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Guia 1 Revisão da Morfofisiologia do Pâncreas e da Vesícula Biliar Anatomia do Pâncreas ➔ Cabeça: porção mais larga, localizada junto ao duodeno. ➔ Colo: região estreita entre a cabeça e o corpo. ➔ Corpo: parte central, situada atrás do estômago. ➔ Cauda: extremidade mais fina, próxima ao baço. Ductos pancreáticos: ➔ Ducto pancreático principal (ducto de Wirsung), que se junta ao ducto colédoco para liberar secreções na ampola de Vater. ➔ Ducto pancreático acessório (ducto de Santorini), que pode drenar separadamente para o duodeno. Vascularização: 1. Irrigação Arterial ➔ Cabeça do Pâncreas ◆ Artéria pancreatoduodenal superior (ramo da artéria gastroduodenal, que por sua vez vem da artéria hepática comum). ◆ Artéria pancreatoduodenal inferior (ramo da artéria mesentérica superior). ◆ Essas artérias formam um arco anastomótico ao redor do duodeno e da cabeça do pâncreas, garantindo um suprimento contínuo de sangue. ➔ Corpo e Cauda do Pâncreas ◆ Artéria esplênica (ramo do tronco celíaco), que emite várias artérias pancreáticas, incluindo a artéria pancreática dorsal e a artéria pancreática magna. ◆ Essas artérias suprem a maior parte do corpo e da cauda do pâncreas. Drenagem Venosa O sangue venoso do pâncreas drena para o sistema porta hepático através das seguintes veias: ➔ Veias pancreatoduodenais superior e inferior, que drenam para as veias mesentérica superior e porta hepática. ➔ Veia esplênica, que recebe tributárias das veias pancreáticas do corpo e da cauda do pâncreas antes de se unir à veia mesentérica superior para formar a veia porta. Fisiologia do Pâncreas 1. Função Exócrina ➔ Produz e secreta enzimas digestivas através do suco pancreático, como: ◆ Amilase pancreática (digestão de carboidratos). ◆ Lipase pancreática (digestão de lipídios). ◆ Proteases (tripsina e quimotripsina, digestão de proteínas). ◆ O suco pancreático é rico em bicarbonato (HCO₃⁻), que neutraliza o ácido gástrico no duodeno. 2. Função Endócrina ➔ Realizada pelas Ilhotas de Langerhans, que secretam hormônios diretamente no sangue: ◆ Insulina (células β) – reduz a glicemia. ◆ Glucagon (células α) – aumenta a glicemia. ◆ Somatostatina (células δ) – inibe a liberação de insulina e glucagon. ◆ Polipeptídeo pancreático (células PP) – regula funções digestivas. Histologia do Pâncreas 1. Porção Exócrina ➔ Constituída por ácinos pancreáticos, formados por células acinosas que produzem enzimas digestivas. ➔ As células acinosas têm citoplasma basófilo e núcleo arredondado, característicos de células secretoras. 2. Porção Endócrina ➔ Formada pelas Ilhotas de Langerhans, que aparecem como aglomerados de células de coloração mais clara ao microscópio. ➔ Cada ilhota contém diferentes tipos celulares, especializados na produção de hormônios. Revisão da Morfofisiologia da Vesícula Biliar Anatomia da Vesícula Biliar A vesícula biliar é um órgão em forma de pêra localizado na face inferior do fígado, na fossa da vesícula biliar. Sua principal função é armazenar e concentrar a bile produzida pelo fígado. Mede aproximadamente 7-10 cm de comprimento e pode armazenar cerca de 30-50 mL de bile. Ela é dividida em três partes principais: ➔ Fundo: extremidade arredondada que se projeta além da borda inferior do fígado. ➔ Corpo: porção intermediária, em contato com o fígado, duodeno e cólon transverso. ➔ Colo: porção estreita que se continua com o ducto cístico. A bile armazenada na vesícula é liberada no ducto cístico, que se junta ao ducto hepático comum para formar o ducto colédoco, desembocando na ampola de Vater, no duodeno. Vascularização da Vesícula Biliar A irrigação sanguínea da vesícula biliar é feita principalmente pela artéria cística, que normalmente é um ramo da artéria hepática direita (derivada da artéria hepática comum, do tronco celíaco). A drenagem venosa ocorre através da veia cística, que pode drenar diretamente para a veia porta ou para as veias hepáticas. A artéria cística frequentemente origina-se da artéria hepática direita no triângulo entre o ducto hepático comum, o ducto cístico e a face visceral do fígado, o trígono cisto-hepático (trígono de Calot). Fisiologia da Vesícula Biliar A principal função da vesícula biliar é armazenar, concentrar e liberar a bile no intestino delgado, auxiliando na digestão de gorduras. ➔ Quando não há digestão, a bile é produzida pelo fígado e armazenada na vesícula, onde se torna mais concentrada devido à reabsorção de água e íons. ➔ Quando há ingestão de gorduras, a vesícula é estimulada pelo hormônio colecistocinina (CCK), liberando bile no duodeno para emulsificar lipídios e facilitar sua digestão pelas enzimas pancreáticas. Histologia da Vesícula Biliar A parede da vesícula é composta por quatro camadas: 1. Mucosa: formada por epitélio colunar simples com microvilosidades, responsável pela reabsorção de água. 2. Lâmina própria: tecido conjuntivo com capilares e fibras elásticas. 3. Camada muscular: fibras musculares lisas organizadas de forma irregular, responsáveis pela contração da vesícula. 4. Adventícia/Serosa: camada externa de tecido conjuntivo, que se funde ao fígado na superfície de contato. A vesícula não possui submucosa, o que a diferencia de outras partes do trato digestivo. Pancreatite Epidemiologia da Pancreatite ➔ A taxa de mortalidade geral da PA é de 5%, já a grave sobe para 30%. ➔ A incidência global da PA é de 34 casos por 100.000 habitantes em um ano, sem diferenças significativas entre mulheres e homens. ➔ As regiões do continente com maior número de casos novos são a América Ocidental, América do Norte e Pacífico. Por sua vez, a Europa de forma geral, é a região com menor incidência. ➔ A prevalência da PC é 10 a 30 por 100.000 habitantes e afeta cerca de 8 novos pacientes por 100.000 habitantes por ano nos Estados Unidos. ➔ O consumo de álcool é a principal causa de PC nos países ocidentais, correspondendo de 70 a 90% dos casos. Etiologia da Pancreatite ➔ As duas principais etiologias incluem o consumo de álcool e cálculo biliar, representando cerca de 60 a 80% de todos os casos de pancreatite. ➔ Em terceiro lugar, encontra-se a hipertrigliceridemia, principalmente em mulheres grávidas, que possuem chance aumentada de desencadear pancreatite induzida por trigliceridemia. ➔ Não obstante, vale lembrar que a grande maioria dos genes envolvidos no desenvolvimento da pancreatite codificam proteases digestivas, inibidores de tripsina e outras proteínas expressas no pâncreas. Diversos estudos e codificações desses genes constataram mutações e alterações de cunho genético que induzem o desenvolvimento da pancreatite e sua progressão. Fisiopatologia da Pancreatite Pancreatite Aguda (PA) A pancreatite aguda é uma inflamação súbita do pâncreas, causada pela ativação precoce das enzimas pancreáticas dentro do próprio órgão, levando à autodigestão e inflamação local e sistêmica. ➔ Ativação Inapropriada das Enzimas Pancreáticas ◆ Normalmente, o pâncreas secreta enzimas digestivas inativas que são ativadas apenas no intestino delgado. ◆ Na pancreatite aguda, ocorre ativação prematura do tripsinogênio em tripsina dentro do pâncreas, desencadeando a ativação de outras enzimas proteolíticas (quimotripsina, elastase, fosfolipase A2). ➔ Autodigestão e Inflamação ◆ A tripsina ativada digere as próprias células acinares pancreáticas, levando a danos teciduais. ◆ A elastase degrada fibras elásticas dos vasos sanguíneos, resultando em hemorragias locais. ◆ A fosfolipase A2 destrói as membranas celulares, piorando a necrose. ➔ Resposta Inflamatória Local e Sistêmica ◆ A ativação do sistema imune resulta na liberação de citocinas inflamatórias (TNF-α, IL-1, IL-6), amplificando o dano celular. ◆ A inflamação pode ser leve e autolimitada ou grave, levando a necrose pancreática e falência de órgãos. ➔ Comprometimento da Microcirculação e Necrose Pancreática◆ Ocorre vasoconstrição e trombose nos vasos pancreáticos, agravando a isquemia e favorecendo a necrose. ◆ A permeabilidade intestinal aumenta, favorecendo a translocação bacteriana do intestino para o pâncreas, resultando em infecção do tecido pancreático necrótico. Complicações ➔ Falência de órgãos (pulmonar, renal, cardiovascular) pela resposta inflamatória sistêmica. ➔ Necrose pancreática: áreas do pâncreas morrem e podem infectar. ➔ Coleções líquidas e pseudocistos pancreáticos: acúmulo de líquidos ao redor do pâncreas. ➔ Choque hipovolêmico devido à perda de fluídos para o terceiro espaço. Pancreatite Crônica (PC) A pancreatite crônica é uma inflamação persistente e progressiva do pâncreas, resultando em fibrose, perda da função exócrina e endócrina, além de predisposição ao câncer pancreático. ➔ Lesão Recorrente e Ativação Imune Persistente ◆ Exposição repetida a fatores agressivos (álcool, tabaco, mutações genéticas) leva a episódios recorrentes de inflamação. ◆ Isso provoca ativação contínua do sistema imune, resultando em produção de citocinas pró-inflamatórias e fibrose progressiva. ➔ Fibrose e Perda de Função Pancreática ◆ Deposição de colágeno substitui o tecido pancreático funcional. ◆ Ocorre atrofia das células acinares, reduzindo a produção de enzimas digestivas, levando à insuficiência pancreática exócrina. ◆ A destruição das ilhotas pancreáticas resulta em diabetes mellitus tipo 3c (diabetes pancreatogênico). ➔ Obstrução Ductal e Calcificações ◆ Com o tempo, o ducto pancreático sofre estenoses e pode acumular calcificações, impedindo a liberação do suco pancreático. ◆ A estase do suco pancreático agrava a inflamação e a progressão da doença. ➔ Evolução para Câncer Pancreático ◆ A inflamação crônica predispõe à transformação maligna do epitélio ductal pancreático, aumentando o risco de adenocarcinoma ductal pancreático. Complicações ● Insuficiência pancreática exócrina: má absorção de gorduras, diarreia e desnutrição. ● Diabetes mellitus tipo 3c: destruição das células β das ilhotas pancreáticas. ● Pseudocistos pancreáticos: acúmulo de líquido digestivo dentro do pâncreas. ● Estenose biliar: compressão do ducto biliar comum, levando a icterícia. ● Câncer pancreático: maior risco após anos de inflamação crônica. Manifestações Clínicas da Pancreatite Pancreatite Aguda (PA) ● Dor abdominal intensa: localizada no epigástrio, pode irradiar para o dorso e piora após ingestão de alimentos ou álcool. ● Náuseas e vômitos: ocorrem em 90% dos casos devido à gastroparesia associada à inflamação pancreática. ● Febre baixa: presente em até 60% dos pacientes, sem estar necessariamente associada a infecção. ● Distensão abdominal e íleo paralítico: devido à inflamação local e acúmulo de fluidos. ● Sinais de gravidade: ○ Sinal de Cullen: equimose periumbilical, indicando hemorragia retroperitoneal. ○ Sinal de Grey-Turner: equimose nos flancos, associada à pancreatite necro-hemorrágica. ○ Hipotensão e choque: devido à resposta inflamatória sistêmica e extravasamento de fluidos. Pancreatite Crônica (PC) ● Dor abdominal recorrente: semelhante à PA, mas de menor intensidade e persistente. ● Perda de peso: devido à má absorção de nutrientes. ● Esteatorreia: diarreia gordurosa, sinal de insuficiência pancreática exócrina. ● Diabetes Mellitus tipo 3c: devido à destruição das células das ilhotas pancreáticas. ● Icterícia: pode ocorrer devido à compressão do ducto biliar comum. Diagnóstico da Pancreatite Critérios Diagnósticos para Pancreatite Aguda O diagnóstico é confirmado pela presença de pelo menos dois dos três critérios: 1. Dor abdominal típica (epigástrica intensa, irradiada para o dorso). 2. Elevação de enzimas pancreáticas (amilase e lipase > 3x o limite superior). 3. Achados característicos em exames de imagem (TC, RM ou ultrassonografia). Exames Laboratoriais ● Lipase sérica: marcador mais específico para pancreatite aguda, aumenta em 3-6h e permanece elevada por até 2 semanas. ● Amilase sérica: aumenta rapidamente, mas tem menor especificidade (pode estar elevada em doenças como colecistite e úlcera perfurada). ● Leucocitose: comum devido à inflamação sistêmica. ● PCR elevada: correlaciona-se com a gravidade da PA. ● Hipocalcemia: pode indicar pancreatite grave. ● Triglicerídeos elevados: podem ser causa e consequência da pancreatite. Exames de Imagem ● Tomografia Computadorizada (TC) com contraste: indicada se o diagnóstico for incerto ou se houver piora clínica após 72h, avalia necrose e complicações. ● Ultrassonografia abdominal: útil para identificar cálculos biliares, mas tem limitações na avaliação do pâncreas devido à presença de gases intestinais. ● Ressonância Magnética (RM): avalia detalhadamente o ducto pancreático e coleções líquidas peripancreáticas. Diagnóstico da Pancreatite Crônica ● TC e RM mostram fibrose pancreática, calcificações e atrofia do parênquima pancreático. ● Teste da elastase fecal: reduzida em casos de insuficiência pancreática exócrina. ● Teste de estimulação com secretina: avalia função exócrina pancreática. Tratamento da Pancreatite Pancreatite Aguda ➔ Suporte Clínico: ◆ Reposição volêmica agressiva com Ringer Lactato para evitar choque hipovolêmico. ◆ Jejum inicial e realimentação precoce: quando o paciente tolerar alimentação, preferencialmente via enteral. ◆ Analgésicos: opioides são frequentemente necessários para controle da dor. ◆ Correção de distúrbios metabólicos, como hipocalcemia e hiperglicemia. ➔ Manejo de Complicações: ◆ Necrose pancreática infectada: pode necessitar de drenagem percutânea ou cirúrgica. ◆ Falência de órgãos: suporte intensivo em UTI, se necessário. ◆ Antibióticos: apenas em infecções comprovadas. ➔ Tratamento Etiológico: ◆ Colecistectomia precoce em pancreatite biliar para evitar recorrência. ◆ Controle da hiperlipidemia em casos de pancreatite por hipertrigliceridemia. ◆ Aconselhamento para cessação do álcool em pacientes com pancreatite alcoólica. Pancreatite Crônica ➔ Controle da Dor: ◆ Analgésicos: AINEs e opioides, conforme necessidade. ◆ Bloqueio do plexo celíaco em casos refratários. ➔ Suporte Nutricional: ◆ Suplementação enzimática (lipase, amilase, protease) para melhorar a digestão. ◆ Dieta hipercalórica e hiperproteica para compensar a má absorção. ➔ Controle do Diabetes Mellitus tipo 3c: ◆ Insulina pode ser necessária, mas com risco aumentado de hipoglicemia devido à perda da secreção de glucagon. ➔ Tratamento Cirúrgico: ◆ Derivações ductais em casos de obstrução severa. ◆ Pancreatectomia parcial em casos graves com dor intratável. Guia 1 Revisão da Morfofisiologia do Pâncreas e da Vesícula Biliar Anatomia do Pâncreas ➔Cabeça: porção mais larga, localizada junto ao duodeno. ➔Colo: região estreita entre a cabeça e o corpo. ➔Corpo: parte central, situada atrás do estômago. ➔Cauda: extremidade mais fina, próxima ao baço. 1.Irrigação Arterial Drenagem Venosa Fisiologia do Pâncreas Histologia do Pâncreas Revisão da Morfofisiologia da Vesícula Biliar Anatomia da Vesícula Biliar Vascularização da Vesícula Biliar Fisiologia da Vesícula Biliar Histologia da Vesícula Biliar Pancreatite Epidemiologia da Pancreatite Etiologia da Pancreatite Fisiopatologia da Pancreatite Manifestações Clínicas da Pancreatite Diagnóstico da Pancreatite Tratamento da Pancreatite