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Idealismo alemão Você vai compreender a escola filosófica do século XIX, que emergiu como uma resposta às questões colocadas pela modernidade cartesiana e iluminista, conhecida como idealismo alemão, e caracterizada pela crítica ao concreto. O niilismo presente nas obras de Nietzsche e Schopenhauer representa a resposta da intelectualidade alemã aos desafios teóricos e práticos da modernidade. O idealismo alemão teve desdobramentos significativos no pensamento do século XX, influenciando diversas áreas da filosofia e das ciências humanas. Prof. Rodrigo Perez Oliveira 1. Itens iniciais Propósito Abordar o idealismo alemão a partir de uma perspectiva menos rígida cronologicamente e menos dependente das biografias dos “grandes autores”, buscando compreender como o pensamento idealista alemão respondeu aos desafios lançados pela modernidade cartesiana e iluminista. Este estudo visa destacar a relevância e o impacto desse movimento filosófico na resposta aos desafios intelectuais do período. Objetivos Categorizar o idealismo alemão a partir de seu diálogo com a tradição iluminista. Identificar as teses do idealismo alemão no niilismo de Schopenhauer e Nietzsche. Reconhecer os desdobramentos do idealismo alemão no século XX. Introdução Geralmente, as famílias intelectuais são construções feitas posteriormente por estudiosos interessados em entender determinada forma de pensamento, que atribuem a escritores do passado identidades intelectuais manifestadas na forma de “ismos”. Essas identidades intelectuais não estavam disponíveis na época em que os autores estudados viveram. Tal procedimento é muito comum nos estudos em história da filosofia. Assim, Marx e Engels se tornam autores do marxismo, Francis Bacon é vinculado ao racionalismo, e Platão e Aristóteles são fundadores do classicismo. Mais interessante seria tentar entender como esses autores responderam aos dilemas de seus respectivos tempos, reconstruindo, na medida do possível, as questões que provocaram seus esforços de pensamento. Todo pensamento é um ato social em diálogo com outros atos sociais e, como tal, deve ser tratado para que não caiamos na tentação de cultuar autores, endossando a máxima: “Fulano estava à frente do seu tempo”. Todos estamos dentro do nosso tempo, que sempre é plural, heterogêneo e permite diversas manifestações do pensamento. É a partir dessa perspectiva que estudaremos o idealismo alemão, fazendo o esforço de tratá-lo mais como um conjunto de respostas aos dilemas da modernidade ocidental do que como uma corrente filosófica rígida, claramente delimitada. Vamos conferir como o idealismo alemão, surgido da desconfiança nas promessas iluministas, moldou a filosofia moderna e influencia nossas concepções atuais de poder e conhecimento. Podcast Vamos conferir como o idealismo alemão, surgido da desconfiança nas promessas iluministas, moldou a filosofia moderna e influencia nossas concepções atuais de poder e conhecimento. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para ouvir o áudio. • • • 1. Idealismo alemão e tradição iluminista A herança iluminista O filósofo norte-americano Josiah Royce é autor de um estudo fundamental sobre o idealismo alemão. Para Royce, essa corrente de pensamento se constitui entre a publicação do livro Crítica à razão pura, o texto mais conhecido da obra de Kant, em 1781, e a morte de Hegel, em 1831. Vejamos o que diz Royce sobre esse período de 50 anos. Produziu-se um pensamento revolucionário que impactou todo o futuro da filosofia, pavimentando o caminho para Marx e Kierkegaard, assim como para o existencialismo, para a teoria crítica e para o pós-estruturalismo. (Royce, 1967, p. 32) O autor ainda argumenta que quatro autores podem ser definidos como os principais representantes do idealismo alemão: Immanuel Kant (1724-1804) Johann Fichte (1762-1814) Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) Friedrich Schelling (1775-1854) Para compreender melhor as teses do idealismo alemão, é importante entender a utopia iluminista, que prometia que a razão seria o motor do progresso humano. No livro A modernização dos sentidos, o historiador alemão Hans Ulrich Gumbrecht fala sobre a experiência histórico-cultural da modernidade. Segundo o autor, o termo moderno deriva do latim hodiernus, que é usado desde a antiguidade para designar um tempo presente que se entende como diferente do passado. A grande novidade existencial trazida pela história europeia foi a radicalização desse sentimento de ruptura com o passado. A partir do século XVI, o presente começou a se desvincular cada vez mais do passado. O acúmulo das experiências humanas ao longo do tempo deixou de servir como fonte de exemplo para a ação contemporânea. No século XIX, o político e escritor francês Alexis de Tocqueville testemunhou com precisão esse sentimento moderno de ruptura. Embora a revolução no estado social, nas leis, nas ideias e nos sentimentos dos seres humanos estivesse longe de terminar, ele observou que já não era possível comparar suas obras com nada do que foi visto anteriormente no mundo. Observe! • • • • Remonto de século em século até a Antiguidade mais remota: não percebo nada que se pareça com o que está diante dos meus olhos. Como o passado não ilumina mais o futuro, o espírito caminha em meio às trevas. (Tocqueville, 2005. p. 399) Podemos perceber um tom melancólico nas palavras de Tocqueville, especialmente em sua crítica às democracias de massa criadas na modernidade. No entanto, essa melancolia tocquevilliana é uma exceção no contexto mais amplo do pensamento moderno, que geralmente era bastante otimista em relação às transformações modernas. Aquilo que hoje chamamos de Iluminismo reuniu esse otimismo moderno entre os séculos XVIII e XIX, depositando suas esperanças de realização do progresso da humanidade na razão e na ciência (Cassirer, 1997). Um dos iluministas que destacam fortemente o papel da educação e sua organização, Marie Jean Antoine Nicolas de Caritat, o marquês de Condorcet, manifestou essa perspectiva otimista da história, uma visão compartilhada, em certa medida, por outros "escritores iluministas", como Voltaire, D’Alembert e Diderot. Vivemos uma era única na história humana, uma era de progresso, de avanço, de império da razão. As nossas esperanças quanto à condição futura da espécie humana podem se reduzir a estes três pontos importantes: a destruição da desigualdade entre as nações; os progressos da igualdade num mesmo povo; e, finalmente, o aperfeiçoamento real do homem. (Condorcet, 1995. p. 12) Aquele era um momento de intenso desenvolvimento científico. A Revolução Industrial trouxe novidades técnicas que potencializaram a capacidade de produção a níveis nunca vistos. Novas tecnologias de transporte e comunicação encurtaram a distância. A colonização da América dava aos europeus a certeza de que estavam universalizando as luzes da razão. A revolução médica aumentou a expectativa e a qualidade de vida, pelo menos para as elites, aqueles setores da sociedade em que a intelectualidade é recrutada. Entretanto, esse ambiente cultural otimista encontrou também seus críticos, que desconfiavam do potencial emancipatório da razão. Entre esses, destaca-se o filósofo britânico David Hume (1711-1786). Em grande medida, o idealismo alemão foi inspirado no ceticismo de Hume (Dudley, 2007). O ceticismo de Hume Os escritos de Hume são interpretados por diversos estudiosos desde o século XIX, com a maioria destacando a importância do ceticismo na compreensão filosófica desenvolvida pelo autor. Veja como Robert Fogelin define o ceticismo de Hume. Um cético filosófico lida com argumentos e, em particular, os argumentos que põem em questão os supostos fundamentos para algum sistema de crenças. O sistema de crenças pode ser mais ou menos amplo, e a forma do desafio cético pode variar de acordo com o assunto. (Fogelin, 2007, p. 21) O ceticismo de Hume tem como objeto o sistema de crenças iluminista, fundado no culto à razão. Seu principal projeto filosóficoA literatura de Franz Kafka A metamorfose A metamorfose e o idealismo alemão Conteúdo interativo O processo O castelo De Freud à pós-modernidade A herança do idealismo alemão Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 4. Conclusão Considerações finais Conteúdo interativo Explore + Referênciasconsiste em denunciar a ausência de fundamentos racionais nessa crença, argumentando contra sua adoção. A crítica de Hume não se restringe ao âmbito da filosofia pura; ela também possui objetivos políticos, visando enfraquecer a influência do pensamento iluminista sobre o senso comum. Tanto na vida comum como na prática científica, é preciso limitar nossas investigações a nossas faculdades limitadas e, nessas investigações modestas, sempre se devem ajudar nossas crenças e probabilidades com bases na experiência. (Hume, 2013, p. 21) Desde o século XVI, vinha se processando na Europa uma mudança epistemológica estrutural que alguns autores costumam chamar de revolução cartesiana. Conheça alguns aspectos dessa revolução! 1 Cognição humana A revolução cartesiana implodiu o preceito epistemológico medieval, segundo o qual o conhecimento humano era sempre incompleto e lacunar, cabendo apenas a Deus o conhecimento total e perfeito. A modernidade cartesiana/iluminista acabou com a limitação preliminar que a episteme medieval impunha à cognição humana. 2 Insuficiência metodológica A partir da revolução cartesiana, qualquer eventual incapacidade de conhecimento se justifica pela insuficiência metodológica, e não pelo mistério divino. Hume confronta exatamente essa ambição cognitiva iluminista. Portanto, seu ceticismo assume a forma de uma advertência que destaca os limites cognitivos humanos. 3Ceticismo humano Ao negar a certeza iluminista, Hume não está rejeitando completamente toda possibilidade de conhecimento. Ele destaca que todo conhecimento possui uma dimensão de probabilidade, pois a própria inteligência humana é incapaz de alcançar o conhecimento perfeitamente verdadeiro. Immanuel Kant se apropriou do ceticismo de Hume para formular as bases da corrente de pensamento que seria conhecida como idealismo alemão. De Hume ao Iluminismo: as bases da Modernidade Neste vídeo, falaremos sobre como o ceticismo de Hume e o iluminismo contribuíram para a formação do idealismo alemão. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Kant e a crítica à razão pura Uma das principais características do pensamento filosófico é a abstração, o que, muitas vezes, dificulta nossa compreensão. Uma solução para tornar o texto filosófico mais compreensível é reconstruir a concretude das experiências que lhe deram vida em seu contexto social original. No que se refere ao pensamento de Kant, foi fundamental a leitura dos textos de Hume. Foi no ato de leitura e apropriação do ceticismo de Hume que Kant construiu as formulações que, mais tarde, inspirariam outros autores que passariam a ser reconhecidos como representantes do idealismo alemão. No tratado Os prolegômenos a toda metafísica futura, publicado em 1883, Kant vê o conceito humano de causa como um “bastardo da imaginação”, como filho ilegítimo da cognição moderna, que, na contramão das inclinações metafísicas, tão caras ao Iluminismo, apelou para a experiência como instância mediadora do conhecimento. Segundo Kant, Hume apresentou colaboração imprescindível para o mesmo pensamento moderno, apresentando uma espécie de regulação capaz de mitigar os exageros da imaginação metafísica, demonstrando que a razão não pode pensar a priori a partir de conceitos de relação causa e efeito (Monteiro, 1993). Hume demonstrou de forma irrefutável, e ousada, que a razão não opera de maneira completamente independente das circunstâncias, interrompendo, assim, o dogmatismo inerte e dando uma direção completamente diferente às minhas pesquisas no campo da filosofia especulativa. (Kant, 2012, p. 56) Ao questionar o procedimento dedutivo do Iluminismo francês, Hume abriu caminhos para a legitimação de um procedimento indutivo que, ressonado por Kant, iria tornar-se fundamental para o pensamento moderno. Dedução significa elaborar uma teoria do plano da imaginação, ou da “metafísica pura”, como diria Kant, e aplicá-la ao “mundo fenomênico”, ao plano das coisas concretas. Na avaliação de Hume, endossada por Kant, o Iluminismo francês é exclusivamente dedutivo e, por isso, frágil. Já o procedimento indutivo opera pela via contrária. O plano fenomênico é tratado como a base apriorística incontornável para a elaboração metafísica. Em termos mais simples e diretos: somente é possível teorizar depois de um cuidadoso exame da realidade concreta. Não se trata de negar a elaboração metafísica, mas condicioná-la à experiência, não a considerando um fim em si, como exercício de pura especulação. Esse é o fio central da filosofia de Kant, sendo o fundamento argumentativo das suas principais obras, A crítica à razão pura e a Fundamentação da metafísica dos costumes, publicadas, respectivamente, em 1781 e 1785. Nos dois textos, fica bem clara a impossibilidade, para Kant, de um conhecimento a priori, produzido pela pura razão, uma metafísica completamente independente dos costumes. Assim diz Kant em A crítica à razão pura. Vamos analisar! Não possuímos o mínimo conceito a priori de como algo possa ser mudado, de como seja possível que um estado, em um dado momento do tempo, possa suceder outro estado em um outro momento do tempo. Para tanto, é necessário o conhecimento de forças reais, que só podem ser dadas empiricamente, por exemplo; das forças motrizes, ou, o que é indiferente, de certos fenômenos sucessivos (enquanto movimentos) que tais forças indicam. [...] Não há dúvida de que todo nosso conhecimento se inicia com a experiência [...], nenhum conhecimento precede a experiência e todo conhecimento começa por ela. (Kant, 2011, p. 65) Se é inegável que o empirismo de Hume exerceu uma influência crucial sobre Kant e o idealismo alemão, seria simplista considerar que a apropriação de Hume por Kant foi apenas de forma elogiosa. A relação entre esses filósofos vai além de meros louvores, e as críticas de Kant a Hume desempenham um papel igualmente significativo no desenvolvimento posterior do idealismo alemão (Dudley, 2007). A discordância central reside no conceito de "causa" de Hume, em que Kant percebe uma visão ingênua e fetichizada da experiência, como se esta pudesse ocorrer de forma pura, independente de qualquer elaboração conceitual prévia. Veja! Perder-se-ia completamente o tal conceito de causa, se quisesse derivá-lo, como Hume o fez, de uma frequente associação daquilo que acontece com aquilo que o antecede e do hábito daí decorrente de conectar representações. Ao invés disso, o mais correto seria formular um conceito a priori capaz de iluminar as experiências, não necessariamente enquadrando-as em uma rigidez conceitual metafísica, mas, ciente da artificialidade cognitiva da elaboração intelectual, trata o conceito com via essencial, e irremediável, de acesso à experiência. (Kant, 2011, p. 43) Kant se apropria do empirismo humeano, pois vê um caminho crítico ideal para confrontar a metafísica pura do Iluminismo francês, que “trata a realidade como se fosse mera equação matemática, matéria a ser enquadrada e violada pela razão” (Kant, 2011, p. 42). É exatamente esse esforço de Kant em encontrar um meio-termo entre a razão pura do Iluminismo francês e a ortodoxia empirista humeana, entre a pura abstração e a total rejeição da teorização, que se tornou o fio Johann Fichte. condutor da tradição de pensamento que hoje chamamos de idealismo alemão, podendo ser encontrado também nos textos de outros de seus principais representantes: Fichte, Hegel e Schelling. Fichte, leitor de Kant Trinta anos mais jovem que Kant, Johann Fichte tinha à sua disposição a obra daquele que é considerado o pai do idealismo alemão. É importante analisar com atenção a leitura que Fichte fez de Kant para entender os desdobramentos do idealismo alemão para além da crítica kantiana. O problema da subjetividade cognoscente é central no pensamento filosófico moderno, fundamentado no esforço de compreender as condições humanas e a subjetividade no conhecimento da realidade. A filosofia moderna, portanto, não trata a subjetividade como mero ponto de partida parao conhecimento, mas se preocupa com seus dispositivos próprios e suas estruturas internas. A construção do sujeito do conhecimento e a maneira como ele tenta conhecer a realidade foram temas centrais para os filósofos modernos, que apresentaram diversas soluções para esse problema. É nesse contexto que podemos identificar o diálogo de Fichte com a obra de Kant (Rockmore, 2013). Kant se apropriou parcialmente do ceticismo de Hume ao afirmar que a experiência é o ponto de partida para a produção de todo conhecimento. Segundo Kant, não existe um estado racional puro, imune a qualquer influência ordinária, no qual o sujeito cognoscente pudesse se inserir para pensar a realidade idealmente. Para Kant, os homens estão no mundo, representando a si mesmos em seus esforços de representar a realidade. Em termos mais claros, o sujeito se constrói como sujeito de conhecimento ao longo de sua vida, sensibilizado pelas experiências que marcam sua trajetória. Ao produzir conhecimento, o sujeito representa tanto a realidade observada quanto o repertório de experiências que o constitui. Portanto, o conhecimento é duplamente representacional. Fichte se apropria, também parcialmente, dessa elaboração kantiana em seus principais textos: os livros Sobre o espírito e a letra na filosofia e A Doutrina da Ciência, publicados, respectivamente, em 1794 e 1795. O conceito de estado de ação é fundamental na teoria fichteana, que é, ao mesmo tempo, tributária e crítica à discussão kantiana. A teoria de Fichte é tributária porque ele também nega o idealismo puro do Iluminismo francês, que supõe a existência de ideias desencarnadas, sem sujeitos. Vamos entender a diferença entre o sujeito na teoria desses filósofos. Acompanhe! Como podemos perceber, Kant e Fichte rejeitam a metafísica pura, que supõe a possibilidade de ideias autônomas, desencarnadas. Ambos chamam atenção para o fato de que as ideias só existem a partir da ação subjetiva. Kant e Fichte: a fundação do idealismo alemão Neste vídeo, vamos entender a importância do pensamento de Kant e de Fichte para a fundação do idealismo alemão. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. De Schelling a Hegel A filosofia da natureza e da religião Vamos entender o que é chamado de natureza. Enquanto Fichte e Kant estavam especialmente preocupados com a subjetividade cognoscente, Schelling foca o objeto dessa subjetividade, que ele chama de natureza. O projeto da filosofia de Schelling era corrigir a dicotomia entre natureza e espírito, conforme a definição recorrente de Aristóteles que divide o conhecimento entre física (natureza) e metafísica (pensamento). No alemão, espírito se aproxima de Kultur, não se referindo à ideia de algo espectral nem à cultura no sentido ocidental. Esse foi o principal erro da modernidade filosófica inaugurada por Descartes. Sujeito kantiano É o resultado do acúmulo de experiências. Todas as vivências, desde a infância, os professores, até frustrações afetivas inconscientes, influenciam sua filosofia. Ao produzir sua filosofia, o filósofo representa a si mesmo como um conjunto de experiências. O conhecimento gerado é duplamente representacional: reflete tanto a realidade analisada quanto o sujeito, cuja subjetividade é moldada por um repertório de experiências. Essas experiências formam a ideia com a qual o sujeito se debruça sobre a realidade. Sujeito fichteano É o resultado da ação epistemológica original, quando o sujeito conscientemente se torna um sujeito de conhecimento. O conhecimento produzido pelo filósofo hipotético é afetado apenas pelas experiências vividas durante a racionalização epistêmica. O que realmente importa é o momento em que, ao se descobrir filósofo, ele se debruça sobre determinada realidade. Esse é o momento que Fichte chama de estado de ação, quando o sujeito reconhece sua posição como sujeito do conhecimento. Aristóteles Descartes O pensamento cartesiano partia da premissa de que o conhecimento era construído a partir de uma separação vertical entre sujeito e objeto, espírito e natureza. Descartes, com seu Cogito ergo sum – Penso, logo existo – fundamentou essa separação, diferenciando a ação no mundo da ação pessoal, e destacando a capacidade do sujeito de construir seu pensamento. A partir da premissa cartesiana, o sujeito faria uma intervenção metodológica sobre o objeto, sendo o conhecimento produzido derivado do método. O objeto, a natureza, apenas se deixaria explorar, pois Descartes não reconhecia a possibilidade de a natureza resistir à exploração. Na episteme cartesiana, a natureza, o objeto, é sempre passivo. É essa visão que Schelling critica e, nessa crítica, reside a originalidade de sua obra (Coelho, 2018). Para Schelling, o significado de natureza não consiste, necessariamente, em florestas, mares, fauna e flora. Natureza é toda a realidade que se torna objeto da intervenção filosófica. Esse foi o argumento que Schelling desenvolveu nos livros Ideias para a filosofia da natureza e Da alma e do mundo, publicados, em 1797 e 1798. A partir do momento em que o ser humano coloca a si mesmo em oposição com o mundo exterior, é dado o primeiro passo para a filosofia. Com esta separação, começa pela primeira vez a racionalização; a partir daí, o ser humano separa aquilo que a natureza uniu para sempre, ele separa o objeto da intuição, os conceitos da imagem e, por fim, ele mesmo de si mesmo. Esse foi o primeiro ato de decadência moral da humanidade, impulsionada pela tentativa pretenciosa de domesticar a natureza, como se houvesse nela razão própria e indomesticável. A natureza não é um mero produto de uma criação inconcebível, ela é, ao contrário, essa própria criação. Não é uma aparição ou revelação do eterno. Ela é, ao mesmo tempo, esse próprio eterno. (Schelling, 2010, p. 48) Para Schelling, o pensamento cartesiano marca a "primeira decadência moral" da humanidade. Ele acredita que esse pensamento tentou separar de forma radical o espírito (sujeito cognoscente) da natureza (objeto), transformando a natureza em um objeto passível de manipulação pelo espírito. Segundo essa visão, a natureza seria destituída de razão, completamente destituída de significado, enquanto o espírito seria o único detentor da razão. Schelling levanta duas críticas ao argumento cartesiano: Questiona a real possibilidade de separação entre espírito e natureza, sujeito e objeto. Contesta a premissa de que a natureza, enquanto objeto, é passiva e não influencia o conhecimento que se tem dela. Natureza e espírito, sujeito e objeto, segundo Schelling, são indissociáveis. Ele argumenta que ao tentarmos compreender a realidade, o sujeito já está sendo influenciado pela própria realidade. Para Schelling, a realidade é a força organizadora da vida, a autoridade que regula todas as possibilidades de conhecimento. Portanto, a noção cartesiana de um sujeito cognoscente separado da natureza é não só pretensiosa, mas também ingênua. • • Georg Wilhelm Friedrich Hegel Comentário Na filosofia da natureza de Schelling, uma dimensão teológica está presente, pois ele considera que, em última instância, natureza é equivalente a Deus. No entanto, a concepção de divindade de Schelling difere significativamente do monoteísmo típico, como no cristianismo ou no islamismo, por exemplo (Coelho, 2018). Schelling adota uma visão panteísta, na qual Deus está imanente em todas as coisas. A manifestação de Deus no mundo, na visão de Schelling, é inata e se manifesta através da natureza, independentemente da consciência humana. Quando a inteligência humana reconhece a presença divina em todas as coisas, ela alcança plena liberdade. Schelling argumenta que é essa comunhão com a presença divina que capacita o ser humano a compreender as coisas do mundo. As religiões, para Schelling, funcionam como formas pelas quais as pessoas buscam conscientizar-se da presença divina em tudo. Assim, a filosofia da natureza se entrelaça com a filosofia da religião (Coelho, 2018). Nos escritos de Schelling, percebe-seuma preocupação em demonstrar que o processo de construção do conhecimento não é meramente ideal, ou seja, não se limita à manifestação de uma metafísica pura e desencarnada. Enquanto Kant e Fichte priorizavam a análise do sujeito (espírito), Schelling adotou uma abordagem diferente, enfatizando a racionalidade intrínseca ao objeto (natureza). A próxima etapa dessa discussão é observar como Hegel se posicionou a respeito. A fenomenologia do espírito e a filosofia do direito Nos manuais de história da filosofia, há um relativo consenso de que Hegel seja o grande representante do idealismo alemão, aquele que melhor teria sistematizado as diretrizes gerais dessa corrente filosófica. Mas por que exatamente Hegel é considerado o principal representante do idealismo alemão? A resposta pode residir no imenso esforço que Hegel dedicou à leitura e assimilação das obras dos outros filósofos idealistas. Entre os pensadores alemães dessa corrente, nenhum outro foi tão meticuloso na sua interação com os colegas quanto Hegel (Kervergan, 2007). A interlocução de Hegel com os outros idealistas é evidente, por exemplo, em seu conceito de realidade como espírito, que se desenvolveu a partir da leitura das obras de Fichte e Schelling. Seguindo a mesma linha, Hegel também criticou a dicotomia cartesiana entre espírito versus natureza/sujeito versus objeto, atribuindo à natureza uma racionalidade própria e uma capacidade de influenciar o conhecimento produzido sobre ela. Essa é a tese central de sua principal obra, a Fenomenologia do espírito, publicada em 1807. Segundo Hegel: “a natureza pensada, embora permaneça a mesma em si, encontra-se em dois estados diferentes e opostos. Primeiro, no estado de natureza concreta no real individual, como a natureza animal neste cão. Segundo, no estado de natureza abstrata na ideia universal, como no conceito de animalidade. A natureza do ser, permanecendo o que é, pode identificar-se efetivamente com modos de ser diversos e exclusivos ao mesmo tempo e sem contradição, porque em si mesma é indiferente. Por exemplo, é indiferente ao infinito e ao finito, à vida e à morte; para ser, não é necessário ter a vida nem excluí-la, mas pode exigi-la (se é uma árvore, por exemplo) ou excluí-la (se é uma pedra).” O estado ideal ou abstrato dessa natureza do ser, ou seja, o que lhe convém como pensada por nós, permite- lhe essa indiferença, que não pode ter se a considerarmos no seu estado real, no ser atualmente existente. Tudo na natureza é inteligível para o ser que, idêntico em seu fundo com o espírito ou a ideia infinita, manifesta-se no universo concreto graças ao movimento dialético: tese, antítese, síntese (Hegel, 2010, p. 71). Tal como Schelling, Hegel define a natureza de uma perspectiva panteísta. A natureza está presente em todos os lugares, até mesmo no espírito, entranhada na subjetividade cognoscente. Entender a realidade como espírito, segundo a filosofia de Hegel, é vê-la não apenas como substância, mas também como sujeito. Isso significa pensar na realidade como um processo, como movimento, e não apenas como uma coisa (substância). Como já sabemos, essa é a contribuição de Schelling. Hegel, porém, dá um passo adiante ao elaborar metodologicamente como essa relação entre o espírito e a natureza deve ocorrer. Vamos conferir como ocorre esse movimento dialético! Tese Quando o sujeito cognoscente experimenta a natureza e faz uma afirmação, ele não apenas observa, como sugere a cartilha cartesiana, criando assim a tese. Antítese Quando a própria realidade reage, pois, diferente do processo cartesiano, no processo epistemológico hegeliano ela não é passiva naquilo que ele chama de antítese. Síntese Quando o espírito, o sujeito cognoscente, responde à reação, adaptando sua tese ao contraditório natural, criando, assim, a síntese. O processo cognitivo, na perspectiva hegeliana, é marcado pela relação tensa e complementar entre sujeito e objeto, entre espírito e natureza. Essa abordagem conclui a crítica ao cogito cartesiano e à metafísica pura do Iluminismo francês, caracterizando o idealismo alemão (Kervergan, 2007). Mais adiante estudaremos os desdobramentos das teses do idealismo alemão nas gerações posteriores aos primeiros idealistas. Veremos como Arthur Schopenhauer (1788-1860) e Friedrich Nietzsche (1844-1900) se apropriaram do núcleo central do pensamento idealista alemão para desenvolver uma abordagem filosófica que, posteriormente, seria conhecida como "niilista". É na recepção dessas teses que essa tradição foi sendo criada, a ponto de, hoje, ser lição obrigatória em todo estudo sobre a história da filosofia moderna. Schelling, Hegel e o fortalecimento do idealismo alemão Neste vídeo, vamos explorar por que o pensamento de Schelling e Hegel é considerado o auge do idealismo alemão. Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A modernidade iluminista é marcada por um sentimento hegemônico que pode ser encontrado nos escritos de autores como Marquês de Condorcet, Voltaire e Diderot. Assinale a alternativa que melhor define esse sentimento hegemônico. A O sentimento hegemônico no Iluminismo foi a melancolia, pois os pensadores iluministas estavam convencidos de que a Idade Média havia sido o apogeu do progresso humano. B O sentimento hegemônico no Iluminismo foi a nostalgia, pois os pensadores iluministas estavam convencidos de que a Antiguidade havia sido o apogeu do progresso humano, um legado considerado irrecuperável. C O sentimento hegemônico do Iluminismo foi a religião, pois os pensadores iluministas estavam convencidos de que o catolicismo medieval era o apogeu da cultura humana e, por isso, deveria ser preservado. D O sentimento hegemônico no Iluminismo foi o otimismo, pois os pensadores iluministas estavam convencidos de que viviam um momento de aceleração a história rumo ao progresso. E O sentimento hegemônico no Iluminismo foi o pessimismo, pois os pensadores iluministas estavam convencidos de que o período das trevas demoraria a ser superado. A alternativa D está correta. O Iluminismo foi marcado por um ambiente de intenso desenvolvimento tecnológico e ampliação das fronteiras europeias, o que fez com que a intelectualidade da época tendesse a verbalizar um sentimento de otimismo e crença no potencial da razão científica em conduzir o progresso da humanidade. Questão 2 O pensamento filosófico de David Hume é marcado pelo ceticismo. Assinale a alternativa que melhor define o ceticismo de Hume. A O ceticismo de Hume tinha a religião católica como alvo, o que nos permite dizer que se relaciona ao ateísmo do autor. B O ceticismo de Hume tinha a crença iluminista no potencial emancipatório da razão como algo, o que nos permite dizer que se relaciona a um projeto filosófico e político de esvaziamento da hegemonia iluminista. C O ceticismo de Hume tinha dimensão política e defendia a ideia de que a monarquia era incapaz de garantir a paz social, devendo, por isso, ser substituída pela democracia. D O ceticismo de Hume tinha dimensão cultural e questionava a capacidade da civilização ocidental em instaurar a paz universal. E O ceticismo de Hume, ao trazer a dimensão de probabilidade como característica do saber, reforçou a ambição cognitiva que marcou o pensamento iluminista. A alternativa B está correta. Hume questionou a ambição cognitiva característica do pensamento iluminista, afirmando a dimensão de probabilidade que caracteriza todo saber. 2. Idealismo alemão sob a ótica de Schopenhauer e Nietzsche O niilismo em Schopenhauer Como vimos, em sua origem, com Kant, Fichte, Schelling e Hegel, o idealismo alemão não era exatamente uma corrente de pensamento, mas um conjunto de respostas às questões levantadas pela modernidade cartesiana/iluminista. Especialmente, essas respostas tratavam da dicotomia cartesiana entre sujeito e objeto e da crença iluminista na possibilidade de uma racionalidade pura e emancipatória. Enquanto a modernidadehegemônica francesa prometia progresso e o domínio da razão por volta do século XVIII, alguns alemães expressavam desconfiança e formulavam um idealismo alternativo. Essa crítica perdurou no século XIX, sendo radicalizada por escritores como Schopenhauer e Nietzsche. Niilismo é um conceito filosófico que remete à formulação do mundo contemporâneo, buscando intensamente romper com a naturalização de valores considerados como componentes do ser, como os valores morais, as verdades do mundo e os exercícios de verdade. O niilismo é o exercício do nada, a marcha para o abismo, sendo vinculado ao pessimismo. Poucos autores desconfiaram mais da crença francesa no potencial emancipatório da razão que Arthur Schopenhauer, autor do livro O mundo como vontade e representação, publicado pela primeira vez em 1818. As categorias vontade e representação são centrais na sua filosofia. Vamos entender melhor cada uma dessas categorias nas palavras do próprio autor. Veja! Vontade "Imaginemos que a humanidade fosse transportada a um país utópico, onde os pombos voem já assados, onde todo o alimento cresça do solo espontaneamente, onde cada homem encontre sua amada ideal e a conquiste sem qualquer dificuldade. Ora, nesse país, muitos homens morreriam de tédio ou se enforcariam nos galhos das árvores, enquanto outros se dedicariam a lutar entre si e a se estrangular, a se assassinar uns aos outros. Para a maioria dos homens, a vida não é outra coisa senão um combate perpétuo pela própria existência, que ao final será derrotada. Definitivamente, o homem não está programado para ser feliz." (Schopenhauer, 2013, p. 88). Representação “Todo objeto, seja qual for a sua origem, é, enquanto objeto, sempre condicionado pelo sujeito e, assim, essencialmente, apenas uma representação do sujeito.” Em outras palavras, tudo o que existe para mim é o que eu percebo a partir de formas a priori de consciência (tempo, espaço etc.). O real, enquanto coisa em si, é impenetrável a nosso conhecimento, que atinge apenas as representações. Essas representações se interpõem entre nós e o real como um véu que o encobre. Qualquer pretensão do espírito em se distanciar da natureza para visualizá-la em perspectiva não passa de um ato de ingenuidade arrogante elaborado pelos modernos na sua vã pretensão de serem melhores que os antigos." (Schopenhauer, 2013. P. 57). É a partir das categorias da vontade e da representação que Schopenhauer rejeita a promessa iluminista de que a razão seria o impulsionador do progresso e da felicidade humana. Schopenhauer argumenta que, na essência, tudo o que percebemos é uma representação condicionada pelo sujeito, enquanto o real permanece inacessível ao nosso conhecimento. Como ele afirma: Todo objeto, seja qual for a sua origem, é, enquanto objeto, sempre condicionado pelo sujeito e, assim, essencialmente, apenas uma representação do sujeito”. Em outras palavras, tudo o que existe para mim é o que eu percebo a partir de formas a priori de consciência (tempo, espaço etc.). O real, enquanto coisa em si, é impenetrável a nosso conhecimento, que atinge apenas as representações. Essas representações se interpõem entre nós e o real como um véu que o encobre. Qualquer pretensão do espírito em se distanciar da natureza para visualizá-la em perspectiva não passa de um ato de ingenuidade arrogante elaborado pelos modernos na sua vã pretensão de serem melhores que os antigos. (Schopenhauer, 2013, p. 57) Schopenhauer, partindo do ceticismo de Hume, refuta a possibilidade de o espírito se relacionar diretamente com a natureza, sem a mediação de seus próprios sentidos. Em sua filosofia, o sujeito do conhecimento sempre carrega consigo suas próprias representações ao tentar conhecer qualquer aspecto da realidade. Não há, na visão schopenhaueriana, o sujeito cognoscente universal cartesiano, que, destituído de subjetividade, apenas executa um procedimento metodológico. Todo conhecimento resulta das representações internalizadas no sujeito, traduzindo, antes de tudo, suas vontades inconscientes. Assim, a ciência e a razão, tão exaltadas no pensamento iluminista, são vistas como projeções dos desejos humanos mais instintivos. Schopenhauer confronta diretamente a ontologia iluminista: enquanto os iluministas atribuem uma essência imutável ao humano, defendendo sua essencial racionalidade, Schopenhauer argumenta que o humano é naturalmente um ser desejante, impulsionado por vontades pré-racionais. Ontologia Definição de uma essência imutável ao ser. A humanidade, segundo Schopenhauer, veria sua essência realizada em um mundo ideal onde todas as necessidades humanas seriam satisfeitas sem esforço. Nesse cenário, o desejo se extinguiria, pois só desejamos o que não temos, e quanto mais distante o objeto de desejo, mais forte é o desejo por ele. No entanto, uma vez alcançado, o objeto não sacia a vontade, que prontamente busca um novo objeto para si. O desejo, por sua natureza, é dor: sua realização traz rapidamente a saciedade; a posse mata todo o encanto; o desejo ou a necessidade de novo se apresentam sob nova forma: senão, é o nada, é o vazio, é o tédio que chega”. Se nós matássemos toda a nossa vontade, nosso destino seria inevitavelmente o tédio. Eis a condição trágica da vida humana. (Schopenhauer, 2013, p. 102) Schopenhauer conclui que, se o humano é impulsionado irracionalmente pela vontade e, ao conquistar um desejo, passa a almejar o que não tem, a humanidade não está destinada à felicidade, afastando-se do otimismo iluminista. No entanto, o niilismo do autor permite a possibilidade de compensação para esse dilema. Essa compensação reside na arte, na experiência estética, especialmente na música, que, segundo Schopenhauer, suaviza o sofrimento, uma condição humana resultante da busca interminável pela satisfação da vontade, que, no limite, é insaciável. Ao defender a ideia de que o humano não é um ser unificado e racional, mas fragmentado, passional e guiado pelos instintos pré-racionais da vontade, a filosofia de Schopenhauer lançou uma pista que seria seguida pelos fundadores da psicologia clínica, sendo crucial, por exemplo, para os estudos psicanalíticos de Freud. Schopenhauer e a visão niilista Neste vídeo, falaremos sobre a importância de Arthur Schopenhauer na fundamentação do idealismo alemão, destacando sua percepção do homem para além de sua tradicional visão como ser meramente racional. Assista! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. O niilismo em Nietzsche Nietzsche talvez seja um dos autores mais traduzidos e publicados na atualidade, é um reflexo marcante de como nossa época acolhe de forma favorável um tipo de pensamento filosófico que se distancia da lógica racional que fundamentou a modernidade. Hoje, ele é celebrado como um pensador revolucionário, um crítico incisivo da tradição filosófica precedente. No entanto, uma análise mais detalhada de seus textos revela diálogos e apropriações de outras correntes de pensamento, incluindo o idealismo alemão, embora Nietzsche não tenha hesitado em criticar Kant e Hegel. Essa aparente contradição se dissolve quando compreendemos que o idealismo alemão, mais do que uma corrente filosófica isolada, é uma série de respostas aos dilemas enfrentados pela modernidade. Nietzsche se distancia de algumas dessas respostas e se aproxima de outras. Portanto, é plausível afirmar que ele assimilou a essência do idealismo alemão, apesar de suas críticas a alguns representantes dessa escola de pensamento (Collares, 2012). Nietzsche e o idealismo alemão Neste vídeo, falaremos sobre como Nietzsche utilizou o ceticismo em relação às promessas emancipatórias da modernidade do idealismo alemão como fonte impulsionadora da sua obra. Não deixe de conferir! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Os modernos, segundo Nietzsche, têm o privilégio de reconhecer que não existe uma verdade intrínseca às coisas, e toda busca por essa verdade é apenas uma crença, semelhante a qualquer crença religiosa,pois a verdade seria tão ilusória quanto qualquer divindade. O próprio Nietzsche expressa essa ideia. Acompanhe! A novidade de nossa posição atual em filosofia é uma convicção que nenhuma época teve antes: que nós não possuímos a verdade. Todos os homens de outrora eram crentes de que possuíam a verdade, até mesmo os céticos. Todos não passavam de crentes. Até mesmo os céticos eram crentes, afinal quem nega possibilidade de um conhecimento verdadeiro, intrínseco da natureza das coisas, precisa supor que tem razão ao dizer isso; isso, que deve ser suposto de algum modo como sendo “verdadeiro”. (Nietzsche, 2006, p. 32) Se o conhecimento construído pela inteligência humana, o espírito, não é a verdade substancial das coisas, o que seria? A resposta a esse questionamento é relatada pelo próprio Nietzsche no livro Vontade de poder, publicado em 1901. Confira um trecho da obra! Toda vontade de saber é impulsionada por uma vontade de poder sobre a qual o espírito não tem controle, não tendo sequer ciência. O espírito deseja saber porque deseja poder, a pulsão demiúrgica do conhecimento não tem nenhuma relação com a curiosidade, ou com o método, tal como prometeram os primeiros modernos. Tem relação com vontade de dominação. Todo conhecimento é também ato de violência. (Nietzsche, 2006, p. 21) Nietzsche não tinha o hábito de mencionar os autores que influenciavam seu pensamento. Suas citações eram geralmente direcionadas para criticar figuras canonizadas na tradição ocidental, desde Platão e Montesquieu até Descartes e Kant. Todos, em algum momento, foram alvos das críticas afiadas de Nietzsche. No entanto, ao ler entrelinhas, é possível encontrar Nietzsche assimilando ideias do idealismo alemão. A negação da possibilidade de conhecer uma verdade substancial, mediante a afirmação da presença de um filtro cognitivo que transforma todo conhecimento em expressão de conceitos previamente formados pelo sujeito cognoscente, por exemplo, ecoa a leitura que Kant fez de Hume e ela também pode ser encontrada em Fichte. A ideia de que o gesto cognitivo é movido por uma pulsão pré-racional de dominação já tinha sido elaborada, de alguma forma, por Schopenhauer. Na trajetória da evolução do espírito humano, pode-se interpretar que, fundamentalmente, trata-se da evolução do corpo: é como se a história estivesse se tornando consciente de que um corpo mais avançado está sendo moldado. O processo orgânico ascendente atinge novos patamares. Nossa incessante busca pelo conhecimento da natureza surge como um meio pelo qual o corpo busca aprimorar-se. Como demonstram as palavras do próprio Nietzsche. Veja! Ou melhor: centenas de milhares de experiências são feitas para modificar a alimentação, o modo de morar e de viver do corpo: nele, a consciência e as apreciações de valores, todos os tipos de prazer e desprazer, são indícios dessas modificações e dessas experiências. (Nietzsche, 2006, p. 72) Na perspectiva nietzscheana, a história do conhecimento é a história da pulsão do corpo em busca de sobrevivência, no desejo incansável de dominar a natureza. Todo conhecimento é mediado por experiências que se materializam na carne, no corpo. Esse chamado ao corpo aponta para o projeto nietzscheano de negação do observador cartesiano universal, incorpóreo. Nietzsche não somente replica o idealismo alemão; ele radicaliza a tal ponto que se torna um crítico desse mesmo idealismo alemão. Ao criticarem a metafísica idealista, os idealistas alemães não negaram a possibilidade do conhecimento em dar conta de uma realidade substantiva. O binômio razão versus verdade que funda o racionalismo ocidental foi resguardado. Vamos entender melhor a crítica nietzscheana ao conceito de razão e verdade de Kant, tão basilar do idealismo alemão: Kant criticou a ortodoxia empirista de Hume ao defender a capacidade da razão subjetiva em conhecer a verdade substantiva através da mediação conceitual. Nietzsche critica Kant precisamente por negar a existência de uma verdade substancial. Ao levar a crítica dos idealistas alemães ao pensamento cartesiano/iluminista ao extremo, Nietzsche acaba se opondo ao próprio idealismo alemão, estabelecendo com essa tradição uma relação ambígua: ao mesmo tempo herdeiro e crítico. Nesse sentido, engana-se quem pensa que os argumentos do idealismo alemão se manifestaram apenas na filosofia, ecoando essas ideias também na literatura. Verificando o aprendizado Questão 1 No livro O mundo como vontade e representação, Schopenhauer radicaliza a crítica que Kant, Fichte, Schelling e Hegel fizeram à metafísica moderna. Assinale a alternativa que melhor define essa crítica radicalizada. A Schopenhauer radicaliza a crítica quando defende as tradições católicas medievais e rejeita o projeto de laicização idealizado pelos iluministas. B Schopenhauer radicaliza a crítica quando transforma a representação e a vontade como os afetos humanos elementares, negando, assim, a ontologia iluminista fundada no conceito de homo sapiens. C Schopenhauer radicaliza a crítica quando defende a laicidade moderna e rejeita o iluminista, que era conservador e propunha o resgate dos valores medievais. • • D Schopenhauer radicaliza a crítica quando define a república presidencialista como a melhor forma de governo, enquanto o Iluminismo defendia a monarquia absolutista. E Schopenhauer valorizava o Iluminismo como o tempo das ciências, enfatizando a razão como ferramenta central para a emancipação humana. A alternativa B está correta. Schopenhauer rejeitava a promessa iluminista da emancipação humana pela razão, questionando também a ontologia iluminista, definida pelo termo homo sapiens. Sua perspectiva partia do rompimento com a perspectiva do século das ciências, destituindo a formulação da razão como central e partindo para a condição do homem em sua percepção de sujeito. Questão 2 Nietzsche estabeleceu uma relação ambígua com o idealismo alemão. Assinale entre as alternativas a seguir aquela que melhor apresenta tal ambiguidade. A Ao radicalizar a crítica do idealismo alemão ao catolicismo medieval, Nietzsche defendeu o ateísmo, afastando-se também do catolicismo moderado, que era defendido pelos idealistas alemães. B Ao radicalizar a crítica do idealismo alemão ao pensamento iluminista/cartesiano, Nietzsche negou a existência da verdade como dado substantivo da realidade, afastando-se, assim, da racionalidade subjetiva defendida pelos idealistas alemães. C Ao radicalizar a crítica do idealismo alemão ao pensamento iluminista/cartesiano, Nietzsche reforçou a existência da verdade como dado substantivo da realidade, afastando-se do empirismo e do negacionismo defendidos pelos idealistas alemães. D Ao radicalizar a crítica do idealismo alemão ao ateísmo moderno iluminista, Nietzsche defendeu as tradições do catolicismo medieval, afastando-se, assim, do racionalismo cético defendido pelos idealistas alemães. E Ao radicalizar a crítica do idealismo alemão acerca da possibilidade de se conhecer a realidade, Nietzsche defende uma ideologia fundamentada na verdade objetiva, apesar dos sentidos apontarem o oposto disso. A alternativa B está correta. Os idealistas alemães criticaram a tradição cartesiana/iluminista, mas sem negar a possibilidade de conhecimento da realidade. Ao radicalizar a crítica, Nietzsche negou a existência da verdade como dado substantivo à realidade e, com isso, criticou também o idealismo alemão. Nietzsche se caracteriza pela anti-ideologia, partindo da construção e do significado do ser e sua fragilidade como ser capaz de mudar sua condição primordial. 3. Idealismo alemão e seus desdobramentos A literatura de Franz Kafka Quando pensamos o idealismo alemão não como uma corrente rígida de pensamento filosófico, que poderia ser claramente identificada nos escritos de alguns autores, mas como um conjunto de respostas aos desafios concretos, percebemos seu caráter pessimista. O idealismo alemão se caracteriza pelo pessimismo com o qual encara as promessas epistemológicas epolíticas feitas pela modernidade cartesiana/iluminista: conhecimento puro e regrado metodologicamente, a afirmação da ciência e da razão como vetores do progresso e da felicidade humana. Os idealistas alemães encaram toda a euforia da modernidade com algum ceticismo, ainda que o nível desse ceticismo varie de autor para autor. Foi esse ceticismo, algo melancólico, que caracterizou a cena intelectual alemã ao longo dos séculos XIX e XX, sendo caracterizado como “idealismo pós-kantiano”. Esse ambiente intelectual inspirou não apenas filósofos, mas também literatos alemães, como é o caso de Franz Kafka, autor de alguns dos romances mais importantes do século XX, como: A metamorfose (1915) O processo (1925) O castelo (1925) Apesar de ter vivido e produzido no início do século XX, Kafka só alcançou notoriedade intelectual após sua morte, especialmente após o término da Segunda Guerra Mundial. Isso não é surpreendente, pois a primeira metade do século XX foi marcada por guerras mundiais, nazifascismo e pelo uso nefasto da tecnologia para práticas genocidas, o que desacreditou a promessa iluminista de que a razão e a ciência impulsionariam o progresso. O desencanto e o sentimento trágico predominantes nesse período criaram o ambiente propício para a recepção do ceticismo e da melancolia kafkaniana, ambos inspirados pelo idealismo alemão (Wagenbach, 2001). De acordo com as análises de Klaus Wagenbach, especialista na prosa de Kafka, um resumo dos principais romances do autor nos ajuda a identificar alguns dos argumentos do idealismo alemão presentes em sua obra. Vamos conferir essas análises! A metamorfose O caixeiro viajante, Gregor Samsa, provedor de sua família e amado por seus pais e por sua irmã, é o protagonista de A metamorfose. Gregor é o que podemos chamar de homem comum, levando uma vida comum, como outra qualquer. Tudo estava normal até o dia em que ele se transforma em um inseto nojento. Se antes era o arrimo amado, Gregor se torna objeto de vergonha e da rejeição de sua família. Lá pelas tantas no enredo, os familiares de Gregor também se transformam em insetos, e sua casa se modifica radicalmente. Observe o que diz Klaus Wagenbach sobre a obra! • • • A metamorfose é uma alegoria da temporalidade moderna, caracterizada pela aceleração e pelas constantes transformações. No mundo moderno, no mundo da técnica, tudo está constantemente se transformando e, tal como Gregor, mudando para pior. Se a vida pregressa de Gregor já não era perfeita, se ele já era um homem infeliz com seu ofício e sufocado pelas necessidades materiais de sua família, a metamorfose em inseto tornou as coisas ainda piores. (Wagenbach, 2001, p. 32) Ao formular o ceticismo do idealismo alemão em relação às promessas da modernidade cartesiana/iluminista de forma ainda mais melancólica, no livro A metamorfose, Kafka não apenas questiona a busca pela felicidade, mas também sugere que o próprio movimento, concebido como transformação, tende inevitavelmente para a tragédia, representando o oposto exato da felicidade. A melancolia da prosa kafkaniana não deixa nada a dever à filosofia de Schopenhauer. A metamorfose e o idealismo alemão Neste vídeo, falaremos sobre como a obra A metamorfose, de Franz Kafka, incorpora elementos do idealismo alemão, como a alienação, a identidade e o absurdo existencial. Assista! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. O processo O protagonista é outro homem comum, um bancário chamado Josef K., que é processado sem saber o motivo. Na manhã de seu aniversário, Josef K. foi detido sem que tivesse cometido crime algum. O enredo do livro é a saga do personagem em busca de informações sobre o processo no qual era réu. Josef K. se debate contra a complexa burocracia do Estado moderno. O enredo de O processo traz a burocracia do Estado moderno para o centro da crítica de Kafka. Por mais que tente, Josef K. não consegue descobrir quem o está acusando e qual o motivo da acusação. As instituições do Estado moderno, criadas para serem a manifestação da racionalidade na esfera pública, em contraponto ao Estado do antigo regime, regido pela lógica do privilégio, são caricaturadas por Kafka como manifestação predatória do poder contra os direitos individuais. [...] O Estado ilustrado, que prometia ser o gerenciador do progresso, é pintado por Kafka como a morada de burocratas preguiçosos, incompetentes e autoritários. (Wagenbach, 2001, p. 64) O castelo Kafka alegoriza e critica a burocracia moderna nessa obra. O protagonista é K, tão somente K. O indivíduo moderno é reduzido a uma letra, diante dos aparelhos do Estado que a ilustração prometeu que seriam movidos pela razão e pelos instrumentos de libertação. K é um agrimensor contratado pelo dono de um castelo para medir suas terras. O enredo consiste no périplo de K pelos corredores do castelo, em busca de seu contratante e de informações sobre o trabalho. Ele encontra vários departamentos e diversos funcionários, mas enfrenta desencontros e informações truncadas, o que o leva à angústia. Veka o que diz Wagenbach sobre K! K é um homem destituído de sua humanidade, quase sem identidade, embrutecido por uma busca eterna pela verdade, busca que é impossibilitada pelas estruturas burocráticas que, ao invés de pavimentar o progresso e o desenvolvimento da razão, criam confusão, erro e desinformação. (Wagenbach, 2001, p. 64) Kafka não era um filósofo; seu procedimento de trabalho não se encaixa na esfera filosófica. Vamos entender melhor! O filósofo especula sobre a realidade e cita outros filósofos para confrontá-los ou continuar seus legados. O literato não está comprometido com a realidade. Esse profissional cria personagens fictícios, enredos e situações fantasiosas. No entanto, isso não significa que a ficção seja simplesmente uma mentira. Ao imaginar a fantasia, o literato sempre alegoriza a realidade, refletindo sua própria visão do mundo e os conceitos que influenciam sua percepção. Kafka foi influenciado pelo ambiente cultural do idealismo alemão, caracterizado pela desconfiança em relação à euforia iluminista, pela melancolia e pela descrença de que a ciência cartesiana seria a fonte da felicidade humana. Essas percepções permeiam a prosa de Kafka, moldando a maneira como o autor desenvolve seus enredos e constrói a personalidade de seus personagens. Portanto, podemos observar que o idealismo alemão não é apenas uma corrente de pensamento adotada por filósofos eruditos. É uma determinada maneira de perceber a realidade e interpretar a modernidade, que começou a se desenvolver na cena intelectual germânica no final do século XVIII, persistiu ao longo do século XIX e se fortaleceu ainda mais ao longo do século XX. De Freud à pós-modernidade No futuro imaginado pelo Iluminismo no século XVIII, o século XX seria o momento da apoteose, da realização da utopia possibilitada pela razão e pelo desenvolvimento científico. Porém, a história, no século XX, contrariou a previsão otimista feita pelos iluministas, trazendo à luz o espetáculo da destruição em massa e da engenharia do genocídio, sofisticada racionalmente e impulsionada pela tecnologia. O clima geral foi de decepção, o que fez com que a segunda metade do século XX se transformasse em terreno fértil para o ceticismo e a melancolia do idealismo alemão. Freud costuma ser reconhecido como o médico que criou a psicanálise, mas sua contribuição vai além disso. Em sua extensa obra, Freud apresentou uma interpretação da tradição ocidental que, em muitos aspectos, foi influenciada pelo idealismo alemão. • • Sigmund Freud Ao confrontar a ontologia cartesiana/iluminista, que define a existência humana a partir de uma capacidade racional intrínseca (homo sapiens), Freud definiu o humano com base em sua irracionalidade e inconsciência, ecoando claramente as vozes de Schopenhauer e Nietzsche. Portanto, enquanto o racionalismo define o humano por aquilo que ele é e sabe que é, Freud o define por suas pulsões desejosas (id), disciplinadase reprimidas pela consciência e pelo superego. Essa é a premissa existencial que Freud busca nas críticas dos idealistas alemães ao racionalismo desde o final do século XVIII, ao fundar a psicanálise. Em linhas gerais, a psicanálise defende que as doenças mentais não são exclusivamente patologias físicas, mas o resultado da repressão de desejos e afetos. A terapia consiste em trazer à consciência o que antes estava no inconsciente, pois, dessa forma, o paciente teria mais capacidade de lidar com seus desejos, traumas e frustrações. No livro O mal-estar na civilização, publicado em 1930, momento em que começa a escalada nazista na Alemanha, Freud combina com clareza sua interpretação da modernidade com suas discussões médicas sobre a psicanálise. Vamos conferir! O avanço técnico até tem a sua importância para a economia da nossa felicidade, mas, por si só, não aumentou a quantidade de satisfação dos modernos, nem os tornou mais felizes por não ser nem a única pré-condição da felicidade humana, nem o único objetivo do esforço cultural. [...] A Revolução Industrial e o progresso tecnológico, o progresso quantitativo (técnico) desacompanhado do progresso qualitativo (humanitário), não tornaram o homem mais feliz. Esse progresso não diminuiu nosso mal-estar e essa frustração cultural e fará exigências severas à nossa obra científica e nos alerta que, se todas essas perdas não forem compensadas, sérios distúrbios podem surgir. (Freud, 2011, p. 118) O avanço técnico e o desenvolvimento industrial, que a ilustração monumentalizou como molas propulsoras do desenvolvimento humano, foram considerados por Freud incapazes de cumprir sua promessa. Ecoando Schopenhauer, Freud denuncia que a Revolução Industrial não tornou a humanidade mais feliz; pelo contrário, fomentou frustração e mal-estar. A civilização industrial aprimorou as práticas de controle do pensamento e do desejo, transformando o superego em uma potência ainda mais censora e geradora de neuroses. Freud explorou os desdobramentos psicanalíticos da frustração com as promessas emancipatórias do Iluminismo anteriormente no livro sugestivamente intitulado O Futuro de uma Ilusão, de 1927. Veja! Na modernidade, teria havido um recrudescimento tanto das medidas repressoras contra a sexualidade polimorfa proscrita e até repudiada quanto das restrições até para a sexualidade genital heterossexual, apenas tolerada e confinada ao casamento monogâmico. Essa super-repressão sexual gerou neurose, revolta e hipocrisia. A culpa é o mais importante problema no desenvolvimento da civilização, na medida em que um superego muito rígido produzirá revolta, neurose ou infelicidade. A troca de “uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança, realizada pelo “homem civilizado” em geral, tornou-se ainda mais problemática e dolorosa na modernidade porque o sofrimento do sujeito moderno provavelmente poderia ser evitado. (Freud, 1974, p. 125) Para Freud, a culpa, resultado da superação do superego, a potência racional/moral, cuja função é reprimir os desejos primários, pré-racionais, é uma consequência da vida social. Desde os primórdios da organização social dos primeiros homens, o superego começou a desempenhar seu papel, atuando como uma espécie de polícia internalizada, impedindo que as pessoas expressem livremente seus desejos, o que inviabilizaria a vida em sociedade. O superego, em Freud, equivale à razão, concebida como consciência. Com o desenvolvimento das sociedades modernas de massa, a moral tornou-se um tribunal ainda mais poderoso e vigilante. Para a tradição racionalista, que tem suas raízes na antiguidade grega, a razão é a essência da natureza humana. Já para a modernidade cartesiana/iluminista, a razão é tanto a natureza humana quanto uma vocação para o progresso e a felicidade. Porém, para Freud, a razão é uma invenção da civilização e, além disso, é o preço a ser pago por ela – um fardo pesado e a causa principal das doenças mentais. A imagem do homem moderno traçada por Freud difere consideravelmente daquela idealizada pela imaginação iluminista. Em vez de ser um ser emancipado, ele é retratado como melancólico e angustiado, carregando o peso de uma racionalidade que, em vez de libertadora, é opressiva e controladora. No entanto, Freud não descarta completamente a ideia de emancipação pela razão, evitando um niilismo radical. Seu objetivo era transformar a psicanálise em uma ciência natural. O sujeito moderno freudiano, angustiado, tem uma oportunidade de libertação: na terapia, na intervenção psicanalítica, na qual o médico auxilia o paciente a conscientizar-se do que foi reprimido, a iluminar o que estava perdido nas sombras do id, no mundo do inconsciente. A felicidade possível, para Freud, é a libertação terapêutica, que difere significativamente da utopia coletiva propagada pelo pensamento iluminista. A segunda metade do século XX transformou a dúvida metodológica e a descrença com as promessas da ilustração no fundamento da filosofia contemporânea. Isso não quer dizer exatamente que o idealismo alemão tenha influenciado a contemporaneidade, mas que a história do século XX confirmou o ceticismo e as dúvidas que os idealismos alemães colocaram na modernidade lá no século XVIII. Vários autores, não exatamente tributários do idealismo alemão, produziram um pensamento cético e crítico à imaginação iluminista. De Ludwig Wittgenstein a Jean-Paul Sartre, passando pela Escola de Frankfurt, várias correntes de pensamento apontaram para a falência das promessas iluministas e delinearam um ambiente intelectual marcado pela dúvida e pela desconfiança. Esse cenário é exemplificado pelo movimento filosófico conhecido como Existencialismo, no qual Sartre é uma figura proeminente. Estamos vivendo a era do declínio das metanarrativas universalizantes, como afirmou François Lyotard (2009). O termo comumente utilizado para descrever esse período é pós-modernidade. A herança do idealismo alemão Neste vídeo, falaremos sobre como o idealismo alemão persistiu ao longo do século XX, destacando como Sigmund Freud, fundador da psicanálise, desempenhou um papel fundamental nesse processo. Confira! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Verificando o aprendizado Questão 1 A literatura de Kafka foi inspirada pelo ambiente do idealismo alemão pós-kantiano. Assinale a alternativa que melhor define essa inspiração. A Escrevendo na primeira metade do século XX, Kafka alegorizou a euforia moderna com o progresso científico, apropriando-se, portanto, do otimismo racionalista característico do idealismo alemão. B Escrevendo na primeira metade do século XX, Kafka alegorizou o nacionalismo alemão, apropriando-se, portanto, do conceito de “grande pátria” desenvolvido pelo idealismo alemão. C Escrevendo na primeira metade do século XX, Kafka alegorizou a política revolucionária iluminista, apropriando-se, portanto, do conceito de monarquia absolutista desenvolvido pelo idealismo alemão. D Escrevendo na primeira metade do século XX, Kafka alegorizou o ceticismo do idealismo alemão com as promessas emancipatórias feitas pela modernidade artesiana/iluminista. E Escrevendo na primeira metade do século XX, Kafka alegorizou o caráter otimista do idealismo alemão acerca do conhecimento da verdade, e propôs, assim, uma literatura que visava tornar-se um novo tratado filosófico. A alternativa D está correta. O ambiente cético e melancólico característico do idealismo alemão foi alegorizado na literatura kafkaniana. Kafka faz um trabalho alegórico, literário, sem o compromisso de constituir um tratado filosófico. O que percebemos é como se constitui o campo intelectual, como o que é produzido na história influencia a pedagogia, como a filosofia dialoga com literatura e permite representações singulares do que fora debatido. Questão 2 A obra de Freud apresenta um projeto ontológico distinto daquele apresentado pela modernidade cartesiana/ iluminista. Assinale, entre as alternativas a seguir,aquela que melhor define as diferenças entre esses dois projetos. A A ontologia iluminista/cartesiana define o homem como homo faber, como se o trabalhado fosse o elemento definidor da natureza humana, enquanto Freud define como homo sapiens, que traz a razão para o centro da ontologia. B A ontologia iluminista/cartesiana definiu o homem como um ser movido por desejos irracionais, enquanto Freud definiu como homo sapiens, trazendo a razão para o centro da ontologia. C A ontologia iluminista/cartesiana definiu o homem como homo sapiens, como se a razão fosse o elemento definidor da natureza humana, enquanto Freud define-o a partir das pulsões desejosas pré-racionais. D A ontologia iluminista/cartesiana definiu o homem a partir dos desejos pré-racionais, enquanto Freud definiu como homo sapiens, trazendo a razão para o centro da ontologia. E A ontologia iluminista/cartesiana definiu o homem um ser contraditório, incapaz de conseguir conciliar-se com a busca da verdade. E é neste ponto que Freud apresenta um contraponto, buscando definir o homem a partir de uma racionalidade objetiva. A alternativa C está correta. Freud contrariou a tradição racionalista ao não definir o humano a partir de uma consciência racional elementar, mas a partir de pulsões desejantes. Considerado o pai da psicanálise, em seu livro O mal-estar na civilização, Freud acaba por provocar uma ruptura da estrutura do pensamento estruturalista – seja em concepções tradicionais, como família, propriedade, seja em concepções revolucionárias. Quando nos concentramos enquanto indivíduo, temos um vazio inconciliável. 4. Conclusão Considerações finais Estudamos um dos mais importantes capítulos da história da filosofia moderna de uma perspectiva um tanto diferente da usual, mais interessada na concretude das ideias do que na resenha de filósofos eruditos e herméticos. Aprendemos que aquilo que chamamos de modernidade foi, antes de qualquer coisa, um ambicioso projeto de futuro, prometendo felicidade e redenção para a humanidade através do desenvolvimento tecnológico e científico. A razão, portanto, seria, ao mesmo tempo, intrínseca aos humanos e o motor do progresso e da felicidade. Já no século XVIII, algumas vozes começaram a desconfiar dessa promessa, sem necessariamente negá-la por completo. O idealismo alemão foi o resultado dessa desconfiança. Conforme o tempo passava e o século XX avançava, a realidade histórica solapava ainda mais a promessa iluminista, fertilizando o terreno para o fortalecimento da melancolia e da desconfiança, também presentes no idealismo alemão. Seria um exagero dizer que foi "o idealismo alemão" que veio do século XVIII para influenciar a segunda metade do século XX e o início do século XXI, como se a filosofia contemporânea fosse uma tábula rasa a ser simplesmente influenciada. Mais apropriado seria afirmar que a realidade histórica contemporânea fortaleceu os sentimentos de desesperança e dúvida, levando o pensamento contemporâneo, de forma ativa, a buscar soluções no repertório disponível. Entre as diversas tradições de pensamento disponíveis, o idealismo alemão ressoa com a atmosfera contemporânea, o que nos ajuda a entender sua importância em nossos dias. Neste vídeo, você revisitará os principais aspectos do Idealismo Alemão, no contexto da filosofia moderna (séculos XVI ao XVIII) e da filosofia contemporânea (séculos XIX e XX), com ênfase nos seus principais pensadores. Não deixe de conferir! Conteúdo interativo Acesse a versão digital para assistir ao vídeo. Explore + Para se aprofundar no conceito de ceticismo de Hume, leia o artigo O ceticismo esquecido de David Hume: antídoto ao fanatismo. Disponível no site do Estadão. Para conhecer mais sobre Franz Kafka, leia os artigos disponíveis no site da revista Cult. Conheça mais sobre Sigmund Freud assistindo ao vídeo Sigmund Freud — Unidiversidade — Canal Saúde. Disponível no Canal Saúde Oficial, canal da Fiocruz no Youtube. Para construir sua própria relação com os autores abordados, indicamos a leitura das obras: Assim falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche. A metamorfose, de Franz Kafka. O mal-estar na civilização, de Sigmund Freud. O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Referências • • • • BONACCINI, J. A. Nietzsche e o idealismo alemão. Cadernos Nietzsche 28, 2011. Consultado na internet em: 6 mar. 2019. CASSIRER, E. A filosofia do Iluminismo. Campinas: Unicamp, 1997. COELHO, H. S. O monismo complexificado de Schelling. In: Cadernos de Filosofia Alemã, 2018. Consultado na internet em: 29 jun. 2020. COLLARES, R. L. A digestão do idealismo alemão pelo pensamento de Nietzsche. Estudos Nietzsche, Curitiba, v. 3, n. 1, p. 49-64, jan./jun. 2012. Consultado na internet em: 29 jun. 2020. CONDORCET, A. O progresso do espírito humano. In: GARDNER, Patrick. Teorias da História. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1995. DUDLEY, W. O idealismo alemão. Petrópolis: Vozes, 2007. FREUD, S. O futuro de uma ilusão. 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Itens iniciais Propósito Objetivos Introdução Podcast Conteúdo interativo 1. Idealismo alemão e tradição iluminista A herança iluminista O ceticismo de Hume Cognição humana Insuficiência metodológica Ceticismo humano De Hume ao Iluminismo: as bases da Modernidade Conteúdo interativo Kant e a crítica à razão pura Fichte, leitor de Kant Kant e Fichte: a fundação do idealismo alemão Conteúdo interativo De Schelling a Hegel A filosofia da natureza e da religião Comentário A fenomenologia do espírito e a filosofia do direito Tese Antítese Síntese Schelling, Hegel e o fortalecimento do idealismo alemão Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 2. Idealismo alemão sob a ótica de Schopenhauer e Nietzsche O niilismo em Schopenhauer Vontade Representação Schopenhauer e a visão niilista Conteúdo interativo O niilismo em Nietzsche Nietzsche e o idealismo alemão Conteúdo interativo Verificando o aprendizado 3. Idealismo alemão e seus desdobramentos