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FUNDAMENTOS DE MICROECONOMIA Marcos Vinícius Henrique Fundamentos de Microeconomia 2 1. REMEMORANDO O CONCEITO DE ECONOMIA Fonte: PIXABAY, 2022 Olá aluno(a) Unifacear! Seja bem-vindo(a) à aula sobre Fundamentos de Microeconomia. Antes de mais nada, preliminarmente, é importante mencionar que a Microeconomia, assim como a Macroeconomia, é um ramo da Economia. Portanto, se faz necessário rememorar o conceito de Economia. Conforme a excelente definição de Paul Samuelson, um dos mais renomados economistas norte-americanos, Economia “é uma ciência social que estuda a administração dos recursos escassos entre usos alternativos e fins competitivos” (PINHO e VASCONCELLOS, 2004, p. 8). Ou seja, é uma ciência social que analisa o fenômeno da escassez de recursos, uma vez que os recursos materiais são limitados e não é possível produzir uma quantidade infinita de bens, ao mesmo tempo que os desejos e as necessidades humanas são ilimitadas. Uma vez recapitulado o conceito de Economia, passemos aos fundamentos da Microeconomia, um dos ramos da Economia. Fundamentos de Microeconomia 3 2. O QUE É MICROECONOMIA A Microeconomia é o ramo da Economia que estuda o comportamento dos consumidores e suas respectivas decisões de consumo, a forma de atuação das empresas e suas respectivas produções e custos e como se dá a formação de preços de bens, serviços e fatores produtivos no sistema econômico (PINHO e VASCONCELLOS, 2004). Tem por objeto, portanto, o comportamento de consumidores e produtores, examinando suas ações de consumo e produção, respectivamente (MENDES, 2009). Por conta disso, a Microeconomia tem como foco (MENDES, 2009): a) unidades individuais da Economia (consumidor e empresa); b) comportamento do consumidor, por um lado, o qual busca maximizar sua satisfação no consumo, e do outro, atuação da empresa, que busca maximizar seu lucro; c) formação dos preços de bens e serviços com base nas forças de oferta e demanda, as quais variarão conforme as várias estruturas de mercado existentes. Conforme Pindick e Rubinfeld (2002) explicam, a Microeconomia trata do comportamento das unidades econômicas individuais, em especial consumidores e empresas, explicando como e por que tais unidades tomam decisões econômicas. Por exemplo, esclarecendo como os consumidores tomam decisões de compra e de que forma suas escolhas são influenciadas pelas variações de preços e rendas, assim como as empresas definem preços e níveis de produção e como são influenciadas por políticas governamentais e condições econômicas globais. Ainda com base em Pindick e Rubinfeld (2002), é importante diferenciar a Microeconomia da Macroeconomia, sendo que a Macroeconomia trata das quantidades econômicas agregadas, como o nível e a taxa de crescimento do produto, taxas de juros, inflação, dentre outras variáveis, ao passo que a Microeconomia trata das unidades econômicas individuais. Neste sentido, a Microeconomia tem relação direta com o conceito de Economia, pois tem como objeto de estudo a alocação de recursos escassos. Pindick e Rubinfeld (2002) nos fornecem exemplos. Assim, por exemplo, a Microeconomia explica como os consumidores podem despender melhor a sua renda limitada nos vários bens e serviços disponíveis para aquisição, da mesma forma que explica como as empresas podem alocar melhor os seus recursos financeiros limitados na contratação de trabalhadores adicionais, na compra de nova maquinaria ou ainda na produção de certo conjunto de bens em vez de outros. Fundamentos de Microeconomia 4 Tendo em vista a Microeconomia estudar as várias formas de comportamento das escolhas individuais dos agentes econômicos, consumidores e empresas, ela analisará a formação dos preços nos diversos mercados, por meio da ação conjunta da demanda e da oferta, sendo que os preços sinalizarão o uso eficiente dos recursos escassos da sociedade e funcionarão como elementos de exclusão. Nesta senda, são importantes alguns pressupostos básicos na análise microeconômica: a) a Microeconomia utiliza-se de modelos para proceder às suas análises. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), os modelos retratam uma construção composta de uma série de hipóteses com base nas quais as conclusões são extrapoladas. Pindick e Rubinfeld (2002), por sua vez, conceituam modelo como uma representação matemática de uma empresa, um mercado ou alguma outra entidade, com base na teoria econômica. E exemplificam com um modelo desenvolvido para uma empresa específica, com o qual se poderia prever quanto deverá variar seu nível de produção como resultado de uma queda de 10% no preço de suas matérias-primas. b) Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), a Microeconomia apresenta uma natureza estático-comparativa, sendo que são confrontadas duas ou mais posições de equilíbrio sem qualquer preocupação com o que possa ter ocorrido durante o período que demandou a passagem da situação inicial para a final. c) Pinho e Vasconcellos (2004) ainda ressaltam o enquadramento da Microeconomia dentro do ramo da economia positiva ou científica, uma vez que estuda as situações tal e qual se apresentam, descrevendo-as sem se posicionar favorável ou desfavoravelmente a elas, ou seja, inexiste qualquer juízo de valor ou conotação ética na Microeconomia. d) Por fim, Pinho e Vasconcellos (2004) apresentam a condição coeteris paribus, hipótese segundo a qual todas as demais condições que possam influenciar no relacionamento entre duas variáveis, funcionalmente dependentes, sejam mantidas constantes. Assim, quando a Microeconomia analisa a interação entre duas variáveis, por exemplo, preço de um produto e a sua quantidade demandada pelos consumidores, utiliza-se da hipótese coeteris paribus (tudo o mais permanece constante), pois o foco da análise é a interação entre as duas variáveis, supondo-se as demais variáveis que possam influenciar na análise constantes. No exemplo acima, somente o preço do produto e a sua quantidade demandada pelos consumidores seriam as variáveis analisadas, considerando as demais constantes, como por exemplo o efeito da renda dos consumidores sobre a quantidade demandada do produto. Fundamentos de Microeconomia 5 e) Conforme Mendes (2009), a Microeconomia se baseia no princípio da racionalidade. Por um lado, os consumidores buscam maximizar sua satisfação no consumo de bens e serviços, sujeita a uma restrição (limite) de renda e dos preços dos bens e serviços disponíveis. Por outro lado, as empresas buscam maximizar seus lucros, os quais são condicionados pelos seus custos de produção e nível de receita a depender da estrutura de mercado em que atuam. Conforme Pindick e Rubinfeld (2002), a importância da Microeconomia reside na sua aplicabilidade na tomada de decisões com base no seu ferramental de análise. Para as empresas, a teoria microeconômica pode oferecer subsídios para as seguintes questões: a) qual a política de preços a ser adotada pela empresa (ganho no volume a preços baixos ou preços elevados). b) instrumentos de previsão de demanda e faturamento. c) ferramentas para estimativa de custos de produção. d) instrumentos para estimativa de níveis ótimos de produção, visando a melhor combinação de fatores de produção e respectivos custos, com o objetivo de obter eficiência produtiva. e) ferramentas para avaliação e elaboração de projetos de investimentos. f) análise dos efeitos da propaganda e publicidade no comportamento do consumidor. g) análise quanto à localização ótima da empresa, observando-se os inputs (matérias- primas, maquinários, mão de obra) e os outputs (produtos e serviços) e respectivas localizações. Além disso, a teoria microeconômica fornece ferramentas para a análise de potenciais impactos da políticaeconômica dos Governos sobre as atividades econômicas, como nas seguintes questões: a) efeito da criação ou majoração de um imposto sobre determinado produto, por exemplo uma elevação de alíquota do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços - ICMS sobre a gasolina, ou uma redução do Imposto sobre Produtos Industrializados - IPI sobre eletrodomésticos. b) efeitos da política de subsídios do Governo sobre determinado produto, como por exemplo, a instituição de subsídios sobre os preços dos combustíveis com o objetivo de amortecer efeitos da variação internacional do preço do petróleo. c) efeitos da política de fixação de preços mínimos pelo Governo, visando proteger os produtores, em geral agrícolas, das flutuações de mercado. Fundamentos de Microeconomia 6 d) efeitos da política de controle de preços pelo Governo, como o congelamento de preços, medida já observada no Brasil em tentativas frustradas de combate à inflação crônica. e) efeitos da política salarial do Governo, como o efeito de um aumento acima da inflação do salário-mínimo. f) efeitos da política de tarifas de serviços de utilidade pública, como água e eletricidade, geralmente oferecidos por companhias de capital aberto com participação majoritária do setor público, a exemplo da Companhia Paranaense de Energia – Copel e Companhia de Saneamento do Paraná – Sanepar. Para fins didáticos e dentro dos objetivos deste tópico, abordaremos a teoria elementar do funcionamento do mercado, dentro da qual temos a teoria elementar da demanda, a teoria elementar da oferta e o equilíbrio de mercado. Entretanto, preliminarmente, é preciso analisar no que se constitui um mercado. 3. O QUE É UM MERCADO Fonte: PIXABAY, 2022 Pindick e Rubinfeld (2002) dividem as unidades econômicas individuais em dois grandes grupos de acordo com sua função: compradores e vendedores. Em conjunto, compradores e vendedores interagem, originando os mercados. Assim, um mercado é um Fundamentos de Microeconomia 7 grupo de compradores e vendedores que, por meio de suas reais ou potenciais interações, determina o preço de um produto ou de um conjunto de produtos. Da interação de compradores e vendedores, estabelece-se o preço de mercado. A extensão do mercado refere-se aos seus limites, tanto geográficos quanto em termos da gama de produtos vendidos e produzidos dentro dele (PINDICK E RUBINFELD, 2002). Neste sentido, é importante mencionar a complexidade em determinar a extensão de um mercado, dado o processo de globalização observado atualmente, acelerado sobremaneira com a evolução da internet e as plataformas de marketplace. 4. TEORIA ELEMENTAR DA DEMANDA Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), a teoria da demanda tem por objeto de estudo as variáveis que interferem na decisão de consumo de bens e serviços por parte do consumidor, analisando as variações da sua demanda, ou seja, da quantidade de um determinado bem ou serviço que o consumidor deseja adquirir em certo período, quando ocorrem alterações nos preços e em outras variáveis com influência sobre tal nível de demanda. Conforme Mendes (2009), além do preço do bem ou serviço em análise, a demanda é afetada ainda: a) pelos preços de produtos substitutos; b) pelos preços de produtos complementares; c) pela renda do consumidor; d) pelos gostos e preferências do consumidor; e) pelos efeitos da propaganda sobre o consumidor. Em termos matemáticos, tem-se: Dx = f(Px, Ps, Pc, R, G, Pp), onde: Dx = demanda do bem x. Px = preço do bem x. Ps = preço dos bens substitutos. Pc = preço dos bens complementares. R = renda. G = gostos e preferências. Pp = propaganda. Para que possamos analisar a influência de cada variável sobre a demanda do consumidor, é necessário fazer uma simplificação, pois analisar o efeito de todas as Fundamentos de Microeconomia 8 variáveis determinantes da demanda em conjunto seria bastante complexo e exigiria um instrumental matemático mais sofisticado. Assim, a simplificação consiste em considerar o efeito de cada variável, separadamente, sobre a demanda do consumidor, utilizando-se da hipótese já apresentada do coeteris paribus (tudo o mais permanece constante), com o foco de análise na interação entre uma variável explicativa e o nível de demanda, supondo-se as demais variáveis que possam influenciar na análise constantes. Para fins de estudo vamos utilizar como exemplo o mercado de gasolina, com base em Pindick e Rubinfeld (2002). Muitos fatores podem afetar a demanda do consumidor por gasolina. Entretanto, neste momento procuramos analisar como a demanda do consumidor por gasolina muda quando o preço da gasolina muda, considerando-se todos os demais fatores determinantes da demanda por gasolina constantes, segundo a hipótese do coeteris paribus. Em termos matemáticos, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), temos: Dx = f(Px), tudo o mais permanecendo constante. E como a quantidade de gasolina demandada pelo consumidor variará à medida que o preço da gasolina muda? Conforme Mendes (2009), a lei da demanda estabelece que há uma relação inversa entre os preços de um produto e a quantidade que o consumidor está disposto a comprar desse produto, por unidade de tempo, em condições coeteris paribus. Assim, quando o preço de um bem ou serviço cai, a quantidade demandada de tal bem ou serviço aumenta. Assim, se Px ↑ → Dx ↓ e se Px ↓ → Dx ↑. Esta relação inversa entre o preço de um bem e sua quantidade demandada pode ser expressa por meio de uma tabela mostrando a quantidade demandada do bem a preços diferentes. Outra forma de expressar tal relação é por meio de um gráfico, construindo-se a chamada curva de demanda, que mostra a relação entre o preço do bem e a quantidade desse bem que o consumidor está disposto a adquirir em certo período, tudo o mais permanecendo constante (hipótese coeteris paribus). A convenção adotada na curva de demanda é a quantidade demandada do bem no eixo horizontal (eixo x) e o preço do bem no eixo vertical (eixo y). A Tabela 1 apresenta a tabulação de dados sobre a quantidade de gasolina que os consumidores demandam a preços diferentes em uma certa localidade. Podemos ver que à medida que o preço da gasolina aumenta ($/litro), os consumidores demandam menos quantidade dela (milhares de litros/semana). Fundamentos de Microeconomia 9 Tabela 1 Os dados da Tabela 1 são expressos graficamente, na forma de uma curva de demanda, na Figura 1. Podemos notar que a curva de demanda tem inclinação negativa, uma vez que expressa a lei da demanda, ou seja, a relação inversa entre preço de um bem e sua quantidade demandada. Figura 1 Observando-se a Figura 1, podemos ver que ao preço de $ 1,70 por litro, os consumidores da localidade demandam 74.000 litros de gasolina por semana. Caso o preço se eleve para $ 1,90 por litro, observa-se que os consumidores da localidade passam a demandar 70.000 litros de gasolina por semana. Este movimento ao longo da curva de demanda conforme as variações de preços refere-se à mudança na quantidade demandada, que se difere da mudança na demanda, que é quando a curva de demanda inteira se desloca. Ou seja, conforme resumem Pinho e Vasconcellos (2004), a curva de demanda representa o conjunto de todas as combinações possíveis entre preços e quantidades, sendo que quando se fala em demanda, estamos nos referindo à curva inteira, enquanto se denomina quantidade demandada um determinado ponto dessa mesma curva de demanda. Sendo assim, o que causaria o deslocamento da curva de demanda inteira? Já sabemos que uma mudança no preço da gasolina não causará o deslocamento da curva de Fundamentos de Microeconomia 10 demanda inteira, mas somente faráo consumidor mover-se ao longo da curva de demanda conforme a variação na sua quantidade demandada, conforme observa-se na Figura 1. Para expandir nossa análise, vamos passar a considerar as variáveis que causam o deslocamento da curva de demanda inteira. Uma delas é a renda do consumidor. Em termos matemáticos, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), temos: Dx = f(R), tudo o mais permanecendo constante. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), em regra, existe uma relação crescente e direta entre a renda e a demanda por um bem ou serviço, ou seja, quando a renda cresce, a demanda do bem ou serviço deve aumentar. O indivíduo, ficando “mais rico”, tende a desejar aumentar seu padrão de consumo e, portanto, demandar maiores quantidades de bens e serviços. No nosso exemplo para o consumo de gasolina, se a renda do consumidor aumentar, muitos decidirão comprar mais gasolina ao mesmo preço, fazendo mais deslocamentos por veículos (mais passeios, viagens etc.). Assim, rendas maiores resultariam numa mudança na demanda, conforme exposto na Figura 2, onde a curva de demanda inteira desloca-se para a direita. Figura 2 Se a renda dos consumidores aumenta e a demanda do produto também, temos um bem normal. Assim, se R ↑ → Dx ↑, para bens normais. Entretanto, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), é possível que o indivíduo esteja totalmente satisfeito com o consumo de determinado bem e não altere a quantidade Fundamentos de Microeconomia 11 demandada quando sua renda aumentar. São os bens de consumo saciado, quando a demanda do bem praticamente não é influenciada pela renda dos consumidores, a exemplo do arroz, da farinha, do sal, dentre outros. Um aumento da renda do consumidor provavelmente não o fará consumir mais sal, por exemplo. Além disso, ainda conforme Pinho e Vasconcellos (2004), existem bens cuja demanda se reduz quando a renda aumenta. São os bens inferiores, aqueles cuja demanda varia em sentido inverso às variações da renda. Exemplo disso é quando o consumidor tem um aumento de renda e diminui o consumo de carne de segunda, elevando seu consumo de carne de primeira. Ainda se tem os bens de Veblen, que são bens de consumo de altíssimo luxo, que possuem função de ostentação, como iates, relógios de ouro, carros esportivos de luxo (Ferrari, Lamborghini), etc, cujo consumo pressupõe certo nível elevado de renda. Outro fator que causaria um deslocamento da demanda é uma mudança no preço de outros bens relacionados ao bem analisado. Em termos matemáticos, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), temos: Dx = f(Pi), tudo o mais permanecendo constante, sendo Pi o preço do bem i. Para essa função não há relação geral: o aumento do preço do bem i poderá aumentar ou reduzir a demanda do bem x. A reação dependerá do tipo de relação existente entre os dois bens. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), se o aumento do preço do bem i aumentar a demanda do bem x, os bens i e x são chamados substitutos ou concorrentes. Bens substitutos quando há uma relação direta entre o preço de um bem e a quantidade demandada de outro (Pi ↑ → Dx ↑). Como exemplo, um aumento no preço da carne deve elevar a demanda de peixe, assim como uma elevação do preço da gasolina deve elevar a demanda por etanol. Também são substitutas a manteiga e a margarina, o transporte por ônibus e por avião, o café e o chá, entre outros. Por outro lado, se o aumento do preço do bem i reduzir a demanda do bem x, os bens i e x são chamados de complementares. Bens complementares são bens que podem ser utilizados em conjunto ou que ficam mais bem utilizados (Pi ↑ → Dx ↓). Exemplo: se aumentar o preço da impressora e a quantidade demandada de cartuchos diminuir é porque a impressora e o cartucho são complementares no consumo. Outros exemplos são o filtro com o pó de café e o pão e a manteiga. Em nosso exemplo da demanda por gasolina, caso a tarifa do transporte público aumentasse significativamente, isto faria com que a demanda por gasolina aumentasse, Fundamentos de Microeconomia 12 deslocando a demanda para a direita, conforme Figura 3, à medida que mais pessoas decidam dirigir seus próprios veículos porque o transporte público agora passaria a ser muito caro para eles. Uma mudança nos gostos e preferências dos consumidores também causaria um deslocamento da curva de demanda. Para nosso exemplo da demanda por gasolina, as preferências dos consumidores americanos com relação a veículos grandes (ineficientes em economia de combustível) causaria um aumento na demanda por gasolina. Figura 3 Uma mudança significativa no número de pessoas dirigindo também causaria uma mudança na demanda por gasolina, aumentando-a. Por outro lado, o aumento de pessoas que preferissem ir de bicicleta ao trabalho provocaria uma queda na demanda por gasolina. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), a propaganda também teria efeitos sobre a curva de demanda. Por exemplo, a realização de uma grande campanha publicitária incentivando a população a beber mais leite poderia provocar um aumento da demanda por leite, deslocando a curva de demanda para a direita. Pode-se aqui mencionar a campanha publicitária que vem sendo feita sobre os males provocados pelo cigarro, que contribuiu com a queda na demanda por cigarro, deslocando a curva de demanda para a esquerda, neste caso. Fundamentos de Microeconomia 13 5. TEORIA ELEMENTAR DA OFERTA Após analisarmos o lado da demanda do mercado, agora passamos a analisar o lado da oferta. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), a teoria da oferta tem por objeto de estudo as variáveis que interferem na decisão de venda de bens e serviços por parte do produtor, analisando as variações da sua oferta, ou seja, da quantidade de um determinado bem ou serviço que o produtor deseja vender em certo período de tempo, quando ocorrem alterações nos preços e em outras variáveis com influência sobre tal nível de oferta. Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), além do preço do bem ou serviço em análise, a oferta é afetada ainda: a) pelos preços dos demais bens produzidos; b) pelos custos dos fatores de produção; c) pela tecnologia de produção. Em termos matemáticos, tem-se: Ox = f(Px, Pi, F, T), onde: Ox = oferta do bem x. Px = preço do bem x. Pi = preço dos demais bens. F = custo dos fatores de produção. T = tecnologia de produção. Quanto menores os preços, maior o estímulo aos consumidores a consumir, ao passo que quanto mais elevados os preços, maior o estímulo dos produtores a ofertar com vistas a oportunidade de obtenção de lucros. Assim, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), a oferta do bem depende de seu próprio preço, sendo que, coeteris paribus (tudo o mais permanecendo constante), quanto maior for o preço do bem, mais interessante será produzi-lo e, portanto, a oferta é maior. Como você pode perceber, a lei da oferta é o oposto da lei da demanda, pois estabelece que à medida que o preço de um bem ou serviço aumenta, os produtores decidirão ofertar mais dele, coeteris paribus. Voltando ao exemplo do mercado de gasolina, muitos fatores podem afetar a oferta do produtor/vendedor de gasolina. Entretanto, agora procuramos analisar como a oferta do produtor/vendedor de gasolina muda quando o preço da gasolina muda, considerando-se todos os demais fatores determinantes da oferta de gasolina constantes, Fundamentos de Microeconomia 14 segundo a hipótese do coeteris paribus. Em termos matemáticos, conforme Pinho e Vasconcellos (2004), temos: Ox = f(Px), tudo o mais permanecendo constante. E como a quantidade de gasolina ofertada pelo produtor/vendedor variará à medida que o preço da gasolina muda? Conforme vimos, de acordo com a lei da oferta, o preço e a quantidade ofertadamudam na mesma direção, em condições coeteris paribus. Assim, quando o preço de um bem ou serviço aumenta, a quantidade ofertada de tal bem ou serviço aumenta. Assim, se Px ↑ → Ox ↑ e se Px ↓ → Ox ↓. Uma vez mais podemos expressar a relação entre o preço e a quantidade ofertada usando as tabelas e os gráficos. A Tabela 2 ilustra a oferta por gasolina, com a quantidade ofertada aumentando à medida que o preço da gasolina aumenta. A Figura 4 simplesmente converte os dados na Tabela 2 num gráfico, a curva de oferta, relacionando a quantidade ofertada de gasolina com seu preço. Observe que a curva de oferta tem declividade positiva à medida que nos movemos para a direita. Tabela 2 Figura 4 Existe também uma distinção entre uma mudança na quantidade ofertada e uma mudança na oferta. Uma mudança na quantidade ofertada ocorre quando nos movemos Fundamentos de Microeconomia 15 ao longo da curva de oferta à medida que o preço do bem ou serviço muda. Isto é mostrado na Figura 4. Vemos que a um preço de $ 1,70, os produtores estão dispostos a ofertar 69.000 litros de gasolina. Mas se o preço fosse aumentado para $ 1,90, a quantidade ofertada aumentaria para 75.000 litros por semana. Uma mudança na oferta ocorre quando a curva de oferta inteira se desloca. As variáveis que poderiam causar tal deslocamento da curva de oferta são os preços dos demais bens (Pi), os custos dos fatores de produção (F) e a tecnologia de produção (T). Conforme Pinho e Vasconcellos (2004), se os preços dos demais bens (Pi) subirem e o preço do bem x permanecer idêntico, sua produção se tornará menos atraente em relação à produção dos outros bens, e por consequência diminuindo a oferta do bem x. Assim, Px permanecendo constante, se Pi ↑ → Ox ↓ e se Pi ↓ → Ox ↑. A alteração do custo dos fatores de produção também provocará um deslocamento da curva de oferta. Por exemplo, um aumento no salário pago aos empregados da companhia de gasolina faria os produtores aumentarem o preço que cobram pela gasolina, significando uma mudança na curva de oferta para a esquerda, como ilustrada na Figura 5. Ou seja, para ofertar a mesma quantidade de gasolina os produtores cobrarão um preço maior, haja vista a elevação nos custos de produção. Figura 5 Outro fator que causaria uma alteração na oferta é uma mudança na tecnologia de produção. Suponha que uma inovação reduza os custos do refino da gasolina. Neste caso, a curva de oferta se deslocaria para a direita, ou seja, para ofertar a mesma quantidade de gasolina, os produtores poderiam cobrar um preço menor, a depender da elevação ou não do nível de lucratividade dos produtores face a redução de custos. Fundamentos de Microeconomia 16 6. EQUILÍBRIO DE MERCADO Pinho e Vasconcellos (2004) concluem que o preço de mercado é determinado tanto pela oferta quanto pela demanda. Da interseção das curvas de demanda (decrescente) e oferta (crescente) que se chega ao preço e à quantidade de equilíbrio do mercado, no ponto em que os consumidores desejam comprar uma quantidade exatamente igual à quantidade que os produtores desejam vender. Voltando ao exemplo do mercado de gasolina, agora podemos juntar os dois lados do mercado da gasolina: sua demanda e sua oferta. O preço da gasolina será determinado pela interação entre os consumidores e produtores. Podemos ilustrar esta interação ao colocar as curvas de demanda e oferta em um mesmo gráfico, como mostrado na Figura 6. Primeiro, suponha que o preço da gasolina fosse inicialmente de $ 2,00 por litro. Vemos na Figura 6 que a este preço a quantidade ofertada excede a quantidade demandada. Chamamos esta situação de excesso de oferta porque os produtores têm mais gasolina a disposição do que os consumidores estão dispostos a comprar. Ao invés de descartar o excesso de gasolina, os produtores irão baixar os seus preços visando atraírem mais consumidores. Então, no caso de um excesso de oferta esperamos uma pressão para baixar os preços. Por outro lado, o que aconteceria se o preço fosse $ 1,50 por litro? Vemos na Figura 6 que a este preço a quantidade demandada excede o que os produtores estão desejosos a ofertar, o que caracteriza um excesso de demanda. Os produtores irão notar este excesso de demanda e perceberão que eles podem aumentar seus preços, de forma que a escassez de oferta irá criar uma pressão para aumentar os preços. Fundamentos de Microeconomia 17 Figura 6 Quando um excesso ou escassez de oferta existe, o mercado irá se ajustar tentando eliminar o excesso de oferta ou de demanda. Este ajustamento continuará até alcançar um preço onde a quantidade demandada iguala a quantidade ofertada. Apenas a este preço não existirá pressão para ajustamentos adicionais de mercado, coeteris paribus. Na Figura 6 isto ocorre ao preço de $ 1,80 por litro. A este preço, ambas as quantidades, demandada e ofertada, são de 72.000 litros por semana. Um mercado em equilíbrio é estável tão logo todos os outros fatores relevantes permaneçam o mesmo, incluindo a renda do consumidor, os preços dos bens relacionados (substitutos ou complementares), gostos e preferências, propaganda, preço dos demais bens, custos dos fatores de produção e tecnologia de produção. Mudanças nessas variáveis farão as curvas de demanda ou de oferta se deslocar e resultarem num novo equilíbrio de mercado. Isto é ilustrado na Figura 7. Por exemplo, após um aumento na renda dos consumidores, a curva de demanda para a gasolina se desloca de D0 para D1. Isto resulta num novo equilíbrio de mercado com um preço maior e um aumento na quantidade vendida de gasolina. Você pode testar por si mesmo o que aconteceria com o preço e a quantidade de equilíbrio quando a curva de demanda se desloca na direção oposta ou quando a curva de oferta se move. Fundamentos de Microeconomia 18 Figura 7 7. ELASTICIDADE DA DEMANDA E OFERTA As curvas de demanda e oferta indicam a resposta dos consumidores e produtores às mudanças no preço. Enquanto esperamos que todas as curvas de demanda sejam negativamente inclinadas e as de oferta sejam positivamente inclinadas, suas formas irão variar e as respostas às mudanças no preço podem ser menores ou maiores. Consideremos novamente como os consumidores responderiam a um aumento no preço da gasolina. Os consumidores comprariam menos gasolina, mas, pelo menos no curto prazo, provavelmente não muito menos porque geralmente eles têm deslocamentos fixos para o trabalho e não podem comprar um novo veículo. O grau de resposta do consumidor à mudança no preço de um bem ou serviço é determinado pela elasticidade- preço da demanda. A elasticidade-preço da demanda é a variação percentual na quantidade demandada dada uma variação percentual do preço do bem (PINHO e VASCONCELLOS, 2004). Mede a sensibilidade, a resposta dos consumidores quando ocorre uma variação no preço de um bem ou serviço. De acordo com a elasticidade-preço da demanda, ela pode ser classificada como elástica, inelástica ou de elasticidade-preço unitária (PINHO e VASCONCELLOS, 2004): a) demanda inelástica: a demanda para um bem é preço inelástica quando a quantidade demandada muda pouco à medida que o preço muda (% Variação Qtem o bem, mais inelástica será a sua demanda, Fundamentos de Microeconomia 19 pois, dado um aumento de preços, o consumidor não terá opções para não consumir esse produto. b) demanda elástica: a demanda para um bem é preço elástica quando a quantidade demandada muda muito à medida que o preço muda (% Variação Q > % Variação Preço). Isto seria ilustrado graficamente por uma curva de demanda relativamente mais deitada. A carne bovina é um exemplo de um bem com uma demanda que é preço elástica. Quanto menos essencial o bem, mais elástica sua demanda, pois há opções para o consumidor fugir do aumento de preços. Por exemplo, se o preço da carne bovina aumentar, ainda haverá muita opção ao consumidor para a sua substituição, pois tal bem possui substitutos, como a carne de frango, de porco, de peixe. Quanto mais substitutos tem o bem, mais elástica será a sua demanda, pois, dado um aumento de preços, o consumidor terá opções para não consumir esse produto. c) demanda unitária: a demanda para um bem é preço unitária quando a quantidade demandada muda na mesma proporção que o preço muda (% Variação Q = % Variação Preço). Trata-se de um caso hipotético, válido somente para fins didáticos. A elasticidade-preço cruzada da demanda é a variação percentual da quantidade demandada do bem dada uma variação percentual no preço de outro bem (PINHO e VASCONCELLOS, 2004). Pode ser: a) negativa: quando tratar-se de bens complementares, ou seja, quando o preço de um bem y aumentar, a quantidade demandada do bem x diminuir. Por exemplo, tem-se o café e o açúcar. Se o preço do café subir, diminui seu consumo e, consequentemente, reduz-se o consumo de açúcar também. b) positiva: quando tratar-se de bens substitutos, ou seja, quando o preço de um bem y aumentar, a quantidade demandada do bem x também aumentar. Por exemplo, tem-se a manteiga e a margarina. Se o preço da manteiga subir, diminui seu consumo e, consequentemente, eleva-se o consumo de margarina. A elasticidade-renda da demanda é a variação percentual da quantidade demandada dada uma variação percentual da renda do consumidor (PINHO e VASCONCELLOS, 2004). Pode ser: a) negativa: no caso de bens inferiores, pois com o aumento da renda diminui-se a demanda do bem. b) positiva: no caso de bens normais, pois com o aumento da renda aumenta-se a demanda do bem. Fundamentos de Microeconomia 20 Geralmente a elasticidade-renda da demanda de produtos manufaturados é superior à elasticidade renda de produtos básicos, pois quanto mais eleva-se a renda, a tendência é aumentar mais o consumo de produtos manufaturados relativamente aos alimentos. A elasticidade-preço da oferta mede a variação percentual da quantidade ofertada, dada uma variação percentual no preço do bem (PINHO e VASCONCELLOS, 2004). A oferta de um bem é considerada preço inelástica se a quantidade ofertada muda pouco com a variação do preço. Já a oferta preço elástica indica uma mudança relativamente grande na quantidade ofertada com uma mudança no preço. A elasticidade preço da demanda e da oferta podem mudar quando consideramos um período de tempo mais longo. No curto prazo, por exemplo, as curvas de demanda e de oferta para a gasolina são relativamente inelásticas. Mas quando consideramos um período de tempo mais longo, os consumidores podem responder a um aumento nos preços da gasolina por mover-se para um trabalho mais próximo da residência ou comprar um veículo mais eficiente em combustível, e os produtores podem construir novas refinarias ou perfurar mais poços de petróleo. Então a elasticidade preço da demanda e da oferta para gasolina serão maiores num período de tempo mais longo. Fundamentos de Microeconomia 21 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS MENDES, Judas Tadeu Grassi. Economia: fundamentos e aplicações [livro eletrônico]. 2 ed. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2009. PINDICK, Robert Stephen . RUBINFELD, Daniel Lee. Microeconomia. 5 ed. Tradução e revisão técnica: Professor Eleutério Prado. São Paulo: Prentice Hall, 2002. VASCONCELLOS, Marco Antonio Sandoval de. PINHO, Diva Benevides (Orgs). Manual de Economia. 4 ed. São Paulo: Saraiva, 2004.