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Índice 4 Capítulo 1 — A origem dos povos da Península Ibérica 10 Capítulo 2 — A Lusitana sobre o domínio romano e bárbaro 15 Capítulo 3 — Invasões muçulmanas na Península Ibérica 20 Capítulo 4 — A Guerra da Reconquista 27 Capítulo 5 — O sonho de Dom Afonso e a Batalha de Ourique 32 Capítulo 6 — As guerras contra os sarracenos e formação do Estado português 37 Capítulo 7 — A crise dinástica e a Batalha dos Atoleiros 42 Capítulo 8 — A Batalha de Aljubarrota e a consolidação de Portugal 46 Capítulo 9 — A Dinastia de Avis: a ínclita geração 49 Capítulo 45 — Portugal e a Expansão Marítima 1. A origem dos povos da Península Ibérica Esta obra fará um percurso por toda História do Brasil, partindo da formação de Portugal até o fim do regime militar, no ano de 1985. Começamos, agora, com a História de Portugal, que pode ser estudada de várias maneiras. O estudo da História de Portugal pode começar por suas origens pré-históricas, como faremos neste capítulo; a partir da Batalha de Ourique, na qual dom Afonso Henriques, em 1139, fundou o Estado de Portugal; ou, ainda, a partir da Batalha de Aljubarrota, na qual os portugueses batalharam contra os castelhanos, que tentavam tomar toda a Península Ibérica, e onde estabilizou-se o Estado português e nasceu a Dinastia de Avis. Para cada um destes pontos, dedicaremos um capítulo específico nesta obra. As origens pré-históricas remontam à época de Noé. Para compreendê-las, adotaremos aqui as informações descritas na Tábua das Nações, no capítulo 10 de Gênesis. Elas nos mostram que os descendentes de Noé foram originando diferentes povos e que estes, por sua vez, habitaram determinados locais. Aqui, abordaremos descendentes específicos de Noé, principalmente Tubal, filho de Jafé e neto de Noé, que vai dar origem aos povos iberos. Para começar este capítulo, é preciso explicar o nome “Península Ibérica”. A palavra “península” corresponde a uma faixa de terra que vai em direção ao oceano. Mas de onde vem o termo “Ibérica”? Há um historiador muito famoso do século I chamado Flávio Josefo que escreveu um livro no qual narra a história do povo hebreu, desde Adão, passando por todos os descendentes de Noé até Abraão e por todas as civilizações hebraicas.1 Ele mostra que Jafé, filho de Noé, é quem deu origem aos povos indo-europeus, ou seja, a povos que habitaram a Europa e a Ásia, principalmente o norte e a parte central asiática. Jafé teve um filho chamado Tubal, que habitou a região em torno do Mar Negro, que faz parte hoje do território da Geórgia. É ele, Tubal, segundo a própria história de Noé, que vai dar origem aos povos chamados iberos. Nas Sagradas Escrituras, podemos encontrar dois versículos que falam a respeito do percurso percorrido por Tubal: Isaías 66,19 e Ezequiel 27,13. 1 História dos Hebreus, Flávio Josefo. 6 História do Brasil para Crianças Isaías diz: “Executarei no meio deles um prodígio e enviarei às nações aqueles dentre eles que tiverem escapado (a Társis, Put e Lud — filhos de Cam —, Mosoc e Ros, Tubal e Javã — filhos de Jafé), às ilhas longínquas que nunca ouviram falar de mim e não viram minha glória; eles farão conhecer às nações a minha glória.” Ou seja, os povos descendentes de cada um desses netos de Noé foram para regiões longínquas. Então, Tubal não ficou especificamente apenas na Geórgia. Em Ezequiel 27, versículo 13, vemos o seguinte: “Javã, Tubal e Mosoc traficavam contigo e te traziam, à guisa de moedas de câmbio, escravos e objetos de bronze.” Segundo essa passagem, Tubal ficava próximo de Mosoc, seu irmão, e de Javã. Javã, segundo o próprio Flávio Josefo, deu origem aos gregos. Ele teve quatro filhos (Elisá, Társis, Quitim e Dodanim), que deram origem às quatro culturas gregas: os eólios, os jônios, os aqueus e os dóricos. Portanto, ele foi para a Europa. Isso significa que os iberos não ficaram apenas na Geórgia, mas foram, também, para a Europa. E para que região da Europa? Aqui vem algo interessante. Heródoto, historiador grego conhecido como o pai da História, conta que os povos da Península Ibérica são originários da de uma “Ibéria Asiática”, que fazia referência à Geórgia. Eles chegaram, então, até a região da Península Ibérica por volta do século V, ano 500 antes de Cristo. A informação deste percurso realizado pelo iberos, saindo da Geórgia e indo até a Europa, é também confirmada por outro intelectual da Era Clássica, também da Grécia, chamado Estrabão, no seu livro III da Geografia.2 Ou seja, há várias fontes que informam que os povos da Península Ibérica têm origens nos povos iberos da Geórgia, e que eles fizeram esse processo de migração, saindo da Ásia e percorrendo até a Europa, mais especificamente, a região das futuras províncias romanas: Hispânia (futura Espanha) e Lusitânia (mais tarde, Portugal). Mas não para por aí. Nós temos outras duas informações muito importantes a respeito disso. A primeira delas é o Sermão de Nossa Senhora da Conceição, um dos sermões mais famosos do Padre Antônio Vieira.3 Ele escreve: “Até os gentios souberam dizer que para o homem de valor todo o mundo é pátria: Orne solum forti patria est - e se há nação no mundo, para a qual o mesmo mundo seja pátria, somos nós — portugueses. O primeiro fundador de Portugal e pai de todos os portugueses foi Tubal, que quer dizer mundanus, homem de todo o mundo, e tal foi a benção ou herança 2 Geografia, Estrabão. 3 Sermão de Nossa Senhora da Conceição, Padre Antônio Vieira Módulo 1 — Capítulo 1 7 que deixou a todos seus filhos: uns na Europa, outros na África, outros na Ásia, outros nesta América, enfim, todos divididos nas quatro partes do mundo”. Ele confirma, portanto, o trecho de Isaías 66, versículo 19, que diz: “Executarei no meio deles um prodígio e enviarei às nações aqueles dentre eles que tiverem escapado”. Então cita as nações: “Társis, Put e Lud, Mosoc e Ros, Tubal e Javã”. Ou seja: às nações que não receberam os ensinamentos, não receberam a revelação, Deus vai enviar seus descendentes. E cita quais são os povos, dentre eles, Tubal. Enviará para onde? “às ilhas longínquas que nunca ouviram falar de mim e não viram minha glória; eles farão conhecer às nações a minha glória.” Ou seja, Isaías 66, de certa maneira, está profetizando a missão de Portugal, em nome da Igreja, em expandir, dilatar o reino e, mais especificamente, a fé católica, a fé em Jesus Cristo. E disso, veio para o Brasil, foi para a África, para a Ásia. Então Portugal dilatou pelo mundo toda a fé — e não só Portugal, mas também a Espanha, pois todos os povos da Ibéria têm a sua origem em Tubal. Outro historiador do século XVI, Fernão Oliveira, escreve a introdução do seu livro sobre a história de Portugal4, fazendo essa exata referência a respeito dos descendentes de Tubal que habitaram a Península Ibérica. E há, ainda, uma outra informação: uma pesquisa que foi realizada por haplogrupos genéticos de DNA, no ano de 2013. Os resultados mostraram que os povos do haplogrupo H, que corresponde à região em torno do Mar Negro, onte estão a Armênia, a Geórgia, etc., Armênia, da Geórgia, daquela região, ali, em torno do Mar Negro, migraram para a Península Ibérica e se fixaram também lá. Caso você queira se aprofundar mais a respeito disso, pesquise por esses dois estudos com nomes peculiares: o Adão cromossomial-Y (estudo baseado no cromossomo Y, presente apenas nos homens) e a Eva mitocondrial (estudo baseado no DNA mitocondrial, que só é transmitido pela mãe). Veja. Isso mostra que, geneticamente, é comprovado que a humanidade surgiu de dois seres humanos. Investigando a ancestralidade do DNA, chega-se em duas pessoas, as quais os pesquisadores atuais chamam de Adão cromossomial-Y e de Eva mitocondrial. Porém, para eles, esses dois ancestrais não seriam pessoas individuais, mas grupos de pessoas. Mas por que eles tiram essa conclusão? Simplesmente para não admitirem que Gênesis está correto e que o mundo inteiro descendeos nobres e outra para os plebeus, para o trabalho. Esses três tipos de educação, todos eles, eram guiados, anteriormente, por uma educação moral católica. Ou seja, a educação moral católica guiava todo o processo de formação do indivíduo, fosse ele um futuro artesão, ferreiro, comerciante, militar, nobre, sacerdote ou professor. Então, São Nuno teve um ensino militar cavaleiresco, mas, antes disso e ao mesmo tempo, teve uma formação espiritual católica muito sólida. Por isso, além dos seus dotes militares, era um homem muito piedoso, de oração, de eucaristia diária e, também, um grande devoto de Nossa Senhora do Carmo, inclusive, membro da Ordem Terceira do Carmo. Ele foi um homem, realmente, muito importante. Tanto que, após a Batalha de Aljubarrota, foi declarado, por Dom João de Avis, o grande general de Portugal. Ou seja, o grande general de Portugal é um santo. Imagine termos um líder militar santo. Parece até estranho para a nossa realidade atual, mas no contexto da época, isso era algo comum. As pessoas buscavam a santidade, independentemente do seu ofício e da missão ou vocação que exerciam. São Nuno é a prova disso. Inclusive, depois que Portugal se forma, ele vai ajudar no financiamento e na construção de igrejas, como foi o caso do Mosteiro do Carmo de Lisboa, que está lá até hoje. Eventualmente, a sua esposa morre e ele se torna monge da Ordem do Carmo, entrando para o mosteiro que ajudou a construir. Ele morre aos 71 anos, em 1431, tendo contribuído significativamente na missão e formação do grande Estado de Portugal. E após a sua morte, com fama de santidade, passa a ser chamado de Santo Incontestável pelos próprios portugueses. Aqui, mais uma vez, vemos a História da Fé e da Igreja profundamente unida à História de Portugal. 5 O Mínimo sobre a Idade Média, Edmilson Cruz 8. A batalha de Aljubarrota e a consolidação de Portugal No capítulo passado, tratamos da crise dinástica de Borgonha e de como isso impulsionou o surgimento de uma nova dinastia, a de Dom João, Mestre de Avis. Vimos, então, a Batalha dos Atoleiros, a primeira desta tentativa, por parte dos castelhanos, de tomar Portugal, e a sua derrota. Agora, abordaremos a consolidação desta derrota, que se deu nesta nova tentativa, mais uma vez, frustrada. Graças a Deus, não deu certo, porque, a partir disso, veremos Portugal com os olhos voltados para o mar. A Batalha dos Atoleiros e a crise de Avis ocorre em 1383, enquanto a Batalha de Aljubarrota, em 1385. Os dois lados da disputa são, novamente, Dom João de Avis e São Nuno, seu grande general, contra Dom João de Castela, que era esposo de Beatriz e reivindicava o trono português. Por que Dom João de Castela não ataca Portugal imediatamente após a sua derrota, em 1383? Porque estava, durante esses dois anos, reunindo um exército de, nada mais, nada menos que 50 mil homens. Dom João de Avis tem notícia da aproximação dos inimigos castelhanos e convoca São Nuno para ajudá-lo na estratégia para combatê-los. A primeira medida de São Nuno é reunir todos os homens no reino de Portugal, conseguindo apenas um total de 6500. Ou seja, 6500 portugueses para combater 50000 castelhanos, quase 10 homens para 1. Ainda assim, o nobre e santo general manteve-se confiante, e o rei depositou nele toda a sua confiança. Isso se dá, em partes, à educação muito robusta comentada no último capítulo, que fez com estudasse a história das guerras e as estratégias de luta dos romanos. O que ele descobriu em seus estudos? Algo que adotou em suas batalhas: a estratégia dos quadrados. Os romanos dividiam toda a sua infantaria em quadrados e colocavam escudos ao seu redor, protegendo-se de todos os lados. Quando os arqueiros inimigos lançavam flechas, os soldados romanos levantavam os escudos, cobrindo e protegendo todos no interior do quadrado. É graças a isso que Roma sempre saía vitoriosa dos combates. 44 História do Brasil para Crianças Se você assistiu àquele filme Asterix e Obelix, deve se lembrar de quando os gauleses iam combater os romanos e se deparavam com o exército inimigo disposto inteiramente em quadrados, movimentando-se devagar e totalmente protegidos pelos escudos, como tartarugas. É esta estratégia que São Nuno adota para que seus 6,5 mil homens fossem capazes de combater os 50 mil castelhanos. Mas ele não fez apenas isso. O exército inimigo era tão volumoso, que movia-se muito devagar, sua marcha era mais lenta. Isso também se dá ao fato de que um exército não se movia apenas com seus soldados. Além deles, suas roupas precisavam ser carregadas, os pagens os acompanhavam, além dos cozinheiros, dos responsáveis por montar os acampamentos, etc. Enfim, 50 mil soldados em um exército significa um número muito superior de pessoas ao todo. E movê todas elas é um processo lento. São Nuno, então, enviou espiões para ficar acompanhando o movimento dos 50 mil soldados inimigos e escolheu um terreno específico, onde havia uma colina para a luta que se aproximava. Do topo desta coluna, ele conseguia ter a visão completa de todo o terreno de batalha, então, posiciona seus homens dispostos em quadrados pelo terreno e cava, à frente deles, fossas no chão para a proteção da sua infantaria, por onde espalhou estacas de madeira, deixando espaços que permitiam a passagem de apenas um homem por vez. Os castelhanos chegam nas proximidades do terreno planejando montar seu acampamento, preparar- se para o combate e batalhar apenas no dia seguinte. Mas, sabendo que os portugueses contavam com apenas 6,5 mil homens, ficaram receosos de sofrer um ataque durante a noite, algo que aumentaria a possibilidade de vitória de um exército menor. Exitando em atacar ou não atacar, Dom João de Castela acaba por decidir partir logo para a batalha, para que não fossem atacados à noite. Seu exército investe, primeiramente, com uma cavalaria francesa. Esta, mais pesada, foi logo derrotada pela infantaria portuguesa, graças à estratégia dos quadrados de São Nuno. As fossas também ajudaram a contê-los no que acabou se tornando uma confusão gigantesca. Esta primeira investida dos castelhanos já garantiu a sua derrota. Para auxiliar ainda mais, São Nuno, então, desloca uma cavalaria rápida para investir contra os flancos do exército castelhano. Ao fazer isso, a confusão fica ainda maior. A região era muito estreita para comportar 50 mil soldados de um lado, por isso, o exército espanhol foi se afunilando pelo campo de batalha. Quando os portugueses se expandiram pelas laterais e avançaram pelos lados, o exército castelhano se perdeu completamente, ficou desorientado e os soldados não sabiam mais para onde ir. Resultado: em menos de um dia, a batalha acabou. O Combate começou de manhã, antes do pôr do sol, na tarde, o exército castelhano já tinha sido derrotado e Dom João de Castela pede a retirada de suas tropas, durante a qual muitos foram perseguidos e mortos. Existe até um caso que se conta da chamada padeira de Aljubarrota. Uma mulher estava preparando seu pão, e alguns soldados castelhanos lhe aparecem pedindo ajuda para se esconderem em sua casa. Ela Módulo 1 — Capítulo 8 45 aceita. Enquanto eles estavam escondidos, a padeira pegou um pedaço grande de pau que usava para amassar os pães e golpeou as suas cabeças. Conta-se que alguns fugiram, mas ela ainda conseguiu matar 7 dos castelhanos. Veja que os portugueses, fossem nobres ou plebeus, não queriam de nenhuma forma que Dom João de Castela se tornasse o seu rei. Enfim. A Batalha de Aljubarrota foi vencida em 1 dia por Portugal. Os resultados disso foram os seguintes. Em primeiro lugar, os castelhanos não voltam mais a atacar Portugal. O segundo é que a crise dinástica, que teve início em 1383, chega ao fim, pois Beatriz de Portugal, descendente de Fernando, desiste de conquistar o trono. Em terceiro, nasce a Dinastia de Avis, com Dom João, o Mestre de Avis, que virá a ser a grande Ínclita Geração. Esta, agora, passaria a investirno empreendimento das expansões marítimas. Como já não há mais para onde expandir ao sul, pois os muçulmanos já haviam sido totalmente expulsos e a região recuperada, e não é possível ir ao leste, pois é território espanhol, então, para onde eles partiriam? Para fora do continente. Vão ao sul, passando do Mar Mediterrâneo, chegando ao Marrocos e à Costa Africana; e vão em direção ao oeste, rumo às Índias, chegando às Américas. Partem, assim, para as expedições marítimas, uma nova cruzada empreendida por Portugal, em busca da dilatação do Reino e da Fé. E é disso que trataremos nos próximos capítulo. 9. A dinastia de Avis: a ínclita geração Neste capítulo, falaremos a respeito da grande Dinastia de Avis, que assumiu o controle de Portugal, à qual pertencia Dom Manuel, o rei no momento do descobrimento do Brasil. Aqui, comprovaremos a grandeza da monarquia portuguesa durante o descobrimento, derrubando por terra as falsas ideias de que Portugal enviou para cá apenas as piores pessoas do mundo. No capítulo anterior, falamos sobre aquilo que moveu o seu ímpeto e, agora, conheceremos um pouco mais cada um dos membros desta dinastia, desde Dom João I até o ano de 1500, ano da chegada no Brasil. Já em Dom João I, que governou Portugal por quase 50 anos, tem início um processo de crescimento cultural de Portugal, que, até então, voltava-se apenas para a defesa e a expansão — defesa contra os castelhanos e expansão contra os muçulmanos. Quando se finalizam as guerras, então, em 1385, é que Portugal começa a se consolidar como uma grande nação. E é durante este período que acontece um elevamento cultural muito grande, como se percebe no desenvolvimento da Universidade de Coimbra, por exemplo, no desenvolvimento das artes, da arquitetura e da língua também. É precisamente deste processo que se dá o grande crescimento do país culturalmente. Os filhos de Dom João I serão conhecidos como a Ínclita Geração, nome dado por Camões. Ele, no Canto IV, estância nº 50, da sua obra Os Lusíadas, diz: “Mas para defensão dos Lusitanos Deixou, quem o levou quem governasse, E aumentasse a terra mais que dantes, Ínclita geração, altos Infantes.”6 Ora, o que é esta “ínclita geração” de que ele está falando? Seu primeiro integrante é Dom Duarte, filho legítimo de Dom João I. Ele recebeu o título de rei e permaneceu na coroa por poucos anos: de 1433 até 1438. Os demais filhos que não foram reis, receberam o título de infantes — título dado a príncipes e princesas que não poderiam assumir o trono, mas eram filhos legítimos. Dom João I teve vários filhos de muita importância, aos quais Camões faz referência, chamando a todos Ínclita Geração. 6 Os Lusíadas, Luís de Camões 48 História do Brasil para Crianças Quem, então, são os altos infantes? Entre eles está o Infante Dom Pedro, um homem de elevada cultura, como seu irmão, Dom Duarte (que, inclusive, ficou conhecido como o Rei Eloquente). Ele foi responsável pelo desenvolvimento de várias partes culturais de Portugal, mas morrendo na Batalha de Alfarrobeira, uma batalha de expansão de Portugal. Depois, o mais conhecido de todos os infantes: o Infante Dom Henrique, que foi o responsável por duas ações importantíssimas: fundou a Escola de Sagres e orientou a Ordem de Cristo para as expedições marítimas. Ou seja, o Infante Dom Henrique foi o primeiro grande navegador, tanto que ficou conhecido como “O Navegador”, pois moveu Portugal nas primeiras expedições. Outra personagem da Ínclita Geração foi a Infanta Dona Isabel, que não foi muito presente em Portugal, mas casou-se com o Conde de Borgonha e mudou-se para a França. Além dela, tivemos o Infante Dom João, também um homem de elevada cultura que vai auxiliar bastante nesse processo de elevação cultural. E, por último, o Infante Dom Fernando, que acabou preso e morto pelos muçulmanos em um dos ataques ao Marrocos. Esta é a chamada Ínclita Geração, como nomeou Camões. Depois de Dom Duarte, que ocupou o trono por pouco tempo, assume o seu filho Dom Afonso V, que governou de 1438 até 1477. Este também foi responsável por financiar diversas expedições marítimas em direção à costa africana. Afonso V teve um filho que, consequentemente, também fez parte da Ínclita Geração: Dom João II, que governou Portugal de 1477 até 1495. Este também empreende diversas expedições, que chegam até a costa sul e, depois, até o outro do continente africano. Afinal, o objetivo dos portugueses era chegar à Índia e colonizá-la, pois ali conseguiriam, entre outras coisas, ter uma estabilidade e possuir, dali, maneiras de financiar novas perdições, possibilitando-lhes chegar até a Ásia e fazer realmente uma volta ao mundo. Cada um desses reis foi dando sua parcela de contribuição para essas expedições, financiando-as e formando Portugal, até chegarmos ao grande rei Dom Manuel I, que reinou de 1495 até 1521. Podemos dizer que Dom Manuel I é o grande rei da Ínclita Geração. Foi um homem de elevadíssima cultura e ficou conhecido como “O Sábio”, “O Venturoso”. Ele exerceu, de fato, um trabalho cultural e de expansão da Fé e do Reino para o mundo inteiro, e foi, inclusive, o rei do descobrimento do Brasil. De todos esses monarcas, Dom Manuel era, sem dúvidas, o grande rei, o maior de todos eles. Foi aquele que mais moveu as expedições, que levou os portugueses tanto para a Índia, em 1499, como também para o Brasil, em 1500, e durante cujo governo Portugal teve um crescimento ainda muito maior do que em outros. Esta é a Dinastia de Avis. Mas ela não se encerra com ele. Trataremos disso em outro momento. Ficaremos, por enquanto, no ano de 1500, ano do descobrimento do Brasil. 10. Portugal e a expansão marítima Há algo que já comentamos, mas que é sempre bom relembrar: o que levou todos aqueles homens a se lançarem ao mar para terras desconhecidas foi a expansão do Reino e dilatação da Fé, fazer com que a fé chegasse a todos os povos. Todo o processo de reconquista que já vimos está ligado ao processo de expedição e expansão marítima. Isso não pode ser esquecido, deve permanecer em nossas mentes. No capítulo anterior, vimos a Dinastia de Avis, descendente do Mestre de Avis, Dom João. Um dos filhos deste, que não seria aquele a se tornar rei, o Infante Dom Henrique, ficou conhecido como “O Grande Navegador”, pois foi responsável por financiar inúmeras navegações, além de construir a Escola de Sagres e mover a Ordem de Cristo para uma nova cruzada — a cruzada da expansão marítima. Durante a sua vida, ocorreram diversos descobrimentos, graças ao seu empenho nas expedições. Portugal foi o primeiro reino da Península Ibérica e, por isso, o primeiro a começar a se expandir por meio do oceano. A Espanha só chega a isso após a expulsão dos muçulmanos de Granada. Portugal, com o Infante Dom Henrique, já iniciava as suas expedições. A primeira delas foi que chegou até a África, na cidade de Ceuta, em 1415. Depois, os portugueses navegaram até algumas ilhas do Mar Atlântico. A primeira foi a Ilha da Madeira, em 1418. Mais ao oeste, em 1427, colonizaram as famosas Ilhas dos Açores, que têm uma importância particular para o Brasil, pois muitos açorianos se dirigiram para cá, principalmente para a região sul. A partir de 1550, o Brasil teve uma presença muito forte dos Açores. Módulo 1 — Capítulo 10 51 A ideia inicial era chegar aos locais mais próximos de Portugal, depois começam a navegar mais para a costa da África, buscando contornar o continente — este era o seu grande objetivo. Seguindo este percurso, os portugueses chegam até o Cabo do Bojador, em 1434. Posteriormente, conseguem chegar até Cabo Verde, em 1456. Nisso vão contornando toda a costa africana, saindo de Ceuta, passando por Cabo do Bojador, até Cabo Verde e daí por diante, expandindo-se cada vez mais, dominando toda a chamada Costa da Guiné, oeste africano,. Em 1460, o Infante Dom Henrique morre. Agora, as viagens serão guiadas pelos reis posteriores. Em 1471, chegam até asilhas de São Tomé e Príncipe. As expedições não param, pois um dos objetivos era chegar até onde houvesse terra desconhecida, portanto, continuam navegando rumo a sul da costa africana, buscando uma rota alternativa para a Índia, dilatando o Reino e a Fé e marcando território. Acontece que Dom João II contrata uma expedição mais bem organizada com o objetivo de contornar toda a África — sair de Lisboa e só retornar quando chegar até o fim do continente africano. Em 1488, os portugueses chegaram até o famoso Cabo das Tormentas, mas que ficou conhecido como Cabo da Boa Esperança. Ninguém ainda havia passado deste ponto. O líder da expedição, contratado por Dom João para fazer o contorno de todo o continente africano, Bartolomeu Dias, partiu de Lisboa, passou pelo Cabo do Bojador, pelo Cabo Verde, chegou até a Ilha de São Tomé e desceu, até chegar ao Cabo das Tormentas. Este nome se dá pela agitação do mar na região, que era muito violento, pois é justamente no encontro do Oceano Índico com o Atlântico. 52 História do Brasil para Crianças Neste ponto, a missão estava cumprida. Então, Bartolomeu Dias retorna para Portugal e, chegando lá, diz ter encontrado um local por meio do qual se poderia chegar até a Índia. Antes disso, o único caminho para a Índia era pelo Mar Mediterrâneo. Porém, em determinado trecho, na interseção entre África e a Arábia, nas proximidades da Península Arábica, as terras costeiras eram inteiramente ocupadas por muçulmanos. Passar por ali, pelo Canal de Suez, para chegar até Goa, era um grande problema. Esta é a importância de se encontrar uma rota alternativa. Portugal, então, empreende uma nova expedição para chegar até lá utilizando a rota encontrada por Bartolomeu. É neste momento que ocorre a grande expedição de Vasco da Gama, não mais durante o reinado de Dom João II, mas de Dom Manuel, o Venturoso. Vasco da Gama, portanto, em 1498, sai de Lisboa com, mais ou menos, 170 homens, percorre a costa africana, atravessa o Cabo da Boa Esperança e chega finalmente em Moçambique. Portugal se estabiliza muito bem em Moçambique, que se torna um local de porto muito importante para o caminho até a Ásia. Pouco tempo depois, Vasco da Gama parte, daí, para a Índia, chegando em Calicute ainda em 1498. Entretanto, há, antes disso, um problema. Durante este período em que Portugal está navegando e colonizando novas terras, a Espanha já havia se tornado um reino, em 1492. No mesmo ano, os espanhóis, com Cristóvão Colombo, viajam para oeste, chegando na América, mais precisamente, nas ilhas do Caribe. Quando a notícia chega em Portugal, eles intensificaram os planos para alcançar a Índia antes dos espanhóis. É importante dizer que, desde 1479, havia um tratado, o Tratado de Alcáçovas, através do qual o mundo foi dividido pela metade: a Espanha ficava com a posse no norte e Portugal, do Sul. Enquanto colonizava a costa africana e buscava chegar à Índia, Portugal respeitava o que foi firmado no tratado. Mas ele não vigorou por muito tempo. Voltando ao que falávamos, Portugal chega, em 1498, à Índia. A expedição de Vasco da Gama teve, entretanto, algumas complicações. Não havia força o suficiente para fixar os domínios portugueses na região e subjugar os hindus. Devido a isso, os expedicionários sofreram demasiadamente e muitos morreram. Por que, então, Portugal continuava a tentar estabelecer controle sobre a Índia e não colonizar toda a América, como estavam fazendo os espanhóis? Um outro tratado, por meio do qual se estabelecia que, até em torno 360 léguas à frente do Cabo Verde em direção ao Oeste, era domínio português, daí em diante, tudo pertencia à Espanha. Este era o Tratado de Tordesilhas, firmado em 1494, no qual, em relação à América, Portugal tinha posse de uma parte da costa leste brasileira, enquanto a Espanha possuía todo o resto. Módulo 1 — Capítulo 10 53 Os tratados mencionados dividiram o mundo de maneiras diferentes: o de Alcáçovas dividia o mundo entre norte e sul, enquanto Tordesilhas dividia entre leste (domínio português) e oeste (domínio espanhol). A Espanha, após encontrar a América empreende novas expedições para lá e começa a contornar o continente, enquanto Portugal dirige todos os seus esforços para a Índia. Infelizmente, muitas pessoas observam o Tratado de Tordesilhas e chegam à conclusão de que a Igreja estava interferindo nas políticas diplomáticas e desconsiderou outras nações, como França e Inglaterra. O que elas não percebem é que estes países não detinham esse tipo de tecnologia marítima para as navegações. Os únicos dotados de poder tecnológico para isso eram de fato Portugal e Espanha, por isso eram as maiores potências do século XVI. As ações da Igreja na mediação dos conflitos entre ambos visavam impedir uma guerra mundial disputada entre duas nações católicas, e fez isso promovendo estes tratados. Por isso, o mundo foi dividido em dois. Foi basicamente por isso que as demais nações não foram consideradas nestes tratados. Inclusive, muitas delas tornaram-se protestantes posteriormente e também empreenderam expedições para a América. Retornando ao que falávamos antes, Vasco da Gama chega, em 1498, à Índia, volta não tendo sucesso em estabelecer poder sobre a região. Então, Dom Manuel, o Venturoso, decide realizar mais uma tentativa de concluir aquilo que não se conseguiu na viagem anterior. Em 1500, a nova expedição parte, desta vez liderada por Pedro Álvares Cabral, rumo à Índia. Os navegantes chegam a Cabo Verde e acabam se perdendo, chegando acidentalmente ao Brasil. Uma longa calmaria os forçou a continuar a viagem a remo em busca de ventos, até que foram atingidos por fortes ventos que os trouxeram para território brasileiro. Dessa viagem e das suas consequências trataremos em outro momento, que levaram ao nascimento do Brasil, nós trataremos em outro momento.de um único casal. Por isso, acabam por dizer que a Eva mitocondrial, na verdade, era um grupo de cerca de 20 mil mulheres e o Adão cromossomial-Y, cerca de vinte mil homens, dos quais nós não temos comprovação nenhuma. 4 História de Portugal, Fernão Oliveira; 8 História do Brasil para Crianças Na verdade, comprovação de um casal nós temos: a que está nas Sagradas Escrituras. E a própria Genética diz que foi um casal, mas, não querendo confirmar o texto sagrado, acaba adotando essa ideia de que eram muitas pessoas. Enfim. Há todas essas referências de historiadores antigos, anteriores a Cristo, referências de historiadores do século XVI e também do Padre Antônio Vieira, que foi o maior autor da língua portuguesa em prosa. E há um outro estudo que pode ser feito para comprovar a ligação da descendência de Tubal por toda a Europa até, principalmente, a Península Ibérica: o estudo da mitologia. “Como assim, professor, a mitologia?” Veja. A mitologia nada mais é do que um símbolo utilizado para explicar determinado acontecimento da História. Os símbolos têm significados, eles carregam informações, explicam algo. Se observarmos elementos da história da mitologia grega, veremos que muitos deles estão contando uma história de fundação daquele povo e não que necessariamente aqueles deuses existiram, mas que são símbolos de pessoas ancestrais que existiram de fato. Veremos um exemplo disso aqui. Na região em torno do Mar Negro, surgiu uma cidade que possui um nome bastante estranho: Catalhuyuk, que foi datada em 5000 anos antes de Cristo. O que encontrou-se a respeito dos povos que habitaram a região foram duas coisas muito interessantes. Primeiro, uma religião, uma devoção, vamos dizer assim, a um deus touro. Aparentemente, na região havia muitos auroques, touros selvagens os quais as pessoas caçavam. Dentro das casas encontradas nesse assentamento arqueológico, foram encontradas cabeças desses touros em altares, o que mostra uma certa devoção a esses animais. Esses povos — os povos de Tubal — migraram para a Europa. O que há na Europa que faz referência a essa divinização dos touros? A primeira coisa é o mito do Minotauro, que nasce na ilha de Creta, de onde saíram aqueles quatro povos citados anteriormente que habitaram o mar Egeu. O mito do Minotauro conta a história de um boi branco que teve uma relação com uma mulher e, deles, nasceu um minotauro (um ser meio humano e meio touro). As pessoas tinham que prestar sacrifícios ao monstro, até que Teseu o matou. Esta é a história de maneira bastante resumida, mas isso não é importante para os fins deste capítulo. O importante aqui é ressaltar que o povo de Creta tinha uma devoção à figura de um touro exatamente como o povo de Catalhuyuk. Portanto, há uma ligação histórica, uma espécie de ligação mitológica, religiosa entre aqueles povos. Módulo 1 — Capítulo 1 9 Outro fato interessante ainda é que os povos da Península Ibérica, principalmente na Hispânia, também viam o touro como um animal importante e de grande prestígio, por isso lutavam contra ele em jogos, como as famosas touradas espanholas. Inclusive, essa prática das touradas, de certa maneira, também veio para o Brasil: no Sul existem os rodeios e no Nordeste, as vaquejadas. Esses dados mostram que há uma certa tradição que vai se perpetuando e passando de um grupo para o outro. Por fim, há outro ponto interessante sobre isso, ainda em matéria de mitologia: os megalíticos. Estes correspondem aos templos feitos de rocha em que dois grandes blocos de pedra sustentam outro grande bloco. Os megalíticos existiam primeiramente na região do Mar Negro, onde havia o assentamento de Catalhuyuk, e podem ser encontrados, ainda hoje, em Portugal, na Espanha, na Inglaterra e em outras partes da Grã-Bretanha. Portanto, a partir de comparações mitológicas, também pode-se concluir que há uma conexão histórica entre estes povos. Qual, então, é a origem da Península Ibérica? A Península Ibérica vem dos iberos, povos que habitavam a Ásia, a região do Mar Negro, a região onde hoje deve se localizar a Geórgia. E eles são descendentes de Tubal, filho de Jafé, neto de Noé. Percebe-se, enfim, que, na descrição da Tábua das Nações, no capítulo 10 de Gênesis, está a descrição da origem dos povos que habitaram a península. 2. A Lusitana sobre o domínio romano e bárbaro No capítulo passado, nós falamos qual foi a origem desses povos que são originários da Ásia, os povos iberos, descendentes de Tubal, filho de Jafé, neto de Noé, que formaram aquele povo. Agora, continuaremos falando a respeito do processo de romanização da Lusitânia, ou seja, da região à qual Portugal pertencia, e depois, da invasão bárbara. E trataremos, também, de outros povos que dominaram aquela região e que deram origem, futuramente, a Portugal. O primeiro ponto que iremos abordar é a Lusitânia romana, que foi o primeiro processo de formação. Inclusive, o próprio nome “Lusitânia” foi dado pelos romanos. Mas, para entender isso, é preciso compreender, primeiro, a origem de Roma. A civilização romana teve 3 momentos distintos: monarquia, senado ou república e império. Ela surgiu em 753 a.C. e só deixou de existir no ano 476 d.C. Ou seja, foram mais de mil anos do domínio de Roma sobre o mundo. Durante o período do senado, por volta do século III a.C., começa um processo de expansão do Império Romano, que estava na Península Itálica , para o Mar Mediterrâneo. Os romanos, então, tomaram as costas do Sul da Europa, e também o norte da África e a região da Ásia que também é banhada pelo Mar Mediterrâneo. Durante esse processo de expansão, eles foram dominando todo o mar Mediterrâneo, o qual chamavam de mare nostrum, do ano 264 até 146 a.C., e realizando as chamadas Guerras Púnicas. Estas eram travadas especificamente, contra a cidade de Cartago, no norte da África, cidade dos povos fenícios, os quais os romanos chamavam de Punis — por isso “Guerras Púnicas”. Houve três Guerras Púnicas. Na primeira, Roma domina a ilha da região da Sicília. Na segunda, domina, porém não totalmente, Cartago. Na terceira, os romanos conseguem escravizar todos aqueles que viviam em Cartago. Durante o processo da Segunda Guerra Púnica, os romanos invadem a região da Península Ibérica, por volta do ano 200 a.C. 12 História do Brasil para Crianças Esse processo, então, vai ser continuado com o domínio, a partir do sul, para o norte da península. Explicando melhor, os romanos dominam toda a região do norte da África e partem, então, para cima, dominando desde a costa Sul da Península Ibérica até o norte da região que será depois a Lusitânia. A partir deste processo, por volta do ano 19-20 a.C., os romanos terão domínio total sobre a Península Ibérica. Agora chegamos numa parte interessante. Qual é o legado romano para Portugal? A primeira parte do legado é a língua. O português é fruto do latim vernáculo, que era falado na região. Os romanos obrigam a todos que estão sob o seu domínio a falar latim. Eles, porém, não falavam um latim refinado, mas um latim vernáculo, o qual dará origem à língua portuguesa. A segunda parte são as cidades fundadas pelos romanos: Braga, Lisboa e Coimbra. Estas são as três cidades que Portugal recebe a partir do trabalho de romanização realizado pelos romanos. Como já dito, esse processo começa no século III, ano 200 a.C., e vai até o século I, no ano 19-20 A.C. A partir dele, vemos a inserção de uma nova cultura, a cultura romana, dentro da Península Ibérica. Durante a existência do Império Romano, ocorre algo muito importante, que é o processo de cristianização da Lusitânia, que já começa com os apóstolos, sobretudo com as intenções de São Paulo e a missão de São Tiago Maior, dois grandes santos apóstolos que foram para a Península Ibérica. Na Carta aos Romanos, São Paulo escreve que tinha a intenção de ir à região da Lusitânia. Não se sabe ao certo se ele realmente foi atélá, mas São Tiago Maior, sim. Módulo 1 — Capítulo 2 13 É certo que São Tiago Maior foi evangelizar na Península Ibérica, tornando-se, depois, inclusive, o grande padroeiro da Espanha. Futuramente também irá surgir uma devoção muito forte a ele, que é a de São Tiago Matamouros, pois ele teria participado na luta da Reconquista Católica. Desta devoção, nasceu a cidade de São Tiago de Compostela, na Espanha. Voltando ao ponto, durante esse período, houve a cristianização da Península Ibérica. À existência das primeiras comunidades cristãs na região, fazem referências Santo Irineu, no século II, e também Tertuliano. Destes primeiros anos do cristianismo na península, existem muitos mártires. O primeiro deles é São Pedro de Rates, cuja história é muito interessante: foi o primeiro bispo de Braga e foi ordenado bispo por São Tiago Maior. Mas ele não foi o único mártir. Em Braga, neste período, todos os bispos serão perseguidos e martirizados, como foi o caso de São Ovídio, após São Pedro de Rates. Além deles, temos os três famosos mártires de Lisboa: São Veríssimo, Santa Júlia e Santa Máxima. Há outros, mas estes foram os principais mártires de toda a Península Ibérica. A península foi sendo convertida aos poucos, mas, até o final do século III, já estava toda cristianizada — já existiam 40 comunidades católicas na região, ou seja, 40 dioceses com seus respectivos bispos. Durante este processo, tivemos famosos bispos, como Potâmio de Lisboa, Ósio de Córdova, Gregório de Elvira, etc. Enfim. Até o final do século III, tudo foi cristianizado. Entretanto, algo acontece. Logo depois, no Ano 409, ocorre a chegada dos bárbaros Vândalos e Suevos, oriundos do norte da Alemanha. Eles eram pagãos, ou seja, acreditavam em deuses, sobretudo os deuses nórdicos, ou, ainda pior, eram povos que receberam o cristianismo, mas o cristianismo herético do Arianismo e, portanto, não acreditavam que Deus Pai e Deus Filho são a mesma Pessoa e possuem a mesma alma. A Igreja, então, precisava reconverter alguns membros destes povos que eram Arianos. Depois, veio um grupo ainda mais radical, mais forte, em 418: os Visigodos. Eles dominam todas as regiões ocupadas pelos Vândalos e Suevos, tomando boa parte da Península Ibérica. Então, a Igreja, que cristianizou todos os povos da península desde São Tiago Maior até o século III, tem, agora, que cristianizar estes bárbaros. Esta missão começa com um grande santo chamado São Martinho de Braga, que a cumpre e consegue converter muitos Visigodos e, também, muitos Vândalos e Suevos que ainda viviam na região, e vai até o ano 589. Neste ano, ocorre o Concílio de Toledo, que teve grande importância, pois foi onde se confirmou que, neste ano, 589, toda a Península Ibérica já era cristã, já participava da Igreja. Ou seja, mais uma vez, a Igreja cristianizou toda a península; desta vez, num processo que durou desde o ano 409 até 589. 14 História do Brasil para Crianças Dentro deste período, surgem santos muito importantes para o desenvolvimento civilizacional dos bárbaros, como Santo Isidoro de Sevilha, que além de ser um grande bispo que, apesar de estar na Espanha, expande sua missão até Portugal, foi um grande civilizador. Ele ajudou os Visigodos a desenvolver sua educação, sua formação, a fazer com que eles conseguissem aprender a se desenvolver como civilização. Em suma, a Igreja estava fazendo com que os povos bárbaros deixassem de ser bárbaros e passassem a ser civilizados. Este processo que foi realizado por Santo Isidoro de Servilha, como também por São Bráulio de Saragoça, São Leandro, irmão de Santo Isidoro, Santo Ildefonso de Toledo, entre outros, infelizmente é paralisado, quando, no século VIII, os muçulmanos atravessam o Estreito de Gibraltar e dominam toda a península, sobrando apenas a pequena região das Astúrias. Mas isso será assunto para o próximo capítulo. É importante, contudo, que se entenda todo esse, pois muitos dizem que, quando os mulçumanos chegaram, na Península Ibérica não havia muitos cristãos, era um lugar com toda sorte de religiões, cheio de bárbaros pagão e arianos, e que não contava com muitas comunidades católicas. Esse processo de reconquista, de recristianização destas terras, os mulçumanos dizem ser uma historiografia tendenciosa. Mas a História mostra o contrário, como consta nos documentos do Concílio de Toledo, em 589, muito tempo antes da invasão muçulmana. Toda a Península Ibérica estava cristianizada no final do século VI. 3. As invasões muçulmanas na Península Ibérica Neste capítulo, daremos continuidade ao assunto do capítulo passado e falaremos a respeito das invasões muçulmanas na Península Ibérica, que são importantíssimas para se entender todo o contexto de formação de Portugal e, principalmente, a mentalidade do homem medieval, seja ele de Portugal ou da Espanha. Ambas as nações surgem no contexto de uma luta pela fé católica, de guerra religiosa, através da qual buscavam expulsar os muçulmanos e estabelecer um estado católico. E isso acontece devido à suspensão de um processo de civilização que vinha ocorrendo. Como comentado no último capítulo, os povos bárbaros que invadiram a região da Península Ibérica, que já havia sido cristianizada, foram se convertendo. É confirmado, inclusive, pelo Concílio de Toledo, no ano de 589, que eles já estavam convertidos. Porém, essa realidade sofre uma mudança brusca graças à invasão muçulmana. Mas de onde vem o islã? Quando surgiu? A fé muçulmana surge no início do século VII, mais precisamente, por volta do ano 600, fundada por Mohamed — ou Maomé. Maomé nasceu no ano de 570 d.C., era natural de Meca e Medina e possuía uma religiosidade pagã característica da época, influenciada pela cultura local dos nabateus. No ano 595, casa-se com a sua primeira esposa, Khadijah. A partir deste momento, ele tem acesso ao catolicismo, pois Khadijah era católica, porém o catolicismo herético nestorianista (de Nestório). Nestório era um bispo que não acreditava na possibilidade de Nossa Senhora ser mãe de Deus. Ele dizia que Jesus Cristo não era Deus, mas uma espécie de profeta, um homem bom, vamos dizer assim. Já os nabateus adoravam um meteoro que era mantido no interior de uma casinha preta, a qual chamavam Caaba. Isso é mantido até hoje pelos muçulmanos. Mohammed também era comerciante e, devido a isso, fazia muitas viagens. Nestas suas viagens, ele teve contato com os judeus, mais especificamente, do judaísmo rabínico, uma vertente judaica que se desenvolveu após a morte de Cristo, por volta do ano 90, quando os judeus se reúnem em concílio e decidem que não era mais necessário fazer sacrifícios. Antes os judeus faziam o sacrifício do cordeiro no templo, mas este foi destruído, no ano 70, pelo Império Romano. Portanto, não havia mais um lugar para a prática. Devido a isso, no concílio, é criada uma nova regra que dispensa a necessidade de realização dos sacrifícios e a permissão para, apenas, se ir até a sinagoga para ler o Torá. Mohamed, então, tem contato com tudo isso. Módulo 1 — Capítulo 3 17 Por volta do ano 612, ele diz ter recebido uma revelação do anjo Gabriel, que lhe teria entregue um livro, o Alcorão, e pedido que criasse uma nova fé. Essa é a história que os muçulmanos contam. O que nós sabemos é que, provavelmente, Maomé escreveu, ele mesmo, o Alcorão. Os muçulmanos, entretanto, dizem que isso é mentira, pois ele, entre outras coisas, era analfabeto. Já, os historiadores nos dizem que não seria possível ser comerciante e, por isso, conhecer o básico da matemática, e ser totalmente analfabeto. Portanto, ele sabia, sim, escrever e ler. Voltando ao assunto, Mohamed teve contato com o catolicismo nestorianista, com o judaísmo e com a cultura da tribo Nabateia. Então, ele uniu essas três religiões e, no ano de 612, criou o islamismo, que também chamado por alguns historiadores de maometanismo — ou seja, é composto pelas idéias de Maomé. Essa religião, então,começa a se expandir, do ano 611 até 620. Maomé torna-se uma espécie de mestre e vai pregar sua nova fé na cidade de Meca. Porém, ele começa a incomodar alguns líderes, que o expulsam para Medina. Lá permanece, até que, no ano 622 (10 anos após a revelação), ocorre a chamada Hégira, que torna-se a principal festa do Islã: Maomé sai com um grupo de seguidores que o adoravam, não só como líder espiritual, mas também político, e ataca a cidade de Meca, dominando-a. Ou seja, a maior festa para os muçulmanos não é o dia da revelação ou o dia morte de Maomé, do seu nascimento, tampouco seu casamento, mas o dia no qual eles dominam a sua primeira cidade. Isso mostra que o Islã é uma religião diferente, que não vai se expandindo de maneira missionária, como o Catolicismo ou o Protestantismo, nos quais os cristãos vão falando de Deus para as pessoas, que vão se convertendo. Não. O domínio da fé muçulmana é um domínio político e religioso. Então, os muçulmanos foram de expandindo, desde o ano 622 até a morte de Maomé, em 632. Ou seja, em 10 anos, toda a Arábia já era islâmica. Maomé morre e não deixa herdeiros, não deixa um sucessor direto como califa, o líder espiritual e político da religião. Por esse motivo, há uma briga interna entre seus seguidores, que se dividem em dois grupos. O primeiro grupo, liderado por Ali, seu braço direito, queria que este fosse o caliga. Já o segundo grupo, da região de Omã, lutavam para que seus líderes dessem continuidade ao califado de Maomé. Isso inicia uma briga pela sucessão, que dará origem a dois diferentes segmentos do Islã: de Ali, surgem os xiitas, e de Omã, os sunitas. Esta, entretanto, não é uma divisão religiosa, na qual os xiitas seriam mais radicais e os sunitas, mais liberais. Não. É uma divisão política, na qual ambos alegam ser os verdadeiros descendentes. A partir daí, os xiitas vão para a região da Mesopotâmia, onde hoje é o Irã e o Iraque, ou seja, vão para a Pérsia. E a dinastia de Omã, que havia sido vencedor da disputa, permanece na Península Arábica e sobe ao norte para dominar todo o Oriente Médio e o norte da África. 18 História do Brasil para Crianças Até, mais ou menos, o ano de 670, os muçulmanos passam a exercer domínio sobre todo o Oriente Médio. Por exemplo, no ano 635, dominam Damasco e toda a região da Palestina. E no ano de 638, tomam a cidade de Jerusalém, que foi reconstruída por Constantino, era uma cidade católica e recebia muitos peregrinos, desde a descoberta dos locais santos por Santa Helena, no século IV. No final do século VII, por volta do ano 698, todo o norte da África, que era inteiramente católico, também já estava dominado pelos árabes. As pessoas não sabem, mas o Egito, por exemplo, tinha um catolicismo muito forte. De lá, tivemos Santo Antão, Santo Atanásio, São Cirilo; em Hipona,Santo Agostinho; também tivemos São Cipriano — todos de cidades que sofreram domínio islâmico. Segundo dados da época, existiam 70 bispos no norte da África durante o ano 698. No século X, ou seja, 300 anos depois, vão restar 5 bispos. Relembrando, então, os muçulmanos começam no ano 612 e, pouco tempo depois, no ano 698, já haviam dominado todo o Oriente Médio e o norte da África. Domínio este que era feito através de um movimento político de ataque. Mas os seus domínios não param por aí. Eles sempre tiveram o desejo de invadir a Europa. Então, no ano 711, atravessam o Estreito de Gibraltar e começam o processo de expansão sobre aquela região. Infelizmente, os Visigodos não estavam organizados a ponto de poder impedir este domínio árabe e são rapidamente derrotados. Na primeira guerra, em 711, já morrem cerca 7000 Visigodos. Em algum momento, eles tentam impedir a investida muçulmana, mas não têm sucesso e são derrotados. O que acontece, então? Neste processo de expansão ocorre, ainda no ano 711, na tentativa de impedir o avanço islâmico, uma batalha muito importante: a Batalha de Guadalete. Nela, os muçulmanos atacam os cristãos, derrotando-os. Entretanto, os Visigodos da região não são mortos de forma expressiva, pois alguns conseguem fugir. Um dos fugitivos foi Dom Pelágio, que foi para o norte da Espanha, na região das Astúrias. Lá, os cristãos conseguem se defender da expansão árabe. Então, os muçulmanos tomam, por meio da força, toda a Península Ibérica, restando apenas o norte, o único pedaço que permaneceu católico. Eles não conseguiram dominar essa área, pois é uma região montanhosa e, aproveitando-se disso, Dom Pelágio tinha uma tática muito inteligente de batalha, atacando, desde pontos específicos, os soldados que passavam por baixo, impedindo a sua progressão. A progressão para o norte é, de fato, impedida, mas note que, em apenas 100 anos, os islâmicos conseguiram dominar todo o norte da África, todo o Oriente Médio e todo o restante da Península Ibérica. E ainda ocorre a expansão xiita, que vai até a Índia. Isso se dá, em grande parte, graças à hábil e bem organizada técnica de cavalaria utilizada pelos soldados muçulmanos, a qual os povos bárbaros não dominavam. Módulo 1 — Capítulo 3 19 Infelizmente, os visigodos, que já estavam cristianizados, não tiveram sucesso em impedir o ataque, mas conseguiram se proteger em um lugar. O interessante é que, a partir deste local, as Astúrias, os cristãos começam a retomar as regiões da Península Ibérica. Em 711, tudo cai, mas os cristãos sobrevivem e iniciam, esse processo de reconquista, do qual nascem Portugal e Espanha. A reconquista, porém, é longa: tem início por volta de 718-720 e só será finalizada em 1492. Mas isso é tema para o próximo capítulo. 4. A Guerra da Reconquista Neste capítulo, nós falaremos sobre o processo de expulsão dos muçulmanos da Península Ibérica e, que deu início à formação daquelas que virão a ser as duas maiores potências católicas do século XVI: Portugal e Espanha. Este processo é a Guerra da Reconquista, Como comentado no último capítulo, no ano 711, ocorre o domínio islâmico sobre a península, o que obriga os cristão remanescentes a se deslocarem para a região que ficará conhecida como as Astúrias. Lá, no ano de 718, Pelágio recebe o título real de líder do povo católico, rei dos visigodos que sobreviveram aos ataques muçulmanos. Desde 711 até 722, todas as lutas que os católicos realizaram foram de defesa, nas quais eram atacados pelos árabes e precisavam usar táticas de guerrilha para se defender. Porém, em 722, ocorre algo diferente: Pelágio não fará a defesa do territórios das Astúrias, mas a sua expansão. Este é o ano que marca o início do processo de reconquista católica da Península Ibérica. É neste momento que ocorre a Batalha de Covadonga. Nela, Pelágio lidera o exército católico para a vitória e, consequentemente, a expansão da religião católica e dos seus domínios. Isto marca o início, mas o fim só ocorrerá em 1492. Ou seja, desde 722 até 1492, os católicos permaneceram lutando pelo domínio total da Península Ibérica. Logo após o início do processo, começa a crescer, em meio aos soldados cristãos, uma devoção especial a Santiago Matamouros. Mouros é o termo utilizado pelos espanhóis para se referir aos muçulmanos. Como eu comentei no segundo capítulo desta obra, São Tiago é tido como o grande patrono da Península Ibérica, mais precisamente, da Espanha. São os católicos espanhóis da região das Astúrias que iniciam essa devoção. Inclusive, há relatos de aparições suas em várias batalhas, como é o caso de Covadonga, para auxiliar os cristãos na defesa dos territórios e na expulsão dos muçulmanos. A tradição diz também que, depois, os católicos conseguiram encontrar o seu corpo no local onde construíram a Catedral de São Tiago de Compostela, que se tornou outro grande local de peregrinação durante a Idade Média. Enfim. Na Batalha de Covadonga todos esses processos de expansão têm início. Para isso, os católicos utilizavam uma estratégia de guerra diferente dos muçulmanos. Eles faziam uso de duas cavalarias duranteas batalhas: uma lenta, mais pesada, e uma rápida. Primeiro usavam a cavalaria mais ágil, que contornava o exército inimigo, atacando-o pelos flancos e pelas costas. Depois, era enviada a 22 História do Brasil para Crianças cavalaria pesada, portando lanças francesas , como as que aparecem em cenas de justas medievais nos filmes, e atacavam pela frente. Assim, destruíam os exércitos muçulmanos, que não estavam preparados para esta nova modalidade de batalha. A partir de Covadonga, começou-se a ter vários territórios libertados pelos cristão. Os primeiros reinos reconquistados da Espanha foram Navarra, Castela, Aragão e a região dos Catalanes, que será, depois, a Catalunha. De Portugal, o primeiro reino foi a Galícia, território bem ao norte que depois vai se chamar Leão. O primeiro líder da Galícia foi o nobre visigodo Vímara Peres, que comandou a luta contra os muçulmanos, libertando a província galega, e fundou a cidade de Guimarães. Isso ocorre já no final do século XIX, e os reinos retomados começam a se expandir, tanto nas regiões de Portugal quanto da Espanha. Durante esse processo de libertação, ocorrem algumas uniões diplomáticas. Do século XIX ao XIII aconteceram, entre os reinos castelhanos e portugueses, muitas dificuldades de demarcação territorial por onde iam se expandindo. Eles iam dominando as regiões muçulmanas e queriam anexá-las aos seus territórios, por isso as dificuldades. Mas o que se sabe é que, na Espanha, formou-se, primeiro, o grande reino de Leão e Castela, do qual o primeiro grande líder foi Fernando Magno, conhecido como “Fernando, o Conquistador”. Depois, surge um outro importante rei que também liderará Castela durante o processo de Reconquista, mas já no século XIII, que é Fernando III, o Santo, que dominou várias regiões, como Córdoba, Múrcia e Servilha. Fernando III reina por volta do ano 1200 até 1250 e vai dominando e expandindo por vários territórios. Então, aos poucos, aquilo que era só um pequenino trecho no norte da península vai crescendo, se expandindo e chegando a novos lugares. Módulo 1 — Capítulo 4 23 Além da conquista territorial, Fernando III promovia um processo recivilizatório das regiões que sofreram uma interrupção civilizatória por parte dos muçulmanos. Ele unifica o Direito Visigodo; financia a grande Universidade de Salamanca ; constrói uma das catedrais medievais mais famosas, que é a Catedral de Burgos ; e leva, para a região, as ordens monásticas, como os cistercienses, os dominicanos, os franciscanos e os beneditinos — e todos eles auxiliam no processo de unificação. Todos os territórios que viriam a formar a Espanha, exceto Granada, foram, até 1250, ou seja, em 50 anos, reconquistados por Fernando III, que é santo. Daí, então, de 1250 até 1492, foi um processo mais difícil, pois o reino de Granada, como estava mais ao sul, era muito auxiliado pelos turcos com as suas embarcações piratas, que impediam a chegada de outros exércitos católicos que vinham pelo mar; e também, como estava muito próximo ao Marrocos, que era islâmico, e ao Estreito de Gibraltar, ficava muito fácil a passagem de muçulmanos de um lado para o outro, o que dificultava as investidas cristãs. A tomada de Granada só se dará depois com a rainha Isabel, a Católica, outra grande líder após Fernando III. Ela expulsa os muçulmanos em 1492. Mas quem era Isabel, a Católica? Ela nasceu — veja que interessante — no dia 22 de abril de 1451, numa Quinta-feira Santa. O dia 22 de abril é também o dia da chegada dos portugueses ao Brasil. Veja que interessante essa conexão histórica entre o nascimento de Isabel com o nascimento do Brasil. Esses são os caminhos da Providência Divina. Seu pai, João II de Castela, era descendente de São Fernando III, e sua mãe era portuguesa e descendia de São Nuno, de quem nós trataremos um pouco quando falarmos sobre a Batalha de Aljubarrota e a grande dinastia de Avis. São Nuno foi um soldado e nobre português que auxiliou na fixação dos territórios portugueses e na expulsão total dos muçulmanos, isso já no século XIV. 24 História do Brasil para Crianças Enfim. Isabel, a Católica tem santos nos dois lados da sua família: da sua mãe, tem São Nuno, e do seu pai, São Fernando III. E a sua dama de honra, a mulher que lhe acompanhava também tornou-se santa, Santa Beatriz da Silva, também portuguesa. Isabel tinha, de fato, essa conexão entre Espanha e Portugal. Desde criança, ela foi muito educada para a vocação dos estudos e da vida de oração. Era uma mulher muito nobre, muito bem preparada. Estudou, desde pequena, as artes liberais, estudou, estudou latim, retórica, teologia, leu a Suma Teológica. Mas também sabia fazer bordados e bordava, por exemplo, missais; sabia cozinhar, sabia caçar. Enfim. Era, de fato, uma mulher muito bem preparada e também de uma vida muito espiritual. Ia à missa todos os dias, rezava o breviário, algo que não era comum para a época. Hoje é mais fácil as pessoas fazerem a liturgia das horas, mas naquele período, naquele tempo, não era algo muito comum. Então, Isabel, a Católica, era um exemplo de vida. Ela se casou com Fernando de Aragão, que, apesar de estar num reino carólico, era um homem mundano. Mas Isabel acabou o conhecendo e se apaixonando por ele. E, ao se apaixonar, ela o fez mudar e se tornar um bom católico também, um homem devoto e muito íntegro. A conversão de Fernando veio do seu casamento. A partir daí, os dois iniciaram o processo de dominação de Granada, o reino que faltava. Isabel tinha uma percepção muito grande da sua missão de formar a Espanha católica. A sua última chance para isso era o ano de 1492. Por que a última? Os muçulmanos tinham muitos califados — o califado de Damasco, do Egito, do norte da África, de Cartago, os turcos. E eles estavam se reunindo, pois, desde o século XIII, os cristão os haviam expulsado de lá, e precisavam, portanto, retomar a região. Antes que eles se reunissem para tomar a região, Isabel, a Católica, ataca a cidade de Granada. A guerra dura, mais ou menos, 8 anos. Nela, vai se disputando e dominando cada pequeno pedaço de território, até que, por volta de 1491, os espanhóis conseguem tomar toda a região, restando apenas a cidade de Granada (que difere da região ao seu redor), que foi mantida sob cerco por 8 meses. Isabel, que acompanhava os seus soldados rumo às batalhas, construiu uma verdadeira cidade — instalou hospital, moradias, igrejas — ao redor das muralhas, pois permaneceriam ali durante os 8 meses de cerco e tinham consciência de que, algum dia, a cidade iria cair. Para esta cidade, que formou-se em volta de Granada e permaneceu após a Reconquista, os espanhóis queriam dar o nome de Isabela, a cidade de Isabel, mas ela recusa e a nomeia Santa Fé. Durante o período de cerco, o líder mouro, Boabdil, sabendo que não tinha mais o que fazer diante da situação em que o seu território se encontrava, tentou propor diversos acordos. Módulo 1 — Capítulo 4 25 Inclusive, em uma dessas tentativas de acordo, um dos seus nobres blasfemou contra Nossa Senhora em árabe na frente de Isabel e dos nobres católicos, dos quais um compreendeu o que estava sendo dito, sacou sua espada, rachando a cabeça do muçulmano ao meio. Isso causou uma confusão, mas Boabdil reconheceu o erro de seu nobre. Resumindo a história, foi no dia 2 de janeiro de 1492 a rendição dos mouros e a entrega das chaves de Granada para Isabel e Fernando. Foi feito, então, um cortejo no qual Boabdil, acompanhado de todos os seus nobres, se prostra diante da rainha e do rei, entrega-lhes presentes, beija as chaves da cidade e entrega para Isabel. Este evento foi assistido por 100 mil pessoas, entre elas católicos, judeuse muçulmanos. Logo após, os padres começam a entoar o grande canto Te Deum, louvando a Deus pela vitória. Uma vitória na qual não foi necessário matar ninguém. Veja que interessante. Eles destroem a maior fortificação muçulmana sem precisar atacar acidade e matar pessoas; apenas mantém o cerco até que a cidade se renda e deixam os mouros voltarem para o seu território, no norte da África. Inclusive, aqueles que quisessem permanecer na região e praticar sua religião, não seriam impedidos, desde que não interferissem no processo político da época. Muitos dizem que não havia liberdade religiosa na Espanha porque confundem com essa não participação política. Havia, sim, liberdade religiosa, mas não uma participação política dos muçulmanos, até porque o reino era católico. Os judeus também podiam manter suas sinagogas — o próprio Fernando de Aragão constrói algumas. Eles só não podiam participar da ação. Os judeus, inclusive, vão tentar, em determinado momento, derrubar o reino católico que havia se formado ali recentemente. Eles não gostaram do que ocorreu, pois tinham contatos comerciais com os muçulmanos, e iniciam uma tentativa de derrubada que ocasionará a expulsão dos judeus e a Inquisição Espanhola. Enfim. A questão é que os muçulmanos retiram-se em paz e Boabdil é tratado como um rei, não é morto, decapitado ou humilhado; ele simplesmente deixa a cidade. Uma coisa interessante é que, durante o período de cerco, acredita-se — e os historiadores confirmam — que Cristóvão Colombo, um genovês, foi até Isabel e pediu-lhe um financiamento para uma expedição marítima até as Índias Orientais, que, na verdade, terminou com a sua chegada nas Américas. Isabel, a Católica, doou suas próprias jóias pessoais — veja o desapego de uma rainha — para financiar a expedição de Colombo, que, no mesmo ano, 1492, chega ao continente americano. Entender isso é importantíssimo. Pois, o que leva o que leva ela a princesa Isabel a entregar as suas jóias para financiar a viagem de Cristóvão Colombo? É o desejo de encontrar riquezas, com ouro ou pau- brasil? Não. O que eles querem é a dilatação deste reino católico que havia sido construído, a expansão da fé. A mentalidade dos espanhóis e também dos portugueses, como veremos no próximo capítulo, é a mentalidade de reconquista e de luta pela expansão da fé para novos territórios que não eram conhecidos. É isto que move essa ação. 26 História do Brasil para Crianças Isso fica muito claro quando olhamos essa questão das datas: no mesmo ano de fundação, de estabilização da Espanha como um reino católico, ocorre a chegada de Colombo, em 1492, na América. E assim, dá-se o final do processo da Reconquista. Mas isso que ocorreu na região da Hispânia também ocorre na Lituânia, naquilo que começa, como vimos, na região da Galícia, o primeiro território do norte de Portugal dominado pelos católicos, mas que vai se expandir e expulsar os muçulmanos. Isso é o que veremos no próximo capítulo. 5. O sonho de Dom Afonso e a Batalha de Ourique Neste capítulo, iremos falar a respeito da grande fundação de Portugal. Fizemos um longo caminho, entendendo todo o contexto até a fundação de Portugal, na Batalha de Ourique e o grande sonho de Dom Afonso Henriques em que Jesus Cristo lhe confia uma missão. Durante todo o processo de reconquista, até o ano de 1031, o único território português que já havia sido tomado era a Galícia. O líder da região, o primeiro conde de Portugal, que ainda era apenas um condado, era Vimor Peres. Por volta do ano 1090, o rei Dom Afonso, que era dessa região da Galícia, contrata Dom Henrique de Borgonha. Quem era ele? Dom Henrique de Borgonha era de uma nobreza advinda da raiz dos reis franceses, principalmente do rei conhecido por ser um sábio de piedoso, Roberto II. Dom Afonso contrata dom Henrique para liderar exércitos contra os muçulmanos. Então, em 1096, em uma das batalhas, eles conseguem dominar a cidade de Coimbra; e no ano de 1102, dominam a região de Arouca, onde ocorre a conversão do general muçulmano Echa Martin. Devido a essas vitórias, Dom Afonso se torna muito amigo de Dom Henrique e concede–lhe, em gratidão e amizade, a mão de sua filha, Dona Teresa de Leão. Um fato interessante sobre Dona Teresa é que ela chama os Templários para lutar nas batalhas em favor dos católicos contra os muçulmanos. Era uma mulher de um catolicismo fervoroso, de muita oração, participante da vida de fé. A partir daqui, quem se torna o sucessor de Dom Afonso é Dom Henrique de Borgonha. Ele tem um filho com Dona Teresa, que nasceu no ano de 1109 e foi chamado Dom Afonso Henriques — recebeu o nome do seu avô e do seu pai. Dom Afonso Henriques será o grande fundador de Portugal. Mas quem era ele? Além de ter um pai grande líder militar, também o avô, uma mãe muito piedosa, Dom Afonso Henriques teve uma formação espiritual e militar muito boas, mesmo o seu pai morrendo quando tinha apenas 3 anos. Ele foi mentorado por um nobre chamado Egas Moniz, o seu grande formador. Após a morte de Dom Afonso, a grande liderança fica a cargo de Dona Teresa de Leão, mas Dom Afonso Henriques se torna o sucessor e começa a assinar os documentos já como rei de Portugal, mesmo país ainda não existindo como tal — virá a existir apenas em 1139. Módulo 1 — Capítulo 5 29 Em determinado momento, morre o líder dos castelhanos, que era parente de Teresa, e assume, em Castela, Afonso VII, que queria tomar a região da Galícia. Ocorre, então, uma batalha entre Afonso VII e Dom Afonso Henriques, no ano de 1137. Do confronto, que ficou conhecido como a Batalha de Cerneja, Dom Afonso Henriques sai vitorioso, e o seu oponente firma um acordo de não atacar mais o Condado de Portugal, que para o jovem herdeiro, já era Reino de Portugal. Em 1138, Dom Afonso Henriques funda o famoso Mosteiro de Coimbra, cidade que havia sido dominada por seu pai em 1096. A fundação se dá junto a um grande santo chamado São Teotónio, que será o primeiro líder do Mosteiro. Um dos outros monges que participam da fundação será, posteriormente, bispo de Braga. No dia 25 de julho de 1139, Dom Afonso Henriques decide, então, atacar e expandir os seus territórios, expulsando os muçulmanos da região, na Batalha de Ourique. Mas, veja, há um problema muito grande. O exército português possuía um número muito menor de soldados, contando com apenas 10 mil homens, enquanto os mouros tinham 100 mil, ou seja, 1 homem para cada 10. A batalha parecia impossível de ser vencida. No dia 24 de Julho, dia anterior, Dom Afonso vai rezar e, durante a sua oração, Jesus Cristo e o anjo de Portugal, o anjo Custódio, aparecem para ele. No relato de sua visão, ele diz: “Armado com espada e rodela saí fora dos reais, e subitamente vi à parte direita contra o nascente um raio resplandecente e indo-se pouco a pouco clarificando, cada hora se fazia maior, e pondo de propósito os olhos para aquela parte vi de repente no próprio raio o sinal da Cruz, mais resplandecente que o sol, e Jesus Cristo crucificado nela. Vendo pois esta visão, pondo à parte o escudo e a espada, lancei-me de bruços, e desfeito em lágrimas comecei a rogar pela consolação de meus vassalos, e disse sem nenhum temor: a que fim me apareceis, Senhor? Quereis, porventura, acrescentar fé em quem tem tanta? Melhor é por certo que Vos vejam os inimigos e creiam em Vós, que eu, que desde a fonte do batismo Vos conheci por Deus verdadeiro, Filho da Virgem e do Pai Eterno, e assim Vos conheço agora.” Veja, essa foi a sua oração. E ele pedia que Jesus não aparecesse para ele, mas para os mouros, pois eles é que não acreditam no Cristo. “O Senhor, com um tom de voz suave, que minhas orelhas indignas ouviram, me disse: ‘Não te apareci deste modo para fortalecer teu coração neste conflito, e fundar os princípios de teu reino sobre pedra firme. Confia, Afonso, porque não só vencerás esta batalha, mas todas as outras em que pelejares contra os inimigos de minha Cruz.’” Veja o que Jesus Cristo está prometendo a Dom Afonso. Da sua batalha de 10 contra 100, ele sairá vitorioso. 30 História do Brasil para Crianças “Acharás tua gente alegre e esforçada para a peleja, e te pedirá que entres na batalha com títulode rei — rei de Portugal. Não ponhas dúvida, mas tudo quanto te pedirem lhe concede facilmente. Eu sou o fundador e destruidor dos reinos e impérios, e quero em ti e teus descendentes fundar para mim um império, por cujo meio seja meu nome publicado entre as nações mais estranhas.” Deus está falando-lhe que quer, por meio dele, fundar um império para que, através do qual, a fé chegue a todas as nações. Precisamos prestar atenção a um dado importante. Uma promessa também havia sido feita à França, que foi o primeiro reino católico do mundo (mas hoje não tem nada de católico). Um dos descendentes do rei francês Roberto II é Dom Henrique de Borgonha, pai de Dom Afonso. Então, aquela missão que foi inicialmente dada à França, através de Carlos Martel, de ter impedido o avanço muçulmano, ter estabilizado o Reino Carolíngio, dominado a Europa e levado a fé para várias partes, aquela mesma bênção na forma de missão estava sendo dada agora, pela Divina Providência, a Dom Afonso Henriques, que vai fundar um reino para expandir a fé. Isso é muito interessante. Aquela mesma bênção da França está agora em Portugal. E continua Jesus: “E comporás o escudo de tuas armas do preço com que Eu remi o gênero humano, e daquele por que fui comprado dos judeus, e ser-me-á reino santificado, puro na Fé e amado por minha piedade.” Prossegue, então, Dom Afonso: “Eu tanto que ouvi estas coisas, prostrado em terra, O adorei, dizendo: Por que méritos, Senhor, me mostrais tão grande misericórdia? Ponde pois vossos benignos olhos nos sucessores que me prometeis, e guardai salva a gente portuguesa. E se acontecer que tenhais contra ela algum castigo aparelhado, executai-o antes em mim e meus descendentes, e livrai este povo que amo como a único filho.” Que rei, não é? Que coisa linda um rei pedir que Deus não castigue o seu povo, mas a ele e seus descendentes, pois o povo lhe é muito amado. “Consentindo nisto, o Senhor disse: ‘Não se apartará deles nem de ti nunca minha misericórdia — olhe a promessa que Deus dá aos portugueses, que também vale para nós, Módulo 1 — Capítulo 5 31 brasileiros, pois Portugal trouxe esta fé para cá —, porque por sua via tenho aparelhadas grandes searas e a eles escolhidos por meus segadores em terras muito remotas.’ Ditas estas palavras desapareceu, e eu cheio de confiança e suavidade me tornei para o real.” Isso acontece no dia 24 de julho; no dia 25, Dom Afonso vai para a batalha. E esses homens, mesmo em um número muito menor, partem com uma virtude, uma fortaleza, uma certeza de vitória e vontade de lutar tamanha, que os soldados muçulmanos ficaram apavorados com a sua força e fugiram. Os portugueses tiveram, ainda, que persegui-los. Assim, em 1139, os muçulmanos são expulsos de Portugal e é fundado o Reino de Portugal. No ano de 1143, Dom Afonso Henriques e Dom Afonso VII assinam o chamado Tratado de Zamora, por meio do qual os castelhanos reconhecem o Reino de Portugal. E em 1179, o Papa Alexandre III escreve a Bula Manifestis Probatum, na qual reconhece o reino católico de Portugal e concede a Dom Afonso o título de “majestade fidelíssima”. E Portugal oferece-se como vassalo da Igreja. Portanto, Portugal surgiu do sonho de Dom Afonso Henriques de estabelecer o reino, sonho este que é confirmado por Deus naquela aparição, dando-lhe esta missão. Através disso — desta força e desta promessa —, a Batalha de Ourique é vencida com o apoio de Deus, e Portugal é fundado. Vai ser este o país que vai nos trazer a fé. É este espírito que está nesse sonho de levar a fé até os locais distantes e estranhos. Esta é a missão de Portugal. Por isso Deus apoiou a sua fundação. Graças a isso nós fomos descobertos e existe hoje o Brasil. Então, veja que a ação da Providência Divina na História é muito maior do que se imagina. Infelizmente, poucas pessoas dão o devido valor aos portugueses que vieram para cá. Acham que foram ladrões, beberrões, pessoas de baixa índole, quando, na verdade, foram pessoas que possuíam dentro de si a mentalidade de Som Afonso Henriques de dilatar o Reino e a Fé, obedecendo a missão que Deus lhes confiou. É esta mentalidade católica, teocêntrica e medieval que vai conduzi-los depois em uma nova expansão da fé. Afinal, Portugal foi fundado, mas ainda precisava se expandir em outros territórios. Aqui nós vimos o nascimento do império português, mas a expansão, a dilatação se dará nos próximos anos. Conforme isso vai acontecendo, Portugal se pergunta o seguinte: “E agora, para onde iremos?” Diante deles está o mar, e é para o mar que partem. É este mesmo espírito que conduz aqueles homens. Aqui nós vimos a beleza da formação de Portugal e como Deus quis usá-lo para agir na História. 6. As guerras contra os sarracenos e a formação do Estado português Neste capítulo, daremos continuidade ao estudo do processo de expansão dos domínios portugueses e de expulsão dos muçulmanos. Falaremos, mais especificamente, sobre a formação do Estado português como conhecemos hoje e sobre as batalhas em que Dom Afonso Henriques e seus sucessores se envolveram. Como vimos no capítulo anterior, o nascimento de Portugal ocorre no ano de 1139, e, a partir daí, tem início todo o processo de expansão. A próxima batalha importante que Dom Afonso Henriques vai liderar é a Batalha de Santarém, em 1147. Nesta ocasião, ele também contou com um exército muito reduzido, se comparado com o exército muçulmano, que era muito maior. Por essa razão, havia a forte necessidade de se utilizar de estratégias para se obter a vitória. Dom Afonso reúne 250 dos seus melhores soldados, que vão, durante a noite, vão até Coimbra, matam os sentinelas da muralha, invadem a cidade silenciosamente e abrem os portões para que o restante do exército português pudesse entrar e dominar a região. Veja a tamanha coragem de Dom Afonso. Esta foi a primeira região a ser conquistada. Posteriormente, ainda em 1147, ocorre uma segunda batalha: a Batalha de Sacavém, em que se disputava por Lisboa. Como nas anteriores, os números portugueses na disputa eram muito inferiores: 1500 contra 5000 mouros. Nesta batalha, porém, Dom Afonso Henriques acaba derrotado. Dos 1500 soldados, apenas 300 sobrevivem, enquanto os mouros tiveram 3000 baixas. Ou seja, os portugueses, mesmo contando apenas com 1500 homens e sendo derrotados, conseguiram matar 3000 muçulmanos. No mesmo período da disputa, o Papa Eugênio III convoca a Segunda Cruzada, que contou com o discurso de convocação de São Bernardo de Claraval, o autor da regra dos templários. Dom Afonso Henriques pede que o Papa dê à sua luta os mesmos que os cruzados recebiam nas batalhas pela Terra Santa. Isso, inclusive, também foi feito pela rainha Isabel. Ela pediu que o Papa concedesse indulgências a todos os soldados estrangeiros que lutassem em favor da Espanha pela Reconquista. O Papa, então, emite a bula. Portanto, qualquer soldado estranheiro que viesse a lutar por Portugal para a expulsão dos mouros iria receber indulgências. Isso fez com que os portugueses recebessem o apoio 34 História do Brasil para Crianças dos cruzados de vários lugares (franceses, italianos, escoceses, ingleses, entre outros). Em junho de 1147, Portugal ataca Lisboa com o apoio de todos os cruzados que haviam chegado em embarcações pelo norte. O cerco dura até outubro, quando a cidade é tomada, graças ao auxílio, sobretudo, dos cruzados ingleses. Dessa união entre ingleses e portugueses, é assinado o Tratado de Windsor, o tratado mais antigo do mundo ainda em vigor. Neste, Portugal e Inglaterra firmam um compromisso de ajuda mútua. Aliança, esta, que é vista em muitos momentos durante a História de Portugal e do Brasil. Por exemplo, quando Napoleão ataca a cidade de Lisboa, quem corre em auxílio de Dom João VI, naquilo que levaria à sua saída para o Brasil, é a coroa inglesa. Isso também é notado em diversos momentos da História em que há uma parceria entre Brasil e Inglaterra, graçasà amizade desta com Portugal. Em 1165, os portugueses partem para Évora, que também é tomada. Graças a isso, o domínio português é ampliado de forma significativa, e por este motivo, Dom Afonso Henriques começa a organizar um Estado. A economia do Estado que começa a ser organizado fica a cargo dos monges cistercienses, que auxiliam na organização econômica e agrária. Neste período, da tomada de Évora em diante, contou-se com a participação ainda mais expressiva dos soldados templários. Foram eles os responsáveis pela conquista de Tomar, conhecida até os dias atuais como a cidade dos templários. Dom Afonso os presenteia com o castelo da cidade, e estes passam a ter sede fixa em Portugal. Mas as lutas não param por aí. Durante esse processo de expansão e domínio em que portugueses e espanhóis vinham se empenhando, começa a se reacender aquela antiga rixa entre os dois povos, sobretudo da parte dos castelhanos. Então, por volta 1157, Afonso VII, aquele que assinou o Tratado de Zamora, comprometendo-se com a paz e reconhecendo Portugal como um reino, morre. O seu filho, Fernando II, entretanto, irá entrar em guerra com o rei português. Em 1169, ocorre a Batalha de Badajoz. Esta era uma cidade muçulmana que havia sido tomada pelos portugueses. Mas, de acordo com o tratado, ela não poderia pertencer a Portugal. Fernando II, então, parte de Castela para Badajoz e ataca Afonso Henriques e seu exército, que ainda festejavam a conquista, vencendo-os. Após a derrota, o rei Afonso Henriques é preso e libertado sob a condição de devolver o domínio sob a região para o seu oponente. Módulo 1 — Capítulo 6 35 As fronteiras portuguesas começam, aí, a se delinear, tomando forma similar à que conhecemos hoje. No confronto, o rei português sofre um acidente, se ferindo e tornando-se mais fragilizado. Seu filho, Sancho I, lhe sucede como líder das próximas batalhas, dominando, de região em região, toda a área abaixo de Évora. Em 1185, Afonso Henriques morre em sua residência, deixando um grande legado como grande pai e fundador de Portugal, graças ao qual recebe muitas honrarias. Dom Sancho I, poucos anos após a morte de seu pai, em 1189, junto aos ingleses, domina as últimas regiões que faltavam para a expulsão total dos mouros: Alvor e Silves, que ficam na fronteira sul do país. A partir daqui, então, Portugal fixa de fato suas fronteiras, nascendo como o país que conhecemos hoje. É desse processo de conquista nasce de fato a Dinastia de Borgonha (nome que adveio de Henrique de Borgonha, pai de Afonso Henriques), a primeira dinastia portuguesa, da qual vieram muitos reis: Sancho I, o Povoador; Dom Afonso II; Dom Sancho II; Dom Afonso III; Dom Dinis; Dom Afonso IV; Dom Pedro I; e Dom Fernando, o Formoso — o último da dinastia. Ou seja, a Dinastia de Borgonha dura de 1139, com Dom Afonso Henriques, até 13983, com Dom Fernando, o Formoso. Dela, uma das figuras que mais nos chama atenção é Dom Diniz, que governou de 1279 até 1325. Ele era um homem inteligentíssimo, um apreciador de literatura, um trovador, e foi o responsável pela formação cultural de Portugal. É, inclusive, considerado o grande pai do trovadorismo e motivador cultural para a formação da língua portuguesa, pois foi através das trovas que aquele latim vulgar, vernáculo, foi sendo reformulado, adaptado, misturado com a cultura, formando, assim, o português. Durante o governo de Dom Diniz, nasce uma ordem muito importante para a vida dos católicos e que interfere diretamente na História do Brasil. Ele é quem funda a Ordem de Cristo. O que é a Ordem de Cristo? É a continuação da Ordem Templária. A Ordem Templária foi fundada em 1118. Com o passar do tempo, torna-se muito rica e poderosa, pois, como ajudava nas batalhas católicas de expulsão dos muçulmanos, a ela era concedida muitas terras e riquezas pelos reis. O próprio Dom Afonso Henriques deu toda a região de Tomar e o seu castelo para os templários. Devido a isso, a ordem começou a ganhar a inveja de alguns reis, principalmente, o rei Felipe IV, o Belo, da França, que iniciou uma militância pelo fim da ordem. 36 História do Brasil para Crianças Infelizmente, a derrota acontece. No ano de 1312, a Ordem Templária é suprimida pelo Papa Clemente V, graças às inúmeras interferências de Felipe, o Belo. Ordem, esta, que, como comentado anteriormente, teve sua regra escrita por São Bernardo de Claraval no tempo da Segunda Cruzada; ordem que, logo após seu nascimento, já contava com 20 mil membros. Porém, Felipe IV consegue, de fato, fazer com que a sua vontade seja realizada. Futuramente, descobre-se um documento, o Documento de Chinon, que revela que o Clemente V não queria realmente ter suprimido-a, mas Felipe teria se aproveitado de um momento em que o Papa investigava os templários, para fazer com que eles fossem mortos. Entretanto, os templários que estavam em Portugal não foram totalmente afetados pela supressão da ordem. Posteriormente, Dom Dinis dirige-se ao Papa, que, na época, já era João XII, solicitando-lhe que, em Portugal, a Ordem Templária tenha outro nome. Disso, em 1319, é fundada por ambos a Ordem de Cristo, através da bula Ad ea ex quibus cultus augeatur. Ela será a grande responsável pelos estudos do aperfeiçoamento das expedições marítimas, da cartografia, do astrolábio e das caravelas. Inclusive, foi a Ordem de Cristo que esteve presente aqui, no Brasil, durante o descobrimento. Pedro Álvares Cabral era um de seus membros. É, também, da Ordem de Cristo o símbolo estampado nas caravelas que aqui chegaram. Em 1417, o Rei Infante, Dom Henrique, descendente da Dinastia de Avis, torna-se o Grão-mestre o grão-mestre da ordem e estabelece, como fim desta, as expedições marítimas. E é, afinal, por meio das expedições que Portugal vai dilatar o reino e a fé. A continuação das Cruzadas que ocorreu, em Tomar e nas demais conquistas por meio das quais Portugal se formou, irá, a partir deste momento, em direção aos mares, para levar a fé. E Dom Dinis foi o responsável por esse grande feito. Outra coisa importante a se comentar neste momento é que, durante o processo de unificação do país, os reis de Portugal pedem a participação de várias ordens religiosas para a organização do reino. Entre elas, a dos os franciscanos, aos quais muitos monarcas tinham devoção e, por isso, participavam como membros da Ordem Terceira de São Francisco. Também os dominicanos, dos quais saíram São Telmo, que era terciário da ordem e auxiliou na reconquista, e o Beato Gonçalo, que veio para o Brasil — a respeito dele, conta-se que convertia as pessoas através da música. Outra ordem que prestou auxílio foi a dos dominicanos, à qual muitos portugueses participaram como membros da Ordem Terceira. Este, por exemplo, é o caso de São Nuno, que era um general e, após a morte de sua esposa, tornou-se monge carmelita; e também do grande São João de Brito. A estes e a muitos outros santos e mártires, como os mártires templários de Lisboa, grandes devoções nasceram em Portugal. Aqui tratamos do nascimento e organização de Portugal, até o ano de 1383, quando a Dinastia de Borgonha acaba, após o que ocorre uma crise dinástica e surge, então, uma nova dinastia. 7. A crise dinástica e a Batalha dos Atoleiros Vimos, nos últimos capítulos, que o espírito que conduzia Portugal ao descobrimento surgiu de todas aquelas guerras da Reconquista, através das quais foi se formando o Estado português desde Dom Afonso Henriques. Ou seja, a mentalidade que conduziu Portugal aos descobrimentos é uma mentalidade cruzadista, daqueles que estão sendo guiados por um ímpeto espiritual, transcendente e elevado. Então, quando olhamos para a história da formação de Portugal e o contexto da origem desta missão, vemos que aquela ideia que é colocada nos livros didáticos, nas escolas, de que o que os moveu foi um interesse mercantilista, cai por terra. Está ligada à formação do estado português a identidade religiosa católica,e quando ele se expande, leva esta fé e dilata este reino. Isto está profundamente unido, faz parte da mesma coisa, que é espírito português.. É difícil de se entender isso, porque nós estamos em uma sociedade totalmente secularizada, onde a religião é apenas um apêndice da vida social das pessoas. Naquele período era diferente: a vida religiosa era parte central na vida daqueles homens medievais. Por isso, nós os chamamos de teocêntricos. Infelizmente, na escola, é ensinada essa ideia de teocentrismo como algo ruim, algo fantasioso, errado, algo no qual a sociedade seria, de alguma maneira, controlada pela Igreja, o que não é verdade. O fato é simples: naquele período, toda a sociedade ocidental européia era católica. Dentro do catolicismo, nós temos um primeiro mandamento, que é amar a Deus sobre todas as coisas, ou seja, colocar Deus no seu centro. Essa era, naquele período, uma sociedade que colocava Deus no seu centro, porque todos eram católicos. Fosse o comerciante, o nobre, o rei, o plebeu trabalhador, o homem ou a mulher, enfim, todos eles tinham essa mesma mentalidade que colocava Deus no centro de suas vidas, e colocando-O, formam, então, uma sociedade teocêntrica, pois todos compartilham da mesma cosmovisão. Isso é a cristandade. Nós estamos estudando a História de Portugal para entendermos precisamente qual foi o motor que moveu o espírito aventureiro português para explorar um oceano desconhecido. O primeiro, é esse ímpeto das cruzadas, da reconquista, do processo de luta empreendido pelos portugueses. Agora, estudaremos uma segunda coisa, que é a formação da Dinastia da chamada Ínclita Geração, a geração que vai descobrir o Brasil, ou seja, a formação de todo o período monárquico no Brasil. O Brasil teve um período que ficou conhecido como o período mais áureo, que foi o da chamada Ínclita Geração. Ou seja, Portugal descobre o Brasil no momento em que seus reis são os maiores, os mais virtuosos, os melhores reis e que estão mais dispostos a buscar, encontrar e fazer aquilo que é bom, belo e verdadeiro. Módulo 1 — Capítulo 7 39 É sobre esta dinastia que nos debruçaremos neste capítulo — a Dinastia de Avis. Mas para entender o seu nascimento, precisamos, antes, entender a crise daquela que a precedeu: a Dinastia de Borgonha, de Dom Afonso Henriques, filho de Dom Henrique de Borgonha. Volto a lembrar que Dom Henrique, pai de Afonso Henriques, era francês, descendente de um dos reis dos territórios portugueses e se torna conde de Portugal, e seu filho torna-se, posteriormente, rei do Estado português. E a partir dele, veremos uma ampla descendência até chegar ao último rei da Dinastia de Borgonha, que foi Dom Fernando de Portugal. Mas por que houve essa mudança da Dinastia de Borgonha para a de Avis? O que aconteceu? Para explicar, precisamos ir até Dom Pedro I de Portugal. Ele teve um filho legítimo, que foi Dom Fernando, e um bastardo, Dom João de Avis. Este, por não ser um filho legítimo, não poderia ser rei, então, o sucessor legítimo seria seu irmão. Dom Fernando se casa com Dona Leonor. Eles, porém, não conseguiam ter filhos. Na verdade, tiveram filhos, só que nenhum deles sobreviveu à infância, com excessão de Beatriz de Portugal. Esta, com 11 anos de idade, já havia sido prometida em casamento a um outro rei: Dom João de Castela. Esta relação, sem que Dom Fernando tivesse um sucessor, começa a deixar a nobreza de Portugal um pouco temerosa com o que poderia acontecer, pois percebia que, sem um descendente de Beatriz, não se teria mais um rei em Portugal. Para piorar a situação, Dom Fernando morre. Após isso, houve um período de regência, sem um sucessor ao trono, já que ele não tinha outros filhos e seu irmão, Dom João de Avis, era bastardo e não poderia ser rei. Então, segundo as regras dinásticas, quem fica no lugar é a sua esposa, Dona Leonor, como regente, até que Beatriz completasse 14 anos. O problema é que, diante dessa situação, aquele medo, que era ainda pequeno, começa a crescer entre os nobres e aumenta ainda mais quando Dom João de Castela se declara rei de Portugal, já que era prometido em casamento a Beatriz. Esta ameaça de uma nova dinastia, de uma nova monarquia em Portugal é o que amedrontava os portugueses: “Se ele tornar-se rei, nós perderemos a nossa independência”. Isso é compreensível, pois eles recordavam-se da luta constante entre os reinos de Portugal e Castela. A guerra havia sido estagnada por sucessivos tratados de paz, mas que foram quebrados. Desde Dom Afonso Henriques essas disputas existiam com os castelhanos. Então, os nobres começam a dar apoio para que o filho bastardo, Dom João de Avis, fosse rei. E, para intensificar a situação, os ingleses, que, como dito em momentos passados, haviam assumido uma aliança diplomática com Portugal, apoiam Dom João de Avis para que se tornasse rei. Em 1383, então, tem início a chamada Revolta de Avis, na qual o trono, em vez de ser ocupado por dona Leonor ou Beatriz, passa a pertencer a Dom João de Avis. Dom João de Castela, entretanto, não aceita perder a oportunidade de anexar o reino de Portugal ao seu, então empreende um ataque contra o Mestre de Avis. 40 História do Brasil para Crianças Disso, ainda em 1383, ocorre a famosa Batalha dos Atoleiros, na qual o Mestre de Aviz se defende dos ataques castelhanos. Observo que esta foi a primeira guerra, a segunda será abordada no próximo capítulo. Nesta, os espanhóis vieram para a disputa com um total 5000 homens, enquanto os portugueses tinham cerca de 1800. Os espanhóis, então, vão para a cidade de Alentejo, onde estavam os portugueses, montam um cerco e exigem a rendição de Dom João de Avis. Entretanto, antes de completarem o cerco, o nobre Nuno, que hoje é santo (São Nuno), que liderava o exército português na ocasião, consegue montar defesa em um terreno específico, no chamado estilo de guerra dos quadrados. Graças a isso, os portugueses, mesmo com números muito inferiores, conseguem sair vitoriosos da batalha. É interessante perceber quantas venceu estando com menores números de homens. Foi assim na Batalha de Ourique, na Batalha dos Atoleiros, na de Aljubarrota, que veremos no próximo capítulo. Enfim. Parece uma constante nas vitórias portuguesas. É, de fato, uma ação da Providência Divina no desenvolvimento do Estado português. Algo similar pode ser visto nas histórias bíblicas das guerras de Josué, que tinha o povo de Israel consigo, um exército minúsculo combatendo grandes, poderosos e bem preparados inimigos e conseguia vencer mesmo assim. Por quê? Porque Deus queria estabelecer o Estado hebreu. É essa mesma ação da Providência na História que vemos em Portugal. Então, com 5000 mil homens, Dom João de Castela perde a batalha e precisa se retirar. Inclusive, os portugueses perseguem os soldados inimigos sobreviventes por até 7 quilômetros de distância. Mas ele não se dá por vencido, não aceita a derrota. Reformulando seus planos, convoca novamente seus exércitos e ataca Portugal em mais uma batalha: a Batalha de Aljubarrota, uma das principais disputas da história da formação do Estado português. Módulo 1 — Capítulo 7 41 Entretanto, do outro lado, havia São Nuno. Quem era ele? São Nuno nasceu em 1360. Seu pai era um nobre hospitaleiro, ou seja, da ordem religiosa militar dos hospitaleiros (a ordem dos soldados que cuidavam dos hospitais dos cruzados, como uma espécie de médicos militares e religiosos), e sua mãe era uma mulher de grande devoção. Por isso, ele era muito católico. Desde pequeno, buscou uma formação de guerra, de infantaria, mas ao mesmo tempo, uma formação religiosa. No meu livro O Mínimo sobre a Idade Média5, quando falo sobre educação, comento sobre algo muito importante. Dentro da Idade Média havia três diferentes tipos de educação: a educação das artes liberais, a educação das artes técnicas, que são as chamadas artes mecânicas, e das artes cavaleiresca — uma educação para os intelectuais, uma para