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P O R Q U E 
É D I F E R E N T E 
RAVI Z A C H A R I A S 
Num mundo com tantas religiões - por que Jesus? 
Vivemos numa époea em que você pode crer em qualquer coisa, contanto 
que não afirme sér a verdade. Em nome da "tolerância", nossa cultura pós-
moderna acolhe tudo, desde o misticismo oriental até a espiritualidade da 
Nova Era. Mas a realidade pura e simples é: nem todas as religiões são ver­
dadeiras. , 
Em Por Que Jesus É Diferente, Ravi Zacharias demonstra a singularidade de 
Jesus na cultura pós-moderna, que deliberadamente tem adotado uma 
variedade de religiões. Nesta obra encontram-se as respostas para as ob-
jeções mais fundamentais sobre o cristianismo, tais como: 
• As religiões não são todas fundamentalmente iguais? 
• Jesus era mesmo o que afirmava ser? 
• A afirmação cristã de sua superioridade é valida? 
• Alguém pode estudar a vida de Jesus e demonstrar, de forma conclusiva, 
que ele era e continua sendo o caminho, a verdade e a vida? 
Os TEMPOS MUDAM. A VERDADE PERMANECE 
Dr. Ravi Zacharias é presidente do Ministério Internacional Ravi Zacharias. Nascido na índia, já 
ensinou em mais de 50 países e em algumas das universidades mais proeminentes do mundo. É 
autor de vários livros, incluindo Pode o Homem Viver Sem Deus?, publicado no Brasil pela Editora 
Mundo Cristão. 
EDITORA MUNDO CR S 
POR QUE 
JESUS 
é d i f e r e n t e 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) 
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) 
Zacharias, Ravi 
Por que Jesus é diferente / Ravi Zacharias; 
- São Paulo: Mundo Cristão, 2003. 
traduzido por Josué Riheiro. 
Título original: Jesus araong other gods. 
ISBN 85-7325-264-2 
1. Apologética 2. Cristianismo e outras religiões 
1. Título. 
3. Jesus C Cristo 
02-3714 C D D - 261.2 
índice para catálogo sistemático: 
1. Cristianismo e outtas religiões 261.2 
2. Cristianismo e religiões não-cristãs 261.2 
Copyrighr © 2000 por Ravi Zacharias. 
Publicado originalmente por W Publishing Groups, Nashville, TN, EUA. 
Título Original em Inglês: Jesus among other gods 
Gerência de Produção Editorial: Sidney Alan Leite 
Capa: Magno Paganelli (adaptação) 
Revisão: Jefferson Magno Costa 
Theófilo José Vieira 
Os textos das referências bíblicas foram exrraídos da versão Almeida Re­
vista e Atualizada, 2a edição, salvo indicação específica. 
A I a edição brasileira foi publicada em fevereiro de 2003, com uma tira­
gem de 3.000 exemplares. 
Publicado no Brasil com a devida autorização e com rodos os direitos reservados pela: 
Associação Religiosa Editora Mundo Cristão 
Rua António Carlos Tacconi, 79 - CEP 04810-020 - São Paulo-SP - Brasil 
Telefone: (11) 5668-1700 - Home page: www.mundocristao.com.br 
Editora associada a: • Associação Brasileira de Direitos Reprográficos 
• Associação Brasileira de Editores Cristãos 
• Câmara Brasileira do Livro 
• Evangelical Christian Publishers Association 
10 9 8 7 6 5 4 3 2 1 03 04 05 06 07 08 09 10 11 
http://www.mundocristao.com.br
POR QUE 
JESUS 
é d i f e r e n t e 
Ravi Zacharias 
Traduzido por 
Josué Ribeiro 
m 
EDITORA MUNDO CRISTÃO 
São Paulo 
Em memória de dois amigos muito queridos, 
Charles Kip Jordon 
& 
Robert Earl Fraley 
Ambos tiveram participação neste esforço; 
Kip me incentivou muito a escrever este livro. 
Robert providenciou para que eu tivesse o tempo necessário. 
Nenhum de nós imaginava quão breve eles estariam com o 
Senhor, a figura principal desta obra. 
s u m a r i o 
tf 
LU 
Agradecimentos 
Introdução 
1. Escalando um alto muro 
2. Em direção do lar celestial 
3. A anatomia da fé e a busca da razão 
4. Um sabor para a alma 
5. Deus é a fonte do meu sofrimento? 
6. Quando Deus fez silêncio 
7. Existe um jardineiro? 
Notas 219 
a g r a d e c i m e n t o s 
C om a ajuda e o apoio de muitas pessoas, este livro finalmente 
tomou forma. Quero expressar minha gratidão a todas elas, de 
todo coração. 
Danielle DuRant , como sempre, proporcionou um apoio 
valiosíssimo nas pesquisas e assumiu a tarefa tediosa de investigar as 
fontes de informação. 
Os editores Jan Dennis e Jennifer Stair "apararam as arestas". 
Laura Kendall, juntamente com o pessoal da Word Publishing, 
fez as finalizações. A liderança da editora - David Moberg, Joey Paul, 
Rob Birkhead e outros — expresso minha sincera gratidão por suas 
graciosas palavras de encorajamento. 
Finalmente, e mais importante, meus agradecimentos à minha 
esposa Margie. Ela examinou minuciosamente cada página, dando 
sugestões de como melhorar. Eu alegremente submeto a ela a última 
palavra. 
Este livro é apresentado como a expressão de um coração grato a 
Deus por tudo o que ele tem feito em minha vida. 
i n t r o d u ç ã o 
Quando comecei a escrever este livro, não fazia a mínima ideia 
de como esta tarefa seria difícil. 
A dificuldade, na verdade, não estava em não saber o que dizer, 
mas sim em saber o que não dizer. Vivemos numa época em que os 
melindres estão à flor da pele, muitas vezes manifestados por meio 
de palavras duras. Filosoficamente, pode-se acreditar em qualquer 
coisa, desde que não se afirme que seja a verdade. Moralmente, pode-
se fazer qualquer coisa, desde que não se afirme que seja a "melhor" 
forma. Na religião, você pode se apegar a qualquer coisa, desde que 
não inclua Jesus Cristo. 
Se uma ideia espiritual for oriental, recebe imunidade crítica; se 
for ocidental, é ferozmente criticada. Assim, um jornalista pode en­
trar numa igreja e zombar da cerimónia, embora não ouse ter a mes­
ma atitude para com uma seita oriental. Esta é a tendência do final 
do século XX. 
Uma tendência pode ser um estado mental perigoso, pois esma­
ga a razão sob o peso dos sentimentos. No entanto, creio que é exa-
tamente isso que representa melhor o pós-modernismo — uma 
tendência. 
Como alguém que vive dentro de tais tendências pode comuni­
car a mensagem de Jesus Cristo, na qual a verdade e os absolutos são 
não somente assumidos, mas também sustentados? 
Vamos esclarecer alguns pontos. Certamente Jesus não era oci­
dental. De fato, algumas de suas parábolas tinham um cunho tão 
12 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
oriental, que creio que muitos ocidentais podem não entender clara­
mente o rigor e o humor por trás de seus ensinamentos. O fato é que 
o impacto das suas palavras através dos séculos foi tão profundamen­
te sentido que o etos e o ímpeto moral de sua mensagem mudaram o 
rumo da civilização ocidental. 
Os naturalistas ocidentais, demonstrando extrema arrogância, não 
enxergam isso. Agora, porém, o progresso tecnológico, a riqueza e 
os empreendimentos estão tão vinculados à mensagem de Jesus, que 
o modelo popular de cristianismo parece nada mais do que um misto 
de egoísmo e ganância no centro com camadas de pensamento cris­
tão na periferia. Esta distorção tem feito por merecer os severos ata­
ques dos críticos. Entretanto, faríamos bem em lembrar as palavras 
de Agostinho: Jamais devemos julgar uma filosofia por seus abusos. 
Além disso, a forma como Jesus falou, os provérbios e histórias 
que contou, bem como todo o contexto no qual proferiu seus dis­
cursos, tudo está imerso num idioma oriental. Não podemos esque­
cer este fato. 
No entanto, se o mundo ocidental pode ser acusado de adulte­
rar a mensagem de Jesus, deixando-a irreconhecível, o mundo orien­
tal muitas vezes esquece que, devido à omissão, deixou um conjunto 
de crenças religiosas, algumas delas bizarras, irresponsavelmente sem 
uma crítica. 
Tome, por exemplo, várias formas de práticas e de adoração 
orientais. Enquanto escrevia este livro, presenciei muitas. Numa de­
las, os devotos tinham ganchos espetados pelo corpo. Tinham facas 
atravessando a pele do rosto e pequenas lanças atravessando a língua. 
Visões como estas deixam visitantes, adultos e crianças, horrorizados. 
Temos de perguntar: por que os mesmos intelectuais que criticam as 
formas ocidentais de espiritualidade não fazem o mesmo com esses 
grupos? 
Mais próximosou um móvel usado por 
Jesus, para que pudéssemos colocar num museu e ser visto por todo 
o mundo? Podemos visitar pequenas cidades no Oriente e ver escava­
ções arqueológicas de casas do tempo de Jesus. Por que sua própria 
casa não foi preservada? Num museu na Turquia, podemos ver a es­
pada de Maomé e aquilo que dizem ser fios de sua barba. Recente­
mente fomos informados de que encontraram um dente de Gautama, 
46 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
o Buda. Podemos retroceder no tempo e ver coleções extraordinárias 
de artefatos relacionados aos monarcas e heróis de tempos até ante­
riores à época de Cristo. 
Aquele que é dono das alimárias sobre milhares de montanhas não 
deixou tais informações. Sobre Cristo, ouvimos que ele não tinha 
onde reclinar a cabeça. O mesmo escritor (João) afirma de forma 
extremamente direta: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com 
Deus, e o Verbo era Deus.f...] E o Verbo se fez carne e habitou entre 
nós..." (Jo 1:1, 14). A expressão "no princípio", empregada por João, 
faz um tocante paralelo com as primeiras palavras das Escrituras: 
"No princípio, criou Deus...". 
Embora o parentesco terreno de Jesus fosse importante, seu en­
dereço residencial não era terreno - pois num sentido muito real ele 
não tinha princípio. Em meio às perguntas "onde" e "quando" que 
marcam nossa natureza finita, aquele que é eterno e infinito não sofre 
tais limitações. A tarefa de Jesus era elevar tais questões, e por isso 
disse aos interlocutores: "Vinde e vede". Desconfio que haveria um 
choque e a necessidade de maiores explicações. André tinha motivos 
para fazer sua pergunta, e Jesus estava oferecendo uma jornada de 
reflexão como resposta. Nós empreenderemos esta jornada. Neste 
momento, coloque-se no lugar de André. Ele fora convidado para ir à 
casa daquele que fora identificado por um reconhecido profeta como 
o Cordeiro de Deus. André foi. O que ele esperava? Será que ficaria 
desapontado? 
Billy Graham conta sobre uma cruzada que realizou em 
Pittsburgh. Ele acabara de entrar no saguão do hotel onde passaria o 
fim de semana e, na companhia de alguns membros de sua equipe, 
dirigiu-se ao elevador, onde alguns empresários estavam conversan­
do. Quando o elevador começou a subir, um dos empresários disse: 
— Ouvi dizer que Billy Graham está neste hotel —. Outro homem 
que reconheceu o Dr. Graham sorriu, olhou para aquele que falara e 
disse, apontando para ele: — Olhe ele aqui —. Surpreso, o empresá­
rio se virou, olhou bem para Billy Graham e disse: — Que anticlí-
max! — Sendo um homem humilde, o Dr. Graham concordou 
E M D Í R E Ç A O D O LAR C E L E S T I A L . 47 
plenamente com o desapontamento do empresário e admitiu que o 
que ele estava vendo era tudo o que havia para ser visto. 
O que aquele homem realmente esperava? Alguma figura com 
asas e auréola, que não precisava usar elevadores e que só seria en­
contrada orando e pairando no ar? Em nossa imaginação humana, 
muitas vezes queremos que nossos heróis sejam maiores do que a 
própria vida. Nós os exaltamos de uma forma que até os prejudica. 
Em nossa imaginação, nós os transformamos em figuras irreais, de 
plástico. Quando eles sangram, envelhecem ou tropeçam, nós os deixa­
mos de lado ou arranjamos uma maneira de perpetuar o mito. Para 
sustentar esta ilusão em nossa mente, construímos estátuas e erigimos 
monumentos; os artistas fazem pinturas com auréola, estabelecendo 
uma imagem surrealista. Nós nos convencemos de que eles são ou 
foram algo essencialmente diferente do resto da humanidade. 
Naquele encontro histórico, aquela pessoa era essencialmente 
diferente do resto. Mas... de Nazaré? Filho de um carpinteiro? O 
templo edificado como habitação de Deus possuía beleza e rique­
zas inimagináveis em sua construção. Agora que Deus tinha en­
carnado, sua casa era comparativamente indigna. Para ajudar a 
organizar a questão, Natanael entra em cena. Estava tão compro­
metido com a verdade que, quando foi convidado para se encon­
trar com Jesus, concordou em ir, provavelmente na esperança de 
dissipar o "engano" que se criara na mente de seus amigos. No 
entanto, quando ele chegou perto de Jesus, este se referiu a ele 
escolhendo cuidadosamente as palavras: "Eis aí um verdadeiro 
israelita em quem não há dolo!" 
Ali se operou a primeira surpresa. Não há nada mais incómodo 
para uma pessoa do que ter seus pensamentos mais íntimos revela­
dos nas palavras de um estranho. 
Natanael esperava "desmascarar" aquele homem e, em vez disso, 
seu próprio caráter foi revelado, como realmente era. "Donde me 
conheces?", ele inquiriu. Jesus replicou: "Antes de Filipe te chamar, 
eu te vi, quando estavas debaixo da figueira". 
O que isso significava para Natanael? 
48 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Sobre o que ponderava debaixo da figueira? Será que teve o pres­
sentimento de que se aproximava o momento em que sua vida passa­
ria por uma transformação? Será que foi um momento de intimidade, 
o qual ele achava que ninguém jamais saberia? Algo na revelação de 
Jesus fez Natanael agir impulsivamente, quase com violência, e ele 
pronunciou as palavras que transformam vidas: "Mestre, tu és o Fi­
lho de Deus, tu és o Rei de Israel!" (Jo 1:49). Creio que Jesus venceu 
o ceticismo de Natanael revelando gentilmente os pensamentos e 
intenções do seu coração. 
Foi neste ponto que a pergunta de André - "Rabi, onde assistes 
[moras]?" — recebeu a resposta mais inesperada. Jesus tinha visto 
Natanael quando este não sabia que estava sendo observado. Ele iden­
tificou a determinação com a qual Natanael buscava a verdade, o que 
certamente atraiu sua atenção. Num dos seus salmos, o rei Davi con­
fessou que não podia fugir da presença de Deus, pois Deus conhecia 
sua mais profunda intimidade - "Aonde eu vou, tu estás lá" (139:7-10). 
Natanael acabara de descobrir a mesma verdade. 
Jesus também sabia que Natanael não tinha uma opinião favorá­
vel sobre Nazaré. Reconhecendo o que havia em seu coração, Jesus 
desafiou sua resposta impulsiva e lhe disse: "Porque te disse que te vi 
debaixo da figueira, crês? Pois maiores coisas do que estas verás. [...] 
Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos 
de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem" (Jo 1:50,51). 
Resumindo, Jesus estava dizendo: "Você está chocado porque 
lhe revelei seu próprio ser? Espere até ver a plena revelação de quem eu 
sou e de onde vim". Ele caminhou com Natanael desde a explicação 
de coisas mais simples até o destino final das revelações gloriosas. 
A descrição dos anjos subindo e descendo sobre o Filho do Ho­
mem não ficou solta num vácuo. Apontava para o "parentesco" de 
Jesus. Pedro, André e Natanael conheciam a história do patriarca 
nacional, Jacó, a qual de fato proporcionou o pano de fundo para a 
resposta de Jesus. 
O Antigo Testamento registra o incidente. Quando jovem, Jacó 
enganou o irmão Esaú e depois teve de fugir de sua ira. Em sua 
jornada para uma terra distante, ele pensou que estava sozinho, lon-
EM D1REÇÃO DO LAR CELESTIAL 4 9 
ge dos olhos de qualquer pessoa. Ele fora criado num lar onde o altar 
desempenhava um papel importante, como o centro da adoração a 
Deus feita pela família. Seu avô, Abraão, era conhecido como "o ho­
mem da tenda e o homem do altar". Para Abraão, o lar era temporá­
rio, mas a adoração era permanente. Agora, durante a fuga, Jacó estava 
sem lar e sem altar. Quando chegou ao local chamado Luz, dormiu 
com uma pedra em lugar de travesseiro. Mesmo para um morador 
do deserto, era uma condição bem precária. 
Enquanto dormia, o Senhor lhe apareceu num sonho, no qual ele 
viu uma escada que ligava a terra e o céu. Anjos subiam e desciam pela 
escada. No alto estava o Senhor, que disse: "Eu sou o SENHOR, Deus 
de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque" (Gn 28:13). Quando Jacó 
acordou, disse a si mesmo: "Na verdade, o SENHOR está neste lugar, e 
eu não o sabia.[...] Quão temível é este lugar! É a Casa de Deus,a 
porta dos céus" (w. 16,17). Jacó fez uma pilha de pedras e deixou-a 
como marca no local que passou a chamar de Betei — que significa 
"a casa de Deus". 
Quer os discípulos tenham compreendido totalmente ou não, 
uma mensagem tremenda foi transmitida quando Jesus pronunciou 
aquelas palavras a Natanael. Ele registrou uma reivindicação. Será 
que eles tinham consciência de que o Senhor que formou o céu e a 
terra estava ali na frente deles? Hostes angelicais se movimentavam 
ao seu redor. Até hoje ainda nos debatemos para compreender exata-
mente suas palavras. A palavra casa imediatamente traz à nossa men­
te os conceitos de residir e de limites, nenhum deles apropriado para 
Aquele que não teve princípio e que é onipresente. Jacó descobriu 
que a presença abençoadora de Deus pode transformar qualquer lo­
cal na casa de Deus. 
Agora, os discípulos estavam aprendendo o mesmo. Estavam in­
clinados a julgar Jesus pelo seu pai terreno, o carpinteiro José. Esta­
vam tentando medir sua dignidade pela sua cidade terrena, Nazaré. 
Ele lhes expôs a verdade que qualquer local na terra onde ele está 
presente torna-se a entrada do céu. Esta afirmação deve ter trazido 
enorme conforto para eles. 
50 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
No entanto, acima de tudo, a partir do que Jesus disse, eles infe­
riram corretamente que ele viera do Pai celeste, o Deus de Abraão, de 
Isaque e de Jacó. Recuou com eles para muito além do entendimento 
que tinham e elevou-os a grandes altitudes para mostrar que a pala­
vra casa era, na melhor das hipóteses, somente uma analogia de viver 
com Deus. Os discípulos claramente estavam atónitos com este im­
pacto inicial. Não compreenderam totalmente todo o significado 
daquele encontro. Suas vidas mudariam muito além do que poderiam 
imaginar, de modo que chegaria o dia em que deixariam suas 
próprias casas para contar ao mundo sobre Jesus de Nazaré. "Se você 
está maravilhado com o que eu lhe mostrei sobre você mesmo, 
Natanael, saiba que é somente o começo. Espere até que eu lhe reve­
le minha glória". Isso, ele assegurou, não seria um anticlímax. 
VISLUMBRES DE O U T R O LAR 
Jesus introduziu algumas verdades significativas naquela simples troca 
de palavras — verdades que elevam nossos pensamentos. Vamos 
abordá-las uma a uma. 
O indicador principal aqui, literal e figurativamente, é a revela­
ção de Jesus da esfera de sua existência. Perguntar "onde" é a casa de 
Jesus é o mesmo que perguntar "quando" foi o início de Deus. Tais 
elementos são necessários em nossa existência finita, pois houve um 
tempo em que não existíamos. Deus, porém, transcende essas cate­
gorias. As referências de Jesus a uma habitação e aos anjos subindo e 
descendo ao seu redor apontam para o fato de que ele é o Senhor do 
céu e da terra, que existe eternamente. Sua existência precede todas 
as metáforas espaciais. Assim como é impossível para ele não ser, 
assim também não é necessário que tenha um lugar para viver. Foi 
precisamente o que disse a Davi, quando este desejava construir um 
santuário onde Deus pudesse "morar" (2 Sm 7:5). Seria mais razoá­
vel perguntar-lhe onde prometeu nos abençoar do que perguntar em 
que local estaria sua existência. 
Tais categorias transcendentes parecem fora do nosso alcance, 
mas mesmo assim estão intimamente associadas ao nosso destino 
E M D I R E Ç Ã O D O LAR C E L E S T I A L : 51 
supremo. Mesmo hoje reconhecemos que conceitos como tempo, 
espaço e movimento estão tão presos às dimensões limitadas de nosso 
entendimento da natureza da realidade, que para a maioria das pes­
soas parecem o domínio dos espíritos. 
Mesmo assim, quanto mais fundo penetramos nesses mistérios, 
mais inexoravelmente somos atraídos ao mínimo denominador co­
mum que torna a vida como ela é. Procuramos a parte mais ínfima 
da realidade no mundo físico, de modo que podemos, nas palavras 
de um cientista, chegar a uma teoria de algo. 
Jesus reverteu o processo. Ele nos disse que a única forma de 
entendermos quem somos é lançar nosso olhar não para a equação 
que reúne todos os elementos, mas para o relacionamento do qual 
nos aproximamos no cômputo total do nosso ser. É a reunião dos 
elementos que forma um objeto, e não a sua divisão. Nas palavras de 
Jesus a Natanael, nossa surpresa será ilimitada quando entendermos 
todo o significado da esfera da existência de Deus. 
Nenhum outro personagem que reivindica status divino ou pro­
fético teria respondido àquela pergunta sobre sua casa desta maneira. 
O próprio João Batista se esforçou muito para lembrar seus discípu­
los desta diferença: "O homem não pode receber coisa alguma se do 
céu não lhe for dada.[...] Quem vem das alturas certamente está aci­
ma de todos; quem vem da terra é terreno e fala da terra; quem veio 
do céu está acima de todos e testifica o que tem visto e ouvido; con­
tudo, ninguém aceita o seu testemunho" (Jo 3:27, 31,32). 
Mesmo que estejam ensinando a verdade, todos os outros que 
reivindicam ou recebem status profético ainda são, quando muito, 
seres humanos com um chamado especial de Deus. Seu comissiona-
mento é dado por outrem; eles são os receptores humanos. Jesus, 
por seu lado, é o Supremo Doador de si mesmo. Ele é "de cima", diz 
o escritor do Evangelho. 
Em outra conversa, Jesus afirmou que sua ascensão ao céu foi 
precedida pela sua descida (veja Jo 3:13). Implícita nesta palavra 
está a afirmação de que seu conhecimento é perfeito e completo. Só 
este fato já o coloca numa posição exclusiva. Sua visão da realidade, 
sua explicação da vida, sua revelação de mistérios e seus vislumbres 
52 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
daquilo que importa e daquilo que não importa procediam de sua 
condição de eterno. Esta é a questão. Sua jornada terrena não origi­
nava nada, era apenas uma visita. 
Todas as outras pessoas que se encontram no cerne de alguma 
religião tiveram um princípio, seja factual ou fantasioso — de qualquer 
forma há um princípio. O nascimento de Jesus em Belém foi um 
momento precedido pela eternidade. Seu ser não se originou no tempo 
e nem foi produzido pela vontade humana. O Autor do tempo, que 
vivia no eterno, encarnou no tempo para que possamos viver com a 
visão no eterno. Nesse sentido, a mensagem de Cristo não foi a intro­
dução de uma religião, mas a introdução da verdade sobre a realida­
de como somente Deus a conhece. Buscar a espiritualidade e ao 
mesmo tempo negar a mensagem de Jesus é conjurar uma religião 
imaginária na tentativa de enxergar o céu com a visão confinada à 
terra. 
Foi exatamente este desafio que Jesus apresentou quando disse: 
"Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (Jo 10:10). 
Sua vida recende a vida. A vida do leitor ou a minha vida, separadas 
dele, recendem a morte. 
P O S I C I O N A D O PELA TRANSCENDÊNCIA 
"Onde tu assistes [moras]?", perguntou o discípulo curioso. 
"Moro com meu Pai celeste", foi a resposta. 
Para Natanael, subitamente irrompeu em sua consciência uma 
nova visão do ser e do tempo. No entanto, surge uma questão óbvia: 
Como Jesus podia sustentar tal reivindicação? Afirmar não ter prin­
cípio é uma coisa; tornar esta afirmação racional é outra. Se o céu é 
o ponto de referência para toda realidade, então duas ramificações 
principais foram entalhadas para os discípulos e, por conseguinte, 
também para nós. A primeira é a posição com referência a Jesus, e a 
segunda, a posição com referência a nós. Evidentemente, pela lógi­
ca, a segunda é precedida da primeira. 
O que quero dizer com posição? Refiro-me à posição privilegia­
da da qual agora podemos encarar a vida, por causa dele. 
E M D I R E Ç Ã O D O LAR C E L E S T I A L 53 
Você já experimentou confusão ao contemplar uma configuração 
aparentemente sem sentido num póster ou num desenho, que pare­
ce mostrar linhas ou pontos aleatórios? Você continua olhando, e, 
quando move a cabeça para um lado ou outro, subitamente uma 
palavra ou um desenho surge naquele padrão confuso. Chamamosisso de criptograma. 
Algo fascinante acontece assim que você percebe que os pontos 
ou sombras estavam apenas mascarando a mensagem real. Você move 
a cabeça novamente, tentando perder de vista o padrão ordenado e 
rever a desordem inicial. Este exercício é feito somente porque você 
fica se perguntando como foi possível deixar de ver a palavra quan­
do olhou pela primeira vez. Quando o olho captura a imagem, in­
terpreta a mensagem como ela é. Quando o olho perde a mensagem, 
a desordem domina. 
Posso sugerir que o desafio do ministério terreno de Jesus foi 
nos capacitar a ver a mensagem, a fim de entendermos o quadro. 
Olhando o criptograma da vida, vemos o nome de Jesus brilhando 
de forma inquestionável, ou vemos a confusão das religiões sem uma 
única mensagem, mas apenas crenças mutiladas que assolam nossa 
existência, cada uma delas justificada pela voz da cultura. Esta pode 
ser a tragédia do sentimento enganador que chamamos de tolerân­
cia, a qual tornou-se um eufemismo para contradição. O resultado é 
escorregadio. 
Jesus Cristo veio para desafiar cada cultura na face da terra a fim 
de adquirirmos uma perspectiva mais elevada. No entanto, como 
podemos alcançar este plano mais elevado? Podemos ver um traço 
de nossa situação até mesmo do nosso ponto de vista inferior. A 
despeito das limitações de nossa perspectiva terrena, ainda reconhe­
cemos a impiedade. Ainda comentamos sobre o testemunho do mal. 
Pode ser que haja uma razão. C. S. Lewis nos ajuda neste ponto: 
O céu compreende o inferno, mas o inferno não compreende o 
céu... Para nos projetar num caráter ímpio, só temos de parar de 
fazer algo, algo que já estamos cansados de fazer; para nos proje-
tarmos num caráter bom, temos de fazer o que não podemos e nos 
tornar aquilo que não somos.1 
54 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
"Fazer o que não podemos e nos tornar aquilo que não somos". 
Essas limitações fazem a separação entre a pureza e o mal. Para mu­
dar este fato, os olhos do céu devem estar fixos em nós. E isso que 
Jesus oferece àquele que vai a ele — sermos aquilo que em nós mesmos 
não podemos ser, e fazermos aquilo que por nós mesmos não conse­
guimos fazer. 
Quando eu era menino, lembro de ter lido uma história sobre Sir 
Isaac Newton, que me deixou uma profunda impressão. Ele tinha 
trabalhado durante horas em suas pesquisas científicas sobre o tama­
nho do universo físico, trabalhando incansavelmente sob a luz de 
uma vela. Ao seu lado, estava seu amado e inseparável cão. 
Em dado momento Newton saiu da sala e o cão levantou-se para 
segui-lo; inadvertidamente, o animal bateu no lado da mesa, derru­
bando a vela e incendiando os pape'is. Em poucos segundos, todo o 
trabalho exaustivo foi reduzido a um monte de cinzas. 
Quando Newton retornou ao seu escritório para ver o que restara 
do seu trabalho, ficou com o coração despedaçado. Reunindo o pou­
co que conseguiu salvar, ele se sentou e chorou copiosamente. De­
pois, afagando gentilmente o cão, ele disse: — Jamais, jamais você 
saberá o que fez. 
Mesmo que fosse possível o cão perceber que algo trágico tinha 
ocorrido, seria impossível saber o tipo de tragédia e não somente a 
gravidade do que tinha feito. 
Por analogia, esse tipo de distância essencial é o que torna a nossa 
situação tão claramente impossível. Vivendo num mundo mau, te­
nho maior facilidade para compreender minha própria impiedade 
do que pensando nos termos claros como cristal da pureza perfeita. 
Na biografia que escreveu de madre Teresa, Christopher Hitchens 
estabeleceu como seu alvo descobrir algo que maculasse seu caráter. 
Ele disse a respeito dela: "Para o ateísta que há dentro de mim, ela é 
o grande cachalote branco".2 Assim, ele tinha de fazer o papel de 
Acabe e sair em sua perseguição. 
Isso fala muito sobre a natureza humana. Nós nos sentimos inco­
modados com a pureza. E de estranhar que não consigamos com­
preender Deus? A lacuna não é somente moral; trata-se também de 
E M DI6.EÇÁO DO LAR CELESTIAL 55 
capacidade. Para mim é mais fácil pensar em termos de tempo do 
que em termos de eternidade. Como poderei explicar a habitação de 
um Ser perfeito na eternidade, quando meu ser está trancado na 
imperfeição e no tempo? Como posso entender o sobrenatural, quan­
do estou escravizado pelo natural? 
Há um termo em alemão que separa a existência da vida: dasein 
ohne leben — "existência sem vida". Jesus veio para nos lembrar que 
nós, que estamos presos no temporal, subsistimos sem a matriz da 
vida. Embora continuemos a existir, carecemos da vida no seu ver­
dadeiro significado. Ele deseja que vejamos o que significa viver por 
meio das lentes do eterno. Isso ocorre quando ele torna nossa vida 
sua habitação. Ali ele promete nos abençoar. 
Certa vez Jesus disse às pessoas que o questionavam: "Se, tratan­
do de coisas terrenas, não me credes, como crereis, se vos falar das 
celestiais?" (Jo 3:12). 
Será que este elemento distintivo da habitação celestial de Cris­
to é um fator único nas religiões mundiais? É claro que sim. Talvez 
esta credencial singular de Jesus esteja na mente dos eruditos mu­
çulmanos quando tentam atribuir a Maomé uma excursão fantásti­
ca ao céu. O islamismo afirma que em um ponto de sua vida, numa 
noite em particular, Maomé foi transportado ao céu numa jornada 
única, para ter um vislumbre de como era o céu.3 Independente­
mente de todos os argumentos confusos sobre esta afirmação, ela na 
verdade afirma que, ainda que tal fato realmente tenha ocorrido, só 
mostra que Maomé não conhecia o céu. Esta é a grande diferença 
entre ele e Jesus. 
Com esta diferença tão singular, os céticos podem fazer uma 
pergunta legítima: há alguma evidência que sustenta a afirmação de 
Jesus quanto à sua origem? 
C O N C E P Ç Ã O SEM C O N S U M A Ç Ã O 
Se Jesus não tinha início, então seu próprio nascimento tinha de 
explicar como ele pôde ter "nascido" e mesmo assim não ter um princí­
pio. Seu nascimento virginal certamente responde a essa questão. 
Ramon Serrano
Sticky Note
% ' POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Quando se procura evidências que confirmem uma afirmação 
surpreendente, é preciso olhar para outras fontes que lhe dêem base, 
mesmo que não seja em benefício dos seus interesses pessoais. O 
nascimento virginal de Jesus pode ser colocado nesta esfera, tanto 
por aqueles que estiveram envolvidos nos acontecimentos como pe­
los opositores. Para a própria Maria, afirmar uma concepção tão 
estranha teria colocado não somente a sua própria vida em risco, 
como também a vida de Jesus. 
Embora já tenha me referido várias vezes a este fato, quero repeti-lo 
aqui. Certa vez perguntaram ao famoso entrevistador Larry King 
quem ele entrevistaria, se pudesse escolher qualquer personagem da 
história. Ele respondeu que gostaria de entrevistar Jesus Cristo e que 
lhe faria apenas uma pergunta: "Você realmente nasceu de uma vir­
gem?". "A resposta a esta pergunta", ele afirmou, "me explicaria toda 
a história".4 
Larry King está certo. O nascimento virginal, na pior das hipó­
teses, aponta para um mundo não escravizado pelo naturalismo. A 
reivindicação é elevada, mas pense nela dentro do seu contexto origi­
nal. O nascimento virginal de Jesus foi afirmado e ao mesmo tempo 
recebeu a clara possibilidade de ser checado ao longo de muitas li­
nhas. 
Dentre todas as pessoas influentes que você já estudou, pergun­
te como elas justificariam um nascimento virginal e uma existência 
eterna, se tivessem feito tais afirmações. E uma questão particular­
mente significativa se tal fato foi predito antes do nascimento da 
pessoa. Como faríamos para reunir as profecias — de fato, centenas 
delas - e seu cumprimento? Para os opositores de Jesus, teria sido 
fácil medir, geração após geração, se esta afirmação de ser o Messias 
poderia ter suportado o escrutínio dos eruditos e o teste das Escritu­
ras. Por isso as genealogias eram muito mais importantes para os 
primeiros discípulos do que a mobília de uma casa. 
Além de Maria e José, considere os testemunhosdo sacerdote 
Zacarias e de sua esposa Isabel (os país de João Batista), para quem 
teria sido natural não desejar que o filho desempenhasse um "papel 
secundário" diante de um primo, principalmente este sendo mais 
E M D I R E Ç Ã O D O LAR C E L E S T I A L 57 
novo. Numa cultura que valoriza o poder e a posição, onde a opi­
nião alheia conta muito, ninguém escolheria a vergonha. 
Se o nascimento virginal não fosse verdade, tal afirmação seria o 
caminho do ostracismo ou até do suicídio social para todos os en­
volvidos. Isabel perdeu o filho João sob a espada de Herodes e Maria 
foi alertada por um anjo que uma espada despedaçaria seu coração — 
nenhuma mãe desejaria tais coisas. Maria, José, Zacarias, Isabel, João 
Batista e os discípulos arriscaram tudo em favor desta verdade. 
No entanto, além dos costumes judaicos e das disposições fami­
liares, provavelmente a afirmação mais surpreendente sobre o nasci­
mento virginal procede de uma religião que durante séculos tenta se 
levantar contra o cristianismo — o islamismo. Mesmo o Alcorão, 
escrito 600 anos depois de Jesus, afirma seu nascimento virginal 
(veja Surah 19.19-21). O islamismo não tem nenhuma vantagem 
em fazer tal afirmação. 
Aqui, então, está o homem de Nazaré, afirmando que sua ori­
gem era o céu e que seu Pai era o próprio Deus - um Filho não 
nascido mediante a consumação física e sem necessidade de tal rela­
ção, mas como a expressão suprema de Deus encarnado, em comu­
nhão eterna com o Pai. 
Seu nascimento não se deu por meios naturais. O mesmo não 
pode ser dito sobre Maomé, Krishna ou Buda. Embora defenda o 
nascimento virginal, o islamismo nega que Jesus é o Filho de Deus. 
Portanto, jamais foi capaz de se livrar da contradição criada em tor­
no da filiação de Jesus. Seu argumento de que sugerir que Deus 
pudesse ter um Filho é blasfémia baseia-se na noção de que para que 
uma criança nasça é preciso que haja união sexual, o que desonraria 
a Deus. Assim, há uma meia-verdade aqui, com uma irónica distorção 
para uma religião cujo profeta fundador teve numerosas relações 
sexuais, todas elas (segundo seus seguidores) inspiradas por Deus. 
Deixando isso de lado, porém, desde que concordam com o 
nascimento virginal, teriam de reconhecer que Deus, em seu infini­
to poder, pode iniciar a vida sem relação sexual. No princípio, a 
comunhão e o poder de dar vida existiam no próprio Deus. Em seu 
ser infinito, o relacionamento era intrínseco, sem o pré-requisito 
58 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
carnal da consumação física. Deus, que é Espírito, é, de fato, Ser-em-
relacionamento. Em Cristo, o Verbo se tornou carne. Só ele, que habi­
tava na eternidade, podia consagrar a carne e ao mesmo tempo fazer 
distinção entre o poder inerente da criação e o poder concedido da 
procriação, apesar de ele transcender os meios aos quais nós estamos 
presos. 
UMA VIDA SEM MÁCULA 
No entanto, houve uma segunda forma mediante a qual Jesus pro­
vou sua existência eterna e absoluta. Sua vida sempre foi considera­
da como a mais pura que já foi vivida. Em numerosas ocasiões, seus 
opositores foram desafiados a trazer alguma prova contrária contra 
ele. Nunca conseguiram obscurecer sua vida imaculada. Ele desa­
fiou seus adversários a apontar qualquer pecado em seu comporta­
mento. No transcorrer deste livro, veremos que eles tentaram com 
todas as forças. 
Por contraste, nenhum outro indivíduo suscitou tal investida. 
Por iniciativa própria deles, incluímos aqui Maomé, Buda e Krishna. 
Suas vidas e esforços são registrados dentro de suas próprias escritu­
ras. Por todo o mundo muçulmano atual mantém-se a crença de 
que todos os profetas eram isentos de pecados. Esta doutrina nos 
maravilha, desde que jamais foi o perfil dos profetas apresentados 
no Antigo Testamento e nem fica evidente em seus próprios escritos. 
Os deslizes dos dois profetas mais respeitados no Islã, Abraão e Moisés, 
são claramente afirmados no Alcorão. Por exemplo, na Surah 28,16 
Moisés pediu perdão depois de ferir o egípcio. Na Surah 26,82 Abraão 
pediu perdão no Dia do Juízo. A palavra usada aqui, a qual os muçul­
manos traduzem como "falta" e não "pecado", é a mesma empregada 
em outros contextos e traduzidas como "pecado". 
Nas Surahs Al e 48, o próprio Maomé foi orientado a pedir per­
dão pelo pecado, e o termo outra vez é traduzido como "falta" e não 
"pecado". Novamente, a palavra usada na Surah 47,19 é a mesma 
traduzida como "pecado" na Surah 12,29, onde é aplicada à esposa 
de Potifar, em suas tentativas de seduzir José. Muitos linguistas vêem 
EM 1MREÇÀO DO LAR CELESTIAL > 59 
isto como uma tentativa de passar por cima do que realmente foi 
dito, considerando como nada menos do que o desenvolvimento de 
uma tradição, de modo que a vida de Maomé não seja depreciada 
em contraste com a vida de Jesus. 
Há grande diversidade nas tentativas de explicar este fato. No 
entanto, que tipo de "falta" precisa ser perdoada? Será algo que devia 
ser de certa maneira, mas não é? Será um pensamento induzido ao 
erro? 
Há muito a ser dito no contraste entre a vida de Maomé e a vida 
de Jesus. O casamento do primeiro com onze esposas tem sido um 
assunto fascinante que exige explicações dos eruditos muçulmanos. 
Mesmo que o casamento não prove mais nada, estabelece claramen­
te a necessidade gradual de morrer para o eu, para que os dois se 
tornem um. Trata-se de um processo de cair e levantar e não de 
aperfeiçoamento. No entanto, mesmo que alguém consiga explicar 
todas as práticas questionáveis de Maomé, inclusive a descrição 
embaraçosa do céu como "vinho e mulheres" no Alcorão {Surah 
78,32 ss, que os muçulmanos consideram como metáfora), não há 
nenhum vestígio na vida de Jesus de que alguma vez foi impelido 
pela sensualidade ou teve de pedir perdão por algo que tenha feito. 
Somente ele emerge como o imaculado, isento de qualquer tipo de 
erro, de omissão ou comissão. 
Também deve ser notado que este contraste não somente é evi­
dente na forma como Jesus e Maomé viveram, mas também na for­
ma como entenderam o próprio chamado. Este senso de origem e 
de chamado é tão diferente que, de acordo com os relatos do pró­
prio islamismo, quando Maomé afirmou pela primeira vez ter rece­
bido revelações, ficou confuso e sem entender o que significava. 
Foram outros que lhe disseram que podia ser a voz de Deus falando 
com ele. Jesus, por outro lado, sabia exatamente quem era e de onde 
viera. 
O hinduísmo não está isento desse escrutínio. O tom brinca­
lhão de Krishna e suas façanhas com as leiteiras, relatadas no 
Bhagavad-Gita, é claramente um embaraço para muitos eruditos 
hindus. 
60 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Como Buda se qualifica dentro dos padrões de pureza pessoal 
estabelecidos por Jesus? O simples fato de que ele experimentou 
várias encarnações implica numa série de vidas imperfeitas. Quando 
ele saiu do seu palácio, deixando para trás a esposa e o filho, estava 
em busca de uma resposta. Ele não começou com a resposta. Sua 
"iluminação" era um ideal. Era um caminho para a pureza e não a 
pureza em si. 
Jesus não iniciou sua missão deixando um ambiente mais con­
fortável para adquirir iluminação, a fim de encontrar respostas para 
os mistérios da vida. Essa foi a origem do budismo. 
Jesus não veio para dar a certo grupo étnico uma dignidade para 
que também pudessem ter uma identidade como os outros povos ao 
redor tinham; o islamismo começou por esta razão.5 
Jesus não deu a nenhum povo razão para se vangloriar de privi­
légios particulares por terem uma cultura antiga ou a clara força da 
unidade social; praticamente todas as culturas panteístas se orgu­
lham de sua existência milenar. 
Jesus não veio para afirmar pessoas que se orgulhavam do pode­
rio militar, como os cidadãos de Roma, que afirmavam que sua ci­
dade era eterna. 
Jesus não veio para homenagear os gregos por sua habilidade 
intelectual. De fato, ele nem mesmo veio para exaltar uma cultura 
por ser o recipiente da lei moral de Deus, algoem que os hebreus se 
vangloriavam. 
Sua reivindicação forte e inequívoca era que o céu era sua mora­
da e a terra, o estrado dos seus pés. Nunca houve um tempo em que 
ele não existia. Nunca haverá um tempo em que ele não mais existi­
rá. Ele ocupa uma posição de verdade, dentro de uma perspectiva 
eterna que o coloca numa condição única. 
M U D A N D O O NOSSO E N D E R E Ç O 
Eu disse anteriormente que não somente nosso campo de visão foi 
afetado, mas também nosso lugar na vida foi redefinido. Se a posição 
privilegiada de Jesus nos dá seu ponto de vista único, sustentado 
E M D I R E Ç Á O D O LAR C E L E S T I A L 61 
pelo seu nascimento sobrenatural, então se segue uma aplicação ex­
tremamente necessária, se formos aplicar sua verdade às nossas mo­
radias. 
A implicação foi claramente uma surpresa para Natanael, para 
quem nada de bom poderia sair de Nazaré. Esta cidade mal aparecia 
nos mapas. Os eruditos levaram anos para estabelecer sua localiza­
ção. Dentre todos os lugares do mundo, por que o Senhor do céu e 
da terra escolheria Nazaré? Seria possível que desde que o céu era a 
sua morada e a terra, o estrado dos seus pés, ele escolheu o ponto 
mais baixo do estrado a fim de que aqueles que se orgulham do 
lugar onde nasceram notem que nosso Pai celestial tem credenciais 
melhores para nós do que nossas raízes terrenas? 
Nosso mundo se desviou tanto da vontade divina que afunda­
mos na miséria medindo-nos em termos de raça, poder, progresso 
ou conhecimento académico. As chamas dos preconceitos de todos 
os tipos queimaram durante vinte séculos. A politização e o absolu­
tismo cultural podem bem ser a causa do próximo confronto mun­
dial. Todos os privilégios do nascimento e das posses materiais 
tornam-se destrutivos quando são apartados das mãos do Criador. 
As palavras de Jesus são um claro lembrete a todos nós que, 
quando levado ao extremo, o orgulho do nascimento pode ser um 
vórtice que nos suga para meios destrutivos de pensar e de viver. A 
voz crescente do nacionalismo tem liberado horrores indescritíveis. 
Nas muitas viagens que já fiz, visitei regiões do mundo onde as 
pessoas acham que são superiores por causa de sua cultura — lugares 
como China, Oriente Médio, Europa e América. De uma forma ou 
de outra, todos nós achamos que somos o centro do universo por 
causa da nossa posição na vida. Mas não tivemos absolutamente 
nada a ver com nosso nascimento. Jesus teve de escolher e escolheu a 
mais improvável das cidades para chamar de lar. Ele não foi seduzido 
pelas cordas frágeis e enganadoras do nacionalismo. 
No entanto, se a cultura ou o nascimento jamais devem dar 
lugar ao preconceito, a riqueza também não deve se tornar um meio 
de medir o valor pessoal. Creio que o silêncio das Escrituras em 
relação à condição financeira de Jesus é muito instrutivo. Numa 
62 : ; POR QUE JESUS É DIFERENTE 
cultura na qual endereço e cidadç significam tanto, a única pista que 
temos, em relação a Jesus, é que ele veio de uma condição económi­
ca inesperada. Creio que é um lembrete solene para não termos como 
propósito de nossa vida a busca dos bens materiais. A sedução é enor­
me, e o desapontamento é proporcional. 
Certa vez li num jornal de grande circulação de Nova Iorque 
uma entrevista com a esposa de um jogador de beisebol que acabara 
de assinar um contrato de 89 milhões de dólares com o time dos 
Yankees. Ele demorou um longo período para assinar, na esperança 
de que a direção cobrisse a proposta de 91 milhões de dólares feita 
por outra equipe. Os Yankees não cederam. Na entrevista, sua espo­
sa disse: "Quando ele entrou em casa, eu percebi imediatamente 
que não conseguira persuadi-los a aumentar o valor do contrato de 
89 para 91 milhões de dólares. Ele estava arrasado. Foi um dos dias 
mais tristes de nossas vidas". 
Infelizmente, essa é uma das idiossincrasias da mentalidade hu­
mana. 
A maioria de nós jamais ficaria com o coração partido se nos 
fosse oferecido um contrato de 89 milhões de dólares e não de 91, 
como esperávamos. Nós, porém, perdemos o rumo dentro do nosso 
próprio contexto material. Não é o valor do cheque que mexe co-
nosco; são as nossas prioridades. Não creio, nem por um momento, 
que a Bíblia condene a riqueza. No entanto, há sérias advertências 
para aqueles que fazem da riqueza seu alvo mais elevado. A riqueza 
deve ser administrada por meio de uma filosofia de vida que seja 
maior do que a riqueza em si. Senão, ela molda a mente e traz amar­
go desapontamento. Através dos anos, Deus tem me dado o privilé­
gio de ter contato com pessoas que possuem o dom natural de 
multiplicar aquilo que lhes é confiado. Muitas delas admitem que é 
extremamente difícil aprender a conviver com a riqueza. 
De acordo com seu livro The Last Temptation ofChrist, Nikos 
Kazantzakis estava totalmente errado sobre Jesus. Ele mostra uma 
cena na qual Satanás passa pela imaginação de Jesus tudo o que ele 
teria se resistisse à cruz — um lar em Betânia e a escravidão de uma 
esposa, que poderia ser Maria ou Marta — ou até as duas! Kazantzakis 
E M D I R E Ç A O D O LAR C E L E S T I A L 63 
estava errado. Lamentavelmente errado. Nunca parou para pensar 
que um lar em Betânia não seria exatamente uma tentação para aque­
le cuja habitação era o céu. 
Quero encerrar este capítulo e sua lição com uma lembrança pes­
soal. Alguns anos atrás passamos o Natal na casa dos pais de minha 
esposa. Não era um dia feliz na casa. Muita coisa tinha dado errado 
nas semanas anteriores, e havia muita tristeza pairando no ambiente. 
Mesmo assim, no meio de tudo aquilo, minha sogra manteve seu 
costume de convidar as pessoas que não tinham para onde ir para 
participarem da ceia. 
Naquele ano ela convidou um homem que, aos olhos de todos, 
era uma pessoa estranha e de comportamento excêntrico. Não se 
sabia muito sobre ele na igreja, exceto que a frequentava regular­
mente, sentava-se sempre sozinho e ia embora sem conversar muito. 
Obviamente morava sozinho e parecia uma figura triste e solitária. 
Assim, ele foi o nosso convidado do Natal. 
Devido a outros acontecimentos na família, um dos menos 
sérios foi que minha cunhada foi levada ao hospital para dar à luz 
seu primeiro filho. A casa estava uma confusão. Todos sentiam os 
nervos à flor da pele. Eu fui encarregado de fazer sala para aquele 
cavalheiro. Devo confessar que não gostei da incumbência. Devido 
a uma vida de viagens constantes, sou zeloso em guardar a época de 
Natal para passar somente com a família. Teria de abrir mão desse 
privilégio e não estava muito feliz. Quando me sentei na sala, fazen­
do companhia para ele enquanto os outros estavam ocupados, pen­
sei: "Parece que este será um dos piores Natais de minha vida". 
E assim a noite foi transcorrendo. Evidentemente aquele ho­
mem apreciou a comida, o fogo crepitando na lareira, a neve caindo 
lá fora, as músicas natalinas e a profunda discussão teológica, na 
qual ele e eu estivemos engajados — por sua iniciativa, devo acres­
centar. Era um homem esclarecido e que gostava de falar sobre te­
mas complexos. Eu também gosto, mas, francamente, não durante 
a ceia de Natal. 
No final da noite, na hora de se despedir, ele apertou a mão de 
cada um dos presentes e disse: "Obrigado pelo melhor Natal de 
64 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
minha vida. Jamais esquecerei". A seguir, saiu para a escuridão da 
noite, de volta à sua existência solitária. 
Diante daquelas palavras carinhosas, meu coração se apertou, e 
senti a consciência pesar. Tive de me esforçar muito para conter as 
lágrimas. Poucos anos depois ele faleceu, relativamente jovem e sur­
preendendo a todos. Já revivi muitas vezes aquele Natal em minha 
memória. 
O Senhor me ensinou uma lição. O propósito primário de um 
lar é refletir e distribuir o amor de Cristo. Tudo o que usurpa isso é 
idolatria. Tendo se levantado acima do preconceito cultural, Jesus 
ajudou os discípulos a reavaliarem a posição da riqueza. O impacto 
sobre eles foi tão forte que nos anos seguintes muitos deixariamsuas 
casas e iriam às partes mais distantes do mundo a fim de proclamar 
a mensagem do céu que redefinia os lares terrenos. Onxe deles paga­
ram com a própria vida. 
A primeira vez em que caminhei pelas ruas barulhentas de Belém 
e senti seus aromas, adquiri um novo senso da diferença entre nos­
sos cânticos de Natal, que falam do glamour e da doçura dos "sinos 
de Belém" e a dura realidade de Deus tornando-se homem e habi­
tando entre nós. Mas isso não faz parte da maravilha da revelação de 
Deus, a realidade que ele aponta para aquilo com o que convivemos 
para nos mostrar o significado da verdadeira vida? 
Para os discípulos, a resposta de Jesus a esta simples questão -
"onde assistes [moras]?" - elevou-os acima da questão racial e cultu­
ral, acima da riqueza e do poder, acima do tempo e da distância, 
tornando-os genuínos cidadãos do mundo, informados sobre o 
mundo vindouro. Jesus levou-os a uma forma de viver e pensar to­
talmente diferente daquela a que estavam acostumados. Mostrou-
lhes o caráter inclusivo do seu amor por todo o mundo. No entanto, 
implícito a isso estava também a exclusividade de sua verdade, pela 
qual eles se dispuseram a sacrificar a própria vida. Nós revertemos a 
ordem de Jesus. Tornamos a verdade algo relativo, exaltamos a cultu­
ra e fomos deixados num mundo onde impera a impiedade. 
Jesus trouxe a verdade à luz e trouxe a perspectiva de um novo 
mundo. Em Jesus meu coração encontra o verdadeiro lar. 
E M D I R E Ç Ã O D O LAR C E L E S T I A L . 65 
G. K. Ches ter ton captou a maravilha de c o m o o endereço terre­
no de Jesus m u d a o nosso endereço, de u m a forma que só ele pode 
fazer. 
Uma criança num estábulo, 
Onde os animais se alimentam e descansam; 
Onde somente ele estava desabrigado, 
Você e eu nos sentimos em casa: 
Temos mãos que criam e mentes que pensam, 
Mas perdemos nosso coração - há muito tempo! 
Num lugar aonde não vai carro e nem navio, 
Sob a abóbada do céu. 
Para uma casa aberta na noite, 
Para onde todos os homens vão, 
Para um lugar mais antigo que o Éden, 
Uma cidade maior do que Roma. 
Para o fim da jornada da estrela, 
Para as coisas que não podem ser, mas são, 
Para o lugar onde Deus estava desabrigado 
E todos os homens estão em casa.6 
O n d e Jesus vivia? Venha a Cristo e veja o que significa viver. 
c a p í t u l o t r ê s 
A ANATOMIA DA FÉ 
E A BUSCA DA RAZÃO 
C erra vez perguntaram ao conhecido filósofo ateu Bertrand 
Russell: "Se você se encontrar com Deus depois da morte, o 
que lhe dirá para justificar sua incredulidade?" 
"Eu lhe direi que não me deu evidências suficientes", ele disparou. 
Bertrand Russell pode ter demonstrado uma hostilidade incomum 
contra as crenças religiosas e contra o cristianismo em particular, 
mas sua sede por evidências ou seu anseio por provas não é único. 
Particularmente, confesso que me preocupo mais com aqueles 
que não buscam tal suporte para aquilo em que crêem do que com 
aqueles que buscam. Há centenas, ou até milhares, de pessoas com 
as quais cruzei em minhas viagens que não somente "creram teorica­
mente" em alguma divindade, mas também se dedicaram a ela de 
todo o coração. "Deuses" e "deusas" com aspecto e atributos assusta­
dores são venerados por milhões de pessoas que apresentam suas 
ofertas e se prostram em adoração. Não me conformo com tal dedi­
cação sem questionamentos, motivada por um sentimento engen­
drado e herdado da cultura. 
Por outro lado, também concordo que encontrar uma justifica-
(iva racional e firme para a crença pode ser uma tarefa tediosa e 
muitas vezes perigosa. No entanto, se a verdade for o motivo da 
busca e se esta for feita de modo racional, há recompensas. Há um 
velho ditado que diz: "E melhor debater uma questão antes de con-
68 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
cluir do que concluir antes de debater". Minhas batalhas intelectuais 
pessoais foram bem necessárias numa terra onde o número de deuses 
é quase igual ao número de pessoas. 
Infelizmente, por razões justificáveis e injustificáveis, os indiví­
duos hostis à crença em Deus muitas vezes a execram como sendo a 
armadilha da emoção se agarrando a uma ideia enquanto a mente 
fica desativada. Não crêem que a fé pode sustentar o peso das emo­
ções e da mente. 
Creio que cada pessoa tem uma capacidade diferente de pensar 
em tais assuntos. Entretanto, esse fato não constitui razão suficiente 
para sustentar uma visão em detrimento de outra. Não podemos 
fugir das questões que os oponentes têm levantado contra aqueles 
que "vivem pela fé". Eles estão certos em desejar saber qual é a dife­
rença entre a fé e a insensatez ou a irracionalidade, quando nenhuma 
lógica coerente é oferecida como base para a "fé". 
Certa vez minha mãe me perguntou, profundamente frustrada: 
"De onde você tira essas perguntas? Acha que tem de haver uma 
explicação para tudo?" Eu invejei sua simplicidade. No entanto, dei­
xando de lado nossas idiossincrasias, tenho de levantar o contraponto 
num mundo assolado pelas formas contraditórias de definir a reali­
dade suprema. Se alguém submete sua vida, hábitos, pensamentos, 
objetivos, prioridades — tudo — a certa cosmovisão sem questionar, 
do ponto de vista dos seus oponentes está construindo a vida sobre 
um fundamento questionável. 
Neste encontro com Jesus, trataremos de uma questão difícil 
a ele dirigida e, como resultado, veremos a anatomia da fé e a 
busca da razão. De fato, Jesus advertiu severamente aqueles que 
buscavam sinais. No entanto, ele também comprovou suas afirma­
ções com feitos extraordinários. Há um equilíbrio, e nós temos de 
encontrá-lo. 
Alguns anos atrás, enquanto eu estava nas Filipinas, pregando em 
algumas reuniões, fiquei hospedado num pequeno hotel fa­
miliar. A mulher que administrava o locai era formada em filosofia, e 
nós entabulamos uma conversa sobre a racionalidade ou a 
irracionalidade da fé em Deus. Durante a conversa, ela me pergun-
A ANATOMIA DA FÉ í A BUSCA DA RAZÃO 69 
tou se eu conhecera uma família que estava hospedada no hotel; ti­
nham vindo da Austrália, para que o filho fosse curado de câncer por 
um "milagreiro". 
Finalmente, uma noite pude entrar no quarto desse casal e do filho 
deles. Não me lembro da idade do menino, mas creio que devia ter 
uns doze anos. Ele estava deitado, muito magro e sem se mover. Era 
uma figura triste e quase sem vida. Sua face mostrava-se cinzenta, 
como se estivesse às portas da morte. Os pais e eu conversamos em 
voz baixa. Ao lado da cama havia um criado-mudo, sobre o qual 
havia uma vasilha com um líquido escuro e uma massa de carne 
avermelhada, de aspecto assustador, da qual saíam fios como raízes. 
A mãe do menino apontou para a vasilha e perguntou: —Está 
vendo o que há dentro da vasilha? 
Eu assenti. 
— Ê o câncer que o homem removeu sem cirurgia. É como 
mágica. Temos certeza de que agora nosso filho está curado. 
Eu apenas olhei para eles, com o coração pesado, pensando na 
dor terrível que sentiam. Ao mesmo tempo, era extremamente difí­
cil ficar face a face com tal credulidade, olhando nos olhos de pessoas 
dispostas a colocar a vida do filho nas mãos de "milagreiros", muitos 
deles reconhecidos como charlatões. Contra todas as evidências, duas 
pessoas educadas e esclarecidas se orgulhavam de uma cura realizada 
por alguém que proferiu algumas palavras mágicas e, supostamente, 
sem fazer qualquer incisão, extraiu aquela coisa do tamanho de um 
punho que estava "causando o câncer" no filho. Como se pode ex­
plicar esta forma extrema de "fé"? A capacidade humana de crer no 
bizarro, especialmente diante de necessidades extremas, é ilimitada. 
Não tenho dúvida de que nas Escrituras muitas vezes Deus in­
terveio curando o físico das pessoas; sei que continua fazendo isso 
ainda hoje. No entanto, este episódio estava muito longe disso, pois 
nele os elementos da ganância e da falsa religião eram óbvios demais 
para serem ignorados. 
Antes de ir embora, expliquei àquele casal que meu trabalho me 
levava a várias partes do mundo e que meajudaria muito saber se o 
poder daquele milagreiro era real ou um engodo. — Eu ficaria agrade-
70 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
eido se vocês me escrevessem dentro de uns dois meses e me disses­
sem se o menino realmente foi curado —, eu disse. Eles pegaram 
meu endereço e prometeram que escreveriam. Já se passaram mais de 
dez anos. Não tive mais nenhuma notícia deles. 
Se ocasiões isoladas exigem que não arrisquemos nossas vidas 
diante das reivindicações distorcidas de algum demagogo, quão mui­
to mais importante é que não arrisquemos o destino da própria 
humanidade por causa de alguém que insiste que é a única resposta 
verdadeira para o propósito da vida e do destino — a menos que tal 
afirmação seja totalmente testada e aprovada. E interessante notar 
que para aqueles como Bertrand Russell, que argumentam que as 
evidências são precárias, a Bíblia faz um contraponto surpreendente. 
Ela afirma categoricamente que o problema não é a ausência de evi­
dências; em vez disto, é a supressão das evidências. A mensagem de 
Jesus Cristo muda a acusação de insuficiência do volume de evidên­
cias para a intenção do indivíduo. 
Será que Jesus estava insinuando que a crença não é nada mais do 
que a sujeição cega da vontade? Creio que não. Mas ele disse, com 
efeito, que se você testar suas afirmações com a mesma medida que 
fundamenta outros fatos, descobrirá que ele e seus ensinamentos são 
totalmente confiáveis. A evidência já foi apresentada. A negação de 
Cristo tem menos a ver com fatos e mais a ver com a tendência moti­
vada pelo preconceito. Depois de anos me debatendo com esta ques­
tão no ambiente académico, tenho visto repetidamente a prova de 
sua veracidade. 
Note, por exemplo, as palavras de Thomas Nagel, professor de 
filosofia na Universidade de Nova York. Veja como ele explica sua 
profunda antipatia pela religião: 
Ao falar sobre o medo da religião, não me refiro à hostilidade 
totalmente explicável para com certas religiões estabelecidas... 
em virtude das suas doutrinas morais questionáveis, política so­
cial e influência política. Nem me refiro à associação de muitas 
crenças religiosas com superstição e com a aceitação de falsida­
des claramente empíricas. Refiro-me a algo muito mais profun-
A ANATOMIA DA FF l; A BUSCA DA RAZÃO 71 
do - ou seja, o medo da religião em si... Eu quero que o ateísmo 
seja verdade e fico desconfortável em ter de reconhecer que algu­
mas das pessoas mais inteligentes e bem informadas que co­
nheço são religiosas. Não é só uma questão de não acreditar em 
Deus e ter esperança de que ele não exista! Eu não quero que 
Deus exisra; não quero que o universo seja assim.1 
Isso é incredulidade clara e deliberada. "Não quero que Deus 
exista". Embora o ceticismo de Bertrand Russell possa ser represen­
tado como uma busca honesta da razão, é melhor termos certeza de 
que não é a incredulidade descontrolada de Thomas Nagel que es­
preita por trás da busca intelectual. Este tipo de ceticismo é a distorção 
da razão, disfarçado de candura. Para tal disposição, nenhuma evi­
dência é suficiente. Veremos que quando estudamos este tema de 
razão e fé e o lugar dos sinais, Deus tem muito mais a dizer sobre isso 
do que imaginamos. 
NADA N O V O NA DEMANDA 
Muito antes de os nossos céticos modernos começarem a exigir evi­
dências, os homens mais religiosos da época aproximaram-se de Jesus 
e perguntaram: "Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas?" (Jo 
2:18). 
Não eram os Russells e Nagels daquela época, fustigando o so­
brenatural. De fato, eram uma parte vital da vida do templo, o qual 
representava o oceano religioso e mercenário para o qual fluíam todos 
os esforços. Mesas eram armadas no interior do templo, sobre as quais 
se obtinham lucro do desejo das pessoas de estar quites com Deus. 
Desde carneiros até facas, os exploradores e os explorados mantinham 
uma atividade frenética, enchendo o recinto com os ruídos dos te­
mores eternos e temporais. Os menos favorecidos e os necessitados 
se aproximavam o máximo que lhes era permitido, em busca de cura 
e de restauração. Os que guardavam a lei moral, a lei cerimonial e as 
leis de sua própria autoria consideravam o templo como sua grande 
salvação. 
72 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Dentre todos os empreendimentos nos quais o coração humano 
se envolve, nenhum é tão suscetível ao exagero e à manipulação quanto 
a religião. Aqui, o sacrifício e a ganância se encontram no contexto mais 
confiável e explorador. Certa vez o respeitado erudito e missionário 
Stephen Neill disse: "Estou inclinado a pensar que a ambição em 
qualquer sentido ordinário do termo é quase sempre pecaminosa nas 
pessoas comuns. Tenho certeza de que no cristão ela é sempre peca­
minosa e ainda mais inescusável nos ministros ordenados".2 
Creio que Neill tinha razão. De Voltaire a Einstein, os pensado­
res têm lançado sérias suspeitas sobre a religião institucional por cau­
sa do seu passado comprometedor. É trágico que a história da religião, 
inclusive o cristianismo, esteja tão repleta de abusos a ponto de os 
céticos muitas vezes estarem corretos em sua "rejeição racional" da 
mensagem. Jesus foi alvo da fúria das autoridades eclesiásticas quan­
do as lembrou de que a hipocrisia era a causa da incredulidade das 
massas. 
Foi nesses confrontos entre Jesus e os guardiães do templo que 
surgiu a exigência de um sinal. Jesus entrou no templo e virou as 
mesas dos comerciantes da parafernália religiosa, expulsando-os do 
local. "Tirai daqui estas coisas; não façais da casa de meu Pai casa de 
negócio" (Jo 2:16). Eles tinham transformado um local de adoração 
num covil de criminosos. 
Certa vez fiquei num hotel em cuja frente havia um pequeno 
santuário. Todas as manhãs eu ficava observando enquanto milhares 
de pessoas entravam no santuário. Muitas paravam, se inclinavam, 
juntavam as mãos ou faziam algum sinal de reverência à divindade e 
depois entravam. Muitos daqueles que realizavam aquele cerimonial 
de reverência afastavam-se alguns metros e ficavam à espreita, es­
perando os turistas incautos. Desde fotos de mulheres nuas até os 
serviços de prostitutas, relógios Rolex falsos vendidos a 20 dólares, 
passavam o dia em atividades ilegais e imorais. Eram zelosos e agres­
sivos ao fazerem os ingénuos se desviarem. 
Enquanto eu observava essas cenas, tentava reunir os hábitos de 
adoração e os negócios escandalosos que praticavam. Cheguei à con­
clusão de que hipócrita é uma palavra inócua para descrever tal estilo 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO 7 3 
de vida. As atividades daquelas pessoas, tanto as sagradas como as 
perversas, não eram ocultas — faziam tudo abertamente. Creio que o 
que realmente acontecia era que o nervo da espiritualidade era extir­
pado até a raiz, de forma que não chegava ao coração, às mãos e aos 
pés. A vida é vivida em compartimentos estanques, sem nenhuma 
conexão entre si. Quando se inclinam, reconhecem o sagrado. Quan­
do exploram os outros, exaltam o material. Na vida diária, profa­
nam a vida de outras pessoas sem nenhum peso na consciência. No 
entanto, se alguém fizer qualquer menção de profanar o santuário, 
correrá perigo de vida. Trata-se de uma religião distorcida, que pres­
ta homenagem a Deus, mas que ficaria profundamente surpresa se 
Deus se manifestasse. 
Foi para esses rufiões que Jesus veio. Foi um confronto sem pre­
cedentes. Usar o jargão moderno — "politicamente correto" — seria 
uma descrição de cordeiro para uma atitude de leão. Entrar em cho­
que com os "manda-chuva" e referir-se ao templo como a casa de seu 
Pai? As atitudes e as palavras foram chocantes para os presentes. Este 
acontecimento ficaria gravado a fogo na memória dos que o testemu­
nharam e selaria em seus adversários a determinação de acabar com 
ele. Ao observarem toda a cena, os discípulos ficaram extremamente 
nervosos. Entretanto, o relato nos diz que uma voz do passado fusti­
gou suas consciências. Subitamente lembraram de uma passagem 
das Escriturasescrita pelo rei Davi, mil anos antes: "Tornei-me estra­
nho a meus irmãos e desconhecido aos filhos de minha mãe. Pois o 
zelo da tua casa me consumiu, e as injúrias dos que te ultrajam caem 
sobre mim" (SI 69:8,9). Eles notaram que Jesus personificara a 
predição. 
Os oponentes não conseguiram conter a raiva e exigiram que 
Jesus exibisse um sinal que justificasse sua ousada ação. Ele os abor­
receu mais ainda argumentando que a pergunta deles não era nada 
mais do que a busca da verdade. No entanto, ele não parou aí. 
Em sua resposta, ofereceu provas que nenhum outro que reivindica­
va ser o Messias ou ser divino conseguira cumprir. Diante de um 
desafio tão enorme, aquela seria uma demonstração de poder sem 
paralelos. 
74 POR QUE JESUS E DIFERENTE 
UMA NOVA RESPOSTA 
"Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o re­
construirei" (Jo 2:19). 
— O quê? —, eles se indignaram. "Em quarenta e seis anos foi 
edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? (v. 20). 
O escritor do Evangelho acrescenta: "Ele, porém, se referia ao 
santuário do seu corpo. Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os 
mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e 
creram na Escritura e na palavra de Jesus" (w. 21,22). 
Havia muitas formas diferentes de ele demonstrar sua autoridade. 
Ele escolheu um ponto de referência em particular — o templo. Mas 
incorporou na metáfora um significado que atingiria os céticos e os reli­
giosos. No corpo humano residem possibilidades opostas: nossa propen­
são para a sensatez e a disposição de desfigurar o corpo em benefício do 
espírito. Jesus não poderia ter escolhido uma ilustração melhor para jus­
tificar sua autoridade: a referência ao corpo em conexão com o templo. 
Há pelo menos três facetas distintas na sua resposta. 
Para ver a primeira, precisamos olhar para o pretexto trazido pelos 
céticos para a troca de palavras. "Que sinal nos mostras, para fazeres 
estas coisas?" Neste desafio, veremos o conflito entre fé e razão. 
A segunda faceta é o texto da resposta de Jesus: "Destruí este santuá­
rio, e em três dias o reconstruirei". No momento oportuno, esta seria a 
maior prova de sua condição messiânica. Séculos de determinação em 
tentar provar ser ele espúrio somente fortaleceram ainda mais as provas. 
A última faceta da resposta de Jesus é o contexto dentro do qual 
ele desejava que sua mensagem fosse compreendida. Ele ofereceu o 
milagre supremo, tomando aquilo que se apresenta como a maior 
ameaça da inclinação espiritual e transferindo-o para o centro da 
espiritualidade. No momento certo, eles reconheceriam que sua res­
posta era única e era sustentada pela história. 
A SEDUÇÃO E A D E D U Ç Ã O DE U M SINAL 
Vamos olhar primeiro para o pretexto dos céticos. 
Alguém pode ficar surpreso ao ouvir que a história não apresenta 
uma lista longa de pessoas que fizeram reivindicação séria de status 
A ANATOMIA DA FF. F. A BUSCA DA RAZÃO 7 5 
divino. Entretanto, o resultado foi a manufaturação gradual da di­
vindade, pela escolha humana. Aí a lista é enorme. 
Certa ocasião eu fiquei ao lado de uma estrada, olhando para 
uma estátua dourada de um "deus" sendo transportada de um tem­
plo para outro. Milhares de pessoas seguiam atrás, para fazer oferendas 
e receber uma bênção. Os sacerdotes que acompanhavam a estátua 
tinham incenso e cinzas nas mãos e generosamente distribuíam a 
boa vontade da divindade sobre qualquer fruto ou peça de roupa 
colocada diante deles. A visão era extraordinária. Ricos, pobres, jo­
vens e velhos estendiam as mãos em direção da carroça que seguia 
vagarosamente. Perguntei a uma mulher que acabara de receber sua 
"bênção" se aquele deus realmente existia ou era apenas a expressão 
de um anseio interior. Ela hesitou um pouco e depois disse: — Se 
você acha que ele existe, então ele existe. 
— E se você achar que ele não existe? — perguntei. 
— Então ele não existe— ela disse calmamente. Esta possibili­
dade resume os principais personagens aos quais é atribuída divin­
dade em nossos dias. Alguns tentarão provar suas crenças; outros 
simplesmente as carregarão no coração, criando divindades e depois 
tentando aplacá-las. 
O senso comum diz que ao estabelecer a convicção em uma 
crença, fazemos mais do que oferecer um desejo do coração ou apre­
sentar alguns elementos isolados das credenciais daquele que faz as 
reivindicações, com as quais saltamos para conclusões grandiosas. A 
verdadeira defesa de qualquer reivindicação deve também lidar com 
as evidências que a questionam ou contradizem. Em outras pala­
vras, a verdade não é somente uma questão de ofensiva, no sentido 
de fazer algumas afirmações. É também uma questão de defesa, no 
sentido de que deve ser capaz de dar uma resposta racional e sensível 
aos argumentos contrários que são suscitados. 
Aqui emerge algo muito importante. Às vezes a escolha não é 
entre aquilo que é claramente contraditório e aquilo que é consis­
tente e coerente. E fácil estabelecer um contraste entre o líder de 
seita Jim Jones e Jesus. O desafio maior surge quando aquele que 
reivindica status divino pode ter alguns aspectos singulares, embora 
76 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
cubra uma multidão de ensinos contraditórios e um estilo de vida 
questionável. 
Pessoas ingénuas cometem um erro fatal quando juram lealdade 
a um sistema de pensamento concentrando-se em seus benefícios e 
ignorando suas contradições. Toda a vida daquele que faz reivindi­
cações proféticas ou divinas deve ser observada à luz dos seus ensi­
namentos. Numerosas questões históricas e filosóficas entram em 
cena quando avaliamos seriamente tais reivindicações. 
E exatamente este ponto que torna Jesus tão singular. Toda a sua 
vida e seus ensinamentos podem ser submetidos ao teste da verda­
de. Cada aspecto do seu ensino é um elo num todo maior. Cada 
faceta é como a face de um diamante, que vai refletindo a luz à 
medida que é virado. 
Supomos, neste estágio da história do pensamento, que os anti­
gos eram mais facilmente enganados do que nós e que nós chega­
mos numa época em que, na verdade, a credulidade que mostramos 
faria os antigos estremecerem. Se alguém nega este fato, basta per­
guntar aos propagandistas o que vende mais: a forma ou a substân­
cia. Várias vezes nos Evangelhos as pessoas desafiavam Jesus a dar 
um sinal que comprovasse suas reivindicações. Não eram pessoas 
ingénuas. Vemos que praticamente em todas as ocasiões o desafio 
culminou na realização de um milagre. Eles nem se satisfaziam com 
os sinais que testemunhavam. Sempre queriam mais. 
Por exemplo, em João 6:30, a exigência de um milagre segue a 
multiplicação dos pães. Logo depois do milagre, os céticos lembra­
ram Jesus de que Moisés alimentara o povo no deserto com o maná. 
"Que sinal [tu] fazes para que o vejamos e creiamos em ti?" (ênfase 
acrescentada). No Evangelho de Mateus, a exigência por um sinal 
veio depois da cura de um homem surdo e mudo (12:22-45). 
Esses fatos nos dão uma ideia de quem eram os oponentes de 
Jesus e por que ele respondeu da forma que fez. Quando os fariseus 
e os mestres da lei exigiram um sinal em Mateus 12, ele replicou 
com palavras duras: 
Uma geração má e adúltera pede um sinal; mas nenhum sinal lhe 
será dado, senão o do profeta Jonas. [...] Ninivitas se levantarão, no 
A ANATOMIA DA FÉ F. A BUSCA DA RAZÃO 7 7 
Juízo, com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram 
com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior do que 
Jonas. A rainha do Sul se levantará, no Juízo, com esta geração e a 
condenará; porque veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria 
de Salomão. E eis aqui está quem é maior do que Salomão. 
(vv. 39, 41,42) 
Jesus estava afirmando que a motivação deles para exigir um 
sinal revelava que não buscavam sinceramente a verdade; além dis­
so, sua resistência à verdade, apesar de serem religiosos, fazia com 
que os pagãos duros de coração parecessem melhores. Em outras 
palavras, não era a ausência de sinais que os perturbava.Era a men­
sagem por trás dos sinais que provocava o desconforto. Se Jesus pu­
desse provar quem era, as implicações para eles seriam catastróficas. 
Tudo o que buscavam e possuíam, cada vestígio do poder que goza­
vam - dependia da capacidade de determinarem o destino de outras 
pessoas. Às vezes a religião se torna um enorme obstáculo para a 
verdadeira espiritualidade. 
A ponta aguçada da flecha verbal de Jesus acertou um nervo 
exposto quando ele disse que mesmo um povo homicida como os 
ninivitas era mais honesto do que eles. Por quê? Porque a pregação 
de Jonas em Nínive resultou num arrependimento nacional de tal 
grandeza que entrou para a história. A sabedoria de Salomão foi tão 
amplamente reconhecida que pessoas viajaram longas distâncias ape­
nas para ouvi-lo. 
Resumindo, Jesus estava dizendo que a mensagem em si con­
quistou o coração dos pagãos, mas aqueles que afirmavam possuir 
fervor espiritual estavam fugindo das implicações daquilo que já 
sabiam ser verdade. Ele demonstrou mais por meio de sinais e da 
persuasão do que Jonas, mais beleza e profundidade nos pensamen­
tos do que Salomão. Jonas não foi o autor dos milagres. Jesus era. 
Salomão não era a fonte da sabedoria. Jesus era. No entanto, tal 
diferença não significava nada para eles. 
Dali em diante, durante todo o caminho até sua morte na cruz 
nas mãos deles, Jesus provou que não era evidência que eles busca-
78 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
vam, mas o controle dos seus empreendimentos, mesmo à custa da 
verdade. 
Eu sugeriria que o ceticismo de alguns em nossa época pode 
bem proceder da mesma motivação. A principal diferença entre as 
pessoas comuns de hoje e as pessoas do tempo de Jesus é que ele 
estava tentando estabelecer a si próprio como o Messias para uma 
audiência que pelo menos acreditava na existência de Deus. Só assim 
podemos apresentar as evidências de que Jesus é Deus encarnado. 
Para as mentes religiosas, o desafio é mais complexo. Como esta­
belecemos que Jesus é o único caminho a Deus? Onde encontra­
mos o ponto em comum para iniciar? 
FÉ E RAZÃO 
A fé nem sempre foi um elemento suspeito como é em nossos dias. Os 
hebreus e os gregos tinham compreensão da fé. É verdade que havia 
algumas diferenças, mas a fé continuava tendo legitimidade. Atual-
mente, se a fé é admitida, é vista como a fé para ter fé. Ela é empa­
cotada como uma questão privativa e banida da esfera intelectual. 
"Todos têm de ter algum tipo de fé", dizemos em tom sar­
cástico. 
"Se não fosse pela minha fé, eu jamais teria conseguido", ouvi­
mos as pessoas dizendo. 
Fé em quê? - alguém pode perguntar. Neste tipo de fé, muitas 
vezes o foco está em tudo menos na verdade e em tudo que concorda 
com o pragmatismo - "Para mim funcionou, seja ou não verdade". 
Tais pronunciamentos nos tornam vulneráveis aos profissionais da 
fé dos nossos dias. E tempo de fazermos uma "purificação do tem­
plo" de nossa mente e encararmos a realidade. 
Primeiro, devemos compreender claramente o que a fé não é 
antes de estabelecermos o que ela é. A fé mencionada na Bíblia não é 
a antítese da razão. Não é apenas a vontade de crer, não obstante os 
elementos contrários. Não é uma predisposição de forçar cada peça 
de informação a fim de encaixá-la no molde dos desejos pessoais. No 
sentido bíblico, a fé é substantiva, baseada no conhecimento de que 
aquele em quem a fé é baseada provou ser digno de confiança. 
A ANATOMIA DA FÉ K A BUSCA DA RAZÃO 79 
Em sua essência, fé é a confiança na pessoa de Jesus Cristo e em seu 
poder, de modo que, mesmo quando seu poder não serve aos meus propósitos, 
minha confiança nele permanece, devido à pessoa que ele é. Para o 
cristão, a fé é a resposta da confiança baseada em quem Jesus afirmou 
ser, o que resulta numa vida que leva mente e coração a um compro­
misso de amor a ele. Será esta uma resposta irracional baseada em 
tudo o que Cristo demonstrou ser? 
Cada indivíduo que chega a este tipo de fé no Deus único e ver­
dadeiro faz isso por meio de lutas diferentes. No Antigo Testamento, 
Moisés foi o exemplo clássico de como a fé foi construída em alguém 
para quem as implicações da confiança não eram fáceis. Deus o bus­
cou incansavelmente até que ele compreendeu que o Deus a quem 
servia esperava sua confiança e que provaria a si próprio, antes e de­
pois da demonstração de confiança. Ao longo de sua jornada, Deus 
lhe deu o suficiente para demonstrar quem era, mas deixou a prova 
suprema para o final de sua jornada da fé. 
Por outro lado, Abraão é mostrado como alguém que tinha tanta 
sede de Deus que estava disposto, com um mínimo de provas exter­
nas, a deixar seu lar e construir para a posteridade uma comunidade 
de fé no Deus vivo. No entanto, mesmo no seu caso, cada passo em 
seu processo de edificação da fé foi dado com a confirmação divina. 
Deus lida com todo tipo de pessoas, aquelas que anseiam por mais 
evidências e aquelas para quem poucas evidências já são suficientes. 
Entretanto, ele opera sempre em harmonia com a revelação do seu 
caráter. 
Note, porém, que há certa confusão aqui. A primeira é a da con­
fiança. Jesus afirmou ser a expressão suprema de Deus. O verdadeiro 
crente confia que ele disse a verdade. Tudo o que ele disse e fez sus­
tenta tal afirmação; do mesmo modo, nada do que disse ou fez con­
traria essa afirmação. Já disseram que a natureza humana abomina o 
vácuo; isso deve ser verdade também em relação à nossa fé. Ninguém 
vive confortável numa fé vazia. Deve haver ambos: a substância da fé 
e o objeto da fé. 
No entanto, há um segundo mal-entendido comum sobre fé. 
Muitas vezes supomos que a fé é uma espécie de muleta para aqueles 
80 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
que estão feridos ou precisam de algum tipo de intervenção transcen­
dente numa situação da qual não podem escapar sozinhos. Com fre­
quência ouvimos testemunhos de fé dados por enfermos e por aqueles 
que têm doenças terminais. Supomos que se tratem das mais eleva­
das expressões de fé. Sem dúvida, a fé que permanece firme nas tem­
pestades da vida é uma fé invejável. 
Posso sugerir, porém, que na realidade esse tipo de situação é 
muitas vezes a conscientização do teste da fé do indivíduo. Uma fé 
igualmente viável é demonstrada quando mostramos dependência 
de Deus no meio do sucesso e quando tudo vai bem. Esse tipo de fé 
reconhece cada momento da vida e cada sucesso como um dom de 
Deus. 
Posso ilustrar este ponto de duas formas distintas e contrastantes. 
Alguns anos atrás, tive o privilégio de conhecer um casal chamado 
Mark e Gladys Bliss; ambos trabalharam como missionários no Irã 
durante catorze anos. Nós nos encontramos numa reunião de cris­
tãos iranianos. No decorrer da noite, nosso anfitrião iraniano me 
chamou de lado e me contou a história dos Bliss. 
Disse que em 1969, Mark e Gladys estavam num carro, junto 
com os filhos e alguns amigos, indo visitar uma igreja nova a alguns 
quilómetros de Teerã. Aquele homem me disse: "Eu era pequeno, e 
eles passaram em minha casa para que eu fosse junto. No entanto, 
não pude ir". 
Durante a viagem, eles sofreram um terrível acidente, no qual os 
três filhos dos Bliss - Karen, de 13 anos, Debbie, de 12 e Mark, de 
apenas 3 anos de idade — morreram. O outro casal que estava no 
carro perdeu o bebé de seis meses na tragédia. (O pai do bebé mor­
reu como mártir 25 anos mais tarde. Haik Hovsepian foi esfaqueado 
por causa de seu amor e serviço a Jesus Cristo. Evidentemente, a 
tragédia anterior não diminuiu sua fé.) 
Ao ouvir essa história, olhei para Mark e Gladys Bliss, e meu 
coração deu um salto. Como era possível mostrarem tanta paz depois 
de terem sepultado os três filhos, todos em tenra idade? Tal perda 
parece grande demais para ser contida dentro do coração. "O teste­
munho deles tornou-se uma luz brilhante em nossa comunidade", 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO 81 
disse o anfitrião. "Só conseguiram superar por causa da fé em 
Deus." 
Contraste este fato com o seguinte. Há alguns anos, fui convida­
do parair ao Oriente por um empresário para falar numa reunião de 
pessoas chamadas de executivos "colarinho de diamante". Ele pró­
prio era conhecido como uma das pessoas mais ricas do seu país. De 
fato, posteriormente fiquei sabendo que era um dos homens mais 
ricos do mundo. Quando me encontrei com ele, perguntei-lhe o que 
o tinha levado a crer em Jesus Cristo. 
Ele respondeu: — H á cerca de dezoito meses eu disse à minha 
esposa: "Tenho tudo na vida, mas ainda sinto-me vazio. Não sei o 
que fazer. Creio que preciso de Deus". 
Sua esposa concordou. Ali eles começaram a buscar e encontra­
ram Jesus Cristo. Nada de dramático. Nenhuma grande cruzada. 
Foi apenas durante a participação regular numa reunião de estudo 
bíblico. Ali eles entraram em sintonia com a riqueza de um novo 
relacionamento com Jesus Cristo. 
Será que a fé de um casal é menor do que a do outro? Pode ser 
que talvez uma fé tenha sido testada mais do que a outra. Certa­
mente, porém, voltar-se para Deus quando todas as suas necessida­
des materiais já estão supridas é expressar de forma clara que fé em 
Deus é confiar nele, mesmo quando se tem outras fontes de seguran­
ça. Jesus disse que era quase impossível que os ricos assumissem tal 
compromisso. Graças a Deus, porém, ele terminou dizendo que para 
Deus era possível. 
Veja bem, essa é a forma como fomos designados por Deus. Uma 
das coisas mais chocantes relacionadas à vida é que ela não começa 
com a razão e termina com a fé. Ela começa na infância com a fé e é 
sustentada pela razão por meio dessa fé ou pelo abandono cego da 
razão em favor da fé mal direcionada. A mente infantil tem uma 
capacidade bastante limitada de confiar na razão e nas informações. 
No entanto, seja descansando no ombro ou se alimentando no seio 
materno, seja correndo para os braços do pai, ela faz isso devido a 
uma confiança implícita de que aquele ombro irá acolhê-la, que o 
leite irá sustentá-la e que aqueles braços irão ampará-la. Se a qualquer 
82 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
momento essa confiança é testada, será o caráter dos pais que provará 
se a confiança é sábia ou tola. A fé não descarta a razão. 
FÉ E O IRRACIONAL 
Há outro lado da questão. Jesus lembrou a seus seguidores que a 
submissão da vontade pode ser algo enganador quando se volta con­
tra os braços de Deus. A tendência do coração humano é tão desa­
fiadora que todas as gerações encontram formas de desafiar as 
orientações de Deus. Este ponto é crítico no entendimento de que, 
seja qual for a prova oferecida em qualquer época da história, sempre 
exigiremos algo mais. Jesus disse: 
A que, pois, compararei os homens da presente geração, e a que 
são eles semelhantes? São semelhantes a meninos que, sentados na 
praça, gritam uns para os outros: Nós vos tocamos flauta, e não 
dançastes; entoamos lamentações, e não chorastes. Pois veio João Batista, 
não comendo pão, nem bebendo vinho, e dizeis: Tem demónio. 
Veio o Filho do Homem, comendo e bebendo, e dizeis: Eis aí um 
glutão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores! Mas 
a sabedoria é justificada por todos os seus filhos. 
Lucas 7:31-35, ênfase acrescentada 
Por meio destas palavras, Jesus denunciou severamente as incli­
nações da vontade humana. Quando João os advertiu da severidade 
da lei, acusaram-no de possessão demoníaca porque queriam mais 
liberdade. Quando Jesus veio e se envolveu com os marginalizados, 
chamaram-no de hedonista porque queriam a rédea mais curta da 
lei. Jesus, porém, declarou que a sabedoria se revela pelo que pro­
duz. Não é preciso olhar muito para ver em nossa sociedade a total 
ausência de sabedoria, porque não compreendemos nem a lei nem a 
graça. Para tal mentalidade, a fé sempre será uma caricatura de um 
sintoma de credulidade. Jesus não hesitou em mostrar o blefe deles, 
assim como mostra o nosso. 
No entanto, ele virou a mesa sobre eles e lembrou que a falta de 
fé naquilo que sabiam ser verdade falava mais sobre o caráter deles do 
que as evidências. Creio que este é o elemento essencial que muitas 
A ANATOMIA DA HF. F. A BUSCA DA RAZÃO . 83 
vezes falta na discussão da fé. Sim, há o componente do conteúdo 
que fala da verdade. Sim, há o componente do amor que fala sobre o 
misto de emoção e compromisso. Mas, há também o componente da 
honestidade que fala da confiabilidade ou da integridade do indiví­
duo. E aqui que a linha de batalha é publicamente desenhada. É 
aqui que a verdade sobre a razão é revelada. 
O VERDADEIRO C O N F L I T O 
Um artigo publicado recentemente no jornal Times da Inglaterra, 
intitulado "A Fúria da Razão" e escrito por Matthew Parris, é bem 
típico do pensador que afirma ser amante da razão contra a 
irracionalidade da religião. Ele fundamenta sua reivindicação num 
desejo de Bertrand Russell, Thomas Paines e David Hume de uma 
volta ao passado que nos liberte do açoite da "tolice religiosa" ao 
redor. Não posso repetir aqui tudo o que ele disse, mas quero res­
ponder a pelo menos uma de suas invocações. 
Repetindo as palavras de Blake, ao chamar Milton — "O Milton, 
tu devias estar vivo neste momento; a Inglaterra precisa de ti!" —, 
Parris suplica: "O David Hume, devias estar vivo neste momento; 
precisamos de ti".3 
David Hume, que viveu no século XVIII, foi um dos filósofos 
mais veementes a contender sobre a natureza factual da ciência con­
tra o que ele chamava de irracionalidade da religião. Era totalmente 
cético, e seu ataque filosófico contra a natureza das crenças religiosas 
ecoa até hoje nos recintos académicos. Hume questionava aberta­
mente até a possibilidade dos milagres. 
O escritor do artigo no Times, Parris, cita as famosas palavras de 
Hume, as quais muitos céticos têm usado repetidamente sem pon­
derar nelas com cuidado: "A religião cristã não somente começou 
com milagres, como até os nossos dias não pode ser crida por qual­
quer pessoa razoável sem eles". Estas foram as palavras de Hume e 
até este ponto, tudo bem. 
Agora, porém, note o que Hume diz sobre qual deve ser o teste 
para qualquer coisa significativa: 
84 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Se nos chega às mãos qualquer volume, seja de divindade ou 
algo da escola metafísica, por exemplo, devemos perguntar: Ele 
contém algum raciocínio abstraio concernente a quantidade ou nú­
mero? Não. Contém algum raciocínio experimental concernente a 
matéria de fato ou de existência? Não. Então, atire-o no fogo, pois 
não contém nada além de sofisma e ilusão.4 
Citando essas linhas com um ar de triunfo, Parris parece pensar 
que um golpe devastador foi aplicado na religião, de forma que ago­
ra ela jaz inconsciente diante da estupenda estatura da ciência. To­
das as religiões foram estigmatizadas como nada além de "sofisma e 
ilusão" porque seu "volume de divindade" não passa no teste da 
matemática ou da ciência. Se uma afirmação não se encaixar em 
uma dessas categorias, deve ser "atirada no fogo". 
O único problema com o teste de significado de Parris, citando 
Hume, é que o próprio teste não passa no teste. A grande afirmação de 
David Hume não é matemática e nem científica. Se, para ter signifi­
cado, uma afirmação tiver de ter respaldo matemático ou comprova­
ção científica, então a afirmação de Hume é em si desprovida de 
significado. Trata-se de um solvente filosófico que dissolve a si mes­
mo. O imperador não tem roupas, embora se vanglorie de vestir os 
mais finos tecidos. 
Que atitude arrogante diante de uma mentalidade tão estreita! 
Na verdade, é este tipo de irracionalidade que perdeu a visão de si 
própria! A Bíblia, de fato, fala das pessoas que olham no espelho e 
depois se afastam, esquecendo-se da própria aparência. Hoje em dia 
são abundantes os escritores como Parris, que se gabam de viver sob 
a clara luz da razão e desejam libertar o mundo das trevas das crenças 
religiosas. Apenas exteriormente são mais sofisticados do que a mu­
lher que disse: "Se você deseja crer que ele existe, então ele existe". O 
raciocínio oco deles não serve maisde nossa realidade, vemos os escritos de Deepak 
Chopra, que ensina uma doutrina de espiritualidade, sucesso e pros­
peridade costurada nos ensinamentos Veda, carma e autodeificação. 
Em contraste, vemos milhões de devotos dessa cosmovisão sub-
reptícia vivendo na mais abjeta pobreza. Será que de alguma forma 
INTRODUÇÃO 13 
deixaram de atingir o alvo? O que há de errado com este quadro? 
Podemos ver rapidamente que toda religião deve encarar a responsa­
bilidade de responder às perguntas a ela dirigidas. 
Muitas outras questões podem ser levantadas, mas o ponto con­
tinua o mesmo. 
Como resultado disso tudo, sérias distorções acabaram virando 
moda. Alguns proponentes de outras convicções religiosas falam con­
tra o "mito da unicidade cristã". Outros exigem que a propagação da fé 
seja considerada errada, e que a ideia de "conversão" deve ser banida. 
Tal tendência traz no final sua própria tirania. 
A realidade é que se a religião deseja ser tratada com respeito 
intelectual, então deve ser submetida ao teste da verdade, indepen­
dentemente de qual seja a tendência em voga. Este livro é uma defesa 
da unicidade da mensagem cristã. 
Tratando desse assunto mais de perto, eu gostaria de ter dito 
mais e ter argumentado e apresentado mais contrastes, mas a ten­
dência atual poderia não suportar mais do que isto. 
A rota que segui foi apresentar uma diferença clara entre Jesus e 
outras figuras que reivindicaram status divino ou profético. Peguei 
seis perguntas a que Jesus respondeu de uma forma que ninguém 
mais poderia ter respondido. Os oponentes podem discordar de suas 
respostas, mas quando elas são reunidas, ninguém é capaz de ques­
tionar sua unicidade. Creio que todas as respostas são fascinantes, e 
espero fazer justiça a cada uma delas. A medida que fui responden­
do, os capítulos foram ficando mais longos, pois o assunto tinha de 
ser adequadamente abordado. 
A dificuldade de controlar a extensão do texto foi acentuada 
pelo fato de que eu também precisava contrastar as respostas de Je­
sus com as de outros líderes religiosos importantes. Sem sombra de 
dúvida, a questão mais difícil de abordar foi a pergunta que fizeram 
a Jesus concernente à dor e ao sofrimento. Esse capítulo foi dividido 
em três partes. 
O último capítulo não é uma pergunta feita a Jesus, mas uma 
pergunta feita em seu favor, aos seus seguidores e aos seus opositores. 
Só podíamos terminar desta forma. 
14 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Como você logo notará, não confronto as respostas de Jesus com 
cada religião que oferece respostas sobre as mesmas questões. Tratei 
somente daquelas religiões que ainda atraem grande número de se­
guidores ao redor do mundo — islamismo, hinduísmo e budismo. 
Devo acrescentar mais uma coisa. Viajei milhares de quilóme­
tros enquanto escrevia, não somente em prol do livro, mas também 
quando era convidado para falar em várias partes do mundo. Visitei 
templos, mesquitas e outros locais religiosos. Conversei com estu­
dantes em universidades onde a religião predominante não é cristã. 
Nesses momentos, conheci pessoas gentis e finas. 
Por natureza, gosto de estar com pessoas. Gosto de conversar, 
principalmente durante uma refeição com novos amigos. Uma 
dessas pessoas foi um camareiro num hotel onde me hospedei. 
Ele é muçulmano. Diariamente, quando entrava para arrumar mi­
nha cama, ele me trazia uma xícara de chá e nós conversávamos. No 
seu dia de folga, levou-me a um passeio por sua cidade, onde visita­
mos muitos locais de culto. Jamais esquecerei aquele homem. Gos­
taria que mais pessoas demonstrassem a bondade e a cortesia que ele 
sempre oferecia. 
Este é o ponto que quero enfatizar. Podemos ter opiniões dife­
rentes, mas sem raiva e sem ofensas. O que eu creio, encaro com 
toda seriedade. Por causa disso escrevi este livro. Devo tratar tudo o 
que é contrário da mesma forma. 
Minha oração fervorosa é que quando você ler esta obra, tire a 
sua conclusão sobre a mensagem cristã baseado na verdade e não nas 
tendências da nossa época. As tendências mudam. A verdade per­
manece. 
c a p í t u l o u m 
ESCALANDO UM ALTO MURO 
Quero começar contando um incidente ocorrido em minha vida, 
que até hoje ainda causa um turbilhão de emoções dentro de 
mim. Temos facilidade de evocar certas lembranças. Outras, apesar 
da passagem do tempo, abrem e sangram como um ferimento. Por 
esta razão, reconheço que tenho dificuldade de relembrar muitos 
fatos do meu passado. Só consigo trazer esses velhos momentos de 
volta ao presente porque os anos intermediários me ajudaram a olhar 
além das antigas feridas. Mais do que isto, porém, esses aconteci­
mentos tristes, junto com muitos outros, podem bem ter dado iní­
cio à minha jornada em direção a Deus, levando-me a uma parada 
obrigatória e forçando-me a fazer algumas perguntas bem difíceis a 
mim mesmo. 
Eu tinha 16 anos de idade e estudava num colégio comunitário, 
pois isso me proporcionava um atalho para a finalização da escola 
secundária. Um dia, após o final da aula, eu voltava para casa de 
bicicleta e nem imaginava o que ia acontecer a seguir. Do meu pon­
to de vista, era um dia como outro qualquer. Entretanto, aquele dia 
teria um final diferente. 
Quando entrei no quintal de casa, vi uma cena incomum. Nor­
malmente naquele horário meu pai não estava em casa, mas lá estava 
ele, em pé na porta, com os dois braços abertos, como se quisesse 
bloquear meu caminho. Eu o cumprimentei com um olhar furtivo, 
16 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
mas ele não respondeu. Senti seus olhos sobre mim, e meu coração se 
encheu de medo. 
Meu relacionamento com meu pai deixava muito a desejar, e 
minha falta de propósito na vida era motivo de grande frustração 
para ele. Devo confessar que tinha medo dele, um sentimento que 
até hoje não consegui entender. Jamais esquecerei aquele momento. 
—Como foi a aula?— ele perguntou. 
Ele nunca perguntara isto antes. Geralmente meu boletim res­
pondia a esta questão, ocasionando discussões tensas. Eu devia ter 
desconfiado que ele tinha uma razão para a pergunta naquele dia; 
no entanto, respondi que estava tudo bem, sem suspeitar de nada. 
Seria difícil repetir suas palavras exatas, mas sua explosão de rai­
va e a bofetada que recebi me deixaram tremendo e soluçando. Se 
minha mãe não tivesse interferido, eu poderia ter sido seriamente 
machucado. Insensatamente, eu iniciara um jogo, e agora ele chega­
va ao final, sem nenhum vencedor. 
A verdade é que eu não estivera na escola naquele dia. De fato, já 
não ia à escola há algum tempo. Passava meus dias vagando pelas 
ruas de bicicleta, procurando algum jogo de críquete para assistir ou 
até participar. Sem ir às aulas, eu era desmascarado nas provas. Não 
sei como imaginava levar a farsa adiante. No entanto, as escolhas 
erradas têm o poder de privar as pessoas até do bom-senso. 
Por que tudo aquilo havia acontecido, para começar? Alguém 
pode pensar que todo o episódio indicava apenas que eu não gostava 
de estudar. No entanto, era muito mais do que isto. Ninguém que 
me conhecia seria capaz de imaginar o tamanho do vazio em meu 
interior. Eu era um desses adolescentes que se debatem com os pro­
blemas interiores e não sabem onde buscar as respostas. Para dizer a 
verdade, eu nem sabia se de fato existiam respostas para meus anseios 
mais profundos. 
Será que as pessoas que eu conhecia passavam pelos mesmos 
conflitos e apenas dissimulavam melhor? Ou será que o ceticismo 
era a sina de uns poucos desafortunados? Falando claramente, para 
mim a vida simplesmente não tinha sentido. Todos os anseios, reu­
nidos, não acrescentavam nada — exceto um grande desejo que não 
E S C A L A N D O UM A L T O M U R O 17 
tinha possibilidade de ser satisfeito. A descrição de Jean Paul Sartre 
da vida, como uma paixão inútil, parecia perfeita e apropriada para 
o meu caso. Aquele confronto com meu pai provavelmente resumia 
tudo o que estava me despedaçando por dentro. 
Naquela noite, fui colocado de castigo, de frente para uma pare­
de. Parecia umapara nada. Recentemente abor­
dei essa crítica de Hume, na Universidade Oxford; no final, um 
estudante disse: —Certo, então nós somos irracionais—. Nossa 
conversa subsequente podia se encaixar na categoria de tragédia ou 
comédia, dependendo do ponto de vista. 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO 85 
É lamentável que tantas pessoas estejam vivendo nas trevas da 
falta de razão, agarrando-se ao ceticismo absoluto. As profecias, a 
pessoa e as obras de Cristo, sua ressurreição e muitas outras afirma­
ções têm pontos de verificação na história. O que os naturalistas 
fazem com eles? Não, a fé cristã não é um salto no escuro; é uma 
confiança bem posicionada na luz - a Luz do Mundo, que é Jesus. 
No entanto, esta é apenas a metade do problema dos naturalis­
tas. Alguns anos atrás, eu estava jantando com alguns eruditos, muitos 
deles cientistas. Era um grupo agradável, e eu estava honrado de 
estar com eles. Em dado momento, nossa discussão enveredou em 
direção do conflito entre o ponto de partida naturalista — natureza e 
somente a natureza — e o ponto de partida sobrenaturalista, ou seja, 
que Deus é a única explicação suficiente para nossa origem. 
Fiz algumas perguntas. — Se o Big Bang de fato foi onde tudo 
começou [ao que se pode bem concordar, pelo menos neste ponto 
do pensamento científico], posso perguntar de onde veio o Big Bang? 
Como eu previa, a resposta deles foi que o universo tinha dimi­
nuído até o ponto da singularidade. 
—Não é correto afirmar que a singularidade, conforme definida 
pela ciência, é um ponto no qual todas as leis físicas entram em 
colapso?— eu insisti. 
—Exatamente —responderam. 
—Então, tecnicamente, o ponto de partida de vocês também 
não é científico. 
Houve silêncio, e as expressões faciais demonstravam o esforço 
mental para encontrar uma escapatória. Mas, eu tinha outra 
pergunta. 
Perguntei se concordavam que quando a visão mecânica do uni­
verso tinha se tornado a principal influência, pensadores como Hume 
tinham repreendido os filósofos por adotarem o princípio da causa­
lidade, aplicando-o a um argumento filosófico para a existência de 
Deus. A causalidade, ele advertiu, não podia extrapolar da ciência 
para a filosofia. 
Eu acrescentei: —Agora, quando a teoria quântica entra em foco, 
o elemento aleatório no mundo subatômico é colocado como base 
86 POR QUE JESUS É DIFFRENTE 
para a casualidade na vida. Vocês não estão fazendo a mesma 
extrapolação sobre a qual nos advertiram? 
Novamente houve silêncio, e então um homem disse com um 
sorriso meio debochado: —Nós cientistas parecemos manter uma 
soberania seletiva sobre o que permitimos que seja transferido para a 
filosofia e o que não permitimos. 
Esta é a verdade, em termos nus e crus. A pessoa que exige um 
sinal e ao mesmo tempo já determinou que tudo o que não pode ser 
explicado cientificamente não tem sentido não está apenas trapa­
ceando; está perdendo em seu próprio jogo. 
A M E N T E POR DETRÁS D O Q U E S T I O N A D O R 
Há mais uma coisa que precisa ser dita sobre a exigência de sinais. 
Será que a própria exigência não é um sinal? Afinal, a razão para se 
pedir um sinal é que somos seres inteligentes. Buscamos evidências 
porque pensamos, e o pensamento só pode ser resultado de uma 
mente. No entanto, nossa mente não poderia justificar nossa propensão 
para a razão se não houvesse uma razão suprema e se não houvesse 
uma mente por trás da existência de nossa mente, porque o perfil 
dela é o resultado de informações complexas. Temos de nos maravi­
lhar não somente pelo que a mente busca, mas pelo que ela é. Lewis 
Thomas faz o seguinte comentário em sua obra Medusa andthe Snail 
sobre a riqueza das informações no código genético humano: 
A mera existência daquela célula deve ser uma das maiores maravi­
lhas da terra. As pessoas deviam andar por aí o dia todo, desde a 
hora em que acordam, exclamando umas às outras em surpresa 
sem fim, falando somente naquela célula... Se alguém conseguir 
explicá-la, alugarei aeroplanos, talvez toda uma frota deles, para 
que desenhem no céu um ponto de exclamação após o outro, até 
que todo o meu dinheiro se acabe.1 
Falando sobre a mesma célula humana, Chandra Wickrama-
singhe, professor de matemática aplicada na Universidade de Cardiff, 
País de Gales, lembra a seus leitores que a probabilidade estatística 
A ANATOMIA DA FÉ £ A BUSCA DA RAZÃO 87 
de se formar uma única enzima, a pedra angular do gene, o qual por 
sua vez é a pedra angular da célula é de 1 em 1O40-000. Significa que o 
número de tentativas para a formação da enzima seria maior do que 
o número de átomos em todas as estrelas existentes em todas as 
galáxias do universo conhecido. Embora seja budista, o Dr. Wickra-
masinghe concede esta noção sobrenatural.6 
Tal evento é tão "impossível" que Francis Crick, o cientista ga­
nhador do Premio Nobel que ajudou a desmembrar o código do 
DNA humano, disse tratar-se de "quase um milagre".7 
Resumindo, o teste de David Hume e a busca de Bertrand Russell 
por evidências forçam o indivíduo a se perguntar quem precisa ter 
mais fé: o cristão que usa a mente para confiar em Deus ou aquele 
que, sem fazer qualquer tentativa de explicar como sua mente pas­
sou a existir, usa a mente assim mesmo para exigir sinais e duvidar 
de Deus? Quando pediram a Russell que explicasse a existência do 
universo, ele disse: "Ele apenas está lá". Não é uma explicação. E 
uma divagação. Há muito tempo, o rei Davi falou em seu salmo de 
louvor a Deus: "Graças te dou, visto que por modo assombrosa­
mente maravilhoso me formaste" (SI 139:14). 
Alguns anos atrás, li uma piadinha num jornal. Um homem 
estava deitado no convés de um transatlântico luxuoso. Ele se virou 
para um estranho que estava deitado ao seu lado e confidenciou: — 
Consegui pagar este cruzeiro porque recebi 10 mil dólares do seguro, 
por causa de um incêndio em minha casa. 
O estranho replicou: —Eu consegui pagar porque recebi 20 mil 
dólares do seguro, por causa de uma inundação que destruiu minha 
casa. 
O primeiro homem ficou em silêncio, depois olhou para o outro 
e perguntou: —Como se provoca uma inundação? 
É fácil começar incêndios e inundações tendo fósforos e água. 
Como um universo, que se desenvolveu a partir do nada, pode im­
primir em cada cadeia de DNA humano informações específicas em 
número suficiente para encher seiscentas mil páginas de informa­
ções, a partir do nada? A inteligência é intrínseca à nossa formação. 
Jesus advertiu contra tomarmos aquilo que é intrínseco e manipular-
88 : POR QUE JESUS É DIFERENTE 
mos num cenário que exclui outras facetas igualmente intrínsecas 
que nos aproximam de Deus. 
Resumindo, portanto, a fé em Jesus Cristo é um compromisso 
cognitivo, passional e moral com aquilo que suporta o escrutínio da 
mente, do coração e da consciência. Não é uma escapatória que vem 
em nosso socorro quando a vida sai do controle. E submeter cada 
ameaça e possibilidade que a vida nos apresenta ao desígnio de Deus. 
Por isso Jesus questionou a noção de que mais evidência teria gerado 
mais fé. George Macdonald disse anos atrás que "dar a verdade para 
quem não a ama é somente dar mais razões para falsas interpretações". 
A MAIOR DE TODAS AS PROVAS 
Agora Jesus coloca o texto de sua resposta contra o teste supremo de 
sua afirmação: "Destruí este santuário, e em três dias o reconstrui­
rei". 
Que maior prova ele poderia oferecer do que ressuscitar dentre 
os mortos? O naturalismo é compelido a acreditar que a morte é a 
cessação da vida, quando toda a atividade cerebral cessa em caráter 
irreversível. Há um senso de fim em relação à morte que séculos de 
discussão não foram capazes de dissipar. O filósofo Albert Camus 
disse com um suspiro: "A morte é o único problema da filosofia". Se 
a morte pudesse ser vencida de alguma forma, a vida poderia ser 
redefinida. 
Jesus deu a maior prova de sua autoridade predizendo correta-
mente sua morte e o tempo de sua ressurreição física. Dentre todas 
as pessoas,as autoridades do templo deviam estar atentas a esta pro­
messa, mas jamais sonharam que ela de fato se realizasse. Tinham 
certeza de que se tratava de uma bravata vazia. O cumprimento da 
predição de Jesus revela sua unicidade acima de todos os seus anta­
gonistas. 
E importante notar que Jesus não predisse meramente a ressur­
reição espiritual. Seria uma saída fácil. Ele predisse uma ressurreição 
física, facilmente verificável. Depois que foi colocado no túmulo, os 
líderes do templo só teriam de preservar seu cadáver ali para provar a 
E S C A L A N D O UM ALTO M U R O 89 
falsidade de sua afirmação. Mas eles não puderam fazer isso. As coisas 
aconteceram exatamente como Jesus predissera. 
A esperança que ele traz reside na demonstração de que a morte 
foi vencida. Paulo, reconhecendo a afirmação cristã, disse que se a 
esperança que procede da ressurreição de Cristo não for verdadeira, 
"somos os mais infelizes de todos os homens" (1 Co 15:19). Foi o 
encontro com o Jesus ressuscitado que transformou um indivíduo 
obstinado, um assassino chamado Saulo de Tarso no apóstolo Paulo. 
No entanto, a unicidade de sua ressurreição não é deixada como 
uma esperança "futurista". É vinculada a privilégios e responsabili­
dades presentes. É neste ponto que Jesus se moveu além do pretexto 
deles e do seu texto para um contexto maior para todos nós. 
Q U A N D O OS C O R P O S N Ã O FAZEM DIFERENÇA 
No início deste capítulo, afirmei que houve uma razão para Jesus 
usar o conceito do corpo para falar sobre o templo. Suas palavras de 
fato carregavam um sentido duplo, tanto para os céticos como para 
os religiosos. A Bíblia diz que os que o ouviram dizer aquelas pala­
vras não reconheceram que ele estava falando sobre o templo do seu 
corpo, chamado por ele de "templo de Deus". Este é o contexto 
dentro do qual ele deu sua resposta. Ele elevou os olhares acima das 
paredes de pedra e argamassa para o lugar onde ele busca habitar — 
dentro de cada ser humano. O seu corpo e o meu são o seu templo. 
Esta é uma extraordinária atribuição de santidade sobre o que 
significa ser humano. Significa que seu corpo é digno de respeito e 
de reverência. Isso não somente prova que a autoridade de Jesus é 
diferente de qualquer outro candidato à divindade; prova também 
que sua aplicação e implicação apresentam um universo de diferenças. 
Por favor, preste bastante atenção no que estou dizendo. Em 
todas as religiões panteístas e no pensamento da Nova Era, o corpo 
é visto como uma extensão ou continuação do universo. O famoso 
orador e escritor Deepak Chopra é'um exemplo clássico disso. Ele é 
um expositor de temas sobre espiritualidade, riqueza e sucesso e é o 
representante de uma cosmovisão panteísta em sua essência, e que se 
90 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
orgulha de misturar naturalismo com espiritualidade. Chopra de­
fende a ideia de nossa unidade com todas as partes do universo. Ele 
argumenta que, em sua causalidade, o mundo subatômico propor­
ciona a base para toda a vida. A partir da causalidade e da unicidade 
cósmica, encontramos nosso ser, nossos valores comuns e nossos 
objetivos espirituais. Eis a explicação que ele apresenta em seu livro 
The Seven Spiritual Laws ofSuccess: 
No nível material, você e [uma] árvore são compostos dos mes­
mos elementos reciclados: muito carbono, hidrogénio, oxigénio, 
nitrogénio e outros elementos em quantidades menores. Você 
pode comprar esses elementos numa loja pagando alguns dóla­
res. [...] A verdadeira diferença entre você e a árvore está na 
energia e na informação.[...] Seu corpo não está separado do 
corpo do universo, porque nos níveis da mecânica quântica não 
há limites bem definidos. Você é como um meneio, uma onda, 
uma flutuação, uma convulsão, um redemoinho, um distúrbio 
localizado no campo quântico maior. Este campo quântico maior 
— o universo — é o prolongamento do seu corpo.8 
Devemos nos perguntar como tal raciocínio pode de fato reter a 
integridade lógica. Com efeito, ele viola as disciplinas da ciência e 
da religião. Ele reduz meu ser à simples matéria enquanto o espiritualiza, 
e exalta a mente à supremacia espiritual enquanto a coloca no nível 
natural. Basear toda uma filosofia de vida no mundo subatômico 
impessoal e ao mesmo tempo defender sua causalidade e caráter 
absoluto é dar a impressão de fazer mágica com as palavras. 
Chopra faz extrapolações filosóficas que são elas mesmas um 
exagero. Pode-se argumentar que se suas deduções forem verdadei­
ras, sua filosofia não é nada mais do que uma onda, ou um distúrbio 
localizado. Tal é a sedução e a redução desse tipo de raciocínio, su­
postamente feito em nome da sabedoria e do sucesso. O mundo de 
Chopra da essência humana e a descrição da dignidade humana feita 
por Jesus estão em extremos opostos. 
Uma verdade extraída da obra de Shakespeare, The Merchant of 
Venice, proporciona uma boa ilustração. Basicamente a obra trata da 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO . 91 
história de um homem que tomou dinheiro emprestado do amigo 
de um amigo. O homem que emprestou, Shylock, colocou seu ami­
go António como responsável pelo empréstimo, até que fosse pago. 
Segundo o acordo firmado entre ambos, se a dívida não fosse paga, 
Shylock teria direito a arrancar um pedaço de carne do corpo de 
António. Como era de esperar, os navios de António se perderam no 
mar, e, quando chegou a data do pagamento da dívida, ele não teve 
como pagar. Excitado, Shylock exigiu seu pedaço de carne a ele devi­
do de acordo com a lei. O juiz, porém, sendo um homem comedido, 
declarou: "Você pode tirar seu pedaço de carne, mas, se no processo 
derramar uma só gota de sangue, terá de pagar com seu próprio 
sangue". Shylock foi derrotado em seu próprio jogo. 
Tornar o corpo humano inviolável e ao mesmo tempo reduzi-lo 
à condição de simples matéria é tão fácil quanto tirar um pedaço de 
carne sem derramar sangue. Os naturalistas não podem ter seu pe­
daço de carne sem tirar dele a vida. Através da substância da carne 
humana flui a vida. A vida é mais do que matéria. As religiões que 
tentam manter o corpo sagrado e ao mesmo tempo negam a mão do 
Criador estão no mesmo barco dos céticos que tentam proteger a 
vida e ao mesmo tempo dizem que ela não é nada mais do que 
matéria. 
Todo o processo de profanação que sufoca nossa cultura baseia-
se nesse esforço para se compreender o lugar e a santidade do corpo. 
O direito de toda vida individual, mesmo aquela que ainda está no 
útero materno; o prazer e a consumação dos deleites sexuais, reser­
vados à santidade do matrimónio; a injunção contra o suicídio; o 
cuidado e a proteção da saúde; a injunção contra o homicídio e o 
mandamento de amarmos o próximo mais do que a nós mesmos e 
buscarmos o seu bem — tudo isso flui do fato de que este corpo 
torna-se a habitação de Deus. Nosso mundo seria um lugar diferente 
se compreendêssemos este sublime privilégio. 
Se perdermos de vista esta verdade, o que mais nos resta? Porno­
grafia e a cruel degradação de homens, mulheres e crianças; morte 
no útero em nome dos direitos pessoais; a falência da família por 
uma miríade de razões; a profanação do sexo na indústria do entrete-
92 := POR QUE JESUS É DIFERENTE 
nimento; violência em proporções alarmantes. Só podemos chorar 
pelo derramamento de sangue e pela perda. Ao perder de vista o elevado 
valor que Deus atribui ao corpo humano, lançamo-nos em queda 
livre e ficamos à mercê da ganância, da crueldade e da luxúria. 
Numa de minhas viagens, conheci uma mulher que trabalhava 
numa agência internacional que cuida de crianças. Em nossa con­
versa, ela confessou que, depois de tudo o que vira em seu trabalho, 
era muito difícil manter-se otimista quanto ao futuro do mundo. 
Perguntei-lhe por que se tornara tão cética. Ela pensou e depois 
começou a me contar uma história de partir o coração. Citou uma 
cidade onde estivera recentemente e descreveu o horror de tudo o 
que acontecia ali. Num bairro da cidade, chamado "Alameda daSerpente", os homens se reuniam e bebiam uma mistura de álcool e 
sangue de cobra. Depois que a bebida fazia efeito, eles se dirigiam a 
uma sala nos fundos onde usavam crianças para satisfazer seus dese­
jos sexuais. Aquela mulher disse que tinham encontrado ali um bebé 
de onze meses, em estado deplorável. Muitas crianças eram mortas 
depois de usadas e muitas morriam durante o próprio ato. 
Eu perguntei: —E onde estavam os pais dessas crianças? 
—Estavam participando— ela respondeu. 
Como é possível atribuir legitimidade a atos como esses? Ou será 
mais fácil fingirmos que não acontece? A violência e a vileza são 
decorrentes de uma mente que perdeu o respeito pelo corpo huma­
no, enquanto este perdeu seu caráter sagrado. 
Os horrores que ocorrem perto de nós seguem o mesmo raciocí­
nio, embora as histórias sejam diferentes. Em março de 1998, dois 
garotos (um de onze e outro de treze anos) dispararam armas de 
fogo na escola onde estudavam em Jonesboro, Arkansas, matando 
quatro meninas e uma professora e ferindo dez pessoas. Na época, a 
tragédia foi noticiada como o maior massacre numa escola na Amé­
rica. Na noite dos disparos, muitas pessoas estavam sendo aconse­
lhadas na sala de espera do hospital. Amigos e parentes aguardavam 
notícias das vítimas. Toda a cena era de desolação e horror. 
Uma mulher estava sentada sozinha num canto, parecendo des­
consolada. Um conselheiro foi até ela para ver se precisava de ajuda 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO 9 3 
e descobriu que era a mãe de uma das meninas mortas. Ela não 
tinha marido, nem amigos e nem parentes. — Eu vim aqui para ver 
como posso pegar o corpo da minha filhinha—, ela disse. No entan­
to, o corpo tinha sido transferido para outra cidade, para ser subme­
tido à autópsia.9 
"Eu vim para pegar o corpo da minha filhinha." 
Aquela mulher não estava ali para pegar uma onda ou uma 
flutuação. Estava ali para pegar o corpo de sua filha e não apenas 
uma extensão do universo. Que lembrete triste para nós! Com nossas 
atitudes indulgentes, nós banalizamos o corpo humano. Tratamos o 
corpo como um meio para outras finalidades. No entanto, quando a 
morte chega, nós nos voltamos para ele e o valorizamos, porque é a 
única coisa que nos resta. 
Jesus deixou claro que o corpo não é apenas diferente dos outros 
elementos em termos de informação; ele tem também um propósito 
diferente. Por isso a ressurreição é física em seu âmago. O corpo é 
relevante também no sentido eterno e não somente no sentido tem­
poral. 
U M ELOGIO MEMORÁVEL 
A implicação final das palavras de Jesus a todos nós é gratificante, 
pois, se nosso corpo é sua habitação, a adoração eleva-se acima de 
um local. Em nenhuma outra cosmovisão religiosa é feita esta cone­
xão entre o corpo e o templo. De fato, em todas as outras cosmovisões 
há uma clara distinção entre ambos. O corpo deve ser submetido a 
certas regras antes de poder entrar no templo. Listas enormes de pré-
requisitos cercam a entrada nos assim chamados "lugares sagrados" 
de adoração. 
Enquanto escrevia este livro, tive o privilégio de assistir a um 
festival chamado Thaipusam. Caminhei no meio da multidão e pre­
senciei o que as pessoas faziam no desejo de adorar; minha mente 
ficou em constante estado de choque. Os devotos envolvidos na 
cerimónia demonstravam a terrível extensão do que estavam dispos­
tos a fazer para conseguir o favor da divindade. Eles caminhavam 
94 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
vários quilómetros com lanças de ferro enfiadas pelo corpo e espetos 
enormes atravessados nas bochechas e na língua. Cada devoto conta­
va com a ajuda de outro, que prendia cordas nas lanças e puxava na 
direção oposta, dificultando a caminhada. No final da jornada, eles 
contavam cem passos até o templo de Senhor Murugan, o segundo 
filho de Shiva, o deus hindu. 
E surpreendente perceber que a pele dos devotos não fica dilace­
rada e o sangramento é mínimo. Todos eles entram em transe. O 
templo fica agitado quando os participantes chegam e se livram dos 
aparatos que estiveram carregando; a cerimonia prossegue. No final, 
o devoto traz na testa uma marca feita com cinza de estrume quei­
mado e "purificado". Tudo isso é feito para conseguir a bênção da 
divindade adorada na "santidade" do templo, o lugar de encontro 
com o seu deus, e receber a bênção do sacerdote. Como surgem tais 
crenças, tão estranhas? 
O leitor há de se lembrar do assassinato da primeira-ministra da 
índia, Indira Gandhi. O crime foi motivado por vingança, porque 
ela enviara tropas militares ao Templo Sikh, onde havia armas escon­
didas. Ela foi assassinada para preservar o templo. Jesus teria dito 
que eles de fato tinham destruído o que deveria ser o seu templo a 
fim de preservar um local. 
Mais recentemente, hindus e muçulmanos se envolveram num 
conflito que causou muitas cenas violentas por causa do local de 
nascimento (considerado sagrado) de uma divindade hindu, onde 
tinha sido construída uma mesquita. Ironicamente, esta fúria é o 
resultado previsível de uma crença que exalta pontos geográficos 
como locais exclusivos onde Deus é encontrado. Os muçulmanos 
jamais permitirão que em seu país uma igreja tenha um campanário 
mais alto do que uma mesquita. Onde já existe uma igreja, é comum 
construírem uma mesquita mais alta do lado. 
O islamismo ridiculariza o cristianismo por profanar o nome de 
Deus, chamando a encarnação de Jesus de blasfémia. No entanto, em 
sua encarnação, ele exalta o corpo físico, primeiro por ter sido conce­
bido no útero de uma virgem, e depois assumindo a forma humana 
e concedendo-lhe a mais gloriosa expressão de Deus na carne. 
A ANATOMIA DA FÉ E A BUSCA DA RAZÃO 95 
A história da cristandade não está isenta de perversões. Entretan­
to, Jesus deixou uma mensagem alta e clara. Nós somos seu templo. 
Não nos voltamos em certa direção para orar. Não vivemos presos à 
ideia de ter de ir a certo edifício para usufruirmos da comunhão com 
Deus. Não existem posturas, tempos ou limitações únicas que res­
trinjam nosso acesso a Deus. Meu relacionamento com Deus é ínti­
mo e pessoal. O cristão não vai ao templo para adorar. O cristão leva 
o templo junto consigo. Jesus nos eleva acima do edifício e concede 
ao corpo humano a mais elevada homenagem, transformando-o em 
sua morada, o local onde se encontra conosco. Ainda hoje ele vira a 
mesa daqueles que o transformam em mercado dos desejos, da 
ganância e da cobiça. 
Será que esta não era a verdade chocante por trás do gesto da 
mulher quando derramou o perfume sobre Jesus, conforme descrito 
em Lucas 7? Por um lado foi um preparativo para sua morte, mas 
por outro lado ocorreu ali algo maior. Ela era uma mulher de má 
reputação. Provavelmente ganhava a vida como prostituta. Jesus a 
acolheu e restaurou a dignidade do seu corpo. Em seu sujo templo 
terreno, ela ofereceu uma oferta àquele que habitaria naquele tem­
plo. Jesus disse que onde o evangelho fosse pregado, a história do 
que aquela mulher fizera por ele também seria contada. Foi a transa­
ção suprema entre a corrupção dela e a pureza dele. Representava 
o relacionamento transformado entre a habitação e seu ocupante. 
O apóstolo Paulo disse: "Cristo em vós, a esperança da glória" 
(Cl 1:27). Que notícia mais gloriosa podemos ter do que descobrir 
que ele busca habitar dentro de nós? 
"Que sinal você nos dá?", eles perguntaram. 
"Destruam este corpo, e dentro de três dias eu o ressuscitarei". 
Eles não sabiam que ele se referia ao templo do corpo. Por quê? 
Porque, na ganância e sede de poder, eles se concentraram no templo 
feito de pedras. Quanto eles perderam explorando outras pessoas, 
outros templos — e até a si próprios — dentro dos quais Deus desejava 
habitar! Nenhum outro candidato à divindade teria respondido como 
Jesus. 
c a p í t u l o q u a t r o 
U M SABOR PARA A ALMA 
D izem que "a verdade é mais estranha do que a ficção". 
G. K. Chesterton responde por que é assim: "E porque nós 
fazemos a ficção se adequar a nós". As técnicasmodernas só refor­
çam a capacidade da produção em massa das mentiras. Com esta 
combinação de propensão e facilidade, convivemos com o fato de 
que às vezes parece impossível acreditarmos na verdade. 
Alguns anos atrás, minha família e eu visitamos a cidade de 
Bedford, na Inglaterra, próximo de onde morávamos (Cambridge). 
Bem no centro da cidade, há uma estátua enorme do famoso escritor 
John Bunyan, que viveu no século XVII. A estátua é tão impres­
sionante que algum engraçadinho pintou marcas de pé gigantescas 
no chão, desde a escultura até um banheiro público próximo. A 
mensagem implícita (sarcástica ou não) é: João Bunyan está vivo. 
Todo apreciador de literatura sabe que embora Bunyan tenha 
falecido há muito tempo, seu brilhante trabalho, O Peregrino, conti­
nua vivo. Este livro foi traduzido em mais idiomas do que qualquer 
outro livro na história, exceto a própria Bíblia. Visitamos um museu 
construído em sua homenagem, no qual há um exemplar do seu 
livro em cada língua em que foi traduzido. Ficamos impressionados 
ao ver pessoas de várias nacionalidades caminhando de sala em sala, 
olhando as obras exibidas. 
98 POR QUE JESUS t DIFERENTE 
Quando estávamos saindo, comentei com a funcionária da recep­
ção: —Não é surpreendente que um simples livro, escrito por um 
homem que consertava panelas, tenha adquirido esta aclamação 
mundial? 
Ela respondeu devagar: —Suponho que seja verdade, mas devo 
confessar que não li o livro. 
Se não houvesse um piso firme debaixo dos meus pés, acho que 
teria desmaiado. Incapaz de me controlar, perguntei: — Por que 
não leu? 
—Achei muito complicado—, foi a resposta seca. 
Se o choque pudesse ser medido numa escala, eu acho que esta­
ria perto da nota máxima. O que podemos dizer para uma pessoa 
que vende ingressos para um museu que deve sua existência a um 
livro, o qual ela nunca leu? Eu recomendaria que, mesmo que seja 
por pura curiosidade, ou até pelo desempenho profissional, ela tente 
ler pelo menos a versão simplificada para crianças, para ter uma ideia 
vaga do que se trata. 
Esta ilustração é um exemplo notável de pobreza auto-imposta! 
E possível alguém ter um tesouro nas mãos e ignorá-lo, concentran-
do-se mais na embalagem que o envolve. Esta proximidade da ver­
dade e a distância do seu valor ocorre repetidamente em nossa vida. 
Nas palavras de Chesterton, retemos a areia e jogamos o ouro fora. 
Ninguém viu esta tragédia de forma mais vívida do que Jesus. 
As multidões com frequência iam até ele e depois se afastavam agar­
radas a coisas menores enquanto desprezavam o verdadeiro tesouro 
que lhes fora oferecido. Muitas vezes ele demonstrou surpresa diante 
da falta de seriedade deles, incapazes que eram de olhar além da 
superfície. 
Uma das ilustrações mais chocantes disso foi o encontro daque­
las pessoas com uma verdade tão cativante e tão dramática. A maior 
tragédia em toda a história é que milhões de pessoas continuam 
cometendo o mesmo erro, deixando de ler as palavras de Jesus, ou 
então as distorcendo vergonhosamente. 
Eu enfrentei uma distorção dessas num desafio público. Eu ter­
minara de dar uma palestra para uma audiência hostil na índia. No 
U M SABOR PARA A AI.MA 99 
final, tivemos um tempo para perguntas; subitamente, um homem 
gritou lá de trás: —Os cristãos são canibais! Jesus promoveu o 
canibalismo! 
Não havia absolutamente nenhuma conexão entre o que eu ti­
nha dito e seu comentário explosivo. O ataque simplesmente revela­
va sua animosidade para com a mensagem da fé cristã. Em minha 
experiência, embora eu não seja alvo de muitos ataques desse tipo, 
certamente aprendi a me prevenir contra eles. Nossa inclinação na­
tural é responder à altura, atacando o oponente — escárnio por escár­
nio, golpe por golpe, insulto por insulto. 
No entanto, essa não é a solução para tratar com um interlocutor 
zangado. Tais respostas apenas diminuiriam a eficácia de qualquer 
argumento. Na verdade, eu sabia por que aquele homem estava fa­
zendo tais insinuações, embora a maioria da audiência estivesse pres­
tando atenção. 
Minha resposta foi simples: —Por que você diz isso, e qual é a 
sua fonte? 
Ele não soube responder. Disse que precisava ir à sua casa e olhar 
no livro que estivera lendo. Ele na verdade não precisava sair à pro­
cura do livro. Eu podia citar o nome do filósofo, bem como a página 
do livro onde havia tal alegação. Os filósofos ateístas não poupam 
esforços em sua ânsia de ridicularizar as palavras de Jesus. Assim, eu 
sabia exatamente o que aquele estudante tinha em mente. Convi-
dei-o a vir à frente para que pudéssemos debater a questão, mas ele 
recusou o convite. 
"Os cristãos são canibais!" 
Sobre o que ele estava falando? Será que já tinha lido a Bíblia? 
Será que procurara uma explicação para o que tinha lido? Ou será 
que era nisso que desejava acreditar? 
Aqueles que cresceram num lar cristão ou que participaram ati-
vamente de uma igreja jamais se demorariam numa tese tão bizarra. 
No entanto, para aqueles que se tornam cristãos depois de adultos e 
não estão familiarizados com o ambiente cristão, ou para os céticos 
que buscam argumentos, uma passagem em particular pode saltar 
100 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
das Escrituras e causar um efeito desconfortável. As palavras são 
diretas e impressionantes. 
"Este é o meu corpo ... tomai e comei"; "Este é o meu sangue ... 
bebei dele todos". 
Estas palavras de Jesus causaram um choque tão grande quando 
foram proferidas, que podemos compreender a reação do estudante 
indiano. Lembro-me muito bem de quando eu era criança e ouvia 
estas palavras impressionantes, domingo após domingo, na igreja 
que eu frequentava com relutância e displicência. No entanto, mi­
nha lembrança mais vívida é que passava o culto inteiro esperando 
aquelas palavras e não tinha ideia do que elas significavam; na verda­
de, jamais pensei muito nelas. 
Eu via as pessoas se encaminhando para frente, ajoelhando-se 
com as mãos estendidas e recebendo algo que a seguir colocavam na 
boca. De minha parte, o mais importante era o horário. Eu sabia 
que quando aquelas palavras eram pronunciadas, estariam faltando 
cerca de vinte minutos para o final do culto, e dentro de uma hora 
eu estaria no campo de críquete ou no cinema. 
Eu estava imensamente próximo de uma das verdades mais su­
blimes ensinadas e demonstradas por Jesus e ao mesmo tempo tão 
distante do seu significado. Como a funcionária do museu de Bunyan, 
eu ignorava as palavras. Agora sei que, para aquele que realmente 
busca compreender todo o seu significado, sua profundidade é 
imensurável. 
Novamente, se devemos seguir a trilha do entendimento, temos 
de prestar atenção na sequência das afirmações de Jesus. Primeiro o 
simples, e a seguir o profundo. Creio que seu pronunciamento ofere­
ce um elemento do evangelho que faz um contraste único e reluzente 
com as outras convicções religiosas. 
IMPULSIONADOS PELO SENSACIONAL 
A terra estava cheia do céu, 
E cada arbusto queimava com Deus; 
Mas somente aquele que enxerga tira a sandália; 
O resto se senta e colhe amoras.1 
U M SABOR PARA A ALMA > 101 
Assim se expressa a poetisa Elizabeth Barrett Browning. Seu 
poema nos remete de volta ao grandioso relato onde Deus se reve­
lou a Moisés na sarça ardente e o chamou para liderar seu povo para 
fora da escravidão, para a terra que manava leite e mel. Browning 
destaca que a epifania não foi para o deleite gastronómico de 
Moisés. Devo acrescentar também que os trovões e relâmpagos no 
Monte Sinai não foram para o povo apreciar os efeitos pirotécnicos 
sobre a paisagem. 
A manifestação ofuscante e quase assustadora dos elementos, 
nos dois momentos cruciais para seu povo, apontava para além das 
forças da natureza, para Aquele que é capaz de controlá-las. A presen­
ça inexaurível de Deus marcou aqueles eventos com um esplendor 
brilhante e magnífico. A falta de visão do povo era inconcebível, che­
gando a um ponto onde os sinais tornaram-se fins em si mesmos,e 
Aquele que significava tudo se tornou um meio. Os efeitos especiais 
tornaram-se atrações, e a figura central foi obscurecida. A humanida­
de vive em cegueira total, e o erro é repetido em todas as gerações. 
Foi assim que, séculos depois daqueles eventos, as pessoas conti­
nuavam cegas. A multidão seguia o ministério de Jesus e se introme­
tia em seus momentos a sós. Apresentaram-lhe um desafio ardiloso, 
exigindo que lhes desse o maná, como Moisés dera ao povo no de­
serto. Eles jamais esperavam uma resposta como a que receberam. A 
conversa sobre pão foi a parte mais fácil. As palavras que se seguiram 
foram chocantes para eles. Quando ele terminou, muitos o abando­
naram, dizendo: "Duro é este discurso, quem o pode ouvir?". 
A verdade, nesta situação, estava além da capacidade de crer por­
que a mente não estava disposta a ponderar na provisão e, é claro, na 
implicação. Havia uma grande lacuna entre a expectativa deles e a 
oferta de Jesus, e eles começaram a se afastar sem esperar uma expli­
cação. Jesus, então, olhou para seus discípulos e perguntou-lhes se 
também iriam abandoná-lo. Será que era demais para eles também 
compreenderem? 
Depois de sua morte, eles iriam lembrar daqueles momentos e 
ilo que ele dissera. Milénios mais tarde, enquanto a Igreja repete 
aquelas palavras em praticamente todas as línguas existentes, muitos 
102 POR QUE JESUS F DIFERENTE 
continuam considerando este discurso muito duro e continuam aban-
donando-o sem compreender. 
INTERPRETANDO MAL A ESCRITURA 
Quando Jesus disse: "Tomai, comei, este é o meu corpo ... Bebei 
dele todos; porque isto é o meu sangue, o sangue da nova aliança..." 
(Mt 26:26-28), ele não estava falando num vácuo cultural, instigan­
do seus discípulos ao canibalismo. Pelo contrário, suas palavras de­
viam arrancar os ouvintes de uma existência estéril, dominada pela 
comida, e levá-los ao reconhecimento da fome suprema da vida, 
que só pode ser saciada com um pão diferente. Foi exatamente na­
quela jornada liderada por Moisés que ele disse pela primeira vez 
que o pão físico tem um poder limitado de sustentar. Ele desejava 
saciar uma fome maior. 
Para uma cultura com instruções tão específicas sobre as neces­
sidades espirituais, sem mencionar as estritas leis alimentares, so­
mente a ignorância podia gerar a noção de que Jesus estava pres­
crevendo o consumo de carne humana. A acusação deles de ser 
um "discurso duro" demonstrou a falta de compreensão. É essa res­
posta que priva todo ser humano do verdadeiro sentido da vida. 
Quanto mais pondero nas palavras de Jesus, mais profundamente 
sou levado a reconhecer por que a fome por algo transcendente está tão 
arraigada em nosso ser — sim, mesmo nos nossos apetites físicos. Pode 
ser por isso que não conseguimos extirpá-la, por mais que tentemos. 
Portanto, é uma perda significativa que um ensino tão profundo 
tenha sido acolhido com um entendimento tão vazio. Infelizmente, 
como o estudante na Índia, em vez de receber a verdade que Jesus 
estava revelando, muitos "se sentam ao redor dela", na posição de 
filósofos ou de críticos, e "comem amoras". 
Que contexto nós temos? O que antecedeu a exigência da mul­
tidão de ver descer pão do céu? 
Antes do registro dessa conversa, João já tinha descrito vários 
milagres realizados por Jesus. O primeiro foi a transformação de 
água em vinho, onde Jesus demonstrou seu poder sobre os elemen­
tos da natureza. Depois João narrou dois episódios de cura, nos quais 
U M SABOR PARA A ALMA 103 
Jesus mostrou seu poder sobre as enfermidades. A seguir, descreveu 
Jesus multiplicando o lanche de um jovem, alimentando com ele 
cinco mil pessoas — mostrando seu poder sobre toda a provisão. 
Finalmente ele relatou a conhecida história de Jesus andando sobre a 
água — mostrando seu poder sobre as leis naturais. 
Cada uma dessas histórias é seguida por respostas variadas, desde 
reverência até ridiculização, desde reações práticas até filosóficas. 
Captando a beleza da água sendo transformada em vinho, o poeta 
Alexander Pope disse: "Conscienciosa, a água olhou para seu Mestre 
e corou". Esta descrição sublime pode ser editada para explicar cada 
milagre. Em princípio, seria difícil um corpo aleijado se endireitar a 
um comando do seu Criador? Seria demais para o Criador do uni­
verso, que criou todas as coisas a partir do nada, multiplicar pão 
para a multidão? Aquele que trouxe todas as moléculas à existência 
não seria capaz de agrupá-las para caminhar sobre elas? Por que as 
pessoas não faziam esta conexão? 
Não é próprio da impertinência agarrar o dom e ignorar o doa­
dor? O naturalismo trata de arrancar o milagre do seu lugar legíti­
mo, substituindo-o por explicações que desafiam a razão. Aqueles 
que zombam do fato de Jesus ter caminhado sobre a água esquecem 
do milagre que ele já tinha operado, ao alterar a composição da 
água. 
Pense nisto um momento. Em 18 milímetros de água (cerca de 
duas colheres), há 6xl02 3 moléculas de H 2 0 . Quanto é 6xl023? Um 
computador moderno pode realizar dez milhões de cálculos por 
segundo. Este computador levaria dois bilhões de anos para calcular 
6x1023. 
Olhemos de outra maneira. Uma resma de papel tem cerca de 
500 folhas e cinco ou seis centímetros de altura. Qual seria a altura 
de uma pilha de 6x1023 folhas de papel? Essa pilha iria da Terra ao 
Sol, mais de um milhão de vezes.2 
Mesmo assim, Deus agrupou esta enorme quantidade de molé­
culas em apenas dois goles d'água. O milagre de caminhar sobre a 
água é pequeno para Aquele que a criou. A multiplicação dos pães se 
deu a um simples comando para Aquele que criou a Terra com uma 
104 •:' : POR QUE JESUS É DIFERENTE 
ordem (C. S. Lewis disse que um milagre pequeno não é mais fácil 
de realizar do que um milagre de grandes proporções). Evidente­
mente, os céticos questionam a credulidade que aceita tais histórias, 
mas não percebem que quando tomam um gole de água de um copo, 
estão presenciando um grande milagre. 
As pessoas e os discípulos que viram Jesus operando o milagre 
da multiplicação dos pães seguiram-no com intenções deliberadas. 
Buscavam o poder que acreditavam que tornaria a vida mais deleitável 
— assegurando barriga cheia e uma provisão inexaurível de pão. Quem 
poderia culpá-los? Recentemente ouvi sobre um homem que ga­
nhara uma grande soma de dinheiro numa loteria. "Qual foi a 
maior mudança em sua vida?", perguntaram-lhe. "Agora eu janto 
fora com mais frequência", foi a resposta. 
Comida e poder distraem a mente, fazendo-a esquecer da falta 
de alimento para a alma. A generosidade de Deus, manifestada nos 
milagres, tornou-se uma pedra de tropeço porque as testemunhas 
perderam de vista o propósito da obra e almejaram apenas tirar 
vantagens pessoais. Queriam saber como o lanche de um indivíduo 
podia alimentar milhares de pessoas e ainda sobrar vários cestos 
cheios. Como um paralítico de quase quarenta anos de idade podia 
andar novamente? Será que aquele poder era transferível? Poderia 
ser comprado? 
E crucial notarmos que a resposta de Jesus à demanda do povo 
forma um nítido contraste com o auto-engrandecimento que se espe­
raria de alguém que se dizia ser o Messias. Em vez de se acalentar 
com os louvores fingidos e aumentar o número de seguidores, Jesus 
se esgueirou e saiu do meio da aclamação. De fato, ele chorou ao 
ver a forma como se enganavam. Ele sabia os motivos e os con­
ceitos errados com os quais conviviam. Querendo apanhá-lo numa 
armadilha, levantaram esta questão: "Nossos pais comeram 
maná do deserto... por que você não nos alimenta da mesma 
forma?" 
Foi aí que Jesus iniciou sua resposta, levando-os muito além do 
que tinham planejado ir. No entanto, primeiro ele tentou afastá-los 
do erro, para poder conduzi-los à sua verdade. 
U M SABOR PARA A ALMA 105 
I G N O R A N D O O A U T O R 
Não é surpresa que a primeira tentação que Jesus enfrentou no 
deserto foi para transformar pedras em pão. "Faça isso", Satanás lhe 
disse, "e o mundo o seguirá". 
Qualquer pessoa que já esteveem países onde a fome é exposta 
publicamente como meio de inspirar compaixão e de se conseguir 
alguma ajuda pode entender o efeito emocional de tal tentação. Eu 
mesmo cresci numa terra onde nunca faltavam pessoas famintas. 
Como o alimento pode se acomodar confortável em seu estômago 
quando ao seu redor tantas pessoas sofrem pela falta dele? Portanto, 
não foi uma tentação leve lançada sobre Jesus. O tentador conhecia 
a força de sua investida. De que outra maneira Deus poderia ser tão 
relevante, além de providenciar o pão necessário à vida? Como uma 
religião pode ser boa, se não pode alimentar os famintos? Satanás 
estava perigosa e dolorosamente próximo da verdade. No entanto, 
usava uma meia-verdade; a meia-verdade se liga tão intimamente à 
mentira que a mistura se torna mortal. 
Faça esta pergunta a si próprio: Que tipo de lealdade resultaria 
se a única razão da afeição para com o líder é que ele distribui pão 
entre seus seguidores? Ambos os motivos seriam errados — do provedor 
e do receptor. Estes são os termos do sistema de recompensa e castigo 
que motiva mercenários, cria cumplicidade, mas não inspira o amor. 
Seu apelo é logo esquecido, quando é usado em forma de sedução 
ou quando é retido para instilar o medo. A dependência sem com­
prometimento sempre buscará meios de romper suas cadeias. 
A tentação que Satanás colocou diante de Jesus o espreitou du­
rante todo o seu ministério, mesmo quando a multidão o apertava 
exigindo uma provisão inesgotável de pão. Política de poder por 
meio da abundância não é uma invenção nova. E a forma usada 
pelos demagogos para controlar as massas. Jesus esforçou-se para 
mostrar ao povo que a preocupação com pão como propósito pri­
mário e expressão de satisfação tinha alterado perigosamente o 
objetivo real do pão e o verdadeiro significado da vida. 
Em nossa vida frenética, esta verdade não é assimilada mais fa­
cilmente do que era na antiga Palestina. Em nossa sociedade voltada 
106 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
para o consumo, nosso apetite continua sendo grande, sempre care­
cendo de satisfação. Não devemos pensar sobre isso? Isso em si já não 
seria um indicador de que nossa fome está mal direcionada? 
Em sua peça Nossa Cidade, Thornton Wilder conta a história da 
vida cotidiana mundana em meio às suas dificuldades. Os detalhes 
são específicos, mas a lição é como um espelho erguido diante de 
todos nós. Vemos a rotina em toda a sua monotonia - a entrega do 
leite, o café da manhã, os operários indo para o trabalho, as donas de 
casa envolvidas nos seus afazeres, os jardineiros trabalhando — cada 
dia sendo uma repetição do dia anterior. Na história, a virada se dá 
quando Emily Gibbs morre ao ter um bebé, e a rotina é subitamente 
quebrada. 
No mundo dos mortos, Emily recebeu a chance de voltar à ter­
ra, num dia à sua escolha, para ver como realmente viveu quando 
estava viva. Agora, de sua nova existência no outro mundo, ela olha­
va a vida com olhos cheios de nostalgia. Observou a atividade frené­
tica em sua casa, na celebração de seu 12° aniversário. Como bem 
lembrava, toda a família estava preocupada com os presentes, as 
comidas e as brincadeiras. A festa transcorria alegre e animada. 
Agora, porém, em seu estado irreversível, Emily notou a total 
falta de atenção pessoal, embora seu coração almejasse isso. A aten­
ção geral, porém, estava nas coisas que precisavam ser feitas e não na 
pessoa para quem tudo era feito. Ela sentiu-se mal diante de tama­
nha cegueira para com suas verdadeiras necessidades. Sem poder ser 
vista, ela implorava: "Por um breve momento estamos felizes. Va­
mos olhar uns para os outros". No entanto, seu lamento não podia 
ser atendido. Eles não podiam ouvi-la porque estavam presos às coi­
sas superficiais. A festa tinha de prosseguir, viria outro aniversário e 
o momento se dissiparia em ativismo. Quando proferia sua despe­
dida final, Emily exclamou: "O Terra, tu és maravilhosa demais para 
ser notada por alguém!" 
Na peça, ela se vira para o administrador do cenário, que 
serve como narrador, e faz esta pergunta carregada de remorso: "Será 
que algum ser humano nota a vida enquanto a vive — cada, cada 
momento?" 
U M SABOR PARA A ALMA •. 107 
A resposta vem: "Não. Os santos e os poetas, talvez - eles 
notam". 
"Será que algum ser humano nota a vida enquanto a vive?" A 
única forma de notarmos a vida enquanto estamos vivos é reconhe­
cermos que a vida não é uma questão só de nutrição, mas uma fome 
maior, que está além das palavras e dos alimentos. Não vivemos para 
poder comer, e nem comemos apenas para poder viver. A vida é 
digna em si mesma de ser vivida. A vida não pode ser vivida se é 
considerada como uma questão de consumo. A vida só é realmente 
plena quando está repleta daquilo que satisfaz a fome física e espiri­
tual, numa reciprocidade que sustenta ambos sem a violação de ne­
nhum. Autenticidade e continuidade procedem do verdadeiro e do 
eterno. Para os milhões de indivíduos que vivem a vida cotidiana 
tendo como foco principal dos sonhos e das ações a provisão de pão, 
a vida, como deveria ser, passa despercebida, e seu apetite insaciável 
continua clamando no interior. 
"Os santos e poetas, talvez — eles notam", porque eles param, 
pensam e olham além das atividades para seus anseios e vislumbram 
a possibilidade de significado que transcende a ação. Resumindo, se 
quisermos entender realmente quem somos, temos de entender o 
que o pão pode fazer e o que não pode. 
Jesus tinha uma pergunta igualmente tocante para sua audiên­
cia, como também para todos nós. Será que vivemos cada minuto 
de nossa vida, conhecendo seu valor essencial? Para sentir o pleno 
impacto da paciência de Jesus para com eles, temos de lembrar que 
não era a primeira vez que o assunto de comida e fome tinha emer­
gido numa conversa entre Jesus e seus seguidores. Anteriormente 
ele já tentara esclarecer este ponto a fim de tirá-los da busca da 
"religião do pão". 
A discussão mais ampla ocorrera pouco antes de um evento que 
surpreendeu os discípulos — a conversa com a mulher samaritana 
(veja Jo 4:1-42). Naquele diálogo, Jesus tentara abrir o entendimen­
to deles para o que dava forma e substância à vida. De fato, ele dera 
um brilhante exemplo, só que eles não ouviram e consequentemente 
não entenderam. 
108 POR QUE JESUS f, DIFERENTE 
Eles estavam com as lancheiras vazias e por isso ficaram profun­
damente preocupados. Jesus falava com uma mulher socialmente 
marginalizada e desesperada, cuja vida fora usada e abusada até que 
ficou sem nenhum senso de dignidade. Eles o repreenderam por 
estar falando com um pária. "Você deve estar com fome", disseram; 
"não está na hora de comer?". 
"Tenho algo para comer que vocês não conhecem. [...] A minha 
comida é fazer a vontade do meu Pai." 
Eis aqui o primeiro ponto digno de nota. Se eu quiser ser pleno, 
devo buscar uma vontade maior do que a minha — a vida plena é 
aquela centralizada na vontade de Deus, não nos apetites da carne. 
Jesus prosseguiu e disse: "Abram os olhos e vejam os campos! 
Estão maduros para a colheita" (veja Jo 4:32-35, NVI). 
Aqui está o próximo item. Mantendo a metáfora do alimento, 
Jesus apontou para uma fome universal e que ia além do pão e da 
água — uma fome distinta, de proporções cósmicas. Cada frase de 
sua resposta tinha alimento, mas de um tipo diferente. Havia fome 
em toda parte, ele disse, e comida suficiente para todos. No entanto, 
não era trigo e água. Era o próprio Cristo, o Pão da Vida e a fonte 
de água viva. A mulher samaritana absorvia suas palavras com o 
fervor que procede da consciência da verdadeira necessidade. 
A transição foi fascinante. Ela chegara ali com um cântaro vazio. 
Jesus a enviou de volta com uma fonte de água viva. 
Ela chegara como uma rejeitada. Jesus a enviou de volta plena­
mente aceita por Deus. 
Ela chegara ferida. Ele a mandou de volta totalmente curada. 
Ela chegara cheia de perguntas. Ele a enviou de volta como uma 
fonte de respostas. 
Ela chegara vivendo em mudo desespero.Voltou para casa cheia 
de esperança. 
Os discípulos não viram nada disso. Estavam no horário de 
almoço. 
É interessante notar que logo depois da conversa com a mulher 
samaritana Jesus operou o milagre da multiplicação dos pães. As­
sim, pão e alimento não estavam ausentes de sua mente. Jesus estava 
U M SABOR PARA A ALMA 109 
movendo seus interlocutores de elementos mais difíceis para os mais 
fáceis; do eterno para o temporal; das necessidades da alma para os 
apetites do corpo. No entanto, eles estavam presos no desejo de mais 
comida. Só que nesta primeira vez eles não captaram. 
LEVANTANDO A C O R T I N A 
Assim, voltamos ao capítulo seis de João. Desta vez, porém, Jesus 
acrescentou um elemento extremamente dramático. A fome agora 
assume um sentido mais amplo, como teria no final, se fosse consi­
derada como o indicador da vida. 
Se fôssemos enumerar todas as nossas fomes, ficaríamos surpre­
sos ao constatar quantas delas são legítimas. A fome da verdade, a 
fome de amor, a fome de conhecimento, a fome de pertencer, a fome 
de expressão, a fome de justiça, a fome de imaginação, a fome da 
mente e a fome de significado. Poderíamos citar outras. Muitas 
teorias psicológicas surgem a partir do reconhecimento dessas fo­
mes, ou necessidades. 
Este é o ponto. Algumas de nossas iniciativas pessoais podem 
satisfazer algumas dessas fomes. Educação pode trazer conhecimen­
to. Romance pode trazer um senso de pertencer a alguém. As reali­
zações podem trazer significado. A riqueza coloca algumas coisas ao 
alcance das mãos. Porém, a mensagem de Jesus afirma que nada 
satisfará todas essas fomes. Além do mais, ninguém pode nos ajudar 
a reconhecer se os meios de satisfazê-las são legítimos ou não, até 
que nos alimentamos do pão da vida que Jesus nos oferece. Este 
alimento define a legitimidade de tudo o mais. 
Quando buscamos essas fomes, não somente continuamos insa­
tisfeitos, como também a própria busca traz a desorientação que nos 
impede de saber de onde vem a verdadeira satisfação. É extrema­
mente importante que saibamos isso. 
Como já mencionei, o livro de Jon Krakauer, Into Thin Air, relata 
os perigos que cercaram os alpinistas na expedição ao monte Everest 
na primavera de 1996. Naquele ano, a tentativa de alcançarem o 
topo resultou em perda de vidas. Algumas circunstâncias saíram 
110 POR QUE JESUS h DIFERENTE 
fora de controle, mas eles também cometeram erros fundamentais 
que custaram muito. Alguns desses erros, infelizmente, foram come­
tidos quando ainda havia possibilidade de solução. 
Um dos que perderam a vida foi Andy Harris, um dos líderes da 
expedição. Harris chegou ao pico que ficava além do ponto máximo 
que eles mesmos tinham estabelecido como alvo. Na descida, sentiu 
falta de oxigénio. Pelo rádio, conversou com o pessoal da base de 
apoio, falando de sua necessidade e informando que acabara de pas­
sar por alguns cilindros de oxigénio deixados por outros alpinistas — 
todos os cilindros vazios. Os membros da equipe tinham passado 
pelos cilindros ao retornarem e sabiam que não estavam vazios. Pelo 
rádio, insistiram com Harris para que procurasse novamente os ci­
lindros, mas não adiantou. Já afetado pela falta de oxigénio, Harris 
continuou a afirmar que os cilindros estavam vazios.3 
O problema foi que a falta daquilo que precisava deixou sua 
mente tão desorientada que embora tivesse um suprimento ao alcan­
ce das mãos, continuou reclamando a ausência. Aquilo que tinha 
nas mãos faltava em seu cérebro e destruiu sua capacidade de reco­
nhecer o que tinha à disposição. 
O que o oxigénio é para o corpo, o Pão da Vida é para a alma. 
Sem este pão, todas as outras fomes serão percebidas de forma inade­
quada. De fato, como aconteceu com o oxigénio, a ausência desse 
pão por um período prolongado faz com que ele próprio pareça sem 
valor. A vida deve ser a realização de uma necessidade que define 
todos outros meios de realização e um amor que define todos os 
outros afetos. 
Por meio dos seus milagres, Jesus demonstrou a partir do maior 
para o menor. Em suas respostas, ele movia a audiência do menor 
para o maior. Em suas palavras na Ceia, ele lembrou que o físico e o 
espiritual se encontram. Ali o agora e o eterno convergem. A vida e 
a morte se mesclam. Implícita nesses versículos está a direção 
apoteótica para a qual Jesus se dirigia e à qual devia voltar, momen­
tos antes de sua morte. 
O povo podia ter compreendido mais. Veja bem, na mente orien­
tal, o pão não é apenas uma fonte de alimento. Ele leva em si muito 
U M SABOR PARA A ALMA 111 
mais do que isso. O alimento é um meio de comunhão. Em Apocalipse 
3:20 Jesus diz que está à porta e bate; se alguém abrir a porta, ele 
entrará e ceará com ele. Trata-se de uma linda expressão de comu­
nhão. O alimento é um meio de celebração. O retorno do filho pró­
digo foi celebrado com a morte do novilho cevado, o que sinalizou o 
começo da festa. O alimento também é um meio de prazer. No palá­
cio de Salomão os banquetes eram fartos e frequentes. Até hoje, o 
alimento é extremamente importante na cultura oriental. Além de 
proporcionar sustento, também é um meio de se promover a amiza­
de, celebração e prazer. 
A diferença entre ocidentais e orientais não é muito grande — e 
nós sabemos disso. Mesmo assim, apesar de toda a nossa boa alimenta­
ção, nossas amizades, celebrações e prazeres, chegam certos momen­
tos cruciais quando nenhum alimento pode sustentar a vida, nenhuma 
amizade pode superar as perdas, nenhuma celebração dura para sem­
pre e nenhum prazer satisfaz plenamente. O corpo envelhece e en­
fraquece, e o alimento não tem a capacidade de restaurar a força e a 
juventude perdidas. O corpo se move para uma decadência inexorável. 
Resumindo, o alimento está sujeito a duas limitações. A primeira é 
óbvia. O corpo físico enfraquece e um dia morre. 
Tenho um amigo cuja vida enriqueceu muito a minha ao longo 
dos anos. Houve uma época em que sua esposa foi acometida de 
câncer. Jamais esquecerei seu exemplo. A única palavra que vem à 
minha mente é como ele a nutriu. Por natureza ele é um indivíduo 
dinâmico e ágil. Alguém pode ficar cansado só de olhar para ele. 
Mesmo assim, quando ele soube que a esposa estava com os dias 
contados, deixou todas as suas atividades para cuidar dela. 
Durante semanas e meses, a vida dele se resumiu em um único 
propósito: cuidar de quem ele amava. Ficava sentado ao lado da 
esposa, expressando seu amor enquanto a vida dela se desvanecia. 
Oferecia a ela o que havia de melhor: sucos de frutas frescas e 
selecionadas, feitos nos melhores aparelhos. Nenhum país que ofe­
recesse uma possibilidade de cura era considerado longe demais. 
Nenhuma tentativa de restaurar-lhe a saúde era considerada cara 
demais. 
112 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
No entanto, finalmente chegou o momento em que o físico da 
esposa tornou-se fraco demais, além da possibilidade de ser fortaleci­
do por algum alimento. Nenhum elo foi forte o bastante para mantê-
la ali. O problema não estava na alimentação ou na falta de desejo de 
prolongar a vida. O problema era que células destrutivas se espalha­
ram de tal forma por seu organismo que nenhuma alimentação 
podia restaurar aquilo que estava morrendo. 
Esse momento chegará para todos nós, em situações e formas 
diferentes. A nutrição do alimento, os elos de amizade, as ocasiões de 
celebração e os deleites do prazer legítimo terminam em questão de 
minutos em toda vida e todo relacionamento. 
É para esta vulnerabilidade que Jesus aponta. O poeta expressa 
esta ideia da seguinte forma: 
Nossa vida contém milhares de mananciais 
E morre se um deles se seca; 
É estranho que uma harpa de mil cordas 
Possa manter o tom durante tanto tempo. 
Um antigo adágio diz que você pode dar um peixe a um homem 
faminto, ou então fazer melhor: ensiná-lo a pescar. Jesus acrescenta­
ria que você pode ensinar uma pessoa como pescar, mas o melhor 
dos pescadores tem fomes que o peixe não pode satisfazer. 
PERMANECENDO N OS BASTIDORES 
Há uma segunda verdade — não tão óbvia — relacionada ao alimento. 
Jesus disse: "Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá 
fome; e o que crê em mim jamais terá sede". Note o poder implícito 
nesta afirmação. 
No cerne de todas as grandes religiões há uma figura principal. 
Quando suas exposições são estudadas, emerge algo muito signifi­
cativo. Surge uma bifurcação, ou uma distorção entre a pessoa e seus 
ensinamentos. Maomé e o Alcorão. Buda e as Verdades Nobres. 
Krishna e suas filosofias. Zoroastro e sua ética. 
Seja qual for nossa posição diante de suas reivindicações, uma 
verdade é inescapável. São mestres que apontam para seus ensinos 
U M SABOR PARA A ALMA ' •- 113 
ou mostram um caminho em particular. Em todos eles emerge uma 
instrução, uma forma de viver. Você não pode se voltar para Zoroastro; 
você deve ouvir Zoroastro. Não é Buda quem o liberta - é seu Cami­
nho Nobre que o instrui. Não é Maomé quem o transforma — é a 
beleza do Alcorão que causa impacto em você. 
Por outro lado, Jesus não somente ensinou ou expôs sua mensa­
gem. Ele se identificou com sua mensagem. "Nele", diz a Escritura, 
"habita corporalmente toda a plenitude da divindade". Ele não se 
limitou a proclamar a verdade. Ele disse: "Eu sou a verdade". Ele não 
se limitou a mostrar o caminho. Ele disse: "Eu sou o caminho". Ele 
não somente oferece o visto de entrada. Ele disse: "Eu sou a porta". 
"Eu sou o Bom Pastor". "Eu sou a ressurreição e a vida". "Eu sou o 
EU SOU". 
Nele não há somente uma oferta do pão da vida. Ele éo pão. Por 
isso ser cristão não é somente uma forma de se alimentar e de viver. 
Seguir a Cristo começa com uma forma de se relacionar e de ser. 
Vamos usar o budismo como um exemplo específico. Trata-se de 
um sistema que tem conseguido muitos seguidores entre os astros de 
Hollywood. Muitas vezes o budismo é definido de forma simplista 
como a religião da compaixão e da ética. Na verdade, porém, prova­
velmente não há um sistema de crenças tão complexo quanto este. 
Embora comece com as quatro verdades nobres sobre o sofrimento e 
sua cessação, depois se move para o caminho de oito passos sobre como 
acabar com o sofrimento e depois emerge em centenas e centenas de 
outras regras para lidar com as contingências da vida. 
A partir de uma base simples de quatro ofensas que resultam na 
perda da condição de discípulo, é construído um incrível edifício de 
formas de restauração. Aqueles que seguem os ensinamentos de Buda 
recebem trinta regras sobre como evitar esses precipícios. Entretan­
to, antes mesmo de lidarmos com eles, existem 92 regras que se apli­
cam a apenas uma ofensa. Há 75 regras para aqueles que entram 
para a ordem. Há regras de disciplinas que devem ser aplicadas -
sendo 227 para homens e 311 para mulheres. (Os conhecedores do 
budismo sabem que Buda teve de ser persuadido a permitir que as 
mulheres alcançassem a condição de discípulas. Depois de muita 
l145
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114 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
insistência por parte de um dos seus discípulos, ele finalmente aten­
deu o pedido, mas determinou mais regras para elas.) 
Mesmo que alguém cumpra todos esses requisitos, fica claro que 
num sistema religioso sem uma divindade, como é o budismo, a 
ética torna-se o centro e as regras vão sendo acrescentadas ad 
infinitum. Buda e seus seguidores são os criadores dessas regras. No 
budismo, a oração mais comum pedindo perdão, a qual consta na 
Oração Comum Budista, reflete este exagero numérico: 
Senhor, eu suplico, eu suplico, eu suplico me deixe!... Que todo o 
tempo eu possa ser livre dos quatro estados de Ai, dos Três Sofri­
mentos, das Oito Circunstâncias Erradas, dos Cinco Inimigos, das 
Quatro Deficiências, dos Cinco Infortúnios e que rapidamente 
possa voltar ao Caminho, à Fruição e à Nobre Lei de Nirvana.4 
Na melhor das hipóteses, este ensino nos inspira à moralidade, 
mas não é intrinsecamente eficaz. O ensino é como um espelho. 
Pode lhe mostrar se seu rosto está sujo, mas não pode limpar. Para 
entender melhor esta teoria complicada, o indivíduo quase que pre­
cisa ser diplomado em filosofia ou psicologia! 
Jesus, pelo contrário, de uma forma muito simples mostrou a 
verdadeira necessidade de sua audiência, ou seja, a fome de natureza 
espiritual comum a todo ser humano; assim, a essência humana não 
é viver ou fazer, mas ser. Não precisamos simplesmente de uma ética 
superior — precisamos de coração e vontade transformados, a fim de 
fazermos a vontade de Deus. 
Jesus também ensinou e levantou um espelho em nossa frente, 
mas por meio de sua pessoa ele transforma nossa vontade a fim de 
que busquemos a sua. Ele deseja alimentar o nosso ser. Ele adverte 
que há áreas profundas em nossa fome aonde o alimento físico não 
chega. Há altitudes nas aspirações existenciais que nossa atividade 
humana não alcança. Há espaços de necessidades que o natural não 
pode ocupar. 
Em resumo, Jesus nos lembra que o pão não pode sustentar 
indefinidamente. Ele é o Pão da Vida que sustenta eternamente. E 
ele faz isso de uma forma que nenhum outro consegue fazer. 
U M .SABOR PARA A ALMA 115 
EXPLICANDO O PLANO 
Tendo deixado claro seu ponto sobre as limitações do pão e o fato de 
que ele era o Pão da Vida, Jesus agora apresenta um pensamento que 
eles deviam analisar com cuidado. Ninguém negaria a unicidade desse 
pensamento. Não há nada, em nenhuma outra religião, que se apro­
xime desse ensino profundo. 
Nossa maior fome, conforme descrita por Jesus, é de um relaciona­
mento pleno que combine o fisico e o espiritual, que inclua assombro e 
amor e que se expresse em celebração e compromisso. 
Em outras palavras, essa fome é de adoração. Contudo, adoração 
não é efetuada somente por uma transação pronunciada numa ora­
ção ou num pedido. Adoração é uma postura de vida que assume o 
propósito primário, o entendimento do que realmente significa amar e 
reverenciar a Deus. Esta é a mais sagrada de todas as intimidades. E 
onde o pão partido proporciona os meios de expressão e de prática. 
Em minha primeira visita à Jordânia, minha família e eu fomos 
convidados para uma refeição especial na véspera de nossa partida. 
A ocasião chamava-se Mensef. Os convidados se postavam ao redor 
de uma grande vasilha de arroz, lindamente decorada com temperos 
suculentos e condimentos aromáticos que nos deixavam com água 
na boca. Então veio a parte engraçada. Todos nós arregaçamos as 
mangas e nos servimos diretamente da vasilha, comendo com a mão. 
Era a comida do Oriente Médio, com todos os seus propósitos. Para 
um indiano como eu, era como estar de volta ao lar. 
Há um simbolismo naquela forma de se comer. O prazer de uma 
combinação agradável de alimento, a comunhão entre os participan­
tes, o toque das mãos no mesmo prato e a celebração da vida e seu 
propósito — tudo isso significa confiança, proximidade e a lembrança 
dos dias passados juntos. Cada detalhe era como um convite, dizen­
do: "Seja bem-vindo à nossa casa e torne-se um conosco". Fomos 
saudados com um beijo e despedidos com um beijo. Reunimo-nos como 
amigos e nos separamos com a confiança mútua de uma amizade 
mais profunda. 
Isso, devo acrescentar, é apenas uma ilustração pobre daquilo 
que Jesus estava oferecendo aos seus seguidores — comunhão com 
116 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
ele. Mesmo religiões sem divindade como o budismo e religiões 
panteístas como o hinduísmo, embora neguem o Deus pessoal e 
absoluto, também se debatem em formas de adoração endereçadas 
a um ser pessoal, porque o isolamento interior induz o ser a outro 
ser pessoal transcendente. 
A razão disso é que buscamos mais do que um simples ritual. Na 
verdade, estamos separados. Estamos separados de Deus e do nosso 
próximo. E por fim, a realidade mais crua é que estamos separados 
até de nós mesmos. Não conseguimos concatenar todos os aspectos 
de nossa existência. A vida humana é uma história de separação. 
Este fato está no âmago do evangelho. Nós fomos separados de 
dentro para fora. E Jesustraz a verdadeira resposta para esta separa­
ção, muito mais do que um simples convite, "venha e coma". 
Eu sou o pão vivo que desceu do céu; se alguém dele comer, viverá 
eternamente; e o pão que eu darei pela vida do mundo é a minha 
carne.[...] Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a 
carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não 
tendes vida em vós mesmos. 
João 6.51-53 
Ao ouvirem isso, muitos dos seus discípulos disseram: "Duro é 
este discurso; quem o pode ouvir?" Jesus, porém, lhes disse: "Isto vos 
escandaliza? Que será, pois, se virdes o Filho do Homem subir para o 
lugar onde primeiro estava? O espírito é o que vivifica; a carne para 
nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito, são espírito e são 
vida. Contudo, há descrentes entre vós" (Jo 6:60-64). 
Se Jesus só tivesse dito isso sobre o assunto, não tenho dúvida de 
que seria o enigma supremo de seu ensino. A aspereza com que suas 
palavras são traduzidas para a nossa linguagem deixa o leitor total­
mente confuso. No entanto, como em muitos dos seus discursos, 
Jesus foi dando pequenas porções de informação, até o momento 
final. Então os discípulos se lembraram da primeira ocasião em que 
ele mencionou esta verdade. Suas palavras citadas acima são clara­
mente uma pista. O cumprimento ocorreria pouco tempo antes de 
sua morte e a plena compreensão só se daria depois. 
U M SABOR PARA A ALMA 117 
Vamos averiguar o evento que explicou o enigma. 
Em primeiro lugar, é óbvio que quando Jesus falou em "comer 
sua carne e beber o seu sangue" não se referia a uma ação literal, pois 
ele estava presente, dando-lhes pedaços de pão, não de sua carne. 
Segundo, se ele se referisse à sua carne física e ao seu sangue, seria 
o equivalente a dizer que só um pequeno número de pessoas poderia 
participar da vida que ele oferecia. Ela seria restrita a um numero finito 
de pedaços que um corpo humano pudesse ser repartido. 
Terceiro, seria um ato cronologicamente restrito. Aquele corpo 
logo entraria em decomposição, e o sangue logo deixaria de carregar 
vida. Somente as pessoas presentes em sua morte física poderiam 
participar da refeição. 
Quarto, Jesus já tinha dito que ressuscitaria naquele corpo de­
pois que fosse morto, de modo que, se estivesse se referindo ao corpo 
físico, tornaria todo o processo posterior uma fraude. 
Quinto, ele ordenou que a Igreja repetisse o que fez por toda a 
história, como um memorial. Tal ação seria impossível em relação 
ao seu corpo físico. 
Sexto, ele disse que suas palavras eram Espírito e não carne. 
Finalmente, quando chegou o momento áo seu sacrifício, como 
ele predissera, ele explicou o que tudo aquilo significava. Sentou-se 
para a Páscoa com seus discípulos. Juntos, gozaram do alimento que 
sustentava, da comunhão proporcionada pela refeição, da celebra­
ção e do prazer da provisão de Deus. Só que havia também peso nos 
corações. Para aliviar aquele peso, só o maná não ajudaria. Era o 
momento de encarar o valor supremo da vida. Uma oferta digna 
estava para ser oferecida. O Cordeiro de Deus estava abençoando a 
refeição, embora estivesse para ser sacrificado. Jesus tomou o pão, 
deu graças e distribuiu aos discípulos, dizendo: "Tomem e comam. 
Este é o meu corpo dado por vocês; façam isso em minha memória". 
A seguir, tomou o cálice, deu graças e disse: "Este é o cálice da Nova 
Aliança no meu sangue, derramado por muitos para a remissão de 
pecados". Eles provaram, tocaram, cheiraram, conheceram e senti­
ram as dimensões da salvação. Jesus estava fisicamente presente, en­
quanto distribuía os elementos. 
118 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Então Jesus prosseguiu e disse: "E digo-vos que, desta hora em 
diante, não beberei deste fruto da videira, até aquele dia em que o 
hei de beber, novo, convosco no reino de meu Pai". 
Então, é assim. Aqueles pedaços de pão representavam o que esta­
va para acontecer. Jesus seria física e emocionalmente moído de uma 
forma que atrairia a atenção dos amigos e dos inimigos. Mesmo as­
sim, aquele quebrantamento factual incluía reparação. Foi providen­
ciado a nós o meio de nos conectarmos com Deus, com nosso próximo 
e conosco mesmo. Teríamos acesso a um novo relacionamento, o 
qual faz parte de um corpo maior, individual e corporativamente, 
porque seu corpo foi partido por nós. Podemos fazer parte de uma 
comunhão que não pode ser quebrada porque ele viria habitar den­
tro de nós. Podemos tomar parte de uma celebração eterna, pois 
estaremos para sempre na presença de Deus. Podemos conhecer o 
prazer na sua mão direita porque a adoração seria sua expressão 
suprema. Estes símbolos do seu corpo partido por nós, sua união 
para o nosso desmembramento, concedem um aspecto tangível aos 
elementos quando nos reunimos para adorar. 
Embora, ao lembrarem do ensino anterior de Jesus, os discípulos 
tivessem um entendimento parcial do que estava acontecendo na­
quela noite, ainda não conseguiam apreender todo o significado. Esta 
clareza foi alcançada num momento significativo depois da ressur­
reição. O dia da morte de Cristo foi um dia que eles não poderiam 
compreender ou apreciar. Eles viram seu corpo quebrado, e suas vi­
das ficaram arrasadas. Ficaram cheios de dúvidas e não tinham nin­
guém para esclarecê-las. 
Depois da crucificação, alguns deles estavam retornando para 
suas casas, e quando andavam pela estrada que levava a Emaús, um 
estranho se aproximou deles. Muita coisa tinha acontecido naqueles 
últimos dias, e eles estavam comentando os fatos, tentando com­
preendê-los. Ao ouvi-los, o estranho perguntou por que estavam 
tão desanimados. Eles contaram sobre os acontecimentos trágicos 
da morte de Jesus e acrescentaram: "És o único, porventura, que, 
tendo estado em Jerusalém, ignoras as ocorrências destes últimos 
dias?" 
U M SABOR PARA A ALMA 119 
Na verdade, Jesus era o único em Israel que sabia o que tinha 
acontecido. Entretanto, os discípulos ainda não sabiam quem ele 
era. Jesus começou a expor toda a história e como ela se relacionava 
àquele dia e àqueles eventos. Os dois discípulos ficaram maravilha­
dos pela maneira como os fatos estavam conectados. Eles ainda não 
sabiam que era Jesus e insistiram para que ficasse com eles e parti­
lhasse da sua refeição. 
Quando se sentaram para comer, chegou o momento culminan­
te. Ele partiu um pedaço de pão. A Bíblia diz que, quando ele fez 
isso, os olhos deles foram subitamente abertos e reconheceram 
Jesus. Não há na história um ato mais simples com um significado 
mais profundo e transcendente. Que momento! Que refeição! Que 
mensagem! Que transcendência! 
De fato, até os nossos dias, os cristãos se reúnem e compartilham 
o pão partido e o cálice. Nesse gesto simples, toda a história alcança 
seu significado na pessoa de Cristo. A morte de Jesus no passado é 
lembrada no presente e aponta para o futuro quando partiremos o 
pão com ele na eternidade. Cada sentido entra em ação — tato, pala­
dar, olfato, audição e visão. Neste ato, todas as barreiras são quebra­
das — a barreira do pecado entre nós e Deus, a barreira entre corpo e 
alma como conexão física e espiritual, a barreira entre vida e morte e 
a barreira de raça e preconceito - pois nós estaremos diante do Se­
nhor na mesma refeição. Esta é a "Mensefàe Deus". Pode haver razão 
maior para celebrar? Agora a vida pode ser percebida como tendo 
sido vivida a cada momento. 
Em seu livro Life After God, Douglas Coupland conta uma his­
tória fascinante. Ele caminhava por um lindo parque quando se de­
parou com um grupo de mulheres cegas, fazendo um piquenique. 
Quando elas o ouviram se aproximando, pediram que tirasse uma 
foto do grupo. Ele consentiu alegremente, e elas se ajuntaram para a 
foto. Quando ele se afastou, começou a pensar: "Por que um grupo 
de pessoas desprovidas de visão iria querer uma foto?"5 
Posso sugerir que quando nos formou, Deus nos capacitou a 
aproveitarmos a capacidade de outras pessoas, de modo que pode­
mos compartilhar um benefício, mesmo sem a habilidade de 
120 s > PORQUE JESUS É DIFERENTE 
experimentá-lo diretamente. Provavelmente as fotos seriam mostra­
das a outras pessoas com visão, as quais poderiam enriquecer o sen­
timento daquelas mulheres que podiam reviver a ocasião em sua 
lembrança, indo além da forma como a viveram na primeira vez. 
Naquele momento único na história, ao oferecer um pedaço de 
pão, Deus trouxe a visão e o sentimento aos participantes, por meio 
da vida daquele cujo corpo foi quebrado e que, portanto, pode nos 
elevar numa memória sagrada. Naquele gesto simples, ele se reforma 
numa nova plenitude. Aquele pão partido estabelece uma ponte em 
cada abismo humanamente intransponível em milhões de vidas. 
Nós vemos a verdade de uma forma que ninguém poderia ter nos 
capacitado - por meio dos olhos divinos, na sua presença. 
T R A D U Z I N D O PARA A VIDA 
Na prática da fé cristã, este compartilhamento do pão e do cálice 
tem sido apropriadamente chamado de Comunhão [a Ceia do Se­
nhor]. Deus se aproxima, e nós gozamos de sua presença em nós. 
Neste aspecto, o contraste com todas as outras convicções é mais 
agudo do que se pode imaginar. 
No seu âmago e em seus objetivos, o hinduísmo ensina que 
devemos buscar a união com o divino. Por que a união? Porque os 
hindus afirmam que somos parte e uma parcela desse universo divi­
no. Portanto, o objetivo do indivíduo é descobrir sua divindade e 
praticá-la. 
Veja novamente as palavras de Deepak Chopra sobre este propó­
sito da vida. Ele faz esta afirmação no começo de seu livro: "Na 
realidade, somos uma divindade disfarçada; os deuses e deusas que 
vivem em nós em estado embrionário buscam se materializar plena­
mente. Portanto, o verdadeiro sucesso é a experiência desse milagre. 
E a manifestação da divindade dentro de nós".6 
Mais adiante, Chopra faz uma declaração que forma a base de 
sua filosofia: "Nós devemos descobrir por nós mesmos que em nosso 
interior há um deus ou uma deusa em estado latente que deseja nas­
cer, a fim de que possamos expressar nossa divindade".7 
U M SABOR PARA A ALMAótima metáfora de minha vida. Meus maiores con­
flitos tinham me aprisionado, e naquelas horas, corroído pelo remorso, 
eu me perguntava como poderia me libertar e respirar o ar fresco de 
uma vida sem cadeias. 
Um dos poemas de Oscar Wilde, escrito na prisão, descreve bem 
o que eu sentia: 
Nunca vi homens tão tristes 
olhando com olhar tão atento 
para um pequeno teto azul 
que nós, prisioneiros, 
chamamos de céu, 
para as nuvens descuidadas 
que passavam livres e felizes. 
Eu era um desses "homens tristes", embora nunca demonstras­
se. Tinha aquele profundo anseio por liberdade. Assim, naquela noite 
triste, fixei minha atenção naquela parede, que parecia impossível 
de mover. Se eu quisesse compreender a realidade, teria de olhá-la 
bem de perto. 
A intensa busca da alma que teve início naquela noite finalmen­
te me conduziu até a pessoa de Jesus Cristo. O fato de isso ter acon­
tecido numa cultura essencialmente panteísta e (pelo menos na letra) 
controlada pela religião é em si mesmo um milagre. Gostaria de tra­
çar para você alguns dos passos que dei. 
O L H A N D O AS PLACAS PELO RETROVISOR 
Não é tarefa fácil selecionar os momentos decisivos. Num enorme 
esforço para ser justo e realista, procurei rever algumas das placas de 
sinalização pelas quais passei, e desejo mostrar a você o ponto de 
partida da minha argumentação. Da perspectiva cronológica, pode-
18 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
mos discordar da sequência na qual uma experiência leva a um argu­
mento. No entanto, olhando anos mais tarde em retrospecto para a 
estrada, do ponto de vista lógico, vejo que o argumento foi precedido 
e, com o tempo, sustentado pela experiência. Portanto, este capítulo 
de abertura começa com minha história; os capítulos seguintes, po­
rém, tratarão do argumento. 
O propósito deste livro é mostrar ao leitor as razões por que creio 
firmemente que Jesus Cristo é quem ele afirmava ser - o Filho do 
Deus vivo, aquele que veio para buscar e salvar a humanidade perdi­
da. E algo extremamente necessário numa época de nossa história 
cultural em que o Ocidente está mais parecido com o Oriente, e o 
Oriente tenta, sutilmente, copiar o Ocidente. 
As religiões estão experimentando um avivamento, mas com fre­
quência esse avivamento é uma mistura híbrida de técnicas de 
marketing ocidentais e misticismo oriental — uma combinação de­
vastadora de sedução por intermédio da mídia e do misticismo. A 
primeira vítima de tal mistura é a verdade e, consequentemente, a 
pessoa de Deus. 
Mesmo assim, para que o espírito humano sobreviva e todas as 
disciplinas legítimas encontrem uma expressão frutífera, a verdade 
não pode ser sacrificada no altar de uma pretensa tolerância. Falan­
do de forma clara e simples, não é possível que todas as religiões 
sejam verdadeiras. Algumas crenças são falsas, e nós sabemos que são 
falsas. Portanto, não é proveitoso colocar um halo sobre a noção de 
tolerância, como se tudo pudesse ser igualmente verdadeiro. Consi­
derar todas as crenças como igualmente verdadeiras é tolice, por 
uma simples razão: negar esta afirmação também teria de ser verda­
de. Entretanto, para que a negação de tal afirmação seja verdadeira, 
teríamos de concordar que nenhuma religião é verdadeira. 
Nos conflitos da vida real entre certo e errado, justiça e injusti­
ça, vida e morte, percebemos claramente que a verdade não impor­
ta. Jesus Cristo falou várias vezes sobre o valor supremo da verdade. 
Embora sua vida tenha sido mais esquadrinhada do que a de qual­
quer outro homem, é notável que mesmo os céticos concordam e 
reconhecem a singularidade de sua vida e do impacto que causou. 
E S C A L A N D O UM ALTO M U R O 19 
Aqui , por exemplo, está a opinião de u m erudi to a l tamente respeita­
do, o famoso historiador W. E. H . Lecky: 
O caráter de Jesus não foi somente o mais elevado padrão de virtu­
de, mas também o mais forte incentivo em sua prática, e exerceu 
uma influência tão profunda que podemos dizer com verdade que 
o simples registro de três anos de atividade fez mais em prol da 
regeneração e da suavização da humanidade do que todas as refle­
xões dos filósofos e todas as exortações dos moralistas.1 
Historiadores, poetas, filósofos - e mui tos outros - consideram 
Jesus como a peça central da história. Ele própr io fez u m a afirmação 
dramática e ousada. Disse ao apóstolo Tomé: "Eu sou o caminho , e 
a verdade, e a vida; n inguém vem ao Pai senão por mim" (Jo 14:6). 
Cada palavra desta declaração desafia as crenças fundamentais da 
cultura indiana da qual eu venho; na realidade, de fato se põe contra 
todo o nosso m u n d o atual. 
O lhemos para as reivindicações implícitas desta afirmação. Pri­
meiro (e mais impor tan te) , Jesus disse que há somente u m caminho 
para Deus . Isso choca as tendências e a mental idade pós-moderna . 
O h indu í smo e o bahaísmo há m u i t o ques t ionam o conceito de u m 
ún ico c a m i n h o para D e u s . A religião h i n d u , c o m seu s is tema 
multifacetado de crenças, ataca com ferocidade tal exclusividade. 
Jesus t a m b é m afirmou, sem sombra de dúvidas, que Deus é o 
Autor da vida e que o significado da vida está e m chegar a ele. Esta 
declaração seria categoricamente negada pelo budismo, o qual é u m a 
religião não teísta, ou até ateísta. 
Jesus se revelou como o Filho de Deus, que liderava o caminho ao 
Pai. O islamismo considera tal afirmação uma blasfémia. C o m o Deus 
pode ter u m Filho? 
Jesus afirmou que podemos conhecer a Deus e o caráter absolu­
to de sua natureza de forma pessoal. O s agnósticos negam tal possi­
bilidade. 
Podemos analisar essas linhas e perceber que cada u m a das afir­
mações de Jesus sobre si mesmo desafiava as suposições mais básicas 
da minha cultura sobre a vida e seu significado. (Evidentemente, é 
20 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
importante lembrar que os elementos religiosos básicos dentro da 
esfera do hinduísmo não se harmonizam entre si. Buda era hindu até 
que rejeitou algumas das doutrinas fundamentais do hinduísmo e 
concebeu no lugar delas a visão budista. O islamismo é radicalmente 
diferente do induísmo.) 
Ironicamente, o próprio apóstolo Tomé, a quem Jesus proferiu 
essas palavras, levou as afirmações exclusivas de Cristo à índia e pa­
gou o preço da mensagem do evangelho com a própria vida. 
Jesus era quem afirmava ser? Será que a unicidade de Cristo era 
um mito? E possível estudar a vida de Cristo e demonstrar, de forma 
conclusiva, que ele era e continua sendo o caminho, a verdade e a 
vida? Estas são as perguntas que me proponho a responder neste 
livro. Creio que há evidências esmagadoras que apoiam as afirmações 
de Jesus. Começo com minha história pessoal somente para estabele­
cer o contexto de como minha própria jornada começou e como che­
guei à conclusão de que Jesus é quem ele afirmava ser. 
U M VISLUMBRE PERIGOSO 
E compreensível que nesses pensamentos preliminares haja uma in­
certeza pessoal. Como posso dizer o que preciso dizer sem ferir outras 
pessoas ou até culturas? E difícil. Família e cultura são os berços de 
ouro onde as pessoas são nutridas. Eu mesmo me acho dividido entre 
o amor à verdade e o preço da candura. 
O perigo em tal empreendimento abateu-se sobre mim alguns 
meses atrás, quando li o poderoso livro Ar Rarefeito, de Jon Krakauer. 
O autor conta sobre uma equipe (da qual ele próprio fez parte) 
que escalou o monte Everest. Notei, com empatia, sua apologia 
angustiada no final do livro aos muitos parentes daqueles que 
pereceram na jornada, devido aos erros que cometeu no início de 
sua narrativa. O fato de ter escrito pouco tempo depois da tragé­
dia levou-o a mencionar detalhes que posteriormente teve de cor­
rigir ou até se retratar. Ele concordou que, se estivesse esperado 
um pouco mais antes de escrever seu relato, teria evitado muitos 
erros. 
E S C A L A N D O UM A L T O M U R O 21 
Houve mais um elemento, e aqui se deu o maior problema. Al­
gumas coisas que ele escreveu criaramda hediondez da enfermidade, emerge a gloriosa mensa­
gem de unicidade e de esperança. O corpo de Cristo é partido por 
todos nós, de modo que seu cuidado, sua amizade, sua celebração e 
seu gozo nos unem como um. Um dia todos aqueles corpos enfer­
mos serão glorificados e todos nós beberemos do mesmo cálice e 
comeremos o pão com nosso Pai celestial. 
Isso nos leva a uma tocante conclusão sobre o significado da ado­
ração. Alimento e saúde podem ser uma ramificação relevante, à qual 
124 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
nos apegamos. No entanto, o tronco arraigado no chamado sagra­
do de Deus para adoração é baseado na reversão dessa relevância. 
Não quer dizer que Deus precisa ser relevante conosco. É exata-
mente a nova perspectiva que temos de Deus que nos inspira a nos 
tornarmos relevantes com ele. O que quero dizer? 
Em seu livro The Integrity ofWorship, Paul Waitman Hoon inclui 
um capítulo intitulado "A irrelevância da adoração". Seu ponto prin­
cipal é resumido num parágrafo no qual nos lembra que a experiên­
cia da adoração às vezes pode nos chamar para olhar além da nossa 
necessidade para aquilo a que Deus está nos chamando: 
Com muita frequência almejamos luz em nossa vida no mundo, 
só para sermos chamados a ponderar sobre o nosso destino na 
eternidade. Com frequência ficamos preocupados com a igreja 
local, e em vez disso encontramos nossa visão voltada para a 
Igreja triunfante e universal. Com frequência perguntamos se a 
adoração abençoa nossa alma com paz, e só ouvimos a lição do 
dia chamando-nos para uma guerra santa. Com frequência dese­
jamos ter forças para vencer o mundo, só para aprendermos que 
devemos ser apedrejados e dilacerados pelo mundo. Com fre­
quência buscamos conforto para nossas tristezas, e em vez disso 
encontramos as tristezas do mundo adicionadas às nossas. Tais 
reversões podem ser estranhas aos homens. No entanto, somente 
essas contradições respondem às realidades relevantes e irrelevantes 
que estão no âmago da adoração cristã.11 
Os discípulos não experimentaram essa reversão. Eles foram a 
Jesus pedindo a abundância de pão, a fim de terem o estômago 
cheio. Descobriram que havia um tipo diferente de pão partido por 
eles, por causa de um vazio mais profundo do que imaginavam. 
Tinham comprado lanche num restaurante próximo. No entanto, 
estavam sendo convidados para outro tipo de mesa. Apesar de terem 
comprado alimento, logo estariam com fome. Jesus estava oferecen-
do-lhes realização eterna com renovação a cada momento. Por isso a 
tarefa da Igreja não é tanto tornar Deus relevante para o povo, mas 
sim tornar as pessoas relevantes para Deus. 
U M SABOR PARA A ALMA Í. i- 125 
Há uma magnífica peça esculpida em madeira em Worms, Ale­
manha, chamada "O Altar do Sangue". Trata-se de uma ilustração 
de Jesus partindo o pão para os discípulos. Eu fiquei contemplando 
aquela obra-prima, a qual o escultor levou anos para completar, e 
percebi que estava além de minha capacidade descrevê-la. Era o cerne 
daquilo que Deus nos chama para fazer. E naquela troca que ele 
acalma a mente, aquieta o coração e supera todas as barreiras. 
Será que nosso Deus é tão pequeno que não pode compartilhar 
vida sem canibalismo? Aqueles que entendem a profundidade do 
significado da Comunhão compreendem a realização da adoração. 
Aqueles que não entendem se afastam famintos e devoram a própria 
alma. O compositor nos exorta corretamente, para que a nossa fome 
mais profunda seja saciada. 
Querido Senhor, parte para mim o Pão da Vida, 
Como partiste os pães, à beira do mar; 
Além das páginas sagradas, 
Eu te busco, Senhor, 
Meu espírito suspira por ti, 
O Palavra viva. 
Tu és o pão da vida, 
Para mim, para mim, 
Tua santa Palavra, a verdade 
Que me saivou, 
Dá-me para comer e viver 
Contigo nas alturas. 
Ensina-me a amar a tua verdade 
Pois tu és amor. 
Oh! envia teu Espírito, Senhor, 
Agora sobre mim, 
Que ele toque meus olhos 
E me faça ver; 
Mostra-me a verdade escondida 
Dentro da tua Palavra, 
E em teu Livro revelado, 
Eu vejo o Senhor.n 
c a p í t u l o c i n c o 
DEUS É A FONTE DO MEU 
SOFRIMENTO^ 
G ostaria de iniciar este capítulo citando respeitosamente, com a 
permissão do autor, porções de uma das cartas mais tocantes 
que já recebi. Realmente admiro a coragem, a candura e a disposição 
de aprender do homem que a escreveu. Obviamente não é fácil des­
nudarmos nossa alma. Meu coração pesa por ele e sua família, por 
sua experiência terrível e dolorosa. 
Esta carta, embora seja específica e relacionada ao contexto do 
autor, representa uma pergunta feita a Jesus dois mil anos atrás, numa 
situação semelhante. De fato, se formos honestos, por trás desta 
questão reside uma das maiores barreiras para a fé em Deus. 
Prezado Sr. Zacharias, 
Preciso desesperadamente de sua ajuda. Não estou pedindo 
dinheiro ou algo assim... Preciso do seu conselho. 
Por favor, leia esta carta. Ela é extremamente pessoal e revela 
um coração partido. Minha situação é séria, e já estou no segundo 
ano de tormento e medo. Pensei que seria capaz de vislumbrar 
todas as "respostas" que precisaria para encontrar paz em minha 
alma, mas continuamente tenho terminado no proverbial "beco 
sem saída". Ou talvez a resposta esteja lá o tempo todo e seja muito 
triste para mim aceitá-la. Não sei. Resumindo, estou confuso e 
assustado. Preciso de sua ajuda. 
128 , ' • POR QUE JESUS É DIFERENTE 
No dia 4 de agosto de 1997, às 15hl5 , meu filho, Adam 
Mark Triplett, morreu num acidente de avião, ocorrido numa 
cidade de New Richmond, Wisconsin. Adam era instrutor de 
vôo numa escola especializada em St. Paul, Minnesota. Ele era 
um estudante respeitado, um bom músico, bom profissional, 
amigo afeiçoado e um cristão dedicado. Também era um irmão 
agradável, bom marido e bom filho. Meu único filho. Ele mor­
reu aos 23 anos de idade, depois de apenas três meses de casado. 
Não consigo imaginar a vida sem ele... 
Há alguns anos minha esposa e eu tínhamos comprado um 
computador novo. Eu não fazia ideia do perigo que traria à minha 
vida. Um dia, quando navegava casualmente pela Internet com 
meu novo amigo tecnológico, fiquei surpreso ao descobrir um 
e-mail anónimo em minha caixa postal. Ao abrir a mensagem, fi­
quei chocado ao me deparar com uma foto pornográfica. 
Fiquei furioso com aquela invasão vulgar e decidi descobrir 
de onde viera a mensagem. Continuei procurando, pensando que 
poderia me tornar um defensor da decência. No entanto, caí víti­
ma da vileza e do engano do diabo e logo fiquei escravizado pelo 
hábito de olhar tais fotos. 
Se eu tivesse um "dia ruim" no trabalho, ou se o carro quebrasse 
(qualquer pretexto servia), eu balanceava as coisas com uma pequena 
"espiadela". Eu justificava o hábito afirmando para mim mesmo que era 
algo inofensivo... Não estava molestando e nem incomodando 
ninguém. Não percebia o mal que estava fazendo para mim mesmo. 
Um dia, durante um culto na igreja, percebi que estava dan­
do uma "espiadela" mental e não estava prestando atenção ao 
que o pastor dizia. O medo brotou em meu coração e tentei me 
afastar daquela prática nociva. Não consegui. A espiral descen­
dente continuou afetando meu trabalho e minha vida familiar, 
sem mencionar minha responsabilidade como líder na igreja. 
No dia 4 de agosto, levei meu filho ao aeroporto. Seu próxi­
mo aluno estava esperando. Quando ele saiu do carro, ele sorriu, 
levantou o polegar e me fez sinal de "positivo". Enquanto eu me 
afastava, olhei para ele pelo espelho retrovisor... e tive a estranha 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 129 
sensação de que seria a última vez que o veria. Afastei a ideia 
como se fosse um pensamento casual. Ignorei-a. Esqueci-a 
completamente. Voltei ao meu trabalho. 
No final do dia, sentia-me furioso, só Deus sabe por que... 
[e decidi que] ia para casa me acalmar e dar uma "espiadela". 
Pensei que teria pelo menos uma satisfação. 
[Enquanto dirigia meu carro], senti Deus falandocomigo 
numa voz mansa, amorosa, quase num sussurro: "Mark, por 
favor, não quero que faça isso". 
Minha resposta foi dura e direta: "Oh!, você não quer que 
eu faça isso! Grande coisa! Você não quer que eu faça nada, não 
é? Eu sempre tenho de ser perfeito, não é? Bem, hoje não!" En­
tão o Senhor falou um pouco mais alto e mais sério: "Estou 
pedindo para que você não se comporte dessa forma". Nova­
mente, eu respondi com arrogância: "Como você vai me impe­
dir? O que você fará? Matará meu filho?" 
Pela terceira vez o Senhor Deus falou comigo. Desta vez, 
porém, seu tom era mais severo, mais firme e autoritário. "Mark, 
você não entende. Estou lhe dizendo que NÃO Q U E R O que 
você se comporte dessa forma". 
Neste ponto, meu ego estava no pleno controle. Minha res­
posta foi deliberada e direta. Não queria mais ouvir nada sobre 
aquele assunto. 
Cheguei em casa por volta das 17h30. Minha esposa estava 
assando algo na churrasqueira, nos fundos de casa. Ela perguntou 
se eu tinha ouvido algo sobre um acidente de avião ocorrido na­
quele dia. Eu disse que não. Ela parecia nervosa e assustada. Eu 
"senti" que algo estava errado... 
Logo depois o xerife chegou com a notícia. Nossa filha 
Katrina (irmã de Adam) começou a gritar. Minha esposa come­
çou a chorar descontrolada. Eu fiquei completamente sem ação, 
mas senti que uma força assumiu o controle de meu corpo e 
minha mente. Acredito que era o Espírito Santo de Deus. 
Nas semanas que seguiram à morte de Adam, comecei a 
lembrar dos fatos daquele dia. Fui consumido pela culpa do meu 
130 PORQUEJLSUS É DIHERKNTE 
pecado contra Deus. Tornei-me dolorosamente consciente da ne­
cessidade de cair aos pés do Senhor e buscar o seu perdão... 
Será que fui o culpado por aquela tragédia? O querido Deus, não 
permita que seja assim.1 
Como você pode imaginar, esta carta interrompeu meu dia. 
Enquanto lia, a cada parágrafo a angústia se intensificava e eu sentia 
minhas artérias latejando. Meu coração se apertava, batendo no 
ritmo do auto-exame. Tudo o mais se desvaneceu, assumindo um 
papel secundário. Coloquei-me no lugar daquele homem e imaginei 
seu horror. 
O que pode ser mais doloroso na vida do que carregar uma cul­
pa tão enorme, provocada por uma tragédia dessa natureza? Quan­
do as palavras chegaram ao fim, a dura pergunta permanecia: "Deus 
tirou a vida do meu filho? Ele estava me fazendo pagar por ir contra 
a sua vontade?" 
A busca das respostas para essas duas perguntas — "Deus é o 
autor da dor?" e "minha dor é decorrente do meu pecado?" — tem 
incomodado os céticos e os religiosos. Cada pessoa razoável que ten­
ta buscar sentido num mundo enriquecido pelo bem, mas convulsio­
nado pelo mal tenta pensar nessas questões, mas não encontra solução 
simples, especialmente diante de um acontecimento dramático como 
este. Depois de séculos de debate, encontrar uma resposta adequada 
continua sendo tarefa árdua. Trata-se de uma questão digna de toda 
nossa atenção. Ao mesmo tempo, estou convencido de que não há 
uma resposta mais completa para o problema do sofrimento e do 
mal do que aquela apresentada pela fé cristã. 
A Bíblia não evita entrar neste debate. Jesus encarou esta ques­
tão de frente. Às vezes ela chegava até ele de forma sutil, outras vezes 
num tom mais direto. O incidente mais tocante no qual ele enfren­
tou este desafio está registrado no nono capítulo do Evangelho de 
João. A discussão segue nos calcanhares de um dos relatos mais lon­
gos de um milagre operado por Jesus. Há mais do que o diálogo 
normal que precede e segue esta cura particular — e isso porque 
as pessoas buscaram uma explicação para a deformidade física do 
indivíduo. 
D E U S É A F O N T E DO MEU S O F R I M E N T O ? 131 
Quando Jesus caminhava junto com seus discípulos, um homem 
cego atravessou seu caminho. Os discípulos, nessa ocasião, não se 
contentaram em testemunhar o milagre da restauração da visão. Fo­
ram ao cerne da questão, questionando qual era o papel de Deus 
numa situação trágica. Um deles perguntou a Jesus de forma até 
abrupta: "Mestre, quem pecou, este ou seus pais, para que nascesse 
cego: 
Quer dizer, ele mesmo é responsável pela sua sina, ou é culpa de 
outra pessoa? 
Jesus os surpreendeu ao responder que a responsabilidade pela 
deformidade do homem não era dele e nem dos seus pais. "Respon­
deu Jesus: Nem ele pecou, nem seus pais, mas foi para que se manifes­
tem nele as obras de Deus. E necessário que façamos as obras daquele 
que me enviou, enquanto é dia; a noite vem, quando ninguém pode 
trabalhar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo". 
O que Jesus queria dizer com "para que se manifestem nele as 
obras de Deus"? 
Enquanto Jesus desvendava a resposta, lembre-se que ele lidava 
com quatro grupos de pessoas, cada grupo com suas próprias razões 
para questioná-lo. O primeiro grupo eram os próprios discípulos. 
Queriam uma resposta porque buscavam uma explicação para o so­
frimento individual. No entanto, havia também os vizinhos. As pes­
soas sabiam que um milagre fora realizado e estavam confusas sobre 
"como" acontecera. Como ele podia restaurar a vista ao cego? Os 
céticos dentre eles tinham visto o efeito, mas não queriam admitir o 
"quem" por trás da ação. Não gostavam do lugar para onde a resposta 
de Jesus os encaminhava porque seriam compelidos a decidir ser ho­
nestos, repudiar o orgulho e segui-lo. Finalmente, havia o homem 
cego. Ele experimentara pessoalmente a transformação e estava um 
tanto abalado com todas as implicações — especialmente diante das 
críticas. Sua conversa pessoal com Jesus levou-o a reconhecer, sem 
nenhuma dúvida, que ele não era apenas aquele que restaurava a vi­
são; ele também transformava o coração. 
E óbvio que a resposta de Jesus nesta passagem vai além da ago­
nia dos pais que perdem um filho ou daqueles que suportam com 
132 : PORQUE JESUS É DIFERENTE 
graça muita dor. Ele reconheceu imediatamente que havia uma ques­
tão por trás da questão. 
Portanto, a resposta vai mais fundo, não somente para tocar a 
dor do coração humano, mas para compreender a amplitude do 
mal, da dor e do sofrimento. Se desejarmos mergulhar mais fundo, 
certamente a resposta nos levará numa longa jornada. A pergunta 
simplesmente não pode ser respondida se ignorarmos as possíveis 
objeções em todos os estágios da resposta. Aqueles que aceitam isso 
verão que a cosmovisão bíblica é a única que aceita a realidade do 
mal e do sofrimento respeitando a causa e o propósito e oferecendo 
a força e o sustento dados por Deus. Aqueles que se recusam a acei­
tar as verdades apresentadas por Jesus continuarão a considerar esses 
elementos como barreiras para Deus e, ouso acrescentar, barreiras 
para a própria razão. 
Alguns anos atrás, ouvi uma história engraçada. Houve uma pane 
numa usina elétrica e a cidade entrou em confusão. Muitos enge­
nheiros tentaram encontrar o defeito e não conseguiram. Finalmen­
te, um homem conseguiu resolver o problema e reativar o sistema, 
apenas apertando um botão. Ele cobrou da cidade um milhão e um 
dólares. Surpreso com o valor, alguém lhe perguntou por que estava 
cobrando um milhão e um em vez de arredondar para um milhão. 
Ele respondeu que estava cobrando um dólar por ter apertado o bo­
tão e um milhão por saber qual botão tinha de apertar. 
A primeira vista, a resposta de Jesus à pergunta dos discípulos 
parece bem precária. Consiste em apenas algumas poucas afirma­
ções. No entanto, aquelas poucas palavras têm um peso enorme. Por 
isso a incrível profundidade na resposta só pode ser apreciada quan­
do compreendemos a cosmovisão por trás dela. Agarrar-se a essas 
poucas linhas sem perceber o contexto da mensagem completa é 
violentar um tema extremamente importante. Para evitar tal perigo, 
levarei a questão de volta ao seu desafio fundamental e encararei o 
debate doloroso (embora real) sobre o mal e o sofrimento num 
mundo governado por um Deus amoroso. Uma vez que compreen­
damos a perspectiva cristã mais ampla, entenderemos queCristo 
responde à pergunta imediata à luz da questão maior por trás dela. 
DEUS É A FONTE DO MEU SOFRIMENTO? = 133 
UMA ANGÚSTIA UNIVERSAL 
Desde o princípio, lembremos que toda cosmovisão — não somente 
a cosmovisão do cristianismo — deve dar uma explicação ou uma 
resposta para o mal e o sofrimento. Ou o mal prova categoricamente 
que Deus não existe, como juram os ateus, ou não existe "realmente 
o verdadeiro mal", como afirmam os panteístas, ou o mal é explica­
do com mais coerência pela visão cristã de Deus e seu propósito na 
criação. Em resumo, não se trata de um problema exclusivo do 
cristianismo. Quem se opõe à fé cristã não deve se limitar a levan­
tar a questão. Todos nós temos de oferecer uma resposta para o proble­
ma do mal, independentemente do sistema de crenças que adota-
mos. 
Uma das descobertas que fiz ao estudar este assunto foi que to­
dos os escritores que tentam responder esta questão têm algo em 
comum e uma pressuposição fundamental. O fator comum é que 
cada um começa com uma litania de horrores e atrocidades. Não é 
somente uma pessoa cega de nascença, ou um bebé inocente sendo 
morto. A lista parece interminável. É como se nós mesmos precisás­
semos de lembretes da carga emocional envolvida neste problema, 
que desafia qualquer solução racional. Horrores de proporções 
inimagináveis são catalogados. Eu percebi que este fato em si é instruti­
vo, e esta abordagem tem uma lição à qual voltarei mais à frente. 
Entretanto, emerge um segundo componente, ou seja, a deter­
minação do ponto de partida. Muitos elementos são pressupostos ou 
escondidos logo no início. Para o cético, a questão o paralisa imedia­
tamente. Esta confusão deveria prestar atenção no fazendeiro que, ao 
responder aos turistas onde ficava certo local, disse: "Se é para lá que 
querem ir, não é daqui que devem partir". Veja bem, muitos céticos 
começam suas questões sobre a existência de Deus com o problema 
do mal ou pelo menos reservam a maior parte de seu fervor para essa 
discussão. Ao fazerem isso, porém, cavam um abismo mais fundo do 
que aquele do qual estão tentando sair, porque ao levantarem o pro­
blema do mal sem Deus, correm o risco de fracassar. Entretanto, 
muitos começam aqui, mas tomam a direção errada. No decurso des­
ta discussão, destacarei por que não se trata de um ponto de partida 
134 POR QUE JESUS í: DIFERENTE 
saudável em termos lógicos para aquele que busca negar a existência 
de Deus. 
P O S I C I O N A N D O O PROBLEMA 
A cosmovisão cristã sugere que o mal é mais posicionado como um 
mistério do que como um problema. Agora, antes que a oposição se 
levante e clame: "Tolo!" — achando que ao definir como mistério 
estou tentando fugir de uma solução, deixe-me explicar. Chamar de 
mistério não é necessariamente evitar uma resposta. Problemas de­
mandam solução, mas mistérios exigem mais — precisam de uma 
explicação. Quer dizer que haverá necessidade de linhas convergen­
tes de argumentação e não apenas uma resposta seguida de Q.E.D.* 
No entanto, há uma questão muito importante para classificar o 
mal como mistério. Gabriel Mareei define mistério como um pro­
blema que se enrosca em seus próprios dados. Quer dizer que aquele 
que questiona torna-se involuntariamente o objeto da questão. Não 
somos meros observadores da realidade do mal. Estamos envolvidos 
nela além da mera discussão académica. Peter Kreeft, professor de 
filosofia na Universidade de Boston, comenta: "Ir a Marte é um pro­
blema. Apaixonar-se é um mistério".2 O mal, como o amor, não é 
um problema. É um mistério. 
Não podemos abordar o problema do mal sem terminarmos 
como foco do problema. Os céticos calmamente ignoram esta reali­
dade e agem como se fossem expectadores observando um fenóme­
no, quando na realidade fazem parte do fenómeno. Posicionemos o 
desafio do teísmo cristão nas palavras do renomado intelectual David 
Hume e rapidamente veremos como a questão arrasta consigo o 
questionador. Hume disse o seguinte: 
Se um estranho chegasse subitamente a este mundo, eu lhe mos­
traria, como amostras dos seus males, um hospital cheio de enfer­
midades, uma prisão povoada de malfeitores e caloteiros, um 
Q.E.D - Abreviação de quod erat demonstrandum, que significa "que foi prova­
do" ou que algo que se diz é a solução para um problema ou a resposta para 
uma questão. (N. do T.) 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 135 
campo de batalha coberto de cadáveres, uma frota naval singrando 
os oceanos, uma nação sofrendo sob a tirania, a fome ou a peste. 
Para lhe mostrar o lado bom da vida e lhe dar uma noção dos seus 
prazeres, aonde deveria levá-lo? A um estádio, a uma ópera, ou a 
um tribunal? Ele pensaria, corretamente, que eu estaria apenas 
mostrando a diversidade das angústias e das tristezas.3 
Em outro lugar Hume reclama que é impossível limitar um 
mundo assim com um propósito supremo de amor. Provavelmente 
essas palavras foram mais adequadas do que Hume imaginava, pois 
na questão ele vislumbrou uma explicação na própria questão. Sua 
objeção é direta. O problema da dor e do sofrimento é real e sentido 
individualmente. Por isso todos os grupos envolveram-se com Jesus 
nesta questão. 
O problema não somente é real e pode ser sentido, como tam­
bém é universal. Nenhuma religião tenta explicar isso mais do que o 
budismo. Toda a peregrinação de Buda em direção da "iluminação" 
começou por causa de seu interesse no mistério do mal e do sofri­
mento. Foi a universalidade do problema que o lançou em sua busca. 
No entanto, assim como há a realidade e a universalidade do 
problema, há também a sua complexidade. O mal é questionado 
em pelo menos três aspectos: o problema metafísico (qual é a sua 
fonte?), o problema físico (como os desastres naturais se encaixam na 
discussão?) e o problema moral (como pode ser justificado?). 
O terceiro aspecto é o cerne da questão: Como um Deus bom 
permite tanto sofrimento? Imediatamente entramos num sério dile­
ma. Como você responde ao lado intelectual da questão sem perder 
de vista seu lado existencial? Como você responde aos "MarkTriplett" 
deste mundo sem descambar para a filosofia? 
Aqueles que sentem mais a dor da questão, muitas vezes, estre­
mecem ao ver como as respostas filosóficas são teóricas. Não gosta­
mos de trabalhar com o lado intelectual da questão porque não 
percebemos onde a lógica e a filosofia se encaixam no problema da 
dor. Se você acaba de sepultai um filho, testemunhou ou foi vítima 
de brutalidade, esta porção da argumentação trará mais raiva do que 
conforto. Quem deseja a lógica quando o coração está despedaçado? 
136 ''• POR QUE JESUS Ê DIFERENTE 
Quem deseja um tratado filosófico sobre os componentes do osso 
quando sofre de uma fratura exposta? Nesses momentos buscamos 
conforto. Queremos um analgésico. 
No entanto, concentrar-se apenas no resultado sem dar a devida 
atenção ao processo pode atenuar a dor apenas temporariamente, 
deixando a fratura sem tratamento. Em algum lugar e em algum 
momento a lógica deverá entrar em ação. Se a argumentação for 
fundamentada, o conforto virá em seguida. 
Por isso, peço ao leitor: mesmo que esta primeira porção pareça 
enfadonha, por favor, siga em frente, porque é aqui que estudamos 
a questão, antes de elaborarmos uma resposta. Não devemos permi­
tir que a angústia do coração nos faça ignorar o processo mental. A 
explicação deve satisfazer as demandas emocionais e intelectuais da 
questão. Responder às questões da mente e ignorar as emoções con­
turbadas parece crueldade. Curar as feridas emocionais e ignorar a 
luta do intelecto parece insensatez. 
Qual, então, é o ponto de partida? Desde que o cerne do proble­
ma é em primeiro lugar o questionamento moral, como pode haver 
uma justificativa moral para o mal? Uma analogia feita por C. S. 
Lewis pode ajudar. Ele lembra que quando um navio está em alto 
mar, pelo menos três perguntas devem ser respondidas. Pergunta 
número um: Como evitar que o navio afunde? Pergunta número 
dois: Como evitarque bata em outros navios? Estas duas perguntas 
parecem óbvias, mas por trás delas espreita a mais importante de 
todas, a pergunta número três: Para começar, por que o navio está 
lá? A primeira pergunta trata da ética pessoal. A segunda aborda a 
ética social. A terceira se debate com a ética normativa. 
Nossas culturas, quando muito, abordam as duas primeiras per­
guntas. Ignoram a defesa racional do próprio propósito da vida e 
não sabem onde obter direção. Se o indivíduo não sabe qual é o seu 
propósito, qualquer rumo serve. Quando o navio começa a afundar 
ou bater em outros navios, como pode chegar em segurança ao porto 
sem os instrumentos? 
Podemos ter certeza de que nenhum imperativo ético pode ser 
estabelecido e nenhum pronunciamento moral pode ser feito sem 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? (,_..• 137 
primeiro haver o estabelecimento do imperativo da vida e o conheci­
mento de como medir o progresso. Por que eu existo? E neste ponto 
que os céticos ficam à deriva no oceano da vida. Se estivermos aqui 
puramente por acidente e navegamos ao acaso, como se pode deter­
minar se estamos ou não na direção certa? Por que devemos estar em 
certo lugar e não em qualquer outro? 
Agora veremos por que a questão em si derrota os céticos que 
desejam negar que exista de fato qualquer propósito para a vida. 
VIVENDO C O M C O N T R A D I Ç Õ E S 
Deixe-me apresentar duas portas por meio das quais a pessoa que 
levanta a questão da existência de Deus tenta escapar do envolvi­
mento com a incredulidade, assumindo um aspecto de razão. Re­
ceio, porém, que essas portas estejam "trancadas". 
A primeira rota de escape do problema do mal é proposta por 
aqueles que afirmam que Deus não pode existir porque há muito 
mal evidente na vida. Não enxergam nenhuma contradição lógica 
dentro do seu sistema, desde que não têm de provar que o mal 
coexiste com um Criador bom. Afirmam em tom categórico: o mal 
existe; portanto, o Criador não existe. 
Neste ponto, porém, o cristianismo proporciona um contra-ar-
gumento lembranào-lhes que não escaparam do problema da con­
tradição. Se o mal existe, então temos de supor que o bem existe, a 
fim de estabelecermos uma diferença. Se o bem existe, devemos su­
por que existe uma lei moral pela qual medimos o bem e o mal. Mas, 
se existe uma lei moral, não devemos concluir que existe uma fonte 
para ela, ou no mínimo uma base objetiva? Quando me refiro a uma 
base objetiva, quero dizer algo que seja uma verdade transcendente 
em todas as épocas, independentemente se creio ou não. 
Este argumento é forte e deve receber a devida consideração por 
parte daqueles que negam a existência de Deus mas aceitam a pre­
sença do mal. Em oposição à afirmação cristã que Deus é necessário 
para se situar as noções de bem e mal, os céticos respondem com 
uma pergunta: "Por que a evolução não pode explicar nosso senso 
moral? Por que precisamos de Deus?". 
138 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Esta é a mais recente abordagem dos intelectuais ateístas que 
buscam explicar o bem e o mal à parte de Deus. Ao longo dos anos, 
os naturalistas primeiro negaram a causalidade como um argumen­
to para provar a existência de Deus. Por que temos de ter uma cau­
sa? Por que o universo simplesmente não apareceu? Depois negaram 
o desígnio como um argumento para a existência de Deus: Por que 
precisamos de um designer! Por que as coisas não podem simples­
mente ter acontecido, dando a aparência de um desígnio? Agora eles 
negam a moralidade como argumento para a existência de Deus: 
Por que precisamos estabelecer uma lei moral ou uma fonte para 
ela? Por que não podemos viver numa realidade puramente pragmá­
tica? Acho isso fascinante! Eles desejam uma cansa para o sofrimen­
to ou um desígnio para o sofrimento, mas já negaram que tais 
elementos sejam necessários e valham qualquer esforço. 
Esta tentativa de negar Deus por causa da presença do mal é tão 
ilógica que é incrível que alguém possa aceitá-la. Nenhum propo­
nente da ética evolucionária explica como uma primeira causa amoral 
e impessoal tenha produzido, por meio de um processo amoral, uma 
base moral para a vida, enquanto ao mesmo tempo nega qualquer 
base moral objetiva para o bem e o mal. Não parece improvável que 
de todas as permutas e combinações que um universo aleatório pos­
sa dispor, tenhamos terminado com as noções de verdade, de bem e 
de beleza? Na verdade, por que classificar qualquer elemento como 
bem ou mal? Por que não chamar de azul ou amarelo? Assim, clas­
sificaríamos como preferências diferentes. Bertrand Russell tentou 
adotar esta abordagem e pareceu patético. 
A verdade é que não podemos escapar do giro existencial fugin­
do da lei moral. Os valores morais objetivos existem somente se 
Deus existir. Por exemplo, é correto mutilar bebés apenas por diver­
são? Qualquer pessoa racional diria que não. Sabemos que existem 
valores morais objetivos. Portanto, Deus deve existir. O exame des­
sas premissas e sua validade apresenta um argumento muito forte. 
De fato, J. L. Mackie, um dos ateístas mais ferozes que questionam 
a existência de Deus com base na realidade do mal, concordou pelo 
menos com esta conexão lógica quando disse: 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 139 
Podemos bem argumentar... que os aspectos prescritivos intrinse­
camente objetivos, supervenientes aos aspectos naturais, consti­
tuem um grupo tão improvável de qualidades e relações que 
dificilmente surgiram no curso ordinário de eventos, sem um Deus 
todo-poderoso para criá-los.4 
Portanto, temos de concordar com a conclusão de que nada pode 
ser intrinsecamente bom e nem prescrito como tal sem que exista 
também um Deus que formou o universo. No entanto, é exatamente 
este Ser que os céticos querem negar por causa da existência do mal. 
A primeira porta de saída para se fugir de Deus é aberta, e a visão 
é aterradora. Só sobra uma opção, ou seja, tentar alterar a forma da 
porta. Reconhecendo que, se o mal é admitido, então uma lei moral 
objetiva precisa ser invocada, os céticos tentam uma nova jogada. 
Veja esta explicação incrível dada por um defensor do ateísmo, 
Richard Dawkins, de Oxford: 
Num universo de forças físicas cegas e de replicação genética, algu­
mas pessoas vão ser feridas, outras terão sorte e não encontraremos 
nenhuma lógica, razão ou justiça nisso. O universo que observa­
mos tem precisamente as propriedades que deveria ter, se na base 
não houvesse desígnio, propósito, nem bem e nem mal. Nada além 
de uma indiferença triste e cega. O DNA não sabe nem se impor­
ta. O DNA apenas é. E nós dançamos segundo a sua música.5 
Você vê o que aconteceu? Os céticos começaram apresentando 
uma longa lista de coisas horríveis, dizendo: "Essas coisas são imo­
rais; portanto, não existe um Deus". No entanto, levantar esses ele­
mentos como questões morais é supor uma situação que a evolução 
não pode proporcionar. Não há como se chegar a uma questão mo­
ral, dentro das suposições do naturalismo. Então, o que os céticos 
fazem? Negam os valores morais objetivos porque aceitar tal realida­
de seria reconhecer a possibilidade da existência de Deus. Eles con­
cluem então que na verdade não existe algo como o mal. 
Será que esta é uma resposta? Se o DNA não sabe e nem se 
importa, o que então promove o nosso conhecimento e nossa preocu­
pação? Será que somos computadores encarnados e superestimamos 
140 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
nossos sentidos? Se nossos sentimentos não têm nenhum peso na 
realidade dessa questão, então pode ser que a nossa inteligência seja 
artificial, e que a inteligência dos computadores seja genuína, pois 
não têm sentimentos, mas somente informações. Os computadores 
não se "importam", e não se "entristecem" com o mal; portanto, 
estão mais próximos da realidade. 
Será que é a isso que chegamos? Devemos tomar cuidado, pois 
uma vez que empreendemos a descida, não há como parar nessa 
ladeira escorregadia. A negação de uma lei moral objetiva, baseada 
na compulsão denegar a existência de Deus, resulta necessariamen­
te na negação do próprio mal. Será que podemos dizer a uma jovem 
violentada que o estuprador apenas obedeceu a seu DNA? Podemos 
dizer ao pai do jovem Adam Triplett que ele apenas está dançando 
ao som do seu DNA? Dizer às vítimas de Auschwitz que seus algozes 
apenas obedeciam ao DNA, ou dizer aos entes queridos das pessoas 
devoradas por Jeffrey Dahmer que ele apenas obedecia ao seu DNA? 
Vá em frente! 
Isso é repugnante! Não é uma dança! E o pé do escapismo na 
garganta da razão, lutando por racionalidade e ao mesmo tempo 
negando que existem pontos de referência lógicos. Com efeito, en­
quanto busca uma resposta para a questão do mal, o escapista termi­
na negando a questão. De fato, eu fiz um teste com esta história, 
apresentando-a aos estudantes da Universidade de Oxford. Pergun­
tei a um grupo de céticos: se eu pegasse um bebé e o despedaçasse 
diante deles, teria feito algo errado? Eles negavam a existência de 
qualquer valor moral objetivo. Houve silêncio diante da minha per­
gunta; depois uma voz se elevou do grupo, dizendo: "Eu não gosta­
ria de ver tal coisa, mas não poderia dizer que você fez algo errado". 
Uau! Que resposta! Ele não iria gostar. Que irracionalidade — não 
poderia considerar errado. Eu só tive de lhe perguntar o que então 
sobra da pergunta original, se o mal é negado? 
Dawkins poderia tê-lo ajudado mais. Em suas aulas em 1922 para 
a Associação Humanista Britânica, ele fez uma afirmação chocante. 
Tendo menosprezado a noção de Deus em seus numerosos escritos e 
explicado o mal como a dança do DNA, o que fazemos então com o 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? > 141 
senso de moralidade que encontramos na experiência humana? Por 
que ficamos levantando essas questões sobre bem e mal? 
Dawkins tem a resposta. Vírus. O vírus se instala nos dados den­
tro do gene humano e espalha suas informações falsas. Se pudermos 
neutralizar o vírus que nos fez pensar dessa forma, seremos purifica­
dos e livres dessa noção deturpada de Deus, do bem e do mal.6 
Conforme Dawkins, aqueles que fizeram a pergunta a Jesus pre­
cisavam de um antivírus. De fato, o próprio Jesus precisou ser 
reprogramado. Eu diria que aquele que moraliza os motivos do 
Holocausto precisa de uma nova proteção anti-vírus. Dessa forma, a 
questão do mal nem emerge. Poderíamos perguntar a Dawkins se 
somos moralmente obrigados a remover esse vírus. Não esqueçamos 
que ele mesmo, é claro, está livre do vírus e, portanto, pode "carre­
gar" nossos dados morais. 
O problema se enrosca em torno de si mesmo. Numa tentativa de 
escapar do que chamam de contradição entre um Deus bom e um mundo 
mau, os céticos exorcizam a mente das noções ateístas, mas depois suas 
mentes são dominadas e vencidas por uma contradição de sete lados. 
Embora eu tenha citado muitas vezes G. K. Chesterton em sua 
crítica a esse tipo de pensamento, ninguém fala melhor sobre isso; 
por isso, vou citá-lo novamente: 
Toda denúncia implica em algum tipo de doutrina moral, e o cético 
moderno duvida não somente da instituição que denuncia, mas da 
doutrina pela qual ele faz a denúncia. Assim, eie escreve um livro recla­
mando que a opressão imperialista insulta a pureza das mulheres e de­
pois escreve outro livro, uma novela na qual insulta a si próprio. Como 
um político, ele clama que a guerra é um desperdício de vidas e depois, 
como filósofo, clama que a vida é uma perda de tempo. Um pessimista 
russo denuncia um policial por matar um camponês e depois prova 
pelos princípios mais elevados da filosofia que o camponês devia ter se 
matado. Um homem denuncia o casamento como uma mentira e de­
pois denuncia a aristocracia por tratar o casamento como uma mentira. 
O homem desta escola vai primeiro a uma reunião política onde 
reclama que os índios são tratados como animais. A seguir, pega o 
chapéu e o guarda-chuva e vai a uma reunião científica onde prova 
142 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
que os índios praticamente são animais. Resumindo, o revolucio­
nário moderno, sendo um cético infinito, está sempre engajado em 
solapar seu próprio alicerce. Em seu livro sobre política, ele ataca os 
homens por desrespeitarem a moralidade; em seu livro sobre ética, ele 
ataca a moralidade por desrespeirar os homens. Portanto, o homem 
moderno revolrado torna-se praticamente inútil para todos os propó­
sitos da revolta. Rebelando-se contra tudo, ele perde o direito de se 
rebelar contra qualquer coisa.7 
Deixe-me ilustrar o ponto de Chesterton com algo mais atual. 
Por meios patéticos, vimos um exemplo disso quando a América foi 
apanhada nas malhas do escândalo Clinton/Lewinsky. A contradi­
ção moral revelou uma espantosa inclinação cultural. A famosa ob­
servação do presidente, que "tudo depende de qual é a definição 
'daquilo'", fez com que pesquisadores saíssem às ruas com a pergun­
ta do século: "As palavras têm um significado definido, ou podemos 
dar-lhes um sentido à nossa escolha?" (o que pode ser mais estranho 
do que criadores de palavras perguntando se as palavras têm algum 
significado e empregando palavras para fazer a pergunta?). 
Para grande "surpresa" dos pesquisadores, a maioria das pessoas 
pareceu concordar que às vezes as palavras significam coisas diferen­
tes para pessoas diferentes, supondo, é claro, que não havia equívoco 
no significado da pergunta e da resposta. 
Isso levou à próxima pergunta: "A moralidade é algo absoluto 
ou uma questão subjetiva?" A resposta surpreendente foi que 
moralidade é uma questão privativa. 
Essas duas perguntas tornaram-se o foco principal nos noti­
ciários. Primeiro, as palavras têm um significado pessoal. Segundo, a 
moralidade é uma questão privativa. Ironicamenre, o terceiro item 
nos noticiários foi que os Estados Unidos tinham lançado uma seve­
ra advertência a Saddam Hussein: se ele não parasse de fazer jogos de 
palavras com a equipe de inspeção nuclear, os americanos começa­
riam a bombardear o Iraque. 
Subitamente, as palavras passaram a ser consideradas importan­
tes. Os americanos não podiam permitir que Saddam Hussein dan­
çasse ao som do seu DNA. Não podiam permitir que ele escrevesse 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 143 
seu próprio dicionário. Não podiam permitir que ele vivesse segundo 
sua própria ética, mas eles podiam permitir que seus cidadãos de­
terminassem o sentido das palavras que usavam e insistissem que a 
moralidade que praticavam não era da conta de mais ninguém. 
Este é precisamente o mundo ao qual Dawkins e aqueles que 
adotam filosofia similar são impelidos (pela lógica). Trata-se de um 
mundo de agudas contradições. Se a moralidade não é nada mais do 
que uma escalada evolucionária, não há como avaliar se chegamos 
ou não ao topo. Eles mesmos admitem que não há como prever a 
ordem dos átomos. No final, tal filosofia do mal torna impossível a 
vida em comunidade. Dawkins não pode explicar o mal negando a 
lei moral objetiva, e não pode negar o mal sem perder seus argu­
mentos quanto à existência de Deus. Para os céticos, esta porta está 
"trancada", mesmo quando o seu navio afunda. 
P E D I N D O A DEUS PARA SER C O N T R A D I T Ó R I O 
A princípio, a segunda porta parece ser uma boa saída. Os céticos 
perguntam por que Deus não poderia nos fazer sempre escolher o bem. 
Os filósofos de renome levantam esta questão como o ponto crucial de 
suas objeções ao cristianismo. Mas aqui também a objeção viola a razão. 
Alvin Plantinga, da Universidade de Notre Dame, considerado por 
muitos como o mais respeitado filósofo protestante de nossa época, apre­
senta um argumento forte e convincente contra esta objeção dos céticos. 
Ele argumenta que esta opção traz uma falsa visão do que significa a 
onipotência divina. Temos de reconhecer que Deus não pode fazer aqui­
lo que é mutuamente exclusivo e impossível dentro da lógica. Deus não 
pode fazer círculos quadrados. Os termos são mutuamente exclusivos. 
Plantinga tem razão. Eu devo acrescentar que se Deus pode fazerqualquer coisa, mesmo aquilo que é mutuamente exclusivo, então 
ele pode contradizer seu próprio caráter, o que, por implicação, resolve­
ria o problema do mal, o qual não precisaria de apologia. A própria 
razão para levantarmos a questão é que buscamos coerência. Num 
mundo onde o amor é a ética suprema, a liberdade deve ser a base. 
Um amor programado ou compelido não é amor; seria apenas uma 
resposta condicionada ou uma expressão de autogratificação. 
144 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Novamente, mesmo os pensadores hostis ao cristianismo inad­
vertidamente proferem verdades que concordam com o pensamento 
cristão. Por exemplo, Jean Paul Sartre, em sua obra Being and 
Nothingness, diz: 
O homem que deseja ser amado não deseja a escravidão daquela 
pessoa a quem ele ama. Ele não determina se tornar o objeto da 
paixão, a qual flui mecanicamente. Ele não deseja possuir um 
autómato, e se desejarmos humilhá-lo, só precisamos tentar per­
suadi-lo que a paixão da pessoa amada é o resultado de um 
determinismo psicológico. Aquele que ama sentirá então que seu 
amor e seu ser foram desvalorizados... Se a pessoa amada é 
transformada num autómato, aquele que ama sente-se sozinho.8 
Que profundo! O amor compelido é o precursor da solidão. Ter 
a liberdade de amar quando pode escolher não amar é dar ao amor 
seu significado legítimo. Por isso eu disse anteriormente que David 
Hume tinha mais a dizer sobre o problema da dor do que imagina­
va. Não seria o propósito supremo do amor a única forma de 
equacionarmos o problema da dor? Pedir que nos seja negada a li­
berdade e que tenhamos de fazer somente o bem não é pedir amor, 
mas sim compulsão e algo que vai além da condição humana. 
As duas portas de escape dos céticos estão bem trancadas. Não 
podemos situar o mal sem uma lei moral transcendente, o que a 
macroevolução não pode sustentar. Não podemos alcançar a ética 
mais elevada sem a possibilidade de liberdade. A primeira nos con­
duziria a uma vida de contradições. A segunda exige que Deus se 
contradiga. 
Resumindo, para os naturalistas, o homem cego de nascença 
estava dançando ao som do DNA. Assim como a questão por trás da 
questão, os naturalistas não só fracassam em responder-lhe, mas tam­
bém fracassam em justificá-la. 
Como outras religiões responderiam à pergunta dos discípulos, e 
à questão por trás da questão? 
Como já afirmei, as religiões panteístas tentam dar respostas ex­
tensas, e muitas vezes elas são terrivelmente confusas. A dificuldade 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? ; 145 
no hinduísmo é que não há uma resposta monolítica para o proble­
ma do sofrimento. Declarando que tudo no mundo físico é irreal, 
ilusório, mutável, transitório, acaba criando enormes problemas 
filosóficos. Além do mais, é claro que alguém perguntará: "O que 
ocasionou esta 'ilusão' do mal, desde que tudo faz parte da realidade 
divina?". Os hindus não conseguem responder. 
Há uma passagem clássica no Bhagavad-Gita na qual Krishna 
aconselha o jovem Arjuna, que se encontra no campo de batalha, a 
encarar a possibilidade de matar seus meio-irmãos. Ele se debate e 
não consegue fazer tal coisa. Krishna, que se apresenta como o con­
dutor da carruagem de Arjuna, conversa com ele sobre sua obriga­
ção: cumprir a responsabilidade de sua casta como guerreiro. E assim 
que a vida se move. Krishna diz a Arjuna para não temer sua obriga­
ção, pois todo o bem e todo o mal se fundem em uma única realida­
de suprema, Brahman. Ali, segundo Krishna, a distinção se dissipa. 
Aquilo que parece mal é apenas a realidade inferior. No final, toda a 
vida, todo bem, todo mal fluem de Deus e voltam para ele. "Vá para 
a guerra e faça seu trabalho". Esta convergência de tudo numa reali­
dade absoluta forma o eixo da resposta à questão por trás da questão. 
Pode-se ver como o senso de fatalismo domina quando toda a reali­
dade é revelada, de forma inexorável e inevitável. 
Há uma história engraçada relacionada ao principal filósofo in­
diano, Shankara. Ele tinha acabado de dar uma aula ao rei sobre o 
engano da mente e sua distorção da realidade material. No dia se­
guinte, o rei soltou um elefante que estava fora de controle; Shankara 
correu e buscou segurança em cima de uma árvore. O rei lhe pergun­
tou por que ele fugira se o elefante não era real. Para não cair em 
contradição, o filósofo respondeu: "O que o rei viu na verdade foi 
um 'eu' irreal subindo numa árvore irreal!" Poderíamos acrescentar: 
"Trata-se de uma resposta irreal". 
Embora seja apenas uma fábula, o hinduísmo clássico não tem 
uma forma de abordar o problema do mal. Negar que o mal seja real 
não diminui a impiedade nem aplaca o desejo do coração de buscar 
a pureza. Grande parte da adoração hindu é voltada para os rituais 
de purificação. Por essa razão todo o hinduísmo popular está repleto 
146 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
de formas de adoração, medo de punição, meios de se obter o favor 
de Deus, etc. 
No entanto, por que esses anseios são vistos como reais? De fato, 
uma das fortes críticas do hinduísmo ao cristianismo e a razão para 
se recusar sua validade é a referência hindu aos dias do British Raj 
[período de domínio britânico na índia] e os danos da exploração 
dos subjugados. Não podemos adotar os dois caminhos; o mal não 
pode ser ilusório e concreto. 
O hinduísmo explica esta percepção do mal como induzido pela 
ignorância. Isso, porém, só empurra a questão um passo adiante. Se 
tudo é um, e a pluralidade é uma ilusão gerada pela ignorância, 
então quem mais, além dessa unidade, pode ser a fonte da ignorân­
cia? E se o um é a fonte da ignorância, então o absoluto impessoal 
no um é um absoluto que carece de verdadeiro conhecimento. Aqui, 
porém, encaramos a verdadeira resposta hindu à questão do cego de 
nascença. 
A reencarnação é um aspecto central da filosofia hindu. De fato, 
alguns pensadores orientais citam a passagem do cego como prova 
de que a Bíblia ensina a reencarnação. Como mais o homem pode­
ria ter pecado antes de nascer? Vamos deixar claro que se trata de 
uma interpretação errónea da passagem e uma atitude de evitar en­
carar o que exatamente a doutrina da reencarnação defende. 
Primeiro, esta passagem dificilmente "ensina" sobre reencarna­
ção. Trata-se apenas de uma pergunta feita a Jesus. O ensino bíblico 
é que "aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, 
depois disso, o juízo" (Hb 9:27, ênfase acrescentada). Na verdade, 
no mesmo contexto Jesus afirmou que não houve conexão direta 
entre qualquer ato prévio e a condição do homem e que a oportuni­
dade para se escolher crer na mensagem divina é breve, depois da 
qual não há apelação. Por contraste e por definição, a reencarnação 
é um ciclo recorrente de causa e efeito, repetido até que todas as 
infrações sejam pagas e se alcance o absoluto. Jesus negou claramente 
esta possibilidade. "A noite vem, quando ninguém pode trabalhar", 
ele disse. A oportunidade termina. 
DEUS Í. A FONTE DO MEU SOFRIMENTO; . 147 
Em vez de ouvir meus pensamentos sobre o que significa a reen­
carnação, ouça as palavras dos Upanixades sobre este assunto: 
Aqueles que têm uma conduta agradável aqui — a perspectiva, de 
fato, é que entrem num útero agradável, seja o útero de um 
brâmane [a classe sacerdotal], ou o útero de um xátria [a classe 
guerreira ou real], ou o útero de um vaixá [a classe operária ou 
profissional]. Mas aqueles que têm uma conduta deplorável aqui 
— a perspectiva é, de fato, que entrarão num útero deplorável de 
um cão, ou o útero de um suíno, ou o útero de um marginal 
(Chandogya Upanishad, 5.10.8). 
Há outras passagens descritivas que dão mais detalhes e ideias 
que não podem ser lidas com indiferença. Neste ponto o hinduísmo 
inclui um senso de erro, o qual é levado à próxima vida, em forma 
humana, animal ou vegetal. Na doutrina hindu, esta doutrina não é 
negociável. Há passagens nos Upanixades que são bem chocantes. 
O budismo também invoca a doutrina do carma e da reencarna­
ção. As linhas de abertura dos seusescritos dizem que todo indiví­
duo é a soma total de tudo o que pensou na vida passada. Uma das 
coleções de discursos de Buda é chamada de Anguttara Nikaya. 
Eis aqui algumas das suas reflexões: 
Minha kamma [ações presentes e passadas] é minha propriedade 
pessoal, kamma é minha única herança, kamma é a única causa do 
meu ser, kamma é minha única família, minha única proteção. 
Sejam quais forem as minhas ações, boas ou más, eu me tornarei 
herdeiro delas.9 
Note que a linguagem páli, empregada nos escritos do budismo, 
tem um som diferente para algumas palavras que se tornaram co­
muns no Ocidente. Kamma, por exemplo, tem o mesmo significado 
que carma. 
Assim, também para o budismo, a resposta para a pergunta dos 
discípulos sobre a condição do cego — "Quem pecou, ele ou seus 
pais?" — seria: "Este homem e seus pais pecaram". O sofrimento do 
cego é uma herança dos seus pecados em sua vida passada e os pais 
também têm parte na herança dessa situação. 
148 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Entretanto, há uma diferença. O hinduísmo argumenta dizendo 
que por trás do mundo transitório ou irreal reside o real supremo. O 
budismo inverte esta afirmação dizendo que por trás do mundo real 
reside aquilo que não é permanente. Assim, a razão para todos os nos­
sos anseios é que, por acharmos que existe uma permanência, então 
temos anseios. Uma vez que sabemos que nada é permanente, nem 
mesmo o ser, então deixamos de ter expectativas. No estado de "Ilu­
minação", o ser é extinto, e todos os desejos (bem como o sofrimen­
to) se desvanecem. Este é o objetivo do budismo. 
Como podemos acabar com o sofrimento? De acordo com o 
ensino budista, se conseguirmos obliterar os desejos, obliterare­
mos também o mal. De fato, a própria palavra nirvana significa a 
negação da selva de desejos à qual os nossos renascimentos nos con­
denaram. 
E difícil deixar de perguntar: como uma cosmovisão que con­
sidera tudo provisório pode explicar a origem da falta da transito­
riedade e a sedução da mente de enxergar essas coisas como 
permanentes? O que é, então, o ser, se ele nem mesmo existe, exceto 
como uma ilusão? A resposta de Buda é que ele mesmo viveu sob a 
ilusão da permanência até que por meio de múltiplas reencarnações 
descobriu a transitoriedade da realidade. Depois ele anunciou que 
esta seria sua última existência, desde que obtivera a completa falta 
de desejos. E claro que naquela última encarnação ele corrigiu seus 
discípulos das opiniões erróneas. Ele questionou vários ensinamen­
tos hindus. 
Acima de tudo, porém, o budismo encara um problema de pro­
porções gigantescas. Se a vida é cíclica e não há início das encarnações, 
por que há um final? Como alguém tem um regresso infinito de 
causas, se há uma encarnação final? 
O filósofo William Lane Craig lembra que um regresso infinito 
de causas é como tentar sair de um buraco sem fundo. Como se 
pode começar a sair, se jamais chegamos ao fundo? Por outro lado, 
podemos bem perguntar: se todo nascimento é um renascimento, 
que carma o indivíduo recebe no primeiro nascimento? Também se 
pode perguntar: se a falta de desejos é o nirvana supremo, então é 
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Realce
l145
Realce
D E U S É A F O N T E DO MEU' S O F R I M E N T O ? '.. 149 
certo afirmar que neste estado não há nem mesmo o desejo de ver o 
mal ser extirpado? 
O aspecto mais incrível desse ensino é que quanto mais dolorosa 
é a existência, maior é a certeza de que a vida anterior está pagando 
suas contas. Assim, quando alguém encara uma criança deformada 
de nascença, o kamma entra em operação. Podemos não admitir, 
mas esta é a realidade existencial do ensino. 
Alguns anos atrás, soube de um grupo de missionários que mor­
reram (junto com suas famílias) num acidente de ônibus num país 
budista. Em poucos minutos, os moradores locais saquearam os 
destroços do ônibus e os cadáveres das vítimas. A razão alegada foi 
que as pessoas que morreram estavam recebendo seu kamma e não 
era errado despojar alguém que está pagando seus débitos. 
Se toda a vida é um pagamento por uma vida anterior, podemos 
nos perguntar por que Buda relutou tanto em permitir o ingresso de 
mulheres na ordem sagrada e decretou mais regras para governar o 
comportamento delas. De fato, as mulheres mais antigas na ordem 
tinham de reverenciar os homens iniciantes. Se o kamma está em opera­
ção, por que o acréscimo de regras, supondo-se que há uma ordem 
mais elevada imposta sobre algumas pessoas? A menos, é claro, que 
em virtude do seu sexo, a mulher tivesse herdado um kamma maior. 
O que fica evidente é que o navio panteísta se despedaça contra 
os recifes do mal. Não se pode afirmar a ausência de um ser indivi­
dualizando o nirvana, e não se pode falar sobre a cessação do sofri­
mento sem também dar a origem do primeiro pensamento errado. 
O budismo possui um intrincado conjunto de normas e regulamen­
tos porque precisa disso. Como um caminho desprovido de uma 
divindade, trata-se de estrada pavimentada com o kamma. Reco­
nhece o mal e depois, de forma fatalista, fecha os olhos e busca um 
escape. 
Num agudo contraste, a mensagem cristã reconhece o horror do 
mal e busca oferecer uma razão moralmente justificável para que 
Deus permita o sofrimento. Voltemo-nos para a resposta cristã, para 
que possamos ver a diferença. 
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150 POR QUE JESUS f. DIFERENTE 
O D O A D O R DA VIDA 
Quando tudo o que a Bíblia diz é colocado junto, há seis elementos 
que se combinam para dar uma explicação coerente e única. Não se 
busca nenhum escape, seja por meio da negação da questão ou das 
implicações da resposta. 
Primeiro, o Deus da Bíblia se revela como o Autor da vida e 
como o Ser no qual habita toda a bondade. A distância entre céticos 
e cristãos é grande desde o início. Deus não é apenas bom. Quer 
dizer que no que se refere a ele, estamos lidando com mais do que 
assuntos morais de certo e errado, prazer ou dor. Estamos tratando 
com uma fonte transcendente de bondade que é adotada não por ser 
"melhor" numa hierarquia de opções, mas porque é apropria base sobre 
a qual todas as diferenças são estabelecidas. Para nós, as categorias 
morais com frequência se movem em comparações e hierarquias. 
Falamos que uma coisa é melhor do que outra em termos de julga­
mento ou sentimento. Nossa cultura é mais avançada moralmente 
do que outras (pelo menos é o que pensamos). A existência de Deus 
muda essas categorias variadas e nos move não para categorias com­
parativas, mas para a apresentação da própria essência do funda­
mento da palavra bondade. 
Deus é santo. Esta diferença é o argumento quase impossível de 
ser abraçado pelos céticos. Santidade não é apenas bondade. "Por 
que Deus não nos criou para escolhermos apenas o bem? Por que 
coisas ruins acontecem com pessoas boas?" A realidade é que o oposto 
do mal, em grau, pode ser a bondade. No entanto, o oposto do mal 
absoluto, em espécie, é a santidade absoluta. No contexto bíblico, a 
ideia de santidade é a tremenda "singularidade" do próprio Deus. 
Ele não se limita a se revelar como bom; ele se revela como santo. 
Na peça O fantasma da ópera, há uma canção intitulada "A mú­
sica da noite". Ela é cantada pela figura meio sinistra do Fantasma, 
que seduz a mulher que ama. Ele a enfeitiça com sua voz e a atrai 
para o seu mundo, dizendo que a escuridão da noite aguça as sensa­
ções e ativa a imaginação. Ele suplica para que ela abandone suas 
defesas e se entregue aos sentidos, mesmo quando a noite obscurece 
os olhos da verdade. 
Dli lJS li A FONTE DO MEU SOFRIMENTO? 151 
Então a música diz: "Cubra seu rosto da luz ofuscante do dia", 
porque, na escuridão, o indivíduo pode submeter os "deveres" da 
consciência ao deleite das paixões. A melodia é assustadora, as pala­
vras são cheias de sedução e a vontade é dobrada. Para tal linha de 
raciocínio, a luz é ofuscante porque expõe a impiedade que fica enco­
berta nas trevas. 
A santidade de Deus é como luz num mundo escuro. Assim 
como a chegada do alvorecerexpõe os pensamentos e obras da noite 
anterior e muitas vezes cria um sentimento mórbido de culpa, a 
santidade revela o que a luz é em si — a fonte para se descobrir e 
libertar aquilo que tem estado preso pela mentira. O profeta Isaías 
do Antigo Testamento descreveu seu estado de assombro quando 
Deus se revelou a ele. Sendo um homem moralmente bom, mesmo 
assim caiu por terra e imediatamente sentiu que não era digno de 
estar na presença de Deus. Não estava apenas na presença de alguém 
melhor do que ele. Estava na presença Daquele por quem e por cuja 
causa toda a pureza encontra seu ponto de referência. Por isso ele 
ficou sem fala. 
Neste ponto, islamismo e cristianismo encontram uma perspec­
tiva parcialmente comum. Deus é transcendente não somente em 
seu ser, mas também na sua natureza. 
A santidade de Deus, por sua vez, transmite uma santidade in­
trínseca à nossa vida. Nós somos descendência de Deus. Não é uma 
condição sagrada conferida culturalmente ou determinada juridica­
mente. Toda pessoa tem valor intrínseco. Este valor é seu por direito 
de nascimento, com Deus como seu Pai celestial. Não foi este reco­
nhecimento que ocasionou a questão, em primeiro lugar? Se meu 
nascimento é sagrado, então que erro deve ser punido com cegueira? 
A F O N T E DA HISTÓRIA 
Segundo, uma dedução flui dessa autoria. Se Deus é o Autor da 
vida, deve haver um script. Nós não somos, nos termos de Jean Paul 
Sartre, bolhas vazias flutuando no mar do nada. Não estamos num 
cruzeiro sem propósito, sem destino e sem direção. 
152 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Não quer dizer que o mundo é um palco, e nós temos de escolher 
e desempenhar roteiros diferentes. As linhas que temos nos dizem 
que não se trata de uma peça de teatro, mas da vida real que dirige a 
história em cada ato e pensamento. Os desempenhos individuais 
devem obter sua direção a partir da história mais ampla do propósito 
de Deus para nossas vidas. 
Todos conheciam a história: o homem cego, os discípulos e os 
vizinhos. No princípio, Deus criou o céu e a terra. Deus era sobera­
no sobre toda a vida. Como aquele homem cego se encaixava na 
história? O particular estava buscando uma explicação no contexto 
maior. Se o plano maior fosse plenamente compreendido, a história 
menor faria sentido. 
Há uma forma bem simples de ilustrar este ponto. Anterior­
mente citei uma canção da peça O fantasma da ópera de Andrew 
Lloyd Webber, um dos musicais de maior sucesso na Broadway. A 
música é excelente, e a história é muito interessante. Lembro-me de 
que, quando ouvi as músicas da peça pela primeira vez no rádio, 
fiquei surpreso ao sentir que algumas partes pareciam desconexas, às 
vezes até desagradáveis. Como o mesmo compositor podia criar algo 
deleitoso e incómodo? Eu não consegui unir as duas ideias até que 
assisti à peça. Então, tudo se encaixou - o magnífico e o patético, a 
harmonia e a dissonância, o hediondo e o belo. Por que? Porque 
havia um roteiro que explicava tudo. 
Quando abordamos a história dos planos e propósitos de Deus 
nascidos a partir de seu caráter puro e santo, o bem e o mal falam 
dentro do seu contexto. Sem Deus, não há história, e nada faz 
sentido. 
Certa vez tive o privilégio de assistir a uma palestra de Stephen 
Hawking na Universidade Cambridge. Seu objetivo era discutir so­
bre a questão: "O homem é determinado ou livre?". Hawking apre­
sentou seus argumentos meticulosamente e depois chegou à tão 
esperada conclusão: "O homem é determinado? Sim. Entretanto, 
desde que não sabemos o que foi determinado, podemos também 
não ser". (Não pude deixar de me perguntar se ele mesmo tinha se 
elevado acima do determinismo a fim de fazer tal pronunciamento, 
DEUS É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? •:. ;• 153 
ou o pronunciamento era parte do determinismo que ele defendia. 
Será que os dados estavam enrolados em torno de si mesmos?) 
Houve um murmúrio na audiência, um sinal visível do desa­
pontamento geral. Veja, não há como entender desígnio sem um 
padrão. Não há uma forma correta de se viver se não houver um 
roteiro. De fato, nós não somente perdemos a história de vista, mas 
perdemos também toda referência comum para o significado. 
Durante a I Guerra Mundial, algo fascinante ocorreu numa noi­
te de Natal. No meio do incómodo silêncio das armas, subitamente 
uma voz solitária começou a cantar uma música natalina. Logo ou­
tra voz não resistiu e se uniu à primeira, e, antes que alguém se desse 
conta, havia um coro de vozes falando sobre Belém, de ambos os 
lados, quando os inimigos se uniram para ler o mesmo script. A 
história do bebe na manjedoura, o Príncipe da Paz, foi capaz de 
trazer comunhão entre partidos em guerra, mesmo que por algumas 
horas. E assim que um compositor conta a história. Infelizmente, só 
posso citar aqui algumas estrofes: 
Oh!, meu nome é FrancisTolliver, 
Sou de Liverpool. 
Dois anos atrás a guerra 
Estava me esperando, 
Quando saí da escola. 
Da Bélgica para Flandres, 
Da Alemanha até aqui, 
Lutei pelo rei e pelo país 
Que tanto amo. 
Era Natal nas trincheiras, 
O frio era amargo e cortante 
Os campos gelados da França 
Estavam quietos. 
Não se ouvia nenhum som de paz. 
Nossas famílias na Inglaterra 
Estavam pensando em nós, 
Seus bravos filhos tão distantes. 
154 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Eu estava deitado com meus companheiros, 
No chão duro e gelado, 
Quando um som peculiar 
Foi ouvido através das linhas inimigas. 
Eu disse: "Ouçam isso, rapazes", 
Todos os soldados prestaram atenção, 
Enquanto uma voz jovem cantava em alemão. 
"Ele canta bem", 
meu companheiro disse. 
Logo, uma a uma, outras vozes alemãs 
Entraram na harmonia. 
Os canhões permaneceram em silêncio 
E, as nuvens de gás não se elevaram 
Quando o Natal nos trouxe uma trégua na guerra. 
Assim que terminaram 
E uma pausa reverente se fez, 
"Glória a Deus nas alturas", 
Entoaram umas vozes de Kent. 
A próxima que cantaram foi 
"Stille Nacht", "Noite Silenciosa", 
E, em duas línguas, uma canção 
Subiu até os céus.10 
Veja como duas linguagens podem proclamar o mesmo signifi­
cado quando ambas conhecem a mensagem. Se a simples noção da 
presença de Deus pôde parar a violência naquek noite, que impacto 
maior não teria a submissão a todo o seu scriptí A bondade pode 
durar alguns momentos; a santidade define toda a vida. 
Deus tem um roteiro. Ele fala sobre isso em sua Escritura. A desco­
berta do roteiro nos leva para mais perto da solução do mistério. 
O P O N T O DA HISTÓRIA 
Terceiro, se há uma história, qual é o seu âmago? Deus não somente 
é santo, como também revela a nós a natureza sagrada do amor, ao 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 155 
qual ele nos atrai. Este caráter sagrado do seu amor deve originar 
todos os outros amores. 
O aspecto importante desse fluxo lógico é a santidade intrínseca 
que proporciona a razão e os parâmetros do amor. A incapacidade 
de entender o mistério do mal leva à incapacidade de entender a 
santidade do amor. Creio que, na busca de significado, nossa cultura 
comete um erro fatal: a ilusão de que o amor desprovido de santida­
de, um amor desnudo, é tudo o que precisamos para passar pelos 
testes e paixões da vida. 
Tal amor não pode nos sustentar. Milhões de vidas são 
machucadas diariamente em nome do amor. Milhões de traições 
são praticadas a cada dia por causa do amor. O amor pode fazer o 
mundo girar, mas não mantém a vida no rumo certo. De fato, o amor 
em si tornará o mal ainda mais doloroso. O amor só pode ser o que 
foi destinado a ser quando primeiro é vinculado ao sagrado. Santida­
de significa separação. Santidade atrai não somente o amor, mas vai 
incrementando até que chega ao clímax — a adoração. 
O que tudo isso tem a ver com o sofrimento? Tudo. Veja, quan­
do os céticos perguntam por que Deus não nos formou de modo a 
escolhermos somente o bem, perdem completa e drasticamente de 
vista o que significa bondade aos olhos de Deus. Bondade não é um 
efeito. Se um efeito fosse tudo oque importasse, certamente Deus 
nos faria dessa forma. Em termos de lógica, não há nada contraditó­
rio em nos criar como autómatos. No entanto, se a vida emana da 
santidade, nem a bondade nem o amor são os alvos supremos. O alvo 
é a reverência, a qual deve ser escolhida, mesmo quando é difícil e 
custa caro. Este tipo de amor é uma escolha de deixar a santidade da 
vida ditar o comprometimento da vontade. Esse tipo de amor reve­
rente pode olhar acima do sofrimento e ver além da limitação do 
tempo e através da vitória da eternidade. 
O Dr. J. Robertson McQuilkin foi presidente da Universidade e 
Escola Bíblica Columbia. E uma das pessoas mais notáveis de nossa 
época, solicitado para conferências, e escritor reconhecido. No entan­
to, nenhum desses atributos excede seu amor exemplar e tocante por 
sua esposa enferma Muriel. Há vinte anos ela vivia no mundo triste e 
156 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
solitário do mal de Alzheimer. O Dr. McQuilkin desistiu da presidên­
cia e de muitas outras responsabilidades para cuidar dela e amá-la. Ele 
registrou sua jornada emocional em um dos livros mais magníficos que 
já foram escritos. Num ponto da narrativa, ele conta este incidente: 
Nosso vôo atrasou em Atlanta e tivemos de aguardar algumas 
horas. A cada minuto eu ouvia as mesmas perguntas, e dava as 
mesmas respostas sobre o que estávamos fazendo ali e quando 
iríamos para casa. E a cada minuto caminhávamos apressados 
até o terminal de embarque, numa busca frenética... o que está­
vamos procurando? Muriel sempre andou depressa. Eu tinha de 
correr para acompanhá-la. 
Uma mulher atraente estava sentada perto de nós, trabalhan­
do diligentemente num computador. Uma vez, quando voltamos 
ao terminal, ela disse algo, sem tirar os olhos do seu trabalho. 
Desde que ninguém nos repreendeu e nem protestou pelas nos­
sas idas constantes ao mesmo local, eu disse: —Não entendi o 
que você falou. 
—Nada, estava apenas dizendo a mim mesma se algum dia 
encontrarei um homem que me ame desta forma!11 
Eis aí um grande testemunho de um grande amor e de uma 
grande fome. Será que qualquer um de nós encontrará um amor 
abnegado como este? Todos nós reconhecemos um amor sagrado 
quando vemos um e almejamos por ele. O amor sagrado não é des­
provido de limites. Há linhas que o compromisso não deve atraves­
sar, porque, quando são cruzadas, deixa de ser amor. 
É interessante que antigamente, nas cerimonias de casamento 
realizadas na Igreja Anglicana, cada nubente postado diante do altar 
jurava ao outro: "Com meu corpo, eu te adorarei". Era um jura­
mento notável. Significava que havia uma exclusividade e reverência 
expressa fisicamente e que atribuía uma linguagem ao amor. Se não 
entendermos esse tipo de amor, jamais entenderemos por que ele 
não pode ser programado. Por causa disso, jamais apreenderemos a 
verdadeira natureza do mal. Esse amor flui da adoração. Por isso 
Deus não nos obriga a escolher o bem. Não somos chamados à bon-
D E U S F, A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ! . 157 
dade, mas sim à adoração. Jesus não disse apenas: "Amarás ao Senhor 
teu Deus". Ele descreveu isso como uma postura que incorpora mente, 
coração e alma. Quando esse tipo de amor é expresso a Deus, todos 
os outros afetos encontram sua expressão. 
Robertson McQuilkin terminou seu livro com estas palavras: 
Mesmo assim, em seu mundo silencioso Muriel é tão contente, 
tão amável que às vezes eu oro: "Por favor, Senhor, permite que 
eu cuide dela um pouco mais de tempo". Se Jesus a levasse para 
a glória, eu sentiria profundamente a falta de sua doce presença. 
Sim, há momentos em que fico irritado, mas são raros. Não faz 
sentido. Além do mais, gosto de cuidar dela. Ela é meu tesouro.12 
O livro é intitulado A Promise Kept. Veja, há um script, e somente 
quando este script está arraigado no coração a vida pode ser realmente 
vivida. 
Douglas Coupland faz uma sóbria reflexão de uma geração, ele 
mesmo incluso, que vagou pelo deserto da vida sem Deus. Ele corta 
através da aparência e do verniz da liberdade absoluta e no final do 
seu livro apresenta um pós-escrito surpreendente: 
Agora, eis aqui o meu segredo: digo a vocês com o coração aberto 
de uma forma que duvido se conseguirei alcançar novamente; as­
sim, oro para que você esteja lendo estas palavras numa sala quie­
ta. Meu segredo é que preciso de Deus, estou doente e não posso 
mais suportar sozinho. Preciso da ajuda de Deus, porque não me 
sinto mais capaz de dar; ele precisa me ajudar a ser bondoso, por­
que não me sinto mais capaz de ter bondade; ajude-me a amar, 
porque parece que esta capacidade está fora do meu alcance.13 
Somente quando a santidade e a adoração se encontram, o mal 
pode ser conquistado. Para isso, só a mensagem cristã tem a resposta. 
A PEÇA CENTRAL DA HISTÓRIA 
Tudo isso nos leva ao quarto passo. Como é possível que o sagrado 
reconheça a realidade do mal e ainda seja capaz de oferecer uma 
explicação moralmente justificável? 
158 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
A mensagem cristã apresenta um caminho que para todos os efei­
tos tem sido uma expressão singular em face do mal. Jesus descreveu 
sua jornada até a cruz como o propósito para o qual veio. A forma da 
sua morte traz uma mensagem de força dobrada. Demonstra o poder 
destrutivo do mal, o qual é a causa do sofrimento e, neste exemplo 
particular, a habilidade de suportar o sofrimento, mesmo quando ele 
é imerecido. 
O sofrimento e a dor não pouparam o próprio Filho de Deus. 
As mesmas pessoas que cantaram canções festivas no dia do seu nas­
cimento estavam olhando para ele na cruz. Para Maria, sua mãe, foi 
um momento profundamente traumático. Aquele que foi concebi­
do por Deus agora estava à mercê dos homens. No entanto, descon­
fio que ela sabia em seu coração que algo ainda não fora completado 
no scrípt. 
Olhando para a cruz, o mal se torna um espelho da realidade 
assustadora. No entanto, olhando com atenção na cruz, descobri­
mos que não é opaca, mas translúcida e através dela podemos vis­
lumbrar o verdadeiro mal. O sofrimento de Jesus é um estudo da 
anatomia da dor. Em seu âmago, o mal é um desafio de proporções 
morais contra um Deus santo. Não é meramente uma luta contra o 
desconforto. Neste ponto emergem duas verdades surpreendentes. 
Lembre-se que, quando começamos esta discussão, eu mencionei 
que todos os exponentes parecem começar com uma longa lista de 
tragédias e atrocidades terríveis. Aqui está a primeira implicação. 
Quanto mais intenso é o dilema moral, menos os céticos são capazes 
de justificá-lo como mal. Plantinga destaca isso para nós: 
O que causa surpresa e espanto genuíno não é o sofrimento, mas 
sim a impiedade humana. Mas, será que existiria impiedade tão 
horrível se os naturalistas estivessem corretos? Não vejo como. Só 
pode existir tal coisa se houver uma forma de vida para as criaturas 
racionais, a qual sejam obrigadas a viver, e a força da norma seja 
tamanha que a natureza horrível da impiedade genuína seja o seu 
inverso. Talvez o naturalismo possa lidar com a insensatez e a 
irracionalidade, agindo contra seu próprio interesse. Não pode­
mos acomodar a impiedade aterradora.14 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 159 
Quanto mais triste é a realidade que enfrentamos, mais óbvio é o 
padrão de medida. Embora os pensadores seculares insistam em es­
conder esta verdade, não podemos explicar a impiedade aterradora 
sem olhar através dela para o que é a realidade. 
Alguns anos atrás, um grupo de Rap gravou uma canção que 
imediatamente se tornou um grande sucesso. Se eu citasse aqui a 
letra da canção, a reação do leitor seria de choque, revolta e horror. 
Canções com letras que falam de crueldade desumana, sadismo e a 
celebração da violência levaram a vulgaridade a um abismo mais 
profundo de depravação. Mesmo assim, poucos dias depois de lançada, 
a música já estava sendo comprada por milhões de fãs ávidos. 
Como responder a isso? Ou melhor, como explicar tal coisa? 
Não foi ao observar o deleitesádico da audiência num cinema, vi­
brando com a crueldade mostrada na tela, que o poeta William Auden 
começou sua busca por Deus? O mal sem retoques levou-o a uma 
reflexão estarrecida. Precisava encontrar uma explicação. 
Onde podemos encontrar a explicação? Em grande medida, a 
cruz de Jesus Cristo coloca em evidência o ataque do mal contra a 
inocência, de modo que podemos ver um espelho e uma janela. 
Posso fazer uma frágil tentativa de explicar como isso acontece. É 
aqui que emerge a segunda verdade surpreendente. 
Eleonore Stump, professora de filosofia na Universidade de 
St. Louis, escreveu um excelente ensaio intitulado "O espelho do mal". 
Revelando sua jornada pessoal em direção a Deus, ela trouxe à baila 
um argumento fascinante. No início, ela conta a luta de Philip Hallie 
sobre a mesma questão, conforme ele descreveu em seu livro Lest 
Innocent Blood Be Shed. Hallie estava se debatendo para resistir à 
depravação humana. A impiedade terrível que transformou toda a 
sua vida era semelhante à brutalidade sem limites dos campos de 
extermínio nazistas. Seu desespero chegou ao ponto máximo quando 
ele escreveu: 
Meu estudo sobre o mal tinha se tornado uma prisão cujas gra­
des eram minha amargura em relação à violência e cujas paredes 
eram minha indiferença horrorizada em relação aos assassinatos 
160 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
em massa. Entre as barras e as paredes eu me revolvia como um 
louco... No correr dos anos, eu me enterrara no inferno.15 
Ao se afundar nesse inferno feito pelo homem, Hallie notou que 
seu coração se endurecia. Deixou de sentir o horror do mal. No 
entanto, como um prisioneiro de sua própria indiferença, algo acon­
teceu. Ele tomou conhecimento do trabalho tocante dos moradores 
de uma pequena vila francesa, chamada Le Chambon e viu-se rea­
gindo aos seus gestos abnegados — atos de extraordinária bondade 
em face do mal. Desprezando a crueldade praticada ao redor deles, 
os chambonnais repetidamente arriscavam suas vidas para resgatar e 
dar alívio às pessoas que sofriam mais diretamente a brutalidade 
nazista. 
Quando Hallie leu sobre as obras de misericórdia deles, viu-se 
enxugando uma lágrima, depois outra e mais outra, até que seu 
rosto estava todo molhado. Surpreso com a erupção de emoções de 
um coração que achava que estava morto, ele parou e perguntou a si 
próprio: "Por que estou chorando?" 
Será que fora libertado das grades da amargura e da indiferença? 
Será que o espelho translúcido do mal permitira a passagem de luz 
suficiente do outro lado para que ele pudesse enxergar não somente 
a face da perversidade, mas também uma possibilidade frágil além 
do espelho, o semblante de Deus? Será que alguma luz tinha brilha­
do no canto mais escuro do mundo e dirigido o passo daquele que 
fora apanhado pelo medo? 
Na iminência de ver-se despojado de todo sentimento no abis­
mo da impiedade, a misericórdia tinha aberto uma torrente de lágri­
mas. Os chambonnais tornaram-se um símbolo de tudo aquilo que 
era contrário ao inferno liberado pelo Terceiro Reich. Para Hallie, 
não havia mais perplexidade. Havia apenas um antídoto. Ele olhou 
através da impiedade e depois escreveu: 
Vivemos numa época (talvez como todas as outras) em que há 
tantos que, nas palavras do profeta Amos, "convertem o juízo em 
alosna". Muitos não estão satisfeitos em viver na simplicidade do 
prumo ético do profeta, quando ele diz no capítulo cinco do seu 
D E U S É A F O N T E D O MEU S O F R I M E N T O ? 161 
livro: "Buscai o bem e não o mal, para que vivais; e, assim, o 
Senhor, o Deus dos Exércitos, estará convosco...". Nós temos medo 
de nos envolver, temos medo de ser crédulos, mas não temos medo 
da escuridão da incredulidade sobre assuntos importantes... 
No entanto, a perplexidade é um luxo ao qual não posso me 
entregar... Para mim, como para minha família, há o mesmo tipo 
de urgência no que diz respeito a fazer julgamentos éticos como 
havia para os chambonnais quando faziam seus julgamentos éticos 
sobre as leis de Vicky e dos nazistas... Para mim, a consciência do 
padrão de bondade é a consciência de Deus. Vivo com a mesma 
sentença em minha mente que muitas das vítimas dos campos de 
concentração pronunciaram ao caminhar para a morte: "Shema 
Israel, Adonai Elohenu, Adonai Echod' - "Ouve, Israel, o Senhor, 
teu Deus, é o único".16 
T o m a n d o esta história emprestada de Hallie e pensando nas lá­
grimas derramadas e m resposta à bondade , Eleanor S tump faz a sua 
aplicação pessoal. Ela comprova o a rgumento de Hallie por meio de 
out ra ilustração: 
Uma mulher que fora condenada a prisão perpétua, sem direito a 
condicional, por ter matado o marido, teve sua pena inesperada­
mente comutada pelo governador e chorou ao ouvir a notícia. Por 
que ela chorou? Porque a notícia era boa, e ela estava acostumada 
a só ouvir coisas ruins. No entanto, por que chorar ao ouvir boas 
notícias? Talvez seja porque, se a maioria das notícias são ruins, 
você tem de endurecer o coração para suportar. Assim, você se 
acostuma a receber notícias ruins e, de uma forma ou outra, aprende 
a se proteger delas, ralvez não pensando muito no assunto. Então, 
uma notícia boa parte seu coração. Faz com que ele se torne nova­
mente sensível a todo o mal contra os quais tornou-se duro. Tam­
bém abre seu coração para anseios e esperanças; a esperança é 
dolorosa, porque aquilo que se espera ainda não chegou... 
Assim, em certo sentido, o espelho do mal pode também 
nos conduz a Deus. Um olhar desagradável nos males do mundo 
e em nós mesmos nos prepara para ficarmos mais tocados pelo 
162 PORQUE JESUS £ DIFERENTE 
sabor da verdadeira bondade quando a encontramos e mais de­
terminados a ir aonde ela nos levar. E ela nos leva até a mais 
verdadeira de todas as bondades - a bondade de Deus.17 
Descobri esta verdade surpreendente em minha própria vida. 
Certa vez estive em Calcutá. Trata-se de uma cidade que mostra 
publicamente suas feridas. Há estimativas de que existem dois mi­
lhões de pessoas sofrendo e vivendo nas ruas — velhos, jovens e cria­
nças. A dor é tão evidente e tão disseminada que causa um efeito 
anestésico nas pessoas. Junto com alguns amigos, fomos visitar um 
orfanato administrado pela ordem fundada por madre Teresa. Quan­
do entramos, as crianças se levantaram das camas e gritos de "Tio!" 
vieram de diferentes partes do recinto, ao mesmo tempo que os 
bracinhos eram erguidos. Nosso coração se derreteu, e todos nós cho­
ramos. A bondade em face do mal é magnífica, porque é mais do que 
bondade - é o toque de Deus. 
Provavelmente era isso que Malcolm Muggeridge quis dizer: 
Contrário ao que podia ser esperado, olhei para trás, com satisfa­
ção, para as experiências que na ocasião pareciam especialmente 
desoladoras e dolorosas. De fato, posso dizer com toda verdade 
que tudo que aprendi em meus setenta anos de vida neste mundo, 
tudo o que melhorou e iluminou minha existência, tem ocorrido 
por meio da aflição e não por meio da alegria... Evidentemente, 
é isso que a cruz significa. E foi a cruz, mais do que qualquer outra 
coisa, que me chamou a Cristo de forma inexorável.18 
O ganhador do Prémio Nobel Elie Wiesel relata em um dos seus 
ensaios uma experiência que teve quando estava preso em Auschwitz. 
Um prisioneiro judeu estava sendo enforcado e os outros foram obri­
gados a assistir. Enquanto o prisioneiro ficava pendurado — 
esperneando e agonizando, recusando-se a morrer — um dos que 
observavam murmurou, num desespero crescente: "Onde está Deus? 
Onde está ele?" 
Sem saber de onde, Wiesel diz que uma voz em seu interior res­
pondeu ao seu próprio coração: "Está bem ali na forca; onde mais ele 
* 1 " U ) 
estaria? J 
D E U S É A F O N T E DO MEU S O F R I M E N T O ? 163 
O teólogo Jurgen Moltmann, comentando sobre a história de 
Wiesel, observou astutamente que qualquer outra resposta teria sido 
uma blasfémia. 
Será que há uma ilustração mais concreta do que a morte de 
Cristo para daruma imagem errónea não so­
mente dele próprio, mas também do caráter e dos esforços dos outros 
membros da equipe. Este foi o pior erro. Trata-se de um erro muito 
grave, pois a vida de um indivíduo pode ser exposta à custa de seu 
sacrifício pessoal, mas não à custa da confiança sagrada de outrem. 
Quero ser cauteloso quanto a este aspecto; se eu falhar, será somente 
porque, se suprimisse alguns detalhes, estaria distorcendo a verdade 
de meu conflito. 
Agora posso gozar do benefício da passagem do tempo. Encon­
trei o Jesus que conheço e amo aos dezessete anos de idade. No en­
tanto, seu nome e seu poder de atração significam infinitamente mais 
para mim agora do que quando entreguei a ele minha vida. Eu o 
busquei porque não sabia mais para onde ir. Continuo com ele por­
que não quero ir para outro lugar. Fui a ele almejando algo que não 
tinha. Continuo com ele porque possuo algo de que não abro mão. 
Fui a ele como um estranho. Continuo com ele na mais íntima 
amizade. Fui a ele incerto quanto ao futuro. Continuo com ele 
certo quanto ao meu destino. Eu o busquei em meio aos ensur­
decedores gritos de uma cultura que possui 330 milhões de divinda­
des. Continuo com ele sabendo que a verdade é, por definição, 
exclusiva. 
Crescendo no Oriente, você ouve isto milhares de vezes, ou até 
mais: "Nós andamos por rotas diferentes, mas acabamos todos no 
mesmo local". Entretanto, eu digo que Deus não é um lugar, uma 
experiência ou um sentimento. Culturas pluralistas são seduzidas 
pela ideia atraente que sinceridade ou condição social é tudo o que 
conta, e que a verdade está sujeita à vontade de quem a possui. Em 
nenhum outro aspecto da vida os indivíduos podem ser tão ingé­
nuos a ponto de afirmar que as crenças herdadas dos antepassados ou 
as crenças preservadas na tradição são os elementos que determinam 
a verdade. Por que, então, cometemos o erro catastrófico de pensar 
que todas as religiões estão certas, e que não importa se as suas reivin­
dicações são uma verdade objetiva? 
22 POR QUE JESUS I: DIFERENTE 
As religiões não são iguais. Nem todas elas apontam para Deus. 
Nem todas dizem que todas as religiões são iguais. No cerne de toda 
religião há um compromisso inegociável a uma forma particular de 
definir quem Deus é ou não é, e de definir o propósito da vida. 
Qualquer um que afirma que todas as religiões são iguais de­
monstra não somente ignorância em relação às religiões, como tam­
bém uma visão caricata até das religiões mais conhecidas. Nesse 
aspecto, todas as religiões são exclusivas. 
No entanto, o conceito de "muitos caminhos" foi absorvido de 
forma subliminar em minha vida, quando eu era jovem. Eu já estava 
condicionado a esta forma de pensar antes de descobrir seus pre­
conceitos sutis. Levei anos para descobrir que o clamor por abertura 
nunca é como se propõe. Quando alguém lhe diz: "Você tem de ser 
aberto para tudo", na verdade quer dizer: "Você tem de ser aberto 
para tudo o que eu sou aberto e concordar com tudo o que eu con­
cordo". 
A cultura indiana tem um verniz de abertura, mas é altamente 
crítica em relação a tudo o que discorda dela. Não é por acaso que a 
assim chamada cultura tolerante deu origem ao sistema de castas. As 
filosofias que tudo abrangem só podem se desenvolver à custa da 
verdade. Nenhuma religião nega suas crenças básicas. 
Dentro de tal relativismo sistemático, o indivíduo tende a se des­
viar ao sabor das ondas culturais, sem dar atenção à natureza impla­
cável da realidade. E assim que se vive dentro de uma cultura panteísta. 
Sem dúvida, há uma riqueza de pensamento que construiu uma cul­
tura impressionante para mais de um bilhão de pessoas, uma cultura 
que desafia a privação económica, a instabilidade política e as hosti­
lidades religiosas, existindo, nas palavras do seu povo, como a "Mãe 
índia". 
Não temos a vantagem de escolher onde queremos nascer. Ape­
sar disso, as palavras do poeta — "Expira o homem cuja alma está 
morta, que jamais disse a si próprio: 'Esta pátria é minha, minha 
terra natal'"2 — soam dolorosamente verdadeiras. Neste clima cultu­
ral, minha vida, minha língua e meus valores foram moldados e tes­
tados. Sempre serei grato pelo privilégio e pelos tesouros que me 
E S C A L A N D O UM ALTO M U R O . 23 
foram concedidos. Espero jamais esquecer as canções, o idioma e os 
sons que foram alojados em meu interior. No entanto, a busca pelo 
Deus verdadeiro numa terra repleta de deuses é uma tarefa assusta­
dora. A religião tem uma história diversificada, sendo que alguns dos 
seus detalhes são questionáveis. 
Herdeiro de uma cultura tão complexa, cresci vendo os muros de 
um desespero calado gradualmente se elevando dentro de mim, le-
vando-me passo a passo até o ponto da crise pessoal. Ouvi dizer que 
as fraquezas de uma pessoa capaz geralmente são decorrentes do uso 
exagerado de alguma força. O mesmo se aplica à cultura. No contex­
to do ambiente onde cresci, os abusos das forças culturais confirmam 
este adágio. 
VULNERABILIDADE NA FORÇA 
Em primeiro lugar (e o mais importante), vem a força da família 
nuclear. Conforme eu a conheci, a cultura é forte e tem uma reve­
rência louvável pela família imediata. Na índia, os laços familiares 
são fortes. No entanto, esta força facilmente se torna vulnerável ao 
exagero. Muitos pais parecem buscar aliviar a própria vida por meio 
dos filhos; o sucesso dos filhos eleva o status da família toda. A indi­
vidualidade é absorvida pelo clã. 
Todos os dias, centenas de propagandas são impressas nos 
jornais da terra, numa seção chamada seção matrimonial — pais pro­
curando cônjuges para os filhos. Todos os candidatos são menciona­
dos como "de boa família" e os pretendentes também devem ser "de 
boa família". "Meu filho é engenheiro"; "minha filha é médica"; "meu 
filho é o primeiro da classe"; "minha filha ganhou uma bolsa de 
estudos". Assim correm os boatos nas reuniões sociais. Todo esforço 
é feito para preservar a unidade familiar, a vontade dos pais é reve­
renciada em tudo, desde emprego até casamento. 
Para mim, a força da família foi também o solo para as sementes 
de solidão interior. Esta solidão era decorrente de um fato importan­
te: um pai altamente bem-sucedido e influente, que não podia 
tolerar um filho indisciplinado que flertava constantemente com o 
24 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
fracasso. O pai alcançou um nível elevado de poder. Até onde o filho 
chegaria? 
A segunda dimensão, além do elo familiar, é a realidade social da 
intensa competição académica. Tudo o que define um indivíduo e 
seu futuro é moldado por seu desempenho escolar. Todo estudante 
deseja ser o primeiro da classe. Não é suficiente se sair bem. Você 
precisa estar entre os primeiros da turma. O intelecto é reverenciado 
como um ídolo. 
Quando eu estava na escola, todas as notas dos estudantes e sua 
colocação no ranking da classe eram impressas nos principais jornais 
da cidade, para todos verem. O sucesso ou o fracasso eram motivo 
de orgulho ou vergonha geral. Um dos meus melhores amigos pen­
sou em suicídio depois das provas finais na escola secundária porque 
não foi o primeiro colocado dentre rodos os estudantes de Nova 
Delhi. Outro colega de classe de fato se suicidou, ateando fogo no 
próprio corpo, porque não conseguiu se formar. 
Tais distorções, que ferem tantas pessoas, continuam atuantes 
em várias culturas. Tal atitude é totalmente errada, mas é alimenta­
da com grande paixão. 
Esta combinação de família-padrão e aluno-padrão tornou-se uma 
mistura volátil em minha vida. Logo eu demonstrei que não seria o 
orgulho de um pai poderoso. Não era algo deliberado; era apenas 
falta de capacidade e falta de condições de buscar um propósito. 
Minha vida se arrastava adiante enquanto o longo braço da pressão 
cultural ia gradualmente se estendendo em minha direção — e eu 
sabia que não passaria no teste. 
Todas as manhãs, éramos acordados pelo barulho de várias pes­
soas (entre homens e mulheres)substância à presença de Deus, bem ali no meio da 
dor? Ele suportou o peso da dor infligida pela impiedade dos seus 
perseguidores — e nos mostrou o coração de Deus. Jesus mostrou 
em seu próprio sofrimento em que consiste a obra de Deus, que 
transforma nosso coração do mal para a santidade. 
De fato, uma das realidades mais menosprezadas emerge das 
Escrituras. Jesus lutou com o peso de ter de se separar do Pai du­
rante os momentos da crucificação, quando carregou o peso do 
mal. Ele clamou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparas­
te?" A incrível verdade era que no exato momento em que o Pai parecia 
ter se afastado dele, ele estava no centro da sua vontade. É exatamente 
isso que significa o entendimento da cruz. Somente quando vamos 
à cruz e olhamos para ela e além dela, temos uma perspectiva do 
mal. 
O que emerge de todos esses pensamentos é que Deus conquista 
não a despeito do mistério escuro do mal, mas por meio dele. 
Mahatma Gandhi comentou que dentre todas as verdades da fé 
cristã, aquela que se mantinha suprema para ele era a cruz de Jesus. 
Ele concordava que esta não tem paralelos. Era o inocente morren­
do pelo culpado, o puro trocado pelo impuro. O mal não pode ser 
compreendido por meio dos olhos daqueles que o crucificaram, mas 
por meio dos olhos do Crucificado. A mulher que foi estuprada — não 
o estuprador — entende o que é o estupro. Aquele que é caluniado — e 
não o caluniador — entende o que é calúnia. Somente Aquele que mor­
reu pelo nosso pecado pode nos explicar o que é o mal— e não os céticos. 
A cruz aponta o caminho para a plena explicação. 
A cruz nos conduz ao "como" tudo isso acontece. 
O C H O Q U E DA HISTÓRIA 
Quinto, se tudo o que foi dito até aqui é verdade, então o foco do mal 
deve ser mudado dramaticamente. O mal é mais do que uma realida-
164 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
de exterior que engloba o sofrimento universal; é uma realidade inte­
rior da qual nós corremos. 
Lembro-me de uma conversa que tive com um empresário rico e 
bem-sucedido; durante toda a conversa ele repetia a mesma pergun­
ta: —E quanto a todo o mal que existe no mundo?— Finalmente, 
um amigo que acompanhava a conversa disse: —Estou ouvindo você 
expressando várias vezes seu desejo de ver uma solução para o proble­
ma do mal ao seu redor. Você se preocupa com o problema do mal 
dentro de você?— No silêncio pesado que se seguiu, a expressão da­
quele empresário demonstrou sua hipocrisia. 
Quanto mais me deparo com esta questão do mal, mais fico 
convencido da falta de honestidade de muitos que a levantam. Par­
ticipei de um fórum cujo tema era o mal e o sofrimento; um ateu me 
perguntou: "Se você descobrisse que Deus realmente não existe, o 
que você faria, que não faz agora por temor a Deus?" 
Só esta pergunta revela a mental idade. Há um tipo de 
antinomianismo — um estado de mente antagónico à lei. "Se Deus 
'largasse do meu pé', eu poderia fazer muitas coisas". Podemos per­
guntar: "Se não existissem policiais para fiscalizar, a que velocidade 
você andaria com seu carro?" ou "Se não houvesse um sistema judi­
ciário, que crimes você cometeria?" ou "Se ninguém descobrisse, em 
que perversidades você se engajaria?". Resumindo, trata-se da falha 
em ver que o coração desprotegido na verdade torna-se uma prisão 
para todos — uma prisão onde não há regras. 
O mal é para a vida aquilo que a contradição é para a razão. Se 
um argumento é contraditório, a razão entra em colapso. Se a vida é 
consumida pelo mal, ela entra em colapso. O problema do mal co­
meça comigo. Uma das cartas mais curtas escritas a um editor foi 
feita por G. K. Chesterton; a carta dizia: "Prezado, em resposta ao 
seu artigo: "O que há de errado com o mundo" — o que há de errado 
sou eu. Sinceramente, G. K. Chesterton". 
A D M I T I N D O A SURPRESA 
Isso nos leva ao ponto final no processo de sustentar a cosmovisão 
crista concernente ao mal. A evidência mais clara de que o mal não é 
D E U S É A F O N T E n o MEU S O F R I M E N T O ? •. 165 
inimigo do significado é a realidade existencial inescapável: a falta de 
sentido surge não quando nos cansamos da dor, mas quando nos 
cansamos do prazer. Esta verdade óbvia está convenientemente au­
sente nos argumentos dos céticos. Não foi a dor que empurrou o 
Ocidente para o vazio; foi porque ele afundou no oceano dos praze­
res. O prazer errado é uma maldição maior do que a cegueira física. 
A cegueira para aquilo que é sagrado é a causa de todo mal. 
E neste ponto que a resposta de Jesus à questão do homem cego 
surge com extraordinário poder e relevância. Quando ele diz que a 
cegueira do homem não era causada pelo seu pecado nem pelo peca­
do dos seus pais, mas para que a glória de Deus fosse revelada, a 
lição é drástica porque o mensagem é profunda. A restauração da 
sua visão espiritual era indispensável para a compreensão do horror 
da cegueira do pecado. A escuridão é devastadora, e Jesus oferece luz 
e vida. Sua cura era para ajudar as pessoas a enxergar a verdadeira 
cegueira que se recusavam a reconhecer. 
O problema do mal tem uma fonte suprema. E a resistência à 
santidade de Deus que obscurece toda a criação. E um mistério, 
porque somos engolfados na cegueira espiritual. E em última análise 
há apenas um antídoto: a gloriosa manifestação da ação divina den­
tro da alma humana, trazendo restauração. Esta transformação amo­
lece o coração, a fim de que deixe de ser parte do problema e se 
torne parte da solução. Tal transformação começa na cruz. 
No entanto, como os céticos dos dias de Jesus, alguns desejam 
encontrar uma razão para negar quem Cristo é e a cura que ele pode 
trazer. Como os vizinhos, as massas curiosas desejam saber como 
aconteceu. Como os pais, aqueles que chegam mais perto testemu­
nharão a transformação que Cristo opera. E como o cego, aqueles 
que experimentam pessoalmente o poder de Cristo de transformar 
suas vidas entenderão a cegueira maior da qual foram libertados. 
Esta pode ser uma ilustração da vida real da luta sobre a qual 
Mark Triplett escreveu. A verdade não é que seu sofrimento e dor 
foram causados pela morte do filho e o medo de ter sido ele o causa­
dor. Como ele mesmo reconheceu, pelo terrível peso de ter profana­
do aquilo que era sagrado, ele já tinha causado a separação de Deus 
166 PORQUE JESUS É DIEERIÍNTE 
e o sofrimento de sua própria alma. Ele reconheceu o que fizera a si 
próprio - tinha traído a esposa, traído sua família e traído seu Deus. 
Os provedores do prazer sensual sabiam muito bem que seu envolvi­
mento insaciável com suas ofertas o colocariam no caminho do des­
perdício financeiro e da morte potencial de seu casamento. Em nome 
do prazer, tinham infligido a dor suprema. Tudo o que valia a pena 
fora perdido. 
Aqui, pelo menos, um homem parou em sua busca para enten­
der a causa e o efeito de uma forma que os céticos parecem jamais 
entender. A verdadeira questão não é se o pecado do pai causara a 
morte do filho. De fato, na verdade, quando Mark pronunciou aque­
las palavras zangadas a Deus, seu filho já estava morto. O que é per­
tinente agora é que por meio da perda do filho, o pai foi colocado 
face a face com o que o estava matando por dentro. No entanto, no 
meio da tragédia, a obra de Deus se manifestou. Ele procurava praze­
res infinitamente maiores do que os prazeres profanos da excitação 
sem dignidade e sem promessas. O abraço de uma esposa disposta a 
perdoar, o impacto duradouro da partida do filho, o novo compro­
misso com as verdades sagradas da vida — esses são os reais tesouros 
da vida. Aquilo que o seduzira e prendera subitamente tornou-se 
nauseante e repugnante. Agora ele está livre para dizer ao mundo que 
o verdadeiro valor da vida encontra-se somente em Deus. 
Quando Deus restaura nossa visão espiritual por meio do misté­
rio do mal, somos capazes de ver a sua obra manifestada dentro do 
esquema de nossa questão mais difícil. Com lágrimas de alegria, nos 
prostramos diante dele. 
Em suma, para o cristão, o mal é real, este mundo é reale o 
tempo é real. Jesus reconheceu todas as três realidades em relação ao 
homem cego. Ele destacou que este mundo constrói dentro de si o 
componente do tempo. E sobre a bigorna do tempo bate o martelo 
da eternidade, até que o tempo finalmente reflita os valores do eterno 
e se abrirá como uma concha, de dentro da qual as verdades supre­
mas serão livremente abraçadas. Quando entrarmos neste estágio, 
descobriremos que a verdadeira bigorna é a eternidade, que o tempo 
proporcionava o martelo e que a glória e os propósitos de Deus serão 
o que restará. 
c a p í t u l o se i s 
QUANDO DEUS FEZ SILÊNCIO 
N a peça de Robert Bolt, baseada na vida de Sir Thomas More, 
intitulada Um homem para todas as estações, há um momento 
profundamente tocante quando More é levado diante de um tribu­
nal provisório. O juiz e o júri estão furiosos porque ele não aceita 
participar de um esquema para apoiar o rei numa decisão imoral. 
Ameaçando-o com a sentença de morte, eles o pressionam para 
que se una a eles. Mas More fica em silêncio diante de todos, re­
cusando concordar. Eles sabem o que significa sua resposta sem pala­
vras, mas continuam a ameaçar, tentando fazê-lo quebrar seu silêncio 
e falar algo. Calmo, More não diz nenhuma palavra. 
Em dado momento, um dos juízes lhe diz: —Então seu silêncio 
deve ser interpretado como uma negação da afirmação que busca­
mos, pois é isso que significa para o povo. 
Sir Thomas More replicou, medindo bem as palavras: — O 
mundo pode interpretar como bem entende. Esta corte deve inter­
pretar de acordo com a lei. 
Eles finalmente desistiram. Não conseguiram dobrá-lo. No entan­
to, More pagou com a própria vida seu compromisso com a verdade. 
Os melhores novelistas e teatrólogos têm uma boa razão para 
basear suas narrativas no solo da injustiça. Desde o tempo de Sócrates 
e Platão, os filósofos têm colocado extremo valor na virtude da jus­
tiça, em qualquer sociedade civilizada. Aristóteles chegou a dizer 
168 : POR QUE JESUS É DIFERENTE 
que a justiça era a pedra angular de toda a ética. Por quê? Porque a 
justiça é a guardiã da verdade; quando a verdade morre, a justiça é 
enterrada junto com ela. O silêncio que cerca tal tragédia pode bem ser 
o silêncio oferecido aos algozes, um momento sombrio de verdade. 
Provavelmente Thomas More viu seu precedente em Jesus, que 
ficou em pé diante de um tribunal similar e foi acusado, entre ou­
tras coisas, de traição contra o rei. Quando Jesus foi levado diante 
de Pôncio Pilatos e de seus acusadores, seu comportamento foi fas­
cinante. Seu silêncio deixou os inquiridores profundamente nervo­
sos. Eles esperavam vencê-lo numa batalha de palavras. Não foi por 
acaso que a conversa, supostamente tratando sobre a justiça, acabou 
numa discussão sobre a verdade. 
A sequência de eventos que levaram Jesus diante de Pilatos mos­
tra como o crime organizado também tem um legado antigo. A 
covardia, traição, falsidade, intriga, assassinato - todas as paixões 
que povoam os enredos das novelas de suspense — tomam vida na 
dura realidade da mais histórica demonstração de injustiça da histó­
ria, quando a verdade estava sendo julgada. 
Os líderes religiosos queriam Jesus fora do caminho. Todavia, 
estavam divididos entre dois sistemas jurídicos: a lei judaica e a lei de 
Roma. Por mais que tentassem, não conseguiam obter uma base moral 
sobre a qual matar Jesus. No entanto, mesmo que conseguissem cons­
truir o cenário da justificativa moral, não tinham autoridade para 
executá-lo, como era sua intenção. Muitas vezes, quando a lei moral 
protege o inocente, uma lei cerimonial é invocada para se alcançar os 
fins imorais. 
Ao afirmar ser igual a Deus, Jesus cometeu uma ofensa imper­
doável aos olhos dos líderes judeus. Evidentemente, tal afirmação 
não tinha nenhuma gravidade num tribunal romano, desde que não 
ameaçava César. Dizem que, no mundo greco-romano, na mente 
popular todas as religiões eram consideradas igualmente verdadei­
ras; para os filósofos, todas eram falsas; para os magistrados, todas 
eram úteis. 
Resumindo, Roma não tinha simpatia pela religião judaica. A 
única esperança do sumo sacerdote e seus partidários era apresentar 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O 169 
o crime de Jesus como um desafio contra César e como traição. Não 
se importavam com o imperador romano mais do que este se im­
portava com eles. No complô, porém, Roma iria ajudar. 
Apanhado no meio de todos esses elementos estava o fraco go­
vernador romano, Pôncio Pilatos. O especialista em Antigo Testa­
mento Dennis Kinlaw notou com astúcia que a velha Sra. Pilatos 
jamais visualizou o nome do filho entrando para a história — citado 
nos credos cristãos. Sem dúvida, nem ele mesmo imaginou que aquele 
julgamento espetacular entraria permanentemente para os anais da 
história da civilização. 
De tudo o que Jesus disse, o que mais maravilhou Pilatos foi seu 
silêncio. A Bíblia diz: "Os principais sacerdotes o acusavam de mui­
tas coisas. Tornou Pilatos a interrogá-lo: Nada respondes? Vê quantas 
acusações te fazem! Jesus, porém, não respondeu palavra, a ponto de 
Pilatos muito se admirar" (Mc 15:3-5). 
A cena nos dá um olhar crítico de como Jesus lidava com o 
incómodo dos céticos e com a raiva dos religiosos contra ele. Ele já 
fora submetido a uma série de eventos extenuantes. Primeiro foi 
preso, ao ser traído por Judas Iscariotes, em troca de um punhado 
de moedas; foi levado à presença de Anás, sogro do sumo sacerdote 
Caifás. Depois de interrogá-lo, Anás enviou-o para o genro Caifás, o 
qual astutamente tentou justificar a crucificação, citando a Escritu­
ra que era imperativo que "um morresse por muitos". 
Caifás, por sua vez, enviou-o a Pilatos; o sumo sacerdote não 
sabia que o governador fora advertido pela esposa para não se 
incriminar envolvendo-se naquele terrível complô. Ao descobrir que 
Jesus era galileu, Pilatos usou este fato como desculpa para evitar 
julgar a questão, enviando-o ao rei Herodes. Pilatos, porém, não 
podia evitar seu encontro com o destino. Herodes, depois de escar­
necer de Jesus, enviou-o de volta ao governador. 
Jesus ficou como um objeto, passando de mão em mão, en­
quanto as palavras e intenções iam tomando forma para subverter a 
verdade — tudo em nome da moralidade. Quando Pilatos terminou 
de interrogá-lo, disse às autoridades religiosas: "Apresentastes-me 
este homem como agitador do povo; mas, tendo-o interrogado na 
170 : POR QUE JESUS É DIFERENTE 
vossa presença, nada verifiquei contra ele dos crimes de que o acusais. 
Nem tampouco Herodes, pois no-lo tornou a enviar. E, pois, claro 
que nada contra ele se verificou digno de morte. Portanto, após 
castigá-lo, soltá-lo-ei" (Lc 21:14-16). Assim, Pilatos mandou açoitá-
lo, tentando acalmar a turba. 
Este era o momento que os líderes da sinagoga esperavam, e den­
tro da vontade divina, era o momento para o qual toda a história 
vinha se movendo e mediante o qual seria marcada para sempre. Há 
muito mais a ser dito aqui, mas nos concentraremos na conversa 
entre Jesus e Pilatos. 
AS LINHAS DE ABERTURA 
Conforme veremos, o texto bíblico não começa com o silêncio de 
Jesus. Começa com uma breve interlocução com Pilatos, até que 
Jesus se recusou a responder a algumas perguntas. Portanto, seria 
prudente primeiro olharmos para as respostas que ele deu, porque 
seu silêncio é compreendido à luz das palavras que proferiu. 
A primeira pergunta de Pilatos foi bem direta: "És tu o rei dos 
judeus?" 
Era uma pergunta bem específica. Pilatos preferia manter a ques­
tão como um assunto interno entre os judeus. Dessa forma, possivel­
mente poderia evitar a responsabilidade. Os sacerdotes, por outro 
lado, sabiam que, se quisessem ter autoridade legal para executar 
Jesus, tinham de incluir Roma no problema. Com esses propósitos 
entrecruzados, começou o julgamento. 
Jesus respondeu à pergunta de Pilatos sobre sua condição de rei 
com outra pergunta: "Vem de ti mesmo esta pergunta ou to disse­
ram outros a meu respeito?" 
Pilatos rebateu:"Porventura, sou judeu? A tua própria gente e os 
[teus] principais sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizes­
te?" (veja Jo 18:33-35, ênfase acrescentada). 
Evidentemente, Pilatos ficou irritado com a pergunta, mas era 
óbvio que não a compreendeu. O que Jesus queria mostrar era que 
se tratava de uma pergunta capciosa - a mera curiosidade cerimonial. 
Responder a uma questão para a qual não se busca honestamente 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O 171 
uma resposta é apenas prolongar a charada. Jesus estava se aproxi­
mando de Pilatos para lhe mostrar que na verdade sua atitude não 
era diferente daqueles que tinham trazido as acusações. O significa­
do desta pergunta é que o confronto não era exclusivo de uma nação 
ou de um povo. Todo o mundo estava envolvido. Seus acusadores 
estavam deliberadamente surdos à sua resposta, enquanto Pilatos es­
tava desempenhando o papel de seu cargo, sem nenhum respeito 
pela verdade por trás dos seus julgamentos. Deus estava no banco 
das testemunhas; a humanidade fazia suas intrigas jurídicas. 
Aqui surge uma lição imediata. Ouvimos tantas críticas por par­
te dos céticos sobre o que eles muitas vezes classificam como "fé de 
segunda mão". A ideia implícita é que muitas pessoas acreditam em 
Deus só por causa do contexto do nascimento, do histórico familiar 
ou alguma outra circunstância. Se tal crítica é justificada (e sem 
dúvidas muitas vezes é), por que não mostramos a mesma desconfian­
ça para a "dúvida de segunda mão"? Se é possível que a crença de 
uma pessoa seja meramente um eco da fé de outrem, será que tam­
bém não há hipocrisia na incredulidade? 
Será que se tratava de uma busca sincera por parte do governa­
dor romano, ou era apenas uma encenação, parte do procedimento, 
refletindo uma verdadeira indisposição de ouvir? Esse era o ponto de 
Jesus. 
Em muitas ocasiões, já ouvi pessoas empilhando valentemente 
perguntas sobre perguntas, questionando a fé cristã. Os argumentos 
começam a soar ocos quando as palavras são de outras pessoas e as 
ideias são emprestadas de algum intelectual. Não quero insinuar 
aqui que os argumentos ou as perguntas não tenham validade. Que­
ro apenas afirmar que, muitas vezes, as assim chamadas razões para 
se refutar a verdade são tão misturadas com os preconceitos indivi­
duais que é difícil fazer uma distinção entre a pergunta e os desejos 
ocultos de quem a faz. 
Há algum tempo, eu estava ensinando numa universidade sobre 
o assunto "Ética e a invasão do Cyber Espaço''. Soube que fora convi­
dado por ser teísta, para que houvesse pelo menos um orador que 
172 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
propusesse uma base transcendente para os julgamentos éticos! Foi 
uma conferência fascinante. 
Depois da aula, sentamo-nos para almoçar juntos, convidados 
pela diretoria da faculdade e pelos líderes estudantis. Durante a re­
feição, uma professora disse algo assim: "Toda esta conversa sobre 
moralidade objetiva parece elevada e cheia de peso filosófico. Para 
mim, a questão básica é simples: Como evitar que os estudantes 
'colem' nas provas?" 
Enquanto respondia à pergunta, eu também a lembrei de que 
estava se concentrando nos sintomas e ignorando a causa. 
No final do almoço, um grupo de estudantes me cercou e fez 
uma enxurrada de perguntas. Uma aluna disse em voz baixa: —Eu 
realmente tenho um problema. Minha professora me pediu para vir 
participar da sua palestra e refutar o que você dissesse. A verdade, 
porém, é que, depois de ouvir seus argumentos, descobri que concor­
do com você. 
— Bom, então por que não escreve isso? 
— Não! Se eu concordar com seu raciocínio, corro o risco de 
não me formar. A professora tinha certeza de que eu discordaria de 
você e queria que eu rebatesse com veemência. Estou precisando de 
nota e não posso deixar de me formar. 
— Você tem certeza de que o sua professora puniria você apenas 
por concordar com a minha posição sobre ética?— perguntei. 
— Tenho certeza. 
— Esta professora estava presente no almoço? 
— Sim — foi a resposta hesitante. 
— Quem é ela? 
Houve um silêncio embaraçoso e depois uma admissão ainda 
mais incomoda — Aquela que perguntou como podia impedir os 
alunos de 'colar'. 
Um pouco distante da genuína fome pela verdade. Eu duvido 
seriamente se um professor desse tipo realmente deseja que os alu­
nos aprendam a não trapacear ou quer apenas que aprendam a pen­
sar como ela, mesmo que signifique uma vida inteira de fingimento 
- dúvida de segunda mão. 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O 173 
Tenho certeza de que existem dezenas de milhares de estudantes 
que saem das faculdades com a mente treinada a não acreditar em 
Deus e não aceitar nenhum argumento ou evidência em contrário. 
O pai do racionalismo moderno é o filósofo francês René Descartes. 
Seu dito: "Penso, logo existo" — ressoa pelas salas de filosofia. Partin­
do desta abordagem fundamentalmente racionalista da existência, 
os céticos extrapolaram e criaram seu próprio ditado: "Eu duvido, 
portanto sou um intelectual". Para muitos, tal incredulidade na ver­
dade segue um particular intelectual em vez de enfrentar as questões 
do intelecto. 
U M REI DIFERENTE 
Jesus tinha plena consciência do efeito contagiante da dúvida. Foi 
por isso, em parte, que manteve silêncio. Pilatos, claro, rapidamente 
se esquivou de qualquer envolvimento pessoal nos procedimentos, 
insistindo que se tratava de uma questão interna da comunidade 
judaica, a qual para começar iniciara todo o problema. Jesus então 
tratou de levar o governador a ver que de fato tinha interesse na 
questão, porque seu reinado não tinha nada a ver com o governo de 
uma nação ou de uma cultura, mas tinha tudo a ver com o governo 
do coração. 
Jesus disse: "O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino 
fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, 
para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino 
não é daqui" (Jo 18:36). 
Apanhado um pouco de surpresa, Pilatos exclamou: "Logo, tu 
és rei?" 
Foi neste ponto que veio a resposta definitiva: "Tu dizes que sou 
rei. Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar teste­
munho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha 
voz" (v. 37). 
Imediatamente notamos que foram feitas três afirmações dra­
máticas. 
Primeiro, o reino de Jesus não era assistido por poderio bélico 
ou diplomático. Seu governo não é territorial ou político. A história 
174 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
prova que a propagação do evangelho por meio da espada ou da coer­
ção não leva a nada, a não ser à má interpretação da sua mensagem. 
Podemos ter certeza de que Jesus não estava falando sobre paci­
fismo ou guerra. Estava estabelecendo uma distinção clara entre a 
forma de crescimento do seu reino e a forma como as nações terrenas 
estabelecem o controle. Estava mostrando um ponto significativo a 
um procurador com motivos políticos. Seu reinado não pode ser e 
não será estabelecido pela força ou pela ameaça. Só este fato teria 
dado a Pilatos razão suficiente para ir além da superfície do que esta­
va acontecendo. Na verdade eram as nações deste mundo que esta­
vam no banco das testemunhas, e Deus que estava julgando. Pilatos 
devia saber imediatamente que não era nenhum César que estava em 
pé diante dele. Era alguém com um tipo de autoridade totalmente 
diferente. 
Correndo o risco de ser repetitivo, neste ponto gostaria de con­
tar um exemplo que compartilho em outro livro. Faço isso porque 
quero levar esta questão um pouco mais adiante. 
Alguns anos atrás, um general russo me convidou para falar num 
debate com os diretores de diferentes departamentos do Centro de 
Estratégia Geo-política de Moscou. Desde o começo, a atmosfera 
na sala era fria e antagónica, e as pessoas tinham uma expressão dura 
no rosto. Um por um, os ataques eram dirigidos contra a religião de 
modo geral e sobre o cristianismo em particular, com sua história 
marcada pelo derramamento de sangue. Tentei responder a cada ques­
tão, mas percebique a discussão não estava progredindo, porque 
eles continuavam revirando o passado da cristandade. 
Subitamente o ambiente tornou-se tenso. Um dos oficiais, com 
a voz alterada, virou-se para mim e disse: —Quando eu era criança, 
lembro que um soldado alemão entrou em nossa casa e matou mi­
nha avó a tiros. No seu coldre estava escrito: 'Deus é por nós'. Isso 
foi o que a religião fez pelo nosso país!— ele acusou. 
Ele estava certo. Talvez não se lembrasse, ou nem soubesse, que a 
inscrição no coldre não foi feita pelos nazistas, mas era equipamento 
remanescente dos dias do Kaiser. Quando a máquina militar nazista 
começou a sofrer seriamente com a falta de equipamentos, apelaram 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O 175 
para as sobras de uma época que já terminara. Além disso, desde o 
tempo do imperador Constantino, o símbolo da cruz tem sido tão 
repetidamente gravado em armas de guerra e ódio que a mensagem 
de Cristo foi interpretada pelo que Nietzsche chamou de "a vontade 
do poder". 
Eu fiz uma pausa e admiti ao oficial que concordava parcial­
mente com suas palavras. 
Ele ficou surpreso e aos poucos foi baixando a guarda. Então eu 
disse: —No entanto, general, você sabe que Jesus não veio para esta­
belecer um governo sobre as pessoas usando a força. Ele nem mes­
mo falou sobre sistemas políticos. Ele veio para reinar nos corações, 
e não para estabelecer um poder político. Ele pede para viver em 
você e não para controlar seu país. 
Depois disso, fui adiante e compartilhei com eles meu testemu­
nho pessoal. Fiquei com vontade de citar as palavras de Alexander 
Solzhenitsyn, que a linha fina entre bem e mal não corre por estados 
e ideologias, mas passa pelo coração de cada ser humano. Não o fiz, 
porém, temendo que a simples menção do nome causasse uma dis­
cussão política. 
Quando terminei, os oficiais ficaram quietos, refletindo; alguns 
deles relutantemente assentiam com a cabeça, em sinal de concor­
dância. O general que me convidara tinha um olhar calmo e triun­
fante, como se dissesse: "Bem, cavalheiros, vocês e eu jamais 
esperávamos esta resposta". 
Perguntei-lhes o que os setenta anos de marxismo tinha feito 
pelo povo. Lembrei-lhes o vazio na vida dos jovens russos, os quais 
estavam vivendo num país praticamente sem leis. 
Da mesma forma súbita que o assunto tinha sido trazido à baila, 
o teor da conversa mudou de repente. Creio que é irónico que a 
cidade de Moscou carregue as cicatrizes da brutalidade do nazismo e 
das campanhas militares de Napoleão. Há memoriais do que os nazis­
tas fizeram e marcas de onde Napoleão chegou em sua tentativa de 
derrotar a Rússia. Seus nomes simbolizam terror e guerra para o grande 
Império Soviético. As memórias ainda vivas das selvagerias fa­
zem o povo russo encarar com ceticismo qualquer poder que ameace. 
176 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
M e s m o assim, n u m a declaração espantosa sobre Jesus Cristo, 
Napoleão disse algo que praticamente supera todos os outros líderes 
políticos. Transcreverei sua citação na íntegra, por causa da sua in­
crível sabedoria. Gostaria de ter conhecimento dessas palavras quando 
me encontrei com aqueles generais. Napoleão expressou esses pen­
samentos quando estava exilado na Ilha de Santa Helena. Ali, o con­
quistador da Europa civilizada teve tempo de refletir sobre a medida 
de suas realizações. C h a m o u o conde Montho lon e lhe perguntou: 
"Você pode me dizer quem foi Jesus Cristo?" O conde evitou uma 
resposta. Napoleão argumentou: 
Bem, então eu lhe direi. Alexandre, César, Carlos Magno e eu 
mesmo temos fundado grandes impérios; mas do que dependem 
essas criações do nosso génio? Dependem da força. Só Jesus fun­
dou seu império sobre o amor, e até hoje milhões de pessoas estão 
dispostas a morrer por ele... Creio que entendo um pouco a natu­
reza humana; e lhe digo: todos eles eram homens, assim como eu 
sou homem: ninguém mais é como ele; Jesus Cristo era mais do 
que um homem... Tenho inspirado multidões com uma devoção e 
entusiasmo tão grandes que morreriam por mim... mas para que 
fizessem isso era necessário que eu estivesse presente visivelmente 
com a influência elétrica dos meus olhares, minhas palavras e mi­
nha voz. Quando eu olhava para os homens e lhes falava, acendia 
a chama da devoção em seus corações... Só Cristo teve sucesso 
em elevar a mente do homem para aquilo que é invisível, trans­
cendendo as barreiras do tempo e do espaço. Através de 1.800 
anos, Jesus Cristo faz a exigência mais difícil do que qualquer 
outra; ele pede aquilo que um filósofo muitas vezes procura em 
vão nas mãos dos seus amigos, ou o pai na mão dos filhos, a noiva 
na mão do esposo e o irmão na mão do outro. Ele pede o coração 
humano; deseja possuí-lo inteiramente. Exige a entrega incondi­
cional; e sua exigência é atendida. Maravilhoso! Desafiando o tempo 
e o espaço, a alma humana, com todos os seus poderes e faculda­
des, é anexada ao império de Cristo. Todo aquele que crê sincera­
mente nele experimenta este amor memorável e sobrenatural para 
com ele. Este fenómeno é inexplicável; está totalmente fora do 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O * *) 177 
alcance do poder criativo do homem. O tempo, o grande destrui­
dor, é impotente em extinguir esta chama sagrada; o rempo não 
pode exaurir suas forças e nem limitar seu alcance. E isso que me 
afeta mais; muitas vezes penso sobre isso. E este fato que me 
prova, sem sombra de dúvida, a divindade de Jesus Cristo.1 
Seja qual for a nossa réplica, é difícil explicar essas palavras como 
mera eloquência. De fato, Napoleão fez esta afirmação justamente 
para se opor à mera demagogia e ao poder superficial. Com incrível 
lucidez, ele viu como Jesus Cristo conquistou. Não foi pela força, 
mas ganhando os corações. 
Napoleão entendeu Jesus melhor do que Pilatos. Provavelmente 
o governador romano não tinha ideia do que Jesus quis dizer quan­
do afirmou: "Meu reino não é deste mundo", ou quando, no futu­
ro, Cristo iria conquistar — sem empregar os métodos que os impérios 
geralmente empregavam para expandir suas fronteiras, dos quais 
Roma era um ótimo exemplo. 
UMA CAUSA DIFERENTE 
Depois de dar a primeira parte de sua resposta, Jesus se moveu para 
a segunda parte. "Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim 
de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a 
minha voz" (Jo 18:37). 
Trata-se de uma das afirmações mais definidas de Jesus, tanto 
sobre sua missão como de sua condição suprema. Seu propósito em 
vir a este mundo era dar testemunho da verdade. Ele já sabia quem 
ele era. Seu testemunho era para nos revelar quem nós somos. Ape­
sar das pressões feitas por seus acusadores, suas respostas eram sem­
pre as mesmas. Sempre que ele falava, apresentava a verdade. 
Sua conversa teria colocado Pilatos numa situação singular na 
história, ao lado do que era correto, se ao menos ele fizesse a pergun­
ta e esperasse a resposta. Em vez disso, porém, numa atitude dramá­
tica, ele respondeu com impaciência à afirmação de Jesus de que 
todo aquele que está ao lado da verdade ouve sua voz: "Que é a 
verdade?" Tendo dito isso, se afastou. Não esperou uma resposta 
178 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
e provou o ponto de Jesus que não estava realmente buscando a ver­
dade. 
Pilatos saiu do saguão abruptamente e tentou libertar Jesus. Só 
queria sair de toda aquela situação. Ofereceu uma opção à multi­
dão. Devido ao costume da Páscoa, soltaria um prisioneiro à escolha 
do povo, podendo ser qualquer um. Esperava e provavelmente tinha 
certeza que escolheriam Jesus. No entanto, ele desconhecia a deter­
minação dos líderes religiosos. Em vez de pedir a libertação de Jesus, 
clamaram por Barrabás, preso por tomar parte numa rebelião políti­
ca. Este fato em si provava que não estavam contra Jesus por causa 
da sua rebelião contra Roma; pelo contrário, era a rebelião deles 
contra Deus que estava instigando suas paixões. Eis como a Bíblia 
conta a história, registrada emJoão 19:4-7: 
Outra vez saiu Pilatos e lhes disse: Eis que eu vo-lo apresento, 
para que saibais que eu não acho nele crime algum. Saiu, pois, 
Jesus trazendo a coroa de espinhos e o manto de púrpura. Disse-
lhes Pilatos: Eis o homem! Ao verem-no, os principais sacerdo­
tes e os seus guardas gritaram: Crucifica-o! Crucifica-o! Disse-lhes 
Pilatos. Tomai-o vós outros e crucificai-o; porque eu não acho 
nele crime algum. Responderam-lhe os judeus: Temos uma lei, 
e, de conformidade com a lei, ele deve morrer, porque a si mes­
mo se fez Filho de Deus. 
Depois a Bíblia acrescenta: 
Pilatos, ouvindo tal declaração, ainda mais atemorizado ficou, e, 
tornando a entrar no pretório, perguntou a Jesus: Donde és tu? 
Mas Jesus não lhe deu resposta. Então, Pilatos o advertiu: Não 
me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e 
autoridade para te crucificar? Respondeu Jesus: nenhuma auto­
ridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada; por isso, 
quem me entregou a ti maior pecado tem. 
João 19:8-11 
Finalmente Pilatos o entregou para ser crucificado. 
Em muitos aspectos, Pilatos era um personagem digno de pena, 
pois vivia cercado de temores por todos os lados. Tinha medo do 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O ' 179 
imperador romano, de que soubesse que não puniu devidamente 
alguém que representava uma ameaça para Roma. Tinha medo das 
implicações do que estava fazendo, porque sua esposa lhe dissera que 
tivera um sonho e que ele não devia ter parte na punição daquele 
homem inocente. Tinha medo do próprio Jesus, sem saber ao certo 
com quem estava lidando. 
Pilatos pode bem ser o exemplo quintessencial do que os políti­
cos podem se tornar. Ele sabia o que era certo, mas sucumbiu à 
sedução de sua posição.Nos mais severos testes de motivo da vida, 
há um político dentro de cada um de nós. Enquanto Pilatos era 
ignorante sobre o papel que estava desempenhando, os sacerdotes 
justificavam suas ações hediondas citando as Escrituras para susten­
tar sua causa. O propósito divino, a manobra política e o fervor 
religioso se encontraram no plano da redenção. 
Em primeiro lugar, Jesus veio ao mundo para ser o Cordeiro 
pascal de Deus. O mundo desejava explicá-lo à sua própria maneira. 
Ele se levantou em nome da graça de Deus e falou de misericórdia. 
Foi neste ponto que o Cordeiro de Deus começou a se mover para o 
momento de sua morte. 
Há quatro referências distintas ao silêncio de Jesus ao longo do 
seu julgamento, até sua morte. Vamos dar uma olhada. 
O primeiro ocorreu quando ele estava diante do Sinédrio, con­
forme relatado em Marcos 14:60. Depoimentos contraditórios fo­
ram apresentados por falsas testemunhas. As acusações nada 
acrescentaram, mas mesmo assim Jesus permaneceu em silêncio. A 
contradição em si deve ser um indício de mentira. Quando não é 
vista desta forma, a verdade e a confiabilidade morreram. 
O segundo silêncio ocorreu quando, na presença de Pôncio 
Pilatos, os sacerdotes repetiram as acusações de traição. Jesus não 
disse nada. Sabia que estavam determinados a crucificá-lo. E difícil 
trazer uma defesa contra a religião desprovida de verdade, especial­
mente quando é galvanizada por uma turba. Qualquer palavra que 
Jesus proferisse em sua defesa seria sem sentido. 
Creio que neste aspecto o comportamento de Jesus é um exem­
plo profundo. Era o silêncio da verdade em meio aos ruídos do ódio 
e do preconceito. Eu pessoalmente já passei por situações como esta 
180 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
e testemunhei o exemplo de outros. Aquele que fica em silêncio di­
ante dos escarnecedores ou de pessoas cheias de ódio expõe a capaci­
dade escandalosa do ódio e, em seu silêncio, fala em voz alta sobre o 
caráter de Deus. 
O terceiro momento de silêncio de Jesus foi diante de Herodes 
e seu grupo de zombadores. Eles queriam um show. A Bíblia diz: 
Herodes, vendo a Jesus, sobremaneira se alegrou, pois havia mui­
to queria vê-lo, por ter ouvido falar a seu respeito; esperava tam­
bém vê-lo fazer algum sinal. E de muitos modos o interrogava; 
Jesus, porém, nada lhe respondia.[...] 
Mas Herodes, juntamente com os da sua guarda, tratou-o com 
desprezo, e, escarnecendo dele, fê-lo vestir-se de um manto aparato­
so, e o devolveu a Pilatos. Naquele mesmo dia, Herodes e Pilatos se 
reconciliaram, pois, antes, viviam inimizados um com o outro. 
Lucas 23:8,9, 11,12 
Esta passagem conta uma história aterradora. Muitas pessoas 
desejam que Jesus não seja nada mais do que um operador de mila­
gres ou um showman. É irónico como dois inimigos se reconcilia­
ram mediante o propósito comum de acabar com ele. Será que algo 
mudou desde aquela época? 
A quarta vez que Jesus fez silêncio foi quando Pilatos ficou com 
medo, ao ouvir que ele afirmava ser Filho de Deus. "Donde és tu?", 
perguntou-lhe. Jesus, porém, ficou em silêncio. Já tinha dito a Pilatos 
de onde viera, mas o governador não teve coragem de acolher a 
resposta. 
No meio dessas respostas silenciosas, há um tesouro de reflexões 
de Deus para nós. 
U M P O D E R DIFERENTE 
Primeiro há o silêncio da bondade em face do mal orquestrado. Todo 
o episódio diante do Sinédrio era um esforço para culpá-lo. Eles 
conheciam seu poder. Ele conhecia a fraqueza deles. Eles conheciam 
a letra da lei. Ele conhecia o espírito do código moral. Eles não o 
conheciam. Ele os conhecia. 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O ' :: 181 
Sempre que o mal se organiza, sua ferocidade exala os aromas do 
inferno. Não há nada que possa aplacar sua fúria. Não pode ser 
parado até que alcance seus objetivos. Por isso o inferno não tem fim. 
Sua natureza é queimar por dentro, e nenhum consolo ou influência 
exterior pode mudar a impiedade que é inflamada por números. 
O segundo é o silêncio da percepção. Quando o mal se justifica 
posando como moralidade, Deus se torna o diabo e o diabo se torna 
Deus. Esta mudança torna o indivíduo insensível à razão. Sem dúvi­
da, os sumo sacerdotes representam esta categoria. Nada, absoluta­
mente nada que Jesus dissesse teria servido para convencê-los de quem 
ele realmente era ou teria feito com que se importassem. A capacida­
de de odiar e o amor que nutriam pela lei cerimonial excediam 
muito qualquer desejo de conhecer a verdade ou a bondade. 
Jesus sabia que o amor deles pela lei não era nada além do desejo 
de encontrar formas de manipular a legislação para servir aos seus 
próprios objetivos imorais. Sempre que a Escritura é citada para 
expressar o propósito de alcançar objetivos egoístas, a luz se transfor­
ma em treva. 
Em toda a literatura clássica, existem pouquíssimas passagens 
tão penetrantes e lúcidas quanto o retrato do Grande Inquisidor 
feito por Dostoievski em sua obra Os Irmãos Karamazov. Numa con­
versa com seu irmão mais novo, Alyosha, que tinha uma mente mui­
to mais espiritual do que a sua, Ivã, um ateu, estava contando como 
houve uma época em que ele próprio se preocupava com as questões 
espirituais. De fato, até escrevera um poema intitulado "O Grande 
Inquisidor". Este foi o nome que Iva dera a um velho cardeal que 
liderara a Inquisição espanhola. Alyosha pediu a Ivã que lhe falasse 
sobre o poema, e o irmão o narrou em forma de prosa. Este se baseava 
nos eventos do século XVI, na cidade espanhola de Sevilha, quando a 
Igreja estava queimando os "hereges". Depois de dar o panorama 
histórico, Ivã começa sua história. 
Em certo dia em que muitos hereges tinham sido torturados e 
queimados sob o comando furioso do Grande Inquisidor, subitamente, 
no meio de todos os sons e as visões horripilantes da tortura, uma 
figura surgiu e andou gentilmente no meio do sofrimento. 
182 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Ele se aproximou de leve, sem ser notado, c mesmo assim (é 
estranho dizer), todos o reconheceram... As pessoas eram irre­
sistivelmente atraídas a ele, cercavam-no e seguiam atrás dele 
em bandos. O sol do amor queimava em seu coração, luz e po­
der emanavam dos seus olhos, e o brilho deles, derramado sobre 
as pessoas, despertava em seus coraçõesuma resposta de amor. 
E óbvio que na narrativa de Ivã, esta figura é Jesus Cristo, cami­
n h a n d o com simplicidade ent te as pessoas. Subi tamente , o Grande 
Inquisidor chegou em sua carruagem e o viu. Reconhecendo q u e m 
era, imedia tamente m a n d o u que fosse preso e atirado na prisão. 
Naquela noite, lanterna na mão e embru lhado em seu casaco, ele foi 
visitar o prisioneiro. A conversa entre os dois é profunda: 
"És tu? És tu?" Sem receber resposta, ele acrescentou: "Não res­
ponda, fique em silêncio. O que podes dizer, de fato? Eu sei muito 
bem o que irias dizer. Tu não tens nenhum direito de acrescentar 
algo ao que disseste outrora. Por que, então, vieste nos atrapalhar? 
Pois vieste para nos atrapalhar, e tu sabes disso. Mas sabes o que 
acontecerá amanhã?... Eu o condenarei e o queimarei na fogueira, 
como o pior dos hereges. E, amanhã, as mesmas pessoas que 
beijaram tua face, ao meu sinal, correrão para aumentar as cha­
mas ao teu redor...". 
Quando o inquisidor cessou de falar, esperou um pouco para 
que seu prisioneiro respondesse. Sentia o silêncio pesando sobre 
si. Viu que o prisioneiro ouvira atentamente, olhando gentilmen­
te em seu rosto e não demonstrando nenhuma intenção de repli­
car. O velho ansiava que o prisioneiro dissesse algo, mesmo que 
fossem palavras amargas e terríveis. Subitamente, porém, o prisio­
neiro se aproximou em silêncio do Inquisidor e o beijou nos 
lábios pálidos. Aquela foi sua única resposta. O velho Inquisidor 
tremia. Seus lábios se moveram. Foi até a porta da cela, abriu-a e 
disse ao prisioneiro: "Vá embora e não volte mais ... Não volte, 
nunca, nunca mais!" E, assim, permitiu que ele saísse para as 
ruelas escuras da cidade.2 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O 183 
A genialidade de Dostoievski revela um entendimento brilhante 
do poder do milagre, mistério e autoridade. O Inquisidor vive em 
muitas mentes religiosas até os nossos dias. Clamamos a Jesus, mas 
não desejamos nenhuma resposta que acrescente algo às afirmações 
que ele já fez. Queremos que ele vá embora e não volte mais. 
Esta era a mentalidade dos líderes religiosos. O silêncio de Jesus 
era deliberado. Ele sabia o que seus inquiridores queriam. 
No entanto, seu silêncio não foi somente de caráter e percepção; 
foi também o silêncio da coerência. Por meio do seu silêncio ele nos 
ensinou como lutar contra a calúnia. Seu comportamento era coe­
rente com seu ensino. Ao longo dos anos, tenho percebido que de 
todos os exemplos que Jesus nos deixou, este é o que perdemos com 
maior facilidade, em face daquilo que é repreensível no comporta­
mento humano. Seu silêncio nos ensina que nem sempre a resposta 
está de acordo com a razão. Ceder à tentação de lutar contra a calú­
nia com palavras em muitos casos suja o caluniador e o caluniado. 
Portanto, escapar da calúnia é uma tarefa perigosa quando a própria 
acusação pode se tornar válida não por causa da verdade, mas devi­
do à falta de compostura que o indivíduo demonstra ao se defender. 
Jesus não cometeu esse erro. 
Alguém me contou sobre um incidente ocorrido alguns anos 
atrás. Como não estava presente, não fiquei sabendo de todos os 
detalhes. No entanto, recebi a mesma descrição dos fatos de várias 
fontes diferentes. Um líder cristão estava sendo vítima de falatórios 
por parte de alguns membros da igreja que desejavam que ele saísse. 
Não havia nenhum argumento decisivo que pudessem usar contra 
ele. Acusações leves e ridículas eram feitas com visível ferocidade e 
caíam todas no vazio. 
Relatos idênticos diziam que a expressão mais eloquente da situa­
ção foi o exemplo do líder, que se sentou silencioso diante dos seus 
acusadores, com lágrimas correndo pelo rosto. Não tinha nada a 
dizer e mesmo assim tudo estava sendo comunicado. A ira e os co­
mentários dos atacantes não eram nada mais do que o veneno mor­
tal de vidas mal direcionadas. Tais cenários devem nos ensinar o 
184 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
significado do verdadeiro poder. O homem que estava sendo acusado 
se identificava com Cristo diante dos seus inimigos. 
Finalmente, porém, temos de entender que o silêncio de Jesus 
era o silêncio da missão cumprida. Seu silêncio diante daqueles que 
haviam de tirar sua vida fora predito pelo profeta Isaías, 800 anos 
antes de acorrer: "Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a 
boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda 
perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca" (Is 53:7). 
A reação natural é falarmos em nossa defesa, mesmo quando 
estamos errados. Jesus ficou em silêncio, embora fosse inocente. Seu 
silêncio era por nós, porque agora ele se levanta diante do Pai em 
nosso favor. No cerne de todo esse episódio há uma verdade 
estabelecida por Deus antes da fundação do mundo. 
Na sua obra O Leão, a feiticeira e o guarda-roupa, C. S. Lewis 
escreveu uma passagem magnífica ilustrando este ponto. Aslan, o 
leão, é uma figura de Cristo. Uma das crianças, Edmond, tinha 
traído Aslan e colocara seus filhos em perigo, vendendo-os para a 
bruxa malvada, a Rainha de Narmia, a qual seduzira o garoto ofere-
cendo-lhe uma guloseima turca. De acordo com a lei, a traição devia 
ser punida com a morte. Havia somente uma forma de salvar 
Edmond: Aslan devia ser entregue nas mãos da rainha; de fato, este 
era o único objetivo dela. 
Quieto e sem esboçar resistência, o poderoso Aslan submeteu-se 
às exigências da rainha. Depois de ser humilhado, foi amarrado so­
bre uma mesa de pedra (que representava a lei) e foi morto. As irmãs 
de Edmond, Lucy e Susan, sentiram-se totalmente desamparadas, 
ao chorar a morte do amigo. Subitamente, Aslan apareceu diante 
delas, triunfante sobre a morte. "O que significa tudo isso?", elas 
perguntaram. 
Neste ponto da história, Lewis faz sua brilhante observação: 
"Significa", disse Aslan, "que embora a rainha conheça a Grande 
Mágica, há uma mágica ainda maior que ela não conhece. O co­
nhecimento dela remonta apenas ao alvorecer do Tempo. Mas se 
ela pudesse olhar um pouco mais para trás, para a quietude e a 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O ; 185 
escuridão que precederam a alvorada do Tempo, teria visto um 
encanto diferente. Ela saberia que quando uma vítima voluntária 
que não cometeu traição fosse morta no lugar de um traidor, a 
Mesa racharia e a própria Morte retrocederia".3 
Este encanto ao qual Lewis se refere é a vontade anterior de 
Deus, que Aquele que não conheceu pecado entregaria voluntaria­
mente sua vida para pagar o preço do pecado. A Palavra de Deus se 
cumpriu, conforme fora prometido. 
UMA FORMA DIFERENTE 
Será que o silêncio de Jesus, com todas as implicações que já men­
cionamos, revela um contraste com outros em situações similares 
que reivindicavam status divino ou profético? Sim. E de forma dra­
mática. Ele veio com uma mensagem e um método que aborda três 
diferenças significativas nos indivíduos e na sociedade. Refiro-me a 
conversão, compulsão e revelação. Como a fé cristã é única? 
Primeiro vem a questão da conversão. A mensagem de Jesus 
revela que cada indivíduo, seja judeu, grego, romano ou de qual­
quer outra civilização, chega ao conhecimento de Deus não em vir­
tude do nascimento, mas mediante uma escolha consciente de 
permitir que ele assuma o governo de sua vida. O reino de Jesus não 
é deste mundo; nossa hetança em seu reino não é um mundo no 
qual entramos mediante o nascimento físico. 
E importante entendermos este ponto. Vivemos numa época 
em que vozes iradas exigem com crescente insistência que não deve­
mos propagar o evangelho, que não devemos considerar as pessoas 
"perdidas" só porque não são "cristãs". "Todos nós nascemos em 
diferentes crenças e, portanto, devemos continuar assim" — é o que 
diz a "sabedoria" tolerante do nosso tempo. Mahatma Gandhi, por 
exemplo, condenou veementemente a ideia da conversão. Quando 
as pessoas fazem estas afirmações, esquecem ou não sabem que 
ninguém nasce cristão.Todos os cristãos o são em virtude da conver­
são. Pedir aos cristãos que não alcancem mais ninguém que seja de 
outra crença é pedir que neguem sua própria fé. 
186 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Dizem que um dos principais "santos" da índia, Sri Ramakrishna, 
já foi muçulmano, foi cristão e finalmente voltou a ser hindu, porque 
chegou à conclusão de que tudo é o mesmo. Se é tudo o mesmo, por 
que ele voltou ao hinduísmo? Dizer que todas as religiões são iguais 
simplesmente não é verdade. Nem mesmo o hinduísmo é igual in­
ternamente. Assim, negar ao cristão o privilégio da propagação é impor 
sobre ele as crenças fundamentais de outras religiões. 
Desde que a conversão é individual e não ocorre em virtude do 
nascimento, isso nos leva à próxima questão, a compulsão. O ensino 
de Jesus é claro. Ninguém deve ser compelido a se tornar cristão. 
Este fato estabelece uma profunda distinção entre a fé cristã e o 
islamismo. Em nenhum lugar onde as pessoas que professam a fé 
cristã são a maioria é ilegal propagar outra fé. Não conheço nenhum 
país do mundo onde alguém seja perseguido pelas autoridades por 
renunciar à fé cristã. Apesar disso, há numerosos países islâmicos 
onde é ilegal proclamar publicamente o evangelho de Jesus Cristo, e 
onde um muçulmano que renuncia à sua crença no Islã para crer em 
outra coisa corre risco de vida. A liberdade de criticar o texto do 
Alcorão e a pessoa de Maomé é proibida por lei e considerada como 
blasfémia, com pesados castigos. Devemos respeitar a preocupação 
de uma cultura em proteger aquilo que considera sagrado, mas tor­
nar a fé em Jesus Cristo obrigatória é uma prática estranha ao evan­
gelho e esta é uma diferença vital. O contraste é claríssimo. 
E na questão da conversão e da compulsão que emerge a teoria 
política. Como já afirmei antes, o evangelho não deve se propagar 
na ponta de uma espada. Quando a cristandade apela para tais mé­
todos, não é o evangelho de Jesus Cristo que é difundido, mas uma 
teoria política que emprega o evangelho para beneficiar instituições 
e indivíduos com sede de poder. As pessoas têm medo (o que é 
compreensível) quando percebem que a religião trabalha junto com 
o controle político. O método de Jesus era tocar o coração dos indi­
víduos de modo que respondessem a ele por amor e não por 
compulsão ou controle. 
Faça um contraste com a prática de Maomé. De qualquer forma 
que interpretemos, a espada e a guerra são parte integrante da fé 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O .• 187 
islâmica. Mesmo os melhores apologistas do Islã reconhecem o uso 
da espada em sua religião, mas atenuam o fato dizendo que em 
todas as ocasiões foi com propósitos defensivos. Sugiro que o leitor 
dê uma olhada no Alcorão e na história do islamismo e veja por si 
mesmo se não é assim. 
Quanto às execuções realizadas a pedido de Maomé, seus defen­
sores argumentam que não foram ordenadas por ele, mas realizadas 
em seu favor. Novamente, recomendo que o leitor leia a narrativa 
para ver se esta defesa é coerente com os registros históricos. 
No entanto, mesmo os melhores apologistas muçulmanos são 
pressionados ao navegar por uma injunção do próprio Maomé para 
matar, ilustrada num verso do Alcorão, conhecido como o ayatus-
saif, ou "o verso da espada". 
Mas quando os meses proibidos passam, então lute e mate os idó­
latras onde encontrá-los; pegue-os e prepare para eles uma embos­
cada. Mas se eles se arrependerem e passarem a adorar e a pagar o que 
devem aos pobres, então deixem o caminho deles livre {Surah 9.5). 
Um erudito muçulmano seleciona esta passagem e faz o seguin­
te comentário: 
Um traidor culpado de alta traição é um fora da lei e pode ser 
morto por qualquer um, sem qualquer autoridade especial. Que 
Deus nos guie à verdade e espalhe a paz e a unidade na humanida­
de!4 
Não falarei mais sobre esta questão complicada e polemica por­
que qualquer comentário pode suscitar sentimentos negativos, e este 
não é meu desejo. O que se pode ver claramente é isto. Cristianismo 
e islamismo concordam com uma coisa: a verdade é suprema; entre­
tanto enxergam a verdade revelada em sua forma final em pessoas 
diferentes - o islamismo vê a verdade em Maomé e o cristianismo a 
vê em Jesus Cristo. Por isso se faz necessário uma comparação entre 
ambos. 
Assim, chegamos à última questão. No âmago de tudo isso há 
um assunto. O silêncio de Jesus não significa que ele não fala. Ele nos 
188 \ POR QUE JESUS É DIFERENTE 
lembra que já falou em sua Palavra, a Bíblia. Aqui, a fonte final de 
autoridade é realmente divergente das outras convicções religiosas. 
O muçulmano vê o Alcorão como a revelação final e perfeita de 
Alá. Alá era o revelador e Maomé era o receptor e as palavras lhe 
foram ditadas. Maomé, então, é para eles o último e o maior de todos 
os profetas. A prova dessa supremacia é a beleza do Alcorão. Ele é o 
livro, considerado a expressão suprema da perfeição e o repositório da 
verdade. 
A dificuldade aqui é multiforme. Como alguém pode sustentar 
que este texto é perfeito? Vamos considerar só mais um aspecto pro­
blemático: as falhas gramaticais que foram encontradas. Ali Dashti, 
um escritor iraniano e muçulmano fervoroso, comentou que os er­
ros no Alcorão eram tão abundantes que as regras gramaticais tive­
ram de ser alteradas para poderem manter a afirmação de queele era 
perfeito. Ele dá numerosos exemplos desses erros em seu livro Vinte e 
três anos: A vida do profeta Maomé (a única precaução que ele to­
mou antes de publicar o livro foi pedir que fosse publicado postu­
mamente) . 
Outro problema que os antigos compiladores do Alcorão enfren­
taram foi o número de variações de alguns textos importantes. Agora, 
em épocas mais recentes, os eruditos começaram a olhar o Alcorão e a 
levantar algumas questões bem sérias concernentes à sua origem e 
compilação. Este fato deixa muitos eruditos islâmicos lutando para 
encontrar uma resposta.5 
Temos de concordar que o estilo poético do Alcorão é lindo. A 
mente pragmática pós-moderna tem muito a aprender sobre o lugar 
da beleza no discurso. Entretanto, a questão diante de nós é se este 
livro pode ser considerado como a Palavra de Deus. Também, con-
siderando-se que o Islã afirma que Maomé era o profeta do mundo, 
o "milagre" limita-se a uma língua, sendo que uma porção significa­
tiva dela é considerada incompreensível, mesmo para aqueles que a 
conhecem. Em outras palavras, para vermos de fato o milagre, te­
mos não somente de falar árabe, mas também precisamos ter um 
profundo conhecimento da língua. Tal reivindicação é estreita e alta­
mente restritiva. 
Q U A N D O D E U S FEZ S I L Ê N C I O •:. 189 
Quanto à verdade no hinduísmo, o terreno se torna extrema­
mente pedregoso. Gandhi, por exemplo, disse: "Deus é a verdade e a 
verdade é Deus".6 Entretanto, o que isso quer dizer? Não responde à 
pergunta mais fundamental: se a existência de Deus é verdadeira ou 
falsa. Shankara, um dos principais expoentes do hinduísmo, fugiu 
da questão dizendo que embora uma pessoapossa adorar a Deus, esta 
é apenas uma forma inferior de expressar a verdade. Em última aná­
lise, o adorador se move para a verdade suprema que ele é idêntico a 
Deus. O fundamento é que os hindus apontam suas escrituras como 
a verdade. Neste ponto o desafio é bem complexo. 
As escrituras hindus na verdade são divididas em duas categorias 
amplas — Smriti e Sruti. A primeira significa "aquilo que é lembra­
do". Os autores são muitos e as afirmações que fazem são diametral­
mente opostas. Neste conjunto estão as especulações dos sábios 
indianos, abrangendo desde o profundo até o bizarro, o que eles 
mesmos admitem. Sruti, por outro lado, significa "aquilo que foi 
revelado". Trata-se da revelação eternamente verdadeira do hindu 
devoto. 
Se esta revelação é eternamente verdadeira, então a religião não 
pode afirmar que todos os caminhos são verdadeiros pela simples 
razão que algumas religiões negam a veracidade eterna dos Vedas. 
Muçulmanos, budistas e cristãos negariam tal afirmação.Para dizer a 
verdade, até mesmo alguns eruditos hindus negariam tal reivindica­
ção. Ou a negação deles é verdade, ou a afirmação do hinduísmo é 
verdade. 
No entanto, há uma questão mais profunda. Se "aquilo que foi 
revelado" é a autoridade eterna, então a questão lógica para o 
panteísmo, o qual afirma que tudo é um, é: Quem faz a revelação? A 
simples tentativa de responder a esta pergunta exigiria outro livro. 
Algumas palavras de Sri Ramakrishna revelarão o problema: 
Somente Deus é, e é ele quem se torna este universo ... "Como a 
serpente eu mordo, como o curandeiro eu curo". Deus é o ho­
mem ignorante e Deus é o homem esclarecido. Deus, como o 
homem ignorante, permanece enganado. Novamente, como o 
guru, ele dá esclarecimento a Deus no ignorante.7 
190é compreensível. No entanto, como ele poderia ser mais específico, 
para que vissem claramente quem era? 
O caminho desta questão se expande por toda a existência hu­
mana e retrocede através dos milénios até outro cenário, quando os 
primeiros seres humanos foram colocados num jardim e surgiram as 
questões da vida e da morte. Num resumo, a história de Jesus de 
194 POR QUE JESUS E DIFERENTE 
Nazaré poderia ser contada rapidamente ao redor do cenário de qua­
tro jardins. Escolhi este esquema no qual desejo apresentar algumas 
das evidências mais convincentes da unicidade de Jesus Cristo na 
história e nas religiões do m u n d o . 
E S C O N D E N D O PARA P R O C U R A R 
Mui tos anos atrás, os filósofos A n t h o n y Flew e John W i s d o m esbo­
çaram u m a parábola, apresentando a questão da existência de Deus 
da seguinte forma: 
Certa vez, dois exploradores chegaram a uma clareira na selva. 
Ali, crescendo lado a lado, havia muitas flores e muita erva dani­
nha. Um dos exploradores exclamou: "Deve haver um jardineiro 
cuidando deste lugar!" Por isso, eles armaram suas barracas e 
ficaram observando. 
Embora tivessem esperado vários dias, não apareceu nenhum 
jardineiro. 
"Talvez seja um jardineiro invisível", eles pensaram. Por isso, 
cercaram a clareira com arame farpado e cerca eletrificada. Tam­
bém patrulharam o jardim com ca.es, pois lembraram que o "ho­
mem invisível" de H. G. Wells podia ser farejadove tocado, embora 
não pudesse ser visto. No entanto, nenhum som sugeria que 
alguém tivesse recebido um choque elétrico. Nenhum movi­
mento na cerca denunciava a passagem de uma figura invisível. 
Os cães jamais deram alarme. Mesmo assim, o explorador mais 
crédulo continuava com a convicção de que havia de fato um jar­
dineiro. 
"Deve haver um jardineiro, invisível, intocável e que não sente 
choque elétrico; um jardineiro que não tem cheiro e nem faz ne­
nhum ruído, um jardineiro que vem aqui secretamente para 
cuidar do jardim que ama." 
Finalmente, o explorador cético se desesperou: "Mas o que 
sobra da sua afirmação original? Qual é a diferença entre aquilo 
que você chama de jardineiro invisível, intangível e eternamente 
oculto e um jardineiro imaginário ou nenhum jardineiro?"1 
http://ca.es
E X I S T E UM J A R D I N E I R O ? 195 
O ponto principal da parábola é claro. Quantas vezes não disse­
mos a nós mesmos que precisávamos ver Deus, só para termos certeza 
de que ele realmente existe? No entanto, apesar de toda a nossa espe­
ra e investigação, como os exploradores à procura do jardineiro, nós 
não o vemos, mas mesmo assim insistimos que está lá. Os ateus olham 
e imploram: "Mostrem-nos Deus". Nossas respostas parecem evasi­
vas porque não temos nenhum corpo visível para mostrar. Flew e 
Wisdom fazem uma pergunta: Qual é a diferença entre um jardinei­
ro invisível e oculto e nenhum jardineiro? E uma boa pergunta. 
O filósofo John Frame respondeu com um brilhante contraponto. 
Eis aqui a sua parábola: 
Certa vez, dois exploradores chegaram a uma clareira no meio da 
selva. Havia um homem ali, arrancando ervas daninhas, aduban­
do a terra e podando os ramos das plantas. O homem se voltou 
para os exploradores e se apresentou como o jardineiro real. Um 
explorador apertou sua mão e trocou com ele algumas amenida­
des. O outro explorador ignorou o jardineiro e se afastou. 
"Não deve haver nenhum jardineiro nesta clareira", ele dis­
se. "Deve ser algum truque. Alguém está tentando boicotar nos­
sa descoberta." 
Eles armaram acampamento. Todos os dias o jardineiro che­
gava para cuidar do jardim. Logo todo o local estava cheio de flo­
res lindas. O explorador cético, porém, insistia: "Ele só está 
fazendo isso porque nós estamos aqui — quer nos enganar, para 
que pensemos que aqui é o jardim real". 
Um dia, o jardineiro levou os dois ao palácio real e apresen-
tou-os a vários oficiais que comprovaram suas credenciais. O 
cético, então, fez uma última tentativa: "Nossos sentidos estão 
nos enganando. Não existe jardineiro, nem flores, nem palácio 
e nem oficiais. E tudo uma farsa!" 
Finalmente o explorador crédulo se desesperou: "Mas o que 
fica da sua afirmação original? Qual é a diferença entre uma mira­
gem e um jardineiro real?"2 
O ponto de John Frame também é bastante claro. Há tanta 
inteligibilidade e complexidade neste mundo que tentar dar uma 
196 •.'„'•• P O R Q U E JESUS É DIFERENTE 
explicação sem reconhecer que há uma inteligência por trás de tudo 
parece um preconceito deliberado. Será que a moralidade, a perso­
nalidade e a realidade podem ser explicadas racionalmente sem uma 
primeira causa pessoal e moral? Como alguém pode explicar alguns 
aspectos do jardim sem reconhecer que há um jardineiro? Que tipo 
de prova da existência de um jardineiro bastará? E se o jardineiro 
viesse, fosse visto e desejasse que nossa confiança em seu trabalho 
não dependesse apenas da visão direta, porque a essência do nosso 
relacionamento não é a constância da visão e da intervenção, mas a 
firmeza da confiança e da suficiência? 
Onde nós ficamos, na lacuna entre as duas parábolas? Será que a 
evidência da existência de Deus é apenas uma questão de ponto de 
vista? Será que cada lado pode simplesmente rechaçar o outro e dei­
xar assim? E interessante que a última questão que os discípulos ou­
viram quando procuravam por Jesus responde às questões levanta­
das nessas parábolas. Há um jardineiro na combinação de flores e 
ervas daninhas que chamamos de planeta Terra? 
Este é um caminho complicado. No entanto, quando chegamos 
ao final, a razão da jornada pode abrir novos horizontes. O objetivo 
será ver se ele falou ou não conosco e como Cristo revela Deus a nós. 
C O M E Ç O U N U M JARDIM 
A narrativa bíblica começa com as palavras "No princípio". O foco 
move-se rapidamente para o mundo que Deus criou, sendo que o 
ponto culminante foi a criação do homem e da mulher. O contexto 
mostra um mundo de relacionamentos, propósitos e beleza, com as 
leis naturais estabelecidas e o cuidado do jardim confiado ao ser hu­
mano. 
Tragicamente, o naturalismo (toda a realidade é explicada em 
termos naturais) e o teísmo discordam quanto a esses versículos de 
abertura da Bíblia. Em vez de compreenderem a intenção e o con­
texto daqueles para quem a revelação foi dada, os naturalistas zom­
bam da descrição bíblica dos atos de criação de Deus como uma 
ofensa à sofisticação científica. No outro extremo estão os teístas que 
EXISTE UM JARDINEIRO? 197 
tentam fazer com que o registro da criação pareça uma disserta­
ção cosmológica e depois se debatem para defendê-la. 
Nenhuma porção das Escrituras jamais reivindicou ser material 
técnico científico e nem tencionou satisfazer a mente técnica. Já 
ouvi muitos iconoclastas populares ridicularizarem a antiga crença 
de que a terra era chata e a crença de que o mundo foi criado em 
4004 a .C , declarando que essas afirmações são ensinadas na Bíblia. 
Nunca param para provar suas afirmações mostrando onde leram 
essas coisas na Bíblia. 
Desde o histórico e histriónico julgamento Scopes em 1925, 
qualquer discussão entre um teísta e um ateísta sobre a questão das 
origens é tratada como se somente um tolo defenderia a origem 
sobrenatural do mundo como sendo plausível. Com frequência es­
ses fatos são trazidos às conversas, fustigando a visão cristã das ori­
gens. Eu descobri que muitos daqueles que falam sobre isso nunca 
leram o script e o contexto em volta do julgamento (quando muito, 
assistiram ao filme). 
Neste capítulo final, não é minha intenção reabrir o conflito, 
porque há excelentes livros que trazem o debate para o diálogo dos 
nossos dias. No entanto, esta afronta nas mãos de opositores com­
petentes ainda pesa sobre nós como uma mortalha. Quero retornar 
só por um motivo a esta questão para destacar a falácia e o precon­
ceito mostrados na época dos eventos e mantidos até agora. Se a 
mesa fosse virada e os métodos empregados na época contra os teístasfossem usados contra os naturalistas, o escárnio seria mais alto. 
U M A PÁGINA D O PASSADO 
Qual foi a falácia? Vamos começar pelos antecedentes. O julgamen­
to ocorreu em Dayton, Tennessee, em 1925. Os ânimos estavam 
exaltados, com a mídia assumindo o controle e transformando toda 
a questão num grande entretenimento. Como era de se prever, o 
ponto principal foi menosprezado. Havia tantas questões interliga­
das que ficamos nos perguntando se o cenário, os argumentos e o 
processo tinham algo a ver com os detalhes específicos do caso. Se 
fôssemos analisar hoje o questionamento a que William Jennings 
198 POR QUE JESUS E DIEERENTE 
Bryan foi submetido por Clarence Darrow, veríamos claramente que 
as respostas de Darrow teriam sido consideradas no mínimo pouco 
convincentes. Todo o seu esquema consistiu em persuadir Bryan a se 
levantar em defesa dos milagres e em seguida destruí-lo. Bryan pen­
sou que estava acabado e para ele, era o equivalente a fazer O. J. 
Simpson provar a luva encontrada pela polícia. Os elementos sobre­
naturais das Escrituras, apresentados como caricaturas por Darrow, 
não se encaixavam no esquema "científico" e por isso Bryan pareceu 
esfarrapado e derrotado. 
Entretanto, será que era realmente a forma de se determinar se a 
Bíblia é confiável como documento das origens? Eis aí a falácia. Será 
que as particularidades de uma cosmovisão podem ser defendidas 
sem primeiro se defender a própria cosmovisão? A forma como um 
elemento tão tendencioso pode ser tomado como prova definitiva 
desafia a lógica. Qualquer advogado brilhante pode dizer que na 
maioria dos julgamentos, quando somente fatos selecionados têm 
acesso ao tribunal, qualquer um que saiba jogar bem com as pala­
vras pode criar uma farsa. A mídia só intensifica as coisas. 
Pense sobre isto. Uma das questões para as quais Darrow exigiu 
uma resposta de William Jennings Bryan foi onde Caim conseguiu 
sua esposa. Poderia ser uma pergunta legítima se fosse permitido 
que primeiro a Bíblia fosse defendida em sua intenção e conteúdo e 
se a afirmação também contivesse todos os detalhes de como come­
çou a reprodução humana. No entanto, nada disso foi feito. Por 
isso, vamos reverter o inquérito e desafiar os naturalistas a responder 
à mesma pergunta. Como o primeiro Homo sapiens arranjou "seu" 
parceiro (ou "sua" parceira")? Toda a orientação dos nossos valores 
baseia-se em como respondemos a essa pergunta. Será que Darrow 
daria uma resposta persuasiva? 
Como a sexualidade humana e o casamento emergem no esque­
ma da evolução? Eu gostaria de pedir a Darrow que explicasse como 
o "Big Bang conseguiu atribuir à sexualidade a enorme combinação 
de intimidade, prazer, realização, concepção, gestação, nutrição e 
expressões supremas de amor e de cuidado. Tudo isso ocorreu a par­
tir de uma explosão singular? Em nenhuma outra disciplina tanta 
E X I S T E UM J A R D I N E I R O ? 199 
informação pode ser catalogada sob a nomenclatura do acaso. No 
caso de Darrow não conseguir elaborar uma resposta, posso ajudá-lo 
até com as pesquisas mais modernas. 
William Hamilton, de Oxford, oferece uma teoria (esta é séria, 
diga-se de passagem): "O sexo serve para combater os parasitas". Quer 
dizer, nas regiões de clima quente, onde parasitas microscópicos 
ameaçam a saúde dos hospedeiros, estes solapam o poder das pragas 
por meio do sexo e da procriação. Para isso serve o sexo: para estar­
mos na frente na corrida das espécies!3 
Uau! Como as prescrições de hoje são diferentes das antigas 
curas das pragas. Imagine o que os humoristas não fariam com essas 
informações!... As piadas serão mais hilárias do que o engano colo­
cado diante de Bryan. 
A pequena quantidade de argumentos oferecidos como base para 
a verdade sobre a qual tudo isso é montado é um processo ilícito no 
qual tudo pode parecer absurdo. Não podemos formar uma conclu­
são sobre a presença de um jardineiro estudando apenas um arbusto. 
Há muito mais. 
Aqui vemos numa pequena escala o que realmente devia ser o 
ponto principal. Um olhar no resumo do julgamento mostra onde 
está o verdadeiro preconceito, como ele se apresenta hoje. No tercei­
ro dia de julgamento, o juiz pediu a um pastor presente que fizesse 
uma oração de abertura. A polemica que se seguiu foi semelhante a 
um circo. No entanto, a despeito da forte objeção de Clarence 
Darrow, o juiz permitiu a oração. Então a equipe de advogados de 
Darrow reuniu um grupo de pastores e pediu que assinassem uma 
petição protestando contra a oração, com base na afirmação de que 
as convicções teológicas particulares deles não foram representadas. 
A objeção foi negada. Finalmente, eles apresentaram outra petição 
assinada por dois pastores unitarianos, um pastor congregacional e 
um rabino. O documento declarava que Deus se revelara igualmente 
na Palavra escrita e nas maravilhas do mundo; daí, uma oração que 
não refletisse esta verdade era abominável para eles. 
Só nos resta sacudir a cabeça, sem acreditar. E irónico que as 
"maravilhas do mundo" fossem colocadas em pé de igualdade com a 
200 •:" = POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Palavra de Deus, enquanto o caso que estava sendo julgado era se as 
maravilhas requeriam uma explicação natural ou sobrenatural. Veja 
bem, a verdadeira questão não era como explicar o mundo material. 
A verdadeira questão era se Deus tinha falado por meio de lingua­
gem assim como se revelava por meio da natureza. 
Novamente surgiu a ideia do Éden - "Deus realmente disse aqui­
lo?" Será que há somente o jardim para olharmos, ou há também 
uma voz por meio da qual o jardineiro fala? 
Da mesma maneira que ocorreu naquele julgamento, nós traze­
mos este preconceito para Génesis e achamos que somos capazes de 
decidir se Deus agiu em seis dias ou se precisou de quinze bilhões de 
anos. De maneira alguma esta era a intenção. Os quatro principais 
pensamentos do texto de Génesis se perderam no meio do volume 
dos debates fúteis. A principal ênfase nas páginas de abertura de 
Génesis é que Deus é o Criador e que ele é pessoal e eterno — um 
Deus vivo que se comunica. A segunda ênfase é que o mundo não 
surgiu por acidente, mas foi designado tendo-se o homem em men­
te - o homem é um ser inteligente e espiritual. A terceira é que a 
vida não pode ser isolada, mas deve ser vivida em companheirismo -
o homem é um ser dependente e criado para o relacionamento. A 
quarta é que o homem foi formado como uma entidade moral com 
o privilégio da autodeterminação — é um ser racional e responsável. 
Há três relacionamentos envolvidos: entre o homem e Deus - a 
santidade da adoração; do homem com seu cônjuge e com seu pró­
ximo - a santidade do relacionamento; e do homem com a ordem 
criada — a santidade da mordomia. Sobre e a partir do primeiro 
fluem os outros dois. 
Se esta ordem for contrastada com o que dizem os naturalistas, 
surge o seguinte padrão. O universo impessoal trouxe a si mesmo à 
existência e apenas aconteceu, atingindo as condições nas quais a 
vida podia surgir — a eliminação de todo propósito supremo. Em 
algum momento, para driblar as doenças, a destruição e para sobre­
viver, a procriação trouxe a multiplicação - o materialismo do sexo 
amoral. Foram criados códigos mutuamente benéficos — a natureza 
cultural e relativa da moralidade. 
E X I S T E UM J A R D I N E I R O ? 201 
Cada afirmação desse paradigma vai contra a razão e a intuição. 
São incoerentes em termos científicos e existenciais. Pegue a primei­
ra delas. Não se tem notícia de que o nada tenha criado alguma 
coisa. Será que alguém pode explicar cientificamente como um esta­
do de nada absoluto pode criar processos e resultados inteligentes? 
Embora possamos discordar dos processos, o fato é que vivemos 
num universo ontologicamente assombrado. Quero dizer que a cau­
sa suprema do nosso ser e do nosso modo de pensar exige que aquilo 
que somos e como nos tornamos não podem ser explicados como 
simplesmente "aconteceu". Há inteligibilidade correndo por nossas 
veias, e não podemos fugirem pé à nossa porta, desejando ter 
pelo menos um minuto de conversa com meu pai. Ele tinha o con­
trole de muitos empregos e contatos. Torcendo as mãos, elas implo­
ravam por uma chance num emprego. Enquanto se encaminhava 
para o carro, ele assentia com a cabeça, como se estivesse dizendo: 
"Deixe comigo". Na verdade, muitas pessoas eram beneficiadas com 
suas conexões. Seu nome era proferido com respeito por causa desse 
poder. Será que algum dia eu não poderia tirar proveito dessa in-
E S C A L A N D O UM ALTO M U R O 25 
fluência? No entanto, muitas coisas impediam uma resposta simples 
a esta questão. 
Além do mais, meu pai tinha um lado difícil de lidar. Apesar de 
sua posição de influência, ele lutava contra um temperamento explo­
sivo. Minha falta de objetivo criava uma situação de crise iminente. 
Essa combinação de elementos nos levou a um relacionamento lasti­
mável. Sempre serei grato a Deus porque a situação não terminou 
como começou. 
Enquanto meu pai desejava que eu tivesse uma carreira brilhan­
te, tudo o que me interessava eram os esportes - uma paixão pela 
qual ele não demonstrava nenhum interesse. Ele tinha uma opinião. 
Todo garoto sonhava em ser um jogador de críquete e jogar na sele-
ção nacional, como todo jovem sonharia em jogar na seleção nacional 
de futebol. No entanto, eu demonstrava certa habilidade e prometia. 
Participei de muitos esportes no tempo da faculdade: críquete, hó­
quei, ténis e ténis de mesa; nenhuma vez meu pai foi assistir, embora 
eu tivesse participado de jogos importantes. Nós caminhávamos em 
direções diferentes. 
Naqueles anos, eu jamais perdi o respeito por ele. Até hoje creio 
que meu pai foi um bom homem, ou até um grande homem; só que 
não sabia como lidar com uma criança problemática. Eu, por meu 
lado, me fechava e convivia com a dor. Com o passar dos anos, passei 
a acreditar que essas coisas são mais importantes do que as pessoas 
comuns imaginam, mas talvez menos importantes do que os extre­
mistas querem nos levar a acreditar. De alguma forma aprendemos a 
superar, exceto quando tais situações nos empurram para o extremo 
da auto-rejeição e nos deixam mais vulneráveis quando os sonhos são 
desfeitos. 
Deixe-me ilustrar este ponto. 
Alguns anos atrás, recebi a visita de um ex-atleta olímpico. Ele 
estava buscando direção para sua vida. Era um homem forte e bem 
constituído. Era um privilégio ficar perto dele — na esperança de que 
músculos fossem contagiosos! 
Ele contou sobre a época em que representava seu país nos Jogos 
Olímpicos. Era uma história de sonhos que tinham lutado contra 
26 POR QUE JESUS F, DIFERENTE 
um pesadelo em potencial. Desde os doze anos, as Olimpíadas tor-
naram-se seu grande alvo. Todo o dinheiro que ganhava era investido 
na esperança de um dia ganhar uma medalha de ouro no evento que 
adorava. Concentrava-se totalmente nesse alvo. Era o que queria. No 
entanto, ele tinha um relacionamento turbulento com o pai, o qual 
não compartilhava dos seus sonhos; por isso, o rapaz tinha de conse­
guir o dinheiro sozinho. 
Quando ele tinha dezessete anos, filmou o campeão mundial da 
sua modalidade e estudou o filme quadro a quadro, prestando aten­
ção em cada gesto, para aprender suas técnicas. Depois, filmou a si 
próprio realizando os mesmos movimentos e comparou os dois fil­
mes, nos mínimos detalhes, detectando exatamente onde estava per­
dendo os preciosos segundos que separavam sua marca da marca do 
campeão; decidiu igualar as marcas. Por meio de enorme força de 
vontade, disciplina e coragem, seu objetivo ficou ao alcance das mãos. 
Ele foi convocado para fazer parte da seleção nacional nos Jogos 
Olímpicos e subitamente parecia que sua vida flutuava sobre uma 
nuvem. Venceu todas as provas classificatórias e emergiu como reve­
lação e vencedor potencial das finais. Será que era realidade, ou era 
um sonho? Era real — ele ficava repetindo para si próprio. 
Ele ficou entre os finalistas, e todo o seu país estava assistindo. 
Milhões de pessoas estariam gritando seu nome, com o coração aos 
saltos, esperando ler nas manchetes do dia seguinte a história do 
"menino do interior". De fato, lembro que também assisti ao even­
to. A corrida estava para começar. Era o momento que aquele rapaz 
esperara a maior parte de sua vida. Entretanto, sua mente, com toda 
sua tenacidade e determinação, abrigava também anseios secretos. 
Ele me disse: —Vindo não sei de onde, um pensamento subita­
mente inundou minha mente: Será que meu pai está assistindo? 
Aquele pensamento inesperado o deixou momentaneamente ator­
doado, atrasando por uma fração de segundos sua largada, privan-
do-o de conquistar a medalha de ouro. Com grande esforço ele ainda 
conseguiu ganhar o bronze. Ser o terceiro homem mais veloz do 
mundo não é pouca coisa. Entretanto, para ele, a vitória na pista 
perdeu seu encanto quando teve de disputar com o maior anseio de 
E S C A I A N D O UM ALTO MURO 2 7 
sua vida - a aprovação de quem ele amava. Aquele atleta olímpico 
não imaginava como meu coração se acelerava ao ouvir sua história. 
Eu o compreendia bem. 
Os sonhos dos jovens podem ser estranhos, mas eles não serão 
corrigidos sendo ridicularizados. Devem ser incentivados por uma 
voz amorosa que conquistou o direito de ser ouvida e não imposta 
por meio do poder. Esta é uma lição difícil para os pais. Quando a 
cultura perde seu poder de restringir, há uma maior necessidade de 
amor e respeito entre pais e filhos, para que se construa um relacio­
namento baseado na confiança e não na autoridade que emana da 
posição de força. 
Provavelmente as palavras mais duras que ouvi meu pai me di­
zendo foram: "Você nunca será nada na vida!" Francamente, parecia 
que ele tinha razão. Ele queria apenas me fazer enxergar a realidade. 
O consolo da minha mãe só me ajudava a sobreviver. Nesse sentido, 
aquele dia fatídico quando cheguei em casa de bicicleta foi o ponto 
crítico no qual deveríamos ter sentado e conversado. Contudo, su­
ponho que a liberdade de conversar não emerge num vácuo. O 
momento da oportunidade é construído sobre horas gastas na pre­
paração. 
O N D E PROCURAR, PARA P O D E R ENCONTRAR? 
Nosso relacionamento tenso tornou-se ainda pior mediante um pen­
samento fundamental. Se a vida não tinha propósito, por que então 
se preocupar com ela? Quando eu falo sobre propósito e significado, 
não me refiro apenas a um sentimento de paz existencial. Refiro-me 
a uma direção na vida que sustenta a razão e a emoção. E crítico que 
entendamos isso. 
Agora que me mudei para o Ocidente, vejo que, embora muitos 
jovens daqui se identifiquem com este problema, ele é inexplicavel­
mente ignorado no mundo adulto. Por que eu digo isto? 
No mundo empresarial, todas as grandes empresas formulam 
uma declaração de propósito. Esta declaração, por sua vez, é invocada 
quando se deseja medir o progresso ou o fracasso. Se uma empresa 
28 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
não sabe o motivo de sua existência, então jamais saberá se está tendo 
sucesso ou está fracassando. E significativo que todos nós que labu­
tamos horas a fio para alcançar o propósito de uma empresa que 
fabrica palitos de dente ou faz funerais jamais paramos o tempo sufi­
ciente para escrever uma declaração de propósito para nossas vidas 
pessoais. 
Acabo de ler um artigo com uma entrevista de um dos maiores 
jogadores de críquete da Austrália. Ele está participando de um cam­
peonato mundial, representando seu país. Um tanto entristecido 
num estilo de vida que deveria ser sem restrições, ele confessou um 
arrependimento. Enquanto participava daqueles jogos, sua esposa 
estava a quilómetros de distância, dando à luz o segundo filho. Ele 
disse: —Quando nosso primeiro filho nasceu, eu estava viajando, e 
agora, no nascimento do segundo, também estou ausente. Cheguei à 
conclusão de que o críquete é importante em minha vida, mas não é 
tudo. 
Esta afirmação suscita algumas questões, não é? O que é tudo? 
Será que qualquer coisa é tudo? Pordeste fato. 
Toda dedução por parte dos naturalistas pode ser rebatida, desde 
a forma como passamos a existir até os relacionamentos que ex­
perimentamos com outros e os imperativos morais em nossas vidas. 
Por isso, devo acrescentar, milhões, ou até bilhões, de indivíduos 
neste mundo jamais se apartarão do sobrenatural, não importa quanto 
os naturalistas gritem. Não porque esses bilhões, sejam tolos, mas 
porque uma certeza clara e intuitiva lhes diz que tal complexidade 
espiritual e física não pode ter surgido do nada. 
No relato de Génesis, a questão não é se o jardim aparecera por 
desígnio ou por acidente. Este era o reconhecimento mais razoável. 
No entanto, a dúvida foi semeada em torno da questão se Deus 
tinha falado e estabelecido as regras básicas para a vida. A resposta 
dos naturalistas é um estrondoso "não!". Aceitar que Deus falou é 
abrir mão do primeiro princípio do naturalismo. Assim, foge-se do 
debate real por meio da zombaria e das ofensas. Esta diferença entre 
ofender e argumentar está na diferença da cosmovisão. Explicarei 
isso quando o argumento for revelado. No entanto, desde o início 
vemos que as diferenças entre um mundo silencioso e um no qual 
Deus falou é a dramática linha divisória entre os teístas e os na­
turalistas. 
U M SILÊNCIO R U I D O S O 
Algum tempo atrás, tive de me submeter a um exame que emprega­
va a ressonância magnética a fim de diagnosticar uma hérnia de 
202 > POR QUE JESUS É DIFERENTE 
disco. Foi uma daquelas experiências em que o exame parece tão 
incomodo — ou até mais — do que o próprio problema. Tive de me 
deitar numa cama móvel, a qual deslizou para dentro de um túnel 
estreito, o qual a seguir foi totalmente fechado. O espaço era tão 
exíguo e a escuridão tão intensa que tenho certeza de que aquele 
aparelho foi inspirado nos sarcófagos egípcios. Brincadeira à parte, 
foi uma experiência terrível, principalmente para alguém que sofre 
de claustrofobia, como eu. Logo depois que a porta se fechou, en-
contrei-me num mundo todo escuro e silencioso. Os segundos passa­
ram longos e assustadores, até que ouvi a voz do operador do aparelho 
no intercomunicador; ele disse: — O senhor tem alguma pergunta, 
antes de começarmos? 
Eu tinha perguntas! Respondi nervosamente: —Você estará aí 
durante todo o tempo em que eu estiver aqui? 
Ele respondeu: —Eu prometo, Sr. Zacharias, que estarei aqui 
durante todo o exame. 
A simples lembrança do episódio me faz tremer. Quero que você 
saiba que a voz de uma pessoa totalmente desconhecida foi de imen­
so conforto dentro daquela caixa fechada. Enquanto eu estava ali 
deitado, subitamente um pensamento horrível se abateu sobre mim. 
Num esquema naturalista, a humanidade foi enfiada neste sistema 
fechado chamado universo, e estamos vagando pelo espaço, sem ne­
nhuma voz falando conosco. Não há ninguém para nos perguntar se 
temos dúvidas e ninguém para nos dizer que está ao nosso lado. 
Como disse um comediante: "Estamos nisso juntos, sozinhos". Esta­
mos por conta própria. Era este mundo que, com efeito, Darrow 
estava defendendo. Também é o mundo que a Bíblia rejeita com 
veemência. Deus existe e Deus falou. 
Se não há nenhuma voz exterior, então somos a causa e os 
guardadores do jardim. Todos os relacionamentos podem ser legiti­
mamente redefinidos. Falamos por nós mesmos. Definimos a nós 
mesmos. Regulamos a nós mesmos. A sociedade livre zomba de 
qualquer conjunto de regulamentos, mas quando se trata de viver 
em comunidade, é exatamente o que fazemos. Note o número de 
leis que o mundo livre tem de criar para evitar que destruamos o 
E X I S T E UM J A R D I N E I R O ? 203 
jardim, pois não há jardineiro nele, exceto nós mesmos. O naturalis­
ta está apenas olhando para si próprio. Não há ninguém para falar 
por nós, exceto nós mesmos. 
Deus, por outro lado, preserva tudo com base em uma lei — 
amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, toda a tua alma e 
todo o teu entendimento e amarás o teu próximo como a ti mesmo. 
Esta lei não foi prescrita nos planetas; foi escrita para nós na Palavra. 
Por sua graça, Deus colocou esta lei em nossos corações. Quando 
nós a arrancamos dali e questionamos se ele de fato falou, muitas e 
muitas leis têm de ser escritas para substituir a lei divina, e incontáveis 
instituições têm de ser criadas para impor essas leis. 
Há ainda outro ponto de inferência. Desse mundo interior, si­
lencioso e solitário, segue logicamente a desintegração daqueles re­
lacionamentos revelados em Génesis como sagrados. Génesis não 
nos contou como Caim arranjou sua esposa porque, no mundo em 
que Deus é o Criador, essa é uma preocupação secundária. De fato, 
quando Deus falou com Adão e Eva sobre a prioridade do marido e 
da esposa sobre pai e mãe, ainda não havia pais e mães. Génesis nos 
diz que um homem e uma mulher estavam num relacionamento de 
amor e de união, abençoado por Deus e como progenitores da raça 
humana por meio do estabelecimento de uma família. O lar e a família 
foram ideia de Deus e não nossa. Caim rejeitou isso, assassinou seu 
irmão e despedaçou o coração dos pais — e houve uma ruptura na 
família. O jardim se transformou numa selva de medo e morte. 
Essas mesmas implicações dizem respeito a nós hoje, conforme 
ilustra a seguinte história. Há alguns anos, Edmund Gosse escreveu 
um livro poderoso intitulado Pai e Filho. Trata-se do relato tocante e 
verídico da luta de um filho entre a fé de seu pai e suas próprias dúvi­
das quanto à existência de Deus. Seu pai era um biólogo marinho e 
ele, o filho, era estudante de literatura e depois se tornou bibliotecário 
da Casa Britânica dos Lordes. No livro, ele traçou sua jornada pelo 
ceticismo até o dia em que finalmente disse ao pai que estava rompen­
do com Deus e que não conseguia mais crer na sua existência. 
O pai lhe escreveu uma carta, nos termos mais tocantes. No final 
do livro, Gosse cita a carta na íntegra e diz: "Ela se enterrou como 
204que somos tão ansiosos em provar 
ao mundo que somos os melhores naquilo que fazemos e não nos 
preocupamos em responder quem somos ou por que somos o que 
somos? 
Eu desejava muito encontrar respostas para estas questões. Pode 
ser que houvesse, mas eu não conseguia identificá-las no meio de 
tantas vozes enganadoras numa terra religiosa. O propósito é para a 
vida o que o esqueleto é para o corpo. Os músculos podem ter força, 
mas precisam de apoio e de ligação. Minhas realizações não tinham 
uma estrutura para apoiá-las. Minha vida ficava à deriva em meio aos 
esportes e afeições, mas sem um propósito supremo. 
Pense um pouco nas alternativas que nossa cultura nos dá. Pra­
zer, riqueza, poder, fama, destino, caridade, paz, educação, orgulho 
racial - a lista é infindável. Quando nenhuma dessas alternativas 
funciona, abraçamos um misto de espiritualidade e pragmatismo. 
Essas alternativas, porém, não nos dizem por que estamos aqui em 
primeiro lugar. Podem ser formas de organizarmos nossa vida, mas a 
E S C A L A N D O UM A L T O M U R O 29 
vida deve ser definida de acordo com o que buscamos ou minha bus­
ca deve ser definida de acordo com o significado da vida? 
Numa cultura onde a formação académica é o valor supremo e 
minha vida não correspondia, uma cultura onde a filosofia é 
abundante, mas o propósito da vida nunca é compartilhado, para 
onde eu poderia ir? A maior perda é a vergonha diante do fracasso. 
Aquilo que chamamos de vergonha está profundamente arraigado na 
linguagem hindi; tanto que quando alguém fracassa, parte do opró­
brio que sofre é ser catalogada como uma pessoa sem vergonha. 
Naquela noite, senti como se minha vergonha fosse durar para sem­
pre, e minha punição foi ao mesmo tempo uma metáfora e uma 
realidade. 
AQUELE Q U E BUSCA DESCOBRE Q U E 
FOI E N C O N T R A D O 
Em algum ponto no meio de toda esta instabilidade, o "Perdigueiro 
do Céu" encontrou meu rasto. Agora, quando olho para trás, vejo as 
marcas de sua passagem por toda parte. Na verdade, estava mais 
próximo do que eu imaginava. Revendo o passado, agora posso ver 
que o rasto era claro, mesmo nos momentos de maior confusão. 
Quando você mora numa casa pequena, de dois cómodos, junto 
com quatro crianças pequenas e mais os pais, não dá para se escon­
der. Mesmo assim, é surpreendente como uma pessoa pode se es­
conder dentro de si mesma. 
No entanto, a obra de Deus já tinha começado muito tempo 
atrás. Um dia minha irmã foi convidada para uma reunião de jovens 
onde haveria música e uma palestra. Ela me chamou para ir com ela. 
O orador seria um homem que, embora para mim fosse um com­
pleto estranho, era um líder cristão respeitado e conhecido interna­
cionalmente.3 Minha lembrança do evento é muito nublada para 
contar o que exatamente aconteceu ali. No entanto, uma coisa eu 
sei. Ele pregou sobre um texto que provavelmente é o mais conheci­
do da Bíblia: "Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu 
o seu Filho unigénito, para que todo o que nele crê não pereça, mas 
tenha a vida eterna" (Jo 3:16). 
30 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Sua atitude foi ainda mais poderosa do que as palavras, e ele fala­
va com profunda intensidade. Havia suavidade e poder. Sem costu­
me de participar de tais eventos, quando me dei conta, estava 
caminhando para a frente diante de todos, atendendo ao apelo para 
confiar em Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador. Embora eu 
tivesse sido criado numa igreja, tinha tão poucas esperanças de que 
aquela mensagem tivesse algo a ver com minha vida, que captei so­
mente parte do que o pregador disse. Nada do que ele dizia significa­
va algo para mim. Seu vocabulário era estranho. Eu só sabia que 
minha vida estava errada e que eu precisava de alguém que a endirei­
tasse. Eu queria novos desafios, novos anseios, novas disciplinas e 
novos afetos. Sabia que tinha de me importar mais com Deus. Só não 
sabia como encontrá-lo. 
Voltei para casa naquela noite com uma pequena noção de que a 
mensagem estava certa, embora não a tivesse entendido totalmente. 
Apesar de continuar um tanto confuso, um contexto muito impor­
tante havia sido estabelecido. Nas semanas seguintes, continuei a 
participar de todas as festas hindus e assistindo às dramatizações da 
sua mitologia. Eu tinha um amigo que era hindu fervoroso, que se 
esforçava muito para que eu abraçasse a cosmovisão do hinduísmo. 
Então aconteceu um episódio muito significativo. Eu estava pas­
sando perto de um local de cremação; parei e perguntei a um sacer­
dote hindu onde aquela pessoa cremada estava naquele momento, 
depois que seu corpo fora transformado num monte de cinzas. 
Ele me disse: —Jovem, você fará esta pergunta durante toda a 
sua vida, sem jamais descobrir uma resposta razoável. 
Se isto é o melhor que um sacerdote pode responder, eu pensei, que 
esperança haverá para um leigo como eu? 
Com o passar do tempo, e sem encontrar as explicações que 
precisava, a contínua perda de significado me levou a um momento 
trágico. Se naquele estágio de minha vida eu tivesse ouvido o filóso­
fo ateu Jean Paul Sartre, ele teria confirmado todo o senso de isola­
mento que eu sentia. Dois dos seus livros mais vendidos, A Náusea e 
Sem Saída, descreviam exatamente meu estado. Sartre chegara a pon­
to de dizer que a única questão a que podia responder era por que 
ESCALANDO UM ALTO MURO 31 
não cometera suicídio. Não é engraçado que, quando a vida perde o 
significado, os poetas e artistas não têm medo de assumir a culpa, 
enquanto os racionalistas demonstram aquela eloquência vazia, tão 
destituída de razão? 
Minha decisão foi calma, porém firme. Uma saída silenciosa 
salvaria minha família e eu de novos fracassos. Coloquei minha ideia 
em prática. Como resultado, acabei numa cama de hospital, tendo 
sido levado para lá às pressas, nas dores de uma tentativa de suicídio. 
Naquele quarto de hospital, alguém me deu uma Bíblia, e, na situa­
ção desolada em que eu estava, leram para mim uma passagem. A 
mensagem do pregador naquela reunião de jovens continuava eco­
ando deniio de mim. Eu precisava de uma base sobre a qual cons­
umi .II|MI. l ie linha pregado sobre o amor de Deus, com base em 
Jo.i *>. Ali no hospital, leram para mim sobre o propósito de Deus, 
com lu.se em |oao 1 4. 
As palavras naquele capítulo foram dirigidas ao apóstolo Tomé, 
o qual, como eu disse, foi à Índia. Seu memorial existe até hoje, a 
poucos quilómetros de onde eu nasci. Lembre-se de que Jesus lhe 
disse: "Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai 
senão por mim". Minha atenção, porém, foi atraída por algumas pa­
lavras mais adiante, quando Jesus disse aos discípulos: "Porque eu 
vivo, vós também vivereis". Novamente, eu não entendia o significa­
do dessas palavras. Sabia que significava mais do que a vida biológica. 
Juntando todas as peças, o amor de Deus em Cristo, a maneira que 
este amor foi demonstrado e a promessa de vida por seu intermédio 
- naquele leito de hospital eu decidi entregar minha vida e minha 
busca em suas mãos. Os conflitos dos meus relacionamentos, mi­
nhas origens e meu destino, tudo foi abordado naquela conversa 
que Jesus teve com seus discípulos dois mil anos atrás. Atualmente 
meu compromisso de entrega permanece como a decisão mais mara­
vilhosa que já tomei. Entreguei minha vida totalmente a Cristo. 
No mesmo poema que citei acima, Oscar Wilde diz: 
Todas as dores que o levaram 
A dar aquele amargo clamor, 
Os lamentos e o suor de sangue, 
http://lu.se
32 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Ninguém conhecia melhor do que eu: 
Aquele que tem mais vidas, 
Também deve morrer mais vezes... 
E cada coração humano que se quebra 
Nas celas de prisão ou nos quintais, 
É aquele vaso quebrado que entregou 
Seu tesouro ao Senhor, 
E encheu a casa do leproso impuro 
Com o aroma do nardo precioso. 
O! Felizes daqueles cujos corações 
Se quebrantam e paz e perdão encontram! 
Como mais o homem pode endireitar 
Seus planos e limpar a alma do pecado? 
Como Cristo poderia entrar,exceto por meio de um 
coração quebrantado? 
Saí daquele quarto de hospital como um novo homem. O Se­
nhor Jesus tinha entrado em minha vida. Eu jamais poderia ter ima­
ginado a profundidade desta transformação. Não há outro meio de 
descrevê-la. Dali em diante meus anseios, esperanças, sonhos e to­
dos os meus esforços têm sido viver para aquele que me resgatou, 
estudar para aquele que me deu inteligência, servir aquele que for­
mou minha vontade e falar daquele que me deu voz. 
O desejo ardente de aprender, o reconhecimento do valor do 
estudo e a necessidade de entender os grandes pensadores e seus 
pensamentos — tudo isso gradualmente foi sendo colocado no devi­
do lugar. Nosso intelecto não foi designado para ser um fim em si 
mesmo, mas somente um meio para alcançarmos a mente de Deus. 
Os livros, que antes eram uma maldição para mim, tornaram-se 
uma mina de ouro. 
Os israelitas tinham um jargão pelo qual eles simbolizavam o 
ideal de vida: "Cada homem debaixo de sua própria figueira". Se o 
Senhor me permitisse usar uma metáfora hoje, seria: "Cada homem 
dentro de sua própria biblioteca". A mesma busca que anteriormen-
E S C A L A N D O UM A L T O M U R O 33 
te trazia tanta dor interior, agora é o deleite transcendente do meu 
coração. Eu não imaginava a longa jornada académica que tinha à 
minha frente. Se soubesse, teria adorado. 
Aconteceram tantas coisas desde aquele dia que, se fosse contar 
tudo, encheriam vários livros. Deus me concedeu o privilégio de falar 
dele em todos os continentes e em dúzias de cidades, apresentando a 
defesa da fé cristã em algumas das melhores instituições do mundo. 
Meu privilégio é enorme. Sinto-me tão em casa em Nova Delhi, 
como em Atlanta ou Toronto. Amo as pessoas dos lugares por onde 
passo, cada uma com seu linguajar e costumes peculiares e suas 
idiossincrasias. Realmente amei o desafio e o privilégio de ser um 
apologista cristão. 
Apologética cristã é a tarefa de apresentar uma defesa da pessoa e 
da mensagem de Jesus Cristo. Com o passar dos anos, tornei-me 
mais convicto do que nunca de que ele é exatamente quem ele afir­
mou ser — Deus encarnado, que veio para nos dar vida em abundân­
cia e nos apontar a beleza e a liberdade da verdade. Não posso negar 
como é empolgante ver milhares de vidas transformadas. 
O PADRÃO SE REVELA 
Ao concluir este capítulo, quero compartilhar como um desígnio cheio 
de propósito emerge quando Deus tece um padrão daquilo que, para 
nós, muitas vezes pode parecer um disparate. 
Alguns anos atrás, visitei um local onde são fabricados alguns dos 
mais belos sáris — a roupa típica das mulheres indianas. Geralmente 
ele é bem longo. Os sáris usados nos casamentos são uma obra de 
arte; são tecidos com filamentos de ouro e prata, resplendentes numa 
profusão de cores. 
O local que eu visitei é conhecido por fabricar os melhores sáris 
de noiva do mundo. Eu esperava encontrar um sistema intrincado 
de máquinas e equipamentos. Nada disso! Cada sari era feito ma­
nualmente, por uma equipe de pai e filho. O pai se sentava numa 
plataforma a alguns centímetros acima de onde estava o filho, cerca­
do por vários carretéis de linha, alguns escuros, outros brilhantes. O 
lilho fazia apenas uma coisa: a um sinal do pai, movia uma alavanca 
34 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
de um lado para o outro e voltava. O pai arrumava alguns fios de 
linha com os dedos e fazia outro sinal para o filho, o qual, por sua 
vez, movimentava novamente a alavanca. Este processo se repetia por 
horas a fio, até que começávamos a enxergar um magnífico padrão se 
formando no tecido. 
O filho tinha a tarefa fácil — apenas mover a alavanca, ao sinal do 
pai. Durante todo o tempo o pai já tinha em sua mente o desenho que 
desejava fazer no tecido e só precisava ir ordenando os fios de linha. 
Quanto mais eu reflito em minha própria vida e observo a vida 
de outras pessoas, fico fascinado ao ver o desígnio que Deus tem 
para cada um de nós individualmente, bastando que consintamos. 
Encontro pequenos lembretes pelo caminho, que me mostram os 
materiais que ele usou para tecer minha vida. A história a seguir é 
um pequeno exemplo. 
Cerca de trinta anos depois que entreguei minha vida a Cristo, 
minha esposa e eu retornamos à índia e decidimos visitar o túmulo 
de minha avó. Eu tinha uma vaga recordação do seu funeral, o pri­
meiro do qual participei. Tive dificuldade para informar ao funcio­
nário do cemitério o ano em que ela faleceu. Finalmente conseguimos 
nos lembrar do ano — eu tinha uns nove ou dez anos de idade. De­
pois de vasculhar os antigos livros de registro (maiores do que a mesa), 
finalmente encontramos o nome dela. Com a ajuda de um jardinei­
ro, caminhamos através do mato e do entulho espalhado pelo cemi­
tério, até que encontramos uma grande lápide de pedra, marcando o 
túmulo da vovó. 
Ninguém visitava aquele local há quase trinta anos. Com um 
pequeno balde de água e uma pequena vassoura, o jardineiro limpou 
a lápide, e, para nossa total surpresa, abaixo do nome, gradualmente 
foi surgindo um versículo bíblico. Minha esposa apertou minha mão 
e exclamou: —Olhe aquele versículo! 
Estava escrito: "Porque eu vivo, vós também vivereis". Como eu 
disse, Deus já estava no meu encalço muito antes que eu me desse 
conta disso. 
Com o passar dos anos, fizemos uma pesquisa sobre como o 
evangelho entrou em nossa família. Tanto do lado do meu pai como 
E S C A L A N D O UM ALTO M U R O 35 
de minha mãe, os primeiros cristãos surgiram dentre a casta mais alta 
dos sacerdotes hindus, cinco ou seis gerações atrás. O primeiro mem­
bro da família a encontrar o Senhor foi uma mulher. Ela ficou intrigada 
com a mensagem levada à sua aldeia por missionários e continuou 
buscando, a despeito do enorme desgosto da família. Um dia, quan­
do ela se preparava para sair das dependências da missão e voltar para 
casa, antes que a família descobrisse onde estava, as portas da missão 
foram fechadas devido a uma epidemia de cólera. Ela teve de ficar 
com os missionários durante várias semanas até o final do período de 
quarentena. Naquele período, ela entregou sua vida a Cristo. As pa­
redes lacradas da missão foram o meio que Deus usou para levá-la a 
ter um encontro íntimo com Jesus Cristo. 
Nem todas as paredes são obstáculos. Elas podem estar ali com 
um propósito. Quando olho para trás, sempre vem à minha mente 
uma imagem e dois poetas. O Novo Testamento conta sobre a con­
versão de Saulo de Tarso. Ele era o terror dos cristãos. Deus graciosa­
mente o capturou com seu amor para torná-lo um dos apóstolos 
escolhidos. Aqueles que outrora eram seus amigos agora ameaçavam 
sua vida. Os discípulos o colocaram num cesto e o desceram pelo 
muro da cidade, para escapar dos seus perseguidores. 
Para mim, a perseguição era interior. Deus dirigiu algumas pes­
soas que me colocaram num cesto de amor e de persuasão e me desce­
ram por cima dos muros que eu não podia escalar por meus próprios 
meios. Assim é a graça de Cristo — nos alcança onde estivermos. 
Os conhecedores da literatura inglesa se lembram da vida turbulen­
ta de Francis Thompson. Seu pai desejava muito que ele estudasse 
em Oxford, mas ele se perdeu nas drogas e foi reprovado em mais de 
uma ocasião. Porém todos os que o conheciam percebiam sua 
genialidade latente, aguardando que sua vida fosse recuperada. 
Quando Francis Thompson finalmente sucumbiu à perseguição 
de Cristo, escreveu seu poema imortal "Perdigueiro do Céu", des­
crevendo os anos anteriores ao momento da transição: 
Ku fugia dele noite e dia, 
lui fugi durante o passar dos anos, 
Ku fugi dele nos labirintos dos caminhos 
36 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
De minha própria mente: no meio das lágrimas 
Eu me escondia dele e em meio aos risos fugazes 
Das esperanças passadas, eu acelerava. 
Sob a coberta enorme do medo 
Daqueles pés fortes que me seguiam, 
Embora eu conhecesse seu amor, 
Sentia o mais profundo terror. 
Tudo que recebi de ti 
Recebi, mas não das tuas feridas. 
Tudo oque foi perdido pelos erros de teu filho, 
Eu entesourei para você em casa: 
"Levante-se, agarre minha mão e venha". 
Interrompe minha queda: 
Esra é minha sina, afinal, 
A sombra da tua mão, estendida com amor. 
Todos os aflitos, cegos e fracos, 
Sou eu a quem vocês buscam! 
O teu grande amor dirigido a mim, 
Encaminhou-me para ti. 
Foi u m dia maravilhoso quando parei de fugir e, com a força de 
Deus , permit i que seu amor me envolvesse. As palavras do famoso 
h ino escrito por Charles Wesley refletem este triunfo e minha história: 
Meu espírito há muito está aprisionado, 
Preso no pecado e na noite da natureza. 
Teus olhos irradiaram uma luz difusa, 
E eu despertei, o calabouço inundado de luz. 
Minhas cadeias caíram, meu coração estava livte, 
Eu levantei, saí e te segui.4 
Quero acrescentar só mais uma coisa. Eu t inha vinte anos de 
idade quando minha família mudou-se para o Canadá. Ali, minha 
mãe e meu pai também entregaram suas vidas a Cristo. Foi u m novo 
dia para todos nós. Meu pai trabalhou duro para recuperar os anos 
perdidos. E m 1974, ainda na casa dos vinte anos e jovem no minis­
tério, fui ao Camboja para pregar em circunstâncias bem interes-
E S C A L A N D O UM A L T O M U R O 37 
santes. Meu pai entregou-me uma carta, recomendando que eu só a 
lesse depois que viajasse. Nela, ele refletia sobre os dias em que pare­
cia que tudo estava perdido em nosso relacionamento. Era uma carta 
muito bonita. Eu a li deitado em minha cama em Phnom Penh. 
Uma linha resumia todo o seu conteúdo: "Agradeço a Deus porque 
ele considerou nossa família, chamando um dos nossos filhos para ser 
seu servo". 
Meu pai faleceu em 1979, aos 67 anos de idade. Sinto falta dele 
nestes anos maravilhosos de ministério. Ele teria me dado grande 
encorajamento. A graça de Deus está acima de qualquer descrição. 
Ele levantou todos nós acima dos muros da nossa prisão pessoal. 
Chega de história. Agora vamos aos argumentos. 
c a p í t u l o d o i s 
EM DIREÇÃO DO LAR CELESTIAL 
U ma das maiores oportunidades que já foram concedidas a um 
membro da nossa família ocorreu quando a rainha Elizabete e 
o príncipe Philip visitaram a índia no final da década de 50. 
Meu irmão mais novo, que na época tinha uns sete ou oito anos 
de idade e era o membro mais novo do coral da Catedral de Delhi, 
ia ser formalmente apresentado à rainha no final do culto domini­
cal. Certamente não faltaram conselhos de como ele devia se prepa­
rar para aquele encontro extraordinário. Nós o orientávamos sem 
parar, lembrando-o repetidamente para dirigir-se à rainha como "Sua 
Majestade" e não como "Tia", uma forma de se demonstrar carinho 
pelas pessoas idosas na índia. Chegou o momento do encontro, e 
meu irmão foi aprovado com honras. 
Nós não sabíamos, mas o encontro de meu irmão com a rainha 
foi mostrado num noticiário na Inglaterra; muitas pessoas tele­
fonaram para a emissora perguntando se aquele "garotinho esperto" 
estava disponível para ser adotado. Desde aquele dia, cada vez que 
ele se comportava mal, os outros irmãos não perdiam a oportu­
nidade de insinuar que a família devia ter aceitado a oferta dos in­
gleses! Quarenta anos já se passaram desde aquele dia memorável 
em que ele se inclinou diante da rainha, mas ele também, por seu 
lado, não perde a oportunidade de nos lembrar do grande privilégio 
que teve. 
40 ' : POR QUE JESUS Ê DIFERENTE 
O encontro com personagens históricos não é uma experiência 
banal. Os passos são recapitulados, as perguntas são debatidas e o 
protocolo é ensaiado muito antes do evento. Não tenho dúvida de 
que quanto mais elaborada a pompa e o espetáculo do evento, maior 
é o medo de se dizer ou fazer algo impróprio. 
Podemos imaginar a conversa na casa de André e de Simão Pedro, 
os primeiros seguidores de Jesus, quando André chegou com a notí­
cia de que achava que tinha encontrado o Messias há muito aguarda­
do. A figura do Redentor era a única esperança para uma nação que 
sofria sob o látego do domínio estrangeiro. Todo bom israelita orava 
pela vinda daquele que libertaria o povo. Os mais cínicos presentes 
na hora do jantar provavelmente engasgaram quando André anun­
ciou que ele e Simão tinham voltado de um encontro com o liberta­
dor mencionado nas profecias. Muitas barbas foram coçadas enquanto 
os dois irmãos insistiam que não estavam malucos. Tinham conver­
sado com ele, passaram horas em sua companhia, e André até teve a 
oportunidade de fazer-lhe algumas perguntas. 
Movido pela curiosidade, alguém na mesa deve ter murmurado, 
dirigindo-se a André: —E o que, afinal, você lhe perguntou? 
— Perguntei onde ele morava— foi a resposta confiante. 
Será que ouvimos direito? Silêncio total na mesa. 
— Foi o melhor que conseguiu pensar, André? Perguntar onde 
ele mora? 
Será que não haveria uma pergunta mais adequada para com­
provar as afirmações de Jesus? Pelo menos é como nós, em nosso 
tempo, teríamos argumentado. Por que André, ao ficar face a face 
com aquele que alegava uma condição tão única, não apresentou 
um desafio maior do que apenas perguntar: "Onde assistes [moras]?" 
Malcolm Muggeridge, jornalista inglês, lembra em sua autobiografia 
as oportunidades que teve de entrevistar pessoas famosas ao redor do 
mundo. Sendo cínico e iconoclasta incurável, e apenas com o propó­
sito de brincar com os leitores, ele fazia perguntas deliberadamente 
absurdas e constrangedoras; por exemplo, ele perguntava a um bispo 
no momento mais tocante da entrevista e diante de uma audiência 
altamente reverente: "Os bispos são realmente necessários?" Ele reco-
E M D I R E Ç Á O D O LAR C E L E S T I A L * 41 
nhecia que fazia isso porque sobrevivia em sua profissão como jornalista 
à custa do choque, em detrimento do conteúdo. 
Será que a pergunta de André foi um tipo de "pergunta chocan­
te", uma gozação, no sentido de que poderiam encontrar o "endere­
ço" do Messias e então ridicularizar suas afirmações? Será que ele 
também estava brincando com a audiência? Quanto mais penso so­
bre isto, mais fico convencido de que o candidato a discípulo tinha 
boas razões para fazer a pergunta que fez. Tinha começado uma 
investigação séria sobre a pessoa de Jesus. Será que ele era o Cristo, o 
Ungido? Por quase dois mil anos os profetas tinham falado sobre 
sua vinda. Será que estava se cumprindo? Vamos olhar mais de perto 
o que ocasionou uma pergunta tão básica, diante de uma afirmação 
tão monumental. 
UMA I N T R O D U Ç Ã O PROVOCATIVA 
O contexto da pergunta de André nos é apresentado no primeiro 
capítulo do Evangelho de João. Quando começamos a ler, imediata­
mente somos tocados pela casualidade com que Jesus fez sua apari­
ção. Não houve rufar de tambores, nem grandes tumultos e nem 
desfiles para anunciar a chegada daquele cujo nome estaria nos lábios 
da humanidade de uma forma que nenhum outro nome jamais es­
taria. Não houve tempo para ensaios. 
João Batista recebeu a honra de fazer o anúncio desprovido de 
adornos. Vestido de forma estranha e mantendo uma alimentação 
ainda mais estranha, o precursor estava ganhando muitos seguido­
res. Aos olhos dos devotos, ele era um profeta digno de toda honra. 
Na verdade, mesmo antes do seu nascimento, o anjo tinha falado 
sobre seu chamado privilegiado, dado por Deus e cheio de propósi­
to. Seu lugar na história seria daquele que apresentou Jesus ao mun­
do. Dentre todos os métodos mirabolantes que poderia ter escolhido 
para este fim, João escolheu um simples pronunciamento. Foi tão 
desprovido de acompanhamento real que nenhum "fazedor de rei" 
conceberia tal modéstia para um anúncio que transformaria o mun­
do. Principalmente no Oriente. 
42 POR QUE JESUS É DIFERENTE 
Mesmo assim, num dia determinado e num momento divina­
mente escolhido, Jesus foi a João Batista para ser batizado. Pasmado 
pelo privilégio, João achou-se indigno de tal honra, declarando que 
não era digno nem de desatar as sandálias do Senhor. Como ousaria 
batizá-lo? A cena foi imortalizada pelapomba que desceu e pousou 
sobre Jesus. Depois desta confirmação celeste, João olhou para seus 
próprios discípulos e disse: "Eis o Cordeiro de Deus". 
E difícil ignorar imagens impressionantes por trás desta afirma­
ção. A família judaica comum estava familiarizada com cordeiros e 
sacrifícios. Provavelmente o templo recendia a carneiro e a carne quei­
mada, principalmente no Dia da Expiação. Apesar de sua grandeza e 
esplendor, no exterior do templo havia apenas um altar sem acaba­
mento. Todos os cordeiros sacrificados ali pertenciam às pessoas que os 
ofereciam; assim, eram cordeiros de homens oferecidos a Deus. De 
fato, não eram nem mesmo representantes dos homens, ou iguais a 
eles. Eram cordeiros pertencentes aos homens, animais indefesos e in­
génuos levados ao templo e de onde jamais retornavam. 
Agora, naquele momento escolhido da história, uma oferta veio 
do próprio Deus, dada^or ele em favor da humanidade. Era o Cor­
deiro de Deus. Entretanto, como podia ser? Como alguém podia 
nascer com o propósito específico de um dia ser sacrificado sobre 
um altar? Este fato não suscitaria outras questões entre aqueles que 
desejavam ser seus discípulos, em especial aos que ouviram a abrup­
ta apresentação de João Batista? 
Alguém versado nas Escrituras provavelmente se lembraria de 
imediato da narrativa de Génesis 22; Abraão recebeu ordem de sa­
crificar seu filho Isaque, ao qual esperara tanto tempo para ter. En­
quanto pai e filho caminhavam em direçao das montanhas, Isaque 
fez uma pergunta óbvia: "Eis o fogo e a lenha, mas onde está o 
cordeiro para o holocausto?" No desenrolar da história, o próprio 
Isaque foi colocado sobre o altar e esteve a ponto de ser sacrifi­
cado. 
No último instante, quando a mão de Abraão brandia a faca 
sobre o corpo do filho, Deus exclamou: "Não estendas a mão sobre o 
rapaz!" Tendo planejado tudo aquilo para testar Abraão, o Senhor 
E M DIRF.ÇÃO DO LAR C E L E S T I A L 43 
tinha providenciado um carneiro, para servir como substituto de 
Isaque, representando outro cordeiro que viria em outro dia. 
O anúncio de João de fato dizia: "Aqui está ele — o Cordeiro de 
Deus, há muito prometido". Aproximava-se o dia em que haveria 
outra colina e outro altar, e desta vez a mão do Pai não deixaria de 
sacrificar. 
Os discípulos de João que ouviram a apresentação de Jesus como 
o Cordeiro de Deus passaram a segui-lo. A primeira pergunta que 
Jesus lhes fez tinha uma falta de profundidade deliberada e compre­
ensível: "Que buscais?" Naquele momento, eles não tinham um ver­
dadeiro entendimento de que estavam seguindo Aquele cuja jornada 
era só de ida e terminaria num altar — numa cruz. 
Fico me perguntando se algum de nós faria a mesma pergunta 
que eles fizeram naquele encontro memorável. A melhor pergunta 
seria: "O que João quis dizer ao chamá-lo de Cordeiro de Deus? Você 
está se encaminhando para um final sangrento?" Pelo contrário, eles 
estavam interessados em seus primórdios e por isso fizeram a pergun­
ta inesperada: "Onde moras?" Anteriormente eu afirmei que no Ori­
ente o lar é um indicador cultural bem definido. Tudo o que determina 
quem você é e como será seu futuro está ligado à sua herança e à sua 
condição social. Absolutamente tudo. 
Na primeira vez em que retornei à índia, depois de uma ausência 
de onze anos, minha esposa (que é canadense) testemunhou em pri­
meira mão a estima que se confere à família. Na recepção realizada 
em nossa homenagem em Bombaim, na qual eu iria falar, ela ficou 
surpresa pela forma como fui apresentado. A apresentação longa e 
formal foi cheia de superlativos. Mesmo assim, no geral, absoluta­
mente nada foi dito a meu respeito. O discurso foi uma bem elabo­
rada descrição das credenciais e das realizações do meu pai. Foi um 
daqueles momentos em que você deseja olhar ao redor e localizar a 
pessoa que está sendo homenageada. Finalmente, a última frase foi: 
"E este é seu filho, que falará a nós". Foi tudo o que disseram de 
mim. 
Minha resposta imediata foi rir por dentro. Subitamente, po­
rem, dei-me conta de que estava ali representando alguém maior do 
44 ' : POR QUE JESUS Ê DIFERENTE 
que eu mesmo - meu pai. Por causa dele, eu tive a oportunidade de 
falar. Eu sabia que estava no Oriente. No Ocidente, especialmente 
na América do Norte, a apresentação giraria em torno do que eu fiz 
ou não fiz. As credenciais são individuais, como se o indivíduo fosse 
ele próprio o possuidor de suas origens. Há pouca ou nenhuma 
menção da família. Na índia, porém, o país natal de meu pai, as 
credenciais dele, o nascimento de minha mãe e minhas raízes são 
extremamente importantes para a audiência. 
Noto esta diferença significativa até hoje. No Ocidente, não 
demora muito para um estranho nos perguntar: "Onde você traba­
lha?" ou "O que você faz?" Os pensamentos de quem pergunta estão 
formando um quadro, tentando determinar seu status financeiro e 
sua influência no mundo empresarial, para que a conversa siga esta 
linha. No Oriente, a pergunta é feita com o mesmo propósito: "Em 
que cidade você morava, quando vivia aqui?"; "Em que parte da cida­
de você foi criado?"; "O que o seu pai fazia?". Nomes, endereços e a 
história da família são importantes. Oriente ou Ocidente, o objetivo 
pode ser o mesmo: situar você na sociedade. Somente o processo é 
diferente. 
Numa sociedade estratificada, seu endereço residencial dá ao 
interlocutor todas as informações que precisa sobre você. O privilé­
gio do nascimento abre portas. Não é surpreendente a observação 
de Natanael, quando ouviu falar de Jesus pela primeira vez: "De 
Nazaré pode sair alguma coisa boa?" Esta afirmação é seguida por 
outra alguns versículos adiante: "Não é este o filho do carpinteiro?" 
Como, em nome de tudo o que é razoável, a resposta para as espe­
ranças e sonhos de Israel, na busca do Messias, poderia vir de uma 
cidade tão sem importância e de uma família de status profissional 
tão modesto? A melhor maneira de descobrirem se Jesus realmente 
podia ser quem João dissera que ele era era seguindo-o até sua casa -
o endereço terreno daquele que afirmava ser o Filho de Deus. 
A resposta de Jesus cria mais enigma. Ele não deu um nome de 
uma rua ou a identificação de uma casa. Disse simplesmente: "Vinde 
e vede". Eles o acompanharam, viram onde estava hospedado e evi­
dentemente pernoitaram ali. André retornou e disse ao irmão Simão 
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que tinham encontrado o Messias, quer dizer, o Cristo, e convidou-o 
para também ir vê-lo. 
No dia seguinte, Filipe, que também morava na mesma cida­
de, convidou Natanael para se unir a eles, dizendo: "Achamos aque­
le de quem Moisés escreveu na lei, e a quem se referiram os profetas, 
Jesus, o Nazareno, filho de José". Aqui você tem os elementos — a 
cidade e o parentesco. Natanael agiu com ceticismo e recebeu o 
mesmo desafio: "Vem e vê". 
UM E N C O N T R O MEMORÁVEL 
A Escritura mantém silêncio sobre numerosas questões. Assuntos 
nos quais estamos profundamente interessados são deixados de lado 
sem maiores explicações. Em que tipo de casa Jesus morava? Em que 
tipo de oficina trabalhava — se é que trabalhava em alguma? 
Como era a mobília de sua casa? Quanto dinheiro possuía? Muitas 
vezes eu penso que parte do espaço dedicado às genealogias poderia 
ser dedicado a outros detalhes da vida de Jesus, que também seriam 
de grande interesse dos leitores. Quanto ele ganhava? Que tipo de 
roupas vestia? Como era sua aparência? 
No entanto, talvez seja aqui que a visão de Deus da realidade 
busca nos elevar acima da escravidão e das distorções de nossa visão 
terrena. Figuras históricas têm casas que a posteridade pode visitar; 
o Senhor da história não deixou nenhum endereço. Os eruditos têm 
bibliotecas e escrevem suas memórias; Jesus deixou apenas um livro, 
escrito por pessoas normais. Os libertadores falam sobre vitória por 
meio do poderio militar e da conquista; Jesus falou de um lugar no 
coração. 
Seria difícil preservar uma peça de roupa

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