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A série Pensamento e Acao no Magister Pensamento e Acao no Magisterio reúne as contribuições teóricas e práticas necessárias a todos os educadores que desejam modificar seu fazer pedagógico no dia-a-dia em sala de aula. A série é dirigida que buscam interagir com a criança e adolescente, participando vivamente de seu desenvolvimento global. VYGOTSKY Aprendizado e desenvolvimento Um processo sócio-histórico Este livro apresenta uma síntese das idéias de Ley Vygotsky, localizando o autor russo no contexto histórico em que viveu e produziu os seus trabalhos com objetivo de introduzir os principais conceitos de sua vasta e complexa obra. Enfatizando especialmente a importância dada por Vygotsky à cultura e à linguagem na constituição do ser humano, a autora explora as relações entre desenvolvimento e aprendizado, pensamento e linguagem e aspectos biológicos e culturais do funcionamento psicológico. Num texto claro e bem ordenado, ela conduz leitor pelos diferentes caminhos do pensamento vygotskiano, sem, no entanto, reduzir a esquemas simplistas as idéias desse pensador. VYGOTSKY Aprendizado e desenvolvimento Um processo sócio-histórico ISBN 85-262-1936-7 Marta Kohl de Oliveira editora scipione 9 788526"219366 editora scipioneno Magisterio VYGOTSKY Aprendizado e desenvolvimento Um processo sócio-histórico Marta Kohl de Oliveira em pedagogia pela USP Doutoro em psicologia da educação pela Universidade de Stanford, EUA Professora Faculdade de Educação da USP editora scipioneSUMÁRIO PREFÁCIO por Jaan Valsiner 6 CRONOLOGIA 9 INTRODUÇÃO 13 1. HISTÓRIA PESSOAL E HISTÓRIA TUAL 17 2. A MEDIAÇÃO SIMBÓLICA 25 O uso de instrumentos 27 O uso de signos 30 Os sistemas simbólicos e processo de lização 34 3. PENSAMENTO E LINGUAGEM 41 O desenvolvimento do pensamento e da lin- guagem 43 O significado das palavras 48 O discurso interior e a fala egocêntrica 51 4. DESENVOLVIMENTO E APRENDIZADO 55 O conceito de zona de desenvolvimento pro- ximal 58 O papel da intervenção pedagógica 61 Brinquedo e desenvolvimento 65 A evolução da escrita na criança 68 Percepção, atenção e 72 5. O BIOLÓGICO E CULTURAL: DESDO- BRAMENTOS DO PENSAMENTO DE VY- GOTSKY 81 A base biológica do funcionamento psicológi- CO: a neuropsicologia de Luria 82 Os fundamentos culturais e sociais do desen- volvimento cognitivo: a pesquisa intercultural na Ásia Central 89 A teoria da atividade de Leontiev 96 CONCLUSÃO 101 BIBLIOGRAFIA 106 Obras de Vygotsky 106 Obras de outros autores 106 Obras da autora 108 5PREFÁCIO muito boas razões para interesse que temos hoje JAAN VALSINER Jaan Valsiner, natural da dia pela obra de Vygotsky. Sua obra centrou-se, con- Chapel Hill, North Carolina professor do Departamento de sistentemente, na idéia da emergência de novas formas Outubro de 1991 Psicologia, na University of North na psyché humana sob orientação social. Essa perspecti- A publicação deste pequeno livro a respeito das idéias Carolina at Chapel Hill, Estados va e tanto original quanto extremamente pertinente pa- do judeu russo Lev Vygotsky, estudioso de literatura Unidos. Estudioso do as ciências sociais de nossos dias. A maior parte da psi- to de Vygotsky, livro do desenvolvimento, representa um aconteci- cologia e das ciências educacionais contemporâneas es- A quest for synthesis: life and mento notável por várias razões. Ele muito oportuno, work of Ley Vygotsky, em cola- tão cm estagnação perspectiva que her- no momento em que a obra de Vygotsky está boração com Rene Van der daram da história das ciências sociais do ocidente nos do popularidade em todo mundo, e grande número Publicou, anteriormente, livro timos séculos. As ciências sociais tendem a encarar a so- de estudiosos se têm proclamado ardorosos seguidores des- Developmental Psychology in the ciedade e seres humanos que a constituem como enti- Soviet Union e vários outros livros sa fascinante personagem do cenário da psicologia e do dades relativamente e não como sistemas com- artigos na de Psicologia do movimento de estudos sobre a criança na União Sovieti- plexos constantemente submetidos a processos de desen- ca, durante a década de 20. No decorrer de suas ativi- volvimento. Contudo, nossa realidade cotidiana oferece- dades, muitas pessoas educadores, estudantes, nos, ao contrário, evidências dessa constante: logos, psicólogos e muitos outros vêm-se tornando cada as crianças se desenvolvem, muitas vezes, de maneira im- vez mais interessadas no que Vygotsky de fato pensava previsível para pais, professores e políticos - todos eles, e dizia. Na verdade, Vygotsky está se tornando um ou quase todos, tentando fazer com que a geração mais das ciências educacionais e sociais de nosso tempo jovem aprove e seja fiel às visões de mundo que possuem. mais de meio século após sua morte. como mostra a história de maneira bastante no- Contudo, um certo na fama, tável, seus são em grande medida em vão a mente na fama póstuma. Nem sempre, ao crescer a geração mais nova constrói seu próprio modo de ma de uma pessoa, a de suas idéias preender mundo, que apenas parcialmente acompanha avança em ritmo O nome de Vygotsky de seus pais, divergindo da compreensão destes de ma- vem sendo cada vez mais mencionado nas conversas en. neira significativamente inovadora. tre cientistas sociais e educadores, suas idéias são cita- Analogamente, nenhuma cultura ou sociedade or- das com cada vez maior. O interesse por sua ganizada de modo imutável e Pode parecer que obra em ambito mundial tem-se baseado, em geral, nos dada sociedade permaneceu por décadas numa situação textos disponíveis a respeito dele (sobretudo de status quo, e somos tentados a descrevê-la como está- ricanos), como em traduções do russo para vel. E ai, subitamente, numa sociedade assim aparente- de alguns de seus É importante que estudio- mente bem organizada, tumultuam-se os processos so- de outros países por todo mundo desenvolvam suas ciais, e uma nova forma de organização social emerge so- próprias das idéias de Vygotsky. Dessa perspec- bre as ruínas das formas sociais passadas. Essas novas for- tiva geral, surgimento, em da cuidadosa ana- mas podem se tornar temporariamente estáveis mas, a lise das idéias de Vygotsky, feita neste livro por Marta seguir, novamente se desintegrarão e se reorganizarão. Kohl de Oliveira, constitui passo significativo para uma A geração mais nova que desabrocha que pode ter ser- cobertura abrangente dos temas, juntamente com uma vido de instrumento para ocasionar a mudança social con- vinculação destes a grande número de importantes pro- creta construirá novas utopias sociais e procurará viver blemas educacionais práticos. Neste livro, a exposição das de conformidade com elas. Esse otimista pode idéias de Vygotsky (e de Luria) cuidadosa, clara e bem ser efêmero em pouco tempo se descobrirá que essas ilustrada. A autora tem acurado zelo em oferecer ao lei- utopias não podem ser integralmente implementadas. A tor inúmeras idéias complicadas sobre desenvolvimen- total complexidade da vida humana plena de incerte- to humano, de forma acessível ao grande público mas, zas, acontecimentos inesperados, felicidade e sofrimen- ao mesmo tempo, exata. O quadro por ela traçado das to. E em meio a toda essa realidade pitoresca, mas am- conquistas da escola de pensamento e plamente surrealista, os indivíduos inventam coisas di- rico de e equilibrado em sua abrangência. ferentes, envolvem-se em disputas constantemente no- vas e por vezes acaloradas, matam-se uns aos outros em 6 7nome da "verdade" ou da reconciliam-se CRONOLOGIA como desenvolvem novas potencialidades. e perdem tigas habilidades. Nosso mundo real está em te movimento e transformação. em si e por 1896 Nasce Lev Semenovich Vygotsky, em 17 de que como seres humanos sejamos hro, na cidade de Orsha, em Bielarus. zes de pelo menos na maior parte do tempo. Essa natureza fluida dos mundos social e psicológico 1905 Revolução popular contra o czar. Acentua-se a cri- cria uma necessidade premente de que todas as ciências se social na sociais venham a orientar-se para estudo de processos 1911 Ingressa pela primeira vez numa instituição esco- de desenvolvimento de pessoas (na psicologia), de ins- lar, após anos de instrução com tutores particulares. tituições sociais (na sociologia) e de culturas em geral (na 1913 Forma-se no curso secundário. antropologia cultural). Desnecessário acrescentar que as Ingressa na Universidade de Moscou, no curso de ciências sociais apenas a compreender as com- Direito. plexidades do desenvolvimento em nossos tempos. que voltar se para as idéias de Vygotsky fundamenta- 1914 Passa a frequentar aulas de história e de filosofia se na necessidade concreta de descobrir como conceituar na Universidade Popular de desenvolvimento. Vygotsky foi um dos poucos estudio- 1916 Escreve "A de Hamlet, principe da SOS da primeira metade deste século que insistiu, de ma- como trabalho de fim de curso na Uni- neira persistente firme, em assumir uma perspectiva cen- versidade. trada no desenvolvimento a respeito de todo tema que Essa enfase está bem transmitida neste Em vez de um discurso avaliativo sobre a obra de um nio" (como repetidas vezes seus na e nos Estados Unidos referido a a auto. ra apresenta as idéias de Vygotsky C suas aplicações de modo conciso, acessível ao grande público e com A lógica da abordagem de Vygotsky, sobre a da psyché humana em seu contexto centrada no desenvolvimento, 1924 ge passo a passo das páginas deste livro, e constitui um verdadeiro tributo à obra global de um homem cuja cinação por Hamlet era mais do que simples tópico para análise O gênio de Vygotsky pode ter estado cm sua perseverança na tarefa de resolver problema do de- senvolvimento - ainda longe de estar resolvido neste so final de século, mas que precisa ser resolvido. Para is- so, este livro oferece rico material para ulterior reflexão e leve muitos leitores a oferecer novas soluções a esse momentoso problema. 3A Exemplos de cartazes sobre eventos culturais da Tradução de Lólio Lourenço de Oliveira de Vygotsky. 8 91917 Forma-se em Direito na Universidade de Moscou. Revolução Russa. É criado Conselbo dos Comis- sários do Povo, presidido por Lênin. 1953 Morre Stalin; Kruchev sobe ao poder. 1956 Kruchev dá início ao processo de 1917-1923 Vive em Gomel, lecionando literatura psi- cologia. da URSS. 1918 Abre, com amigo Semyon Dobkin e primo Da- 1962 Publicação do livro Pensamento linguagem nos vid Vygotsky, uma pequena editora de obras de li- Estados Unidos. teratura (fechada pouco tempo depois, devido a 1982-1984 Edição das obras completas de Vygotsky na uma crise de fornecimento de papel na URSS. 1920 Toma conhecimento de que está tuberculoso. 1984 Publicação da coletânea A formação social da mente no 1922 Centralização do poder. Stalin nomeado do Partido Comunista. Constitui- 1987 Publicação de Pensamento e linguagem no Brasil. ção da URSS. 1988 Publicação de "Aprendizagem e desenvolvimen- to intelectual na idade na Lin- 1924 Faz uma conferência no II Congresso de Psiconeu- rologia de Leningrado, marco importante sua guagem, desenvolvimento aprendizagem no Brasil. história profissional. Muda-se para Moscou, a con- vite de Kornilov, para trabalhar no Instituto de Psi- cologia de Moscou. Morre Stalin assume poder. 1925 Escreve o livro Psicologia da arte (publicado na sia cm 1965). Viaja para exterior pela primeira única vez em sua Começa a organizar Laboratório de Psicologia para Crianças Deficientes (transformado, em 1929, no Instituto de Estudos das Deficiências e, após sua morte, no Instituto de Pesquisa sobre De- ficiências da Academia de Ciências Pedagógicas). 1925-1939 Período em que, antes de 1962, são publica- dos trabalhos seus (sete artigos diversos) em cações do mundo ocidental 1928 Processo de modernização da URSS: industrializa- reforma agrária, alfabetização. 1929 Início da ditadura stalinista. 1934 Morre de em 11 de junho, aos 37 anos de idade. Publicação do livro Pensamento e linguagem na URSS. 1936-1937 Período mais violento do regime stalinista. 1936-1956 As obras de Vygotsky deixam de ser publica- das na URSS, por motivos políticos. 10Introdução 13uando vemos, hoje, a crescente penetração das idéias ternos da sociedade soviética: entre 1936 e 1956, aproxi- de Vygotsky nas áreas da psicologia e da educação madamente, a publicação das obras de Vygotsky, junta- e, principalmente, quando tomamos contato com o con- mente com a de muitos outros autores, foi suspensa pela teúdo de seu pensamento, podemos imaginá-lo bastan- censura violenta do regime stalinista. te próximo de nós, no tempo e no espaço. Esse teórico Atualmente, a publicação de textos escritos por entretanto, nasceu ainda no século passado, ten- Vygotsky e seus colaboradores, bem como de textos so- do vivido apenas até a década de 30 de nosso século, nu- bre seu trabalho, está em rápida expansão nos países oci- ma situação social, política científica completamente dentais. No Brasil, onde as traduções têm sido feitas a diferente da nossa. partir das edições norte-americanas, foram publicados ape- O momento histórico vivido por Vygotsky, na Rússia livro A formação social da nas dois livros de Vygotsky: A formação social da mente pós-Revolução, contribuiu para definir a tarefa intelec- mente, editado nos Estados Uni- e Pensamento e linguagem. Há também um artigo seu, tual a que SC dedicou, juntamente com seus colaborado- dos em 1978 por grupo de denominado "Aprendizagem e desenvolvimento intelec- pesquisadores americanos, inclui res: a tentativa de reunir, num mesmo modelo explicati- tual na idade escolar", na coletânea Linguagem, desen- uma listagem completa das obras vo, tanto os mecanismos cerebrais subjacentes ao funcio- de Vygotsky publicadas na União volvimento e aprendizagem. namento psicológico, como o do indi- e em paises de lingua A discussão do pensamento de Vygotsky na área da víduo e da espécie humana, ao longo de um processo glesa essa educação e da psicologia nos remete a uma reflexão so- Esse objetivo teórico implica uma bre as relações entre ele e Piaget. No Brasil, Piaget tem dagem qualitativa, interdisciplinar e orientada para os pro- Sobre trabalho de Vygotsky, com exceção de algumas teses que sido a referência teórica básica nessa área e a penetração cessos de desenvolvimento do ser humano. O objetivo utilizam como referência cen- das idéias de Vygotsky sugere, inevitavelmente, esse con- teórico a abordagem utilizada são de extrema contem- tral, existe no Brasil apenas uma fronto. Esses dois teóricos, coincidentemente, nasceram poraneidade, o que provavelmente explica recente e in- coletânea, recentemente publica- no mesmo ano (1896), mas Vygotsky teve uma vida muito tenso interesse por seu trabalho, não apenas no Brasil, das por um grupo de pesquisado- mais curta: Piaget faleceu quase cinquenta anos depois res da Universidade de Campinas, mas em muitos outros países. (6) de Vygotsky. Vygotsky chegou a ler e discutir, em seus Vivemos hoje um momento em que as ciências em ge- textos, os dois primeiros trabalhos de Piaget (A lingua- ral, e as ciências humanas em particular, tendem a bus- gem e pensamento da criança, de 1923, e raciocínio car áreas de formas de integrar conhecimen- na criança, de 1924). Piaget, por outro lado, só foi to- to acumulado, de modo a alcançar uma compreensão mais mar conhecimento da obra de Vygotsky aproximadamente completa de seus objetos. A interdisciplinaridade e a abor- 25 anos depois de sua morte, tendo escrito o texto "Co- dagem qualitativa têm, pois, forte apelo para pensa- mentários sobre as observações críticas de Vygotsky" co- mento mo apêndice à edição norte-americana de 1962 do livro Pensamento e linguagem, de Vygotsky. Ao longo dos ca- Do mesmo modo, a idéia do ser humano como imer- pítulos que se seguem, comentaremos algumas conver- num contexto histórico e a em seus processos gências e divergências no pensamento desses autores, con- de transformação também são proposições muito impor- forme sua relação com os temas específicos que estiver- tantes no ideário mos abordando. Embora, atualmente, trabalho de Vygotsky seja bas- tante divulgado e valorizado no ocidente, permaneceu quase que completamente ignorado até 1962, quando seu livro Pensamento e linguagem foi publicado pela primeira vez nos Estados Unidos. Ainda que alguns artigos seus já tivessem sido publicados anteriormente em inglês, suas idéias não tinham sido apreciadas e difundidas fora da União Isso deveu-se, em parte, à situação de isolamento em que a União se colocava em relação aos centros de produção científica europeus e por meio de barreiras políticas, cultu- rais e Deveu-se também a mecanismos in- 14 15História pessoal e história intelectual 1Semyon Dobkin era amigo de in- filhos. Segundo Semyon Dobkin, a família de Vygotsky fância de Vygotsky e de sua era "das mais cultas da cidade" A casa tinha uma at- lia. Algumas reminiscências suas mosfera intelectualizada, onde pais e filhos debatiam sis- estão registradas no livro One is not Born a Personality: profiles of tematicamente sobre diversos A biblioteca do Soviet Education Psychologists pai estava à disposição dos filhos de seus ami- (Não nasco uma gos para estudo individual as reuniões de grupos. de: perfis de da edu- cação (11), provavel- Crescendo nesse ambiente de grande estimulação in- mente a principal fonte de infor- telectual, desde cedo Vygotsky interessou-se pelo estudo mações disponível sobre a vida e pela reflexão sobre várias áreas do conhecimento. Or- pessoal de Vygotsky. ganizava grupos de estudos com seus amigos, usava muito a biblioteca pública e aprendeu diversas línguas, inclusi- ve esperanto. Gostava muito, também, de ler obras de literatura, poesia e teatro, atividade à qual dedicou-se du- L ev Semenovich Vygotsky nasceu na cidade de Em alguns textos a data de nasci- ranto toda a vida. próxima a Mensk. capital de Bielarus, país da hoje mento de Vygotsky dada como extinta União em 17 de novembro de 1896. sendo dia 5/11/1896. Essa diver- gência se deve ao fato de que houve uma mudança de rio na ex-União em 1918. Pelo antigo calendário a da- São Petersburgo ta de seu nascimento seria 5 de Talim novembro e pelo atual 17 de Riga LETÔNIA Moscou Intelectuais da época de Vygostky Vladimir Maiakovski Sergei Eisenstein Orsha. (1893-1930) (1898-1948) Mensk A maior parte de sua educação formal não foi realiza- BIELARUS da na escola, mas sim em casa, por meio de tutores par- POLÔNIA ticulares. Apenas aos 15 anos é que ingressou num colé- gio privado, onde os dois últimos anos do cur- secundário, formando-se em 1913. Ingressou, então, na Universidade de Moscou, fazendo o curso de Direito chamado curso de Direito na formando-se em 1917. Ao mesmo tempo em que se- Viveu, com sua família, grande parte de sua vida em Universidade de Moscou, na guia sua carreira universitária principal, cur- na mesma região de Bielarus. Era membro de era um curso amplo na area sos de história e filosofia na Universidade Popular de uma família judia, sendo segundo de oito Seu de ciências incluindo que atualmente corresponderia a Shanyavskii. Embora não tenha recebido nenhum título pai era chefe de departamento em um banco em Gomel Direito e Literatura. Seu trabalho acadêmico dessa universidade, aí aprofundou seus estu- e representante de uma companhia de seguros. Sua mãe de fim de curso na universidade dos em psicologia, filosofia e literatura, o que foi de gran- era professora formada, mas não exercia a profissão. foi uma do Hamlet, de de valia em sua vida profissional posterior. Anos mais tar- Sua família tinha uma situação econômica bastante Essa foi mais de, devido a seu interesse em trabalhar com problemas tarde incorporada, sob forma mo- confortável, moravam num amplo apartamento e podiam dificada, a seu livro Psychology of neurológicos como forma de compreender o funcionamen- oferecer oportunidades educacionais de alta qualidade aos Art (Psicologia da arte) (1), escrito to psicológico do homem, estudou também medicina, em 1925. parte em Moscou e parte em Kharkov. 18 19Do mesmo modo que sua formação acadêmica, sua ati- vidade profissional foi muito diversificada. Trabalhou em ca literária, passando por deficiência, linguagem, psico- diferentes localidades dentro da ex-União tendo logia, educação e questões teóricas e metodológicas rela- tivas às ciências humanas. saído do país uma única vez, em 1925, para uma viagem de trabalho a outros países da Europa. Foi professor pes- Sua morte prematura (37 anos), juntamente com o quisador nas áreas de psicologia, pedagogia, filosofia, li- volume de sua produção intelectual, marcou, de teratura, deficiência física mental, atuando cm diver- forma, o estilo de seus textos escritos: são textos den- sas instituições de ensino e pesquisa, 20 mesmo tempo SOS, cheios de idéias, numa mistura de reflexões filosóficas, em que lia, escrevia dava conferências. imagens proposições gerais e dados de pesqui- dois livros publicados sa que exemplificam essas proposições gerais. Também Vygotsky trabalhou, também, na chamada "pe- no Brasil não foram escritos como devido a sua enfermidade, muitos dos textos de Vygotsky dologia" (ciência da criança, que integra os aspectos livros: são resultado do agrupa- não foram originalmente produzidos na forma escrita; fo- lógicos, psicológicos e antropológicos). Ele considerava essa mento de textos, escritos em diferentes momentos. ram criados oralmente e ditados a outra pessoa que os disciplina como sendo a ciência básica do desenvolvimento copiava, ou anotados taquigraficamente durante suas aulas humano, uma síntese das diferentes disciplinas que es- ou conferências. Essc fato também tem clara influência tudam a criança. Na verdade, aspectos da psicologia VAN DER VEER no estilo dos textos de Vygotsky. de Vygotsky nós, nos anos 80, lentamente aprende- (28). mos a apreciar consistente nos processos de de- Sua produção escrita não chega a constituir um siste- senvolvimento, na emergência de novas (superiores) for- ma explicativo completo, articulado, do qual mas de organização dos processos psicológicos e recusa Esta uma das diferenças mos extrair uma "teoria vygotskiana" bem estruturada. reduzir a dinâmica complexidade psicológica a seus tantes entre a produção de Não constituída, tampouco, de relatos detalhados dos elementos constitutivos eram considerados, por Vygotsky e a de Piaget, trabalhos de investigação nos quais o lei- Vygotsky, como centro da pedologia enquanto ciência em sua vida quase anos mais longa, uma teoria tor pudesse obter informações precisas sobre seus proce- mais geral que a psicologia" bastante articulada nos deixon dimentos resultados de pesquisa. Parecem ser, justa- informações precisas sobre sens mente, textos escritos com entusiasmo e pres- Criou um laboratório de psicologia na escola de for- de investigação. sa, repletos de idéias fecundas que precisariam ser cana- mação de professores de Gomel e participou da criação lizadas num programa de trabalho a longo prazo para que do Instituto de Deficiências, cm Moscou. pudessem ser explorados em toda a sua riqueza. à sua vida profissional propriamente dita, Vygotsky man- No Brasil, antes mesmo de sell tinha intensa vida intelectual, fazendo parte de vários gru- Esse programa de trabalho existiu, fato, e as idéias name associado ao de pos de estudos, fundando uma editora uma revista Luria um autor bastante de Vygotsky não se limitaram a uma elaboração indivi- terária, coordenando o setor de teatro do Departamento particularmente nas dual. Ao contrário, multiplicaram-se e desenvolveram- de Educação de Gomel editando a seção de teatro do de neurologia se na obra de seus colaboradores, dos quais os mais co- jornal Ao longo de seus textos Vygotsky recorre, logia. com diversos trabalhos entre nós são Alexander Romanovich Luria e Ale- blicados em Isso se a situações extraídas de obras xei Nikolaievich ve a sua expressiva produção cm O capítulo 7 do livro Pensamento e linguagem, por neuropsicologia, especialmente A atuação intelectual de Vygotsky parece ter sido muito plo, tem como cpígrafe um verso do poeta Osip Man- em disturbios da e marcante para as pessoas a seu redor. Ele era um orador "Esqueci a palavra que pretendia dizer meu tambem ao fato de que, tendo vi- xorea vido até 1977, leve sua obra bas. brilhante, que encantava a platéia que o ouvia. Entre seus pensamento, privado de sua substância, volta ao reino tante difundida no ocidente. alunos e colegas havia muita admiração pelas suas idéias, das Ha B por teve uma que foram consideradas pontos de partida para elabora- Vygotsky casou-se em 1924 com Roza Smekhova, com He produção escrita bem menor que teóricas e projetos de pesquisa posteriores. Luria afir- a de Luria e menor repercussão no quem teve duas filhas. Desde 1920 conviveu com a tu- ave mava, repetidas vezes, que Vygotsky foi um indivíduo "Brasil e em outros do berculose, doença que o levaria à morte em 1934. ocidente. muito especial ("um gênio"), que ajudou a alargar 11 aprofundar a compreensão de-sua tarefa enquanto pes- Sua produção escrita foi vastissima para uma vida tão To To 56 (14). quisador: "No final dos anos 20 o futuro de mi- curta e, naturalmente, seu interesse diversificado e sua If nha carreira já estava estabelecido. Eu dedicaria meus anos formação interdisciplinar definitam a natureza dessa pro- Trecho do poema Tristia, de Osip ao desenvolvimento dos vários aspectos do dução. Escreveu aproximadamente 200 trabalhos cienti- Mandelshtam, com versos ci- VAN DER VEER sistema psicológico de As palavras de um alu- ficos, cujos temas vão desde a neuropsicologia até a tados por Vygotsky. (28). no de Vygotsky também evidenciam essa "É 20 21difícil determinar que exatamente nos atraía nas expo- Processos psicológicos superiores mo mente, consciência, Essa segunda tendên- sições de Além de seu conteúdo pro- são aqueles que caracterizam cia coloca a psicologia como sendo mais próxima da filo- fundo e interessante, nós ficávamos fascinados pela sua funcionamento psicológico tipica- sofia e das ciências humanas, com uma abordagem des- sinceridade genuína, pelo contínuo esforço progre- mente humano: ações conscien- critiva, subjetiva dirigida a globais, sem preo- temente atenção dir no seu raciocínio, com o qual cativava seus ouvintes, memorização ativa, pen cupação com a análise desses fenômenos em componen- pela bela expressão literária de seu pensamento. O samento abstrato, LCS mais simples. próprio som de sua suave voz de flexível e rica to intencional. Os processos Enquanto a psicologia de tipo experimental deixava entonações, produzia uma espécie de encanto estéti- cológicos superiores se diferen- de abordar as funções psicológicas mais complexas do ser ciam de mecanismos mais ele- A gente queria muito entrar no efeito hipnotizador mentares, como reflexos, reações humano, psicologia mentalista não chegava a produzir da exposição dele e abster-se do sentimento in- automáticas, associações simples. descrições desses processos complexos em termos aceitá- voluntário de frustração quando ela Essa diferenciação, essencial para veis para a ciência. Foi justamente na tentativa de supe- a compreensão do funcionamen- rar essa crise da psicologia que Vygotsky e seus colabora- to humano, e foco privilegiado da dores buscaram uma abordagem alternativa, que possi- Trecho de carta de Vygotsky a cinco de seus discípulos colaboradores, Bozhovich, Levina, Morozova, preocupação de Vygotsky, será Slavina e Zaporozhec, datada de 15 de abril de 1929. aprofundada no capítulo 2. bilitasse uma entre as duas abordagens predomi- nantes momento. "Tive um sentimento de enorme surpresa mento que predomina em mim. Isto, É importante destacar qual significado de síntese para quando A. R. em sua foi pri- torna a situação daqueles poucos que seguem a meiro a trilhar esse caminho e quando A. N. Vygotsky, pois essa é uma idéia constantemente presen- nova linha da ciência (particularmente da [Leontiev] acompanhou. Agora, junta-se cia sobre homem), infinitamente responsável, te em suas colocações e é central para sua forma de com- presa a alegria pelo fato de que, pelos traços que séria no mais alto quase trágico (não no Sintese, para Vygotsky D preender os processos psicológicos. A síntese de dois ele- se revelam, grande não e visivel ape- sentido dessa palavra, mas em seu sen- mentos não é a simples soma ou justaposição desses elc- nas para mim, nem apenas para nós mas tido maior e mais verdadeiro). É preciso, por mil mentos, mas a emergência de algo novo, anteriormente para outras cinco pessoas. sentimen- vezes, à prova, fiscalizar-se, enfrentar Vygotsky fez uma conferência no to da vastidão e do ilimitado do trabalho psico- nosa antes de decidir, pois esse e um II Congresso de Psiconeurologia inexistente. Esse componente novo não estava presente lógico contemporâneo (vivemos um período de caminho muito dificil que requer a pessoa de em Leningrado (atual Peters- nos clementos iniciais: foi tornado possível pela intera- cataclismas geológicos na psicologia) e senti- maneira (28) burgo), em 1924, sobre as rela- entre esses elementos, num processo de transforma- entre os reflexos condiciona- ção que gera novos Assim, a abordagem que dos e o comportamento conscien- busca uma síntese para a psicologia integra, numa mes- te do homem, onde apresenta Vygotsky, Luria faziam parte de um grupo uma proposta de sintese entre ma perspectiva, homem enquanto corpo e mente, en- de jovens intelectuais da Rússia pós-Revolução, que tra- processos elementares quanto ser biológico e ser social, enquanto membro da balhava num clima de grande idealismo e efervescência cia. Foi essa proposta que levou espécie humana participante de um processo histórico. Bascados na crença da emergência de uma Kornilov a para no Instituto de Psicologia de Essa nova abordagem para a psicologia fica explícita nova sociedade, seu objetivo mais amplo cra a busca do iniciar, assim, sua em três idéias centrais que podemos considerar como sen- "novo", de uma ligação entre a produção científica e o ticipação no projeto de constru- do os "pilares" básicos do pensamento de regime social recém-implantado. Mais especificamente, da "nova buscavam a construção de uma "nova que as funções psicológicas têm um suporte biológico pois consistisse numa entre duas fortes tendências pre- são produtos da atividade cerebral; sentes na psicologia do início do século. Dc um lado ha- funcionamento psicológico fundamenta-se nas rela- via a psicologia como ciência natural, que procurava ções sociais entre o indivíduo e mundo exterior, as quais explicar processos elementares sensoriais e reflexos, toman- desenvolvem-se num processo histórico; do o homem basicamente como corpo. Essa tendência a relação homem / mundo é uma relação mediada por laciona-se com a psicologia experimental, que procura sistemas simbólicos. aproximar seus métodos daqucles das outras ciências ex- perimentais (física, química, etc.), preocupando-se com Essas idéias serão brevemente delineadas a seguir, e dis- a quantificação de fenômenos observáveis e com a sub- cutidas em maior detalhe ao longo dos próximos capítulos. divisão dos processos complexos em partes menores, mais A postulação de que cérebro, como o órgão mate- facilmente De outro lado havia a psicologia rial, é a base biológica do funcionamento psicológico to- como ciência mental, que descrevia as propriedades dos ca um dos extremos da psicologia humana: o homem, processos psicológicos superiores, tomando o homem co- K.N. Kornilov (1879-1957). enquanto espécie biológica, possui uma existência ma- 22 23terial que define limites possibilidades para o seu de- O cérebro, no entanto, não é um sistema de funções fixas e imutáveis, mas um sistema aberto, de grande plasticidade, cuja estrutura e modos de funcio- Plasticidade qualidade daqui- namento sibilidades e do desenvolvimento de longo da espécie pos- são moldados ao da história Dadas as imensas que isto que pode ser pela ação de realização humana, essa plasticidade elementos externos sencial: cérebro pode servir a novas funções, criadas na história do homem, que sejam necessárias mações no órgão físico. Essa idéia da grande flexibilida- de cerebral não supõe um caos inicial, mas sim a presença uma estrutura básica estabelecida ao longo da evolu- ção da espécie, que cada um de scus membros traz con- A mediação sigo ao A concepção de uma base material em simbólica ao longo da vida do indivíduo e da espécie está direta- humano: Vygotsky, ligada pressuposto biológico funcionamento trabalho de mente ao segundo do que toca o outro extremo do o homem transforma-se de em num processo que a cultura é parte essen- cial da constituição da natureza humana. Não podemos pensar desenvolvimento psicológico como um proces- abstrato, descontextualizado, universal: o funciona- funções mento psicológico, que humanas, está às particularmente no SC refere psicológicas superiores, bascado fortemente nos modos culturalmente dos de ordenar o real. Um central para compreendermos o mento sócio-histórico do funcionamento psicológico é o conceito de mediação, que nos remete ao terceiro pres- suposto vygotskiano: a relação do homem com o mundo não é uma relação direta, mas uma relação mediada, sen- do os sistemas simbólicos os clementos intermediários en- tre sujeito e o mundo. O capítulo 2, a seguir, é inteira- mente dedicado à complexa questão da mediação sim- 24 25dedicou-se, principalmente, estudo da- tuído por um ato complexo, mediado, que representa- quilo que chamamos de funções psicológicas supe- mos da seguinte forma: riores ou processos mentais superiores. Isto interessou-se por compreender os mecanismos psicológicos mais sofisti- S = estímulo S R cados, mais complexos, que são típicos do ser humano modo de funcionamento psi R resposta que envolvem controle consciente do comportamen- da huma- X elo intermediário ou to, a ação intencional a liberdade do indivíduo em na, não esta presente no indivi- elemento mediador lação às características do momento e do espaço presentes. desde Co. mo veremos nos capitulos que se Nesse novo processo o impulso para reagir é inibi- ser humano tem a possibilidade de pensar em ob- seguem, as atividades do, e incorporado um estímulo auxiliar que facilita a jetos ausentes, imaginar eventos nunca vividos, plancjar cas mais sofisticadas são frutos de ações a serem realizadas em momentos posteriores. Esse um processo de complementação da operação por meios indiretos." No tipo de atividade psicológica é considerada "superior" to que envolve a interação do exemplo da vela, o estímulo (S) seria o calor da chama na medida cm que se diferencia de mecanismos mais ele- ganismo individual com meio a resposta (R) seria a retirada da mão. Numa relação social cm que A direta entre o indivíduo e a vela, é necessário que calor mentares tais como ações reflexas (a sucção do seio ma- aquisição da linguagem definirá terno pelo bebê, por exemplo), reações automatizadas (o provoque dor para que a mão seja retirada. A lembrança um salto qualitativo no desenvol- vimento do ser da dor (isto c, algum tipo de representação mental do movimento da cabeça na direção de um som forte repen- efeito do calor da chama) ou o aviso de outra pessoa so- tino, por exemplo) ou processos de associação simples en- bre o risco da queimadura seriam elementos mediado- tre eventos (o ato de evitar contato da mão com a cha- ma de uma vela, por exemplo). res, intermediários entre o estímulo e a resposta. A pre- sença de elementos mediadores introduz um elo a mais Um exemplo interessante ilustra a diferença entre pro- nas relações tornando-as mais comple- elementares e processos superiores: é possível en- xas. Ao longo do desenvolvimento do indivíduo as rela- sinar um animal a acender a luz num quarto escuro. Mas mediadas passam a predominar sobre as relações animal não seria capaz de, voluntariamente, deixar de realizar o gesto aprendido porque vê uma pessoa dor- mindo no quarto. Esse comportamento de tomada de de- Vygotsky trabalha, então, com a noção de que a rela- cisão a partir de uma informação nova é um comporta- ção do homem com mundo não é uma relação direta, mas, fundamentalmente, uma relação mediada. As fun- mento superior, tipicamente humano. O mais importante desse tipo de comportamento é o caráter voluntário, ções psicológicas superiores apresentam uma estrutura tal intencional. que entre o homem o mundo real existem res, ferramentas auxiliares da atividade humana. Um conceito central para a compreensão das concep- Vygotsky distinguiu dois tipos de elementos media- ções vygotskianas sobre o funcionamento psicológico é o dores: os instrumentos C os signos. Embora exista uma conceito de mediação. Mediação, em termos genéricos, é o processo de intervenção de um elemento analogia entre esses dois tipos de mediadores, eles têm características bastante diferentes e merecem ser tratados rio numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e passa a ser mediada por esse clemento. Quando um in- separadamente. divíduo aproxima sua mão da chama de uma vela e a re- tira rapidamente ao sentir dor, está estabelecida uma re- lação direta entre o calor da chama e a retirada da mão. O uso de instrumentos Se, no entanto, o indivíduo retirar a mão quando ape- nas sentir calor lembrar-se da dor sentida em outra A importância dos instrumentos na atividade huma- ocasião, a relação entre a chama da vela e a retirada da na, para Vygotsky, tem clara ligação com sua filiação teó- mão estará mediada pela lembrança da experiência an- rica aos postulados marxistas. Vygotsky busca compreen- terior. Se, em outro caso, indivíduo retirar a mão quan- der as do homem através do estudo da ori- do alguém lhe disser que pode se queimar, a relação es- gem e desenvolvimento da espécie humana, tomando o tará mediada pela intervenção dessa outra pessoa. surgimento do trabalho a formação da sociedade hu- o processo simples estímulo-resposta substi- A VYGOTSKY, (2). mana, com base no trabalho, como sendo o processo bá- 26 27sico que vai marcar o homem como espécie O instrumento é um elemento interposto entre tra- da. É trabalho que, pela ação transformadora do ho- balhador e o objeto de seu trabalho, ampliando as possi- mem sobre a natureza, une homem e natureza e cria a bilidades de transformação da natureza. O machado, por cultura e a história humanas. No trabalho Dentre colaboradores de exemplo, corta mais e melhor que a mão humana; a va- se, por um lado, a atividade coletiva portanto, as rela- Alexei Nikolaievich silha permite armazenamento de água. O instrumento ções sociais, por outro lado, a criação utilização de (1904-1979) foi quem mais a feito ou buscado especialmente para um certo objeti- formulan Ele carrega consigo, portanto, a função para a qual do a chamada "teoria da ativida- foi criado e o modo de utilização desenvolvido durante (ver capítulo 5). a história do trabalho pois, um objeto social e mediador da relação entre o indivíduo e mundo. Representação de homem zando instrumento em pintura primitiva feita numa Idéias marxistas que influenciaram Vygotsky Marcado pela orientação da natureza) o processo pri- predominante na União vilegiado nessas relações Chimpanze usando Vygotsky via no materialismo a sociedade humana É importante mencionar que animais também utili- histórico dialetico de Marx e uma totalidade em constante zam instrumentos de forma rudimentar. São bastante Engels uma fonte importante É um sistema para suas próprias elabora- Marx inhecidos os experimentos com chimpanzés que usam varas e que Alguns postula- precisa ser compreendido para alcançar alimentos distantes ou sobem em caixotes dos do marxismo mo processo em mudança, para atingir frutas penduradas no teto. Embora esses ins- ramente incorporados por desenvolvimento trumentos também tenham uma função mediadora en- Vygotsky são: as transformações tre indivíduo e objeto, Vygotsky os considera como sen- modo de produção da tativas ocorrem por meio da Vale a pena destacar que do de natureza diferente da dos instrumentos humanos. vida material a vi- chamada "sintese do do comportamento animal Os animais, diferentemente do homem, não da política e espiritual a partir de elementos muito nos últimos anos, do homem produzindo dados quais deliberadamente, instrumentos com objetivos específi- presentes numa determinada o boment e um situação, fenômenos novos Vygotsky não chegou a ter não guardam os instrumentos para uso não tórico, que se emergem. Essa é exatamente Embora ha preservam sua função como conquista a ser transmitida de suas relações com o mun- a concepção de sintese utiliza- dos que demonstram um a outros membros do grupo São capazes de trans- do natural e social. da por Vygotsky ao longo de mais sofisticado de instrumentos de trabalho (transformação toda sua entre primatas superiores do que formar o ambiente num momento específico, mas não uso suposto por Vygotsky nesta desenvolvem sua relação com meio num processo Engels (1820-1895). histórico-cultural, como o 28 29O uso de signos "A invenção e o uso de signos como meios auxiliares VYGOTSKY, para solucionar um dado problema psicológico (lembrar, 59-60, (2). coisas, relatar, escolher, etc.), análoga à in- venção uso de instrumentos, que agora no campo psicológico. O signo age como um instrumento da ativi- dade psicológica de maneira análoga papel de um ins- podem ser definidos como elementos que representam trumento no trabalho". Os instrumentos, porém, são ele- expressam outros mentos externos ao indivíduo, voltados para fora dele; tos, situações. A palavra mesa, sua função é provocar mudanças nos objetos, controlar por exemplo, um signo que re- processos da natureza. Os signos, por sua também presenta objeto mesa; simbolo Quipus, feitos pelos incas pa- registrar informações sobre chamados por Vygotsky de 3 um signo para a quantidade desenho de uma cartola quantidades outros fatos da vi- são orientados para próprio sujeito, para dentro do in- da porta de um sanitário um sig- divíduo; dirigem-se ao controle de ações psicológicas, seja no que indica "aqui do próprio indivíduo, seja de outras São ferra- rio masculino" dar um nó num lenço para não esquecer um compromisso mentas que auxiliam nos processos psicológicos e não nas são apenas exemplos de como constantemente recorre- ações concretas, como os mos à mediação de vários tipos de signos para melhorar Ao longo de sua história, homem tem utilizado sig- nossas possibilidades de armazenamento de informações nos como instrumentos psicológicos em diversas situações, de controle da ação psicológica. conforme veremos a seguir. Na sua forma mais elemen- Vygotsky e seus colaboradores realizaram diversos ex- tar signo é uma marca externa, que auxilia o homem perimentos para estudar o papel dos signos na atividade tarefas que exigem memória ou atenção. Assim, por psicológica. Um dos experimentos tinha como objetivo exemplo, a utilização de varctas ou pedras para registro verificar a relação entre a percepção e a ação motora em controle da contagem de cabeças de gado ou a scpara- crianças de quatro e cinco anos, com e sem a intervenção de sacos de cereais em pilhas diferentes que identifi- de signos mediadores. Numa primeira fase do experimen- cam seus proprietários são formas de recorrer a signos que havia um conjunto figuras e a cada figura corres- ampliam a capacidade do homem em sua ação no mun- pondia uma tecla de um teclado. Quando uma figura era do. Assim como o machado, instrumento de trabalho, mostrada à criança, a tecla correspondente deveria ser pres- corta melhor que a mão humana, as varetas usadas na sionada. As crianças tinham dificuldade de decidir rapi- contagem do gado permitem que o ser humano armaze- damente que tecla apertar, vacilando em seus movimen- ne sobre quantidades muito superiores às que tos, indo vindo entre as várias teclas, até escolher a que ele poderia guardar na Isto é, as varctas repre- deveria ser pressionada. sentam a quantidade de cabeças de gado, a qual pode Numa segunda fase do experimento os pesquisadores ser recuperada em momentos posteriores. É neste senti- introduziram marcas identificadoras nas teclas, que au- do que as varetas são signos: são interpretáveis como xiliavam sua correspondência com as figuras (por exem- presentação da realidade e podem referir-se a clementos plo, a figura de um trenó para lembrar cavalo, a figura ausentes do espaço e do tempo presentes. A memória me- de uma faca para lembrar pão). A introdução dessas mar- diada por signos pois, mais poderosa que a memória cas modificou radicalmente o desempenho das crianças. não mediada. Em vez de vacilar entre as fazendo movimentos desordenados, as crianças passaram a focalizar sua aten- São inúmeras as formas de utilizar signos como ins- ção nas marcas, e a selecionar a tecla apropriada a partir trumentos que auxiliam no desempenho de atividades da relação estabelecida entre a figura mostrada e o signo psicológicas. Fazer uma lista de compras por escrito, uti- lizar um mapa para encontrar determinado local, fazer que a representava. A relação, antes direta, entre a per- cepção da figura e a escolha da tecla, passou a ser um diagrama para orientar a construção de um objeto, da pelas marcas que representavam as várias figuras. 30 31Isto é, uso de mediadores aumentou a capacidade de Atividade direta atenção e de memória e, sobretudo, permitiu maior con- percepção da figura escolha da tecla trole voluntário do sujeito sobre sua atividade. Esses dois experimentos mencionados são exemplos dos estudos feitos por Vygotsky e seus colaboradores no sen- Atividade mediada tido de compreender como o processo de mediação, por percepção da figura escolha da tecla do instrumentos C signos, é fundamental para de- senvolvimento das funções psicológicas superiores, dis- tinguindo homem dos outros animais. A mediação é marcas nas teclas um processo essencial para tornar possível atividades psi- cológicas voluntárias, intencionais, controladas pelo pró- Esse processo de mediação possibilitou um comportamen- prio indivíduo. to mais controlado, uma ação motora dominada por uma É interessante observar que os processos de mediação escolha A ação psicológica tornou-se mais sofisti- também sofrem transformações longo do desenvolvi- cada, menos impulsiva. mento do indivíduo. Justamente por constituírem fun- Um outro experimento, conduzido por vi- ções psicológicas mais sofisticadas, os processos mediados sava fornecer elementos para a do papel dos vão ser construídos 20 longo do desenvolvimento, não es- signos mediadores na atenção voluntária na tando ainda presentes nas crianças pequenas. No experi- Leontiev utilizou um jogo infantil tradicional na Europa mento das "cores que acabamos de descre- como base para estruturar a situação Nes- ver, por exemplo, é só a partir de oito anos, aproxima- se jogo uma pessoa faz perguntas a outra, que deve res- damente, que a criança vai começar a beneficiar-se dos ponder sem usar determinadas "palavras No Esse conhecido no cartões, utilizando-os como auxiliares psicológicos. As sendo as proibi caso do experimento de Leontiev, as crianças deveriam sim, não e porque. crianças menores não se beneficiaram dos cartões como responder a diversas questões sobre cores, por exemplo: signos de apoio à sua atividade psicológica. Ao resolver "Qual a de um tomate?" "Qual a da sua blu- esse tipo de tarefa, sua atividade era predominantemen- sa?", sem usar o nome de duas cores definidas no expe- to direta, não mediada. Sem serem capazes de, delibera- rimento como "proibidas" (verde amarclo, por damente, fazerem uso de recursos externos, como os car- exemplo). tões, essas crianças pequenas lembravam-se ou não das Na primeita fase do experimento pesquisador for- cores proibidas mas não conseguiam controlar sua pró- mulava as perguntas oralmente, a criança simplesmen- pria atividade por meio desses signos mediadores. as respondia, como no jogo original Sua resposta considerada errada falasso nome das cores proibidas. Numa segunda fase, a mesma brincadeira de pergunta- resposta era feita, mas a criança recebia coloridos Atividade direta que podia utilizar, se quisesse, como auxiliares no jogo. Algumas crianças passaram, então, a utilizar os cartões pergunta resposta como suportes externos para sua atenção e SC- paravam os cartões com as proibidas e, antes de res- ponder às perguntas, olhavam para os cartões, como se estivessem "consultando" uma fonte de informação. Atividade mediada As crianças que utilizaram os cartões como marcas ex- ternas para a regulação de sua atividade psicológica pergunta resposta meteram muito menos erros nessa segunda fase do expe- rimento do que na primeira fase, sem os Nova- mente, aqui a atividade psicológica foi beneficiada pela cartões coloridos utilização de signos como "instrumentos 32 33Os sistemas simbólicos e o processo de ses sujeitos foram capazes de, por conta própria, pensar internalização na cor verde como sendo "proibida", sem necessitar da existência física de um cartão verde para lembrá-los dis- so. Ao longo do processo de desenvolvimento, o indivi- Vimos que Vygotsky trabalha com a função duo deixa de necessitar de marcas externas e passa a uti- ra dos instrumentos dos signos na atividade humana, lizar signos internos, isto é, representações mentais que fazendo uma analogia entre papel dos instrumentos de substituem os objetos do mundo real. Os signos interna- trabalho na transformação e no controle da natureza, lizados são, como as marcas exteriores, elementos que re- papel dos signos enquanto instrumentos psicológicos, presentam objetos, eventos, situações. Assim como um ferramentas auxiliares no controle da atividade psicoló- nó num lenço pode representar um compromisso que não gica. E é justamente em sua analogia com os instrumen- quero esquecer, minha idéia de representa a pes- tos de trabalho que os signos aparecem como marcas ex- soa real da minha mãe e me permite lidar mentalmente ternas, que fornecem um suporte concreto para a ação com ela, mesmo na sua ausência. No caso dos cartões, do homem no mundo. a idéia "verde = proibido" substitui cartão verde co- Ao longo da evolução da espécie humana e do desen- mo signo mediador. volvimento de cada indivíduo, ocorrem, entretanto, duas A própria idéia de que homem é capaz de operar mudanças qualitativas fundamentais no uso dos signos. mentalmente sobre o mundo isto é, fazer relações, pla- Por um lado, a utilização de marcas externas vai se trans- nejar, comparar, lembrar, etc. supõe um processo de formar em processos internos de mediação; csse meca- representação Temos conteúdos mentais que to- nismo é chamado, por Vygotsky, de processo de interna- mam o lugar dos objetos, das situações e dos eventos do lização. Por outro lado, são desenvolvidos sistemas sim- mundo real. Quando pensamos em um gato, por exem- bólicos, que organizam os signos em estruturas comple- plo, não temos na mente, obviamente, o próprio gato; xas e articuladas. Vamos discuti-los em maior detalhe a trabalhamos com uma idéia, um conceito, uma imagem, A linguagem sistema simbo seguir, pois tanto o processo de internalização como a uti- lico de todos 05 grupos uma palavra, enfim, algum tipo de representação, de sig- lização de sistemas simbólicos são essenciais para o de- A questão do desenvolvi- no, que substitui gato real sobre qual senvolvimento dos processos mentais superiores e eviden- mento da linguagem e suas rela- Essa capacidade de lidar com representações que subs- ciam a importância das relações sociais entre os indivi- com o pensamento e um dos duos na construção dos processos psicológicos. temas centrais das investigações tituem o próprio real que possibilita 20 homem libertar- de Esse tema será ex- do espaço e do tempo presentes, fazer relações men- É interessante retomar, aqui, o experimento das plorado no capítulo 3. tais na ausência das próprias coisas, imaginar, fazer pla- lavras proibidas" desenvolvido por Conforme nos intenções. Posso pensar em um gato que não mencionamos anteriormente, foi apenas a partir dos oi- está presente no local cm que estou, imaginar um gato to anos, aproximadamente, que as crianças fizeram uso sobre uma poltrona que no momento está vazia, preten- dos cartões como instrumentos psicológicos; crianças me- der ter um gato em minha casa a partir da próxima se- nores operaram de forma direta, sem o uso de signos me- mana. Essas possibilidades de operação mental não cons- diadores. Adultos que participaram do mesmo experimen- tituem uma relação direta com mundo real fisicamen- to também não se beneficiaram da presença dos te presente; a relação é mediada pelos signos internali- seu desempenho na primeira fase do experimento (sem zados que representam os elementos do mundo, liber- cartões) foi muito semelhante ao da segunda fase (com tando o homem da necessidade de interação concreta com cartões). os objetos de seu pensamento. Vygotsky argumenta que esse resultado não significa Quando trabalhamos com os processos superiores que uma regressão dos adultos a uma atividade psicológica caracterizam o funcionamento psicológico tipicamente hu- não mediada, como a das crianças pequenas. Ao contrá- mano, as representações mentais da realidade exterior são, rio, o bom desempenho dos adultos nas duas fases do na verdade, os principais mediadores a serem considera- experimento evidencia que está, sim, havendo mediação, dos na relação do homem com o mundo. É justamente porém que ela está ocorrendo internamente, independen- a origem dessas representações que Vygotsky está buscan- temente da presença dos cartões. Podemos supor que es- do quando nos remete à criação e ao uso de instrumen- 34 35tos de signos externos como mediadores da atividade Vamos supor a existência de um grupo cultural onde, humana. por alguma razão, nunca tenham sido vistos Se a um indivíduo desse grupo cultural for mostrado, pela Ao longo da história da espécie humana onde o sur- primeira vez, um avião, ele não terá condições de gimento do trabalho propicia o da ati- interpretá-lo como tal; não disporá da representação sim- vidade coletiva, das relações sociais do de instru- bólica, do instrumental psicológico que permita a com- mentos as representações da têm se articu- preensão desse objeto. É a partir de sua experiência com lado em sistemas simbólicos. Isto é, os signos não se man- mundo objetivo do contato com as formas cultural- têm como marcas externas isoladas, referentes a objetos mente determinadas de organização do real (e com os sig- avulsos, nem como símbolos usados por indivíduos par- nos fornecidos pela cultura) que os indivíduos vão cons- Passam a ser signos compartilhados pelo con- truir seu sistema de signos, o qual consistirá numa espé- junto dos membros do grupo social, permitindo a comu- cie de "código" para decifração do mundo. nicação entre os indivíduos e o aprimoramento da inte- ração social. Quando um indivíduo aprende, por exem- plo, significado de "cavalo". esse internali- zado pelo indivíduo compartilhado pelos outros usuá- rios da língua passa a ser uma representação mental que serve como signo mediador na sua compreen- são do mundo. Se alguém lhe contar uma história sobre um cavalo, o indivíduo não necessitará do contato direto com esse animal para lidar mentalmente com elc, para compreender a história. A idéia de cavalo fará a media- ção entre cavalo real (que pode estar ausente) e a ativi- dade psicológica do (pensar sobre cavalo, imaginá-lo nas ações descritas na história, etc.). Os sistemas de representação da realidade a lin- tribo guagem o sistema simbólico básico de todos os grupos digena. humanos são, portanto, socialmente dados. É o gru- po cultural onde indivíduo desenvolve que lhe for- Uma importante dessas colocações de nece formas de perceber e organizar real. as quais vão Vygotsky. diretamente ligada a um dos de seu constituir os instrumentos psicológicos que fazem a pensamento, no primeiro capítulo, é que os diação entre indivíduo e o mundo. grupos culturais em que as crianças nascem e se desen- volvem funcionam no sentido de produzir adultos que Enquanto mediadores entre indivíduo e o mundo operam psicologicamente de uma maneira particular, de real, esses de representação da realidade consis- acordo com os modos culturalmente construídos de or- tem numa espécie de "filtro" através do qual homem denar o real. É importante mencionar que a dimensão será capaz de ver o mundo operar sobre ele. Quando sociocultural do desenvolvimento humano não se refere um indivíduo vê, por exemplo, um avião, cle capaz de apenas a um amplo cenário, um pano de fundo onde se interpretar esse objeto como um avião e não como um desenrola a vida individual. Isto é, quando Vygotsky fa- amontoado de informações perceptuais (linhas, la em cultura não está se reportando apenas a fatores sons) caóticas ou não O conceito abrangentes como o país onde indivíduo vive, seu de avião, construído consiste numa repre- vel sócio-econômico, a profissão de seus pais. Está falan- sentação mental que faz a mediação entre o indivíduo do, isto sim, do grupo cultural como fornecendo in- e objeto real que está no mundo. A palavra "avião" divíduo um ambiente estruturado, onde todos os elemen- que designa uma certa categoria de objetos do mundo tos são carregados de significado. Toda a vida humana real. é um signo mediador entre o indivíduo e o avião está impregnada de significações e a influência do mun- enquanto elemento concreto. do social se dá por meio de processos que ocorrem em 36 37diversos Assim, se bebê é colocado para dormir primeiro, no nivel social, se dá "de fora para dentro" Isto primeiramente in- num berço, numa rede ou numa esteira, se quem alimen- depois, no nivel divíduo realiza ações externas, que serão interpretadas pe- ta a criança é a mãe ou outro adulto, do sexo masculino primeiro entre pessoas (interpsi- las pessoas a seu redor, de acordo com os significados cul- ou feminino, se alimento sólido é levado à boca com cológica), e, depois, no interior turalmente estabelecidos. A partir dessa interpretação é a mão, com talheres ou com palitos, se ou não da criança VYGOTSKY, 64, (2). que será possível para o indivíduo atribuir significados escolas ou outras instituições onde as crianças são a suas próprias ações e desenvolver processos psicológicos tidas a conteúdos culturais considerados importantes, estes internos que podem ser interpretados por próprio a são apenas exemplos da multiplicidade de fatores que de- partir dos mecanismos estabelecidos pelo grupo cultural finem qual é o mundo cm que o indivíduo vai se desen- compreendidos por meio dos códigos compartilhados pelos membros desse grupo. A interação face a face entre indivíduos particulares Vygotsky utiliza o desenvolvimento do gesto de apon- um papel fundamental na construção do ser tar, na criança, como um exemplo que ilustra processo humano: é através da relação interpessoal concreta com de internalização de significados dados culturalmente. Ini- outros homens que o indivíduo vai chegar a interiorizar cialmente o bebê tenta pegar, com a mão, um objeto as formas culturalmente estabelecidas de funcionamen- um chocalho, por exemplo que está fora de seu al- to psicológico. Portanto, a interação social, seja direta- cance. Estica a mão na direção do chocalho fazendo, no mente com outros membros da cultura, seja dos ar, um movimento de pegar, sem conseguir Do diversos elementos do ambiente culturalmente estrutu- ponto de vista do bebê, este é um gesto dirigido ao cho- rado fornece a matéria-prima para desenvolvimento calho, uma relação externa entre e esse chocalho, uma psicológico do indivíduo. tentativa malsucedida de alcançar um objeto. Quando A cultura, entretanto, não é pensada por Vygotsky co- um adulto vê essa cena, entretanto, ocorre uma transfor- mo algo pronto, um sistema estático ao qual indivíduo mação na situação. Observando a tentativa da criança de se submete, mas como uma de "palco de nego- pegar o chocalho, o adulto provavelmente reage dando em que seus membros estão num constante mo- chocalho para a criança. Na verdade estará interpretando vimento de recriação reinterpretação de informações, aquele movimento malsucedido de pegar um objeto co- conceitos e significados. A vida social um processo di- mo tendo significado "Eu quero aquele nâmico, onde cada sujeito é ativo e onde acontece a in- Ao longo de várias experiências semelhantes, a pró- teração entre o mundo cultural mundo subjetivo de pria criança começa a incorporar o significado cada um. Neste sentido, e novamente associado a sua fi- liação marxista, Vygotsky postula a interação entre vá- pelo adulto à situação e a compreender seu próprio ges- to como sendo um gesto de apontar um objeto deseja- rios planos históricos: a história da espécie do. Aquele movimento, que era uma relação entre a crian- a história do grupo cultural, a história do organismo in- dividual da espécie (ontogênese) e a singular ça e o chocalho, passa a ser dirigido para outra pessoa. O movimento de pegar transforma-se no ato de apon- de processos e experiências vividas por cada tar, com uma interação orientada mais para o obje- O processo pelo qual o indivíduo internaliza a to, mas para outra pessoa. O significado do gesto é ini- prima fornecida pela cultura não pois, um processo de cialmente estabelecido por uma situação objetiva, depois absorção passiva, mas de transformação, de síntese. Esse interpretado pelas pessoas que cercam a criança e a se- processo é, para Vygotsky, um dos principais mecanis- guir incorporado pela própria criança, a partir das inter- mos a serem compreendidos no estudo do ser pretações dos outros. É como se, ao longo de seu desenvolvimento, o indivi- duo "tomasse posse" das formas de comportamento for- Poderíamos explorar exemplo dado por Vygotsky imaginando um grupo cultural onde o gesto de apontar necidas pela cultura, num processo cm que as atividades não exista, ou melhor, não tenha nenhum significado es- externas e as funções interpessoais transformam-se em tabelecido. Neste caso hipotético, aquele movimento ori- atividades internas, intrapsicológicas. ginal da criança, de tentar pegar um objeto fora de seu O processo de desenvolvimento do ser humano, mar- Todas as funções no desenvolvi- alcance, nunca será interpretado, pelos adultos desse gru- cado por sua inserção cm determinado grupo cultural, mento da criança aparecem duas po, como um gesto de apontar; nunca será, portanto, in- 38 39ternalizado pela criança como tendo um significado que estabelece relações com as pessoas e, provavelmente, per- manecerá como um movimento que relaciona a criança com o objeto. As origens das funções psicológicas superiores devem do duo funcionamento buscadas, fundamento indivi- ser assim, nas relações sociais entre o os outros homens: para Vygotsky o psicológico tipicamente humano é cial relação todos instrumentos, mediadores sig- so- na portanto, Os elementos entre homem e o mundo nos e os elementos do ambiente humano larmente ções dos de significado homens. pelas particu- carrega- rela- cultural - são fornecidos entre os Os sistemas e Pensamento e a linguagem, exercem um papel fundamental pretações de comunicação significados dos permitem inter- real. na entre os indivíduos e no to compartilhados que linguagem 3 objetos, cventos e situações do mundo A linguagem, e suas relações com o funcionamento psi- cológico do homem, é o tema tratado no capítulo que se segue. 40 41N o capítulo 2 discutimos a importância do conccito o mundo da experiência vivida tem que ser extremamente de mediação simbólica para Vygotsky. Vimos que simplificado e generalizado para poder ser traduzido em os processos mentais superiores que caracterizam o pen- signos que possam ser transmitidos a outros. samento tipicamente humano ações conscientemente A palavra cachorro, por tem um significado controladas, atenção voluntária, memorização ativa, pen- preciso, compartilhado pelos usuários da língua portu- samento abstrato, intencional são pro- Independentemente dos cachorros concretos que cessos mediados por sistemas simbólicos. Como a lingua- um indivíduo conheça, ou do medo de cachorro que al- gem é o sistema simbólico básico de todos os grupos hu- guém possa ter, a palavra cachorro denomina um certo manos, a questão do desenvolvimento da linguagem conjunto de elementos do mundo O conceito de ca- suas relações com pensamento ocupa lugar central na chorro pode ser traduzido por essa palavra e será adequa- obra de Vygotsky. Um dos livros mais importantes damente compreendido por outras pessoas, mesmo que Vygotsky trabalha com duas funções básicas da lingua- de Vygotsky justamen- a experiência concreta delas com cachorros seja diferente gem. A principal função é a de intercâmbio social: é pa- Pensamento Nesse livro ele trata da e da do indivíduo que utilizou a palavra. ra se comunicar com seus semelhantes que o homem cria do processo de desenvolvimento É esse fenômeno que gera a segunda função da lin- e utiliza os sistemas de linguagem. Essa função de co- do pensamento e da linguagem guagem: a de pensamento generalizante. A linguagem municação com os outros é bem visível no bebê que está no ser humano, comparando suas começando a aprender a cle não ainda articu- posições com as de outros ordena real, agrupando todas as ocorrências de uma mes- ma classe de objetos, eventos, situações, sob uma mes- lar palavras, nem é capaz de compreender o significado principalmente ma categoria preciso das palavras utilizadas pelos adultos, mas conse- gue comunicar seus desejos e seus estados emocionais Ao chamar determinado objeto de cachorro estou, en- outros através de sons, gestos expressões. É a tão, classificando esse objeto na categoria "cachorro" e, portanto, agrupando-o com outros elementos da mesma de de comunicação que impulsiona, inicialmente, o de- categoria ao mesmo tempo, diferenciando-o de ele- senvolvimento da mentos de outras categorias. Um cachorro particular par- to de um conjunto abstrato de objetos que são todos mem- bros da mesma categoria distingue-se dos membros das categorias "mesa" "caminhão", etc. É essa função de pensamento generalizante que torna linguagem um instrumento de pensamento: a gem os conceitos e as formas de organização do real que constituem a mediação entre sujeito e o obje- to de conhecimento. A das relações entre pensamento linguagem é, pois, essencial para com- preensão do funcionamento psicológico do ser humano. DE O desenvolvimento do pensamento Para que a comunicação com outros indivíduos seja pos- de forma mais sofisticada, não basta, entretanto, que e da linguagem a pessoa manifeste, como o bebê, estados gerais como "desconforto" ou "prazer" É necessário que sejam uti- lizados signos, compreensíveis por outras pessoas, que tra- pensamento e a linguagem têm origens diferentes duzam idéias, sentimentos, vontades, pensamentos, de e desenvolvem-se segundo trajetórias diferentes e inde- forma bastante precisa. Como cada indivíduo vive sua ex- pendentes, antes que ocorra a estreita ligação entre esses periência pessoal de modo muito complexo e particular, dois fenômenos. Vygotsky trabalha com desenvolvimen- 42 43to da espécie humana e com desenvolvimento do indi- Ao mesmo tempo em que exibem essa forma de pen- víduo humano, buscando compreender a origem e a traje- tória desses dois samento pré-verbal, os animais também se utilizam de A evolução de uma espécie e cha. uma linguagem própria. Emitem sons e utilizam gestos Ao buscar compreender a história da espécie huma- mada filogênese € desenvolvi- e expressões faciais que têm a função de alívio emocio- na, Vygotsky nos estudos feitos com prima- mento de um chama nal constituem, simultaneamente, um meio de conta- tas superiores, principalmente com formas do Conforme será de funcionamento intelectual e formas de utilização de em mais detathe no to psicológico com os outros membros do grupo. Esse uso linguagem que poderiam ser tomadas como precursoras pítulo 4. Vygotsky da linguagem pré-intelectual no sentido de que ela não constantemente compreender tem ainda função de signo. Isto é, funciona como meio do pensamento e da linguagem no ser Consi- aspectos onto de expressão emocional de comunicação difusa com os derou esses processos como sendo a "fase pré-verbal do do desenvolvimento outros, mas não indica significados específicos, compreen- desenvolvimento do pensamento" a "fase pré-intelec- síveis de forma precisa por um interlocutor que compar- tual do desenvolvimento da "Na de um sistema de tilhe de um sistema de signos. Os animais são capazes de utilizar instrumentos como signos, ou não, Existe, assim, a trajetória do pensamento desvincula- mediadores entre eles e o ambiente para resolver deter- mente tipo de comunicação do da linguagem e a trajetória da linguagem indepen- minados problemas. Usam meios indiretos para conse- mais primitivo limitado torna- guir um certo objetivo, como nos experimentos já men- se possível. A comunicação por dente do pensamento. Num determinado momento do cionados, em que utilizam varas ou sobem meio de movimentos expressivos, desenvolvimento filogenético, essas duas trajetórias se observada principalmente entre unem e o pensamento se torna verbal e a linguagem ra- em caixotes para alcançar um alimento que está distan- é mais efusão cional. A associação entre pensamento e linguagem é atri- tc. Esse tipo de comportamento revela uma espécie de afetiva do que comunicação. Um buída à necessidade de intercâmbio dos indivíduos du- "inteligência onde existe capacidade de solu- ganso amedrontado, pressentin- ção de problemas e de alteração do ambiente para a ob- do subitamente algum perigo, ao rante o trabalho, atividade especificamente humana. alertar o bando inteiro com trabalho é uma atividade que exige, por um lado, a uti- tenção de determinados fins. Esse modo de funcionamen- gritos, não está informando aos lização de instrumentos para a transformação da nature- to intelectual é independente da linguagem, definindo outros aquilo que mas antes za e, por outro lado, o planejamento, a ação coletiva e, a chamada fase pré-verbal do desenvolvimento do pen- contagiando-os com (4). portanto, a comunicação social. Para agir coletivamente de formas cada vez mais sofisticadas, grupo humano teve de criar um sistema de comunicação que permitisse troca de informações específicas, e ação no mundo com base em significados compartilhados pelos vários duos empenhados no projeto coletivo. O surgimento do pensamento verbal e da linguagem como sistema de sig- nos é um momento crucial no desenvolvimento da espé- cie humana, momento em que biológico transforma- se no sócio-histórico. Ação coletiva em situação de em situação de balbo: intercâmbio, municação social. to e uso de instrumentos. 44 45Na evolução do indivíduo, observada desde seu nasci- Assim como no desenvolvimento da espécie mento, ocorre um processo semelhante descrito humana, num determinado momento do desenvolvimen- para a história da espécie. Antes de o pensamento e a to da criança (por volta dos dois anos de idade) o percur- linguagem se associarem, também, na criança so do pensamento encontra-se com o da linguagem quena, uma fase pré-verbal no desenvolvimento do pen- Essa fase do desenvol inicia-se uma nova forma de funcionamento psicológi- samento uma fase pré-intelectual no desenvolvimento vimento do pensamento pode ser a fala torna-se intelectual, com função ge- da linguagem. Antes de dominar a linguagem, a criança associada ao neralizante, e o pensamento torna-se verbal, mediado por demonstra capacidade de resolver problemas práticos. de motor descrito por Piaget, no significados dados pela linguagem. Enquanto no desen- utilizar instrumentos e meios indiretos para conseguir de- qual a ação da criança no mundo feita por meio de sensações e volvimento filogenético foi a necessidade de terminados objetivos. Ela é capaz, por exemplo, de su- movimentos. sem mediação de bio dos indivíduos durante o trabalho que impulsionou numa cadeira para alcançar um brinquedo, ou de dar representações a vinculação dos processos de pensamento e linguagem, a volta num sofá para pegar uma bolacha que caiu atrás na ontogênese esse impulso é dado pela própria inserção dele. De forma semelhante ao chimpanzé, a criança pré- da criança num grupo cultural. A interação com mem- verbal exibe essa espécie de inteligência prática, que per- bros mais maduros da cultura, que já dispõem de uma mite a ação no ambiente sem a mediação da linguagem. linguagem estruturada, é que provocar o salto quali- tativo para o pensamento verbal. Fase Pré-lingüística do Pensamento utilização de instrumentos inteligência prática Pensamento Verbal e Linguagem Racional transformação do biológico no sócio-histórico Fase Pré-intelectual da Linguagem alívio emocional função social Quando os processos de desenvolvimento do pensa- mento e da linguagem se unem, surgindo, então, o pen- samento verbal a linguagem racional, o ser humano passa a ter a possibilidade de um modo de funcionamento psicológico mais sofisticado, mediado pelo sistema sim- bólico da É importante mencionar que, pa- ra Vygotsky, o surgimento dessa possibilidade não elimina a presença da linguagem sem pensamento (como na lin- guagem puramente emocional ou na repetição automá- tica de frases decoradas, por exemplo), nem do pensamento sem linguagem (nas ações que requerem o uso da inteligência prática, do pensamento instrumen- Nessa fase de seu desenvolvimento. a criança, embora tal). Mas o pensamento verbal passa a predominar na ação não domine a linguagem enquanto sistema psicológica tipicamente humana. Por isso ele objeto pri- já utiliza manifestações verbais. O choro, o riso e o bal- vilegiado dos estudos de psicologia, onde os processos bucio da criança pequena têm clara função de alívio emo- mentais superiores interessam, particularmente, para a cional, mas também servem como meio de contato so- compreensão do funcionamento do homem enquanto ser cial, de comunicação difusa com outras pessoas. sócio-histórico. 46 47O significado das palavras tura, junção de duas peças de a seguir passou a designar, por analogia, qualquer espécie de junção: a junção de duas paredes, um canto, uma esquina. Meta- foricamente esse significado foi estendido, posteriormente, Na análise que Vygotsky faz das relações entre pensa- para crepúsculo, isto é, a junção do dia com a noite. mento linguagem, a questão do significado ocupa lu- A partir o período completo entre um crepúsculo e gar O significado é um componente essencial da outro, isto é, período de 24 horas que inclui dia e palavra ao mesmo tempo, um ato de pensamento, a noite, passou a ser chamado de sutki. pois o significado de uma palavra já em si, uma genc- ralização. Isto é, no significado da palavra é que o pen- SILVEIRA BUENO, (25) e (26). D Na língua portuguesa temos exemplos semelhantes. samento e a fala se unem em pensamento verbal. Ao di- A palavra mancebo (do latim mancipium) significava, ori- zer sapato, por exemplo, estou enunciando uma pala- ginalmente, Pelo fato de se preferirem escra- que tem um determinado significado. Esse significa- vos jovens, fortes, passou a significar "moço, jovem, for- do, além de possibilitar a comunicação entre usuários da te". Depois termo passou a designar amante, prova- língua, define um modo de organizar mundo real de velmente porque nas casas romanas muitas vezes os jo- forma que a alguns objetos (os sapatos) essa palavra se vens escravos passavam a amantes de suas senhoras. aplica e a outros (cadeiras, cachorros, etc.) essa palavra mancebia, designando concubinato, e o verbo amancebar- não se aplica. se. Mancebo também significa "cabide onde se pendu- É no significado que se encontra a unidade das duas ram roupas, chapéus, numa reminiscência do sig- funções básicas da linguagem: intercâmbio social e o nificado de escravo. A palavra boêmio designava habi- pensamento generalizante. São os significados que vão tante da Boêmia; como os ciganos vinham da Boêmia, propiciar a mediação simbólica entre indivíduo e mun- essa palavra passou a significar "errante, nômade, des- do real, constituindo-se no "filtro" através do qual in- regrado" divíduo é capaz de compreender o mundo e agir sobre De modo similar ao que acontece na história de uma ele. "O significado de uma palavra representa um amál- p. 104, (4). língua, transformação dos significados também ocorre gama tão estreito do pensamento e da linguagem, que no processo de aquisição da linguagem pela criança. O fica difícil dizer SC se trata de um fenômeno da fala ou sistema de relações e generalizações contido numa pala- de um fenômeno do pensamento. Uma palavra sem sig- vra muda ao longo do desenvolvimento. Ao aprender, nificado é um som vazio; o significado, portanto, é um por exemplo, palavra lua, a criança pequena pode aplicar critério da seu componente indispensável. Pa- inicialmente essa palavra não só à própria lua, como a receria, então, que o significado poderia ser visto como abajures, lustres, lanternas e outros focos de luz visíveis um fenômeno da fala. Mas, do ponto de vista da psico- à noite ou em ambientes escuros. Por outro lado, pode logia, significado de cada palavra é uma generalização pensar que Nescau refere-se apenas ao leite morno com ou um conceito. E como as generalizações e os conceitos chocolate que sempre toma, não aceitando essa designa- são inegavelmente atos de pensamento, podemos consi- ção, por exemplo, para leite gelado com chocolate. Ao o significado como um fenômeno do pensamento." tomar posse dos significados expressos pela linguagem, Como os significados são construídos ao longo da his- a criança os aplica a seu universo de conhecimentos so- tória dos grupos humanos, com base nas relações dos ho- bre o mundo, a seu modo particular de mens com o mundo físico e social em que vivem, eles experiência. Ao longo de seu desenvolvimento, marca- estão em constante transformação. No desenvolvimento do pela interação verbal com adultos e crianças mais ve- de uma língua, os significados não são, pois, lhas, a criança vai ajustando seus significados de modo um nome nasco para designar um determinado concei- a aproximá-los cada vez mais dos conceitos predominan- to, e vai sofrendo modificações, refinamentos, acréscimos. tes no grupo cultural e de que faz parte. Um exemplo da língua russa, mencionado por Vygotsky, Esse processo de transformação de significados ocorre é muito apropriado para ilustrar esse A pala- de forma muito clara nas fases iniciais da aquisição da sutki significa "dia-e-noite", isto é, um período de linguagem, quando tanto vocabulário da criança quanto 24 horas. Originalmente, essa palavra significava seu conhecimento sobre mundo concreto em que vive 48 49crescem muito rapidamente a partir de sua experiência pessoal Mas os significados continuam a ser Relaciona-se com o fato de que a experiência individual dos durante todo o desenvolvimento do indivíduo, ga- é sempre mais complexa do que a generalização contida contornos peculiares quando se inicia o processo nos signos. de aprendizagem escolar. Então se realiza a intervenção deliberada do educador na formação da estrutura con- ceitual das crianças e As transformações significado ocorrem não mais apenas a partir da cia vivida, mas, principalmente, a partir de definições, O discurso interior e a fala egocêntrica referências e ordenações de diferentes sistemas mediadas pelo conhecimento já consolidado na cultura. Assim, a criança que aprendeu a distinguir a lua da Conforme vimos no início deste capítulo, a função luz do abajur e da lanterna vai, agora, aprender que a generalizante da linguagem que a torna um instrumen- lua é um satélite, que gira em torno da Terra, que satéli- to do Ao se utilizar da linguagem o ser hu- te um tipo de astro diferente de planetas e estrelas, etc. mano é capaz de de uma forma que não seria pos- Novamente significado da palavra sível se ela não a generalização e a abstração só tornando-se cada vez mais próximo dos conceitos esta- se dão pela linguagem. belecidos na cultura. No caso específico do conhecimen- to escolar, o referencial privilegiado dos sistemas concei- Mas uso da linguagem como instrumento de pensa- tuais é saber acumulado nas diferentes disciplinas cien- mento supõe um processo de internalização da lingua- tíficas. Em seu livro Pensamento e lin- gem. Isto é, não é apenas por falar com as outras pessoas guagem Vygotsky trabalha deta- que indivíduo dá um salto qualitativo para pensa- A idéia da transformação dos significados das palavras com a questão da mento verbal. Ele também desenvolve, gradualmente, está relacionada a um outro aspecto da questão do signi- formação de conceitos na criança, chamado "discurso interior" que uma forma interna ficado. Vygotsky distingue dois componentes do signifi- situação escolar como de linguagem, dirigida ao próprio sujeito e não a um in- cado da palavra: o significado propriamente dito o "sen- terlocutor externo. É um discurso sem vocalização, vol- tido" O significado propriamente dito refere-se ao sis- tado para pensamento, com função de auxiliar o in- tema de relações objetivas que formou no processo de divíduo nas suas operações psicológicas. Diante do pro- da palavra, consistindo num núcleo re- blema de como chegar de carro a um determinado local lativamente estável de compreensão da palavra, compar- por exemplo, uma pessoa "delibera" internamente qual tilhado por todas as pessoas que a O sentido. melhor caminho, levando em conta a conveniência dos por sua vez, refere-se ao significado da palavra para cada vários percursos possíveis, o trânsito horário, etc. composto por relações que dizem respeito ao Embora apoiando-se em raciocínios, referências deci- contexto de uso da palavra e às vivências afetivas do in- de caráter verbal, a pessoa não fala alto, não conver- divíduo. sa com ninguém. Realiza, isto sim, o discurso A palavra carro, por exemplo, tem o significado obje- que é uma espécie de diálogo consigo mesma. tivo de de quatro rodas, movido a combusti- Justamente por ser um diálogo consigo próprio, dis- utilizado para o transporte de O sentido curso interior tem uma estrutura peculiar, diferenciando- da palavra carro, entretanto, variará conforme a pessoa se da fala exterior. Como não é feito para comunicação que a utiliza e o contexto em que é aplicada. Para mo- com outros, constitui uma espécie de "dialeto torista de táxi significa um instrumento de trabalho; pa- É fragmentado, abreviado, contendo quase só núcleos de ra adolescente que gosta de dirigir podo significar for- significado e não todas as palavras usadas num diálogo ma de lazer; para um pedestre que já foi atropelado o com outros. No exemplo de um diálogo interior para a carro tem um sentido ameaçador, que lembra uma situa- escolha de um bom percurso de carro, o formato desse ção e assim por diante. sentido da pala- discurso seria algo como vra liga seu significado objetivo ao contexto de uso da gos" e não a fala completa "Eu you entrar à direita na língua e aos motivos afetivos e pessoais de seus usuários. Avenida Brasil, seguir até o obelisco, fazer contorno, pegar aquela rua que sobe chegar até a Domingos de 50 51Moraes" Essa versão completa seria redundante demais É interessante mencionar que a questão da fala ego- para um diálogo do sujcito consigo mesmo. cêntrica é ponto mais explícito de divergência entre Vygotsky postula para o processo de desenvolvimento Vygotsky e Piaget. Para Piaget a função da fala do pensamento da linguagem a mesma trajetória das trica exatamente oposta proposta por Vygotsky: outras funções psicológicas. O percurso é da atividade cla seria uma transição entre estados mentais individuais cial, para a atividade individualizada, in- não verbais, de um lado, discurso socializado e pen- A criança primeiramente utiliza a fala socia- samento lógico, de outro. Piaget postula uma trajetória lizada, com a função de comunicar, de manter um con- "de dentro para enquanto Vygotsky considera que tato social. Com o desenvolvimento é que ela passa a ser o percurso é "de fora para dentro" do indivíduo. O dis- capaz de utilizar a linguagem como instrumento de pen- curso egocêntrico é, portanto, tomado como transição en- samento, com a função de adaptação pessoal. Isto a tre processos diferentes para cada um desses teóricos. Es- internalização do discurso é um processo gradual, que se sa divergência discutida detalhadamente por Vygotsky completará em fases mais avançadas da aquisição da lin- no livro Pensamento e linguagem, publicado na URSS em 1934, e retomada por Piaget no texto escrito no No estudo da transição entre o discurso socializado e cio dos anos 60 e publicado como apêndice da edição discurso interior, Vygotsky recorre à "fala egocêntri- Fala egocêntrica on discurso Piaget (1896-1980) desse livro. ca" como um fenômeno relevante para a compreensão centrico discurso da criança dessa transição. quando dialoga also consigo Conforme discutimos anteriormente, a função inicial pria, quando (ou Trecho da resposta de Piaget aos comentários "pensa Isso acontece fre- da linguagem é a comunicação social. O bebê, membro de Vygotsky sobre sua obra, (21). com crianças por imaturo de um determinado grupo cultural, vai passar volta dos três quatro anos de sem tristeza que um autor descobre, "[...] enquanto livro de Vygotsky apare- por um processo de aquisição da linguagem que já existe idade. Ao querer um brinquedo 25 anos depois de sua publicação, a obra de um ceu em 1934, meus trabalhos que são por ele dis- no seu ambiente enquanto sistema compartilhado pelos que está fora de seu por colega, morto nesse interim, sobretudo se levado cutidos datam de 1923 e 1924. Pensando de que uma criança poderia membros desso grupo Nas fases iniciais da aqui- em consideração fato de que ela tantos forma poderia realizar esta discussão retros- zer para si sição da linguagem a criança se utiliza, então, da lingua- pontos de interesse imediato para que pectiva, encontrei uma solução ao mesmo tem- aquele banquinho e subir nele riam ter sido discutidos pessoalmente em po simples e instrutiva (pelo menos para mim), gem externa disponível no seu meio, com a função de ele muito A Embora men amigo A. Luria me livesse ou seja, procurar ver se as críticas de Vygotsky comunicar. deira pegar informado sobre a posição ao mesmo tempo sim- justificam-se a luz de meus trabalhos posterio- cadeira Num cerro momento do a criança patizante e de Vygotsky a respeito de res. A resposta tanto afirmativa como negati- passa a se utilizar da linguagem egocêntrica, falando al- nunca pude ler seus textos va: a respeito de determinados aspectos estou me com pessoalmente; e hoje, ao ler seu li. mais do acordo com do que teria esta- to para si mesma, independentemente da presença de um vro, lamento-o profundamente, porque se do em 1934 a respeito de outros pontos interlocutor. A fala egocêntrica acompanha a atividade se sido possível ter dito que possuo, hoje, argumentos da criança, começando a ter uma função pessoal, ligada chegado a nos entender sobre diversos pontos. bara the responder. às necessidades do pensamento. É utilizada como apoio 20 planejamento de a serem seguidas, como auxiliar na solução de problemas. Para Vygotsky, sur- gimento da fala egocêntrica, com essa função claramen- O desenvolvimento da linguagem e suas relações com te associada ao pensamento, indica que a trajetória da pensamento são, como acabamos de ver, questões cen- criança vai, de fato, dos processos socializados para os pro- trais na obra de Vygotsky e são por ele abordadas de for- cessos internos. Isto ao tomar posse da linguagem, ini- ma complexa e multifacetada. Os diversos aspectos de sua cialmente utilizada apenas com a função de comunica- discussão sobre essas questões podem ser sintetizados em ção, a criança passa a ser capaz de utilizá-la como instru- 108, (4). suas próprias palavras: "[...] a relação entre o pensamento mento (interno, intrapsíquico) de pensamento. Como esse e a palavra não é uma coisa mas um processo, um movi- processo é gradual, a fala egocêntrica aparece como um mento contínuo de vaivém do pensamento para a pala- procedimento de transição, no qual o discurso já tem a vra, e vice-versa. Nesse processo, a relação entre o pensa- função que terá como discurso interior, mas ainda tem mento e a palavra passa por transformações que; em si a forma da fala socializada, externa. mesmas, podem ser consideradas um desenvolvimento no 52 53sentido funcional. O pensamento não é simplesmente ex- presso em palavras; é por meio delas que ele passa a exis- Cada pensamento tende a relacionar alguma coisa com a estabelecer uma relação entre as coisas. Cada pen- samento se move, e se desenvolve, desempe- nha uma função, soluciona um Esse fluxo de pensamento corre como um movimento interior através de uma série de planos. Uma análise da interação do pen- samento e da palavra deve começar com uma investiga- ção das fases dos planos diferentes que um pensamen- to percorre antes de ser expresso em palavras. Desenvolvimento e "A primeira coisa que esse estudo revela é a necessi- dade de se fazer uma distinção entre os dois planos da fala. Tanto o aspecto interior da fala - semântico e sig- nificativo - quanto o exterior - fonético embora aprendizado formem uma verdadeira unidade, têm as suas próprias leis de movimento. A unidade da fala é uma unidade complexa, e não homogênea.' 54 55desenvolvimento humano, aprendizado e as rela- víduo que permitiam a aquisição da leitura e da ções entre desenvolvimento e aprendizado são temas Confirmando o mesmo fenômeno, podemos supor que centrais nos trabalhos de Vygotsky. Sua preocupação com esse indivíduo, por alguma razão, deixasse seu grupo o desenvolvimento do homem está presente em toda sua de origem e passasse a viver num ambiente letrado, po- obra, como ficou evidente nos capítulos anteriores. deria ser submetido a um processo de alfabetização e seu desenvolvimento seria alterado. Vygotsky busca compreender a origem e desenvolvimen- to dos processos psicológicos ao longo da história da es- humana e da história individual. Esse tipo de abor- Aprendizado ou aprendizagem dagem, que enfatiza processo de desenvolvimento, chamado de abordagem genética e é comum a outras teo- A expressão neste ca- É processo pelo qual o indivíduo adquire em russo (obuchenie) significa algo como "pro- rias psicológicas. so, não se refere a não informações, habilidades, atitudes, valores, etc. cesso de incluindo sem- do relação nenhuma com ramo a partir de seu contato com a realidade, meio pre aquele que aprende, aquele que ensina e a As teorias de Jean Piaget e de Henri Wallon são as mais da biologia que estuda a as outras É um processo que relação entre essas pessoas. Pela falta de completas e articuladas teorias genéticas do desenvolvi- missão dos caracteres se diferencia dos fatores inatos (a capacidade de mo equivalente a palavra obuchenie mento psicológico de que dispomos. Diferentemente des- Refere-se, isto sim, à gênese digestão, por que nasce com in- tem sido traduzida ora como ensino, ora como ses dois estudiosos, Vygotsky não chegou a formular uma e processo de formação a e dos processos de maturação do orga- aprendizagem e assim re-traduzida para partir dessa origem, constituição, nismo, independentes da informação do Optamos aqui pelo uso da palavra apren- concepção estruturada do desenvolvimento humano, a geração de um ser ou de um fe. ambiente (a maturação sexual, por exemplo). Em dizado, menor comum que aprendizagem. para partir da qual pudéssemos interpretar processo de cons- nômeno. Essa distinção extre- justamente por sua nos proces. auxiliar o leitor a lembrar-se de que conceito trução psicológica do nascimento até a idade adulta. Ain- mamente importante: uma a idéia de aprendizado in- em Vygotsky tem um significado mais abrangen- da que o desenvolvimento (da espécie, dos grupos cul- dagem em psicologia clui a dos sempre envolvendo interação turais, dos indivíduos) scja objeto privilegiado de suas não é uma abordagem centrada envolvidos no processo. termo que ele utiliza na transmissão de ca- investigações, Vygotsky não nos oferece uma interpreta- psicológicas, mas no ção completa do percurso psicológico do ser humano; processo de construção dos oferece-nos, isto sim, reflexões e dados de pesquisa so- Pensando numa suposição mais extrema, uma criança menos psicológicos ao longo do bre vários aspectos do desenvolvimento, os quais serão desenvolvimento normal que crescesse num ambiente exclusivamente for- ao longo do presente capítulo. mado por surdos-mudos não desenvolveria a linguagem oral, mesmo que tivesse todos os requisitos inatos neces- Ao lado de sua constante com a questão sários para isso. Fenômeno semelhante ocorre com os vá- do desenvolvimento, Vygotsky enfatiza, em sua obra, a rios casos das chamadas "crianças selvagens", que são importância dos processos de aprendizado. Para ele, desde crianças encontradas em isolamento, sem contato com ou- o nascimento da criança, o aprendizado está relacionado tros scres humanos. Mesmo em idade superior à idade ao desenvolvimento "um aspecto necessário universal 101, (2). normal para a aquisição da linguagem, não haviam apren- do processo de desenvolvimento das funções psicológi- dido a falar. O desenvolvimento fica impedido de ocor- cas culturalmente organizadas e especificamente huma- rer na falta de situações propícias aprendizado. nas" Existe um percurso de desenvolvimento, em parte definido pelo processo de maturação do organismo indi- vidual, pertencente à espécie humana, mas é o aprendi- zado que possibilita despertar de processos internos de desenvolvimento que, não fosse o contato do indivíduo com certo ambiente cultural, não ocorreriam. Podemos pensar, por exemplo, num indivíduo que vive num grupo cultural isolado que não dispõe de um siste- ma de escrita. Se continuar isolado nesse meio cultural que desconhece a escrita, esse indivíduo jamais será alfa- betizado. Isto é, só o processo de aprendizado da leitura ser humano cresce num e da escrita (desencadeado num determinado ambiente biente social a interação com sócio-cultural onde isso seja possível) é que poderia des- outras pessoas essencial a scu pertar os processos de desenvolvimento internos do indi- 56 57Essa concepção de que é o aprendizado que possibili- res com cubos de diversos tamanhos, por exemplo, pes- ta de processos internos do indivíduo liga quisador não vai considerar que uma criança já sabe cons- da pessoa a sua relação com o ambien- a torre se ela conseguir apenas porque te sócio-cultural em que vive e a sua situação de organis- um colega de classe a ajudou. Para ser considerada como mo que não se desenvolve plenamento sem o suporto de possuidora de certa capacidade, a criança tem que de- outros indivíduos de sua espécie. E essa importância que monstrar que pode cumprir a tarefa sem nenhum tipo de ajuda. Vygotsky dá ao papel do outro social no desenvolvimen- to dos indivíduos cristaliza-se na formulação de um con- Vygotsky denomina essa capacidade de realizar tare- ceito específico dentro de sua teoria, essencial para a com- fas de forma independente de nível de desenvolvimento preensão de suas idéias sobre as relações entre desenvol- real. Para ele, nível de real da criança vimento e aprendizado: o conceito de zona de desenvol- caracteriza o desenvolvimento de forma retrospectiva, ou vimento seja, refere-se a etapas já alcançadas, já conquistadas pe- la criança. As funções psicológicas que fazem parte do nível de desenvolvimento real da criança em determina- do momento de sua vida são aquelas já bem estabeleci- das naquele momento. São resultado de processos de de- senvolvimento já completados, já consolidados. O conceito de zona de desenvolvimento Vygotsky chama a atenção para o fato de que para com- proximal A expressão de preender adequadamente desenvolvimento devemos vimento proximal" aparece, vezes, nas traduções para lingua considerar não apenas nível de desenvolvimento real portuguesa, como de de- da criança, mas também seu nível de desenvolvimento Normalmente, quando nos referimos ao desenvolvi- senvolvimento potencial, isto sua capacidade de desempenhar tarefas mento de uma criança, o que buscamos compreender é com a ajuda de adultos ou de companheiros mais capa- onde a criança já chegou" em termos de um per- zes. Há tarefas que uma criança não é capaz de realizar curso que, supomos, será percorrido por ela. Assim, ob- sozinha, mas que se torna capaz de realizar se alguém servamos seu desempenho diferentes tarefas e ativi- lhe der instruções, fizer uma demonstração, fornecer pis- dades, como por exemplo: já sabe andar? Já sabe amar- tas, ou der assistência durante o processo. No caso da cons- rar sapatos? Já sabe construir uma torre com cubos di- trução da torre de cubos, por exemplo, se um adulto der versos tamanhos? Quando dizemos que a criança já sabe instruções para a criança ("Você tem que ir pondo pri- realizar determinada tarefa, referimo-nos à sua capaci- meiro cubo maior de todos, depois os menores" ou dade de sozinha. Por exemplo, se observamos "Tem que fazer de um jeito que a torre não caia") ou que a criança sabe amarrar sapatos", está implícita se ela observar uma criança mais velha construindo uma a idéia de que ela sabe amarrar sapatos sozinha, sem torre a seu lado, é possível que consiga um resultado mais cessitar da ajuda de outras pessoas. avançado do que aquele que conseguiria se realizasse a Esse modo de avaliar o desenvolvimento de um indi- tarefa sozinha. víduo está presente nas situações da vida diária, quando Essa possibilidade de alteração no desempenho de uma observamos as crianças que nos rodeiam, e também cor- pessoa pela interferência de outra é fundamental na teo- responde à maneira mais comumente utilizada em pes- ria de Vygotsky. Em primeiro lugar porque representa, quisas sobre o desenvolvimento infantil. O pesquisador de fato, um momento do desenvolvimento: não é qual- seleciona algumas que considera importantes pa- quer indivíduo que pode, a partir da ajuda de outro, rea- ra o estudo do da criança e observa que coi- lizar qualquer tarefa. Isto a capacidade de se benefi- sas cla já é capaz de fazer. Geralmente nas pesquisas existe ciar de uma colaboração de outra pessoa vai ocorrer num um cuidado especial para que se considere apenas as con- certo nível de desenvolvimento, mas não antes. Uma quistas que já estão consolidadas na criança, aquelas ca- criança de cinco anos, por exemplo, pode ser capaz de pacidades ou funções que a criança já domina completa- construir a torre de cubos sozinha; uma de três anos não mente e de forma independente, sem ajuda de ou- consegue construí-la sozinha, mas pode conseguir com tras pessoas. Numa pesquisa sobre a montagem de tor- 59 58a assistência de alguém; uma criança de um ano não con- O papel da intervenção pedagógica seguiria realizar essa tarefa, nem mesmo com ajuda. Uma criança que ainda não sabe andar sozinha só vai conse- guir andar com a ajuda de um adulto que a segure pelas A concepção de Vygotsky sobre as relações entre de- mãos a partir de um determinado nível de desenvolvi- senvolvimento aprendizado, sobre a mento. Aos três meses de idade, por exemplo, ela não zona de desenvolvimento proximal, estabelece forte é capaz de andar nem com ajuda. A idéia de nível de gação entre o processo de desenvolvimento e a relação do desenvolvimento potencial capta, assim. um momento indivíduo com seu ambiente sócio-cultural e com sua si- do que caracteriza não as etapas já al- tuação de organismo que não se desenvolve plenamente cançadas, já consolidadas, mas etapas posteriores, nas sem suporte de outros indivíduos de sua espécie. É na quais a interferência de outras pessoas afeta significati- zona de proximal que a interferência vamente o resultado da ação individual. de outros indivíduos é a mais transformadora. Processos Em segundo lugar essa idéia é fundamental na teoria já consolidados, por um lado, não necessitam da ação ex- terna para screm processos ainda nem ini- de Vygotsky porque ele atribui importância extrema à in- teração social no processo de construção das funções psi- ciados, por outro lado, não se beneficiam dessa ação ex- cológicas humanas. O individual se dá terna. Para uma criança que já sabe amarrar sapatos, por num ambiente social determinado a relação com o ou- exemplo, o dessa habilidade seria completamen- nas diversas esferas e níveis da atividade humana, é to sem efeito; para um por outro lado, a ação de essencial para processo de construção do ser psicológi- um adulto que tenta ensiná-lo a amarrar sapatos é tam- CO individual sem efeito, pelo fato de que essa habilidade está mui- to distante do horizonte de desenvolvimento de suas fun- É a partir da postulação da existência desses dois ní- ções psicológicas. Só se beneficiaria do auxílio na tarefa veis de desenvolvimento real potencial que de amarrar sapatos a criança que ainda não aprendeu bem Vygotsky define a zona de desenvolvimento proximal a mas já desencadeou processo de desenvolvi- mo "a distância entre nível de desenvolvimento real, (2) mento dessa habilidade. que SC costuma determinar através da solução indepen- dente de problemas, o nível de desenvolvimento po- tencial, determinado através da solução de problemas sob a orientação de um adulto ou em colaboração com com- panheiros mais capazes'' A zona de desenvolvimento proximal refere-se, assim, ao caminho que o indivíduo vai percorrer para desenvol- ver funções que estão em processo de amadurecimento e que tornarão funções consolidadas, estabelecidas no seu nível de desenvolvimento real. A zona de desenvol- vimento proximal pois, um domínio psicológico cm constante aquilo que uma criança é ca- paz de fazer com a ajuda de alguém hoje, ela conseguirá "A zona de desenvolvimento Nas sociedades letradas a escola fazer sozinha amanhã. É como se o processo de desenvol- proximal define aquelas funções tem papel central no desenvolvi- vimento progredisse mais lentamente que o processo de que ainda não mento das mas que estão em processo de aprendizado; aprendizado desperta processos de desen- maturação, funções que volvimento que, aos poucos, vão tornar-se parte das fun- recerão, mas que estão presente- ções psicológicas consolidadas do indivíduo. Interferin- mente em estado A implicação dessa concepção de Vygotsky para en- do constantemente na zona de desenvolvimento proxi- Essas funções poderiam ser cha- sino escolar é imediata. Se aprendizado impulsiona madas de "brotos" "flores' mal das crianças, os adultos e as crianças mais experien- desenvolvimento, então escola tem um papel essencial do ao inves de tes para movimentar os processos de desen- na construção do ser psicológico adulto dos indivíduos frutos do desenvolvimento" volvimento dos membros imaturos da cultura. VYGOTSKY, 97, (2). que vivem em sociedades escolarizadas. Mas desempe- 61 60nho desse papel só se dará adequadamente quando, co- temente, a uma postura que propõe que nhecendo nível de desenvolvimento dos alunos, a es- a criança deve ser deixada livre em sua interação com os cola dirigir ensino não para etapas intelectuais já al- estímulos do mundo físico para que possa amadurecer, cançadas, mas sim para estágios de desenvolvimento ainda em seu desenvolvimento natural, uma não incorporados pelos alunos, funcionando realmente compreensão superficial de Vygotsky poderia levar exa- como um motor de novas conquistas psicológicas. Para tamente ao oposto: uma postura diretiva, intervencionista, a criança que frequenta a escola, o aprendizado escolar uma volta à "educação Embora Vygotsky elemento central no seu enfatize papel da intervenção no seu O processo de ensino-aprendizado na escola deve ser objetivo é trabalhar com a importância do meio cultural construído, então, tomando como ponto de partida o ní- e das relações entre indivíduos na definição de um per- vel de desenvolvimento real da criança num dado mo- curso de desenvolvimento da pessoa humana, e não pro- mento e com relação a um determinado conteúdo a ser por uma pedagogia diretiva, Nem seria pos- desenvolvido e como ponto de chegada os objetivos sível supor, a partir de Vygotsky, um papel de receptor estabelecidos pela escola, supostamente adequados à faixa passivo para educando: Vygotsky trabalha explícita e etária e ao de conhecimentos e habilidades de cada constantemente com a idéia de reconstrução, de reela- grupo de crianças. O percurso a ser seguido nesse proces- boração, por parte do indivíduo, dos significados que lhe so estará balizado também pelas possibilidades das crian- são transmitidos pelo grupo cultural. A consciência in- ças, isto c, pelo seu nível de desenvolvimento dividual e os aspectos subjetivos que constituem cada pes- Será muito diferente ensinar, por exemplo, a distinção soa são, para Vygotsky, elementos essenciais no desen- entre aves e mamíferos para crianças que vivem na zona volvimento da psicologia humana, dos processos psico- rural, em contato diteto constante com animais, para lógicos superiores. A constante recriação da cultura por crianças que vivem em cidades e conhecem animais por parte de cada um dos seus membros é a base do processo vias muito mais indiretas. Mas nos dois casos a escola tem histórico, sempre em transformação, das sociedades papel de fazer a criança sua compreensão do mundo a partir de desenvolvimento já consolida- Ligado aos procedimentos escolares, mas não restrito do e tendo como meta posteriores, ainda não al- à situação escolar, está o mecanismo de imitação, desta- cançadas. Imitação, para Vygotsky. cado explicitamente por Vygotsky. Imitação, para ele, não Como na escola aprendizado um resultado desejá- mera cópia de um modelo, mas reconstrução individual vel, é o próprio objetivo do processo escolar, a daquilo que observado nos outros. Essa reconstrução ção um processo pedagógico privilegiado. O professor é balizada pelas possibilidades psicológicas da criança que tem o papel explícito de interferir na zona de desenvol- realiza a imitação e constitui, para ela, criação de algo vimento proximal dos alunos, provocando avanços que novo a partir do que observa no outro. Vygotsky não to- não ocorreriam único bom ensino, ma a atividade imitativa, portanto, como um processo afirma Vygotsky, é aquele que se adianta ao desenvolvi- mecânico, mas sim como uma oportunidade de a crian- Os procedimentos regulares que ocorrem na es- ça realizar ações que estão além de suas próprias capaci- cola demonstração, assistência, fornecimento de pis- dades, o que contribuiria para seu Ao tas, instruções são fundamentais na promoção do imitar a escrita do adulto, por exemplo, a criança está "bom ensino" Isto a criança não tem de promovendo amadurecimento de processos de desen- percorrer, sozinha, o caminho do aprendizado. A inter- volvimento que a levarão ao aprendizado da escrita. venção de outras pessoas que, no caso específico da A noção de zona de desenvolvimento proximal é fun- escola, são o professor e as demais crianças é funda- damental nessa questão: só é possível a imitação de ações mental para a promoção do desenvolvimento do in- que estão dentro da zona de desenvolvimento proximal divíduo. do sujeito. Um bebê de dez meses pode imitar expres- sões faciais ou gestos, por exemplo, mas seu nível de de- É importante destacar, aqui, risco de uma interpre- senvolvimento não lhe permite imitar papel de tação distorcida da posição de Vygotsky. Se uma inter- dico" ou de ou a escrita do A imi- pretação leviana das posições de Piaget levou, frequen- tação poderia ser utilizada deliberadamente em situações 62 63de ensino-aprendizado como forma de permitir a elabo- dores interagiam com seus sujeitos de pesquisa para pro- ração de uma função psicológica no nível interpsíquico vocar transformações em seu comportamento que fossem (isto é, em atividades coletivas, sociais) para que mais tarde importantes para compreender processos de desenvolvi- essa função pudesse ser internalizada como atividade in- mento. Ao invés de apenas como observadores trapsicológica (isto é, interna ao próprio da atividade psicológica, agiam como elementos ativos Com relação à atividade escolar, interessanto desta- numa situação de interação social, utilizando a interven- car que a interação entre os alunos também provoca in- de pesquisa em ção como forma de criar material de pesquisa relevante. tervenções no desenvolvimento das crianças. Os grupos similar ao Essa intervenção do pesquisador é feita no sentido de de- de crianças são heterogêneos quanto ao conheci- nico investigador do sujeito, de questionar suas respostas, para obser- tempo deixa fluir o de mento já adquirido nas diversas áreas e uma criança mais sempenho do sujeito. apri- como a interferência de outra pessoa afeta seu avançada num determinado assunto pode contribuir pa- numa situação experi- penho sobretudo, para observar processos psico- ra o desenvolvimento das outras. Assim como o adulto, mental muito in. lógicos em transformação e não apenas os resultados de uma criança também pode funcionar como mediadora terfere com perguntas seu desempenho. Criança imitando gesto de entre uma outra criança e às ações e significados estabe- de tarefas para provocar relevantes por parte do Esse procedimento de pesquisa é bastante diferente da- lecidos como relevantes no interior da cultura. sujeito. quele em que o pesquisador é apenas um observador pas- Essa posição explícita de Vygotsky, sobre a importân- sivo do sujcito. Em termos da pesquisa educacional con- cia da intervenção do professor e das próprias crianças no podemos fazer uma ligação desses procedi- desenvolvimento de cada indivíduo envolvido na situa- mentos com a pcsquisa-intervenção ou ção escolar, sugere uma recolocação da questão de quais pesquisa-participante na situação escolar. O pesquisador, são as modalidades de interação que podem ser conside- nessas modalidades de pesquisa, como elemento radas legítimas promotoras de aprendizado na escola. Se que faz parte da situação que está sendo estudada, não o professor dá uma tarefa individual aos alunos em sala pretendendo ter uma posição de observador neutro. Sua de aula. por exemplo, a troca de informações e de estra- ação no ambiente e os efeitos dessa ação são, tégias entre as crianças não deve set considerada como pro- material relevante para a pesquisa. Como a situação es- cedimento errado, pois pode tornar a um projeto colar um processo permanentemente em coletivo produtivo para cada criança. Do transformação justamento resultado desejável desse mesmo modo, quando um aluno recorre ao professor (ou processo, métodos de pesquisa que permitam captar trans- aos pais, cm casa) como fonte de informação para ajudá- formações são os métodos mais adequados para a pesquisa lo a resolver algum tipo de problema escolar, não está A contribuição de Vygotsky nesso aspecto burlando as regras do aprendizado mas, ao contrário, extremamente relevante. de recursos legítimos para promover seu pró- prio desenvolvimento É interessante observar que, em situações informais de aprendizado, as crianças costumam utilizar as interações Brinquedo e desenvolvimento sociais como forma privilegiada de acesso à informação: aprendem regras dos jogos, por exemplo, através dos ou- tros e não como resultado de um empenho estritamente Vimos, anteriormente, como Vygotsky trabalha com individual na solução de um problema. Qualquer mo- a idéia de que na situação escolar a intervenção na zona dalidade de interação social, quando integrada num con- de desenvolvimento proximal das crianças se dá de for- texto realmente voltado para a promoção do aprendiza- ma constante e deliberada. A situação escolar é bastante do e do poderia ser utilizada, portan- estruturada e explicitamente comprometida com a pro- to, de forma produtiva na situação escolar moção de processos de aprendizado e desenvolvimento. A postura de Vygotsky, no que diz respeito à inter- Vygotsky trabalha também com um outro domínio da venção de um indivíduo no desenvolvimento do outro. atividade infantil que tem claras relações com o desen- tem para seu próprio procedimento de pcs- volvimento: o brinquedo. Comparada com a situação es- quisa. Muito Vygotsky e seus colabora- colar, a situação de brincadeira parece pouco estrutura- 64 65da e sem uma função explícita na promoção de processos Mas além de ser uma situação imaginária, brinque- de desenvolvimento. No entanto, o brinquedo também do é também uma atividade regida por regras. Mesmo cria uma zona de desenvolvimento proximal na criança, no universo do "faz-de-conta" há regras que devem ser tendo enorme influência em seu desenvolvimento, con- seguidas. Numa brincadeira de "escolinha", por exem- forme veremos a seguir. plo, tem que haver alunos e uma professora, e as ativi- dades a serem desenvolvidas têm uma correspondência Quando Vygotsky discute papel do brinquedo, refere- SC especificamente à de A brincadeira de pré-estabelecida com aqueles ocorrem numa escola mo brincar de casinha, brincar de escolinha, brincar com estudada por Vygotsky correspon- real. Não é qualquer comportamento, portanto, que é um cabo de vassoura como se fosse um cavalo. Faz refe- de ao jogo estudado aceitável no âmbito de uma dada brincadeira. rência a outros tipos de brinquedo, mas a brincadeira de por São justamente as regras da brincadeira que fazem com "faz-de-conta" é privilegiada em sua discussão sobre o que a criança se comporte de forma mais avançada do papel do brinquedo no desenvolvimento. que aquela habitual para sua idade. Ao brincar de ôni- O comportamento das crianças pequenas é fortemen- bus, por exemplo, exerce o papel de motorista. Para isso te determinado pelas características das situações tem que tomar como modelo os motoristas reais que co- tas em que elas se encontram. Conforme discutido cm extrair deles um significado mais geral e abstra- capítulos anteriores, só quando adquirem a linguagem to para a categoria Pata brincar conforme e passam, portanto, a ser capazes de utilizar a represen- as regras, tem que esforçar-se para exibir um comporta- mento semelhante 20 do motorista, o que a impulsiona tação simbólica, é que as crianças vão ter condições de libertar seu funcionamento psicológico dos elementos con- para além de seu comportamento como criança. Vygotsky menciona um exemplo extremo, em que duas irmãs, de cretamente presentes no momento atual. Vygotsky exem- p. (2). cinco e sete anos, decidiram brincar "de Ence- plifica a importância das situações concretas e a fusão que a criança pequena faz entre os elementos percebidos nando a própria realidade, elas tentavam exibir o com- significado: "quando se pede a uma criança de dois anos portamento típico de trabalhando de forma deli- berada sobre as regras das relações entre O que que repita a sentença está de quando Tania na vida real é natural e passa despercebido, na brinca- está à sua frente, ela mudará a frase para está Ela não capaz de operar com um signi- deira torna-se regra e contribui para que a criança enten- ficado contraditório à informação perceptual presente. da universo particular dos diversos papéis que de- sempenha. Numa situação imaginária como a da brincadeira de ao contrário, a criança é levada a agir Tanto pela criação da situação imaginária, como pela num mundo imaginário (o que ela está diri- definição de regras específicas, o brinquedo cria uma zo- gindo na brincadeira, por exemplo), onde a situação é na de desenvolvimento proximal na criança. No brinque- definida pelo significado estabelecido pela (o do a criança comporta-se de forma mais avançada do que nas atividades da vida real e também aprende a separar ônibus, o motorista, os passageiros, etc.) não pelos ele- mentos reais concretamente presentes (as cadeiras da sa- objeto e significado. Embora num exame superficial possa la onde ela está brincando de ônibus, as bonecas, etc.). parecer que o brinquedo tem pouca semelhança com ati- vidades psicológicas mais complexas do ser humano, uma Ao brincar com um tijolinho de como fos- análise mais aprofundada revela que as ações no brinque- se um carrinho, por exemplo, ela SC relaciona com do são subordinadas aos significados dos objetos, contri- nificado em questão (a idéia de "carro") e não com o buindo claramente para desenvolvimento da criança. objeto concreto que tem nas mãos. O tijolinho de ma- deira serve como uma representação de uma realidade au- Sendo assim, a promoção de atividades que favoreçam sente e ajuda a criança a separar objeto significado. Cons- o envolvimento da criança em brincadeiras, principalmen- titui um passo importante no percurso que a levará a ser te aquelas que promovem a criação de situações imagi- capaz de, como no pensamento adulto, desvincular-se to- nárias, tem nítida função pedagógica. A escola e, parti- talmente das situações concretas. brinquedo provê, as- cularmente, a pré-escola poderiam se utilizar delibera- sim, uma situação de transição entre a ação da criança damente desse tipo de situações para atuar no processo com objetos concretos e suas ações com significados. de desenvolvimento das crianças. 66 67A evolução da escrita na criança positalmente, número de sentenças era maior do que aquele de que a criança conseguiria lembrar-se. Depois Este um exemplo da inter- de ficar evidente para a criança sua dificuldade em mc- venção do experimentador: a A questão da evolução da escrita na criança é bastante morizar todas as sentenças faladas, experimentador su- refa dificil para a criança a importante no conjunto das colocações de Vygotsky gestão de procedimento geria que ela passasse a "escrever" as sentenças, como bre desenvolvimento aprendizado, por duas Em cifico por parte do pesquisador ajuda para a memória. A partir da observação da produ- primeiro lugar porque suas idéias sobre tema são ex- de comporta- ção de diversas crianças nessa situação, Luria delineou um mento da criança que não tremamento surpreendentes, mesmo percurso para a pré-história da ceriam quando levamos conta que foram produzidas há apro- As crianças inicialmente imitavam formato da escri- ximadamente 60 anos. idéias de Vygotsky sobre a es. ta do adulto, produzindo apenas rabiscos mecânicos, sem Em segundo lugar porque sua concepção sobre a es- crita muitos pontos em CO. nenhuma função instrumental, isto é, nenhuma relação crita, enquanto sistema simbólico de representação da rea- mum com a de Fer- com os conteúdos a serem representados. Obviamente, reiro seus desen- lidade, está estreitamente associada a questões centrais esse tipo de grafismo não ajudava a criança em seu pro- volvida a partir dos anos 70 con- cesso de memorização. Ela não era capaz de utilizar sua em sua teoria (linguagem, mediação uso de siderada uma concei- instrumentos). Assim sendo, embora não seja uma produção escrita como suporte para recuperação da in- a respeito do tão muito explorada por Vygotsky em scus textos escri- pecto mais importante dessa se. formação a ser lembrada. tos, é bastante justificável que a língua escrita seja obje- melhança a consideração du crita como um sistema de to de nossa atenção nesta revisão sobre suas concepções sentação da do a respeito de desenvolvimento e aprendizado. cesso de alfabetização como o do. Retirado da dissertação de mestra- Exemplos de produção escrita de crianças não alfabetizadas com sua concepção sobre desenvolvimen- progressivo desse sistema do, de Maria da Graça Azenha to psicológico em Vygotsky tem uma abordagem (que começa muito antes do Bautzer Santos: "O grafismo in- 1. "Rabiscos mecânicos" imitação do formato da es- cesso escolar de alfabetização) e processos e da escrita: com o processo de sua crita do adulto: não como a aquisição de uma (Faculdade de Educação da USP, aquisição, qual inicia muito antes da entrada da crian- de correspon- 1991). ga escola se estende por muitos anos. Considera, en- que para compreender o desenvolvimento da escrita na criança necessário estudar o que chama de "a pré-história da linguagem isto o que passa com a criança antes de ser submetida a processos rados de Como a escrita e uma função culturalmente mediada, a criança que desenvolve numa cultura letrada está ex- posta aos diferentes usos da linguagem escrita e a seu for- mato, tendo diferentes concepções a respeito desse obje- to cultural ao longo de seu A princi- pal condição necessária para que uma criança seja capaz de compreender adequadamente funcionamento da gua escrita que ela descubra que a língua escrita é um material mais sobre sistema de signos que não têm significado em si. Os sig- a questão da escrita concepção nos representam outra realidade; isto é, que se escreve do Vygotsky seus tem uma função instrumental, funciona como um suporte encontra-se num texto de Luria, denominado O desenvolvimento para a memória e a transmissão de idéias conceitos. da escrita na criança, (19). Uma Dentro do vasto programa de pesquisas do grupo de comparação entre esse artigo de Vygotsky, Luria foi seu colaborador que desenvolveu Luria e as idéias Ferrei- estudo experimental sobre o desenvolvimento da escrita. TO é feita no artigo "Acesso ao mundo da escrita: caminhos Solicitava a crianças que não sabiam ler e escrever que paralelos de Luria e Ferreiro". de a criança quis escrever: 1. escorregador; 2. balança; memorizassem uma de sentenças faladas por ele. Pro- Maria Thereza Fraga Rocco, (24). 3. trepa-trepa; 4. gira-gira; 5. tanque de 68 692. "Marcas topográficas" distribuição dos registros no ladas, produzindo, porém, o que Luria chama de "mar- do papel: cas distribuem seus rabiscos pelo papel, possibilitando uma de mapeamento do material a ser lembrado, depois, pela sua posição no espaço. Es- sas marcas ainda não são signos, mas pistas ru- dimentares que poderão auxiliar na recuperação da Das marcas topográficas indiferenciadas a criança pas- sa a preocupar-se em produzir em sua escrita algo que reflita as diferenças presentes nas sentenças faladas. Pri- as diferenças registradas são formais, refle- tindo o que Luria chama de "ritmo da isto é, frases curtas são registradas com marcas pequenas frases lon- a criança quis 1. balanço; 2. Eu gosto de brin- gas com marcas grandes. A seguir a criança passa a dife- car no balanço; 3. leite; 4. banana; 5. Eu comi bana- renciar pelo conteúdo do que é dito, preocupando-se em na no distinguir quantidade, tamanho, forma e outras caracte- rísticas concretas das coisas "Uma fumaça muito 3. "Representações desenhos estiliza- preta está saindo da por exemplo, é uma sen- dos usados como forma de tença registrada com marcas bem pretas com o "No céu há muitas é registrada com muitas linhas um homem e ele tem duas pernas" com apenas duas linhas Neste ponto de seu desenvolvimento a criança já des- cobriu a necessidade de trabalhar com marcas diferentes em sua escrita, que possam ser relacionadas com con- teúdo do material a ser memorizado. A criança desco- portanto, a natureza instrumental da escrita. De- pois disso, começa a utilizar representações pictográficas, isto é, desenhos. Mas neste caso os desenhos não são uti- lizados como forma de expressão individual, como ativi- dade que se encerra si mesma, mas como instrumen- tos, como signos mediadores que representam conteúdos determinados. Da representação pictográfica a criança pas- sa à escrita inventando formas de representar informações difíceis de serem desenhadas (por exemplo, um círculo escuro para representar a noite). Para a criança que vive numa cultura letrada, e será a processos de alfabetização, o próximo passo envolve a assimilação dos mecanismos de escrita simbo- lica culturalmente disponíveis, isto é, aprendizado da língua escrita propriamente a criança quis 1. ônibus; 2. óculos; 3. meni- no; 4. 5. escola; 6. rua; 7. classe. Luria chama atenção para o fato de que esse percurso da criança não é um processo individual, independente do contexto. Ao contrário, interage com os usos da lin- Num nível mais avançado, as crianças continuam a fa- gua escrita que ela observa na vida cotidiana, com for- zer sinais sem relação com conteúdo das sentenças fa- mato daquilo que os adultos chamam de escrita, e com 70 71as situações de aprendizado sistemático pelas quais ela laboradores, que se ramificaram em vários temas inter- passa. Assim, por exemplo, a criança pode assimilar bem relacionados. Seu particular interesse pela gênese, fun- cedo a diferença entre desenhar e escrever e não chegar ção estrutura dos processos psicológicos superiores le- a utilizar a representação pictográfica por não a uma preocupação com temas clássicos da psicolo- como "escrita" também, se souber grafar letras gia, como percepção, atenção e memória, numa aborda- mas ainda não tiver compreendido a função instrumen- gem que relaciona desenvolvimento aprendizado, dis- tal da escrita, utilizar a letra como marca não di- tinguindo os mecanismos mais elementares daqueles mais ferenciada para registrar informações diferentes (por excm- sofisticados, tipicamente humanos. Neste item, delinea- plo, "A" para cachorro, "A" para "A" para chi- remos brevemente as idéias de Vygotsky sobre esses te- Enfim, percurso proposto sofrerá variações con- mas específicos, buscando articulá-los com os pressupos- forme a experiência concreta das crianças. tos básicos da abordagem vygotskiana, discutida nos ca- Podemos supor que, atualmente, esse percurso mais pítulos anteriores. difícil de observado em crianças urbanas de grupos A percepção D No que se refere à percepção, a abordagem de Vygotsky culturais escolarizados. Em comparação com sujeitos es- é centrada no fato de que, ao longo do desenvolvimento tudados por Luria nos anos 20, essas crianças ingressam humano, a percepção torna-se cada vez mais um proces- mais cedo na escola, são alfabetizadas mais cedo e vivem so complexo, que se distancia das determinações fisioló- em um meio onde a presença da língua escrita é muito gicas dos órgãos sensoriais embora, obviamente, conti- marcante. Assim sendo, o sistema simbólico da escrita a basear-se nas possibilidades desses órgãos físicos. interfere antes e mais fortemente no processo de desen- A mediação simbólica e a origem sócio-cultural dos pro- volvimento da criança. cessos psicológicos superiores são pressupostos fundamen- É importante mencionar, ainda, que como a aquisi- tais para explicar o funcionamento da percepção. A vi- ção da língua escrita para Vygotsky, a aquisição de um são humana, por exemplo, está organizada para perce- sistema simbólico de representação da realidade, também ber luz, que revelará pontos, linhas, movimentos, contribuem para esse processo o desenvolvimento dos ges- profundidade; a audição permite a percepção de sons em tos, dos desenhos do brinquedo pois essas diferentes timbres, alturas e tato permi- são também atividades de caráter representativo, isto tc perceber pressão, temperatura, textura. Os limites des- utilizam-se de signos para representar significados. sas e das demais sensações são definidos pelas caracterís- "[...] desenhar brincar deveriam ser estágios prepara- 134. ticas do aparato perceptivo da espécie humana: não es- tórios ao desenvolvimento da linguagem escrita das crian- cutamos ultra-sons, como o morcego e o golfinho; não ças. Os educadores devem organizar todas essas ações e percebemos movimento na água com a sutileza dos pei- todo o complexo processo de transição de um tipo de lin- xes; não somos capazes de nos orientar no espaço a partir guagem escrita para outro. Devem acompanhar esse pro- de informações sobre temperatura, como as cobras. cesso através de seus momentos críticos, até o ponto da O humano nasce, então, com suas possibilida- descoberta de que pode desenhar não somente obje- des de percepção definidas pelas características do siste- tos, mas a fala. Se quiséssemos resumir todas ma sensorial humano. Ao longo do desenvolvimento, en- essas demandas práticas e expressá-las de uma forma uni- principalmente através da internalização da lin- ficada, poderíamos dizer que o que se deve fazer é ensi- guagem e dos conceitos e significados culturalmente de- nar às crianças a linguagem escrita e não apenas a escrita senvolvidos, a percepção deixa de ser uma relação direta de entre indivíduo e o meio, passando a ser mediada por conteúdos culturais. Assim, por exemplo, quando olhamos para um par de óculos, não vemos "duas coisas redondas, ligadas entre Percepção, atenção e memória si por uma horizontal e com duas tiras mais longas presas na parte mas vemos, imediatamente um par de óculos. Isto é, nossa relação perceptual com o mun- As idéias básicas de Vygotsky geraram um programa do não se dá em termos de atributos físicos isolados, mas de pesquisas, desenvolvidas por cle próprio e por seus em termos de objetos, eventos e situações rotulados pela 72 73linguagem e categorizados pela cultura. A função dos ócu- produzir uma imagem do mesmo tamanho na minha re- los, as situações concretas em que nos acostumamos a in- tina, sou capaz de avaliar adequadamente o tamanho real teragir com esse objeto, o lugar que ele ocupa nas ativi- desses dois estímulos por saber, previamente, o que é uma dades que desenvolvemos habitualmente, são mosca que é um Percebo objeto como um ticas que vão interagir com os dados sensoriais que todo, como uma realidade completa, articulada, e não mos quando nosso sistema visual capta esse objeto que como um amontoado de informações sensoriais. Isso es- aprendemos a reconhecer como óculos. relacionado ao percurso de desenvolvimento do indi- víduo, ao seu conhecimento sobre o mundo, à sua vivência situações específicas. A criança pequena que chama O mesmo estímulo é percebido como número ou letra, dependendo do con- um cavalo de "au-au" não sendo iludida pela in- texto em que SC formação sensorial: embora veja que o cavalo é maior que o cachorro, que seu rabo diferente, que seu focinho tem outro formato, etc., classifica cachorros e cavalos dentro de uma mesma categoria conceitual. Não tendo infor- mação suficiente para fazer uma distinção precisa entre esses dois tipos de animais, percebe ambos como seme- lhantes, equivalentes. A atenção D O funcionamento da atenção se dá de forma semelhan- não conheço a escrita árabe, uma sujeira no papel pode ser tomada te ao que foi descrito para a percepção. Inicialmente ba- mo um sinal relevante. Um árabe, por sua vez, distingue sinais válidos de marcas scada mecanismos neurológicos inatos, a atenção vai irrelevantes no papel. gradualmente sendo a processos de controle voluntário, cm grande parte fundamentados na media- ção simbólica. Os organismos estão submetidos imen- sa quantidade de informações do ambiente. Em todas as atividades do organismo no meio, entretanto, ocorre um processo de seleção das informações com as quais vai in- se não houvesse essa seletividade a quantidade de informação seria tão desordenada que seria impossível uma ação organizada do organismo no mun- do. Cada é dotada da capacidade de seleção de estímulos do ambiente que é apropriada para sua sobre- O bebê humano também nasce com mecanis- mos de atenção involuntária: estímulos muito intensos (como ruídos fortes), mudanças bruscas no ambiente, ob- jetos cm movimento, são elementos que, invariavelmente, chamam a atenção de uma criança. (escrita árabe) Ao longo do desenvolvimento, o indivíduo passa a ser capaz de dirigir, voluntariamente, sua atenção para ele- mentos do ambiente que ele tenha definido como rele- vantes. A relevância dos objetos da atenção voluntária es- A percepção portanto, num sistema que envolve tará relacionada à atividade desenvolvida pelo indivíduo outras funções. Ao percebermos elementos do mundo e ao seu significado, sendo, portanto, construída 20 lon- real, fazemos inferências em conhecimentos ad- go do desenvolvimento do indivíduo em interação com quiridos previamente em informações sobre a situação o meio em que vive. Assim, por exemplo, uma criança presente, interpretando os dados perceptuais à luz de ou- é capaz de concentrar sua atenção na construção de um tros conteúdos psicológicos. Embora uma mosca pousa- carrinho em miniatura, "desligando-se" de outros da no vidro da janela e um avião longe no céu possam mulos do ambiente, como ruído da televisão ou dos 74 75irmãos conversando; um adulto sua atenção para claramente presente nas determinações inatas do orga- o trabalho que realiza, sem distrair com cada toque nismo da espécie humana, surgindo como na máquina de escrever da pessoa que trabalha a seu lado. da influência direta dos estímulos externos sobre os in- divíduos. Por exemplo, o bebê que faz movimentos de Podemos retomar, aqui, um exemplo utilizado no ca- sucção ao ver sua mamadeira está reagindo diretamente 2, referente ao experimento das "palavras proibi- à mamadcira como Essc estímulo produz a rea- cm que as crianças deveriam responder a questões ção de sucção pelo fato de haver uma lembrança da co- sobre cores. Os cartões coloridos, fornccidos pelo experi- nexão mamadeira/ato de mamar fixada na memória do mentador como auxílio à tarefa, serviram como instru- bebê. A natural, na espécie humana, é seme- mento para a criança a, voluntariamente, focali- lhante à existente nos outros animais: refere-se zar sua atenção nos elementos relevantes da tarefa (isto ao registro não voluntário de experiências, que permite c, os nomes das cores proibidas). Como vimos na descri- acúmulo de informações o uso dessas informações em ção desso experimento, a ajuda externa para a organiza- momentos posteriores, na ausência das situações vividas ção da atenção voluntária substituída, com a passagem anteriormente. para níveis mais avançados do desenvolvimento indivi- A memória mediada é de natureza bastante diferen- dual, por instrumentos internos: os adultos podiam dis- também, ao registro de experiências para pensar os cartões coloridos porque já haviam internaliza- recuperação e uso posterior, mas inclui a ação voluntária do formas de controle de sua atenção. do indivíduo no sentido de apoiar-se em elementos me- Apesar da aquisição de processos de atenção voluntá- diadores que o ajudem a lembrar-se de conteúdos espe- ria, os mecanismos de atenção involuntária continuam A memória mediada permite ao indivíduo con- presentes no ser humano: ruídos fortes repentinos ou mo- trolar seu próprio comportamento, por meio da utiliza- vimentos bruscos, por exemplo, continuam a despertar ção de instrumentos signos que provoquem a lembrança a atenção do indivíduo. É interessante observar, entre- do conteúdo a ser recuperado, de forma deliberada. As- tanto, que até mesmo a atenção involuntária pode ser me- sim, voltando mais uma vez ao exemplo do experimento diada por significados aprendidos ao longo do desenvol- das "palavras vimos que as crianças utiliza- vimento. Quando escutamos nosso próprio nome, por vam os cartões como signos externos para ajudá-las a lem- exemplo, reagimos imediatamente, focalizando nossa quais os nomes de cores que, de acordo com as re- atenção de forma não deliberada. Isto é, o nome próprio, gras do jogo, não podiam ser faladas. por ser carregado de significado que indica a referência Os grupos humanos desenvolvem inúmeras formas de a um indivíduo particular, provoca uma reação semelhante utilização de signos para auxiliar a calendários, despertada por estímulos repentinos, como uma "O uso de pedaços de madeira agendas, listas de compras, etc. Com uso desses signos porta batendo, por exemplo. Do mesmo modo, comum entalhada a escrita primi- a capacidade de memorização fica significativamente au- vermos crianças que desviam sua atenção de outra ativi- liva e auxiliares sim- mentada sua relação com conteúdos culturais por- dade para, quase olharem para a ples demonstram, no seu conjun- tanto, com processos de aprendizado, fica claramente es- levisão quando aparecem determinados comerciais de sua to, que mesmo estágios mais tabelecida. Com histórico-cultural o preferência. Neste exemplo, a atenção isto primitivos do desenvolvimento histórico seres humanos foram ser humano portanto, modos de utilização não controlada de forma intencional pelo próprio su- dos limites das funções do mecanismo da memória que distanciam seu desem- jeito, também está sendo mediada por significados apren- cológicas impostas pela natureza, penho daquele definido pelas formas naturais de fun- didos evoluindo para uma organização cionamento psicológico. nova, culturalmente elaborada, Com relação à Vygotsky também trabalha A A de seu comportamento. A É interessante mencionar um exemplo fictício que in- com a importância da transformação dessa função psico- se comparativa mostra que tal tegra os três processos psicológicos discutidos nesta seção lógica ao longo do desenvolvimento com a poderosa in- de atividade ausente mes. atenção e memória evidenciando, jus- fluência dos significados e da linguagem. O foco princi- mo nas superiores de ani- tamente, a similaridade dos mecanismos de seu funcio- mais: acreditamos que essas ope- pal de suas discussões é a distinção entre a memória "na- namento e as estreitas relações entre Um indivíduo rações com signos são produto das não mediada, e a memória mediada por signos. condições específicas do desenvol- está caminhando por uma longa rua, procurando uma A memória não mediada, assim como a percepção sen- vimento farmácia onde já esteve uma vez. Vai olhando para to- sorial e a atenção involuntária, é mais elementar, mais (2). dos os edifícios, dos dois lados da rua, mas sua atenção 76 77está deliberadamente focalizada na busca de uma deter- te cultural parte essencial de sua própria constituição minada farmácia. Isto não é qualquer edifício na rua enquanto pessoa. É impossível pensar ser humano pri- que chama sua atenção: as casas, lojas e prédios são uma vado do contato com um grupo cultural, que lhe forne- espécie de "pano de no qual vai destacar a cerá os instrumentos signos que possibilitarão o desen- farmácia que está sendo intencionalmente procurada. Sua volvimento das atividades psicológicas mediadas, tipica- atenção voluntária está fortemente relacionada com os me- mente humanas. O aprendizado, nesta concepção, é o canismos de percepção e memória, também mediados por processo fundamental para a construção do ser humano. significados construídos ao longo de seu desenvolvimen- desenvolvimento da espécie humana e do indivíduo to. Os elementos observados na rua não são um amon- dessa espécie está, pois, baseado no aprendizado que, para toado caótico de informações sensoriais: organizam-se em Vygotsky, sempre envolve a interferência, direta ou in- estruturas reconhecidas e rotuladas por nomes correspon- direta, de outros indivíduos e a reconstrução pessoal da dentes a conceitos "padaria", etc.). experiência e dos significados. Sua lembrança da farmácia não é apenas uma imagem mental diretamente gerada a partir da experiência com tal farmácia. Está mediada pelo próprio conccito de far- mácia (que auxilia a focalizar a atenção apenas nos ele- mentos relevantes da paisagem) eventualmente por ou- tras informações paralelas, tais como: "tem uma árvore na frente" ou perto de um prédio O indivíduo sabe, então, que que está procurando é uma determinada farmácia. A rotulação por meio da linguagem e a relação com um conhecimento anterior- mente possuído dirigem sua atenção e sua memória de forma deliberada, orientando sua percepção do a realização da tarefa. É interessante observar que os mecanismos mediadores utilizados no caso em questão neste exemplo são mecanismos internalizados. Isto é, o indivíduo não se apóia em signos externos, mas em re- presentações mentais, conceitos, imagens, etc., realizando uma atividade complexa, na qual é capaz de controlar, deliberadamente, sua própria ação psicológica, através de recursos internalizados. Vemos assim que, para Vygotsky, as funções gicas superiores, típicas do ser humano, são, por um la- do, apoiadas nas características biológicas da espécie hu- mana e, por outro lado, construídas ao longo de sua his- tória social. Como a relação do indivíduo com o mundo é mediada pelos instrumentos e símbolos desenvolvidos no interior da vida social, é enquanto ser social que o ho- mem cria suas formas de ação no mundo e as relações complexas entre suas várias funções psicológicas. Para desenvolver-se plenamente como ser humano o homem necessita, assim, dos mecanismos de aprendizado que mo- vimentarão seus processos de desenvolvimento. Na concepção que Vygotsky tem do ser humano, por- tanto, a inserção do indivíduo num determinado ambien- 78 79O biológico e O cultural: desdobramentos do pensamento de Vygotsky 80 81N ão é apenas a partir dos.textos de Vygotsky que po- Dentro do grupo de colaboradores de Vygotsky, Luria demos ter acesso a suas Seus foi quem se dedicou mais intensamente ao estudo das laboradores continuaram, depois de sua morte, a desen- funções psicológicas relacionadas ao sistema nervoso cen- volver investigações fundamentadas nos pressupostos bá- tral, tornando-se conhecido como um dos mais impor- sicos de seu pensamento e a produzir vasto material escrito tantes neuropsicólogos de todo o mundo. O próprio Lu- que nos permite aprofundar os vários aspectos presentes ria considera que as investigações de Vygotsky sobre le- no programa trabalho do chamado grupo de cerebrais, perturbações da linguagem organização gos de funções psicológicas em condições normais e anor- Como forma de explorar os desdobramentos das pro- LURIA, 56-57, (12). mais, realizadas na década de 20, "lançaram as bases para postas de Vygotsky na obra de seus colaboradores, labor- A neuropsicologia uma in- uma nova área da ciência, a neuropsicologia, que só re- daremos, neste capítulo, três aspectos fundamentais desse terdisciplinar, que envolve as dis- centemente se estabeleceu" que suas idéias sobre a or- ciplinas de neurologia, programa de tria, psicologia, fonoaudiologia, ganização cerebral "agora, trinta anos depois da morte o funcionamento cerebral como suporte biológico do e outras e do autor, incorporaram-se completamente à ciência funcionamento psicológico; que tem como objetivo estudar as a influência da cultura no desenvolvimento cognitivo inter-relações entre as funções cológicas humanas e sua base De acordo com o que já foi discutido em capítulos an- dos indivíduos; lógica. teriores, um dos pilares do pensamento de Vygotsky é a atividade do homem no mundo, inserida num siste- a idéia de que as funções mentais superiores são cons- ma de relações sociais, como o principal foco de interes- truídas ao longo da história social do homem. Na sua re- se dos estudos psicologia. lação com o meio físico e social que é mediada pelos ins- trumentos e símbolos desenvolvidos no interior da vida social, o ser humano cria e transforma seus modos de ação no mundo. É justamente essa visão sobre o funcionamento psicológico que está na base das concepções de Vygotsky a respeito do funcionamento do cérebro: se a so- A base biológica do funcionamento cial objetiva tem um papel crucial no desenvolvimento psicológico: a neuropsicologia de Luria psicológico, este não pode ser buscado em propriedades naturais do sistema nervoso. Isto é, o cérebro é um siste- ma aberto, que está em constante interação com o meio que transforma suas estruturas e mecanismos de fun- cionamento longo desse processo de interação. Não podemos, portanto, pensar cérebro como um sistema fechado, com funções pré-definidas, que não se altera no processo de relação do homem com o mundo. É interessante observar que, em nenhuma espécie ani- mal, o modo de funcionamento do organismo está com- pletamente estabelecido no momento do nascimento. Em- bora as características de cada definam limites e possibilidades para desenvolvimento dos organismos in- dividuais, existe sempre certa flexibilidade, uma possi- ser vivo começa a 'orientar-se' no meio ambiente, bilidade de variação nos comportamentos típicos da es- a ativamente a cada mu pécie. É isso que garante a capacidade de adaptação dos dança que neste se processa. ou seres vivos a ambientes diversificados e, portanto, o pro- seja, a adquirir formas de cesso de evolução das espécies. comportamento individualmente variáveis, que não existiam no A espécie humana é uma espécie animal cujos Alexander Romanovich Luria mundo vegetal. LURIA, 32, duos nascem muito pouco preparados para a sobrevivên (1902-1977) cia imediata: recém-nascido, e bebê humano até uns 82 83dois anos de vida, dependem totalmente dos cuidados torna a idéia da complexidade dos sistemas funcionais que de adultos para sua sobrevivência. Em termos do desen- dirigem a realização dessas tarefas. Uma pessoa pode res- volvimento psicológico isso significa que organismo hu- ponder corretamente quanto 15 + 7, por exemplo, con- mano muito "pouco isto com muitas tando nos dedos, fazendo um cálculo mental, usando uma catacterísticas cm aberto, a serem desenvolvidas no con- máquina de calcular, fazendo a operação com lápis e pa- tato com mundo com os ou simplesmente lembrando-se de uma informação outros membros da espécie. Essa imaturidade dos orga- já armazenada anteriormente em sua É fácil nismos no momento do nascimento e a imensa plastici- imaginar como cada uma dessas rotas para a solução de dade do sistema nervoso central do homem estão forte- um mesmo problema mobilizará diferentes partes de seu mente relacionadas com a importância da história da es- aparato cognitivo e, portanto, de seu funcionamento ce- pécie no desenvolvimento psicológico: o cérebro pode se rebral. Contar nos dedos implica uma atividade motora adaptar a diferentes necessidades, servindo a diversas fun- que está ausente nas outras estratégias; usar a máquina ções estabelecidas na história do homem. de calcular exige uso de uma informação so- Uma idéia fundamental para que se compreenda essa bre o uso da máquina; lembrar de um resultado previa- concepção sobre funcionamento cerebral é a idéia de mente memorizado exige uma operação específica liga- sistema funcional. As funções mentais não podem ser lo- da à memória, e assim por diante. calizadas em pontos específicos do cérebro ou em grupos A mera listagem desses procedimentos evidencia a co- isolados de células. Elas são, isso sim, organizadas a par- nexão que existe entre o desempenho de tarefas tir da ação de diversos elementos que atuam de forma ligadas ao funcionamento mental e a inserção do indivi- articulada, cada um desempenhando um papel naquilo duo num contexto específico. Instrumen- que se constitui como um sistema funcional complexo. tos e símbolos construídos socialmente definem quais das Esses elementos podem estar localizados em áreas dife- infindáveis possibilidades de funcionamento cerebral serão rentes do cérebro, distantes umas das ou- efetivamente desenvolvidas e mobilizadas na execução de tras. Além dessa estrutura complexa, os sistemas funcio- uma certa tarefa: o caminho percorrido pela operação rea- nais podem utilizar componentes diferentes, dependen- lizada com lápis e papel, por exemplo, seria inexistente do da situação. Numa determinada tarefa (por exemplo, no conjunto de sistemas funcionais de um membro de a respiração) um certo resultado final (no caso, os uma sociedade sem escrita pulmões de oxigênio, o qual será posteriormente absor- vido pela corrente pode ser atingido de diversas Podemos retomar aqui um exemplo mencionado no maneiras alternativas. Se o principal grupo de músculos LURIA, (15). capítulo 4: um indivíduo que vive num grupo cultural que funcionam durante a respiração pára de atuar, os mús- que não dispõe da escrita jamais será alfabetizado. Isto culos intercostais são chamados a trabalhar, mas se por é, embora, enquanto membro da espécie humana, dis- ponha da possibilidade física de aprender a ler e escre- alguma razão eles estiverem prejudicados, os músculos ver, essa possibilidade só será desenvolvida como um mo- da laringe são mobilizados e o animal ou a pessoa come- do de funcionamento psicológico por seres humanos que ça a engolir ar, que então chega aos alvéolos pulmonares vivam em sociedades letradas. É importante destacar que por uma rota completamente diferente. A presença de uma tarefa constante, desempenhada por mecanismos va- essa diferença funcional não se reflete em diferenças fisi- riáveis, produzindo um resultado constante é uma das cas no cérebro humano: enquanto sistema aberto, o cé- características básicas que distingue o funcionamento de rebro está, justamente, preparado para realizar funções diversas, dependendo dos diferentes modos de inserção cada sistema funcional. do homem no mundo. O exemplo acima mostra como até mesmo uma tarefa básica como a respiração é possibilitada por sistemas com- Essa concepção da organização cerebral como sendo ba- plexos, que podem se utilizar de rotas diversas e de dife- seada em sistemas funcionais que se estabelecem na his- rentes combinações de seus componentes. Quando pen- tória do homem supõe uma organização básica do cére- samos em tarefas mais distantes do funcionamento psi- bro humano, que resulta da evolução da espécie. Isto é, cológico básico e mais ligadas à relação do indivíduo com a idéia da plasticidade cerebral não significa falta de es- o meio sociocultural onde ele vive, mais fundamental se trutura, mas, ao contrário, implica a presença de uma es- 84 85mais intensa até saciar sua fome; quando um ruído forte trutura básica, com a qual cada membro da espécie nas- é o sujeito focaliza sua atenção na fonte do ruí- ce e a partir da qual se estabelecerão os modos de fun- do, mobilizando-se para reagir a um eventual aconteci- cionamento do sistema nervoso central. mento inusitado. O sistema nervoso conta, então, com essa forma de controle sobre seu próprio nível de ativi- dade, o que lhe dá condição de funcionamento adequa- do, dependendo da situação em que organismo se en- contre. A segunda unidade de funcionamento cerebral é a uni- dade para recebimento, análise e de in- formações. Essa unidade é responsável, inicialmente, pela recepção de informações sensoriais do mundo externo atra- dos órgãos dos sentidos. Trabalha com informações específicas, como por exemplo, na percepção visual, com pontos luminosos, linhas, manchas. A seguir essas infor- mações são analisadas e integradas em sensações mais com- plexas, constituindo objetos completos (cadeiras, mesas, etc.). Depois são sintetizadas em percepções ainda mais complexas que envolvem, simultaneamente, informações das várias modalidades sensoriais (visão, audição, tato, etc.). Assim se dá a percepção de cenas, eventos, situa- ções que se desenvolvem no tempo e no espaço. Todas essas informações, das mais simples às mais complexas, são armazenadas na memória e podem ser utilizadas em situações posteriores enfrentadas pelo indivíduo. A terceira unidade postulada por Luria é a unidade para programação, regulação e controle da LURIA, 107, (13). "A atividade consciente do homem apenas começa com Luria aprofunda, em sua obra, a questão da estrutura a obtenção da informação e sua elaboração, terminando básica do cérebro, distinguindo três grandes unidades de com a formação das intenções, do respectivo programa funcionamento cerebral cuja participação é necessária em de ação e com a realização desse programa em atos exte- qualquer tipo de atividade psicológica. A primeira delas livro no qual Luria elabora em é a unidade para regulação da atividade cerebral e do es- maior detalbe essa questão Fun- riores (motores) ou interiores (mentais). Para isso é ne- damentos de neuropsicologia, cessário um aparelho especial, capaz de criar e manter as tado de vigília. Para que os processos mentais se desen- (15). necessárias intenções, elaborar programas de ação a elas volvam de forma adequada é necessário que o organis- correspondentes, realizá-los nos devidos atos e, o que mo esteja desperto: a atividade mental organizada e di- de suma importância, acompanhar as ações em curso, rigida a objetivos não ocorre durante sono. Além disso comparando efeito da ação exercida com as intenções necessário que o cérebro funcione num nível adequa- iniciais". Enquanto a segunda unidade trabalha com a do de atividade, nem muito excitado, nem muito inibido. recepção da informação vinda do ambiente, essa terceira O sistema deve estar, também, alerta para a necessi- unidade regula a ação física e mental - do indivíduo dade de mudanças de comportamento. Isto é, embora sobre o ambiente. o sistema nervoso tenha, normalmente, um certo nível Luria enfatiza em seu trabalho que qualquer forma de de atividade e a manutenção desse nível seja uma carac- atividade psicológica é um sistema complexo que envol- terística essencial do funcionamento do organismo, há si- ve a operação simultânea das três unidades funcionais. tuações em que esse nível deve ser aumentado. Quando A percepção visual, por exemplo, envolve nível ade- indivíduo tem fome, por exemplo, volta sua ativida- quado de atividade do organismo (primeira unidade), a de para a busca de alimento, comportando-se de forma 87 86análise C a síntese da informação recebida pelo sistema Os fundamentos culturais e sociais do visual (segunda unidade) e os movimentos dos olhos pc- las várias partes do objeto a ser percebido (terceira uni- desenvolvimento cognitivo: a pesquisa dade). As três unidades sempre funcionam juntas a com- intercultural na Ásia Central preensão da interação entre clas é essencial para a com- preensão da natureza dos mecanismos cerebrais envolvi- dos na atividade mental. Essas três grandes unidades de Além de se ter dedicado ao estudo das funções psico- funcionamento cerebral estão presentes em todos os in- lógicas, no nível da organização cerebral, Luria também divíduos da espécie humana e são a base sobre a qual se foi quem, entre os colaboradores de Vygotsky, desenvol- construirão mecanismos específicos, carregados de con- veu a pesquisa de maior alcance sobre a questão das di- teúdo cultural. livro Desenvolvimento cogni- ferenças culturais. Com o objetivo de estudar como os tivo: seus fundamentos culturais Outro aspecto importante resultante das concepções processos psicológicos superiores são construídos em di- sociais, (20), em que essa pes- ferentes contextos culturais, Luria conduziu extenso tra- de Luria, sobre a organização cerebral, é a idéia de que quisa intercultural e relatada, foi publicado na União Sovietica em balho de campo sobre o funcionamento psicológico de a estrutura dos processos mentais e as relações entre os vários sistemas funcionais transformam-se ao longo do de- 1974, mais de quarenta anos de- moradores de vilarejos e áreas rurais de uma região re- pois de sua conclusão. Nos Esta- senvolvimento individual. Nos estágios iniciais do desen- mota e pouco desenvolvida da Ásia Central. Vygotsky não dos Unidos, foi publicado em volvimento, as mentais apóiam-se principal- participou diretamente desse trabalho, por encontrar-se 1976 1990, no Brasil. Na já bastante doente. mente em funções mais elementares, enquanto que, em desenvol- estágios a participação de funções superio- vimento (3), A região em que o estudo foi realizado (Usbequistão especialmente as que envolvem a linguagem, torna- um artigo de e Quirguistão) situa-se na Ásia Central, próxima à fron- se mais importante. Os processos de mediação simbólica intitulado "Diferenças culturais teira com o Essa era uma região bastante iso- de que resume os e o pensamento abstrato e generalizante, tornado possi- lada, estagnada economicamente, com alto grau de anal- resultados dessa pesquisa. vel pela linguagem, passam a ser mais centrais nos pro- fabetismo, predominância da religião e do cessos psicológicos do adulto. trabalho rural em propriedades individuaise isoladas. Na em que o trabalho de campo foi realizado (1931- Essa diferença no desenvolvimento tem uma correspon- 1932), a região estava sofrendo um processo de rápidas dência na organização cerebral propriamente dita. Na transformações sociais, com a implantação de fazendas criança pequena as regiões do cérebro responsáveis por coletivas, mecanização da agricultura e escolarização da processos mais elementares (registro sensorial de pontos população. Essc período de transformações propiciava luminosos, por exemplo) são mais fundamentais para seu uma oportunidade privilegiada para a observação das re- funcionamento psicológico; no adulto, ao contrário, a im- lações entre vida social e processos psicológicos, tão im- portância maior é a das áreas ligadas a processamentos portante na construção de uma psicologia histórico-cul- mais complexos (reconhecimento de imagens visuais com- tural. A pergunta fundamental que Luria fez foi: o que pletas, por exemplo). Assim sendo, lesões em determi- Luria realizou muitos estudos acontece com os indivíduos que passam por essas trans- nadas áreas do cérebro podem causar problemas comple- com pessoas com cerebral formações sociais, em termos de seu funcionamento in- tamente diferentes, dependendo do estágio de desenvol- que tiveram algum tipo de dano no cérebro causado por fe- telectual? Diferentes indivíduos, com vários graus de es- vimento psicológico do indivíduo. rimento a bala, pancada, tumor colarização e de inserção no trabalho mais moderno das Foi propondo uma linha de investigação que buscasse ou hemorragia. Esses danos fisi- fazendas coletivas, foram incluídos na pesquisa, para per- descrever a estruturação das funções mentais em condi- cos provocam distúrbios no fun- mitir a comparação de seu desempenho em diversos ti- ções normais de desenvolvimento, sua perda ou desor- cionamento psicológico, que va- pos de tarefas psicológicas. riam conforme a região e a ganização em caso de lesão cerebral e suas possibilidades são da lesão. estudo da Luria e o grupo de pesquisadores que o acompanhou de recuperação que Vygotsky lançou os fundamentos do associada ao psicológi- procuraram relacionar-se com os moradores da região es- que viria a ser neuropsicologia de Luria e as bases de CO fornece informações muito im- tudada, convivendo com eles nos ambientes de sua vida uma compreensão da psicologia humana, que contem- portantes para a compreensão do cotidiana, antes de começarem o trabalho propriamente pla o substrato biológico do funcionamento psicológico funcionamento do cérebro. dito. Depois os dados de pesquisa foram coletados em dessa espécie, cujo desenvolvimento é essencialmente longas entrevistas nas quais eram apresentadas tarefas para serem resolvidas pelo entrevistado. O experimentador re- 88 89gistrava as respostas dadas e provocava os sujeitos com no- mentas, e "tora de o único objeto que não vas perguntas para obter, de um mesmo indivíduo, ou- pertencia à categoria das ferramentas). Perguntava-se ao tras reflexões e outras possibilidades de raciocínio. Conforme vimos no 4, a entrevistado quais eram os três objetos semelhantes, que metodologia de pesquisa poderiam ser colocados num mesmo grupo, e qual que da por Luria de extrema con- a imersão do não pertencia a esse grupo. Os mais escolarizados e inse- pesquisador no contexto da pes. ridos em situações de trabalho mais modernizadas ten- quisa, a entrevista longa e não diam a colocar as três ferramentas juntas e indicar a tora a intervenção do de madeira como único objeto diferente. Já os quisador para provocar compor- betos e que trabalhavam como camponeses isolados não tamentos relevantes a ob- servados são estratégias muito faziam esse tipo de classificação dos objetos. Diziam que lizadas e valorizadas na pesquisa os quatro objetos deviam ser colocados juntos, porque atual em ciências humanas. serrote serra a tora, a machadinha corta a tora e preci- samos da madeira para pregar alguma coisa com o mar- telo: todos os objetos são usados juntos e nenhum deles pode ser separado. Em uma variação da mesma tarefa, apresentava-se um Trabalhadores rurais na ex-União conjunto de desenhos de três objetos que pertenciam a uma mesma categoria (por exemplo, "árvore" "flor" e "espiga", todos vegetais) e pedia-se aos sujeitos que selecionassem um quarto objeto adequado, de um gru- Vários tipos de tarcfas foram utilizadas ao longo das po de dois ou três outros desenhos ("roseira" e entrevistas: tarefas de percepção (nomeação e agrupamen- por exemplo). Novamente os mais escolarizados e to de cores, nomeação e agrupamento de figuras geomé- modernizados tendiam a selecionar o objeto pertencen- tricas, resposta a ilusões visuais); de abstração e generali- te à mesma categoria que os outros três ("roseira", no zação (comparação, discriminação e agrupamento de ob- exemplo citado). Os analfabetos e camponeses isolados jetos, definição de conceitos); de dedução e inferência tendiam a fazer outro tipo de relação entre os objetos, (estabelecimento de conclusões lógicas a partir de infor- selecionando, por exemplo, o para compor o con- mações dadas); de solução de problemas matemáticos a (20) junto: a andorinha. Há uma árvore aqui e uma flor partir de situações hipotéticas apresentadas oralmente; de é um lugar bonito. A andorinha vai sentar aqui e imaginação (elaboração de perguntas ao experimentador); cantar" de auto-análise (avaliação de suas próprias características). Nesta tarefa eta utilizado o silo- Em outro tipo de tarefa, pedia-se aos sujeitos que che- Em todas as tarefas apresentadas, os resultados obti- gismo, um tipo de dedução lógi- gassem a uma conclusão com base em informações da- dos apontaram para uma mesma direção: houve altera- ca: de duas proposições chamadas das pelo experimentador. O experimentador informava, ções fundamentais na atividade psicológica acompanhan- premissas, possível extrair uma do o processo de alfabetização e escolarização e as mu- conclusão lógica. Por exemplo: por exemplo, que "No norte, onde há neve, todos os ursos Premissas: são brancos" e que "Novaya Zemlya fica no norte e lá danças nas formas básicas de trabalho. Isto é, os sujeitos - Todo homem e mortal. sempre A seguir perguntava: "De que são os mais escolarizados e mais envolvidos em situações de tra- 2 Pedro homem. ursos em Novaya A conclusão lógica a partir balho coletivo exibiram um comportamento mais sofis- Conclusão: Pedro das duas informações básicas é a de que os ursos em No- ticado do que os analfabetos e os camponeses que traba- vaya Zemlya são brancos. Essa era a conclusão apresenta- lhavam individualmente. Vamos apresentar aqui apenas da pelos sujeitos mais escolarizados e que trabalhavam alguns resultados específicos, como exemplo dos tipos de em fazendas coletivas. Já os menos escolarizados e que respostas dadas às tarefas utilizadas na pesquisa. trabalhavam como camponeses isolados tinham dificul- Em uma das tarefas de classificação foram apresenta- dade com esse raciocínio abstrato, baseando suas respos- dos desenhos de quatro objetos, sendo três pertencentes tas em experiências pessoais e negando-se a fazer infe- a uma categoria e o quarto a outra categoria (por exem- LURIA, 148, (20). rências sobre fatos não vivenciados: "Eu não sei de que plo, "martelo", "machadinha", todos ferra- são os ursos lá. Eu nunca os 90 91sociadas às transformações sociais ocorridas na região es- Tarefa de percepção utilizada por Luria tudada: modo gráfico-funcional e o modo Figuras apresentadas aos sujeitos para serem agrupadas e nomeadas: Esses dois modos de pensamento estavam presentes, co- mo um contraste entre os diferentes grupos de sujeitos, cm todas as tarefas incluídas nesse estudo O modo chamado gráfico-funcional refere-se ao pen- samento baseado na experiência individual, em contex- tos concretos, em situações reais vivenciadas pelo sujei- to É chamado "gráfico" no sentido de que se baseia em configurações perceptuais, presentes no campo da expe- riência do sujeito como no caso das figuras Exemplos de agrupamentos de figuras realizados por camponeses pouco escolariza- dos e a justificativa que eles deram para agruparem desse modo: que "se parecem porque ambas têm pontinhos", sem que sejam feitas relações entre as figuras e as categorias mais abstratas de quadrados e triângulos. É chamado "funcional" porque refere-se às relações concretas entre "Molduras de os objetos, inseridos em situações práticas de uso mo no caso da tora de madeira classificada com o serrote porque o serrote serra a tora. O modo de pensamento chamado categorial refere-se pensamento baseado em categorias abstratas, à capa- cidade de lidar com atributos genéricos dos objetos, sem referência aos contextos práticos em que o sujeito se re- laciona concretamente com os objetos. O indivíduo que funciona psicologicamente de forma categorial é capaz "Estes são parecidos isto uma gaiola esta é de das situações concretas e trabalhar com a gaveta de alimentação através da gaiola." objetos de forma descontextualizada. Assim, por exem- plo, independentemente do uso conjunto que sujeito faça do serrote e da tora de ele é capaz de clas- sificar esses objetos em dois grupos diferentes: ferramentas "Este um pequeno balde para leite coalhado, e não ferramentas. Do mesmo modo, é capaz de esta é uma pancla para o Novaya Zemlya tambem cha- a partir de informações verbais, que em Novaya Zemlya mada Nova Zembla, em por- os ursos são brancos, mesmo que nunca tenha estado ou nunca tenha visto os tais ursos. Conforme mencionado anteriormente, os indivíduos mais escolarizados e.com um tipo de trabalho mais mo- Nas demais tarefas utilizadas nesse estudo as diferen- dernizado que tendiam a comportar-se de modo cate- ças observadas entre os grupos de sujcitos apontavam sem- gorial. É interessante observar que alguns sujeitos, prin- pre na direção: "mudanças nas formas práticas A LURIA 58 (18). cipalmente aqueles com pequeno grau de escolaridade de atividade, e especialmente a reorganização da ativi- e uma atividade profissional intermediária entre formas dade baseada na escolaridade formal, produziram alte- mais tradicionais e formas modernas. apresentavam um rações qualitativas nos processos de pensamento dos in- desempenho "em nas tarefas psicológicas uti- divíduos estudados" Baseado nas proposições teóricas de lizadas nesse estudo. Isto é, ora comportavam-se de mo- Vygotsky, Luria identificou dois modos básicos de pen- do categorial, ora apresentavam um raciocínio mais pre- samento que caracterizam essas alterações qualitativas as- a situações concretas e à experiência 92 93Com esses indivíduos, Luria pôde observar claramen- das por Luria neste amplo projeto de investigação, são, te o papel da intervenção do pesquisador na zona de de- ainda hoje, objeto de grande na área da psi- cologia. Por um lado a psicologia tradicional não leva em senvolvimento proximal. Luria freqüentemente provocava a reflexão dos entrevistados contrapondo à resposta de- conta as relações entre cultura e pensamento, buscando les uma resposta dada por uma pessoa hipotética ("Mas a compreensão do funcionamento psicológico como um uma pessoa me disse que uma dessas coisas não pertence fenômeno Estudos como o de Luria, por outro a esse grupo", por exemplo) ou fazendo um questiona- lado, constroem uma diferenciação entre modos de fun- mento explícito da resposta do certo, mas cionamento intelectual que, ao romper com a universa- um martelo, uma serra e uma machadinha são todos fer- lidade dos processos psicológicos, podem levar a uma va- lorização de um dos modos de funcionamento como sendo Para aqueles sujcitos "em transição" essa intervenção ativa do pesquisador muitas vezes resultava mais sofisticado, mais complexo, mais adequado. Co- numa transformação do seu modo de pensamento: ao lon- mo o referencial privilegiado da psicologia é a sociedade go da realização da tarefa o indivíduo passava do modo urbana, moderna, escolarizada, com desenvolvimento gráfico-funcional 20 Essa transformação não científico e tecnológico, o modo de funcionamento psi- acontecia com os que raciocinavam, consistentemente, de cológico associado a esse tipo de inserção do homem no modo gráfico-funcional. Parece, justamente, que a in- mundo tende a ser tomado como o modo mais avançado. terferência externa provoca transformação visível apenas Michael Cole, um dos principais estudiosos contem- quando o novo modo de pensamento já está presente, porâneos das relações entre cultura e pensamento, mani- "cm semente", próprio sujeito. Esta é exatamente festa sua preocupação com essa questão no prólogo à obra 15-16, (7). D a idéia da intervenção na zona de desenvolvimento pro- de Luria: "Seu objetivo geral era mostrar as raízes ximal e da promoção de processos de desenvolvimento históricas de todos os processos cognitivos básicos; a es- a partir de situações de interação trutura de pensamento depende da estrutura dos tipos de atividades dominantes em diferentes culturas. Desse As relações entre as diferenças no modo de funciona- conjunto de premissas, segue-se que o pensamento prá- mento intelectual e as transformações no modo de vida tico vai predominar em sociedades caracterizadas pela ma- são bastante evidentes no que se refere 20 processo de nipulação prática de objetos e que formas mais 'abstra- escolarização formal. A escola uma instituição social on- tas' de atividade 'teórica' em sociedades tecnológicas vão de o conhecimento objeto privilegiado da atenção dos induzir a pensamentos mais abstratos, teóricos. para- indivíduos, sem conexão imediata com situações de vida lelo entre o desenvolvimento social e individual produz real. Os sujeitos que passam pela escola acostumam-sc uma forte tendência à interpretação de todas as diferen- a trabalhar com idéias e de forma descontex- tualizada, sem referência ao domínio do concreto. As ciên- ças comportamentais em termos de desenvolvimento. [...] Minha interpretação pessoal desse tipo de dados é um cias, cujo conhecimento acumulado é transmitido na es- pouco distinta, uma vez que sou um tanto quanto cola, constroem, ao longo de sua história, modos de or- à utilidade da aplicação de teorias do desenvolvimento ganizar o real justamente de forma cm estudos comparativos de culturas. Assim, aquilo que No que se refere aos processos de modernização no tra- Luria interpreta como aquisição de novos modos de pen- balho, particularmente de implantação das fazendas co- samento, tenho tendência a interpretar como mudanças letivas no caso da região estudada por Luria, esses envol- na aplicação de modos previamente disponíveis aos pro- vem o planejamento de ações coletivas, a tomada de de- blemas particulares e contextos do discurso representa- cisões com base em critérios que ultrapassam as necessi- dos pela situação Entretanto, o valor des- dades e motivações individuais, a substituição daquilo que se livro não depende da nossa interpretação dos resulta- é circunstancial particular pelo que é previsível, geral dos de Luria. Como ele enfatiza em diversas passagens, e compartilhado. Essas características do modo de traba- o texto representa um projeto-piloto ampliado que ja- lho parecem propiciar a emergência de novas formas de mais poderá ser repetido. Será tarefa de outros pesquisa- funcionamento intelectual. dores, trabalhando naquelas partes do mundo em que É importante mencionar que as relações entre contex- ainda existem sociedades tradicionais, aperfeiçoar a in- terpretação desses achados". tos culturais e processos psicológicos superiores, estuda- 95 94A teoria da atividade de Leontiev A atividade de cada indivíduo ocorre num sistema de relações sociais e de vida social, onde o trabalho ocupa lugar central. A atividade psicológica interna do indivi- 56, (8). D duo tem sua origem na atividade externa: "[...] os pro- cessos mentais humanos (as psicológicas supe- riores') adquirem uma estrutura necessariamente ligada aos meios e métodos formados e transmitidos no processo de trabalho cooperativo e de interação social. [...] As atividades mentais internas emer- gem da atividade prática desenvolvida na sociedade hu- mana com base no trabalho, e são formadas no curso da ontogênese de cada pessoa em cada nova Os processos psicológicos do indivíduo, internalizados a partir de processos interpsicológicos, passam a a ativi- dade do sujeito no mundo, numa interação constante en- tre o psiquismo e as condições concretas da existência do homem. Leontiev analisa a estrutura da atividade humana, dis- tinguindo três níveis de funcionamento: a atividade pro- priamente dita, as ações e as operações. Um exemplo dado por Leontiev explicita esses níveis de funcionamento: 210, (8). "Quando um membro de um grupo realiza sua ativida- de de trabalho ele o faz para satisfazer a uma de suas ne- Um batedor, por exemplo, que toma parte de uma caçada coletiva primitiva, foi estimulado pela ne- cessidade de alimento ou, talvez, pela necessidade de ves- timenta, que a pele do animal morto satisfaria para ele. Alexei Nikolaievich Leontiev Mas a que sua atividade estava diretamente orientada? (1904-1979) Poderia estar orientada, por exemplo, para afugentar um bando de animais e encaminhá-los na direção de outros caçadores tocaiados. Isso, na é o resultado da Juntamente com Luria, A. N. foi um dos co- laboradores mais próximos de Vygotsky, tendo trabalha- apenas dois artigos de Leon- atividade desse homem. E a atividade desse membro in- do diretamento com ele no projeto de construção da "no- publicados no Brasil: dividual da caçada termina O restante é completado contribuição à teoria do desenvol- pelos outros membros. Por si só, esse resultado a fuga va psicologia" na Rússia Sua teoria vimento da psique infantil' e da caça, etc. não leva, e não pode levar, à satisfação da atividade pode ser considerada um desdobramento dos "Os psicológicos da da necessidade de comida ou de vestimenta. Conseqüen- postulados básicos de Vygotsky, especialmente no que diz brincadeira ambos temente, os processos da atividade do batedor estavam respeito à relação homem-mundo enquanto construída na desen- volvimento e aprendizagem e direcionados a algo que não coincidia com o que os esti- historicamente e mediada por instrumentos. ambos originalmente publicados mulou, isto não coincidia com o motivo de sua ativi- As atividades humanas são consideradas por Leontiev, num de seus principais livros, dade; os dois estavam separados nesse exemplo. Aos pro- como formas de relação do homem com o mundo, diri- Problems of the development of cessos cujo objeto e motivo não coincidem chamaremos gidas por motivos, por fins a serem alcançados. A idéia the mind (1981). Este livro traduzido por uma editora portu- Podemos dizer, por exemplo, que a atividade do de atividade envolve a noção de que o homem guesa com o título desenvolvi- batedor é a caçada e o afugentar do animal, sua se por objetivos, agindo de forma intencional, por meio mento do psiquismo. tam- de ações planejadas. A capacidade de conscientemente Atividade e ação para Leontiev um livro traduzido para Vemos nesse exemplo como a atividade uma forma formular e perseguir objetivos um traço que distingue o conscien- complexa de relação homem-mundo, que envolve fina- o homem dos outros cia y personalidad. lidades conscientes e atuação coletiva e cooperativa. A ati- 96 97vidade é realizada por meio de ações dirigidas por me- sem sentido, absurda até, considerando que seu objeti- tas, desempenhadas pelos diversos indivíduos envolvidos é obter alimento. Mas sua ação passa a ter significado na atividade. O resultado da atividade como um todo, quando analisada como parte integrante de uma ativi- que satisfaz à necessidade do grupo, também leva à sa- dade coletiva, com função definida num sistema de coo- tisfação das nccessidades de cada indivíduo, mesmo que peração social que conduz à obtenção daquele resultado. cada um tenha se dedicado apenas a uma parte específi- Como a atividade humana, resultado do desenvolvi- ca da tarefa em questão. mento é internalizada pelo indivíduo e O terceiro nível da atividade humana postulado por vai constituir sua consciência, seus modos de agir e sua Leontiev, o nível das operações, refere-se 20 aspecto prá- Operações, para Leontiev forma de perceber o mundo real, a compreensão do con- tico da realização das ações, às condições em que são efe- texto cultural no qual ela ocorre é essencial para a com- tivadas, aos procedimentos para "além de seu A LEONTIEV, (27). preensão dos processos psicológicos. Conforme se trans- aspecto intencional (o que deve ser realizado) a ação tam- forma a estrutura da interação social ao longo da bém inclui seu aspecto operacional (como, de que modo ria, a estrutura do pensamento humano também se trans- pode ser realizada), o qual é determinado não pela meta em si, mas pelas condições objetivas (ambientais) para Podemos reconhecer, na teoria da atividade de Leon- sua realização. [...] A esses modos de desempenhar uma tiev, vários conceitos presentes nas principais formulações ação chamo de operações" de Vygotsky. A própria idéia da atividade baseia-se na Uma mesma atividade humana pode ser desempenha- concepção do ser humano como sendo capaz de agir de da por meio de diferentes cadeias de ações: a atividade forma voluntária sobre o mundo, intencionalmente bus- de caça pode envolver as ações de afugentar os animais cando atingir determinados fins. Esse modo de funcio- e emboscá-los, como no exemplo mencionado anterior- namento psicológico é a base dos processos psicológicos mente, ou as ações de construção de armadilhas e poste- superiores tipicamente humanos. Os processos superio- rior matança dos animais que nelas caem, ou ainda as res envolvem, necessariamente, relações entre indivi- ações de colocação de alimentos em determinado local duo e o mundo, que não são diretas, mas mediadas pela para atrair animal posterior espera do animal cevado. cultura. A interação social é fundamental para o desen- Da mesma forma, uma ação pode ser desempenhada por volvimento das formas de atividade de cada grupo cul- meio de diferentes operações: abate de um animal po- tural: o indivíduo internaliza os elementos de sua cultu- de ser realizado por golpes de bastão, flechadas, tiros de construindo seu universo intrapsicológico a partir do arma de fogo, etc. mundo externo. Uma abordagem genética e contextua- É interessante fazer um paralelo entre essa abordagem Esse paralelo é discutido por lizada dos processos psicológicos do ser humano é fun- de Leontiev e a noção de "sistemas funcionais" na neu- Werscht, importante damental para a compreensão de seu funcionamento en- ropsicologia de Luria: em ambos os casos, está presente do pensamento dos nos quanto ser a idéia de que uma determinada função ou finalidade Estados em seu livro conccito de atividade na psicolo- pode ser rcalizada de muitas maneiras diferentes, depen- gia (29), sem tradução dendo das condições objetivas e das práticas culturais es- para tabelecidas. O funcionamento do ser humano não po- de, pois, ser compreendido sem referência ao contexto em que ocorre. A atividade humana é tomada como a unidade de lise mais adequada para a compreensão de processos psi- cológicos porque inclui tanto o indivíduo como seu am- biente, culturalmente definido. A ação individual em si é insuficiente como unidade de análise: sem inclusão num sistema coletivo de atividade, a ação individual fica des- tituída de significado. O batedor que afugenta a caça, olhado isoladamente, parece estar realizando uma ação 98 99

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