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DOS ESPORTES I Metodologia do Ensino DOS ESPORTES I Metodologia do Ensino Universidade La Salle Canoas | Av. Victor Barreto, 2288 | Canoas - RS CEP: 92010-000 | 0800 541 8500 | eadproducao@unilasalle.edu.br UNIVERSIDADE LA SALLE PRODUÇÃO DE CONTEÚDO Reitor Prof. Dr. Paulo Fossatti - Fsc Vice-Reitor, Pró-Reitor de Pós-grad., Pesq. e Extensão e Pró-Reitor de Graduação Prof. Dr. Cledes Casagrande - Fsc Pró-Reitor de Administração Vitor Benites © 2021 por Universidade La Salle Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer meio, eletrônico ou mecânico (foptocópia, gravação), ou qualquer tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização por escrito da Universidade La Salle. Coordenador de Produção Prof. Dr. Jonas Rodrigues Saraiva Equipe de Produção de Conteúdo Alexandre Briczinski de Almeida Anderson Cordova Nunes Arthur Menezes de Jesus Bruno Giordani Faccio Daniele Balbinot Érika Konrath Toldo Fabio Adriano Teixeira dos Santos Gabriel Esteves de Castro Guilherme P. Rovadoschi Ingrid Rais da Silva João Henrique Mattos dos Santos Jorge Fabiano Mendez Nathália N. dos Santos Patrícia Menna Barreto Sidnei Menezes Martins Tiago Konrath Araujo Projeto Gráfico, Editoração, Revisão e Produção Equipe de Produção de Conteúdo Universidade La Salle - Canoas, RS 1ª Edição Atualizada em: Agosto de 2021 Prezado estudante, A equipe da EaD La Salle sente-se honrada em entregar a você este material didático. Ele foi produzido com muito cuidado para que cada Unidade de estudos possa contribuir com seu aprendizado da maneira mais adequada possível à modalidade que você escolheu para estudar: a modalidade a distância. Temos certeza de que o conteúdo apresentado será uma excelente base para o seu conhecimento e para sua formação. Por isso, indicamos que, conforme as orientações de seus professores e tutores, você reserve tempo semanalmente para realizar a leitura detalhada dos textos deste livro, buscando sempre realizar as atividades com esmero a fim de alcançar o melhor resultado possível em seus estudos. Destacamos também a importância de questionar, de participar de todas as atividades propostas no ambiente virtual e de buscar, para além de todo o conteúdo aqui disponibilizado, o conhecimento relacionado a esta disciplina que está disponível por meio de outras bibliografias e por meio da navegação online. Desejamos a você um excelente módulo e um produtivo ano letivo. Bons estudos! APRESENTAÇÃO Sumário UNIDADE 1 Conhecendo o Esporte ................................................................................................................................................7 Objetivo Geral ............................................................................................................................................................7 Parte 1 Esporte....................... ........................................................................................................................................................9 Parte 2 Estudo da Cultura Esportiva ..............................................................................................................................................23 Parte 3 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas .......................................................................................................41 Parte 4 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos ..........................................................................................................57 UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos .....................................................................................................77 Objetivo Geral ..........................................................................................................................................................77 Parte 1 Metodologia dos Esportes .................................................................................................................................................79 Parte 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos ................................................................................................................97 Parte 3 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte ..........................................................................113 Parte 4 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte ..................................................................................................................129 UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol .............................................................................................................................................147 Objetivo Geral ........................................................................................................................................................147 Parte 1 Pedagogia do Futebol e do Futsal ...................................................................................................................................149 Parte 2 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva ..................................................................................................................165 Parte 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação .................................................................................185 Parte 4 Jogos pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal .................................................................................................207 UNIDADE 4 Pedagogia do Handebol ..........................................................................................................................................227 Objetivo Geral ........................................................................................................................................................227 Parte 1 Relações e Funções dos Fundamentos do Handebol .......................................................................................................229 Parte 2 Fundamentos: Recepção de Bola, Drible, Passes, Arremessos, Fintas .............................................................................243 Parte 3 Sistemas Defensivos e Ofensivos e sua Aplicação no Jogo .............................................................................................259 Parte 4 Regulamentação e Arbitragem ........................................................................................................................................273 Conhecendo o Esporte Prezado estudante, Estamos começando uma unidade desta disciplina. Os textos que a compõem foram organizados com cuidado e atenção, para que você tenha contato com um conteúdo completo e atualizado tanto quanto possível. Leia com dedicação, realize as atividades e tire suas dúvidas com os tutores. Dessa forma, você, com certeza, alcançará os objetivos propostos para essa disciplina. Objetivo Geral Reconhecer o papel do esporte na construção da cultura corporal do movimento. unidade 1 V.1 | 2021 8 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 1 Esporte O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 1 V.1 | 2021 10 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Esporte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Classificar o esporte de acordo com aspectos motivacionais. Identificar as perspectivas do esporte educacional, bem como suas dificuldades. Planejar atividades de esportes em ambiente escolar. Introdução O esporte é uma atividade abrangente, visto que engloba diversas áreas importantes para a humanidade, como saúde, educação, turismo, entre outros. Para ampliar a eficácia da transmissão de conhecimento, socialização e formação integrais na infância, adolescência e juventude,elaborará propostas de inclusão por meio do esporte. Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 43 Práticas pedagógicas inclusivas aplicadas ao esporte As práticas pedagógicas inclusivas são consideradas essenciais nos processos de ensino do esporte, e propostas de jogos e/ou brincadeiras de qualquer modalidade utilizando exercícios mecanizados excludentes têm se tornado ultrapassadas. Embora haja momentos de ações individuais nas aulas ou nos treinos, o professor tem como recurso diferentes competências no campo profissional que favorecem a promoção das alterações pretendidas (ROSE JUNIOR; TRICOLI, 2005). Na inclusão, é importante destacar o biotipo como um fator que não deve definir o direcionamento das práticas esportivas, deixando no passado estigmas, por exemplo, de que o basquete precisa ser praticado por pessoas de estatura alta e garantindo a iniciação esportiva para todos, independentemente do tipo físico (ROSE JUNIOR; TRICOLI, 2005). Em geral, a discriminação (de gênero, étnico-racial, etária, social, em relação a pessoas com deficiência), apesar de direcionada a “pequenos grupos”, abrange um grande número de pessoas, o que requer a realização de atividades inclusivas, que atraiam e integrem esses grupos de maneira acolhedora e segura (GOELLNER, 2009). Apesar de a legislação brasileira garantir há mais de 10 anos o ingresso de jovens com deficiência no ensino regular, muitos ainda recebem dispensa das aulas de educação física ou permanecem nas aulas sem nenhuma proposta ativa. Para lutar contra esses estigmas, é preciso buscar recursos para superá-los, começando pela superação da visão ultrapassada dos modelos de aulas, a fim de que a deficiência não represente um impedimento à prática de exercícios, visando à promoção da saúde, ao rendimento ou ao lazer (ROSE JUNIOR, 2009). A seguir, apresentaremos estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas ao gênero e à etnia, bem como às crianças e aos adolescentes com deficiência auditiva, visual, intelectual e motora. Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas2 44 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas ao gênero e à etnia Um projeto social bem-sucedido depende de uma boa elaboração, além das influências dos seus financiadores, estando subordinado às diversas pessoas que o idealizam e o executam, como os coordenadores, os executores, os monitores, os estagiários, os professores, os alunos, os agentes, os líderes das comunidades, etc. Uma intervenção adequada democrática quanto ao acesso às práticas esportivas e de lazer, considerando o processo educativo nesse contexto, deve levantar questionamentos e problematizações sobre com- portamentos discriminativos e preconceituosos, a fim de conseguir elaborar propostas pedagógicas inclusivas (GOELLNER, 2009). Essas problematizações se referem a “verdades” criadas e impostas pela sociedade que devem ser analisadas, como a vinculação do fato de meninas que gostam de futebol ou lutas à homossexualidade ou de negros terem me- nos inteligência em relação aos brancos, o que os torna inaptos a atividades “intelectuais” (GOELLNER, 2009). O “senso comum”, ainda que possa não impor preconceitos e discrimina- ções de modo consciente ou totalmente transparente, costuma se manifestar de maneira pouco ingênua ou inofensiva (GOELLNER, 2009). Estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas às crianças e aos adolescentes com deficiência auditiva A deficiência auditiva pode ser entendida como uma perda total ou parcial da acuidade de condução e percepção de sinais sonoros. A seguir, estão descritas algumas estratégias pedagógicas aplicadas às crianças e aos adolescentes com essa condição em programas de atividades físicas e/ou esportes (ROSE JUNIOR, 2009), nas quais o professor deve: a) Conhecer a fisiopatologia da deficiência auditiva e quando se mani- festou para evitar intercorrências relacionadas ao equilíbrio e/ou à verbalização. b) Dar instruções utilizando dicas visuais e cenestésicas. c) Se comunicar sempre de frente com os seus alunos a fim de facilitar a leitura dos lábios, além de usar expressões faciais e, se possível, ter noções de Libras (Linguagem Brasileira de Sinais). d) Propor, preferencialmente, atividades em grupos, para promover a socialização. 3Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 45 Estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas às crianças e aos adolescentes com deficiência visual A deficiência visual pode ser definida como uma perda total ou parcial da visão com ou se percepção de luz, com ou sem reconhecimento de formas. A seguir, são apresentadas algumas estratégias pedagógicas aplicadas às crianças e aos adolescentes com essa condição em programas de atividades físicas e/ou esportes (ROSE JUNIOR, 2009), nas quais o professor deve: a) Preparar um espaço para as aulas sem obstáculos e com sinalizações em relevo no piso, barras e/ou placas em braile para evitar acidentes. b) “Apresentar” o espaço da aula ao aluno com deficiência visual de ma- neira que consiga explorar o ambiente e se sentir seguro e autônomo quanto às suas orientações. c) Priorizar a motivação quanto à participação de todos nas aulas de edu- cação física, evitando qualquer tipo de superproteção. d) Priorizar estímulos auditivos, táteis e cinestésicos, para favorecer a comunicação com os alunos ou atletas e melhorar a compreensão deles. Estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas às crianças e aos adolescentes com deficiência intelectual A deficiência intelectual pode ser entendida como uma dificuldade ou de- créscimo na capacidade de compreensão do conhecimento. São descritas, a seguir, algumas estratégias pedagógicas aplicadas às crianças e aos adolescentes com essa condição em programas de atividades físicas e/ou esportes (ROSE JUNIOR, 2009), nas quais o professor deve: a) Passar o mínimo de informações por vez, de maneira clara e objetiva. b) Usar diversas formas de comunicação e dar preferência a exemplos “reais”. c) Além de verbalizar o movimento para o aluno, fazer demonstrações, tornando a ação “mais real”, bem como dar instruções cinestésicas, para que o aluno entenda sentindo a ação. d) Saber lidar com a instabilidade emocional, típica da deficiência inte- lectual, e ter o cuidado de se certificar se o aluno compreendeu as suas instruções, a fim de poder intervir mediante os níveis de dificuldade. Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas4 46 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas às crianças e aos adolescentes com deficiência motora A deficiência motora requer atenção especial quanto à prática de atividades físicas, sobretudo porque o maior prejuízo está relacionado ao controle motor, e não à perda ou deficiência de força. A seguir, é possível observar algumas estratégias pedagógicas aplicadas às crianças e aos adolescentes com essa condição em programas de atividades físicas e/ou esportes, nas quais o professor deve: a) Estar atento aos alunos com problemas de tônus muscular (p. ex., nos casos de paralisia cerebral, com hipertônus). Nesses casos, são indi- cados exercícios como alongamentos musculares, de propriocepção e atividades na água aquecida. b) Atentar-se aos casos de mielomeningocele, que exijam que o aluno faça o uso de válvula, como na hidrocefalia, para evitar impactos. c) Estar atento ao posicionamento dos alunos que utilizam cadeira de rodas a fim de evitar problemas posturais. d) Estar atento aos alunos com malformações congênitas, especialmente os que usam próteses, tendo em vista o tamanho e o peso adequados para a idade. Em casos desproporcionais, o professor deve alertar os pais sobre as irregularidades. Após conhecermos estratégias pedagógicas inclusivas aplicadas emdiver- sas situações, reconheceremos o papel pedagógico do esporte, considerando práticas pedagógicas inclusivas. Papel pedagógico do esporte na inclusão A pedagogia do desporto (PD) tem a responsabilidade de manter viva a dig- nidade consciente do homem, considerando todas as áreas desportivas e contribuindo com uma educação de boa qualidade, perspectiva na qual recorre a formas diferentes entre “formar” e “ser formado”. A dignidade do homem apresenta inúmeros valores internos, que, por si sós, já preconizam a qualidade, ou seja, o homem já é considerado um polo de qualidade desde o nascimento. A consciência antropológica da humanidade direciona um alto nível de quali- dade para a educação, que deve assumi-la como um centro importante social. A escola e o desporto, ou outros ambientes desportivos envolvidos com a 5Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 47 educação, devem categorizar e concretizar de forma exemplar a imperiosa qualidade do “homem” como um “ser” (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). Funcionalmente, a PD é capaz de revigorar a consciência da dignidade de uma pessoa, a ponto de abrir precedentes para analisar as abordagens educativas efetivas e situacionais, concebendo e fundando, de modo constante, o desporto. Nesse cenário, o desporto é considerado um laboratório da humanidade e dos processos de humanização dos seres humanos, enraizando a liberdade e aper- feiçoando e aprofundando os direitos dos cidadãos e de seus livres-arbítrios. Em relação às comunidades, a PD nutre os níveis altos de qualidade e elevação do conceito de suas práticas (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). A PD enfatiza o desporto na condição de uma organização, apresentando uma forma de educação e cultura com perfil dinâmico, independentemente do local de sua inserção, além de primar pela qualidade do desporto por meio de padrões éticos e humanos — trata-se de uma renovação profunda e elevada de valores sobre a educação do homem pelo desporto, a despeito da forma ou do sentido. O fato é que não existe educação sem motivos e alternativas, motivo pelo qual a PD procura cumprir com a revalorização e formar-se como base teórica e metodológica da gênese humana, mostrando a contribuição do desporto nos registros do “homem em cada homem”, ou seja, não está ligada apenas à formação infantil, mas ao homem de maneira geral e à sua relação com o universo (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). Com a prática do desporto, o homem deve assumir uma interface do tempo que vive, levando em consideração seus problemas, necessidades, desafios e exigências, já que viver significa estabelecer inter-relações entre a própria ignorância e a dos outros, além do mundo e de seu próprio espaço. Assim, o desporto tende a promover um reencontro do indivíduo com o seu próprio “eu”, de maneira que ele se torne “mais visível”, dialógico, adquira conheci- mentos e amplie seus relacionamentos gerais. Na verdade, a formação pelo desporto deve ser solidária e feliz, pressuposto a partir do qual o esporte se encontra vinculado à concretização de algum ideal, oportunizando realizações ao homem e tornando-o pleno a fim de que consiga ser “mais” ou “melhor” (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). O objetivo do desporto consiste em promover mudanças ou modificações, buscando diferentes formas de ser e crescer e melhorando a realidade vivida, um caminho que não se destina simplesmente ao processo de crescimento biológico, como em crianças que se tornam adultas, em um processo de des- truição da infância por imposições de desempenho — em outras palavras, o esporte como um meio de desdobrar, e não de tolher, visando a auxiliar no crescimento total das pessoas (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas6 48 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Nas crianças, é essencial conservar a alegria natural, a pureza, o perfil criativo, a ente otimista e a admiração pela vida, além de evitar fugas, com o intuito de diminuir a probabilidade de as crianças se tornarem adultos frios e calculistas. De acordo com Tani, Bento e Pertersen (2006, p. 37): O mesmo é dizer que no desporto se configura um movimento de aproximação infatigável ao mais alto, mais belo, mais pleno e mais perfeito. Um movimento de aperfeiçoamento da individualidade, de evolução do homem da razão da necessidade para a razão da liberdade, para a razão do excesso, do infinito, do “irracional”, para um estado de graça. Como que correspondendo ao destino de superação e transcendência do homem traçado por Nietzsche: ...sou o que é obrigado a ultrapassar-se a si próprio, até ao infinito. O homo sportivus tem um perfil de seguir adiante, alcançando mais do que sonha, trajetória na qual o desporto representa um apoio pedagógico criativo do movimento humano, de uma condição inferior para um nível mais alto. O otimismo no desporto e o conhecimento de realidades “superiores” perma- necem, assim como a aversão pelo que é vulgar e degradado no ser humano. Portanto, praticar esportes com uma proposta pedagógica adequada torna-se uma ótima chance para assumir as imperfeições e tomar consciência de si próprio, como um indivíduo livre e moral (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). Então, a PD se ocupa de favorecer o “polimento” das pessoas pela prática esportiva com delicadeza e muito cuidado, quando o desporto assume um perfil de demopedia (educação para a cidadania), ou seja, ocupa-se de aperfeiçoar cada pessoa, além de torná-la livre e criativa (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006, p. 38). A Pedagogia do Desporto toca na questão do aperfeiçoamento dos povos, dos cidadãos, da sociedade, da democracia. Salta a cerca da escola e espraia-se pela praça da cidade, convidando a aperfeiçoar e aprofundar a cidadania, e a entender a democracia, não como um estado, mas como uma atividade, e um meio ao serviço daquele desígnio. Deste modo ainda o assunto da PD não se confina à crianças e ao jovem, à escola e à universidade; abrange a educação e formação desportiva do cidadão de todas as idades, a cidade e todas as instâncias, que influenciam a realização da ideia do Homem. 7Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 49 O desporto visa à aprendizagem de gestos simples ou pequenos, que reflete em grandes coisas, no qual se destaca o que falta nas pessoas, em relação ao que lhes é abundante, ressaltando, ao mesmo tempo, as deficiências natu- rais e convidando a preservar e ampliar o que há de melhor — uma postura educativa e pedagógica desejada e respeitada “por excelência”. A pedagogia maioritária humana se sustenta pela modéstia e humildade, pois reconhece as limitações gerais, as imperfeições, as falhas e as fragilidades humanas, de qualquer natureza — raça, gênero, deficiência física, classe social, idade, etc. Com tolerância, é possível aceitar as diferenças e, portanto, a igualdade entre todos, com uma proposta pedagógica solidária, cordata e harmônica de fora para dentro (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006). No desporto, o grande mérito é fazer da força de vontade e da “voz” um trabalho pedagógico próprio e moral, em busca dos ideais, interface a partir da qual surgiu o lema: “Citius, Altius, Fortius! Porque a grandeza do homem está em caminhar para a ascensão da consciência, em avançar para o infinito” (TANI; BENTO; PETERSEN, 2006, p. 39). Na Figura 1, podemos observar algumas situações de inclusão no esporte. Figura 1. Situações de inclusão no esporte. Fonte: Roman Voloshyn/Shutterstock.com; Daisy Daisy/Shutterstock.com. Propostas de inclusão pelo esporte O aumento crescente de projetos sociais com financiamento particular e do governo destaca o esporte como um eficiente meio de socialização e/ou inclusão. As bases científicas têm diversos registros na área de educação física, esportesPedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas8 50 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I e lazer, sociologia, etc., com ênfase nos benefícios das práticas esportivas regulares, tendo em vista a formação tanto moral quanto da personalidade dos indivíduos vinculados (ELIAS; DUNNING, 1992; DANISH; NELLEN, 1997; TUBINO, 2011; VIANNA; LOVISOLO, 2009). O perfil do esporte no século XIX pode ser comparado com o perfil atual, tendo em vista, por exemplo, ao fato de Dom Bosco ter referenciado os jovens de rua como “periclitantes”, que tinham como alternativa fazer a opção pelo bem ou pelo mal, contexto pelo qual a educação e as práticas esportivas eram propostas sob uma “vigilância afetuosa” (SILVA, 2002; BORGES, 2005). Com o tempo, a classificação de crianças e jovens passou a ser de “condição de risco”, referente ao fracasso na escola e/ou à evasão, bem como a aderência às drogas, ao sexo inseguro, à delinquência, entre etc., com o objetivo de colocá- -los sob proteção e controle, motivados e com acesso à educação — apesar de periclitância ser diferente de risco, o planejamento contínuo permanece atuante (VIANNA; LOVISOLO, 2009). A seguir, apresentamos as competências de programas de esporte, educação, lazer e inclusão social no país (BRASIL, 2019): � Planejar, desenvolver e acompanhar o processo de seleção de propos- tas e de formalização de convênios, contratos de repasse e termos de cooperação objetivando a execução dos programas, projetos e ações governamentais. � Articular ações necessárias para estruturar a implementação dos pro- gramas, projetos e ações governamentais. � Coordenar e monitorar, em sua área de atuação, a execução dos convê- nios com o objetivo de subsidiar a análise técnica da prestação de contas. � Programar a aquisição e a distribuição de materiais e uniformes neces- sários para os programas, as políticas, os projetos e as ações esportivas, em articulação com o Departamento de Gestão Interna. � Acompanhar a execução orçamentária e financeira dos programas, dos projetos e das ações, para subsidiar a tomada de decisão no âmbito da Secretaria. � Articular os sistemas de monitoramento e avaliação dos programas de que trata esse departamento, com os sistemas estruturados de plane- jamento, monitoramento, orçamento e finanças existentes no governo federal. 9Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 51 Já as competências do departamento e desenvolvimento e acompanha- mento de políticas e programas de esporte, educação, lazer e inclusão social (BRASIL, 2019) incluem: � Subsidiar a formulação e a implementação dos programas, projetos e ações destinados ao desenvolvimento do esporte educacional, de lazer e inclusão social. � Promover estudos e análises sobre os programas, os projetos e as ações governamentais, visando à integração das políticas intersetoriais de esporte às de educação, de saúde, de segurança pública e de ação social. � Propor instrumentos de articulação das políticas, programas, e projetos esportivos e de lazer com as políticas e programas educacionais. � Promover eventos e estruturar processo de formação e capacitação de recursos humanos destinados aos programas esportivos-sociais e de lazer. � Efetuar o acompanhamento pedagógico, o controle e a fiscalização dos programas, projetos e ações referentes à sua área de atuação, para orientação dos processos educacionais implantados. � Monitorar e avaliar os programas, os projetos e as ações, construindo indicadores e instrumentos de registro para o aperfeiçoamento admi- nistrativo, pedagógico e de fiscalização. � Realizar estudos e pesquisas para orientar as práticas esportivas e pa- raesportivas que favoreçam o desenvolvimento dos programas sociais de esporte e lazer e a promoção da qualidade de vida da população, fomentando a produção do conhecimento na área. � Estabelecer parcerias com instituições de ensino e de pesquisa para criar e implementar novas tecnologias voltadas ao desenvolvimento do esporte e do lazer como instrumento de educação, saúde e inclusão social. Ações inclusivas nas aulas de educação física A partir de um estudo em aulas práticas, foram propostas algumas ações que visaram a estabelecer a inclusão dos alunos com deficiência nas aulas de educação física (FIORINI; MANZINI, 2015): � Deficiência auditiva: ■ Foram feitos movimentos para que o aluno pudesse observar. ■ Solicitou-se a ajuda de um dos colegas de classe para acompanhar o aluno com deficiência. Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas10 52 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I ■ As instruções das atividades foram passadas de maneira que aluno com deficiência conseguisse ler os lábios. � Deficiência visual: ■ Solicitou-se a ajuda de um dos colegas de classe para que acompa- nhasse o aluno com deficiência. ■ Os alunos com deficiência foram encorajados a tentar encontrar os caminhos sozinhos, antes de qualquer adaptação (o que deve ser feito desde que o ambiente não ofereça riscos). ■ As atividades foram planejadas para que todos os alunos praticassem juntos. ■ Utilizou-se um apito para chamar a atenção e interromper a atividade quando necessário. ■ Explicou-se ao aluno com deficiência tudo que ia ocorrendo, com uma narração. ■ Todos os alunos foram conscientizados para assegurar o respeito e a tolerância em relação aos alunos com deficiência. � Deficiência física: ■ Solicitou-se a ajuda de um dos colegas de classe para que acompa- nhasse o aluno com deficiência. ■ Todos os alunos foram conscientizados para assegurar o respeito e a tolerância em relação aos alunos com deficiência. ■ Foram disponibilizados jogos de tabuleiro para que os alunos com deficiência pudessem jogar, enquanto os demais alunos faziam as atividades na quadra. Já em aulas teóricas, o estudo mostrou: � Deficiência auditiva: ■ O conteúdo foi passado no quadro, além de falar de frente com o aluno, sobretudo falar devagar. ■ O conteúdo foi trabalhado com uma intérprete de Libras na sala de aula. � Deficiência visual: ■ O conteúdo foi ditado em vez de escrito no quadro. Neste capítulo, você pôde aprender um pouco mais sobre a inclusão pelo esporte, que demanda a aceitação da diversidade humana, além de sua im- portância como ferramenta de igualdade de direitos e de deveres a todos os cidadãos. 11Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas | PARTE 3 53 Enfim, a inclusão por meio do esporte é bem-sucedida quando os pro- fissionais que atuam na área têm conhecimento suficiente sobre as práticas pedagógicas, capazes de atender às diversidades, ou diferenças, com sus- tentação no reconhecimento da importância da pedagogia do esporte nessas intervenções. Assim, propostas adequadas conforme a demanda serão mais bem elaboradas e aplicadas com sucesso. BORGES, C. N. F. Um só coração e uma só alma: as influências da ética romântica na intervenção educativa salesiana e o papel das atividades corporais. Orientador: Hugo Rodolfo Lovisolo. 2005. 226 f. Tese (Doutorado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 2005. BRASIL. Ministério da Cidadania. Secretaria Especial do Esporte. Departamento de Gestão de Programas de Esporte, Educação, Lazer e Inclusão Social. Secretaria Especial do Esporte, Brasília, 26 nov. 2019. Disponível em: http://www.esporte.gov.br/index. php/institucional/esporte-educacao-lazer-e-inclusao-social/departamentos. Acesso em: 7 jan. 2019. DANISH, S. J.; NELLEN, V. C. New roles for sport psychologists: teaching li skills through sport to at-risk youth. Quest, Champaign, v. 49, n. 1, p. 100–113, 1997. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação física na escola: implicações para prática pedagógica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. 316 p. ELIAS,N.; DUNNING, E. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992. 421 p. FIORINI, M. L. S.; MANZINI, E. J. Prática Pedagógica e Inclusão Escolar: Concepção dos Professores de Educação Física. Revista da Associação Brasileira de Atividade Motora Adaptada, Marília, v. 16, n. 2, p. 15–22, jul./dez. 2015. Disponível em: http://revistas.marilia. unesp.br/index.php/sobama/article/view/5558. Acesso em: 7 jan. 2020. GOELLNER, S. V. et al. Gênero e raça: inclusão no esporte e lazer. Brasília: Ministério do Esporte, 2009. 33 p. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/81280. Acesso em: 7 jan. 2020. ROSE JUNIOR, D. et al. Esporte e atividade física na infância e na adolescência: uma abor- dagem multidisciplinar. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. 256 p. ROSE JUNIOR, D.; TRICOLI, V. Basquetebol: uma visão integrada entre ciência e prática. Barueri: Manole, 2005. 240 p. Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas12 54 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I SILVA, L. H. O. Igreja Católica, atividades corporais e esportes: superando preconceitos. Orientador: Hugo Rodolfo Lovisolo. 2002. 138 f. Tese (Doutorado em Educação Física) – Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002. Disponível em: http://www.nuteses. temp.ufu.br/tde_busca/processaPesquisa.php?pesqExecutada=2&id=592&listaDetal hes%5B%5D=592&processar=Processar. Acesso em: 7 jan. 2020. TANI, G.; BENTO, J. O.; PETERSEN, R. D. S. Pedagogia do desporto. Rio de Janeiro: Guana- bara Koogan, 2006. 411 p. TUBINO, M. J. G. Dimensões sociais do esporte. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 96 p. (Ques- tões da nossa época, 25). VIANNA, J. A.; LOVISOLO, H. R. Projetos de inclusão social através do esporte: notas sobre a avaliação. Movimento – Revista de Educação Física da UFRGS, Porto Alegre, v. 15, n. 3, p. 145–162, jul./set. 2009. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/ view/5190. Acesso em: 7 jan. 2020. Leituras recomendadas BENTO, J. O. Desporto e humanismo: o campo do possível. Rio de Janeiro: Editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 1999. 174 p. FREIRE, J. B. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da educação física. 4. ed. São Paulo: Scipione, 1997. 224 p. (Pensamento e Ação no Magistério). KISHIMOTO, T. M. Jogo, brinquedo, brincadeira e a educação. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2005. 183 p. Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 13Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 56 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 4 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 1 V.1 | 2021 58 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Características da iniciação nos esportes coletivos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar as possibilidades de iniciação esportiva através das mo- dalidades coletivas. Discutir as possibilidades de iniciação esportiva a partir da aprendi- zagem motora de diferentes tarefas. Identificar os riscos e benefícios da especialização precoce no atletismo. Introdução Os esportes coletivos têm uma lógica de ensinamento comum, isto é, o jogo coletivo tem uma estruturação formal que é apresentada nas diferentes modalidades esportivas. Quando o aluno incorpora essa ló- gica, passa a usar essa aprendizagem em outras situações que exigem especificidades, como jogar voleibol e ou futebol. Partindo dessa premissa, neste capítulo, você vai estudar os parâme- tros comuns dos esportes coletivos, identificando essas semelhanças no detalhamento de cada esporte. Assim, as habilidades motoras e as percep- ções coordenativas e táticas serão definidas no coletivo das modalidades, para depois ganharem refinamento técnico. Essa discussão tem por meta promover o entendimento de que é muito mais produtivo aprender a jogar de tudo um pouco, antes de jogar algo muito específico. Nesse contexto, a aprendizagem se dá de forma mais eficiente e qualificada. Iniciação esportiva a partir dos esportes coletivos Os esportes são manifestações culturais que se originam em diferentes habi- lidades motoras e de combinações dessas habilidades. Por exemplo, o futebol se baseia nas habilidades de correr e conduzir a bola. Nas ações motoras Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 59 básicas dos esportes estão movimentos que são básicos para o desenvolvimento motor dos alunos, mas que, ao serem culturalmente aperfeiçoados, tornam-se habilidades técnicas de modalidades esportivas. Nessa mesma perspectiva também estão as habilidades perceptivas e coorde- nativas, que se manifestam a partir da leitura da estruturação e da organização dos jogos, isto é, do entendimento do espaço e do lugar do jogo, do número de componentes de sua equipe, do jogar com o outro, das regras, do objetivo deste ou daquele jogo, das funções e posições de cada jogador, das estratégias de ataque e defesa. Enfim, a partir da lógica comum aos esportes coletivos, o aluno se foca na compreensão da ação de jogar —, independentemente do que se joga —, e não na especificidade de jogar uma única modalidade. Conforme a Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018, documento on-line): As práticas derivadas dos esportes mantêm, essencialmente, suas caracte- rísticas formais de regulação das ações, mas adaptam as demais normas institucionais aos interesses dos participantes, às características do espaço, ao número de jogadores, ao material disponível etc. Isso permite afirmar, por exemplo, que, em um jogo de dois contra dois em uma cesta de basquetebol, os participantes estão jogando basquetebol [...]. O documento explica que, a partir da coerência do jogo dois contra dois incorporada pelo aluno, ele poderá fazer uma transferência dessa experiência para uma situação de jogo com mais participantes envolvidos. Assim, o que dá início ao processo de aprendizagem dos jogos coletivos é a lógica interna dessas modalidades, o que se manifesta como comum a elas; por exemplo, a interação com o adversário, os objetivos táticos, os implementos e materiais que organizam as tarefas motoras, entre outros. Os esportes em que as ações motrizes são semelhantes, de certo modo, terão ensinamentos compartilhados, inclusive podendo ser realizados exercícios únicos com pro- cessos reflexivos específicos. O aluno executa uma movimentação técnica, e o professor questiona como aquele movimento pode ser representado no basquetebol ou no handebol. Na maioria, os esportes coletivos são considerados esportes de invasão ou territoriais (Figura 1), porque, conforme a BNCC (BRASIL, 2018, documento on-line), eles se caracterizam da seguinte forma: [...] conjunto de modalidades que se caracterizam por comparar a capacidade de uma equipe introduzir ou levar uma bola (ou outro objeto) a uma meta ou setor da quadra/campo defendida pelos adversários (gol, cesta, touchdown Características da iniciação nos esportes coletivos2 60 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I etc.), protegendo, simultaneamente, o próprio alvo, meta ou setor do campo (basquetebol, frisbee, futebol, futsal, futebol americano, handebol, hóquei sobre grama, polo aquático, rúgbi etc.). Figura 1. Esporte de invasão ou territorial: hóquei sobre grama. Fonte: Hoquei-grama-jogo ([2016], documento on-line). Contudo, há esportes coletivos que são denominados como esportes de rede e quadra, como o voleibol, conforme mostra a Figura 2. Figura 2. Esporte derede e quadra: voleibol. Fonte: 1200px-Europei_di_pallavolo_2005_-_Italia-Russia ([2005], documento on-line). 3Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 61 Assim, a característica básica dos esportes coletivos é o confronto entre duas equipes que estão dispostas em um espaço comum, que participam si- multaneamente com alternância de situações de ataque e defesa. Essa premissa indica quatro importantes tarefas a serem cumpridas por esses jogadores, conforme aponta Greco (1998): atacar a meta adversária; defender o seu espaço; opor-se ao adversário; jogar coletivamente entre sua equipe. Jogos situacionais como um método de ensino Os jogos situacionais são ações orientadas para a situação real de jogo; ou seja, nesse contexto, as estratégias de ensino serão pautadas em possibilidades de elementos técnicos para construir o jogo. Nesse tipo de ensinamento, aprende-se jogando. É preciso que o aluno execute, vivencie e explore as movimentações e ações motoras de forma concreta e com uma perspectiva real, para que, a partir dali, ele encontre ou reconheça a técnica formal do esporte, conforme apontam Kroger, Roth e Memmert (2002). Em uma visão mais ampliada dessa forma de ensinar, entre os parâmetros comuns dos esportes coletivos, são extraídas peças táticas que perfazem a lógica estrutural dos esportes e que conduzem para a percepção geral do ato de jogar. É sempre importante ter o entendimento de que, nessa iniciação aos esportes, o movimento ainda é liberado das condições específicas das modalidades. Assim, é muito mais importante compreender a coerência das ações motoras em prol da realização do jogo. Segundo Kroger, Roth e Memmert (2002), são observados sete elementos táticos nas peças táticas: acertar o alvo; transportar a bola ao objetivo; tirar vantagem tática no jogo; jogo coletivo; reconhecer espaços; superar o adversário; oferecer-se e orientar-se. Vamos estudar cada um deles. Características da iniciação nos esportes coletivos4 62 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A tarefa tática de acertar o alvo abrange as ações de lançar, chutar, disparar, entre outras, a bola ou o implemento para um alvo. Ela está mais relacionada com o objetivo do jogo. O aluno passa a entender por que a precisão, a velo- cidade e a agilidade durante a execução tornam-se fundamentais para que ele conquiste esse resultado, dificultando a ação de defesa da equipe adversária. Os exercícios como lançar a bola em alvos de diferentes tamanhos e alturas, parados ou em movimento, com tamanhos e pesos de bolas diferentes, são ideais para a percepção de como a força, o ângulo de lançamento, a direção, entre outros, devem ser executados em diferentes ações. Já a tarefa de transportar a bola ao objetivo é definida pelas ações motoras de transportar, levar e lançar a bola entre os colegas de equipe, com a meta de atingir o objetivo do jogo. Diferentemente da ação de acertar o alvo, que tem como base a ideia de finalização, o transportar será executado ao longo da movimentação; por exemplo, quicar a bola em movimento e entregar para um companheiro, lançar a bola entre os colegas, ou, até mesmo, carregar a bola em deslocamento. Uma atividade para exercitar o transportar a bola pode ser realizada da seguinte forma. Alunos divididos em duas equipes de 10 alunos cada uma. A equipe que estiver com a posse de bola vai realizar ações de ataque, e a outra tem por meta dificultar essa movi- mentação, estando em uma posição de defesa. O objetivo do jogo é que a equipe que está com a bola troque passes com a seguinte regra: a partir do primeiro lançamento, o aluno que receber a bola pode dar, no máximo, três passos para entregar a bola para um colega, ou lançar a bola para este. Como a equipe que está na defesa tentará impedir o passe, é importante que os alunos se desloquem e se posicionem para receber a bola. A equipe que conseguir trocar oito passes faz um ponto. Se a equipe que está na defesa conseguir recuperar a bola, haverá uma troca de função de ataque e defesa entre as equipes. No elemento tático de tirar vantagem tática no jogo, os jogadores vão depender de uma ação conjunta para realizar a movimentação, isto é, as dife- rentes ações executadas entre os jogadores da equipe devem estar combinadas (relação entre colegas), para que se tornem mais eficazes. É possível vislumbrar esse elemento tático em uma situação real de jogo de futebol, quando há um posicionamento avançado de dois jogadores em relação ao último jogador de defesa durante a cobrança de uma falta. A combinação está no deslocamento rápido desses dois jogadores, saindo da posição de impedimento no mesmo instante em que seu colega faz a cobrança da falta. 5Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 63 O jogo coletivo também está vinculado à relação estreita entre os jogadores da equipe. Aqui se utilizam as ações motoras para o trabalho da percepção de como jogar, a partir da variação de número de jogadores, de posicionamento da defesa e de organização coletiva da equipe. A brincadeira “bobinho”, que é muito executada entre aqueles que jogam futebol, desde as crianças até os adultos, da iniciação ao alto rendimento, é um bom exemplo para esse elemento. Nesse tipo de brincadeira, os alunos que estão no círculo deverão estar completamente articulados, para que não percam a bola para os colegas que estão dentro do círculo. Acesse o link a seguir e assista a um vídeo que mostra a brincadeira do bobinho, relacionada ao elemento tático de jogo coletivo. Embora essa seja uma brincadeira infantil e utilizada para iniciantes em questões mais básicas do jogo, ela também pode ser utilizada com atletas de altíssimo nível. https://qrgo.page.link/64Jcq O quinto elemento tático, reconhecer espaços, tem relação com o adversário. A tarefa consiste em desenvolver ou identificar possibilidades variadas para se conquistar a meta final do jogo. Para tanto, deve-se desenvolver a habilidade de analisar e observar os espaços de maior êxito para as jogadas. Podemos citar como exemplos um ataque no voleibol atingindo uma área da quadra sem cobertura, ou, ainda, um passe no contra-ataque do futsal, em que o jogador percebe o lado da quadra que não está sendo ocupado pelo defensor adversário, o que permite o deslocamento de um companheiro para aquele setor para receber o passe e concluir um gol. Na iniciação, as atividades com delimitação de espaços que se utilizem de marcações desenhadas no chão, arcos, cordas, entre outros, facilitam a visualização desses espaços. Dessa forma, a mesma lógica do bobinho pode ser executada, só que agora com marcação dos espaços que limitam o deslo- camento dos jogadores. Pense em um lado da quadra de voleibol dividido por três linhas iguais desenhadas no chão, formando três retângulos de 9 m × 3 m. Em cada um deles se posicionam dois jogadores. A bola deve ser lançada entre os jogadores das linhas extremas, sendo que os do meio têm a tarefa de Características da iniciação nos esportes coletivos6 64 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I impedir esse lançamento. Contudo, nenhum dos jogadores pode pisar ou sair de sua área limitada. Esse tipo de atividade pode facilitar a aprendizagem do reconhecimento dos espaços. Ainda na lógica relacionada à equipe contrária, o elemento tático de superar o adversário explora a habilidade de assegurar a posse de bola, mesmo quando em confronto com o adversário. O aluno vai definir a melhor forma de realizar a ação, para que ele não “entregue” ou perca a posse de bola para o adversário. De certa forma, a escolha correta é a que concretiza a superação do adversário. Assim, o aluno deve ter a capacidade de analisar, a partir da situação em que se apresenta ojogo, o que é melhor: chutar, ou rolar, ou quicar, entre outras ações. Essa pode ser uma decisão que se utili- zará de capacidades individuais ou do processo coletivo do jogo, conforme lecionam Greco e Benda (1998). O último elemento, oferecer-se e orientar-se, está relacionado com o am- biente (quadra, território, campo). O aluno será orientado a se perceber nos espaços do jogo; ele deve fazer a leitura de qual é a sua posição em relação ao adversário, ao seu colega, à marcação que está recebendo ou à meta do jogo (goleira). Com essa análise, ele deve se deslocar de forma dinâmica e rápida, para que sempre esteja em um espaço que possa ser aproveitado, tanto para receber ou passar a bola como para chamar a atenção da equipe adversária, dando condições mais favoráveis para que seu colega passe ou receba a bola. As atividades para esse elemento sempre envolverão movimentação. Assim, cones, caixas e barreiras podem servir de obstáculos para deixar a área do jogo mais desafiadora, onde as decisões serão tomadas a partir da variedade de elementos (colegas, obstáculos, metas, etc.). É importante destacar que todos esses elementos que se apresentam aqui de forma isolada, estão estritamente imbricados em uma situação real de jogo. O foco de cada atividade será distinto, a partir do objetivo definido pelo professor. Assim, é possível que um exercício contenha ações que ajudem a desenvolver o transportar a bola ao objetivo, porém a meta de aprendizagem estará focada no jogo coletivo. Entenda que as habilidades sempre estarão ligadas ao fundamento dos níveis de habilidades solicitadas, ora no fazer, ora no perceber, ora no analisar. Por isso, é tão importante a oferta de inúmeras experiências; o acervo motor e as possibilidades de escolhas são potencializadas em ações mais qualificadas e promissoras. 7Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 65 Iniciação esportiva e capacidades coordenativas nos esportes coletivos No processo de transformação de uma habilidade básica motora para um gesto técnico de alguma modalidade esportiva, há fases que delimitam as apren- dizagens. Nessas fases, a habilidade motora se inicia como um movimento naturalizado e, depois, é potencializada pela liberdade de execução e vivência do movimento, sem restrição. Os processos de ensino que se pautam no de- senvolvimento das tarefas motoras, de certa forma, infl uenciam essa liberdade de execução, pois, aos poucos, vão solicitando ao movimento o acréscimo de combinações, de variações e de objetivos e, até mesmo, delimitam espaços, regras, adversários, entre outros aspectos. Na lógica dos jogos situacionais, é importante garantir possíveis espaços livres de realização do gesto, já que, nessa fase, ainda há uma valorização do ganho de experiências e da incorporação do ato de jogar. Contudo, o avanço para uma nova fase vai solicitar ao aluno que as suas ações mo- toras sejam aperfeiçoadas. Nesse processo, encontram-se as capacidades coordenativas, que servem como uma ponte para o refinamento técnico da ação específica do jogar uma determinada modalidade esportiva. Ou seja, essas capacidades se pautam em um estágio de preparação e qualificação dos movimentos. Na iniciação aos esportes coletivos, as capacidades coordenativas são caracterizadas por um conjunto de operações que estão sendo determinadas pela função parcial que elas desempenham e que, posteriormente, servem de base para as ações específicas das modalidades esportivas, conforme lecionam Greco e Benda (1998). Uma capacidade coordenativa se revela na competência em realizar duas ou mais habilidades ao mesmo tempo, de forma eficaz e coordenada, como quicar a bola correndo. Assim, cabe o ensinamento de várias combinações de movimento. En- tretanto, como o foco é a iniciação aos esportes coletivos, os critérios para definir o que deve ser aprendido estarão atrelados àquelas movimentações que definem os esportes, isto é, ao arremessar do handebol e basquetebol, ao chute do futebol e futsal, ao rebater no hóquei e basebol, etc. Segundo Grecco e Benda (1998, p. 45), as capacidades coordenativas têm pontos em comum com as capacidades técnicas e táticas: [...] para todo o movimento é necessária a percepção do próprio corpo, dos objetos e das situação como um todo; é importante inter-relacionar estas percepções com as experiências retidas na memória (operações mnemôni- cas), o que implica em processos de cognição na ação e na necessidade de Características da iniciação nos esportes coletivos8 66 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I implementar ou, como mencionado anteriormente, de “operacionalizar” essa ideia da ação, uma imagem mental, na prática, através de operações efetoras. Como a ideia é sempre buscar o aperfeiçoamento das capacidades coordena- tivas, tendo como meta a qualificação do movimento do esporte, é necessário ir ampliando a dificuldade e os desafios na realização dos exercícios para essas capacidades. Kroger, Roth e Memmert (2002) afirmam que o trabalho deve ser potencializado pelo uso dos condicionantes de pressão — tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade e carga — e pelo uso dos analisadores perceptivos — visual, acústico, tátil, vestibular e sinestésico. No texto intitulado “Processos de ensino da técnica na iniciação dos esportes coleti- vos: uma revisão da literatura”, disponível no link a seguir, você poderá identificar os conceitos trabalhados por estudiosos da área sobre as capacidades coordenativas nos esportes coletivos. https://qrgo.page.link/MfycR Aprimorando as capacidades coordenativas Os condicionantes de pressão são desafi os propostos na execução das capaci- dades coordenativas que vão dar a elas um grau maior de difi culdade, exigindo maior atenção, agilidade, percepção e velocidade dos alunos. Os movimentos ganham novas exigências que, ao longo das diferentes experimentações ou formas de executar, são incorporadas e passam a ser usadas pelos alunos em situações reais de jogo. Tal fato também justifi ca o uso dos jogos situacionais como proposta de ensino para os esportes coletivos, conforme lecionam Kroger, Roth e Memmert (2002). Vamos analisar as características de cada condicionante de pressão, veri- ficando um exemplo de exercício para cada condicionante. Pressão de tempo: é quando, na ação a ser executada, há a solicitação de que ela seja realizada no menor tempo possível. Sugestão de exercício: alunos em duplas, um de frente para o outro, com uma bola. O professor 9Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 67 marca um tempo de 30 segundos. Um aluno lança a bola para o outro; este deve recuperar a bola, dar um giro com o corpo e lançar novamente para o colega. O tempo deve ser continuamente reduzido, e as repetições devem ir aumentando. Pressão de precisão: acertar alvos com o máximo de exatidão. Os alvos devem estar posicionados em vários lugares e ter diferentes formas e tamanhos. Sugestão de exercício: acertar a bola em um alvo na posição de pé, em cima de um banco. Pode ser executado de diferentes formas: sentado; em dois bancos, com um pé em cada banco; em cima de uma cadeira; entre outros modos. Pressão de complexidade: uma ação individual acontece na sequência imediata da outra. Sugestão de exercício: um aluno rola a bola para outro; este deve receber a bola e imediatamente acertar essa bola dentro de um arco que estará no chão a 1 m de distância dele. Todos os movimentos devem ser executados com os pés. Pressão de organização: esse condicionante exige que o aluno execute diferentes ações ao mesmo tempo. Sugestão de exercício: alunos or- ganizados dois a dois, um de frente para o outro, com uma distância de 1 m entre eles. Os dois terão um balão na mão; eles devemrealizar passes rasteiros entre eles com os pés e, ao mesmo tempo, rebater os balões sem que caiam no chão. Pressão de variabilidade: as variações estão relacionadas às condi- ções ambientais e de execução. Sugestão de exercício: quicar a bola cinco vezes com a mão direita dentro de um arco e, depois, quicar a bola cinco vezes com a mão esquerda de um lado e de outro de um cone pequeno. Pressão de carga: esse condicionante vai exigir um esforço físico para a execução da tarefa. Sugestão de exercício: executar três saltos por cima de barreiras pequenas, receber a bola e goleá-la imediatamente com o pé ou a mão. Ainda no processo de refinamento e qualificação das capacidades co- ordenativas, os condicionantes de pressão ganham maior exigência quando são adicionados os analisadores perceptivos. Estes se manifestam no recebimento de uma nova informação durante a execução do movimento, que pode ser captada pelos sentidos do corpo. Assim, para além da pres- Características da iniciação nos esportes coletivos10 68 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I são, o aluno terá que resolver como vai executar de forma ágil e eficaz a ação a partir de uma nova exigência, conforme lecionam Kroger, Roth e Memmert (2002). Nesse sentido, é possível conceituar o analisador perceptivo visual como a capacidade de detectar a informação por meio da visão. As informações que são dadas pelo professor se manifestam por cores, por dada intensidade luminosa ou na forma, na profundidade e na largura de um alvo, por exem- plo. É na percepção auditiva, realizada por um sinal sonoro, que o aluno detecta o som, a sensação sonora, a localização, a compreensão de atenção e a memória, que estimulam a mudança de direção, de ação motora ou de intensidade do movimento, por exemplo. Aqui, o sinal sonoro é transformado em informação. Os diferentes tamanhos, pesos e formas das bolas podem auxiliar a desen- volver as atividades que objetivam trabalhar o analisador tátil. É com essa percepção que os reconhecimentos de posicionamento de braço, de ângulo de lançamento ou, ainda, de uso da força são incorporados pelos alunos. As estruturas originadas nessa exploração serão acessadas a cada especialização, pois é muito diferente lançar uma bola de handebol e lançar uma bola de basquetebol. O equilíbrio corporal está relacionado ao analisador vestibular. Os exercícios apropriados para esse trabalho devem promover ações de de- sequilíbrio e retomada de equilíbrio; o corpo será colocado em situações instáveis, e o movimento deve ser executado independentemente da posição estável do corpo. Exemplifica-se essa situação quando o atleta de hande- bol realiza um arremesso a gol durante o salto. Na fase da iniciação, um exercício a ser praticado pode ser uma corrida em ziguezague em alta velo- cidade por entre cones e, ao final, a subida em um step, para então saltar e arremessar a gol. Por fim, o analisador cinestésico se apresenta quando o aluno é exposto a estímulos externos, e ele precisa compreender o seu posicionamento corporal no espaço em situações estáticas e dinâmicas. Por exemplo: receber uma bola que teve a interferência do contato do adversário durante o deslocamento. Esse contato se refere ao estímulo externo, que faz, de forma involuntária, a bola mudar sua trajetória, sua força e sua direção, obrigando o aluno a reavaliar a forma de executar a sua ação. 11Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 69 Além de uma perspectiva mais complexa, é possível que, para cada modalidade esportiva, as capacidades coordenativas possam ser exploradas, de modo que o foco do trabalho se paute no que é específico daquela modalidade. Da mesma forma, os condicionantes de pressão e os analisadores perceptivos serão utilizados para potencializar o trabalho específico das modalidades. Contudo, eles precisam estar incorporados de forma efetiva pelo aluno, para que, no momento dessas especializações, a compreensão do ato motor esteja articulada com os entendimentos reflexivos do jogo. Quanto maior for a compreensão sobre os diferentes atos de jogar, por parte do aluno, mais capaz ele será de perceber jogadas, identificar táticas e estratégias e executar com mais eficácia os gestos motores. Após a fase da iniciação, isto é, do ato de jogar, podemos aproximar o entendimento do jogo formal de uma modalidade esportiva coletiva específica, utilizando-se das estruturas funcionais. As estruturas funcionais consistem em recortes de um jogo, em que há participação de um ou mais jogadores em situação de defesa ou ataque, fato que é definido pela posse da bola. Elas são uma fase preparatória para se chegar ao jogo propriamente dito de um esporte. Assim, as estruturas funcionais têm por objetivo desenvolver as funções táticas, que estarão vinculadas às decisões que são apresentadas durante a execução técnica do jogo formalizado. Nesse processo, há, em cada recorte do jogo, um nível de dificuldade diferente, definido pelas várias informações recebidas: pelos cenários que se apresentam por meio do número de jogadores da mesma equipe que estão envolvidos na situação, ou pelo número de ad- versários, ou na demarcação do espaço, ou, ainda, no possível contato físico. A complexidade de cada estrutura vai estar atrelada ao confronto com o adversário e, da mesma forma, com a colaboração entre os colegas. Na prática, as estruturas funcionais são concretizadas nos fundamentos estruturais, que indicam o número de envolvidos na ação. Por exemplo, verificam-se as seguintes situações: 1 × 0 — há somente um jogador nessa situação do jogo; 1 × 1 — quando há um jogador de cada equipe (atacando e defendendo); 3 × 2 — uma situação de superioridade numérica da equipe que está atacando em relação à que está defendendo. Será nessa lógica que as atividades e ou estratégias de ensino serão elabo- radas. O Quadro 1 apresenta exemplos de estruturas funcionais relacionadas aos elementos técnicos e táticos. Características da iniciação nos esportes coletivos12 70 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fundamento Estrutural Elementos Técnicos Elementos táticos Individual Grupo 1 × 0 Condução Chute Atualização e apli- cação do chute Chutar em vários seto- res da meta e de diver- sas regiões da quadra 1 × 1 Enfatizar os exer- cícios do drible Executar o drible em diferentes se- tores da quadra Realizar as diferentes formas de execu- ção do drible 2 × 2 Ênfase na ação do drible para criar a superiori- dade numérica Ênfase na utilização da desmarcação e do passe Cruzamento e blo- queio com ou sem troca de marcação 3 × 2 Ênfase na ação do passe e deslocamento sem bola Abrir espaços para pene- tração dos colegas e op- ção para receber o passe Distribuição no espaço do jogo Coordenação das ações entre os atacantes Quando 1. Exemplos de estruturas funcionais relacionadas aos elementos técnicos e táticos As premissas evidenciadas sugerem uma iniciação aos esportes coletivos de forma mais complexa e ampliada, que solicitam do aluno o entendimento da lógica do jogo e que buscam qualificar as suas ações motoras. É nessa qualificação que o refinamento se estrutura; isto é, se o aluno consegue rea- lizar uma tarefa motora de forma mais eficaz, sem a preocupação com uma técnica específica, ele estará mais bem preparado para receber e incorporar outras estruturas de movimento quando estas tiverem por meta a habilidade do esporte apreendido. Pode-se compreender que é possível desenvolver aspectos técnicos, táticos e coordenativos sem haver nenhuma especialização no esporte; no entanto, diversas vezes se observa uma especialização precoce, que pode trazer inú- meros prejuízos, como veremos a seguir. 13Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos EsportesColetivos | PARTE 4 71 A especialização precoce no atletismo O atletismo, por ser considerado o esporte-base, tem como fundamento, nas suas diferentes provas, as habilidades básicas, como a corrida, o salto, o arremesso e o lançamento. Tais habilidades motoras são naturais ao desenvolvimento de crianças; se não tiverem algum problema motor, as crianças vão atingir as dife- rentes etapas do desenvolvimento a cada faixa etária de sua vida. Esse processo se dará sob infl uências externas, como a cultura, a motivação e o incentivo, que, de certa forma, defi nem o tempo de aquisição da habilidade; porém, são os fatores biológicos e fi siológicos que defi nem como elas serão desenvolvidas. A lógica é sempre que a criança aprenda a correr de frente para que depois ela consiga correr de costas. Exigir um processo contrário é expor a criança a um desafio motor que, possivelmente, sem um esforço extraordinário, ela não conseguiria realizar, conforme leciona Nascimento (2000). O desenvolvimento motor das crianças está atrelado ao seu desenvol- vimento biológico e fisiológico. Naturalmente, as crianças passam pelo mesmo processo de desenvolvimento na aquisição das habilidades motoras básicas; contudo, não se pode negar a influência da cultura de movimento em que cada criança está inserida, dos estímulos motores que ela recebe ao longo da infância, das limitações impostas por modos de convivência. Por exemplo: crianças que pouco brincam na rua ou que fazem uso exagerado das tecnologias em prol de brincadeiras motoras, ou, ainda, quando há uma preocupação demasiada dos pais com a segurança dos filhos, bastante percebida em falas como “cuidado para não cair” e “se subir aí, você pode se machucar”. Essas situações podem limitar a exploração e a vivência motora das crianças, ocasionando possíveis atrasos no desenvolvimento. É importante destacar que as habilidades motoras são treináveis; isto é, se colocarmos a criança em uma situação de repetição constante de um determinado movimento, ela, de forma automática, conseguirá executá-lo. Nesse processo, não está sendo considerada a qualidade da aprendizagem, mas, sim, a forma como a criança será capaz de realizar a ação. Entretanto, essa aprendizagem estará atrelada à sua capacidade motora e cognitiva. Assim, a especialização precoce surge com um aluno que já é capaz de realizar de forma naturalizada uma ação motora, mas ainda necessita de um tempo de apropriação desse movimento para que ele se torne proficiente, conforme lecionam Ramos e Neves (2008). Características da iniciação nos esportes coletivos14 72 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I O atletismo é uma modalidade esportiva que apresenta um cenário promis- sor para a especialização precoce, já que, prioritariamente, utiliza habilidades básicas e, de certa forma, tem facilidade de ser executado em ambientes alternativos e com materiais adaptados. Ainda, é um esporte que faz parte dos conteúdos mais utilizados por professores e treinadores esportivos. Pode até ser que o professor não tenha a intenção de incentivar essa especialização; contudo, quando ele oferta aos alunos experiências de exercícios pautadas nos gestos condicionados, gestos culturalmente construídos por regras impostas pelos processos competitivos, ele já estará ultrapassando a fase de exploração dos movimentos, tão importante para o aluno. Ainda, há situações em que essa especialização acontece quando há uma carga de treinamentos muito elevada, ou quando a metodologia exige repeti- ções constantes e exaustivas do movimento. Pode ocorrer também quando o movimento se fundamenta em técnicas precisas e específicas, que o aluno não consegue realizar pelas limitações da consciência corporal sobre o movimento, conforme elencam Ramos e Neves (2008). O Quadro 2 traz uma comparação entre ações motoras exploratórias e especializadas. Ação motora exploratória Ação motora especializada Correr e saltar por cima de obs- táculos de diferentes alturas Correr e saltar por cima de barreiras Lançar implementos por dentro de alvos Utilizar varas de bambu e arremessá-las, sempre iniciando o movimento de impulso por cima do ombro, como no lançamento dos dardos Arremessar implementos cons- truídos com diferentes pesos Executar o movimento do arremesso do peso dentro de uma área específica de arremesso Quadro 2. Comparativo de ações motoras exploratórias e especializadas Para a criança ou o jovem exposto à especialização precoce, os impactos na sua formação afetam para além do desenvolvimento motor, abrangendo aspectos psicológicos e socioafetivos. É na constante dificuldade de realizar o movimento que o aluno acaba não reconhecendo suas capacidades ou, até mesmo, achando-se incapaz de executar o que é solicitado. Nas relações socioafetivas, essa condição pode levar à inibição, à exclusão de grupos de amigos e à pouca valorização de familiares. 15Características da iniciação nos esportes coletivos Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Características da Iniciação nos Esportes Coletivos | PARTE 4 73 Conforme Nascimento (2000), são os grupos sociais que incentivam ou colocam as crianças em situações de especialização, por entenderem que estas devem praticar esportes e, de certa forma, destacar-se nesse processo. As lesões osteomusculares também podem surgir com mais frequência quando o aluno é exposto a treinamentos com sobrecarga e com grau de dificuldade elevado. É preciso respeitar a maturação óssea esquelética, para que esta possa suportar as exigências do próprio corpo potencializadas pelo uso de implementos e materiais. O prazer deve ser o condutor de qualquer prática esportiva. No atletismo, ele se manifesta em forma de desafio e de superação dos próprios resul- tados; é possível que a criança queira brincar de executar os movimentos simplesmente por estar motivada em conseguir ir mais longe ou saltar mais alto. Mesmo assim, a exigência do resultado pode exaltar aqueles que são mais habilidosos, e essa observação pode conduzir a treinamentos mais rígidos. Nessa projeção daquele que tem mais facilidade ou mais aptidão para as tarefas motoras das provas do atletismo, também se deve vislumbrar que, se esse aluno tiver um acervo amplo de situações e variações motoras, no momento certo da especialização, seu movimento, seu corpo e sua capacidade cognitiva estarão mais aptos e preparados para um avanço na qualidade da execução. Enfim, a especialização não assume uma conotação negativa quando é realizada no momento correto do desenvolvimento global do aluno. Ela é favorecida pela cultura corporal vivida pelos jovens atletas e pelas experiências motoras por eles adquiridas. O fato que se destaca é usar das habilidades básicas que fundamentam o atletismo como estratégia para um refinamento daquilo que ainda nem foi incorporado como ação básica do ato de se movimentar, conforme apontam Ramos e Neves (2008). Neste capítulo, as temáticas debatidas foram estabelecidas, de certa forma, na lógica de uma aprendizagem saudável sobre as modalidades es- portivas. Ao tratar dos esportes coletivos, foram apresentadas possibilidades que, para além de especializar uma determinada ação motora, buscaram fazer com que o professor perceba a necessidade de ensinar a lógica do jogo, o jogar. Essa mesma coerência pode ser evidenciada nas reflexões Características da iniciação nos esportes coletivos16 74 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I sobre a especialização precoce no atletismo, em que se define como ponto a ser observado a facilidade de se utilizar de habilidades básicas de forma incorreta, em uma fase em que o aluno não está apto para a execução do movimento refinado. 1200PX-EUROPEI_DI_PALLAVOLO_2005_-_ITALIA-RUSSIA. Wikimedia, [s. l.], [2005]. Largura: 403 pixels. Altura: 302 pixels. Formato: JPG. Disponível em: https://upload. wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/8/8c/Europei_di_pallavolo_2005_-_ Italia-Russia.jpg/1200px-Europei_di_pallavolo_2005_-_Italia-Russia.jpg.Acesso em: 10 jun. 2019. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular: educação é a base. Brasília, DF: Ministério da Educação, 2018. Disponível em: http://basenacionalcomum. mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_versaofinal_site.pdf. Acesso em: 10 jun. 2019. GRECO, J. P. Iniciação esportiva universal: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. v. 2. GRECO, J. P.; BENDA, R. N. Iniciação esportiva universal: da aprendizagem motora ao treinamento técnico. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. HOQUEI-GRAMA-JOGO. Sportregras.com, [s. l.], [2016]. Largura: 403 pixels. Altura: 249 pixels. Formato: JPG. Disponível em: https://sportsregras.com/wp-content/uplo- ads/2016/05/hoquei-grama-jogo.jpg. Acesso em: 10 jun. 2019. KRÖGER, C.; ROTH, K.; MEMMERT, D. Escola da bola: um ABC para iniciantes nos jogos esportivos. São Paulo: Phorte, 2002. NASCIMENTO, A. C. S. L. Pedagogia do esporte e o atletismo: considerações acerca da iniciação e da especialização esportiva precoce. 2000. Dissertação (Mestrado em Educação Física) — Faculdade de Educação Física, UNICAMP, Campinas, 2000. RAMOS, A. M.; NEVES, R. L. R. A iniciação esportiva e a especialização precoce à luz da teoria da complexidade–notas introdutórias. Pensar a prática, [s. l.], v. 11, n. 1, p. 1-8, 2008. Leituras recomendadas GALATTI, L. R. et al. Pedagogia do esporte: procedimentos pedagógicos aplicados aos jogos esportivos coletivos. Conexões, [s. l.], v. 6, p. 397-408, 2008. PAES, R. R.; BALBINO, H. F. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. In: ROSE, D. et al. Esporte e atividade física na infância e adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2009. 17Características da iniciação nos esportes coletivos ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 76 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos Prezado estudante, Estamos começando uma unidade desta disciplina. Os textos que a compõem foram organizados com cuidado e atenção, para que você tenha contato com um conteúdo completo e atualizado tanto quanto possível. Leia com dedicação, realize as atividades e tire suas dúvidas com os tutores. Dessa forma, você, com certeza, alcançará os objetivos propostos para essa disciplina. Objetivo Geral Compreender a metodologia do ensino aprendizagem nos esportes coletivos. unidade 2 V.1 | 2021 78 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 1 Metodologia dos Esportes O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 2 V.1 | 2021 80 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Metodologia dos esportes Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Descrever a história e as diferentes classificações dos esportes. Analisar estratégias para o ensino dos esportes na educação física escolar. Planejar aulas para o ensino dos esportes em diferentes faixas etárias. Introdução O esporte acompanha a humanidade há séculos. No decorrer dos tempos, ele assumiu diferentes significados, até se constituir nos esportes con- temporâneos. O esporte é atualmente um dos seis grupos de atividades (unidades temáticas) que devem ser ensinados na educação física na escola, que incluem também brincadeiras e jogos, danças, ginásticas, lutas e práticas de aventura. Neste capítulo, você vai aprender mais sobre a metodologia do en- sino dos esportes. Você vai verificar um breve retrospecto da história do esporte e, então, vai compreender as classificações utilizadas nos esportes contemporâneos. Você também vai conferir uma análise das metodolo- gias que podem ser utilizadas para o ensino do esporte (analítico-sintética, global-funcional e mista) e compreender como utilizá-las para planejar aulas para diferentes faixas etárias. 1 História dos esportes As práticas corporais acompanham a humanidade desde os primórdios de sua história. Tubino (2010) divide a história do esporte nos três períodos a seguir. Esporte antigo: da Pré-História até metade do século XIX. Esporte moderno: de 1820 até 1980. Esporte contemporâneo: de 1980 até hoje. gilia Destacar gilia Destacar Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 81 Tubino (2010) aponta que as práticas realizadas na Antiguidade eram muito diferentes das práticas esportivas atuais. Muitas delas eram de caráter utilitário e ligadas à sobrevivência, como nadar, correr e caçar, ou de preparação para a guerra, como marchas, lutas, esgrima etc. Por vezes, essas manifestações da cultura são chamadas não de esportes, mas de práticas autóctones. A constituição do esporte como o conhecemos hoje é fruto das transformações da cultura europeia e do processo de colonização. Se observarmos as práticas autóctones realizadas por outros povos, podemos trazer os seguintes exemplos para as culturas listadas a seguir (BRASIL, 2003; TURBINO, 2010): Brasileira: Xikunahaty (jogo com bola em que se utiliza apenas a cabeça), Ronkrã (jogo com taco e bola do povo Kayapó), Huka-huka (luta dos povos do alto Xingú), arco e flecha e corrida com tora. Chinesa: lutas chinesas, tiro ao arco chinês, esgrima de sabre, Tsu-chu e artes marciais chinesas. Egípcia: arco e flecha, corrida, saltos, arremessos, equitação, esgrima, luta, boxe, natação, remo, corridas de carros e jogos de pelota. Etrusca: duelos armados. Hitita: equitação, natação, remo, esgrima, tiro e luta. Japonesa: artes marciais. Os significados da realização dessas práticas eram muito diferentes do que os que atribuímos hoje. Muitas vezes, elas estavam envolvidas com festivais e rituais de celebração da colheita ou de adoração a alguma divindade, por exemplo. Durante os períodos medieval e renascentista na Europa, houve um processo de decadência das práticas esportivas; nessa época, elas eram escassas e, por vezes, muito violentas. Tubino (2010, p. 23) traz alguns exemplos dos jogos que eram realizados: a) O Torneio Medieval consistia numa verdadeira batalha corporal, com duas equipes contrárias usando cavalos, espadas e até lanças. Os vencedores rece- biam prêmios e os perdedores, muitas vezes, morriam nas disputas. b) A Soule era um esporte medieval popular, de grande violência, praticado na Europa Ocidental, variando em cada local, com número ilimitado de jogadores, que tentavam conduzir uma pelota (bexiga animal com ar) até um ponto pré-estabelecido de cada lado. Os jogos provocavam muitos feridos. Essa modalidade foi iniciada no século XI e chegou até o XIX. Metodologia dos esportes2 82 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I c) O jeu de palme era um jogo de bola, de origem francesa, que consistia em bater numa pelota com a palma das mãos. Era disputado em salas fechadas e teve o seu auge no século XVI. Ainda é praticado. Algumas dessas práticas foram proibidas no século XVIII, pois passaram a ser compreendidas como práticas perigosas para a “ordem pública” da Europa, que se industrializava e vivia um período de transição de uma cultura rural para a urbana. A partir de 1820, o inglês Thomas Arnold, diretor do Rugby School, na Inglaterra, começou a codificar os esportes existentes com regras e competições; essa ideia rapidamente se estendeu pela Europa, dando origem a associações desportivas diversas. Esse fenômeno deu origem ao esporte moderno. Esse movimento ganhou muita força em 1896, com a restauração dos jogos olímpicos por Pierre de Coubertin. O esporte moderno passou a se pautar no que foi denominado ideário olímpico, ou seja, princípios da ética esportiva baseados no conceito de fair play. Outro conceito importante foi o de ama- dorismo, ou seja, a defesa da aristocracia contra a prática popular do esporte. O ideário olímpico — com base na ética e no associacionismo — começou a se romper em 1936 (Berlim), com a tentativa de Hitlerem provar a suposta supremacia ariana, prosseguindo em 1952 (Helsinque), quando os Jogos foram transformados em palco da chamada Guerra Fria, quadro que se estendeu por várias edições posteriores. O uso político-ideológico do esporte prosseguiu com manifestações como a do Movimento Black Power por atletas negros norte-americanos (México, 1968), além de sequestros e assassinatos de atletas israelenses (Munique, 1972) e boicotes (Montreal, 1976, Moscou, 1980 e Los Angeles, 1984) (KRAVCHYCHYN et al., 2012, documento on-line). Na década de 1980, tiveram início movimentos internacionais que de- fendiam “o esporte para todos”, por meio de manifestos de organizações internacionais ligadas ao esporte. Esse foi um marco da virada do esporte moderno para o contemporâneo (TUBINO, 2010). Na classificação dos esportes contemporâneos, há sete categorias que subdividem essas práticas corporais em virtude de suas características. Essas categorias são estabelecidas a partir de sua lógica interna, que é definida “[…] tendo como referência os critérios de cooperação, interação com o adversário, desempenho motor e objetivos táticos da ação” (BRASIL, 2017, documento on-line). Assim, as práticas são divididas nas categorias descritas a seguir (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012; BRASIL, 2017): 3Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 83 Esportes de marca: envolvem comparar os resultados registrados em segundos, metros ou quilos. Exemplos: patinação de velocidade, todas as provas do atletismo, remo, ciclismo e levantamento de peso. Esportes de precisão: envolvem arremessar ou lançar um objeto, procu- rando acertar um alvo, comparando-se o número de tentativas empre- endidas, a pontuação estabelecida em cada tentativa ou a proximidade do objeto arremessado ao alvo. Exemplos: bocha, curling, golfe, tiro com arco e tiro esportivo. Esportes técnico-combinatórios: leva-se em conta o resultado da ação motora em virtude da qualidade do movimento, segundo padrões téc- nico-combinatórios. Exemplos: ginástica artística, ginástica rítmica, nado sincronizado, patinação artística e saltos ornamentais. Esportes de rede/quadra dividida ou parede de rebote: envolvem arremes- sar, lançar ou rebater a bola em direção a setores da quadra adversária nos quais o rival seja incapaz de devolvê-la ou que levem o adversário a cometer um erro, rebatendo-a para fora do seu campo. Alguns exemplos de esportes de rede são voleibol, vôlei de praia, tênis de campo, tênis de mesa, badminton e peteca. Já os esportes de parede incluem pelota basca, raquetebol, squash etc. Esportes de campo e taco: reúnem as modalidades que se caracterizam por rebater a bola lançada pelo adversário o mais longe possível, para tentar percorrer o maior número de vezes as bases, ou a maior distância possível entre as bases, enquanto os defensores não recuperam o con- trole da bola, para, assim, somar pontos. Exemplos: beisebol, críquete e softbol. Esportes de invasão ou territorial: envolvem comparar a capacidade de uma equipe de introduzir ou levar uma bola (ou outro objeto) a uma meta ou setor da quadra/campo defendida pelos adversários (gol, cesta, touchdown etc.), protegendo, simultaneamente, o próprio alvo, meta ou setor do campo. Exemplos: basquetebol, frisbee, futebol, futsal, futebol americano, handebol, hóquei sobre grama, polo aquático, rúgbi. Esportes de combate: modalidades caracterizadas como disputas nas quais o oponente deve ser subjugado, com técnicas, táticas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço, por meio de combinações de ações de ataque e defesa. Exemplos: judô, boxe, esgrima e taekwondo. É importante compreendermos as diferentes manifestações que o esporte pode adotar e a definição de cada uma delas. A Lei nº. 9.615, de 24 de março Metodologia dos esportes4 84 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I de 1998, que institui normas gerais sobre o esporte, em seu Capítulo III, art. 3º, apresenta as seguintes classificações: I — esporte educacional, praticado nos sistemas de ensino e em formas assis- temáticas de educação, evitando-se a seletividade, a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer; II — esporte de participação, de modo voluntário, compreendendo as modali- dades esportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente; III — esporte de rendimento, praticado segundo normas gerais desta Lei e regras de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados e integrar pessoas e comunidades do País e estas com as de outras nações (BRASIL, 1998, documento on-line). Neste capítulo, vamos focar no esporte educacional. Porém, essa prática, enquanto elemento da cultura, está integrada de diferentes formas na vida dos sujeitos às outras duas manifestações. Agora que conhecemos um pouco mais sobre a lógica interna dos esportes e as características que os compõem, vamos analisar as metodologias e estratégias para o ensino dos esportes nas aulas de educação física na escola. 2 Estratégias de ensino do esporte na escola De acordo com Ciquelero (2011), as primeiras sistematizações de metodolo- gias para ensino de esportes coletivos se deram por volta da década de 1960 e foram inspiradas nos métodos já estruturados de modalidades esportivas individuais, especialmente do atletismo. Essas propostas traziam uma visão fragmentada do processo de ensino do esporte. No atletismo, cada parte do movimento da corrida de um atleta, por exemplo, era ensinada separadamente. Assim, nos esportes coletivos, passou-se a ensinar e treinar cada fundamento do jogo de forma isolada, considerando que, a partir das partes, o aluno ou atleta aprenderia ou refi naria o todo. Contudo, no caso dos esportes coletivos, o fato de um jogador saber exe- cutar os movimentos e fundamentos do jogo de forma isolada não garantia condições de responder aos problemas apresentados em situações de jogo, sobretudo desafios de ordem tática. Com isso, no final da década de 1970 e início da década de 1980, surgem autores como Bayer, na França, e Bento, Garganta e Graça, em Portugal, e também, em 1990, Bunker e Thorpe, na 5Metodologia dos esportes gilia Destacar Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 85 Inglaterra, que propõem novos olhares sobre o processo de ensino e apren- dizagem dos jogos esportivos coletivos, que acarretaram novos métodos de ensino (CIQUELERO, 2011). Na entrevista disponível no link a seguir, Lino Castellani, diretor do Observatório do Esporte e ex-secretário nacional de esporte e lazer, fala sobre as transformações que a educação física e, em especial, o esporte vêm sofrendo na escola e na sociedade brasileira em geral. https://qrgo.page.link/YbMbu As abordagens citadas anteriormente, sendo a primeira denominada analítico-sintética e a segunda, global-funcional, são os fundamentos da metodologia do ensino dos esportes. Uma terceira metodologia também é descrita na literatura e é denominada método misto, pois integra a perspectiva de ambas as abordagens. Posteriormente, outras abordagens foram criadas, a partir de variações desses três métodos iniciais, como global em série de jogos, confrontação, conceito recreativo do jogo esportivo e série funcional de jogos, entre outros (PINHO et al., 2010). É preciso que tenhamos claro que a escolha do método de ensino a ser uti- lizado na iniciação esportiva é de grande importância para o sucesso do aluno. O método selecionado deverá facilitar o processo de ensino e aprendizagem, sem torná-lo maçante ou desmotivadora. Devea prática esportiva vem ganhando espaço, pois por meio dela podemos desenvolver de maneira eficaz um conteúdo rico de possibilidades na formação de indivíduos. Neste capítulo, você vai estudar a classificação do esporte de acordo com as suas manifestações, bem como identificar quais são as perspectivas dentro do esporte educacional e suas dificuldades, aprendendo a planejar atividades e jogos esportivos no ambiente escolar. Classificação do esporte O esporte é a ação de praticar atividades físicas de maneira coletiva ou individual, gerando bem-estar físico e emocional a todas as pessoas que o envolvem, sendo considerado um dos fenômenos socioculturais mais importantes no fi nal do último século. Barbanti (2008) classifi ca o esporte como uma atividade competitiva institucionalizada que envolve esforço físico vigoroso ou o uso de habilidades motoras relativamente complexas, Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 11 por indivíduos, cuja participação é motivada por uma combinação de fatores intrínsecos e extrínsecos. Barbanti (2004) ainda nos sugere que para fazermos uma definição precisa do que é o esporte, é necessário considerar a especificidade da atividade em questão, suas condições para que ela ocorra e a orientação subjetiva dos participantes envolvidos. As três manifestações do esporte Além das várias classifi cações existentes do esporte em nossa literatura, Tubino (1999) classifi cou o esporte de acordo com três aspectos de sua manifestação: o esporte educação, o esporte participação e o esporte performance. Esporte educação O principal objetivo do esporte é gerar cultura, manifestações sociais e democratização por meio do movimento. A partir do esporte educação, socializamos com pessoas de nosso convívio, desenvolvendo senso crítico, cidadania, fazendo com que os alunos tenham consciência da importância da inclusão e para desenvolver a competitividade de maneira saudável. Por isso, justifi ca-se a importância do esporte na escola. Paes (2005) afi rma que, se o esporte está inserido na vivência do ser humano, ele também deve estar inserido em contexto escolar. Dessa maneira, também podemos democratizar o acesso à manifestação da cultura de movimento de uma sociedade por meio do seu desenvolvimento nas escolas, pois é pela escola que todos terão a oportunidade de socialização do movimento, tendo em vista que o esporte é oferecido em outros ambientes de socialização, mas que nem todas as pessoas têm um efetivo acesso, por exemplo: em praças ao ar livre, academias, escolas de esporte, etc. Portanto, o esporte como meio de educação acontece nas escolas por meio do desenvolvimento de atividades de maneira coletiva e individual com o intuito de formar cidadãos preparados para as adversidades cotidianas. Podemos pensar em esporte aliado à educação quando imaginamos uma aula de educação física, em que os alunos trabalham em dupla em uma determinada atividade, sendo que um tem uma habilidade maior nessa atividade e o outro não. O aluno que tem maior habilidade deve ajudar ao colega com menor habilidade a desenvolver a tarefa proposta. Por exemplo, o objetivo da aula é aprender fazer chute a gol. A atividade será em dupla e cada aluno deve fazer o chute a gol. O aluno mais habilidoso pode dar dicas ao colega de como ele pode Esporte2 12 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I chutar de maneira eficaz. Dessa maneira, os alunos desenvolvem senso de compreensão e respeito ao nível de aprendizagem do colega, podendo entender que as habilidades podem ser trabalhadas e aprendidas com calma. Esporte participação Neste tipo de esporte, o seu principal foco é a ludicidade da atividade proposta. O esporte participação ocorre em espaços formais e não formais e é praticado por pessoas de todas as faixas etárias e condições. Geralmente, esse tipo de esporte acontece no tempo de lazer, desenvolvendo a interação social, o bem- -estar físico e mental, a diversão e o desenvolvimento pessoal. Colaborando, Godtsfriedt (2010) diz que o esporte participação: [...] tem como propósitos a descontração, a diversão, o desenvolvimento pessoal e o relacionamento com as pessoas. Pode-se afirmar que o esporte- -participação, por ser a dimensão social do esporte mais inter-relacionada com os caminhos democráticos, equilibra o quadro de desigualdades de oportunidades esportivas encontrado na dimensão esporte-performance. Enquanto o esporte-performance só permite sucesso aos talentos ou àqueles que tiveram condições, o esporte-participação favorece o prazer a todos que dele desejarem tomar parte (GODTSFRIEDT, 2010, documento on-line). Sempre podemos presenciar o momento em que os indivíduos formam coletivos para alguma prática coletiva, mesmo que o esporte seja individual, como a corrida, o ciclismo e a natação. O importante é a participação do indivíduo, bem como a sua socialização. Os locais ocupados por eles são espaços públicos de lazer, clubes particulares, condomínios, ruas, parques, praças, praias e montanhas. A existência de vários grupos voltados para uma mesma modalidade pro- move tanto interesse em seus participantes que seus membros promovem eventos extraesportivos, criam logotipo e camisas, fazem ações sociais e pro- movem jogos amistosos com outros grupos sociais de uma mesma modalidade. Assim, podemos perceber que o esporte por meio do lazer transforma os indivíduos apela sua capacidade de interação, causando bem-estar físico, psíquico e social, melhorando o ambiente e promovendo ações que modifiquem o cotidiano. 3Esporte Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 13 Esporte performance Também conhecido como esporte de rendimento, o esporte performance visa ao êxito de vitória sobre o adversário. As modalidades são regidas por federações, ligas e comitês a níveis regionais, nacionais e internacionais. O esporte performance tem regras universais, a fim de integrar todos os participantes que o praticam, podendo ser mais justos e possibilitar uma interação, tendo em vista que existem competições a níveis internacionais. Assim, eles podem falar uma mesma língua. Os seus praticantes se diferem completamente dos praticantes do esporte educação e do esporte participação, mas é possível que, por meio desses esportes, eles cheguem ao esporte performance. No alto rendimento, a prática fica restrita aos talentos esportivos descobertos na maioria das vezes em escolas de base esportiva específica de alguma modalidade, que geralmente é promovida pelos clubes com o foco de encontrar o próximo campeão. Por isso, o foco do esporte performance é a vitória. Como afirmam Darido e Rangel, [...] o esporte performance ou de rendimento, traz consigo os propósitos de novos êxitos e vitórias sobre os adversários e as diferentes modalidades es- portivas estão ligadas a instituições (ligas, federações, confederações, comitês olímpicos) que organizam as competições locais, nacionais ou internacionais e tem a função de zelar pelo cumprimento das regras e dos códigos éticos (DARIDO; RANGEL, 2011, p. 183). Vale lembrar que esses talentos esportivos podem ter algum tipo de aptidão que seja de relevância para o esporte, assim como também ter características físicas herdadas pela genética e que contribuem de alguma maneira para a sua equipe. É com o trabalho de base sólido e eficaz e uma boa equipe profissional que se consegue um bom talento esportivo. Outra característica do esporte performance é a profissionalidade com que são tratadas as modalidades: é necessário um corpo de profissionais altamente qualificados para se alcançar resultados expressivos. Então, os profissionais da área geralmente são especializados de acordo com os objetivos de cada área de atuação e também trabalham em grupo. Por exemplo, um clube de ginástica rítmica: teremos em seu corpo profissional a técnica esportiva, que ensinará as técnicas de base para os alunos, bem como as suas coreografias e estratégiastambém oferecer experiências- -problemas ou tarefas a executar que estejam adequadas à capacidade do aluno e lhe proporcionem momentos de prazer e alegria (GRECO; BENDA, 1998). Veremos um pouco mais sobre cada um desses três métodos citados que formam o alicerce da metodologia do ensino dos esportes. No princípio analítico-sintético, os exercícios partem da prática de frag- mentos técnicos, táticos ou condicionais que configuram determinado esporte. O aluno aprende e exercita repetidamente fundamentos, que simulam deter- minada situação ou gesto que poderá encontrar ou deverá executar ao realizar o esporte. À medida que ele passa a dominar melhor cada exercício, passa a praticar sequências mais complexas (CIQUELERO, 2011). Metodologia dos esportes6 86 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Para exemplificar a metodologia analítico-sintética, imagine uma aula de futebol, em que o professor propõe aos alunos aprenderem o fundamento do passe. Ele pede inicialmente que formem duplas e fiquem frente a frente passando a bola. A comple- xidade da atividade pode ser aumentada, pedindo-se para que realizem o passe com a parte interna do pé, o passe com a parte externa, o passe rasteiro, o passe à meia altura, o passe alto etc. A seguir, para os alunos praticarem o fundamento do chute, o professor pede que realizem um passe para o colega que vai chutar a bola em direção ao gol. Assim, situações cada vez mais complexas vão sendo criadas e praticadas repetidamente pelos alunos, na intenção de que estes aprendam os fundamentos técnicos e táticos do esporte. Esse método recebeu críticas especialmente quando aplicado aos esportes coletivos, uma vez que a complexidade das situações de jogo é muito maior do que a possibilidade de vivenciá-las em processos de práticas fragmentadas e ensaiadas. Isso limita a criatividade dos alunos na busca de soluções rápidas, que surgem nas situações reais vivenciadas no esporte coletivo. Além disso, no contexto escolar, a repetição constante e mecânica de determinados gestos pode ser maçante e pouco atrativa para os alunos. Os pontos fortes que essa metodologia apresenta são (GRECO, 2001; PERFEITO, 2009): fácil aplicação; possibilita desenvolver de forma rápida a técnica correta das habilidades motoras esportivas; por ser realizada em etapas, o iniciante poderá ter êxito com mais facilidade nas atividades; o aluno tem facilidade em se avaliar; as atividades podem ser facilmente corrigidas pelo professor; há facilidade no controle da progressão de aprendizagem. 7Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 87 Novas tendências da pedagogia do esporte têm concentrado seus estudos na com- preensão dos aspetos lógicos e organizacionais que caracterizam os esportes coletivos. Essa nova abordagem transcende o ensino tecnicista e valoriza a compreensão dos esportes coletivos como um sistema complexo, cujo ensino deve ser pautado em perspectivas não lineares, tendo no jogo a principal ferramenta pedagógica para o ensino dos esportes coletivos. Há características e lógicas comuns nos esportes coletivos que tornam possível considerá-los uma mesma categoria de jogos. Essas semelhanças funcionais formam uma grande família de jogos esportivos coletivos, cuja aprendizagem pode ser transferida ao nível da lógica do jogo com a prática de outras modalidades esportivas coletivas, de jogos em geral e da prática da própria modalidade esportiva (LEONARDO, SCAGLIA; REVERDITO, 2009). O segundo método, global-funcional, se desenvolve por meio da realização de jogos que possibilitam ao aluno vivenciar experiências próximas da reali- dade do esporte que está sendo ensinado. É valorizado o desenvolvimento da compreensão tática e dos processos que fazem parte da tomada de decisões. Busca-se evitar que os praticantes sejam condicionados a um desgastante processo de ensino da técnica e a uma especialização precoce na modalidade, excluindo a oportunidade de desenvolver e promover uma cultura esportiva apoiada na diversidade (PINHO et al., 2010). Metodologia dos esportes8 88 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A aplicação do método global-funcional se dá especialmente por meio do uso de jogos situacionais, que podem focar mais ou menos determinados aspectos do jogo. Um jogo muito simples que auxilia os alunos na compreensão do posicionamento (defesa-ataque) é o pega-bandeira. Nele, são divididos dois times, um lado da quadra é o campo de defesa e o outro o campo de ataque; o objetivo é que o time seja capaz de adentrar no campo adversário e pegar um objeto que está no fundo desse campo, retornando com ele até o seu campo de defesa, sem que os jogadores do outro time toquem no jogador. Outra possibilidade é o jogo usualmente denominado “bobinho”, que estimula a realização de passes. Outro jogo um pouco mais complexo e que se aproxima mais da condição de jogo real no ensino do handebol, por exemplo, é dividir a turma em dois times de seis alunos; dois alunos de cada time são posicionados na linha de fundo da quadra, segurando um bambolê, que será o alvo do jogo. Os demais alunos se encontram dispostos na quadra e devem trocar passes e tentar arremessar a bola, acertando o bambolê. Infinitos jogos podem ser criados pensando na necessidade dos alunos em desenvolver os fundamentos e aspectos táticos dos jogos coletivos. O uso de métodos globais de ensino do esporte tem sido mais defendido atualmente pelos pesquisadores dessa área, em virtude de proporcionar uma dinâmica prazerosa, que desenvolve ao mesmo tempo os fundamentos técnicos e a criatividade na resolução de problemas do jogo. Os princípios do método global podem também ser aplicados aos esportes individuais, pensando em proporcionar práticas motoras semelhantes às situações reais de aplicação do esporte. Mas, como eles, em geral, não exigem ações cooperativas e têm situações mais previsíveis, o uso de práticas mais direcionadas e fragmen- tadas em etapas pode ser também bastante útil. Esse é o caso, por exemplo, da ginástica artística e dos padrões básicos de movimentos, que dividem os conteúdos a serem aprendidos pelos alunos em aterrissagens, posições está- ticas, deslocamentos, rotações, saltos e balanços que devem ser praticados (VANCINI et al., 2015). Veremos a seguir como podemos desenvolver a metodologia do ensino do esporte em aulas da educação infantil, do ensino fundamental e do ensino médio. 9Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 89 Pinho et al. (2010) analisaram a influência da aplicação de jogos situacionais sobre os níveis de conhecimento tático processual (CTP) de escolares na faixa etária entre 10 e 12 anos. Na realização da pesquisa, os autores dividiram os 35 sujeitos em dois grupos. No Grupo 1, aplicaram o método global-funcional, por meio de jogos situacionais; no Grupo 2, utilizaram um método misto. As 18 aulas realizadas foram filmadas, e os alunos foram testados utilizando o teste KORA. Verificou-se que, no Grupo 1, houve uma melhoria no CTP dos alunos em todos os parâmetros. Já o Grupo 2 não apresentou melhora significativa em nenhum dos parâmetros analisados. Os autores concluíram que o método de ensino centrado nas capacidades táticas (situacional) é eficaz para estimular o desenvolvimento do conhecimento tático processual. 3 Planos de aula Vamos apresentar a seguir alguns planos de aula que exemplifi cam como podemos ensinar os esportes na educação física escolar. Para tanto, deve-se levar em conta as três esferas fundamentais no que diz respeito ao desenvolvi- mento de aprendizagens e competências, que são as dimensões procedimental, conceitual e atitudinal. A dimensão procedimental diz respeito a saber fazer, o que envolve a tomada de decisões e a habilidade de executar determinado gesto — participar de um jogo ou esporte,por exemplo. A esfera conceitual se refere a conhecer conceitos, signifi cados, símbolos, processos históricos — enfi m, os aprendizados intelectuais que giram em torno de determinado conteúdo. E, por fi m, a dimensão atitudinal diz respeito a ações, valores e normas ligadas às relações humanas. Cada uma dessas esferas deve ser desenvolvida no decorrer das práticas propostas. Plano 1 — educação infantil De acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a educação infantil deve ser pautada por campos de experiência, que são (BRASIL, 2017): a) o eu, o outro e o nós; b) corpo, gestos e movimentos; c) traços, sons, cores e formas; Metodologia dos esportes10 90 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I d) escuta, fala, pensamento e imaginação; e) espaços, tempos, quantidades, relações e transformações. Assim, ao desenvolvermos nossas aulas, não vamos ensinar diretamente handebol, atletismo ou qualquer outro esporte, mas trabalhar elementos desses esportes que estejam relacionados aos campos de experiência que os alunos da educação infantil devem vivenciar. No plano de aula que vamos apresentar, destinado a uma turma de jardim B, com crianças de 5 anos de idade, vamos apresentar aos alunos elementos de dois esportes coletivos com bola: o han- debol e o basquete. Você verá que todos esses campos estarão presentes em uma aula de educação física. Aquecimento Dança de roda: roda cotia (“de noite e de dia, na casa da titia, o vento soprou, e a casa caiu”. Nesse momento, todos se sentam no chão). Em roda, o profes- sor mostra duas bolas para os alunos, uma de basquete e uma de handebol, e pergunta em que esporte são usadas. Pergunta se eles conhecem o basquete e o handebol. Parte principal Atividade 1: o professor coloca quatro caixas de papelão, uma em cada canto da quadra, e distribui uma bola de basquete e/ou handebol para cada aluno. Pede para brincarem livremente, tentando quicar a bola. Quando apitar, todos devem correr para uma das caixas, colocar a bola dentro e se sentar o mais rápido possível no centro da quadra. Atividade 2 — queimada: os alunos são divididos em dois grupos; cada um fi ca de um lado da quadra, com bolas de borracha (preferencialmente bolas leves). O objetivo do jogo é lançar a bola e acertar no colega do outro time. Aqueles que forem pegos, passam a fazer parte do outro time; assim, todos os alunos participam do jogo. Atividade 3 — pega-pega na linha: o professor mostra para os alunos quais são as linhas que formam a quadra de basquete e quais formam a quadra de handebol. Pede que caminhem nessas linhas. Cada vez que o professor disser basquete, os alunos devem apenas usar as linhas que defi nem essa quadra; o 11Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 91 mesmo deve ocorrer quando o professor disser handebol. Depois de os alunos passarem a conhecer essas demarcações, inicia-se o pega-pega. Volta à calma Com os alunos sentados em círculo, com as pernas estendidas para a frente e os pés se tocando, coloca-se uma bola no colo de um dos alunos. O objetivo do jogo é passar a bola para o colega do lado sem usar as mãos e sem derrubar a bola, que deve fazer toda a volta no círculo. Se analisarmos essa aula, veremos que estão aqui presentes questões re- lacionadas aos campos de experiência e às três dimensões das competências. Estão presentes as relações, ou seja, o eu, o outro e o nós, pois muitas das atividades envolvem brincar com o outro, o que contempla as competências atitudinais. Também estão presentes a escuta, a fala e o pensamento, a neces- sidade de reconhecer as diferentes cores e formas das quadras, os tamanhos, as cores e os pesos das bolas utilizadas, e os espaços onde são realizados cada um dos esportes, que atendem às competências conceituais. Por fim, há práticas que envolvem o movimento do corpo, em brincadeiras em que os alunos devem correr ou quicar e lançar a bola, elementos vinculados às competências atitudinais. Plano 2 — ensino fundamental A realização das práticas corporais nas aulas de educação física no ensino fundamental deve levar em conta as seis unidades temáticas que compõem os conteúdos dessa disciplina. Além disso, deve privilegiar as oito dimensões do conhecimento (BRASIL, 2017), que são: experimentação das práticas corporais; uso e apropriação das práticas, o que proporciona autonomia; fruição, apreciação estética e prazer; reflexão sobre a ação; construção de valores; análise dos aspectos intrínsecos às práticas corporais; compreensão da relação entre as práticas corporais e os contextos socioculturais; protagonismo comunitário. Metodologia dos esportes12 92 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Vamos imaginar uma turma de 2º ano, com crianças de aproximadamente 7 anos. O professor de educação física identificou que há uma pista de atletismo próxima a escola e utilizou esse fato para abordar a temática com seus alunos. Primeiramente, é necessário contextualizar a atividade com os alunos: pode-se perguntar se alguém já praticou alguma atividade de atletismo e quais são as modalidades que conhecem; além disso, pode-se contar a história dessa prática. Aquecimento Deve-se propor alongamentos e exercícios de mobilização articular. É fun- damental aquecer os músculos e as articulações que serão utilizados nas atividades, que, nesse caso, envolverão todo o corpo. Propõe-se uma corrida lenta para reconhecimento da pista. Pode-se também propor um pega-pega, para tornar a aula mais lúdica. Parte principal Atividade 1 — corrida de revezamento: dividem-se os alunos em grupos de quatro pessoas. Cada um fi cará disposto ao longo da pista, com intervalos regulares. O primeiro deve levar um bastão, que passará para o segundo, e assim por diante. Atividade 2 — salto em distância e salto triplo: inicia-se com o salto em distância, que é uma atividade mais simples. Pode-se inicialmente deixar os alunos saltarem livremente e analisar a técnica utilizada pelos colegas que saltaram mais longe. Posteriormente, ensina-se a técnica de saltar com os dois pés à frente. Para o salto triplo, em que os dois primeiros passos são dados com a mesma perna, pode-se utilizar inicialmente bambolês ou marcas no chão. Atividade 3 — arremesso de pelota: caso a escola não possua pelotas, podem ser utilizados sacos de areia ou tijolos maciços. Mais uma vez, pode-se inicial- mente deixar os alunos lançarem livremente e analisar a técnica utilizada pelos colegas que arremessaram mais longe. Posteriormente, ensina-se a técnica. Volta à calma Realizam-se exercícios de alongamento de membros superiores e inferiores. Desenvolve-se uma conversa sobre a história do atletismo. Pode-se contextuali- zar seu surgimento na Grécia Antiga, nos Jogos Olímpicos de 776 a.C. Deve-se 13Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 93 deixar claro que é um esporte composto por um conjunto de modalidades de corrida, marcha, saltos e lançamentos. A utilização de um espaço público para a realização da aula é um elemento que incentiva os alunos a desenvolverem sua autonomia na prática de lazer e facilita a compreensão dos contextos socioculturais ligados ao esporte, uma vez que permite conexões entre a realidade local, vivenciada pelos alunos, e o contexto cultural. Além disso, o trabalho com atletismo e modalidades menos comuns de esportes enriquece o leque de conhecimentos referentes à diversidade de práticas. A BNCC (BRASIL 2017) indica uma ordem que deve ser levada em conta no ensino dos esportes ao longo do ensino fundamental. Não é proibido trabalhar outros conteúdos, mas os que estão descritos devem ser abordados. Isso auxilia na organização dos conteúdos da educação física escolar ao longo dessa etapa de ensino. Veja no Quadro 1 a seguir a indicação da BNCC. Fonte: Adaptadode Brasil (2017). 1º e 2º anos 3º ao 5º anos 6º e 7º anos 8º e 9º anos Esportes de marca e de precisão Esportes de campo e taco, de rede/parede, de invasão Esportes de marca, de precisão, de invasão e técnico- combinatórios Esportes de rede/parede, de campo e taco, de invasão e de combate Quadro 1. Ordem do ensino dos esportes no ensino fundamental Plano 3 — ensino médio No ensino médio, a educação física compõe a área de linguagens e suas tecnologias, em conjunto com língua portuguesa, arte e língua inglesa. Esta área tem a responsabilidade de propiciar oportunidades para a consoli- dação e a ampliação das habilidades de uso e de reflexão sobre as linguagens — artísticas, corporais e verbais (oral ou visual-motora, como Libras, e escrita) —, que são objeto de seus diferentes componentes (Arte, Educação Física, Língua Inglesa e Língua Portuguesa) (BRASIL, 2017, documento on-line). Metodologia dos esportes14 94 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Deve-se, no ensino médio, aprofundar os conhecimentos referentes às unidades temáticas que compõem os conhecimentos pertinentes à educação física e que foram abordados no ensino fundamental. Vamos trazer como exemplo um plano de aula para uma turma do 3º ano do ensino médio, com jovens em torno de 16 anos, em que teremos como objetivo desenvolver a prática do futebol. Aquecimento Um toque: neste jogo, três alunos jogam na linha e um como goleiro. Os jogadores devem trocar passes dando apenas um toque na bola. O objetivo dos jogadores da linha é marcar gols. Se o goleiro tocar na bola, ou se os jogadores da linha chutarem a bola para fora três vezes, o jogador que fez o último toque na bola vai assumir a posição de goleiro. Parte principal Jogo de pega-bandeira e, depois, jogo de futebol com quatro boleiras: a turma é dividida em dois grupos; no fundo de cada campo são colocados quatro cones, que delimitam duas goleiras. Joga-se com as mesmas regras do futebol. O objetivo desse jogo é estimular os alunos a utilizarem os fl ancos da quadra e exigir confi gurações defensivas diversas. Volta à calma Bola imaginária: em círculo, um aluno fi nge que tem uma bola nas mãos. Por meio de gestos, ele vai indicar para os colegas o tamanho e o peso dessa bola. Ao passar para o colega do lado, este deve transformar o tamanho e o peso da bola. Segue-se essa dinâmica até a bolinha “voltar” para o aluno que iniciou a atividade. Então, são realizados exercícios de alongamento A aula proposta apostou na utilização de jogos situacionais, desenvolvendo elementos técnicos, como passe e chute, e táticos, como o posicionamento — isso no primeiro jogo. O segundo jogo desenvolveu especialmente o posi- cionamento e a movimentação dos jogadores de defesa e ataque; por fim, foi apresentado um jogo muito semelhante ao esporte em si. O desenvolvimento da aula foi se desenrolando de jogos menos para mais complexos. 15Metodologia dos esportes Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Metodologia dos Esportes | PARTE 1 95 BRASIL. Lei no. 9.615, de 24 de março de 1998. Institui normas gerais sobre desporto e dá outras providências. Diário Oficial da União, 25 mar. 1998. Disponível em: https:// www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1998/lei-9615-24-marco-1998-351240-norma-pl. html. Acesso em: 5 fev. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/wp-content/uploads/2018/04/ BNCC_EnsinoMedio_embaixa_site.pdf. Acesso em: 5 fev. 2020. BRASIL. Ministério do Esporte. Portal do ministério do esporte. 2003. 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A pedagogia do ensino das modalidades esportivas coletivas e individuais: um ensaio teórico. Conexões: Educação Física, Esporte e Saúde, v. 13 n. 4, p. 137-154, 2015. Disponível em: https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/ conexoes/article/view/8643437. Acesso em: 6 fev. 2020. TUBINO, M. J. G. Estudos brasileiros sobre o esporte: ênfase no esporte-educação. Ma- ringá: Eduem, 2010. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 17Metodologia dos esportes ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE Parte 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 2 V.1 | 2021 98 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Processos pedagógicos nos esportes coletivos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Discutir a natureza dos esportes coletivos. � Descrever a metodologia do ensino-aprendizagem nos esportes coletivos. � Reconhecer o papel dos esportes coletivos na investigação da cultura corporal do movimento. Introdução Fenômeno que faz parte do cotidiano de várias civilizações, o esporte é um dos conteúdos básicos das aulas de educação física. Nesta disciplina, ele é um dos temas favoritos, com destaque para as modalidades coletivas, que envolvem grandes grupos, trazendo o benefício do exercício físico e promovendo ensinamentos que vão além dos campos e das quadras. Assim, os esportes coletivos exercem um papel importante como expressão cultural para os praticantes. Entretanto, para que isso ocorra, são necessárias metodologias adequadas que valorizem todo o potencial que essas modalidades esportivas desenvolvem nas pessoas que estão envolvidas em sua prática. Neste capítulo, você conhecerá a natureza dos esportes coletivos, bem como a metodologia de ensino-aprendizagem utilizada nesses esportes. Além disso, conhecerá o papel dos esportes coletivos na investigação da cultura corporal do movimento. ProcessosPedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 99 Natureza dos esportes coletivos Ao falar em esporte, naturalmente, pensa-se em diversão, bem-estar, intera- ção, alegria ou disputa entre atletas ou praticantes. Os esportes que possuem equipes disputando entre si são chamados de esportes coletivos. Teodorescu conceitua esporte coletivo da seguinte forma: O jogo desportivo coletivo representa uma forma de atividade social or- ganizada, uma forma específica de manifestação e de prática, com caráter lúdico e processual, do exercício físico, na qual os participantes (jogadores) estão agrupados em duas equipes numa relação de adversidade típica não hostil (rivalidade desportiva), relação determinada pela disputa através da luta com vista à obtenção da vitória desportiva, com a ajuda da bola (ou de outro objeto de jogo), manobrada de acordo com regras pré-estabelecidas (TEODORESCU, 1984, p. 23). Em consonância com essas palavras, Garganta (1998) aponta que, além do duelo entre duas equipes que realizam a disputam, estas se movimentam de forma muito particular, alternando-se em situações ora de ataque, ora de defesa, sendo essas movimentações vitais na busca para atingir o objetivo da vitória. Bayer (1986 apud OLIVEIRA, 2015) sublinha que as modalidades es- portivas coletivas apresentam características bastante próprias, tais como: um objeto esférico (geralmente a bola), que é lançado pelos jogadores do mesmo time em busca do objetivo, que é marcar o gol ou o ponto; um terreno delimitado (onde ocorre o jogo); uma meta, em que se ataca ou se defende (p. ex., uma baliza ou uma cesta); companheiros de equipe, que impulsio- nam o jogo de ataque; adversários que há de se vencer; e regras que devem ser respeitadas. A Figura 1 apresenta um exemplo de esporte coletivo que abrange essas características. Processos pedagógicos nos esportes coletivos2 gilia Destacar 100 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Figura 1. Polo aquático é uma das modalidades coletivas. Fonte: luca85/Shutterstock.com. Além das características citadas, Greco (1995 apud CASAGRANDE, 2012) destaca que os esportes coletivos também apresentam como elementos de sua natureza a imprevisibilidade das ações, a presença do público, as situações — pois as ações dos atletas se modificam conforme a situação/ambiente em que está ocorrendo a disputa — e a cooperação, que deve ocorrer entre membros de uma equipe para que se obtenha sucesso. Como exemplos de esportes coletivos, destacam-se: futebol, futsal, voleibol, basque- tebol, handebol, corridas de revezamento, provas por equipes das ginásticas artística e rítmica e da natação, futebol americano e polo aquático. 3Processos pedagógicos nos esportes coletivos Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 101 Existem três elementos importantes para o sucesso de uma equipe de esporte coletivo: estratégia, técnica e tática. Por estratégia, entende-se o plano teórico de uma equipe, que pode ser a curto, médio ou longo prazo, definido conforme os campeonatos disputados, os adversários e os recursos disponíveis. Em suma, a estratégia seria o planejamento do todo de uma equipe. Além disso, pode ser pensada para uma partida, conforme o adversário (SILVA; ROSE JUNIOR, 2005). A tática, por sua vez, é um elemento essencial, pois é ela que definirá como uma equipe irá se portar durante o jogo ou parte dele. Assim, envolve os siste- mas e o que os jogadores terão de fazer para suplantar os pontos fortes e tirar proveito dos pontos fracos do adversário. Em suma, sua função é colocar em prática a estratégia para aquela partida. A tática é um instrumento importante, e, durante um jogo, a equipe pode ter várias posturas táticas, conforme as situações ocorridas. Pode ser dividida em: tática individual, grupal ou coletiva (SILVA; ROSE JUNIOR, 2005). A tática individual envolve apenas um jogador e as tarefas que ele deve realizar. Embora seja individual, em um esporte coletivo, toda e qualquer ação de um colega ou adversário traz consequências para os demais. A tática grupal, por sua vez, envolve mais de um jogador, não sendo feita pelo todo. Como exemplo, pense em um jogo de basquete em que, dos cinco jogadores, três ficam incumbidos de marcar sob pressão, e dois, mais recuados. São táticas grupais diferentes. Por fim, tática coletiva é aquela que envolve todos os atletas, ou seja, todos têm de cumprir a mesma função, como, por exemplo, marcar por zona. Outro elemento importante no esporte coletivo é a técnica, que envolve a execução de movimentos que visam a dar sequência aos jogos. É considerada como os fundamentos de um jogo, como, por exemplo, o saque e o bloqueio no voleibol, ou o chute e o drible no futebol. Sem a técnica correta, uma equipe não consegue evoluir no seu objetivo: atingir a meta adversária (SILVA; ROSE JUNIOR, 2005). Processos pedagógicos nos esportes coletivos4 102 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Konzag (1991 apud SILVA; ROSE JUNIOR, 2005) sublinha que, nas modalidades coletivas, a técnica possui algumas particularidades, como: diversidade de elementos técnicos existentes, técnica individual, rápida atu- ação dos programas de ação, de acordo com as necessidades do jogo, grande diferença entre velocidade de execução, execuções motoras sob a pressão direta e indireta do adversário, entre outras. Cabe ressaltar, ainda, que apenas ter uma boa técnica não implica sucesso, pois ela não garante, necessariamente, o acesso a um jogar inteligente, uma vez que jogar bem implica compreender a lógica estrutural do esporte coletivo, que envolve outros elementos, como a tática e a estratégia, todos envoltos nas ações grupais (DAOLIO, 2002). Metodologia de ensino-aprendizagem dos esportes coletivos Como visto, os esportes coletivos possuem características únicas, e, com isso, pode-se afirmar que toda metodologia empregada para o seu ensino deve ser baseada nas etapas já descritas. Desse modo, Oliveira (2015, p. 11) afirma que “as atividades a serem realizadas devem ser adaptadas aos alunos e as situações que podem ocorrer, assim fortalecendo a aprendizagem construtiva na percepção esportiva dos alunos, mas adequando a metodologia de ensino e aprendizagem”. Casagrande (2012) aponta que um dos primeiros passos para o ensino desses esportes é o reconhecimento das bagagens sociais e culturais, ou seja, das experiências que os alunos já detêm sobre determinado esporte, o que facilita a troca de informações, além de aumentar a motivação para a prática. Além disso, o conhecimento prévio do aluno permite que o professor não precise começar do “zero”, podendo utilizar situações que o aluno já compreende. Contudo, esse conhecimento não necessita, obrigatoriamente, ser sobre o esporte que o professor irá ensinar em questão, pois muitos alunos realizam a chamada “transferência de aprendizagem”. Por exemplo, um praticante de handebol, ao entrar em contato com o basquete, utilizará elementos do pri- meiro esporte no segundo, pois há estruturas semelhantes em ambos, como cooperação entre a equipe e fundamentos técnicos e táticos. 5Processos pedagógicos nos esportes coletivos gilia Destacar Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 103 Sobre a iniciação esportiva, Bompa cita que o professor deve começar pelas chamadas atividades de base: O professor ou treinador deve elaborar atividades que desenvolvam habilidades multilaterais, como corrida, saltos, movimentos de arremessar, chutar, rebater e rolar, pois, essas habilidades motoras fundamentais servirão de alicerce para que as crianças tenham sucesso na aprendizagem de habilidades específicas ou esportivas. Assim executando o jogo com uma melhor performance. É importante ressaltar que um bom desenvolvimento das habilidadesmotoras fundamentais se torna importante para que a criança adquira um repertório motor satisfatório e adequado para facilitar o aprendizado futuro de apren- dizagens mais complexas (BOMPA, 2002 apud OLIVEIRA, 2015, p. 11). Após o desenvolvimento dessas ações, Garganta (2000, p. 55) enfatiza que é preciso que as competências ensinadas transcendam “a execução propriamente dita e se centrem na assimilação de ações e princípios do jogo”. Logo, o profes- sor deve dar ênfase à ação de jogar, criando atividades que sejam fidedignas ao jogo, as quais criarão e automatizarão uma série de situações e vivências motoras, facilitando e agilizando a tomada de decisões e as ações motoras. Com isso, observa-se que a abordagem tradicional de ensino envolve as simples ações mecânicas de repetir os fundamentos técnicos de determinando esporte (geralmente divididas em fragmentos por meio do método analítico- -parcial). No entanto, essas ações estão distantes da realidade do jogo, pois não permitem uma leitura da dinâmica do esporte, tampouco uma reflexão crítica sobre suas ações, dificultando que o aluno crie situações e as resolva durante uma jogada na partida. Os métodos tradicionais de ensino para esportes coletivos possuem três grandes vertentes: o método analítico-parcial (que ensina por meio da repetição do exercício; ou seja, o esporte é ensinado em partes), o método global-funcional (que ensina por meio do jogo com pouca fundamentação técnica) e o método misto (uma unificação dos dois métodos anteriores). Processos pedagógicos nos esportes coletivos6 104 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Casagrande (2012) aponta que não há um método melhor, mas sim aquele mais apropriado para a faixa etária e as características do grupo. Os métodos atuais têm buscado elucidar o papel do aluno no processo de ensino-aprendi- zagem e como ele ocorre dentro de um contexto de jogo. Esses métodos são chamados de ativos, pois levam em consideração o interesse do aluno. Saad esclarece a diferença entre esses métodos: De uma parte, os métodos tradicionais ou métodos didáticos baseiam-se nos princípios da simplicidade, da análise e da progressividade (decompõe-se em elementos a matéria a ensinar). Há dois processos fundamentais que participam a toda aquisição: a memorização e a repetição que permitem aplicar sobre a criança o rigor do adulto. De outra parte, há os métodos ati- vos, que levam em conta os interesses presentes da criança e que solicitam a partir de situações vividas, a iniciativa, a imaginação e a reflexão pessoal para favorecer a aquisição de um saber adaptado (SAAD, 2002, p. 29 apud CASAGRANDE, 2012, p. 42). Greco (1998) aponta como exemplo de metodologia ativa os métodos situacionais, nos quais se utiliza jogos que representam situações reais, com problemas táticos próximos ou iguais aos que podem ocorrer durante uma partida. Como exemplo de metodologia ativa, pode-se citar três exemplos: os jogos táticos, o método pendular e os jogos condicionados. Os jogos táticos envolvem o uso de habilidades motoras e de aprendizagem tática no contexto de um jogo, junto a um problema tático associado (CASA- GRANDE, 2012). Nesse modelo, os exercícios são realizados junto ao jogo, para que o aluno contextualize a aplicação prática às habilidades motoras treinadas. Já nos jogos táticos, o professor dá um problema tático ao aluno (p. ex., como um atleta ajudaria o colega sem a posse da bola), seguido da vivência (jogo), dos questionamentos (reflexões acerca do problema tático, se foi solucionado e feedback para a resolução) e, por fim, da volta ao jogo para correções e continuidade. Por fim, os jogos condicionados (Figura 2) buscam enfatizar o aprendizado da tática e da técnica concomitantemente ao princípio de jogar para aprender, focando no processo de tomada de decisões (CASAGRANDE, 2012). Esse método também é chamado de jogos reduzidos, pois diminui o número de atletas praticantes e o espaço da prática, além de ter maior flexibilidade das regras para que o jogo ocorra. 7Processos pedagógicos nos esportes coletivos gilia Highlight gilia Highlight Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 105 No entanto, os professores devem preocupar-se em manter os objetivos do jogo e os elementos estruturais essenciais do esporte formal. Além disso, esses jogos devem ser diversificados, propiciando situações diferentes, com tomada de decisões constantes. Os Jogos Condicionados utilizados como forma de treinamento, através de conceitos, princípios teórico-práticos e processos pedagógicos da estratégia, visam desenvolver uma consciência nos atletas de todos os aspectos de en- tendimento do jogo. Na busca desta conscientização, as ações táticas devem ser realizadas de formas variadas, dentro de uma situação real de jogo, para que os atletas entendam e conheçam o jogo, obtendo uma melhor leitura do mesmo (OLIVEIRA; NOGUEIRA; GONZALEZ, 2010, p. 7 apud CASA- GRANDE, 2012, p. 58). Figura 2. Jogos condicionados durante treino da seleção brasileira masculina de futebol. Fonte: Seleção... (2016, documento on-line). O modelo pendular, proposto por Daolio (2002), possui três elementos fundamentais: os princípios operacionais (de ataque e defesa), as regras de ação (necessárias para alcançar os princípios operacionais, como ações individuais e coletivas) e, na base do pêndulo, os gestos técnicos, que são o “modo de fazer” o jogo. Processos pedagógicos nos esportes coletivos8 gilia Highlight gilia Highlight gilia Highlight 106 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Para conhecer um pouco mais sobre o modelo pendular e a sua importância para o ensino dos esportes coletivos, leia o artigo “Jogos esportivos coletivos: dos princípios operacionais aos gestos técnicos — modelo pendular a partir das idéias de Claude Bayer”, disponível no link a seguir. https://qrgo.page.link/azoWq Freire e Scaglia (2003) apontam que essa metodologia ajuda o professor a criar condições favoráveis e facilitadoras para aprendizagens significativas. Para isso, no entanto, é preciso ter objetivos previamente definidos, aliados ao ambiente do jogo, satisfazendo às necessidades do jogador com situações que o absorvam inteiramente. Sendo assim, o jogo aplicado, no ensino das modalidades coletivas, deve estar associado ao planejamento de ensino e a um objetivo pedagógico, caracte- rizando, assim, o que se denomina um ambiente de aprendizagem significativo (SCAGLIA; REVERDITO; GALATTI, 2013). Todavia, a metodologia, para ser eficaz, precisa manter as características do jogo, como imprevisibilidade e desafios para as soluções de problemas. Esportes coletivos e a cultura corporal de movimento Antes de abordar a cultura corporal de movimento, faz-se necessário atentar para o fato de que o conceito de cultura é vasto e, na visão abordada neste capítulo, se refere à forma de hábitos e práticas, o que Geertz (1989) define como algo significativo transmitido historicamente que atua como símbolo para as mais variadas gerações. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) definem cultura da seguinte forma: A cultura é o conjunto de códigos simbólicos reconhecíveis pelo grupo: neles o indivíduo é formado desde o momento da sua concepção; nesses mesmos códigos, durante a sua infância, aprende os valores do grupo; por eles é mais tarde introduzido nas obrigações da vida adulta, da maneira como cada grupo social as concebe (BRASIL, 1998, p. 23). 9Processos pedagógicos nos esportes coletivos Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 107 Nesse contexto, tem-se o conceito de cultura corporal do movimento, que, segundo os PCNs, fez o ser humano buscar movimentos mais eficazes tanto para a sua sobrevivência quanto para questões lúdicas. Dentre esses movimentos, alguns foram incorporadas pela educação física para as práticasda cultura corporal, tais como: ginástica, lutas, dança, jogo e esporte. Alexandre, Kofahl e Santana (2009, documento on-line) sublinham que: A cultura corporal enquanto fenômeno educativo vai relacionar os valores e finalidades que se visualizam na Educação Física, onde os objetivos dela se orientarão não diretamente para o corpo, mas indiretamente, por meio da ação sobre a personalidade (os motivos, as atitudes, o comportamento, intelecto, vontade e emoção). Assim formaremos cidadãos mais críticos que vão usufruir, partilhar, produzir, reproduzir e transformar as formas culturais da atividade física. Portanto, percebe-se que o esporte é um fenômeno sociocultural que está presente na vida do homem, manifestando-se nas mais variadas formas, sendo uma delas a partir dos esportes coletivos, como prática, lazer, entretenimento e diversão. Entre os conteúdos trabalhados nas aulas de educação física, os esportes (principalmente os coletivos) são os mais desenvolvidos. No entanto, faz-se necessário que esse conteúdo não fique distante da realidade, mas sim que ajude o aluno a compreendê-la, de modo que essa abordagem deve ser crítica, contextualizada e com significado. Partindo-se desse princípio, o aluno não deve só aprender os movimentos do esporte enquanto um sujeito histórico, mas sim compreendê-lo em múltiplas formas, como a mídia e a cultura. Como exemplos, destaca-se o futebol ameri- cano, que está em alta como conteúdo midiático devido à espetacularização do jogo, principalmente no “Super Bowl”. Ao utilizar esse esporte coletivo como elemento da cultura corporal, o professor trabalhará suas regras, o fundamento, o jogo pré-desportivo, mas também proporá uma discussão sobre o esporte como forma de espetáculo, podendo indagar se os alunos o conhecem e, se sim, por qual meio midiático. Para associá-lo à realidade, basta buscar alguma prática vivenciada pelos alunos que seja parecida com essa modalidade (por ser um esporte considerado de invasão, pode-se associá-lo com o handebol ou o basquete, que também se jogam com as mãos e têm a mesma característica progressiva de tentar ocupar o lado de defesa adversária) e apontar quais seriam as diferenças entre ambas. Além disso, o professor pode permitir que o aluno desenvolva sobre o jogo, criando novas regras adequadas à sua realidade. Processos pedagógicos nos esportes coletivos10 108 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Assim como o exemplo dado, outras modalidades esportivas coletivas também podem ser utilizadas como ponto de partida para a análise cultural, como o futebol, o vôlei e o basquete, bem como suas transformações ao longo do tempo, desde regras, equipamentos até a forma de jogar, o espaçamento na mídia e as influências nas comunidades. Outro importante papel que os esportes coletivos trazem são benfeitorias sociais, motoras, afetivas, psicológicas e possibilidades de expressão a partir de sua prática. Daolio (2002) aponta que o ensino dos esportes coletivos só traz benefícios aos que os praticam. Além de bem-estar, socialização, companheirismo e respeito aos adversários, o esporte coletivo colabora com a formação de alunos inteligentes, cooperativos e autônomos, capazes de escolher a modalidade esportiva que irão praticar em seus momentos de lazer durante a vida e aptos a participar de diferentes modalidades esportivas, uma vez que possuem os princípios básicos do esporte coletivo (PAES, 2001 apud OLIVEIRA, 2015). Desse modo, Os esportes coletivos são um excelente meio para formação de cidadãos, um grande elemento da cultura de nosso país, visto os excelentes benefícios que essa prática desenvolve, gerando uma vida mais sadia e provida de objetivos claros. Na maioria dos locais onde a prática esportiva se faz constantes, principalmente nas escolas, o ensino está baseado em uma prática desprovida de diferenças, ou seja, uma atividade com um fim voltada para coletividade (PAES, 2001 apud OLIVEIRA, 2015, p. 13). Corroborando essa afirmação, Coutinho e Silva (2009) afirmam que os esportes coletivos exercitam o corpo e a mente, auxiliando o aluno de forma integral, inclusive nos meios acadêmicos e nas questões disciplinares, por meio de uma maior interação com os colegas. Valendo-se das ideias de Galatti e Paes (2006), Oliveira (2015) aponta que os esportes coletivos desenvolvem a parte afetiva do praticante, proporcionando ao aluno noções de coletividade, companheirismo, relacionamento com joga- dores da equipe e com adversários e, principalmente, habilidade individual mais útil, quando aplicada em benefício do coletivo. Uma prática constante dessas modalidades também trará melhorias nos aspectos motores, tornando os movimentos mais eficientes e padronizados. Além disso, as questões táticas desenvolvem o lado cognitivo do praticante, devido à tomada de decisões inerente ao jogo, uma vez que os esportes coletivos trabalham a partir da ideia de resoluções de problemas ao longo da partida. 11Processos pedagógicos nos esportes coletivos Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | PARTE 2 109 ALEXANDRE, A.; KOFAHL, A.; SANTANA, B. Esportes coletivos na perspectiva da cultura corporal: uma proposta pedagógica. Lecturas: Educación Física y Deportes, Buenos Aires, v. 14, n. 137, oct. 2009. Disponível em: https://www.efdeportes.com/efd137/esportes- -coletivos-na-perpectiva-da-cultura-corporal.htm. Acesso em: 5 jan. 2020. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: educação física. Brasília: MEC/SEF, 1998. 114 p. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/fisica.pdf. Acesso em: 5 jan. 2020. CASAGRANDE, C. G. Ensino e aprendizagem dos esportes coletivos: análise dos métodos de ensino na cidade de Uberlândia-MG. Orientador: Luiz Antonio Silva Campos. 2012. 108 f. Dissertação (Mestrado em Educação Física, área de concentração “Esporte e Exercício”) – Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, 2012. Disponível em: http://bdtd.uftm.edu.br/handle/tede/93. Acesso em: 5 jan. 2020. COUTINHO, N. F.; SILVA, S. A. P. dos S. Conhecimento e aplicação de métodos de en- sino para os jogos esportivos coletivos na formação profissional em educação física. Movimento — Revista de Educação Física da UFRGS, Porto Alegre, v. 15, n. 1, p. 117–144, jan./mar. 2009. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/Movimento/article/view/2086. Acesso em: 5 jan. 2020. DAOLIO, J. Jogos esportivos coletivos: dos princípios operacionais aos gestos técnicos – modelo pendular a partir das ideias de Claude Bayer. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, Brasília, v. 10, n. 4, p. 99–104, out. 2002. Disponível em: https://portalrevistas. ucb.br/index.php/RBCM/article/view/478. Acesso em: 5 jan. 2020. FREIRE, J. B.; SCAGLIA, A. J. Educação como prática corporal. São Paulo: Scipione, 2003. 183 p. GALATTI, L. R.; PAES, R. R. Fundamentos da pedagogia do esporte no cenário escolar. Movimento & Percepção, Espírito Santo do Pinhal, v. 6, n. 9, p. 16–25, jul./dez. 2006. Dis- ponível em: http://ferramentas.unipinhal.edu.br/movimentoepercepcao/viewarticle. php?id=79&layout=abstract. Acesso em: 5 jan. 2020. GARGANTA, J. O treino da táctica e da estratégia nos jogos desportivos. In: GARGANTA, J. (ed.). Horizonte e órbitas no treino dos jogos desportivos. Porto: Faculdade de Desporto da U. Porto, 2000. p. 51–61. GARGANTA, J. Para uma teoria dos jogos desportivos coletivos. In: GRAÇA, A.; OLIVEIRA, J. (ed.). O ensino dos jogos coletivos. 2. ed. Porto: Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, 1998. p. 11–25. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989. 213 p. Processos pedagógicos nos esportes coletivos12 110 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicaçãodo material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. GRECO, P. J. Revisão da metodologia aplicada ao ensino-aprendizagem dos esportes coletivos. In: GRECO, P. J. (org). Iniciação esportiva universal 2: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: UFMG, 1998. p. 39–56. OLIVEIRA, D. A. Esportes coletivos como conteúdo nas aulas de educação física escolar. Orientador: Alessandro de Oliveira Silva. 2015. 22 f. Projeto de Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Física) – Faculdade de Ciências da Educação e Saúde, Centro Universitário de Brasília, 2015. Disponível em: Disponível em: https:// repositorio.uniceub.br/jspui/handle/235/7569. Acesso em: 5 jan. 2020. SCAGLIA, A. J.; REVERDITO, R. S.; GALATTI, L. Ambiente de jogo e ambiente de apren- dizagem no processo de ensino dos jogos esportivos coletivos: desafios no ensino e aprendizagem dos jogos esportivos coletivos. In: NASCIMENTO, J. V.; RAMOS, V.; TAVARES, F. (org.). Jogos desportivos: formação e investigação. Florianópolis: UDESC, 2013. p. 133–170. SELEÇÃO faz último treino no StubHub Center. Confederação Brasileira de Futebol, Rio de Janeiro, 1 jun. 2016. Disponível em: https://www.cbf.com.br/selecao-brasileira/ noticias/selecao-masculina/selecao-brasileira-faz-o-nono-treino-nos-eua. Acesso em: 5 jan. 2020. SILVA, T. A. F.; ROSE JUNIOR, D.; Iniciação nas modalidades esportivas coletivas: a im- portância da dimensão tática. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 4, n. 4, 2005. Disponível em: http://editorarevistas.mackenzie.br/index.php/remef/ article/view/1310. Acesso em: 5 jan. 2020. TEODORESCU, L. Problemas de teoria e metodologia nos jogos desportivos. Lisboa: Livros Horizonte, 1984. 224 p. (Colecção horizontes da cultura física, 9). Leitura recomendada TUBINO, M. J. G. Dimensões sociais do esporte. 3. ed. São Paulo: Cortez, 2011. 96 p. (Ques- tões da nossa época, 25). 13Processos pedagógicos nos esportes coletivos ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 112 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 3 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 2 V.1 | 2021 114 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Concepções analítico- -parcial, global, mista e construtivista do esporte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar as diferentes concepções do esporte. � Analisar as concepções do esporte por meio de suas formas de ex- pressões e intencionalidades. � Reconhecer o papel das concepções do esporte no processo de ensino-aprendizagem dos aspectos técnicos e táticos de uma modalidade. Introdução Pelo fato de exercer uma importante influência na sociedade, o esporte é um poderoso meio de expressão cultural e corporal, fazendo-se presente em todas as esferas da vida e apresentando concepções distintas — educacional, participativo, de rendimento ou formativo. Para cada uma dessas concepções, o esporte se molda e apresenta intenções diferentes buscando atingir os objetivos em prol dos alunos. Para atingir esses objetivos, os métodos de ensino que aprimorarão os aspectos técnicos e táticos do praticante são essenciais, o que exige o conhecimento do professor para sua escolha adequada. Neste capítulo, você identificará as diferentes concepções do es- porte, analisará as concepções do esporte por meio de suas formas de expressões e intencionalidades e reconhecerá o papel das concepções do esporte no processo de ensino-aprendizagem dos aspectos técnicos e táticos de uma modalidade. Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3115 Concepções de esporte Quando falamos de esporte, geralmente associamos algumas características inerentes, como as regras e a competição, no entanto, apesar de muitas vezes termos uma ideia fixa e padronizada dessa prática, ela apresenta algumas concepções bem distintas, as quais começaremos a ver a partir de agora. O Conselho Federal de Educação Física, por meio da Resolução nº 046/2002, propõe a seguinte definição sobre esse conceito: Esporte é uma atividade competitiva, institucionalizada, realizado conforme técnicas, habilidades e objetivos definidos pelas modalidades desportivas, determinado por regras preestabelecidas que lhe dá forma, significado e identidade, podendo, também, ser praticado com liberdade e finalidade lúdica estabelecida por seus praticantes, realizado em ambiente diferenciado, inclu- sive na natureza (jogos: da natureza, radicais, orientação, aventura e outros). Como podemos ver por essa resolução, apesar de apresentar características inerentes à prática, como a competição, as técnicas e as regras, o esporte será uma atividade também marcada pela liberdade e pela ludicidade que envolvem aqueles que a praticam, não sendo necessariamente realizado nos locais oficiais das práticas esportivas. Na seção III do Capítulo III da Constituição Federal do Brasil, promulgada em 1988, no tema “desporto” dispõe-se que o Estado tem o dever de fomentar práticas desportivas formais e não formais, concebendo duas formas diferentes de enxergar o esporte: a prática formal pode ser considerada aquela regula- mentada por normas nacionais e internacionais com as regras estabelecidas por suas federações e confederações; e a não formal teria por parte dos praticantes uma maior liberdade, com características de brincadeira e diversão. Para aprofundar mais essas concepções, a Lei nº 9.615/1998, também conhecida como Lei Pelé, foi mais específica quanto às concepções sobre o esporte, instituindo normas gerais e outras providências, tendo-se reconhe- cido a natureza e as finalidades do desporto a partir de qualquer uma das manifestações listadas a seguir. Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte2 116 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I As manifestações do esporte, segundo a Lei Pelé, são divididas em quatro grandes áreas: esporte-educacional, de participação, de rendimento e de formação � Esporte educacional: praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade e a hipercom- petitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desen- volvimento integral do indivíduo e a sua formação para o exercício da cidadania e a prática do lazer. Essa área está vinculada a outras três importantes, como a interação social, o desenvolvimento psicomotor e as atividades educativas. � Esporte de participação: dá-se de modo voluntário, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com o objetivo de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente. Essa forma de esporte é referenciada nos conceitos de ludicidade buscando o bem-estar dos partici- pantes e a diversão, ocorrendo nos tempos livres e em momentos de lazer. � Esporte de rendimento: praticado segundo normas gerais da Lei Pelé e as regras de prática desportiva, nacionais e internacionais, com a finalidade de obter resultados e integrar pessoas e comunidades do país e destas com as de outras nações. É mais seletivo, pois é praticado por reconhecidos talentos esportivos buscando o desempenho eficaz e a vitória. Segundo a Lei nº. 13.155/2015, o esporte de rendimento pode ser organizado e praticado de modo profissional (com contratos formais entre o atleta e a instituição esportiva) e não profissional (caso em que não existe contrato, mas permite-se o incentivo em forma de materiaise patrocínios). � Esporte de formação: caracteriza-se pelo fomento e pela aquisição inicial dos conhecimentos desportivos que garantam competência técnica na intervenção desportiva, com o objetivo de promover o aperfeiçoamento qualitativo e quantitativo da prática desportiva em termos recreativos, competitivos ou de alta competição. Trata-se de uma manifestação recente, tendo sido incluída no ano de 2015 pela Lei nº. 13.155, com o objetivo de formar novos praticantes para as mais variadas modalidades tanto em forma de lazer quanto a busca de atletas capazes de representar o país em futuras competições. 3Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3117 Apesar de considerarmos manifestações distintas de esporte, cabe ressaltar que elas se intermeiam em muitos momentos, pois a prática pode ser de formação e de rendimento ao mesmo tempo. Do mesmo modo, o esporte educacional pode ter características de todas as demais manifestações, afinal promove a participação e a interação social, além de ser formativo na busca de novos participantes e poder promover a competição como uma “simulação” ao rendimento. Assim, podemos compreender que o esporte é classificado pela característica que mais prevalece. Neste tópico, você conheceu diversas manifestações do esporte: na Consti- tuição Federal, é dividido em esporte formal e não formal, e a Lei Pelé trouxe novas formas de concepção, dividindo-o em educacional, de rendimento, de participação e de formação. Concepções de esporte: expressão e intencionalidade Neste tópico, apresentaremos as concepções de esporte a partir de suas formas de expressão de intenção, classificadas, como vimos no tópico anterior, em educacional, participação, rendimento e formação. Começaremos abordando o esporte educacional, que, segundo a Política Nacional do Esporte, se refere às práticas esportivas praticadas nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação buscando o desenvolvimento integral do indivíduo (BRASIL, 2005). Maia (2010, documento on-line) aponta que o principal objetivo do esporte educacional é “[...] a democratização do movimento, dando oportunidade a todos sem discriminação nenhuma, promovendo assim a inclusão através da participação e envolvimento do sujeito nessa ação que se faz através do esporte enquanto prática pedagógica com características educacionais que visa à cidadania e formação do indivíduo [...]”. Em consonância com essas ideias, Tubino (2001) sublinha que o esporte educacional deve evitar questões como seletividade, segregação e competição exacerbada, visando à cooperação e à solidariedade. Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte4 118 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A partir dessa premissa, ao trabalhar o esporte educacional, o professor de educação física precisa “[...] proporcionar aos alunos uma vivência em diferentes modalidades, deve levá-los a refletir de forma crítica não só sobre os problemas que envolve o esporte na sociedade, tais como drogas ilícitas, corrupção, violência, mas também sobre seus aspectos positivos, como a geração de empregos, o desenvolvimento de pesquisas cientificas, tanto no tocante a novas tecnologias, como na área médica [...]” (DARIDO; RANGEL, 2008, p. 180). No entanto, são necessários certos cuidados na apresentação do esporte na escola — Stelmastchuk e Rodrigues (2011) afirmam que há um grande equívoco no esporte educacional, pois muitos profissionais o veem como um ramo do esporte de rendimento com reprodução de competições em alto nível e de todas suas características. Nogueira (2014) afirma que essas duas vertentes têm propostas antagônicas e que, para que o esporte se tornar, de fato, educacional, deve apresentar aspec- tos próprios e princípios específicos distantes de processos de aprendizagem que valorizam mais o adestramento e menos a educação, mais a competição e menos a cooperação. O esporte educacional enfatizaria as: [...] possibilidades educativas do esporte voltadas sempre para uma perspec- tiva de formação que privilegie o homem e não o atleta, o cidadão, crítico participativo, emancipado, solidário, e não o homem máquina que corre sem saber para onde, que arremessa sem saber o que, que joga sem prazer, ou por uma noção de prazer que lhe é imposta (OLIVEIRA, 1996, p. 113 apud NOGUEIRA, 2014, p. 13). Ainda, aponta que uma das tarefas do esporte educacional consiste em se apresentar como uma referência crítica do esporte de rendimento, fazendo deste um instrumento de discussão para reconfigurá-lo. No entanto, isso não quer dizer que o esporte educacional descarte a for- mação de equipes, as questões técnicas e táticas ou valores como regras, disciplina e companheirismo; a diferença reside no fato de que no esporte educacional há o reconhecimento das modalidades esportivas como ma- nifestações culturais, fruto de inúmeras determinações e construídas nas complexidades e contradições presentes na vida em sociedade. Nesse sentido, o conceito educacional pontua como o esporte carrega consigo aspectos da totalidade, sendo a compreensão do esporte em sua totalidade o objetivo e o norte das ações do esporte educacional (NOGUEIRA, 2014). Essa totalidade seria utilizar o esporte com vistas à cidadania e como um dos elementos que promovem a cultura corporal do movimento. 5Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3119 O esporte de participação é aquele que ocorre no tempo livre, nas horas consideradas de lazer, “[...] em espaços não comprometidos com o tempo e fora de obrigações da vida diária, de modo geral, tem como propósitos a descontração, a diversão, o desenvolvimento pessoal e as relações entre as pessoas [...]” (STELMASTCHUK; RODRIGUES, 2011, p. 5). Essa concepção permite que haja uma maior liberdade ao praticante, sem qualquer forma de discriminação, visto que a própria participação se dá de maneira voluntária, constituindo um aspecto considerado importante para a democratização. Os autores referidos citam que o esporte de participação visa a equilibrar o quadro de desigualdade de oportunidades esportivas, que ocorre, por exemplo, no esporte de rendimento. Realizar atividades físicas sem pretensão de superar índices individuais para apenas sentir-se integrado ao meio ambiente; ser atraído para a prática de um esporte despojado de comparações atléticas; sentir-se satisfeito pela convivência com as pessoas; perceber a facilidade de acesso à prática das atividades físicas e esportivas oferecidas por uma estrutura de funciona- mento organizada com segurança para a integridade pessoal de todos; tornar possível a realização do convívio social e seu aproveitamento, decorrente do esporte; favorecer uma prática esportiva que elimine diferenças no sentido de democratizar o bem-estar [...] (ALMEIDA; GUTIERREZ, 2008, p. 1 apud MAIA, 2010, documento on-line). Tal ideia vai de acordo com a de Tubino (2001), que refere que essa con- cepção tem como objetivos o lúdico, o divertimento, o bem-estar social e as relações entre as pessoas, sem buscar êxitos maiores ou vitórias. Stelmastchuk e Rodrigues (2011) apontam que uma das formas do esporte de participação é vista a partir dos projetos públicos que buscam oferecer o esporte como forma de entretenimento e lazer para as mais diversas comuni- dades, principalmente aquelas em maiores situações de risco. Nesse caso, a prática esportiva evitaria a ociosidade, podendo evitar que a criança e o adolescente se envolvam em situações perigosas e/ou de delin- quências, por exemplo, a trabalhada em projetos sociais, como os brasileiros Programa de Esporte e Lazerda Cidade (PELC) e Projeto Segundo Tempo: o primeiro busca democratizar o lazer com o esporte recreativo funcionando a partir de núcleos; e o segundo atende crianças em áreas de vulnerabilidade social oferecendo oficinas esportivas no contraturno escolar. Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte6 120 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I O esporte de rendimento, também conhecido como esporte de performance, tem por objetivo formar novos atletas, gerando êxitos e vitórias, constituindo uma concepção regida por regras preestabelecidas por entidades organizadoras em dimensões universais. Uma de suas características refere-se à seletividade, pois é apenas praticado por talentos esportivos, ou seja, podemos afirmar que o esporte rendimento não é tão democrático como as duas modalidades já referidas neste tópico. Segundo Maia (2010, documento on-line), “[...] nessa tendência o esporte segue uma linha que quem o pratica são considerados os melhores, pois um dos objetivos é a vitória deixando de lado um caráter de democracia, onde quem quisesse praticar poderia praticar [...]”. E outra de suas características é a prática de exercícios programados e voltados com objetivos específicos e exclusivos para a competição na busca da vitória. Como exemplos de esporte de rendimento, temos os clubes das mais varia- das modalidades de futebol, voleibol, basquete, handebol, atletismo, etc., que preparam seus atletas para competir durante um calendário de competições. Essa concepção é a grande dominadora da mídia, com forte influência na sociedade e nos demais segmentos de esportes, tornando-os mercadorias. Como referido anteriormente, o esporte de rendimento influi bastante no esporte educacional, no entanto não deve ser trabalhado nas escolas, visto que pode trazer malefícios ao aluno na idade escolar, como o da especialização precoce, caracterizada como treinamentos de mais de 10 h semanais antes da puberdade (VOSER; NETO; VARGAS, 2007), além de competições. Entre os problemas dessa iniciação desportiva, segundo Kunz (1994), estão: � formação escolar deficiente, em virtude de uma grande exigência em acompanhar com êxito a carreira esportiva; � unilateralização de um desenvolvimento que deveria ser plural; � redução das participações em atividades, brincadeiras e jogos do mundo infantil, indispensáveis para o desenvolvimento da personalidade na infância; � alcance tanto da saúde física quanto da psíquica em um treinamento especializado precoce. Por fim, no ano de 2015, uma nova concepção de esporte foi proposta pelo governo brasileiro: o esporte de formação, que buscaria uma base para conhecimentos técnicos e táticos das mais variadas modalidades. 7Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3121 Por sua inclusão recente, o esporte de formação ainda apresenta poucos estudos na área da educação física, mas, de modo geral, procura promover, a partir de propostas do Estado, a prática e o aperfeiçoamento do atleta. Um dos projetos governamentais de destaque nesse caso compreende o projeto de política pública chamado Bolsa Atleta, cujo principal objetivo é formar atletas com potencial de representar o Brasil nas mais diversas mo- dalidades esportivas com financiamento público, ou seja, com patrocínio do governo. Apesar de haver categorias para atletas profissionais, aletas de base também recebem esse financiamento para poder financiar seus treinamentos. Conheça um pouco mais sobre o esporte de formação a partir do projeto Bolsa Atleta acessando o link a seguir. https://qrgo.page.link/DWMwT Neste tópico, conhecemos a finalidade de cada concepção do esporte e, a seguir, compreenderemos como se dá o processo ensino-aprendizagem dos aspectos técnicos e táticos a partir de cada uma delas. Processo ensino-aprendizagem dos aspectos técnicos e táticos de uma modalidade A partir de agora, abordaremos o processo de ensino-aprendizagem dos as- pectos técnicos e táticos de uma modalidade, discutindo sobre metodologias de ensino com enfoque nas metodologias construtivista, analítico-parcial, global e mista. Como vimos até aqui, o esporte apresenta algumas concepções com ca- racterísticas distintas, no entanto, cabe ressaltar, que todas as metodologias analisadas neste tópico se encaixam em qualquer uma dessas classes. Antes de começarmos a abordar essas metodologias, cabe explicar o que significa a palavra “método”, definida por Libâneo (2002 apud BORGES, 2010) como uma forma de o professor conduzir o seu aluno até o objetivo final, ou seja, trata-se da ação do professor em função da aprendizagem do aluno para Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte8 122 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I que este compreenda o conteúdo proposto. Para que isso ocorra, é necessário que, entre outros, se escolha a forma mais adequada. Klein (2016) aponta que, no âmbito esportivo, são duas as tendências principais — reprodutiva e construtivista, sendo a primeira a concepção mais tradicional, que prioriza as capacidades intelectuais e a formação do homem, ocorrendo, no esporte, a partir da repetição mecânica sem nenhuma ênfase na resolução de problemas. No entanto, Mesquita (2013) afirma que essa concepção vem sendo dura- mente criticada desde o fim do século 20, por não promover a participação e o envolvimento ativo dos participantes, dando origem à segunda tendência, a construtivista. Nesta, o praticante passa a ter um papel central ao ser con- siderado o construtor ativo das suas próprias aprendizagens, com valoriza- ção dos processos cognitivos, da tomada de decisão e da compreensão das situações-problema. Tal abordagem vincula o participante às decisões relacionadas ao processo de aprendizagem, nomeadamente de interpretação da sua atividade cognitiva e motora, comprometendo-o e responsabilizando-o pelas decisões/ações correntes nos cenários de aprendizagem e incentivando-o a aprender como um processo deliberadamente compreendido e assumido por ele (MESQUITA, 2013). Ainda, Mesquita (2013) aponta que muitos modelos prevalecentes na atua- lidade integram as ideias construtivistas, nas quais o praticante é responsável por sua aprendizagem e pela construção do seu conhecimento, como o Teaching Game for Understanding (TGFU), de origem entre a década de 1960 e 1970 com o objetivo de banir a perspectiva tecnicista do ensino do jogo. Sua ideia básica consiste no desenvolvimento das habilidades a partir dos problemas colocados pelo jogo, ou seja, a partir de sua compreensão tática, constituindo formas de jogo simplificadas, em que o aluno será estimulado a partir de seis fatores. 1. Forma de jogo — ideia da proposta de situação-problema. 2. Conceito de jogo — associação entre a forma de jogo adotada e a essência do esporte que será jogado. 3. Pensar estrategicamente — a busca de soluções para os problemas do jogo. 4. Tomada de decisão — o que fazer e como fazer. 5. Execução do movimento — na qual ocorre o desenvolvimento da habilidade. 6. Performance situada — na qual ocorre a aprendizagem com relevância ao conteúdo. 9Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3123 Além do TGFU, abordaremos mais três importantes metodologias: a ana- lítico -parcial, a global-funcional e a misto. O método analítico-parcial, basicamente centrado no ensino das habilidades técnicas a partir de exercícios e atividades por partes, surgiu, segundo Silva (2017, p. 17–18), nos esportes individuais “[...] no modo que o treinamento era voltado fora do contexto do jogo, e só após o domínio de cada fundamento o aluno passa para situações dejogo [...]”. Essa automatização do movimento se dá conforme a repetição dos exercícios. A proposta desse método tem por premissa que, para que o aluno consiga jogar bem, necessita ter uma base técnica a partir dos fundamentos técni- cos; desse modo, “[...] esta perspectiva pedagógica baseia-se em atividades fragmentadas e descontextualizadas, as quais priorizam o desenvolvimento do rigor técnico e estereotipado aplicado ao ato motor, independente das situações-problema do jogo [...]” (MENEZES et al., 2014 apud SILVA, 2017, p. 18). Como podemos ver, esse método visa a aperfeiçoar os detalhes do movimento buscando uma padronização. Podemos tomar como exemplo o ensino do esporte futebol. Ao optar por esse método, o professor, antes do jogo, ensinaria os fundamentos como passe, condução, drible e chute. Ao ensinar o passe, ele o faria por partes: posição do tronco, posição da perna do apoio, movimento da perna que realizará o passe, tipo de passes e posição da cabeça. A desvantagem desse método reside no fato de que, por se tratar de um ensino bastante perfeccionista, pode tornar a aula monótona, fazendo com que o aluno se desmotive na hora de realizar a tarefa. O segundo método que abordaremos é o método global funcional, que, segundo Greco (2001 apud BORGES, 2010), se caracteriza pelas diversas experiências de jogo, para uma melhor aprendizagem da técnica, ou seja, aprende-se a técnica e os demais elementos jogando. Costa (2003 apud SILVA, 2017) destaca que o método global proporciona ao aluno a aprendizagem por meio do próprio jogo, permitindo a vivência nas mais variadas formas desde o primeiro contato com o esporte. Silva (2017) aponta que, nesse método, o mais importante é a destreza motora do aluno, em que primeiro se trabalhará a jogada do esporte, depois os alunos desempenharão os fundamentos do jogo e, por fim, haverá uma correção dos fundamentos. Podemos dizer que a vantagem desse método reside na união dos fundamentos técnicos e táticos aliada à motivação da prática. E suas desvantagens seriam uma maior dificuldade para correções individuais, o que pode dificultar a evolução do aluno nos fundamentos, dificultando uma melhor aprendizagem. Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte10 gilia Destacar 124 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Valendo-se dos estudos de Greco (2001 apud BORGES, 2010), Borges (2010) afirma que, em comparação ao método analítico-parcial, o global-funcional apresenta maiores ganhos, pois o maior desejo do aluno é jogar, com maior motivação para a aprendizagem, além de melhores ganhos nas funções táticas. Como exemplo, podemos pensar em uma aula de voleibol, em que o pro- fessor divide os times de seis jogadores e os coloca em quadra para jogar. Ao final de um rally, ele sinalizará aos alunos o que houve de errado, tanto na técnica quanto na execução, na parte tática do jogo. Por fim, Borges (2010) aponta se tratar de um método muito utilizado na escola, porém, erroneamente, visto que muitos professores apenas largam a bola. Para que haja aprendizagem de fato, o professor necessita participar dando feedback aos alunos sobre erros e acertos. O terceiro método é o misto, eventualmente definido como uma síntese do global e do parcial, no qual, conforme Borges (2010), primeiro se trabalha a técnica de maneira separada e, depois de se atingir um nível adequado, parte-se para o jogo: O método misto é a junção dos métodos analítico-sintético e global-funcional. Este método possibilita a prática de exercícios isolados, bem como a iniciação ao jogo através das formas jogadas dos esportes coletivos. O método misto permite que o professor utilize dentro da mesma aula exercícios e jogos, inde- pendente da ordem ou da quantidade de atividades estabelecidas, mais jogos ou mais exercícios (COSTA, 2003, p. 7 apud BORGES, 2010, documento on-line). Nesse método, o professor pode promover correções tanto nos exercícios mais técnicos quanto ao dar feedback no jogo, sendo visto como o mais com- pleto entre os métodos de ensino-aprendizagem, já que contempla todos os elementos do jogo. Pensando em uma aula de basquete, na primeira parte o professor ensinaria os funda- mentos como passe, arremesso, drible, etc., e, na sequência, proporia o jogo no qual os alunos colocariam na prática o primeiro momento da aula. 11Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3125 Neste capítulo, você viu que o esporte no Brasil é um direito do cidadão segundo a Constituição Federal e que, pela Lei nº 9615/1998, foi apresentado a partir de quatro manifestações: educacional, participativa, de rendimento e formativa. O esporte educacional é aquele praticado nos sistemas de ensino e em formas assistemáticas de educação, evitando-se a seletividade e a hipercompetitividade de seus praticantes, com a finalidade de alcançar o desenvolvimento integral do indivíduo. O esporte de participação se dá de modo voluntário, compreendendo as modalidades desportivas praticadas com a finalidade de contribuir para a integração dos praticantes na plenitude da vida social, na promoção da saúde e educação e na preservação do meio ambiente. O esporte de rendimento é seletivo, já que é praticado por reconhecidos talentos esportivos buscando o desempenho eficaz e a vitória, e o esporte for- mativo se caracteriza pelo fomento e pela aquisição inicial dos conhecimentos desportivos que garantam competência técnica na intervenção desportiva, com o objetivo de promover o aperfeiçoamento qualitativo e quantitativo da prática desportiva em termos recreativos, competitivos ou de alta competição. Por fim, vimos que os modelos construtivistas são centrados na metodolo- gia ativa tendo papel central no processo de ensino-aprendizagem, além dos três principais métodos de ensino, o analítico-parcial (ensino de exercícios por partes), o global-funcional (a partir do jogo) e o misto (síntese dos dois métodos anteriores). BORGES, S. Metodologias de ensino dos esportes coletivos na iniciação esportiva escolar em atividades extracurriculares. 2010. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar.org/0ed 6/281409667e5fdab11c7379756eb3a9f3e3e0.pdf. Acesso em: 19 dez. 2019 BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. 1988. Disponível em: http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 19 dez. 2019 BRASIL. Lei nº 9.615, de 24 de março de 1998. Institui normas gerais sobre desporto e dá outras providências. 1998. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/ L9615consol.htm. Acesso em: 19 dez. 2019 BRASIL. Lei nº 13.155, de 4 de agosto de 2015. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13155.htm. Acesso em: 19 dez. 2019 Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte12 126 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I BRASIL. Ministério do Esporte. Política Nacional do Esporte. Brasília: Ministério do Es- porte, 2005. Disponível em: http://www.esporte.gov.br/arquivos/politicaNacional/ politicaNacionalCompleto.pdf. Acesso em: 19 dez. 2019. CONFEF. Resolução nº 046/2002. Dispõe sobre a Intervenção do Profissional de Educação Física e respectivas competências e define os seus campos de atuação profissional. 2002. Disponível em: www.confef.org.br. Acesso em: 19 dez. 2019. DARIDO, S. C.; RANGEL, I. C. A. Educação física na escola: implicações para a prática pedagógica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2008. KLEIN. R. Metodologia do ensino na formação esportiva na escola. 2016. Trabalho de Conclusão de Curso (Especialização em Educação Física Escola) — Centro de Edu- cação Física e Desportos, Universidade Federal de Santa Maria, 2016. Disponível em: https://repositorio.ufsm.br/bitstream/handle/1/3134/Klein_Rafael_Rodrigo. pdf?sequence=1&isAllowed=y.de competição; teremos o preparador físico, que dará condicionamento para que o atleta consiga realizar as suas atividades específicas; teremos o professor de ballet, que ensinará os princípios e as técnicas-base para os movimentos Esporte4 14 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I gímnicos; e, ainda, teremos o fisioterapeuta, que tratará das lesões, assim como da prevenção de lesões desses atletas. Logo mais, veremos como o esporte e a educação aliados podem ser uma plataforma para modificar a forma como é enxergada a inclusão nas escolas. Fica aqui algumas curiosidades sobre o esporte, segundo Tubino (2010): 1. O esporte, aceito atualmente como um dos fenômenos socioculturais e políticos mais importantes nesta transição de séculos, não pode ser explicado por percepções de seus momentos históricos. Ele só pode ser compreendido se o situarmos num processo com interatuações culturais e contextuais, variando a cada novo momento histórico. 2. As lógicas do esporte têm uma variabilidade marcante praticamente desde a sua origem, recebendo diferentes sentidos nas civilizações antigas, nas primeiras manifestações esportivas pelos gregos, nos séculos de suas decadências (civilização romana, Idade Média e Renascença), depois quando se tornou esporte moderno e, finalmente, chegou ao esporte contemporâneo. 3. O esporte é uma das maiores manifestações culturais desde a Antiguidade. A história cultural do mundo passa pela história do esporte. 4. O conceito de esporte no Brasil está atualizado com a evolução conceitual do fenômeno sociocultural esportivo, ao aceitá-lo como direito de todas as pessoas, e com as formas de exercício desse direito (esporte educação, esporte lazer e esporte desempenho). Essa atualização ocorre, inclusive, em termos de legislação atual (Lei nº. 9.615/98) e também na Política Nacional do Esporte. 5. No Brasil, embora esteja coerente com o atual status conceitual internacional do esporte, nas suas gestões públicas, o esporte permanece sem ser considerado uma questão de estado. O Ministério do Esporte, talvez a própria cultura explique, continua tratando o esporte predominantemente como uma missão separada do Ministério do Esporte (TUBINO, 2010, p. 100). Esporte educacional e suas perspectivas O esporte educacional tem diversas perspectivas, tendo em vista que a sua importância tem grande magnitude, já que pode transformar indivíduos em cidadão que tenham valores que representem o bem comum da sociedade. 5Esporte Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 15 Assim, a sua diferenciação em relação ao esporte performance e ao esporte de participação é bem grande, pois, no esporte educação, é necessário que o professor tenha conhecimentos prévios sobre os regulamentos básicos, competências de aptidão física e habilidades motoras. Porém, diferentemente do esporte performance, o objetivo desse conheci- mento se diferencia pelo de que, enquanto o alto rendimento visa à competição e à vitória em cima de um adversário, no esporte educacional, o professor de educação física se utiliza desses conhecimentos como ferramenta educacional para que ele possa, por meio do esporte, desenvolver valores, tais como a ética, a disciplina, a integridade, a humildade, a cooperação e o respeito. Ou seja, as regras existentes dentro dos regulamentos das modalidades esportivas, no âmbito educacional, não servem somente para serem respeitadas, e sim para que se possa desenvolver um valor ético nos indivíduos em formação. Logo, o esporte educacional tende sempre a consagrar e a hipervalorizar a solidariedade, a integração e, sobretudo, a liberdade. Então, o esporte é aplicado na escola objetivando a educação e o conhecimento moral da criança. A complexidade do ato de educar nem sempre esteve presente na educa- ção física brasileira, passamos por períodos de muita dificuldade, em que a preocupação com a sistematização do ensino era maior, deixando de lado variáveis que poderiam ser acrescentadas para uma educação eficaz. Antes, a educação física se pretendeu em fases sombrias, como as fases higienista, militarista, biologista e físico-desportiva. Agora, Paes (2005) faz o questionamento para este novo século: quais são as perspectivas da educação física atual, além de tornar o Brasil em uma potência olímpica? Para que consigamos refletir sobre a resposta, é necessário lembrar que o esporte escolhe os tipos de indivíduos, infelizmente a partir de um paradigma reducionista: a prática esportiva se dá pela saúde (para sermos mais saudáveis) ou se dá para desenvolver músculos, ganhar forças, ganhar medalhas ou se tornar atleta olímpico. Apesar de sua relevância, essa visão reducionista faz com que se deixem de lado as possibilidades da maior parte das pessoas. Paes (2005) ainda afirma que pedagogia do esporte educa as crianças mais para a consecução de metas de treinamento preestabelecidas e menos para a autonomia, a descoberta e a compreensão de si mesmas, denunciando um desequilíbrio pedagógico entre o racional e o sensível. Portanto, é necessário discutir uma pedagogia do esporte na infância que rejeite o pensamento simplista — separando a parte de um todo, hierarquizando o conhecimento — e considerando o paradigma da complexidade. Esporte6 16 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Para explicar o que é complexidade, Araújo (2000, p. 14) esclarece: [...] de acordo com Morin, a complexidade é um fenômeno quantitativo, ou melhor, um fenômeno que possui uma quantidade extrema de interações e in- terferências estabelecidas entre um grande número de unidades. Compreende, porém, não só grandes quantidades de interações e unidades que desafiam nossas possibilidades de cálculo, mas também incertezas, indeterminações e fenômenos aleatórios. É dentro das características da teoria da complexidade que o esporte edu- cação deve ser implantado no sistema educacional brasileiro, a fim de que os processos educativos sejam aproveitados e que a criança possa desenvolver por meio do esporte todos os valores já comentados. Desafios da prática educativa por meio do esporte A escola assume um papel importante para que as crianças insiram em sua cultura o hábito pela prática esportiva. Toda escola que reconhece a impor- tância da educação física escolar investe em práticas que desenvolvam dentro de seu ambiente, valores que visam a democratizar, humanizar e socializar (SANTOS; VOSER, 2012). Os desafios que podem ser encontrados dentro do ambiente escolar como professor de educação física são aqueles vistos no cotidiano. E isso variará de turma para turma. Por isso, o professor precisa entender, por meio da corporeidade, que a criança tem características individuais, mas que, com a necessidade da socialização, ela também se defronta com situações que precisam ser intermediadas por meio de um responsável, e, no caso da escola, por um profissional. Então é necessário que estejamos cientes e preparados para todos os acon- tecimentos dentro do ambiente educacional, como receber alunos que tenham alguma doença física ou mental, limitando a sua funcionalidade, precisando modificar a tarefa para que ela alcance o mesmo objetivo proposto de maneira igualitária ao dos outros colegas. Esses desafios devem ser contornados por meio da comunicação entre os alunos, explicando-os que todos devem ter as mesmas oportunidades, mesmo que a estratégia seja diferente. Por exemplo, uma turma recebe um aluno surdo, que só consegue entender a linguagem de sinais ou leitura labial quando a pessoa fala claramente e pausadamente. A escola deve desenvolver jogos e brincadeiras que estimulem os alunos a aprender a linguagem de sinais, para que o aluno se sinta incluído, e a participar da vida de seu colega sem nenhuma distinção. 7Esporte Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 17 É necessário saber que o mundo da criança tem riquezas peculiares. É nessa fase que a implementação de valores se tornaAcesso em: 19 dez. 2019. KUNZ, L. As dimensões inumanas do esporte. Movimento, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 10–19, 1994. MAIA, M. Dimensões sociais do esporte: perspectivas trabalhadas nas escolas da cidade de Pau dos Ferros, RN. EFDeportes.com: Revista Digital, Buenos Aires, n. 144, 2010. Disponível em: https://www.efdeportes.com/efd144/dimensoes-sociais-do- -esporte-nas-escolas.htm. Acesso em: 19 dez. 2019 MESQUITA, I. Perspectiva construtivista de aprendizagem no ensino do jogo. In: NAS- CIMENTO, J.; RAMOS, V.; TAVARES, F. (org.). Jogos desportivos: formação e investigação. Florianópolis: UDESC, 2013. NOGUEIRA, Q. W. C. Esporte educacional: entre rendimento e participação. Revista Ma- ckenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 13, n. 1, 2014. Disponível em: http://edi- torarevistas.mackenzie.br/index.php/remef/article/view/3372. Acesso em: 19 dez. 2019. SILVA, T. R. P. Metodologia do ensino dos esportes: análise comparativa no processo de ensino do futsal em duas escolas do munícipio de Ijuí-RS. 2017. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em Educação Física) — Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, Ijuí, 2017. Disponível em: http://bibliodigital.unijui.edu. br:8080/xmlui/bitstream/handle/123456789/4713/Thairo%20Rafael%20Palharini%20 da%20Silva.pdf?sequence=1. Acesso em: 19 dez. 2019 STELMASTCHUK, S.; RODRIGUES, S. C. Esporte escolar x esporte rendimento. 2011. Dispo- nível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/pde/arquivos/1878-8.pdf. Acesso em: 19 dez. 2019. TUBINO, M. J. G. Dimensões sociais do esporte. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2001. VOSER, R. C.; NETO, F. X. V.; VARGAS, L. A. M. A criança submetida precocemente no esporte: benefícios e malefícios. [S. l.]: Futsal Brasil, 2007. 13Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Concepções Analítico-Parcial, Global, Mista e Construtivista do Esporte | PARTE 3 3127 Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Concepções analítico-parcial, global, mista e construtivista do esporte14 ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 128 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 4 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 2 V.1 | 2021 130 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Abordagem didático- -pedagógica do esporte Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Aplicar o conhecimento pedagógico no ensino do esporte. � Diferenciar os estilos de ensino em educação física e esporte. � Descrever as bases teórico-práticas do processo ensino-aprendizagem no esporte. Introdução A transposição da teoria para a prática na intervenção docente nem sempre representa uma tarefa simples e fácil (CLARO JR.; FIGUEIRAS, 2009): não se trata de, como nas histórias de ficção, após retirar o livro da prateira e ler algumas poucas palavras, mudar o cenário em um passe de mágica. Na prática, o processo de ensino-aprendizagem nas aulas de educação física escolar requer empenho do docente em conhecer as bases teórico-prática para realizar sua intervenção — tempo para planejar, traçar os objetivos, angariar os conteúdos, formular as estratégias para os previstos e imprevistos percalços, e, por fim, avaliar o percurso com a intenção de traçar novas rotas para recomeçar. Nesse contexto, o conhecimento pedagógico voltado ao ensino do esporte constitui o cerne da questão, aliado aos estilos de ensino, ferra- mentas de que o profissional pode lançar mão para adequar o “como” intervir. Não há um estilo de ensino “melhor” do que o outro, mas distintas possibilidades de intervenção que podem contribuir para a produção ou a mera reprodução de conhecimento, já que, com o conformismo, a intervenção docente acaba por moldar sujeitos “mais ou menos”. Espero que você, a partir do conhecimento da pedagogia do esporte, possa almejar formar sujeitos mais autônomos e menos dependentes. Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 131 Neste capítulo, você identificará a importância do conhecimento pedagógico aplicado no ensino do esporte e conhecerá os diferentes estilos de ensino e as bases teórico-prática inerentes ao processo de ensino-aprendizagem do esporte escolar. 1 Como e por que ensinar esporte na escola? O esporte está presente no nosso cotidiano em diferentes facetas: desde a mais tenra idade, os pais já ditam a cor da camisa do filho, futuro torcedor do seu time de coração, além de, no lazer, ser objeto de diversão na prática ou nas telas. Contudo, tornar-se seletivo para aqueles que trabalham no e pelo esporte, cenário em que a manifestação esportiva parece permear três dimensões: educacional, recreativa e profissional. Com isso em mente, qual seria o papel do esporte escolar? Repensar a importância do esporte na escola passa por entendê-lo como um elemento da cultura corporal de movimento (DARIDO, 2012) e que, como tal, sua implementação nas aulas de educação física está vinculada à complemen- tariedade a outras práticas corporais a fim de enriquecer o arcabouço teórico e motor do aluno (TAHARA; DARIDO, 2018). Partindo dessa premissa, há etapas que norteiam o processo de ensino-aprendizagem do esporte escolar. Na prática, a aprendizagem é um reflexo do ensino moldado por meio da sis- tematização do planejamento didático, perpassando os objetivos, os conteúdos e as estratégias de adequação do ensino até a avaliação da intervenção. Interessante notar que não há uma etapa mais importante do que a outra no que tange ao processo de ensino-aprendizagem, quesito no qual o profissional de educação física precisa ter em mente que a sinergia entre as etapas resultará na apropriação do conhecimento e afetará a formação do aluno. Dito isso, o objetivo desta leitura é leva você a refletir sobre a importância da aplicação do conhecimento pedagógico no ensino do esporte escolar, atentando-nos, inicialmente, ao primeiro passo nesse processo — o planejamento didático —, além de salientarmos sua relação entre o “como” e o “porquê” ensinar esporte na escola. A partir da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 17 de dezembro de 1996 (LDB nº. 9.394/1996), que promulgou a educação física como uma disciplina do currículo escolar, esta se muniu dos conhecimentos da pedagogia do esporte para planejar o ensino, a fim de ampliar o aprendizado dos alunos. Na teoria, foram formuladas estratégias que facilitariam a intervenção docente a fim de tornar o aluno ator do seu processo de ensino-aprendizagem, Abordagem didático-pedagógica do esporte2 132 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I no entanto não há como negar a influência das tendências pedagógicas desde o início do século XX até os nossos dias, admitindo, por sua vez, sua parcela de contribuição (ou de culpa) (DARIDO, 2012). De fato, a trajetória da educação física escolar teve percalços, e as aborda- gens pedagógicas constituíram os ângulos em que os docentes sustentaram sua intervenção na escola (DARIDO, 2012). Desde uma concepção mecanicista, esportivista e tradicional até uma abordagem desenvolvimentista, saúde reno- vada, crítica, pós-crítica e cultural permearam a formação de muitos docentes e delinearam os “porquês” e o “como” ensinar esporte nas aulas (DARIDO, 2012). No entanto, na tentativa de superar a perspectiva de que a abordagem pedagógica seria um enquadramentoda intervenção docente, ressaltaremos a importância do planejamento didático no processo de ensino-aprendizagem do esporte escolar. O planejamento didático compreende o período que antecede a intervenção do docente na aula. Para Claro Jr. e Figueiras (2009, p. 10), “[…] os profes- sores estão no centro do desenvolvimento e distribuição dos conhecimentos e competências entre os indivíduos que formam a sociedade [...]”. Requer organização a longo, médio e curto prazo no que tange a objetivos, conteúdos, estratégias de adequação a ser adotada e avaliação do ensino, tendo em vista o ano ou o semestre letivo, em que o professor elabora o plano de curso e, ao direcionar a atenção para o bimestre escolar, compõe o plano da unidade didática, fragmentada em uma única intervenção (plano de aula). Veja agora na prática um exemplo de fragmentação dos elementos do planejamento didático aplicado ao ensino do esporte escolar. De uma “visão macro a micro” do processo de ensino-aprendizagem, teríamos o seguinte cenário hipotético: Plano de curso (semestre) � Objetivo: aplicar os conhecimentos teórico-práticos das práticas corporais de aventura (PCA). � Conteúdo: práticas corporais de aventura na natureza e urbanas. � Estratégias: construção e adaptação dos materiais didáticos em conjunto com os alunos para vivência dos esportes de aventura. � Avaliação: participação nas atividades em aula, frequência nas aulas, trabalho em grupo e avaliações teóricas/escrita. 3Abordagem didático-pedagógica do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 133 Plano da unidade didática (bimestre) — 1º bimestre � Objetivo: apresentar os elementos históricos que moldaram a prática do esporte de aventura na natureza, bem como possibilitar vivência por meio da adaptação do esporte frente à realidade escolar. � Conteúdo: corrida de orientação. � Estratégias: ensinar os alunos a utilizarem a bússola e a se localizarem por ângulos de orientação, verificação do mapa, dinâmicas de trabalho em equipe, construção do material didático a ser utilizado na vivência do esporte, como bandeiras, faixas, mapa, etc. � Avaliação: participação na aula e trabalho em equipe. Plano da unidade didática (bimestre) — 2º bimestre � Objetivo: apresentar os elementos históricos que moldaram a prática do esporte de aventura urbana, bem como possibilitar vivência por meio da adaptação do esporte frente à realidade escolar. � Conteúdo: parkour e skate. � Estratégias: elencar com os alunos os locais da escola que possibilitariam a vivência do parkour. Verificar entre os alunos quais deles teriam um skate para emprestar para a turma vivenciar o esporte. Atividade fora da escola em parques e praças que contenham pista de skate. � Avaliação: participação nas aulas e criação de sequência de movimentos dentro da dinâmica do parkour e do skate. Plano de aula (uma única intervenção) � Objetivo: aprender os elementos que facilitam a localização geográfica na corrida de orientação. � Conteúdo: manusear a bússola e aprender a interpretar diferentes tipos de mapas da corrida de orientação. � Estratégias: construir mapas com os alunos que serão utilizados pelas outras equipes durante as aulas de corrida de orientação. � Avaliação: participação nas aulas e trabalho em grupo. Apresentação do mapa com as coordenadas. É justamente nessa fase do planejamento didático, sobretudo no plano de curso (letivo ou semestral), que o professor é convidado a selecionar quais conteúdos serão aplicados em qual período dando sequência a determinado objetivo específico da aprendizagem. Outro elemento importante nesse pro- cesso consiste na adequação do tempo destinado ao trabalho de cada conteúdo. Dúvidas pertinentes que contornam tal procedimento estão atreladas à es- pecificidade do conteúdo: quanto aprofundar na temática? Ensinar esporte coletivo ou individual? Tradicional ou não convencional? Abordagem didático-pedagógica do esporte4 134 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Imerso nesses questionamentos, uma saída para o docente é, ao planejar sua intervenção, organizar as aulas tendo como base os estilos de ensino, uma importante ferramenta capaz de contribuir para a formação de um aluno autônomo e independente, conforme veremos a seguir. 2 Esporte escolar: inter-relação entre os estilos de ensino e os canais de desenvolvimento da aprendizagem Repensando o papel da educação física escolar, é interessante observarmos que a disciplina ainda em nossos dias é confundida com um dos seus conteúdos (ANVERSA et al., 2018). E, sendo o esporte um conteúdo constantemente requisitado por uma grande parcela dos alunos, convido-lhe, caro(a) leitor(a), a refletir a respeito de “como” os especialistas da área pensam sobre como ensinar o esporte e como de fato o fazem. Para Reverdito, Scaglia e Paes (2009, p. 602), há uma “[...] distância exorbitante entre o que os professores de esportes acreditam estar ensinando e como estão ensinando [...]”, âmbito justamente no qual se aloja a possibilidade de reconstruirmos a inter-relação entre “como” ensinar (estilos de ensino) e que tipo de sujeito almejamos formar (canais de desenvolvimento). Especificamente voltado para a área da educação física, o Spectrum dos Estilos de Ensino proposto pelo professor Muska Mosston na década de 1960 aspirou preencher a lacuna entre teoria e prática e estreitar os laços da relação professor-aluno (GOZZI; RUETE, 2006). Tudo começou com o inconformismo de Mosston, israelense naturalizado nos Estados Unidos, quanto à maneira de os professores da área se relacionarem com seus alunos, propondo uma teoria que consistia justamente em uma resposta a esse cenário: “[...] provocar alterações nas atitudes de ensinar e aprender [...]” (GOZZI; RUY, 2008, p. 361). Nesse sentido, de acordo com Gozzi e Ruete (2006), a Teoria dos Estilos de Ensino pressupõe que o processo de ensino-aprendizagem esteja ordenado em uma sequência de tomada de decisões, envolvendo os objetivos (alvo), os métodos (meios), a sequência de atividades para construir o conhecimento (estratégias), o nível de motivação e a identificação da turma com o conteúdo, e as diferentes formas de avaliação. Assim, uma vez ciente de que o Spectrum analisa a estrutura da tomada de decisões durante o processo de ensino e suas conexões com a aprendizagem (GOZZI; RUETE, 2006), entenderemos em maiores detalhes o diagrama proposto por Mosston. 5Abordagem didático-pedagógica do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 135 Para ele, há diferentes estilos de ensino, agrupados em atividades voltadas à reprodução ou à produção de conhecimento. Na Figura 1, você pode observar a sequência dos estilos de ensino de A-K e sua inter-relação com a reprodução, a descoberta e a produção de conhecimento. Você pode observar, na Figura 1, a sequência dos estilos de ensino de A-K e sua inter- -relação com a reprodução, a descoberta e a produção de conhecimento. Figura 1. Sequência de estilos de ensino representados por letras do alfabeto, tendo em vista atividades de reprodução (A-D), descoberta (E-F) e produção (G-K) de conhecimento. Fonte: Gozzi e Ruete (2006, p.118). Cada letra do alfabeto representa um estilo: � A — Comando. � B — Tarefa. � C — Recíproco. � D — Autochecagem. � E — Inclusão. � F — Descoberta guiada. � G — Solução de problemas (convergente). � H — Solução de problemas (divergente). � I — Individual. � J — Iniciado pelo aluno. � K — Autoensino. Uma vez identificados os tipos de etilos de ensino, vamos conhecer as características atreladas a cada um deles no que tange ao foco do ensino, à relação professor-aluno e aos canais de desenvolvimento mais acentuados com base nos achados de Gozzi e Ruete (2006) conforme o Quadro 1. Abordagem didático-pedagógica do esporte6 136METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Estilo de ensino Ensino Professor Aluno Canais de desenvol- vimento A Centrado no professor e no conteúdo Determina o conteúdo, o local, a ordem e o tempo das tarefas, descreve o exercício e informa sobre a qualidade da resposta Obedece, segue o que lhe é designado Emocional B Há a mudança de algumas decisões do professor para o aluno no decorrer da atividade Explica e demonstra a tarefa, mantendo a função de fazer a retroalimentação Escolhe a ordem das tarefas, o tempo de início e fim, a velocidade e o ritmo para a execução, a postura, o local e a vestimenta Emocional C Interação social em parceria Há o aluno executante e o aluno observador, e o professor sendo o observador de ambos Aprende a executar a tarefa e rece- ber retroali- mentação de seus compa- nheiros, além do professor Social, emocional e moral D Maior poder de decisão do aluno Planeja as atividades e, ao final, participa da retroalimentação coletiva O próprio aluno se autoavalia Emocional, cognitivo e moral Quadro 1. Estilo de ensino e sua relação com os canais de desenvolvimento e a relação professor-aluno. (Continua) 7Abordagem didático-pedagógica do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 137 Estilo de ensino Ensino Professor Aluno Canais de desenvol- vimento E Apresenta níveis de dificuldade, com a intenção de incluir todos os alunos na atividade, de acordo com as possibilida- des de cada um deles Explica a atividade e dá algumas opções de níveis de dificuldade ao aluno O aluno determina o nível de execução das tarefas Físico, emocional, cognitivo e moral F Relacio- namento particular professor- -aluno Elabora uma sequência de questões que tem por fim instigar o aluno a descobrir novos conceitos Descoberta de novos conceitos Emocional, cognitivo e moral G Proposição de um problema que terá uma única solução Professor ainda toma todas as decisões com foco em formular operações cognitivas Busca respostas e toma suas próprias decisões Físico, cognitivo e moral H Relaciona- mento dos aspectos motor e cognitivo Professor toma decisões sobre o(s) problema(s) a ser(em) solucionado(s) Aluno busca as soluções múltiplas e divergentes do problema e avalia as soluções encontradas Físico, social, cognitivo e moral Quadro 1. Estilo de ensino e sua relação com os canais de desenvolvimento e a relação professor-aluno. (Continua) (Continuação) Abordagem didático-pedagógica do esporte8 138 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de Gozzi e Ruete (2006). Estilo de ensino Ensino Professor Aluno Canais de desenvol- vimento I Individua- lização do programa de ensino baseado no conteúdo decidido pelo professor Planeja a área geral de conteúdo e deve estar disponível quando questionado Escolhe o tópico a ser aprendido do conteúdo, propõe problemas e cria soluções Físico, emocional, cognitivo e moral J Autonomia e independên- cia do aluno Cabe ao professor ouvir, observar e alertar sobre essas decisões, quando solicitado Aluno que conduz seu ensino e sua apren- dizagem *** K Autonomia e independên- cia do aluno Dispensa totalmente a presença do professor O aluno tomará todas as decisões em todas as fases do processo de ensino- -aprendi- zagem *** *** Não há avaliação das áreas do desenvolvimento, visto que este estilo de ensino é difícil de empregar no âmbito escolar pelo fato de não necessariamente pressupor a presença do professor em mediar o processo de ensino-aprendizagem. Quadro 1. Estilo de ensino e sua relação com os canais de desenvolvimento e a relação professor-aluno. (Continuação) 9Abordagem didático-pedagógica do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 139 Para Mosston, não há um estilo de ensino melhor do que o outro, uma vez que, em uma mesma intervenção, o profissional de educação física pode se valer de distintos estilos para contemplar a aprendizagem (GOZZI; RUETE, 2006). Além disso, outro ponto importante reside na inter-relação entre como ensinar (estilo de ensino) e as atitudes frente ao processo de ensino-aprendizagem evo- cadas nos alunos — em outras palavras, qual canal de desenvolvimento é mais estimulado ao adotar determinado estilo de ensino ou, mais especificamente, o que seriam os canais de desenvolvimento? Na prática, são aspectos acentu- ados no processo de tomada de decisão do professor e do aluno, em relação ao ensino-aprendizagem do esporte, manifestados nas seguintes dimensões: � física; � social; � emocional; � cognitivo; � moral; Na Figura 2, você pode identificar os canais de desenvolvimento mais trabalhados quando aplicados determinados estilos de ensino. Figura 2. Inter-relação entre estilos de ensino e os canais de desenvolvimento. Fonte: Adaptada de Gozzi e Ruete (2006). Abordagem didático-pedagógica do esporte10 140 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Há estilos de ensino mais adequados para determinada modalidade esportiva? Na prática, não. O que acontece é a maior frequência da aplicação de um ou mais estilos de ensino em uma modalidade esportiva específica. Por exemplo, no futebol, de acordo com Gozzi e Ruete (2006), os estilos de ensino por comando (A) e tarefa (B) são mais empregados, pois possibilitam ao professor controlar a turma durante a execução das tarefas, além dos resultados da intervenção a curto prazo. Com isso em mente, a escolha de um ou alguns estilos de ensino leva às seguintes indagações: qual o objetivo da aprendizagem? Qual o papel do aluno no processo de ensino-aprendizagem? A participação do aluno estará voltada para a reprodução, a descoberta ou a produção de novos conhecimentos? Tais questões balizarão o processo de ensino-aprendizagem do esporte na escola para a formação de um aluno “mais” autônomo e “menos” dependente, mas, na prática, tudo dependerá da intencionalidade da intervenção docente. 3 Processo de ensino-aprendizagem do esporte escolar Nosso objeto de estudo com esta leitura consiste no caminho em que os edu- cadores alicerçam suas intervenções no ambiente escolar, especificamente nas etapas que compõem o processo de ensino-aprendizagem voltado ao esporte escolar. Se, por um lado, a abordagem pedagógica é a roupagem que o profis- sional de educação física escolheu para atuar, as etapas do processo de ensino- -aprendizagem compreendem a bagagem teórico-prática de que o professor se valerá para moldar os saberes, a fim de priorizar a aprendizagem dos alunos. O processo de ensino-aprendizagem engloba as atitudes do mentor e do aprendiz. Na prática, o docente precisa estar atento às seguintes etapas: plane- jamento didático, objetivos, conteúdos, estratégias e avaliação. A partir dessa informação, e uma vez ciente de que a Base Curricular Comum (BRASIL, 2017) dita os conteúdos a serem abordados nas aulas de educação física escolar, a fim de contemplar ao menos em parte tal direcionamento curricular, cabe ao professor primeiro organizar o tempo que será destinado a cada conteúdo e os instrumentos que contribuirão para a vivência da prática corporal ao longo do ano letivo. 11Abordagem didático-pedagógica do esporte Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 141 O primeiro passo nessa jornada consiste na elaboração do planejamento didático, composto por: 1. plano de curso; 2. plano da unidade didático; 3. plano de aula. Tendo em vista o ano ou o semestre letivo, o professor: primeiro, elabora o plano de curso (intervenção a longo prazo); em um segundo momento, atento às atividades do bimestre ou até mesmo de um único mês, reconstrói as ativi- dades que serãoinseridas no plano da unidade didática (médio prazo); e, por último, realiza a fragmentação da unidade didática em uma única intervenção/ dia referente ao plano de aula (curto prazo). Interessante observarmos que em cada uma dessas fases o professor de educação física precisa ter em mente o objetivo geral e os objetivos específicos para cada intervenção. Em uma visão macro, o professor traça o objetivo geral para implementação da disciplina tendo como base uma abordagem pedagógica específica, ressaltando os estilos de ensino que poderão ser utilizados para efetivar o processo, em, uma visão micro, ele deve minuciosamente fragmentar o objetivo geral em pequenos passos a fim de elaborar objetivos específicos, que, ao longo do semestre, letivo contemplarão o alvo da aprendizagem. Já no que tange aos conteúdos, mesmo preestabelecidos por uma norma- tiva de âmbito nacional (BRASIL, 2017), cabe ao professor, defrontando-se com a realidade escolar, reconstruir sua intervenção moldando os conteúdos frente às suas possibilidades de adequação e atuação. E, sendo o esporte um importante elemento da cultura corporal de movimento (DARIDO, 2012), sua implementação nas aulas de educação física escolar deve ser repensada. Longe de se tratar de uma aula na qual o professor “rola a bola” restringindo-se a uma única modalidade esportiva ou às linhas da quadra, a prática esportiva em âmbito escolar deve ser reconstruída tendo como base a proposta curricular, somado à realidade escolar, aos anseios e às limitações dos alunos e repensando a aprendizagem tendo o aluno como ator do processo. Abordagem didático-pedagógica do esporte12 142 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I O primeiro passo nessa jornada consiste na elaboração do planejamento didático, composto por: 1. plano de curso; 2. plano da unidade didático; 3. plano de aula. Tendo em vista o ano ou o semestre letivo, o professor: primeiro, elabora o plano de curso (intervenção a longo prazo); em um segundo momento, atento às atividades do bimestre ou até mesmo de um único mês, reconstrói as ativi- dades que serão inseridas no plano da unidade didática (médio prazo); e, por último, realiza a fragmentação da unidade didática em uma única intervenção/ dia referente ao plano de aula (curto prazo). Interessante observarmos que em cada uma dessas fases o professor de educação física precisa ter em mente o objetivo geral e os objetivos específicos para cada intervenção. Em uma visão macro, o professor traça o objetivo geral para implementação da disciplina tendo como base uma abordagem pedagógica específica, ressaltando os estilos de ensino que poderão ser utilizados para efetivar o processo, em, uma visão micro, ele deve minuciosamente fragmentar o objetivo geral em pequenos passos a fim de elaborar objetivos específicos, que, ao longo do semestre, letivo contemplarão o alvo da aprendizagem. Já no que tange aos conteúdos, mesmo preestabelecidos por uma norma- tiva de âmbito nacional (BRASIL, 2017), cabe ao professor, defrontando-se com a realidade escolar, reconstruir sua intervenção moldando os conteúdos frente às suas possibilidades de adequação e atuação. E, sendo o esporte um importante elemento da cultura corporal de movimento (DARIDO, 2012), sua implementação nas aulas de educação física escolar deve ser repensada. Longe de se tratar de uma aula na qual o professor “rola a bola” restringindo-se a uma única modalidade esportiva ou às linhas da quadra, a prática esportiva em âmbito escolar deve ser reconstruída tendo como base a proposta curricular, somado à realidade escolar, aos anseios e às limitações dos alunos e repensando a aprendizagem tendo o aluno como ator do processo. Abordagem didático-pedagógica do esporte12 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 143 Para Darido (2012, documento on-line), os professores promovem a autono- mia dos alunos nas aulas quando oferecem a eles a possibilidade de realizar a: [...] escolha dos times; definição dos agrupamentos, distribuição pelo espaço; participação da construção e adequação de materiais; elaboração e modifi- cação das regras etc. Inclui -se, ainda, o espaço para discussão das melhores táticas, técnicas e estratégias. Em outras palavras, a autonomia é facilitada quando se estimula o aluno a participar das discussões e reflexões em aula. Tendo em vista a seleção dos conteúdos, há especificidades que o professor precisa se indagar, como ensinar esportes coletivos ou individuais, tradicionais ou não convencionais, manifestações esportivas urbanas ou na natureza e populares ou pouco conhecidas pelo público escolar. Confira no link a seguir uma reflexão sobre os conteúdos e a didática da educação física escolar. https://qrgo.page.link/8s5d4 Diante desse cenário, as estratégias para implementação do conteúdo precisam ser levadas em consideração, com o objetivo de propiciar não somente a aprendizagem do “saber fazer”, mas também a do “saber sobre”. Nesse quesito, o professor pode se valer de conhecimentos didático-pedagógicos que direcionarão sua intervenção a fim de que os alunos reproduzam ou produzam conhecimento, termômetro de atuação, que, em uma visão mais tradicional, perpassa a flexibilidade do professor-mediador, e, uma mais contemporânea, se vale até mesmo do autoensino, o qual dispensa a figura docente, o que refletirá na motivação para as aulas e na formação do aluno “mais” ou “menos” autônomo e independente (FIN et al., 2019). Nesse quesito, o conhecimento da Teoria dos Estilos de Ensino pode se tornar uma ferramenta útil para aparar as arestas e implementar o ensino de modo a permitir uma maior participação dos alunos no processo de ensino-aprendizagem (GOZZI; RUY, 2008). 13Abordagem didático-pedagógica do esporte 144 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Já a fase de avaliação, embora sem ter a pretensão de ser um ponto final, para Darido (2012), constitui a etapa na qual o docente pode analisar o percurso e traçar novas rotas. A avaliação do processo de ensino-aprendizagem voltado ao esporte escolar não deve se ater à métrica do rendimento, tampouco aos acertos e erros do gesto motor, mas, a partir de outras ferramentas, a uma possibilidade de enxergar a curvatura da apropriação do conhecimento teórico e prático da modalidade esportiva, elementos que englobam a participação nas aulas, trabalhos em equipe, frequência na disciplina, atividades escritas (avaliação teórica, desenhos, maquetes. etc.), ou físicas (circuitos, jogos, dinâmicas e apresentações, etc.). Confira no link a seguir mais detalhes sobre diferentes métodos de avaliação que podem ser aplicados no processo de ensino-aprendizagem nas aulas de educação física escolar. https://qrgo.page.link/rcSbx Nesse sentido, podemos concluir que o conhecimento pedagógico atrelado aos estilos de ensino representa um pilar de sustentação para o processo de ensino-aprendizagem. Especificamente voltado ao esporte escolar, o profissio- nal de educação física tem em mãos um grande desafio: ensinar manifestações esportivas não somente pela óptica da reprodução, mas da produção de novos conhecimentos, um encontro que, na prática, acontece na relação professor- -aluno, aluno-aluno, na reconstrução dos saberes por meio da vivência e nas adaptações da prática esportiva ao ambiente escolar. ANVERSA, A. L. B. et al. Formação continuada na implementação do esporte educa- cional na educação física escolar. Pensar a Prática, Goiânia, v. 21, n. 4, p. 845–853, 2018. BRASIL. Lei nº. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394. htm. Acesso em: 13 jan. 2020. Abordagem didático-pedagógica do esporte14 Processos Pedagógicos nos Esportes Coletivos | UNIDADE 2 Abordagem Didático-Pedagógica do Esporte | PARTE 4 145 BRASIL. Ministério da Educação. Base nacionalcomum curricular. Brasília: MEC, 2017. CLARO JR., R. S.; FIGUEIRAS, I. P. Dificuldades de gestão de aula de professores de Educação Física em início de carreira na escola. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 9–24, 2009. DARIDO, S. C. Diferentes concepções sobre o papel da Educação Física na escola. In: UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA. Caderno de formação: formação de professores didática geral. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2012. p. 1–176, v. 16. Disponível em: https://acervodigital.unesp.br/bitstream/123456789/41548/1/01d19t02.pdf. Acesso em: 13 jan. 2020. FIN, G. et al. Estilo interpessoal docente e desmotivação na Educação Física: validação das escalas no contexto brasileiro. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Brasília, v. 41, n. 4, p. 427–436, 2019. GOZZI, M.; RUY, M. P. Identificando estilos de ensino em aulas de Educação Física. Movimento & Percepção, Espírito Santo do Pinhal, v. 9, n. 13, p. 360–378, 2008. GOZZI, M. C. T.; RUETE, H. M. Identificando estilos de ensino em aulas de Educação Física em segmentos não escolares. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 117–134, 2006. REVERDITO, R. S.; SCAGLIA, A. J.; PAES, R. R. Pedagogia do esporte: panorama e análise conceitual das principais abordagens. Motriz, Rio Claro, v. 15, n. 3, p. 600–610, 2009. TAHARA, A. K.; DARIDO, S. C. Diagnóstico sobre a abordagem das práticas corporais de aventura em aulas de Educação Física escolar em Ilhéus/BA. Movimento, Porto Alegre, v. 24, n. 3, p. 973–986, 2018. Todos os links para sites da Web fornecidos neste livro foram testados, o que levou à comprovação de seu funcionamento no momento da publicação do material. No entanto, pelo fato de a rede ser extremamente dinâmica e suas páginas estarem constantemente mudando de local e conteúdo, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre a qualidade, a precisão ou a integralidade das informações referidas em tais links. 15Abordagem didático-pedagógica do esporte ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE Pedagogia do Futebol Prezado estudante, Estamos começando uma unidade desta disciplina. Os textos que a compõem foram organizados com cuidado e atenção, para que você tenha contato com um conteúdo completo e atualizado tanto quanto possível. Leia com dedicação, realize as atividades e tire suas dúvidas com os tutores. Dessa forma, você, com certeza, alcançará os objetivos propostos para essa disciplina. Objetivo Geral Identificar os procedimentos metodológicos para o ensino do futebol e do futsal. unidade 3 V.1 | 2021 148 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 1 Pedagogia do Futebol e do Futsal O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 3 V.1 | 2021 150 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Pedagogia do futebol e do futsal Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar as possibilidades pedagógicas do futebol e do futsal em diferentes contextos. � Discutir a pedagogia do esporte associada à prática dirigida do futebol e do futsal. � Descrever a metodologia de ensino-aprendizagem do futebol e do futsal em diferentes contextos. Introdução O futebol e o futsal são modalidades esportivas bastante populares e que vão além das quatro linhas. Isso quer dizer que, por meio desses esportes, há inúmeras possibilidades pedagógicas que o professor de educação física pode explorar, trazendo uma visão sobre essas modalidades em diferentes ambientes. Isso também não significa negar o jogo em si. Práticas dirigidas devem ser estimuladas, pois trazem muitos benefícios aos praticantes, desen- volvendo-os em diferentes campos. Para isso, é importante conhecer as metodologias para que se adequem aos alunos, tendo sucesso em seu objetivo. Neste capítulo, você vai identificar as possibilidades pedagógicas do futebol e do futsal em diferentes contextos, discutir a pedagogia do esporte associada à prática dirigida a essas modalidades e descrever a sua metodologia de ensino-aprendizagem em diferentes contextos. Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 151 1 Possibilidades pedagógicas do futebol e do futsal Praticadas pelos quatro cantos de país, por pessoas de todas as idades e classes sociais, as modalidades do futebol e do futsal são conteúdos potenciais para a educação física. Esses esportes têm grandes possibilidades pedagógicas nos mais variados contextos, como os campos educacional, de rendimento, participativo ou de formação. O futebol no Brasil começou a ser praticado no final do século XIX, ofi- cialmente. O retorno do jovem paulista Charles Muller ao país trouxe junto uma novidade: duas bolas de couro e as regras do esporte que já era popular na Grã-Bretanha para o solo nacional. Em pouco tempo, esse novo esporte desbancou, em popularidade, espor- tes como o remo e o turfe, que eram os preferidos na população brasileira. As próprias tentativas de delimitar o futebol como um esporte praticado apenas pela elite não surtiram efeito, sendo que rapidamente ele passou a ser jogado com muito afinco por pobres e negros, que começaram a organizar suas próprias ligas (FRANZINI, 2009). A chegada do futsal em solo nacional, na década de 30 do século seguinte, vindo do solo uruguaio, ajudou a propagar ainda mais a ideia de um esporte jogado com os pés que busca marcar gols na meta do adversário. O futsal deixou mais “simples” a prática, afinal, é um esporte com um menor número de jogadores (facilitando a formação de duas equipes) e também de um espaço mais acessível (tanto na dimensão da quadra quanto na busca pelo espaço) (VOSER, 2003). Essa popularidade de ambos os esportes começou a ser vista como uma grande possibilidade pedagógica a partir dos anos 50 e 60 com a inserção do método desportivo generalizado. Esse método foi criado na França e se espalhou para vários países, chegando ao Brasil. A ideia principal dessa proposta era difundir os esportes nas escolas. Quem se aproveitou da ideia desse método foram os governantes brasileiros do período da Ditadura Militar, que passou a incentivar a prática de esportes para dispersar o que ocorria politicamente e para desmobilizar manifestações. Aproveitando o título da Seleção Brasileira, no México, em 1970, o governo militar passou a investir no esporte na escola para formar futuros atletas. A ideia não era só formar jogadores de futebol (embora esse fosse o esporte principal das aulas), mas que o país se tornasse uma potência olímpica. Pedagogia do futebol e do futsal2 152 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I O período da Ditadura Militar no Brasil durou 21 anos (1964 a 1985), tendo cinco presidentes diferentes. Além da promoção do esporte, principalmente o futebol, esse período ficou marcado pela restrição à liberdade e repressão aos opositores do regime. Pode-se dizer que, nesse período, houve um grande crescimento da prática dessas modalidades a partir do estímulo do governo: técnicas dos jogos, formações táticas e competição, excluindo quem não tivesse capacidade (ROTTMANN, 2016). Silva e Campos (2014, documento on-line) apontam que: [...] assim, vinculou-se a ideia de que a sua prática pedagógica deveria ser realizada por meio de exercícios físicos, nas quadras das escolas, de maneira a garantir o desenvolvimento integral da criança no que tange às habilidades motoras básicas de cada faixa etária, o domínio cognitivo e o afetivo social. Embora não seja o foco da escola, a ideia de formação de atletas para o País não deixa de ser uma possibilidade pedagógica para esse jogo. Debates realizados nos anos 80 sob qual seria o foco das aulas de educação física vão propor mudanças significativas na visão sobre os esportes na escola. A partir disso, a mudança de foco sobre como o futebol e o futsaldeveriam ser utilizados como recursos pedagógicos vai provocar uma ruptura: deixa-se a busca de talentos para um instrumento que agregue valores estimulando a prática e a interação: Na aprendizagem do futebol, por exemplo, o ensino não deveria se restringir a passar, conduzir e chutar uma bola com proficiência e precisão. Além de destrezas e habilidades, para estes estudiosos, o ensino do futebol, e outros esportes, poderia estar vinculado ao desenvolvimento de valores como a solidariedade, tolerância, humildade, respeito, honestidade e amizade. Outro aspecto que ganhou força neste período foi a identificação do esporte, enquanto conteúdo curricular, como meio importante de socialização. Surgiam assim outras formas de ensinar elaboradas a partir de uma abordagem sociológica (ROTTMANN, 2016, p. 12-13). 3Pedagogia do futebol e do futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 153 Essa mudança de visão permite ao futebol e ao futsal atuarem como instrumentos que possibilitem o jovem de praticar um esporte não apenas desenvolvendo técnica, tática e questões físicas, mas também permitam a conquista de sua cidadania e autonomia, além da possibilidade de interação e cooperação com os demais colegas. Essa visão combate que o futebol e o futsal são apenas o “fazer por fazer”, ou simplesmente jogar. Silva e Campos (2014) apontam que esses esportes são a possibilidade pedagógica de ir além do ensino de história do jogo, técnicas e táticas, mas pode ser um grande propulsor de outros temas sociais ou mais específico da educação física, tais como: história dos grandes clubes brasileiros e dos clubes de bairro, aspectos fisiológicos que ocorrem durante um jogo, elementos culturais que envolvem um jogo, importância dos ídolos, demais membros de um time (como a comissão técnica), fair play, etc. Além disso, o jogo permite entrar mais a fundo em questões sociais bas- tante importantes, como: racismo, homofobia, prática do futebol e do futsal pelas classes sociais, questões de gênero envolvendo o futebol feminino e preconceitos existentes, homossexualidade, etc. No campo escolar, há a possi- bilidade de associar o futebol e o futsal com as demais disciplinas, explorando a interdisciplinaridade. Na área da matemática, pode-se trabalhar com estatísticas dos jogos, saldo de gols, etc.; na física, a velocidade de um chute; na geografia, as cidades dos clubes e onde ocorrem os jogos e, na língua portuguesa, as crônicas esportivas, etc. No campo formativo do futebol, Scaglia (1996) aponta que as escolinhas de futebol também têm inúmeras possibilidades pedagógicas além das técnicas e da busca por novos talentos. Segundo esse autor, o futebol nesse campo deve ser visto como um meio de ensino, primeiramente, e não apenas como um descobridor de promessas. Além disso, as competições e disputas devem ser vistas como algo peda- gógico, ou seja, ensinar que se deve aceitar a derrota como a vitória, tendo a postura adequada para cada momento do jogo. Também deve-se evitar a cobrança por resultados e possibilitar que o aluno toque o máximo de vezes na bola, evitando que fique deslocado da aula Pedagogia do futebol e do futsal4 154 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Scaglia (1996) ainda cita que esse esporte deve estimular a tomada de decisões não só dentro do campo ou da quadra, mas também fora dela, pois possibilita que os próprios alunos se auto-organizem, estimulando a construção de regras, por exemplo. Neste tópico, você conheceu as possibilidades pedagógicas do futebol e do futsal. Na sequência, veremos a pedagogia do esporte associada a essas modalidades. 2 Pedagogia do esporte associada à prática dirigida do futebol e do futsal Neste tópico, apresentaremos a pedagogia do esporte associada à prática dirigida no futebol e no futsal. Conhecer a pedagogia do esporte é essencial para o ensino dessas modalidades não só nas questões técnicas e táticas, mas também para a discussão de valores como fair play, respeito e saber ganhar e perder, como citamos anteriormente. Discutir a Pedagogia do Esporte é como associar uma busca de solução a problemas relacionados às diversas formas do ensino-aprendizagem nas aulas de Educação Física, isso significa abordar os conhecimentos partindo de uma investigação da sua origem e o que ela pode nos auxiliar, considerando o seu percurso. Por isso é importante entender e compreender sua função e dar um novo significado para verificar as necessidades e os problemas que acercam o processo ensino-aprendizagem na construção do conhecimento dos jogos de futsal. A Pedagogia nos permite analisar fundamentos e conhecer, ao mesmo tempo, experiência e procedimentos didáticos que são capazes de atingir um número maior de alunos na ação pedagógica (FREIRE, 2003 apud SOUZA; HONORATO, 2016, documento on-line). Em consonância com essa ideia, Scaglia (1999) refere que a pedagogia do esporte tem por objetivo buscar na sua essência o ensino do jogo e do esporte, de forma que todos possam jogar, respeitando as suas qualidades e seus defeitos, mas, principalmente, havendo a cooperação. Para se compreender a pedagogia do esporte, em relação tanto às teorias que a fundamentam quanto às que a adequam à prática, se faz necessário tomar consciência em que consiste o seu conceito desde o seu percurso histórico e o seu estado atual. 5Pedagogia do futebol e do futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 155 Dessa forma, se faz necessário que as práticas dirigidas tanto no futsal como no futebol tornem-se grande ferramenta de aprendizado para o aluno com conteúdos ricos e alternativas diversas, principalmente no período escolar e de formação, visto que no esporte de rendimento a seleção dos jogadores se torna algo natural. Sendo assim, Scaglia (1999) aponta que o ensino do futebol e do futsal não deve ser um processo repetitivo, no qual o professor demonstra e o aluno repete, mas sim fazer com que eles conheçam e: [...] tenham a possibilidade de vivenciar seus fundamentos técnicos de uma forma pela qual busquem em primeiro lugar a construção de seus próprios conhecimentos adquiridos, permitindo interagir com aquilo que o aluno já sabe, com o novo, propiciando e ampliando-se assim seus conhecimentos culturais e motores (SCAGLIA, 1999, p.61). Corroborando com essa ideia, Freire (2011) descreve que essas modalidades devem ser aprendidas e úteis para o aluno em seu dia a dia, possibilitando que todos vivenciem e participem das atividades propostas, tendo, dessa forma, a inclusão como um dos princípios básicos das práticas dirigidas. Outro dos princípios é que essas modalidades sirvam para o desenvolvimento de habili- dades físico-mentais, como: consciência corporal, coordenação, flexibilidade, ritmo, agilidade, equilíbrio, percepção espaço-temporal em uma atmosfera de descontração, dinamismo e ludicidade. O ensinar no futebol, não é uma simples transmissão de conhecimento ou imitações de gestos, onde o aluno seja apenas um receptor passivo, acrítico, inocente e indefeso de seus fundamentos técnicos. Ensinar futebol é uma prá- tica pedagógica, desenvolvida dentro de um processo de ensino-aprendizagem, que leve em conta o sujeito aluno, criando possibilidades para construir esse conhecimento, inserindo e fazendo interagir o que o aluno já sabe, com o novo, ampliando-se assim, sua bagagem cultural e motora (ASSIS; COLPAS, 2013, documento on-line). Freire (2011) aponta que como todos os demais esportes, o futebol e o futsal são necessários para o desenvolvimento das habilidades motoras e as habilidades específicas do jogo como finalização, passe, controle de bola, condução, desarme, lançamento, cruzamento, cabeceio e no caso dos goleiros, defesa e saltos. Pedagogia do futebol e do futsal6 156 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Sobre os fundamentos básicos a serem aprendidos e ensinados, Scaglia (1999)classifica-os em básicos, derivados e específicos. � Fundamentos básicos: passe, domínio de bola, condução, drible, chute, desarme e cabeceio. � Fundamentos derivados: cruzamento, cobrança de falta e pênalti, lançamentos e tabelinhas. � Fundamentos específicos: são as posições assumidas pelo jogador durante o jogo, como goleiro, zagueiros, laterais, meias e atacantes. Para que consiga atingir esses fundamentos, Freire (2011) aponta que o ensino-aprendizagem deve começar pelo contato com a bola. Esse contato se dá a partir de fundamentos simples, como condução e controle de bola, em que se possa conhecer o volume e a textura do objeto mais importante do jogo. Na sequência vêm as habilidades para interagir com o colega, como o passe, o drible e o desarme. Por fim, vêm todas as habilidades que foram citadas anteriormente, colocando-as em situação de jogo, ou seja, promovendo ações táticas em que o aluno crie memória para executar em outro momento. Scaglia (1999) defende que o ensino do futebol e do futsal deve ter funda- mentos, mas também envolvê-los em questões culturais, dessa forma, deve-se proporcionar ao atleta a aquisição de hábitos e condutas motoras e o entendi- mento do futebol como um fator cultural, criando sentimento de solidariedade, cooperação, autonomia e criatividade, valores éticos, sociais e morais, para que o aluno se torne um agente transformador do seu tempo, preocupado com uma cidadania que lhe permita viver bem, qualquer que seja o caminho do futebol por ele a seguir: o esporte como profissão ou como lazer (SCAGLIA, 1999 apud ASSIS; COLPAS, 2013). Dentro do campo educacional e de formação, ambos os, autores Scaglia (1999) e Freire (2011), apontam que os jogos populares, praticados na rua ou adaptados do futebol, são excelentes instrumentos de aprendizagem. Além disso, é uma idade para que o aluno vivencie e experimente todos os elementos do jogo, como jogar em todas as posições, como goleiro, na defesa, na armação ou no ataque. Com isso, o professor deve promover um rodízio para que todos passem por isso. A adaptação das regras, dando preferência a jogos em pequenos grupos, em que todos tenham a oportunidade de tocar na bola, é estimulante. 7Pedagogia do futebol e do futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 157 Para Freire (2011), alguns princípios devem ser seguidos para ensinar a jogar futebol e futsal: ensinar a todos; ensinar bem; ensinar mais do que futsal e futebol; e ensinar a gostar de futsal e futebol. No campo voltado ao rendimento, a busca pela excelência das capacidades físicas e habilidades motoras dá a tônica para o ensino. Paes e Oliveira (2005) classificam que nessa manifestação desportiva, os exercícios para futebol e o futsal podem ser definidos como gerais, específicos e competitivos. Os exercícios gerais estão relacionados com exercícios que se apoiam em ações que acontecem fora do ambiente da competição; os exercícios específicos se relacionam com características muito próximas da competição; e os exercí- cios competitivos são idênticos aos da competição, porém, nos treinamentos, eles são realizados com base nas regras da modalidade específica. Paes e Oliveira (2005) citam que, além desses exercícios que envolvem as questões técnicas, físicas e táticas, no futebol e no futsal como esporte de rendimento, outras questões são importantes, como a preparação psicoló- gica, a alimentação, o repouso, as questões sociais, etc., e, embora não sejam relacionados às práticas pedagógicas do futebol e do futsal, são fatores que precisam ser levados em conta na preparação do atleta. Ainda sobre o futebol e o futsal como esporte de rendimento, Garganta (2002) afirma que os treinamentos devem estimular a criatividade do atleta e a leitura de jogo buscando competências que transcendam a execução, centrando suas capacidades cognitivas nos princípios das ações que regem o jogo, como a comunicação entre os jogadores, a obtenção de aproveitamento de espaços vazios e a percepção antecipada das ações dos adversários. Outro fator que se deve dar maior ênfase nessa concepção é a necessidade de aperfeiçoamento e aprofundamento dos sistemas tático. Com isso, a parte tática precisa ser mais trabalhada, mostrando a variabilidade de sistemas existentes dentro de um próprio jogo, estimulando a criatividade junto ao pensamento tático do atleta. Neste tópico, tratamos sobre a pedagogia do esporte voltada à prática dirigida ao futebol e ao futsal. Na sequência, vamos conhecer mais sobre as metodologias de ensino-aprendizagem para essas modalidades. Pedagogia do futebol e do futsal8 158 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I 3 Metodologia de ensino-aprendizagem do futebol e do futsal Neste último tópico, abordaremos a metodologia de ensino-aprendizagem do futebol e do futsal em diferentes contextos. Escolhemos para este tópico manter a linha do anterior, no qual apresentamos o período de primeiros contatos e iniciação ao jogo (desporto educacional e formação) e uma metodologia voltada mais ao profissional (desporto de rendimento). A metodologia é a forma como o professor vai conduzir o seu aluno até o objetivo final (LIBÂNEO apud BORGES, [2013?]). O método escolhido vai de acordo com as propostas do professor para que seja útil tanto para si quanto para o aluno. Nos primeiros contatos do discente com a prática esportiva, principalmente no campo educacional e nos primeiros anos de formação, como escolinhas, os métodos tradicionais são os mais utilizados. Dentre os métodos tradicionais mais utilizados, estão: analítico-parcial, global-funcional e misto. O método analítico-parcial tem como principal objetivo o ensino dos fun- damentos técnicos, tendo como principal forma de trabalho uma série de exercícios. Essa série vai ter uma sequência estruturada buscando que ele desenvolva o elemento do jogo do mais simples ao mais complexo. Em uma aula sobre drible, por exemplo, o professor iria propor uma sequência de ativi- dades sobre esse fundamento, corrigindo os erros e aprimorando as virtudes. A principal vantagem desse método é o desenvolvimento da técnica correta, possibilitando maior êxito na vivência e a correção é fácil de ser realizada. Suas desvantagens são: a demora para o exercício chegar no “todo”, visto que o movimento é treinado em separado, a aula se torna monótona e pouco atraente e não possibilita a satisfação do desejo de jogar (GRECO, 1998). Segundo Perfeito (2009), esse método ainda prevalece em muitas escolas e clubes brasileiros, amparado pela crença da necessidade do domínio total da técnica para ter sucesso no jogo. É evidente que uma técnica apurada se faz necessária, porém, segundo o autor, há métodos que também propiciam isso de uma forma mais dinâmica e motivadora para o aluno. O método global-funcional terá o princípio de que só se aprende o jogo jogando, sendo assim, a técnica e os demais elementos relacionado ao futebol e ao futsal serão aprendidos durante o jogo formal. Por esse método, a aula consiste em distribuir dois times para que joguem e, quando necessário, o professor faz as correções sobre a técnica, a tática e os demais elementos (PERFEITO, 2009). 9Pedagogia do futebol e do futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 159 Dentre as principais vantagens desse método está o prazer de jogar, a aprendizagem de todos os elementos desde o começo e a simplificação da organização da aula. No entanto, por receber inúmeras informações, a criança pode não assimilar todas e o tempo para correções pode ser pouco, criando vícios equivocados no praticante (GRECO, 1998). Valendo-se dos estudos de Greco (2001), Borges ([2013?]) afirma, em com- paração ao método analítico-parcial, que o método global-funcional apresenta maiores ganhos, pois o maior desejo do aluno é jogar, tendo maior motivação para a aprendizagem, além de melhores ganhos nas funçõestáticas. O método misto pode ser definido como uma união entre os dois métodos recentemente apresentados. Dessa forma, o professor iria trabalhar primei- ramente os fundamentos do futebol e do futsal (condução, domínio, chute, drible, passe, etc.) para, após atingir um nível adequado, haver o jogo como sugere o método global-funcional (COSTA, 2003 apud BORGES, [2013?]). Esse método permite que o professor utilize na mesma aula os exercícios e o jogo, independentemente de ordem ou quantidade estabelecidas, sendo possível o professor tanto realizar correções nos exercícios mais técnicos quanto dar o feedback no jogo. A metodologia mista é considerada a mais completa das tradicionais (COSTA, 2003 apud BORGES, [2013?]). Além dos métodos tradicionais, Garganta (2002) apresenta dois métodos chamados de contemporâneos, mais utilizados nas escolinhas, nas categorias de base e nos clubes profissionais de futebol e futsal. Esses modelos são considerados sistêmicos e visam às capacidades cognitivas como elementos- -chave da aprendizagem, buscando, sobretudo, desenvolver a inteligência do praticante durante o jogo. Como exemplo, temos os jogos condicionados e o método situacional. O método de jogos condicionados é centrado na ideia da cooperação e da inteligência. Ele busca enfatizar o aprendizado da tática e da técnica con- comitantemente ao princípio de jogar para aprender, focando o processo de tomada de decisões (CASAGRANDE, 2012). Esse método também é chamado de jogos reduzidos, pois diminui o nú- mero de atletas praticantes e o espaço da prática e há maior flexibilidade das regras para que o jogo ocorra. Segundo Perfeito (2009), ele é dividido em seis etapas. Veja a seguir. Pedagogia do futebol e do futsal10 gilia Highlight gilia Highlight 160 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I � Eu-bola: desenvolver relação com a bola (domínio e controle). � Eu-bola-alvo: desenvolver a finalização. � Eu-bola-adversários: desenvolver as habilidades de condução de bola, drible/finta e procura pela finalização (1 × 1). � Eu-bola-colega-adversário: desenvolver as atividades de passe, tabela, contenção e cobertura defensiva (2 × 1 e 2 × 2). � Eu-bola-colegas-adversários: desenvolver as habilidades de criação e anulação das linhas de passe, penetração e apoio (3 × 1, 3 × 2 e 3 × 3). � Eu-bola-equipe-adversários: a partir da assimilação do 3 × 3, desen- volve-se a assimilação e a aplicação dos princípios do jogo, ofensivo e defensivos. O método situacional é composto basicamente de jogadas retiradas de situações típicas de jogo (GRECO, 1998). Nesse caso, se trabalharia, por exemplo, uma situação específica de ataque ou defesa, como a marcação ou o posicionamento na cobrança de um escanteio, marcar em determinada posição da bola, etc. Esse método aumenta de acordo com as exigências técnicas e táticas, podendo aumentar o número de jogadores ou o espaço do campo. Para Greco (1998), é um bom método para otimizar a aprendizagem, pois aciona meca- nismos de memória conforme as situações reais de jogo. Cabe ressaltar que, no nível profissional, o método de treino é decidido segundo o planejamento de uma comissão técnica, que vai trabalhar a escolha dos métodos conforme as características dos atletas, as situações que ocorrem nas partidas e também as características do adversário conforme cada partida. Ainda no futebol e no futsal de rendimento, há uma divisão bem clara dos períodos de treinamentos que vão envolver a escolha da metodologia. Esses períodos são conhecidos como pré-competitivo ou pré-temporada e período competitivo. O período de pré-temporada, antecessor do começo das competições, é o período em que se busca desenvolver as capacidades biomotoras dos atletas, como força, resistência e velocidade, buscando deixar em boas condições para as competições subsequentes. O período competitivo busca manter o condicionamento realizado na pré-temporada, dando reforços durante as com- petições – aqui, envolve-se outra metodologia conforme os objetivos da equipe. 11Pedagogia do futebol e do futsal gilia Highlight Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Pedagogia do Futebol e do Futsal | PARTE 1 161 Acesse o link a seguir e conheça um pouco mais sobre a fase de pré-temporada. https://qrgo.page.link/Rx8x3 Neste capítulo, você viu que no período da Ditadura Militar no Brasil, o futebol se massificou buscando novos atletas. Na sequência, deixa-se a busca de talentos para um instrumento que agregue valores estimulando a prática e a interação e desenvolvendo valores. Sendo assim, a partir do futebol e do futsal, há inúmeras possibilidades pedagógicas, como aspectos fisiológicos que ocorrem durante um jogo, elementos culturais que envolvem um jogo, importância dos ídolos, etc., além de questões sociais bastante importantes, como: racismo, homofobia, prática do futebol e do futsal pelas classes sociais, questões de gênero envolvendo o futebol feminino e preconceitos existentes, homossexualidade, etc. Vimos também que a pedagogia do esporte tem por objetivo buscar na sua essência o ensino do jogo e do esporte, de forma que todos possam jogar, respeitando as suas qualidades e seus defeitos, mas, principalmente, havendo a cooperação. Dessa forma, se faz necessário que as práticas dirigidas tanto no futsal como no futebol tornem-se uma grande ferramenta de aprendizado para o aluno, com conteúdos ricos e alternativas diversas, desenvolvendo habilidades motoras e específicas do jogo, sendo que o ensino-aprendizagem deve começar pelo contato com a bola. Por fim, vimos que nos primeiros contatos do aluno com a prática esportiva, principalmente no campo educacional e nos primeiros anos de formação, como escolinhas, os métodos tradicionais são os mais utilizados. Dentre os métodos tradicionais mais utilizados, estão: analítico-parcial, global-funcional e misto. Ainda há dois métodos chamados de contemporâneos (jogos condicionados e método situacional), mais utilizado nas escolinhas, nas categorias de base e nos clubes profissionais de futebol e futsal, por serem sistêmicos e visarem às capacidades cognitivas como elementos-chave da aprendizagem, buscando, sobretudo, desenvolver a inteligência do praticante durante o jogo. Pedagogia do futebol e do futsal12 162 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I ASSIS, J. V. de; COLPAS, R. D. A pedagogia esportiva e o ensino do futebol na escola. EFdeportes.com, v. 18, n. 185, 2013. Disponível em: https://www.efdeportes.com/ efd185/a-pedagogia-esportiva-e-o-futebol.htm. Acesso em: 22 jan. 2020. BORGES, S. L. Metodologias de ensino dos esportes coletivos na iniciação esportiva escolar em atividades extracurriculares. [S. l., 2013?]. Disponível em: https://pdfs.semanticscholar. org/0ed6/281409667e5fdab11c7379756eb3a9f3e3e0.pdf. Acesso em: 22 jan. 2020. CASAGRANDE, C. G. Ensino e aprendizagem dos esportes coletivos: análise dos métodos de ensino na cidade de Uberlândia-MG. 2012. Dissertação (Mestrado em Educação Física)- Universidade Federal do Triângulo Mineiro, Uberaba, 2012. Disponível em: http://bdtd.uftm.edu.br/bitstream/tede/93/1/dissertacao%20descritores%20Cleber. pdf. Acesso em: 22 jan. 2020. GRECO, P. Revisão da metodologia aplicada ao ensino-aprendizagem dos esportes coletivos. In: GRECO, P. (org.). Iniciação esportiva universal 2: metodologia da iniciação esportiva na escola e no clube. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1998. p. 39–56. FRANZINI, F. A futura paixão nacional: chega o futebol. In: DEL PRIORE, M.; MELO, V. A. de (org.). 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. SCAGLIA, A. J. O futebol que se aprende e o futebol que se ensina. 1999. Dissertação (Mestrado em Educação Física) - Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 1999. Disponível em: http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/275320/1/ Scaglia_AlcidesJose_M.pdf. Acesso em: 22 jan. 2020. SILVA, S.; CAMPOS, P. Futebol e a educação física na escola: possibilidades de uma re- lação educativa. Ciência e Cultura, v. 66, n. 2, p. 39–41, 2014. Disponível em: http:// cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0009-67252014000200015. Acesso em: 22 jan. 2020. SOUZA, L.; HONORATO, T. Pedagogia do esporte: ensino-aprendizagem do futsal para romper paradigmas na escola. Cadernos PDE, v.1, 2016. 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PREZADO ESTUDANTE Parte 2 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 3 V.1 | 2021 166 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Enumerar os aspectos relacionados à iniciação de crianças e adoles- centes no futebol e no futsal. � Descrever os procedimentos metodológicos para o ensino do futebol e do futsal para crianças e adolescentes. � Reconhecer a importância da iniciação esportiva no futebol e no futsal para o desenvolvimento global de crianças e adolescentes. Introdução Movimentar-se é algo intrínseco do universo infantil. As crianças aprendem brincando, e é justamente nessa fase da vida que os pequenos tomam gosto pelo esporte. De fato, a prática esportiva é considerada a principal manifestação de atividade física moderada a vigorosa entre crianças e adolescentes. A iniciação ao esporte está imersa nesse contexto. Dentre as modalidades esportivas coletivas, muitas crianças dão seus primeiros passos no futebol e no futsal. Influenciados pelos pais e fa- miliares, é em casa que, na grande maioria das vezes, ocorre o primeiro contato com o mundo da bola. A fim de ampliar tal horizonte, é possível percebermos que a iniciação ao esporte acontece de forma estruturada e não estruturada. Permeia instituições educacionais (educação básica e escolinha esportiva) a até as ruas, praças, parques e praias. Se do esporte os pequenos esperam diversão, a longo prazo, por meio da iniciação esportiva orientada por um profissional de Educação Física, eles rece- bem não somente formação física, mas também preparação para a vida. Respeito ao próximo e às regras do jogo são alicerces que delinearão sua trajetória no esporte. Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 167 Neste capítulo, você vai ver a importância da iniciação esportiva entre crianças e adolescentes. Além disso, você vai conhecer os métodos de ensino-aprendizagem especificamente voltados ao futebol e ao futsal, sua influência na formação moral e ética, bem como a inter-relação com a detecção de talentos para o esporte. 1 Importância da iniciação esportiva no futebol e no futsal Há um consenso na literatura científica de que a formação no esporte perpassa as fases de iniciação, desenvolvimento e especialização (PAOLI; SILVA; SOARES, 2008). Sob esse prisma, é durante a infância que muitas crianças dão seus primeiros passos no mundo da bola. É justamente nessa fase da vida, celeiro de talentos para alguns (CAVICHIOLLI et al., 2011), que o profissional de Educação Física precisa estar atento à linha tênue entre a iniciação esportiva e a especialização precoce. Diante desse desafio, como ensinar esportes para as crianças sem desen- cadear na restrita formação de atletas em miniatura? Quais os aspectos que o profissional de Educação Física precisa observar? Nosso ponto de partida está em entender os fatores extrínsecos (p. ex., família, mídia, escola, etc.) e intrínsecos (fases do crescimento e desenvolvimento humano e maturação biológica, etc.) que conduzem a criança ao mundo da bola. De fato, a iniciação esportiva entre crianças e adolescentes acontece de forma não estruturada e estruturada (COSTA et al., 2018). A característica central que irá permitir discernir tal implementação da iniciação ao futebol e futsal é a figura do profissional de Educação Física para orientar o aprendizado. Na prática, na grande maioria das vezes, são os pais e os familiares os principais incentivadores da participação dos pequenos nesses esportes (NOGUEIRA; SANTOS, 2018). Ambas as modalidades esportivas são culturalmente po- pulares em nosso país, e essa projeção do núcleo familiar almejando formar pequenos campeões perpassa o rendimento tanto desportivo quanto financeiro. Para que esse resultado possa ser alcançado a longo prazo, vejamos em maiores detalhes os elementos extrínsecos que balizam a iniciação ao esporte. Se por um lado, de forma não estruturada (sem orientação de uma profissional da área), a criança tem contato com os elementos fundamentais do futebol e futsal desde pequena em distintos ambientes, tais como em casa, na rua, nas quadras ou na praia, maciçamente influenciada pela mídia (COSTA et Crianças e adolescentes: iniciação esportiva2 168 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I al., 2018), por outro lado, quando adentra a educação básica por volta dos cinco a seis de idade, tanto na escola quanto no contraturno com a escolinha esportiva, há os primeiros passos visando à iniciação formal (estruturada) no esporte (Figura 1). Figura 1. A inter-relação entre os espaços formativos durante a iniciação esportiva de crianças e adolescentes. Fonte: Adaptada de Costa et al. (2018). Irmãos Primos e tios Amigos Iniciação esportiva não estruturada Iniciação esportiva estruturada Escolinha esportiva Educação básica Família Rua Escola Para Costa et al. (2018, p. 699), “[...] a rua parece assumir uma função importante na transição do ambiente da casa, do familiar para o público, como se fosse uma espécie de amenização do choque da estreia no espaço público”. Interessante notarmosque esse cenário é contundente no âmbito esportivo, principalmente quando as meninas tomam gosto pelo esporte (COSTA et al., 2018). Aliado a isso, a preocupação se volta para a adequação da atividade motora diante da faixa etária da criança e, por conseguinte, tal adequação remete aos elementos intrínsecos que delineiam a iniciação esportiva, tais como o desenvolvimento biológico e a fase maturacional. Há estudos científicos que salientam que a iniciação ao futsal, por exemplo, antes dos sete anos de idade, objetivando a competição, pode incorrer em maiores erros de execução do gesto motor, além de pressão por resultados por parte do técnico, especialização precoce na modalidade esportiva e, ainda, abandono do esporte (REIS; SILVA, 2012). Ao passo que, quando orientada desde cedo, a iniciação esportiva pode contribuir para a formação de talentos. 3Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 169 Nesses moldes, o profissional de Educação Física precisa adequar as ativi- dades esportivas diante da capacidade da criança de executar o gesto motor. Uma vez ciente que há fases da iniciação ao esporte (iniciação, 8 a 9 anos; aperfeiçoamento, 10 a 11 anos, e o treinamento, 12 a 13 anos) (RAMOS; NEVES, 2008), é pertinente o professor ter em mente que é justamente antes da puberdade que as crianças podem ampliar o arcabouço motor, a fim de se beneficiar durante a especialização no esporte. Alguns profissionais da área (MACHADO; BONFIM; COSTA, 2009) consideram que a matura- ção biológica seria de fato um sinal verde para a especialização no esporte. No entanto, essa fase que antecede o pico de velocidade de crescimento e puberdade não é justificativa para a iniciação e/ou especialização precoce, muito pelo contrário, os professores, cientes desse período de constantes alterações orgânicas no ser humano, podem otimizar ganhos de “matéria- -prima” que serão lapidadas na especialização (p. ex., ganho de força a partir do aumento da massa muscular; ganho de massa óssea a partir de atividades com impacto, tais como saltos, etc.). Falando em futsal, como não lembrar de Falcão, com a interação entre os fundamen- tos técnicos, a habilidade motora e o conhecimento tático em prática nas quadras? Na opinião de muitos, como esse atleta não há igual. Acesse o link a seguir e confira a trajetória de Falcão, mundialmente reconhecido como o rei do futsal. https://qrgo.page.link/VhwTJ Com isso mente, cabe salientar que as crianças aprendem brincando e para alcançar tal meta, ensinar esportes só ganha corpo quando respaldado pela ludicidade (SANTANA, 2004). Confira a seguir no Quadro 1 exemplos de atividades motoras voltadas ao ensino do futebol e do futsal separados pela faixa etária (GONÇALVES, 2019). Crianças e adolescentes: iniciação esportiva4 170 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de Gonçalves (2019). Faixa etária Atividades motoras 6 a 8 anos Nesta fase, as crianças devem ser estimuladas a desenvolver atividades que envolvam habilidades motoras que podem ser utilizadas em várias modalidades esportivas, haja vista o processo de especialização futuro, tais como correr, pular, andar, saltar e arremessar. A ludicidade é um aspecto primordial para que a criança possa tomar gosto pelo esporte. 9 a 11 anos Nesta fase, as atividades podem estar voltadas à fixação e ao desenvolvimento do esporte. Especificamente, podem ser implementadas atividades voltadas ao aprendizado dos fundamentos técnicos do futebol e do futsal, tais como lançamentos, passes, dribles, chutes e condução de bola. Cabe ressaltar que, nesta faixa etária, é importante a vivência de diferentes posições de jogo, a fim de evitar a especialização precoce e ampliar as experiências motoras. Acima dos 11 anos Nesta fase, pode ocorrer uma maior cobrança no que tange à eficiência da execução dos gestos técnicos, assim como elementos táticos já podem ser ensinados. A ideia é aliar maior intensidade das atividades com a complexidade, a fim de que gradativamente o jovem possa executar o gesto motor de forma automatizada e com criatividade, a fim conduzir a jogada. Quadro 1. Etapas e atividades motoras para a iniciação e desenvolvimento do futebol e do futsal entre crianças e adolescentes Sob essa ótica, e em concordância com Greco e Benda (1998), o profissional de Educação Física precisa estar atento durante todo o processo de formação esportiva, principalmente na fase universal que abrange desde os 6 até os 12 anos de idade, de modo que o foco nesse período esteja voltado ao desenvol- vimento, de maneira geral, das capacidades motoras e coordenativas, para que possa ser estimulado na criança e no adolescente uma base ampla e plural de habilidades motoras que irão sustentar o desenvolvimento e a especialização no esporte nos anos vindouros. 5Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 171 2 Métodos de ensino do futebol e do futsal No Brasil, considerado a “pátria das chuteiras”, as crianças são imersas desde cedo no mundo da bola. E numa trajetória recente, aquela prática esportiva das ruas e dos campos de várzea foram, em sua grande parcela, nos centros urbanos institucionalizados por meio das escolinhas esportivas (OLIVETE et al., 2015). O fato é que, como salienta alguns autores (PAOLI; SILVA, SOARES, 2008), não há mais tempo nem recursos financeiros para esperar que um talento esportivo seja formado e desponte em campo quase que na- turalmente. Nos dias de hoje, o trabalho começa desde cedo, mesmo tendo a prematuridade de seus riscos não somente físicos, mas também psicossociais. Na prática, conforme destaca Olivete et al. (2015), a grande maioria das escolinhas esportivas não tem uma metodologia organizada quando o assunto em pauta é o processo de ensino-aprendizagem do futebol e do futsal. O reper- tório de atividades durante as aulas de iniciação ao esporte, tanto no ambiente escolar quanto nas escolinhas esportivas, parece estar intimamente relacionado com a experiência prévia do técnico como ex-atleta (GREGÓRIO; SILVA, 2014). No entanto, não somente essa bagagem deve ser levada em consideração quando o que está em jogo é a formação do esportista. Almejando que dentre os bons jogadores possa despontar os talentos, a iniciação ao esporte precisa estar respaldada em métodos de ensino-aprendizagem com rigor científico, a fim de sustentar a intervenção. E mais do que isso, é necessário que sejam implementadas estratégias de ensino que possibilitem ao aprendiz, além de automatizar o gesto motor de forma segura e eficiente, desenvolver habilidades motoras que possam contribuir para a inteligência e a criatividade durante a partida (SILVA; GRECO, 2009). Com isso em mente, para Olivete et al. (2015, documento on-line): Uma escolinha sem princípios pedagógicos bem orientados poderá deixar sua metodologia de ensino à deriva, onde os procedimentos de ensino do esporte ficam à mercê do professor, gerando uma situação onde o mesmo aplicará a atividade que mais o convém. Na teoria, há três métodos de ensino-aprendizagem especificamente vol- tados ao ensino do futebol e do futsal, confira a seguir na Figura 2. Crianças e adolescentes: iniciação esportiva6 172 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Figura 2. Inter-relação entre os métodos de ensino-aprendizagem voltados ao futebol e ao futsal. Técnica Tática Modelo misto Modelo analítico-sintético Modelo situacional Quando o assunto em pauta é a iniciação esportiva entre crianças e ado- lescentes, são esses os métodos de ensino-aprendizagem que permeiam a dis- cussão tanto no campo das ideias quanto na prática formativa (GONÇALVES, 2019). Confira a seguir maiores detalhes no Quadro 2. Há um consenso de que o método analítico-sintético é mais indicado para a iniciação ao esportenecessária. Então, na prática, ao ministrarmos uma aula, é sempre importante evidenciar por meio das ativida- des propostas quais elementos estão sendo trabalhados no momento para que eles tenham a consciência e reconheçam a importância do objetivo colocado. Sempre promover eventos no calendário escolar, como festivais de prática esportiva, em que os pais possam estar presentes no processo de desenvolvi- mento do aluno, tendo uma participação mais ativa dentro dessas finalidades e o comprometendo para que ele possa dar continuidade a esses valores em casa. Ou seja, não é somente o professor que necessita ter a consciência da importância do seu trabalho, a criança precisa saber e os seus responsáveis também. Porém, a real situação é que nem mesmos os professores têm cons- ciência sobre a importância do seu papel como agente transformador na vida de uma criança. Portanto, o esporte dentro do contexto educacional ainda perpassa por conflitos em razão de sua missão. Assim, não esquecer que a visão reducionista a qual mecaniza as atividades em sala de aula e encurta as maiores possibili- dades dos alunos, bem como a não tomada de consciência do professor para atentar ao aluno e também os seus responsáveis sobre o papel fundamental da implementação de valores por meio do esporte, faz com que tenhamos um futuro brilhante no alcance dos nossos objetivos, dando um gás maior para que novas possibilidades educacionais por meio do esporte possam surgir e também novas perspectivas. No próximo objetivo, veremos como podemos desenvolver na escola ati- vidades que envolvam os esportes e o implemento de todos os seus valores. Diagnóstico nacional do esporte O Ministério do Esporte realiza uma pesquisa inédita sobre o esporte no Brasil. O trabalho envolve quatro pilares: praticantes, infraestrutura, legislação e investimentos. Na primeira publicação, foi apresentado o perfil do praticante de atividade física e esporte. O estudo aponta que 45,9% dos brasileiros não praticaram nenhuma atividade física ou esporte em 2013. Para saber mais e ver o vídeo do Ministério do Esporte, acesse: https://goo.gl/iLHa33 Esporte8 18 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Planejando atividades de esportes em ambiente escolar A vasta gama de esportes existentes nos abre um leque enorme de possibi- lidades e trabalhar com eles dentro do esporte educacional é uma grande oportunidade para que o professor consiga alcançar todos os objetivos de aprendizagem no que concerne aos valores educacionais, como a inclusão, o respeito e a diversidade. Primeiramente é necessário que, para o ensino de qualquer modalidade, o professor saiba todos os seus aspectos técnicos, as regras e quais valores podem ser empregados naquela determinada atividade. Depois, é necessário que se tenha consciência dos três domínios de aprendizagem: conceitual, procedi- mental e atitudinal, pois é dentro desses aspecto que serão desenvolvidas todas as atividades propostas, incluindo esportes que sejam poucos desenvolvidos ou que tenham mais evidência, fazendo com que o aluno amplie o seu leque de conhecimento sobre a cultura popular do país por meio da educação física. Podemos utilizar a corrida de orientação em dupla, por exemplo, para podermos desenvolver os nossos objetivos. No plano de aula, o objetivo deve ser descrito primeiramente e, logo após, as ações necessárias para o alcance da meta. Então, o objetivo da corrida de orientação é explorar o trabalho de cooperação entre os alunos. Deve ser explicado a eles, a nível conceitual, o que é uma corrida de orientação, logo em seguida, deve-se fazer com que eles tenham conhecimento de quais são as regras e o funcionamento adequado do esporte e, depois, quais valores devem ser aprendidos na lição e reforçar para que o trabalho em equipe e de cooperação seja claramente entendido. O jogo também se coloca fundamental dentro dessas relações, pois se constitui como fenômeno básico de uma célula esportiva do esporte, assim, o professor também pode trabalhar sob a mesma ótica, jogos e brincadeiras que remetam ao esporte, não somente valorizando a sua cultura local, mas também possibilitando conhecer outras culturas por essas atividades. A vida esportiva de um indivíduo perpassa por vários momentos que podem ser inicia- dos na escola ou em casa, dependendo se a família tem uma vida ativa ou não. Porém, digamos que o primeiro contato com o esporte seja na escola. O esporte educacional estará presente, fazendo com que a criança aprenda sobre valores e princípios, além 9Esporte Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 19 Classificação dos esportes de acordo com critérios A maneira efi caz para que o aluno possa conhecer uma gama de esportes é trabalha-los de acordo com a sua classifi cação. Segundo Gonzales (2004), os esportes têm uma classificação de acordo com os seguintes critérios: a) se existe ou não relação com companheiros e b) se existe ou não interação direta com o adversário. Com base nesses princípios, é possível classificar as modalidades em individuais ou coletivas, quando utilizado o critério relação com os companheiros, e com e sem interação direta com o adversário, quando o critério utilizado é a relação com o oponente. Assim, fica mais claro para o professor enxergar, pelas classificações, quais objetivos educacionais ele pode alcançar de acordo com a especificidade da modalidade e suas regras, podendo, inclusive, fazer uma adaptação à sua realidade a depender do tipo de espaço em que ele está inserido, da idade dos alunos, do objetivo, do tipo de alunos e da região onde ele se encontra, que podem ter regras e princípios peculiares. Por exemplo, o futebol indígena tem diferença para o futebol jogado com crianças de área urbana, ou então o futebol que costumam praticar na rua. Observe o Quadro 1 a seguir. de ser brindado com a cultura corporal presente em todos os elementos. Após, em seu círculo de amigos, ele tem contato com o esporte de participação, em que faz parte de uma equipe de ciclismo que faz passeios por todas as áreas da cidade e eventos de inclusão. O esporte performance entra em contato quando o indivíduo passa a treinar alguma modalidade coletiva ou individual, já antes vivenciada na escola, no esporte educação, e agora tem a grande chance de se aprimorar tecnicamente. Agora ele passa a competição com o intuito de alcançar a vitória. Para a maioria das pessoas, o esporte performance é somente presenciado como telespectador de grandes competições. Aqui no Brasil, o principal é o futebol. Esporte10 20 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de GONZALEZ (2004). Esporte Com interação com o adversário Sem interação com o adversário Coletivo Basquetebol Futebol Futsal Softbol Voleibol Acrosport Ginástica rítmica desportiva (grupo) Nado sincronizado Remo Individual Badminton Judô Paddle Peteca Tênis Atletismo (provas de campo) Ginástica olímpica Natação Quadro 1. Classificação dos esportes em função das características do ambiente físico onde se realiza a prática esportiva Portanto, podemos entender que o esporte é uma ferramenta fundamental para o desenvolvimento da criança, e a sua prática dentro de um ambiente esportivo é possível quando trabalhamos dentro da realidade de cada escola, cada aluno e cada contexto, mas podemos ter a ajuda por conta das classifica- ções, fazendo um combinado de ações a serem realizadas para que se alcance o objetivo proposto, não utilizando uma perspectiva reducionista, mas sim complexa, que é natural do ser, devido ao fato de ele ser social. Logo, o es- porte sempre apresenta novas formas de expressão, mas sempre com atenções voltadas ao aspecto social e é por meio do professor que se criam pontes para o desenvolvimento dessas ações. Kátia Rúbio, pesquisadora da Universidade de São Paulo, lançou recentemente um artigo intitulado A prática esportiva como ferramenta educacional: trabalhando valores e a resiliência,por estar voltado ao ensino de um fundamento técnico por vez em cada in- tervenção. Nesse sentido, o processo de ensino-aprendizagem do esporte se adequa à capacidade da criança de assimilar o conteúdo e executar o gesto motor. Desse modo, ensinar separadamente os fundamentos tanto do futebol quanto do futsal possibilita ao professor lapidar o gesto motor estando atento a possíveis erros de execução (GONÇALVES, 2019). Num segundo momento, para aqueles que de antemão foram instruídos aos fundamentos técnicos da modalidade esportiva, a implementação do modelo situacional pode tornar o processo de ensino-aprendizagem mais dinâmico, em outras palavras, mais próximo da realidade em campo ou nas quadras (GONÇALVES, 2019). Esse modelo é desenvolvido em sua grande maioria em minijogos, e possibilita, de fato, ao aprendiz compreender os sistemas táticos da modalidade esportiva. Todavia, o professor precisa estar atento para que durante a iniciação ao esporte não ocorram procedimentos que possam conduzir a especialização do jogador, por exemplo, em uma única posição durante o jogo. 7Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 173 Há casos que, mesmo a contragosto, os jovens são escalados para atuar em diferentes posições durante os treinos (OLIVETE et al., 2015). Ao pé da letra, durante a infância e a adolescência, haja vista a necessidade de um desenvolvimento plural das habilidades motoras e capacidades físicas, não há espaço para negociar exceções. A regra durante os treinos é desenvolver a coordenação e a lateralidade aliadas ao aprendizado e ao aprimoramento dos fundamentos técnicos e dos sistemas táticos. Há quem diga que o futsal é a escola de formação de grandes nomes do futebol. E de fato, a intensa movimentação na quadra, em que todos fazem tudo, possibilita ao esportista formar-se por completo nas diferentes posições durante o jogo. Interessante observarmos que, em uma aula baseada no modelo situacional no futebol, o jogador, dependendo da posição em campo, toca apenas algumas vezes na bola. Já no futsal, o contato é constante. Em virtude do rodízio na partida, a dinâmica é conduzir a bola e, de preferência, sem nunca se afastar muito dela. O iniciante no futsal que migra com o passar da carreira esportiva para o futebol traz na bagagem uma visão de jogo diferenciada. A agilidade e a velocidade, aliadas à técnica e à criatividade de jogo, são pedras preciosas que podem ser lapidadas desde já na iniciação ao esporte. Já no modelo misto, que, por sua vez, concilia elementos do modelo ana- lítico-sintético e situacional (GONÇALVES, 2019), os esportistas podem ser apresentados aos fundamentos técnicos e táticos de forma a polir o gesto motor já automatizado e otimizar a inteligência e a criatividade de jogo (SILVA; GRECO, 2009). No entanto, o único empecilho para esse sistema é o curto espaço de tempo da intervenção, fato que inviabiliza a correção dos erros de execução dos fundamentos quando o professor tem de gerir, por exemplo, um grande número de atletas. Agora, uma vez ciente de que há uma sequência ordenada de atividades motoras a serem desenvolvidas em cada faixa etária a fim de otimizar o desem- penho esportivo, quando uma dessas fases é simplesmente negligenciada ou até mesmo não é oportunizada, é possível identificar as oscilações no rendimento em detrimento, por exemplo, da iniciação tardia (COSTA et al., 2018). Crianças e adolescentes: iniciação esportiva8 174 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I As meninas no esporte, muitas vezes, convivem com o preconceito, a falta de estrutura e a formação precária. Acesse o link a seguir e confira mais detalhes no artigo intitulado A mulher na quadra: evidências contemporâneas do contato inicial com futsal. https://qrgo.page.link/onFHD A partir dos pressupostos dos métodos de ensino voltados ao futebol e ao futsal, confira a seguir exemplos de atividades que podem ser aplicadas a fim de otimizar o aprendizado dos fundamentos desses esportes em cada uma dessas vertentes. � Método analítico-sintético ■ Características: decomposição do gesto motor a fim de facilitar a aprendizagem de um fundamento técnico por atividade desenvolvida no treinamento físico. ■ Fundamento: passe. ■ Atividade: jogo da velha. ■ Exemplo: durante essa atividade, os jogadores realizarão, em duplas, passes curtos, ora com o peito do pé, ora com o bico ou com o dorso. Além disso, após executar um número de passes determinado pelo professor, a criança irá se deslocar a fim de completar o jogo da velha. Nessa atividade especificamente, além de trabalhar o desen- volvimento do passe curto, há também um estímulo da capacidade cognitiva atrelada à tomada de decisão rápida para preencher o jogo da velha. � Método situacional ■ Características: situações reais de jogo aliadas ao desenvolvimento da técnica e da tática. ■ Fundamento: passe. ■ Atividade: bobinho. 9Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 175 ■ Exemplo: o professor irá dividir a turma em duas equipes, cujo obje- tivo central será realizar passes entre si. A cada 10 passes realizados na sequência, sem interceptação pela equipe adversária, a equipe que efetua os passes marca um ponto. Nesta atividade, a complexidade poderá ser inserida, por exemplo, a partir da diminuição no tempo de execução dos passes, ou até mesmo especificando quantos toques na bola a criança poderá executar para receber, dominar a bola e executar o passe. Além disso, o professor poderá especificar que tipo de passe deverá ser executado, se curto ou longo, com ou sem trajetória aérea ou até mesmo qual a parte do pé deverá preferencialmente tocar a bola (peito, dorso ou bico, etc.). � Método misto ■ Características: concilia o desenvolvimento técnico e tático. ■ Fundamento: passe ■ Atividade: minijogos ■ Exemplo: nos minijogos, ou também conhecidos como jogos re- duzidos, são desenvolvidos simultaneamente vários fundamentos técnicos aliados ao aprendizado e à implementação de sistemas táticos do futebol e futsal, a fim de, uma vez mantendo a posse de bola, transpor a equipe adversária para alcançar a meta. Somado a isso, vale a pena notar o seguinte: Por vezes é possível observar uma equipe atingir a vitória no jogo com me- nos posse de bola e com um único remate, simplesmente porque aproveitou o momento de desequilíbrio ou de perturbação na organização da equipe adversária (COSTA et al., 2018, documento on-line). Nesse sentido, podemos concluir que, durante a partida, os resultados estão atrelados não somente ao talento inato para o esporte, mas ao trabalho em equipe decorrente do modelo de ensino-aprendizagem implementado. Além disso, cabe destacar a importância das atividades motoras que possibilitem ampliar a inteligência e a criatividade de jogo, que poderá abrir espaço em campo e possibilidades. Veja o Quadro 2. Crianças e adolescentes: iniciação esportiva10 176 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de Gonçalves (2019). Método Objetivo Fase de desenvol- vimento motor Aspectos positivos Aspectos negativos Analí- tico-sin- tético Decompor o gesto motor a fim de possibilitar a aprendi- zagem de uma técnica em cada atividade desenvolvida durante os treinos Iniciação ao esporte (idade entre 9 e 11 anos) Possibilita correção do gesto motor, uma vez que o método é centrado no apren- dizado de uma habilidade motora por atividade. Trabalho restrito aos fundamentos da modalidade, fato que posterga o aprendizado tático, bem como o desenvolvimento da inteligência e da criativi- dade de jogo. Situa- cional Desenvolver competências táticas em decorrência restruturação da interven- ção tendo como base os minijogos Desenvol- vimento no esporte (idade acimados 11 anos) Modelo baseado em situações re- ais de jogo, fato que possibilita aprendizado técnico e tático. Em virtude da ênfase em ativida- des situacionais, pode ser prejudi- cada a correção dos fundamentos. Misto Desenvolver competências de cunho técnico e tático durante o treina- mento físico Especiali- zação no esporte Possibilita aliar o aprendi- zado dos fundamen- tos conjun- tamente a habilidades táticas, in- teligência e criatividade de jogo. Pouco tempo para implementação em uma sessão de treinamento físico e atividades que contemplem con- juntamente as ha- bilidades técnicas e táticas. Aliada a isso, está a imprevisibili- dade de execução de fundamentos es- pecíficos do esporte. Quadro 2. Características dos métodos de ensino-aprendizagem voltados ao futebol e ao futsal 11Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 177 3 Para além do esporte: dimensões formativas do futebol e do futsal durante a infância e a adolescência É com a seguinte perspectiva que iniciamos: Quem aprende futebol pode desenvolver um acervo de habilidades bastante diversificado, podendo aproveitar essas habilidades em muitos outros esportes. Além disso, poderá estar aprendendo a conviver em grupos, a construir regras, a discutir e até a discordar dessas regras, a mudá-las, com rica contribuição para seu desenvolvimento moral e social (FREIRE, 2006, p. 9). Nosso objeto de estudo com essa leitura se esvai para além da preparação física. Neste capítulo, abordaremos as dimensões formativas do futebol e do futsal tanto de caráter físico, quanto moral e social. É justamente durante a iniciação ao esporte que as crianças e os adolescentes podem ser conduzidos a uma formação integral, a fim de que, aprendendo regras, possam externalizar respeito, almejar vitórias e saber trabalhar em equipe com os tropeços das derrotas (SILVA, 2015). É interessante observamos que para grandes nomes do mundo da bola, tanto o futebol quanto o futsal foram uma escola de formação não somente esportiva, mas para a vida. Observe na Figura 3 a inter-relação entre as di- mensões formativas do esporte. Durante a infância, a iniciação esportiva deve estar voltada ao desenvol- vimento global das crianças e dos adolescentes. É a pluralidade das ativida- des motoras quando criança que será a chave para otimizar aprendizado e desempenho esportivo durante as fases de desenvolvimento e especialização no esporte (WALTRICK; REIS, 2016). Além disso, cabe destacar que o es- portista tira muito proveito desse arcabouço motor em situações estratégicas de jogo, salientando a importância de se praticar um ou mais esportes durante a iniciação. Crianças e adolescentes: iniciação esportiva12 178 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Figura 3. Dimensões formativas do futebol durante a infância e a adolescência. Fonte: Adaptada de Silva (2015). Social Físico Moral Cooperação Trabalho em equipe Respeito Responsabilidade Regras Autonomia Com isso em mente, a profissionalização em um esporte pode ser bene- ficiada pela base formativa advinda do futebol ou do futsal praticado desde pequeno. No vôlei, buscar com destreza a bola com os pés. No handebol, ter visão de jogo e agilidade nos passes. No basquetebol, apresentar mobilidade para rodízio de posições em quadra. E os benefícios são cessam por aí, o inverso também é verdadeiro. Há vários casos no mundo da bola, desde Zico, Romário e Rivelino, passando por Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo Fenômeno, Robinho, Cristiano Ronaldo, Messi e até Neymar, que despontaram sua performance em campo a partir da iniciação no futsal (BARROS JÚNIOR; ARAÚJO, 2018). 13Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 179 Objetivando a formação do esportista, o papel do educador é fundamental tendo em vista preparar a criança para a competição sob a ótica de superar a si próprio, empenhando-se para aperfeiçoar cada vez mais suas habilidades e destrezas. Nesse sentido, as situações durante uma partida podem ser esse estímulo que ajuda a criança a se aperfeiçoar. Nesse panorama, a participação em jogos contribui para a formação social dos pequenos, uma vez que tais relações permeiam a cooperação, o respeito ao próximo e as regras de jogo, além do senso de responsabilidade (ASSUNÇÃO, 2012 apud SILVA, 2015). Para os olhares atentos ao mundo da bola, futebol também é formação. Tanto a formação estratégica relacionada aos sistemas de jogo quanto a formação de caráter para atuar em sociedade perpassam os valores e as atitudes ensinados nos gramados. Confira no link a seguir o exemplo de um projeto esportivo que visa à formação dos jovens nas dimensões física, social e moral. https://qrgo.page.link/6RdNL Além disso, outro aspecto a ser considerado é o fato de que, quando imple- mentada a fim de respeitar as fases de crescimento e desenvolvimento humano, a iniciação segura e planejada ao futebol e ao futsal pode facilitar as etapas de detecção e seleção de talentos para o esporte (RAMOS et al., 2018). É claro que, quando o assunto em pauta é a iniciação ao esporte de forma estruturada, há uma dissociação no objetivo das instituições educacionais no que tange ao ensino do futebol e futsal. Na escola, para alguns pesquisadores da área da Educação Física, essa disciplina deve ensinar esportes com uma roupagem pedagógica, sem estar atrelado à métrica do rendimento e muito menos ob- jetivando produzir campeões (DARIDO, 2012). Por outro lado, o jovem que adentra a escolinha esportiva já está centrado a aprender especificamente uma modalidade, tendo em vista a especialização nos anos vindouros. Diante desse cenário, entre entraves e riscos de especialização precoce, estaremos ora a atuar num ou noutro ambiente formativo. Crianças e adolescentes: iniciação esportiva14 180 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A saída para esse dilema se resvala em dois aspectos. O primeiro deles é que, apesar de as aulas de Educação Física escolar não estarem voltadas ao ensino apenas dos esportes e muito menos focando em uma única modalidade esportiva, esta cumpre seu papel de acesso à pluralidade do movimento em distintas práticas corporais. Porém, pense no seguinte: se fossem implemen- tados projetos que contribuíssem para a detecção e seleção de crianças e adolescentes com interesse e habilidades para o desporto, isso facilitaria, e muito, a descoberta de novos talentos para o esporte (RAMOS et al., 2018). Aliado a isso, cabe salientar que quando bem estruturada pelo docente, o contato inicial com o futebol e o futsal em terreno escolar pode vir a ser um facilitador para a migração e a continuidade na modalidade em uma escolinha esportiva. É justamente nesse novo ambiente, dedicado especificamente ao futebol ou ao futsal, que o perigo da especialização precoce se aproxima da iniciação ao esporte. Essa prematuridade na modalidade também deve ser considerada quanto à posição desenvolvida nas quadras ou nos gramados. Ainda, cabe ao profissional de Educação Física planejar sua intervenção, seja na escola ou na escolinha esportiva, a fim de possibilitar uma pluralidade de atividades motoras que desenvolvam os alunos não apenas na dimensão física, mas também nas dimensões social e moral. Para Saldanha et al. (2018, documento on-line): [...] o treinador tem um importante papel, uma vez que possui a responsa- bilidade na formação do caráter do atleta. É ele quem deve dar o exemplo, contribuindo para o desenvolvimento moral, estimulando comportamentos positivos e minimizando, na medida do possível, os socialmente indesejáveis. Dessa forma, podemos concluir que, embora o esporte na infância seja benéfico aos pequenos, a iniciação no futebol e no futsal deve ser orientada, a fim de não incorrer na iniciação e/ou especialização precoce.E, apesar de o núcleo familiar ser o grande incentivador para a entrada das crianças e dos ado- lescentes nessas modalidades esportivas, é o profissional de Educação Física, nas escolas e escolinhas esportivas, o grande formador do jovem esportista. Em termos práticos, objetivando resultados a longo prazo, o professor precisa respaldar sua intervenção em procedimentos metodológicos com rigor científico, a fim de adequar as atividades físicas às fases de desenvolvimento motor das crianças e dos adolescentes. Nessa ótica, almejando a progressão no esporte, cabe destacar que não somente a preparação física deve ser observada. A dimensão formativa do futebol e do futsal atingem também a socialização 15Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 181 e a moralidade, fato que nos leva a admitir que sua postura enquanto docente irá contribuir para formar valores e atitudes nos jovens esportistas, por ora manifestados em campo, mas que certamente irão refletir na sociedade. BARROS JÚNIOR, E. S.; ARAÚJO, W. C. A importância do futsal na formação esportiva do jogador de futebol. Revista Diálogos em Saúde, v. 1, n. 2, p. 1–32, 2018. Disponível em: http://periodicos.iesp.edu.br/index.php/dialogosemsaude/article/view/205/182. Acesso em: 9 fev. 2020. CAVICHIOLLI, F. R. et al. O processo de formação do atleta de futsal e futebol: análise etnográfica. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, v. 25, n. 4, p. 631–647, 2011. Dis- ponível em: http://www.scielo.br/pdf/rbefe/v25n4/v25n4a08.pdf. Acesso em: 9 fev. 2020. COSTA, J. 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Pressupostos teóricos que orientam o trabalho prático dos trei- nadores de escolas de iniciação de futsal. Revista Brasileira de Futsal e Futebol, v. 7, n. 27, p. 467–473, 2015. Disponível em: http://www.rbff.com.br/index.php/rbff/article/ view/268/316. Acesso em: 9 fev. 2020. PAOLI, P. B; SILVA, C. D.; SOARES, A. J. G. Tendência atual da detecção, seleção e for- mação de talentos no futebol brasileiro. Revista Brasileira de Futebol, v. 1, n. 2, p. 38–52, 2008. Disponível em: https://www2.dti.ufv.br/seer/rbf/index.php/RBFutebol/article/ view/33/31. Acesso em: 9 fev. 2020. RAMOS, A. M.; NEVES, R. L. R. A iniciação esportiva e a especialização precoce à luz da teoria da complexidade – notas introdutórias. Pensar a Prática, v. 11, n. 1, p. 1–8, 2008. RAMOS, P. P. S. et al. O papel da escola na detecção e formação de talentos esportivos na perspectiva de atletas profissionais de elite. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DO CONSELHO REGIONAL DE EDUCAÇÃO FÍSICA DA 7ª REGIÃO, 8., 2018. 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Acesso em: 9 fev. 2020. 17Crianças e adolescentes: iniciação esportiva Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Crianças e Adolescentes: Iniciação Esportiva | PARTE 2 183 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Leitura recomendada CAYRES-SANTOS, S. U. Associação entre a manutenção da prática esportiva e os parâmetros inflamatório, metabólicos e cardiovasculares entre adolescentes. 2019. Tese (Doutorado em Ciências da Motricidade)- Faculdade de Ciências e Tecnologia, Universidade Estadual Paulista, Presidente Prudente, 2019. Crianças e adolescentes: iniciação esportiva18 ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 184 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 3 V.1 | 2021 186 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar as técnicas específicas do futebol e do futsal, bem como o desenvolvimento e a aplicabilidade correta de cada uma delasem associação à situação de jogo. � Reconhecer as diferentes formações ofensivas e defensivas e suas particularidades. � Descrever os diferentes sistemas táticos do futebol e futsal, suas par- ticularidades e suas aplicações durante as diferentes etapas de uma partida. Introdução O futebol e o futsal são modalidades esportivas coletivas que dependem não apenas das habilidades técnicas de cada jogador, mas também da sua disciplina nas funções táticas. Suas técnicas específicas, como passes, chutes, recepção, domínio de bola, dribles e fintas, devem ser desenvolvidas por todos os jogadores, de modo a auxiliar as equipes a vencer os adversários. Além disso, o conhecimento e as especificidades das funções que devem ser desenvolvidas em uma partida dão origem às formações dos sistemas ofensivo e defensivo. Neste capítulo, identifi- caremos e reconheceremos cada um desses elementos. Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 187 Técnicas específicas do futebol e do futsal O futebol e o futsal são esportes coletivos nos quais cada um dos jogadores, entre titulares e reservas, tem uma importância particular para o êxito da equipe dentro de campo ou da quadra. Em outras palavras, ainda que uma equipe disponha de um jogador com extrema habilidade técnica e exímia condição física, são as características coletivas que determinarão o rendimento da equipe ao final da partida. Assim, é fundamental que os jogadores aprendam e dominem as técnicas individuais, como o passe, o chute e o drible. A seguir, detalharemos cada um desses fundamentos. Passe O passe e o chute representam duas das técnicas essenciais no futebol e no futsal. Contudo, em um jogo coletivo, no qual a participação de vários joga- dores em uma mesma jogada é fundamental para chegar à meta adversária, o passe ganha maior importância. Pode-se definir o passe como “[...] o meio de comunicação entre jogadores de uma equipe, é o que possibilita o jogo em conjunto e a progressão de jogadas [...]” (MUTTI, 2003, p. 33). Existem diferentes tipos de passe: os curtos, os longos e aqueles por ele- vação. Os passes curtos consistem na transferência da posse de bola entre dois jogadores da mesma equipe que estão próximos um do outro. Em jogos de futsal, são bastante comuns. Os passes longos referem-se à transferência da posse de bola entre jogadores que estão distantes, o que é mais comum no futebol. Já os passes em suspensão, que podem ser curtos ou longos, são realizados com a trajetória aérea da bola. Os passes devem ser efetuados buscando a firmeza e a precisão da trajetória da bola. Embora possam ser realizados com diferentes partes do corpo (peito, cabeça, coxas, etc.), são mais frequentemente desenvolvidos com os pés. Para os passes curtos, frequentemente se utilizam a parte interna e a parte externa dos pés. Em passes mais longos, como os lançamentos e o tiro de metas dos goleiros, são realizados com o dorso dos pés, proporcionando maior impacto e transferindo maior força à bola. Há, também, o passe cavado, bastante utilizado no futsal, que consiste em fazer com que a bola faça uma trajetória aérea, passando por cima de um adversário que está próximo, até chegar a um companheiro, também próximo. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação2 188 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Ainda que as ações do jogador que efetua o passe sejam fundamentais, para um passe bem-sucedido também são necessárias as ações do jogador que receberá a bola. O ângulo de passe consiste no espaço de que um jogador dispõe para passar a bola, sem permitir a intervenção de um jogador adversário. O jogador que receberá a bola deve procurar se deslocar até um local onde o ângulo de passe seja maior, facilitando a ação do passador. Para realizar o passe, as pernas devem estar ligeiramente descontraídas, facilitando o toque de bola do jogador com qualquer parte do pé rapidamente. O jogador que efetua o passe deverá tentar fazer com que o adversário não adivinhe a trajetória que a bola tomará após realizar o passe, tentando efetuá-lo de maneira rápida e sem enquadrar o corpo lentamente, o que possibilitaria tal previsão. Outro cuidado que o jogado deve ter é buscar a localização e as ações do companheiro para o qual pretende passar a bola. Caso este esteja em movimento, precisa buscar efetuar o passe calculando a força e a direção necessárias para que a bola chegue ao momento e ao local onde o companheiro deverá estar (MUTTI, 2003). Chute Tanto no futebol quanto no futsal, o chute representa a principal maneira de realizar o gol, objetivo principal do jogo. Os princípios básicos do chute se assemelham aos do passe, exceto que, no chute, a força e a precisão devem ser maiores, evitando que o goleiro, único jogador que pode usar todas as partes do corpo, chegue à bola e esta ingresse a meta adversária. Assim como os passes, existem diferentes tipos de chutes (p. ex., de bico, com o dorso do pé, voleio e bate-pronto). O chute de bico consiste em acertar a bola com a extremidade frontal do pé, sendo mais utilizado quando a bola está se movendo em uma trajetória para frente do jogador que efetuará o chute, quando está dominada ou quanto está parada. Trata-se de um tipo mais utilizado no futsal, no qual os tempos e espaços para enquadrar o corpo é menor. No chute de bico, o jogador busca fazer com que, ao diminuir a área de contato com a bola, a força do impacto seja maior e a bola adquira maior força em sua trajetória. Embora seja bastante forte, para que o jogador tenha precisão e a bola assuma a trajetória desejada, o chute deve ser efetuado ao centro da bola (SANTINI; VOSER, 2008). 3Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 189 No chute com o dorso do pé, o jogador acerta a bola em uma área de contato maior, aumentando as chances de atingir o gol. Nesses casos, a inclinação do jogador é maior, fator essencial para que a bola seja acertada em sua área média. O chute de voleio é mais utilizado quando a bola se aproxima do jogador em uma trajetória aérea na qual, sem deixar que a bola toque o solo, o jogador a acerta com o dorso do pé. Da mesma forma, o chute de bate-pronto consiste no chute executado no exato momento em que a bola, após a trajetória aérea, toca o solo. Nesses casos, pode ser realizado com o bico ou com o dorso do pé (Figura 1). Figura 1. Chute/passe com o dorso do pé. Fonte: TandemBranding/Shutterstock.com. Nos chutes, a perna de apoio (aquela em que o corpo é sustentado durante o chute) tem uma função importante: conforme a sua posição, a bola assumirá uma trajetória rasteira ou alta. A perna de apoio deve ser posicionada ao lado da bola no momento do chute, com os braços equilibrando o corpo. O braço do lado da perna que realizará o chute deve permanecer baixo, ligeiramente afastado do corpo, com a mão na altura do quadril. O braço contrário à perna que chuta deve estar posicionado a uma altura mais ala, ligeiramente flexio- nado, à altura do ombro. O tronco, sustentado pela perna de apoio, deve se posicionar levemente inclinado (APOLO, 2004). Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação4 190 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Existem algumas fases que compõem o chute. Primeiro, há a corrida do jogador em direção à bola, com o ronco ligeiramente inclinado à frente. Em seguida, com uma hiperextensão de quadril e a flexão de joelhos, o pé que efetuará o chute deve ser levantado para trás. Na terceira fase, os músculos que compõem o pé devem estar contraídos e a perna relaxada. Por último, na quarta fase, após o impacto na bola, o pé continua sua trajetória, para frente e para cima, completando um meio círculo. Nos chutes, antes de efetuar os movimentos, o jogador deve buscaridentificar a posição da meta adversária, do goleiro e dos demais jogadores em campo ou em quadra, evitando que a bola toque em possíveis obstáculos. Recepção da bola A recepção consiste na habilidade de um jogador receber a bola, amortecendo-a e mantendo-a sob o seu controle. De modo geral, a recepção ocorre após um passe, com a trajetória da bola lançada rasteira, alta, ou à meia altura. Para fazer a recepção, o peito, a coxa, a cabeça ou os pés podem ser utilizados, conforme a trajetória da bola. Para fazer amortecer a bola, é necessário relaxar a musculatura do local com o qual fará contato. O olhar deve se manter fixo na bola, até que o toque na bola se concretize (APOLO, 2004). Já no modo mais comum de realizar a recepção da bola com os pés, o peso do corpo deve ser transferido para a perna de apoio. No futsal, a forma mais comum de efetuar esse fundamento consiste em travar a bola no solo utilizando a planta do pé. Nesse caso, a bola já deve ser rolada para frente, facilitando a ação futura do jogador (como um passe, um chute ou a condução). No futebol, por conta das travas da chuteira, é mais comum utilizar a parte interna do pé para amortecer a bola. Assim, a perna que efetua a recepção deve fazer um leve movimento para trás no momento do contato da bola, buscando fazer com que o impacto não projete a bola para frente. Quando a recepção é realizada com a coxa, em bolas com trajetória à meia altura, o joelho realiza uma leve flexão, retirando o pé do solo, com o jogador mantendo toda a musculatura da perna relaxada. Quando no contato da bola, a coxa abaixa levemente, acompanhando e amortecendo a trajetória da bola. No caso da recepção com o peito, o jogador deve buscar expirar o ar do pulmão e levar os ombros à frente, criando uma superfície mais macia para o contato com a bola. O tronco deve estar levemente inclinado para trás e os braços elevados à altura do ombro, auxiliando no equilíbrio do corpo. 5Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 191 Condução de bola Conduzir consiste em carregar a bola, mantendo o controle sobre ela, de um local a outro da quadra ou do campo. Nas conduções, o toque na bola deve ser sutil, mantendo-a sempre próxima do jogador. Em casos de conduções mais longas e sem a proximidade do adversário, a condução pode ser realizada com toques que possibilitem uma distância maior entre a bola e o jogador (APOLO, 2004). Durante a condução, o jogador deve procurar olhar a bola no momento em que efetua o contato com ela e, em seguida, levantar a cabeça para observar os demais componentes do jogo. Precisa buscar sempre conduzir a bola para protegê-la de possíveis marcações ou intervenções adversárias. A condução pode ser feita com a parte interna, a parte externa ou com a planta do pé, com o jogador rolando a bola para a frente e/ou para os lados (MUTTI, 2003). Drible e finta O drible é uma ação realizada pelo jogador que combina as habilidades de equilíbrio, velocidade, agilidade, ritmo, improvisação, entre outros elementos, com o objetivo de ultrapassar um adversário, mantendo a posse e o domínio da bola. Já a finta consiste em deslocar o adversário e fugir de sua marcação, no momento em que está sem a posse de bola. Ambas as técnicas são bastante utilizadas nos momentos ofensivos da equipe (APOLO, 2004). Para driblar ou fintar, é preciso que os pés estejam levemente afastados, o tronco ligeiramente inclinado para a frente, os joelhos levemente flexionados e a musculatura consideravelmente relaxada. De modo geral, essas ações consistem em enganar o seu adversário, utilizando-se de movimentos que ameaçam tomar determinada direção, mas, como modo de ludibriar, tomam outra. O jogador que faz o drible deve tomar o cuidado para que o seu marcador adversário não se aproxime o suficiente para impedir suas progressões e não esteja muito afastado de modo que consiga se deslocar em direção à bola antes do driblador. Para um bom drible, a condução de bola e as diferentes habilidades motoras devem ser bem desenvolvidas. Cabe destacar que, embora representem características dos jogadores ofensivos, o drible e a finta devem ser produzidos também por jogadores defensivos, já que, em muitos momentos, estes são a opção de infiltração à defesa adversária. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação6 192 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Controle de bola Habilidade a ser desenvolvida por qualquer jogador, consiste em controlar a bola, dominando-a, independentemente da trajetória e da direção assumidas, usando, para tal, diferentes partes do corpo. Para um bom controle da bola, é preciso, sobretudo, que o corpo se mantenha constantemente equilibrado. Nesse sentido, os joelhos devem manter-se semiflexionados, o tronco levemente inclinado para a frente e os braços à meia altura, ampliando o equilíbrio. A musculatura deve estar levemente contraída, para possibilitar o controle cor- poral e os movimentos rápidos em relação à trajetória da bola (APOLO, 2004). Marcação e combate Tanto no futebol quanto no futsal, quando a equipe não detém a posse de bola, é primordial que os jogadores tentem recuperá-la, efetuando marcações e combate aos jogadores adversários. A marcação deve ser realizada sobre o jogador que está com a bola e sobre aqueles que estão sem a bola, evitando que a recebam. Já o combate, de modo geral, se aplica sobre o jogador com a posse da bola. Em ambos os fundamentos, o jogador não deve apenas fixar o seu olhar sobre a bola, mas também procurar identificar os movimentos que o jogador adversário fará, antevendo seus deslocamentos. Precisa, ainda, ficar sempre próximo ao oponente e acompanhá-lo em sua movimentação, independente- mente do sistema adotado pela equipe. Além das técnicas mencionadas, há aquelas específicas do goleiro, que precisa dominar o passe, o chute e a condução da bola, e, ainda, as particularidades dessa função, que exigem outros fundamentos. No link a seguir, você conhecerá algumas dessas técnicas e orientações para desenvolvê-las. https://goo.gl/sUk2zp 7Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 193 O domínio das técnicas individuais é fundamental para que uma equipe tenha êxito nas diversas situações que compõem os jogos de futsal e futebol. Por isso, todos os jogadores devem ter a capacidade de executá-las. Evidente- mente, por melhores que sejam as capacidades técnicas dos jogadores, a posição que assumem em campo ou em quadra também se mostra fundamental nas jogadas ofensivas e defensivas. A seguir, discutiremos as diferentes formações encontradas no futebol e no futsal. Formações ofensivas e defensivas no futebol e no futsal Para que uma equipe de futebol ou de futsal obtenha êxito em uma partida, não basta que os jogadores se destaquem individualmente. Mais do que isso, é necessária a ação conjunta dos diferentes componentes da equipe para que, de maneira integrada, consigam articular as jogadas ofensivas, na busca do gol, e defensivas, recuperando a bola e evitando as jogadas adversárias. Essas funções coletivas podem ser apresentadas em formações ofensivas e defensivas. De modo geral, no futebol, embora todos os jogadores participem de todas as jogadas, as equipes utilizam cinco jogadores com características e funções mais ofensivas e seis jogadores com características e funções mais defensivas. No futsal, pela reduzida quantidade de jogadores e a limitada dimensão da quadra, podemos observar que todos participam com maior intensidade de jogadas defensivas e ofensivas. A seguir, apresentaremos as diferentes organizações que compõem cada uma delas. Formações ofensivas Para que uma equipe consiga realizaro objetivo principal do jogo — fazer gol —, os diferentes jogadores precisam articular as jogadas, conduzindo a bola até a meta adversária e realizando a finalização. Para tanto, as ações ofensivas se desenvolvem em fases distintas, podendo-se elencar três momentos: a manu- tenção da posse de bola; a progressão até o campo adversário; e a finalização. A manutenção da posse de bola consiste na troca de passes e na condução da bola que permitem a articulação das jogadas. A posse da bola eleva as possibilidades de uma equipe conduzi-la até a área adversária e obriga o adversário a jogar em reação, buscando a recuperação. Nesta, que é a primeira fase de uma jogada ofensiva, o passe e a recepção da bola são primordiais. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação8 194 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A segunda fase das jogadas ofensivas refere-se à progressão até o campo adversário (MUTTI, 2003). Logicamente, somente a posse de bola não é suficiente para articular as jogadas de ataque. De modo bastante comum, também se emprega a posse de bola como estratégia defensiva. No entanto, para atacar, os jogadores devem progredir no campo, fazendo a boa ingressar na meta adversária. Para realizar a progressão, os passes e a recepção, a condução de bola, as fintas e os dribles tornam-se essenciais, com o intuito de fugir da marcação e do combate realizados pelos adversários. Por último, a finalização, é a etapa mais curta das jogadas ofensivas, já que consiste no ato final, realizado por meio de chutes, cabeceio ou outras jogadas, para colocar a bola dentro da meta adversária. Essa etapa apenas se concretiza quando as duas etapas anteriores são realizadas com sucesso. As três fases descritas ocorrem em qualquer uma das formações ofensi- vas adotadas pelas equipes. De maneira ampla, podemos identificar quatro diferentes tipos de formações ofensivas: os ataques posicionais, os ataques rápidos, os ataques de segunda bola e os contra-ataques (LEITÃO, 2004). Os ataques posicionais consistem na criação de jogadas ofensivas a partir da troca de passes constantes, buscando encontrar espaços no campo de atuação dos adversários para buscar o gol. A principal característica dessa formação refere-se à posse de bola com a progressão de maneira controlada em direção ao gol, trocando passes laterais, até conseguir uma posição privilegiada para efetuar a finalização. Esse formato se torna a principal opção aos times com bons passadores que jogam contra defesas pouco organizadas. Os ataques rápidos são aqueles realizados de maneira vertical em direção ao gol, em que a equipe tenta chegar ao gol adversário o mais rápido possível. Nesse modelo, a posse de bola é deixada a um segundo plano, dando espaço para dribles rápidos e lançamentos. Esse formato se torna a principal alternativa para times com jogadores rápidos e habilidosos nos dribles e nas fintas, jogando contra equipes com defensores mais lentos (MUTTI, 2003). Os ataques de segunda bola consistem nas ocasiões em que, após lançar a bola para o ataque, um jogador que disputa a bola aérea passa a bola para os jogadores armadores, para que construam a jogada. Esse formato é carac- terístico de equipes com jogadores ofensivos de referência em bolas aéreas (geralmente os centroavantes), que fazem a função de “parede” contra os defensores, ganhando a disputa das bolas lançadas em trajetória aérea. Por último, as jogadas do tipo contra-ataque surgem a partir da recuperação da bola durante o ataque adversário e a rápida progressão ao gol adversário, tais quais os ataques rápidos. Esse formato é ideal para equipes que enfrentam 9Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 195 equipes mais fortes tecnicamente e devem permanecer em sua zona de defesa, buscando interceptar ou desarmar os jogadores adversários. Também é ideal para equipes com uma boa defesa e jogadores ofensivos rápidos. Formações defensivas As formações de defesa são ações coletivas que buscam impedir que a equipe adversária realize jogadas e, consequentemente, marque gols. Para elaborar um bom sistema defensivo, devem-se levar em consideração as especificida- des técnicas e físicas de cada jogador. Além disso, a disciplina coletiva e o entrosamento precisam estar apurados, uma vez que cada jogador desempenha um papel fundamental na organização de todo o time, ou seja, a displicência de um único jogador pode comprometer o objetivo coletivo da equipe. De modo geral, as formações defensivas se classificam em marcação, individual, marcação por zona, marcação tipo pressão ou marcação mista, as quais serão discutidas a seguir. Na marcação individual, predomina a atuação de um defensor sobre um atacante específico, isto é, os embates técnicos e físicos ocorrem no sistema um contra um, havendo uma predeterminação sobre qual jogador adversário cada um dos defensores deverá conter. Os princípios para os defensores seguem regras básicas — eles deverão ficar entre o atacante e o gol, mantendo-se a uma distância próxima, forçando-o a conduzir a bola para o lado do campo ou da quadra em que tem menor habilidade de modo a limitar suas ações (APOLO, 2004). Imagine que um jogo futebol está acontecendo. Antes de iniciar a partida, o treinador falou para cada um dos seus atletas qual jogador adversário deveriam marcar quando a equipe adversária tiver a posse de bola em sua área de ataque. Em cada situação de- fensiva, os jogadores se movimentam para realizar as marcações individuais solicitadas. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação10 196 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Na defesa por zona, os defensores não se preocupam especificamente com apenas um jogador adversário, mas sim com determinado local da quadra ou do campo que deve proteger, ou seja, o campo de defesa divide-se em zonas imaginárias, pelas quais o jogador responsável deve marcar o jogador adversário que nelas ingressar. A principal característica da defesa do tipo pressão consiste na disposição mais adiantada de todos os jogadores da equipe, marcando os jogadores ad- versários em sua zona de defesa, forçando os erros de passes na saída de bola e a recuperação rápida da posse de bola. Nesse tipo de formação, é bastante comum que dois jogadores marquem o jogador adversário que detém a posse da bola. Há também uma variação nesse tipo de defesa, principalmente no futebol. A defesa meia-pressão consiste em metade do time (geralmente os atacantes) marcando a saída de bola dos defensores adversários e os defensores marcando por zona ou individualmente. A defesa mista reúne elementos da defesa individual e por zona, isto é, enquanto um defensor marca um jogador individualmente, os demais defensores tentam guarnecer locais específicos da quadra ou do campo, sem necessariamente se preocuparem com algum jogador em específico. Esse tipo de marcação é bastante frequente no futebol de campo, quando um jogador específico faz marcação constante do jogador adversário mais habilidoso. Uma variação da defesa mista é a defesa combinada, que tam- bém se utiliza de dois ou mais modelos de defesa. Esse tipo de formação defensiva necessita de um grande entrosamento da equipe e uma disciplina tática excepcional dos jogadores. Nela, as ações defensivas variam durante a jogada de ataque adversária. Por exemplo, suponhamos que uma equipe está marcando por zona; após um passe ou um movimento de um dos atacantes adversários, a equipe rapidamente transforma sua formação para a defesa individual. Evidentemente, não existe nenhum sistema defensivo infalível ou perfeito, devendo ser adaptados conforme as especificidades individuais e coletivas de cada equipe. Contudo, podemos estabelecer algumas vantagens e des- vantagens gerais ao usar determinado tipo de conceito defensivo. O quadroa seguir apresenta as principais características de cada um dos formatos apresentados. 11Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 197 Formação defensiva Vantagens Desvantagens Individual � Define responsabilidades para cada jogador � Exige de apenas um jogador a correta execução dos fundamentos de defesa � Depende da atenção em apenas um jogador atacante � Proporciona equilíbrio técnico e físico entre jogadores de defesa e de ataque (adversários) � Adaptável a qualquer tipo de ataque � Dificulta passes e chutes adversários � Facilita penetrações à defesa � Facilita movimentações adversárias � Pode provocar muitas faltas � Dificulta o posicionamento defensivo, uma vez que este depende do posicionamento dos atacantes adversários Zona � Facilita o posicionamento dos jogadores � Dificulta o jogo próximo à área � Possibilita o rápido reposicionamento defensivo � Facilita a troca de passes adversários � Facilita passes e chutes distantes da área � Necessita de muito entrosamento entre os defensores � Apresenta áreas vulneráveis em razão da distribuição dos defensores � As áreas de responsabilidade próximas de dois jogadores podem provocar indecisão sobre quem deverá marcar o adversário Quadro 1. Vantagens e desvantagens das formações defensivas (Continuação) Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação12 198 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de Santini e Voser (2008). Quadro 1. Vantagens e desvantagens das formações defensivas Formação defensiva Vantagens Desvantagens Pressão � A presença de outro marcador pode induzir os atacantes a cometer erros � Promove a alteração de ritmo de jogo adversário � Força os jogadores adversários a realizar passes e chutes precipitados � Aumenta as possibilidades de recuperação da bola � Pelo menos um jogador, necessariamente, fica sem marcação � Grande possibilidade de cometer faltas pessoais � Maior desgaste físico dos marcadores Mista � Dificulta a ação do jogador mais habilidoso da equipe adversária � Altera o ritmo de jogo adversário � Força o ataque adversário a se adaptar à defesa � Deixa determinadas zonas vulneráveis, com a ausência de um defensor � Exige maior atenção em relação à movimentação da bola e dos atacantes Combinada � Provoca a confusão no ataque adversário � Adaptação às movimentações específicas do time adversário � Necessita de muito entrosamento entre os defensores � Maiores possibilidades de falhas de defesa (Continuação) Dessa forma, percebemos que os sistemas ofensivos e defensivos podem ganhar inúmeros formatos, adaptando-se às características de cada um dos jogadores e da equipe ou à situação exigida pelo jogo. No futebol e no fut- sal, as características dos jogadores e as formações ofensivas e defensivas determinam o esquema tático a ser adotado pelas equipes. A seguir, vamos destacar alguns dos principais esquemas táticos adotados pelas equipes de futebol e futsal na atualidade. 13Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 199 Principais sistemas táticos do futebol e do futsal No futebol e no futsal, as diferentes características dos jogadores, as pro- posições ofensivas e defensivas das equipes, e a maneira como as equipes adversárias se apresentam delimitam o melhor posicionamento de uma equipe em campo. Os sistemas táticos compreendem as disposições adotadas pelas equipes que buscam neutralizar as jogadas adversárias e possibilitar as cons- truções das próprias jogadas. Os sistemas táticos surgiram com a necessidade de os treinadores e jogadores deter- minarem funções e posições em campo. Inicialmente, para realizar gols, as equipes adotavam sistemas com poucos defensores e muitos atacantes. Considera-se o primeiro esquema tático do futebol o 4–2–4. Existem inúmeros formatos possíveis para uma equipe se postar em qua- dra ou em campo. Essas diversas formatações evoluíram durante os anos e formaram os sistemas táticos adotados atualmente. A seguir, apresentaremos os principais sistemas táticos utilizados pelas equipes profissionais de futebol e futsal na atualidade. Principais sistemas táticos do futebol Os sistemas táticos do futebol apresentam a disposição dos jogadores que compõem a linha de defesa, outra linha mais adiantada na intermediária e uma linha, mais adiantada ainda, na zona de ataque, próxima à meta adversária. De modo geral, em cada uma dessas linhas, há uma atuação distinta entre os jogadores, separando-os entre defensores (zagueiros, líberos e laterais), meio-campistas (volantes, meias e armadores) e atacantes (pontas, segundo- -atacantes e centroavantes). Dentro dessas três linhas de jogadores, a equipe adequa a sua estratégia conforme a proposição do jogo que deseja desenvolver e busca neutralizar os ataques adversários. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação14 gilia Highlight 200 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Cabe destacar que, no futebol, onze jogadores são titulares, sendo um deles o goleiro, que deve atuar preferencialmente abaixo da sua meta e dentro de sua área, onde dispõe de maiores possibilidades de realizar defesas. Assim, os sistemas táticos consideram apenas os jogadores de linha. Os principais sistemas táticos do futebol são descritos a seguir (CASTELO, 1992). � 4–2–4 — até a década de 1950, o principal esquema utilizado pelas equipes era o 3–4–3, com três zagueiros em linha, dois volantes, dois meias ofensivos e quatro atacantes. Em 1958 e em 1962, como alternativa para superar o esquema utilizado pela maioria das equipes, a seleção brasileira utilizou o 4–2–4, com quatro zagueiros, dois volantes e quatro atacantes, dois deles atuando como pontas, jogando nas extremidades do campo. Esse formato, embora não seja comumente utilizado, representa uma referência, pois originou as outras possibilidades de formar as equipes taticamente (XAVIER, 1986). � 4–3–3 — como o 4–2–4 reduziu a posse de bola no meio-campo, pela diminuição do número de jogadores na intermediária do campo, as partidas acabaram se resumindo à ligação entre a defesa e o ataque, por meio dos lançamentos. Aos poucos, entretanto, a atenção dos confrontos passou do ataque e da defesa para o meio-campo. E, assim, o 4–3–3 passou a ser o primeiro sistema a buscar aumentar a posse de bola no setor de criação. Pode variar de um volante e dois meias para dois volantes e um meia, modificando-se ainda mais com as estratégias de ataque ou defesa (laterais ofensivos ou defensivos, sistema de marcação e movimentação dos atacantes). No ataque, as posições também ganham diferentes formatos, com a atuação de dois jogadores em cada uma das extremidades do campo e um centroavante; ou com dois centroavantes e um jogador mais extremo ou com três jogadores de grande movi- mentação. Hoje, por exemplo, muitas equipes utilizam um 4–3–3 com laterais quase fixos à defesa, em linha, e atacantes de movimentação que jogam em diagonal, ao contrário dos antigos pontas, que corriam para o fundo e faziam cruzamentos. Trata-se do mesmo sistema, mas com uma estratégia diferente (FREIRE, 2006). � 4–4–2 — esse esquema é um dos mais utilizados na atualidade por apresentar certo equilíbrio em todos os setores do campo. Consiste na utilização, na linha defensiva, de dois zagueiros e dois laterais, os últimos com a função também de atacar, alterando as suas progressões. Mais à frente, são dois meio-campistas com características defensivas e dois meio-campistas mais ofensivos. E, completando o ataque, dois 15Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação gilia HighlightPedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 201 atacantes, geralmente um centroavante jogando próximo à área e o outro atacante um pouco mais afastado, procurando realizar dribles e penetrações na defesa adversária. Nesse sistema, também é comum a variação na formação do meio-campo, com apenas um ou três volan- tes (meio-campistas mais defensivos) ou um ou três meias-atacantes, tornando a equipe, respectivamente, mais defensiva ou ofensiva. No meio-campo, os posicionamentos dos jogadores diferem, atuando em formato de quadrado, de losango ou de “Y”, com atribuições de funções mais defensivas ou ofensivas a cada um deles nesse setor. Este também é o sistema preferido para a iniciação no futebol, já que as posições dos jogadores são mais definidas, facilitando a compreensão das funções de cada jogador. � 3–5–2 — esse esquema surgiu pela primeira vez na Itália e trouxe o conceito do líbero, jogador de defesa que, dentro de uma mesma par- tida, pode realizar diferentes funções, como atuar atrás dos zagueiros (como jogador da “sobra”), à frente dos zagueiros (como volante) ou nas laterais. No Brasil, o conceito de líbero é um pouco mais restrito, referindo-se apenas ao jogador que atua atrás do zagueiro, buscando as bolas que sobram após a disputa dos atacantes adversários com os demais defensores. Nesse formato, ainda, o meio-campo ganha a posição dos alas, que, pelas extremidades do campo, buscam realizar jogadas ofensivas que culminam em lançamentos para o meio da área de ataque. Assim, como no 4–4–2, existem variações desse formato com meio-campistas mais defensivos ou ofensivos. Do mesmo modo, o 3–6–1 representa uma variação desse sistema, com um dos atacantes atuando mais recuado, criando jogadas e efetuando dribles mais afastado da meta adversária. � 3–4–3 — consiste em um sistema quase misto, que se utiliza dos con- ceitos de defesa do 3–5–2 (líbero, cobertura e posicionamento) de meio- -campo do 4–4–2 (diversas possibilidades de desenhos e estratégias) e de ataque do 4–3–3 (retorno do terceiro atacante). Cabe destacar que os sistemas táticos do futebol continuam evoluindo. Novos formatos de jogo, com novas atribuições a cada um dos jogadores que compõem as diferentes zonas do campo, continuam acontecendo (GAR- GANTA, 1997). O que podemos notar no atual momento do futebol é o fato de cada vez mais os jogadores serem exigidos em diferentes funções em campo, tendo que defender e atacar em uma mesma partida e se deslocar, fazendo inversões e trocando suas posições e funções na partida. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação16 202 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Principais sistemas táticos do futsal Assim como o futebol, o futsal também evolui historicamente quanto à for- mação tática das equipes. Inicialmente, as equipes apresentavam jogadores que cumpriam funções específicas em quadra. Mais recentemente, podemos observar que não há uma posição definida, sobretudo em equipes de alto nível, com todos os atletas se deslocando de modo incessante por todos os setores do campo (SANTINI; VOSER, 2008). Da mesma forma que o futebol, o goleiro, que se espera que jogue entre as traves de sua meta, ampliando a possibilidade de realizar defesas, não é considerado nos esquemas, passando a abordá-los com os quatro jogadores de linha. Cabe destacar ainda que, embora os esquemas situem a posição em que a priori os jogadores devem se encontrar, eles não permanecem estáticos durante o jogo, trocando constantemente a suas posições. Assim, são seis os esquemas mais utilizados no futsal (MUTTI, 2003), conforme apresentado a seguir. � 2–2 — esse formato de jogo foi o pioneiro no futsal, surgindo ainda na década de 1950. Nesse sistema tático, que pode ter características mais ofensivas ou defensivas, dois jogadores são responsáveis pela defesa e dois responsáveis pelo ataque. Por apresentar menores funções de jogadores, trata-se de um dos principais sistemas utilizados por equipes de jogadores iniciantes ou com jogadores com pouca capacidade técnica. É um sistema bastante simples de desenvolver e possibilita a distribuição de jogadores de maneira mais equilibrada, atuando geralmente em forma de quadrado. � 2–1–1 — também compreende um sistema bastante simples e facilmente aplicado com crianças que estão iniciando nessa modalidade esportiva. Consiste em dois jogadores jogando na defesa (um em cada extremidade da quadra), um jogador na linha média da quadra (atuando como meia, atacando e defendendo) e um jogador mais adiantando (com a função exclusiva de atacar). � 3–1 — nesse sistema, apenas um jogador (o fixo) tem a função exclusiva de defender. Um pouco à frente dele, nas extremidades da quadra, situam-se os alas, que devem realizar jogadas de ataque e de defesa, unindo-se ao fixo ou ao pivô. A frente dos alas, mais centralizado, atua o pivô, que tem como principal característica ser capaz de supe- rar fisicamente o defensor adversário. Por necessitar de funções mais específicas em quadra, esse esquema exige que os jogadores tenham 17Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Tática e Técnica: Aspectos Relevantes na Iniciação e na Formação | PARTE 3 203 um pouco mais de experiência. Ainda, nesse sistema, é comum a rea- lização do rodízio de 3, no qual um dos jogadores conduz a bola para atrair a marcação e, em seguida, passa a bola e se desloca para um local até onde um dos companheiros estava e que se deslocou para a posição daquele que recebeu a bola inicialmente. Assim, três jogadores se movimentam constantemente, trocando passes, e o pivô se desloca de uma extremidade a outra da quadra, abrindo espaços para os alas e o fixo, que estão efetuando o rodízio. � 1–3 — trata-se de um esquema pouco usual por possibilitar maior área para o ataque adversário. Da mesma forma que o 3–1, consiste em um fixo, dois alas e um pivô. No entanto, nesse sistema, os alas ganham uma característica puramente ofensiva. � 4x0 — esse sistema tem sido o principal formato de jogo apresentado pelas principais equipes de futsal, em especial as seleções nacionais do Brasil e da Espanha, que têm se destacado na modalidade. Consiste na incessante troca de posições em quadra, com frequentes trocas de passes nas defesas. Seu objetivo central é confundir, com a troca de posições, a defesa adversária e obter espaços para o passe em direção ao gol e a infiltração de jogadores que efetuarão a finalização, o cha- mado rodízio de 4. Por necessitar de extremo preparo físico, grande entrosamento entre os jogadores e a atenção no jogo o tempo todo, não é muito recomendado para equipes iniciantes (SANTINI; VOSER, 2008). � 0–4 — assim como o 4x0, baseia-se na troca de posições e na contínua movimentação dos jogadores, buscando encontrar espaços para a fina- lização. No entanto, esse sistema de jogos se fundamenta na ocupação da meia quadra adversária, com todos os jogadores mais adiantados. Essa forma de jogar não é muito usual, já que deixa a defesa muito desprotegida em contra-ataques (APOLO, 2004). Desse modo, podemos perceber que, para obter êxito ao jogar o futebol e o futsal, apenas o domínio dos aspectos técnicos não é suficiente. Ainda que necessários, aliado ao fato de que a qualidade técnica de cada jogador é importante para uma partida, o conhecimento tático, com a integração dos jogadores atuando nos diferentes tipos de formações ofensivas e defensivas, e o domínio das funções nos diferentes sistemas táticos são essenciais para que uma equipe seja bem-sucedida ao final da partida. Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação18 204 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I APOLO, A. Futsal: metodologia e didática na aprendizagem. São Paulo: Phorte, 2004. CASTELO, J. Conceptualização de um modelo técnico-táctico do jogode Futebol: identifi- cação das grandes tendências evolutivas do jogo das equipas de rendimento superior. 1992. Tese (Doutoramento) — Faculdade de Motricidade Humana-UTL, Lisboa. FREIRE, J. B. Pedagogia do futebol. Campinas: Autores Associados, 2006. GARGANTA, J. M. Modelação tática do jogo de Futebol: estudo da organização da fase ofensiva em equipes de alto rendimento. 1997. Tese (Doutorado em Ciências do Des- porto) — Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física, Universidade do Porto, Porto, 1997. LEITÃO, R. A. A. Futebol: análise qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. 2004. Dissertação (Mestrado em Educação Física) — Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2004. MUTTI, D. Futsal: da iniciação ao alto nível. 2. ed. São Paulo: Phorte, 2003. SANTINI, J.; VOSER, R. C. Ensino dos esportes coletivos: uma abordagem recreativa. Ca- noas: Ulbra, 2008. XAVIER, T. P. Métodos de ensino em educação física. São Paulo: Manole, 1986. Leituras recomendadas BEE, H.; BOYD, D. A criança em desenvolvimento. 12. ed. Porto Alegre: Artmed, 2011. MARTORELL, G. O desenvolvimento da criança: do nascimento à adolescência. Porto Alegre: AMGH, 2014. SALLES, J. F.; HAASE, V. G.; MALLOY-DINIZ, L. F. (org.). Neuropsicologia do desenvolvimento: infância e adolescência. Porto Alegre: Artmed, 2016. SCHMIDT, R. A.; LEE, T. D. Aprendizagem e performance motora: dos princípios à aplicação. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. 19Tática e técnica: aspectos relevantes na iniciação e na formação ENCERRA AQUI O TRECHO DO LIVRO DISPONIBILIZADO PELA SAGAH PARA ESTA PARTE DA UNIDADE. PREZADO ESTUDANTE 206 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Parte 4 Jogos pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 3 V.1 | 2021 208 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir jogos pré-desportivos. � Relacionar os jogos pré-desportivos e os valores éticos e morais as- sociados à prática do futebol e do futsal. � Discutir o papel dos jogos pré-desportivos nos treinamentos técnico e tático do futebol e do futsal. Introdução Neste capítulo, você vai ler sobre os jogos pré-desportivos no futebol e no futsal a partir da sua complexidade de utilização nos diferentes níveis de atuação, desde o escolar até o alto rendimento, para o trabalho em instituições de ensino e clubes. Você vai saber que os jogos pré-desportivos são considerados práticas que favorecem a aprendizagem dos elementos técnicos e táticos dos esportes coletivos. Com uma perspectiva mais lúdica, eles favorecem uma participação mais dinâmica e ativa de todos os jogadores. Aqui são apresentadas estratégias de ensino que podem ser utilizadas em escolas e clubes na iniciação do esporte como um fator motivacional ou no alto nível como uma proposta descontraída para o trabalho. Este capítulo contextualiza os conceitos e as concepções que en- volvem as ações práticas dos jogos pré-desportivos, com ênfase na aprendizagem do futebol e do futsal, duas modalidades esportivas que apresentam características próprias, mas com muitos aspectos que se assemelham e que, se bem aproveitados, qualificam as aprendizagens. Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 209 Conceitos de jogos pré-desportivos Os jogos pré-desportivos, de certa forma, antecipam a prática formalizada do esporte. Eles podem ser considerados estratégias de ensino que refletem diferentes dinâmicas de organização e estruturação lógica das característi- cas básicas dos esportes, com ênfase nos esportes coletivos. Por assumirem características de jogos, ampliam as possibilidades do trato pedagógico dos conteúdos procedimentos, atitudinais e conceituais das práticas esportivas. Isto é, permitem que os conteúdos específicos de modalidades esportivas sejam refletidos em diferentes ações, posturas e manifestações práticas, fazendo com que a rigidez de uma técnica, por exemplo, seja exercitada por meio de repetições lúdicas do movimento. Segundo Freire Júnior, Maldonado e Silva (2017, p. 33), ao utilizar os jogos pré-desportivos, o professor: “[...] consegue desenvolver uma função educativa na prática destes jogos, atrelando valores como a inclusão, a convivência, o respeito e a ética”. Nesse sentido, esse tipo de jogo motiva os alunos e os desafia na prática, favorecendo a participação mais efetiva de todos. As adapta- ções de regras e formas de jogar estimulam novas aprendizagens e aproximam várias habilidades, em que uma meta que no jogo formal será atingida somente pelo chute ou cabeceio, aqui pode ser acessada por outra ação corporal, desde que associada a uma nova regra combinada coletivamente. Às variações de deslocamento, passe, chute e arremesso são acrescidas as habilidades das descobertas, dos planejamentos, dos acordos e das tentativas de erros e acertos. O aluno é estimulado a jogar livremente e, por meio da condução do professor, princípios básicos de execução vão sendo inseridos de forma gradual e complexa a essa forma de jogar. Isso permite que o aluno incorpore a técnica do ato de jogar de forma autônoma e criativa (KRUG, 2009). Não há formalidade rígida nos jogos pré-desportivos, fato que possibilita a mudança da regra que favoreça e abrace diferentes níveis de habilidades e aptidões motoras para o jogo. São nessas situações problemas que o aluno vai criando e recriando estra- tégias que ampliam seu acervo motor e cognitivo. As estruturas mentais que vão sendo incorporadas servem de base para a escolha de novas formas de Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal2 210 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I jogar. O movimento corporal vai adquirindo experiência e as competências emergem não da repetição, mas da reflexão crítica sobre cada movimento que já foi executado ou experimentado. Ao transpor essas vivências para as situações de jogo real (no esporte formalizado), o aluno garante respostas mais concretas e verdadeiras para cada situação problema evidenciada, promovendo uma antecipação mais consciente sobre as exigências advindas dos esportes. Sobre a classificação dos jogos pré-desportivos, é pertinente refletir sobre as características assumidas a partir de cada objetivo proposto pelo professor. De certa forma, é possível identificar entre as várias opções de jogos aqueles que mais se adéquam às aprendizagens propostas. Ainda assim, é possível se utilizar de outros jogos, como pequenos e grandes jogos, jogos reduzidos, jogos situacionais, entre outros que permitam a associação com as características das modalidades esportivas, efetivando-os na categoria de jogos pré-desportivos nos processos de ensino-aprendizagem. Autores como Baldi (2014) e Reverdito, Scaglia e Paes (2009) descrevem algumas características desses jogos, que estão listadas a seguir. � Pequenos jogos esportivos: apresentam formas básicas simples e suas principais ações técnicas e táticas, há também uma simplificação nas regras. � Grandes jogos esportivos: maior complexidade no uso das carac- terísticas dos esportes coletivos e regras com adaptações para uma participação facilitada sem alteração da sua exigência. � Jogos reduzidos: são adaptações do jogo formal (11 × 11) com regras mais simples, menos jogadores e espaço reduzido; são utilizados para o ensino de jogadores de diferentes idades e níveis competitivos e em programas de formação de base de atletas (Figura 1). � Jogos situacionais: têm ênfase nas capacidades de jogo e nas capacida- des coordenativas, privilegiando os fatores de pressão (tempo, precisão, complexidade, organização, variabilidade, carga), que impactam as habilidades com bola e a realização de movimentos específicos aos esportes(técnica) (Figura 2). 3Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 211 Figura 1. Jogos reduzidos para a manutenção da posse de bola. Fonte: Tacticalpedia (2016, documento on-line). Figura 2. Jogos situacionais para finalização. Fonte: [Jogos...] ([201-?], documento on-line). Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal4 212 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I É importante, também, destacar o uso dos jogos pré-desportivos para outros fins que não sejam a aprendizagem do esporte, como terceira idade, populações obesas e portadores de deficiência. Novamente as características dessas práticas favorecem e dão maior significado ao ato de jogar para esses indivíduos. Sendo assim, a motivação, o entusiasmo e a valorização são aspec- tos que ganham expressividade quando a participação se torna mais efetiva. No que tange à terceira idade, Bittar et al. (2013, p. 715) afirmam que os jogos pré-desportivos são uma “[...] estratégia interessante para alcançar uma boa qualidade de vida, pois suas adaptações podem ressaltar as características envolventes, motivadoras e inclusivas. Dessa forma, o componente lúdico de jogos pré-desportivos poderia atender às principais demandas provindas do processo do envelhecimento”. As limitações dessa fase passam pela fragilidade no controle motor até o sentimento de incapacidade. No uso desse tipo de jogo, é possível criar formas e estratégias com ênfase no trabalho coletivo e na valorização da equipe, situação que estimula o sentimento de pertencimento e valorização de um grupo. Para a população obesa, sendo crianças, jovens ou adultos, a adaptação proposta no jogo pode garantir estímulo para a prática de atividade física regular, dinâmica e divertida, além de favorecer as tarefas motoras quando a reconstrução ganha complexidade cognitiva e atitudinal em prol de capacidades físicas que, por ventura, sejam limitadores da prática. Algumas possibilidades como a redução do espaço, a ampliação das metas e dos alvos e o uso de mais jogadores podem auxiliar nas proposições que dão acesso ao exercício mais contínuo das habilidades técnicas e táticas. No trabalho com crianças com deficiências físicas, Melo e Munster (2016, p. 77) alertam que os jogos pré-desportivos têm por intuito a experimentação “[...] do esporte em suas variadas formatações, devendo este (o esporte) ser modificado para atingir as necessidades da criança e não o inverso”. Sendo assim, não há limitação para a deficiência, o que há é uma nova estruturação do jogo para que ele possa ser jogado independentemente. Nessa lógica, qual- quer esporte coletivo pode ser ensinado por meio dos jogos pré-desportivos. Os autores apresentam uma experiência com crianças cadeirantes em que a proposta é pautada na metodologia da descoberta e exploração dos movimentos corporais (Quadro 1). 5Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 213 Tema Objetivo Estratégias Dinâmicas Exemplos Inicia- ção ao esporte Desenvolver as habilidades motoras fundamentais de locomoção, estabilização e manipulação na cadeira de rodas por meio dos aspectos pedagógicos e educacionais. Jogos de cooperação Atividades em duplas e trios Jogos historiados Construção das ativida- des pelos participantes Execução e controle dos movimentos Utilização da música como elemento desenvol- vedor de atenção e percepção temporal Desenvolvi- mento dos fundamentos comuns às modalidades Jogar as modalidades esportivas coletivas sobre cadeira de rodas Atividades de coope- ração, nas quais todos trabalham em equipe Criação de regras do jogo pelos próprios participantes Pegas Estafetas Drible Desloca- mento entre obstáculos Jogos com alvos e zonas Brincadeiras Situações de jogo Jogos pré-desportivos Jogos adapta- dos a partir das modalidades convencionais Atividades cognitivas Jogos individuais Jogos musicais Modalidades esportivas em cadeira de rodas Do simples para o mais complexo Quadro 1. Modelo de proposta de ensino para os esportes coletivos par crianças em cadeiras de rodas (Continua) Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal6 214 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Fonte: Adaptado de Melo (2014). Tema Objetivo Estratégias Dinâmicas Exemplos Valores com- porta- mentais Ser capaz de estabelecer re- lações pessoais de valor, como cooperação, empatia e respeito para o desenvolvi- mento de um jogo coletivo, estabelecendo metáforas com a vida. Interferência verbal do professor, remetendo à prática dos alunos ou ao livro didático Ao longo das atividades práticas, aproveitando as situações surgidas a fim de tra- balhar a im- portância do respeito e da cooperação aos demais participantes. Utilizar as possíveis dificuldades apresentadas pelos partici- pantes para desenvolvi- mento dos problemas do jogo, bem como das suas relações com os de- mais durante as atividades como meio de destacar a relevância dos valores de respeito e cooperação Quadro 1. Modelo de proposta de ensino para os esportes coletivos par crianças em cadeiras de rodas (Continuação) É normal a utilização dos jogos pré-desportivos como uma base para o ensino dos esportes coletivos, mas é preciso que eles também tenham espaço próprio, isto é, que seja destinado no planejamento do professor o ensino de jogos que contribuam com a formação integral dos alunos, sem que haja a necessidade da relação com alguma modalidade esportiva. Os benefícios dos jogos na formação perpassam pela assertiva de desenvolver as dimensões motora, afetivo-social e conceitual. De fato, na complexidade do jogo há estratégias que motivam e proporcionam diferentes aprendizagens. 7Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 215 Jogos pré-desportivos e valores éticos e morais associados à prática do futebol e do futsal O futebol e o futsal assumem características de esportes coletivos, isto é, na estrutura lógica do jogo, as ações motoras se estabelecem na interdependência das tarefas individuais de cada jogador. Isto é, aquilo que é executado por um jogador vai interferir diretamente na jogada realizada por seus colegas, por isso que cada ação deve ser realizada de forma qualificada para que no coletivo o resultado seja eficaz. Na dimensão coletiva, Bayer (1994) apresenta três princípios operacio- nais de ataque: “[...] conservação individual e coletiva da bola, progressão da equipe e da bola em direção ao alvo adversário e finalização da jogada, visando à obtenção de ponto” (BAYER, 1994, p. 100). E, ainda, referenda os três princípios operacionais da defesa, destacando: “[...] recuperação da bola, impedir o avanço da equipe contrária e da bola em direção ao próprio alvo e proteção do alvo visando impedir a finalização da equipe adversária” (BAYER, 1994, p. 110). Ao relacionar essas características com o futebol e o futsal, são encontradas semelhanças com ênfase nas ações coletivas, entre ambas as modalidades. De certa forma, é nessa coletividade que emergem aspectos como trabalho em equipe e colaboração, que fundamentam atitudes necessárias nesse tipo de jogo. Ainda assim, na complexidade da coletividade são revelados o respeito ao colega e ao adversário e as regras do jogo, fatores que se agregam para configurar os valores éticos e morais que fazem parte de tais modalidades esportivas. É na conversa entre ações individuais e coletivas do futebol e do futsal que se manifestam possibilidades para o trabalho educativo de tendências agressivas, egocêntricas, competitivas, entre outras. Com metodologias que busquem a compreensão do valorna qual traz a reflexão sobre os valores da educação empregados a partir do esporte de alto rendimento. Vale a pena conferir as discussões recentes sobre o esporte educacional que ocorre no Brasil: https://goo.gl/5ZancY 11Esporte Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Esporte | PARTE 1 21 ARAÚJO, U. F. de. Escola, democracia e a construção de personalidades morais. Educação e Pesquisa, v. 26, n. 2, p. 93, 2000. BARBANTI, V. J. Dicionário de educação física e esporte. 3. ed. Barueri, SP: Manole, 2008. DARIDO, S. 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PREZADO ESTUDANTE Parte 2 Estudo da Cultura Esportiva O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 1 V.1 | 2021 24 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Estudo da cultura esportiva Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer o esporte como expressão da cultura. � Explicar a cultura esportiva alternativa no contexto da educação física. � Analisar as manifestações da cultura esportiva por diferentes seg- mentos sociais. Introdução Fenômeno sociocultural, o esporte influencia a vida de inúmeras pes- soas por todo o mundo, seja por meio da prática, do consumo ou da participação de torcedores. Essa popularização do esporte enquanto expressão cultural teve início na Inglaterra e foi ganhando, aos poucos, alcance mundial. É praticamente impossível encontrar alguma civilização no mundo que não tenha o esporte como uma de suas práticas, visto que, pelos meios tradicionais ou pela cultura alternativa, que vem ganhando força, o esporte traz um novo estilo de vida inerente à sociedade atual. Neste capítulo, você estudará o esporte como expressão da cultura, bem como verá como a cultura esportiva alternativa está inserida no contexto da educação física. Além disso, estudará as manifestações da cultura esportiva por diferentes segmentos sociais. Esporte como expressão da cultura Dentre as várias formas de expressão da cultura que existem, uma delas é a partir das práticas corporais, a chamada cultura corporal do movimento, e das infinitas formas de explorar essa cultura, uma das mais populares é o esporte. No entanto, para compreender o esporte como forma de expressão da cultura, antes faz-se necessário abordar os conceitos de cultura e esporte separadamente. Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 25 Bauman (2012) afirma que o conceito de cultura é bastante ambíguo, devido à grande quantidade de linhas de pensamento para defini-lo. Além disso, há também várias classificações de cultura, como cultura popular, cultura em- preendedora, cultura erudita, cultura esportiva, entre outras. Neste capítulo, no entanto, será utilizada a ideia de cultura como forma de hábitos e práticas, o que os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL, 1997) definem como tudo o que pode ser transmitido de geração a geração por meio das linguagens. Uma dessas formas de linguagem vem a ser o corpo, a chamada linguagem corporal, elemento indispensável para o esporte. Segundo Guedes e Guedes (1995, p. 15), o esporte é uma “[...] atividade de competição institucionalmente regulamentada, que se fundamenta a superação de competidores ou de marcas/resultados estabelecidos pelo próprio esportista [...]”. No mesmo sentido, Barbanti (2003) afirma que o esporte é uma atividade competitiva institucionalizada que requer grande esforço físico ou mesmo o uso de habilidades motoras relativamente complexas. Corroborando esse argumento, a Resolução nº 046/2002 do Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) define esporte da seguinte forma: Esporte é uma atividade competitiva, institucionalizada, realizado conforme técnicas, habilidades e objetivos definidos pelas modalidades desportivas, determinado por regras preestabelecidas que lhe dá forma, significado e identidade, podendo também, ser praticado com liberdade e finalidade lúdica estabelecida por seus praticantes, realizado em ambiente diferenciado, inclu- sive na natureza (jogos: da natureza, radicais, orientação, aventura e outros) (CONFEF, 2002, documento on-line). Para entender como o esporte se insere como meio de expressão cultural, é preciso saber que a ideia de esporte moderno que se tem hoje começou após o advento da Revolução Industrial, na Inglaterra, a partir das ideias propostas por Thomas Arnold, o que veio a ser chamado de Escola Inglesa. A Revolução Industrial se caracterizou por um conjunto de modificações relacionadas ao trabalho. A principal delas foi a substituição do trabalho artesanal pela utilização das máquinas, com a exploração de mão de obra barata dos operários. Estudo da cultura esportiva2 gilia Destacar 26 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I A Escola Inglesa é baseada nas ideias liberais, dando ênfase aos esportes coletivos modernos, caracterizados por regras. Originários das escolas públi- cas mais abastadas da Inglaterra, Gois Jr. (2015) afirma que os esportes são reinterpretações de jogos populares com regras que controlavam a violência e incumbiam uma educação moral de respeito às normas. Apesar de ser díspar da ginástica, os objetivos dos esportes eram semelhantes, tais como a disciplina, o autocontrole e valores como justiça, obediência, competição e cooperação (GOIS JR., 2015). Com o processo de industrialização, no entanto, surgem conflitos que dão origem às leis trabalhistas. Umas das modificações impostas pela lei é a redução da jornada de trabalho de 16h para 8h diárias. Com isso, o trabalhador teve mais acesso ao lazer, disseminando o esporte nas classes populares. Cabe ressaltar, entretanto, que aindado outro, sendo da sua equipe ou da equipe contrária, o professor consegue estabelecer momentos reflexivos e debates sobre atitudes morais e éticas durante o jogo. A interpretação sobre o jogar com o outro, e não contra o outro, vai sendo construída a cada vivência proposta. Às vezes, é preciso viver a situação para que novos significados sobre os sentimentos revelados nela sejam reconstruídos. Nesse contexto, os jogos pré-desportivos minimizam o caráter formali- zado de um jogo oficial, no qual ganhar é o principal objetivo, e constituem espaços de exploração de diferentes sentimentos. A comunicação direta entre professores e alunos é uma mediação necessária para que sejam incorporados Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal8 216 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I conceitos sobre a amoral e a ética no jogo. Ainda assim, o uso desses jogos não pode ser desvinculado de temas que perfazem o universo do futebol e do futsal, como violência nas torcidas, preconceito, racismo, mulheres jogadoras, mídia, valores do futebol, entre outros. Inclusive, é possível inserir a tais temáticas as estratégias de jogo, nas quais a elaboração e a reconstrução de regras podem ser propostas com o intuito de minimizar essas situações da vida real do universo esportivo. No texto disponível no link a seguir, é possível ler sobre o impacto das mídias digitais, tão utilizadas em tempos atuais, nos valores morais no cenário do futebol. https://qrgo.page.link/gXa9o Dentre os tipos de jogos pré-desportivos, Sadi, Costa e Sacco (2008) desta- cam alguns princípios que devem ser implementados na organização do jogo e que favorecem o ensino dos valores morais, como o princípio da vitória pelo prazer de jogar, a acessibilidade às ações motoras, a valorização das habilidades cognitivas e a compreensão sobre o uso de regras. Esses princípios se revelam nas diferentes jogadas do futebol e do futsal e devem ser trabalhados juntamente com o ensino das habilidades técnicas. É necessário que seja objetivado, entre as unidades do planejamento, momento para essas aprendizagens, mas em situações reais, fato que justifica o uso dos jogos pré-desportivos. Veja alguns exemplos a seguir. Princípio da vitória pelo prazer de jogar Goleira maluca A organização deste jogo é igual à de um jogo formal de futebol ou futsal, contudo, o professor pode estabelecer variações de metas para o jogo, por exemplo, pontuação para cada bola que acerta o travessão, distribuir goleiras em outros espaços do campo e, ainda, colocar arcos pendurados nas goleiras como se fossem alvos com pontuações variadas. 9Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 217 Jogo de resultado invertido Este é um jogo formal de futebol e futsal realizado a partir de tempos determi- nados pelo professor, que podem variar em minutos ou até mesmo segundos. A cada tempo concluído, o resultado é invertido entre as equipes, isto é, pode ser que a equipe que esteja vencendo o jogo por 2 × 1 passe a ficar com o resultado 1 × 2. Acessibilidade às ações motoras Gol predefinido Durante o jogo, o professor estabelece quem poderá fazer gol, ora meninas, ora meninos, ora só com a cabeça, ora só com o pé esquerdo, dentre outras variações. Nessas situações, o uso de cores ou letras podem ajudar na variedade, como meninas com roupa vermelha ou meninos que tenham no nome a letra P. Minijogos Nestes jogos, a quadra ou o campo são divididos em quadrantes, sendo que as equipes deverão jogar entre si dentro do mesmo quadrante. A redução do espaço e do número de jogadores facilita a maior repetição das ações motoras mesmo daqueles menos habilidosos e estimula o respeito aos colegas no momento em que a participação destes é mais efetiva. Valorização das habilidades cognitivas Rouba bola Cada equipe terá um número de 10 bolas ou mais em seu campo. Ao sinal do professor, as equipes deverão, por meio do chute, passar as bolas para o campo da equipe adversária, contudo, também deverão evitar que as bolas da outra equipe fiquem em seu campo, já que ganhará o jogo a equipe que ao final do tempo tiver menos bolas em seu lado do campo. Neste tipo de jogo, além de chutar ou passar a bola, os alunos deverão criar estratégias de organização de como defender ou atacar e até mesmo quais funções cada jogador vai desempenhar. Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal10 218 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Bolas coloridas Durante o jogo formal do futebol ou do futsal, o professor introduz mais de uma bola com cores diferentes, sendo que para cada uma será possível executar uma ação motora específica, por exemplo, a vermelha indica condução e a azul indica o passe. Esse tipo de variação faz com que os alunos empreguem maior atenção a sua participação e, ainda assim, estabeleçam coletivamente funções para os jogadores a partir da cor das bolas. Compreensão sobre o uso de regras Tipos de infrações Antes de iniciar o jogo, os alunos irão elencar infrações disciplinares e téc- nicas que serão evidenciadas durante o jogo. Estas podem ser alteradas e/ou reconstruídas desde que essa decisão seja efetivada coletivamente. Jogo de juízes As equipes serão divididas para jogar, contudo, cada equipe também terá um juiz e serão esses alunos que tomarão as decisões de utilização das regras durante o jogo. Essa função deve ser desempenhada por todos os alunos. Destaca-se que as decisões serão tomadas de forma coletiva, já que sempre haverá mais de um árbitro organizando o jogo. É importante que o professor se coloque como mediador do processo de aprendizagem quando for utilizar os jogos pré-desportivos no ensino dos valores morais. Caberá ao aluno sentir e perceber as ações provadas pelo jogo em suas atitudes e comporta- mentos. Não cabe ao professor apontar erros, mas sim problematizar as situações que emergem de um jogo real. Nessas situações, os alunos são estimulados a contribuir com as reflexões e os debates coletivos conduzidos pela mediação do professor no sentido de potencializar sua capacidade de análise crítica sobre sua participação e a participação dos colegas no jogo. 11Jogos pré-desportivos aplicados ao futebol e ao futsal Pedagogia do Futebol | UNIDADE 3 Jogos Pré-Desportivos Aplicados ao Futebol e ao Futsal | PARTE 4 219 Papel dos jogos pré-desportivos nos treinamentos técnico e tático do futebol e do futsal O trabalho de ensino/treino do futebol e do futsal se fundamenta na proposição de exercitar as vivências técnicas e táticas dos jogadores. Em muitos casos, esses dois fatores são desenvolvidos pelas suas especificidades de forma não relacional, isto é, ainda se busca um desenvolvimento das habilidades técnicas para que estas sejam asseguradas em situações táticas de jogo. Para Bettega et al. (2018), no desenvolvimento de treinos de futebol, os treinadores devem assumir uma perspectiva de trabalho e a construção das atividades não deve se pautar em ações com repostas prontas, mas sim em tarefas abertas que valorizem a compreensão e a interpretação do sistema complexo e ampliado do jogo. Para além de saber realizar tecnicamente as tarefas motoras, o jogador precisa compreender e analisar como executar uma ou outra ação técnica. Esse entendimento ampliado do jogo favorece uma leitura sobre as diferentes possibilidades que podem se apresentar para o uso técnico e, por consequência, referenda as ações coletivas desses esportes. Sendo assim, a estratégia meto- dológica deve: “[...] repousar em práticas com elevada variabilidade de cons- trangimentos, gerando constantes adaptações, possibilidades de descoberta, auto aprendizado e contextualizando a técnica com a tática” (BETTEGA et al., 2018, p. 112). A ideia proposta é estabelecida por atividades que possibilitem ao aluno a escolha/ descoberta da melhor ou mais eficaz ação a sernão havia uma organização para a prática esportiva. Sobre as mudanças causadas pelas leis trabalhistas, Darido e Rangel (2005 apud SILVA; ZAMBONI, 2010, documento on-line) apontam que: [...] esse fato contribuiu para a criação de clubes esportivos, o que influen- ciou diretamente na cultura, pois nesses espaços eram discutidos assuntos políticos e culturais. Festividades eram organizadas e competições de caça, corrida, boxe, lutas eram comuns. Surgia o esporte com fins educativos, recreativos e sociais. No início do século XIX, na Inglaterra, o esporte torna-se um estilo de vida e passa a ser ensinado em escolas, clubes e associações, sendo considerado um meio para promover a educação por meio de jogos esportivos, seguindo critérios de organização, regras, técnicas e padrões de conduta (GOIS JR., 2015). Entre os esportes que ganharam destaque estão o atletismo, o futebol, o rúgbi, o tênis, o boxe, a natação e a patinagem desportiva. Thomas Arnold criou o esporte propriamente dito e o introduziu nas es- colas, bem como estabeleceu regras e formas precisas de organização para as associações desportivas, os clubes universitários, confiando a sua organização aos alunos. O esporte tinha, então, características educacionais e socializantes, como a cooperação, a perseverança, a tomada de iniciativa, o respeito às regras e ao adversário (GOIS JR., 2015). 3Estudo da cultura esportiva gilia Destacar gilia Destacar gilia Destacar Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 27 Os esportes passam a ter relação com o corpo, deixando-o “[...] mais equi- librado, neoclássico, saudável e higiênico [...]” (GOIS JR., 2015, p. 377). Além disso, permitiam que as pessoas se divertissem, esquecendo as pressões do estudo e do trabalho de forma educativa, aprendendo uma nova ética, mas também aumentando sua eficiência para a competição, um tema em voga para o liberalismo (HOLT; VIGARELLO, 2008). Outro uso do esporte foi para a socialização por meio da massificação em escolas públicas, dando a ideia de pertencimento quando o jovem participava de competição representando sua empresa, igreja ou associação. No fim do século XIX, o esporte inglês é exportado e ganha populari- dade em outros países, e, no início do século seguinte, é integrado às grades curriculares em todo o mundo, sendo considerado como o maior fenômeno sociocultural do século XX, devido ao espaço e à importância que tem na sociedade (TUBINO, 2001). Além das práticas de lazer, a massificação do esporte deve-se ao esporte de rendimento, que, segundo Bracht (2011), é o grande influenciador e determinante para as práticas esportivas como forma de lazer, tornando o esporte globalizado. Segundo Pillati (1999 apud ROSSETO JR., 2014), a globalização do esporte supera as barreias de gêneros, crenças religiosas, linguagem e etnias e é a única atividade humana a mobilizar mais de 2 bilhões de pessoas em um evento. Silva e Zamboni (2010) apontam que o esporte tem essa relevância porque movimenta a indústria do lazer, do turismo, do vestuário e, evidentemente, dos equipamentos esportivos. Além disso, há destaque para a pesquisa científica, produtos alimentícios e estudos sobre aptidão física e de desempenho. Rosseto Jr. (2014) aponta que o esporte se tornou um grande produto midiático, passando a ser comercializado, em grande escala, mundialmente. Por exemplo, hoje, há transmissões de grandes eventos esportivos mundiais, como a Copa do Mundo de Futebol, os Jogos Olímpicos, a final do Super Bowl ou da NBA e as corridas de Fórmula 1. Além disso, as modalidades criam ídolos, despertam emoções e geram uma grande receita para a indústria esportiva. Desse modo: O esporte moderno e a globalização são fenômenos que estão assentados no desenvolvimento científico e tecnológico, no surgimento das metrópo- les, no desenvolvimento e aperfeiçoamento dos meios de comunicação e de transportes que começam a formar um mercado das nações; o aumento do tempo livre e do lazer; e a revolução burguesa. Este contexto possibilitou maior democracia e confrontos esportivos entre as nações. O esporte passou a envolver quantias elevadas de capital, arrastar multidões de espectadores, criar ídolos, mitos, intermediários culturais (cronistas, jornalistas, etc.) e vincular-se ao consumo de bens, produtos e serviço (SOARES et al., 2007, p. 69 apud ROSSETO JR., 2014, p. 51). Estudo da cultura esportiva4 28 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Esse processo cultural também influenciou, de forma efetiva, no estilo de vida do grande público, estabelecendo uma relação entre saúde e prática esportiva. Silva e Zamboni (2010) apontam que isso é visível a partir do culto ao corpo. Os autores apontam, ainda, que essa “cultuação” pode ser positiva quando a pessoa implementa um estilo de vida ativo, longe do consumo de drogas lícitas ou ilícitas, afastando-se do sedentarismo, causador de algumas doenças, como as doenças cardiovasculares. No entanto, esse culto ao corpo pode trazer malefícios, visto que o hedonismo pode fazer a pessoa sofrer de bulimia ou anorexia. Por fim, valendo-se das palavras de Silva e Zamboni (2010, p. 1050), o esporte é um assunto tão relevante que nele está impregnado conteúdos de interesse cultural, como: [...] padrão de beleza e saúde dominantes na sociedade, a exclusão e discrimi- nação social daqueles que não se enquadram nos padrões determinados pela mídia, ética do esporte profissional, discriminação sexual e racial dentro do esporte e na sociedade são colocados em discussão [...]. Cultura esportiva alternativa O esporte, historicamente, integra o currículo do curso de educação física de todas as universidades. Sua sugestão como conteúdo desta disciplina também se faz presente nos principais documentos que regem a educação brasileira, como as resoluções do CONFEF, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Apesar de serem bastante disseminados nas aulas de educação física, os esportes apresentados aos alunos, muitas vezes, se limitam aos tradicionais, como futebol, futsal, voleibol, basquete, handebol e atletismo. Embora sejam importantes, esses esportes acabam tornando a aula rotineira, pois, durante anos de estudos, o discente só aprende as mesmas modalidades. Isso também se vê nas grades curriculares de universidades brasileiras, visto que poucos esportes, além dos citados, são estudados por futuros professores. A partir desses fatos, a cultura esportiva alternativa é uma possibilidade para as aulas de educação física. Mas do que se trata essa cultura esportiva? Além de possibilitar o ensino de outras opções de esporte, representa a resistência à hegemonia dos esportes tradicionais. Fermino e Fermino (2018) explicam que os esportes alternativos são os considerados não clássicos, não explorados no campo midiático e profissional. 5Estudo da cultura esportiva Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 29 Segundo Pimentel et al. (2017), o termo esporte alternativo é bastante polissêmico, pois abarca uma quantidade de práticas esportivas que podem receber essa classificação. Sua grande serventia é trazer novas possibilidades aos professores, em contraponto aos esportes institucionalizados, aumentando o leque de opções de esportes a serem desenvolvidos em aula. Como visto, vários esportes pertencem a essa classificação. Costa e Nascimento (2006 apud FERMINO; FERMINO, 2018) citam como exemplo de esportes alternativos a capo- eira, as escaladas, o badminton, entre outros. Pimentel et al. (2017) dão outros exemplos, como: ginásticas orientais (p. ex., Chi Kung, Tai Chi, Shiatsu), esportes adaptados, práticas tradicionais pouco praticadas (p. ex., peteca, corrida de toras) e esportes de aventura. Uma questão importante citada por Pimentel et al. (2017) é que os concei- tos de culturas esportivas alternativa e tradicional são variáveis conforme alocalidade. Por exemplo, enquanto no Brasil o futsal é considerado um esporte tradicional e a yoga é considerada um esporte alternativo, na Índia, tem-se uma situação inversa, visto que a yoga é um esporte convencional. Sobre o ensino das atividades alternativas, um estudo realizado pela UNIPÊ (2008) evidenciou a importância dessas práticas, visto que houve um aumento na participação dos alunos nas aulas de educação física devido ao ensino de duas modalidades: tênis de mesa e badminton. Rodoy (2016, p. 6) sublinha que “[...] ensinar esportes alternativos pode representar uma ação espontânea, interação, o preparo do aluno para executar determinadas habilidades por meio da descoberta do prazer de se exercitar sem a obrigatoriedade competitiva [...]”. Em consonância com essa ideia, Pimentel et al. (2017) afirmam que esses temas, quando abraçados por um profissional que planeja e pensa o seu trabalho, rompem com a lógica do “rola bola”, ainda tão recorrente na educação física. A seguir, serão apresentadas algumas atividades relacionadas à cultura esportiva alternativa que podem ser utilizadas nas aulas de educação física. Estudo da cultura esportiva6 30 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Capoeira Segundo Silva e Darido (2017), entre os aspectos essenciais a serem ensinados sobre a capoeira estão a origem, o histórico, as vertentes, os instrumentos, os elementos e a roda. A capoeira é provavelmente nativa dos quilombos brasileiros, a qual era utilizada como meio de defesa dos escravos (VIDOR; REIS, 2013). A ideia foi disfarçar a luta em forma de dança para se defender das agressões sofridas. No entanto, antes de virar uma expressão cultural, a capoeira foi duramente perseguida pela polícia. No século XIX, no período imperial (1808–1889), a ca- poeira era presença frequente nas páginas policiais dos jornais da Corte. Silva, Oliveira e Morais (2008, p. 51) aponta que, durante muito tempo, a capoeira foi “[...] estigmatizada, estereotipada, marginalizada, criminalizada e objeto de controle social, pelo Estado brasileiro, escravista e racista [...]”. Segundo o autor, os negros capoeiristas eram estereotipados como vagabundos que não trabalhavam, mas apenas dançavam nas rodas de capoeira (SILVA, 2016). No fim do século XIX, a partir da década de 1870, a pressão para que a capoeira fosse criminalizada aumentou. Em 1890, o artigo 402, sobre “vadios e capoeiras”, do novo Código Penal, tornava criminoso quem praticava capoeira. No entanto, Vidor e Reis (2013, p. 18) sublinham que, no início do século XX, “[...] alguns intelectuais e militares cariocas passaram a ver a capoeira como uma ‘luta nacional’ e uma ‘excelente ginástica’, que deveria ser ensinada ‘nos colégios, quarteis e navios’ de todo o país [...]”. A afirmação da capoeira ocorreu na Bahia, como um “jeito negro” de praticar, por meio de duas escolas: a Capoeira Regional, de Mestre Bimba, e a Capoeira Angola, de mestre Pastinha: O estilo Angola, mais tradicional e de origem africana, seria uma variação da dança ritual chamada n'gol, praticada pelo povo Mucope, originário do sul da África, em território pertencente hoje a Angola. Nesse estilo, os opo- nentes se enfrentam com golpes de pés usando o apoio das mãos, cercado por observadores que formam uma roda. Esse estilo caracteriza-se pela maior valorização do gingado do corpo e por uma sequência de passos de chão. O outro estilo é o Regional, criado no Brasil e fortemente difundido por mestre Bimba. Esse estilo valoriza os movimentos acrobáticos e os grandes saltos. Nos dois casos o ritmo combate/jogo é marcado ao som de palmas e de ins- trumentos musicais como o pandeiro, atabaque, caxixi, agogô e o principal deles, o berimbau (TELLES; MELO, 2013, p. 21). 7Estudo da cultura esportiva gilia Destacar gilia Destacar gilia Destacar Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 31 Entre os elementos do jogo, destacam-se: a roda, o lugar onde ocorre o jogo e onde os jogadores se expressam, sendo que jogam dois por vez. O responsável pela roda é o mestre de capoeira, autoridade máxima do jogo (VIDOR; REIS, 2013). O combate se inicia com os jogadores se benzendo e levando a mão ao chão, quando também tocam o berimbau: Em seguida, dão-se as mãos e fitam-se mutuamente, aguardando que o tocador do berimbau berra-boi o incline sobre a cabeça deles. O berimbau, além de sua notabilidade como principal instrumento da orquestra musical da capoeira, é representado também como a maior autoridade da roda de capoeira, uma vez que a ordem para entra nela - e, muitas vezes, para sair - é por ele emitida. Esse gesto de inclinação do berimbau é visto pelos capoeiristas como uma autorização ou uma benção para seu ingresso na roda. A partir desse momento, como todos os capoeiristas sabem, o máximo cuidado é pouco, pois tudo pode acontecer (VIDOR; REIS, 2013, p. 77). Entre os instrumentos da capoeira, destaca-se o berimbau, em número de três em cada roda, com funções diferentes. São os berimbaus que definem o estilo do jogo (Regional ou Angola) e impõem o seu andamento. Na roda, o berimbau é acompanhado por um atabaque, um pandeiro, um agogô e um reco-reco (VIDOR; REIS, 2013). Cabe ressaltar que a capoeira é o único jogo-luta que se utiliza de instrumentos musicais. Sobre os movimentos, Silva e Darido (2017) apontam que a capoeira se caracteriza por ser uma prática de movimentos contínuos e circulares, fluídos um após o outro, visto que há o ataque e a defesa. Entre os principais movi- mentos da capoeira estão: a ginga, a benção, a meia-lua de frente, o martelo, as esquivas, o aú e a cocorinha. Todos esses elementos são utilizados na roda, onde o jogo entre dois capoeiristas ocorre e os demais tocam e batem palmas. Com a Lei nº 11.639, em 2003, a capoeira passa a ser vista como um recurso pedagógico para se trabalhar o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas. Contudo, a capoeira ainda encontra muitas dificuldades para constar como conteúdo curricular nas escolas, devido ao preconceito e à falta de conhecimento (SILVA, 2007). Badminton Outro esporte que tem ganhado espaço como cultura alternativa é o badminton. Essa modalidade tem origem indiana e era conhecida como poona. De acordo com Ginciene e González (2017), devido à colonização inglesa, no século XVI, esse esporte difundiu-se pela Europa. Segundo os autores, esse esporte Estudo da cultura esportiva8 32 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I tem bastante adeptos no Brasil, devido à facilidade que o aprendiz tem para executar os movimentos logo no início dos ensinamentos. Além disso, é uma modalidade que se adapta bem aos espaços físicos das escolas, pois necessita de dimensões relativamente pequenas. O objetivo do badminton é rebater a peteca sobre a rede para que ela to- que o solo da quadra adversária. O jogo é dividido em sets, sendo declarado vencedor aquele que alcançar 21 pontos corridos e vencedor da partida aquele que somar dois sets. Assim como no vôlei, é necessário abrir dois pontos de vantagem para vencer, no entanto, o badminton apresenta um limite máximo de 30 pontos. Ginciene e González (2017, p. 65) destacam que o badminton “[...] pro- move o desenvolvimento cultural, traz a possibilidade de diferentes práticas de movimento ainda pouco conhecidas no Brasil, além do desenvolvimento educacional, com ações de fair play e coeducação necessárias ao bom an- damento do jogo [...]”. Caso não possua o material oficial, é possível que o professor confeccione as raquetes e a peteca de formas muito simples, sendo este, portanto, um esporte de baixo custo e de fácil aplicação. Esportes de aventura Os esportes de aventura são práticas corporais que vêm ganhando muitos adeptos no mundo inteiro, inclusive entre crianças e adolescentes. No Brasil, alguns desses esportes são bastante populares, como no caso do skate, que está presente em quase 3,2 milhões de domicílios. Outra modalidadebastante popular é o surfe, pioneira das práticas corporais de aventura, com números similares de praticantes do skate (FRANCO; CAVASINI; DARIDO, 2017). Essas práticas de aventura sempre existiram, porém não eram denomi- nadas esporte pois, no início, não tinham essa finalidade. Hoje, os esportes de aventura podem ser classificados por local — terra, água ou ar — onde ocorrem as atividades. � Exemplos de esportes na terra: corrida de aventura, arvorismo, escalada, mountain bike, skate e slackline. � Exemplos de esportes na água: canoagem, rafting, mergulho e surfe. � Exemplos de esportes no ar: asa delta, balonismo, bungee jump, para- quedismo e tirolesa. 9Estudo da cultura esportiva Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 33 Para o ensinamento dessas práticas, o professor necessita ter alguns cuida- dos, geralmente relacionados com os riscos. De acordo com Franco, Cavasini e Darido (2017, p. 144): As práticas corporais de aventura possuem forte relação com os riscos, gerando a demanda por esforços estruturados que superem a simples intencionalidade de promover práticas seguras. Portanto, torna-se relevante a compreensão destes riscos, que podem ser conceituados como o efeito das incertezas sobre os objetivos estabelecidos e variam de acordo com cada atividade, também podendo ser subjetivos, quando relacionados às percepções dos praticantes, ou reais, quando relacionado aos riscos existentes em determinados momentos. A presença de riscos não impede a realização das práticas corporais de aven- tura, pois os riscos são inerentes a estas atividades e se relacionam a aspectos potenciais e motivacionais, entretanto, geram a necessidade de abordagens específicas de gerenciamento. Estas abordagens podem ser compreendidas como um conjunto coordenado de atividades e métodos, os quais buscam controlar os riscos que podem afetar a capacidade de atingir os objetivos estabelecidos. Para suprir os possíveis riscos, são necessárias algumas medidas, como conhecer o local e saber quais os incidentes possíveis, para reduzir as pro- babilidades de que um acidente ocorra. Os esportes de aventura também são importantes para a compreensão, a valorização e a preservação do meio ambiente. Para conhecer sobre a cidade de Socorro/SP, bastante conhecida pelos esportes de aventura, assista ao vídeo disponível no link a seguir. https://qrgo.page.link/n9rNW Manifestações da cultura esportiva por diferentes segmentos sociais Como visto, o esporte é um fenômeno sociocultural que está presente em todos os segmentos sociais. Desse modo, fazer uma análise do alcance da cultura esportiva é algo bastante complexo, pois é uma vertente que ainda carece de Estudo da cultura esportiva10 34 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I pesquisas. No entanto, a saber, tem-se esportes reconhecidamente populares, como o futebol, o voleibol, o basquete e o handebol, e esportes direcionados a um público mais específico, como o tênis, o golfe e o hipismo, que são esportes que atingem um segmento elitizado. Ao analisar o caso do Brasil, percebe-se que o esporte tem bastante se- guidores, como o caso do futebol, porém, apesar de estar impregnado em nossa cultura, o mesmo não se ocorre nas condutas de práticas esportivas. A última pesquisa do IBGE, realizada no ano de 2017, aponta que mais de 60% da população não pratica nenhuma modalidade esportiva (Figura 1). Essa pesquisa aponta também que o perfil do público que se envolve mais com as atividades da cultura esportiva são homens mais jovens e população com maior escolaridade e de maior renda. Por meio dos dados do IBGE, pode-se analisar que a prática esportiva alcança pessoas com maior escolaridade, logo, supõe-se que são pessoas que têm maiores informações sobre a importância do esporte para o estilo de vida. Quanto ao gênero, o IBGE aponta que a prá- tica de esporte entre os homens (31,7%) foi muito superior à observada entre as mulheres (16,9%). A região que apresentou taxas mais próximas quanto a homens (34,1%) e mulheres (21,9%) foi a Centro-Oeste. A maior taxa de praticantes de esporte foi registrada entre os homens da Região Norte (36,0%), ao passo que a menor, entre as mulheres da Região Nordeste (14,2%). Figura 1. Pesquisa do IGBE de 2017 sobre a prática esportiva no Brasil. Fonte: G1 (2017, documento on-line). 11Estudo da cultura esportiva Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 35 O estado do Amazonas é o que tem mais “esportistas”, com 32,2% da população pesquisada, ao passo que o Rio de Janeiro aparece percentualmente em último lugar, com 18,9%. No que se refere ao nível de instrução, quanto mais escolarizada a popu- lação, maior o percentual de pessoas que praticavam algum esporte. Para as pessoas com menor escolaridade, a média nacional foi de 9%, ao passo que para aquelas com nível superior completo foi de 35,1%. Na análise da prática de esporte por rendimento mensal domiciliar per capita, observou-se que, na classe que recebe 1 ou menos de 2 salários mínimos, 22,9% das pessoas pra- ticaram algum esporte, ao passo que na classe que recebe 5 salários mínimos ou mais, 39,8% o fizeram (IBGE, 2017). Quanto ao principal esporte praticado no Brasil, o futebol foi o vencedor, sendo a preferência de 39,3% da população. Pode-se dizer, então, que esse esporte é o mais praticado no país, pois ficou na primeira colocação em todas as regiões: Região Norte (55,9%), seguida pelas Regiões Nordeste (48,8%), Sul (35,1%) e Sudeste (33,3%), e, por fim, a Região Centro-Oeste (32,9%). Na sequência dos esportes mais praticados pela população brasileira, tem-se: ciclismo e ginásticas rítmica e artística (3,2%); lutas e artes marciais (3,1%); e voleibol, handebol e basquetebol com 2,9% cada. Outros esportes, como natação, atletismo, esportes de aventura, paradesporto e skate, foram lembrados por 14,1% dos brasileiros. Na divisão por sexo, o futebol segue sendo mais praticado por homens, visto que 94,5% dos praticantes entrevistados pertencem ao sexo masculino. Na sequência da prática esportiva masculina estão o ciclismo, as lutas e o atletismo. Já as mulheres apresentam a dança como modalidade preferida, vindo na sequência a ginástica artística, sendo esta, então, o esporte mais praticado, uma vez que a dança não é considerada um esporte. Outro dado importante é quanto à localização: 33,7% dos praticantes pagam para realizar o esporte escolhido em locais privados. Já em relação à frequência, conforme apresentado no Quadro 1, na amostra total, 26,3% dos brasileiros praticam esportes quatro ou mais vezes por semana e 43% praticam por mais de uma hora. Estudo da cultura esportiva12 36 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Gênero associado à frequência da prática de esporte Distribuição das pessoas com idade a partir de 15 anos que praticaram algum esporte, no período de referência de 365 dias (%) Brasil Grandes regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Oeste Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Menos de uma vez por semana 7,8 10,4 6,7 7,7 8,6 6,8 Uma vez por semana 21,4 19,9 20,9 20,9 26,6 16,9 Duas vezes por semana 20,9 21,4 18,9 21,5 21,6 21,5 Três vezes por semana 23,6 23,6 23,5 23,8 21,7 27,0 Quatro vezes por semana ou mais 26,3 24,7 29,9 26,0 21,5 27,8 Homens 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Menos de uma vez por semana 9,5 11,1 8,3 10,0 10,3 7,7 Uma vez por semana 27,7 23,5 26,6 28,1 33,7 23,2 Duas vezes por semana 20,5 22,2 20,6 19,6 20,8 22,1 Três vezes por semana 19,7 20,5 19,8 19,6 17,7 22,6 Quatro vezes por semana ou mais 22,6 22,6 24,7 22,7 17,6 24,4 Quadro 1. Frequência e duração da prática esportiva (Continua) 13Estudo da cultura esportiva Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 37 Fonte: Adaptado de IBGE (2017). Gênero associado à frequência da prática de esporte Distribuição das pessoascom idade a partir de 15 anos que praticaram algum esporte, no período de referência de 365 dias (%) Brasil Grandes regiões Norte Nordeste Sudeste Sul Centro- Oeste Mulheres 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 Menos de uma vez por semana 4,8 8,8 3,6 4,1 6,1 5,6 Uma vez por semana 10,5 12,3 9,7 9,2 15,7 7,9 Duas vezes por semana 21,5 19,6 15,7 24,6 22,8 20,6 Três vezes por semana 30,4 30,0 30,9 30,6 27,8 33,4 Quatro vezes por semana ou mais 32,7 29,3 40, 31,5 27,6 32,6 Quadro 1. Frequência e duração da prática esportiva (Continuação) Assim, pode-se perceber que, entre os homens, a maior prevalência é de uma vez por semana (27,7%), sendo que 50,4% praticam por mais de uma hora. Já as mulheres costumam praticar quatro vezes ou mais (32,7%) por semana, mas com uma duração menor, visto que 47,9% praticam de 40 minutos a uma hora por vez (IBGE, 2017). Estudo da cultura esportiva14 gilia Destacar 38 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I BARBANTI, J. Dicionário de educação física e esporte. Barueri: Manole, 2003. BAUMAN, Z. Ensaios sobre o conceito de cultura. Rio de Janeiro: Zahar, 2012. BRACHT, V. Dilemas no cotidiano da educação física escolar: entre o desin vestimento e a inovação pedagógica. Salto para o Futuro, [s. l.], v. 21, n. 12, p. 14–20, 2011. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais: introdução aos parâmetros curriculares nacionais. Brasília: MEC, 1997. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/livro01.p. Acesso em: 19 dez. 2019 CONFEF. Resolução nº 046/2002. 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Acesso em: 19 dez. 2019. 15Estudo da cultura esportiva Conhecendo o Esporte | UNIDADE 1 Estudo da Cultura Esportiva | PARTE 2 39 PIMENTEL, G. et al. Atividades alternativas na educação física escolar. 2017. Disponível em: http://unifafibe.com.br/revistasonline/arquivos/revistaeducacaofisica/suma- rio/56/30082017172544.pdf. Acesso em: 19 dez. 2019. RODOY, T. Esportes alternativos como prática esportiva motivadora para jovens estudantes do ensino médio. 2016. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/portals/ cadernospde/pdebusca/producoes_pde/2016/2016_pdp_edfis_unioeste_tanialoti- cirodoy.pdf. Acesso em: 19 dez. 2019. ROSSETO JR., A. Cultura e esporte: o possível diálogo. Revista da ALESDE, Curitiba, v. 4, n. 2, p. 46–55, 2014. SILVA, A. C.; ZAMBONI, M. J. Educação física, esporte e cultura no ensino superior: íntimas relações com o Brasil e a atualidade. Motriz, Rio Claro, v. 16, n. 4, p. 1045–1051, 2010. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/motriz/v16n4/a25v16n4.pdf. 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PREZADO ESTUDANTE Parte 3 Pedagogia do Esporte Aplicada às Práticas Inclusivas O conteúdo deste livro é disponibilizado por SAGAH. unidade 1 V.1 | 2021 42 METODOLOGIA DO ENSINO DOS ESPORTES I Pedagogia do esporte aplicada às práticas inclusivas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Definir as práticas pedagógicas inclusivas aplicadas ao esporte em geral. � Reconhecer o papel pedagógico do esporte. � Elaborar propostas de inclusão por meio do esporte. Introdução O esporte pode ser definido como uma ação social institucionalizada, constituída por regras e que se dá a partir do desenvolvimento lúdico. No formato de competições, entre dois ou mais adversários ou oponentes, e pela comparação dos níveis de desempenho, define-se alguém que obtém a vitória ou registra um recorde. E as finalizações dos jogadores resultam das habilidades e competências próprias utilizadas (BETTI, 1991; DARIDO; RANGEL, 2011). Na condição de um elemento cultural e estando diretamente rela- cionado ao movimento, o esporte tem como objetivo incluir o aluno/ jogador, o que exige uma tratativa didática e pedagógica adequada tanto na escola quanto em outras instituições da sociedade, que se caracterizam como ambientes importantes para discutir e promover ações esportivas em geral (DARIDO; RANGEL, 2011). Neste capítulo, você definirá práticas pedagógicas inclusivas aplicadas ao esporte em geral, reconhecerá o papel pedagógico do esporte e, ainda,