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Conteudista: Prof.a M.ª Maria Cristina Natel Revisão Textual: Prof.a Dra. Selma Aparecida Cesarin Objetivos da Unidade: Compreender o papel da família no desenvolvimento da aprendizagem; Compreender o conceito de modalidade de aprendizagem familiar; Reconhecer a importância dos conceitos de parentalidade e conjugalidade. 📄 Contextualização 📄 Material Teórico 📄 Material Complementar 📄 Referências Família e Aprendizagem A aprendizagem é um processo que se significa familiarmente, ainda que se aproprie individualmente, afirma Fernandez (1990, p.116). Isso posto, qual a influência da modalidade de ensino das famílias na formação e na manutenção dos problemas de aprendizagem das crianças? Essa questão nos remete a Fernández (1990; 2001), que evidencia as relações entre ensinante e aprendente nos processos de aprendizagem que ocorrem nas famílias, sinalizando que, quando ocorre um problema de aprendizagem, o mais comum é apenas entrar em jogo o aprendente que fracassa, mas que é necessário analisar ensinantes e vínculos que fracassam, ou seja, a autora trata ensino e aprendizagem como um binômio indissociável. Página 1 de 4 📄 Contextualização Introdução O tema central desta Unidade é a família em sua dinâmica. Houve um tempo em que a família tinha contornos delimitados e estanques: o casamento era quase indissolúvel e os papéis sociais do homem e da mulher eram bem definidos. Devido às mudanças histórico-sociais, a família adquiriu novos contornos, uma variedade de arranjos, para além da família nuclear, tais como: as famílias monoparentais, as famílias homoafetivas etc., inaugurando novos modelos de família. Batizada de família contemporânea ou pós-moderna, ela é fruto das exigências emanadas dos movimentos pela igualdade de direitos entre homens e mulheres e pela mudança do comportamento feminino, repercutindo de forma significativa nas relações familiares. Página 2 de 4 📄 Material Teórico Figura 1 – Família Fonte: Getty Images #ParaTodosVerem: letras pretas em blocos de madeira compondo a palavra família. Fim da descrição. Família – Concepção, Função e Papéis A família atua como primeira mediadora entre o homem e a cultura, e se constitui na unidade dinâmica das relações de cunho afetivo, social e cognitivo, que estão imersas nas condições materiais, históricas e culturais de um dado grupo social (DESSEN, 2007). Sendo a matriz da aprendizagem humana de padrões, modelos e influências de determinada cultura e determinada época, como instituição social, ela vem se alterando e assumindo diversas configurações, sendo necessário compreendê-la em função das mudanças sociais, culturais e religiosas, entre outras. Para Fernández (2001, p. 78), a matriz da aprendizagem é uma modalidade de aprendizagem compreendida como “um molde ou esquema de operar que vai sendo utilizado nas diferentes situações de aprendizagem, sendo um molde relacional”. Biassoli-Alves e Moreira, (2007, p. 2002, apud CASTRO, 2022) concebem a família como: - CASTRO, 2020 “A família é a protagonista de suas próprias transformações.” Já Bourdieu (1996, p. 125 apud CASTRO, 2022), “Concebe a família como uma realidade que transcende seus membros, uma personagem transpessoal dotada de uma vida e de um espírito coletivos e de uma visão específica do mundo”. Os membros de uma família se organizam e se estruturam a partir de três relações básicas, a saber: “[...] As alianças servem para unir uns aos outros em um grupo, em um casal, em uma família ou em um conjunto institucional, referindo-se a elas como o "cimento" da matéria psíquica (KAËS, 2005 apud ALMEIDA, 2014). A aliança conjugal – Entre o casal; A filiação – Entre pais e filhos; A consanguinidade – Entre irmãos. “Um organismo social mutante através do qual os homens e mulheres se adaptam pela sociedade em um processo de adequação dos valores sociais e de transformações das relações. Tais situações vão reconstruindo a sociedade, cujo comportamento humano é inspirado nessa transmissão de testemunho passado entre as gerações que faz sobreviver a identidade da família, atualizando-a ao longo da história.” Osório (1996) sinaliza que os papéis instituídos nas relações – conjugal, parental, fraternal – nem sempre correspondem aos indivíduos que convencionalmente designamos como seus depositários, já que o papel de uma mãe eventualmente poderá ser desempenhado por uma avó ou mesmo pelo pai e o papel filial poderá estar depositado num dos cônjuges, cuja maturidade emocional o torne carente de proteção. Na atualidade, abre-se a família às realidades éticas, políticas, religiosas e sociais em que seus membros estão inseridos, não havendo depreciação de um modelo de família, mas sim uma mudança em sua configuração – tradicional, nuclear, monoparental e homoafetiva, entre tantas outras, em que “os rótulos são reformulados e o pai deixa de ser intocável e absoluto, como no patriarcado, para se reinventar nas relações familiares, buscando, assim, uma reestruturação da vida privada e econômica” (ROUDINESCO, 2003, p. 32). Saiba Mais O papel conjugal pressupõe a interdependência dos participantes do casal e a conjugalidade não abarca as atribuições da função reprodutora. O papel parental não corresponde somente à paternidade e à maternidade biológicas, mas também à função materna e à função paterna. O papel fraternal caracteriza-se pela ambivalência de sentimentos. As novas formações familiares não constituem uma derrota para a família nuclear, tão pouco um problema a ser combatido, afirma Castro (2020, p. 446): “[...] a contemporaneidade quer equiparar os papéis sociais e familiares de homens e mulheres, dar voz ao que antes era marginalizado e democratizar as relações”, e rever as bases da família tradicional. Isso posto, entendemos Salvari e Dias (2006, p.258) quando afirmam não ser mais possível considerar somente um modelo tradicional e triangular de família – pai – mãe – filho, uma vez que na contemporaneidade: Ainda que necessariamente o aprender tenha como matriz os primeiros vínculos familiares e a afetividade seja inerente à aprendizagem, não é possível adotar um pensamento reducionista de que: “[...] O profissional na clínica não pode restringir a sua escuta a uma única forma de composição e de dinâmica familiar e, portanto, precisa estar atento às novas configurações de família, adequando os enquadramentos diagnósticos e terapêuticos de modo a facilitar a compreensão das particularidades de seu funcionamento e seus reflexos no desenvolvimento das aprendizagens da criança.” Essas autoras afirmam que seja qual for a causa do problema de aprendizagem, o grupo familiar é fator essencial para a manutenção ou a resolução do problema. Os Impactos dos Transtornos do Neurodesenvolvimento da Dinâmica e nas Relações Familiares Anteriormente, vimos que os Transtornos do Neurodesenvolvimento, segundo o DSM V (2014), são classificados em sete subcategorias. Neste texto, vamos retomar as subcategorias, o Transtorno do Espectro Autista e o Transtorno Específico de Aprendizagem e as possíveis reverberações na dinâmica familiar. - BRAGA et al., 2007, p. 151 “A família determine o problema de aprendizagem de um de seus membros (...) sendo fundamental encontrar a relação do sujeito com o conhecimento e o significado do aprender para ele e seu grupo familiar, quando queremos entender a complexidade dos fenômenos envolvidos no problema de aprendizagem.” Figura 2 – Brincando e aprendendo Fonte: Getty Images #ParaTodosVerem: duas mãos de crianças brincando e pressionando um pop-it circular colorido com seis cores, sobre uma superfície escura. Fim da descrição. As mudanças na rotina, nas relações entre os membros e na relação da família com o social são algumas das alterações no dia a dia dos membros da família, seja no âmbito doméstico, seja no âmbito do trabalho, tendo em vista as demandas da criança que apresenta alguma dificuldade. A perspectiva de Dessen e Silva (2014, p. 422) de que“o desenvolvimento das crianças com deficiência é influenciado pelas relações familiares, sobretudo pelo modo como os pais lidam com deficiência” e pelo suporte oferecido a elas, em nosso entender, pode ser estendida às crianças com Transtornos do Neurodesenvolvimento. Sobre o Transtorno do Espectro Autista – TEA Em se tratando do Transtorno do Espectro Autista – TEA, os estudos de Minatel e Matsukura (2014, apud MACHADO, 2018, p. 341) sobre as experiências e as demandas cotidianas no contexto de cuidados de filhos diagnosticados com TEA, identificaram que as famílias organizam sua rotina em função desse membro, tanto no que diz respeito à rotina interna (domiciliar) quanto à externa (social), independentemente da fase desenvolvimental, de terem outros filhos, de trabalharem ou de estudarem. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) exige ajustes da família, tanto em relação à dinâmica familiar quanto ao meio social, a fim de propiciar um ambiente que contribua para uma melhor qualidade de vida do sujeito e de seus membros. O estudo de Fonseca et al. (2019) aponta o estresse parental e a tensão emocional – em casa, no trabalho, nos relacionamentos com parentes e amigos – como uma das influências do TEA nas relações familiares. Ainda que os cuidados de um filho com TEA recaiam, sobretudo, sobre a figura materna, acarretando níveis elevados de estresse, ansiedade, depressão e sobrecarga, os pais também apresentam sintomas psíquicos em decorrência do TEA. O sistema familiar é modificado e afetado a partir do diagnóstico, impactando a relação conjugal, dada à necessidade de o casal desenvolver habilidades parentais no que diz respeito à estruturação de cuidados rotineiros, a partir de uma rede de apoio profissional. Após o diagnóstico, a família pode entrar em uma fase de negação, entendida como um mecanismo de defesa, por vivenciar sentimentos que se comparam ao luto, um luto simbólico, vivido pela perda do filho perfeito, uma vez que segundo, Coll, Marchesi e Palacios (2004, apud DE SOUZA, 2021, p. 167), "há sempre um sentimento de perda quando se tem um filho com deficiência." Fonseca et al. (2019) constataram, em sua pesquisa, que outra influência do TEA nas relações familiares é a diminuição do convívio social, haja vista que os pais ficam incomodados com o olhar do outro sobre o filho. Os cuidados rotineiros para com o filho com TEA não influenciam a relação entre irmãos. No entanto, é reclamado e sentido pelos filhos que não apresentam o transtorno, vez que os estudos de Araújo (2012, apud FONSECA, 2019, p. 458-9) “apontaram a presença de altos níveis de depressão, problemas comportamentais, solidão, comprometimento na qualidade de vida e impacto na relação com os pais”. E como as famílias lidam e enfrentam as demandas específicas do Transtorno do Espectro Autista – TEA? Diversos autores apontam como estratégias de enfrentamento adotadas pelas mães e pelos irmãos de pessoas com TEA a construção compartilhada de cuidados e o estímulo ao fortalecimento da rede social de apoio à família, bem como a adesão ao tratamento grupal, que contribui positivamente em relação à ansiedade, à depressão, à insônia e à percepção sobre o bem-estar nas relações familiares (FONSECA et al., 2019). Fundamentado nos estudos de Feinberg et al. (2014), Fonseca (2019, p. 460) sinaliza a eficácia da intervenção cognitivo-comportamental, vez “que os pais passaram a apresentar diminuição no estresse e nos sintomas depressivos”, e do uso de jogos como estratégias de enfrentamento, medidas que promovem a interação e a comunicação entre a criança com TEA e seus familiares. Sobre Transtorno Específico de Aprendizagem com Prejuízo na Leitura – Dislexia Em se tratando do Transtorno Específico de Aprendizagem – Dislexia – a família tem um papel fundamental frente às experiências negativas decorrentes das dificuldades com a aprendizagem da leitura, vez que as atitudes dos pais em relação às capacidades dos filhos têm efeito poderoso sobre como suas crianças veem a si mesmas, impactando na autoestima e podendo desenvolver comportamentos reativos em relação à Escola, como vergonha de entrar na sala de aula ou de conversar com os colegas (SMITH; STRICK, 2007). O grupo familiar pode ser entendido como um facilitador e ou um dificultador no desenvolvimento, se não houver a devida compreensão de uma determinada situação. Corroboram com essa premissa Braga, Scoz e Munhoz (2007), quando argumentam que: Há famílias cujas características facilitam a aprendizagem, como é o caso daquelas que apresentam maior engajamento e disposição em relação ao potencial de aprendizagem da criança. Outras características das famílias podem justamente gerar dificuldades no processo de aprendizagem da criança. Essas autoras sinalizam, ainda, que a família do paciente-problema de transtorno (grifo nosso) de aprendizagem apresenta-se: Afirmam Silva et al. (2016, apud PAIM, 2019) que a família deve ser acolhida em suas aflições, isto é, precisa ser ouvida e instruída sobre as questões envolvidas – avaliação/intervenção – no transtorno específico de aprendizagem. À semelhança de famílias que tentam suprimir ou neutralizar as diferenças, de seus membros, há também escolas cuja padronização de métodos e normatização de estudantes pode acarretar certa negligência de singularidades e potencialidades. O aluno que não se adapta ao sistema, o aluno com dislexia, por exemplo (grifo nosso), geralmente, é responsabilizado, e isso gera a produção de desigualdades, fracassos e humilhação (MACHADO, 2004). A família e a Escola, quando negligenciam a potencialidade de alunos e filhos com dislexia também deixam evidente um comportamento de oposição a essa pessoa, que se manifesta em dispersões, em desatenção e em distanciamento que, interpretados erroneamente, não permitem que pais e professores aprendam a distinguir dislexia de preguiça, cansaço ou falta de disciplina (PAIM, 2019). A dislexia localiza-se na fronteira da saúde e da educação, “[...] E, enquanto categoria diagnóstica do campo biomédico, apresenta uma base neurobiológica primária, que caracteriza um padrão ‘desviante’ de funcionamento para a leitura em relação a uma norma arbitrariamente aceita” (LAMEGO; MOREIRA, 2019). - BRAGA; SCOZ; MUNHOZ, 2007 “De forma frequente, como um bloco indiferenciado, onde a estrutura é marcada pela tentativa de suprimir ou neutralizar as diferenças. São famílias alicerçadas na indiferenciação de seus membros, onde é difícil aceitar pensamentos diferentes sem que isso signifique uma agressão ou motivo de conflitos.” Assim, a criança com dislexia geralmente vivencia uma “vida secreta”, pois percebe que não é como as outras crianças e prefere manter segredo sobre seu transtorno. Isso acarreta enorme pressão sobre ela, que vive secretamente, com medo de ser descoberta e de não se adaptar às situações, e “acaba evitando situações desconfortáveis nas quais seu segredo possa ser revelado” (FRANK, 2003, p. 79). O Diagnóstico do TEA e da Dislexia O diagnóstico pode ser definido como um processo pelo qual se busca um método de avaliação, um olhar organizado e sistematizado sobre determinado sintoma, afirma Jutel (2011 apud LAMEGO; MOREIRA, 2019 p. 14), pois a partir dele “organiza-se a doença, identificam-se as opções de tratamento, pode-se predizer resultados e fornecer quadros explicativos”. Ainda segundo Lamego e Moreira (2019, p.19), o diagnóstico se torna relevante nas relações entre a família e a Escola, pois “funciona como ‘moeda’ para reivindicações de acesso a recursos, permitindo a inserção do indivíduo no campo dos direitos:[...]”. O diagnóstico precoce pode impactar positivamente a organização da dinâmica familiar pois, o conhecimento de uma desordem crônica irremediável permite o preparo do ambiente familiar e social no sentido de propiciar ao indivíduo acometido a melhor qualidade de vida possível. O reconhecimento precoce de situações que necessitem de suporte favorece o início deles,antes que complicações emocionais secundárias se instalem (ARAÚJO, 2002, apud COELHO, 2015). Em sendo o diagnóstico precoce fundamental, Cavaco (2022, p. 188) propõe estratégias de despiste para pais e técnicos de crianças com TEA, das quais destacamos: Observar os indicadores desenvolvimentais, desde a tenra idade; Observar e registrar as brincadeiras em vídeo; Observar e registar o foco de interesse; Observar se desenvolve alguma estereotipia; A comunicação entre pais e filhos é um aspecto importante na relação entre pais e filhos pois, do mesmo modo que “as palavras positivas influenciam para que as crianças se sintam fortes e capazes, as palavras negativas também as influenciam a se sentirem inferiores e incapazes” (SMITH; STRICK, 2007, p. 215). O repertório pode ser alterado com a seleção de novas palavras, substituindo as de conotação negativa por outra de conotação positiva e, ao invés de dizer: “− Essa criança é teimosa”. busque dizer “− Essa criança é persistente.”, como mostra o quadro a seguir: Quadro 1 – Influência da palavra Palavras com conotação negativa Palavras com conotação positiva É uma selvagem Tem energia É exigente Tem altos padrões É teimosa É persistente É ansiosa É cautelosa É enjoada É seletiva Observar e registar a forma como exterioriza as emoções e como lida com as emoções dos outros; Observar e registrar os níveis de intensidade das manifestações; Verificar o tipo de linguagem (se existe intencionalidade de comunicação ou se trata de repetição). Palavras com conotação negativa Palavras com conotação positiva É explosiva É ativa É barulhenta É entusiasmada Fonte: SMITH; STRICK, 2007, p. 216 A qualidade dos laços afetivos formados na família, particularmente, entre pais e filhos, pode ser desencadeadora de um desenvolvimento saudável e de padrões de interação positivos, vez que, segundo Eisenberg & col. (1999, apud DESSEN; POLONIA, 2007, p. 24) “o apoio parental, em nível cognitivo, emocional e social, permite à criança desenvolver repertórios saudáveis para enfrentar as situações cotidianas”. De modo inverso, “o estresse parental e a incongruência nas atitudes dos pais em relação à criança geram problemas de ajustamento e dificuldades de interação social”, afirmam Volling e Elins (1998, apud DESSEN; POLONIA, 2007, p. 24), que reafirmam a importância e influência das figuras parentais na construção dos vínculos afetivos, da autoestima e do autoconceito. A Conjugalidade e a Coparentalidade no Contexto dos Transtornos do Neurodesenvolvimento Minucchin (1982, apud FRIZZO et al., 2005, p. 86), fundamentado na Teoria Sistêmica, concebe a família como “um sistema familiar que diferencia e realiza suas funções por meio de subsistemas”, sendo: O subsistema conjugal constituído quando dois adultos se unem com o propósito de formar família; O subsistema parental surge com o nascimento do primeiro filho, sendo uma de suas funções a educação e socialização dos filhos. Entre esses subsistemas, situa-se a coparentalidade, entendida como a extensão na qual o pai e a mãe dividem a liderança, apoiam-se nos seus papéis parentais e, ao mesmo tempo, um mecanismo que evidencia o quanto as relações conjugais afetam as relações entre pais e filhos, na medida em que o conflito conjugal afetaria a parentalidade e, consequentemente, a interação com a criança (FRIZZO et al., 2005). A coparentalidade não implica a equivalência dos papéis parentais em termos de autoridade e de responsabilidade. Envolve, sim, o apoio e o comprometimento mútuo no exercício da parentalidade. O Exercício da Coparentalidade em Famílias Constituídas de Filhos com Deficiência Trocando Ideias... Você sabe qual a diferença entre o conceito de coparentalidade e o de relacionamento conjugal? Enquanto a coparentalidade está associada e é motivada pela preocupação com o bem-estar da criança, o relacionamento conjugal refere-se à intensa preocupação com o parceiro, por si e pela relação conjugal (FRIZZO et al., 2005). Ainda que seja reconhecida a importância da coparentalidade para a compreensão do sistema familiar, diversos autores assinalam o predomínio de estudos e relatos sobre esse conceito em famílias de crianças com desenvolvimento típico. O resultado do estudo de Silva e Dessen (2014, p. 421), que investigou as características das relações familiares de crianças com deficiência (auditiva, intelectual, física, múltipla e visual) na perspectiva das mães, dos pais, dos irmãos e das próprias crianças com deficiência priorizando as relações nos subsistemas parental, conjugal e fraterno, indica: Saiba Mais As crianças envolvidas nas batalhas de pais que não conseguem separar a conjugalidade da parentalidade são acometidas por um conflito de lealdade severo, e forçadas a estabelecer alianças com um dos genitores, vendo-se obrigadas a alijar um dos pares parentais de suas vidas (COELHO; morais, 2014). As práticas parentais são percebidas como coercitivas, mesmo havendo harmonia, diálogo e compartilhamento nos cuidados com os filhos; As relações conjugais são vistas como predominantemente satisfatórias, embora existam conflitos; Silva e Dessen (2014, p. 430), a partir dos achados dessa pesquisa, enfatizam a necessidade do ensino de práticas educativas parentais sob a perspectiva dos Programas de Educação Familiar, que tem, dentre seus princípios: Se o nascimento de um filho, considerado um episódio pertinente ao ciclo vital evolutivo de uma família, provoca uma mudança que demanda a reorganização de papéis, atender às necessidades da criança, então, a repercussão do nascimento de um filho com um transtorno do neurodesenvolvimento implica não somente uma reorganização de papéis, mas, sobretudo, mudança na rotina diária que, segundo estudos de Fávero e Santos (2005) e Marques e Dixie (2011), apud MACHADO (2018, p. 336), acarretam. respectivamente: As relações fraternas são caracterizadas por conflito, harmonia, cuidado/proteção e coesão/união entre os irmãos; As relações de coparentalidade são marcadas tanto por "desigualdade/conflito" quanto por "igualdade/negociação" entre os cônjuges para lidar com as questões relativas aos filhos com deficiência. Conhecimento compartilhado; Natureza ética das práticas educativas familiares; Respeito pelas diferenças individuais; Desenvolvimento da competência e da capacidade de recuperação da família; Intervenção no nível das relações familiares. Sobrecarga emocional, física e financeira, além do estresse e das incertezas em relação ao futuro dos filhos, em função de sua grande dependência; Figura 3 – A estratégia do jogo de xadrez Fonte: Adaptada de Getty Images #ParaTodosVerem: Sobre fundo branco, há 4 peças de xadrez, sendo duas brancas e duas pretas – 1 rei, 1 rainha e 2 bispos. Fim da descrição. As estratégias de coping têm sido um recurso adotado pelas famílias para o enfrentamento do stress decorrente do impacto da rotina com filhos com transtorno do neurodesenvolvimento, mais especificamente, crianças com TEA., encontrando, assim, formas saudáveis de lidar com a situação adversa. A utilização de jogos para interação e comunicação da criança com os familiares e a busca por aconselhamento informativo, segundo Fávero e Santos (2005, apud MACHADO, 2018) são consideradas estratégias de coping. Necessidades específicas com implicações psicológicas no nível pessoal e familiar, diante das quais os familiares precisam se adaptar, numa experiência complexa, construída em direção à conservação de sua saúde mental. Depreendemos, desses estudos, a relevância da relação da coparentalidade, vez que uma negociação dos papéis parentais é necessária em função de percursos desenvolvimentais atípicos. Uma relação de coparentalidade, segundo Feinberg (2003, apud FRIZZO, et al., 2005, p. 88) está associada a quatro componentes: Glossário Coping: é um conjunto de esforços, cognitivos e comportamentais, utilizado pelos indivíduos com o objetivo de lidar com demandas específicas,internas ou externas, que surgem em situações indutoras de estresse e são avaliadas como sobrecarregando ou excedendo seus recursos pessoais (LAZARUS; FOLKMAN, 1984, apud PEREIRA; BRANCO, 2016). Concordância ou discordância quanto a aspectos relativos aos cuidados e à educação da criança: Casais que “concordam em discordar” podem negociar suas discordâncias, concordando em manter bons níveis de apoio coparental; Divisão de trabalho relacionado à criança: Envolve atribuições domésticas e os cuidados financeiros, médicos e legais, estando o gerenciamento dessa divisão associado ao grau de flexibilidade ou rigidez empregado pelos pais; Apoio (ou falta de) ao papel coparental: Compreende a confirmação da competência parental do parceiro, reconhecimento e respeito às suas contribuições e a sustentação das decisões e autoridade do outro; Manejo conjunto das interações familiares: Refere-se ao subsistema executivo de responsabilidade dos pais, envolvendo o controle de comportamento e comunicação com os No contexto atual, dada à valorização do envolvimento paterno e das novas constituições de família, o conceito de coparentalidade amplia a compreensão das interações familiares que, ao deslocar o foco das interações diádicas (mãe e filho) para as triádicas (pai – mãe – filho), permite melhor dimensionamento da participação do pai nos cuidados com a criança. outros que, por sua, vez estabelecem fronteiras na relação, engajando ou excluindo outros membros da família da relação interparental. Em Síntese Nesta Unidade, abordamos a dinâmica familiar, relacionando-a não somente ao percurso desenvolvimental típico, como também aos atípicos, que impactam sobremaneira o funcionamento dessa dinâmica, exigindo de seus membros adaptações e mudanças frente à nova demanda. Demos destaque aos conceitos de parentalidade e de conjugalidade “fazendo uma ponte” com os Transtornos do Neurodesenvolvimento, mais especificamente, a Dislexia e o TEA. Ressaltamos que, no exercício profissional, não devemos privilegiar somente os aspectos cognitivos e pedagógicos da aprendizagem, seja na avaliação, seja na intervenção. É fundamental a escuta clínica e a observação dos aspectos psicodinâmicos que envolvem a criança e seu grupo familiar, vez que tais aspectos se encontram irremediavelmente entrelaçados ao processo de desenvolvimento cognitivo e de aprendizagem. Nesse sentido, justificamos a apresentação de conceitos sobre a dinâmica familiar, pois entendemos que tal conhecimento possa ser incorporado à sua prática. Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Site Perfil do Transtorno Específico da Aprendizagem – TEAp Mapeamento sobre o transtorno específico da aprendizagem no Brasil, desde a identificação até o acompanhamento especializado. Discutindo as suas repercussões emocionais e analisando os impactos financeiros nas famílias (2021). Clique no botão para conferir o conteúdo. ACESSE Vídeos Mães, Bebês e a Parentalidade Vera Iaconelli, uma psicanalista, fala acerca do conceito de parentalidade, seu surgimento e a relação com o tornar-se mãe e pai. Página 3 de 4 📄 Material Complementar https://institutoabcd.org.br/ Maria Homem: O Mito do Amor Parental Maria Homem, uma psicanalista, fazendo analogia ao livro O Mito do Amor Materno, discorre sobre o mito do amor parental. Mães, bebês e a parentalidade | Vera IaconelliMães, bebês e a parentalidade | Vera Iaconelli https://www.youtube.com/watch?v=-1UIwoO0qCM Dislexia – Documentário Depoimento de pessoas/famílias sobre a sua trajetória como pessoas com dislexia, alternando com fundamentos teóricos desse transtorno. MARIA HOMEM: O MITO DO AMOR PARENTAL | CASA DO SABERMARIA HOMEM: O MITO DO AMOR PARENTAL | CASA DO SABER Dislexia - DocumentárioDislexia - Documentário https://www.youtube.com/watch?v=6x6yWsDSUPY https://www.youtube.com/watch?v=YJPbbu-LY0E ALENCAR DE SOUZA, R. F.; PINTO DE SOUZA, J. C. Os desafios vivenciados por famílias de crianças diagnosticadas com Transtorno de Espectro Autista. Perspectivas em Diálogo: Revista de Educação e Sociedade, [S.l.], v. 8, n. 16, p. 164-182, 5 jan. 2021. . Disponível em: . Acesso em: 22/03/2023. ALMEIDA, M. R. et al. A Dislexia no Contexto Familiar e Escolar: uma Análise Fílmica. Apae Ciência, v. 15, n. 1, p. 153-170, 2021. ALMEIDA, M. R. et al. 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