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Inserir Título Aqui Inserir Título Aqui As Diferentes Interações Sociais na Infância As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Me. Carla Rizzo Revisão Textual: Prof.ª Dr.ª Selma Aparecida Cesarin Nesta unidade, trabalharemos os seguintes tópicos: • A Aprendizagem das Práticas Sociais na Infância: A Família e o Contexto Sociocultural da Criança no Mundo Moderno; • A Educação Infantil no Brasil; • Os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento da Criança na BNCC (Base Nacional Comum Curricular); • O Campo de Experiência na Perspectiva do Eu, do Outro e do Nós. Fonte: Getty Im ages Objetivos • Apresentar uma breve retrospectiva sobre a trajetória das concepções filosóficas e das Políticas Públicas desenvolvidas na Educação Infantil brasileira; • Conhecer os princípios do campo de experiência: o eu, o outro e o nós; • Estudar a influência da Sociedade líquida no desenvolvimento da criança. Caro Aluno(a)! Normalmente, com a correria do dia a dia, não nos organizamos e deixamos para o úl- timo momento o acesso ao estudo, o que implicará o não aprofundamento no material trabalhado ou, ainda, a perda dos prazos para o lançamento das atividades solicitadas. Assim, organize seus estudos de maneira que entrem na sua rotina. Por exemplo, você poderá escolher um dia ao longo da semana ou um determinado horário todos ou alguns dias e determinar como o seu “momento do estudo”. No material de cada Unidade, há videoaulas e leituras indicadas, assim como sugestões de materiais complementares, elementos didáticos que ampliarão sua interpretação e auxiliarão o pleno entendimento dos temas abordados. Após o contato com o conteúdo proposto, participe dos debates mediados em fóruns de discussão, pois estes ajudarão a verificar o quanto você absorveu do conteúdo, além de propiciar o contato com seus colegas e tutores, o que se apresenta como rico espaço de troca de ideias e aprendizagem. Bons Estudos! As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Contextualização Para começarmos o estudo desta Unidade, convido você a assistir o desenho pre- miado em terceiro lugar no Concurso Ceará de Cinema e Vídeo: Projeto Vida Maria. Esse vídeo reacende a discussão sobre as estruturas familiares de algumas regi- ões brasileiras. A pergunta que faço a você, caro(a) aluno(a), é a seguinte: Nossas crianças têm ou terão de fato acesso aos direitos de aprendizagem e desenvolvimento integral propostos pela nova BNCC – Base Nacional Comum Curricular? Você já percebeu que existem “Muitos Brasis” (MANAYO, 1999)? Vários aspectos desse desenho contemplam as discussões que serão realizadas nesta Unidade, tais como, o papel da família na vida da criança, o cuidar e o educar e a infân- cia ceifada, entre outros. Como garantir os direitos da convivência saudável, da brincadeira na infância, da participação das crianças na Sociedade, da exploração do meio, da expressão infantil nas diversas áreas do conhecimento, do conhecimento de si e do outro, se a divisão social, política, econômica e educacional são tão presentes nas entranhas da Socieda- de brasileira? Para responder a essas perguntas, assista ao desenho Vida Maria e estude com afinco o Material Teórico proposto nesta Unidade. Disponível em: https://youtu.be/yFpoG_htum4 6 7 A Aprendizagem das Práticas Sociais na Infância: A Família e o Contexto Sociocultural da Criança no Mundo Moderno Atualmente, refletir sobre o contexto em que as crianças estão inseridas não é ta- refa fácil! Para Wallon (1975), o meio educacional, juntamente com a família, é fundamental para a aprendizagem e o exercício das práticas sociais, local onde ela conquista suas primeiras condutas, desenvolve sua personalidade e consciência. O meio onde a criança está inserida servirá como modelo para a constituição de sua identidade. Você já deve ter percebido, explica Rizzo (1996), que a criança estabelece suas primeiras ligações emocionais, manifesta seus estados afetivos e percebe o meio que a circunda, no convívio familiar. A família é, para a criança, meio de sobrevivência, que lhe assegura (ou deveria assegurar) alimentação, segurança, proteção e educação para o seu desenvolvimento. No período de 0 (zero) a 5 (cinco) anos de idade, a criança é muito ligada à cons- telação familiar. A família tem grande importância para ela, porque é o conjunto em que está in- serida e que “delimita a sua personalidade, realmente o centro de interesse, de senti- mentos, de exigências, de decepções que são resultados do lugar ocupado por ela na constelação familiar” (WALLON, 1975, p. 209). A princípio, a criança faz parte de uma estrutura que determina sua vida e com- portamentos, o que não significa, caro(a) aluno(a), que suas condutas não possam ser transformadas pelas circunstâncias sociais e escolha pessoal. Desde o nascimento, a criança está para a família, assim como a família está para a sociedade. Em que mundo as crianças estão inseridas? Como sinaliza Zygmunt Bauman (2001), a criança está inserida num mundo globali- zado, tecnológico, instantâneo, fugaz, dinâmico e incerto. A Sociedade atual praticamente abandonou as antigas estruturas sociais sólidas (re- ferências tradicionais, duradouras e firmes no tocante aos relacionamentos pessoais, trabalhistas, econômicos, culturais e políticos), desenvolvidas, principalmente, entre os séculos XVIII e XIX, e inaugura uma nova ordem social que o autor intitula como Modernidade Líquida: 7 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Os fluidos, por assim dizer, não fixam o espaço nem prendem o tem- po. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras, mas neu- tralizam o impacto e, portanto, diminuem a significação do tempo (resistem efetivamente seu fluxo ou o tornam irrelevante), os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la; assim, para eles, o que conta é o tempo, mais do que o espaço que lhes toca ocupar; o espaço que, afinal, preen- chem apenas “por um momento”. (BAUMAN, 2001, p. 8) Figura 1 Fonte: Getty Images No contexto da Sociedade ou Modernidade Líquida, os valores sociais tradicionais foram praticamente diluídos, substituídos e modificados. A sensação de desintegração das estruturas sociais, sentida por muitos de nós, pode ser comparada aos estados físicos da matéria, como explicado por Bauman (2001): • Os líquidos não mantêm sua forma com facilidade; • Os fluídos não fixam o espaço nem prendem o tempo; • Os líquidos não se atêm muito a qualquer forma. Figura 2 Fonte: Getty Images 8 9 Os primeiros sólidos a derreter e os primeiros sagrados a profanar eram as lealdades tradicionais, os direitos costumeiros e as obrigações que atavam pés e mãos, impediam os movimentos e restringiam as ini- ciativas. Para poder construir seriamente uma nova ordem (verdadei- ramente sólida!) era necessário primeiro livrar-se do entulho com que a velha ordem sobrecarregava os construtores. (BAUMAN, 2001. p. 10) Para Bauman (2001), o poder do mundo líquido é a fluição. Os fluídos movem-se com facilidade, simplesmente “fluem”, “escorrem entre os dedos”, “transbordam”, “va- zam” como gotículas: Figura 3 Fonte: Getty Images Em outras palavras, Bauman (2001) começa a demonstrar que, no campo relacio- nal, os laços afetivos considerados mais profundos, comprometidos, sólidos e seguros foram sendo substituídos por afetos emocionais mais fluidos, inconsistentes, inseguros e descomprometidos. Argumenta ainda que, a criança, o jovem, o adulto e o idoso são partes integrantes dessa nova estrutura social fluída e líquida, sustentada por uma economia globalizada, tecnológica e consumista: A vida do consumidor, a vida de consumo, não se refere à aquisição e posse. Tampouco tem a ver com se livrar do que foi adquirido anteon- tem e exibidocom orgulho no dia seguinte. Refere-se, em vez disso, principalmente e acima de tudo, a estar em movimento. (BAUMAN, 2008, p. 126) Tudo está em movimento e fluição. Simbolicamente, Bauman (2008) estabelece uma comparação entre o estado da matéria sólida, preconizado pelas sociedades tra- dicionais: a durabilidade, a certeza, a firmeza e a estabilidade nas relações de trabalho, nos relacionamentos familiares e afetivos dos indivíduos e que se tornam gradualmente voláteis, sem forma, incertos e perigosos. As Instituições sociais, com valores sólidos e duradouros, tais como as Empresas, as Religiões e as famílias começam a entrar em colapso e desconstrução. Parece existir um desmantelamento da Sociedade tradicional e industrial. 9 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Você já observou, de modo geral, como as pessoas estão com muita dificuldade para es- tabelecer vínculos de confiança e companheirismo nos diversos segmentos da Sociedade? Figura 4 Fonte: Getty Images Essa nova ordem social, intitulada por Bauman (2001) Sociedade Líquida, no mundo do trabalho, tem como características: a competitividade, a falta de ética e o individua- lismo extremo. No universo profissional, parece que as pessoas foram reduzidas a uni- dades quantificáveis, cujas personalidades são controladas pelo indiferente ponto digital. No mundo líquido e contemporâneo, nossas crianças incorporam, aprendem, ab- sorvem e introjetam, basicamente, valores que fortalecem o indivíduo e não o espírito de fraternidade, generosidade, afetividade, coletividade, justiça e cidadania, segundo Yves De La Taille (2006), virtudes e valores sociais tão importantes para o desenvolvi- mento moral e ético na infância. Infelizmente, os fenômenos da globalização negativa, explicados por Bauman (2008), tais como a competição, o desempenho individual, a autoafirmação, o prag- matismo, a separação, a razão, a injustiça, o terrorismo, a violência e o descartável tornaram-se preponderantes nas práticas sociais do mundo moderno. Figura 5 Fonte: Getty Images 10 11 Segundo Bauman (2001, p. 74): Tudo, por assim dizer, corre agora por conta do indivíduo. Cabe ao indivíduo descobrir o que é capaz de fazer, esticar essa capacidade ao máximo e escolher os fins a que essa capacidade poderia melhor servir – isto é, com a máxima satisfação concebível. Liberdade sem limites e barreiras: benção ou maldição? Atualmente, o indivíduo pode agir conforme seus pensamentos e desejos, mas recai sobre ele a responsabilidade por seus atos e ações. Para Bauman (2008), a modernidade é um caminho infindável de oportunidades, desejos e realizações a serem perseguidas continuamente. Figura 6 Fonte: Getty Images No homem, quais são os efeitos comportamentais mais comuns na engrenagem da máquina de produção? Segundo Fromm (1977), boa parte da população mundial passa o tempo com pessoas e tarefas nas quais, geralmente, não está interessada, e quando não produz, consome, o que conduz ao tédio e à solidão. O tédio e a solidão, por sua vez, são contornados pela indústria do entretenimento, alimentação e engenhocas. Os traços da deficiência sistêmica na Sociedade industrial, globalizada e tecnológica também parece conduzir crianças, jovens e adultos aos processos de passividade e alienação: aceita ser alimentado, mas não se mexe; não começa, não digere, por assim dizer, o seu alimento. 11 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Apenas, acumula e consome e, segundo Fromm (1977): Figura 7 Fonte: Getty Images Desde a tenra idade, a criança está exposta aos valores sociais precisamente des- critos por Bauman (2001). Dependendo das práticas educativas familiares, a criança aprende desde cedo a de- senvolver relacionamentos fluidos, rápidos e com vínculos pouco sólidos e amorosos. Na liquidez não existe forma; os fluidos se movem conforme a situação. Os líquidos penetram nos lugares, nas pessoas, contornam o todo. Bauman (2001) estabelece um paralelo simbólico entre as características dos esta- dos descritos acima e as peculiaridades da Sociedade moderna. Figura 8 Fonte: Getty Images 12 13 Para terminar a reflexão sobre o papel da família no contexto sociocultural da criança no mundo moderno, convido você, caro(a) aluno(a), assista ao vídeo Criando filhos em tempos difíceis – A criança em seu mundo, do Prof. Dr. Mário Sérgio Cortella. (Algumas temáticas expostas no vídeo serão utilizadas para a avaliação das atividades de sistemati- zação desta Unidade). Disponível em: https://youtu.be/eqmprHjY0Tw Para finalizar nossa reflexão sobre a família e o contexto sociocultural da criança no mundo moderno, é importante ressaltar que a criança é sensível a tudo que se refere à família. Portanto, ela ainda tem a responsabilidade de cuidar, proteger, zelar e educar seus filhos, mesmo com as inúmeras transformações ocorridas na sociedade moderna. A Educação Infantil no Brasil Segundo Rizzo (1996), nem sempre a entrada a criança no meio educacional ocor- re de forma tranquila, devido à sua forte ligação com a família. A criança estranha outras pessoas, o novo grupo e as atividades que a absorvem totalmente. Fica dividida entre o antigo (o meio familiar) e o novo (o meio educacional). O segmento de Educação Infantil constitui-se num importante espaço educacional que viabiliza e prepara a entrada da criança em diferentes grupos e práticas sociais. Para Wallon, “Os grupos provocam uma organização íntima da pessoa, ao intro- duzir-lhe as diferentes categorias de relação com os outros” (WEREBE, 1986, p. 178). A criança fortalece e modifica sua personalidade a partir do momento que interage com crianças da mesma idade, com crianças mais experientes e adultos Figura 9 Fonte: Getty Images Daí, orienta Rizzo (1996), a importância da Educação Infantil no desenvolvimento da criança, para iniciá-la em novas práticas sociais e ampliar sua capacidade de esta- belecer ligações com outras pessoas. 13 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Figura 10 Fonte: Getty Images Breve Retrospectiva Histórica das Concepções da Educação Infantil no Brasil Segundo Rizzo (1996), por muito tempo, a Educação Infantil oferecida à criança de zero a seis anos foi considerada educação Pré-Escolar, anterior à Escola de 1°grau. O termo Pré-Escola parece tão enraizado no meio cultural brasileiro que boa parte das pes- soas, fora e dentro da Educação Infantil, continua a compreendê-lo como a Escola que vem antes da Escola. Essa crença equivocada significa reduzir seu significado. Parece que a Educação Infantil ainda não é contemplada em sua merecida especificidade. Existe a tendência na Sociedade brasileira de reduzir o valor e o significado do trabalho realizado com crianças dessa faixa etária. Segundo Rizzo (1996), muitas pessoas ainda consideram a Educação Infantil a serviço da brincadeira infantil. Parece, também, não haver compreensão adequada sobre a importân- cia da brincadeira na vida e no desenvolvimento da criança. Para Rizzo (1996), é brincando e interagindo com outras pessoas que a criança desenvolve suas capacidades e toma consciência de seus próprios sentimentos, assim como aprende a lidar com as tarefas, as atividades ou as situações que novos grupos e relacionamentos propõem. Fundamentar as diretrizes e a prática da educação de crianças de zero a seis anos é tarefa complexa e difícil. Os diversos serviços de atendimento que se constituíram ao longo da República brasileira, como Creches, Escolas particulares e Jardins de Infância, entre outros, apa- recem como resultado de reestruturações sociais, políticas e econômicas. A condição social feminina, explica Rizzo (1996), sofreu profundas transformações. A partir de meados do século XX, no Brasil, as mulheres vão à luta por melhores condições de vida, buscando realização no campo pessoal e profissional. Luta pelo direito a um espaço em que possamdeixar seus filhos, com segurança e bem cuidados. Mesmo as mulheres que não trabalham exigem esse espaço. Aumenta 14 15 o número de Creches, Parques Infantis, Pré-Escolas e outros, que procuram atender a essa necessidade. Outro fator que parece ter pesado significativamente para o aumento de estabele- cimentos infantis, acrescenta Rizzo (1996), foram os poucos espaços urbanos à dispo- sição das crianças. Devido ao desenvolvimento urbano e industrial, as crianças perdem espaços impor- tantes para as suas brincadeiras. O trânsito intenso torna as ruas perigosas, as praças públicas perdem a segurança e os deliciosos quintais se tornam cada vez mais escassos nas grandes cidades. Para Rizzo (1996), era necessário (e ainda é) garantir a criação de estabelecimentos para a expressão da alegria infantil, espaços que, de fato, pertençam às crianças pe- quenas para exercerem a sua capacidade de aprendizagem, brincando com crianças da mesma idade, recebendo cuidados e proteção de adultos qualificados, além das condições de saúde, alimentação e segurança adequada ao crescimento. Kishimoto (1986 e 1994), Abromovay Kramer (1994) e Oliveira (1994) apontam duas concepções que influenciam a Educação Infantil no Brasil: assistencial (ou de caridade) e preparatória (ou compensatória). Como assistencial, a função da Educação Infantil era velar e guardar os filhos da classe trabalhadora, mais expostos aos efeitos do desenvolvimento industrial. Segundo Kishimoto (1994), a própria legislação, nos anos 20, assume essa postura: “As Escolas maternais são destinadas a iniciar a educação physica, intelectual e moral dos filhos dos operários” (Decreto n° 3.078, de 30/04/24, Cap.II, Art. 5°). Uma educadora de Jardim de Infância aponta tal concepção: “As instituições pré- -escolares que prestam assistência e dão também educação são vulgarmente chama- das de creches e escolas maternais” (FARIA, 1941, apud KISHIMOTO, 1994, p. 20). Segundo Rizzo (1996), as crianças ricas e das camadas sociais médias eram atendi- das pelos Jardins de Infância, que visavam ao desenvolvimento por atividades, confor- me os interesses e os desejos da criança: jogos, trabalhos manuais, desenhos, poesias e cantos, observação da natureza etc., com a ajuda de Materiais Pedagógicos. De todos os estabelecimentos infantis, a Creche, hoje chamada de Centro de Con- vivência Infantil (CCI), Centro de Educação Infantil (CEI) ou EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil), é um dos serviços mais influenciados pela concepção assistencialista. Atualmente, mesmo sendo considerado um equipamento com fins educacionais, que promove condições para o desenvolvimento físico, afetivo, cognitivo e social das crian- ças, os pais experimentam certo sentimento de culpa ao deixarem aí os filhos. Isso, tal- vez, por acreditarem que, sozinhos, podem proporcionar à criança educação adequada ou porque a creche ainda carrega historicamente o estigma de atender apenas crianças carentes ou abandonadas. 15 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Por volta dos anos 1970, explica Rizzo (1996), surge a concepção preparatória (ou compensatória) que perdura praticamente até a década de 1980, acreditando-se que a Educação Infantil poderia suprir a carência cultural, habilidades como lateralidade, coordenação motora, socialização, vocabulário, percepção espacial, temporal e visu- al, entre outros, que acometiam principalmente, as crianças das classes populares, preparando-as para a Escolarização (Escola de 1° grau). A todos os estabelecimentos infantis, públicos ou particulares, independentemente de sua origem social, compete cuidar, proteger e, principalmente, educar. Nas Constituições anteriores a 1988, a Educação, do zero aos seis anos, nem é ao menos contemplada em sua merecida especificidade nas Diretrizes e Bases da Educa- ção Nacional. Somente a partir de 1988, a Constituição brasileira (Artigo 208, Inciso IV) assume como dever do Estado “O atendimento em creche e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade.” Segundo o Artigo 209, Inciso I e II, o ensino é livre à iniciativa privada, desde que se submeta “Ao cumprimento das normas gerais da educação nacional e à autorização e à avaliação pelo Poder Público”. A Constituição Paulista de 1989 (Artigo 247) reconhece que “A educação da crian- ça de zero a seis anos está integrada ao sistema de ensino” e dispõe que se devem respeitar as características próprias dessa faixa etária. E o processo n° 413/95 do Conselho Estadual de educação reafirma: “Uma vez que a Educação Infantil passa a integrar o sistema de ensino, os estabelecimentos que a ministram não podem funcionar como cursos livres”. A Legislação mostra avanço qualitativo, ao reconhecer a importância da Educação Infantil na formação do indivíduo, não mais a entendendo como depósito, local de guarda ou de passatempo da criança. A Educação Infantil: não é só uma preparação (treinamento) para a Escola de 1° grau, nem meio de compensar deficiências e, muito menos, local de guarda ou de depósito das crian- ças. Ela é a base de formação do indivíduo e, como tal, faz parte do Sistema de Educação, que é um processo contínuo. Você concorda que insistir em ambas as concepções, assistencial e compensatória, é discri- minar a criança e seu atendimento? Apenas em 1996, conforme a nova Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional, n° 9394/96, a Educação Infantil, também pela primeira vez, tem como propósito cuidar de crianças de 0 até 6 anos e, principalmente, educá-las; portanto, foi considerada como etapa inicial da Educação Básica, junto com o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. 16 17 Conforme a LDB, Artigo 29: A educação infantil, primeira etapa da educação básica tem como fi- nalidade o desenvolvimento integral da criança até seis anos de idade, em seus aspectos físico, psicológico, intelectual e social, complemen- tando a ação da família e da comunidade. Desde então, a Educação Infantil, portanto, deve atender às necessidades básicas da criança, garantindo-lhe os direitos conquistados na legislação: • Educação para todas as crianças de zero a seis anos; • Condições para o funcionamento adequado dos estabelecimentos, propostas peda- gógicas (um plano de educação), habilitação e qualificação profissional do pessoal, para garantir a boa qualidade dos serviços oferecidos; • Orientação, controle e avaliação do processo educativo; • Fechamento, de fato, de estabelecimentos caracterizados como cursos livres; • Formação e atualização dos profissionais em exercício com crianças de zero a seis anos; • Não discriminação dos estabelecimentos infantis, públicos ou particulares. Apesar do avanço legal, como se vê, a Educação Infantil passou por muitos per- calços desde a sua implantação. Outra alteração significativa na trajetória histórica da Educação Infantil brasileira acontece com a homologação da LDB, de 2006. Vamos conhecer essa mudança. Em 2006, conforme a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) da Educação Nacional, a Educação Infantil passa a atender apenas crianças de 0 até 5 anos e o Ensino Fundamental antecipa o seu atendimento para as crianças com 6 anos. Mas, hoje, a Educação Infantil, conforme a Emenda Constitucional n°59/2009, determina que a obrigatoriedade da Educação Básica atenda alunos dos 4 aos 17 anos. Na LDB de 2013, essa extensão da obrigatoriedade é incluída, garantindo, assim, o atendi- mento e a matrícula de todas as crianças de 4 e 5 anos em Instituições de Educação Infantil. Outro documento significativo: os Parâmetros Nacionais de Qualidade para Educação In- fantil, ressaltam a importância de as Unidades de Educação Infantil implementarem ações educativas baseadas no binômio cuidar-educar: “As práticas de cuidado e educação na perspectiva da integração dos aspectos físicos, emocionais, afetivos, cognitivos/linguísticos e sociais da criança, entende que ela é um ser completo, total e indivisível (BRASIL, 2006, p. 32, v. 2).Convido você a refletir sobre o significado do binômio “cuidar-educar”. Primeiramente, abra o Caderno de Orientações Pedagógicas – Educação Infantil – SEDUC – MA, 2018. Em seguida, faça a leitura das páginas 19 e 20, no item 1.4 – O direito de ser cuidado, educado e também escutado; que desvincula a Educação Infantil do caráter assistencia- lista e considera indissociável o papel social de cuidar e educar nas unidades infantis . Disponível em : https://bit.ly/2Pq3Oh7 17 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Após a leitura do texto indicado acima, assista ao vídeo Educação Infantil: cuidar, educar e brincar, também encontrado na p. 20 do Caderno, no item 1.4, do SEDUC, MA. Disponível em: https://youtu.be/RiFXduOjRUI Fica evidente que o par cuidar-educar nem sempre é contemplado em suas especi- ficidades nas Unidades Infantis, vez que, durante muitos anos, nas Creches ou Centros de Convivência Infantil, as auxiliares cuidavam dos aspectos mais relacionados ao cor- po da criança, tais como a troca de fraldas, a higienização, a supervisão nos horários de sono e alimentação, e as professoras se dedicavam às ações educativas em sala de aula. Infelizmente, ainda hoje, é possível encontrar instituições infantis, que trabalham de forma desvinculada o cuidar do educar. Tente observar esse fenômeno quando entrar num espaço de Educação Infantil, ok!? Pode ser que você se surpreenda! Os Direitos de Aprendizagem e Desenvolvimento da Criança na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) Para Rizzo (1996), a Educação Infantil ainda tem um longo caminho a percor- rer para se tornar um atendimento adequado à criança, democrático, com equidade e qualidade. É preciso redefinir sua função e superar concepções dualistas e discriminatórias como cuidar-educar, feminino-masculino, emoção-intelecto etc.; cisões dialéticas, ain- da muito presentes nas concepções educacionais brasileiras e mundiais. Em 20 de dezembro de 2017, em Brasília, foi homologada a nova BNCC – Base Nacio- nal Comum Curricular, pelo Ministro da Educação José Mendonça Filho. Nesse documento, o Brasil passa a explicitar os direitos de aprendizagem e desen- volvimento dos alunos, em todos os níveis de ensino: infantil, Fundamental e Médio. A ideia é assegurar aos profissionais da Educação uma referência para a construção e planejamento dos currículos de todas as Redes Públicas e Particulares do país. Para a garantia dos direitos de aprendizagem significativa e de desenvolvimento da criança dos 0 (zero) aos 5 (cinco) anos, a BNCC propôs que os eixos estruturantes da Educação In- fantil – as interações e as brincadeiras, garantam seis direitos básicos. A seguir, conheça na integra esses direitos. Disponível em: https://bit.ly/2HyWZVv 18 19 • Conviver com outras crianças e adultos, em pequenos e grandes grupos, utilizando diferentes linguagens, ampliando o conhecimento de si e do outro, o respeito em relação à Cultura e às diferenças entre as pessoas; • Brincar cotidianamente de diversas formas, em diferentes espaços e tempos, com diferentes parceiros (crianças e adultos), ampliando e diversificando seu acesso a pro- duções culturais, seus conhecimentos, sua imaginação, sua criatividade, suas experi- ências emocionais, corporais, sensoriais, expressivas, cognitivas, sociais e relacionais; • Participar ativamente, com adultos e outras crianças, tanto do planejamento da gestão da Escola e das atividades propostas pelo educador quanto da realização das atividades da vida cotidiana, tais como a escolha das brincadeiras, dos materiais e dos ambientes, desenvolvendo diferentes linguagens e elaborando conhecimentos, decidindo e se posicionando; • Explorar movimentos, gestos, sons, formas, texturas, cores, palavras, emoções, transformações, relacionamentos, histórias, objetos, elementos da natureza, na Escola e fora dela, ampliando seus saberes sobre a cultura, em suas diversas moda- lidades: as Artes, a Escrita, a Ciência e a Tecnologia; • Expressar, como sujeito dialógico, criativo e sensível, suas necessidades, emoções, sentimentos, dúvidas, hipóteses, descobertas, opiniões e questionamentos, por meio de diferentes linguagens; • Conhecer-se e construir sua identidade pessoal, social e cultural, constituindo uma imagem positiva de si e de seus grupos de pertencimento, nas diversas experiências de cuidados, interações, brincadeiras e linguagens vivenciadas na instituição Escolar e em seu contexto familiar e comunitário. Para finalizarmos a explicação acerca dos seis direitos de aprendizagem e desenvolvimento na Educação Infantil, convido você a assistir ao vídeo Pergunte para o Avisa Lá sobre a BNCC, respostas da Prof.a Dr.a Silvana Augusto. Disponível em: https://youtu.be/LZrKU5fz9bU Você percebeu como está aprendendo de forma dinâmica e aprofundada sobre cada tema abordado até aqui? Como você organiza o seu trabalho pedagógico, para a garantia dos seis direitos de aprendi- zagem e desenvolvimento: conviver, brincar, participar, explorar, expressar e conhecer-se? Para Wallon, o educador é, antes de tudo, um observador que cria oportunidades e situações para que a criança se desenvolva intelectual, afetiva, física e socialmente. Portanto, a partir do que a criança manifesta e expressa, é que o educador deve construir sua Prática Pedagógica: planejando e organizando os tempos e os espaços na Educação Infantil. É preciso observar e interpretar a criança em todas as suas fases e manifestações. 19 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós A intencionalidade educativa é importante, mas necessitamos, na Educação Infan- til, tomar cuidado para não sistematizarmos precocemente as atividades que favore- çam a construção do conhecimento objetivo. Tal maneira de proceder pode ser fruto da cultura intelectualista e racionalista da Sociedade atual. É brincando e interagindo que as crianças se apropriam de si, do outro e do nós. O Campo de Experiência na Perspectiva do Eu, do Outro e do Nós Você sabia que, na BNCC, a organização curricular na Educação Infantil está baseada em cinco campos de experiência? São eles: 1. O eu, o outro e o nós; 2. Corpo, gestos e movimento; 3. Traços, sons, cores e formas; 4. Escuta, fala, pensamento e imaginação; 5. Espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Agora, assista ao vídeo Campos de experiência e o currículo, explicado pela Prof.a Dr.a Zilma de Oliveira. Assim, é possível vislumbrar como você poderá organizar os diferentes campos de experiência no seu trabalho pedagógico com crianças de Creches e Educação Infantil. Disponível em: https://youtu.be/fgq5nizVfy0 Aqui, nesta Unidade, iremos apenas estudar o campo da experiência: o eu, o outro e o nós, ok!? Vamos lá! Segundo Rizzo (1996), desde o nascimento, a criança interage com seus pares, adultos, meio ambiente natural, histórico, cultural e social. Na medida em que vai crescendo e se desenvolvendo física, emocional, intelectual e socialmente, começa a observar, a perceber e a construir um modo próprio de agir, sentir e pensar o mundo, a si própria e ao outro. Nessas interações sociais, explica Rizzo (1996), a criança começa a construir repre- sentações sociais acerca da realidade da natureza, do ser humano, da Sociedade, da Cultura e de si mesma. O currículo na Educação Infantil deve contemplar situações educativas ricas em experiências sociais, que conectem a criança ao outro, por meio das brincadeiras, do corpo, da música, do movimento, da fala e do imaginário. 20 21 Continuamos nossos estudos sobre o campo de experiência o eu, o outro e o nós assistin- do ao segundo vídeo da Prof.a Dr.a Zilma de Oliveira As interações e a brincadeira como eixos do trabalho na Educação Infantil. Disponível em: https://youtu.be/P1y2PXzPdHM A partir das brincadeiras e das práticas sociais desenvolvidas na Educação Infantil, explica Rizzo (1996), a criança começa a conhecer, aprender os códigos dos relaciona- mentossociais, morais e éticos, os cuidados consigo mesmo, o outro e o meio ambiente, as diferentes culturas e modos de vida, ou melhor, a se constituir como pessoa humana. É preciso que os(as) educadores(as) conheçam a criança na prática, explica Wallon (1968), observando-a, convivendo e brincando com ela, refletindo suas ações, palavras e gestos. A partir da observação do que as crianças fazem e de suas ideias, os(as) professores(as), devem intervir, questionar, estabelecer relações, tirar a criança de onde ela está e convidá-la para interagir com outros universos diferentes do seu mundo. Como Wallon (1975), acreditamos que a Educação deve considerar a totalidade da personalidade da criança. Ajudá-la a viver intensa e positivamente cada momento de sua evolução com olhos voltados para a sua autonomia e afirmação como pessoa que se encaminha para a compreensão intelectual, emocional e social. 21 UNIDADE As Diferentes Interações Sociais na Infância: O Eu, o Outro e o Nós Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Livros Pedagogia(s) da Infância: Dialogando com o Passado – Construindo o Futuro FARIA, A. L. G. LORIS MALAGUZZI e os direitos das crianças pequenas. In: OLIVEI- RA-FORMOSINHO, J.; KISHIMOTO, T. M.; PINAZZA, M. A. Pedagogia(s) da Infân- cia: dialogando com o passado – construindo o futuro. Porto Alegre: Artmed, 2007. Campos de experiência na Escola da infância: contribuições italianas para inventar um currícu- lo de Educação Infantil brasileiro FINCO, D.; BARBOSA, M. C.; FARIA, A. L. G. de (org.). Campos de experiência na Escola da infância: contribuições italianas para inventar um currículo de Educação In- fantil brasileiro. Campinas: Edições Leitura Crítica, 2015. 276p. Vídeos A BNCC na prática #3 – Ed. Infantil - Silvana Augusto https://youtu.be/IXOp8VE5lww Leitura As Aprendizagens Cotidianas: Os Cuidados Pessoais das Crianças como Gesto Curricular BARBOSA, M. C. S.; QUADROS, V. da S. R. de. As aprendizagens cotidianas: os cui- dados pessoais das crianças como gesto curricular. Em Aberto, Brasília v. 30, n. 100, p. 45-70, set./dez. 2017. https://bit.ly/2ZDUpSE 22 23 Referências ABRAMOVAY, M & KRAMER, S. O rei está nú: uma debate sobre as funções da prééscola. Cadernos CEDES. 1991. ALMEIDA, A. R. S. A emoção na percepção do professor pré-escolar: um estudo com base na obra de Henri Wallon. Dissertação (Mestrado em Psicologia da Educação). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 1994. 127p. AUGUSTO, S. Vídeo: BNCC – Respostas da Profa. Dra. Silvana Augusto. Dispo- nível em: . Acesso em: 27 jun. 2019. AUGUSTO, S. A BNCC na prática #3 – Ed. Infantil. Vídeo – Prof.ª Dr.ª. SIlvana Au- gusto. Disponível em: . Acesso em: 25 jun. 2019. BARBOSA, M. C. S.; QUADROS, V. da S. R. de. As aprendizagens cotidianas: os cuidados pessoais das crianças como gesto curricular. Em Aberto, Brasília, v. 30, n. 100, p. 45-70, set./dez. 2017. Disponível em: . Acesso em: 25 jul. 2019. BAUMAN, Z. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humano. 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