a
competência para legislar sobre direito civil e registros públicos (neles incluída
a disciplina legal notarial) é exclusiva da União.
Ainda que entendamos conveniente a assinatura em momentos distintos,
em face das atribulações da vida moderna e da quantidade de partes que podem
figurar em um negócio jurídico solene (v.g., escritura e inventário e partilha
com vários herdeiros), o tema da audiência única ou unidade temporal deve
ser disciplinado por lei formal federal e não por regulamento administrativo,
que não pode exceder ou inovar a norma legal e tampouco dizer o que o texto
de lei não diz.
De qualquer forma, na hipótese de assinaturas das partes em momentos ou
datas distintos, por ocasião de cada firma. a escritura deve ser lida em voz alta
pelo notário ou pela parte em questão (homologação), sendo feita menção de
tudo no corpo do documento notarial, sob pena de responsabilidade do notário
que sempre será o último a assinar, encerrando o ato. Vale dizer, o notário não
pode apor sua assinatura enquanto não houver a homologação (assinatura) por
todos os participes do ato. Voltaremos a tratar do tema de modo mais apro
fundado ao analisarmos a audiência notarial ou princípio da unicidade do ato.
~ Capítulo 2, Princípios notariais
Princípios são as regras basilares de um ordenamento jurídico ou de parte
de um determinado ramo do direito. Geralmente, são criados pela doutrina e
1022 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
inferidos de normas jurídicas expressas nos textos legais. Nada impede, con
tudo, que sejam expressamente previstos em lei, como é o caso dos princípios
da publicidade e da segurança jurídica (art. 1° da Lei 8.935/1994). Servem não
apenas para auxiliar na interpretação e na integração do ordenamento, como
também para nortear a conduta do legislador (na edição de novas leis) e dos
operadores do direito, como o notário e o registrador. Os princípios mais rele
vantes são os seguintes:
L PRINCÍPIO DA FÉ PÚBLICA
A fé pública pode ser definida como a autoridade legítima atribuída aos no
tários - e a outros agentes públicos como o juiz, o registrador e os cônsules, dentre
outros - para que os documentos que autorizam em devida forma sejam conside
rados como autênticos e verdadeiros, até prova em contrário. Em outras palavras, a
fé pública é verdade, confiança ou autoridade quea lei atribui aos notários (e outros
agentes públicos) no que concerne à verificação ou atestação de fatos, atos e contratos
ocorridos ou produzidos em sua presença ou com sua participação.
Este princípio é tão importante que se confunde com a própria função do
notário e sua expressão laudatória é utilizada como lema deste profissional do
direito: Nihi/ prius fide (nada antes que a fé).
Nesse contexto, a lei brasileira dispõe expressamente que o notário é o
profissional do direito, dotado de fé pública, podendo autentificar fatos, re
conhecer firmas e autenticar documentos (arts. 3°, 6°, inciso III e 7°, incisos
IV e V, da Lei 8.935/1994). Destarte, a fé pública se traduz na confiança que
tem uma coletividade com relação a esses atos e documentos, de forma que é
vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios recusar fé
aos documentos públicos, dentre os quais aqueles elaborados ou autenticados
pelo notário, salvo prova de falsidade (art. 19, II, da CF).
Por força deste princípio, os instrumentos públicos notariais somente po
dem ser tachados de nulos ou falsos após um procedimento judicial que assim
o declare. A nosso ver, em tais demandas o notário que autenticou o fato ou
outorgou o documento deve ocupar o polo passivo da ação, já que tem interes
se em defender a legalidade de seu ato e evitar responsabilização por perdas e
danos. No entanto, tal cuidado não é observado na prática judicial brasileira e
tampouco é analisado com maior profundidade por nossa doutrina.
2. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE OU DO CONTROLE DA
LEGALIDADE
O princípio da legalidade se aplica em todos os ramos do direito e rege a
ação de todos os agentes públicos, uma vez que a noção de legalidade aponta
Título VI • TABELIONATO DE NOTAS 1023
a adequação de uma determinada conduta a uma norma predeterminada. O
princípio da legalidade pode ser definido simplesmente como a submissão da
Administração ao Direito. As fontes desse princípio foram progressivamente.
diversificadas e sua eficácia é assegurada pelo controle da legalidade dos atos
administrativos realizado pelo Judiciário.
Tradicionalmente o princípio da legalidade decorre da lei como fonte
primordial do Direito, ou seja, do denominado princípio da primazia da lei
cunhado no século XIX, com o início do processo de codificação das normas
jurídicas, que foi inaugurado com a publicação do Código Civil francês de 1804,
o chamado Código de Napoleão.
Nos tratados clássicos sobre a teoria do Direito e mesmo nos manuais
atuais, a lei serve como parâmetro para a classificação hierárquica das demais
fontes: abaixo dela estão a jurisprudência, os costumes e os regulamentos e os
atos de execução da norma e, acima, encontramos a Constituição.
Mas se a lei antes era o ponto no qual os eixos se cruzam (demais fontes
jurídicas), hoje se observa uma reorientação das ordens jurídicas nacionais, entre
as quais a brasileira, em torno do eixo da constitucionalidade que, na verdade,
possui um vínculo de complementaridade com a legalidade.
Com efeito, o advento das modernas constituições de natureza normativa,
com reflexo direto e imediato na regulação das situações jurídicas das mais
diversas áreas do Direito (direito civil, administrativo, processual, etc.), implica
em uma reavaliação da lei como ponto central do sistema de fontes jurídicas.
Essa nova organização do sistema de fontes substitui aquela que existia antes
e podia ser representada como um sistema de degraus, em que a lei é colocada
ao centro e as outras fontes tiram sua força normativa da lei que reenvia, ela
própria, a outras fontes. Assim, a lei era praticamente a única verdadeira fonte do
direito, ou, dito de outra maneira, a fonte das fontes. Por outro lado, atualmente,
mesmo que a lei continue no centro do sistema, os efeitos jurídicos das outras
fontes não dependem mais dela (ou apenas dela), mas dependem, sobretudo, da
Constituição. Por consequência, a Constituição regulamenta essencialmente o
sistema de fontes do direito que se apresenta mais como uma cascada de fontes.
A passagem ao Estado de direito constitucional coloca em primeiro plano
a noção de constitucionalidade e deve, ademais, ser levado em conta mesmo se
isso contraria certos hábitos.
Essa transformação ou mudança de paradigmas fica dara quando apresen
tamos as seguintes proposições complementares: no Estado legal, a constitucio
nalidade era apenas um componente - acessório - da legalidade; atualmente,
no Estado de direito, a legalidade que passou a ser vista como um elemento da
constitucionalidade.
1024 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
Essa integração da constitucionalidade na legalidade aparece progressiva
mente por meio do princípio da legalidade, tal como entendido pela doutrina a
partir do século XX até nosso dias. No século anterior, o princípio da legalidade
se tornou progressivamente uma miscelânea que incluía não somente as leis
e aos decretos-lei (ou medidas provisórias)) mas também os regulamentos e
também os princípios gerais do direito e a jurisprudência. A Constituição tam
bém é mencionada, mas de maneira muito particular. assim como as normas
internacionais.
Ao analisar o conceito do princípio da legalidade em meados do século
passado, Charles Eisenmann se refere à expressão "bloco de constitucionali
dade'', que inclui a totalidade das regras (aí compreendidos os atos individuais
e os contratos considerados como fontes do direito por certos autores), cujo
respeito se imporia à Administração. Daí, deduz que para a doutrina dominante
"a legalidade se identifica pura e simplesmente à regulamentação jurídica em
sua inteireza, ao 'direito em vigor'. O princípio da legalidade postula, portanto,
uma certa relação entre os atos ou ações administrativas e essa imensa massa
de normas gerais e de normas individuais': 1
O administrativista francês distingue duas noções de princípio da legali
dade: uma estrita e outra ampla. A primeira identifica o princípio em tela com a
observância das leis, limita-se a exprimir que os órgãos administrativos devem
respeitar as regras jurídicas; enquanto as concepções extensivas representam
alterações profundas na noção originária do princípio da legalidade.
Para o autor francês, a concepção mais restritiva, aquela que se funda
sobre a noção de lei, aquela do direito positivo, é a que se aplica em Direito
administrativo, pois não teria interesse afirmar uma regra da regularidade dos
atos administrativos em que o princípio da legalidade seria apenas uma das
especificações.
É nesse sentido mais estrito que se fala em princípio da legalidade no
Direito administrativo. Nessa ótica, está a opinião de Jean Rivero, para quem
a legalidade administrativa não se confunde com o princípio da legalidade em
outras searas do direito. A aplicação desse princípio para o controle da admi
nistração não se aplica às relações privadas. São as normas constitucionais que
têm vocação para se impor ao conjunto da ordem jurídica: no controle dos atos
administrativo, o juiz é guardião só da legalidade administrativa, da legalidade
aplicável à administração e ainda deve levar em conta a interpretação da Cons
tituição dada pelos tribunais competentes.2
1. Eisenmann, C. Le droitadministratifet /e principe de la légalité. Paris: !mprimerie nationa!, 1957, pp. 25 e ss.
2. "lejuge administratif: gardien de la légitimité administrativeou gard!en administratif de la légitimitér
Titulo VI • TABELIONATO DE NOTAS
Mas o que é importante notar é que a noção de legalidade foi construída
pelo direito administrativo para ser aplicada apenas à Administração. Os atos
administrativos, situando-se em um patamar inferior na hierarquia das normas
em relação à lei, deve observar estritamente o comando legal; o regulamento
administrativo não pode violar, ultrapassar ou modificar o texto da lei. No
exercício de sua atividade, o administrador não pode deixar de aplicar a lei sob
o argumento deela ser inconstitucional.
Essa é a opinião majoritária em nossa doutrina. Para Celso Bandeira de
Mello, em um processo administrativo (v.g. tributário) não pode ser discutida
a constitucionalidade da lei: porque esse tribunal é um tribunal administrativo
e um tribunal administrativo se aloca no plano sublegal; e por se alocar no
plano sublegal, ele não tem poderes para contender aquilo que resulta da lei.3
Também Hely Lopes Meirelles,observa que que o particular tudo pode,
com limite na lei, enquanto que a Autoridade nada pode, exceto o permitido
por lei; acrescentando: "Cumprir simplesmente a lei na frieza de seu texto não
é o mesmo q,ue atendê-la na sua letra e no seu espírito. A Administração, por
isso, deve ser orientada pelos princípios do Direito e da Moral, para que ao le
gal se ajunte o honesto e o conveniente aos interesses sociais. Na verdade, esse
administrativista abrange entre as fontes do Direito Administrativo, não apenas
as leis, mas em um nível superior as normas e princípios constitucionais admi
nistrativos, como respeito aos direitos fundamentais, os princípios democracia,
da moralidade administrativa, da boa-fé, dentre outros''.4
Essa também é a orientação seguida pelo T)SP: "( ... ).Definitivamente, em
sede administrativa, nem o Juízo Corregedor Permanente, nem a Corregedoria
-Geral da Justiça ou o Conselho Superior da Magistratura podem modificar
critérios expressos em lei ou dá-la por inconstitucional. ( ... ) Pacificou-se o
entendimento de que a inconstitucionalidade não se reconhece nesta esfera
administrativa, fora das formas jurisdicionais de controle':s
Isso não significa que as normas constitucionais não se aplicam ao Direito
administrativo. Nos modernos Estados de direito, •1\_ Administração não exerce
maisvontade, etc.); e o objeto (se é lícito, determinado ou determinável, se
é alienável, etc.).
7. Carlos N!colás Gattarí, ~Existe una técnica notarial?~ Proctico notarial Buenos Aires; De Palma, 2003, p. 10.
! 10-2~') REGISTROS PÚBLICOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
3. PRINCÍPIO DA FORMALIDADE, AUTORIA E
RESPONSABILIDADE
O princípio geral que baliza nosso direito privado é o da liberdade das
formas: é livre a forma do contrato, salvo se existir norma expressa a exigir
uma forma solene. Nos negócios jurídicos de maior importância para as partes
e para a comunidade, justamente para garantir a segurança jurídica e chamar
a atenção das partes para a relevância do negócio entabulado, a lei exige o
cumprimento de determinadas solenidades e impõe como substância do ato
a escritura pública.
É o que ocorre, por exemplo, para a constituição, modificação ou extin
ção de direitos reais relativos a imóveis com valor superior a 30 vezes o salário
mínimo, salvo lei em contrário (art. 108 do Código Civil). Para tais contratos,
a validade está condicionada à observância da forma solene: a escritura pú
blica. O ato notário também é essencial para a validade, dentre outros atos ou
negócios jurídicos: a) da criação de fundação (que não for instituída por ato de
última vontade - art. 62 do CC); b) contratos pré-nupciais (art. 1.653 do CC);
c) mandato para negócios que exijam a solenidade da escritura pública (art. 657
do CC) e para casamento (art. 1.542 do CC); d) testamento público (art. 1.864,
I, CC); e) cessão de herança (art. 1.793 do CC) etc.
Outros contratos ou atos jurídicos podem, segundo a vontade das partes, ser
feitos por escritura pública, como é o caso do reconhecimento da paternidade.
Assim, nada impede que a cessão de posse ou a promessa de compra e venda,
dentre outros contratos, seja formalizada por escritura pública.
Finalmente, alguns atos, embora não sejam lavrados pelo notário, devem
ser submetidos à sua legitimação, sob pena de invalidade, como é o caso do
testamento cerrado (art. 1.868 do CC).
Em todos os casos em que atua, o notário é o autor e responsável pelo
documento, uma vez que este contém declarações dele e das partes. Conforme
foi visto, a autoria pressupõe a consultoria e o aconselhamento de ambas as
partes, sem qualquer custo extra, uma vez que cabe ao notário garantir a pu
blicidade, conferir autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos (art.
1° da Lei 8.935/1994).
A consequência da violação desses deveres é a responsabilização civil
do notário, por danos e prejuízos causados por sua atuação, sem necessi
dade de apuração de dolo, culpa ou desconhecimento dos preceitos legais
necessários à elaboração do instrumento notarial: a jurisprudência atual
do STJ consagra a responsabilidade objetiva do notário, como será visto
oportunamente.
TítuloVI • TABEUONATODENOTAS (1029 _____ ,_ - ..... ---- ----- ---- -"~--- ---·-- ---------- ---~
4. PRINCÍPIO DA JUSTIÇA PREVENTIVA
Este princípio, observado na maior parte dos ordenamentos jurídicos,
apresenta-se como essencial para a garantia da paz sociai mediante a prevenção
de litígios, um dos objetivos fundamentais do Estado.
Com a finalidade de prevenir conflitos, o notário favorece a conclusão
de acordos claros e equilibrados, assegurando-se às partes a manifestação de
seu consentimento esclarecido e, em nosso país, a assistência de advogados em
vários casos.
O notário constitui, ao longo dos séculos, um fator de paz -social. Em caso
de diferença ou conflito entre as partes, o notário procura sempre a conciliação.
Para tanto, ele tem o dever de informar a existência, as modalidades e as vanta
gens ou modos de regramentos alternativos de litígios, notadarnente a mediação.
Embora ainda praticamente desconhecido e pouco discutido em nosso
país, este princípio pode ser inferido do próprio art. 1 ºda Lei 8.935/1994, como
pressuposto da segurança jurídica (sem paz social não há estabilidade jurídica)
e de leis especiais.
De fato, atualmente, percebe-se na maior parte dos países, como resposta
ao esgotamento do Judiciário, uma tendência à retirada da competência juris
dicional de diversos atos de jurisdição voluntária, isto é, de negócios jurídicos
em que há administração pública de interesses privados, mas em que não há
lide ou litígio.
Em nosso país, podemos citar, sem preocupação de apresentar um rol
exaustivo, os seguintes casos: a) separação e o divórcio voluntários, desde que
o casal não tenha filhos menores, nascituro ou incapazes e esteja patrocinado
por advogado (art. 733, CPC); b) a extinção consensual da união estável, obser
vadas as mesmas condições indicada na letra "a" (art. 733, CPC) o inventário e
partilha, em que não haja herdeiros menores, nascituro, ou incapazes e desde
que o falecido não tenha deixado testamento, sendo obrigatória a assistência
de advogado alteração ou estabelecimento de divisas de imóveis (art. 213, §
9°, da Lei 6.015/1973 e art. 571, CPC); e e) homologação do penhor legal (art.
703, par. 2, CPC).
5. PRINCÍPIO DA IMPARCIALIDADE E INDEPENDÊNCIA
O notário é um profissional independente e deve atuar de forma a dignificar
e tornar efetiva esta independência que lhe é conferida pela Lei 8.935/1994 no
desempenho de suas atribuições (art. 28). Portanto, não se sujeita à vontade ou
ao interesse da parte mais forte ou mesmo da autoridade estatal, cuja ação se
dá à margem da lei.
l
!
1
[t030J REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
Deve tratar ambas as partes de forma imparcial, ainda que escolhido por
uma delas: ao contrário do advogado, ele não patrocina a causa ou defende o
interesse da parte, mas, sim, atua de forma a conferir validade e eficácia à vontade
livre e com conhecimento de causa de ambas as partes. Em suma, deve exercer
o papel de terceiro de confiança entre as partes e não pode lavrar ou legitimar
atos que contenham disposições abusivas ou que, direta ou indiretamente, o
beneficiem. Por isso mesmo, não pode lavrar atos ou contratos em que seja
parte ou interessado.
6. PRINCÍPIO DA ROGAÇÃO
O notário não pode agir de ofício: cabe à parte procurar seus serviços,
dirigindo-se ao local onde atua (na cidade ou comarca para a qual recebeu de
legação), ainda que seja domiciliada em cidade diversa ou que o bem, objeto do
contrato, esteja situado em outro local. Ele não pode, por exemplo, reconhecer
sua própria firma na certidão que expede, sob o argumento de conferir maior
segurança e autoridade, até porque a certidão já goza de fé pública. Aliás, é vedada
tal conduta e havendo pedido expresso da parte neste sentido, deve informá-la
sobre a desnecessidade de tal ato e sobre a ilegalidade da conduta da autoridade
que eventualmente exigir a firma reconhecida do notário.
O que pode ocorrer é a chamada legalização de ato notarial, em que uma
autoridade estrangeira exige que o cônsul local do país em questão afirme que
aquele documento foi, de fato, expedido por um notário brasileiro. Para imprimir
maior segurança jurídica, os cartórios enviam seus sinais públicos (assinaturas e
rubricas do tabelião e seus prepostos) para outros serviços notariais e registrais
e para consulados, não cabendo à parte comprovar que aquele documento foi
expedido por um notário. Conforme foi visto, o ato notarial goza de fé pública.
Por outro lado, uma vez provocado, o notário não pode se negar a prestar o
serviço solicitado e que está incluído na delegação recebida do Estado, seja por
considerar os emolumentos ínfimos, seja por desconhecimento jurídico, seja
por qualquer outra razão. Constitui, portanto, falta grave a recusa da prática de
atos notariais gratuitos (como a procuração pública para fins previdenciários no
Estado de São Paulo ou a escritura de divórcio de pessoa em situação de pobreza).
Obviamente, todo ato notarial está sujeito ao controle de legalidade e a
impossibilidade de realização, por ausência dos requisitos legais, deverá ser
devidamenteinformada e justificada ao usuário deste serviço público.
7. PRINCÍPIO DA UNICIDADE DO ATO NOTARIAL
Segundo este princípio, consagrado no art 215, par. 1°, I e VII, do Código
Civil, os atos notariais devem ser realizados em uma única oportunidade, sem
Titulo VI • TABELIONATO DE NOTAS
, ..
11031 J
que haja interrupções temporais relevantes. Isso não significa que, colhida a
vontade das partes, o notário deva desde logo lavrar a escritura pública. Nada
impede que ele previamente marque uma audiência com as partes a fim de
verificar seus desejos e intenções, aconselhá-las sobre o contrato e cláusulas
que melhor se ajustem à vontade externada e providencie as diligências e do
cumentos necessários.
Com efeito, a unicidade do ato notarial significa que a escritura pública
deve ser lida na presença das partes ou de seus representantes, que seja feita a
conferência se o ato notarial realmente é fiel e atende à vontade das partes e que
estas expressem sua anuência com a aposição das respectivas firmas, tudo de
uma só vez. Ambas as partes devem estar presentes ao ato, por si ou por seus
representantes.
Logo, o ato notarial deve ser lido e concluído em uma única sessão, não
sendo possível o acréscimo de disposições contratuais após sua assinatura, salvo
se for feito logo a seguir à aposição das firmas, com nova assinatura embaixo
da parte acrescida. Assim, por exemplo, lavrada, lida e firmada uma escritura
de compra e venda de imóvel, não pode, em outra ocasião, ser inserido pacto
de retrovenda, ainda que não se tenha levado a registro tal ato notarial (apenas
o registro transfere a propriedade). Apenas através de nova escritura pública é
que se pode modificar o conteúdo ou acrescentar algo à escritura já finalizada
e isso somente é possível com a presença das mesmas partes: é a denominada
escritura de rerratificação que será melhor analisada no tópico pertinente.
Em suma, de acordo com o princípio da unicidade do ato é instrumental,
o ato notarial - após sua leitura, aceitação e assinatura - não pode ser alterado,
sob qualquer pretexto, seja a pedido de uma ou de ambas as partes, salvo na
hipótese de escritura de rerratificação, que é uma nova manifestação de vontade
concretizada em novo ato notarial. Vale dizer, é vedada qualquer modificação
da escritura pública após a sua assinatura, bem como a prática de permitir que
as partes assinem o documento notarial em datas diversas, conforme acima
explicitado.
Este princípio tem sido matizado pelos diversos regulamentos notariais
estaduais em virtude das necessidades e problemas da vida moderna que, não
raro, impedem a reunião de todas as partes perante o notário na audiência única,
notadamente naqueles atos e negócios jurídicos em que são partes inúmeras
pessoas, como é o caso da escritura de inventário e partilha. Diante da nova
realidade social, vários regulamentos estaduais - como as Normas da CGJ-SP
- admitem que a escritura pública seja lida e assinada por todas as partes em
um prazo de 30 dias. Cumpre ao notário ler a escritura em voz alta e colher a
assinatura de cada parte, mencionando no documento a data da outorga. Este
profissional apenas autorizará a escritura após a outorga de todas as partes, for-
'1032, 1 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
malizadas com as respectivas assinaturas, finalizando o ato. Uma vez autorizada
a escritura, poderão ser entregues os traslados para as partes.
8. PRINCÍPIO DA SEGURANÇA JURÍDICA
De acordo com este princípio, o notário deve garantir a segurança jurídica
das transações, notadamente pela definição precisa dos direitos e obrigações de
cada uma das partes contratantes. Ele deve velar para o equilíbrio dos acordos
contidos nos atos que estabelece, bem como verificar a legalidade dos docu
mentos que legitima, seja para simples autenticação ou reconhecimento de
firma, evitando autenticar ou reconhecer a firma de documentos contrários à
lei ou que contenham espaços em branco, entrelinhas, falta de data ou qualquer
elemento que cause insegurança ou incerteza no que concerne à manifestação
da vontade das partes.
Da mesma forma, o notário deve contribuir para a segurança da ordem
jurídica como um todo, participando da luta contra a lavagem de dinheiro e
prestando todas as informações necessárias às autoridades competentes, se
gundo as leis brasileiras (art. 30, III, da Lei 8.935/1994). A título de exemplo,
cabe lembrar que, nos atos em que oficia, o notário deve enviar) quando for
o caso, declaração de operação imobiliária (DO!) à autoridade fiscal e exigir
os documentos e certidões previstos em lei para assegurar a validade do ato
jurídico e o cumprimento de obrigações fiscais ( v.g. identificação das partes,
inclusive CPF ou CNPJ, certidões negativas da receita federal e do INSS, prova
da quitação de tributos).
O dever de colaborar com o Estado, que lhe confere a delegação, não signi
fica, contudo, que o notário pode violar o dever de sigilo. Muito pelo contrário,
o dever de sigilo, expressamente previsto na Lei 8.935/1994 (art. 30, VI), que
é um dos corolários da fé pública (confiança que a comunidade deposita na
atividade notarial) e da segurança jurídica (estabilidade, paz social).
De acordo com o dever de sigilo e confidencialidade, o notário deve ob
servar o segredo profissional e é submetido a um dever de confidencialidade,
notadamente no que se refere à conservação dos documentos apresentados
pelas partes e arquivos de seus atos, quer estejam tais documentos em suporte
papel ou em suporte eletrônico. Em nosso país, o dever de sigilo é fragilizado
pelo princípio da publicidade.
9. PRINCÍPIO DA CONSERVAÇÃO E PUBLICIDADE
De acordo com esse princípio, o notário deve conservar todos os docu
mentos colacionados pelas partes, bem como os livros de ofício em local seguro,
a fim de minimizar o risco de perdas e deteriorações. Com o advento da Lei
Título VI • TABELIONATO DE NOTAS !1033
11.977 /2009, além do formato papel, os livros notariais e de registro deverão
ser efetivados também em suporte eletrônico, e todos os arquivos eletrônicos
conservados em cartório deverão possuir cópias de segurança ( art. 40 da lei
supracitada), mantidas, preferentemente, em estabelecimento diverso da sede
dos serviços públicos, para evitar risco de perda em razão de enchentes ou de
incêndio. Nesse sentido, o CNJ editou a Recomendação 09, de 2013, que re
comenda aos oficiais de registros e tabeliães a adoção de cópias de segurança
(backup) de todos os dados e informações constantes do protocolo (livros, pastas
e documentos arquivados).
Embora os novos dispositivos legais mencionem apenas os serviços de
registros públicos previstos na Lei 6.015/1973, entendemos que, por analogia,
aplicam-se, no que couber, aos notários e tabeliães de protesto. É o que ocorre,
por exemplo, no que concerne ao dever de receber e remeter documentos em
formato eletrônico que atendam aos requisitos do !CP-Brasil (Infraestrutura
de Chaves Públicas Brasil); manutenção de arquivos em formato eletrônico;
expedição de ato notarial eletrônico (escritura pública, certidões, etc.) com os
requisitos do !CP-Brasil; manutenção de cópias de segurança do arquivo fora
da sede do cartório, etc. Em 12 de novembro de 2012 foi editado o Provimento
25 do CNJ, que regulamenta o uso do Malote Digital pelas serventias extraju
diciais de notas e de registro e que se baseia no art. 7° da Lei 11.419, de 2006,
que dispõe sobre a comunicação por meio eletrônico no Judiciário. Destarte,
as comunicações entre as unidades de serviços de notas e de registro e entre
estas e os órgãos do Poder Judiciário deverão ser realizados com a utilização
do sistema Hermes - Malote Digital. Tal sistema permite o envio e recepção
de certidões eletrônicas, documentos notariais eletrônicos por meio da rede
mundial de computadores, com a observância dos requisitos de segurança da
autenticidade e integridade do documento, acima citados.
Cumpre observarque o notário não é dono dos livros e papéis, os quais
estejam sob sua guarda, mas apenas depositário. Esses livros e papéis são do
Estado. Deve o notário conservá-los, como se fosse o próprio Estado, sob pena
de responsabilidade. A conservação deverá ser feita de forma que impeça sua
destruição.
Destarte, os documentos e livros conservados pelo notário são públicos
(já que pertencentes ao Estado), podendo ser consultados por qualquer pessoa,
sem necessidade de prévia justificação. Qualquer pessoa, mesmo que estranha
ao ato notarial em questão, pode requerer certidão do que constar do livro
de notas, inclusive sobre escrituras e testamentos públicos, bem como sobre
os documentos arquivados (quitação de tributos, certidão negativa do lNSS,
certidão do registro de imóveis, etc.).
A nosso ver, a legislação brasileira, neste tema, deve ser modernizada a fim
de garantir o direito constitucional da privacidade, mormente em uma era em
1
1
1
1
l
l
REGISTROS PúBUCOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
que a informação (publicidade) desconhece limites, já que pode ser difundida
por novas tecnologias e pela internet. Em outros países, como os europeus, o
princípio da publicidade e do acesso à informação é temperado por leis que
excluem desta publicidade os dados de caráter pessoal, tais como os documentos
fiscais, dados reveladores do domicílio, dentre outros.
Documento notarial é espécie do gênero documento público em que há
intervenção do notário ou tabelião de notas para formalizar juridicamente a
vontade das partes ou dar-lhe forma legal ou autenticidade, seja autorizaodo a
redação ou redigindo os instrumentos adequados (art. 6° da Lei 8.935/1994).
A escritura pública e a ata notarial, que são as espécies de documento notarial,
serão estudadas a seguir.
Para que seja possível seguir um raciocínio lógico a permitir uma melhor
compreensão do conceito de escritura pública e de sua importância para a
seguraoça, existência, validade e eficácia dos atos e negócios jurídicos - fmali
dade máxima da função notarial (art. 1 ºda Lei 8.935/1994), faz-se necessário
o conhecimento de alguns conceitos básicos, tais como a forma jurídica, o
conceito de documento e suas espécies. É o que veremos, de forma resumida,
neste Capítulo. Para um estudo mais amplo, recomendamos aos leitores o estu
do de monografias e tratados clássicos de direito civil, direito notarial e direito
processual civil que tratem de negócios jurídicos, formas jurídicas, documentos
e provas documentais.
I. FORMA JURÍDICA: DEFINIÇÃO, FINALIDADES E
CARACTERÍSTICAS
A função notarial, na sua feição legitimadora, tem como finalidade assegu
rar a existência, a validade e a eficácia de determinados negócios jurídicos, aos
quais a lei prevê a observância de uma forma determinada: a escritura pública.
Trata-se, ao mesmo tempo, de um documento ou instrumento notarial e de
uma maneira solene, cuja inobservância implica a nulidade do ato ou negócio
jurídico. Para celebrar um ato ou negócio jurídico, a pessoa deve expressar sua
vontade, para que todos possam conhecê-la. Com efeito, o ser humaoo percebe
a realidade externa por meio de seus sentidos e, portanto, para que a vontade
de um sujeito de direito seja reconhecida e produza efeitos jurídicos, deve ela
ser traduzida em forma sensível.
A forma prescrita ou não defesa em lei é um dos elementos essenciais do
negócio jurídico, com a capacidade das partes e o objeto lícito, possível, deter-não havendo direitos recíprocos.
1.2. A instituição da associação
O ato que institui a associação é o estatuto que, uma vez registrado no
Registro Civil das Pessoas Jurídicas, conferirá personalidade jurídica a este ente.
O registro confere ainda legitimidade à associação para representar os interes
ses de seus associados em juízo ou fora dele e, inclusive, para a impetração de
538 REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
multaneamente e os que são posteriores à inscrição. Os princípios que ora serão
analisados são típicos dos registros jurídicos, mais exatamente do Registro de
Imóveis, sendo alguns deles aplicáveis, ainda que de forma mitigada, aos demais
serviços de registros públicos disciplinados na Lei 6.015/1973.
4. PRINCÍPIO DA OBRIGATORIEDADE DO REGISTRO
De acordo com o princípio da "obrigatoriedade" ou do ônus do registro,
nos atos entre vivos, a constituição, transferência, modificação ou extinção da
propriedade, ou outro direito real relativo à imóvel, apenas se efetivam com o
registro do título respectivo. No direito brasileiro, portanto, o registro do título
de aquisição do direito real imobiliário é "obrigatório''. Não basta a lavratura
da escritura de compra e venda de imóvel, por exemplo: o comprador apenas
adquire a propriedade do bem com o registro deste título no Registro de Imó
veis competente.
Tecnicamente, não há se falar em obrigação de registro. Ninguém é obrigado
a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei ( art. 5°, II, CF)
ou de contrato. A obrigação é uma relação jurídica que impõe ao obrigado ou
devedor a realização de uma prestação de dar, fazer ou não fazer alguma coisa
em favor do credor. A situação jurídica é o direito de crédito em contraposição
à obrigação de prestar.
Assim, o registro não é uma obrigação, mas um ônus. Esta é a situação
jurídica pela qual o sujeito que pretende obter uma posição de vantagem, ou
satisfazer um interesse, deve antes assumir um sacrifício. Daí decorre duas
posições: ativa e passiva. Nos negócios jurídicos entre vivos, aquele que obtém
um título que lhe concede a propriedade ou um direito real sobre imóvel tem
que registrar este documento para que possa se tornar titular do direito real
em questão (sistema de título e modo). Sem o registro ele apenas é titular de
um direito pessoal, pois os direitos reais imobiliários apenas se constituem, se
transferem, se modificam ou se extinguem pelo registro do título (art. 1.245, CC).
Nos atos causa mortis, o registro é necessário para que o direito real possa ser
oponível erga omnes e mesmo no caso de aquisição originaria da propriedade, o
registro da sentença que declara a usucapião é um ônus para que o proprietário
possa exercer a faculdade de dispor.
Em outras palavras, realizando o ônus do registro, o interessado adquire
o direito de propriedade ou o direito real imobiliário e os poderes e faculdades
daí resultantes (usar, dispor, gozar e reaver o bem das mãos de quem quer que
se encontre). Em relação a esta posição jurídica ativa, os demais membros da
sociedade tem uma posição passiva: de dever ou de sujeição.
O registro deve ser realizado no Serviço em cuja circunscrição estiver
localizado o imóvel, sob pena de nulidade. Quando o imóvel se situar em mais
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS 539
de uma circunscrição, deverá ser registrado em todas. Em caso de desmem
bramento da circunscrição, não há necessidade de inscrição no novo cartório,
o que ocorrerá tão somente quando for transferido ou onerado o imóvel. Da
mesma forma, deve ser feita no Livro próprio. Se for feita em outro livro, não
alcançará a finalidade prevista em lei, devendo ser considerada nula.
O princípio da inscrição é consagrado no àrt. 1.245 e seguintes do Código
Civil:
"Art. 1.245. Transfere-se entre vivos a propriedade mediante o registro do título
translativo no Registro de Imóveis. § 1. 0 Enquanto não se registrar o título
translativo, o alienante continua a ser havido como dono do imóver.
Da mesma forma, dispõe o art. 1.245, § 2.0
, que, enquanto não cancelado o
registro pelo meio adequado, seja em decorrência de título judicial ou de outra
natureza, o registro produz todos os seus efeitos jurídicos.
Destarte, pode-se afirmar que, no nosso direito, são necessários dois está
gios para a constituição da propriedade ou de outro direito real sobre imóvel: o
primeiro deles é o negócio jurídico pelo qual as partes livremente manifestam
sua vontade de constituir ou transmitir o direito real imobiliário (p. ex.: escritura
de compra e venda), e o segundo é o registro do título pelo qual se formaliza
tal acordo de vontades.
Caso o imóvel possua valor superior a trinta vezes o maior salário mínimo
vigente no País, o contrato acima citado deve observar uma forma solene: o da
escritura pública (art. 108, CC). Na hipótese de valor inferior ao limite legal,
ou no caso de expressa disposição legal, admite-se o instrumento particular.
Seja como for, o título de aquisição ou transmissão da propriedade ou
outro direito real imobiliário deve ser obrigatoriamente registrado no Registro
de Imóveis competeute, bem como os títulos que impliquem modificação ou
extinção deste direito. A sanção pelo descumprimento da obrigação do registro
é a não aquisição do direito que se buscava adquirir com a celebração do negó
cio jurídico (aquisição da propriedade, hipoteca, usufruto etc.), ou então a não
modificação do direito em tela ou a perduração de seus efeitos, não obstante a
sua extinção no mundo real (arts. 1.245 a 1.247/CC).
A lei não impõe prazo para que o interessado apresente a escritura pú
blica (ou instrumento particular) a registro. No entanto, o registro deve ser
providenciado o quanto antes para que o adquirente não corra o risco de ver
perecer ou diminuir o direito que visava adquirir. Pode ocorrer, por exemplo,
que no momento da lavratura da escritura pública de compra e venda não inci
dia nenhum ónus sobre o imóvel. Antes da apresentação do título no Registro
de Imóveis, entretanto, o vendedor teve contra si uma ação de execução, por
força da qual foi penhorado o imóvel vendido, com o consequente registro da
i 540 \~ REGISTROS PÚBLICOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
penhora. Neste caso, ao registrar seu título, o adquirente terá a desagradável
surpresa de se tornar proprietário de um imóvel penhorado.
4. l. Morte e incapacidade antes do registro
Dúvida levantada pela ·doutrina, e que pode ocorrer na vida real, refere
-se à morte ou incapacidade do alienante do imóvel no lapso temporal entre a
lavratura da escritura e sua apresentação no Registro de Imóveis. O problema
surge porque no exato momento da morte do vendedor (doador, permutante
etc.) a propriedade do imóvel é automaticamente transferida a seus herdeiros.
Logo, quando o adquirente levasse seu título a registro, o imóvel não mais per
tenceria ao vendedor, e sim a seus sucessores.
Na opinião de PONTES DE MIRANDA, que julgamos acertada, a morte
do vendedor não impede o registro do título pelo comprador. Segundo o jurista,
se entre o acordo de vontades formalizado pela escritura pública e o registro
o vendedor "morre ou cai em incapacidade o alienante, o vínculo do acordo
fica''. Portanto, pode ser apresentado o título no Serviço de Registro de Imóveis
e obtida a inscrição no livro próprio, ainda que a pessoa que tenha figurado na
escritura como alienante tenha falecido. Isso se dá porque já vincula as partes,
por si e por seus herdeiros, não havendo necessidade de nova anuência do
alienante para que se proceda ao registro do título de alienação.
Por este acordo de transmissão - que PONTES DE MIRANDA identifica
como um negócio jurídico independente do contrato e que intermedeia este
acordo de vontades e o registro - as partes se vinculam, pela coincidência das
vontades, a respeito da modificação de direito, que é, neste caso, a transmissão
da propriedade ou outro direito real imobiliário.A escritura já contém uma
declaração de vontade do alienante na qual consente com o registro deste título.
Este também é o entendimento da jurisprudência: para o STF, se o outorgan
te falece antes do registro, ainda assim, pode-se registrar o título (RT 158/316).
Nesse sentido, ainda, a orientação do Conselho Superior da Magistratura do
TJSP (RT 183/841).
4.2. Efeitos do registro
O registro é o modo de adquirir o direito real, tem efeito constitutivo, mas
não sana eventuais defeitos do título, nem em relação ao terceiro de boa-fé. Se
o título que lhe serve de suporte é nulo, o registro também será inválido. Mas,
enquanto não se promover, por meio de ação própria, a decretação de invalidade
do negócio jurídico e, consequentemente do registro, e seu respectivo cancela
mento, o adquirente continua a ser havido como dono do imóvel (ou titular de
outro direito real). Em outras palavras, o registro, mesmo eivado de nulidade,
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS ' 541
produz efeitos enquanto não se providenciar a declaração judicial de nulidade
e consequente cancelamento da inscrição.
Portanto, nos negócios entre vivos, a inscrição é que faz nascerem todos
os direitos reais, a começar da propriedade. Não obstante, a inscrição é exigida
não só para a aquisição ou cessão de direitos reais, mas também na hipótese de
modificação de seu conteúdo. Modificação é toda ocorrência que, de qualquer
modo, altere a inscrição, quer em relação às pessoas, quer em relação aos imó
veis que nela figurem.
Por outro lado, há casos em que a constituição ou transmissão dos direitos
reais independem do registro, pois ocorrem por força de lei. É o caso da sucessão
legítima ou testamentária: de acordo com o disposto no art. !. 784 do Código
Civil, aberta a sucessão, a herança transmite-se, desde logo, aos herdeiros le
gítimos e testamentários. Logo, a propriedade de um imóvel transmite-se aos
sucessores pelo simples fato da morte do proprietário, autor da herança, inde
pendentemente do registro do formal de partilha ou de qualquer outro título.
É o caso, ainda, da usucapião, em que o possuidor adquire a propriedade do
imóvel pelo exercício da posse sem interrupção e oposição, pelo prazo previsto
em lei, independentemente de decisão judicial. A sentença de usucapião tem
efeito meramente declaratório, e não constitutivo da propriedade.
Destarte, o registro pode ter efeito constitutivo ou declarativo. O regis
tro tem efeito constitutivo, por exemplo, nas transmissões de direitos reais
imobiliários por atos entre vivos. O efeito será declarativo quando se tratar,
por exemplo, de registro de mandado judicial extraído da ação de usucapião e
registro de formal de partilha.
A inscrição declarativa, como já foi visto, apenas divulga direitos que ga
nharam existência antes dela ou riscos que pendam sobre direitos inscritos. No
primeiro caso, a finalidade é informar a coletividade sobre a mutação jurídico
-real de determinado imóvel ( v.g., declarar a transmissão da propriedade por
força da sucessão) e, ainda, assegurar a continuidade dos registros, evitando
descontinuidade ou interrupção na cadeia registrária. No segundo caso, a ins
crição declarativa tem uma função preventiva, isto é, tem por objetivo advertir
terceiros sobre a pendência de pretensão que pode modificar o direito inscrito
( v.g., averbação de penhora, arresto ou sequestro; registro de citação em ação
real reipersecutória etc.).
Conforme ensina AFRÁNIO DE CARVALHO, "a inscrição preventiva é
sempre provisória, tendendo a transformar-se em inscrição definitiva ou ser
cancelada. Mas não se confunde com outras inscrições provisórias, como as de
locação com cláusula de vigência contra o adquirente e a promessa irretratável
de venda de imóvel, porque estas têm eficácia constitutiva e a primeira mera
mente declaratórià'.
-•
1 542 REGISTROS PÜBUCOS-TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
Cumpre observar que a existência de registro preventivo não impede
qualquer ato de disposição pelo proprietário do imóvel afetado por tal inscri
ção. Assim. por exemplo, a existência de inscrição da penhora do imóvel não
obsta a venda do bem (salvo no caso de penhora em execuÇão fiscal, causa de
indisponibilidade legal do imóvel), mas o adquirente não pode, posteriormente,
alegar boa-fé ou desconhecimento do ato de constrição judicial. A averbação da
penhora faz prova pré-constituída de fraude à execução. Do contrário, isto é,
não existindo a averbação, cabe ao credor o ônus de provar a fraude à execução.
Seja o registro de natureza constitutiva, seja de natureza declarativa, o ato
é sempre obrigatório. A lei não estabelece sanção expressa, mas a ausência do
registro impede a produção dos efeitos almejados. No caso do registro consti
tutivo, a falta de inscrição implica a não constituição do direito que se buscava
adquirir. No caso do registro declarativo, em que o direito já foi obtido, a sua
falta implica a suspensão desse direito ou a ausência da produção de efeitos.
O registro da sentença de usucapião, por exemplo, não constitui a pro
priedade (ou outro direito real). O domínio surge com o simples fato da posse
justa e contínua pelo prazo previsto em lei. Também o herdeiro legítimo ou
testamentário adquire a propriedade imobiliária no momento da morte do de
cujus. No entanto, nem um nem outro poderão dispor do imóvel enquanto não
providenciar o registro da sentença ou do formal de partilha, respectivamente,
uma vez que, na matrícula do imóvel, continuará a constar como titular do
domínio o antigo proprietário (o usucapido ou o autor da herança). Somente
aquele que figura como proprietário, na matrícula do imóvel, pode alienar.
4.3. Oponibilidade erga omnes
A oponibilidade é o primeiro e mais fundamental dos efeitos que resultam
da inscrição de um título no Registro de Imóveis e demais registros públicos. Por
meio da oponibilidade, impõe-se ao terceiro a realidade do direito registrável,
cujo conteúdo lhe é imposto, independentemente do conhecimento efetivo
do registro. Como, em geral, têm acesso ao sistema de registro de imóveis os
direitos reais imobiliários, cujos efeitos são erga omnes, isto é, vinculam toda a
comunidade, a consequência óbvia é que ninguém pode se considerar alheio
à obrigação de observar os direitos de usar, gozar e dispor do titular do direito
real registrado. O mesmo se aplica a outros direitos ou situações jurídicas que,
sem terem natureza real, também podem ser oponíveis às demais pessoas da
comunidade, uma vez tenham tido acesso ao fólio real.
Vinculado ao conceito de oponibilidade, temos o da inoponibilidade, que
pode ser conceituada como uma faculdade específica concedida por lei a uma
pessoa, pelo fato de ser alheia a uma atuação perfeitamente válida, para que,
sem necessidade de impugná-la, possa atuar em defesa de seus interesses como
se tais atos não existissem.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS 543
A atribuição da oponibilidade mediante o registro confere às situações
jurídicas um plus pelo qual os interessados evitam que terceiros atuem como
se o ato registrado não existisse. Vale dizer, todo direito ou negócio jurídico
inscrito pode ser oposto contra quem quer que seja, ainda que afete suas legí
timas expectativas econômicas ou impliquem perda de direitos ou interesses
sobre o bem imóvel.
Diante das graves consequências da oponibilidade, o Direito deve ter
mecanismos eficientes para que terceiros possam conhecer antecipadamente a
situação de compromisso que pendem sobre os bens e que possam, de qualquer
forma, afetá-los. De acordo com a doutrina, esses mecanismos são: a publicidade,
a publicação, a lei e a aparência 17•
A publicação em diários oficiais praticamente não tem importància, em face
da sua inutilidade) uma vez que é extremamente difícil particulares terem acesso
a todas as informações lá publicadas. A lei, por sua vez, no nosso ordenamento
jurídico, apenas confere oponibilidade ao domínio público que, em geral, constitui categoria excluída do sistema de registro imobiliário. Também a aparência
desempenha papel marginal para a oponibilidade, pois radica na faculdade de
combater a má-fé do terceiro e depende de conhecimento adquirido, ou que
possa ter sido adquirido por meio de fato evidente ou evidenciável. Desse modo,
a situação conhecida ou cognoscível, ainda que não tenha sido registrada, pode
ser oponível a terceiro (ex. penhora nos casos de fraude ao credor).
De qualquer modo, a publicidade registra! é o melhor mecanismo de opo
nibilidade, uma vez que implica a presunção iuris et de iuris de que toda situação
jurídica registrada é de conhecimento dos demais membros da comunidade,
senão de forma efetiva, ao menos de forma potencial. Ou seja, ninguém pode
alegar desconhecimento ou boa-fé contra ato ou situação jurídica constante
da publicidade registrai. Embora a inscrição no Registro, no direito brasileiro,
não convalida títulos nulos, não saneia seus vícios, o princípio da legitimidade
implica a presunção iuris tantum de validade do registro e de seu conteúdo, que
perdura enquanto não ocorre sua retificação ou cancelamento.
Logo, basta a consulta ao Registro para que se constatem a diligência e a
boa-fé do interessado, ainda que eventual nulidade do registro anterior possa
resultar na nulidade do registro por ele demandado. De qualquer modo, não
se exige, como prova de diligência, que o interessado faça um exame detalhado
do título de quem se dispõe a transmitir ou de seus antecedentes imediatos: a
diligência e a boa-fé, repita-se, são demonstradas pela conduta do interessado
que realiza o negócio jurídico imobiliário confiando na publicidade espelhada
pela certidão da matrícula do imóvel.
17. Pau Pedrón, Esbozo de una teoría general de la oponibilidad, La publicidade regisrral, Madrid, Colegio de
Registradores de La Propiedad e Mercantiles de Espat'ia, 2001, p. 327 e ss.
' 544 i REGISTROS PÜBUCOS- TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
Em suma, somente a situação jurídica que consta da publicidade registrai
pode ser oposta contra todos os demais membros da comunidade, e isso a
partir da data do protocolo do respectivo título, já que o registro é eficaz desde
o momento em que o título é apresentado ao registrador e este o prenotar no
protocolo (art. 1.246, CC). Em outras palavras, apenas é oponível aquilo que
consta no Registro, de forma que os registradores costumam usar a metáfora
segundo a qual "o que não consta no registro não existe no mundo': Interessante
notar que o direito, título ou documento contínua oponível erga omnes, mesmo
após a sua extinção no mundo fático: a oponibilidade somente cessa com o
cancelamento da inscrição respectiva (art. 1.245, § 2.0
, CC).
Consequentemente, o documento que não é apresentado a registro não
prejudica terceiros (sentido negativo da publicidade registrai). Nesse sentido, não
se deve confundir a eficácia do documento com sua oponibilidade a terceiros. O
documento público tem eficácia erga omnes. ou seja, entre as partes e terceiros,
mas, enquanto os terceiros não o conhecem, não pode ser oposto contra eles.
Daí a necessidade de sua publicidade não para conferir-lhe eficácia, senão para
que os terceiros não possam alegar sua inoponibilidade.
O fato de o ordenamento jurídico exigir o registro como requisito para a
constituição ou transferência da propriedade e demais direitos reais imobiliários
é denominado de princípio da inscrição. Vale dizer, de acordo com o princípio
de inscrição, o registro é obrigatório porque, sem ele, o adquirente não obtém
a propriedade ou direito real limitado sobre o imóvel.
5. PRINCÍPIO DA ROGAÇÃO OU INSTÂNCIA
Segundo esse princípio, a atividade registrai depende de provocação: os
atos do registro somente serão praticados por ordem judicial; a requerimento do
Ministério Público, quando a lei o autorizar; e a requerimento verbal ou escrito
d9 interessado. Não pode o registrador atuar sem requerimento do interessado
(ne procedat ex officio), salvo nas exceções que serão examinadas no item 1.8.1
De regra, o requerimento é verbal, acompanhado do título que se pretende re·
gistrar, mas nos casos de averbação e cancelamento exige-se requerimento por
escrito, com firma reconhecida (art. 246, § 1.0 , da Lei 6.015/1973).
O procedimento registrai tem início com o requerimento do interessado,
acompanhado da apresentação de um título formal no Serviço de Registro de
Imóveis. Todo título apresentado no Registro de Imóveis deve ser protocolado.
O protocolo ou prenotação é o ato pelo qual se recebe um título para registro.
Em nenhuma hipótese poderá o registrador recusar o recebimento e protocolo
do título, ainda que constate exigência de natureza fiscal ou existência de vícios
visíveis a um primeiro exame. Mesino na hipótese de título com vício intrínseco
( v.g., falta de outorga uxória para a alienação do imóvel), deve o registrador
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
proceder ao protocolo para, posteriormente, fazer as exigências cabíveis para
que ele tenha acesso ao registro.
Mesmo que o registrador julgue existir vício insanável (ex.: defeito de
forma), entendemos que deve proceder ao protocolo, uma vez que o apresen
tante pode, não se conformando com a posterior recusa no registro, pedir para
que a questão seja remetida ao juiz competente por meio da instauração do
procedimento de dúvida.
A única exceção à obrigatoriedade do protocolo é a apresentação do título
ao registrador apenas para exame e cálculo dos emolumentos a serem pagos
pelo interessado. Nesse sentido, dispõe art. 12 da Lei 6.015/1973: "Nenhuma
exigência fiscal, ou dúvida, obstará a apresentação de um título e o seu lança
mento do Protocolo com o respectivo número de ordem, nos casos em que da
precedência decorra prioridade de direitos para o apresentante''. Já o parágrafo
único deste artigo especifica: "Independem de apontamento no Protocolo os
títulos apresentados apenas para exame e cálculo dos respectivos emolumentos':
Todos os títulos, ao serem protocolados, deverão receber um número que
observará a ordem de apresentação. É este número que determina a prioridade
do título na obtenção do registro: o título protocolado previamente terá acesso
ao registro precedentemente aos demais.
Assim, se o mesmo imóvel tiver sido alienado a duas ou mais pessoas,
sucessivamente, o adquirente que primeiro apresentar seu título no Registro de
Imóveis adquirirá a propriedade, ainda que sua escritura tenha sido lavrada em
data posterior à do outro comprador. Na difícil hipótese de as duas escrituras
públicas terem sido lavradas na mesma data, apresentadas no mesmo dia no
Registro de Imóveis e nas quais conste a hora da lavratura, prevalecerá, para
efeito de prioridade, a que foi lavrada em primeiro lugar. Faltando um desses
requisitos, será registrada a escritura pública protocolada em primeiro lugar.
O protocolo produz efeitos por 30 dias, salvo prazo diverso previsto em lei.
Esse é o prazo para que sejam cumpridas pelo apresentante do título eventuais
exigências do registrador e realizado o registro. Caso não sejam cwnpridas as
exigências dentro do trintídio, cessam automaticamente os efeitos do protocolo
e outro título pode ser protocolado e revestir-se dos direitos de prioridade (v.g.,
novo título de hipoteca em favor de outro credor). Isso não significa que o prazo
para o registrador proceder ao exame de qualificação é de 30 dias. Como vimos
acima, a celeridade imposta pelo princípio da eficiência impõe a realização dos
atos do ofício em prazo menor que o estabelecido em lei, para que o interessado
tenha tempo suficiente para atender a eventuais exigências formuladas por oca
sião do exame de seu título. Geralmente, as normas registrais estaduais (normas
administrativas das Corregedorias-Gerais de Justiça) exigem que o exame de
qualificação seja feito dentro do prazo de dez, 15 ou, no máximo, 20 dias. Em
São Paulo, o prazo previsto nas normas é de dez dias, uma únicavez por mais
.....
~-. ;;-· .......
'::'.li
.::::i1
-r·
REGISTROS PÚBUCOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guilherme Loureiro
dez dias no máximo, quando se tratar de análise de questão complexa, nova ou
houver elevado volume de trabalho. Cumpridas as exigências pelo interessado,
o título deve ser registrado em, no máximo, cinco dias.
Seja como for, decorrido o trintídio sem que se proceda ao registro em
razão de retardamento ou omissão imputável ao particular, encerra-se auto
maticamente prenotação e o título protocolado posteriormente passará a gozar
da prioridade na inscrição. Nesse sentido, dispõe o art. 205 da Lei 6.015/1973:
"Cessarão automaticamente os efeitos da prenotação se, decorridos trinta dias
do seu lançamento no Protocolo, o título não tiver sido registrado por omissão
do interessado em atender as exigências legais':
Os efeitos do protocolo serão prorrogados no caso de suscitação de dúvida,
até que esta venha a ser definitivamente julgada Fora desta hipótese, não pode
o registrador estender a vigência dos efeitos da prenotação.
5.1. Exceções ao princípio da rogação
São exceções ao princípio da rogação ou instância: 1) a averbação dos
nomes dos logradouros, decretado pelo Poder Público (art. 167, II, n. 13, da Lei
6.015/ 1973 ); e 2) a retificação de registro ou averbação nas hipóteses do art. 213,
!, da Lei de Registros Públicos: a) omissão ou erro cometido na transposição de
qualquer elemento do título; b) indicação ou atualização de confrontação; c)
alteração de denominação de logradouro público, comprovada por documento
oficial; d) retificação que vise à alteração de rumos, àogulos de deflexão ou
inserção de coordenadas georreferenciadas, em que não haja alteração de me
didas perimetrais; e) alteração ou inserção de dado que resulte de mero cálculo
matemático a partir das medidas do perímetro que já constem do registro; f)
reprodução de descrição de linha divisória de imóvel confrontante que já tenha
sido objeto de retificação; e g) inserção ou modificação dos dados de qualificação
pessoal das partes, comprovadas por documentos oficiais.
6. PRINCÍPIO DA LEGALIDADE
Em sentido amplo, entende-se por princípio da legalidade aquele pelo qual
toda ação da Administração e toda decisão dos tribunais deve ser resultado da
aplicação da lei. E a plena vigência do ordenamento jurídico que fica acima
da vontade do agente estatal. Não só os agentes públicos devem se sujeitar ao
princípio da legalidade, mas também os particulares são sujeitos a esse princí
pio, diante do dever jurídico de cumprir as obrigações legais e convencionais.
Na esfera do direito registrai, o princípio da legalidade pode ser definido
como aquele pelo qual se impõe que os documentos submetidos ao Registro
devem reunir os requisitos exigidos pelas normas legais para que possam aceder
Titulo V , REGISTRO DE IMÓVEIS
à publicidade registrai. Destarte, para que possam ser registrados, os títulos
devem ser submetidos a um exame de qualificação por parte do registrador,
que assegure sua validade e perfeição.
De acordo com o princípio da legalidade, não basta a inscrição para que
o título tenha acesso ao Registro de Imóveis. É preciso que o título seja válido e
perfeito, de forma que antes que se proceda ao registro, o documento deve passar
por um exame de qualificação por parte do registrador. Em outras palavras, a
validade do registro depende da validade do negócio jurídico que lhe dá suporte.
Ao contrário do que ocorre na Alemanha, onde a inscrição se abstrai do título
e tem efeito saneador, no Brasil o registro não tem o condão de revalidar ou
sanar os vícios do negócio jurídico.
A legalidade em matéria registrai aplica-se a todo procedimento registrai,
mas tem seu ápice no denominado "exame de qualificação': no qual o registrador
faz o controle da legalidade do título submetido a registro. No que tange ao exame
do documento, o fundamento do princípio da legalidade se funda na necessidade
de que os assentos registrais concordem com a realidade externa ao registro,
evitando que ingressem documentos carentes de validade ou de autenticidade.
O exame ou análise que o registrador realiza para tornar efetivo o princípio da
legalidade é denominado "qualificação" e a função do registrador que examina
o documento apresentado a registro é chamada de função qualificadora.
Cabe ao registrador fazer o exame da legalidade do título, após o protocolo
do mesmo. Na opinião de Afrânio de Carvalho, esse exame deve ser restrito
ao título propriamente imobiliário, ainda que um único documento diga res
peito a matérias diversas. Segundo este autor, quando o título reunir matérias
diferentes, como, por exemplo, a dissolução da pessoa jurídica e transmissão
de seus imóveis, não cabe ao registrador examinar a legalidade da dissolução
da sociedade, bastando o arquivamento no Registro de Comércio. O Oficial
deve examinar apenas a legalidade da transmissão do imóvel, indagando se o
transmitente é titular do domínio, se o imóvel foi especializado pela menção
de seus limites e confrontações, se está ou não onerado, etc.
Tratando-se de atos da Administração, o controle da legalidade a ser rea
lizado pelo registrador, baseado na aprovação emitida por órgão competente,
deve ter natureza meramente formal. O ato administrativo tem presunção de
legalidade, não podendo ser questionado em sede administrativa de qualificação
registrária, uma vez que o oficial não pode negar efeito a ato administrativo.
Somente na esfera judicial pode ser feito o controle da legalidade material.
Assim, não pode o registrador, por exemplo, negar a averbação de desdobro
de lote (e registro do título correspondente) a resultar em área inferior a 125
metros quadrados baseado em lei municipal, sob o fundamento de que o reque
rimento, embora aprovado pelo Município, ocorreu após o prazo decadencial
previsto neste diploma legal.
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
Da mesma forma, não pode o registrador, em sede de controle da legali
dade, deixar de aplicar a norma jurídica sob o fundamento de que ela é incons
titucional. Nesse sentido, a jurisprudência unânime do Conselho Superior da
Magistratura de São Paulo:
"Definitivamente, em sede administrativa, nem o Juízo Corregedor Per
manente, nem a Corregedoria-Geral da Justiça ou o Conselho Superior da
Magistratura podem modificar critérios expressos em lei ou dá-la por incons
titucional ( ... ). Pacificou-se o entendimento de que a inconstitucionalidade
não se reconhece nesta esfera administrativa, fora das formas jurisdicionais
de controle" (Apelação Cível 97.021-0/0, da Comarca de Jundiaf).
Com efeito, o controle da constitucionalidade de lei ou ato normativo é
monopólio do Poder Judiciário18, e ainda quando realizada de forma incidental
deve observar o procedimento disposto no art. 97 da Constituição ("cláusula de
reserva de plenário"). Logo, o registrador não pode, no exercício do controle da
legalidade, afastar a incidência de lei ou ato normativo, no todo ou em parte,
ainda que não o declare expressamente por ocasião da nota de devolução do
título examinado e impedido de ter acesso ao fólio real. Afinal, o afastamento
da incidência de lei ou ato normativo equivale a considerá-lo inconstitucional
sem o devido processo legal.
Ainda no que se refere à qualificação registrai, podem ser observadas duas
correntes doutrinárias e jurisprudenciais: uma que entende que o registrador
deve ater-se às nulidades de pleno direito e outra que defenda também o exame
das anulabilidades.
Aqueles que defendem o primeiro entendimento lembram que as anulabi
lidades são destituídas de interesse público e que somente podem ser invocadas
pelos interessados. A ausência de impugnação do negócio jurídico no prazo
p~evisto em lei acarreta o convalescimento do ato.
Para os defensores da segunda posição, o registrador deve garantir a au
tenticidade, segurança e eficácia dos atos e negócios jurídicos(art. 1.0 da Lei
8.935/1994), de forma que tal profissional do direito deve, no exame de quali
ficação, investigar inclusive a existência de nulidade relativa. Desta forma, seria
cumprida a finalidade do registro, que é imprimir segurança jurídica aos direitos
reais imobiliários, precavendo o surgimento de possíveis problemas futuros.
Para os adeptos desta segunda corrente, os registradores devem suscitar
dúvidas quando encontram nulidades relativas, desde que provenham única e
18. Para parte da doutrina, também o veto presidencial a projeto de lei, por motivos jurídicos, é uma forma
de controle da constitucionalidade do projeto de lei, assim do controle prévio realizado pelo Congresso
Nacional na Comissão de Constituição e Justiça.
exclusivamente do título. Não cabe ao registrador investigar defeitos intrínsecos
ao negócio jurídico, mas apenas aqueles extrínsecos ao título, como os requisi
tos formais, a incapacidade e legitimidade, ou outro defeito visível do negócio
jurídico como a falta de consentimento do cônjuge na alienação do imóvel
comum e a ausência da anuência dos irmãos e do cônjuge na venda de pai para
filho. O vício subjetivo (erro, dolo, coação ou fraude contra-credor) não pode
ser pesquisado pelo registrador, mas apenas pelo juiz.
A nosso ver, contudo, a posição correta é a primeira. A função registrai, aí
incluída sua principal manifestação que é a qualificação, é regida pela legalidade
estrita. Ao contrário do notário, que tem maior liberdade na criação do Direito
ao formalizar juridicamente a vontade das partes e desempenhar o dever de
conselho e assessoramento, o registrador não exerce atividade de criação jurí
dica, embora também seja um intérprete e profissional especializado do Direito:
a atividade qualificadora é delimitada pela lei e atende a uma necessidade de
certeza jurídica, de forma que apenas os títulos válidos e eficazes podem ter
acesso à publicidade registrai.
Desse modo, em se tratando de documentos notariais, apenas os títulos
eivados de nulidade absoluta podem ter seu acesso ao fólio real negado, pois
tais títulos não produzem qualquer efeito e a nulidade, quando se encontrar
provada, não pode ser suprida (art. 168, parágrafo único, do Código Civil).
Ainda assim, conforme se conclui do dispositivo legal citado, apenas as nulidades
visíveis e patentes ao exame do título podem ser conhecidas pelo registrador, e
não aquelas que demandam análise da vontade interna dos outorgantes, como
a simulação e a reserva mental.
Em regra, os títulos viciados por anulabilidade não podem ter seu acesso
a registro negado, ainda que tais vícios sejam visíveis e patentes, como é o caso
da ausência da outorga uxória na venda de imóvel feita por pessoa casada sob
regime da comunhão, a venda de ascendente para descendente em que falte a
anuência de descendente ou do cônjuge casado sob comunhão de bens, aliena
ção de imóvel alugado ou locado sem oportunidade do exercício do direito da
preferência do condômino ou inquilino, etc. Tais negócios jurídicos, enquanto
não anulados em sede de ação judicial, são válidos e produzem todos os seus
efeitos (art. 177, CC), de forma que não podem ser recusados pelo registrador.
Em tais hipóteses, considera-se que se trata de venda com condição resolutiva,
já que o interessado eventualmente prejudicado pode pleitear a anulação do
ato ou negócio jurídico ou, conforme o caso, depositar o preço e haver a coisa
para si (v.g., condomínio e inquilino). Voltaremos ao tema nos itens seguintes.
A qualificação registrai também deve recair sobre os títulos judiciais: o
fato de o documento ser proveniente de uma autoridade judicial não o isenta
do exame dos requisitos necessários para que possa aceder à publicidade regis
trai. Mas é preciso frisar que o oficial do registro de imóveis (e também o juiz
corregedor) desempenha atividade administrativa. Embora possa examinar os
requisitos formais, e até mesmo intrínsecos, não pode reexaminar as decisões
dos órgãos jurisdicionais. Ao proceder ao exame de qualificação dos títulos
judiciais, não lhe cabe adentrar no mérito da decisão judicial que determinou
o registro, mas tão somente examinar os requisitos formais do título e sua ade
quação aos princípios registrais.
6.1. O exame de qualificação registrária
O princípio da legalidade é efetivado mediante o exame de qualificação
do título apresentado. Qualquer que seja a natureza do título (escritura pública,
instrumento particular, título judicial, título administrativo), está sujeito à quali
ficação registrária. É atribuição do oficial registrador proceder à qualificação do
título, ainda que se trate de mandado ou carta de sentença extrai da de ação judicial.
O Conselho Superior da Magistratura (CSM) do Estado de São Paulo já
teve a oportunidade de assentar que ''a circunstância de exibir-se a inscrição
do título de origem. judicial não implica isenção dos requisitos registrários,
incumbindo ao registrador: a) verificar a competência (absoluta) da autoridade
judiciária; b) aferir a congruência do que se ordena ao registro com o processo
respectivo; c) apurar a presença das formalidades documentais; d) examinar
se o título esbarra em obstáculos propriamente registrários (p. ex.: legalidade,
prioridade, especialidade, consecutividade)" (RJTJESP 137/588).
Interessante observar que essa decisão se baseia exclusivamente na opinião
da doutrina espanhola, que, por sua vez, arrima-se na legislação hipotecária (art.
100 do "Reglamento para la Execución de la Ley Hipotecaria"). Ao contrário da
legislação brasileira, que silencia sobre o tema relativo aos limites da qualificação
registra!, a norma espanhola dispõe expressamente que "a qualificação pelos
registradores dos documentos expedidos pela autoridade judicial se limitará à
competência do juiz ou tribunal, à congruência do mandado com o procedi
mento ou juízo em que fora ditado, às formalidades extrínsecas do documento
apresentado e aos obstáculos que surjam do Registro''.
Aliás, a Lei 6.015, de 1973, sequer trata especificamente da qualificação
registrai. No art. 182 e seguintes dispõe sobre o processo de registro, disciplinan
do a prenotação, o direito de preferência, a continuidade registrai, o registro e o
processo de dúvida, sem se preocupar em definir a qualificação e seus limites.
O conceito e as características dessa função do registrador são construídos,
entre nós, pela doutrina e pela jurisprudência, à luz dos princípios registrais e
da interpretação sistemática e teleológica de normas legais previstas na Lei de
Registros Públicos, e também com base nos ensinamentos do direito comparado.
Cabe observar que, a rigor, as raras normas que tratam mais diretamente
do tema, como aquelas que se referem aos títulos registráveis (arts. 221 a 226
Titulo V • REGISTRO DE IMÓVEIS 551
da LRP), dão a entender que o registrador deve se ater ao exame dos requisitos
formais (extrínsecos) dos títulos, notadamente quando se tratar de títulos admi
nistrativos e judiciais. Nossa doutrina e jurisprudência já se encontra razoavel
mente madura no que tange à qualificação dos títulos notariais e particulares,
mas há poucos estudos doutrinários sobre os limites do exame que recai sobre
os títulos judiciais e administrativos.
A nosso ver, como a lei não prevê a possibilidade de o registrador analisar
a competência do juiz, ainda que absoluta, e tampouco a congruência do man
dado com o procedimento seguido em juízo, a qualificação do título judicial se
limita aos seus aspectos extrínsecos e aos "obstáculos que surjam do Registro':
tais como a inexistência tabular do imóvel descrito no título judicial, o fato de
o imóvel em questão estar registrado em nome de terceiro que não foi parte no
processo e não haver referência a este suposto no documento judicial e outras
hipóteses de violação dos princípios da continuidade e especialidade.
Entendemos que, na falta de previsão legal expressa, a orientação seguida
na lei ena doutrina espanhola e sufragada na decisão supracitada não pode ser
simplesmente trasladada para nossa ordem jurídica. De acordo com nosso direito
processual, a questão da competência e dos vícios processuais deve ser resolvida
na esfera judicial e a coisa julgada saneia todos esses vícios, por mais graves que
sejam. Quer nos parecer, portanto, que não cabe ao registradorveríficar se a citação
é validade, se a parte é legítima ou se o documento provém de autoridade judicial
absolutamente competente, salvo casos extremos e cuja ineficácia não é sanada
pela coisa julgada, como, por exemplo, um documento judicial de homologação
de sentença estrangeira que não é proveniente do Superior Tribunal de Justiça.
A rigor, e nesse sentido se encaminha a jurisprudência dominante, o oficial
de registro imobiliário, na qualificação de título judicial, deve se limitar ao exame
das formalidades (aspectos extrínsecos) e à existência de obstáculos provenientes
do Registro. O tema da qualificação registrai é extremamente interessante e útil
e merece um estudo mais aprofundado, notadamente no que concerne aos seus
limites, que variam de acordo com a natureza do título examinado. Esse limite é
mais amplo nos títulos notariais e particulares e apresenta amplitude bem mais
restrita quando se trata de documentos administrativos e judiciais. Veremos, a
seguir, alguns aspectos da qualificação registrai em geral, obedecendo à finalida
de e alcance do presente trabalho, que é a de propiciar uma visão aprofundada,
mas geral e ampla da matéria relacionada aos registros públicos e à atividade
notarial, abordando os principais aspectos teóricos e práticos.
6.1.1. Qualificação registrai e Estatuto da Pessoa com Deficiência
O advento do Estatuto da Pessoa com Deficiência implicou em repercus
sões importantes na atividade notarial e de registros. Uma destes reflexos diz
respeito à atividade de qualificação do registrador imobiliário.
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRATICA • Luiz Guilherme Loureiro
O Estatuto estabelece o direito à acessibilidade, assim compreendido o in
teresse legitimo da pessoa com deficiência ou com mobilidade reduzida, de viver
de forma independente e exercer seus direitos de cidadania e de participação
social (art. 53, Lei n. 13.146/2015). A lei tutela, assim, não apenas a pessoa com
restrição à locomoção em virtude de incapacidade física, mental, intelectual ou
sensorial, mas também as pessoas que, por qualquer motivo, apresentam dificul
dade de movimentação, permanente ou temporária, gerando redução efetiva da
mobilidade, aí incluídos os idosos, as gestantes, as pessoas com criança de colo
e o obeso ("pessoa com mobilidade reduzida" - art. 3°, IX, Lei 13.146/2015).
A contrapartida ao direito de livre mobilidade, a administração tem o dever
de garantir a acessibilidade por ocasião da edição de leis e atos administrativos
referentes ao urbanismo, uso e ocupação do solo, sistema viário, expedição de
autorizações, habite-se, etc. (art. 60, !).
Daí decorre que o registrador tem o dever de velar por tal direito no exer
cício de sua atividade de fiscalização da regularidade dos empreendimentos que
devem aceder à publicidade registrai. Este dever está previsto expressamente
no art. 60, IV, do Estatuto da Pessoa com Deficiência e também é reflexo do
princípio da legalidade.
Com efeito, a lei supracitada estabelece uma série de definições legais que
repercutem no direito de construir e, por isso mesmo, na função do registrador
imobiliário que, a nosso ver, deve tê-las em mente por ocasião do exercício de
sua atividade de qualificação de titulos envolvendo loteamentos, condomínios
edilícios e programas habitacionais públicos ou privados.
Um desses conceitos é definição de "barreiras~ considerado como "qual
quer entrave, obstáculo, atitude ou comportamento que limite ou impeça a
participação social da pessoa, bem corno o gozo, a fruição e o exercício de seus
direitos à acessibilidade, à liberdade de movimento e de expressão, à comuni
cação, ao acesso à informação, à compreensão, ·à ciréulação com segurança,
entre outros''. (art. 3°, IV, da Lei n. 13.146/2015). Dentre estas se encontram
as barreiras urbanísticas, que são aquelas as existentes nas vias e nos espaços
públicos e privados abertos ao público ou de uso coletivo (art. 3°, IV, "à'); e as
barreiras arquitetônicas existentes nos edifícios públicos e privados (letra "b"
do mesmo dispositivo legal).
Assim, por exemplo, na qualificação prévia aos registros de loteamentos e
condomínios edilícios, cumpre ao registrador observar atentamente a planta e
o memorial descritivo do empreendimento, para verificar se não existem bar
reiras, tal como acima definidas. Especial atenção deve ser dedicada na análise
dos elementos de urbanização e no mobiliário urbano.
Entende-se por "elemento de urbanização", quaisquer componentes de
obras de urbanização, tai$ como os referentes à pavimentação, ao saneamento,
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS
ao encanamento para esgotos, à distribuição de energia elétrica e de gás, à ilu
minação pública, aos serviços de comunicação, abaste.cimento e distribuição
de água, paisagismo e os que materializam as indicações do planejamento ur
banístico (art. 3°, VII). Por sua vez, é considerado como "mobiliário urbano", o
conjunto de objetos existentes nas vias e nos espaços públicos, superpostos ou
adicionados aos elementos de urbanização ou de edificação. No planejamento
ou modificação do mobiliário urbano não podem existir obstáculos à acessibili
dade, tais como semáforos, postes de sinalização e similares, marquises, bancos,
quiosques e quaisquer outras construções ou benfeitorias que prejudiquem o
livre acesso e transito de pessoas com deficiência.
O mesmo cuidado deve ser observado na análise das unidades autônomas,
já que a lei garante à pessoa com mobilidade reduzida a moradia com estruturas
adequadas capazes de proporcionar serviços de apoio coletivos e individualizados
que respeitem e ampliem o seu grau de autonomia (art. 3°, XI).
Na hipótese de constatação de existência de barreiras urbanísticas e ar
quitetônicas, o registrador deve formular exigências para que sejam sanadas
as irregularidades que viole a faculdade da pessoa com deficiência de exercer,
em igualdade de condições com as demais pessoas, os direitos e liberdades
fundamentais garantidos a todos os indivíduos. Em tal hipótese, o interessado
no registro deve realizar as adaptações, modificações e ajustes necessários e
adequados que não acarretem ônus desproporcional e indevido ao empreen
dimento (art. 3°, VI, Lei n. 13.146/2015).
Outra obrigação funcional refere-se à fiscalização da observância do direito
de preferência da pessoa com deficiência na aquisição de imóvel em programas
habitacionais subsidiados com recursos públicos. Por ocasião da qualificação
de títulos referentes a programas habitacionais, públicos ou subsidiados com
recursos públicos, cabe ao registrador examinar se o projeto reserva no mínimo,
3% das unidades habitacionais para pessoa com deficiência (aqui não se inclui
as pessoas com mobilidade reduzida), uma vez que lei lhe assegura prioridade
na aquisição de imóvel para moradia própria em tais empreendimentos (art.
32). Este direito de prioridade é reconhecido apenas uma vez, vale dizer, ape
nas é reconhecido à pessoa com deficiência de locomoção que ainda não seja
proprietária de imóvel habitacional(§ 1°, art. 32).
6.2. Características da função qualificadora
A função qualificadora tem as seguintes características: a) é uma função
independente, uma vez que o registrador é um profissional do Direito com in
dependência no desempenho de suas atribuições; b) é completa e integral, pois
se aplica sobre o título no seu todo, devendo o registrador, quando for o caso,
formular por escrito, de uma só vez, todas as exigências para tornar possível
... -· ••
.-.
i 554 ! REGISTROS PÚBLICOS-TEORIA E PRÁTICA • luizGuilhermeloureiro
o seu registro;c) é uma função obrigatória, não podendo o registrador deixar
de exercê-la a pretexto de obscuridade ou omissão da lei por se tratar de uma
função pública, que lhe é delegada pelo Estado19
•
6.3. Alcance e limites do exame de qualificação
O alcance da potestade do registrador para qualificar um documento varia
de acordo com o ordenamento jurídico. Em alguns sistemas registrais, como
o Torrens, as faculdades de qualificação são muito amplas, já que se trata de
um sistema que convalida o documento, isto é, purga qualquer nulidade ou
defeito que possa viciar o título. Outros sistemas, como o alemão - que separa
o negócio causal do ato de disposição -, também conferem um amplo poder
de qualificação ao registrador imobiliário, mas o circunscreve aos negócios
dispositivos exclusivamente. Há outros sistemas registrais, como o brasileiro,
que facultam ao registrador qualificar a validade do negócio jurídico, a sua
forma e demais circunstâncias (art. l.º da Lei 8.935/1994). Finalmente, existem
sistemas que limitam o exame de qualificação às formalidades extrínsecas do
documento, vedando a análise da validade do negócio jurídico instrumentado
ou a capacidade das partes.
Existem polêmica e controvérsia na doutrina acerca dos limites impostos
ao registrador na realização de sua função qualificadora. De forma resumida,
podemos classificar as diferentes posições em concepções limitadas ou restritas
e concepções amplas .
A) Concepções limitadas ou estritas:
Para os defensores dessa posição a função qualificadora deve se limitar
à análise da legalidade das formas extrínsecas do documento. Por «forma ex
trínsecá' devem ser entendidas as solenidades previstas na lei para formação
dos documentos submetidos a registro. No que tange às escrituras públicas,
por exemplo, tais solenidades estão previstas no art 215 do Código Civil e em
outros dispositivos legais, dependendo do negócio jurídico nela instrumentado.
Compreende, ademais, as disposições que devem constar do documento
por expressa disposição da lei federal, estadual ou municipal, como os emolu
mentos, o recolhimento de tributos e obrigações fiscais ( v.g., emissão de DO!
- Declaração de Operação Imobiliária-, que deve ser enviada à Receita Federal
para fins de informar a transmissão da propriedade do imóvel), apresentação
de certidão negativa de débito etc. - art. 289/LRP.
19. Diante disso, a falta do exame de qualificação ou sua realização de forma Imperfeita sujeita o registrador
a indenizar os prejuízos causados ao interessado ou a terceirôs.
Título V • REGISTRO DE IMÓVEIS 555
O limite, segundo a posição em estudo, é duplo: por um lado, deve
circunscrever-se à análise da legalidade das formas extrínsecas e, por outro,
deve ater-se aos dados que resultam do título examinado e aos que constam dos
assentos e documentos constantes do Registro, ao contrário do que ocorre em
alguns países, onde a lei expressamente determina que o registrador, no exame
de qualificação, deverá se ater à análise das formalidades extrínsecas do título,
a Lei 6.015/1973.
O art. 198 desta lei afirma que, havendo exigência a ser satisfeita, o oficial
deverá indicá-la por escrito, e, não havendo conformidade com tal exigência,
o interessado poderá interpor uma espécie de recurso administrativo denomi
nado "dúvida~ Por sua vez, o art. 205 dispõe que os efeitos da prenotação serão
cancelados automaticamente, se o interessado não atender às "exigências legais"
no prazo de trinta dias a partir do protocolo do título. Outros dispositivos legais
fazem menção aos requisitos que devem constar dos títulos, que são aqueles da
escrituração do Livro n. 2 (art. 176/LRP).
Cumpre afirmar que essa postura restritiva do alcance da função qualifi
cadora é minoritária e está em franco retrocesso, uma vez que resulta da inter
pretação gramatical e isolada de normas de leis registrais como os arts. 196 e
205 da LRP. A interpretação sistemática deste dispositivo legal em consonância
e a inteligência de outras normas da Lei 6.015/1973 deixa clara a possibilidade
de o registrador examinar não só os requisitos formais do documento, como
a própria legalidade do negócio jurídico que forma o seu conteúdo, como é
o caso do ato ou contrato cuja nulidade é absoluta e manifesta, a violação de
princípios registrais etc.
B) Concepções amplas
Essa corrente doutrinária é formada por abalizadas opiniões de diferentes
autores. Para MOISSET DE ESPANÉS, a função qualificadora não se limita ao
exame da legalidade das formas extrínsecas, englobando outros aspectos como
a validade do ato ou negócio jurídico documentado, a ausência de obstáculos
colocados pelo próprio Registro, como a observância dos princípios da conti
nuidade, da especialidade e da legitimidade ou disponibilidade.
As concepções amplas também não são pacíficas quanto ao exato alcance ou
limites da função qualificadora. Por exemplo, no que tange ao negócio jurídico
contido em uma escritura pública, surge a questão de saber se o registrador deve
analisar apenas as nulidades manifestadas, ou se o exame recai também sobre
as anulabilidades, desde que prontamente visíveis e perceptíveis.
Aqueles que defendem o primeiro entendimento lembram que as anulabi
lidades são destituídas de interesse público e que somente podem ser invocadas
pelos interessados. A ausência de impugnação do negócio jurídico no prazo
previsto em lei acarreta o convalescimento do ato.
: 556 1
l~___J___
REGISTROS PÚBLICOS - TEORIA E PRÁTICA • Luiz Guf/herme Loureiro
Para os defensores da segunda posição, o registrador deve garantir a au
tenticidade, segurança e eficácia dos atos e negócios jurídicos (art. 1.0 da Lei
8.935/1994), de forma que tal profissional do direito deve, no exame de qualifi
cação, investigar inclusive a existência de nulidade relativa. Somente assim seria
cumprida a finalidade do registro, que é imprimir segurança jurídica aos direitos
reais imobiliários, precavendo o surgimento de possíveis problemas futuros.
Para MOISSET DE ESPANÉS, reveste-se de especial importância a faculdade
do registrador de qualificar o conteúdo do ato ou negócio jurídico, de forma que
lhe cabe observar se os documentos levados a registro contêm atos de nulidade
absoluta e manifesta, já que a lei impõe a obrigação de devolver o documento
nulo sem praticar o assento correspondente ao registro solicitado. 20 Mas também
a nulidade relativa, desde que manifesta, deve ser examinada pelo registrador,
pouco importando se afeta as formalidades extrínsecas ou se diz respeito ao
conteúdo do ato instrumentado. Sendo a nulidade relativa um vício sanável, deve
o registrador devolver o documento e formular as exigências cabíveis. Sanado o
vício pelo interessado no prazo legal, o titulo será registrado. Do contrário, são
extintos automaticamente os efeitos da prenotação e o registro somente será
possível mediante novo protocolo do documento sem os vícios anteriores, isso
se não tiver sido prenotado outro documento contendo direito real incompativel
com aquele instrumentado no título devolvido por vício não saneado.
Como já adiantamos acima, de acordo com o nosso ordenamento jurídi
co, o entendimento mais correto é aquele segundo o qual o registrador apenas
pode - no exame de qualificação - vedar o acesso do título notarial que contiver
nulidade absoluta e manifesta, como: o negócio jurídico celebrado por pessoa
absolutamente incapaz sem a devida representação; aquele que contiver objeto
ilícito, impossível ou indeterminado; aquele que a lei taxativamente declarar
nulo ou proibir-lhe a prática (ex.: cessão de herança de pessoa viva) ou no qual
foi preterida solenidade especial ("formalidade extrínseca'').
Os atos ou negócios jurídicos anuláveis são considerados válidos por nosso
ordenamento jurídico, e produzem efeitos legais, isto é, são eficazes, enquanto
não anulados por decisão judicial. Tais negócios são suscetíveis de confirmação
pela parte ou por terceiro que deveria a ele anuir