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ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA Unidade 2 Livro Didático Digital Diretor Executivo DAVID LIRA STEPHEN BARROS Gerente Editorial ALESSANDRA FERREIRA Projeto Gráfico TIAGO DA ROCHA Autoria LARISSA ZEPKA BAUMGARTEN 4 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A U TO RI A Larissa Zepka Baumgarten Meu nome é Larissa Zepka Baumgarten e sou professora de Enfermagem. Sou graduada e mestre em Enfermagem pela FURG e pós-graduada em enfermagem do trabalho e em gestão em enfermagem pelas faculdades UNINTER e UNIFESP. Sou professora de cursos de graduação e pós-graduação na área da saúde e enfermeira responsável técnica em um Centro de atenção psicossocial a álcool e drogas, pela FEAES. Também atuo como conteudista e no Aprova concursos, lecionando diversas disciplinas ligadas à métodos quantitativos e temas de administração. Sou apaixonada pelo que faço e adoro transmitir minha experiência de vida àqueles que estão iniciando em suas profissões. Por este motivo, fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! 5ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 ÍC O N ESEsses ícones irão aparecer em sua trilha de aprendizagem toda vez que: OBJETIVO Para o início do desenvolvimento de uma nova competência. DEFINIÇÃO Houver necessidade de apresentar um novo conceito. NOTA Quando necessárias observações ou complementações para o seu conhecimento. IMPORTANTE As observações escritas tiveram que ser priorizadas para você. EXPLICANDO MELHOR Algo precisa ser melhor explicado ou detalhado. VOCÊ SABIA? Curiosidades e indagações lúdicas sobre o tema em estudo, se forem necessárias. SAIBA MAIS Textos, referências bibliográficas e links para aprofundamento do seu conhecimento. ACESSE Se for preciso acessar um ou mais sites para fazer download, assistir vídeos, ler textos, ouvir podcast. REFLITA Se houver a necessidade de chamar a atenção sobre algo a ser refletido ou discutido. RESUMINDO Quando for preciso fazer um resumo acumulativo das últimas abordagens. ATIVIDADES Quando alguma atividade de autoaprendizagem for aplicada. TESTANDO Quando uma competência for concluída e questões forem explicadas. 6 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 SU M Á RI O Oncogênese ................................................................................ 9 Oncogênese .......................................................................................................... 9 Oncogênese física, química e biológica .......................................... 11 Biologia tumoral .................................................................................................15 Imunologia tumoral ...........................................................................................18 Graduação e estadiamento dos tumores malignos ..................... 28 Graduação ............................................................................................29 Estadiamento .......................................................................................30 Lesões proliferativas controladas e lesões pré-neoplásicas ...... 31 Tratamento em oncologia ...................................................... 35 Diagnóstico e tratamento .................................................................................35 Principais formas de tratamento ....................................................................36 Quimioterapia ......................................................................................37 Radioterapia ........................................................................................41 Conhecimento em ação ...................................................................................43 Leucemias, linfomas e mielomas ........................................... 46 Leucemias e linfomas........................................................................................46 Linfomas ..............................................................................................................51 Doença de Hodgkin ............................................................................54 Tratamento e prognóstico .................................................. 55 Mieloma ...............................................................................................................56 Transplante de células-tronco hematopoiéticas ................. 59 O transplante de células tronco hematopoiéticas ..................................... 59 Complicações do transplante de células tronco hematopoieticas .......... 63 Principais indicações do transplante de medula óssea ............................. 69 Esquema de tratamento básico em um transplante de medula óssea... 70 7ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A PR ES EN TA ÇÃ O Você sabia que a oncologia é uma das áreas de maior importância na sociedade e será responsável pela geração de muitos empregos nos próximos anos? Isso mesmo. Inclusive na enfermagem, pois a demanda crescente e o compromisso com a missão idealizada estimularam os profissionais a buscarem um modelo de atendimento multiprofissional que correspondesse às necessidades e atendesse às particularidades dessa população e não apenas a obrigatoriedade da legislação. Quando falamos do enfermeiro oncológico é necessário ressaltar que ele deve deter um conhecimento técnico-científico complexo, específico e essencial à prática, ligado a uma imprevisibilidade ditada pelos efeitos colaterais comuns à terapêutica. Assim, no início dos anos de 1970, os ensaios clínicos e a equipe multidisciplinar se estenderam da academia para a comunidade, crescendo, então, a demanda para a enfermagem oncológica, o que estimulou o desenvolvimento dessa especialidade, culminando, assim, com o aparecimento das organizações de enfermagem oncológica, da educação curricular, dos cursos de especialização, de atualização e de outros. Um reduzido, mas logo crescente número de enfermeiras, trabalhando inicialmente em centros de pesquisa deu início às discussões, levando à criação da ONS (Oncology Nursing Society), em 1975, que é a maior organização científica do mundo na especialidade do câncer, promovendo fóruns de discussões e constituindo um meio pelo qual os enfermeiros podem contribuir para a especialidade. Entendeu? Ao longo desta unidade letiva você vai mergulhar neste universo! 8 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 O BJ ET IV O S Seja muito bem-vindo à Unidade 2. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento das seguintes competências profissionais até o término desta etapa de estudos: 1. Reconhecer as fases da oncogênese e a classificação dos tumores. 2. Reconhecer os princípios básicos do diagnóstico e do tratamento oncológico, os relacionando com a oncogênese e o estadiamento, visando à assistência de enfermagem. 3. Reconhecer as leucemias, os linfomas e os mielomas, os relacionando ao quadro clínico, ao tratamento e aos cuidados de enfermagem. 4. Reconhecer o processo de TCTH, o relacionando com os cuidados de enfermagem. Então? Preparado para uma viagem sem volta rumo ao conhecimento? Ao trabalho! 9ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Oncogênese OBJETIVO Ao término deste capítulo você será capaz de en- tender como ocorre a oncogênese. Isto será funda- mental para o exercício de sua profissão. E então? Motivado para desenvolver esta competência? Va- mos lá!Avante! Oncogênese O organismo humano encontra-se exposto a múltiplos fatores carcinogênicos, com efeitos aditivos ou multiplicativos. Sabe-se que a predisposição individual tem um papel decisivo na resposta final, porém, não é possível definir em que grau ela influencia a relaçãoem torno dos 7 anos de idade e acome- te principalmente os ossos da mandíbula e maxila. Radiograficamente, aparecem como destruições radiolúcidas do osso com margens irregulares e mal definidas. O tipo americano também atinge as crianças, no entanto, acomete mais frequentemen- te a região abdominal. O linfoma de Burkitt tem si- do associado ao vírus Epstein-Barr (EBV). Para se chegar ao diagnóstico de linfoma é necessário a biópsia do tumor para análise histopatológica e para classificar o tipo de linfoma realizam-se reações de imunohistoquímica. Os LNH caracterizam-se histologicamente por uma proliferação de células linfocíticas, podendo mostrar variados graus de diferenciação. As células linfocíticas apresentam características de malignidade como hipercromatismo nuclear, nucléolos evidentes, pleomorfismo nuclear e mitoses atípicas. O linfoma de Burkitt apresenta células claras (macrófagos) entre as células linfocíticas dando um padrão chamado de céu estrelado. 54 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 O tratamento de um paciente com LNH consiste em quimioterapia e/ou radioterapia. Os linfomas de alto grau respondem melhor ao tratamento, mesmo assim, é observada uma taxa de mortalidade de 60% cinco anos após o diagnóstico e tratamento. Os casos de baixo grau são muitas vezes difíceis de tratar, pois não respondem bem à quimioterapia e radioterapia, no entanto, como apresentam um curso clínico lento, muitas vezes o paciente morre com o linfoma e não do linfoma. O linfoma de Burkitt é agressivo, mas responde adequadamente ao tratamento quimioterápico e a maioria dos pacientes são curados. Doença de Hodgkin A doença ou linfoma de Hodgkin (DH) é aproximadamente 5 vezes menos comum que o LNH, correspondendo a cerca de 0,7% de todos os casos de câncer nos EUA. Em contraste com os LNH, a DH origina-se sempre num linfonodo, nunca em um tecido extranodal e dissemina-se de modo característico para os linfonodos anatomicamente contíguos. A doença de Hodgkin manifesta-se clinicamente por um aumento de volume indolor de linfonodos superficiais. Cerca de 75% dos casos acometem as cadeias cervicais e supraclaviculares. De uma forma geral, afeta mais os homens em uma média de idade de 30 anos. Se não for tratado, a doença se dissemina para os linfonodos contíguos, depois para outras cadeias linfáticas e eventualmente pode envolver o baço e o fígado. Outros sinais e sintomas sistêmicos podem estar presentes, como a perda de peso, febre, sudorese noturna e prurido generalizado. O diagnóstico da DH também é feito a partir da análise histopatológica de um material proveniente da biópsia do tumor. A DH apresenta células neoplásicas características, chamadas 55ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 de células de Reed-Sternberg. Estas células são muito grandes, geralmente binucleadas (aspecto de “olho de coruja”) e com nucléolos evidentes. As células de Reed-Sternberg são as únicas neoplásicas na DH, entretanto, somam apenas 1 a 3% das células do linfonodo afetado. As demais células presentes são células inflamatórias. De acordo com o tipo de células inflamatórias presentes e a arquitetura do tumor, a DH pode ser dividida em 4 subtipos: • Esclerose nodular. • Predominância linfocítica. • Celularidade mista. • Depleção linfocítica. Tratamento e prognóstico O tratamento do DH depende do estágio de envolvimento e consiste em quimioterapia e/ou radioterapia. O prognóstico dessa doença é relativamente bom, principalmente nos casos iniciais em que os pacientes apresentam um índice de sobrevida de até 90% em 5 anos. Tabela 2 - Diferenças entre linfomas de Hodgkin e não-Hodfkin Linfoma de Hodgfkin Linfoma de não-Hodgfkin Mais frequentemente localizado em único linfonodo. É mais frequente, e acometido de múltiplos linfonodos periféricos. Disseminado de forma ordenada por continuidade. Disseminação não contínua. Anel de Waldeyer raramente acometido. Anel de Waldeyer comumente envolvido. Acometimento extranodal incomum. Acometimento extranodal comum. Fonte: Elaborado pela autora (2022). 56 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Mieloma DEFINIÇÃO O mieloma é um tumor que se origina do plas- mócito, um tipo de célula presente na medula ós- sea. Os plasmócitos têm a função de produzir os anticorpos do sistema de defesa, que combatem infecções diversas. Com a doença, eles passam a produzir anticorpos anormais. Mieloma múltiplo é como chamamos a doença quando há inúmeros tumores nos ossos ou mesmo um alastramento de plasmócitos anormais na medula óssea. Em sua fase inicial, o mieloma pode ser assintomático. No entanto, com a evolução da doença, pode surgir uma variedade de sinais/ sintomas: • Dor nos ossos — peito, costelas e costas. • Fraturas ósseas. • Perda de peso e falta de apetite. • Febre. • Fadiga. • Predisposição a infecções. • Anemia. • Insuficiência dos rins. • Confusão mental. • Sede excessiva. • Fraqueza. • Entorpecimentos dos braços e das pernas. • Hipercalcemia, aumento dos níveis de cálcio no sangue. • Ter entre 50 e 70 anos. 57ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Histórico familiar em primeiro grau da doença. • Exposição à radiação. • Exposição a produtos químicos. O diagnóstico do mieloma múltiplo pode ser feito por mielograma e biópsia da medula óssea, eletroforese de proteínas e/ou de imunoglobulinas no sangue e/ou na urina, imunofixação, radiografias simples de ossos e ressonância nuclear magnética de coluna ou de outros ossos. Não há cura para o mieloma múltiplo. O tratamento foca em aliviar os sintomas, controlar o avanço da doença e promover uma melhor qualidade de vida ao paciente. A doença é tratada de acordo com o seu estágio e a idade do paciente. Exceto em raros casos, a radioterapia e a quimioterapia de- vem ser evitadas antes de se determinar se o paciente pode se beneficiar do transplante autólogo de medula óssea, quando as células-tronco provêm do próprio indivíduo transplantado. Es- sas modalidades podem comprometer a capacidade futura de colher quantidade de células suficiente do paciente para o pro- cedimento. Caso não seja candidato a um transplante, além da quimioterapia e da radioterapia, há opções de tratamento que utilizam drogas alvo moleculares, para manter a divisão celular sob controle ou drogas biológicas, que restauram as defesas do organismo. Nos últimos anos, o prognóstico da doença melhorou muito, dando chance ao paciente para viver mais e melhor. • Prevenção e hábitos saudáveis: • Não fumar. • Moderar a ingestão de bebidas alcoólicas. • Ter uma dieta balanceada. http://www.grupooncoclinicas.com/tratamentos/radioterapia/ http://www.grupooncoclinicas.com/tratamentos/quimioterapia/ http://www.grupooncoclinicas.com/tratamentos/drogas-de-alvo-molecular/ 58 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Fazer atividades físicas regulares. • Manter um peso saudável. IMPORTANTE Pessoas com mieloma têm 15 vezes mais chances de contrair infecções como a pneumonia, caso comum e grave para o paciente com câncer. RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que a leucemia é uma patologia maligna que tem início na medula óssea e percorre toda a corrente e esta possui quatro tipos distintos. Deve ter compreendido que os pacientes com leucemia apresentam um maior número de células imaturas no sangue, podendo ser identificadas no hemograma e o diagnóstico final é feito por meio de punção aspirativa da medula óssea. Deve ter aprendido que o linfoma representa um grupo de neoplasias malignas com origem de células linfoides, e que se diferem da leucemia linfocítica por se apresentarem na forma de massas tumoraissólidas e se originarem de tecidos linfoides como os linfonodos, e ainda, que o mieloma é um tumor que se origina do plasmócito, um tipo de célula presente na medula óssea. 59ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Transplante de células-tronco hematopoiéticas O transplante de células tronco hematopoiéticas DEFINIÇÃO Pode ser definido como a infusão endovenosa de células tronco-hematopoiéticas com a finalidade de restabelecer a função medular em pacientes com medula óssea não funcionante ou defectiva. É, portanto, é uma modalidade de tratamento baseado na infusão de células tronco hematopoéticas (CTH) do próprio paciente (autólogo) ou de doador da mesma espécie (alogênico), aparentado ou não aparentado. Utilizado primariamente para o tratamento de doenças hematológicas, embora outros tipos de doenças sejam também tratados (Tabela 1 e 2). Anualmente são realizados em todo mundo mais de 15.000 TCTH autólogos e 30.000 alogênicos. Diversas modalidades de procedimentos estão englobadas sob esta denominação. Quanto a procedência do enxerto podemos falar em transplantes alogênicos, singeneicos ou autólogos. Nos transplantes autólogos, a toxicidade hematológica do tratamento com quimioterapia em altas doses será atenuada pelo chamado resgate hematológico, que consiste do uso de células progenitoras da hematopoiese, oriundas da medula óssea, e hoje, quase que exclusivamente, do sangue periférico. Essas células, também chamadas de células progenitoras, células- tronco ou stem-cells, são células mononucleares, de morfologia semelhante a um linfócito maduro, que têm a capacidade de 60 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 regenerar as três séries sanguíneas (eritrocitária, leucocitária e plaquetária). Essas células são abundantes na medula óssea, mas circulam no sangue periférico em pequena quantidade (menor que 1%). Há meios, entretanto, de trazer estas células em maior número para o sangue periférico (“mobilização”), como, por meio do uso de fatores de crescimento hematopoiético (G-CSF ou GM-CSF), do uso de quimioterapia (na fase de recuperação da leucopenia pós- quimioterapia há um efeito rebote destas células), de exercício físico, do uso de corticosteroides etc. Uma vez mobilizadas, essas células podem ser coletadas do sangue periférico por meio de uma leucocitaférese e depois congeladas a temperaturas extremamente baixas, inferiores a 80ºC, para reutilização posterior. Devido a facilidade com que se colhe células progenitoras do sangue periférico e devido a sua grande facilidade na “pega” da hematopoiese, os transplantes autólogos de medula óssea propriamente ditos têm sido abandonados em favor do transplante de células periféricas. Hoje existem métodos que podem monitorar a partir de técnicas de citometria de fluxo com a dosagem de um marcador imunofenotípico (CD34) encontrado nas células progenitoras, o melhor momento para coleta de células em um paciente mobilizado, assim como para controle de qualidade e de segurança para quantificação das células obtidas em um determinado produto. A combinação de fatores de crescimento e outras citoquinas entre eles, com quimioterápicos e mesmo o advento de novos produtos como os fatores peglados provavelmente melhorarão no futuro o rendimento dos produtos, possibilitando uma enxertia cada vez mais rápida com reflexo direto na morbidade e mortalidade dos pacientes. 61ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Após a colheita das células progenitoras o paciente recebe o regime quimioterápico de indução, que variará de acordo com a patologia de base. Cerca de 48 horas após o término da quimioterapia de indução, as células progenitoras são descongeladas e retornadas ao paciente por meio de infusão venosa. Essas células têm a capacidade de, espontaneamente, se alojarem na medula óssea (homing), onde, sob estímulo de fatores de crescimento hematopoiético, iniciam em alguns dias o repovoamento da medula óssea destruída pela quimioterapia. VOCÊ SABIA? Clinicamente, o que se observa é que o paciente inicia uma fase de pancitopenia severa (leucócitos inferiores a 100/mm³, plaquetas inferiores a 20.000/mm³) cerca de 2 a 4 dias após o término da indução quimioterápica. Essa fase de pancitopenia dura de 5 a 14 dias, após que as contagens em sangue periférico gradualmente se normalizam. Quanto ao tipo de célula utilizada, a escolha pode recair sobre sangue periférico, medula óssea ou sangue de cordão umbilical. Quanto ao relacionamento, o doador pode ser aparentado ou não aparentado. A intensidade do condicionamento divide- se em ablativo e não ablativo. O material pode ser preservado congelado, refrigerado ou fresco e finalmente, as células obtidas podem ou não ser tratadas in vitro para depleção de hemácias, células T ou purificação com anticorpos monoclonais, métodos físicos ou quimioterapia. Um transplante de células tronco hematopoiéticas tem várias etapas. A primeira é o planejamento com base no diagnóstico, tipo de enxerto, procura de doador, coleta de células etc. Uma vez internado o paciente é submetido ao condicionamento que pode ser feito com quimioterapia com ou sem radioterapia. Após um período de descanso para depuração das drogas quimioterápicas é realizada a infusão das células, 62 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 aguardando-se, então, a recuperação hematológica do paciente. As principais complicações dos transplantes incluem a toxicidade extra medular cardíaca, renal, pulmonar e hepática, mucosite, desnutrição, infecções bacterianas, virais ou parasitárias, rejeição, doença do enxerto contra o hospedeiro, doença veno- oclusiva hepática e hemorragia alveolar difusa. As principais indicações dos transplantes de medula óssea são insuficiências de produção da medula óssea congênitas ou adquiridas, alguns casos de tumores sólidos pediátricos, doenças genéticas, imunodeficiências congênitas, leucemias, linfomas, mieloma múltiplo e doenças autoimunes refratárias. IMPORTANTE Nas falências de medula óssea e nas imunodefi- ciências congênitas graves, o transplante é indica- do sempre que possível, dependendo da idade do receptor e da disponibilidade de células compatí- veis. Na anemia de Fanconi é o único tratamento que pode curar as alterações medulares desses pacientes e evitar a evolução para mielodisplasia e leucemia aguda. Precisa-se tomar cuidado no condicionamento, dada a sensibilidade destes pacientes a altas doses de ciclofosfamida. Hoje, doses totais como 40 a 60 mg/kg de ciclofosfamida, associada a Fludarabina e soro-antilinfocitário se mostram bastante. Na anemia aplástica severa o transplante de células tronco hematopoiéticas deve ser indicado em condições ideais, esquema de condicionamento com ciclofosfamida e baixas doses de busulfan são utilizados mais frequentemente em nosso meio. Capítulo interessante nas áreas de transplantes de células tronco hematopoiéticas é o das doenças autoimunes. Nestas o objetivo é fazer uma espécie de reset do sistema imunológico. Com a utilização de altas doses de quimioterápicos e soro antilinfocitário no condicionamento, em pacientes com Esclerose 63ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Múltipla, Esclerose sistêmica, Lúpus Eritematoso Sistêmico, Doença de Crohn, hemopatias autoimunes e outras situações mais raras, resistentes ou refratárias à terapêutica convencional, obtém-se bons resultados. Os esquemas de prevenção da doença do enxerto versus hospedeiro mais utilizados contam com drogas como ciclospo- rina, methotrezato, micomofetilfenolato (MMF), rapamicina e ta- crolimus. IMPORTANTE Os transplantes de medula óssea estão se tor- nando mais seguros e efetivos com o advento de novos quimioterápicos e anticorpos monoclonais, novos fatores de crescimento de medula óssea, melhor seleção de pacientes, melhor manejo de infecções, prevenção e tratamentoda doença do enxerto versus hospedeiro de forma mais efetiva, evolução para procedimento ambulatorial em ca- sos selecionados, cultura e purificação de células tronco e a existência de bancos integrados de cor- dão umbilical. A morbidade e mortalidade dos transplantes de medula óssea (TMO) estão associadas não somente à imunodepressão severa e ao período de aplasia prolongado, como também a outras complicações relacionadas a esse procedimento. Complicações do transplante de células tronco hematopoieticas • Mucosite: Caracterizada principalmente pela descamação do epitélio oral e de faringe, podendo, no entanto, atingir todo o tubo digestivo. A dor está sempre presente, dificultando a nutrição oral dos pacientes. Disfagia é uma queixa frequente. Geralmente, os pacientes queixam-se, além da dor, de salivação intensa. 64 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A endoscopia, nota-se edema faríngeo e, em casos extremos, quando atinge o trato respiratório, pode ser necessária a entubação do paciente. O methotrexate utilizado na profilaxia da doença do enxerto contra o hospedeiro costuma agravar substancialmente esse quadro. A abordagem diagnóstica empírica ou documental de herpes ou fungos é importante no sentido de tratar-se rapidamente estas infecções e dar alivio ao paciente. • Doença do Enxerto Contra o Hospedeiro (DECH): Esta complicação aparece geralmente após transplantes alogênicos e manifesta-se por sintomas e sinais relacionados à pele, sistema gastrointestinal e fígado. Além disso, esta complicação acompanha-se de severa imunossupressão. A DECH ocorre quando células imunologicamente competentes do doador atacam antígenos das células do receptor. Nos raros casos em que esta complicação é descrita após transfusões, o envolvimento da medula óssea é frequente, o que geralmente não ocorre nos casos decorrentes de transplantes. A DECH pode ser classificada em duas situações clínicas distintas: a forma aguda, que ocorre nos primeiros dois meses pós transplante, e a forma crônica que costuma manifestar-se pelo menos após três meses do transplante. Hoje este conceito está mudando, considerando-se as características clínicas das manifestações e não o tempo de aparecimento dos sintomas e sinais característicos. Normalmente, pacientes submetidos a transplantes de medula óssea alogênicos recebem esquema profilático para DECH aguda com ciclosporina complementada ou não com methotrexate e/ou corticoides. Hoje tacrolimus, sirulimos e MMF fazem parte de diversos esquemas 65ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 de prevenção. Métodos de depleção de células T na medula do doador in vitro também são utilizados com esta finalidade. • Apesar da profilaxia, 70% dos pacientes adultos apresentam algum grau de DECH aguda após transplantes alogênicos. Nesta situação, utiliza-se como tratamento altas doses de corticoesteroides, globulina antilinfocitária e anticorpos monoclonais. Os transplantes alogênicos, cuja fonte de células provém do sangue de cordão umbilical apresentam um índice menor que 20% de DECH, provavelmente devido à imaturidade imunológica destas células. A Doença Enxerto-Contra-Hospedeiro Crônica é uma importante complicação do Transplante de Células Tronco Hematopoiéticas. A dificuldade de se identificar as precisas interações celulares que compõem a sua fisiopatologia nos impedem de estabelecer um tratamento apropriado para a completa remissão dos sintomas e mínima toxicidade. No momento, os esquemas baseados em corticosteroides de uso local e/ou sistêmico são a base da terapia. • Doença veno-oclusiva hepática: Ocorre mais frequentemente nos transplantes alogênicos, mas pode estar associada a transplantes autólogos. Caracteriza-se por icterícia, hepatomegalia e ascite ou ganho inexplicável de peso. A suspeita clínica estabelece-se na presença de, pelo menos, dois destes sinais e o diagnóstico é anátomo-patológico. Os fatores predisponentes são: lesão hepática prévia, altas doses de quimioterapia ou radioterapia (usual em transplantes) e transplantes não totalmente compatíveis ou com doadores não relacionados. Os 66 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 esquemas de prevenção são empíricos, descrevendo- se a combinação de ciprofloxacin, corticoides e altas doses de pentoxifilina ou mesmo o uso de heparina em baixas doses. O tratamento é geralmente insatisfatório, mas o uso de terapêutica trombolítica vem sendo descrito cada vez mais frequentemente. Destaca-se nesta área o defibrotide, com resultados interessantes. A rejeição representa a destruição do enxerto por células imunologicamente ativas do hospedeiro. Esta complicação é mais frequente em pacientes portadores de anemia aplástica severa. A inclusão no condicionamento com ciclofosfamida, da radioterapia, do busulfan ou do soro antilinfocitário reduz a frequência desta complicação. Fatores predisponentes à rejeição incluem politransfusão prévia, uso de methotrexate ao invés da ciclosporina na profilaxia de DECH, regimes menos intensos de condicionamento e a depleção de células T. • Complicações infecciosas: Os pacientes submetidos a transplantes de medula óssea estão sujeitos a infecções bacterianas, fúngicas, virais e por protozoários e parasitas. Estas infecções são mais frequentes nos transplantes alogênicos que nos autólogos e muitas delas estão associadas aos períodos mais longos de aplasia e a estados mais severos de imunossupressão. A maioria dos serviços de transplantes empregam esquemas antimicrobianos profiláticos. Esquemas terapêuticos com antimicrobianos são, inicialmente, utilizados empiricamente na vigência de sinais ou sintomas de infecção e, posteriormente, norteados pelos resultados de cultura com a correspondente análise de sensibilidade. 67ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Complicações pulmonares: A insuficiência respiratória é uma importante causa de morte em TMO. A presença de febre, dispneia, infiltrados pulmonares e hipóxia caracterizam a chamada pneumonia intersticial. Quando ocorre após o primeiro mês do TMO pode estar relacionada à infecção pelo CMV, principalmente em pacientes com DECH ou Pneumocystis carinii. Estas situações devem ser vigorosamente tratadas. Esse quadro é raro em pacientes submetidos a transplantes autólogos. No entanto, uma condição marcada pelos mesmos sintomas e sinais sem uma causa identificada tem sido descrita nesta modalidade de transplante. Tendo em vista esses pacientes apresentarem frequentemente hemorragia após lavagem bronco-alveolar, esse fenômeno foi chamado de hemorragia difusa alveolar. O tratamento com altas doses de corticosteroides reduz significativamente a alta mortalidade relacionada a esta condição. A broquilite obliterante é uma forma geralmente tardia de complicação e seu reconhecimento deve ser rápido para que as medidas terapêuticas como uso de corticosteroides sejam rapidamente empregadas. Situações graves manifestam-se em 20 a 40% dos pacientes submetidos a transplantes de medula óssea, requerendo cuidados intensivos. Monitorização cardíaca, ventilação mecânica e hemodiálise são exemplos de procedimentos necessários em complicações passíveis de ocorrer entre pacientes submetidos a transplantes de medula óssea. 68 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 IMPORTANTE Cada instituição deve ditar a política a ser adota- da quando há necessidade de se encaminhar um paciente de transplante a cuidados intensivos. A grande maioria transfere os pacientes graves pa- ra unidades centralizadas de terapia intensiva, enquanto outros centros dotam as unidades de transplante de medula óssea de condições espe- ciais para suporte a esse tipo de paciente. O im- portante é ter condições especiais de atendimento a pacientes imunocomprometidos. Normalmente, as complicações graves dos transplantes demedula óssea exigem uma equipe médica (intensivistas, pneumologistas, nefrologistas, gastroenterologistas e cirurgiões) com experiência no manuseio de pacientes imunocomprometidos e plaquetopênicos. A mortalidade entre pacientes de transplante de medula óssea em unidades de terapia intensiva é alta devido a imunodepressão, falência de múltiplos órgãos e a uma alta proporção de pacientes com doenças malignas refratárias ou com pequena chance de controle. No, entanto, cabe à uma equipe reconhecer os casos em que o investimento no paciente deve ser intensivamente realizado. O maior exemplo são pacientes que estão próximos ao período de saída do período aplásico e, que podem modificar, com a presença de leucócitos, significantemente a sua evolução. Por outro lado, a infecção pulmonar com insuficiência respiratória grave necessitando ventilação mecânica precocemente e sem sinais de melhora evidentes, geralmente acaba evoluindo para o êxito letal. 69ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 ACESSE Para saber mais sobre esse tema assista ao vídeo Transplante de Medula Óssea, clicando aqui . Principais indicações do transplante de medula óssea • Mieloma múltiplo. • Linfomas de Hodgkin e não-Hodgkin. • Leucemia mieloide aguda. • Neuroblastoma. • Câncer de ovário. • Outras doenças. • Tumores de células germinativas. • Doenças autoimunes. • Leucemia mieloide aguda. • Leucemia mieloide crônica. • Síndromes mielodisplásicas. • Doenças mieloproliferativas. • Linfomas de Hodgkin e não-Hodgkin. • Leucemia linfoide crônica. • Mieloma múltiplo. https://www.youtube.com/watch?v=XHrKNv3fr8o 70 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Anemia aplástica. • Hemoglobinúria paroxística noturna. • Anemia de Fanconi. • Anemia de Blackfan-Diamond. • Talassemia maior. • Anemia falciforme. • Imunodeficiência severa combinada. • Síndrome de Wiskott-Aldrich. • Erros inatos do metabolismo. Esquema de tratamento básico em um transplante de medula óssea • Regime de condicionamento: Administração de quimio e/ou radioterapia em altas doses (mieloablativo) ou com doses reduzidas (não-mieloablativo), antecedendo a infusão de CTH. Tem como principais objetivos: imunossupressão do doador e erradicação ou diminuição da doença residual de base. • Infusão de CTH: Coletadas por punção de medula óssea, aférese ou de cordão umbilical e infundidas por meio de cateter venoso central. • Profilaxia da Doença do Enxerto Contra Hospedeiro (DECH): Realizada somente no TCTH alogênico, por meio do uso de agentes imunossupressores (exemplo: ciclosporina e metotrexate) por tempo variável. 71ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido sobre a formação das células ontogênicas. Estudou sobre os tipos de tratamentos em oncologia. Além disso, conheceu sobre os tipos de leucemias, linfomas e mielomas. Pode entender como funciona os transplantes e células hematopoiéticas. 72 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 ABBAS, K. et al. Cellular and molecular immunology. 2nd. Philadelphia: W. B. Saunders Co., 1994. p. 356-375. CEON. Centro de Oncologia. Como funciona o tratamento de quimioterapia? [s.d.] Disponível em: https://oncologiaabc.com. br/quimioterapia/. Acesso em: 19 out. 2022. ESP. Linfoma Não-Hodgkin (LNH), 2013. Disponível em: http:// enfermeirossp.blogspot.com/2013/08/linfoma-nao-hodgkin-lnh.html Acesso em: 07 fev. 2023 INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Controle do câncer: uma proposta de integração ensino-serviço. 3. ed. rev. Rio de Janeiro: INCA, 1999. 304p. INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Fisiopatologia do câncer. In: INSTITUTO NACIONAL DE CÂNCER. Ações de enfermagem no controle do câncer. 2. ed. Rio de Janeiro: INCA, 2002. p. 55-81. KAKKAR, K. et al. Venous thrombosis in cancer patients: insights from the frontline survey. Oncologist, Ohio, v. 8, no 4, p. 381-388, 2003. LEE, Y. Epidemiology and management of venous thromboembolism in patients with cancer. Thrombosis Research, New York, v. 110, no. 4, p. 167-172, june. 2003. PRADONI, P. Venous thromboembolism risk and management in women with cancer and thrombophilia. Gender Medicine, New Jersey, v. 2, suppl A, p. 528-534, 2005. PRADONI, P. Acquired risk factor for venous thromboembolism in medical patients. Hematology Am Soc Hematol Educ Program, Washington, p. 458-461, 2005. SCHABEL, JR. Concepts for systematic treatment of micrometastases. Cancer, New York, v. 35, no.1, p. 15-24, jan. 1975. RE FE RÊ N CI A S 73ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 TU FARMACÊUTICO DE GUARDIA. Leucemia, linfoma, mieloma múltiple: ¿sabe diferenciarlos? 2019. Disponível em: https:// tufarmaceuticodeguardia.org/leucemia-linfoma-mieloma-multiple- sabe-diferenciarlos. Acesso em: 07 fev. 2023. WORDPRESS. Fases do ciclo celular, [s.d.]. Disponível em: https:// thinkbio.files.wordpress.com/2012/01/f8-11.jpg Acesso em: 07 fev. 2023. VENEGAS, F.; FLECK, J. A biologia das metástases. In: Fleck, J. Câncer: integração clínicobiológica. Rio de Janeiro: Ed. Medsi, 1992. p. 55. Oncogênese Oncogênese Oncogênese física, química e biológica Biologia tumoral Imunologia tumoral Graduação e estadiamento dos tumores malignos Graduação Estadiamento Lesões proliferativas controladas e lesões pré-neoplásicas Tratamento em oncologia Diagnóstico e tratamento Principais formas de tratamento Quimioterapia Radioterapia Conhecimento em ação Leucemias, linfomas e mielomas Leucemias e linfomas Linfomas Doença de Hodgkin Tratamento e prognóstico Mieloma Transplante de células-tronco hematopoiéticas O transplante de células tronco hematopoiéticas Complicações do transplante de células tronco hematopoieticas Principais indicações do transplante de medula óssea Esquema de tratamento básico em um transplante de medula ósseaentre a dose e o tempo de exposição ao carcinógeno e a resposta individual à exposição. Independentemente da exposição a carcinógenos, as células sofrem processos de mutação espontânea, que não alteram o desenvolvimento normal da população celular como um todo. Estes fenômenos incluem danos oxidativos, erros de ação das polimerases e das recombinases e redução e reordenamento cromossômico. Há também que se considerar a vigilância imunológica como mecanismo de correção ou exclusão das células mutantes. Os fenômenos de mutação espontânea podem condicionar uma maior ou menor instabilidade genômica, que pode ser crucial nos processos iniciais da carcinogênese, como consequência de aneuploidia e amplificações genéticas. Em síntese, a carcinogênese pode iniciar-se de forma espontânea ou ser provocada pela ação de agentes carcinogênicos (químicos, físicos ou biológicos). Em ambos os casos, verifica-se a indução de alterações mutagênicas e não-mutagênicas ou epigenéticas nas células. 10 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Figura 1 - As etapas da carcinogênese Químico A G EN TE CA RC IN O G ÊN IC O Físico Biológico Eliminação Inativação Dose Biológica Efetiva Iniciação A D N Reparação Ativação de Proto-oncogenes Mutação Alterações Genéticas Explosão Clonal Seletiva N E O P L A S I A Promoção Instabilidade Genômica Dano oxidativo Reordenamento cromossômico Alterações enzimáticas ALTERAÇÕES CELULARES Fonte: Maxwell (2022). EXPLICANDO MELHOR A incidência, a distribuição geográfica e o compor- tamento de tipos específicos de cânceres estão relacionados a múltiplos fatores, incluindo sexo, idade, raça, predisposição genética e exposição a carcinógenos ambientais. Destes fatores, os am- bientais são, provavelmente, os mais importantes. Os carcinógenos químicos (particularmente aque- les presentes no tabaco e resultantes de sua com- bustão e metabolismo), bem como determinados agentes, como os azocorantes, aflatoxinas e ben- zeno foram claramente implicados na indução de câncer no homem e animais. Certos vírus de ADN do grupo herpes e papiloma, bem como vírus de ácido ribonucleico (ARN) do tipo C foram também implicados como agentes produtores de câncer em animais, podendo ser igualmente responsáveis por alguns cânceres no homem. O tempo para a carcinogênese ser completada é indeterminável, podendo ser necessários muitos anos para que se verifique o aparecimento do tumor. Teoricamente, a carcinogênese pode ser interrompida em qualquer uma das etapas, se o organismo for capaz de reprimir a proliferação celular e de reparar o dano causado ao genoma. Seria redundante 11ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 salientar que a suspensão da exposição a agentes carcinogênicos é condição indispensável para a interrupção da carcinogênese. Oncogênese física, química e biológica Podemos classificar a oncogênese em três tipos: A oncogênese física, a energia radiante, solar e ionizante são os mais importantes carcinógenos físicos. Cânceres de mama, ossos e do intestino são menos suscetíveis à carcinogênese por este tipo de radiação. O mecanismo da carcinogênese pela radiação reside na sua capacidade de induzir mutações. Essas mutações podem resultar de algum efeito direto da energia radiante ou de efeito indireto intermediado pela produção de radicais livres a partir da água ou do oxigênio. As radiações na forma de partículas (como partículas alfa e nêutrons) são mais carcinogênicas do que a retenção eletromagnética (raios X, raios gama). A radiação ultravioleta natural, proveniente do sol, pode causar câncer de pele. Há que se considerar dois tipos de RUV: • Os RUV-A (320-400 nm). • RUV-B (280-320 nm). Os RUV-B são carcinogênicos e sua ocorrência tem aumentado muito com a destruição da camada de ozônio. Por sua vez, os RUV-A não sofrem influência da camada de ozônio e causam câncer de pele em quem se expõe a doses altas e por um longo período de tempo. Dois mecanismos podem estar envolvidos na indução do câncer por raios ultravioleta: lesão do ADN pela formação de dímeros de pirimidina e imunossupressão. 12 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 IMPORTANTE Radiação ionizante: As radiações eletromagnéticas e na forma de partículas são todas carcinogênicas e a sua ação perniciosa é evidenciada em várias circunstâncias: Os mineiros que trabalham com elementos radioativos apresentam risco aumen- tado de câncer de pulmão. A incidência de certas formas de leucemia esteve e está acentuadamente aumentada em sobreviventes das bombas atômi- cas lançadas sobre o Japão e do acidente atômico ocorrido em Chernobyl. Radiação ionizante: A oncogênese química é um processo sequencial dividido em duas fases: a iniciação e a promoção. A primeira fase (iniciação) consiste de um fator iniciador ou carcinogênico que causa dano ou mutação celular. A mutação dos ácidos nucleicos é o fenômeno central da etapa de iniciação da carcinogênese. As células “iniciadas” permanecem latentes até que sobre elas atuem agentes promotores. A segunda fase (promoção) estimula o crescimento da célula que sofreu mutação e pode acontecer a qualquer momento após a transformação celular inicial. Os fatores de promoção podem ser agentes químicos (por exemplo: asbesto), processo inflamatório, hormônios, fatores que atuam no crescimento celular normal. É importante destacar que o agente promotor não tem ação mutagênica nem carcinogênica e que, para conseguir efeito biológico, deve persistir no ambiente. Isto significa que seus efeitos se revertem caso a exposição a ele seja suspensa, sendo esta a grande diferença existente entre ele e o agente carcinogênico, decisiva para as ações preventivas do câncer. Muitos dos agentes carcinogênicos químicos encontram-se no meio ambiente humano e relacionam-se a hábitos sociais, alimentares ou ocupacionais. Nos processos de 13ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 iniciação e promoção, a célula ainda pode encontrar-se sob a ação dos fatores de inibição do crescimento, e o resultado final dependerá do balanço obtido entre estes fatores e a intensidade das alterações provocadas nas células pela ação dos agentes iniciadores e promotores. Na oncogênese biológica diversos vírus de ADN e de ARN produzem cânceres em animais e alguns foram implicados na gênese do câncer humano. Entre os vírus de ADN encontram-se os do Papilomavírus humano (HPV), de Epstein-Barr (EBV) e o da hepatite B (HBV). Os vírus de ARN (retrovírus) se relacionam mais raramente com o câncer humano. O único comprovadamente oncogênico é o retrovírus HTLV 1, responsável pela leucemia/ linfoma da célula T do adulto e pelo linfoma cutâneo de célula T. Os vírus agem pela incorporação do seu ADN (ou, no caso dos retrovírus, do ADN transcrito de seu ARN pela enzima transcriptase reversa) ao da célula hospedeira, que passa a ser utilizada para a produção de novos vírus. Durante este processo, ou mesmo anos após ele, pode haver a inativação de anti-oncogenes celulares pelas proteínas virais (dando-se a imortalização da célula pela inibição da apoptose) ou a ativação de proto-oncogenes humanos ou virais (que estimulam a replicação celular). Diversos estudos demonstram que apenas essas alterações genômicas, isoladamente, não são capazes de induzir a transformação maligna de uma célula. Para que esta aconteça, são necessárias mutações adicionais, muito facilitadas pelas frequentes mitoses que ocorrem nas células infectadas. Diversos outros agentes biológicos são suspeitos de promoverem a carcinogênese, entre eles, o Helicobacter pylori, uma das bactérias mais prevalentes no homem, responsável pela gastrite crônica. 14 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 IMPORTANTE A descoberta de que os oncogêneses causado- res de tumores estão relacionados aos genes normaislevantou várias questões sobre o papel destes genes no crescimento e desenvolvimento (diferenciação) das células normais e tumorais. Parece certo que etapas da iniciação e promo- ção de um tumor e a própria existência de uma neoplasia maligna depende da expressão (mani- festação do efeito) aumentada de oncogêneses, ocasionada por amplificação (aumento do núme- ro de cópias do gene), por expressão alterada de genes repressores ou por mutações críticas em áreas de determinado oncogênese. A estimulação da proliferação celular normal é quase sempre desencadeada por fatores de crescimento que se ligam aos receptores dispostos nas membranas celulares. O sinal recebido por esses receptores é transmitido para o citoplasma e, por fim, para o núcleo. Os fatores de crescimento (FC) são poli- peptídios que regulam a proliferação celular, bem como outras funções celulares, como a deposição e resolução de proteínas da matriz extracelular, a manutenção da viabilidade celular, a diferen- ciação celular, a quimiotaxia, a ativação de célu- las da resposta inflamatória e o reparo tecidual. Os FC também são implicados na patogênese de determinadas doenças. A secreção anormal de FC resulta em doenças caracterizadas por resposta celular proliferativa ou por fibrose. A expressão aumentada de FC pode estar envolvida em uma variedade de doenças, incluindo a aterosclerose, fibrose pulmonar, mielofibrose e neoplasias. 15ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Biologia tumoral A vida da célula compreende uma sequência de eventos, cujo modelo é chamado ciclo celular, e tem cinco fases: G1, S, G2, M e GO. A duração de cada fase é variável até mesmo nas células sob reprodução controlada, mas os processos ocorridos no interior das células são iguais para todas elas. Figura 2 - Fases do ciclo celular Fonte: WordPress.com (s.d.). Fase G1: Nesta fase há a preparação para a síntese de ADN, mediante a mobilização de bases púricas e pirimídicas, fosfatos e riboses, para a síntese dos nucleotídeos, e de aminoácidos, para a síntese de proteínas, inclusive de enzimas. Tanto a síntese de ARN como a de proteínas são indispensáveis para que a célula passe de G1 para a fase seguinte. 16 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A fase G1 precede à síntese, daí passa a ser chamada de pré-sintética. Células que apresentam baixo índice de duplicação apresentam uma duração de G1 longa, correspondente à G0, persistindo (células como as do sistema nervoso) ou voltando à G1, quando necessário (células do fígado, por exemplo, quando em processo de regeneração). Células como as da pele, das mucosas e da medula óssea, como apresentam-se em constante divisão, têm G1 muito curto, podendo-se dizer que o seu ciclo não inclui a fase G0. Fase S: Nesta fase, uma proteína desencadeante é produzida para fazer a interação entre o ADN e a enzima duplicase de ADN. Ocorrendo esta reação, ele é inteiramente duplicado. Fase G2 Período pré-mitótico: Nesta fase, a síntese de ADN está completa e os cromossomos, em número dobrado, rearranjam-se, preparando-se o núcleo para a divisão celular. Fase M: A fase M é curta e corresponde à mitose. Ocorrem movimentações cromossômicas e clivagem da célula, cujo resultado é a distribuição de pares de cromossomos para as duas células-filhas. Estas, dependendo da sua função, podem morrer, entrar novamente no ciclo celular (Fase G1) ou passar para a fase do estado de G0. Fase G0: Durante a fase G0, as células apresentam menor atividade metabólica. G0 descreve um período prolongado de repouso, durante o qual as células não respondem aos estímulos que normalmente iniciam a síntese de ADN. NOTA As células em G0 são sempre derivadas de células em G1, mas não fazem parte do ciclo celular proliferativo. A duração do ciclo celular da maioria das células humanas normais é de 24 a 48 horas, enquanto que das células dos tumores malignos humanos mais comuns é de 72 a 120 horas. 17ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 As células cancerosas e as normais se dividem mais rapidamente quando os volumes teciduais ou tumorais são menores e, mais lentamente, se esses volumes são maiores. Isto leva a um crescimento exponencial com curtos tempos de duplicação em tumores de menor volume. A fração proliferativa do tumor decresce à proporção que o mesmo cresce, aumentando seu tempo de duplicação. Assim, um tumor apresenta tempos diferentes de duplicação em momentos diferentes de sua história natural. Três aplicações práticas derivam destes conhecimentos sobre a cinética celular: Quanto menor o tumor, maior a sua fração proliferativa, portanto, mais sensível será aos medicamentos antiblásticos (quimioterapia) e às radiações ionizantes (radioterapia). Quanto mais precoce for a aplicação de quimioterapia ou radioterapia após o tratamento cirúrgico do tumor, mais eficaz ela será, pois maior será o número de células em fase proliferativa. Os tecidos normais que apresentam alta fração de crescimento são os que sofrem a ação da quimio e radioterapia, neles concentrando-se os efeitos colaterais agudos desses tratamentos (náusea e vômitos, diarreia, leucopenia, alopecia etc.). Quando um tumor maligno alcança cerca de 1 cm de diâmetro, torna-se detectável pelos métodos diagnósticos disponíveis e contém cerca de 109 células. Acredita-se que é necessário um longo período de tempo para o tumor alcançar este tamanho, talvez alguns anos. Ele apresenta tempos diferentes de duplicação em momentos diferentes de sua história natural e, em alguns deles, bem antes desta detecção, provavelmente já ocorreu a metastatização hematogênica. 18 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Imunologia tumoral Os tumores malignos apresentam duas propriedades peculiares: invasão dos tecidos circunvizinhos e comprometimento a distância (metástase). DEFINIÇÃO A metástase é definida como o comprometimento da distância por uma parte do tumor que não guarda relação direta com o foco primário. A disseminação tumoral é um processo complexo e não de todo esclarecido, que pode ser dividido em cinco etapas: 1. Invasão e infiltração de tecidos subjacentes por células tumorais, dada a permeação de pequenos vasos linfáticos e sanguíneos. 2. Liberação na circulação de células neoplásicas, tanto isoladas como na forma de pequenos êmbolos. 3. Sobrevivência dessas células na circulação. 4. Sua retenção nos leitos capilares de órgãos distantes. 5. Seu extravasamento dos vasos linfáticos ou sanguíneos, seguido do crescimento das células tumorais disseminadas. Ao longo de todo esse processo, fatores mecânicos e imunológicos devem ser superados para que as células neoplásicas consigam implantar-se em um novo órgão e tenham crescimento autônomo em relação ao tumor primário. 19ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Tabela 1 - Diferença entre tumor benigno e maligno Característica Benigno Maligno Diferenciação As células do tumor assemelham as células normais. As células do tumor são diferentes das células normais. Taxa de crescimento Lenta: Pode interromper ou retroceder o crescimento. Rápida: Geralmente não interrompe nem retrocede o crescimento. Tipo de crescimento Expandem-se, mas não substituem as células normais. Expandem-se e substituem as células normais. Metástase Não. Sim. Efeito na saúde Geralmente não provoca a morte. Pode provocar a morte se não for diagnosticado e tratado. Fonte: Elaborada pela autora (2022). As vias pelas quais o tumor se dissemina são: transcavitária, linfática e sanguínea. Vamos conhecer um pouco sobre elas: 1. Disseminação transcavitária: As metástases transcavitárias (ou transcelômicas) ocorrem quando células de um tumor maligno penetram alguma cavidade corporal e aí crescem e disseminam-se. Na prática, as cavidades mais afetadas são a peritoneal e a pleural, porém, a pericárdica,subaracnóidea e articular podem também ser atingidas. 2. Disseminação linfática: As metástases linfáticas são geralmente o padrão inicial de disseminação das neoplasias de origem epitelial, podendo ser utilizada 20 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 por outros tipos de tumor. Elas seguem a drenagem linfática normal da área do tumor primário, ocupando os linfonodos mais próximos e que recebem maior número de vasos linfáticos aferentes. Exemplo disto é a disseminação linfática do câncer de pulmão, que invade inicialmente os linfonodos mediastinais e, em sequência, os supra claviculares e cervicais. O mesmo se verifica com o câncer de mama, que invade inicialmente os linfonodos axilares homolaterais, só posteriormente esteando-se aos de outras cadeias linfáticas supra claviculares, infra claviculares, cervicais, mediastinais e axilar contralateral. Por um tempo não determinado é possível que os linfonodos consigam impedir a disseminação das células tumorais, pois, chegando aos linfonodos, elas entram em contato com células do sistema imunológico e, então, podem ser destruídas. De outra forma, se resistirem e encontrarem condições vitais favoráveis, poderão multiplicar-se. 3. Disseminação sanguínea: As metástases por via hematogênica têm seu início quando células tumorais invadem os vasos sanguíneos. As veias e vênulas, por possuírem emparedes mais frágeis, são mais facilmente penetradas do que artérias e arteríolas. As metástases por via arterial podem ocorrer, por exemplo, quando células metastáticas cruzam o leito capilar pulmonar, quando atravessam comunicações arteriovenosas ou quando as próprias metástases pulmonares funcionam como foco de novas células tumorais, capazes de metastatizar. Em todo o organismo, os órgãos que mais são comprometidos por esse tipo de disseminação são, obviamente, os mais vascularizados: pulmão e fígado, em parte por receberem, respectivamente, grande 21ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 volume de sangue procedente das circulações cava e porta, ossos e cérebro. Em relação à escolha dos órgãos - alvo, sabe-se que a distribuição das metástases é variável e depende, principalmente, do tipo histológico e da localização do tumor primário. De fato, a localização mais comum de metástases de vários tipos histológicos é o primeiro leito capilar que as células encontram. Exemplos são o câncer de pulmão, metastatizando para o sistema nervoso central e o câncer de cólon, para o fígado. Entretanto, locais específicos parecem ser preferidos pelas células tumorais circulantes, como no caso do câncer de próstata para ossos. Isto demonstra um processo de íntima correlação entre célula tumoral e órgão-alvo, denominado tropismo seletivo. A metástase deve ser vista como um novo tumor, diferente do primário, com ampla autonomia para crescimento e propagação. Uma compreensão mais abrangente sobre a patogênese da disseminação do câncer provavelmente resultará em mudanças significativas no tratamento. 22 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 VOCÊ SABIA? Estudos recentes mostram evidência genética para a ligação entre ativação de oncogênese e trombose. A ativação da cascata de coagulação ocorre frequentemente em pacientes portadores de neoplasia. As células neoplásicas promovem a ativação da coagulação sanguínea por meio de diversos mecanismos: • Liberação de substâncias pró-coagulantes. • Desenvolvendo atividade fibrinolítica e pró- agregante. • Liberando citocinas pró-inflamatórias e pró- angiogênicas. • Atuando diretamente no endotélio vascular e nas células sanguíneas, promovendo a adesão entre as células por meio de moléculas de adesão. Verificam-se formas de crescimento celular controladas e não-controladas. A hiperplasia, a metaplasia e a displasia são exemplos de crescimento controlado e serão analisadas posteriormente. As neoplasias correspondem às formas de crescimento não-controladas e, na prática, são chamadas de tumores. A palavra tumor tem um significado mais amplo na prática, representando um aumento de volume dos tecidos que, inclusive, pode não ser provocado por uma proliferação neoplásica verdadeira. De acordo com o comportamento biológico, os tumores são divididos em benignos e malignos. Algumas vezes esta diferença não é fácil de ser estabelecida e, nestes casos, adotamos o nome de tumores limítrofes ou bordeline. Os critérios que permitem estabelecer com segurança o diagnóstico são, na maioria dos casos, morfológicos: 23ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Encapsulação: Os tumores benignos geralmente não têm cápsulas verdadeiras, e sim, pseudocápsulas fibrosas que se formam em decorrência da compressão dos tecidos vizinhos pelo crescimento lento e expansivo do tecido tumoral. Já no caso dos tumores malignos, o crescimento rápido, desordenado e infiltrativo do tecido não permite a formação das pseudocápsulas. • Crescimento: Como todas as estruturas orgânicas, os tumores também têm parênquima, representado pelas células que os estão originando e têm estroma, representado pelo tecido conjuntivo, vascularizado, que constitui a estrutura da sustentação e o veículo da nutrição do parênquima. Os tumores benignos frequentemente exibem crescimento lento e expansivo, possuindo um estroma adequado, com um bom suprimento vascular, raramente mostrando necrose e hemorragia. Os tumores malignos, ao contrário, pela rapidez e desorganização no crescimento, pelo caráter infiltrativo e pelo alto índice de multiplicação celular, geralmente apresentam uma desproporção muito grande entre o parênquima tumoral e o estroma vascularizado. Tal comportamento explica a razão por que, com frequência, esses tumores exibem áreas extensas de necrose ou hemorragia. A capacidade invasiva das neoplasias malignas é a principal responsável pela dificuldade da erradicação cirúrgica das mesmas. • Morfologia: As células parenquimatosas dos tumores exibem graus variados de diferenciação. As dos tumores benignos são bem diferenciadas e reproduzem o aspecto das células do tecido original. Raramente observam-se atipias nas neoplasias benignas. Já as 24 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 células dos tumores malignos apresentam menores graus de diferenciação e, consequentemente, não reproduzem as características dos tecidos que as originaram. Desse modo, as células malignas mostram caracteres morfológicos que se afastam, em grau variado, daqueles da célula de origem. As alterações anaplásicas são mais evidenciadas nos núcleos das células, caracterizando-se pelo pleomorfismo nuclear, com variação de forma, tamanho e cromatismo, assim como pelas modificações da relação núcleo/citoplasma, pela proeminência dos nucléolos e pelo espessamento da membrana nuclear. • Mitoses: O número de mitoses expressa a atividade da divisão celular. Assim, quanto maior a atividade proliferativa de um tecido, maior é o número de mitoses verificadas. No caso dos tumores, o número de mitoses relaciona-se inversamente com o grau de diferenciação tumoral: quanto mais diferenciado o tumor, menor o número de mitoses observadas. Nos tumores benignos, as figuras de mitose são raras e todas têm aspecto típico. Já no caso dos tumores malignos, as figuras de mitose são vistas em maior número e podem ter aspecto atípico. • Antigenicidade: As células dos tumores benignos, por serem bem diferenciadas, não apresentam a capacidade de produzir antígenos. No entanto, as células cancerosas podem apresentar esta capacidade. Esta propriedade da célula maligna vem permitindo a identificação de alguns antígenos tumorais e, consequentemente, tem trazido progressos ao estudo da imunologia das neoplasias. Os antígenos tumorais vêm sendo utilizados no diagnóstico de alguns tipos 25ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2de câncer. Por exemplo, sabe-se que, no caso do câncer hepático, as células malignas voltam a produzir antígenos fetais (alfafetoproteína), que normalmente não são produzidos pelos hepatócitos. • Metástases: Os tumores malignos têm capacidade de invasão e disseminação, o que resulta na produção das metástases, principal característica do câncer. A metástase constitui o crescimento neoplásico secundário, a distância, sem continuidade com o foco primitivo. O tumor benigno pode apresentar mais de uma linhagem celular e, neste caso, recebe, via de regra, o nome dos tecidos que o compõem, acrescido do sufixo “oma”. Exemplos: • Tumor benigno do tecido cartilaginoso – condroma, • Tumor benigno do tecido gorduroso – lipoma. • Tumor benigno do tecido glandular – adenoma. Quanto aos tumores malignos é necessário considerar a origem embrionária dos tecidos de que deriva o tumor, para se poder aplicar as regras de nomenclatura. Os tumores malignos originados dos epitélios de revestimento externo e interno são denominados carcinomas. Quando o epitélios são de origem glandular, passam a ser chamados adenocarcinomas. Exemplos: • Carcinoma basocelular da face • Adenocarcinoma de ovário. 26 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 O nome dos tumores malignos originários dos tecidos conjuntivos (mesenquimais) é formado pelo nome do tecido mais a determinação sarcoma. Exemplos: • Tumor maligno do tecido cartilaginoso – condrossarcoma. • Tumor maligno do tecido gorduroso – lipossarcoma. • Tumor maligno do tecido muscular liso – leiomiossarcoma. • Tumor maligno do tecido muscular estriado – rabdomiossarcoma. IMPORTANTE Exceções: A dificuldade de enquadrar todos os tumores nessa classificação simplificada, assim como a consagração pelo uso de alguns termos di- ferentes daqueles que seriam esperados segundo as regras acabaram por determinar as exceções da nomenclatura. Por este critério, são classificados os tumores originados de células blásticas, que ocorrem mais frequentemente na infância. São os chamados blastomas, como hepatoblastoma, nefroblastoma, neuroblastoma, retinoblastoma e osteoblastoma. São classificados também sob este critério os tumores originados de células primitivas totipotentes que antecedem o embrião tridérmico. Eles são agrupados em quatro principais tipos: teratomas, seminomas, coriocarcinomas e carcinoma de células embrionárias. Os teratomas podem ser tumores benignos ou malignos, dependendo do seu grau de diferenciação. Quando benignos, mostram 100% de células diferenciadas, principalmente de pele e anexos (cistos dermoides). Há tumores cuja nomenclatura utiliza o nome dos cientistas que os descreveram pela primeira vez, ou porque sua origem demorou a ser esclarecida ou porque os nomes ficaram consagrados pelo uso. São exemplos: o linfoma de Burkitt, 27ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 o sarcoma de Ewing, o sarcoma de Kaposi, o tumor de Wilms (nefroblastoma), o tumor de Krukemberg (adenocarcinoma mucinoso metastático para ovário) etc. Os carcinomas e adenocarcinomas recebem nomes complementares que melhor classificam sua morfologia macro ou microscópica. Assim, podem ser utilizados termos como epidermoide, papilífero, seroso, mucinoso, cístico, medular, lobular etc. Exemplos: • Cistoadenocarcinoma papilífero. • Adenocarcinoma mucinoso. • Carcinoma ductal infiltrante. IMPORTANTE Outros nomes utilizados: A nomenclatura de alguns tumores foge a qualquer critério histoge- nético ou morfológico, como são os exemplos da doença de Hodgkin e da mola hidatiforme. A de- nominação micose fungoide, embora não sugira sequer neoplasia, refere-se a um linfoma malig- no de pele. Quando o tumor apresenta linhagens epitelial e mesenquimal, ambas malignas, recebe o nome de carcinossarcoma. O carcinoma é dito adenoescamoso quando possui componentes epi- teliais e glandulares malignos. Será um adenoa- cantoma quando somente a linhagem glandular for maligna, mas apresentar áreas de metaplasia escamosa. Tumores como o melanoma e os linfo- mas podem receber o adjetivo “maligno”, apesar de não possuírem a variante benigna. Isto ocorre devido à confusão que sua terminação “oma” faz com a nomenclatura de tumor benigno. 28 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Diante da variedade de classificações usadas de modo não sistematizado, em todo o mundo, é evidente que se tornou difícil fazer estudos comparativos entre diferentes regiões do globo. Na tentativa de minimizar essas dificuldades e permitir um melhor entendimento entre os especialistas, fazendo, consequentemente, com que seus dados possam ser comparados, a Organização Mundial da Saúde (OMS) vem tentando uniformizar a nomenclatura mundial, tendo lançado, em vários idiomas, edições do CID-O (Código Internacional de Doenças - Oncologia), nas quais se permite utilizar toda a sinonímia de topografia e nomenclatura dentro de códigos numéricos. Essa nomenclatura vem sendo usada por grande número de especialistas em todo o mundo e é adotada pelo Registro Nacional de Patologia Tumoral do Ministério da Saúde (RNPT/ Pro-Onco/MS), que cadastra um numeroso grupo de laboratórios de Anatomia Patológica de todo o Brasil. Graduação e estadiamento dos tumores malignos A evolução do tumor maligno inclui várias fases, que dependem, em grande parte, da velocidade do crescimento tumoral, do órgão-sede do tumor, de fatores constitucionais do hospedeiro, de fatores ambientais etc. Os tumores podem ser detectados nas fases microscópica, pré-clínica ou clínica. A história biológica de alguns tumores permite que eles sejam previstos quando ainda a lesão esteja na fase pré-neoplásica. As ações preventivas na área da saúde podem, se bem orientadas, imprimir uma profunda modificação na evolução natural dos tumores, levando a diagnósticos precoces que permitem não só aplicar o tratamento nas fases iniciais das lesões, assim como - o que é mais importante - tratar as lesões 29ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 pré-neoplásicas e, com isso, evitar o aparecimento do tumor. As etapas sequenciais das neoplasias epiteliais que surgem em epitélio escamoso, por exemplo, do colo do útero, são as seguintes: • Carcinoma in situ: A neoplasia se desenvolve no interior do tecido de origem, sem ultrapassar os seus limites, definidos pela membrana basal; • Carcinoma microinvasor: Refere-se à neoplasia maligna que ultrapassa a membrana basal e atinge o tecido conjuntivo, mas não alcança profundidade superior a 5 mm; • Carcinoma invasor: É assim definido quando se verifica a infiltração, com invasão mais profunda dos tecidos adja- centes. Essa sequência, no entanto, não é suficiente para permitir uma avaliação mais completa da evolução da le- são. Métodos que possam definir a rapidez do crescimen- to e a presença ou não de metástases são necessários à avaliação do prognóstico e tratamento a ser instituído. Entre esses métodos, os mais utilizados são a graduação histológica e o estadiamento. Graduação A graduação histológica dos tumores baseia-se na diferenciação citológica das células tumorais e no número de mitoses. A diferenciação se deduz da maior ou menor semelhança das células neoplásicas com as do tecido normal que se presume que tenha dado origem ao tumor. O número de mitoses se exprime pelo número encontrado em, pelo menos, dez campos microscópicos de grande aumento. Como o grau de diferenciação pode variar de uma área para outra, há a possibilidade de que o grau seja diferente de uma amostra para outra de um mesmo 30 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 tumor. Além disso, alguns tumores podem modificar este grau, à medida que evoluem, geralmente, tornando-se menos diferenciados com o passar do tempo. Utilizam-se três graus descritivos de diferenciação: bem diferenciado, moderadamente diferenciadoe pouco diferenciado. As implicações clínicas dos graus de diferenciação se traduzem na maior rapidez de crescimento dos tumores menos diferenciados em relação aos mais diferenciados de mesmas histogênese e localização. Estadiamento Verifica-se que, apesar da sua variedade, os tumores malignos seguem um curso biológico mais ou menos comum a todos eles, que se inicia pelo crescimento e invasão local, segue pela invasão dos órgãos vizinhos e termina com a disseminação regional e sistêmica. Esta evidência levou a União Internacional Contra o Câncer (UICC) a desenvolver um sistema de estadiamento dos tumores que tem como base a avaliação da dimensão do tumor primário (T), a extensão da disseminação em linfonodos regionais (N) e a presença ou não de metástases a distância (M) - Sistema TNM de Classificação dos Tumores Malignos. Na interpretação de cada fator são analisadas as diversas variações que, para o tumor primitivo, vão de T1 a T4, para o comprometimento linfático, de N0 a N3, e, para as metástases a distância, de M0 a M1. A combinação das diversas variantes de T, N e M, finalmente, determina os estádios clínicos que variam entre I e IV na maioria dos casos, isto porque alguns dos tumores só são classificados em três estádios. Hoje, mais do que a graduação, o estadiamento clínico representa o mais importante meio de que dispõe o oncologista para definir o prognóstico e a terapêutica dos pacientes. Para a ação do enfermeiro, o conhecimento do estadiamento é fundamental para traçar o plano de assistência, 31ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 compreender as bases terapêuticas do tratamento médico instituído, orientar adequadamente o raciocínio clínico diante dos sinais e sintomas apresentados pelo cliente e, finalmente, para poder estabelecer com o cliente uma relação profissional orientada pelo respeito e por critério prognóstico mais realista. Lesões proliferativas controladas e lesões pré-neoplásicas Os limites entre os crescimentos não-neoplásicos e neoplásicos não são bem definidos. Torna-se difícil determinar como e quando as lesões pré-neoplásicas passam a desenvolver características de neoplasia. Pode-se, no entanto, afirmar que algumas lesões proliferativas não-neoplásicas evoluirão para um crescimento neoplásico bem definido, ou seja, um processo proliferativo controlado passará a crescimento não-controlado. Entre as lesões proliferativas controladas encontram-se: • Hiperplasia: Trata-se de um aumento localizado e autolimitado do número de células de um órgão ou tecido. Essas células são normais na forma e na função. A hiperplasia pode ser fisiológica ou patológica. Na forma fisiológica, os tecidos são estimulados à proliferação para atender às necessidades normais do organismo, como ocorre com a glândula mamária durante a gestação. Na forma patológica, geralmente um estímulo excessivo determina a proliferação, por exemplo, a hiperplasia endometrial estimulada por excesso de estrogênios. Deve-se considerar que, nesses casos, assim que cessam os estímulos, cessa também a proliferação celular. • Metaplasia: É um processo proliferativo de reparo em que o tecido formado é de tipo diferente daquele original. 32 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 É importante assinalar que os desvios morfológicos que ocorrem nas metaplasias geralmente conferem melhor proteção aos tecidos; que esses desvios mantêm a filiação embrionária dos tecidos original e metaplásico; e, finalmente, que as características celulares e arquiteturais do tecido formado são normais. Exemplos dessas alterações são vistos frequentemente em epitélios de revestimento, como o caso da substituição do epitélio pseudo-estratificado ciliado por epitélio escamoso estratificado nos brônquios dos fumantes. A metaplasia também é reversível quando cessam os estímulos que a provocam. • Displasia: Como lesão pré-neoplásica, a displasia é considerada uma forma de proliferação celular que ocorre nas células epiteliais, caracterizada por perda de polaridade e alterações de forma e tamanho, além da presença frequente de mitoses. Considera-se que a displasia é também um processo proliferativo reversível, desde que o estímulo causador seja removido. Grande parte dos conceitos atualmente consolidados sobre displasia provém de estudos feitos por acompanhamento das lesões observadas no colo uterino. Isto ocorre porque este órgão oferece facilidade de observação e porque estas lesões ocorrem com frequência nele. Verificou-se, por exemplo, que as displasias do colo podem atingir apenas o terço inferior ou profundo do epitélio escamoso (displasia leve) ou até dois terços da espessura desse epitélio (displasia moderada) ou, por fim, quase toda a espessura do epitélio, poupando apenas as células mais superficiais (displasia acentuada). Estas alterações morfológicas podem ser sequenciais e progressivas, como também podem regredir. A progressão da lesão leva ao carcinoma in situ. 33ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 O acompanhamento dessas lesões mostra que são necessários, na maioria dos casos, cerca de dez anos para que elas originem o carcinoma in situ e mais dez para que surja o cacinoma invasor. Muitas vezes, é difícil decidir, cito-histologicamente, se uma lesão corresponde à displasia acentuada ou à carcinoma in situ. Aspectos displásicos semelhantes vêm sendo descritos para várias mucosas, incluindo-se as dos aparelhos digestivo e urogenital. Recentemente, mais em função de aspectos clínicos do processo, introduziu-se uma nova classificação das lesões displásicas do colo uterino, rotulando-as todas como neoplasia intra-epitelial cervical (NIC) de três graus diferentes: NIC I (displasia leve), NIC II (displasia moderada) e NIC III (displasia acentuada e carcinoma in situ). Embora denominadas neoplasias intra-epiteliais, as displasias leve e moderada (NIC I e NIC II) são lesões reversíveis, se devidamente tratadas. Outras condições predispõem os indivíduos ao desenvolvimento de tumores, daí serem chamadas de condições predisponentes ao câncer. Muitas dessas situações estão ligadas a defeitos genéticos como a síndrome de Down, que predispõe ao aparecimento de leucemias, e a neurofibromatose (doença de Von Recklinghausen), a qual predispõe ao neurofibrossarcoma. Outras situações não ligadas a fatores genéticos também predispõem ao câncer, como o caso da anemia perniciosa e da colite ulcerativa idiopática, as quais podem levar, respectivamente, a carcinomas gástrico e de cólon. A biologia, a etiologia, a fisiopatologia e até a conceituação e nomenclatura do câncer não estão totalmente estabelecidas, principalmente devido a obstáculos ao estudo in vitro de uma variedade de fatores envolvidos na sua gênese. No entanto, o estudo epidemiológico dos tumores tem oferecido aos profissionais de saúde elementos diagnósticos importantes no que se refere à identificação dos fatores de risco 34 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 e sua relação com lesões pré-malignas e com o desenvolvimento de neoplasias prevalentes. Além disso, a epidemiologia fornece dados valiosos no que diz respeito à previsibilidade, prevenção e curabilidade dessas neoplasias. Articulando todos estes conceitos, o enfermeiro pode desempenhar um papel fundamental nas ações de prevenção primária e secundária das neoplasias mais frequentes. RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que o organismo huma- no se encontra exposto a múltiplos fatores carci- nogênicos, com efeitos aditivos ou multiplicativos. Deve ter compreendido que a oncogênese física, a energia radiante, solar e ionizante, importante são os mais importantes carcinógenos físicos; a onco- gênesequímica é um processo sequencial, dividido em duas fases – a iniciação e a promoçãoe na on- cogênese biológica diversos vírus de ADN e de ARN produzem cânceres em animais e alguns foram implicados na gênese do câncer humano. Deve ter aprendido que a vida da célula compreende uma sequência de eventos, cujo modelo é chamado ci- clo celular, e tem cinco fases, sendo estas: G1, S, G2, M e GO. Deve ter aprendido também que os tumores malignos apresentam duas propriedades peculiares: invasão dos tecidos circunvizinhos e comprometimento a distância (metástase). E ain- da que, o tumor benigno pode apresentar mais de uma linhagem celular e, neste caso, recebe, via de regra, o nome dos tecidos que o compõem, acres- cido do sufixo “oma”. 35ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Tratamento em oncologia Diagnóstico e tratamento As estratégias de detecção precoce aumentam a possibilidade de cura para alguns tipos de cânceres e reduzem a morbidade resultante da doença e de seu tratamento. O próximo passo fundamental para o tratamento adequado do câncer é o diagnóstico, incluindo o estadiamento, ou seja, a avaliação da extensão do comprometimento do organismo, na qual se baseará o planejamento terapêutico. Para isso, é essencial que a rede de serviços de saúde conte com especialistas nas áreas clínica, cirúrgica, laboratorial e dos demais métodos de apoio diagnóstico. O diagnóstico de câncer é feito a partir da história clínica e exame físico detalhados e, sempre que possível, de visualização direta da área atingida, utilizando exames endoscópicos como broncoscopia, endoscopia digestiva alta, mediastinoscopia, pleuroscopia, retossigmoidoscopia, colonoscopia, endoscopia urológica, laringoscopia, colposcopia, laparoscopia e outros que se fizerem necessários, como a mamografia para a detecção do câncer de mama. O tecido das áreas em que for notada alteração deverá ser biopsiado e encaminhado para confirmação do diagnóstico por meio do exame histopatológico, realizado pelo médico anatomopatologista. IMPORTANTE A confirmação diagnóstica pelo exame histopato- lógico, a determinação da extensão da doença e a identificação dos órgãos por ela acometidos cons- tituem um conjunto de informações fundamentais. 36 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A confirmação diagnóstica é realizada para: • Obtenção de informações sobre o comportamento biológico do tumor. • Seleção da terapêutica. • Previsão das complicações. • Obtenção de informações para estimar o prognóstico do caso. • Avaliação dos resultados do tratamento. • Investigação em oncologia: pesquisa básica, clínica, epidemiológica, translacional, outras. • Publicação dos resultados e troca de informações. Além de estadiar a doença, deve-se avaliar também a condição funcional do paciente. Deve-se determinar se esta, quando comprometida, é devida à repercussão do câncer no organismo, se é anterior à neoplasia, se é decorrente do tratamento ou de outra doença concomitante. Principais formas de tratamento As principais metas do tratamento são: cura, prolongamento da vida útil e melhora da qualidade de vida. Existem tratamentos curativos para um terço dos casos de câncer, particularmente para os cânceres de mama, colo do útero, cavidade oral e cólon, quando são detectados precocemente e tratados de acordo com as melhores práticas clínicas. VOCÊ SABIA? Alguns tipos de câncer, como o seminoma metas- tático (um tumor do testículo) e alguns tumores em crianças, como a leucemia aguda e os linfomas, mesmo não possuindo métodos de detecção pre- coce apresentam alto potencial de cura. 37ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Existem três formas principais de tratamento do câncer: quimioterapia, radioterapia e cirurgia. Elas podem ser usadas em conjunto, variando apenas quanto à suscetibilidade dos tumores a cada uma das modalidades terapêuticas e a melhor sequência de sua administração. Atualmente, poucas são as neoplasias malignas tratadas com apenas uma modalidade terapêutica. Quimioterapia É a forma de tratamento sistêmico do câncer que usa medicamentos denominados quimioterápicos (ou antineoplásicos) administrados em intervalos regulares, que variam de acordo com os esquemas terapêuticos. No ano de 2004, por meio da Resolução RDC/Anvisa de nº220 foi estabelecido que a terapia antineoplásica deve englobar, de maneira obrigatória, as etapas de: •Observação clínica. •Prescrição médica •Avaliação da prescrição. •Manuseio, controle de qualidade, conservação e armazenamento. •Transporte. •Administração. •Descarte e documentação. •Registro que assegure o rastreio de todas as etapas do processo. A administração de antineoplásicos é classificada como complexa, tendo em vista que os aspectos mais relevantes da 38 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 quimioterapia são atrelados a baixa margem terapêutica, assim, mínimas alterações na dose podem desencadear toxicidade de maneira incontrolável ao sujeito (ALMEIDA et al., 2019). Pacientes que fazem uso de quimioterapia necessitam passar por consulta de enfermagem especializada, com o intuito de se identificar qualquer alteração que impeça a realização do tratamento e o protocolo seja suspenso, adiado e/ou alterado (ALMEIDA et al., 2019). Figura 3 - A consulta de enfermagem é imprescindível, para que junto a equipe médica seja implementado a melhor conduta terapêutica Fonte: Freepik (2022). O enfermeiro, durante sua consulta, é responsável por: • Verificar condições clínicas/laboratoriais para liberação ou não da terapia. • Garantir a realização de tratamentos associados a radioterapia, quando necessário. • Assegurar/reforçar a segurança do paciente. 39ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Identificar previamente desordens ou necessidades do paciente ligadas ao tratamento quimioterápico. • Garantir assistência de qualidade e eficiente. A quimioterapia pode ser atrelada a outro método terapêutico, podendo este ser radioterápico ou medicamentoso. Figura 4 - A quimioterapia é realizada em ambiente intra-hospitalar Fonte: Freepik (2022). A quimioterapia pode ser classificada em: • Quimioterapia prévia, neoadjuvante ou citorredu- tora: indicada para a redução de tumores loco e regio- nalmente avançados que, no momento, são irresse- cáveis ou não. Tem a finalidade de tornar os tumores ressecáveis ou de melhorar o prognóstico do paciente. • Quimioterapia adjuvante ou profilática: indicada após o tratamento cirúrgico curativo, quando o paciente não apresenta qualquer evidência de neoplasia maligna detectável por exame físico e exames complementares. 40 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Quimioterapia curativa: tem a finalidade de curar pacientes com neoplasias malignas para os quais representa o principal tratamento (podendo ou não estar associada à cirurgia e à radioterapia). Alguns tipos de tumores no adulto, assim como vários tipos de tumores que acometem crianças e adolescentes, são curáveis com a quimioterapia. Figura 5 - Ciclos de Quimioterapia Fonte: CEON (s.d.). • Quimioterapia para controle temporário de doença: indicada para o tratamento de tumores sólidos, avançados ou recidivados, ou neoplasias hematopoéticas, de evolução crônica. Permite longa sobrevida (meses ou anos), mas sem possibilidade de cura; sendo, porém, possível obter-se o aumento da sobrevida global do doente. • Quimioterapia paliativa: indicada para a paliação de sinais e sintomas que comprometem a capacidade funcional do paciente, mas não repercute, obrigatoria- mente, na sua sobrevida. Independente da via de ad- ministração, é de duração limitada, tendo em vista a 41ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 incurabilidade do tumor (doença avançada, recidivada ou metastática), que tende a evoluira despeito do tra- tamento aplicado. A hormonioterapia é considerada um tipo de tratamento quimioterápico. Consiste no uso de substâncias semelhantes ou inibidoras de hormônios para tratar as neoplasias que são dependentes desses. A finalidade desse tratamento é definida pelo oncologista clínico, conforme a doença do paciente. ACESSE Para saber mais acesse o vídeo Dose de Saúde - Para que serve a hormonioterapia (Dr. Flávio Cárcano), clicando no QR-Code. Radioterapia A radioterapia é o método de tratamento local ou locorregional do câncer que utiliza equipamentos e técnicas variadas para irradiar áreas do organismo humano, prévia e cuidadosamente demarcadas. A radioterapia visa a destruição de células tumorais por meio de feixes de radiação ionizante. Esta pode ser empregada em distância por teleterapia, ou ainda, em contato direto com o tumor, por braquiterapia. A radioterapia é um método terapêutico que implica em distintas fases de tratamento. Estas são: • Simulação. https://www.youtube.com/watch?v=sAYwKy3qPtY 42 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Planejamento. • Tratamento. As finalidades da radioterapia relacionadas a seguir se referem a pacientes adultos, já que, em crianças e adolescentes, cada vez menos se utiliza a radioterapia, em virtude dos efeitos colaterais tardios ao desenvolvimento orgânico que ela acarreta. • Radioterapia curativa: principal modalidade de tratamento radioterápico; visa à cura do paciente. • Radioterapia pré-operatória (RT prévia ou citorredutora): procedimento que antecede a principal modalidade de tratamento, a cirurgia, para reduzir o tumor e facilitar o procedimento operatório. • Radioterapia pós-operatória ou pós-quimioterapia (radioterapia profilática): segue-se à principal modalidade de tratamento, com a finalidade de esterilizar possíveis focos microscópicos do tumor. • Radioterapia paliativa: objetiva o tratamento local do tumor primário ou de metástase(s), sem influenciar a taxa da sobrevida global do paciente. É usada principalmente nas seguintes circunstâncias: • Radioterapia antiálgica: modalidade de radioterapia paliativa com a finalidade específica de reduzir a dor. Radioterapia anti-hemorrágica: modalidade de radioterapia paliativa com a finalidade específica de controlar os sangramentos. 43ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Figura 4 - Equipamento de radioterapia Fonte: Wikimedia commons. Conhecimento em ação A efetividade do tratamento do câncer varia de forma significativa conforme o diagnóstico, o estadiamento da doença e os fatores sociais presentes. Considerando as dimensões e a heterogeneidade do Brasil e que um dos aspectos fundamentais para o sucesso do tratamento é o acesso à melhor terapêutica disponível, alguns desafios têm de ser superados. A seguir, alguns deles: • Capacitar, por meio da educação permanente em saúde, os recursos humanos, para que se comprometam o máximo possível com o encaminhamento do paciente para o tratamento, após ser feita a detecção precoce. Sem ele, a detecção precoce e o diagnóstico perderão o significado. 44 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 VOCÊ SABIA? A detecção e diagnóstico precoce de câncer pode ser realizado por meio de exames de rotina como exames laboratoriais de células vermelhas ou brancas, ou ainda, por exames ultrassonográficos e radiológicos. • Compreender, cada vez mais, a importância e o significado da informação sobre os casos de câncer atendidos em todos os hospitais do SUS que tratam a doença, a partir da coleta e do armazenamento de dados pelos Registros Hospitalares de Câncer, para avaliar os resultados do tratamento em nível nacional. • Comprometer-se em melhorar o acesso ao diagnóstico para os pacientes com suspeita de câncer que procuram o serviço de saúde (essa ação está diretamente ligada à estruturação da média complexidade), por meio da capacitação profissional, da educação permanente, além da garantia de infraestrutura necessária para essa etapa do cuidado. • Atualizar-se e apoiar as estruturas que regulam o encaminhamento do paciente na Atenção Oncológica, de modo a facilitar o acesso ao melhor tratamento disponível. IMPORTANTE O encaminhamento para as unidades de atenção oncológica é feito por unidade básicas ou ambulatoriais de saúde e tem por objetivo otimizar a entrada do paciente no serviço especializado e o adequado acompanhamento com equipe especialista. • Contribuir para que as unidades que tratam pacientes com câncer ofereçam serviços integrados, assegurando atenção às necessidades dos pacientes durante o tratamento oncológico. 45ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 • Durante o atendimento, todo profissional deve orientar o paciente e seus familiares sobre a relevância da adoção de hábitos saudáveis de vida, como: não fumar, manter alimentação saudável e praticar atividades físicas, contribuindo para o controle do câncer e prevenção de outras doenças. RESUMINDO E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu mesmo tudinho? Agora, só para termos certeza de que você realmente entendeu o tema de estudo deste capítulo, vamos resumir tudo o que vimos. Você deve ter aprendido que as estratégias de detecção precoce aumentam a possibilidade de cura para alguns tipos de cânceres e reduzem a morbidade resultante da doença e de seu tratamento. Deve ter compreendido que o diagnóstico de câncer é feito a partir da história clínica e exame físico detalhados e, sempre que possível, de visualização direta da área atingida, utilizando exames endoscópicos como broncoscopia, endoscopia digestiva alta, mediastinoscopia, pleuroscopia, retossigmoidoscopia, colonoscopia, endoscopia urológica, laringoscopia, colposcopia, laparoscopia e outros que se fizerem necessários, como a mamografia para a detecção do câncer de mama. O tecido das áreas em que for notada alteração deverá ser biopsiado e encaminhado para confirmação do diagnóstico por meio do exame histopatológico, realizado pelo médico anatomopatologista. Deve ainda ter aprendido que o câncer é tratado por meio de quimioterapia e radioterapia, bem como sua usabilidade. 46 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Leucemias, linfomas e mielomas Leucemias e linfomas A leucemia é uma patologia maligna que tem início na medula óssea e percorre toda a corrente sanguínea. Esta pode ser classificada diferentemente, a depender da sua progressão. Ela pode ser: • Aguda. • Crônica. A leucemia representa um grupo de neoplasias malignas derivadas das células hematopoiéticas. Figura 6 - Normalidade versus Leucemia Fonte: Tu farmacêutico de guardia (2019). 47ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Esta doença inicia sempre na medula-óssea, local em que as células sanguíneas são produzidas e, posteriormente, invadem o sangue periférico, podendo atingir vários órgãos do paciente afetado. A leucemia é a doença maligna mais comum na infância, correspondendo aproximadamente a 30% dos casos de câncer em crianças. No Brasil são registrados cerca de 7400 casos de leucemia por ano com um total de 5500 mortes, representando o 8o tipo de câncer mais frequente na população brasileira. De acordo com a célula de origem, as leucemias podem ser classificadas em mieloide ou linfocítica. As células mieloides irão dar origem: • Eritrócitos (hemácias). • Monócitos. • Neutrófilos. • Eosinófilos. • Basófilos. • Plaquetas. • Células linfoides. Com a proliferação das células neoplásicas no interior da medula óssea há um suprimento na produção das células hematopoiéticas normais. Devido à redução no número de hemácias, e subsequentemente, da capacidade de transporte de oxigênio do sangue, os pacientes com leucemia irão apresentar anemia e fadiga. Os pacientes leucêmicos também apresentam problemas de sangramentodevida à falta de plaquetas (trombocitopenia). 48 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 VOCÊ SABIA? A febre também é uma característica clínica co- mum e está associada à infecção devido à deple- ção de neutrófilos. De acordo com o comporta- mento clínico da doença, as leucemias podem ser classificadas em aguda e crônica. Desta forma, temos quatro tipos principais de leucemias: A Leucemia Linfocítica Aguda (LLA): representa cerca de 85% dos casos de leucemias em crianças, em uma incidência de 1:25.000 indivíduos entre 0 a 14 anos. A faixa etária de maior frequência está entre 2 e 5 anos. A etiologia da LLA é discutida, embora sejam enfatizados como possíveis causas: efeitos da irradiação, exposição a drogas, fatores genéticos, fatores imunológicos e vírus. As principais características clínicas dos pacientes com LLA são: • Febre. • Anemia. • Fadiga. • Anorexia. • Sangramento. Além disso, a dor óssea devido ao comprometimento da medula óssea também é muito frequente e crianças pequenas podem mancar ou recusar-se a andar. IMPORTANTE Os pacientes com leucemia apresentam um maior número de células imaturas no sangue, podendo ser identificadas no hemograma e o diagnóstico final é feito por meio de punção aspirativa da me- dula óssea. 49ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 O tratamento preconizado para a LLA é a quimioterapia e, em alguns casos, o transplante de medula óssea, visando substituir a medula “doente” por uma sadia. No Brasil, as crianças e jovens com LLA curam-se em 70% a 80% dos casos. A Leucemia Mielocítica Aguda (LMA) afeta tanto adultos quanto crianças e representa cerca de 20% das leucemias da infância. As características clínicas são semelhantes às da LLA, em que os pacientes apresentam febre, anemia, fadiga. Os problemas com sangramentos são mais frequentes nos pacientes com LMA do que com LLA. O diagnóstico da LMA também é feito a partir do aspirado de medula óssea e o seu tratamento é mais complicado que da LLA. Por meio da quimioterapia, 60% dos pacientes apresentam remissão completa da doença, no entanto, apenas 15 a 30% permanecem livres da doença por 5 anos. Devido a isso, o transplante de medula óssea é uma boa alternativa no tratamento da LMA. Este tipo de leucemia atinge quase que exclusivamente pacientes adultos, sendo considerada o tipo mais comum nesta faixa etária nos países Ocidentais. A média de idade dos pacientes acometidos é de 60 anos com uma discreta predominância no gênero masculino. A Leucemia Linfocítica Crônica (LLC): Frequentemente é um tipo de leucemia assintomático, sendo detectada em exames de sangue de rotina. Em alguns casos, os pacientes podem apresentar anorexia, perda de peso, linfadenopatia, hepatomegalia e esplenomegalia. A sobrevida média dos pacientes com Leucemia Linfocítica Crônica (LLC) é de 4 a 6 anos. Em cerca de 30% dos pacientes com LLC ocorre uma transformação da leucemia em outras neoplasias linfoides mais agressivas, nestes casos, a maioria dos pacientes sobrevivem menos de 1 ano. 50 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 A Leucemia Mielocítica Crônica (LMC): Distingue-se de outras leucemias por apresentar uma anormalidade molecular singular, uma translocação entre um gene do cromossomo 9 e outro no cromossomo 22. Este tipo de leucemia também atinge com maior frequência pacientes adultos, com pico entre a 3a e 4a décadas de vida. Os sintomas iniciais da doença são perda de peso, fadiga, anorexia. A esplenomegalia é uma característica clínica bastante comum em pacientes com LMC. A evolução da LMC é de progressão lenta, no entanto, depois de um período variável, em média de 3 anos, cerca de 50% dos pacientes entram em uma fase de crise, difícil de ser tratada, que termina em um quadro que se assemelha à leucemia aguda. O tratamento para a LMC é feito por meio de quimioterapia e transplante de medula óssea, principalmente nos casos que entraram na fase de crise. IMPORTANTE As principais manifestações bucais das leucemias estão relacionadas à falta de plaquetas (trombo- citopenia) e consistem em sangramento gengival espontâneo e a presença de petéquias (pontos he- morrágicos), principalmente no palato. Os pacien- tes leucêmicos ainda podem apresentar mucosa pálida devido à anemia e infecções oportunistas (candidose, herpes) devido à depressão do siste- ma imunológico. Uma ótima higiene oral deve ser encorajada, e investigação minuciosa de qualquer reclamação deve ser feita logo que possível em pacientes com leucemia, para prevenir complicações infecciosas orais graves como hipercromatismo nuclear, nucléolos evidentes, pleomorfismo nuclear e mitoses atípicas. O linfoma de Burkitt apresenta células claras (macrófagos) entre as células linfocíticas dando um padrão chamado de céu estrelado. 51ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Linfomas O linfoma representa um grupo de neoplasias malignas com origem de células linfoides, e que se diferem da leucemia linfocítica por se apresentarem na forma de massas tumorais sólidas e se originarem de tecidos linfoides, como os linfonodos. Lembrando que as leucemias se iniciam na medula óssea e atingem o sangue periférico, não formando massas tumorais. Os linfomas podem ser divididos em dois grupos principais: • Linfoma Não-Hodgkin (LNH). • Linfoma de Hodgkin ou doença de Hodgkin (DH). Figura 7 - Características dos linfomas Fonte: ESP (2023). 52 ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 Os Linfoma Não-Hodgkin (LNH) correspondem à cerca de 80% dos casos de linfoma. Podem ter origem de células B ou T, sendo que cerca de 85% dos casos são de células B. Existem várias classificações para os LNH e hoje em dia a mais aceita é a da REAL (Revised European-American Classification of Lymphoid Neoplasms), que leva em consideração o tipo celular, as manifestações clínicas, a morfologia, a imunofenotipagem e o genótipo. Segundo a classificação da REAL existem cerca de 17 tipos de LNH. Exemplo Nos Estados Unidos ocorrem cerca 35.600 casos de LNH por ano. A incidência deste tumor vem aumentando no mundo inteiro nas últimas décadas, atingindo mais homens do que mulheres, em uma relação de 1,5:1. Pacientes imunodeprimidos, como os aidéticos, apresentam uma probabilidade maior de desenvolver LNH. Os LNH têm um padrão de crescimento difuso ou multicên- trico e tendem a se disseminar nos estágios iniciais da doença. Quando o linfoma se dissemina para o sangue periférico, tor- na-se uma leucemia. Os LNH também podem ter origem em te- cidos extra-nodais, ou seja, tecidos não-linfoides como o trato gastrointestinal, a pele e a mucosa oral. A etiologia dos LNH é discutida. Alguns casos podem estar associados a vírus como o EBV (Epstein-Barr). Os LNH ocorrem principalmente em adultos, embora as crianças também possam ser afetadas e geralmente em casos mais agressivos. As primeiras manifestações clínicas da doença apresentam-se como aumento de volume lento e indolor de linfonodos. Conforme a malignidade progride, os linfonodos vão se tornando mais numerosos e fixos, gradualmente outros 53ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM EM ONCOLOGIA CLÍNICA U ni da de 2 grupos de linfonodos são atingidos e ocorre invasão local de tecidos adjacentes. Outros sintomas menos frequentes são: perda de peso, febre e sudorese noturna. Na cavidade oral, o linfoma ocorre como sendo do tipo extranodal e apresenta-se como tumefações firmes e difusas, de coloração eritematosa ou arroxeada e geralmente coma superfície ulcerada. Acomete principalmente a região de fundo de sulco, gengiva e palato. O linfoma de Burkitt é um tipo de LNH de células B que acomete principalmente os ossos gnáticos. IMPORTANTE Existem 3 tipos de linfoma de Burkitt: o tipo afri- cano, o tipo americano e o associado a pacientes com AIDS. O tipo africano é endêmico na África Central, atin- ge crianças