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DIREITO CONSTITUCIONAL – MARCELO NOVELINO AULA IV - DATA: 07.09.2020 Material complementar: Lesen (2020), Ouse (2020) e EMAGIS (2020) Poder Constituinte (continuação) HIATO CONSTITUCIONAL A noção de hiato constitucional foi desenvolvida por Ivo Dantas. Segundo o autor, o Hiato Constitucional ocorre quando há um embate entre o conteúdo da Constituição e a realidade social, gerando uma interrupção dos processos e fluxos constitucionais. As revoluções são exemplos de hiatos constitucionais. Em outras palavras, ocorre hiato constitucional quando a realidade, por uma série de questões políticas e sociais, vai para um caminho contrário ao que a Constituição diz. Ou seja, quando há um choque entre o conteúdo da Constituição política (uma das formas do direito legislado) e a realidade social ou sociedade. A realidade não aceita se subordinar às regras da Constituição. Ocorrendo o hiato, segundo Ivo Dantas, quatro consequências podem ocorrer: i) Mutação Constitucional: O texto é mantido, mas se altera o seu sentido; a lacuna verificada diante da falta de correspondência entre o texto posto e a realidade social pode causar a necessidade de mudança do sentido interpretativo da norma posta, ou seja, o instituto da mutação constitucional, por meio do qual a letra do texto é mantida, mas a ela é atribuído um novo sentido interpretativo, nos termos da realidade social evolutiva; ii) Reforma Constitucional: Elaboram-se Emendas à Constituição; a lacuna também poderá acarretar a necessidade de manifestação formal do poder de reforma, por meio das emendas constitucionais, manifestação do poder constituinte derivado reformador; iii) Reformulação Democrática: Chama-se uma Assembleia Nacional Constituinte; diante da falta de correspondência entre o texto posto e a realidade social, poderá surgir espaço para o “momento constituinte” democrático e a elaboração pelo poder constituinte originário de novo documento que encontre legitimidade social; iv) Hiato Autoritário: A crise abre espaço para o autoritarismo. Exemplo: AI- 5. A quebra do processo político também poderá dar espaço para a ilegítima outorga constitucional, manifestando-se o poder autoritário e fazendo com que o hiato constitucional se transforme em hiato autoritário. BLOQUEIOS AO PODER CONSTITUINTE DO POVO Segundo Bercovici, historicamente, as forças realmente controladoras do poder político criam artifícios jurídico-constitucionais para impedir a plena e efetiva chegada do povo ao poder para assumir as rédeas do destino da sociedade. Isso são bloqueios ao Poder Constituinte do Povo. Assim, os grupos minoritários hegemônicos, muitas vezes, criam dentro das Constituições artifícios para limitar a manifestação do Poder Constituinte do povo. O “estado exceção permanente” para Bercovici, por exemplo, é um sofisticado estratagema de bloqueio da soberania popular, típico das Constituições da segunda metade do século XX, de, por meio da alegação de situações de crise institucional ou econômicas (reais ou artificiais), ativar os mecanismos de exceção da Constituição, limitando a participação popular. Para finalizar, nas palavras de Bercovici: “Quando os argumentos da emergência são utilizados para todo tipo de crise, os limites entre normalidade e exceção são ultrapassados e a emergência vira regra. [...]. A política de exceção permanente destrói o regime constitucional. O estado de exceção não está mais a serviço da normalidade, mas a normalidade a serviço da exceção. As emergências internacionais e suas consequências internas tendem a se tornar frequentes, inutilizando a tradicional distinção entre normalidade do Estado e extraordinariedade da guerra, entre regra e exceção. Os poderes excepcionais funcionam constantemente, sem nenhuma declaração formal, com medidas excepcionais sendo tomadas a todo tempo. A garantia da segurança se tornou a questão central, redescobrindo-se o discurso da razão de Estado e da necessidade como justificadores do afastamento da normalidade e da normalização da exceção”. CLÁUSULAS PÉTREAS Quando a CF/1988 se refere às limitações materiais no art. 60, § 4º, ela utiliza a expressão “tendente a abolir”, a qual deve ser entendida de forma a proteger o núcleo essencial de certos direitos. Isso não significa que o dispositivo não possa sofrer modificações. ✓ Segundo o entendimento do STF, o que as cláusulas pétreas protegem não é a intangibilidade do dispositivo, mas sim o núcleo essencial de certos princípios e institutos. CF, Art. 60, § 4º: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: I - a forma federativa de Estado; II - o voto direto, secreto, universal e periódico; III - a separação dos Poderes; IV - os direitos e garantias individuais.” STF – ADI 2.024/MC/DF: “(...) de resto as limitações materiais ao poder constituinte de reforma, que o art. 60, § 4º, da Lei Fundamental enumera, não significam a intangibilidade literal da respectiva disciplina na Constituição originária, mas apenas a proteção do núcleo essencial dos princípios e institutos cuja preservação nelas se protege.” Exemplo: art. 16 da CF – versa sobre a anterioridade eleitoral. O dispositivo foi alterado pela EC 04/1993 e tal alteração foi considerada legítima pelo STF. STF – ADI 3.685: “A modificação no texto o art. 16 pela EC 4/1993 em nada alterou seu conteúdo principiológico fundamental. Tratou-se de mero aperfeiçoamento técnico levado a efeito para facilitar a regulamentação do processo eleitoral. Pedido que se julga procedente para dar interpretação conforme no sentido de que a inovação trazida no art. 1º da EC 52/2006 somente seja aplicada após decorrido um ano da data de sua vigência.” *** Por que não podem ser alteradas sem que se faça uma nova constituição? É um mecanismo para proteger a cara da Constituição. Estas limitações impedem alteração de determinados conteúdos consagrados na Constituição. Estes conteúdos que não podem ser alterados são chamados de cláusulas-pétreas (são cláusulas mais rígidas da Constituição). Não são antidemocráticas. Finalidades das cláusulas pétreas: a) Assegurar metas a longo prazo (é também o seu objetivo) – proteger a própria sociedade de suas miopias, de suas próprias fraquezas; b) Preservar a identidade material da Constituição; c) Assegurar a continuidade do procedimento democrático. d) Proteger instituições (institutos e valores) de valores essenciais. Teoria do Pré-comprometimento (Jon Elster): Ao estabelecer cláusulas pétreas, a CF visa a assegurar o processo democrático resguardando metas a longo prazo e protegendo a sociedade de suas próprias miopias. Segundo a teoria do pré-comprometimento, a proteção de determinados conteúdos pelas constituições visa a assegurar o próprio processo democrático, resguardando metas a longo prazo, a fim de proteger a sociedade de suas inconsistências temporais. A cláusula pétrea seria um mecanismo de autovinculação da sociedade, voltado à proteção de si própria contra suas paixões e fraquezas, resguardando metas a longo prazo. O ser humano tem certa miopia para enxergar interesses a longo prazo, muitas vezes mais importantes que os de médio e curto prazo. Não houvesse as cláusulas pétreas, a maioria sempre tentaria fazer prevalecer seus interesses, para se perpetuar no poder. O autor faz uma analogia com a Odisseia, na passagem do “canto das sereias”. Quando Ulisses passa pela região da tentação das sereias, ele é amarrado no mastro. Essa é justamente a ideia: evitar que a sociedade sucumba ao “canto das sereias”. O próprio autor, todavia, alterou posteriormente seu entendimento, por considerá-lo inocente demais. Em nova obra, intitulada “Ulisses desacorrentado” (“Ulysses Unbound”), ele passou a defender que a maioria, naverdade, acorrenta o outro com o receio de que, no futuro, ele venha a se tornar majoritário. Ou seja, a maioria está na verdade acorrentando as minorias do momento, para que elas não se tornem depois maioria e queiram mudar as regras do jogo. Assim, não seria Ulysses se acorrentando, mas acorrentando os outros. Ulisses desacorrentado: Na realidade, a maioria de hoje está acorrentando os outros para o caso de amanhã eles se tornarem a maioria. Teoria da Democracia Dualista (Bruce Ackerman): As decisões adotadas pelo povo em momentos de grande mobilização cívica devem ser protegidas contra as deliberações de seus representantes manifestadas em momentos nos quais a cidadania não esteja presente de forma tão intensa. Faz uma distinção entre 2 tipos de política: Política Ordinária – decisões cotidianas dos representantes. Política Extraordinária – é exatamente o momento constituinte, em que o povo se mobiliza e forma a Constituição. ✓ Existem duas espécies de cláusulas pétreas consagradas na Constituição: expressas e implícitas. 1 - Cláusulas pétreas expressas ou explícitas: CF, art. 60, § 4º: “Não será objeto de deliberação a proposta de emenda tendente a abolir: • “I - a forma federativa de Estado”; A forma federativa de Estado vem sendo considerada cláusula pétrea desde a primeira constituição republicana (1891). O núcleo essencial da forma federativa de Estado é a autonomia conferida aos entes federativos. ✓ A autonomia concedida pela CF/1988 aos entes da federação não pode sofrer interferências indevidas. Não pode haver redução desproporcional da autonomia conferida aos entes federativos. O Supremo Tribunal Federal, com base nesse entendimento, considerou que o princípio da imunidade tributária recíproca (art. 150, CF) é cláusula pétrea decorrente da forma federativa de Estado, pois visa à proteção da autonomia dos entes da federação, razão pela qual não pode ser violada por Emenda. • “II - o voto direto, secreto, universal e periódico;” O que é universal não é o voto, é o direito de sufrágio. O que é secreto, também não é o voto, mas sim o escrutínio. Não se consagra como cláusula pétrea o voto obrigatório. A obrigatoriedade do voto não é cláusula pétrea expressa. Prevalece na doutrina o entendimento de que o voto obrigatório não é cláusula pétrea implícita. O voto não é secreto, o escrutínio (modo como o direito de voto é exercido) é que é secreto. O voto também não é universal, o que é universal é o direito de sufrágio (direito de participar das eleições, votando ou sendo votado). • “III - a separação dos Poderes;” A separação dos poderes impede que haja uma alteração que afete o equilíbrio entre os poderes. Observação: “Biding effect” é o efeito vinculante, decorrente do sistema do “stare decisis”. Nos EUA, as decisões judiciais são vinculantes. No Brasil, isso não ocorre. Para sanar esta deficiência, a Constituição de 1934 criou o papel do Senado de suspender a execução de lei declarada inconstitucional pelo STF. ✓ Assim, não afeta a função típica do Poder Legislativo (e a consequente separação de poderes) o fato de retirar esta competência do Senado Federal por meio de Emenda constitucional. A separação de poderes visa a evitar que sejam retiradas funções típicas dos Poderes constituídos. • “IV - os direitos e garantias individuais.” A CF/1988 não fala em direitos e garantias fundamentais, mas em direitos e garantias individuais. ✓ Direitos fundamentais são o gênero e este compreende os direitos individuais, direitos coletivos, direitos sociais, direitos de nacionalidade e direitos políticos. Assim sendo, os direitos e garantias individuais constituem uma espécie dos direitos fundamentais. Observação: os direitos e garantias individuais, embora estejam sistematizados no art. 5º da CF, não se restringem a ele. Exemplo: art. 16 da CF – princípio da anterioridade eleitoral. ✓ A liberdade de associação e a liberdade de reunião são direitos individuais de participação coletiva. O exercício desses direitos só pode ocorrer de forma coletiva. Assim sendo, esses direitos constituem cláusulas pétreas. É possível reconhecer outros direitos fundamentais (fora do art. 5º) como cláusulas pétreas, desde que haja a respectiva justificativa. Exemplos: direito à saúde, educação, alimentação. Embora sejam direitos sociais, eles estão intimamente ligados à dignidade da pessoa humana. Atenção: uma parte da doutrina entende que se deve ler o termo “individuais” como “fundamentais” - ou seja, todos seriam cláusulas pétreas expressas. Este ponto de vista, adotado por Ingo Sarlet, é objeto de divergência na doutrina. Atenção: Para o CESPE esta afirmativa está errada: todos os direitos e garantias fundamentais previstos na CF foram inseridos no rol de cláusulas pétreas. Somente direitos e garantias individuais são considerados como rol de cláusulas pétreas. Atenção: Para Ingo Sarlet não existe na CF/88 qualquer diferenciação no texto constitucional de regime entre os direitos fundamentais e que todos os direitos fundamentais são cláusulas pétreas. O professor Novelino entende que, se o constituinte quisesse consagrar todos os direitos fundamentais, ele teria feito expressamente. O professor defende a ideia de que os direitos e garantias individuais são cláusulas pétreas que não se restringem ao art. 5º da Constituição Federal. ✓ Há, ainda, uma visão intermediária (Paulo Bonavides), a qual defende que nem todos os direitos fundamentais seriam cláusulas pétreas, mas apenas alguns deles, como os direitos sociais. STF – ADI 3.367/DF: “Conselho Nacional de Justiça. Instituição e disciplina. Natureza meramente administrativa. Órgão interno de controle administrativo, financeiro e disciplinar da magistratura.(...) Ofensa a cláusula constitucional imutável (cláusula pétrea). Inexistência. Subsistência do núcleo político do princípio, mediante preservação da função jurisdicional, típica do Judiciário, e das condições materiais do seu exercício imparcial e independente.” 2 – Cláusulas pétreas implícitas: Cláusulas pétreas implícitas são aquelas que não estão elencadas no art. 60, § 4º da CF, mas que, por algum motivo, podem ser justificadas como cláusulas intangíveis. A doutrina costuma citar as seguintes cláusulas pétreas implícitas: 1ª - Limitações (CF, art. 60): Dupla revisão (“dupla reforma” ou “reforma em dois tempos”) Vários doutrinadores sustentam que as limitações previstas no art. 60 da CF/88 são cláusulas pétreas. O Poder Reformador não pode alterar seus próprios limites, sob pena de que eles não tenham a devida eficácia. A dupla reforma, dupla revisão ou reforma em dois tempos não é admitida pela grande maioria da doutrina brasileira. Na dupla reforma, em um primeiro momento, afasta-se uma limitação contida no texto constitucional para, posteriormente, alterar o conteúdo da constituição. Exemplo: a pena de morte é vedada pela CF, art. 5º, XLVII, “a”. Caso o constituinte derivado desejasse consagrar a pena de morte para crimes hediondos, ele não poderia elaborar uma emenda, pois ela seria incompatível com a cláusula pétrea. Questiona-se: o constituinte poderia revogar o art. 60, § 4º, IV? Em caso positivo, os direitos e garantais individuais deixariam de ser cláusulas pétreas e, por conseguinte, a pena de morte também deixaria de sê-la e poder-se-ia consagrar a pena de morte para crimes hediondos. Esse procedimento seria considerado dupla reforma e ela não é aceita pela legislação brasileira. A doutrina constitucionalista majoritária entende que há vedação na Constituição Federal de 1988 à aplicação da Teoria da Dupla Revisão. A referida teoria estabelece que é legítima a vontade do Poder Constituinte Originário em impedir a modificação da Constituição em alguns pontos, porém, aceita que esses parâmetros protegidos sejam modificadospelo Constituinte Derivado, permitindo, a partir daí, a dupla revisão da Constituição. Com isso, o instituto da dupla revisão autorizaria, por exemplo, que uma emenda constitucional retirasse da Constituição as cláusulas pétreas e, sem que não mais existam os limites impostos, outras emendas modificariam qualquer princípio-base da Constituição. Referida teoria não é acolhida no Brasil, tendo em vista a ocorrência de limitações implícitas no texto constitucional, entre elas, a relativa ao art. 60, § 4o, da CF/88. 2ª - Titularidade do Poder Constituinte: a titularidade do Poder Constituinte (Originário ou Derivado) não pode ser objeto de modificação - ela sempre pertence ao povo. Nelson de Souza Sampaio indica, em sua obra, que se trata de cláusula pétrea implícita e, portanto, não poderia ser alterada. 3ª – Sistema presidencialista e forma republicana: não há na doutrina um consenso sobre elas. Há três posicionamentos a respeito: • Minoritário: como o sistema presidencialista e forma republicana não estão expressamente previstos como cláusulas pétreas, poderia haver uma emenda para modificá-los. Trata-se de argumento bastante fraco, pois existem cláusulas pétreas implícitas. • Ivo Dantas: o sistema presidencialista e a forma republicana só não foram consagrados como cláusulas pétreas expressas porque o próprio legislador constituinte originário trouxe a previsão de um plebiscito em sete de setembro de 1993 - é como se o Poder Constituinte Originário tivesse conferido ao povo, naquele momento, a legitimidade para decidir se queria ou não alterar tais cláusulas pétreas. A partir do momento em que houve uma decisão popular (plebiscito), o sistema de governo e a forma de governo se tornaram imutáveis. • É possível alterar o sistema presidencialista e a forma republicana, desde que haja um novo plebiscito. Em outras palavras, eles não são cláusulas pétreas, mas não podem ser simplesmente modificados por reforma, já que houve uma consulta popular, na qual o povo decidiu pela manutenção do sistema e pela forma de governo. *** É possível ampliar o rol de cláusulas pétreas previsto no art. 60, §4º da CF? Prevalece na doutrina que não é possível. Por uma questão lógica, o Poder Reformador não poderia criar limitações ao seu próprio poder. Esse é o entendimento do Ministro Gilmar Mendes. Entretanto, há uma exceção a esse entendimento: nada impede que novos direitos e garantias individuais sejam incorporados ao texto constitucional, seja por emenda constitucional, seja pela incorporação de tratados internacionais de direitos humanos (com status constitucional) ao ordenamento jurídico. Exemplo: inserção do LXXVIII no art. 5º pela EC 45 de 2004 (razoável duração do processo), tendo como fundamentos: a) art. 60, parágrafo quarto da CF; b) princípio da vedação de retrocesso. Direito adquirido e Constituição: A CF deve respeitar os direitos adquiridos? Temos que fazer uma distinção entre dois aspectos: a) constituição nova; b) emenda constitucional. a) Em face de uma nova Constituição: *** O Poder Constituinte originária está obrigado a respeitar os direitos adquiridos? O STF entende que os direitos adquiridos não são oponíveis a uma nova constituição. O poder constituinte originário não está obrigado a observar direitos adquiridos. O STF diferencia a retroatividade mínima, média e máxima. RE 140.499 A retroativa mínima atinge efeitos futuros de atos passados. É automática. Surgiu uma nova constituição, automaticamente ela terá retroatividade mínima. Artigo 17 do ADCT. A retroatividade média atinge prestações vencidas e não pagas. Tem que ser expressa. A retroatividade máxima atinge atos consolidados no passado. Tem que ser expressa. Artigo 231, § 6º da CF. b) Em face de uma Emenda à Constituição: Temos dois entendimentos distintos na doutrina baseados no inciso XXXVI da CF- a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; Primeira corrente: No sentido de que o direito adquirido só é oponível ao legislador ordinário, sob fundamento de que o termo “lei” constante no artigo 5º, XXXVI da CF, seria apenas lei em sentido estrito (ordinária e complementar), não abrangendo EC. Estes autores dizem que a CF impede que a LO e LC prejudique direitos adquiridos e não há uma limitação ao poder constituinte derivado (Daniel Sarmento, Paulo Modesto e o STF antes da CF/88). Segunda corrente: A palavra lei prevista neste dispositivo não é lei em sentido estrito, mas sim lei em sentido amplo, ou seja, a limitação atingiria o legislador ordinário, mas também o legislador constituinte derivado. Sustentam que a palavra “lei” deve ser interpretada em seu sentido amplo de forma a abranger também as emendas à constituição. ADI 3133, 3143, 3184 OBS: O STF não tem nenhuma decisão consistente sobre esta questão após a CF/88. A CONSTITUIÇÃO 1. Fundamento da constituição (concepções) 1.1) Sociológica (Ferdinand Lassalle); 1.2) Política (Carl Schmitt); 1.3) Jurídica (Hans Kelsen); 1.4) Normativa (Konrad Hesse); 1.5) Culturalista (Meirelles Teixeira) 1.1 - SOCIOLÓGICA Defendida por Ferdinand Lassale. Surgiu em 1868 na Prússia. Ele dizia que os problemas ligados à Constituição não são jurídicos e sim são problemas ligados ao poder. Para ele existe a constituição escrita (jurídica) que nada mais é do que o conjunto de normas feitas pelo poder constituinte originário). Ao lado da constituição escrita temos a constituição real ou efetiva. Para ele, a constituição real ou efetiva é a soma dos fatores reais de poder que regem uma determinada nação, ou seja, são os fatores reais de poder que regem uma determinada nação (o conjunto de forças atuantes na conservação das instituições políticas). Sendo uma concepção sociológica, sempre a constituição real irá prevalecer na Constituição que está escrita. Se a constituição escrita não corresponde com a realidade, ela não passa de uma “folha de papel”, isto é, ela não possuirá importância alguma. A Constituição só será legítima se representar o efetivo poder social, refletindo as forças sociais que constituem o poder, sob pena de ser considerada ilegítima, caracterizando-se como uma simples folha de papel. Nas palavras do próprio autor: “Sendo a Constituição a lei fundamental de uma nação, será — e agora já começamos a sair das trevas — qualquer coisa que logo poderemos definir e esclarecer, ou, como já vimos, uma força ativa que faz, por uma exigência da necessidade, que todas as outras leis e instituições jurídicas vigentes no país sejam o que realmente são, de tal forma que, a partir desse instante, não podem decretar, naquele país, embora quisessem, outras quaisquer”. Para Lassale, a Constituição é uma força que diz como as coisas são. É uma força ativa dentro da sociedade que é capaz de dizer como as instituições devem funcionar, de dizer quais são os institutos jurídicos, de definir o que um direito, etc. “Os fatores reais do poder que regulam no seio de cada sociedade são essa força ativa e eficaz que informa todas as leis e instituições jurídicas da sociedade em apreço, determinando que não possam ser, em substância, a não ser tal como elas são”. Em outras palavras, para Lassale, dentro da sociedade existem fatores reais de poder, sendo que estes são forças sociais ativas determinadoras de como as coisas são. O referido autor cita como fatores reais de poder: a Monarquia; o Exército; a Aristocracia; a Grande Burguesia; o Banqueiros; a Pequena Burguesia; e a Classe Operária. Os fatores reais de poder são, portanto, aqueles indivíduos ou grupos que têm a capacidade de dizer como as coisas devem ser. Então, se a Constituição é uma força ativa e, segundo Lassale, essa força ativa são os fatores reais de poder, a Constituição, em essência,é aquilo que os fatores reais de poder dizem que ela é. “Essa é, em síntese, em essência, a Constituição de um país: a soma dos fatores reais do poder que regem um país”. Concluindo, Lassale afirma: “Mas, que relação existe com o que vulgarmente chamamos Constituição com a Constituição jurídica? Não é difícil compreender a relação que ambos conceitos guardam entre si. Juntam-se esses fatores reais do poder, escrevemo-los em uma folha de papel, dá-se-lhes expressão escrita e a partir desse momento, incorporados a um papel, não são simples fatores reais do poder, mas sim verdadeiro direito, nas instituições jurídicas e quem atentar contra eles atenta contra a lei, e por conseguinte é punido”. 1.2 - CONCEPÇÃO POLÍTICA I – Carl Schmitt (Alemanha, 1928). II – Na visão de Carl Schmitt, o fundamento da constituição é a “vontade política” que a antecede. Para a compreensão da “vontade política”, é importante distinguir “Constituição” e “leis constitucionais”. Na sua obra “Teoria da Constituição”, o pensador vai falar que a Constituição pode ter os seguintes sentidos: a) Sentido absoluto: significa a concreta maneira de qualquer unidade política existente, ou seja, a Constituição, no sentido absoluto, seria unidade política de um povo. b) Sentido relativo: a Constituição aparece como uma pluralidade de leis particulares, ou seja, um conjunto de normas que tratam de diferentes assuntos. c) Sentido positivo: significa a Constituição ser a decisão de conjunto sobre modo e forma de unidade política. (É o conceito enfatizado pelo autor). d) Sentido ideal: designa aquela definida por razões políticas e sociais, sendo dominante no modelo de estado burguês. É o sentido que faz referência ao fato de a Constituição descrever como a realidade deveria ser. Em resumo, para o autor, a Constituição é a decisão política fundamental de um povo a respeito da sua forma de organização social. Assim, só poderia ser considerado Constituição aquilo que fosse resultado da referida decisão política. Segundo o autor, constituição propriamente dita é apenas aquilo que decorre de uma decisão política fundamental – direitos fundamentais, estrutura do Estado e organização dos Poderes (normas materialmente constitucionais). Todo o restante do texto constitucional formaria apenas as leis constitucionais, as quais correspondem às normas formalmente constitucionais. Em suma, a diferença entre as normas materialmente constitucionais e formalmente constitucionais é o conteúdo. Constituição e leis constitucionais são formalmente iguais, mas materialmente distintas. Tanto uma quanto outra está contida em um mesmo documento, a forma é a mesma, porém, o conteúdo será diferente. Para Schmitt, constituição propriamente dita é apenas aquilo que decorre de uma decisão política fundamental que a antecede. Nem tudo que está dentro da constituição escrita, do texto constitucional é uma constituição escrita. OBS: Direitos fundamentais, separação dos poderes e Estrutura do Estado decorrem de uma decisão política constitucional. Elas são chamadas de normas materialmente constitucionais. Todo o restante seria apenas lei constitucional e não constituição propriamente dita. Leis constitucionais: São aquelas leis de todo o restante que não decorre de uma decisão política fundamental. Está relacionada ao conceito formal de constituição. seriam aqueles assuntos tratados na Constituição, mas sem um caráter de decisão política. Seriam normas desprovidas de conteúdo político, mas presentes na Constituição. Na verdade, segundo o autor, esses assuntos nem deveriam constar na Constituição, por exemplo, na nossa atual Constituição, o já aqui mencionado art. 242, §2o, que determina que o Colégio Dom Pedro II, localizado na cidade do Rio de Janeiro, será mantido na órbita federal. 1.3. CONCEPÇÃO JURÍDICA I – Hans Kelsen (Áustria, 1925). Teoria Pura do Direito, a Constituição passa a assumir o topo do ordenamento jurídico – teoria piramidal/escalonada do ordenamento jurídico. II – Na visão do autor, o jurista não precisa se socorrer da sociologia (Ferdinand Lassalle) ou da política (Carl Schmitt) para buscar o fundamento da constituição, pois ele está no próprio direito. Segundo Kelsen, a constituição é um conjunto de normas (dever-ser). III – Kelsen distingue dois tipos de constituição: • Sentido lógico-jurídico: corresponde à norma fundamental hipotética (“todos devem obedecer a constituição”): ✓ “Fundamental”: fundamento de validade da constituição em sentido jurídico positivo. ✓ “Hipotética”: norma pressuposta - fruto de uma convenção social (é apenas uma hipótese; não existe na realidade). Resumo: a sua função é servir de fundamento de validade da Constituição; A Constituição encontra o seu fundamento de validade não no direito posto, mas no plano pressuposto lógico, ou seja, em valores metajurídicos, já que seu fundamento não seria de cunho constitucional. Nesse conceito, a Constituição representa uma norma fundamental hipotética que serve de fundamento lógico transcendental da Constituição jurídico-positiva. Nessa esteira, a norma hipotética fundamental não pode ser considerada um valor (porque contradiria a teoria pura do direito que proíbe a análise externa do direito), mas mero imperativo que determina “cumpra-se a constituição e as leis”. • Sentido jurídico-positivo: corresponde ao texto constitucional (conjunto de normas que regulam o modo de produção de outras normas, a constituição como norma positiva suprema; lei nacional no seu mais alto grau). Nessa concepção, constituição e lei são figuras ontologicamente iguais, ou seja, são iguais quanto à natureza, e a única diferença é sua hierarquia. Isso leva a uma ideia de que o processo e os métodos de interpretação da Constituição não são diferentes dos processos e dos métodos de interpretação das leis. A Constituição deve ser entendida como a norma fundamental do sistema jurídico. Ela está posta (positivada) no interior e na cúpula do ordenamento jurídico. Esta norma fundamental tem a função de ser fundamento de validade de todo o sistema jurídico, pois uma norma é válida quando uma norma hierarquicamente superior dá validade a ela, e, assim, sucessivamente, até chegar à Constituição. LÓGICO-JURÍDICO JURÍDICO-POSITIVO 1) Norma Hipotética Fundamental 1) Norma Posta 2) Plano Pressuposto 3) Fundamento Lógico de Validade da Constituição 2) Fundamento de Validade de todo Sistema Jurídico 1.4 – NORMATIVA Defendida por Hesse. Em 1959, na Alemanha ele deu uma aula inaugural em uma universidade sustentando uma tese para rebater a tese de Nassale. Konrad Hesse publicou a obra “A Força Normativa da Constituição” (Freiburg, 1959) Hesse dizia que em certos casos de fato, a Constituição jurídica acaba sucumbindo diante da realidade. No entanto, muitas vezes a constituição escrita possui uma forma normativa capaz de modificar esta realidade. Para isso, basta que exista “vontade de constituição” e não apenas “vontade de poder”. O autor defendia que, se a constituição tivesse o simples papel de descrever o que acontece na realidade, o direito estaria desempenhando uma função indigna de qualquer ciência. Segundo o autor, o direito não diz aquilo que é, mas aquilo que deve ser. Há um condicionamento recíproco entre a realidade e a constituição. Para que ocorra o condicionamento da realidade pela constituição, é necessário que haja uma “vontade de constituição”: aqueles que estão no poder devem não apenas ter uma vontade de poder, mas também uma vontade de constituição. Quando há a vontade de constituição, ela é capaz de impor tarefas, transformando-se em uma força ativa suficiente para modificar a realidade existente. A Constituição escrita não necessariamenteserá reflexo dos fatores de poder, porque pode ser que a Constituição escrita seja capaz de redesenhar a soma dos fatores reais de poder. Logo, ela não seria somente um resultado sociológico da sociedade, mas também, e principalmente, teria o poder de modificar o conjunto de forças, moldar a sociedade como ela é. Para Konrad Hesse, a interpretação tem significado decisivo para a consolidação e preservação da força normativa da Constituição. Assim, para ele, a Constituição teria o poder de moldar a realidade. Por isso, diz-se que a concepção da força normativa é uma resposta à concepção sociológica: pois nesta a concepção apenas reflete a soma dos fatores reais de poder, enquanto naquela a Constituição efetivamente tem o condão de moldar a realidade. Havendo conflito entre a Constituição e os fatores reais de poder, estes nem sempre prevalecerão. A força da Constituição variará conforme a “vontade de constituição”, ou seja, ao maior ou menor empenho dos cidadãos em buscar a efetivação das normas constitucionais. Veja algumas palavras de Konrad Hesse: “Embora a Constituição não possa, por si só, realizar nada, ela pode impor tarefas. A Constituição transforma-se em força ativa se essas tarefas forem efetivamente realizadas, se existir a disposição de orientar a própria conduta segundo a ordem nela estabelecida, se, a despeito de todos os questionamentos e reservas provenientes dos juízos de conveniência, se puder identificar a vontade de concretizar essa ordem. Concluindo; pode-se afirmar que a Constituição converter-se-á em força ativa se fizerem-se presentes na consciência geral — particularmente, na consciência dos principais responsáveis pela ordem constitucional —, não só a vontade de poder (Wille zur Macht), mas também a vontade de Constituição (Wille zur Verfassung)”. 1.5 - CULTURALISTA Defendida em um primeiro momento por Meirelles Teixeira. Esta concepção vai fazer um apanhado de todas as demais. Ela diz que a constituição tem aspecto sociológico, político e jurídico. Ela remete ao conceito de constituição total. Ao mesmo tempo em que uma constituição é resultante da cultura de um povo, ela também é condicionante desta mesma cultura. A constituição é resultado dos valores de uma determinada sociedade em uma determinada época. Para esse sentido, a Constituição é o produto cultural de um povo em um dado momento histórico (fato cultural). Traz consigo, assim, elementos históricos, sociais e racionais. Dessa forma, a Constituição se coloca como um conjunto de normas fundamentais condicionadas pela cultura na qual inseridas e, ao mesmo tempo, condicionantes dessa mesma cultura, numa perspectiva eminentemente dialética. Na visão de Meirelles Teixeira, todas as concepções acima não seriam concepções antagônicas ou excludentes, mas complementares. Portanto, a constituição teria um fundamento sociológico, político, jurídico e normativo. Todos esses aspectos fazem parte da constituição, pois ela resulta de um processo cultural. Constituição total é aquela que abrange aspectos econômicos, sociológicos, jurídicos e filosóficos em uma perspectiva unitária. A Constituição total busca fazer uma síntese das concepções política, jurídica e sociológica já analisadas. De acordo com essa concepção, a Constituição é fruto da cultura existente dentro de determinado contexto histórico, em uma determinada sociedade e, ao mesmo tempo, é condicionante dessa mesma cultura, pois o direito é fruto da atividade humana. José Afonso da Silva é um dos autores que defendem essa concepção. Meirelles Teixeira, a partir dessa concepção cultural, cria o conceito de Constituição total, segundo o qual: “Constituição é um conjunto de normas jurídicas fundamentais, condicionadas pela cultura total, e ao mesmo tempo condicionantes desta, emanadas da vontade existencial da unidade política, e reguladoras da existência, estrutura e fins do Estado e do modo de exercício e limites do poder político". Constituição simbólica: Mediante a distinção (típico-ideal) entre funções instrumentais, expressivas e simbólicas da legislação, Marcelo Neves define a legislação simbólica como aquela em que há o predomínio ou a hipertrofia da função simbólica (essencialmente político-ideológica) em detrimento da função jurídico-instrumental (de caráter normativo- jurídico). Nesse sentido, a marca distintiva da legislação simbólica consistiria na “produção de textos cuja referência manifesta à realidade é normativo-jurídica, mas que serve, primária e hipertroficamente, a finalidades políticas de caráter não especificamente normativo-jurídico”. A expressão “Constituição Simbólica” foi cunhada por Marcelo Neves. De acordo com o referido autor, toda legislação possui duas funções: instrumental (resolver problemas sociais) e simbólica (transmitir mensagens à sociedade). Assim, por exemplo, quando a Constituição afirma que é seu objetivo “reduzir as desigualdades regionais”, ela estabelece uma meta de efetivamente gerar um desenvolvimento econômico-social das áreas mais pobres do país (“resolver um problema” – função instrumental) e, ao mesmo tempo, passa a mensagem que, no nosso modelo de Estado, não são toleradas diferenças de tratamento entre os nacionais, sejam quais forem suas origens, transmitindo um aviso de unidade e harmonia nacional (“orientação à coletividade” – função simbólica). Definida, portanto, a legislação simbólica como aquela em que, em razão da prevalência da dimensão político-ideológica, há um déficit de concreção normativa. Marcelo Neves, baseando-se em Harald Kindermann, propõe uma tipologia tricotômica que, em seu entendimento, seria expressiva de seu conteúdo. Nesse sentido, a legislação simbólica serviria a diversos propósitos: a) Confirmação de valores sociais; b) Demonstração da capacidade de ação do Estado (legislação-álibi, na qual se cria uma imagem favorável do Estado no que concerne à resolução de problemas sociais); e c) Fórmula de compromisso dilatório (adiamento de solução dos conflitos). Após tratar o problema da plurivocidade do termo “Constituição” na semântica social e política, recuperando seu uso em diversas concepções – sociológica, jurídico-normativa, axiológico-ideal e dialético-cultural – Marcelo Neves, apoiando-se no modelo sistêmico proposto por Niklas Luhmann, define “Constituição” em termos de acoplamento estrutural entre os sistemas político e jurídico e como mecanismo que permite a autonomia operacional do direito na sociedade moderna. A Constituição, enquanto mecanismo que proporciona a autonomia operacional do sistema jurídico, permite que ele se desvencilhe de apoios externos, tais como o direito natural. Por essa razão, a Constituição aparece como condição da reprodução autopoiética do direito moderno, pois possibilita seu fechamento normativo e operacional, fornecendo o limite interno para a capacidade de aprendizado do direito positivo. Isso significa que a Constituição, definida nesses termos, impede que o sistema jurídico seja bloqueado por diversas expectativas conflitantes de comportamento que emanam do contexto hipercomplexo da sociedade moderna. Esse conceito de Constituição, fundado no modelo sistêmico de Luhmann, associa-se à noção moderna de “constitucionalização” e permite ao autor enfrentar a questão relativa à relação entre texto e realidade constitucionais, que é abordada em termos de “concretização” das normas constitucionais. Partindo da recuperação dos aspectos essenciais dos modelos de Friedrich Muller e Peter Häberle, na teoria constitucional alemã, Marcelo Neves define, negativamente, a constitucionalização simbólica em termos de déficit de concretização jurídico-normativa do texto constitucional, que faz com que ele perca sua capacidade de orientação generalizada das expectativas normativas.Entretanto, o autor também observa que, no plano da fundamentação político-ideológica, a constitucionalização simbólica desempenharia um papel ativo no sentido de encobrir problemas sociais, obstruindo transformações efetivas e consequentes da sociedade. Entretanto, Marcelo Neves ressalta que essa capacidade de encobrimento da constitucionalização simbólica apresentaria limites que poderiam ensejar consequências de difícil previsão. Nesse sentido, o distanciamento em relação à realidade social pode conduzir a um desgaste das constituições simbólicas. O resultado seria a eclosão de movimentos sociais e políticos que buscam transformações efetivas no sistema constitucional. Entretanto, também é possível que conduza à apatia das massas e ao cinismo das elites, não ficando descartada a possibilidade de emergência de posturas autoritárias que simplesmente instrumentalizem a Constituição de modo a excluir ou limitar drasticamente o espaço de crítica em relação à “realidade” do poder. Por fim, o conceito de constitucionalização simbólica é tratado em termos de “alopoiese” do direito (definida em termos reprodução do sistema jurídico a partir de critérios, programas e códigos provenientes de seu ambiente), o que demanda que o autor recupere aspectos essenciais de sua análise anterior acerca dos limites da concepção luhmanniana de diferenciação e autonomia operacional do sistema jurídico em sociedades complexas. É nesse sentido que Marcelo Neves problematiza a possibilidade de descrever genericamente o direito da sociedade moderna como autopoiético (ou seja, capaz de se autoproduzir consistentemente a partir de seus próprios critérios, códigos e programas). Mediante a ênfase no caráter heterogêneo que marca a sociedade moderna, definida enquanto sociedade mundial (ou seja, sem barreiras territoriais à comunicação), Marcelo Neves distingue uma bifurcação que leva à sua divisão em uma modernidade central e outra periférica. Trata- se de uma distinção, já explorada pelo autor em sua tese de doutorado, que constitui um esforço significativo para a superação de uma visão homogeneizada e empiricamente limitada da sociedade moderna. Indicadas as diferenças entre esses dois contextos (central e periférico), Marcelo Neves ressalta que a constitucionalização simbólica, enquanto sobreposição do sistema político sobre o jurídico, seria um problema específico dos países que compõem a modernidade periférica, nos quais seria recorrente o problema da autorreferência deficitária do sistema jurídico. Desse modo, a constitucionalização simbólica consistiria essencialmente no bloqueio político destrutivo que obliteraria a reprodução operacionalmente autônoma do sistema jurídico, acarretando, com isso, a perda da relevância normativo-jurídica dos textos constitucionais na orientação das expectativas normativas. Aliás, nesse contexto, a própria autonomia do sistema político é comprometida, tornando-o suscetível a influências imediatas de interesses particularistas. O bloqueio particularista reiterado do processo de concretização constitucional que decorre da sobreposição destrutiva dos códigos binários de outros sistemas sociais (especialmente o código ter/não ter da economia e o código poder/não poder da política), ao engendrar a perda de nitidez dos contornos diferenciadores do sistema jurídico em relação ao seu ambiente, acarreta uma “politização desjuridicizante” da realidade constitucional com efeitos profundamente deletérios. Segundo Marcelo Neves, tais efeitos seriam típicos da modernidade periférica, caracterizada pela “heterogeneidade estrutural” que se expressa numa sobreposição intrincada de códigos e programas, tanto entre os diversos subsistemas sociais quanto no próprio interior deles. É nesse contexto que se colocam os problemas decorrentes das relações de “subintegração” e “sobreintegração”, que fazem recrudescer os bloqueios à reprodução autopoiética do sistema jurídico. Por essa razão, a Constituição, nos países da modernidade periférica, não funcionaria como mecanismo de “acoplamento estrutural” entre os sistemas político e jurídico, e sim como um fator de bloqueio e politização do sistema jurídico, encobrindo, ademais, relações concretas de “subcidadania” e “sobrecidadania. A preocupação com a implementação de dispositivos constitucionais e, em particular, de suas promessas sociais, não é central. As controvérsias constitucionais são decididas com base nos códigos da política e conforme conflitos de interesse. Nessa luta, acabam preponderando os interesses dos grupos mais poderosos, dos denominados “sobrecidadãos”, que conseguem utilizar a Constituição e o Estado em geral como instrumento para satisfazer seus interesses. A juridicidade da Constituição fica comprometida pela corrupção da normatividade jurídica igualitária e impessoal, conforme o binômio legal-ilegal. As controvérsias constitucionais são decididas com base no código do poder. OBS.: Interesses dos grupos mais poderosos e Corrupção da normatividade jurídica igualitária e impessoal. É interessante observar que, segundo Neves, a legislação simbólica de modo geral (não apenas a constitucional) pode ser classificada em três tipos diferentes: a) A legislação simbólica como confirmação de valores sociais: privilegia a posição valorativa de um determinado grupo da sociedade. Como exemplo, a chamada “lei seca” nos Estados Unidos da América, que normatizava os valores puritanos, mas que não conseguiu de fato impedir o consumo de bebidas alcóolicas no território americano. b) Legislação Álibi: é a legislação que surge para dar uma “resposta aparente” a um determinado problema, gerando a impressão de que o Poder Público está prontamente capacitado para solucioná-lo. Como, por exemplo, as leis penais brasileiras depois de fatos que geram comoção, normalmente, recrudescendo penas e tipificando condutas, mas sem atacar as causas da criminalidade. c) Legislação como fórmula de compromisso dilatório: elaboração de planos e metas que propõem solucionar os conflitos sociais a um longo prazo, para um futuro indeterminado. Marcelo Neves ainda afirma que a Constituição Simbólica possui dois efeitos possíveis: negativo e positivo. O efeito negativo é que a constitucionalização simbólica possui um déficit de concretização jurídico-normativa do texto constitucional, perdendo a sua capacidade de orientação generalizada das expectativas normativas. Por outro lado, o efeito positivo da constitucionalização simbólica serve para encobrir problemas sociais, obstruindo transformações efetivas na sociedade.