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IV Ruminantes 25 Cabeça e Pescoço Ventral do Ruminante A descrição contida neste e nos capítulos seguintes (Caps. 26-31) refere-se predominantemente à anatomia bovina. Ovinos e caprinos diferem entre si e, mais obviamente, dos bovinos em muitas das características de sua anatomia, mas parece desnecessário incluí-las, exceto as diferenças mais significativas e clinicamente relevantes. CONFORMAÇÃO E CARACTERÍSTICAS EXTERNAS CONFORMAÇÃO E CARACTERÍSTICAS EXTERNAS EM BOVINOS As características da cabeça dos bovinos que primeiramente atraem a atenção são a forma angular e piramidal, o focinho glabro e os cornos (quando estão presentes). A forma deve- se muito ao desenvolvimento tardio dos seios frontais que invadem os ossos da abóbada craniana, transformando o contorno abaulado da cabeça do bezerro na fronte larga e achatada, e na superfície nucal ereta do adulto (Figs. 25-1, 25-2 e 25-3). Após o nascimento, as proporções relativas também são muito alteradas devido ao crescimento acentuado da parte facial quando comparada ao neurocrânio. Figura 25-1 Vista lateral do crânio bovino. 1, osso incisivo; 2, forame mental; 3, maxila; 3′, túber facial; 3″, forame infraorbital; 4, osso nasal; 4′, incisura nasoincisiva; 5, osso frontal; 5′, corno circundando o processo cornual do osso frontal; 5″, linha temporal; 6, órbita; 7, arco zigomático; 8, fossa temporal; 9, osso temporal; 9′, articulação temporomandibular; 10, côndilo occipital; 11, processo paracondilar. Figura 25-3 Secção paramediana da cabeça de um bezerro de duas semanas de idade. Observar a abóbada craniana redonda. 1, seio frontal; 2, conchas etmoidais; 3, vômer; 4, septo faríngeo; 5, seio palatino; 6, palato duro; 7, palato mole; 8, nasofaringe; 9, linfonodo retrofaríngeo medial; 10, glândula mandibular; 11, ligamento da nuca; 12, cisterna cerebelomedular; 13, cerebelo; 14, cérebro; 15, laringe. A pele, modificada ao redor das narinas, estende-se até a margem do lábio superior formando o plano nasolabial glabro e ligeiramente arredondado. Ele é mantido úmido devido à secreção aquosa produzida por uma espessa camada de glândulas écrinas concentradas abaixo da pele. O tegumento glabro continua através da narina oval e ampla até o vestíbulo nasal, onde se funde à mucosa. A abertura do ducto nasolacrimal situa-se caudalmente à junção mucocutânea. A prega prolonga a concha nasal ventral rostralmente à oculta do lado ventromedial; o ducto pode ser exposto para canulação inclinando-se a asa da narina externamente. Os lábios são grossos, relativamente imóveis e insensíveis; têm pouca participação na apreensão dos alimentos. O superior é maior e sobrepõe-se ao lábio inferior quando em repouso. O tamanho e a conformação dos cornos dependem de raça, idade e sexo. Os cornos apóiam-se sobre processos cornuais muito menores que crescem dos ossos frontais nos ângulos caudolaterais da fronte. O processo cornual possui uma superfície sulcada e porosa, e é coberto por derme papilar que serve também de periósteo. A derme especializada funde-se àquela da pele circundante na base da projeção. A parte principal da parede do corno ou bainha cresce a partir do epitélio que recobre a derme sobre o processo cornual; uma faixa de epitélio irregular situada na base, que faz transição com a epiderme normal, produz a camada mais externa e macia (epiceras). A bainha do corno representa uma modificação do estrato cornificado do epitélio e consiste principalmente em túbulos formados sobre as papilas dérmicas; os túbulos dispõem-se longitudinalmente e são unidos entre si pelo irregular tecido córneo intertubular produzido pelas regiões interpapilares do epitélio. A bainha do corno aumenta em espessura em direção ao ápice uma vez que toda a superfície epitelial é produtiva e o antigo corno é empurrado em direção apical por aquela de origem mais recente (Fig. 25-4). Embora o crescimento do corno seja contínuo, a taxa de produção varia de acordo com os fatores estressantes aos quais o animal está sujeito, sendo comum encontrar os cornos marcados por anéis alternados de espessura maior ou menor. Os anéis menos espessos representam os períodos nos quais a produção foi menos ativa, sendo o corno produzido mais macio e mais propenso ao desgaste. Em vacas, esses períodos geralmente correspondem às parições. Como o primeiro bezerro nasce, geralmente, quando a vaca está com dois anos de idade, e os bezerros subsequentes em intervalos anuais, o número de anéis comumente é um a menos que a idade do animal em anos (Fig. 25-5). Figura 25-4 Secção longitudinal do corno bovino. 1, divertículo cornual do seio frontal; 2, processo cornual; 3, periósteo, derme e epiderme; 4, túbulos córneos. Figura 25-5 Anéis do corno bovino resultantes da variação entre a produção e o desgaste do corno. A derme sensitiva dos cornos é suprida principalmente pelo nervo cornual (Fig. 25- 6/1), que é um ramo da divisão zigomaticotemporal do nervo maxilar. O nervo cornual origina-se dentro da órbita e segue caudalmente através da fossa temporal, onde é protegido pela crista proeminente da linha temporal. O nervo então se divide em dois ou mais ramos que circundam essa crista e aproximam-se do corno separadamente sob a cobertura do fino músculo frontal. O nervo cornual é frequentemente bloqueado para operações de descorna; pode ser acessado onde atravessa a crista, aproximadamente na metade da distância entre o corno e a crista pós-orbital (Fig. 25-6/1). A técnica anestésica nem sempre é bem-sucedida; entre as explicações sugeridas estão as variações na relação do nervo com a crista óssea, a divisão precoce em ramos divergentes e a existência de incomuns e substanciais contribuições a partir dos nervos supraorbital ou infratroclear. A infiltração ao redor da base do corno não garante a perda total da sensibilidade, uma vez que o nervo para o seio frontal pode estender-se até o divertículo no interior do corno. Figura 25-6 Crânio bovino com o nervo cornual (1) e o nervo auriculopalpebral (3). O nervo cornual segue a linha temporal (2) até a base do corno. O nervo auriculopalpebral é palpável no local em que cruza o arco zigomático. Uma artéria e uma veia consideráveis que se ramificam dos vasos temporais superficiais dentro da fossa temporal acompanham o nervo cornual. A artéria ramifica-se antes de alcançar o corno. Seus ramos menores correm pelos sulcos e canais do processo cornual e se retraem quando seccionados, não sendo facilmente alcançados com os hemóstatos; portanto, a descorna é acompanhada por hemorragia arterial abundante a menos que a incisão seja realizada próximo ao crânio, onde as artérias ainda estão mergulhadas em tecido mole. Os cornos são mal definidos em bezerros neonatos e pode-se prevenir seu desenvolvimento através de cauterização do epitélio germinativo em idade precoce (2-4 semanas). A epiderme, a qual se estende para curar a ferida, não possui a capacidade indutora especializada do revestimento original. Quando o bezerro tem por volta de seis meses de idade, uma extensão do seio frontal invade o processo cornual. CONFORMAÇÃO E CARACTERÍSTICAS EXTERNAS EM OVINOS E CAPRINOS O formato e a aparência da cabeça demonstram muitas diferenças interespecíficas, raciais, sexuais e de idade. Embora determinem as características do animal, não apresentam grande interesse clínico. Entretanto, é importante notar que o perfil dorsal do crânio, diferentemente dos bovinos adultos, possui formato abaulado sobre a cavidade craniana e inclina-se caudalmente em direção ao plano nucal; essa característica é comumente mascarada pela localização e pelo tamanho dos cornos (Fig. 25-7). Figura 25-7 Vista lateral do crânio ovino. 1, osso incisivo; 2, forâmen mental; 3, foramens infraorbitais; 4, túber facial; 5, osso nasal; 6, osso frontal; 6′, sulco e forame supraorbital; 6″, linha temporal; 7, órbita; 7′, bolha lacrimal; 8, osso parietal; 9, protuberância occipital externa; 9′, côndilo occipital; 9″, processo paracondilar; 10, fossa temporal; 11, meato acústicoduas características de interesse potencial. A primeira envolve a possibilidade do plexo transportar sangue desviado da veia cava caudal quando esta está estreitada ou obstruída por timpanismo ruminal; a compressão da veia cava pode ser direta ou indiretamente exercida pelo deslocamento do fígado contra o diafragma (Fig. 26-6). A segunda característica significante envolve o risco de hemorragia ao realizar-se a punção subaracnóidea ou epidural. Figura 26-5 Vista dorsal da drenagem venosa do canal vertebral bovino. O plexo vertebral interno, com suas conexões e seus ramos segmentares laterais, foi exposto. 1, Plexo vertebral interno; 2, veias intervertebrais; 3, disco intervertebral; 4, corpo da vértebra. Figura 26-6 Conexões das principais veias com o sistema ázigos-plexo vertebral. Note especificamente as conexões entre o plexo vertebral interno (15) e as veias intercostais (10) e entre o plexo e os ramos da veia vertebral (6). 1, V. jugular interna; 2, v. jugular externa; 3, v. occipital; 4, v. axilar; 5, v. cava cranial; 6, v. vertebral; 7, v. intercostal suprema; 8, v. ázigos esquerda; 9, v. cava caudal; 10, vv. intercostais; 11, v. ilíaca interna; 12, v. ilíaca externa; 13, v. circunflexa profunda do ílio; 14, v. epigástrica cranial; 15, plexo vertebral interno (vermelho) OS VASOS DA CAUDA A artéria e a veia caudais medianas da cauda requerem um breve comentário. A artéria, que continua a sacral mediana, é ventral à veia na maioria do comprimento da cauda e é comumente usada para verificação de pulso; o local fica cerca de 18 cm da raiz da cauda. Os vasos se situam lado a lado na parte proximal da cauda (Cd2 ou Cd3) onde ambas, artéria e veia, estão disponíveis para obtenção de sangue, embora este local de punção seja uma escolha pouco prudente por causa da contaminação fecal inevitável (Fig. 26-7, B). Neste nível ambos os vasos posicionam-se contra a face ventral das vértebras caudais, onde são protegidos pelos arcos dos processos hemais (Fig. 26-7, A) das primeiras vértebras (Fig. 2-12, E/9). Os vasos são, deste modo, acessíveis apenas nos níveis invertebrais. A caudectomia é comum em cordeiros. Figura 26-7 A, Secção transversal da cauda bovina entre Cd3 e Cd4. 1, Disco intervertebral; 2, veia caudal mediana; 3, artéria caudal mediana; 4, processo hemal. B, Coleta de sangue do vaso caudal mediano. * A descrição se refere ao gado de origem europeia. A corcova ou giba pronunciada no bovino da subespécie Zebu (Bos taurus indicus) (e seus cruzamentos) ocorre principalmente devido ao aumento dos músculos romboides. 27 O Tórax do Ruminante Aextensão e as dimensões da cavidade torácica não são evidentes na inspeção do animal vivo. A inclusão das partes proximais dos membros torácicos no interior da pele do tronco revela o estreitamento da parte cranial do tórax, mas não indica sua pouca profundidade ou quanto do espaço cercado pelas costelas é ocupado pelo abdome (Fig. 27-1). Certas características do esqueleto do membro fornecem um guia útil para localização de partes profundas: a ponta do ombro projeta-se poucos centímetros à frente da parte ventral da primeira costela, o ângulo caudal da escápula está situado sobre as vértebras, dorsalmente à sexta costela, e a ponta do cotovelo está situada sobre o quinto espaço intercostal, logo acima das articulações costocondrais e um pouco cranial ao vértice do diafragma (Fig. 27- 2, A-B). Figura 27-1 Secção horizontal ao nível das articulações do ombro e do joelho. Notar os volumes relativos das cavidades torácica e abdominal. Figura 27-2 Projeções esquerda (A) e direita (B) do coração e pulmões bovino na parede torácica. A margem basal do pulmão e a linha de reflexão pleural também são mostradas. 1, extensão cranial do coração; 2, extensão caudal do coração; 3, margem basal do pulmão; 4, linha de reflexão pleural; 5, margem caudal da área de percussão pulmonar, vista direita. A parede torácica do bovino, ao contrário daquela dos ovinos e caprinos, é principalmente notável pela grande largura das costelas, especialmente em direção às extremidades ventrais, e o consequente estreitamento dos espaços intercostais. As costelas, da quinta à décima terceira, podem geralmente ser identificadas com facilidade, embora não possam ser palpadas ao longo de todo o seu comprimento. Obliquidade crescente e curvamento mais acentuado são revelados conforme seguem caudalmente, e existe crescente inclinação de suas cartilagens para a frente. As cartilagens das últimas cinco costelas (asternais) se unem para formar o arco costal que define o limite cranial do flanco; as costelas restantes (esternais) articulam-se diretamente ao esterno. A parte cranial da parede torácica é rígica e pouco contribui para os movimentos respiratórios; em oposição, a parte mais caudal tem contribuição significativamente maior, mas é a atividade do diafragma que predomina. Apesar disso, os bovinos sobrevivem à paralisia diafragmática; entretanto, eles sofrem maior angústia que a usual em espécies menores. O acesso cirúrgico à cavidade torácica, embora raramente indicado em bovinos, é dificultado pelo estreitamento dos espaços intercostais e pode exigir a ressecção de uma ou mais costelas. Os vasos intercostais seguem ambas as margens da parte ventral dos espaços, que é um ponto relevante para a pleurocentese, mais bem executada pela punção do sexto ou sétimo espaços diretamente acima do nível das articulações costocondrais. PLEURA E PULMÕES Os pulmões são muito desiguais na medida em que o direito é o maior em uma proporção de 3:2. A assimetria afeta a disposição dos sacos pleurais; a consequência mais óbvia é o desvio de ambos os mediastinos, cranial e caudal, para a esquerda. O mediastino cranial, na realidade, se fixa à parede esquerda do tórax, enquanto a parte caudal encontra o diafragma em um plano sagital que, quando projetado para dentro do abdome, divide o retículo em duas partes iguais, o que expõe os dois sacos pleurais a chances quase iguais de envolvimento quando corpos estranhos penetram o tórax a partir desse órgão (pág. 687). O ápice do saco pleural direito, que contém o ápice do lobo cranial do pulmão, projeta-se poucos centímetros à frente da primeira costela, expondo-o ao risco de lesões em ferimentos penetrantes que, aparentemente, estão confinados à base do pescoço. A reflexão caudal da pleura costal sobre o diafragma é a mais importante. Ela segue uma linha côncava cranial que se eleva abruptamente em sua parte caudal, traçando um caminho que passa através da oitava articulação costocondral e no meio da décima primeira costela antes de atingir a décima segunda costela, logo abaixo da margem do músculo iliocostal (Fig. 27-2). Atrás dessa linha, o diafragma está diretamente fixado à parede torácica, e o abdome pode ser abordado sem risco de lesão ao saco pleural. Um espaço cranial a essa linha, o recesso costodiafragmático, nunca é explorado plenamente pelo pulmão. Sua extensão pode ser consideravelmente exagerada após a morte, quando o pulmão está colabado. Além da assimetria, os pulmões dos bovinos são distintos por suas pronunciadas lobações e lobulações muito evidentes. O pulmão esquerdo possui os lobos cranial e caudal (Fig. 27-2), e o primeiro é dividido em duas partes: uma se estende cranialmente em direção ao ápice do saco pleural, e a outra desce ventralmente sobre o pericádio. A incisura entre as duas se estende do terceiro espaço intercostal até a quinta costela e define a área em que o coração está em contato direto com a parede torácica (Fig. 27-3). A margem basal muda de posição com a fase da respiração; como um ajuste entre as posições inspiratória e expiratória, pode ser descrita como seguindo uma linha quase reta que se estende da sexta articulação costocondral para a parte dorsal da décima primeira costela. A fina faixa marginal de pulmão não fornece informações clínicas úteis, e a maior área para percussão e auscultação é reduzida surpreendentemente ao pequeno triângulo delimitado pelo tríceps, amargem dos músculos do dorso, e, como hipotenusa, a linha que une a ponta do cotovelo à parte dorsal da décima primeira costela. Uma segunda área (pré–escapular), se estendendo alguns centimentros à frente da metade ventral da margem cranial da escápula, é de significância clínica mínima. Figura 27-3 Vista lateral esquerda da cavidade torácica. O pulmão esquerdo e parte da pleura mediastinal foram removidos. 1, veia jugular externa; 2, m. esternocefálico; 3, artéria axilar; 4, veia axilar; 5, gânglio cervicotorácico; 6, esôfago; 7, vago; 8, nervo frênico; 9, um dos nervos cardíacos; 10, traqueia; 11, artéria torácica interna; 12, pleura mediastinal; 13, pericárdio, refletido; 14, tronco pulmonar; 15, aorta; 16, veia ázigos esquerda; 17, tronco simpático; 18, nervo laríngeo recorrente; 19, tronco vagal ventral; 20, tronco vagal dorsal; 21, linfonodos mediastinais caudais; 22, extensão cranial do diafragma; 23, diafragma; 24, músculo intercostal interno; 25, músculo intercostal externo. O pulmão direito possui quatro lobos — cranial, médio, caudal e acessório (Fig. 27- 4). O lobo cranial é ventilado de forma independente por um brônquio originado da traqueia um pouco antes da bifurcação. A incisura cardíaca, menor que do lado esquerdo, está restrita às partes ventrais do terceiro e quarto espaços intercostais e totalmente coberta pelo braço. A principal área para o exame clínico é um pouco maior desse lado por estar livre da pressão exercida pelo rúmen sobre o diafragma. A percussão na direção da margem basal também é realizada de forma mais precisa devido à existência de uma brusca transição entre o som pulmonar oco e o som mais maciço sobre o fígado. Figura 27-4 Lobação e árvore bronquial do pulmão bovino, vista dorsal esquemática. 1, traqueia; 2, brônquio traqueal; 3, brônquio principal direito; 4,4′, lobo cranial direito dividido; 5, lobo médio; 6, lobo caudal direito; 7,7′, lobo cranial esquerdo dividido; 8, lobo caudal esquerdo; 9, linfonodo traqueobronquial cranial; 10, linfonodos traqueobronquiais; 11, linfonodos pulmonares; 12, contorno do lobo acessório do pulmão direito. Espessos septos de tecido conjuntivo dividem o parênquima pulmonar e marcam a superfície onde eles incidem sobre a pleura pulmonar (Fig. 4-27). Esses septos, que podem ajudar a localizar uma infecção, são ainda mais proeminentes em certas doenças nas quais se tornam edematosos. A capacidade de troca respiratória é limitada por uma relativamente pequena superfície de área alveolar total e menor densidade capilar quando comparada às outras espécies. A maior parte é requerida para as necessidades básicas, e pouco é mantido em reserva. Os pulmões dos pequenos ruminantes são similares na forma macroscópica, mas mostram menor e geralmente superficial lobulação. Embora a circulação através dos pulmões seja mantida pelas artérias pulmonares e bronquiais, todo o sangue retorna por um único conjunto de veias. Dois plexos linfáticos drenam os pulmões. Um situa-se diretamente abaixo da pleura e, além desta, drena o tecido conjuntivo adjacente. O outro segue o trato peribronquial e pode ser interrompido pela interposição de linfonodos peribronquiais (embora estes nunca sejam distintos e nem sempre possam ser encontrados). Ambos os conjuntos atingem os linfonodos traqueobronquiais localizados sobre a origem dos brônquios principais. MEDIASTINO E SEU CONTEÚDO A parte dorsal espessa do mediastino cranial contém o esôfago e a traqueia, os vasos que irrigam e drenam o pescoço e membros torácicos, um conjunto de linfonodos, o ducto torácico e vários nervos. Em animais mais velhos, a parte ventral é estreita, contendo somente os vasos torácicos internos e um vestígio do timo. A diferença na espessura é menos notável em animais mais jovens, nos quais o timo ainda tem que regredir (Fig. 27- 5). Figura 27-5 Secção dorsal do tórax bovino diretamente ventral à articulação do ombro. A, Real. B, Esquematizada para mostrar a assimetria das partes cranial e caudal do mediastino (pontilhado). 1, tendão do bíceps; 2, úmero; 3, primeira costela; 4, lobo cranial do pulmão direito; 4′, pleura pulmonar; 5, lobo médio do pulmão direito; 5′, pleura costal; 6, 6′, lobos acessório e caudal do pulmão direito; 7, parte caudal do lobo cranial do pulmão esquerdo; 8, lobo caudal do pulmão esquerdo; 9, diafragma; 9′, pleura diafragmática; 10, 10′, 10″, mediastino caudal, médio e cranial, o último ocupado pelo timo; 11, prega da veia cava; 12, 12′, valvas atrioventriculares direita e esquerda; 13, artéria coronária esquerda originando da valva da aorta; 14, valva do tronco pulmonar. O mediastino médio é ocupado ventralmente pelo coração (dentro do pericárdio); dorsalmente inclui o esôfago, a parte final da traqueia, o arco da aorta, os vasos pulmonares, a veia ázigos esquerda, vários linfonodos e os troncos vagais (dorsal e ventral) (Fig. 27-6). Assim, a espessura é muito irregular, sendo reduzido em locais em que as lâminas pleurais se justapõem. Ventral ao coração, ele se alarga para conter o ligamento esternopericárdico. Figura 27-6 Secção transversal do tórax bovino ao nível da quarta vértebra torácica. Notar a assimetria dos pulmões. 1, 2, lobos craniais dos pulmões direito e esquerdo; 3, escápula; 4, quarta vértebra torácica; 5, terceira costela; 6, esterno; 7, olécrano; 8, cabeça longa do tríceps; 9, valva do tronco pulmonar; 10, arco da aorta; 11, valva atrioventricular direita; 12, traqueia; 13, esôfago. O mediastino caudal é geralmente fino. A parte dorsal contém o esôfago, a aorta, os troncos vagais e os linfonodos mediastinais caudais (Fig. 27-7). O septo é muito curto e nivelado com a base do coração, mas abaixo deste alonga-se onde desvia para a esquerda (Fig. 27-5). Figura 27-7 Secção transversal do tronco bovino ao nível da oitava vértebra torácica. Notar a cobertura das vísceras abdominais fornecida pelas costelas. 1, lobo caudal do pulmão direito; 2, aorta; 3, esôfago; 4, veia cava caudal; 5, fígado; 6, sétima costela; 7, sulco do retículo; 8, retículo; 9, prega ruminorreticular; 10, linfonodo mediastinal caudal; 11, ligamento supraespinhal. CORAÇÃO O coração está posicionado assimetricamente, 60% ou mais à esquerda da linha mediana e se estendendo do segundo espaço intercostal (ou costela seguinte) até o quinto espaço. Assim, encontra-se principalmente sob os membros nos animais em estação. A base se situa no plano da última articulação costocondral e o ápice oposto à sexta cartilagem, poucos centímetros acima do esterno; seu eixo longitudinal inclina-se um pouco caudalmente e para a esquerda. O contato direto com a parede torácica está restrito às áreas descritas com o pulmão. A margem caudodorsal direita está relacionada com o diafragma e, através deste, com o retículo e o fígado; a margem cranial inclinada está relacionada com o timo no animal jovem. As relações da base incluem a traqueia e os brônquios principais, os vasos pulmonares e línfonodos (Fig. 27-5). O coração bovino é construído de acordo com o plano geral dos mamíferos e não apresenta especifidades estruturais importantes. O átrio direito recebe a veia ázigos esquerda, por meio do seio coronário. Ocasionalmente mantém comunicação com o átrio esquerdo através de um forame oval aberto; este é apenas ocasionalmente acessível para sondagem e sem significância. Dois ossículos são encontrados no tecido conjuntivo relacionado com as válvulas semilunares da valva da aorta; eles não são exclusivos dos bovinos, como muitas vezes se supõe, mas se desenvolvem mais precocemente nessa espécie. A artéria coronária esquerda é dominante, a direita se restringe a um percurso circunflexo. Vale ressaltar que o istmo da aorta (trecho entre a origem do tronco braquiocefálico e a junção com o ducto arterioso) é muito estreito no bezerro recém- nascido, que é um aspecto que pode falsamente sugerir que a aorta esteja se originando do ventrículo direito. As proporções usuais são exibidas pelos bezerros que sobrevivem ao nascimento durante alguns dias. Asprojeções das valvas do coração na parede torácica ou, mais precisamente dos pontos máximos, são obviamente de importância muito maior. As valvas pulmonar (valva do tronco pulmonar) e da aorta podem ser consideradas alojadas abaixo da terceira costela e seguindo o espaço intercostal e a quarta costela, respectivamente; elas estão cerca de 10 cm acima das articulações costocondrais, embora a inclinação do coração eleve a valva da aorta um pouco acima e desloque a valva pulmonar um pouco abaixo do nível sugerido. A valva atrioventricular esquerda está sob o quarto espaço intercostal e a quinta costela, e a valva atrioventricular direita se situa sob a quarta costela e o quarto espaço intercostal; cada uma está em um nível um pouco mais ventral do que a valva arterial associada. É evidente que é apenas o som da valva atrioventricular direita que deve ser procurado no lado direito (Fig. 27-5). A pericardiocentese é mais segura quando realizada no quinto espaço intercostal do lado esquerdo, diretamente dorsal às articulações costocondrais. ESÔFAGO, TRAQUEIA, TIMO E NERVO VAGO O esôfago e a traqueia entram no tórax circundados por uma frouxa fáscia que continua o tecido conjuntivo do pescoço e fornece uma via para a disseminação de fluidos e de infecção, que é mais relevante quando relacionada a ferimentos perfurantes do esôfago. Nesse nível, o esôfago se situa dorsolateral à traqueia, no lado esquerdo, mas logo obtém uma posição mediana. Suas relações incluem os linfonodos mediastinais craniais e os nervos vago e simpático quando ainda próximo à entrada torácica, a aorta, o ducto torácico, a veia ázigos e os linfonodos traqueobronquiais e mediastinais médios mais caudalmente. Em sua parte torácica final, tem importante relação com os troncos vagais e os linfonodos mediastinais caudais (pág. 676). Após a morte, o esôfago é visto relaxado, não fornecendo evidência do esfíncter pré- diafragmático cuja existência às vezes se alega. A parte envolvida pelo diafragma pode ser encontrada constrita, embora a palpação do hiato no animal vivo não sugira que o diafragma exerça uma constrição firme. A traqueia, profunda e lateralmente comprimida, primeiro se situa dorsal às veias que confluem para formar a veia cava cranial; ela continua essa relação até a sua bifurcação acima do átrio direito, logo após a origem do brônquio que ventila o lobo cranial direito (brônquio traqueal). Suas relações em diferentes níveis incluem os principais nervos dentro do tórax, a aorta, o ducto torácico e os linfonodos traqueobronquiais. O timo já foi descrito no pescoço (pág. 660 e Fig. 25-24). A parte torácica preenche a parte ventral do mediastino cranial, se estendendo, em sua forma mais desenvolvida, por toda a superfície cranial do pericárdio e atingindo a origem do tronco pulmonar e o arco da aorta. A involução raramente é completa, e algum vestígio, que consiste principalmente em tecido adiposo e fibroso, persiste mesmo nos animais idosos. Os nervos simpático e frênico não apresentam distinções. O nervo vago não exibe nenhuma característica especial antes de sua divisão em ramos dorsal e ventral que se unem com seus contralaterais para formar os troncos que seguem as margens do esôfago. Uma conexão sobre a face esquerda do esôfago sugere um rearranjo adicional das fibras, preparando-as para entrar no abdome, que pode ser relevante para os efeitos inconsistentes da secção do nervo na função gástrica. A conexão, às vezes, sugere um reforço do tronco ventral à custa do dorsal e, outras vezes, o inverso. A relação com o(s) linfonodo(s) mediastinal(is) caudal(is) é importante (pág. 676). ESTRUTURAS LINFÁTICAS DO TÓRAX A drenagem linfática do tórax é complexa e variável. Nem todos os linfonodos estão presentes em todos os animais, e alguns podem estar localizados de modo que é difícil atribuir-lhes um determinado grupo. Uma série de pequenos linfonodos intercostais está presente diretamente abaixo da pleura em determinados espaços, e estes são completados por uma dispersão de linfonodos ao longo da aorta (Fig. 27-8). Ambos os conjuntos drenam a linfa das estruturas próximas à coluna vertebral e no interior do mediastino dorsal. A maior parte do fluxo é direcionada para os linfonodos mediastinais craniais. Figura 27-8 Drenagem linfática da parede torácica e mediastino bovino. 1, ducto torácico; 2, linfonodo esternal cranial; 3, linfonodo esternal caudal; 4, linfonodos mediastinais craniais; 5, linfonodos mediastinais médios; 6, linfonodos mediastisnais caudais; 7, linfonodos intercostais e aórticos torácicos; 8, linfonodo traqueobronquial. Os linfonodos esternais caudais estão escondidos abaixo do músculo transverso do tórax no assoalho do tórax, enquanto um linfonodo esternal cranial maior situa-se na frente deste. Esses linfonodos drenam as partes ventrais dos assoalhos torácico e cranial do abdome e também recebem linfa dos músculos dos membros torácicos. Direcionam o fluxo para o grupo mediastinal cranial. Outros importantes linfonodos ocupam a posição mais central. Um grupo mediastinal cranial, disperso entre várias estruturas próximas à entrada do tórax, drena a parte adjacente do mediastino, assim como os grupos dorsal e ventral recentemente mencionados. O fluxo segue para o ducto torácico ou para um dos ductos traqueais. Linfonodos medistinais médios situam-se à direita do arco da aorta e recebem linfa das estruturas adjacentes e de uma parte dos linfonodos traqueobronquiais. Parte do fluxo eferente segue diretamente para o ducto torácico, parte para outros grupos mediastinais. Os linfonodos traqueobronquiais localizados diretamente na traqueia e nos brônquios principais recebem a linfa dos pulmões e a distribuem entre os vários linfonodos mediastinais. O grupo mediastinal caudal compreende somente um ou dois linfonodos. O maior e possivelmente solitário linfonodo pode atingir um comprimento de 20 cm; ele é flexionado para encaixar sobre o diafragma, dorsal ao hiato, e sobre a parte terminal do esôfago. Condições patológicas nesse linfonodo podem fazer com que ele pressione o esôfago, o que impede a eructação dos gases ruminais ou interfere com o controle vagal da função gástrica. O ducto torácico, no qual a maioria da linfa eventualmente é drenada, inclina-se ventralmente sobre a face esquerda da traqueia para acabar desembocando na veia cava cranial ou em uma de suas tributárias, do lado esquerdo. O ducto é, muitas vezes, duplicado na totalidade ou em parte do seu curso. 28 O Abdome dos Ruminantes CONFORMAÇÃO E ANATOMIA DE SUPERFÍCIE A forma do abdome varia com idade, obesidade e condição fisiológica. Em animais adultos, ele é profundo e largo, e o assoalho, o qual desce atrás do esterno, ascende muito gradativamente em sua parte caudal, para se juntar à margem púbica. Essa marcada contração não é óbvia em uma primeira inspeção, pois a parte caudal do abdome é encoberta pelas coxas e pelas pregas cutâneas, que passam entre os flancos e as articulações do joelho, e é coberta ventralmente pelo úbere ou pelo prepúcio. A considerável extensão do abdome sob a cobertura das costelas segue a partir da curvatura do diafragma (Fig. 27-3). O abdome é, normalmente, bilateralmente simétrico, embora a gestação avançada ou a distensão excessiva do rúmen possa fazer com que um dos lados fique mais marcadamente saliente. A parte dorsal do flanco é côncava, formando a fossa paralombar ao lado do lombo (Fig. 26-1, B, E), enquanto a parte convexa ventral se funde com o assoalho. Nos bezerros jovens, o abdome é mais raso e lateralmente comprimido, e o assoalho inclina-se mais gradualmente para a pelve; a dispersão das costelas caudais, o aprofundamento do tronco e as depressões ao lado da coluna vertebral se desenvolvem com o crescimento do rúmen. As paredes abdominais laterais e ventrais são limitadas pela última costela e o arco costal, as extremidades dos processos transversos lombares, o túber coxal e a linha terminal da entrada pélvica (Fig. 26-1, A). Nem todos são palpáveis, apesar de não haverproblemas para a identificação da margem da caixa torácica, do túber coxal e da maioria dos processos transversos. A palpação deve ser realizada com cuidado, pois a identificação correta dos ossos é importante em algumas técnicas anestésicas. Existem seis vértebras lombares nos bovinos. O reconhecimento da segunda à quinta vértebra é fácil, e pode até mesmo ser possível sem a palpação em bovino magro; o primeiro processo nem sempre pode ser localizado, pois é curto, está alojado em um ângulo entre a última costela e a espinha, e geralmente encontra-se sobreposto por um coxim adiposo; o último processo sempre impede o toque dos dedos, pois se localiza medial ao túber coxal, abaixo de um espesso revestimento muscular (Fig. 26-5). Ocasionalmente, existem sete vértebras lombares em ovinos e caprinos. PAREDE VENTROLATERAL DO ABDOME ESTRUTURA A parede ventrolateral do abdome é composta de nove ou 10 camadas, apesar de nem todas recobrirem toda a extensão. A pele é livremente móvel, exceto sobre o túber coxal. O músculo cutâneo é espesso sobre as partes mais ventrais do flanco, mas se adelgaça dorsalmente e não se estende sobre a fossa paralombar; ele também deixa o assoalho abdominal descoberto, exceto pelos fascículos separados, os quais suprem o animal macho com os músculos craniais e caudais do prepúcio. O músculo cutâneo se estende através da dobra do flanco para terminar em uma aponeurose sobre a superfície lateral da coxa (Fig. 28-1, A). Figura 28-1 Músculos cutâneo do tronco e abdominais. A, Cutâneo do tronco, especialmente bem desenvolvido ventralmente. B, Oblíquo externo do abdome com anel inguinal superficial (1) em sua aponeurose. C, Oblíquo interno do abdome. D, Transverso do abdome (2) e reto do abdome (3). Note a redução na espessura da parede ao longo da parte caudal da margem do reto. A fáscia superficial frouxa proporciona vias para os nervos cutâneos e envolve certos linfonodos. O alongado linfonodo subilíaco se encontra verticalmente no interior da prega cutânea, comprimido contra a margem cranial da coxa, alguma distância acima da patela; pode sempre ser encontrado durante a palpação. Ele drena as camadas mais superficiais da parede do corpo, tão craniais quanto a parte caudal do tórax, e também recebe linfa proveniente da pele e músculos superficiais da coxa e da garupa (Fig. 29-46). Uma variedade de linfonodos menores, localizados na fossa paralombar, drena as partes adjacentes; eles normalmente escapam de serem notados, mas aparecem como edemas circunscritos, quando aumentados. A veia abdominal subcutânea (“mamária”) segue adiante sobre o assoalho abdominal a partir do úbere (Figs. 29-34 e 29-44). A fáscia profunda é transformada em uma túnica elástica amarela aderida ao músculo subjacente e compartilhando o suporte das vísceras. Ventralmente ela dá origem à fáscia espermática externa ou à lâmina medial do aparelho suspensório do úbere. A camada muscular dispõe-se amplamente, assim como em outras espécies. No flanco consiste em uma tripla camada de músculos achatados, os quais se originam das costelas, processos transversos lombares e ílio (Fig. 28-1). Estes continuam sob o assoalho abdominal por tendões aponeuróticos, os quais envolvem os músculos retos do abdome de cada lado da linha alba, onde a aponeurose se fixa (Fig. 1-37). A linha alba segue do processo xifoide do esterno até o centro do tendão pré-púbico, onde se mistura com os tendões terminais do músculo reto. O músculo mais superficial do flanco, o oblíquo externo, surge através de recortes carnosos a partir das superfícies externas das últimas oito costelas. Suas fibras mais dorsais seguem mais ou menos horizontalmente em direção ao túber coxal, mas grande parte se curva caudoventralmente para se fixar na linha alba (Fig. 28-1, B). O espaço que se interpõe entre a margem dorsal e o processo transverso é fechado por uma lâmina de fáscia. A parte carnosa (ventre) é sucedida por um tendão aponeurótico, e a transformação ocorre ao longo de uma linha que primeiro desce verticalmente, de um ponto aproximadamente nivelado com o túber coxal, antes de se estender cranialmente. Uma fenda na aponeurose proporciona a abertura superficial (anel) do canal inguinal. O segundo músculo, o oblíquo interno, possui uma origem tendinosa a partir do túber coxal e do tendão pélvico do oblíquo externo, e diversas origens carnosas independentes provenientes das pontas dos processos transversos lombares. Ele se irradia para se inserir na última costela e na linha alba. A maioria das fibras segue cranioventralmente, mas os fascículos mais caudais e mais espessos passam logo atrás do plano do túber. A junção músculo-tendão curva-se caudoventralmente, e apenas a faixa mais caudal é carnosa, onde o músculo cruza a margem do músculo reto (Fig. 28-1, C). As aponeuroses dos dois músculos oblíquos se tornam cada vez mais entrelaçadas onde passam ventral ao músculo reto e, juntas, formam a camada externa da bainha do reto. A parte carnosa do oblíquo interno forma a parede interna do canal inguinal. O terceiro, o transverso do abdome, surge das últimas costelas e das extremidades dos processos transversos lombares. Seu triângulo craniodorsal é tendinoso, mas a maior parte que recobre o flanco é carnosa; antes de atingir a margem do músculo reto, a parte carnosa dá lugar a uma aponeurose, a qual cruza a face dorsal do músculo reto para ganhar a linha alba, assim formando a camada interna da bainha do reto. A maioria das fibras segue transversalmente, e nenhuma passa atrás do plano do túber coxal; a superfície dorsal do músculo reto é, portanto, deixada descoberta em sua parte mais caudal (Fig. 28- 1, D). O músculo reto do abdome é interrompido da maneira usual por diversas interseções tendinosas (Fig. 28-1/3). Ele surge das superfícies externas das terminações inferiores das últimas 10 costelas, continuando como uma banda ampla separada de seu vizinho pela linha alba achatada; ela se estreita abruptamente à medida que se aproxima da margem púbica, e o tendão que sucede a parte carnosa se curva para formar, com seus semelhantes e com a linha alba, uma forma de V, pela qual continua como a parte central do tendão pré-púbico. Antes de atingir a margem púbica, de onde se aproxima quase verticalmente por baixo, o tendão pré-púbico é reforçado pela junção da decussação formada pelas partes contralaterais dos músculos pectíneos (cada um dos quais surge de ambos os ossos púbicos) e por contribuições adicionais das aponeuroses dos músculos oblíquos abdominais. Finalmente, e após decussação parcial, os tendões do músculo reto terminam em comum na crista sinfisial da pelve e no tendão sinfisial medial, o qual surge nesse local. A uma depressão arredondada mediana da superfície interna do tendão pré-púbico é atribuída a pressão do úbere (Fig. 29-40). Uma fáscia delgada recobre os músculos abdominais internamente e sustenta o peritônio parietal. Os maiores depósitos de gordura nos tecidos subperitoneais são encontrados ao longo do cinturão pélvico. Merece ênfase a natureza completamente tendinosa de uma região da parede abdominal ao longo da margem do músculo reto em frente ao joelho. O canal inguinal é tão semelhante ao do equino (pág. 549) que uma descrição separada se faz desnecessária. As hérnias inguinais não são frequentes em bovinos, mas comuns em ovinos machos, apesar de não haver diferenças óbvias na anatomia do adulto. É provável que a incidência frequente em carneiros esteja ligada a anomalias hereditárias no desenvolvimento gubernacular. INERVAÇÃO E VASCULARIZAÇÃO Os nervos mais importantes da parede abdominal são o último torácico (T13) e o primeiro e o segundo nervos lombares, apesar do assoalho ventral ao arco costal ser servido por continuações dos nervos intercostais caudais. O conhecimento da topografia e da distribuição dos nervos do flanco é de importância prática na obtenção de anestesia local. A pele do abdome é inervada por ramificações de ambos os ramos primários dorsal e ventral, mas os músculos e outrasestruturas profundas são inervados apenas pelos ramos ventrais (Fig. 1-37). A pele é dividida em bandas (dermátomos) que envolvem o tronco, e cada uma é o território de um nervo espinal em particular. As regiões peritoneais inervadas pelos nervos espinais correspondem muito proximamente aos dermátomos. Os ramos dorsais (Fig. 1-37/4) dos nervos torácicos e lombares inervam os músculos epaxiais e a parte da pele que se estende a partir da linha média dorsal, grosseiramente no nível da patela. Abaixo dessa linha, a pele é inervada por duas camadas de ramificações provenientes dos ramos ventrais (Fig. 1-37/5). Os ramos ventrais são muito mais amplos onde penetram no flanco, entre os músculos oblíquo e transverso do abdome. Cada um possui uma relação bem constante com o esqueleto, o qual funciona como um guia útil quando os nervos são bloqueados com anestésicos. Os nervos seguem obliquamente, desviando em uma direção cada vez mais caudal (Fig. 28-2). O último ramo ventral torácico normalmente passa abaixo da ponta do primeiro processo transverso lombar, o primeiro ramo lombar (nervo ílio- hipogástrico) passa abaixo da ponta do segundo, e o segundo ramo lombar (nervo ilioinguinal) passa abaixo da ponta do quarto (Fig. 28-3). A maioria das variações afeta o último desses três nervos, o qual algumas vezes passa abaixo do processo transverso da terceira vértebra lombar. Figura 28-2 Topografia dos nervos para o flanco e úbere simplificada. Os ramos dorsais dos nervos espinais para a parte dorsal do flanco não são mostrados. 1, última costela; 2, processo espinhoso de L2; 3, túber coxal; 4, décimo segundo n. intercostal (T12); 5, T13 (n. costoabdominal); 6, L1 (n. ílio-hipogástrico); 7, L2 (n. ilioinguinal); 8, L3, L4 (n. genitofemoral); 9, L5 (nervo); 10, n. perineal ventral. Figura 28-3 Relação dos nervos espinais lombares com os processos transversos das vértebras lombares bovinas. 1, última costela; 2, primeira vértebra lombar; 3, sexta vértebra lombar; 4, túber coxal; 5, ramos dorsal e ventral do décimo terceiro nervo torácico (o ramo ventral está parcialmente pontilhado); 6, ramos dorsal e ventral do segundo nervo lombar; 7, ligamento supraespinhoso. Uma exceção ao padrão geral de inervação da parede abdominal é proporcionada pelo nervo do músculo cutâneo (do tronco); este é inervado por um ramo do plexo braquial. Deve-se agora notar que incisões na parte dorsal do flanco requerem bloqueio dos ramos dorsal e ventral. A anestesia é mais convenientemente obtida por injeção paravertebral dos nervos relevantes próximos ao seu forame de emergência do canal vertebral. A anestesia do flanco ventral e do assoalho abdominal requer apenas o bloqueio dos ramos ventrais, e estes são mais convenientemente alcançados onde passam próximos às pontas dos processos transversos lombares (bloqueio paralombar). A variação na topografia torna o procedimento menos confiável do que seria desejado, a menos que o agente anestésico seja difundido amplamente. A injeção epidural lombar proporciona um procedimento alternativo. A inervação específica do músculo cutâneo (do tronco) deve ser sempre considerada independentemente do método escolhido. A parede abdominal recebe vasos sanguíneos de diversas fontes. A parte ventral é irrigada através das artérias epigástricas craniais e caudais, as quais são ramos das artérias torácica interna e pudenda externa, respectivamente. Os flancos são irrigados a partir dos ramos parietais da aorta, dos quais o mais importante cirurgicamente é a artéria circunflexa ilíaca profunda, que parte da ilíaca externa para penetrar no flanco um pouco cranial ao túber coxal. As veias são inicialmente satélites, mas na vaca parida o arranjo é modificado com a formação da “veia mamária” (pág. 723). BAÇO Uma impressão geral da topografia visceral deve ser obtida da Figura 28-4 antes de considerarmos os órgãos individualmente. Figura 28-4 Topografia das vísceras abdominais. A, Relação das vísceras abdominais com a parede abdominal esquerda. B, O interior do estômago visto da esquerda. C, Relação das vísceras abdominais com a parede abdominal direita; o fígado foi removido. D, Posição das partes do estômago vista da direita. 1, esôfago; 2, contorno do baço; 3, retículo; 4, saco dorsal do rúmen; 5, saco ventral do rúmen, recoberto pela lâmina superficial do omento maior; 6, fundo do abomaso, recoberto pela lâmina superficial do omento maior; 7, sulco do retículo; 8, corpo do abomaso; 9, átrio do rúmen; 10, saco cego caudodorsal; 11, saco cego caudoventral; 12, saco ventral do rúmen (aberto); 13, omaso, recoberto pelo omento menor; 14, duodeno descendente; 15, parte pilórica do abomaso; 16, omento maior recobrindo a massa intestinal; 17, omento menor seccionado do fígado; 18, posição da margem caudoventral do fígado. O baço achatado e oblongo está situado sobre a parte craniodorsal do rúmen, contra a metade esquerda do diafragma, e é fixado aos dois órgãos. Sua margem dorsal localiza-se sobre as terminações dorsais das últimas costelas, e seu eixo se estende ventralmente, com ligeira inclinação cranial, ao longo da linha das costelas, para terminar na região da sétima articulação costocondral (Figs. 28-4, A/2 e 28-5/6). Na maioria dos animais, a margem ventral passa sobre o retículo e está sob risco de ser envolvida nos abscessos e perfurações comuns desse órgão. A parte dorsal do baço é retroperitoneal: a linha da reflexão serosa segue cranioventralmente sobre as superfícies parietal e visceral. O hilo é confinado ao ângulo dorsocranial do lado medial; para alcançar esse local, os vasos esplênicos primeiro devem passar sobre o teto do rúmen. Figura 28-5 Projeção lateral esquerda de certos órgãos sobre a parede torácica bovina. 1, valva pulmonar; 2, valva aórtica; 3, valva atrioventricular esquerda; 4, posição da margem basal do pulmão; 5, retículo, aberto (notar a posição do sulco do retículo); 6, baço. A cápsula contém poucos músculos, e a variação fisiológica no tamanho do baço é, portanto, bastante restrita. Ocasionalmente, um baço aumentado pode se estender para trás da última costela, no ângulo entre esta e a espinha lombar; mas, para propósitos práticos, o baço pode ser considerado como fora do alcance para palpação ou percussão. O acesso para biópsia é normalmente feito através da parte superior do décimo primeiro espaço intercostal e envolve pouco risco de injúria ao pulmão, particularmente se a agulha for introduzida durante expiração. O baço possui consistência relativamente mole. Sua cor varia consideravelmente, tendendo a azul-acinzentado em vacas e mais avermelhado em machos e animais jovens. A divisão da polpa em áreas vermelha e branca é bastante evidente; os corpúsculos brancos são um pouco maiores que cabeças de alfinete. O baço é relativamente pequeno em ovinos e caprinos, nos quais sua forma, posição e fixações se assemelham àquelas da extremidade dorsal do órgão bovino. Ele é levemente triangular nos ovinos e quadrilateral em caprinos (Fig. 28-6, B-C). Figura 28-6 Os baços de bovino (A), ovino (B) e caprino (C), superfície visceral. A área craniodorsal está descoberta. A artéria esplênica (1) está indicada. ESTÔMAGO CONSIDERAÇÕES GERAIS O estômago é composto por quatro câmaras — rúmen, retículo, omaso e abomaso —, pelas quais o alimento passa sucessivamente (Fig. 28-7). As primeiras três, coletivamente conhecidas como pré-estômagos (proventrículos), são desenvolvidas para lidar com os carboidratos complexos, que formam grande parte da dieta normal dos ruminantes, e apenas a última câmara é comparável em estrutura e função ao estômago simples da maioria das espécies. Contudo, todas são derivadas do fuso gástrico do embrião (Fig. 28- 8). Figura 28-7 A, Estômago bovino, lado esquerdo. B, Estômago bovino, lado direito. 1, retículo; 2, omaso; 3, abomaso; 4, rúmen. Figura 28-8 Fixações dos omentos maior e menor no estômago ruminante em desenvolvimento. O estômago simples à direita mostra a correspondência de suas partes com os compartimentosdo estômago ruminante. 1, esôfago; 1′, parte cárdica; 2, átrio do rúmen; 3, saco dorsal do rúmen; 4, saco ventral do rúmen; 5, retículo; 6, omaso; 7, abomaso; 7′, piloro; 8, omento maior; 9, omento menor; 10, parte da curvatura maior correspondente ao sulco longitudinal direito do rúmen; 11, parte da curvatura maior correspondente ao sulco longitudinal esquerdo do rúmen. A topografia do abdome do ruminante é dominada pelo enorme desenvolvimento do estômago, o qual no bovino adulto quase preenche a metade esquerda da cavidade e ocupa uma parte substancial da direita (Figs. 27-1, 28-9 a 28-12). Sua capacidade mede cerca de 60 L. Esse valor, muito mais modesto do que muitas estimativas, pode ser repartido entre as várias câmaras como segue: rúmen, 80%; retículo, 5%; omaso, 8%; abomaso, 7%. As proporções em pequenos ruminantes são um pouco diferentes, sendo talvez 75% no rúmen, 8% no retículo, 4% no omaso e 13% no abomaso. Os volumes relativos são razoavelmente constantes a curto prazo, pois a grande capacidade de armazenamento das primeiras câmaras e a maior e menor passagem contínua da ingesta nas partes distais minimizam os efeitos da alimentação intermitente. Figura 28-9 Secção transversal do tronco bovino no nível da décima vértebra torácica. 1, baço; 2, pilares do diafragma; 3, átrio do rúmen; 4, pilar cranial; 5, abomaso; 6, óstio omasoabomasal; 7, omaso; 8, veia porta; 9, fígado; 10, veia cava caudal; 11, pulmão direito; 12, aorta. Figura 28-12 Secção transversal do tronco bovino no nível da quinta vértebra lombar. 1, bifurcação da aorta e formação da veia cava caudal; 2, pilar coronário dorsal direito; 3, pilar caudal; 4, saco cego caudodorsal; 5, saco cego caudoventral; 6, cólon; 7, psoas menor; 8, psoas maior; 9, oblíquo interno do abdome; 10, oblíquo externo do abdome; 11, veia mamária. As câmaras diferentes são identificáveis como expansões do fuso do intestino anterior nos estágios embrionários iniciais. Elas aumentam em porcentagens desiguais durante todo o período embrionário e fetal, primeiramente uma dominando e posteriormente a outra. Em algum estágio, o estômago fetal possui uma configuração quase adulta, mas durante os últimos meses de vida intrauterina o abomaso sobrepuja os outros; no nascimento, ele é responsável por mais da metade do peso e capacidade de todo o órgão, o que é apropriado porque é a única parte que possui uma função imediata a ser realizada. As mudanças pós-natais através das quais as proporções e topografias adultas são adquiridas são descritas posteriormente (pág. 692). RÚMEN E RETÍCULO O rúmen e o retículo juntos formam o recipiente no qual o material alimentar mais grosseiro, não vulnerável ao ataque das enzimas digestivas dos mamíferos, é reduzido por processos de fermentação microbiana. Alguns dos produtos mais simples são assimilados diretamente, enquanto outros são suscetíveis à digestão convencional posteriormente no trato digestivo. O rúmen é lateralmente comprimido e se estende da parte cárdíca — a qual se localiza um pouco abaixo do meio do sétimo espaço intercostal ou oitava costela — até a entrada pélvica, do teto ao assoalho abdominal, e da parede corporal esquerda ao longo da linha média, especialmente caudal e ventralmente, onde ele pode alcançar o flanco ventral direito (Fig. 28-12). O retículo, muito menor, se localiza cranial ao rúmen, recoberto pela sexta a oitava costelas, e principalmente para a esquerda do plano mediano. Ele vai da parte cárdica até a parte mais anterior do diafragma e ocupa toda a altura dessa parte mais rasa do abdome; passa também pela linha média, especialmente ventralmente, onde se localiza acima do processo xifoide do esterno (Figs. 27-7/8 e 28-4/3). Essa posição permite a aplicação de pressão externa na expectativa de eliciar dor quando o retículo está doente. O rúmen e o retículo são tão intimamente relacionados em estrutura e função que muitos atualmente preferem descrever um compartimento ruminorreticular combinado. Há muito em favor dessa convenção. Essa divisão do rúmen do retículo, apesar de mais completa, é alcançada exatamente da mesma forma que a subdivisão do rúmen, traduzida pela inflexão das paredes para formar uma série de pilares que se projetam internamente. Toda a espessura da parede do estômago, exceto o peritônio, participa dessas formações. As divisões e os pilares que as limitam são ilustrados na Figura 28-4, B. O rúmen e o retículo se comunicam através da prega ruminorreticular em forma de U. Os pilares ruminais principais circundam o órgão, dividindo os sacos principais dorsal e ventral, enquanto os pilares coronários menores limitam os sacos cegos caudais. O pilar cranial possui uma direção oblíqua, dividindo parcialmente a extremidade cranial do remanescente do saco dorsal, enfatizando a associação da parte cranial (átrio do rúmen) com o retículo. Sulcos externos correspondem às posições de todas essas pregas. As proporções relativas dos compartimentos variam entre os ruminantes domésticos. O menor tamanho do saco dorsal e a extensa projeção do saco cego ventral dão ao rúmen de ovinos e caprinos uma aparência desbalanceada quando comparado ao rúmen bovino mais simétrico. Também existem diferenças no desenvolvimento dos sulcos visíveis externamente, mas são sem significância. A serosa recobre toda a superfície do rúmen e do retículo, exceto dorsalmente, onde a parede ruminal está diretamente aderida ao teto abdominal a partir do hiato esofágico do diafragma até o nível da quarta vértebra lombar (Fig. 28-13/12) e sobre certos sulcos onde ela se reflete para continuar o omento maior. A fixação limitada permite ao ruminorretículo a liberdade necessária para as contrações incessantes e recíprocas, e aumentos de suas partes variadas. Figura 28-13 Secção transversal esquemática da cavidade abdominal para mostrar a disposição do omento maior. 1, saco dorsal do rúmen; 2, saco ventral do rúmen; 3, parede superficial do omento maior; 4, parede profunda do omento maior; 5, bolsa omental; 6, duodeno descendente; 7, massa intestinal; 8, rim direito; 9, aorta; 10, veia cava caudal; 11, recesso supraomental; 12, fixação retroperitoneal do rúmen. As relações são mais bem estudadas fazendo-se referência às ilustrações (Figs. 28-4, A-B; 28-7 e 28-10). Os pontos mais importantes são o contato entre o retículo e o diafragma, e o fígado cranialmente; insinuação do abomaso entre as duas câmaras (saco ventral do rúmen e retículo) ventralmente; a relação da superfície direita do rúmen à massa intestinal, omaso, abomaso, pâncreas e rins; e a intrusão da parede superficial do omento maior entre o saco ventral do rúmen e a parede abdominal. O rúmen também possui uma relação variável com o útero e outros órgãos na entrada da pelve, onde o saco dorsal pode ser palpado pelo reto. O contato direto do saco dorsal com a parte dorsal do flanco esquerdo torna simples a ausculta e a palpação. Ele também facilita a trocaterização para o alívio do timpanismo. Figura 28-10 Secção transversal do tronco bovino no nível da décima terceira vértebra torácica. 1, aorta; 2, ramo direito do diafragma; 3, veia cava caudal; 4, saco dorsal do rúmen; 5, saco ventral do rúmen; 6, abomaso; 7, omaso; 8, duodeno; 9, vesícula biliar; 10, fígado; 11, polo cranial do rim direito; 12, glândula adrenal direita. O interior do ruminorretículo se comunica com o esôfago e o omaso através de aberturas localizadas nas extremidades do sulco do retículo, uma goteira proeminente que desce da parte cárdica sobre a face direita do retículo em direção ao fundo (Fig. 28- 14/4,5). O sulco é limitado por lábios carnosos espiralados; a terminação dorsal do lábio esquerdo (cranial) é expandida para projetar-se sobre a abertura cárdica em forma de fenda, enquanto um espessamento semelhante da terminação ventral do lábio direito (caudal) oculta parcialmente a saída arredondada para o interior do omaso. A parte cárdica se localiza na junção do rúmen com o retículo, e esvazia-se nas duas câmaras. No animal não desmamado, o sulcodo retículo pode estar convertido em tubo fechado, formando um canal que conduz o leite diretamente do esôfago para o canal do omaso, de onde ele desce para o abomaso. As contrações musculares que tracionam os lábios juntos são reflexamente estimuladas pela sucção na mãe ou pela apresentação de baldes com alimentos adequados. À medida que o animal amadurece, alterações na dieta e no regime alimentar resultam em um decréscimo no uso dessa via, apesar de mesmo nos adultos uma porção dos nutrientes solúveis liberados na saliva durante a mastigação conseguir evitar a passagem pelo ruminorretículo. O reflexo do sulco é estimulado pelo hormônio antidiurético (ADH), o qual indica que o reflexo pode ter alguma função na vida adulta. O ADH é produzido em resposta à desidratação ou a um aumento da osmolalidade do plasma. O ADH é associado à sede, e seus efeitos no sulco do retículo podem fazer com que uma parte da água ingerida pelos animais desidratados evite a passagem pelo ruminorretículo. O fechamento do sulco pode ser estimulado por certos compostos químicos (p. ex., sulfato de cobre). Isso proporciona uma estratégia útil quando se deseja introduzir drogas no abomaso sem diluição prévia nos pré-estômagos. Figura 28-14 Secção paramediana de parte do tronco de uma cabra. 1, coração; 2, diafragma; 3, átrio do rúmen; 4, sulco reticular; 5, retículo; 6, prega ruminorreticular; 7, abomaso; 8, saco ventral do rúmen. A mucosa do ruminorretículo é revestida por um epitélio estratificado queratinizado rugoso (Fig. 28-15, A-B) de coloração marrom-esverdeada; o assoalho do sulco do retículo, entretanto, é liso e pálido. A mucosa reticular possui um padrão distinto, formado por cristas de cerca de 1 cm de altura; que contornam “células” de quatro, cinco ou seis lados (Figs. 27-7/8; e 28-16, B). Essas cristas e as células do assoalho entre elas carregam pequenas papilas. O padrão reticulado se torna menos regular em direção à junção com o rúmen, e gradualmente se modifica para se fundir com a superfície papilar dessa câmara. A camada queratinizada luminal do epitélio protege contra abrasão pela dieta áspera e fibrosa, enquanto as camadas profundas metabolizam ácidos graxos voláteis de cadeia curta. Histologicamente, o epitélio demonstra muitas semelhanças com a epiderme. A lâmina própria/submucosa, formada por uma rede de colágeno e fibras elásticas, inclui feixes de músculo liso no interior das partes distais das cristas reticulares (Fig. 28-15, A). As papilas ruminais variam em proeminência de acordo com idade, dieta e localização (Figs. 28-16, A; e 28-14). Normalmente, elas são maiores e mais densamente dispersas nos sacos cegos, em menor quantidade e menos proeminentes no saco ventral, e menos desenvolvidas no centro do teto e ao longo das margens livres dos pilares. Papilas individuais variam de elevações arredondadas baixas a formas cônicas e em forma de língua até folhas achatadas de cerca de 1 cm de comprimento. O epitélio ruminal se assemelha ao do retículo. Uma lâmina própria espessa, abaixo do epitélio, forma o centro da papila; além das fibras colágenas, elásticas e reticulares, ele inclui uma rede capilar densa. Não há muscular da mucosa. A submucosa frouxa está localizada diretamente contra a lâmina própria e também contém uma rede vascular (Fig. 28-15, B). Figura 28-15 A, Retículo (cabra) (28×). B, Rúmen (cabra) (28×). 1, epitélio escamoso estratificado; 2, lâmina própria; 3, lâmina muscular da mucosa; 4, submucosa; 5, muscular interna. A natureza rugosa do revestimento ruminorreticular foi anteriormente interpretada como uma adaptação para a quebra mecânica da ingesta macerada. Uma vez descoberto que os ácidos graxos voláteis produzidos pela fermentação microbiana são absorvidos no rúmen e retículo, ela tem sido considerada como um dispositivo primário para aumentar a superfície epitelial. O desenvolvimento papilar é estimulado por esses ácidos (especialmente o butírico), e sua absorção é facilitada pelos plexos capilares subepiteliais bastante numerosos. Em alguns ruminantes silvestres, mudanças notáveis na proeminência e tamanho papilares, e portanto na área de superfície ruminal (Fig. 28-16, A), acompanham mudanças sazonais na qualidade da forragem.* Mudanças no desenvolvimento papilar tendem a ser mais restritas em espécies domésticas, nas quais a dieta está sujeita à influência humana em um grau maior ou menor. Figura 28-16 A, Mucosa papilar do rúmen retirada de um cobo (Kobus ellipsiprymnus) (esquerda) e um cudu (Tragelaphus imberbis). B, Retículo: cristas mucosas contornando “células” características da mucosa reticular (bovino). O retículo de pequenos ruminantes é relativamente maior do que o dos bovinos. Apesar de se estender bastante caudalmente, seu contato com o assoalho abdominal está sujeito a muitas variações funcionais (Fig. 28-14/5). Existem diferenças conspícuas entre as espécies em seu revestimento. As cristas que limitam as “células” reticulares são relativamente muito mais baixas e possuem margens mais proeminentemente serrilhadas. A mucosa papilar “ruminal” também se estende sobre uma parte maior da parede reticular. O músculo liso da parede ruminorreticular está disposto em duas camadas que continuam o músculo estriado do esôfago. A camada delgada externa segue craniocaudalmente sobre o rúmen, mas possui um curso oblíquo no retículo. A maioria dos feixes da camada interna, muito mais espessa, segue em ângulos mais ou menos retos à camada superficial e, portanto, circundam o eixo longo do rúmen. Eles se estendem para dentro dos pilares e formam as bases dessas estruturas. As partes mais espessas do músculo ruminorreticular são vendidas para consumo como tripas. As sequências regulares das contrações ruminorreticulares misturam e redistribuem os conteúdos estomacais. O ciclo consiste em uma contração reticular bifásica (o relaxamento entre fases de contração é mais consistente em bovinos do que em ovinos), a qual joga os conteúdos reticulares para dentro do átrio do rúmen, seguida por uma contração inicialmente do saco ruminal dorsal e em seguida do ventral. A onda de contração passa em cada um em uma direção craniocaudal. O processo tem regulação central, e o tempo e o vigor são ajustados de acordo com a informação fornecida por receptores intramurais, os quais são estimulados pela distensão da parede e pelo contato com fragmentos flutuantes. As vias sensitivas e motoras percorrem o nervo vago. A regurgitação do alimento para remastigação requer a coordenação dos movimentos estomacais com os da parede torácica e garganta. Ela é precedida por uma contração reticular adicional que preenche a região cárdica; a ingesta é dirigida ao esôfago na expansão do tórax com o fechamento das vias aéreas superiores, e é então carreada oralmente por uma onda antiperistáltica. O pesado bolo remastigado, agora mais umedecido e dividido, tende a cair do cárdia para o retículo. Na eructação (liberação de gás através do esôfago), as contrações ruminais, das quais o retículo não participa, são substituídas pelo padrão normal de atividade. Essas contrações se originam no saco ventral e geralmente se espalham para o saco dorsal, onde elas se originam caudalmente e se estendem cranialmente; elas forçam o gás ruminal para a frente em direção à parte cárdica enquanto este é aspirado para dentro do esôfago, pelo qual é impelido oralmente por uma onda antiperistáltica. Ele então passa para dentro da faringe através do esfíncter faringoesofágico relaxado. Algum escapa pela boca, mas uma parte é dirigida para os pulmões. O conteúdo do rúmen demonstra alguma estratificação: o alimento de ingesta recente é empilhado sobre o material remastigado pesado e mais umedecido. Portanto, é o material mais leve que está mais sujeito a ser regurgitado para posterior mastigação e insalivação (Fig. 28-17). Figura 28-17 Estratificação da ingesta no ruminorretículo, vista lateral esquerda. 1, bolha de gás; 2, forragem grosseira (“esteira flutuante”); 3, material mais finamente granular e commaior densidade específica do que 2; 4, zona líquida; 5, átrio do rúmen; 6, retículo; 7, esôfago. Os bovinos são notoriamente descuidados em sua alimentação, frequentemente ingerindo corpos estranhos, especialmente pedaços de arame, junto com a forragem. Esses corpos tendem a se acumular no retículo e, quando afiados, podem ser direcionados para a parede reticular pelas contrações desse órgão (reticulite traumática — “doença das ferragens”). Sequelas comuns incluem abscedação do fígado e possivelmente de outros órgãos abdominais, e, mais criticamente, pericardite purulenta quando o objeto penetra o diafragma. Alguns desses corpos são corroídos, enquanto outros podem ser imobilizados pela introdução de ímãs pela boca (Fig. 28-18/2 e destaque). Figura 28-18 Radiografia lateral das cercanias do retículo de uma vaca jovem (cranial à esquerda). O destaque mostra aumento maior de um ímã com objetos metálicos aderidos. 1, parede cranial do retículo com sedimento em suas “células”; 2, ímã; 3, cartilagens costais; 4, esternebra; 4′, cartilagem xifoide; 5, epífise proximal da ulna (olécrano). OMASO O omaso se localiza na parte intratorácica do abdome, à direita da linha média, entre o rúmen e o retículo à esquerda, e o fígado e a parede do corpo à direita (Figs. 28-9/7 e 28- 7/2). Ele é achatado bilateralmente e apresenta uma margem convexa longa, voltada dextrocaudalmente, e uma curvatura menor muito mais curta voltada para a direção oposta. O eixo longo é mais ou menos vertical no cadáver, mas a posição e a orientação do órgão vivo se alteram constantemente. Grande parte do omaso se localiza sob a cobertura da oitava à décima primeira costelas, mas em bovinos o polo ventral geralmente se projeta para o assoalho abdominal, abaixo do arco costal (Fig. 28-19/5). Apesar de sua posição colocar grande parte do omaso fora do alcance manual direto, o órgão pode ser examinado por ausculta e percussão. O polo ventral do omaso possui fixação extensa à região fúndica do abomaso, ao redor do orifício omasoabomasal. Grande parte de sua superfície direita é recoberta pelo omento menor e parcialmente ligada a ele (Fig. 28-4, C/13). Figura 28-19 Projeção lateral direita de certos órgãos na parede torácica bovina. 1, valva atrioventricular direita; 2, posição da margem basal do pulmão; 3, extensão cranial do diafragma e fígado; 4, campo de percussão hepática; 5, omaso; 6, campo para percussão e auscultação do omaso. O omaso é relativamente menor em ovinos e caprinos, nos quais tem a forma de feijão. Ele mantém uma posição quase vertical quando o estômago está em repouso. Projeta-se na oitava e nona costelas, mas devido à intervenção do fígado não faz contato direto com a parede do corpo. O interior é ocupado por cerca de uma centena de lâminas crescentes, as quais surgem dos lados e da curvatura maior e se projetam em direção à curvatura menor, onde existe uma passagem mais aberta, o canal do omaso (Fig. 28-9). As lâminas são de diversos comprimentos, e aquelas de tamanhos diferentes se alternam de forma que dividem o lúmen em uma série de recessos estreitos e razoavelmente uniformes (Fig. 28- 10/7). O orifício (óstio) reticulomasal está situado na terminação dorsal do curto canal; na outra extremidade, o grande e oval óstio omasoabomasal (Fig. 28-10/6) é parcialmente ocluído pelo prolapso das pregas abomasais. O assoalho do canal (conhecido como sulco do omaso) é liso, exceto por poucas cristas baixas que correm ao longo de sua extensão e por uma difusão de projeções semelhantes a garras que guardam a abertura superior. O epitélio escamoso estratificado queratinizado sobre as lâminas é elevado para recobrir as numerosas papilas. A maioria é pequena e lenticular, mas existem algumas projeções cônicas maiores, as quais apontam distalmente e talvez promovam o movimento da ingesta para a frente. A mucosa mais adiante é caracterizada por uma lâmina própria, a qual inclui uma rede capilar subepitelial densa e envolve uma muscular da mucosa espessa, consistindo em uma camada longitudinal externa fina e uma camada circular interna espessa. A camada interna é contínua com o músculo da parede omasal. Os conteúdos dos sulcos do omaso são finamente divididos e geralmente secos; eles conferem firmeza ao órgão, que permite que ele seja prontamente reconhecido durante a palpação por laparotomia diretamente, ou a partir do rúmen após abertura dessa câmara. As contrações omasais são bifásicas. A primeira fase espreme a ingesta do canal do omaso para o interior dos recessos entre as lâminas; a segunda fase é uma contração maciça. O principal efeito é o de espremer fluido a partir do material no interior dos sulcos, o qual é um processo essencial para a continuação do movimento da ingesta para o abomaso. Essas contrações ocorrem em um tempo mais lento e mais deliberado do que aquelas do ruminorretículo. Apesar de as superfícies abrasivas e dos centros musculares das lâminas sugerirem que essas pregas trituram o alimento, esfregando-os uns contra os outros, não existe evidência de tal atividade. A absorção é contínua no omaso. ABOMASO O abomaso se localiza fletido no assoalho abdominal, envolvendo o polo ventral do omaso por trás (Fig. 28-7/3). O maior dos dois ramos forma um saco piriforme que se dirige para a frente e para a esquerda para fazer contato com a parede corporal entre o retículo e o átrio, e o saco ventral do rúmen (Fig. 28-4, A/6). Esse ramo é dividido por analogia com o estômago simples em fundo e corpo, mas os limites entre essas duas partes são imprecisos. De fato, a localização da abertura (óstio) omasoabomasal no animal vivo não é conhecida com exatidão; é possível que esta seja terminal; nesse caso, não existe nenhum divertículo cego e, consequentemente, nenhum fundo verdadeiro. A parte cranial do fundo está extensamente conectada ao retículo, átrio e saco ventral por feixes musculares. O ramo distal mais estreito e mais uniforme constitui a parte pilórica do órgão. Ele passa transversalmente ou com leve inclinação cranial em direção à parede corporal direita e ascende para terminar no piloro, caudal à parte ventral do omaso (Fig. 28-4, D/15). O abomaso normalmente não entra em contato com o fígado em bovinos adultos. O abomaso do ovino e do caprino é relativamente grande. Em contraste com a situação no bovino adulto, ele usualmente tem contato direto com o fígado devido ao tamanho menor do omaso. A posição e as relações do abomaso dependem do preenchimento das diferentes partes do estômago, atividade abomasal intrínseca e, mais importante, das contrações do rúmen e do retículo, aos quais o abomaso está aderido. A idade e a prenhez também influenciam (Fig. 28-20). Apesar de ser difícil especificar as relações abomasais exatamente, é vital avaliar se existem limites além dos quais os desvios produzem distúrbios digestivos e podem colocar a vida em risco. O deslocamento abomasal, que pode ser para a direita ou esquerda, é uma doença bastante reconhecida, particularmente em vacas de leite (consultar adiante). Figura 28-20 Vistas ventrais das vísceras abdominais de um bezerro recém-nascido (A), um bovino de cinco anos de idade (B) e uma vaca de seis anos em gestação avançada (C) baseadas em reconstruções de secções transversais de animais congelados em estação. O abomaso é revestido por uma mucosa glandular rósea, coberta por muco, que está em grande contraste com o revestimento áspero dos pré-estômagos. Na junção omasoabomasal, o epitélio se modifica abruptamente para um epitélio colunar simples, com células caliciformes ocasionais. A lâmina própria é menos densa do que a do omaso e, frequentemente, linfonodos solitários são observados na junção com o epitélio. A mucosa do abomaso possui todas as características da do estômago simples (Fig. 28-21, A-C). A área é aumentada cerca de seis vezes pela presença de aproximadamente uma dúzia de grandes pregas, as quais surgem ao redor da entrada e cursam sobre as paredes do fundo e do corpo, antes de desaparecerem à medida que se aproximamda curvatura (Fig. 28-22/2). A aproximação das terminações proximais dessas pregas forma uma valva mucosa ou “tampão” que desestimula o refluxo da ingesta para o interior do omaso. A mucosa da parte pilórica é mais notável devido à sua grande tumefação ou toro, que se projeta da curvatura menor para estreitar a passagem pilórica (Fig. 28-22/6). Os arranjos vasculares no interior do toro sugerem que ele seja capaz de uma forma de ereção, mas a possível significância funcional disso (e de toda a estrutura, no que diz respeito a esse assunto) é desconhecida. A mucosa escura do corpo e do fundo contém glândulas pépticas verdadeiras; as glândulas da parte pilórica mais clara secretam apenas muco. Figura 28-21 A, Superfície interna do omaso (bovino). 1, lâmina omasal. B, Superfície interna do abomaso (bovino). 1, pregas abomasais. C, Abomaso (cabra) (70×). 1, fosseta gástrica; 2, lâmina muscular da mucosa. Figura 28-22 Abomaso aberto como visto de trás, acima, e levemente da esquerda. 1, óstio omasoabomasal através do qual a lâmina omasal pode ser vista; 2, pregas abomasais; 3, fundo; 4, corpo; 5, parte pilórica; 6, toro pilórico; 7, piloro. A parede abomasal é relativamente fina. A cobertura serosa é deficiente apenas na ligação com as outras câmaras estomacais e ao longo das origens do omento. A camada muscular consiste em um estrato longitudinal e um circular. O músculo longitudinal está confinado às curvaturas do fundo e corpo, mas forma uma cobertura espessa e ampla para a parte pilórica. As fibras circulares proporcionam uma camada mais completa, a qual é mais desenvolvida na parte pilórica, especialmente na parte distal. Os movimentos do abomaso adulto são bastante lentos. Eles consistem em contrações gerais do ramo proximal e peristaltismos mais potentes, confinados à parte pilórica. A última atividade frequentemente parece ser induzida pela inclinação da ingesta em direção ao piloro quando a região fúndica é elevada pela contração reticular. É possível que essas alterações normais de posição facilitem os deslocamentos mórbidos. A atonia, com o acúmulo de gás no fundo, é um achado constante nesses casos, e pode ser que um deslocamento, inicialmente leve, seja agravado devido a esse gás não poder ser eliminado de forma usual através da abertura omasoabomasal quando esta se localiza abaixo da bolha de gás. Os deslocamentos estão comumente relacionados à alta proporção de concentrados em relação à forragem na ração de vacas estabuladas, a qual leva à atonia do abomaso e acúmulo de ingesta líquida e gás. A gestação pode ser um fator predisponente (Fig. 28-20, C). Devido ao abomaso estar bem fixado proximalmente ao pesado omaso e distalmente ao omento menor, é a sua parte média que se desloca para além de sua usual posição no assoalho abdominal. Contrações do ruminorretículo podem permitir que o abomaso, flutuante pelo gás em seu interior, avance sob o átrio do rúmen e para cima no lado esquerdo. A alça formada pela parte média do abomaso eventualmente se aloja entre o rúmen e a parede abdominal esquerda profundamente até as últimas três ou quatro costelas, onde ele pode ser identificado por percussão e auscultação simultâneas (deslocamento esquerdo do abomaso, LDA). No deslocamento direito (RDA), a alça formada pela parte média desliza para a direita e se aloja entre a parede abdominal direita e os intestinos e o fígado. Os deslocamentos para a direita são frequentemente complicados pela torção da alça. O tratamento de deslocamentos não complicados consiste no retorno do abomaso para sua posição normal através da colocação do animal em decúbito dorsal, do esvaziamento do órgão através de uma incisão paramediana na parede abdominal e pela inclusão de sua camada muscular no fechamento da incisão (abomasopexia). OMENTOS A fixação do omento maior se inicia dorsal ao esôfago. As duas lâminas serosas, das quais ele é composto passam diretamente sobre o rúmen, mas são tão amplamente separadas que permitem a adesão da parte imediatamente pós-cárdica do teto ruminal diretamente ao teto abdominal (Fig. 28-13/12). Esse espaço retroperitoneal é fechado caudalmente, onde as duas lâminas serosas se juntam na metade do caminho ao longo do sulco longitudinal direito para formar uma prega convencional, a qual se fixa ao estômago. A fixação dessa prega pode ser acompanhada ao longo do sulco longitudinal direito através do sulco caudal entre os sacos cegos caudais e, então, adiante ao longo do sulco longitudinal esquerdo. Ela cruza o átrio do rúmen e se amplia para formar uma ampla fixação ao retículo, antes de se curvar abruptamente para a direita, ventral ao ruminorretículo, para alcançar a curvatura maior do abomaso (Figs. 28-4, A, C; e 28-8/8), a qual segue até o piloro e continua sobre a face caudal da primeira parte (vertical) do duodeno, da qual se estende sobre o duodeno descendente e posteriormente para o mesoduodeno. A fixação omental é refletida onde o duodeno vira cranialmente, e ele retrocede sua fixação ao longo do duodeno descendente até ser levado de volta à flexura duodenal cranial na porta do fígado. Retorna então para a face direita do rúmen via pâncreas. O omento menor surge da superfície visceral do fígado, entre a veia porta e a impressão esofágica (Fig. 28-23), e passa para a região do sulco do retículo, a face direita do omaso, e daí ao longo da curvatura menor do abomaso para a primeira parte do duodeno, o qual retorna o omento para o fígado (Fig. 28-4, C). Figura 28-23 Superfície visceral do fígado bovino. 1, lobo esquerdo; 1′, impressão omasal; 2, lobo quadrado; 3, lobo direito; 4, 4′, processos papilar e caudado do lobo caudado; 5, ligamento redondo; 6, ligamento triangular esquerdo; 7, ligamento triangular direito; 8, veia cava caudal; 9, rim direito; 10, veia porta; 11, linfonodo hepático; 12, ducto biliar; 13, ducto cístico; 14, vesícula biliar. As lâminas omentais envolvem um espaço, a bolsa omental, a qual é separada da cavidade peritoneal maior, exceto no forame epiploico próximo da porta do fígado. A bolsa é uma mera fenda capilar em vida, mas é mais simples para propósitos descritivos considerá-la como distendida. A primeira impressão de sua topografia pode ser obtida do esquema no qual pode ser visto que o saco ventral do rúmen se projeta em seu interior (Fig. 28-24, B/6,2″). Das lâminas omentais que seguem transversalmente através do abdome, uma se aloja contra a parede abdominal e a outra se aloja contra as vísceras (principalmente os intestinos) (Fig. 28-13/3,4). As lâminas superficial e profunda passam entre si mesmas caudalmente e, dessa forma, fecham a bolsa atrás (Fig. 28-24, A). Omaso, abomaso e omento menor proporcionam grande parte da parede cranial da bolsa. A entrada para a cavidade da bolsa, o forame epiploico, está situada dorsocranialmente entre o fígado e o duodeno ou, mais precisamente, entre a veia cava caudal dorsalmente e a veia porta ventralmente. Figura 28-24 Fixação do omento maior ao estômago e à parede corporal dorsal. A, Vista caudal do omento maior intacto. B, Vista caudal do omento maior fenestrado para permitir a visualização interior da bolsa omental. 1, saco dorsal do rúmen; 2, saco ventral do rúmen recoberto pela parede superficial do omento maior; 2′, saco ventral do rúmen se projetando para dentro da bolsa omental; 3, flexura caudal do duodeno; 4, lâmina superficial do omento maior; 5, lâmina profunda do omento maior; 6, bolsa omental; 7, recesso supraomental. O omento maior é um importante reservatório de gordura, a qual é primeiramente depositada ao longo dos vasos menores, que se ramificam entre as camadas peritoneais; usualmente, a gordura está presente em quantidade tão grande que todo o omento se torna espesso e opaco (em muitas vacas, um espessamento em particular forma um pequeno ramo próximo ao piloro, conhecido como “orelha de porco”; ele pode ser palpado durante a cirurgia e marca a posição do piloro). A lâmina superficial impede a visão do saco ventral do rúmen quando o flanco ventral esquerdo éaberto, e as lâminas superficial e profunda recobrem os órgãos, os quais se alojam ventral ao duodeno e ao flanco direito (Fig. 28-4, A, C). Os intestinos ficam encerrados no espaço acima da bolsa e para a direita do rúmen, o qual é conhecido como recesso supraomental (Figs. 28-24/7 e 28-13/11); ele é livremente aberto atrás e frequentemente penetrado pelo útero gravídico. INERVAÇÃO E VASCULARIZAÇÃO Os nervos gástricos principais, parassimpático, eferente e aferente correm nos troncos formados ao longo do esôfago pelo reagrupamento das fibras vagais (Fig. 27-3/19,20). Os nervos simpáticos que alcançam o estômago através dos plexos periarteriais possuem um papel secundário. A secção de ambos os troncos vagais abole todas as atividades motoras das câmaras anteriores. A secção do tronco dorsal sozinho resulta em uma paralisia quase completa, mas não necessariamente permanente, do rúmen, enquanto o efeito no retículo é geralmente menos evidente. Os efeitos da divisão do tronco ventral são imprevisíveis e variam de uma mudança pequena ou não perceptível a uma paralisia quase completa das câmaras anteriores. Presume-se que esses resultados inconstantes possam ser explicados por diferenças no reagrupamento das fibras, onde os nervos vagos se combinam para formar os troncos dorsal e ventral, e pela posterior adoção de parte dessas funções por neurônios de associação na parede estomacal. As contrações abomasais são grandemente reduzidas após uma secção vagal bilateral, mas não são totalmente interrompidas, possivelmente porque algum controle intrínseco é estabelecido em um plexo nervoso submucoso presente na parede dessa câmara sozinha. A divisão dos nervos esplâncnicos traz apenas pequena alteração nos movimentos gástricos. Clinicamente, distúrbios da função estomacal podem seguir o envolvimento dos nervos vagos em qualquer ponto ao longo de seu curso a partir do tronco cerebral; as causas mais comuns são infecções mediastinais e reticulite traumática. O estômago é irrigado através de diversos ramos da artéria celíaca. A grande artéria ruminal direita segue caudalmente no sulco longitudinal direito e continua no sulco esquerdo pela passagem entre os sacos cegos dorsal e ventral. Ela irriga grande parte da parede ruminal e termina em anastomoses com a artéria ruminal esquerda, a qual segue o sulco cranial (entre o átrio e o saco ventral) para irrigar partes adjacentes do rúmen e retículo. Omaso e abomaso são irrigados pelas artérias gástrica esquerda e gastroepiploica esquerda, as quais seguem suas curvaturas. As veias são principalmente satélites as artérias. A veia ruminal esquerda se junta às veias que drenam outras câmaras do estômago; a veia ruminal direita, às veias que vêm do baço; sua união produz uma importante radícula (veia esplênica) da veia porta. Muitos linfonodos pequenos estão dispersos sobre o estômago, particularmente nos sulcos ruminais e sobre as curvaturas omasal e abomasal. A linfa das câmaras anteriores leva, após passagens seriadas através desses linfonodos periféricos, a vários linfonodos atriais maiores, situados entre a parte cárdica e o omaso, e daí para a raiz visceral da cisterna do quilo. Os linfonodos localizados ao longo das curvaturas abomasais direcionam seus vasos eferentes para os linfonodos hepáticos. DESENVOLVIMENTO PÓS-NATAL No nascimento, o estômago do ruminante está preparado para a digestão do leite. O abomaso predomina, e é notável não somente por seu tamanho, o qual ultrapassa a capacidade combinada das outras câmaras, mas também pelo grau de maturidade estrutural que atingiu. Sua extensão completa é evidente diretamente após o consumo de grande quantidade de alimento, quando ele se estende do fígado e diafragma até a entrada pélvica, de um flanco ao outro, e do assoalho bem para dentro da metade dorsal do abdome (Figs. 28-20, A, e 28-25/4). Sua capacidade já pode exceder 60% da medida adulta. Devido ao tamanho tão grande, o órgão inevitavelmente pressiona quase todos os outros conteúdos abdominais, mas apenas o contato extenso com o fígado, o qual no neonato ultrapassa o plano mediano, precisa ser mencionado. A mucosa abomasal não está totalmente madura no início, e são necessários alguns dias para que as glândulas fúndicas se tornem totalmente ativas; presumivelmente, isso é um recurso para permitir a absorção de anticorpos inalterados a partir do colostro. Em contraste com o abomaso, o rúmen e o retículo do bovino recém-nascido são muito pequenos. Eles estão confinados ao canto dorsal esquerdo e cranial do abdome, geralmente encontrados enrugados e colapsados (Fig. 28-25/2,3); são evitados pelo leite ingerido e normalmente contêm apenas pequena quantidade de fluido — secreções do trato respiratório (ingeridas in utero) nos animais mais jovens e saliva naqueles um pouco mais velhos. O omaso também se encontra com desenvolvimento mais retardado, formando uma ponte relativamente inconspícua entre o retículo e o fundo abomasal. As paredes das câmaras anteriores são finas e deficientes em músculos, enquanto sua mucosa possui o aspecto característico do adulto, mas estão presentes de forma restrita. Figura 28-25 Topografia dos órgãos abdominais em um bezerro recém-nascido, vista lateral esquerda. A parede abdominal esquerda e o membro pélvico esquerdo foram removidos. 1, acetábulo esquerdo; 2, rúmen; 3, retículo; 4, abomaso; 5, omento maior; 6, intestino delgado; 7, rim esquerdo; 8, posição do baço; 9, fígado. Alterações evidentes nas proporções e estrutura não devem ser observadas antes de o bezerro demonstrar sério interesse por alimento sólido, geralmente em torno de 2-3 semanas de idade. Daí em diante, o abomaso continua a aumentar a uma taxa lenta, mas constante, enquanto o rúmen e o retículo entram em um período de crescimento espetacular. Eles geralmente já passaram do abomaso após oito semanas, e com 12 semanas são mais que duas vezes maiores. Esse crescimento desigual continua — porém mais lento — até que a topografia e as proporções definitivas sejam estabelecidas. É difícil especificar a idade, pois muitas variáveis estão envolvidas; alguns autores afirmam que a conformação é virtualmente a do adulto após três meses, mas outros acreditam que ela não se torne assim até quase o fim do primeiro ano. O desenvolvimento normal depende da disponibilidade de uma dieta normal de forragem sólida, mas ainda existem algumas incertezas acerca dos estímulos precisos que estão envolvidos. Achava-se que o material áspero não apenas distendia a parede estomacal e estimulava seu crescimento muscular, mas também promovia a diferenciação da mucosa. Mais tarde, foi demonstrado que muitas das características macroscópicas e microscópicas da mucosa se desenvolvem apenas com exposição a certos produtos finais da fermentação microbiana, notavelmente o ácido butírico. A exposição a esses estímulos deve ser continuada por algum tempo, de forma que o desenvolvimento tenha seu curso normal, e o retorno de um bovino jovem, parcialmente desmamado, a uma dieta unicamente de leite pode resultar na parada e algumas vezes até reversão, dos processos de maturação. O abomaso é inicialmente a câmara mais vigorosa, mas sua atividade diminui à medida que o ruminorretículo, primeiramente inerte e depois apenas espasmodicamente ativo, estabelece um ciclo regular de contração no segundo mês. Os hábitos alimentares, as mudanças estruturais e as atividades motoras e químicas do estômago, quando tomadas em conjunto, definem três fases de desenvolvimento. O período neonatal, no qual o leite forma a única dieta, pode durar duas a, no máximo, três semanas, e pode ser seguido por um período de transição, quando o estômago está se adaptando ao alimento sólido. A partir da oitava semana, a anatomia e os processos de digestão podem ser essencialmente os de um adulto. A cronologia será claramente diferente em bezerros leiteiros e de corte. Mudanças na topografia abdominal não estão confinadas ao estômago. No recém- nascido, o fígado é relativamente grande, se alojando atravésexterno; 12, articulação temporomandibular; 13, arco zigomático. A cabeça dos caprinos possui uma razoavelmente longa cobertura de pelos, enquanto nos ovinos essa cobertura é menor. Em algumas raças, a lã estende-se consideravelmente sobre a face. O plano nasal assemelha-se ao cão, porém possui extensão mais limitada, particularmente nos caprinos. Está confinado a uma faixa estreita de cada lado do profundo filtro labial mediano e possui prolongamentos laterais ao longo das margens superiores das compridas narinas em forma de fenda. Os cornos surgem bem atrás das órbitas em posição parietal (Fig. 26-2). Cada um apresenta um centro de ossificação separado que se funde secundariamente a uma projeção do crânio próxima ao seu equivalente contralateral. A base do centro do corno, em ovinos e caprinos, é posteriormente escavada pelo seio frontal, porém este não alcança o ápice como em bovinos. Raças mochas são comuns, mas quando os cornos ocorrem estão geralmente presentes em ambos os sexos, embora os dos machos sejam mais vigorosamente formados. Em algumas raças raras, dois pares de cornos podem existir (em carneiros, ocasionalmente três). A condição de múltiplos cornos (policeratia) é frequentemente associada a defeitos no fechamento da sutura craniana e também das pálpebras. Os cornos de caprinos geralmente possuem diâmetro oval e crescem caudalmente sobre o crânio. Os cornos dos ovinos são triangulares e seguem trajeto helicoidal, primeiramente caudal e depois sucessivamente ventral, rostral e dorsal, em um padrão de complexidade crescente, que pode fazer com que a pele da face em contato com a superfície interna do corno sofra necrose por compressão. Criadores de rebanhos de raças vulneráveis frequentemente removem, terapêutica ou preventivamente, uma fração superficial do corno para evitar esse tipo de ocorrência. A operação pode ser realizada sem anestésico caso somente o “corno” seja retirado; na ocasião, a derme sensitiva e o osso também devem ser removidos. Os cornos dos ovinos e caprinos estão situados tão próximos da órbita que as estruturas que os suprem ascendem diretamente atrás do processo zigomático, onde o nervo pode ser bloqueado. O corno do caprino recebe inervação subsidiária através dos ramos do nervo infratroclear; estes podem ser alcançados através de uma segunda injeção na margem dorsomedial da órbita. Certas glândulas da pele da cabeça de ovinos e caprinos são mencionadas no Capítulo 10. ESTRUTURAS SUPERFICIAIS Outros órgãos visíveis ou palpáveis podem ser identificados com o auxílio da Figura 25- 2. Apesar de uma parte relativamente pequena do crânio se localizar diretamente abaixo da pele, grandes áreas são cobertas por finas camadas de fáscia e músculo cutâneo, o que oferece pouco obstáculo à palpação. A larga fronte, o dorso do nariz, a linha temporal, o arco zigomático, o túber facial, a incisura nasoincisiva e a margem ventral da mandíbula são facilmente palpáveis. Os forames supraorbital, infraorbital e mental também podem ser identificados (Figs. 25-1, 25-2 e 25-8). Figura 25-8 Inervação da pele da cabeça 1, n. cornual; 2, n. auriculotemporal; 3, n. infraorbital; 4, n. mental. A musculatura mimética possui poucas características específicas importantes. É inervada pelo nervo facial (VII), que se divide em seus ramos terminais principais sob a cobertura da glândula parótida. O nervo auriculopalpebral cruza o arco zigomático diretamente à frente da articulação temporomandibular para suprir os músculos da orelha externa e das pálpebras. Nessa localização assume posição mais superficial, tornando-se vulnerável (Fig. 25-6/3). A lesão do nervo pode ser evidenciada pela posição caída da orelha externa e flacidez palpebral, particularmente da inferior. A paralisia do orbicular impossibilita o fechamento do olho. Portanto, fica claro que, ao se examinar o olho, talvez seja vantajoso bloquear o nervo, facilmente palpável sobre o arco zigomático, visando eliminar o reflexo palpebral. O tronco principal continua como ramo bucal dorsal, cruzando o músculo masseter e assumindo uma posição exposta, ficando sob considerável risco de lesão. O dano pode levar à perda da inervação dos músculos do nariz e do lábio superior distorcendo a face, que é desviada em direção ao lado não afetado, bem como do músculo bucinador, permitindo que o alimento acumule-se dentro do vestíbulo oral. O ramo bucal ventral assume um trajeto mais bem protegido, caudomedial ao ramo da mandíbula, alcançando a face juntamente com a artéria e a veia faciais. Por possuir distribuição limitada, os efeitos visíveis de lesões a esse nervo são mínimos (Fig. 25-2/5, 6). Figura 25-2 Dissecção superficial da cabeça. 1, masseter; 2, zigomático; 3, bucinador; 4, veia facial; 5, 6, ramos bucais dorsal e ventral do nervo facial; 7, nervo auriculotemporal; 8, nervo cornual; 9, nervo infraorbital; 10, ducto parotídeo e veia e artéria faciais; 11, glândula parótida; 12, glândula mandibular; 13, linfonodo parotídeo; 14, linfonodo retrofaríngeo lateral; 15, nervo acessório espinhal; 16, veia maxilar; 17, veia jugular externa; 18, veia linguofacial; 19, artéria carótida comum; 20, linfonodo mandibular; 21, divertículo cornual do seio frontal. A distribuição dos nervos cutâneos é mostrada na Figura 25-8. Ocasionalmente, são realizados “bloqueios” específicos de alguns desses nervos. O grande nervo infraorbital pode ser palpado a 3 cm de distância dorsalmente ao primeiro dente pré-molar superior, no local onde deixa o forame infraorbital. O nervo mental é encontrado entre 3-4 cm de distância caudalmente ao dente incisivo lateral, no local onde deixa o forâmen mental da mandíbula. A artéria e a veia faciais são os vasos superficiais mais importantes. Cruzam a margem ventral da mandíbula em frente ao músculo masseter e distribuem-se para lábios, bochechas, focinho e estruturas perioculares. O pulso pode ser examinado no local onde a artéria repousa, na lateral do osso; é menos facilmente localizada na incisura da margem ventral. A posição da veia frontal também deve ser levada em consideração. Por ser um vaso de dimensões consideráveis, a trepanação do seio frontal caudal pode gerar risco de lesão. A veia assume trajeto caudorrostral em um sulco, palpável sobre o osso frontal, para adentrar o forame supraorbital; posteriormente, cruza um canal na parte lateral do seio. O forame está localizado a2 cm, medial à linha temporal e a 2 cm caudal ao ângulo lateral do olho (Fig. 25-12/4). Quando um torniquete é aplicado ao redor da base da orelha, o sistema de veias na superfície externa da orelha externa torna-se ingurgitado e proeminente. O vaso central desse conjunto é algumas vezes utilizado como alternativa à veia jugular quando há necessidade de colocação de cateter interno. Nenhum dos dois locais é isento de problemas. Figura 25-12 Projeção dorsal dos seios frontais. 1, seio frontal rostral lateral; 2, seio frontal rostral medial; 3, seio frontal caudal com divertículo cornual; 4, forame supraorbital. A extremidade ventral da glândula mandibular forma uma protuberância conspícua no espaço intermandibular. Quando palpada, a glândula é frequentemente confundida com o linfonodo mandibular adjacente (Fig. 25-2/20); sua extensão mais medial e rostral, seu maior tamanho e sua consistência mais macia fazem com que a confusão seja evitada. O linfonodo pode ser separadamente isolado na face medial do tendão da parte mandibular do músculo esternocefálico. Normalmente, o linfonodo parotídeo também é palpável rostroventral à articulação temporomandibular. Na última parte de seu trajeto ao longo da margem rostral do masseter, o ducto parotídeo acompanha os vasos faciais e o ramo bucal ventral, penetrando a bochecha opostamente ao quinto dente molariforme superior. CAVIDADE NASAL E SEIOS PARANASAIS Apesar de sua conformação externa, a cavidade nasal é muito menor do que se pode imaginar. As paredes são expandidas e escavadas pelos seios paranasais, enquanto as conchas ocupam a maior parte do espaço interno.da linha mediana, extensivamente relacionado ao abomaso. À medida que o rúmen e o retículo aumentam em tamanho, o fígado é pressionado para a direita e dorsalmente, rotacionando de forma que seu lobo esquerdo passa a se alojar cranioventral ao direito, fora do alcance do abomaso. Os intestinos são simultaneamente empurrados para fora do flanco esquerdo e se tornam confinados para o lado direito; a expansão do saco ruminal dorsal também desloca o rim esquerdo, impelindo-o através da linha mediana até que ele passe a se posicionar abaixo e caudalmente ao seu par (Figs. 28-11/9 e 29-9/10). Figura 28-11 Secção transversal do tronco bovino no nível da terceira vértebra lombar. 1, aorta; 2, saco cego caudodorsal; 3, pilar coronário dorsal; 4, pilar caudal; 5, pilar longitudinal esquerdo; 6, pilar coronário ventral; 7, saco cego caudoventral; 8, duodeno descendente; 9, rim esquerdo; 10, veia cava caudal; 11, veia mamária; 12, massa intestinal. INTESTINOS Os intestinos se alojam quase completamente à direita da linha média, compactados principalmente na parte dorsal do abdome, em parte alojados sob a cobertura das costelas. Apesar de se dizer que ele pode medir 50 m em bovinos adultos, sua capacidade é relativamente pequena, e é uma característica correlacionada com a eficiência da digestão gástrica. A adesão dos mesentérios do intestino delgado e cólon ascendente durante o período fetal faz com que essas partes do intestino compartilhem um suporte comum, no qual elas ficam fletidas e espiraladas em um arranjo complexo (Fig. 28-26), difícil de elucidar in situ. Figura 28-26 Vista lateral direita do trato intestinal bovino esquemática. 1, parte pilórica do abomaso; 2, duodeno; 3, jejuno; 4, íleo; 5, ceco; 6, prega ileocecal; 7-10, cólon ascendente; 7, alça proximal do cólon ascendente; 8, giros centrípetos do cólon espiral; 9, giros centrífugos do cólon espiral; 10, alça distal do cólon ascendente; 11, cólon transverso; 12, cólon descendente; 13, reto; 14, linfonodos jejunais; 15, artéria mesentérica cranial. O duodeno se origina abaixo das costelas. Sua primeira parte ascende quase verticalmente em direção à superfície visceral do fígado; e então, segue em direção à pelve como duodeno descendente, mas se volta quando está quase no nível do túber coxal. A parte ascendente então retorna em direção ao fígado, passando à esquerda da artéria mesentérica cranial para entrar na margem do mesentério. Ele é continuado pelo jejuno. A primeira parte do duodeno é ligada ao fígado pelo omento menor. A outra borda da primeira parte e da parte descendente confere fixação, diretamente ou através de um pequeno intervalo, a ambas as paredes do omento maior (Figs. 28-4, C; e 28-24). Apenas o duodeno descendente é imediatamente visível quando se abre o flanco direito. O jejuno forma muitas espirais curtas na margem livre do mesentério. Seu curso normal o leva ventralmente e depois caudalmente e, então, dorsalmente em direção ao intestino grosso. A posição dessas espirais depende do preenchimento do rúmen e do tamanho do útero; usualmente, a maioria se aloja no recesso supraomental, mas algumas podem transbordar desse local para se insinuar atrás do rúmen e, dessa forma, aparecer contra o flanco esquerdo. A extensão do curto íleo é definida pela prega ileocecal (Fig. 28-26/4,6). O ceco se continua para dentro do cólon sem mudanças evidentes em diâmetro; a junção é marcada apenas pela entrada do íleo. Sua extremidade cega e arredondada se projeta caudalmente, a partir do recesso supraomental, e flutua para o alto quando repleto de gás. Quando bastante distendido por gás durante períodos prolongados, ele deve ser esvaziado cirurgicamente. A rotação do ceco em conjunto com a alça proximal do cólon (Fig. 28-26/7) é comum, compromete sua função e suprimento sanguíneo, e requer correção cirúrgica. O cólon é dividido nas partes usuais ascendente, transversa e descendente (Fig. 3- 45/Ru). A primeira delas se curva de maneira bastante elaborada. Ao deixar o ceco, ela forma uma flexura sigmoide achatada (Fig. 3-45/11), antes de se estreitar e se virar ventralmente para traçar uma espiral dupla aderida ao lado esquerdo do mesentério. Duas voltas centrípetas são sucedidas por duas voltas centrífugas, as quais restauram o cólon em direção à periferia do mesentério, onde ele continua em uma volta distal, que o carreia primeiro em direção à pelve e depois para longe dela (Fig. 3-45/11′). Depois disso, une-se ao cólon transverso curto, que cruza a linha mediana na frente da artéria mesentérica e leva diretamente para o cólon descendente. Essa parte segue em direção à entrada pélvica, em um mesentério que é espessado pela gordura e fundido com partes vizinhas do intestino. O mesentério do cólon descendente é primeiramente curto, mas se estende na frente do sacro, onde o cólon forma uma flexura sigmoide antes de se continuar como reto. Essa frouxidão permite que a mão do veterinário alcance considerável amplitude na exploração retal (pág. 720). O reto é descrito em conjunto com as vísceras pélvicas. O cólon ascendente de pequenos ruminantes realiza três ou quatro voltas em cada direção. Uma diferença mais significativa está na aparência de “colar de pérolas” das voltas centrífugas, nas quais os conteúdos já estão segmentados nos pellets tão característicos das fezes. O cordão desses pellets no cólon ascendente é substituído por sua aglomeração, em uma coluna espessa, no cólon descendente e no reto, mais largos. Poucas características do interior dos intestinos necessitam de comentários. Nos bovinos, o ducto pancreático acessório se abre bem abaixo do ramo duodenal descendente, e o ducto biliar se abre mais proximalmente, onde o duodeno se aloja contra o fígado. Nos pequenos ruminantes, o ducto pancreático principal está usualmente presente. O íleo se projeta para dentro do ceco, e então se observa uma barreira baixa ao redor do óstio ileal. O tecido linfoide está generosamente disperso ao longo da mucosa, especialmente no intestino delgado, onde ocorrem tanto linfonodos isolados como agregados. Os agregados podem atingir comprimentos de 25 cm e são distintos por suas superfícies cribriformes irregulares. Geralmente, uma dessas placas se estende através do óstio ileal para dentro do intestino grosso. A parte principal dos intestinos é irrigada pela artéria mesentérica cranial; entretanto, a primeira parte do duodeno é irrigada a partir da artéria celíaca, e o cólon descendente é irrigado pela artéria mesentérica caudal. As veias intestinais se combinam para formar a radícula mesentérica cranial da veia porta. Muitos linfonodos jejunais são encontrados no mesentério, onde eles formam uma cadeia mais ou menos contínua de linfonodos gigantes, localizados entre os festões periféricos do intestino delgado e as espirais mais centrais do cólon espiral (Fig. 28-26/14). Os maiores podem ter um metro de comprimento. Nos pequenos ruminantes, essa cadeia de linfonodos se aloja centralmente à última volta centrífuga do cólon espiral. Outros linfonodos menores estão dispersos entre o ceco, o cólon e o reto. A corrente eferente a partir dos linfonodos mesentéricos se junta à cisterna do quilo. Os nervos que chegam ao intestino, ao longo da artéria mesentérica cranial, consistem em fibras simpáticas e vagais.* Os nervos parassimpáticos para a última parte do cólon são derivados do eferente sacral. FÍGADO O fígado do animal adulto se aloja quase totalmente na metade direita do abdome, relacionado com a face caudal do diafragma e sob cobertura das costelas (Fig. 28-9/9). Sua projeção se estende entre o terço ventral do sexto espaço intercostal até a parte dorsal do último (Fig. 28-19/4). A superfície visceral está relacionada com o retículo, átrio do rúmen, omaso, duodeno, vesícula biliar e pâncreas, e a maior parte faz impressão de suas formas no órgão; os recortes são conservados pela peça enrijecida in situ (Fig. 28-23). A espessa margem dorsal se estende o máximo caudalmente e é parcialmente moldada pelo processo caudado arredondado;este é separado da massa principal por um recesso no qual se encaixa o polo cranial do rim direito. A margem medial (originalmente dorsal) segue a linha mediana bem intimamente em direção à sua terminação ventral; marcada por uma impressão que dá passagem ao esôfago, e abaixo desta uma pequena parte se espalha ao longo da metade esquerda do abdome. A veia cava caudal (Fig. 28-23/8) forma um túnel através dessa margem do fígado, e em seu curso recebe suas tributárias hepáticas (Fig. 28- 9/10). A fina margem lateral é marcada pela fissura que dividia as “metades” direita e esquerda do órgão fetal, e na maioria dos bovinos adultos ela proporciona a entrada para o ligamento redondo (do fígado), os remanescentes da veia umbilical (Fig. 28-23/5). O vértice cego da vesícula biliar piriforme (Fig. 28-23/14) se projeta para além da margem lateral do lobo direito; ele se aloja contra o diafragma, oposto à parte ventral da décima ou décima primeira costela. O fígado é mantido em posição por certos ligamentos que o fixam ao diafragma e, mais importante, pela pressão visceral. Sua posição pode ser verificada pela macicez à percussão sobre uma área centrada na parte dorsal da décima primeira costela e décimo primeiro espaço intercostal. A área de percussão é pequena em relação ao tamanho do órgão e corresponde à área de contato direto com a parede do corpo (Fig. 28-10/10). Um aumento detectável em sua extensão geralmente significa aumento desproporcional do órgão. A relação do fígado com o saco pleural direito deve ser notada de forma que amostras de biópsia possam ser obtidas com o mínimo de risco (Fig. 28-19/2,4). O local preferencial para punção é através do décimo primeiro espaço intercostal, no plano da parte ventral do túber coxal. O trocarte é direcionado para encontrar o diafragma e, portanto, o fígado em certos ângulos, de forma que uma punção certeira seja assegurada; essa rota evita os grandes vasos. O grande tamanho relativo do fígado de um bovino jovem pode permitir que o órgão seja palpado atrás da última costela. A estrutura do fígado não demonstra nenhuma característica espécie-específica importante. O órgão é envolto por uma cápsula fibrosa espessa, mas as extensões para o interior do parênquima não delimitam lóbulos evidentes, como no fígado do suíno. Os ductos hepáticos se juntam na região portal para formar um único canal pelo qual o ducto cístico se ramifica para a vesícula biliar. A continuação além dessa junção constitui o ducto biliar, o qual entra no duodeno. Os ductos hepáticos mais superficiais podem estar visíveis pelo tecido hepático de cobertura, especialmente quando espessado por doença; em muitos países, animais claramente normais demonstram essa evidência de infecção por trematoides (distomíase). O fígado recebe sangue da artéria hepática e da veia porta, a qual entra no espaço porta. Sangue de ambas as fontes retorna para a circulação geral através das veias hepáticas, as quais entram na parte embutida da veia cava caudal. As aberturas das principais veias hepáticas estão dispostas em dois aglomerados, amplamente separados; anastomoses intra-hepáticas entre os dois grupos proporcionam uma potencial via colateral, a qual se torna importante quando a extensão interposta da veia cava caudal está obstruída. Os vasos linfáticos eferentes passam principalmente para o grupo de linfonodos hepáticos dispersos ao redor da porta; a linfa daí drena para dentro da radícula visceral da cisterna do quilo. Um pouco de linfa segue via linfonodos hepáticos acessórios (na veia cava caudal) e mediastinal caudal. Apesar de o fígado de ovinos e caprinos geralmente se assemelhar ao do bovino, o tamanho por si só impede a confusão dos órgãos adultos. Ele é distinto do fígado de bovinos por uma fissura umbilical muito mais profunda, um processo caudado mais estreito e menos arredondado, uma vesícula biliar mais alongada e ausência de vestígio de tamanho considerável da veia umbilical, o qual é evidente no fígado do bovino jovem. Um contato extenso com o abomaso é mantido por toda a vida. PÂNCREAS O pâncreas possui forma irregular e cor amarelo-rosada. O pâncreas do bezerro é consumido como uma iguaria, junto com o timo, sob o título de pão doce. Para propósitos descritivos, ele pode ser considerado como consistindo em dois lobos que se juntam em um corpo, localizado cranial à veia porta, onde a glândula fica aderente ao fígado. O lobo esquerdo se estende através do abdome, insinuando-se entre o fígado, o diafragma e os grandes vasos dorsalmente, e a massa intestinal e o saco ruminal dorsoventralmente; ele então penetra a área retroperitoneal acima do rúmen. O lobo direito possui cobertura peritoneal mais completa e segue o mesentério da parte descendente do duodeno, ventral ao rim direito e contra o flanco. Apesar de se desenvolver dos primórdios dorsal e ventral, o sistema excretor é usualmente reduzido em bovinos a um único ducto (acessório), quando a protuberância ventral perde sua conexão direta com o intestino. O ducto sobrevivente penetra no duodeno descendente cerca de 20-25 cm após a entrada do ducto biliar. Seu orifício se encontra elevado sobre uma leve papila. O pâncreas de pequenos ruminantes é bastante semelhante em forma e topografia ao do bovino. Um único ducto ventral está presente, e ele se abre no duodeno com o ducto biliar, usualmente por meio de um ducto comum. RINS E GLÂNDULAS ADRENAIS Os rins dos bovinos adultos retêm grande parte de sua lobação fetal e são divididos por fissuras superficiais em cerca de uma dúzia de lobos (Fig. 5-21). O rim direito possui forma elipsoide achatada, se alojando em uma posição convencional, com fixação retroperitoneal dorsal à musculatura sublombar. Ele é alojado cranialmente na impressão renal do fígado. O rim esquerdo é menos regular, sendo achatado em seu polo cranial e espessado caudalmente. Sua posição abaixo e atrás de seu par não é usual, sendo consequência do crescimento pós-natal do rúmen (Fig. 29-9/10). Apesar de circundado por acúmulos consideráveis de gordura (cápsula adiposa), ambos os rins variam em posição com a fase da respiração e de acordo com a pressão exercida por outras vísceras. No cadáver, o rim direito é comumente encontrado abaixo da última costela e dos primeiros dois ou três processos transversos lombares, enquanto o esquerdo está alojado em um nível mais ventral, abaixo da segunda à quarta vértebra lombar. O rim esquerdo é, portanto, de fácil alcance na exploração retal, mas o contato com o direito geralmente não é atingido. O rim esquerdo pode retornar para o lado esquerdo quando a pressão sobre ele for aliviada pelo jejum em vida ou após evisceração no decorrer de necrópsia. As numerosas relações do rim direito não necessitam ser descritas em toda sua extensão. Elas incluem fígado, pâncreas, duodeno, cólon e, na maioria dos animais, a glândula adrenal. O hilo é amplamente aberto e está localizado ventromedialmente; o ureter segue a partir dele, cruzando a margem medial para seguir um curso retroperitoneal sinuoso, abaixo do teto abdominal, que o conduz para dentro da pelve. O rim esquerdo é rotacionado cerca de 90° ao redor do eixo da aorta ao se mover de sua localização fetal (Fig. 28-26) para a adulta contra a face direita do saco dorsal; ele fica suspenso em uma prega relativamente longa, descansa na massa intestinal e é achatado pelo contato com o rúmen. O ureter esquerdo cruza o aspecto dorsal do rim para ganhar novamente a metade esquerda do abdome. Seu curso posterior é semelhante ao do ducto direito. Em estrutura, os rins bovinos são do tipo multipiramidal (Fig. 28-27). As pirâmides medulares separadas são recobertas por um córtex contínuo, apesar de em uma inspeção ocasional este também se mostrar fragmentado por fissuras que se estendem para dentro a partir de sua superfície (Fig. 28-28). O córtex (Fig. 28-27/4) é encerrado em uma cápsula rígida, a qual é facilmente removida do órgão saudável, exceto na região do hilo, onde ela se mistura à parede do ureter. As regiões corticale medular são distinguíveis em secções macroscópicas pela cor muito mais clara da primeira e pelos vasos cortados que marcam seus limites mútuos. Os tufos vasculares glomerulares dispersos ao longo do córtex podem ser visíveis a olho nu. O ápice (papila; Fig. 28-27/3) de cada pirâmide medular se encaixa em um cálice ou taça formada por um dos ramos terminais do ureter; esses ramos eventualmente se unem para formar dois grandes canais, os quais convergem dos polos cranial e caudal para resultar em um único ureter (Fig. 5-23). Portanto, não existe grande expansão central correspondendo a uma pelve renal. Figura 28-27 Rim bovino dissecado para mostrar seu interior, semiesquemático. 1, ramos principais do ureter; 2, cálice; 3, papilas renais; 4, córtex renal; 5, artéria interlobular. Figura 28-28 Vistas ventrais dos rins bovinos direito (A) e esquerdo (B). 1, ureter; 2, veia renal; 3, artéria renal; 4, seio renal. As artérias renais são derivadas da aorta; as veias renais se juntam à veia cava caudal. Os vasos linfáticos conduzem aos linfonodos renais, ramos dilatados da série aórtica lombar, e estes em troca drenam para o tronco linfático lombar. Os rins de ovinos e caprinos são bastante diferentes dos bovinos, mas muito semelhantes aos do cão em aparência externa e estrutura interna (Fig. 5-23). Eles são mais regulares em formato do que os do cão, sendo protegidos de pressões de distorção pela inclusão em massas espessas de gordura. A almofada de tecido adiposo torna o rim esquerdo menos sujeito ao deslocamento pelo rúmen. As glândulas adrenais estão localizadas próximas aos rins. A glândula direita tem a forma de coração, e usualmente se encontra contra a margem medial da extremidade cranial do rim correspondente (Fig. 28-10/12). A esquerda é menos regular na forma e menos constante em posição; geralmente é encontrada no interior da gordura perirrenal, alguns centímetros cranial ao rim esquerdo. A divisão em córtex e medula é bastante evidente nas secções macroscópicas. LINFONODOS DO TETO ABDOMINAL Vários linfonodos importantes estão dispersos mais ou menos na bifurcação da aorta e entre seus ramos terminais. A maioria pertence ao grupo ilíaco medial, o qual coleta a linfa dos membros pélvicos, paredes e vísceras pélvicas (Fig. 29-4). O grande linfonodo inguinal profundo (iliofemoral), no ângulo entre as artérias circunflexas ilíacas externa e profunda, recebe o fluxo proveniente do úbere; quando aumentado, pode ser palpado por via retal próximo à margem cranial do ílio. A corrente eferente forma o tronco lombar, o qual segue adiante sobre a aorta para penetrar na cisterna do quilo. Poucos linfonodos muito menores (aórtico lombar), dispersos ao longo do músculo psoas, são responsáveis pela drenagem linfática das vértebras e músculos vizinhos. Os linfonodos renais fazem parte dessa série. * Em ruminantes silvestres, mudanças notáveis na massa total das glândulas salivares estão correlacionadas com a resposta ruminal ao conteúdo fibroso da forragem. * Existe evidência de que os agentes infectantes (proteínas príon) responsáveis pelas encefalopatias espongiformes transmissíveis (p. ex., encefalopatia espongiforme bovina) alcançam o sistema nervoso central mediante transporte a partir do intestino ao longo dos nervos esplâncnico e vago. 29 Pelve e Órgãos Reprodutivos dos Ruminantes Este capítulo aborda a cavidade pélvica, os órgãos reprodutivos intrapélvicos e extrapélvicos de ambos os sexos e o úbere. CAVIDADE PÉLVICA A cavidade pélvica da vaca torna-se progressivamente mais estreita entre a sua entrada e a saída. Também perde profundidade, mas de maneira menos regular devido à presença de uma depressão pronunciada na parte média do assoalho que resulta em aumento localizado da altura antes de a parte caudal se inclinar acentuadamente para cima em direção à saída estreita (Fig. 29-1). Figura 29-1 A-B, Secção mediana da pelve óssea de uma vaca. Certos termos obstétricos estão ilustrados em B. 1, Túber coxal; 2, articulação sacroilíaca; 3, sacro; 4, corpo do ílio; 5, margem cranial do acetábulo; 6, pécten do púbis; 7, forame obturado; 8, sínfise; 9, túber isquiático; 10, forame isquiático menor; 11, ligamento sacroisquiático; 12, forame isquiático maior; 13, promontório; 14, diâmetro conjugado – a linha conecta o promontório ao pécten; 15, diâmetro vertical – a linha vertical entre os péctens e o teto da pelve. A entrada se defronta ventrocranialmente em um ângulo que desloca o pécten do púbis para baixo da segunda articulação interssacral (Fig. 29-1/15). Atrás do corpo do ílio, a largura fica reduzida pela inflexão da espinha isquiática alta e se torna ainda mais reduzida na saída devido à invasão do maciço túber isquiático (Fig. 29-2). A saída conspicuamente apertada é grosseiramente triangular, com a terceira vértebra caudal e os túberes isquiáticos como em seus cantos. A margem lateral é completada pelo ligamento sacrotuberal (a borda do ligamento sacroisquiático ou sacrotuberal largo), ao passo que a margem caudal do assoalho é interrompida na altura do arco isquiático. O acentuado desenvolvimento da espinha e do túber isquiático reduz a contribuição do ligamento sacroisquiático à parede lateral (Fig. 29-2/4). Figura 29-2 Vista lateral da pelve óssea de uma vaca. 1, Túber coxal; 2, corpo do ílio; 3, túber sacral; 4, ligamento sacroisquiático; 5, forame isquiático maior; 6, espinha isquiática; 7, forame isquiático menor; 8, forames obturatórios direito e esquerdo; 9, túber isquiático; 10, sacro; 11, trocânter maior. Existem certas variações associadas com a idade e o sexo. A entrada é quase uniformemente ampla nas vacas adultas, mas consideravelmente estreita em sua parte ventral nas novilhas. Nesses animais mais jovens, a parte cranial do assoalho eleva uma crista sobre a sínfise; nas vacas mais idosas, especialmente aquelas que gestaram muitos bezerros, a mesma região se encontra nivelada ou afundada. A cintura (cíngulo) masculina, apesar de ser significativamente mais robusta, envolve uma cavidade que é claramente menos espaçosa; é ainda mais restrita na entrada e, além disso, a parte cranial do assoalho tende a ser abobadada. Nos caprinos e ovinos, os corpos dos ílios longos e delgados se aproximam da coluna vertebral em ângulo agudo que, em combinação com o encurtamento do sacro, posiciona o pécten embaixo da segunda articulação da cauda (Fig. 26-2). As articulações sacroilíacas (Fig. 29-3) são complementadas por ligamentos resistentes que ligam os dois ossos, mantendo-os unidos; virtualmente, nenhum movimento é normalmente permitido. Por volta do momento do parto, ocorre um afrouxamento das estruturas colagenosas da pelve por indução de hormônios e uma modesta, porém potencialmente significativa, mobilidade pode se tornar, então, possível (pág. 214). Figura 29-3 Vista cranial da pelve óssea de uma vaca. A linha terminal (preta) está indicada. 1, Corpo da primeira vértebra sacral; 2, asa do sacro; 3, articulação sacroilíaca; 4, túber coxal; 5, corpo do ílio; 6, acetábulo; 7, eminência iliopúbica; 8, sínfise; 9, pécten do púbis; 10, espinha isquiática; 11, forame obturatório; 12, ligamento sacroisquiático. Em touros idosos, é comum observar anquilose dessas articulações, acompanhadas por espondilose lombar, que, quando graves, podem desabilitar o animal para a cobertura. A região perineal é ampla por falta das partes da musculatura do tendão da perna, que no equino impõem os limites laterais muito proeminentes e que não existem nos bovinos. Por convenção, considera-se que a região se estende ventralmente para incluir a parte mais próxima do úbere (ou escroto). O aumento na largura expõe os ligamentos sacrotuberais, os túberes isquiáticos e a fossa isquiorretal como referenciais de superfície visíveis e palpáveis. O ânus e a vulva, as características mais evidentes das regiões perineais dorsal e ventral, respectivamente, são considerados mais adiante (Fig. 29-10). Figura 29-10 Os músculos perineais da vaca. 1, Túber isquiático;2, ligamento sacroisquiático; 3, coccígeo; 4, levantador do ânus; 5, esfíncter anal externo; 6, ânus; 7, retrator do clitóris; 8, constritor da vulva; 9, vulva; 10, diafragma urogenital (pélvico); 11, constritor do vestíbulo; 12, tecido adiposo na fossa isquiorretal; 13, fáscia perineal (parcialmente removida no lado direito). O suprimento sanguíneo para as estruturas pélvicas é distribuído pela pequena artéria sacral mediana e pelas muito mais calibrosas e pareadas artérias ilíacas internas (Fig. 29- 4). A primeira ou, mais precisamente, sua continuação como artéria caudal mediana já foi mencionada (pág. 668). A artéria ilíaca interna supre estruturas tanto parietais como viscerais, ao contrário da organização usual. Ela entra na cavidade pélvica próximo à articulação sacroilíaca e continua abaixo do ílio até alcançar a vizinhança do forame isquiático menor (Fig. 29-1/10) antes de se dividir em artéria pudenda interna e artéria glútea caudal. A última, como outros ramos parietais, não possui relevância nesta seção. O primeiro ramo visceral da ilíaca interna, emitido próximo à origem do tronco principal, é a artéria umbilical. Esse termo, tido como apropriado ao seu papel no feto, é enganoso porque o vaso agora é quase exclusivamente relacionado ao suprimento sanguíneo do útero por meio de uma artéria uterina calibrosa; a continuação da umbilical, reduzida a um cordão fibroso com um lume vestigial, é mais conhecida como ligamento redondo da bexiga. O homólogo masculino da artéria uterina é a artéria do ducto deferente (a distribuição das artérias para as vísceras é considerada em conjunto com os órgãos que elas suprem). O segundo ramo visceral, a artéria vaginal, é emitido próximo à terminação do tronco ilíaco interno e supre a maior parte das vísceras pélvicas. O homólogo masculino é a artéria prostática. A artéria pudenda interna supre tanto estruturas parietais, inclusive os músculos do diafragma pélvico, quanto vísceras, incluindo o trato feminino, da vagina caudal até o vestíbulo. O tronco deixa a pelve através de uma abertura na fáscia imediatamente sobre a sínfise para enviar ramos ao clitóris, aos lábios e ao períneo, alguns dos quais alcançam a parte caudal do úbere (ou escroto e prepúcio). Figura 29-4 Padrão de ramificação da parte caudal da aorta abdominal bovina. 1, Aorta; 2, artéria ovárica; 3, artéria mesentérica caudal; 4, artéria ilíaca externa; 5, artéria ilíaca circunflexa profunda; 6, artéria femoral; 7, artéria femoral profunda; 8, tronco pudendoepigástrico; 8′, artéria pudenda externa 9, artéria ilíaca interna; 10, artéria umbilical; 11, artéria uterina; 12, artéria sacral mediana; 13, linfonodo inguinal profundo (iliofemoral); 14, 14′, linfonodos ilíacos medial e lateral; 15, linfonodos sacrais. Os nervos do interior da pelve pertencem a dois grupos (Fig. 29-5). O primeiro compreende os nervos obturatório e isquiático, que, apesar de sua vulnerabilidade a lesões no parto, serão descritos com os membros pélvicos. O segundo grupo compreende os nervos pudendo, retal caudal e pélvico, dos quais todos são inteiramente sacrais em sua origem e relacionados ao suprimento das vísceras pélvicas e do períneo. As divisões importantes do nervo pudendo são os ramos perineal profundo e cutâneo distal, e a continuação do tronco principal. O perineal profundo supre tanto estruturas viscerais quanto somáticas da região pélvica caudal. O ramo cutâneo distal supre estruturas do períneo ventral (antes de se tornar superficial após emergir da fossa isquiorretal), cruza o processo medial do túber isquiático (onde pode ser palpado) e supre a vulva e a pele do períneo; alguns ramos se estendem até pontos tão distantes quanto a parte mais próxima do úbere. O tronco passa ventralmente à vagina antes de deixar a pelve, acompanhado pela artéria pudenda interna; ela supre o nervo dorsal do clitóris e envia outros ramos para a pele do úbere (no macho, os ramos correspondentes são o nervo dorsal do pênis e os ramos cutâneos para o escroto e prepúcio). Figura 29-5 Nervos e vasos da superfície medial da parede pélvica bovina. A anestesia local do nervo pudendo pode ser obtida por injeções em A e B; a anestesia dos nervos retais caudais é possível pela injeção em C. 1, Sacro; 2, sínfise pélvica; 3, reto (rebatido); 4, vagina (rebatida); 5, n. isquiático; 6, n. obturatório; 7, n. pudendo; 7′, ramo distal cutâneo do n. pudendo; 7″, n. perineal profundo; 7‴, continuação do n. pudendo para o clitóris; 8, nn. caudais retais; 9, n. pélvico; 10, a. ilíaca interna; 10′, a. glútea caudal; 11, a. vaginal; 12, a. pudenda interna; 13, margem caudal do ligamento sacroisquiático; 14, m. retrator do clitóris. RETO E ÂNUS Embora a origem do reto seja arbitrariamente definida, sua parte mais caudal é diferenciada do cólon pelo maior calibre e pela parede mais muscular. O interior, marcado por pregas transversais inconstantes, geralmente se encontra distendido por fezes (Fig. 29- 6). Figura 29-6 Secção dorsal do reto bovino e estruturas adjacentes. Observar especialmente a topografia do diafragma pélvico (6,7). 1, Corpo do ílio; 2, ligamento sacroisquiático; 3, túber isquiático; 4, ânus; 5, esfínter anal externo; 6, levantador do ânus; 7, coccígeo; 8, reto. O mesocólon continua como mesorreto, que bruscamente se encurta para meros 3 cm, antes de gradualmente diminuir ainda mais até eventualmente desaparecer (Figs. 29-7 e 29-8), o que faz com que o reto tenha amplo contato com o teto pélvico. Durante esse processo, a circunferência retal torna-se mais e mais livre de sua serosa até que a última parte fica completamente envolvida por tecido adiposo, proporcionando um revestimento que permite ao intestino se ajustar a circunstâncias variáveis. A estreita conexão com o teto e as paredes pélvicas é um obstáculo para explorações retais e, para muitos objetivos, a mão deve ser conduzida adiante para o cólon mais móvel (Fig. 29-9) (pág. 720). Figura 29-9 Relação entre os principais órgãos abdominais e pélvicos e o esqueleto bovino, vista dorsal. 1, Sexta costela; 2, extensão cranial do diafragma; 3, omaso, maior parte coberta pelo fígado; 4, contorno do abomaso; 5, retículo; 6, átrio do rúmen; 7, saco dorsal; 7′, face direita do rúmen; 8, rim direito; 9, duodeno descendente; ventralmente a ele está a massa intestinal; 10, rim esquerdo; 11, reto; 12, útero; 13, ovário; 14, linfonodo ilíaco lateral; 15, bexiga urinária. O canal anal se encontra envolvido pelo diafragma pélvico; a parte pós-diafragmática forma uma saliência discreta que apresenta uma curta fenda transversal, cuja pele continua para proporcionar uma cobertura epitelial cutânea ao último trecho do canal. O ânus é resguardado pelos dois esfíncteres usuais, e o estriado externo troca fasciculações com outros músculos do períneo (Fig. 29-10). A maior parte do reto é suprida pela artéria retal cranial, um ramo da mesentérica caudal, mas a parte terminal e a região anal são supridas por ramos provenientes da retal caudal, um ramo indireto da artéria vaginal. A drenagem venosa é dividida entre os sistemas portal e sistêmico. BEXIGA URINÁRIA E URETRA A bexiga urinária é intra-abdominal no bezerro jovem. No adulto, quando ela está vazia, fica confinada à cavidade pélvica, mas se estende para a frente no assoalho abdominal quando se distende. O colo no interior da pelve não apresenta cobertura peritoneal e liga- se ao assoalho pélvico por meio de tecido adiposo e tecido conjuntivo frouxo (Figs. 29-7 e 29-8). O escape de urina proveniente de bexiga rompida, que é um acidente relativamente comum, especialmente em novilhos, pode se infiltrar nesse tecido ou entrar na cavidade peritoneal, de acordo com o local da ruptura. Os usuais ligamentos mediano e laterais estão presentes. As relações da bexiga variam naturalmente. Nos bovinos, ela está sempre em contato com a parte cranial da vagina e com a cérvix e, frequentemente, com o corpo do útero e os cornos uterinos. No interior do abdome, ela faz contato com o saco cego dorsocaudal do rúmene com os intestinos (Fig. 29-11). Figura 29-11 Secção mediana de pelve bovina. As duas linhas verticais tracejadas indicam os níveis das secções transversais das Figs. 29-7 e 29-8. A posição do forame obturado está indicada por uma linha tracejada. 1, sacro; 2, primeira vértebra caudal; 3, reto; 4, canal anal; 5, corno uterino direito; 6, corno uterino esquerdo (maior parte removida); 7, cérvix; 8, vagina; 9, vestíbulo; 10, vulva; 11, bexiga urinária; 12, uretra; 13, divertículo suburetral; 14, sínfise. A uretra é muito mais estreita que a da égua e corre embaixo da vagina, em relação à qual ela se torna cada vez mais ligada, conforme progride caudalmente. Abre-se no vestíbulo por meio de um orifício mediano que é compartilhado com o divertículo suburetral (Fig. 29-11/13), uma bolsa em fundo cego que se estende cranialmente e é grande o suficiente para comportar a articulação distal de um dedo. A bolsa pode ser um transtorno quando se faz uma tentativa de cateterização. O músculo uretral cobre apenas a parte caudal da uretra, que está ancorada mais cranialmente ao assoalho por meio de um ligamento curto mas resistente. Os fascículos craniais do músculo uretral se inserem sobre uma rafe dorsal que completa o envoltório da uretra; os mais caudais formam um U que se liga a cada lado da vagina e do vestíbulo, englobando o divertículo e a uretra. O suprimento sanguíneo para esses órgãos provém das artérias umbilicais e vaginais. ÓRGÃOS REPRODUTIVOS FEMININOS As peculiaridades topográficas dos órgãos reprodutivos das fêmeas ruminantes são consequência da descida dos ovários fetais para a parte mais caudal do abdome, que é uma descida consideravelmente maior que a observada em outras espécies domésticas; como resultado, os cornos uterinos voltam-se em direção à fixação de seus ovários e não se estendem para o abdome, exceto na gestação avançada. As descrições a seguir se referem primariamente aos órgãos da vaca adulta, não gestante. OVÁRIO E TUBA UTERINA O ovário é um corpo firme, irregularmente ovoide e pequeno (4 × 2,5 × 1,5 cm) em relação ao tamanho corporal. Preso à parede do corpo e ao trato reprodutivo por meio da inclusão no ligamento largo, relaciona-se com a parte ventral do corpo do ílio no mesmo nível da bifurcação do útero. Os folículos e os corpos lúteos podem se projetar a partir de qualquer parte da superfície (Fig. 29-13). Figura 29-13 Vários estágios funcionais do ovário bovino. A, Ovários com pequenos folículos secundários. B, Ovários com folículos maduros prontos para se romper. C, Ovário com folículo recentemente rompido; a cicatriz é pequena e redonda. D, Ovário com corpo lúteo maduro. Os folículos maiores atingem um diâmetro de 2 cm, mas mesmo aqueles tão pequenos quanto aproximadamente 5 mm de diâmetro podem ser detectados por palpação retal. Como o ciclo estral é curto (geralmente 21 dias), folículos e corpos lúteos de algum tamanho podem ocorrer simultaneamente. A tuba uterina é bem comprida, mas seu caminho tortuoso une seu início e sua terminação (Fig. 29-14, A-B). O infundíbulo de parede fina se encontra sobre a face lateral do ovário na margem livre da mesossalpinge. A parte seguinte da tuba, mais estreita, se enrola na parede lateral da bolsa ovárica para alcançar a ponta do corno uterino. Divide-se em ampola e istmo, aproximadamente numa proporção de 2:1, mas a distinção só é evidente em determinados estágios do ciclo. A transição de istmo para corno é gradual e marcada por espessamento muscular. Figura 29-14 Órgãos reprodutivos bovinos, vista dorsal. A, A vagina e o vestíbulo foram abertos na peça. B, A maior parte do trato é mostrada aberta no esquema. 1, Ovário; 2, tuba uterina; 2′, infundíbulo; 3, corno uterino; 4, ligamento intercornual; 5, parede do útero dividindo os dois cornos; 6, corpo do útero com carúnculas; 7, ligamento largo; 8, cérvix; 9, parte vaginal da cérvix; 10, fórnix; 11, vagina; 12, posição original do hímen; 13, óstio uretral externo e divertículo suburetral; 14, glândula vestibular maior e seu óstio excretor; 15, vestíbulo; 16, glande do clitóris; 17, lábio direito. A despeito das características associadas à frequência de gestações gemelares e múltiplas, os ovários e as tubas de ovelhas e cabras são bastante similares ao que se observa em vacas. ÚTERO À primeira vista, o útero parece ser constituído por um corpo relativamente longo, seguido por dois cornos divergentes, afilados, enrolados ventralmente sobre si mesmos (Fig. 29-15). Figura 29-15 Órgãos reprodutivos in situ de vaca, vista cranial. A pelve óssea está indicada pelas linhas tracejadas. O útero pende no interior desse abdome eviscerado quase completamente. 1, Reto; 2, cérvix; 3, corpo do útero; 4, corno uterino esquerdo; 5, ligamento intercornual; 6, ovário direito; 7, ligamento largo. Essa impressão é equivocada. A maior parte do corpo aparente se encontra ocupado pelos dois cornos situados lado a lado no interior de um revestimento seroso e muscular comum, sendo essa a organização sugerida por um sulco dorsal que se torna mais pronunciado em direção à bifurcação. Onde os cornos divergem os tecidos superficiais preenchem inicialmente a fenda, formando os curtos ligamentos intercornuais ventral e dorsal (Fig. 29-14/4) que delimitam uma pequena bolsa, convenientemente arranjada para permitir que o órgão seja fixado por um dedo durante os exames retais. As sinuosidades marcantes dos cornos não são constantes, mas resultam da estimulação da musculatura do órgão e do ligamento largo. O estímulo é fornecido pelo manuseio, o que explica por que o formato do útero parece se tornar mais definido e sua consistência mais firme no curso de um exame retal. O efeito é mais evidente durante o estro. A firmeza da cérvix permite o reconhecimento do limite caudal do corpo quando se manuseia o órgão intacto, mas não há nada que indique seu limite cranial. É surpreendente descobrir, quando o órgão é aberto, que o corpo possui meros 3 cm de comprimento. Cada corno mede 35 cm ou mais, dos quais cerca de um terço está incorporado no “pseudocorpo”; a cérvix mede 8-10 cm. Os traços mais característicos internamente são a presença de carúnculas, os locais de adesão das membranas fetais durante a gestação. Aproximadamente 40 delas estão organizadas em quatro linhas mais ou menos regulares nas partes mais largas do corno, que são reduzidas para uma linha dupla em direção à ponta. A cérvix começa na constricção do óstio uterino interno, além do qual a passagem fica ocluída por projeções interdigitantes provenientes das paredes; nos animais virgens, elas consistem em três ou quatro pregas circulares, mas tornam-se interrompidas e irregulares nas multíparas. A prega mais caudal se projeta na vagina, onde é envolvida por um fórnix anular. A mucosa cervical também apresenta pregas longitudinais que, ao alcançar o óstio (uterino) externo, se irradiam de maneira que lembra os gomos de uma laranja (Fig. 29-16, A-B). Se o parto for desconsiderado, a passagem de um instrumento pela cérvix ocorre de maneira mais fácil durante o estro, mas as dificuldades experimentadas em outros momentos podem ser superadas e, na verdade, devem ser superadas, para permitir a transferência de embriões. Figura 29-16 Aparência da parte vaginal da cérvix bovina durante a gestação (A) e durante o estro (B). A maior parte das características que diferenciam o útero de pequenos ruminantes é de pouca importância prática. As superfícies livres das carúnculas são côncavas, mais evidentemente nas ovelhas (Fig. 29-17). Certas características da cérvix são mais significativas. Muitas pregas irregulares, originalmente circulares, se projetam para o lume, encaixando-se umas nas outras; a última delas se encontra afundada em um recesso da parede vaginal. Combinadas, essas características tornam a cateterização do útero bastante difícil, quando não impossível, na maioria dos estágios do ciclo. Figura 29-17 A-E, Desenvolvimento de carúnculas na parede do útero bovino. A, Carúncula em útero não gravídico.B, Carúncula em útero com duas semanas de gestação. C, Carúncula em útero com seis meses de gestação. D, Carúncula próxima do parto, parcialmente coberta por um cotilédone (tecido fetal). E, Secção de um placentoma. F, Placentoma de ovelha. G, Placenta cotiledonária (ruminante). H, Separação parcial das partes materna e fetal do placentoma (vaca). VAGINA A parte remanescente do trato genital é dividida entre a vagina e o vestíbulo na proporção aproximada de 3:1; o limite encontra-se a poucos centímetros cranialmente ao arco isquiático (Fig. 29-11). Como a vagina é capaz de ampla expansão em comprimento e em diâmetro, suas dimensões em repouso não têm grande significado. O revestimento exibe pregas pouco salientes, tanto circulares quanto longitudinais, e o lume é fechado pela aproximação do teto e do assoalho (Fig. 29-8). Figura 29-8 Secção transversal da pelve bovina no nível da primeira vértebra caudal (superfície cranial). A secção passa pelos forames obturados. Observar que o peritônio reveste somente a superfície dorsal da vagina; nesse nível, as superfícies lateral e ventral são retroperitoneais. (Fig. 29-11 para o nível da secção.) 1, trocânter maior; 2, forame obturado; 3, ligamento sacroisquiático; 4, reto; 5, escavação retogenital; 6, vagina; 7, colo da bexiga urinária; 8, tecido adiposo retroperitoneal. É comum encontrar a parte caudal estreitada ventralmente, especialmente em animais jovens; essa característica, que não deve ser confundida com o hímen (que raramente encontra-se evidente), é atribuída ao músculo uretral. Os dois terços craniais da parede dorsal defrontam-se com a escavação retogenital, e mais caudalmente a vagina e o reto se unem por uma faixa de tecido (Fig. 29-11). A superfície ventral possui um revestimento peritoneal menos completo e está relacionada à bexiga urinária, à uretra e aos tecidos que revestem a uretra. As paredes laterais também não apresentam peritôneo em grande parte, sendo cranialmente incluídas no ligamento largo e mais caudalmente compartilhando do arranjo retroperitoneal geral (Figs. 29-7 e 29-8). Essa limitação do peritônio é importante para o prognóstico de feridas da parede vaginal. O revestimento peritoneal da região dorsal do fórnix proporciona uma rota conveniente para acesso cirúrgico à cavidade abdominal, mais frequentemente utilizado nas cirurgias ovarianas; apresenta vantagem adicional ao evitar os grandes vasos que passam embaixo e dos lados da vagina (Fig. 26-19). Figura 29-7 Secção transversal da pelve de uma vaca no nível da articulação coxal (superfície cranial). Observar a grande quantidade de tecido adiposo retroperitoneal na pelve (Fig. 29-11 para o nível dessa secção). 1, Articulação coxal; 2, ligamento sacroisquiático; 3, reto; 4, escavação retogenital; 5, ligamento largo do útero; 6, ligamento lateral da bexiga; 7, útero seccionado onde os dois cornos convergem; 8, bexiga urinária; 9, escavação vesicogenital; 10, escavação pubovesical; 11, ligamento mediano da bexiga. Figura 29-12 Vista dorsal da pelve óssea e órgãos reprodutivos (não gravídicos) relacionados em bovinos. Observar a posição dos ovários em relação ao pécten do púbis. 1, ovário; 2, cérvix. Vestígios dos dutos mesonéfricos podem ser encontrados abaixo da mucosa do assoalho, próximo à junção com o vestíbulo; são, algumas vezes, a origem de cistos. A vagina está quase ausente na novilha maninha (freemartin) (pág. 712), cujo trato anormalmente curto é evidente ao exame do vestíbulo. Também pode ocorrer aplasia ou constrição da vagina na doença da novilha branca, outra anomalia congênita. A novilha maninha é encontrada após gestação gemelar na qual o feto do sexo feminino é afetado de forma adversa pelo gêmeo do sexo masculino (Fig. 29-18). Figura 29-18 A, Gestação gemelar bovina mostrando as circulações separadas. B, Gestação gemelar bovina mostrando as circulações conjugadas (possível desenvolvimento de novilha maninha, freemartin). VESTÍBULO E VULVA O vestíbulo se inclina ventralmente para se abrir entre os lábios (Fig. 29-11). É menos distensível do que a vagina, e suas paredes laterais normalmente estão em contato. Quando são afastadas, expõem a abertura da uretra na extreminadade cranial do vestíbulo e, na extremidade caudal, a fossa, que contém a glande do clitóris (Fig. 29-14). Uma grande depressão caudolateral à abertura uretral marca a localização da principal glândula vestibular, com cerca de 3 cm de comprimento, que se encontra envolvida no interior do diafragma urogenital (pélvico). A mucosa vestibular é geralmente escurecida sobre a glândula. Os lábios arredondados, um tanto pequenos, são frequentemente marcados pelos traumas adquiridos em partos prévios. A simples inspeção expõe relativamente pouco do clitóris delicado, uma vez que a glande está fusionada ao prepúcio. A vulva da novilha maninha, anormalmente pequena, é circundada por pelos compridos incomuns. O vestíbulo penetra no diafragma urogenital (pélvico), que preenche a fenda entre o septo retovaginal e o assoalho pélvico. A fáscia do diafragma surge do assoalho pélvico, curva-se ao redor e se fixa à parede do vestíbulo, fundindo-se ao septo retovaginal, a margem mais ventral do diafragma pélvico, e à fáscia pélvica parietal. A importância do arranjo está no ancoramento do trato genital, opondo-se à tração do útero gravídico conforme ele se afunda no abdome e à tração para trás durante o parto. Os músculos constritor do vestíbulo e constritor da vulva estão associados com o vestíbulo e a vulva. O primeiro, mais importante, incorpora alguns fascículos que continuam a partir do elevador do ânus e formam o corpo perineal. Segue sobre a parede do vestíbulo, caudalmente ao diafragma, e passa por baixo do vestíbulo para se unir ao seu par contralateral; durante a contração, ele estreita a passagem genital e eleva uma crista em seu assoalho. O constritor da vulva, por meio de sua inserção à vulva e à pele adjacente, pode provocar abertura exagerada. VASCULARIZAÇÃO Com a artéria ovárica relativamente pequena, um ramo direto da aorta supre o ovário, a tuba uterina e a parte limítrofe do corno do útero, nos bovinos. A artéria ovárica é diferenciada por um curso extraordinariamente contorcido no interior da parte cranial do ligamento largo e apresenta contato amplo com a veia ovárica plexiforme (Fig. 29-19). Essas características facilitam a transferência de prostaglandinas do sangue venoso para o arterial. A artéria uterina se origina da artéria ilíaca interna e entra na cavidade pélvica inserida no ligamento largo. Ostensivamente, é um ramo da artéria umbilical, mas se apropria, virtualmente, de todo o fluxo de seu tronco de origem (Fig. 29-4). É a maior artéria do trato feminino; antes de alcançar o útero, divide-se em partes cranial e caudal, cada uma originando cerca de meia dúzia de troncos vasculares que alcançam a margem mesometrial do útero. Os ramos desses vasos correm pelas paredes uterinas seguindo cursos que parecem coincidir internamente com as localizações das carúnculas. Esse arranjo faz com que a margem antimesometrial do útero tenha menor suprimento sanguíneo e, portanto, menor propensão a sangramentos quando é incidida. A artéria vaginal, uma ramificação da ilíaca interna próxima da espinha isquiática, segue pela superfície dorsolateral da vagina antes de oscilar para a frente sobre a parede lateral, onde há risco de envolvimento, com resultado possivelmente fatal, na ruptura da vagina, uma complicação de parto relativamente comum em novilhas. Diversos ramos passam para o trato genital caudal e para a bexiga urinária e a uretra. Figura 29-19 Vista ventral, semiesquemática, do suprimento sanguíneo do trato reprodutivo bovino (vaca). As artérias estão representadas no lado direito, e as veias no lado esquerdo. 1, artéria ovárica; 1′, ramo uterino; 2, artéria uterina; 3, artéria vaginal; 4, veia ovárica; 5, veia vaginal acessória; 6, veia vaginal. Há um plexo venoso bastante grande e conspícuo nos tecidos parametriais do ligamentolargo e sobre a superfície ventral do útero e da vagina, revestido parcialmente pelas camadas mais externas de musculatura. É constituído de uma mistura de sangue que pode drenar em diversas direções (Fig. 29-19). A veia ovárica, o maior vaso emissário, corre na parte cranial do ligamento largo; as veias vaginais, incluindo a surpreendentemente pequena veia que corresponde à grande artéria uterina, exerce papel secundário. Nervos simpáticos e parassimpáticos suprem o trato genital. ALTERAÇÕES CÍCLICAS E DE CRESCIMENTO O crescimento dos órgãos reprodutivos, isométricos nos animais muito jovens, é acelerado em resposta à produção de hormônios ovarianos após o início do ciclo estral, geralmente quando uma novilha tem cerca de 8-10 meses de idade. Os efeitos cumulativos de alguns ciclos produzem aumento surpreendente nas dimensões e diferenciação mais clara dos tecidos que compõem o trato. Em cada ciclo, um folículo se torna identificável à palpação retal por volta do 16° dia e atinge seu tamanho máximo alguns dias mais tarde. Sua ruptura é precedida por redução na pressão interna, evidenciável à palpação retal; o coágulo resultante da moderada hemorragia subsequente é rapidamente substituído por um corpo lúteo. Este alcança seu tamanho máximo, aproximadamente o mesmo do folículo que substituiu, após cerca de uma semana; inicia-se, então, a regressão, e por volta do 21° dia, o momento do estro seguinte, ele já se apresenta reduzido em dois terços. Eventualmente, é substituído por uma cicatriz. O crescimento e a redução do corpo lúteo são marcados por alterações de coloração progressivas do marrom ao ocre e, depois, laranja, vermelho- tijolo e, na regressão, branco sujo. A ampola se torna visivelmente mais larga após a ovulação, quando a ação do esfíncter do istmo retarda a entrada do ovo no útero. As alterações uterinas que começam no proestro e continuam até o metaestro envolvem hiperemia e edema por espessamento do endométrio; a hemorragia moderada que algumas vezes é acompanhada de sedimentação parece ser a origem do aumento de pigmentação da parede uterina em animais idosos. Um aumento em tamanho, complexidade e atividade das glândulas endometriais culmina uma semana ou mais após a ovulação. A atividade do miométrio, seja espontânea ou em resposta a estímulos externos, é máxima imediatamente antes e durante o estro. A maior atividade da mucosa cervical durante o estro se espalha para a mucosa que reveste a parte cranial da vagina. O muco transparente de baixa viscosidade que é produzido é eventualmente descartado e pode estar tingido por sangue quando há sangramento pronunciado no metaestro. Não existe um ciclo distinto de queratinização do epitélio vaginal. O ciclo estral bovino se repete em intervalos de 21 dias. Os pequenos ruminantes são poliéstricos estacionais, principalmente no outono e no começo do inverno; o ciclo dura 16 ou 17 dias nas ovelhas e 20 dias nas cabras. GESTAÇÃO E PARTO A gestação dura 280 dias nas vacas, 147 dias nas ovelhas e 154 dias nas cabras. Durante esse período, todas as partes do sistema reprodutivo apresentam algumas alterações, mas obviamente as mais evidentes ocorrem no útero, que sofre um aumento de 15 vezes em seu peso (100 vezes, quando se inclui seu conteúdo). O ovário é distinguível pela presença do corpo lúteo gestacional, que persiste além da meia-vida do corpo lúteo cíclico do ciclo infértil. Sua sobrevivência nem sempre é acompanhada pela supressão completa da atividade folicular; algumas vacas entram em cio e ovulam no início da gestação. O corpo lúteo não é necessário para sustentar a gestação nos últimos três meses e geralmente começa a regredir cerca de um mês antes do parto (Figs. 29-20 e 29-21). Figura 29-20 Imagem ultrassonográfica transretal do ovário de uma vaca que foi estimulada com gonadotrofina para induzir superovulação. As manchas pretas representam cortes de grandes folículos terciários. Figura 29-21 Imagem ultrassonográfica transretal de corpo lúteo de uma vaca cíclica; o corpo é marcado por uma cavidade (mancha preta). As alterações progestacionais que fazem parte de todo o ciclo persistem e se intensificam na presença de um embrião. Apesar de o blastocisto ficar inicialmente confinado em um corno, as membranas se alongam rapidamente para o outro; entretanto, o embrião, posteriomente o feto, fica quase invariavelmente restrito unilateralmente, e o desenvolvimento de assimetria é um dos primeiros sinais detectáveis de gestação. O saco amniótico torna-se palpável por volta do 30° dia, e o feto, por volta do 70° dia. As carúnculas do corno gravídico aumentam gradualmente de pequenos botões com superfície lisa para se tornarem intumescências grandes, pedunculadas, com superfície escavada, para a recepção dos vilos coriônicos; no parto, as maiores podem atingir o tamanho de um punho cerrado (Figs. 29-17, 29-22 e 29-23). As que estão presentes no corno não gravídico também aumentam posteriormente, mas em menor grau. Figura 29-22 A, Vista ultrassonográfica transretal de um placentoma (1) e da cabeça do feto (2) aos três meses de gestação. As duas hemimandíbulas estão em 3. B, Vista ultrassonográfica transretal de um placentoma (×) aos cinco meses de gestação. As imagens ultrassonográficas dos placentomas são diagnósticas de gestação se não for possível visualizar o próprio feto. Figura 29-23 A, Útero gravídico parcialmente aberto. B, Feto bovino dentro das membranas. Os vilos estão principalmente restritos aos cotilédones. 1, Carúncula; 2, cotilédone. O aumento do útero não afeta todas as partes da mesma maneira. A curvatura menor, sustentada pelo ligamento largo, é mais resistente à expansão, fazendo com que o corno mude sua forma: a curvatura maior e as partes adjacentes crescem a partir do ponto de fixação. A hipertrofia dos tecidos do ligamento largo impede que o útero afunde no abdome por um certo tempo, mas, no terceiro mês, essa resistência é superada e o útero começa a deslizar para a frente sobre o assoalho abdominal. O suprimento de sangue para o útero gravídico é necessariamente bastante aumentado; todos os vasos uterinos contribuem para isso, mas o principal papel é exercido pela artéria uterina do lado gravídico, que aumenta em diâmetro de poucos milímetros até 1 cm ou mais. Perde seu caráter fletido e passa a se projetar para o abdome, onde é facilmente encontrada por palpação contra o ílio; a identificação é auxiliada pela característica de vibração (frêmito) que agora apresenta. A topografia não é a mesma a cada gestação. O útero crescente geralmente adentra o recesso supraomental, mas pode, algumas vezes, deslizar para a frente contra o flanco direito ou esquerdo. Conforme ele se expande, afunda para dentro do abdome e, por um tempo, dentro (das alças) do cólon, passa despercebido ao alcance de uma mão; essa inabilidade em alcançar o útero até quase o quinto mês é tão diagnóstico de gestação quanto seu aumento palpável nos períodos precoces e tardios. A descida para o abdome distende a vagina e traciona a cérvix sobre a margem púbica. Próximo ao parto, o útero ocupa a maior parte das seções ventral e direita (no arranjo usual) do abdome, que eleva o rúmen dorsalmente e pressiona os intestinos para o alto (Fig. 29-24). Faz contato com o fígado e o diafragma, sobre o qual exerce pressão aumentada. Durante os primeiros meses, o bezerro se beneficia da liberdade de movimento e ajusta a posição no fluido amniótico, mas conforme a gestação avança é forçado a se adaptar à forma e dimensões do corno uterino. Figura 29-24 Secção paramediana do abdome caudal e da pelve de vaca gestante. A secção não é completamente vertical porque foi feita através do canal vertebral e do forame obturado. Observar os grandes placentomas. 1, Sacro; 2, reto; 3, canal anal; 4, útero; 5, cérvix; 6, vagina; 7, vestíbulo; 8, bexiga urinária; 9, uretra; 10, divertículo suburetral; 11, vulva. O canal cervical é fechado por um tampão mucoso que se desenvolve desde o primeiro mês e se projeta posteriormente atravésdo óstio uterino externo. A primeira alteração na vagina se deve à tração, mas a parede se torna, posteriormente, gradualmente elástica, e o lume potencialmente mais ocupável. O aumento da vulva é evidente no final do primeiro trimestre em animais que gestam seu primeiro bezerro, mas em multíparas, nas quais a vulva tende a ser permanentemente aumentada, pode não haver nenhuma alteração óbvia até pouco antes do nascimento. As alterações que sinalizam a aproximação do parto incluem relaxamento do ligamento sacroisquiático, com rebaixamento ao lado da base da cauda (Fig. 29-25, A-B); um afrouxamento similar de outros ligamentos pélvicos permite algum relaxamento das articulações sacroilíacas. Os tecidos conjuntivos da cérvix, do trato reprodutivo caudal e das peles vulvar e perineal participam dessas alterações que, embora ocorram no decorrer de várias semanas, são muito intensificadas nos poucos dias finais. Quando o parto é iminente de fato, o edema das partes moles pode produzir abertura exagerada da vulva. Figura 29-25 Indicações de impedimento do parto. A, Relaxamento do ligamento sacroisquiático. B, Edema vulvar. A descrição anterior da pelve óssea das vacas sugere que ela não é particularmente favorável a um parto fácil. Suas dimensões são relativamente pequenas, e o eixo do canal do parto é interrompido no ponto em que passa sobre a margem púbica e, novamente, onde o assoalho muda de direção e se eleva em direção à saída. É possível ocorrer algum aumento no diâmetro vertical caso a pelve consiga rotacionar sobre as articulações sacroilíacas relaxadas, mas esse alívio é claramente negado às vacas em estação. Os principais obstáculos de tecido mole na facilitação do parto são a cérvix, a extremidade caudal da vagina e a vulva. Normalmente, essas partes também relaxam sob influência hormonal. O cordão umbilical se rompe quando a vaca dá à luz e, como é relativamente curto, isso ocorre com frequência antes de a expulsão estar completa. Seus contituintes se separam em diferentes níveis. As membranas fetais (as “limpezas”, em linguagem leiga) normalmente se separam do endométrio e são expelidas logo após o parto; esse processo é acelerado pela amamentação, que estimula a liberação de ocitocina. A retenção com decomposição no útero requer intervenção humana para acompanhar sua remoção. Após o parto, o trato tende a retornar ao seu estado anterior, mas as primeiras gestações deixam um legado permanente sob a forma de espesamento e perda de simetria (Fig. 29-26). O útero se contrai tão logo esteja vazio, sofrendo uma atrofia muito rápida, na qual um terço de seu peso é perdido em poucos dias; o segundo terço é perdido em menos de uma semana. O declínio é, então, desacelerado, mas se a vaca permanecer “vazia”, pode ocorrer em seguida um período de superinvolução (atrofia de lactação), no qual o tamanho do útero diminui para menos que o normal em repouso. A involução da vagina, do vestíbulo e da vulva é mais lenta. Figura 29-26 Alterações uterinas. A, A gestação envolve principalmente um corno, resultando em enorme assimetria do útero. B, Após a gestação, o útero retorna ao seu estado anterior; geralmente permanece alguma assimetria. ALGUNS ASPECTOS DE DESENVOLVIMENTO Apenas alguns poucos pontos precisam ser levantados para suplementar a explicação geral fornecida no Capítulo 5. Raramente, a ovulação nos bovinos não ocorre até algumas horas após o final do estro. A clivagem começa na tuba uterina, onde o óvulo fertilizado fica retido por vários dias antes de ser liberado pelo istmo para o corno uterino. O pequeno blastocisto esférico que se forma primeiro sofre um alongamento muito rápido a partir de cerca do 13° dia, primeiro se estendendo como uma estrutura filiforme por todo o comprimento daquele corno e, depois, por volta do 18° dia, passando através do corpo do útero para invadir o outro corno. Dessa maneira, um único embrião tira proveito máximo do endométrio disponível para seu sustento. Quando ocorrem gêmeos, cada um ocupa um corno, e a migração transuterina parece ser realizada prontamente porque em geral os dois derivam de um mesmo ovário. O contato entre dois córios é inevitável e resulta em fusão e anastomose dos conjuntos vasculares das placentas dos gêmeos (com efeitos potencialmente ruins; Fig. 29-28). Figura 29-28 Disposição dos órgãos urogenitais do touro. 1, Ureter; 2, testículo direito; 3, epidídimo; 4, ducto deferente; 5, bexiga urinária; 6, glândula vesicular; 7, ampola do ducto deferente; 8, corpo da próstata; 9, glândula bulbouretral; 10, flexura sigmoide do pênis; 11, glande do pênis; 12, isquiocavernoso; 13, retrator do pênis. O cômputo do desenvolvimento das membranas fetais e o estabelecimento da placenta cotiledonária (Fig. 29-17), já descritos, não necessitam de ampliação. A placenta é uma barreira para troca intrauterina de componentes imunológicos no útero das espécies ruminantes, e o neonato mama o colostro para sua proteção imunológica precoce. Embora a incidência de gestação gemelar nos bovinos não seja alta (1-4%, de acordo com a raça), a gemelaridade tem atraído muita atenção devido à certeza virtual de que o feto do sexo feminino exibirá características intersexuais caso o outro seja um macho. A masculinização da fêmea, a tão conhecida novilha maninha, deve-se à troca entre as duas circulações. Acreditava-se que a exposição a andrógenos fosse o fator causal, mas atualmente isso parece ter menor importância. Na visão predominante, o que é significativo é a transferência de hormônios antimüllerianos (provocando regressão dos dutos de Müller), o descenso (causando um brotamento gubernacular) e a troca de células entre os dois embriões, que são, na verdade, quimeras (Fig. 29-18). Este último ponto obteve suporte a partir do fato de que a maior parte dos gêmeos bovinos, presumivelmente os que compartilharam circulação placentária comum, aceita enxertos de pele de seu parceiro na vida adulta, indicando que houve troca celular quando eles eram imunologicamente tolerantes. Gêmeos e trigêmeos são obviamente comuns em ovelhas e cabras. A incidência varia de acordo com a raça e reflete a clemência ou severidade do ambiente no qual a raça evoluiu. Frequentemente, isso é conveniente para estimar a idade de um feto abortado no campo. Há muitas tabelas que relacionam diversas medidas à idade, mas todas apresentam a desvantagem de registrar valores médios para parâmetros que variam consideravelmente com raça, estado nutricional e outros fatores. Uma orientação, facilmente memorizável, permite relacionar 1 cm de comprimento para cada uma das primeiras 12 semanas de gestação e 2,5 cm para cada semana a partir desse limite. Exceto com embriões mais jovens, esse índice raramente apresenta duas semanas de liberdade e dificilmente é possível esperar maior exatidão de qualquer outro método baseado em uma regra de ouro. Os métodos qualitativos que consideram as anatomias externa e interna são mais acurados, mas as informações sobre esse assunto devem ser procuradas em outro lugar. Algumas das características mais óbvias são fornecidas nas Tabelas 29-1 e 29-2. Tabela 29-1 Guia para Desenvolvimento de Fetos Bovinos Idade (Meses) Comprimento Craniocaudal (cm) Características Externas 1 1 Cabeça e brotos de membros são perceptíveis 2 6 Dedos são perceptíveis 3 10 Identificam-se o escroto (machos) e o inchaço mamário (fêmeas) 4 20 Aparecem os primeiros pelos ao redor dos olhos; brotos de chifres estão presentes 5 30–40 Aparecem os pelos ao redor da boca; testículos estão dentro do escroto 6 40–60 Há pelos na extremidade da cauda 7 50–70 Pelos presentes nas partes proximais dos membros 8 60–80 A cobertura pilosa é geral, mas ainda é curta e esparsa sobre o ventre 9 70–90 A aparência é madura e o corpo possui bastante pelo; erupção dos incisivos Termo (278-290 dias) De Evans HE, Sack WO: Prenatal development of domestic and laboratory animals. Growth curves, externalfeatures and selected reference. Anat Histol Embryol 2:11-45, 1973. Tabela 29-2 Guia para Desenvolvimento de Fetos Ovinos Idade (Meses) Comprimento Craniocaudal (cm) Características Externas 1 2 Aurícula triangular; pálpebras em formação; folículos de pelos táteis começam a aparecer ao redor dos olhos; principais dedos do membro torácico proeminentes 1,5 6 Pálpebras fusionadas; genitália externa diferenciada; presença de tetos 2 11 Os pelos começam a cobrir o corpo 3 24 Pelos táteis aparecem na face; testículos na parte de cima do escroto 4 38 Pelos lanosos começam a crescer; olhos se abrem novamente Termo (147-155 dias) De Evans HE, Sack WO: Prenatal development of domestic and laboratory animals. Growth curves, external features and selected reference. Anat Histol Embryol 2:11-45, 1973. A maturidade, no sentido da capacidade de processar respostas fisiológicas integradas necessárias para a sobrevivência fora do útero, não é alcançada até tarde na gestação. Nas ovelhas, a mortalidade é de 100% nos animais paridos com 135 dias e ainda é muito alta naqueles que nascem aos 140 dias. Infelizmente, não há informação confiável disponível nesse assunto em relação a bovinos. ÓRGÃOS REPRODUTIVOS MASCULINOS ESCROTO E TESTÍCULOS O escroto pendular se encontra contido entre as partes craniais das coxas e pode alcançar o nível dos jarretes. Está ligado ao tronco por um colo constrito, imediatamente caudal ao anel inguinal superficial, ao passo que sua parte mais baixa molda-se sobre os testículos (Fig. 29-27). Uma massa de tecido adiposo (“gordura de bacalhau”) é comumente encontrada ao redor do coto do cordão do animal castrado; quando está presente em excesso, pode dilatar o canal inguinal e produzir pseudo-hérnias inguinais. Embora os tetos (papilas mamárias) rudimentares frequentemente encontrados na face cranial do escroto possuam pouco interesse intrínseco, seu número e espaçamento recebem atenção nos touros de raças leiteiras porque as características correspondentes provavelmente serão transmitidas à sua prole do sexo feminino. O suprimento nervoso do escroto é difuso; provém dos primeiros dois nervos lombares, e dos nervos genitofemoral e pudendo. Figura 29-27 Escroto de touro. A musculatura na túnica dartos foi contraída. A cobertura lanosa do escroto do carneiro pode provocar infertilidade por impedir a dissipação do calor. Cada testículo é elipsoide, grande em relação ao tamanho do corpo (especialmente nos pequenos ruminantes) e suspenso verticalmente no escroto, onde pode ser palpado (Fig. 29-28). Relaciona-se com um grande epidídimo ao longo da margem medial ou caudomedial que se volta para o testículo oposto. O epidídimo está firmemente aderido a essa margem do testículo; a cabeça se estende a uma distância considerável abaixo da margem livre, enquanto sua grande, cônica e bem distinta cauda, que se projeta ventralmente, é palpável. A cápsula (túnica albugínea) do testículo apresenta um padrão sinuoso distinto dos vasos e contém o parênquima sob leve pressão; partições delicadas que se destacam da cápsula se unem para formar um mediastino proeminente (Figs. 5-37 e 5-38). Após emergir da cauda, o ducto deferente ascende ao longo da margem medial do epidídimo, mas permanece separado deste pelo mesórquio, que estabelece uma relação que auxilia a abordagem cranial nas cirurgias de vasectomia. O ducto é facilmente identificável à palpação como um cordão firme e estreito. O cordão espermático cônico, dorsalmente afilado, é composto em grande parte pela artéria testicular, excepcionalmente enovelada e inserida em um plexo pampiniforme (Fig. 5-43). O significado das anastomoses arteriovenosas aqui encontradas continua obscuro; elas podem estar relacionadas às varicoceles ocasionalmente encontradas nos cordões de animais castrados (Fig. 5-46). A parte do cordão localizada no interior do colo do escroto é selecionada para o esmagamento pelo método de castração de Burdizzo. A drenagem linfática dos testículos se dirige aos linfonodos ilíacos mediais; a do escroto, para o linfonodo inguinal superficial através do colo do escroto. ÓRGÃOS REPRODUTIVOS DA PELVE Os constituintes do cordão espermático se dispersam no anel vaginal, de onde o ducto deferente pode ser palpado sobre a superfície dorsal da bexiga urinária. Passa sob o corpo da próstata para alcançar a uretra e, na parte final de seu percurso, combina-se com o ducto da glândula vesicular em uma passagem comum muito curta. No trecho subterminal (aproximadamente 10-12 cm), o ducto deferente se localiza ao lado do seu contralateral na prega genital; a parede dessa parte é espessada para formar a cilíndrica ampola ou glândula ampular. Algumas vezes, há vestígio mediano entre as duas ampolas dos ductos paramesonéfricos fusionados (Fig. 29-29). Figura 29-29 Vista dorsal da pelve de touro e órgãos urogenitais relacionados. A, Esquema. 1, Bexiga urinária; 2, prega genital; 3, ducto deferente direito; 4, ampola do ducto deferente; 5, ureter esquerdo; 6, glândula vesicular; 7, corpo da próstata; 8, músculo uretral (ao redor da uretra); 9, glândula bulbouretral; 10, bulboesponjoso; 11, extensão caudal da escavação retogenital (linha tracejada). B, Peça. A uretra corre sobre o assoalho da pelve a partir da bexiga urinária (Fig. 29-30) e deixa a cavidade pélvica curvando-se ao redor do arco isquiático. No mesmo nível do arco, o lume apresenta um divertículo dorsal, cuja entrada é guardada por uma aba mucosa. Em sua extremidade caudal, a aba se divide em duas pregas que comprimem o lume uretral fixando-o às paredes. Quase inevitavelmente, a ponta do cateter se insere nesse divertículo, tornando a cateterização da bexiga urinária impossível se um acesso cirúrgico à uretra não for obtido previamente (mesmo sem o divertículo, a flexura sigmoide do pênis já constitui uma complicação formidável). Figura 29-30 Secção transversal da uretra pélvica bovina, imediatamente caudal ao corpo da próstata. 1, Uretra; 2, tecido esponjoso (estrato esponjoso); 3, parte disseminada da próstata; 4, músculo uretral; 5, aponeurose do m. uretral. A uretra pélvica está circundada pelo estriado músculo uretral, completado dorsalmente por uma placa aponeurótica robusta. Uma fina cobertura de tecido esponjoso circunda diretamente o lume; em seu trajeto caudal, ocorre uma expansão para formar o bulbo do pênis. A uretra peniana é mais estreita, especialmente na flexura sigmoide, onde os cálculos se alojam com maior frequência, particularmente em animais castrados. As glândulas vesiculares são muito grandes (10 × 3 a 15 × 5 cm) e contribuem para a maior parte do fluido seminal. São fletidas sobre si mesmas, macroscopicamente lobuladas com lumes estreitos e ramificados e se localizam dentro das pregas genitais, principalmente lateral às ampolas (Fig. 29-29, A-B). A próstata do touro consiste em uma parte disseminada disposta ao longo do comprimento da uretra, amplamente dorsal ao lume, cuja espessura diminui conforme segue caudalmente, e em uma parte compacta (corpo) que consiste em lobos pares que se dividem através da aponeurose uretral; juntos, formam uma faixa que atravessa a primeira parte da uretra (4 × 1 cm). Figura 29-32 Pênis bovino fibroelástico e seu músculo retrator. 1, Flexura sigmoide; 2, músculo retrator do pênis; 3, pele do prepúcio. As pequenas glândulas bulborretais, localizadas no nível do arco isquiático, são achatadas e recobertas pelos músculos bulboesponjosos (Fig. 29-29, B). Sua secreção aquosa é descarregada no divertículo, e lava a uretra previamente ao ejaculado principal. Afora o corpo da próstata, que é específico do touro, as glândulas genitais pélvicas são muito similares nos três ruminantes domésticos. PÊNIS E PREPÚCIO O pênis de um touro adulto tem quase 1 m de comprimento, mas cerca de um quarto do mesmo é encurtado pela flexura sigmoide, localizada acima e atrás do escroto (Figs. 29- 31 e 29-33). Figura 29-31 Escroto aberto com exposição de testículoe epidídimo. Observar as veias tortuosas na superfície do testículo. 1, Testículo; 2, epidídimo; 3, músculo retrator do pênis; 4, cordão espermático. Figura 29-33 Pênis bovino e seus músculos, vista caudolateral. 1, Bexiga urinária; 2, ureter; 3, ducto deferente; 4, glândula vesicular; 5, corpo da próstata; 6, músculo uretral; 7, glândula bulbouretral; 8, isquiocavernoso; 9, pilar do pênis (em secção transversal); 10, retrator do pênis; 11, bulboesponjoso; 12, flexura sigmoide. Sendo de um tipo fibroelástico, encontra-se relativamente rígido a todo momento. Os pilares semelhantes a uma haste são lateralmente comprimidos e quase completamente circundados pelo potente músculo isquiocavernoso, que contém espaços cavernosos mais amplos do que estão presentes em outras partes do órgão. A construção do corpo do pênis não é imediatamente evidente porque seus constituintes, os pilares e a uretra, são envoltos por uma túnica albugínea comum (Fig. 29-34). Ligamentos pareados suspendem a parte caudal do corpo pelo tendão sinfisial; sua eventual ruptura deixa o pênis caído. A extremidade do pênis quiescente é recoberta por uma almofada de tecido mais macio, formando uma glande assimétrica, ventralmente inclinada e ligeiramente espiralada, que fica contida no interior da parte caudal do prepúcio. A glande exibe uma rafe ou septo sobre sua superfície direita; a uretra segue para se abrir sobre o cume de um pequeno processo (uretral) (Fig. 29-35). Figura 29-34 Molde dos espaços cavernosos do pênis bovino (A) e secções transversais caudal (B) e cranial (C) à flexura sigmoide. 1, Corpo cavernoso; 2, corpo esponjoso; 3, uretra; 4, túnica albugínea. Figura 29-35 Vista lateral direita da extremidade distal do pênis de touro, flácido (A) e ereto (B); extremidade distal do pênis do carneiro (C) e do bode (D) 1, glande; 2, processo uretral; 3, rafe; 4, pele do prepúcio. O prepúcio exibe a disposição usual e envolve a cavidade, que é, ao mesmo tempo, comprida e estreita. O prepúcio pende para trás do umbigo, mais evidentemente nos touros de corte, o que o torna vulnerável a lesões por gramíneas afiadas. O pênis obtém seu suprimento sanguíneo a partir de ramos da artéria pudenda interna que são emitidos dentro da pelve. Um deles, a artéria do bulbo (do pênis), supre o bulbo e o corpo esponjoso; um segundo, a artéria profunda do pênis, supre o pilar; e um terceiro, a artéria dorsal (do pênis), corre ao longo da parte dorsal para alcançar a glande emitindo ramos para o prepúcio durante o caminho. Todos três são acompanhados por veias satélites que drenam os tecidos e os espaços de sangue dentro do corpo esponjoso e do corpo cavernoso. Os pilares e o corpo cavernoso constituem uma unidade isolada, para a qual o sangue é transferido durante a ereção. O sangue venoso que deixa essa unidade alcança a circulação sistêmica através dos vasos pélvicos. O bulbo, o corpo esponjoso e a glande formam uma segunda unidade que também drena através dos vasos pélvicos, mas possuem uma saída adicional mais cranial. Consequentemente, a drenagem do sistema esponjoso não é completamente impedida pela contração do bulboesponjoso. Os nervos dorsais pareados, que correm junto às artérias dorsais, sobrepõem-se em sua distribuição. Uma vez que é preciso ocorrer estimulação do ápice do pênis para alcançar a ereção completa, a integridade desses nervos é essencial para a competência reprodutiva. A pele do prepúcio, inclusive aquela sobre o pênis, é suprida pelos primeiros dois nervos lombares, o genitofemoral e o pudendo. Os músculos prepuciais craniais que têm origem na região xifoide e se inserem ao lado e atrás do óstio prepucial são capazes de tracionar o prepúcio craniodorsalmente, provocando a constrição de seu orifício. As anomalias desses músculos podem impedir a protrusão ou prejudicar o retorno do pênis ao prepúcio. Os músculos prepuciais caudais, de ocorrência inconstante, parecem ter pouco significado. O conjunto usual de músculos está associado ao pênis (Fig. 29-33). O bem desenvolvido retrator do pênis possui interesse particular, uma vez que ele deve relaxar para permitir a exposição do pênis para exame ou tratamento. Tem origem nas vértebras caudais, passa ao lado do reto e alcança o pênis na segunda volta da flexura; algumas fibras se inserem nesse local, mas outras continuam para alcançar inserções mais distais e difusas. As contrações locais do retrator que ajudam na manutenção da flexura são controladas por uma inervação simpática vinculada aos nervos pudendo e retal caudal, que devem ser bloqueados para permitir a exposição do pênis para avaliação. A administração de tranquilizante antiadrenérgico tem o mesmo efeito. Quando há indicação de anestesia, é preciso proceder adicionalmente a um bloqueio epidural lombar caudal. Os linfáticos do prepúcio drenam para o linfonodo inguinal superficial. O pênis dos pequenos ruminantes é distinto, principalmente, pelo comprimento do delgado e erétil processo uretral, que se projeta 2-3 cm além da glande nos bodes e 3-4 cm nos carneiros (Fig. 29-35). Antigamente, como nas sociedades primitivas de hoje, a amputação do processo era realizada com a intenção de privar os carneiros de sua capacidade fertilizante. A bainha também é relativamente curta nessas espécies. ALTERAÇÕES FUNCIONAIS E DE CRESCIMENTO Os testículos bovinos chegam ao escroto na metade da gestação, um período surpreendentemente precoce. São muito pequenos ao nascimento, mas crescem mais rapidamente que o corpo como um todo a partir da primeira semana e em um ritmo acelerado quando o jovem touro se aproxima da puberdade. O crescimento então permanece por um tempo em compasso com o ritmo geral de desenvolvimento; é possível observar certa atrofia nos touros idosos. A libido pode se desenvolver antes que a espermatogênese tenha início, o que geralmente acontece por volta do décimo mês. O crescimento do epidídimo é um pouco mais retardado do que o dos testículos. O progresso no desenvolvimento das glândulas reprodutivas secundárias (genitais acessórias) é dependente de testosterona e ocorre após a maturação testicular. Inicialmente, todas são pequenas, mas em graus variados, e levam algum tempo para adquirir seus tamanhos e conformações adultos. Com menos da metade de seu comprimento final, o pênis do neonato é bastante delgado. Não possui flexura sigmoide, contém pouco tecido erétil e está fundido ao prepúcio em seu ápice. A cavidade prepucial, que não se estende proximalmente junto com o pênis, é ocupada por pregas discretas. As dobras características começam a se desenvolver por volta do terceiro mês. O crescimento é lento e, embora se acelere na puberdade, o tamanho final não é atingido até aproximadamente o segundo ano. A separação da bainha fica confinada, inicialmente, ao lado esquerdo do ápice, mas depois se espalha ao redor de toda a circunferência e se estende proximalmente. Um frênulo estreito persiste por algum tempo, e fibras podem permanecer até que sejam rompidas na primeira monta. A persistência ocasional do frênulo pode produzir deflexão ventral do ápice. A castração frustra o desenvolvimento normal e, se realizada tardiamente, pode resultar em alterações regressivas. As glândulas acessórias são especialmente sensíveis à condição endócrina. As reações desses órgãos aos estrógenos administrados artificialmente atraem muita atenção por causa do perigo que os resíduos de hormônios na carcaça podem representar para a saúde humana. A prática foi considerada ilegal em muitos países. Sua ocorrência é mais facilmente detectada pelo exame histológico da próstata. A falha de separação entre o ápice do pênis e o prepúcio faz com que o animal castrado urine dentro da cavidade prepucial. A ereção envolve apenas um ligeiro aumento no comprimento e no diâmetro; a protrusão resulta da supressão da flexura. Relativamente, pouco sangue extra é necessário para preencher os espaços cavernosos; inicialmente, isso é produzido pelo relaxamento das artérias que suprem a região, com aumento da pressãoO septo nasal não alcança o assoalho caudalmente, resultando na formação de um canal mediano único que confere continuidade às passagens nasais pareadas para o interior da nasofaringe (Figs. 25-9 e 25- 10). Figura 25-9 Secção paramediana da cabeça. 1, concha nasal dorsal; 2, concha nasal ventral; 3, concha nasal média; 4, conchas etmoidais; 5, vômer; 6, coana; 7, nasofaringe; 8, seio frontal rostral; 8′, seio frontal caudal; 9, seio palatino; 10, palato mole; 11, ápice da língua; 12, toro lingual; 13, basióideo; 14, cartilagem tireoide; 15, epiglote; 16, cartilagem aritenóidea; 17, cartilagem cricoide; 18, linfonodo retrofaríngeo medial; 19, plexo venoso circundando a hipófise; 20, cérebro; 21, cerebelo; 22, entrada do seio tonsilar. Figura 25-10 Secção transversal de cabeça de bovino ao nível dos últimos pré-molares. 1, septo nasal; 2, concha nasal dorsal; 3, concha nasal ventral; 4, mucosa nasal espessa contendo plexo venoso; 5, ducto nasolacrimal; 6, canal infraorbital com nervo infraorbital; 7, meato nasal dorsal; 8, meato nasal médio; 9, meato nasal ventral; 10, meato nasal comum; 11, seio maxilar; 12, seio palatino; 13, palato duro. As conchas maiores dividem cada passagem nasal em meatos dorsal, médio e ventral, que são ramos do meato comum, adjacente ao septo nasal. Posteriormente, as numerosas conchas etmoidais subdividem a parte mais profunda da cavidade; a maior delas projeta-se rostralmente e é conhecida como concha média. O meato nasal dorsal conduz aos meatos etmoidais; o meato nasal médio comunica-se com alguns seios; e o meato nasal ventral é a principal via respiratória. A via nasal é ocasionalmente escolhida para a passagem de sonda, quando o instrumento é direcionado para seguir o maior espaço formado na junção dos meatos ventral e comum (Fig. 25-10/9). A parede de cada passagem nasal é revestida por membrana mucosa espessa e ricamente vascularizada que cerca o órgão vomeronasal ventralmente. O sistema de seios paranasais é pouco desenvolvido em bezerros jovens. São necessários vários anos para que alcancem o tamanho completo, sendo que mesmo no animal maduro a extrusão dos dentes molares e pré-molares (dentes molariformes) (Figs. 25-3/1,5 e 25-11) incita o ajuste contínuo do compartimento maxilar. Figura 25-11 Topografia dos seios paranasais, os quais foram preenchidos com material de modelagem. 1, seio maxilar; 2, seio frontal rostral; 3, seio frontal caudal; 4, seio conchal dorsal. O conjunto completo de seios é verdadeiramente complexo. Compreende os compartimentos frontais dentro dos ossos do teto craniano e das paredes laterais; um complexo palatomaxilar dentro da parte caudal do palato duro e da face, ambos à frente e abaixo da órbita; um seio lacrimal no interior da parede orbital medial; seios esfenoidais que se estendem além da órbita para o interior da parte rostral do assoalho do crânio; e seios conchais no interior das conchas nasais. Qualquer um deles pode tornar-se infectado ou objeto de interesse clínico por algum outro motivo, mas na prática a atenção está concentrada nos seios maxilares e frontais caudais. As projeções superficiais sobre as quais esses espaços podem ser percutidos estão ilustradas nas Figuras 25-11 e 25-12. O seio maxilar ocupa grande parte da maxila acima dos alvéolos dos dentes molariformes. Comunica-se com a cavidade nasal através de uma grande abertura nasomaxilar. Apesar disso, a drenagem natural de pus ou outro fluido é dificultada pela alta localização dessa abertura na parede medial. O seio maxilar é contínuo com o seio palatino sobre a lâmina óssea que sustenta em sua margem livre o nervo infraorbital (Fig. 25-10/6). Estende-se também caudalmente (como seio lacrimal em frente à órbita) e para o interior da frágil bolha lacrimal que se introduz no interior da parte ventral da órbita. O seio frontal compreende diversos compartimentos que se comunicam separadamente com os meatos etmoidais. Os dois ou, ocasionalmente, três pequenos compartimentos rostrais são de pouco interesse clínico. O compartimento caudal, maior e mais importante, expande-se principalmente para o interior do osso frontal. Cobre a parte dorsal da caixa craniana e também se estende para o interior das paredes nucal e lateral, bem como para o centro do corno. É separado do seu equivalente e de pequenos compartimentos ipsilaterais por partições que apresentam posições bastante variáveis (Fig. 25-12) e aberturas visíveis somente em crânios secos, uma vez que são fechadas, no estado fresco, pelo revestimento da membrana mucosa. A cavidade principal, a qual aumenta ao longo da vida, é subdividida posteriormente por septos irregulares e perfurados. A inflamação da mucosa é uma sequela comum da descorna cirúrgica. A proteção proporcionada pelo seio frontal à cavidade craniana faz com que seja impossível predizer a extensão da última pela simples inspeção da cabeça. A cavidade craniana é de fato surpreendentemente pequena, mais precisamente globular, e tão inclinada que sua extremidade rostral é posicionada tanto acima quanto atrás da cavidade nasal (Fig. 25-9). É protegida acima, atrás e dos lados pelos ossos pneumáticos da abóbada craniana. A topografia é relevante para a usual técnica de abate humanitário. O ponto-alvo é definido pela interseção das diagonais unindo os ângulos laterais dos olhos às partes mais próximas das bases cornuais opostas (ou pontos equivalentes em raças mochas). O pino ou projétil deve passar pela parte mais rasa do seio frontal em direção ao cérebro. O seio maxilar é mais superficial e simples em ovinos e caprinos. Não se comunica com o seio lacrimal, o qual pode abrir-se na cavidade nasal separadamente ou via seio frontal lateral. Em ambas as espécies, o seio frontal compreende dois compartimentos irregulares separados, medial e lateral, os quais se situam em posição medial à órbita, estendendo-se rostral e caudalmente além dela. O compartimento lateral corresponde ao seio caudal dos bovinos e proporciona extensão para o centro do corno. O envolvimento clínico mais comum dos seios de ovinos é aquele causado pela invasão do seio frontal por larvas de dípteros oestrídeos. O tratamento envolve a trepanação cirúrgica da região rostral ao corno ou medialmente ao centro da margem orbital, sendo esses locais preferenciais por não existir risco de lesão à veia frontal. BOCA Uma vez que os bovinos não ingerem grande quantidade de alimento de uma só vez, o pequeno tamanho da abertura oral não constitui desvantagem para o animal; entretanto, isso se torna um obstáculo considerável à inspeção clínica da boca e faringe. O vestíbulo entre as bochechas e a margem da mandíbula e maxila é surpreendentemente espaçoso; a superfície interna dos lábios e bochechas apresenta grandes papilas direcionadas caudalmente e que são mais proeminentes em direção aos ângulos da boca (Fig. 25-13/3). Figura 25-13 Assoalho da boca bovina. 1, incisivo central; 2, carúncula sublingual; 3, papilas bucais. A cavidade bucal propriamente dita é longa, estreita e ocupada em grande parte pela língua. O palato duro é mais estreito diretamente em frente aos dentes molariformes. Exibe uma dúzia ou mais de rugas palatinas transversas e progressivamente menos proeminentes, que finalmente desaparecem em direção à parte caudal da boca; suas cristas sustentam numerosas papilas (Fig. 25-14). Nos ruminantes, a região correspondente à implantação dos dentes incisivos superiores nas outras espécies, sustenta elevações crescentes pareadas, flexíveis quando comprimidas e cornificadas na superfície, denominadas pulvinos dentários (Fig. 25-14/2). Os bovinos não pastam unindo as margens cortantes dos incisivos, mas, após trazer um tufo de gramíneas para o interior da boca com a ajuda da língua, cortam-no pressionando as lâminas dos incisivos contra o pulvino; o risco de lesão a este é reduzido pela sua cobertura rígida e consistência flexível, além do arranjo procumbente e da frouxa implantação dos incisivos (Figs. 25-15 e 25- 16). A papila incisiva, caudal ao pulvino,dentro desses espaços de um nível baixo de repouso (5-16 mm Hg) para pressão arterial (75-80 mm Hg). O ápice protrai nesse estágio. Contrações dos músculos isquiocavernosos aumentam ainda mais a pressão e, por compressão dos vasos contra o arco isquiático, ocorre oclusão da via de drenagem venosa. Essas contrações impulsionam o sangue adiante através de determinadas veias de parede espessa do corpo cavernoso, para desembocar na flexura sigmoide (Fig. 29-33). A supressão dessa flexura faz com que o ápice, então, se projete consideravelmente (25-40 cm); o contato com a parede vaginal após a intromissão estimula a conclusão da ereção. Por um curto período, a pressão dentro do corpo cavernoso aumenta em um nível considerável; acredita-se que seja algo como 60-100 vezes a pressão arterial. A ejaculação ocorre, e o sêmen é rapidamente impelido através da uretra por uma atividade coordenada dos músculos uretral e bulbouretral. A parte livre do pênis se espirala nos estágios tardios da ereção, seguindo uma volta à esquerda ao redor da rafe (Fig. 29-36). Isso se deve ao ligamento apical, uma concentração local de colágeno dentro da túnica albugínea. Como o espiralamento precoce ou exagerado impossibilita a intromissão, há indicações ocasionais para a secção cirúrgica desse ligamento. Outro probelma, felizmente de ocorrência apenas ocasional, é a ruptura da túnica albugínea, incapaz de suportar a pressão extrema desenvolvida por um curto período no estágio final da ereção; a região mais fraca parece ser a dobra distal da flexura sigmoide. Figura 29-36 Espiralamento da parte livre do pênis bovino em ereção completa. ANATOMIA DA PALPAÇÃO RETAL NO BOVINO* Como no equino, a exploração retal no bovino não está livre do riscos ou injúrias à mucosa ou mesmo, em casos extremos, perfuração da parede intestinal — um contratempo mais provável de ocorrer quando a invasão do reto induz tensão excessiva. O principiante não deve tentar o procedimento sem supervisão adequada. Embora os exames retais de vacas sejam mais frequentemente realizados para se obterem informações acerca da condição funcional ou patológica dos órgãos reprodutivos, é preciso estar familiarizado com grande parte da anatomia que pode ser avaliada com o uso desse procedimento. O território que pode ser explorado quando a mão é introduzida no cólon descendente é mais extenso do que se pode supor. As partes das paredes pélvicas e abdominais que são acessíveis incluem os ossos limitantes da cavidade pélvica e as regiões dos anéis inguinais profundos. Dorsalmente, o segmento caudal da aorta e sua bifurcação podem ser palpados e, também, dispersos sobre os vasos, os principais linfonodos dos grupos ilíaco medial e inguinal profundo (Fig. 29-4 /13,14). Os linfonodos inguinais profundos são particularmente importantes na conexão com mastites. A parte caudal do rúmen encontra-se muito evidente imediatamente antes da entrada pélvica e se pode confirmar que ventralmente o rúmen se estende para a metade direita do abdome. O saco cego caudodorsal pode até se introduzir na cavidade pélvica quando distendido por gás. No entanto, muito do rúmen e dos compartimentos remanescentes do estômago é inacessível, assim como o fígado e o baço. A qualificação necessária dessa afirmação refere-se ao abomaso, parte do qual se torna palpável em certos deslocamentos. O quadrante direito dorsal do abdome é ocupado pelo intestino delgado, pelo ceco e pelo cólon, que juntos formam uma massa flutuante e mole, na qual partes individuais não são usualmente identificáveis quando estão normais; a exceção mais comum é a ponta arredondada do ceco preenchido por gás. A maior parte do rim esquerdo, empurrado para o lado direito pelo rúmen e suspenso no teto do abdome, pode ser palpada; somente o polo caudal do rim direito se encontra dentro do alcance e apenas em indivíduos menores. Ureteres saudáveis não são detectáveis, a menos que a parte inicial do ureter esquerdo possa ser sentida quando passa sobre a superfície do rim. A impressão ocasionada pela bexiga urinária varia muito porque forma uma massa firme sobre a parte mais cranial do assoalho pélvico quando contraída, mas se estende muito à frente dentro do abdome como uma estrutura flutuante quando repleta. A intervenção do trato reprodutivo feminino faz a bexiga urinária bem menos acessível nas vacas do que nos animais do sexo masculino. Atenção passageira já foi dada à inspeção retal dos órgãos reprodutivos, e reunimos aqui apenas as principais características. Um exame sistemático começa melhor pela localização da cérvix, facilmente reconhecida por sua firmeza e dimensões, apesar de sua localização variar bastante de acordo com o estado momentâneo e o histórico do animal. O curto corpo do útero se encontra à frente da cérvix, e o útero pode ser fixado pela inserção de um dedo entre os ligamentos intercornuais para permitir o exame e a comparação dos cornos que divergem para cada lado. Frequentemente, essa manipulação estimula a contração da musculatura uterina, que algumas vezes pode ser bastante poderosa. O leitor deve lembrar que, em certas circunstâncias, o útero se encontra dentro do abdome. Se não estiver muito aumentado, pode ser palpado pela passagem da mão para a frente e para baixo na parte ventral do abdome no lado direito e, então, afastando a mão com os dedos flexionados em direção à palma para envolver o útero. O ligamento largo que continua em direção aos cornos uterinos é identificável, mas as tubas uterinas, que correm próximo às margens livres craniais dos ligamentos, são certamente menos identificáveis porque, embora bastante firmes, possuem apenas 2 mm de espessura. As margens livres do ligamento largo também fornecem uma orientação para a localização dos ovários, que estão no teto da cavidade pélvica nos animais jovens virgens, mas deslocados cranial e ventralmente para o abdome nas vacas mais velhas, sexualmente mais experientes. Já foram indicadas as características dos folículos e dos corpos lúteos que podem ser avaliados pelo exame da superfície ovariana. O leitor também é lembrado que o movimento para a frente e para baixo dos órgãos reprodutivos durante a gestação pode tirá-los do alcance por um tempo (Fig. 29-37). Figura 29-37 Posição do útero não gravídico e vários estágios do útero gravídico em vista lateral. A, Útero não gravídico e útero gravídico de seis meses. A′, Topografia do útero gravídico de seis meses em secção transversal. B, Do segundo ao terceiro mês, o útero começa a deslizar para baixo na parede abdominal caudal, mas pode ser trazido para cima pela mão no cólon. C, Aos cinco meses, o útero está temporariamente fora de alcance. ÚBERE As quatro glândulas mamárias da vaca estão consolidadas em uma massa única, o úbere, localizado abaixo da parte caudal do abdome e se estendendo entre as coxas. O úbere é dividido em quartos que correspondem às quatro glândulas, e cada uma sustenta um teto (papila mamária) principal. Um sulco (intermamário) mediano divide o úbere em metade direita e metade esquerda, mas a divisão entre o quarto dianteiro e o traseiro raramente é identificável. A maior parte da base dorsal é formada para se ajustar à parede abdominal ventral, mas a parte abaixo da pelve é mais estreita porque fica comprimida entre as coxas (Fig. 29-38). A pele que reveste o úbere é fina, maleável e móvel, exceto sobre os tetos, onde é fortemente aderida e glabra. Figura 29-38 Vaca Holstein com úbere bem desenvolvido. 1, Veia mamária. O úbere é sustentado por fortes lâminas de fáscia que circundam e envolvem o parênquima glandular e são contínuas com a rede de tecido conjuntivo que permeia todo o órgão. A fáscia forma um revestimento contínuo sobre cada metade, mas costuma-se descrevê-la como lâminas mediais e laterais, como se fossem formações independentes. As lâminas mediais se originam principalmente da túnica flava, em pequena parte do tendão sinfisial, e são compostas em grande parte por tecido elástico. As lâminas laterais têm origem no pilar do anel inguinale, atrás deste, na fáscia femoral medial, e são compostas por tecido conjuntivo denso (Figs. 29-39 e 29-40). As duas lâminas se afinam quando seguem ventralmente, resultado de sua separação em múltiplas folhas que se interdigitam com camadas de tecido glandular. As diferentes naturezas das duas lâminas explicam o afrouxamento da parte medial do úbere pesadamente carregado. Demandas sempre crescentes para produção de leite sobrecarregam algumas vezes de forma insustentável o aparelho suspensório, que, ocasionalmente, é rompido por um acontecimento desastroso. Figura 29-40 Secção transversal do assoalho pélvico e dos quartos caudais do úbere bovino. 1, Sínfise pélvica; 2, tendão sinfisial; 3, lâminas suspensórias laterais; 4, linfonodo mamário (inguinal superficial); 5, lâminas suspensórias mediais; 6, tributária da veia pudenda externa. Cada glândula é construída em volta de um sistema de ductos ramificados, separados de seus vizinhos por tecido conjuntivo. As unidades secretoras alveolares convergem para pequenos ductos excretores que se combinam com outros até que, após várias sucessivas uniões, produzem cerca de uma dúzia de amplos ductos lactíferos; eles convergem para um grande seio (lactífero) situado na parte ventral do quarto e que se estende para dentro do teto (Fig. 29-41). Os ductos lactíferos são incomuns quando seções alternadas, mais espessas ou mais finas são demonstradas. As dilatações mais superficiais, que podem ter calibre de 3 cm ou mais, podem ser palpadas quando distendidas por leite e, por essa razão, são conhecidas como “nós de leite”. Apesar de os sistemas de ductos serem independentes, uma infecção se espalha rapidamente entre os quartos de um mesmo lado. Figura 29-41 Secção sagital do úbere, mostrando os seios glandular e papilar (do teto) e ductos lactíferos preenchidos com látex (quarto cranial [verde]; quarto caudal [azul]). O seio lactífero tem capacidade de várias centenas de mililitros e é dividido por uma prega mucosa em partes glandular e papilar (dos tetos). A prega, embasada em um anel venoso submucoso, varia em proeminência; ocasionalmente, pode ser suficientemente pronunciada para impedir a ejeção do leite. Os tetos, embora variáveis, são mais frequentemente cilíndricos e com cerca de 8 cm de comprimento. A parede do teto, geralmente com cerca de 6 mm de espessura, aumenta para cerca de 1 cm na extremidade distal, onde é atravessada pelo ducto papilar (Fig. 29- 42). A parede consiste em uma pele externa seca, uma camada intermediária que inclui musculatura lisa e muitas veias, constituindo uma forma de tecido erétil, e uma camada mucosa interna marcada por pregas. O revestimento, geralmente amarelado, é branco no ducto papilar, onde apresenta um padrão de cristas baixas; estas, quando seguidas proximalmente, parecem se irradiar a partir da abertura do seio lactífero, embora se deva admitir que o arranjo é raramente identificado como tradicionalmente descrito (Fig. 29- 43). A descamação do epitélio fornece uma substância bacteriostática que ajuda a ocluir a passagem. Um meio mais efetivo de fechamento é proporcionado pelo músculo esfíncter (da papila), reforçado pelo tecido elástico. Figura 29-42 Variações na forma da extremidade do teto em bovino. A, Formato de funil. B, Formato de prato. C, Redondo. D, Em ponta. Figura 29-43 Secção de teto (papila mamária) e seio lactífero de vaca. 1, 2, Seios lactíferos; 1, seio glandular; 2, seio papilar (do teto); 3, abertura dos ductos lactíferos; 4, anel venoso submucoso; 5, ducto papilar; 6, plexo venoso na parede do teto; 7, óstio papilar. Os tetos acessórios, algumas vezes associados com tecido glandular funcional, são muito comuns. Eles são indesejáveis, uma vez que podem constituir uma complicação na ordenha. Os arranjos vasculares são necessariamente generosos. O suprimento principal, que é continuação da artéria pudenda externa, possui um diâmetro que pode exceder 15 mm quando passa através do canal inguinal acompanhado por uma veia satélite, linfáticos e nervos (Fig. 29-39). Ao alcançar a base do úbere, divide-se em ramos divergentes, um passando cranialmente e o outro caudalmente; os dois estão parcial ou completamente envolvidos no parênquima glandular. O ramo mamário caudal se anastomosa com uma divisão da artéria perineal ventral, que restringe sua distribuição para os linfonodos mamários e para uma parte limitada do quarto traseiro. Figura 29-39 Secção transversal do assoalho abdominal e dos quartos craniais do úbere bovino. 1, M. oblíquo externo do abdome; 2, m. oblíquo interno do abdome; 3, reto do abdome; 4, peritônio; 5, linha alba; 6, vaso linfático; 7, veia pudenda externa; 8, artéria pudenda externa (mamária); 9, lâminas mediais do aparelho suspensório; 10, seio lactífero; 11, ducto papilar; 12, lâminas laterais do aparelho suspensório. O padrão de veias é complexo. Um anel venoso sobre o úbere é formado por um par de veias conectado através da linha mediana por vasos transversais (Fig. 29-44). A drenagem é efetuada pelas veias pudendas externas, que passam pelos canais inguinais e pelas veias abdominais subcutâneas (“do leite”), e seguem trajetos subcutâneos muito sinuosos no abdome antes de desaparecerem por aberturas palpáveis (“fonte de leite”) na parede do corpo para desembocar nas veias torácicas internas (Fig. 29-45). Figura 29-44 Drenagem venosa do úbere. 1, V. abdominal subcutânea (do leite); 2, “fonte” de leite; 3, v. torácica interna; 4, veia cava cranial; 5, v. pudenda externa; 6, v. pudenda interna; 6′, v. labial ventral (conecta a v. perineal ventral com as veias mamárias caudais); 7, veia cava caudal; 8, diafragma; 9, arco costal; 10, primeira costela. Figura 29-45 Desenvolvimento das veias abdominais subcutâneas (vista esquemática dorsal). A, A região drenada pela veia epigástrica superficial cranial (1) é separada da que é drenada pela veia epigástrica superficial caudal (2) nos bezerros e nas novilhas. As válvulas da veia epigástrica superficial cranial direcionam o sangue cranialmente, enquanto as da veia epigástrica superficial caudal o direcionam caudalmente. B, A veia abdominal subcutânea é formada durante a gestação. O aumento do fluxo sanguíneo através do úbere em crescimento (3) faz as veias se distenderem, torna as válvulas ineficientes e as duas regiões de drenagem se unem, permitindo que o sangue flua nas duas direções. As conexões da parte caudal do anel com as veias labiais ventrais possuem um significado incerto. O arranjo descrito é característico de vacas adultas em lactação e inclui traços que se desenvolveram durante a primeira gestação, um momento no qual o aumento do fluxo sanguíneo mamário leva a uma congestão e dilatação venosa seguida por incompetência valvular e interrupção. Isso abre um canal contínuo que conecta as veias epigástricas superficiais, cranial e caudal, que drenavam previamente em direções opostas (Fig. 29-45). O significado do arranjo definitivo repousa na certeza de que uma drenagem venosa efetiva deve ocorrer caso alguns canais estejam ocluídos na vaca em decúbito ventral. A veia do leite é usada algumas vezes para injeção intravenosa ou coleta de sangue, o que não é uma escolha inteligente; sua estrutura varicosa a predispõe potencialmente a um sangramento problemático. Os tetos e o parênquima da glândula são permeados em um rico plexo linfático, do qual emergem grandes vasos que se dirigem aos linfonodos mamários situados acima da parte caudal do úbere. Muitos desses grandes vasos linfáticos revelam seus trajetos através da pele e, correndo caudodorsalmente (Fig. 29-46), são prontamente diferenciados das veias subcutâneas que correm craniodorsalmente. Os linfonodos mamários, geralmente dois de cada lado (um grande e um muito menor) se localizam profundamente à lâmina lateral do aparelho suspensório, onde o maior pode ser alcançado na palpação profunda por trás (Fig. 29-47). O fluxo eferente se dirige ao linfonodo inguinal profundo em um ângulo entre as artérias ilíaca circunflexa profundae ilíaca externa. Esse linfonodo pode ser palpado pelo reto. Figura 29-46 Drenagem linfática do úbere. A linha tracejada indica de onde o membro esquerdo foi removido para expor o úbere. 1, Linfonodo mamário (inguinal superficial); 2, linfonodo subilíaco; 3, linfonodo isquiático; 4, posição do linfonodo inguinal profundo (iliofemoral). Figura 29-47 Vaca Holstein com linfonodos mamários aumentados. A inervação cutânea do úbere é inconvenientemente difusa; a inervação é obtida de três fontes: ramos ventrais dos dois primeiros nervos lombares, do nervo genitofemoral e dos ramos mamários do nervo pudendo. O parênquima glandular e os tecidos profundos da parede do teto são supridos isoladamente pelo nervo genitofemoral, que alcança o úbere através do canal inguinal. A termo, as glândulas mamárias do feto exibem tetos curtos, porém bem formados, pequenos seios e os primeiros ramos dos sistemas de ductos. A maior parte do úbere consiste em tecido adiposo. Durante alguns meses, o crescimento se mantém em compasso com o crescimento corpóreo e se deve inteiramente à deposição de tecido adiposo. Depois disso ¾ portanto, com início anterior à puberdade ¾, o crescimento se acelera; o rápido desenvolvimento do sistema de ductos e do tecido glandular se deve provavelmente à produção cíclica de estrógenos por causa da explosão de atividade que ocorre imediatamente antes da ovulação. Apesar de haver um sistema de ductos bem desenvolvido na época da primeira concepção de uma novilha, o crescimento adicional dos ductos predomina nos primeiros meses de gestação; o crescimento do tecido secretor ocorre na segunda metade. O crescimento no período final da gestação é dependente de prolactina e do hormônio do crescimento de origem hipofisária, além da progesterona e dos estrógenos. A secreção de leite é mantida por corticotrofina, hormônio estimulador da tireoide, e por somatotrofina. A ordenha regular também é necessária para manter a produção. Como o ato de ordenhar estimula a liberação de prolactina, ocitocina e corticotrofina, ordenhas mais frequentes, dentro dos limites, aumentam a produção. A glândula mamária é composta de unidades secretoras tubuloalveolares agrupadas para formar lóbulos definidos por um septo de tecido conjuntivo (Fig. 29-48, A). Os alvéolos secretores são revestidos por um epitélio simples que muda acentuadamente em altura durante o ciclo de atividade. As células demonstram atividade máxima nos alvéolos preparados para liberar leite quando estimulados pela sucção (ou ordenha). Em seguida, os lumes alveolares tornam-se colapsados e irregulares (Fig. 29-48, B), e o epitélio se torna bastante reduzido em altura. Nem todos os lóbulos dentro de uma glândula exibem necessariamente o mesmo estágio de ciclo secretor, e podem estar presentes, concomitantemente, lóbulos ativos e não ativos. O leite é deslocado das unidades secretoras para o sistema de ductos pela contração das células mioepiteliais circundantes (Fig. 29-49). O tecido conjuntivo interlobular e intralobular proporciona suporte estrutural importante e conduz os vasos sanguíneos, linfáticos e nervos. Figura 29-48 Secção de glândulas mamárias não lactantes (A) e lactantes (B); uma glândula tubuloalveolar composta (70×). 1, Alvéolo; 2, septo interlobular. Figura 29-49 Corte da extremidade de um teto (papila) exibindo a musculatura lisa que circunda o ducto papilar. O úbere dos pequenos ruminantes combina duas glândulas que são mais (cabras) ou menos (ovelhas) distintamente demarcadas externamente. Nas cabras leiteiras, o úbere é profundo, cônico e grande em relação ao tamanho do corpo (Fig. 29-50); nas ovelhas, é menor e mais semiesférico, embora se assemelhe ao formato caprino nas raças usadas para produção de queijo. Os tetos são cilíndricos nos animais jovens, mas, nos animais idosos, especialmente em cabras de alta produtividade, eles tendem a se tornar cônicos e se misturam mais suavemente ao contorno da glândula (Fig. 29-51). Os tetos acessórios não são incomuns nas cabras. A pele do úbere é finamente recoberta por pelos nas cabras; nas ovelhas, a parte de cima pode cobrir o velo. Figura 29-50 Vista lateral (A) e caudal (B) do úbere da cabra. Figura 29-51 Secção sagital do úbere e do teto (papila) de cabra jovem. A estrutura, a suspensão e o arranjo vascular geralmente se assemelham aos observados no úbere bovino. No entanto, os tetos não são inteiramente glabros. Nas ovelhas, o fechamento do ducto papilar é obtido sem a presença do músculo esfíncter (da papila). * Exceto pelas explorações digitais, a palpação retal não é rotineiramente realizada nos pequenos ruminantes 30 O Membro Torácico dos Ruminantes Os bovinos geralmente levam uma vida que não os expõe a frequentes riscos de lesões nos segmentos proximais dos membros; portanto, a necessidade de um detalhado conhecimento da anatomia dessas partes é menor do que o conhecimento necessário a veterinários de equinos. Dessa forma, determinados tópicos, neste e nos capítulos seguintes, serão direcionados apenas a um enfoque superficial. Bovinos, ovinos e caprinos são, entretanto, frequentemente expostos a traumas e infecções nas mãos e nos pés, sendo estas as partes do membros para as quais será dada maior atenção. O OMBRO E O BRAÇO A escápula, o úmero e os músculos associados estão inclusos sob a pele do tronco e se ajustam junto à parede torácica. Algumas vacas, especialmente as da raça Jersey, permanecem em estação com os ombros e cotovelos ligeiramente abduzidos, o que faz com que o úmero forme um ângulo mais aberto com as costelas. Esse defeito, que parece resultar da fragilidade hereditária de determinados músculos do cíngulo, confere uma aparência desajeitada, embora gere poucas consequências (Fig. 30-1). Essa conformação não deve ser confundida com a “escápula alada”, uma miopatia grave observada em bovinos que estiveram soltos para pastar durante a primavera. Nessa condição, os tecidos musculares degeneram, o que faz com que a margem dorsal da escápula se eleve acima das cernelhas. Figura 30-1 “Escápula alada” em uma vaca Jersey com seis anos de idade. A posição e a inclinação dos ossos podem ser determinadas pela palpação de certos pontos de referência: os ângulos cranial e caudal, e a espinha da escápula, assim como o tubérculo maior e a tuberosidade deltoide do úmero. A espaçosa articulação do ombro pode ser puncionada na margem cranial do músculo infraespinhoso, imediatamente proximal à sua inserção no tubérculo maior. Somente aqueles músculos que requerem atenção prática serão aqui mencionados (Fig. 30-2). O músculo braquiocefálico forma a margem dorsal do sulco jugular e se une, ao longo da sua margem mais elevada, ao omotransversório, se estendendo entre o acrômio e a asa do atlas; o último músculo, por sua vez, recobre, sem impedir a palpação, o grande linfonodo cervical superficial. O grupo peitoral se distingue pelo desenvolvimento muito rudimentar do subclávio, o que explica a transição abrupta do pescoço estreito para uma largura muito maior no nível da articulação do ombro ¾ uma marcante diferença entre a conformação de bovinos e equinos. O romboide raramente chama a atenção em bovinos de origem europeia, mas nas raças zebuínas é o músculo de maior contribuição para a giba. A posição (cervicotorácica ou torácica) e a estrutura da giba variam em animais de diferentes raças e linhagens; em algumas é essencialmente um espessamento muscular, enquanto, em outras, uma substituição de músculo por tecido adiposo. O serrátil ventral, principal músculo sustentador do tronco, é adaptado a esse papel por meio da inclusão de vários cordões tendinosos e do forte revestimento aponeurótico. A sua ocasional ruptura constitui um desastre da maior magnitude e se torna evidente pela projeção da cartilagem escapular acima do contorno dorsal do tórax (Fig. 26-1). Figura 30-2 Músculos do membro torácico bovino, vista lateral. 1,1′, trapézio; 2, supraespinhoso; 3, deltoide; 4, grande dorsal; 5, braquiocefálico; 6, bíceps;7, 7′, cabeças longa e lateral do tríceps; 8, braquial; 9, extensor radial do carpo; 10, extensor digital comum; 10′, tendão do ventre lateral; 11, 11′, extensor digital lateral e seus tendões; 12, extensor oblíquo do carpo; 13, cabeça ulnar do flexor digital profundo; 14, ulnar lateral. O ramo superficial do tendão infraespinhoso é protegido por uma bolsa sinovial onde ele passa sobre a face lateral do tubérculo maior. Essa bolsa é algumas vezes local de inflamação dolorosa, que se faz evidente por meio da abdução do braço. O tendão do bíceps braquial também é protegido por uma bolsa sinovial (intertubercular), em sua face profunda; em ovinos e caprinos, a proteção correspondente é fornecida por um recesso da cápsula articular do ombro. Na parte distal do braço, o bíceps destaca um lacerto fibroso que é palpável, apesar de ser muito mais fraco que aquele dos equinos. O lacerto desce em frente ao cotovelo e se mescla com o revestimento do extensor radial do carpo. Duas outras bolsas sinoviais estão associadas com a inserção do tríceps; uma está interposta entre o tendão e o olécrano, e a outra, inconstante, está entre o tendão e a pele sobre a ponta do cotovelo. O COTOVELO, O ANTEBRAÇO E O CARPO A articulação do cotovelo se projeta sobre a extremidade ventral da quarta e quinta costelas. O olécrano, os epicôndilos medial e lateral do úmero e os fortes ligamentos colaterais são facilmente palpáveis, fornecendo a orientação necessária para a punção da articulação. Esta é realizada a partir da face lateral e com a agulha direcionada entre o epicôndilo lateral e o olécrano, para entrar no considerável recesso da cápsula articular, no interior da profunda fossa do olécrano. A ulna, embora completa, é delgada, sendo o maciço rádio o osso que suporta o peso. Como sempre, a margem medial subcutânea do rádio marca a divisão entre o grupo muscular extensor, cranial, e o grupo muscular flexor, caudal (Fig. 30-3). A ulna é palpável somente nas suas extremidades, o olécrano e o processo estiloide. Na maioria das situações, o antebraço se inclina mediodistalmente ao carpo, enquanto os ângulos da mão se inclinam lateralmente, produzindo uma postura “joelho em X”. Embora membros retos sejam preferíveis, esse abaulamento do carpo não aparenta ser uma desvantagem. Figura 30-3 Secção transversal do terço médio do antebraço esquerdo bovino. 1, rádio; 2, flexor radial do carpo; 3, nervo e vasos medianos; 4, flexor ulnar do carpo; 4′, nervo ulnar; 5, flexor digital superficial; 6, flexor digital profundo; 7, ulnar lateral; 8, ulna; 9, extensor digital lateral; 10, 10′, extensor digital comum; 11, extensor radial do carpo; 12, ramo superficial do nervo radial; 13, veia cefálica. A fileira proximal do esqueleto do carpo compreende os ossos radial, intermédio e ulnar de carpo. As margens proximal e distal do osso acessório fornecem indicações aproximadas a respeito dos níveis das articulações antebraquiocárpica e mediocárpica. A fileira distal consiste em apenas dois ossos: o segundo e o terceiro cárpicos, fusionados, e o quarto cárpico (Fig. 2-48). Em teoria, movimentos são possíveis nos três níveis, mas principalmente ocorrem entre o antebraço e o carpo; movimento moderado ocorre entre a articulação mediocárpica; quase nenhum movimento ocorre no nível carpometacárpico. Outros movimentos que não flexão e extensão são praticamente impedidos pela maioria dos ligamentos, dos quais o par colateral constitui o de maior importância. As cavidades das duas articulações distais sempre se comunicam; ocasionalmente, todas três o fazem. A punção é possível nos níveis proximal e médio, e obviamente é mais facilmente realizada quando a articulação está flexionada. As irregularidades da face palmar dos ossos cárpicos são cobertas e aplanadas pela espessa camada fibrosa da cápsula articular (ligamento palmar do carpo), que se combina com o osso acessório do carpo e o retináculo flexor para envolver o canal do carpo. A cápsula articular também se funde dorsalmente com a fáscia profunda para formar o retináculo extensor, que mantém os tendões extensores nos seus respectivos lugares. Ocasionalmente, uma bolsa inconstante entre o retináculo e a pele aumenta de tamanho, formando uma deformidade de aspecto desagradável, porém indolor (higroma). Dentre os músculos do antebraço, somente os extensores e flexores digitais merecem ser discutidos. O extensor digital comum tem dois ventres: o maior, medial, estende o seu tendão de inserção ao dígito medial; o ventre menor, lateral, apresenta um tendão que se divide no boleto para se inserir em ambos os dígitos. Os dois tendões dividem uma mesma bainha sinovial onde descem sobre o carpo. O extensor digital lateral conduz a si próprio, como faz o ventre medial do extensor comum (Fig. 30-2). O flexor digital superficial também possui dois ventres. O tendão do ventre profundo passa através do canal do carpo e o do ventre superficial permanece fora do retináculo flexor; ambos são protegidos por longas bainhas sinoviais que se estendem além do carpo, no interior de um canal onde os tendões se mesclam. Os três ventres do flexor digital profundo dão origem a um espesso tendão comum que passa através do canal do carpo, onde também recebe proteção sinovial. Informações complementares sobre todos esses tendões serão fornecidas posteriormente. A PARTE DISTAL DO MEMBRO A parte distal do membro, comumente conhecida como mão, consiste na extremidade distal expandida do metacarpo, dois dígitos principais (dedos ou unhas) e as sobreunhas. Os dedos estão embutidos em um envoltório comum de pele, que se estende até as coroas, de forma que apenas os cascos são separados pela fenda interdigital. As sobreunhas se projetam atrás do boleto e não entram em contato com o solo. O ESQUELETO E AS ARTICULAÇÕES O esqueleto reduz-se aos ossos dos dígitos principais (III e IV), juntamente com os vestígios daqueles que os ladeiam (II e V) (Fig. 30-4). Embora os principais elementos metacárpicos sejam fusionados para formar o único osso da canela (metacárpico III e IV), na sua extremidade distal esse osso se divide em duas trócleas articulares separadas, uma para cada uma das duas falanges proximais. Todos os ossos mais distais são duplicados. Estruturas vestigiais incluem o quinto osso metacárpico, pequeno e em forma de haste, articulado com a extremidade proximal do osso da canela (Fig. 2-48), e os rudimentos falangianos isolados no interior das sobreunhas. Figura 30-4 Radiografias em projeções dorsopalmar (A) e lateromedial (B) da mão bovina. 1, osso metacárpico; 1′, septo mediano; 1″, canal metacárpico distal; 2, ossos sesamoides proximais; 3, sobreunha; 3′, falange rudimentar no interior da sobreunha; 4, falange proximal; 5, falange média; 6, osso navicular; 7, falange distal. O osso da canela é comprimido de frente para trás e expandido para os lados nas duas extremidades. Um sulco axial dorsal (apresentando um forame em cada extremidade) e um septo interno incompleto (visível em radiografias) atestam a origem composta do osso (Fig. 30-9, B/4). As falanges proximais e médias são muito parecidas, embora as primeiras tenham aproximadamente o dobro do comprimento das últimas. Todos esses quatro ossos apresentam tubérculos proximopalmares, os quais são pareados nas falanges proximais, e únicos e abaxiais nas falanges médias. Cada uma apresenta uma superfície distal sulcada sagitalmente de forma a se ajustar à superfície bifacetada do osso com o qual se articula. A falange distal tem o formato do casco no qual se aloja e apresenta faces articular, axial, abaxial e solear (Fig. 30-5). O processo extensor constitui o ponto mais elevado, a partir do qual uma crista segue para o ápice do osso, dividindo as faces axial e abaxial. Essas faces são separadas caudalmente por um espesso tubérculo flexor (Fig. 30- 5/4), disposto transversalmente, no qual o tendão flexor profundo se fixa. Além da face articular, o exterior apresenta numerosos forames vasculares, mais evidentes na face axial do processoextensor e na extremidade palmar da face abaxial. (Os ossos sesamoides proximais e distais são descritos com as articulações.). Figura 30-9 A, Mão esquerda bovina, vista lateral. B, Secção transversal do metacarpo esquerdo. 1, 2, tendões medial e lateral do extensor digital comum; 3, extensor digital lateral; 4, osso metacárpico; 5, flexor digital superficial; 6, flexor digital profundo; 7, faixa do interósseo para o flexor digital superficial; 8, interósseo, com seu ramo extensor em 8′; 9, 9′, recessos palmar e dorsal da articulação do boleto; 10, 10′, ligamentos colateral lateral e anular da articulação do boleto; 11, ligamento anular digital; 12, 12′, recessos palmar e dorsal da articulação da quartela; 13, recesso dorsal da articulação do casco medial; 14, veia dorsal digital comum III e nervo radial superficial; 15, vasos e nervo medianos; 16, ramo palmar do nervo ulnar; 17, ramo dorsal do nervo ulnar. Figura 30-5 Falange distal de bovinos, vista noximodonal (esquerda) e axial (direita). 1, processo extensor; 2, forame axial para a principal artéria do casco; 3, face articular; 4, tubérculo flexor, no qual se liga o flexor digital profundo. Como no equino, as articulações que unem os ossos metacárpicos e digitais são comumente conhecidas como articulações do boleto, da quartela e do casco. A articulação do boleto, a primeira articulação duplicada do membro, fica ligeiramente hiperestendida quando o animal está em posição de descanso (Fig. 30-6/3). Os movimentos são limitados à flexão e extensão mediante superfícies articulares, quilhadas e sulcadas, e fortes ligamentos colaterais. Os ligamentos colaterais axiais (interdigitais), de ambas as articulações, têm origem comum, na incisura intertroclear do osso metacárpico (Fig. 30-4). As superfícies articulares das falanges são complementadas em sua face palmar por uma fileira de quatro ossos sesamoides (proximais), alojados no interior de uma ponte fibrocartilaginosa contínua e ligados pelo músculo interósseo. Adicionalmente, os ossos sesamoides são mantidos por ligamentos sesamoideos colaterais e distais. Os ligamentos sesamoideos colaterais conectam cada sesamoide abaxial ao osso metacárpico e à falange proximal. Os ligamentos que se originam das superfícies distais seguem para proeminentes tubérculos no aspecto proximopalmar das respectivas falanges, cruzando-se no caminho para os seus destinos (ligamentos sesamoideos cruzados); fibras do par axial também cruzam o espaço interdigital (ligamentos falangiossesamoideos interdigitais; Fig. 30-7/10). Visto que as articulações apresentam grande mobilidade, as cápsulas são grandes; cada uma delas se prolonga proximalmente como um recesso dorsal entre o osso metacárpico e os tendões extensores, e como um recesso palmar entre o osso e o músculo interósseo (Fig. 30-9/9, 9′). Embora ambos possam ser puncionados, o recesso palmar, maior, pode ser alcançado mais facilmente; a entrada é realizada pelo lado, cerca de 2-3 cm proximal ao espaço articular. A comunicação entre as cápsulas pareadas permite que uma infecção ou mesmo o material injetado se distribua entre as articulações. Figura 30-6 Secção sagital da mão bovina, dividindo o dígito lateral. 1, extensor digital lateral; 2, osso metacárpico; 3, articulação do boleto; 4, falange proximal; 5, articulação da quartela; 6, extensor digital comum; 7, falange média; 8, articulação do casco; 9, falange distal; 10, osso navicular; 11, flexor digital profundo; 12, flexor digital superficial; 13, ligamentos sesamoideos distais; 14, osso sesamoide proximal; 15, bainha digital; 16, interósseo. Figura 30-7 Vista palmar da mão bovina. A, Dissecção superficial. B, Os tecidos da bainha digital foram removidos. C, Partes dos flexores superficial e profundo foram removidas. 1, interósseo; 1′, faixa do interósseo para o flexor digital superficial; 2, flexor digital profundo; 3, flexor digital superficial; 4, bainha digital; 5, ligamento anular da articulação do boleto; 6, ligamentos anulares digitais; 7, ligamento interdigital distal, parte profunda; 7′, parte superficial; 8, ligamento interdigital proximal; 9, ossos sesamoides proximais; 10, ligamento sesamoideo cruzado e falangiossesamoideo interdigital; 11, osso navicular. As limitadas articulações da quartela também permitem apenas os movimentos de flexão e extensão. Cada articulação é sustentada por um par de ligamentos colaterais; o axial é mais desenvolvido, presumivelmente para resistir à abertura dos dígitos causada pelo peso do corpo. Ao adicional ligamento axial que se estende até a falange distal é dada a mesma interpretação. A articulação recebe apoio adicional de uma fibrocartilagem, que se estende da margem palmar até a superfície articular da falange média e dos três ligamentos palmares (Fig. 30-9, A). As cápsulas das duas articulações da quartela são separadas. Cada uma delas forma recessos, dorsal e palmar, contra a falange proximal; o recesso dorsal é considerado acessível à punção pelo lado. A articulação do casco se assemelha à articulação da quartela devido à sua conformação e por possuir ligamentos colaterais. Localiza-se inteiramente contida no interior do casco e é de difícil punção devido ao fato de os pequenos recessos dorsal e palmar raramente se estenderem além das coroas (Figs. 30-6 e 30-9). A superfície articular distal é ampliada pelo osso navicular (sesamoide distal), localizado a uma profundidade de cerca de 2 cm no interior do casco (quando medido abaxialmente); sua outra extremidade fica acima da parede axial do casco, a qual é distal. Esse osso é relacionado principalmente com a falange média e é mantido em sua posição por um complexo conjunto de ligamentos distais e colaterais, os quais passam às falanges adjacentes e resistem à hiperextensão. Um ligamento elástico que abrange a superfície axial da articulação assemelha-se àquele ligamento responsável por retrair a unha nos gatos, embora não pareça ter função comparável. Os ligamentos interdigitais são também responsáveis por restringir a abertura dos dígitos. Um deles conecta a superfície axial da falange proximal (Fig. 30-7) e um segundo cruza o espaço interdigital no nível dos ossos naviculares, onde está relacionado com a ponte interdigital cutânea. OS TENDÕES O músculo interósseo, morfologicamente de formação composta, é convencionalmente referido no singular (Fig. 30-7). Esse músculo achatado é espesso em animais jovens, mas se torna gradativamente fibroso à medida que o animal envelhece e ganha peso. Em animais adultos, forma uma faixa resistente, quase totalmente tendinosa, que continua distalmente a partir da cápsula da articulação do carpo (Fig. 30-9/8). Divide-se no mediometacarpo, dando origem a cinco ramos principais; quatro deles ¾ excetuando-se o central ¾ parecem terminar nos ossos sesamoides proximais, mas obtêm uma continuação funcional a partir dos ligamentos (sesamóideos) distais que se ligam às falanges proximais. O arranjo forma uma “tipoia” que é tensionada quando a mão sustenta o peso e a articulação do boleto é hiperestendida. Finas faixas provenientes do interósseo unem os tendões extensores. Duas delas se dividem a partir dos ramos abaxiais, já mencionados, e contornam as faces abaxiais das falanges proximais, para se mesclarem com os tendões extensores. Outras duas são originadas da bifurcação do quinto ramo (central). Passam através do espaço interdigital, contornam a face axial das falanges e se mesclam aos mesmos tendões. No mediometacarpo, o interósseo libera, da sua face palmar, uma resistente faixa (Fig. 30-9, A/7) que se divide para se unir aos ramos do tendão flexor digital superficial, acima do boleto. (Essa faixa pode ser considerada como um ligamento controlador do flexor digital superficial.). Os três tendões extensores podem ser palpados na posição em que ficam lado a lado na face dorsal do osso metacárpico. O tendão médio (a partir do ventre lateral do extensor digital comum) bifurca-se no boleto; finos ramos, cada um circundado por independentes bainhassinoviais (Fig. 30-8/2′), seguem para a face dorsal dos dígitos para se inserir nos processos extensores das falanges distais. O tendão medial (a partir do ventre medial) alarga-se à medida que segue sobre o recesso dorsal da articulação do boleto, onde uma bolsa subtendinosa facilita a sua passagem. Esse tendão recebe os ramos extensores do interósseo antes de se inserir na extremidade proximal da falange média (mas com uma conexão secundária com a falange distal). O tendão lateral (extensor digital lateral; Fig. 30-8/3) comporta-se de forma idêntica em relação ao dígito lateral. Figura 30-8 Vista dorsal da mão direita bovina. 1, tendão medial do extensor digital comum para o dígito medial; 2, extensor digital comum; 2′, suas bainhas; 3, extensor digital lateral; 4, 5, ramos extensores abaxial e axial do interósseo para o extensor digital lateral; 6, ligamento colateral axial comum. Os tendões flexores digitais superficial e profundo são separados do osso metacárpico pelo interósseo (Fig. 30-9). Juntos, podem ser palpados à medida que emergem do carpo, mediais ao osso acessório do carpo, e se tornam individualmente distinguíveis na metade distal da canela, onde a fáscia profunda é delgada. Nunca são tão facilmente identificados quando o interósseo, de margens agudas, se posiciona contra o osso. Os tendões são difíceis de ser palpados nos dígitos. O tendão flexor superficial se divide acima das articulações do boleto (Fig. 30-7/3). Cada ramo recebe uma faixa do interósseo, com a qual forma uma luva em volta do ramo correspondente do flexor profundo, quando se posicionam no nível dos ossos sesamoides proximais. Esses ossos proporcionam uma superfície de apoio ao redor dos quais os tendões combinados se ligam, mantidos no lugar por meio de ligamentos anulares (Fig. 30-7/5, 9). A parede palmar da luva termina no terço médio da falange proximal, expondo o tendão flexor profundo, que agora mudou de posição em relação ao flexor superficial. A parede dorsal da luva continua no tendão flexor superficial e termina na extremidade proximal e na cartilagem complementar da falange média. Dois estreitos ligamentos anulares (digitais) prendem os tendões à falange proximal. O tendão flexor profundo alarga-se após deixar os limites da luva e continua sobre a inserção do tendão flexor superficial, o qual lhe proporciona outra superfície de apoio. Então, passa sobre a superfície palmar do osso navicular, onde a bolsa navicular (bolsa podotroclear) interposta reduz o atrito, para terminar em uma ampla inserção na extremidade distal da falange distal. O ligamento interdigital distal liga o tendão flexor profundo à parte de baixo da falange média. As inserções do tendão flexor superficial o permitem auxiliar o interósseo a impedir a hiperextensão da articulação do boleto. Uma bainha complexa (bainha digital, Fig. 30-7/4) circunda os dois tendões flexores digitais, do terço distal do metacarpo até quase o osso navicular. Essa bainha facilita a passagem de um contra o outro e contra as várias superfícies de apoio e os ligamentos anulares. As bainhas dos ramos medial e lateral dos tendões se tocam localmente e, ocasionalmente, se comunicam. São independentes das cápsulas das articulações dos dígitos e das bolsas naviculares. A distensão de uma bainha infeccionada pode ocorrer onde ela não tem apoio, ou seja, na sua extremidade proximal e entre os ligamentos anulares, abaixo do boleto. A bainha pode ser puncionada pelo lado, na margem dorsal dos tendões flexores, cerca de 5 cm proximal à sobreunha. As seguintes referências esqueléticas podem ser palpadas no boleto (Fig. 30-4): as faces dorsal e abaxial das trócleas metacárpicas; as partes correspondentes das falanges proximais; os ossos sesamoides abaxiais; os tubérculos abaxiais das falanges proximais; e os intervalos entre as falanges proximais e os sesamoides vizinhos, os quais marcam o nível do espaço articular (oposto à sobreunha). Exceto pela sua face palmar, a maioria das falanges proximais é facilmente avaliada, embora a extremidade distal e o espaço articular da quartela fiquem ocultos, mesmo que o nível esteja marcado pela inserção do achatado tendão extensor (3 cm acima da coroa) e pelo proeminente tubérculo abaxial da falange média; o próprio espaço articular fica 2 cm acima da coroa. Os estreitos ramos do extensor comum são mais facilmente avaliados do que os largos, mas achatados, tendões extensores. Os tendões flexores formam uma firme massa por trás dos ossos. As sobreunhas são ligadas à espessa fáscia profunda que forma dois ligamentos que se prolongam às extremidades abaxiais dos ossos naviculares, ligamentos estes que se tornam palpáveis quando as sobreunhas são levantadas. OS CASCOS Os cascos dos dígitos principais curvam-se um em direção ao outro, em ambas as extremidades, tocando-se atrás e, ocasionalmente, também nos seus ápices (Fig. 30-11). O casco lateral carrega a maior parte do peso e é maior que o medial, embora nem sempre seja assim no pé. Cada casco consiste em perioplo, parede, sola e bulbo. A superfície da base é formada pela margem distal da parede, pela sola e pela parte distal do bulbo (Fig. 30-11/1, 3, 4′); as partes visíveis no animal em estação são as paredes dos lados, e o bulbo, na parte de trás do casco. A margem coronária do casco é maior na face abaxial do que na face axial. Os dois terços apicais do casco, aproximadamente, são ocupados pela falange distal e pelo tendão flexor profundo; o espaço por trás deles é ocupado pelo coxim digital, a almofada flexível de tecido fibroadiposo que também se estende sob a “metade” maior do osso (Fig. 30-10/8). Figura 30-11 Superfície da base do casco da mão bovina. 1, parede; 2, linha branca; 3, sola; 4, bulbo; 4′, parte dorsal do bulbo; 5, sulco abaxial da parede, separando a parede do bulbo. Figura 30-10 Secção sagital do dígito medial da mão bovina. 1, Extensor digital próprio (medial); 2, extensor digital comum; 3, derme coronária; 4, derme lamelar; 5, falange média; 6, falange distal; 7, derme da sola coberta pela sola; 8, coxim digital; 9, flexor digital profundo; 9′, fibras do flexor digital profundo para a falange média e o osso navicular; 10, osso navicular; 11, ligamento navicular colateral; 12, ligamentos palmares da articulação da quartela; 13, flexor digital superficial. O perioplo constitui uma estreita faixa (de aproximadamente 1 cm) ao longo da margem coronária, que se alarga na parte de trás, onde se nivela com o bulbo e se mescla com o perioplo do outro casco. Fica parcialmente escondido pelos pelos. Sua consistência é intermediária entre a epiderme cutânea e o duro tecido córneo da parede. A parede, fortemente flexionada sobre si mesma, forma a maior parte de ambas as faces, axial e abaxial (Fig. 30-11); a flexura produz uma crista na frente, que se curva distalmente em direção à ponta ou “pinça” do casco. Ambas as faces são delimitadas caudalmente por sulcos mais ou menos distintos (Fig. 30-11/5) que se estendem da margem coronária até a superfície da base; o tecido córneo caudal aos sulcos pertence ao bulbo. O sulco axial é mais cranial e constitui uma área de baixa resistência que é, algumas vezes, perfurada; infecções podem facilmente se estender até a articulação do casco, que fica a poucos milímetros de distância. A parede é marcada por proeminentes cristas, paralelas à margem coronária, causadas pela produção desigual de tecido córneo, devido a perturbações locais ou generalizadas. Embora a margem distal normalmente faça contato com o solo ao longo de toda a extensão da parede abaxial, na face axial só o faz em direção à pinça; a maior parte dessa margem suporta peso somente em solo macio. A parede é espessa próximo ao ápice, em direção à base, em especial abaxialmente. Consiste em tecidos córneos tubular e intertubular, e é produzida sobre a ampla e achatada derme coronária. As lamelas córneas são curtas e baixas, formando uma união mais fraca com a derme lamelar do que aquela existente nos equinos. Isso pode estar correlacionadocom a maior extensão da superfície para o suporte do peso nos ruminantes. A sola (Fig. 30-11/3) constitui uma área relativamente lisa, confinada no interior do ângulo inflexo da parede, da qual é separada pela chamada linha branca, mais macia. Essa linha, de coloração um pouco mais clara do que o despigmentado tecido córneo de cada lado, tem somente poucos milímetros de largura e compreende a alternância das extremidades distais das lamelas córneas com o tecido córneo, ligeiramente mais escuro, produzido sobre as papilas terminais das lamelas sensitivas. No centro, a sola se mistura imperceptivelmente com o ápice do bulbo. A junção marca a extensão do coxim digital (Fig. 30-10/7, 8). O bulbo fornece a face caudal e uma considerável porção da superfície da base, onde o ápice se insere na sola em forma de V. Constitui a principal parte responsável por suportar o peso. A grande porção do tecido córneo intertubular o torna relativamente macio, mas a sua considerável espessura compensa isso. O tecido córneo bulbar tende a descamar quando se permite que cresça (como em animais que permanecem em estação sobre cama suja) e as fissuras resultantes propiciam infecções; abscessos resultantes dessas infecções podem destruir a derme e estruturas profundas. A cápsula do casco é moldada sobre a derme ligada às estruturas subjacentes por meio de um tecido subcutâneo modificado, mais desenvolvido onde se forma o coxim digital. A derme apresenta segmentos que correspondem às partes do casco (Fig. 30-12). O tecido córneo da parede é produzido sobre a derme coronária (Fig. 30-12/2) e desliza distalmente sobre e entre as lamelas dérmicas, onde tecido córneo é produzido apenas na quantidade suficiente para manter a adesão. Figura 30-12 Derme sobre a qual é produzido o tecido córneo do casco. A a C, Superfícies abaxial, axial e da base. D, Superfícies dorsal da derme e do casco. 1, derme perióplica; 2, derme coronária; 3, derme lamelar; 3′, papilas terminais nas extremidades distais das lamelas; 4, derme da sola; 5, derme do bulbo; 6, perioplo; 7, parede do casco. O tecido córneo de outras partes do casco cresce, afastado da derme, a uma taxa de 5 mm por mês; em bezerros cresce um pouco mais rápido. Em bovinos com livre acesso ao pasto, o desgaste da superfície da base é equivalente ao crescimento e, na pinça, o ângulo com o solo é mantido em cerca de 50°. Em superfícies macias, o crescimento supera o desgaste e os cascos devem ser aparados periodicamente para que a pinça não cresça para a frente em um ângulo menor. Quando isso ocorre, a articulação do casco gradualmente se hiperestende, o flexor profundo torna-se tenso e um peso maior é posto sobre a parte caudal do casco, sobre a inserção do flexor profundo e o osso navicular. Isso causa dor e, portanto, claudicação. No final da vida fetal, as partes distais do casco estão cobertas por um tecido córneo macio, cuja suposta função é evitar lesões nas membranas fetais e no canal do parto. Esse coxim macio seca rapidamente quando exposto ao ar. As sobreunhas, miniaturas dos cascos principais, consistem principalmente em parede e bulbo, e não têm importância prática. VASOS SANGUÍNEOS E ESTRUTURAS LINFÁTICAS A artéria axilar, principal suprimento para o membro, é usada ocasionalmente como fonte de sangue arterial; pode ser localizada por palpação profunda na curvatura ao redor da primeira costela. Os trajetos e os ramos das artérias nos segmentos proximais do membro seguem o padrão geral, de forma que uma descrição detalhada se torna desnecessária. A descrição pode ser iniciada a partir do local onde a artéria mediana acompanha o tendão flexor digital profundo através do canal do carpo. A artéria segue no metacarpo, acompanhada de uma veia satélite e do nervo mediano, onde continua medial aos tendões flexores e sob a cobertura de uma fáscia espessa e profunda (Fig. 30-13), mas se torna superficial e vulnerável na articulação do boleto. O seu curso a conduz sobre a superfície palmar dos ramos mediais dos tendões flexores, antes de se aprofundar no espaço interdigital. Em animais de pele fina, a artéria e a veia que a acompanha tornam-se visivelmente salientes nesse ponto, podendo a artéria ser apalpada, embora o pulso não possa ser normalmente percebido. A partir desse local passa a ser chamada de artéria digital palmar comum III e, no interior do espaço interdigital, emite numerosos ramos de menor importância, antes de se dividir em duas artérias digitais palmares axiais. Cada uma delas segue distalmente para alcançar e entrar na falange distal através do grande forame localizado junto ao processo extensor. As artérias digitais palmares abaxiais, menores e derivadas das artérias do antebraço, entram nas falanges distais, nas extremidades palmares das superfícies abaxiais. No interior do osso, as artérias axiais e abaxiais anastomosam para formar o arco terminal, a partir do qual numerosos ramos são liberados para a derme. Outras pequenas artérias da face dorsal dos dígitos são de menor importância. Todas as artérias são seccionadas quando o dígito é amputado; o coto da artéria palmar axial sangra muito profusamente e deve, pelo menos, ser ligado. Figura 30-13 As principais artérias do membro torácico direito do bovino; vista medial. 1, a. axilar; 2, a. subescapular; 3, a. braquial profunda; 4, a. braquial; 5, a. ulnar colateral; 6, a. interóssea comum; 7, a. mediana; 8, a. radial; 9, a. digital palmar comum III; 10, a. digital dorsal comum III; As veias dos membros são divididas entre um sistema profundo, satélite às artérias, e um sistema superficial quase independente. Os dois sistemas são conectados por salientes anastomoses no cotovelo, acima do carpo e na mão, e eventualmente se juntam em um único sistema, quando a veia cefálica se abre na jugular externa, na base do pescoço. O sistema superficial compreende as veias cefálica e cefálica acessória, e as veias tributárias da última, na mão (Fig. 30-14, A). A maioria delas pode ser palpada, especialmente em animais jovens de pele fina, e pode apresentar características superficiais visíveis: suas posições são precisamente reveladas por meio de torniquete. Essas veias são muito utilizadas para realização de anestesia cirúrgica dos dígitos, por meio de injeção intravenosa retrógrada. Aquelas que se prestam a esse procedimento são mostradas na Figura 30-14, B-C. A técnica é simples e mais confiável do que métodos alternativos que requerem administração de solução anestésica sobre vários nervos. Figura 30-14 Principais veias do membro torácico bovino. A, Membro direito; vista medial. B, Mão esquerda; vista lateral. C, Mão direita; vista dorsal. 1, v. braquial; 2, v. cefálica; 3, v. mediana cubital; 4, v. mediana; 4′, v. digital palmar comum III; 5, vv. digitais palmares axiais; 6, v. cefálica acessória; 6′, v. digital dorsal comum III; 7, vv. digitais dorsais; 8, v. radial; 9, vv. digitais palmares abaxiais. Os linfonodos do membro torácico compreendem o grande linfonodo axilar próprio, que se localiza contra a parede torácica, caudal à articulação do ombro, e alguns poucos pequenos linfonodos acessórios (axilares das primeiras costelas) situados sobre a primeira costela e o espaço intercostal adjacente. O linfonodo axilar recebe linfa de estruturas profundas dos segmentos proximais do membro, incluindo os músculos ventrais do cíngulo, e a direciona primeiramente aos linfonodos acessórios e, partindo deles, a linfa segue para os linfonodos cervicais profundos caudais ou ainda diretamente para uma única ou algumas das veias da entrada torácica. Esse linfonodo pode ser inspecionado mediante uma incisão no primeiro espaço intercostal da meia-carcaça. Os músculos dorsais do cíngulo, a pele e a fáscia subcutânea do ombro, o braço e o antebraço e todas as estruturas distais ao carpo drenam diretamente para o linfonodo cervical superficial, o qual pode ser palpado na parte da frente do ombro. OS NERVOS DO MEMBRO TORÁCICO O plexo braquial é formado pelos três últimos nervos cervicais e pelosdois primeiros nervos torácicos. Os seus ramos geralmente se acomodam segundo o padrão comum, mas alguns pontos, por serem de relevância clínica, merecem ser abordados. O nervo supraescapular (C6-7) curva-se ao redor da margem cranial da escápula, para alcançar os músculos supraespinhoso e infraespinhoso (Fig. 30-15). Sua destruição apresenta pouco efeito sobre a postura em posição de estação, além de uma ligeira e ocasional abdução do braço. A marcha é mais severamente afetada e o membro avança com uma passada larga, rija e em circundução; o ombro é abduzido mais evidentemente na fase de apoio. Na paralisia crônica, os músculos atrofiam e a espinha da escápula se torna bem definida. Figura 30-15 Nervos do membro torácico bovino; vista medial. 1, 2, raízes do plexo braquial; 3, nervo peitoral cranial; 4, n. supraescapular; 5, n. musculocutâneo; 6, a. axilar; 7, alça do n. musculocutâneo, antes de se unir ao n. mediano; 8, ramo proximal do n. musculocutâneo; 9, n. subescapular; 10, n. longo torácico; 11, n. toracodorsal; 12, n. torácico lateral; 13, n. axilar; 14, n. radial; 15, n. ulnar; 16, nn. mediano e musculocutâneo combinados; 17, ramo distal do n. musculocutâneo; 18, n. cutâneo medial do antebraço; 19, ramo superficial do nervo radial; 20, n. mediano; 21, n. cutâneo caudal o antebraço; 22, nn. digitais dorsais comuns III e II; 23, ramo dorsal do n. ulnar; 24, ramo palmar do n. ulnar; 25, ramo profundo do n. ulnar (para os músculos interósseos); 26, ramo comunicante. O grande nervo mediano (C8-T2) desce pela face medial do braço, cruza a articulação do cotovelo (onde é palpável, em frente à artéria braquial) e mergulha sob os músculos flexores, para os quais envia os seus ramos. O seu tronco mais reduzido segue a artéria mediana sob a cobertura do flexor radial do carpo (Fig. 30-3/2), no interior do canal do carpo, antes de se dividir, no mediometacarpo, em vários ramos que suprem a maior parte da face palmar da mão. O nervo ulnar (C8-T2) origina-se com o nervo mediano, mas se afasta dele no terço médio do braço (Fig. 30-15/15). Após liberar um ramo para a pele, passa junto ao olécrano, onde mergulha entre as origens dos músculos flexores. Destaca ramos para esses músculos antes de continuar como nervo principalmente sensorial (Fig. 30-3/4?), que se divide a uma pequena distância acima do osso acessório do carpo. O ramo palmar passa através do canal do carpo, lateral aos tendões flexores; o ramo dorsal se torna superficial e pode ser palpado na posição em que desce sobre a face lateral do osso acessório do carpo. Uma vez que o nervo mediano e o ulnar compartilham o suprimento dos flexores do carpo e dos dígitos, a destruição de um deles tem pouco efeito, tanto na postura quanto na marcha. Mesmo quando ambos são seccionados, não ocorre nenhuma mudança imediata na postura de estação do animal, embora a hiperextensão do carpo se desenvolva posteriormente. A marcha é afetada pela neurectomia dupla, passando a ser realizada em “passo de ganso”, ação exagerada na qual as articulações do carpo e as mais distais ficam hiperestendidas; entretanto, a passada não é encurtada e a mão continua capaz de suportar o peso. O nervo radial (C7-T1) se posiciona mais caudalmente no braço. Mergulha entre as cabeças do tríceps antes de seguir o músculo braquial para alcançar a superfície cranial do cotovelo; fornece ramos musculares nessa rota. O tronco se torna vulnerável à medida que passa sobre a afiada crista supracondilar lateral do úmero, profundamente à cabeça lateral do tríceps. Nessa posição, se divide em vários ramos que inervam os músculos extensores do carpo e dos dígitos, e um ramo cutâneo que acompanha a veia cefálica e, mais distalmente, a veia cefálica acessória. Recebe um ramo do nervo musculocutâneo antes de cruzar o carpo (Fig. 30-15/18, 19). O nervo radial constitui o único suprimento para os extensores de todas as articulações distais ao ombro, sendo graves quaisquer lesões na parte proximal do seu trajeto. Nesses casos, o cotovelo fica “pendurado” e o membro parece anormalmente longo. O animal se move com dificuldade, arrastando as pinças e evitando colocar peso no membro afetado. Torna-se incapaz de posicionar a sola do casco no solo e descansa sobre a face dorsal dos dígitos. Se a lesão é mais distal, o animal pode frequentemente aprender a compensar a perda da função do músculo extensor do carpo e dos dígitos. Procedimentos para bloqueio de nervos, como os largamente utilizados na prática equina, não são utilizados no diagnóstico diferencial da claudicação em bovinos. Atualmente, considerando que técnicas de anestesia intravenosa retrógrada são largamente utilizadas para se assegurar a anestesia durante procedimentos cirúrgicos nos dígitos, parece ser desnecessário suplementar as descrições dos nervos digitais, especificando os pormenores a respeito dos locais e das profundidades em que os depósitos devem ser feitos. Descrições completas de tais procedimentos podem ser encontradas em textos de referência. Em breve resumo, pode-se dizer que a face dorsal da mão é de domínio do nervo radial; a face palmar, do nervo mediano; e a face lateral, do nervo ulnar (Fig. 30-16, A-C). Figura 30-16 Principais nervos da mão direita bovina em vistas palmar (A), lateral (B) e dorsal (C). 1, n. mediano; 2, n. digital palmar abaxial; 3, nn. digitais palmares axiais; 4, ramo comunicante; 5, ramo palmar do n. ulnar; 6, ramo dorsal do n. ulnar; 7, ramo superficial do n. radial; 8, tendões extensores digitais; 9, interósseo; 10, tendão flexor profundo; 11, tendão flexor digital superficial. 31 O Membro Pélvico dos Ruminantes Aaparência angular dos quartos posteriores (membros pélvicos) dos ruminantes é devida em parte à formação sólida do cíngulo pélvico, muito do qual está delineado abaixo da pele e, em parte, ao fraco desenvolvimento dos músculos da garupa. O túber sacral é palpável pelo lado do espaço lombossacral, embora não consiga atingir a altura da crista sacral (mediana). (A ocasional elevação acima da crista leva à suspeita de deslocamento sacroilíaco.) Esse túber está ligado ao túber coxal (“ponta da anca”), muito mais proeminente, por meio da crista ilíaca, que é fina ¾ e incompletamente ¾ coberta pelo glúteo médio (Figs 31-1 e 31-2). O túber isquiático (“ponta do ísquio”), triangular, se eleva consideravelmente acima do assoalho pélvico e se projeta ampla ou totalmente acima da vulva. O seu ângulo dorsal subcutâneo está ligado por meio do ligamento sacrotuberal largo; como a margem desse ligamento não é coberta por músculo, é facilmente palpável (Fig. 31-3/1′). Figura 31-1 Vista dorsal da garupa bovina; os músculos do lado esquerdo foram removidos. 1, túber coxal; 2, túber sacral; 3, ílio; 4, ligamento sacrotuberal largo; 5, trocânter maior do fêmur; 6, túber isquiático; 7, glúteo médio; 8, bíceps femoral. Figura 31-2 Músculos do membro pélvico esquerdo bovino, vista lateral. 1, tensor da fáscia lata; 2, glúteo médio; 3, túber isquiático; 4, 4′, 4″, bíceps femoral, transeccionado em 4″; 5, semitendinoso; 6, cabeça lateral do gastrocnêmio; 7, sóleo rudimentar; 8, tibial cranial; 9, 9′, fibular terceiro; 10, 10′, 10″, extensor digital longo; 11, 11′, fibular longo; 12, extensor digital lateral; 13, flexor digital lateral; 14, tendão do flexor digital superficial; 15, tendão comum dos flexores digitais profundos; 16, interósseo. Figura 31-3 Coxa bovina direita. 1, túber isquiático; 1′, margem do ligamento sacrotuberal largo; 2, trocânter maior do fêmur; 3, túber coxal; 4, bíceps femoral; 5, vasto lateral; 6, patela; 7, prega do flanco. A linha que conecta os túberes coxal e isquiático revela a inclinação da pelve. Ângulo maior do que o usual está associado a uma entrada pélvica mais vertical; ângulo menor (anca achatada) requer que o fêmur seja posicionado mais verticalmente, conformação que se acredita estar relacionada com a predisposição a traumas por concussão na articulação do quadril. Nem inspeção nem palpação revelam diretamente a posição dessaarticulação, a qual deve ser deduzida por meio da referência da posição do trocânter maior, palpável, situado lateral e ligeiramente caudal à cabeça do fêmur, abaixo da linha intertuberal (Fig. 31-3/2). Distúrbios nessa relação sugerem fraturas no colo ou deslocamento da cabeça do fêmur. Os deslocamentos podem ocorrer em várias direções e acredita-se serem facilitados pela relativa fragilidade ou ocasional ausência do único ligamento intra-articular (ligamento da cabeça do fêmur). O trocânter se descola, mais comumente, dorsocranialmente, se projetando acima da linha intertuberal. Nominalmente, essa articulação é esferoide, mas a extensão da superfície articular do fêmur sobre o colo semicilíndrico torna evidente que os principais movimentos são de flexão e extensão. Entretanto, o grau de rotação da coxa para fora, que acompanha a flexão, garante que o joelho se afaste do abdome. A cavidade articular pode ser alcançada se uma agulha for inserida diretamente em frente ao trocânter, avançando medial e ligeiramente cranial. A localização profunda e as contrações do músculo perfurado nessa rota fazem com que tal procedimento seja difícil de ser realizado com sucesso. A mais notável característica dos músculos regionais é a relativa fragilidade do grupo glúteo e a ausência de origens vertebrais do semitendinoso e semimembranoso. O glúteo superficial está completamente incorporado pelo bíceps femoral, formando uma combinação algumas vezes conhecida como gluteobíceps. O glúteo médio possui uma bem definida divisão profunda (glúteo acessório) com o seu próprio tendão de inserção, que aproveita a proteção de uma bolsa sinovial, onde passa lateral ao trocânter maior. Essa bolsa ocasionalmente se inflama. O bíceps femoral preenche a parte caudolateral da coxa e tem uma ampla inserção que se espalha entre a fáscia lata, a patela, o ligamento patelar lateral e através da fáscia da perna, entre a tíbia e o calcâneo. Uma grande bolsa bicipital interpõe-se entre o epicôndilo lateral do fêmur e a parte da inserção que avança no ligamento patelar. Essa bolsa, que pode se comunicar com a cavidade articular do joelho, é algumas vezes local de inflamação dolorosa que, mais frequentemente, aflige bovinos postos para dormir sobre piso de concreto descoberto. As inserções do semimembranoso e do semitendinoso, assim como as ações desse grupo, seguem o padrão usual. Os músculos adutores da face medial da coxa, o grupo profundo em torno da articulação do quadril e o quadríceps femoral não requerem comentários especiais. O tensor da fáscia lata, na margem cranial da coxa, constitui um guia para localização do linfonodo subilíaco. O JOELHO, A PERNA E A JARRETE A articulação do joelho se assemelha à dos equinos por possuir três ligamentos patelares e uma tróclea assimétrica (Fig. 31-4, B). A patela, os ligamentos patelares e a tuberosidade da tíbia podem ser palpados na superfície cranial; duas “covinhas” palpáveis na extremidade proximal da tuberosidade separam e convenientemente identificam os três ligamentos. O proeminente epicôndilo femoral, o ligamento colateral (e a sua ligação à rudimentar fíbula; Fig. 31-4, A/9) e, mais cranialmente, a origem comum do extensor digital longo e fibular terceiro (Fig. 31-4/5) são palpáveis na face lateral. Assim como no equino, o ligamento patelar intermédio, a patela, a fibrocartilagem medial e o ligamento patelar medial se combinam para formar uma alça que passa sobre a extremidade proximal expandida da crista medial (Fig. 31-4, B/11) da tróclea do fêmur. Embora relativamente pouco esforço muscular mantenha a alça no local (o que evita a flexão do joelho), tal mecanismo não é tão eficiente quanto o dos equinos, no qual o joelho pode ser travado completamente. Luxações laterais e mediais da patela são ocasionalmente reportadas. O deslocamento dorsal, melhor descrito como fixação, é mais comum, embora seja prevalente entre bovinos castrados usados para trabalho no subcontinente indiano. Essa condição é geralmente intermitente e, caso não seja aliviada espontaneamente, pode ser tratada por meio da secção do ligamento patelar medial. Figura 31-4 Articulação do joelho esquerdo bovino. A, Vista lateral. B, Vista cranial. C, Meniscos e ligamentos que se inserem na extremidade proximal da tíbia esquerda. 1, fêmur; 2, patela; 2′, fibrocartilagem da patela; 3, ligamento patelar lateral; 3′, inserção do bíceps femoral; 4, ligamento patelar intermédio; 4′, ligamento patelar medial; 5, tendão comum do extensor digital longo e fibular terceiro; 6, ligamento colateral lateral; 7, tendão poplíteo; 8, menisco lateral; 9, fíbula; 10, tíbia; 10′, tuberosidade da tíbia; 11, crista medial da tróclea do fêmur; 12, ligamento colateral medial; 13, menisco medial; 14, ligamento cruzado cranial; 15, ligamento cruzado caudal; 16, ligamento meniscofemoral. As cavidades das articulações femoropatelar e femorotibial sempre se comunicam, embora a articulação femorotibial lateral não se comunique com nenhuma das outras duas. Dois pontos de punção são, portanto, utilizados. Um deles é entre os ligamentos patelar medial e intermédio, a uma pequena distância proximal à tíbia, que provê acesso ao espaço femoropatelar; o outro, no sulco extensor da tíbia, cranial ao tendão comum do extensor digital longo e fibular terceiro, provê acesso ao compartimento femorotibial lateral. A tíbia é o único osso que suporta peso na perna (crus). A sua face medial, incluindo o proeminente maléolo medial, é subcutânea; as faces restantes são cobertas por músculos (Fig. 31-6). A superfície articular distal (cóclea) apresenta dois sulcos sagitais separados por uma crista; cada sulco é delimitado externamente pelo maléolo correspondente. A fíbula é muito reduzida. Um rudimento proximal, geralmente prolongado em um ponto distal, é fusionado com o côndilo lateral da tíbia e recebe o ligamento colateral lateral do joelho. O rudimento distal constitui um separado (e palpável) osso quadrilátero (maléolo lateral; Fig. 31-5/2) que se articula seguramente com a tíbia por meio de uma projeção que se encaixa em um sulco. Ele também participa da articulação do jarrete. Figura 31-6 Secção transversal da perna esquerda bovina. 1, tíbia; 2, tibial cranial; 3, fibular terceiro; 4, extensor digital longo; 5, fibular longo; 6, nervo fibular; 7, extensor digital lateral; 8, vasos tibiais craniais; 9, flexores digitais profundos; 10, 10′, cabeças lateral e medial do gastrocnêmio; 11, bíceps femoral; 12, nervo cutâneo sural caudal e veia safena lateral; 13, semitendinoso; 14, flexor digital superficial; 15, nervo tibial; 16, vasos e nervo safenos; 17, poplíteo. Figura 31-5 Radiografias lateral (A) e dorsoplantar (B) do jarrete bovino. 1, tíbia; 1′, maléolo medial; 2, maléolo lateral (extremidade distal da fíbula); 3, calcâneo; 3′, sustentáculo do tálus; 4, tálus; 4′, 4″, tróclea proximal e distal do tálus; 5, ossos társicos central e quarto fusionados; 6, ossos társicos segundo e terceiro fusionados, em B sobrepostos ao pequeno primeiro osso társico (não rotulado); 7, posição do osso sesamoide no interósseo; 8, osso metatársico; 8′, septo mediano. O esqueleto do tarso é formado pelos seguintes elementos: o calcâneo e o tálus, na fileira proximal; os ossos central e quarto fusionados, na fileira média; os ossos segundo e terceiro fusionados, e o pequeno e independente primeiro osso, na fileira distal (Fig. 2- 60). Em contraste com o que ocorre nos equinos, o tálus apresenta uma tróclea em cada extremidade (como geralmente nos artiodáctilos, Fig. 31-5/4′, 4″). A tróclea proximal se articula com a cóclea tibial e o osso maleolar, formando a articulação tarsocrural; a tróclea distal se articula com o calcâneo, por trás, e com os ossos társicos central e quarto fusionados, distalmente, formando a articulação intertársica proximal. Ambas as articulações permitem flexão e extensão, os principais movimentos no jarrete; a articulação proximal permite maior movimento. O calcâneo, mais delgado que o osso correspondente nos equinos, apresentaarticulação adicional com o maléolo lateral. O túber calcâneo (ponta do jarrete) é ligeiramente expandido. Os ossos társicos central e quarto combinados (Fig. 31-5/5) abrangem a largura do jarrete. A parte constituída pelo quarto társico se estende até a fileira distal e se articula com o osso metatársico. Relaciona-se com o segundo e terceiro ossos ársicos fusionados na sua face medial. O pequeno primeiro társico situa-se na face plantar da articulação. As superfícies dos elementos distais que contribuem na formação das articulações intertársica distal e tarsometatársica são relativamente planas e permitem movimentos mínimos. Um pequeno osso sesamoide discoide na face plantar do osso metatársico está incorporado na parte proximal do interósseo (Fig. 31-5/7). Poucos dos vários ligamentos são importantes individualmente. A articulação é suportada, de cada lado, por ligamentos colaterais, cujos longos componentes podem ser palpados em toda a sua extensão, desde os respectivos maléolos até o metatarso. O ligamento plantar longo (palpável no aspecto plantaromedial) segue a margem plantar do calcâneo e se estende além dele até o metatarso; une os ossos da face plantar, que poderiam, de outra forma, ser separados pelos fortes músculos que se fixam na ponta do jarrete. As articulações tarsocrural e intertársica proximal dividem uma mesma cavidade, relativamente espaçosa. Quando aumentada, a cápsula forma uma notável bolsa no aspecto dorsomedial do jarrete, medial ao tendão tibial cranial e diretamente distal ao maléolo medial. Pode ser puncionada com maior segurança do que nos equinos, pois a bolsa não é recoberta por veias. As outras articulações raramente são de interesse clínico. A conformação do membro pélvico, particularmente do jarrete, é importante na seleção de animais para fins reprodutivos. As pontas dos jarretes devem estar verticalmente abaixo dos túberes isquiáticos em ambos os aspectos, lateral e caudal. Quando estão muito próximas, diz-se que o animal tem “jarrete de vaca” e seus pés assumem posição amplamente aberta. A cada adaptação a um úbere excessivamente largo constitui uma causa de aproximação exagerada das pontas do jarrete. (A conformação oposta, de pernas arqueadas, leva os pés a ficarem bem juntos.) O ângulo normal da articulação do jarrete (visto pelo lado) é de aproximadamente 140°, o que faz o metatarso se inclinar ligeiramente para a frente. Quando esse ângulo está visivelmente menor, o jarrete abaixa e se diz que o animal tem “jarrete em foice”; quando excede o normal, diz-se que o animal tem “jarrete reto”, uma deformidade que pode conduzir a “quartelas fracas” por causa do reduzido ângulo da articulação do boleto. Posturas anormais do jarrete conduzem a apoio defeituoso dos pés e risco de lesão nos tendões e estruturas sinoviais dos dígitos. Os músculos da perna são divididos nos grupos craniolaterais e caudais habituais. Entre os primeiros, o tibial cranial e o fibular terceiro assemelham-se grandemente aos dos equinos (Fig. 31-2/8, 9); o fibular terceiro, embora seja em grande parte tendinoso, é significativamente mais carnoso que o seu equivalente equino. O extensor digital longo se assemelha ao extensor comum do membro torácico por possuir dois ventres: um fornece suporte ao tendão próprio do dígito medial, enquanto o tendão do segundo, menor, divide- se para alcançar ambos os dígitos. Existe também um extensor lateral (Figura 31-2/12), próprio para o dígito lateral. Todos os tendões extensores são necessariamente mantidos no lugar por (duas) resistentes e palpáveis faixas retentoras na posição em que descem sobre a superfície flexora do jarrete; igualmente necessárias, bainhas sinoviais protegem os tendões nesse local. O retináculo proximal é facilmente palpável, mesmo em vacas pesadas e de pele espessa. O grupo é completado pelo músculo fibular longo (Fig. 31- 2/11), que se origina próximo ao ligamento colateral lateral do joelho e desce pela face lateral da perna. Ele então cruza sobre o tendão do extensor digital lateral para curvar-se ao redor da face plantar do jarrete, onde se insere. Alguma rotação do pé para dentro é produzida pela sua contração. O gastrocnêmio (Fig. 31-2/6) se origina a partir de cabeças gêmeas da face caudal do fêmur, formando uma dilatação muscular no terço proximal da perna antes de se estreitar abruptamente para o forte tendão que se insere na ponta do jarrete. O flexor digital superficial, embora seja mais muscular do que o dos equinos, é bastante tendinoso e relativamente inextensível (Fig. 31-6/14). Origina-se entre as cabeças do gastrocnêmio, curva-se ao redor da face medial do tendão deste músculo e se espalha para cobrir a ponta do jarrete. As margens dessa cobertura se inserem nessa posição, embora o tronco do tendão continue para baixo, na face plantar, até o pé. O segmento crural, agindo em conjunto com o fibular terceiro, associa os movimentos das articulações do joelho e do jarrete. (Isso deve ser lembrado quando se tenta corrigir a relativamente comum posição de nádegas de um feto que apresenta cauda e jarretes flexionados.) Uma extensa bolsa subtendínea (calcânea) protege o tendão tanto onde ele envolve o gastrocnêmio, quanto na ponta do jarrete. Ocasionalmente, uma bolsa subcutânea (higroma) se desenvolve sobre o tendão nesse local. O gastrocnêmio e o flexor superficial estão em contínuo estado de contração (reflexo) em bezerros com “paresia espástica”. Nesses animais, o jarrete e o joelho estão maximamente estendidos e o membro afetado é utilizado rigidamente, com apenas as pinças do casco tocando o solo (Fig. 31-7). Secção dos tendões (ou dos ramos nervosos [tibiais] para o gastrocnêmio) fornece alívio ao animal. Embora não existam provas de que isto seja hereditário, há concordância de que não é sensato deixar que animais afetados se reproduzam, mesmo após “cura” cirúrgica. Figura 31-7 Bezerro com paresia espástica. O flexor digital profundo (Fig. 31-6/9) tem três cabeças. Duas reúnem-se na perna, para formar um espesso tendão que passa sobre a face plantar do jarrete, medial ao calcâneo, protegido pela bainha sinovial do tarso. O tendão é ligado por baixo pelo retináculo flexor e pela fáscia profunda, de forma que, quando distendido, a bainha se salienta somente nas extremidades, proximal e distal à articulação. O fino tendão da terceira cabeça escava através da densa fáscia medial do tarso, dentro do seu próprio revestimento sinovial, para se unir ao tendão principal, no metatarso. O poplíteo não apresenta características especiais. A maioria das estruturas locomotoras e cutâneas do pé é muito semelhante à sua contraparte do membro torácico e não necessita, portanto, ser descrita. Entretanto, o osso metatársico é notavelmente mais longo do que o metacárpico e quadrilátero em secção transversa, o que confere à canela do membro pélvico uma aparência firme quando observada lateralmente (Fig. 31-14). A razão pela qual ocorre maior incidência de doenças nos dígitos do membro pélvico, especialmente no dígito lateral, não é bem esclarecida. VASOS SANGUÍNEOS E ESTRUTURAS LINFÁTICAS DO MEMBRO PÉLVICO A artéria femoral continua a artéria ilíaca externa, além da lacuna vascular. Passa entre os músculos mediais da coxa para atingir a superfície flexora do joelho, onde, a partir de então, é chamada artéria poplítea. Esta logo se divide em artérias tibiais cranial e caudal (Fig. 31-8/10, 11). Um ramo da femoral, a artéria safena (Fig. 31-8/7), passa sobre a superfície do músculo grácil, sendo frequentemente usada para verificar o pulso em vacas; é mais facilmente encontrada deslizando-se a mão por trás entre o úbere e a coxa. Esse vaso é responsável pela vascularização da parte caudal da perna e segue o tendão calcanear comum até o jarrete, onde origina as artérias plantares medial e lateral. Figura 31-8 As principais artérias do membro pélvico direito bovino, vista medial. 1, a. ilíaca externa; 2, a. ilíaca circunflexa profunda; 3, a. ilíaca interna; 4, a. glútea caudal; 5, a. femoral profunda; 6, a.é ladeada pelas pequenas aberturas dos ductos incisivos. Figura 25-14 Teto da cavidade oral bovina. 1, papila incisiva; 2, pulvino dental; 3, papilas bucais; 4, rugas palatinas; 5, rafe palatina; 6, segundo dente pré-molar superior (P2). Figura 25-15 Vista rostral dos dentes incisivos de uma vaca de dois anos de idade. Os incisivos centrais são permanentes e os demais decíduos. Figura 25-16 Vista rostral dos dentes incisivos de uma vaca de 4,5-5 anos de idade. Os quatro incisivos alcançaram a altura de seus vizinhos e estão se tornando desgastados. Os lábios dos pequenos ruminantes são muito mais móveis do que os dos bovinos. São os principais órgãos de preensão, e permitem que essas espécies cortem a pastagem acuradamente. Em bovinos, o principal órgão de preensão é a língua pontiaguda. Sua parte caudal é elevada para formar um grande toro que é delimitado rostralmente por uma fossa lingual transversa na qual o alimento tende a se acumular; por possuir um epitélio muito delicado em seu interior e sendo, portanto, facilmente lesada por partículas cortantes, a fossa torna- se uma potencial porta de entrada para infecções (Fig. 25-17/5). As papilas que conferem característica áspera à superfície da língua estão concentradas sobre o dorso e em direção ao ápice. Papilas filiformes ásperas e caudalmente direcionadas estão livremente distribuídas sobre o ápice, enquanto papilas cônicas e lentiformes achatadas estão presentes no toro (Fig. 25-17/4′,4″); todas possuem função puramente mecânica. Além delas, existem as papilas fungiformes dispersas no ápice, e numerosas papilas valadas (Fig. 25-17/3) presentes junto à raiz. Ambas sustentam receptores relacionados ao paladar. Acúmulo de tecido linfoide junto à raiz constitui a tonsila lingual difusa. Figura 25-17 Língua e mandíbula bovina. 1, palato mole, cortado; 2, arco palatoglosso; 3, papilas valadas; 4, papilas filiformes; 4″, lentiforme; 4″, cônica; 5, fossa lingual; 6, papilas bucais; 7, segundo dente pré-molar inferior (P2); 8, M1. O assoalho oral, abaixo do ápice da língua, apresenta as carúnculas sublinguais de cada lado; os ductos das glândulas mandibular e sublingual monostomática abrem-se lateralmente a essas estruturas (Fig. 25-13). A orientação das projeções das bochechas, palato e língua estimula o movimento do material no interior da boca para trás; esse fato, aliado à insensibilidade geral das partes da boca e à copiosa secreção salivar, pode explicar a frequência com que os bovinos ingerem corpos estranhos juntamente com a forragem. DENTIÇÃO E APARELHO MASTIGATÓRIO As características mais incomuns da dentição dos ruminantes estão relacionadas à ausência de dentes incisivos e caninos na maxila e à assimilação dos caninos aos incisivos na mandíbula. Uma vez que os primeiros dentes pré-molares superiores e inferiores não se desenvolvem, a fórmula dentária para o conjunto temporário pode ser escrita como: Já para o conjunto permanente, como: É habitual referir-se ao dente canino como quarto incisivo ou do canto. Os oito dentes incisivos em frente à mandíbula, opostos ao pulvino dentário quando a boca está fechada, estão arranjados em um crescente contínuo. Cada dente apresenta coroa larga e espatulada que se funde abruptamente a uma raiz estreita, semelhante a uma cavilha; a coroa é assimétrica e, em animais jovens, sobrepõe-se à face lingual do dente medial adjacente (Fig. 25-15). As faces labial convexa e lingual côncava encontram-se inicialmente em uma crista que se torna progressivamente larga, e tem sua dentina cada vez mais exposta devido ao uso contínuo (Figs. 25-19, D-E e 25-16). Ocasionalmente, em animais idosos, as coroas estão totalmente erodidas e somente as raízes estreitas e amplamente espaçadas permanecem na margem da mandíbula. Frequentemente, os incisivos caem antes de atingido desse estágio. Figura 25-19 Mudanças nos incisivos bovinos ao longo dos anos. A, Incisivos decíduos no bezerro neonato. Na secção longitudinal de I1, o esmalte ainda circunda a coroa. B, Dois anos: I1 foi substituído. Os outros incisivos são decíduos. A margem distal da face lingual de I1 está ligeiramente desgastada e a dentina exposta. C, Três anos e meio: I1, I2 e I3 são permanentes; I4 é decíduo. A superfície de oclusão de I2, maior que a de I3, é mostrada em secção longitudinal. D, Cinco anos. E, Oito anos. Notar o tamanho da superfície de oclusão em secção longitudinal. A margem lingual da superfície de oclusão de I1 e I2 é lisa; esses dois dentes são designados “nivelados”. O amplo intervalo ou diastema que separa os dentes incisivos dos dentes molariformes permite que a língua seja facilmente apreendida e, consequentemente, o exame forçado da boca do animal. Os seis dentes molariformes, tanto mandibulares quanto maxilares, aumentam em tamanho em direção caudal e estão arranjados de tal forma que a maioria sofre oclusão com dois dentes opostos. As fileiras de dentes superiores são mais amplamente separadas em relação àquelas da mandíbula; consequentemente, apenas faixas estreitas de dentes opostos estão em contato quando a boca está fechada em oclusão central (Fig. 25-10). As superfícies oclusais inclinam-se transversalmente; a margem bucal está elevada nos dentes maxilares, e a margem lingual está elevada naqueles da mandíbula. As superfícies mastigatórias ou faces de oclusão dos dentes não desgastadas sustentam uma série de cúspides esmaltadas crescentes arranjadas em duas fileiras paralelas ao eixo mandibular/maxilar: os pré-molares possuem um par dessas cúspides e os molares dois. À medida que o desgaste expõe a dentina, a alternância entre tecidos macios e mais resistentes cria uma superfície desnivelada que funciona como um eficiente mecanismo de fragmentação quando os dentes inferiores são movimentados para o interior ao longo de suas contrapartes superiores (Fig. 25-18). O atrito das coroas é compensado pelo seu crescimento contínuo por um determinado tempo; quando o crescimento eventualmente cessa, as raízes estão formadas, e a altura da parte exposta é mantida somente pela extrusão gradual das partes embutidas no alvéolo. Eventualmente, em animais que sobrevivem até idades avançadas, pode ocorrer a erosão completa das coroas. Figura 25-18 Metade esquerda e direita da maxila e mandíbula da vaca, respectivamente. Notar os diferentes formatos dos dentes molariformes superiores e inferiores e o largo diastema (1). A maioria dos dentes temporários assemelha-se muito aos seus substitutos, porém os pré-molares temporários, os quais inicialmente suportam toda a carga da mastigação, são maiores e mais complexos em relação àqueles que os substituem. As datas de erupção dos dentes são mostradas na Tabela 25-1. Tabela 25-1 Datas de Erupção dos Dentes em Bovinos Dente Temporário (Semanas) Dente Permanente (Meses) Incisivo 1 Nascimento-2 18–24 Incisivo 2 Nascimento-2 24–30 Incisivo 3 Nascimento-2 36–42 Incisivo 4 Nascimento-2 42–48 Pré-molar 2 Nascimento-1 24–30 Pré-molar 3 Nascimento-1 18–30 Pré-molar 4 Nascimento-1 20–36 Molar 1 6 Molar 2 12–18 Molar 3 24–30 A estimativa da idade é baseada na data de erupção e no grau de desgaste dos incisivos. Nenhum fator é muito fidedigno. As datas de erupção são influenciadas pela raça e refletem diferenças na taxa geral de maturação. A taxa de desgaste fornece critério mais proveitoso, ainda que, obviamente, dependa da natureza da alimentação. O desgaste converte a margem cortante em uma superfície que gradualmente se alarga. A margem lingual dessa superfície é originalmente chanfrada (devido aos sulcos da parte distal da face lingual da coroa), mas torna-se lisa quando o dente é desgastado; a mudança na característica ocorre aos seis anos no primeiro incisivo e aos sete oito e nove anos no segundo, terceiro e quarto incisivos, respectivamente. Os dentes são então designados “nivelados”. A alteração na coroa coincide com a exposição da raiz (Fig. 25-19, E). As mudanças emfemoral; 7, a. safena; 8, a. femoral caudal; 9, a. poplítea; 10, a. tibial cranial; 11, a. tibial caudal; 12, aa. metatársicas dorsais; 13, aa. plantares medial e lateral, a. metatársica (mais próxima ao osso). A artéria tibial cranial (Fig. 31-6/8), que pode ser considerada a continuação do tronco femoral, segue alojada entre os músculos da perna para alcançar a superfície flexora (dorsal) da articulação do jarrete, sob a cobertura do tendão extensordigital longo. A artéria tibial caudal é de menor significância local. Renomeado como artéria metatársica dorsal (Fig. 31-8/12), o tronco principal emite uma artéria perfurante através do terço proximal do osso metatársico, antes de continuar no sulco dorsal desse osso. Uma segunda artéria perfurante é liberada e segue em direção ao boleto. Os ramos perfurantes se unem às artérias plantares e são também ligados a pequenos vasos mais profundos. As artérias plantares se assemelham aos vasos correspondentes do membro torácico. Um ramo da artéria medial plantar cruza a face plantar do tendão medial do flexor superficial, proximal ao boleto, estando, nessa posição, sujeito a lesões. Esse ramo continua no espaço interdigital, onde se anastomosa com o tronco principal. A anastomose é substancial e se curva ao redor, pela parte de baixo, do ligamento interdigital proximal, onde é encontrada na amputação de um dígito. As faces axiais do dígito são supridas por ramos que se originam da anastomose; as faces abaxiais são supridas por continuações diretas das artérias plantares. As numerosas e frequentes anastomoses de outros ramos secundários fazem com que esses sejam privados de importância individual. As veias são divididas em um sistema satélite, profundo às artérias, e alguns vasos superficiais, os quais seguem trajetos independentes (Fig. 31-9). O sistema superficial compreende as veias safenas medial e lateral, e as suas tributárias. A veia safena lateral (Fig. 31-9/9), maior, se origina a partir de duas tributárias: uma ascende com os tendões extensores e o nervo fibular superficial e cruza o jarrete no aspecto dorsolateral; a outra ascende com a artéria plantar lateral, a partir de uma origem subcutânea sobre o dígito lateral, e segue os tendões flexores sob a fáscia profunda para cruzar a articulação plantarolateralmente. A veia safena lateral (Fig. 31-9/9) eleva uma crista abaixo da pele à medida que cruza a margem caudal da perna e, então, segue a curvatura do gastrocnêmio para, finalmente, se abrir na veia femoral. A veia safena medial (Fig. 31-9/5) também é formada por duas tributárias. A caudal, mais importante, tem sua origem a partir da face abaxial do dígito medial, ascende com a artéria plantar medial e passa o jarrete plantaromedialmente. A veia safena medial ascende juntamente com a artéria safena, palpável na face medial da perna; acima do joelho, mergulha entre os músculos grácil e sartório para se unir à veia femoral. Figura 31-9 Principais veias do membro pélvico bovino. A, Membro direito, vista medial. B, Pé direito, vista dorsolateral. C, Pé esquerdo, vista dorsomedial. 1, v. pudenda externa; 2, v. mamária; 3, v. labial ventral; 4, v. femoral; 5, v. safena medial; 6, v. femoral caudal; 7, v. tibial caudal; 8, v. tibial cranial; 9, v. safena lateral; 10, tributária cranial da v. safena lateral; 11, vv. plantares medial e lateral; 12, v. digital dorsal comum III; 13, v. plantar do dígito lateral; 14, v. plantar do dígito medial. As veias superficiais (Fig. 31-9, B-C) podem ser elevadas por meio de aplicação de torniquete abaixo do jarrete para injeção de anestesia local e consequente dessensibilização dos dígitos. Os linfonodos incluem o linfonodo poplíteo, no interior da fossa poplítea, e o grande linfonodo subilíaco, descrito junto à parede abdominal (Fig. 31-10/9, 10). O pequeno linfonodo coxal, ventral ao túber coxal, e um grupo de linfonodos glúteos, na superfície lateral do ligamento sacroisquiático, estão também comumente presentes (Fig. 31-10/2, 5). Um linfonodo isquiático (Fig. 31-10/6), localizado sobre o ligamento imediatamente dorsal ao forame isquiático menor, pode ser inspecionado na carcaça cortada por meio da incisão do ligamento a partir do interior da pelve. O linfonodo tuberal (Fig. 31-10/7) se situa medial ao túber isquiático, no interior da fossa isquiorretal. Figura 31-10 Linfonodos da pelve e do membro pélvico bovino. 1, linfonodo ilíaco lateral; 2, linfonodo coxal; 3, linfonodos ilíaco medial e sacral; 4, linfonodo inguinal profundo; 5, linfonodo glúteo; 6, linfonodo isquiático; 7, linfonodo tuberal; 8, linfonodo inguinal superficial (mamário); 9, linfonodo poplíteo; 10, linfonodo subilíaco; 11, linha alba. O linfonodo poplíteo recebe a linfa da parte distal do membro, incluindo a maior parte da perna, e a envia aos seus vasos eferentes por meio de duas vias: uma segue o nervo isquiático em direção ao linfonodo isquiático e a outra acompanha os vasos femorais até o grande linfonodo inguinal profundo (Fig. 31-10/4) ao lado da entrada pélvica. O linfonodo subilíaco drena a pele sobre a coxa e o joelho, além do flanco; seus eferentes também seguem, principalmente, para o linfonodoinguinal profundo. Os linfonodos menores têm apenas importância local. OS NERVOS DO MEMBRO PÉLVICO O plexo lombosacral e os seus ramos seguem o padrão comum. O nervo obturatório (L4- 6) cruza a superfície ventral da articulação sacroilíaca e segue medial ao corpo do ílio, passando através do forame obturado para chegar aos músculos adutores da coxa. É vulnerável na posição em que fica contra o osso, sendo a sua compressão durante o parto a causa mais comum de lesão. A condução raramente é completamente interrompida nessa lesão; vacas podem ainda levantar e andar em solo irregular mesmo quando ambos os nervos foram afetados. Entretanto, não podem evitar que seus pés escorreguem para os lados em piso liso e, uma vez deitadas, são frequentemente incapazes de se levantar (Fig. 31-12). Pode-se dizer que o papel da lesão do nervo obturatório na paralisia pós-parto (síndrome da “vaca caída”) tenha, provavelmente, sido exagerado; atenção insuficiente tem sido dada a lesões traumáticas ou isquêmicas dos músculos adutores ventrais à pelve, que são consideradas causas alternativas ou agravantes. Quando em decúbito prolongado, esses músculos podem sofrer por compressão direta ou constrição do seu suprimento de sangue. Figura 31-12 Paralisia bilateral do nervo obturatório. O nervo femoral (L4-6) (Fig. 31-11, A) se ramifica no quadríceps após destacar o ramo safeno, o qual inerva a pele sobre a face medial do membro do meio da coxa até a metade do metatarso. Danos nesse nervo podem ser ocasionalmente observados em bezerros recém-nascidos que foram paridos por meio de forte tração nos membros pélvicos. O membro afetado é incapaz de suportar peso; o diagnóstico é confirmado pela perda de sensibilidade na área específica. Figura 31-11 Nervos do membro pélvico direito bovino. A, Vista medial. B, Pé direito, vista dorsolateral. C, Pé direito, vista plantar. 1, n. obturatório; 2, n. femoral; 3, n. isquiático; 4, n. safeno; 5, n. fibular comum; 6, n. tibial; 7, n. fibular superficial; 7′, ramos laterais e mediais do n. fibular superficial; 8, n. fibular profundo; 9, n. digital dorsal comum III; 10, nn. plantares medial e lateral; 11, n. digital plantar comum III; 12, tributária cranial da veia safena lateral. Deixando a pelve, o nervo isquiático (L6-S2) se curva ao redor das faces dorsal e caudal da articulação do quadril, antes de suprir os músculos caudais da coxa. O seu curso entre o bíceps femoral e o semimembranoso, poucos centímetros caudal ao fêmur, o expõe a risco de lesão por injeção intramuscular pouco cuidadosa. Antes de alcançar o gastronêmio, divide-se em nervos tibial e fibular comum, os quais compartilham a responsabilidade pela inervação de todas as estruturas abaixo do joelho, exceto a pele da face medial, que é território do nervo safeno. O nervo isquiático pode também ser lesado durante o nascimentode um bezerro grande demais ou mal posicionado. Quando a lesão é grave, o membro afetado fica pendente, com as articulações do joelho e do jarrete estendidas, as articulações dos dígitos flexionadas e os pés dobrados. A sensibilidade cutânea é perdida na maior parte da extremidade. O nervo tibial (L6-S2) passa entre as cabeças do gastrocnêmio, destacando ramos para os músculos caudais da perna (Fig. 31-11, A), incluindo aqueles que são seccionados no tratamento da paresia espástica (visto anteriormente). Lesões graves nesse nervo são manifestadas por hiperflexão do jarrete e hiperextensão do boleto, resultando na quartela vertical. Como os extensores digitais não são afetados, os cascos são corretamente assentados quando o animal caminha e continuam a suportar uma parte do peso quando ele descansa. A postura anômala da articulação torna-se exagerada no caminhar. O nervo fibular comum (L6-S2) cruza o gastrocnêmio, sob cobertura do bíceps femoral, para se tornar palpável (e vulnerável) onde passa por trás do ligamento colateral lateral da articulação do joelho. Então, mergulha entre o fibular longo e o extensor digital lateral, antes de se dividir em ramos profundo e superficial. O nervo fibular superficial, maior, cruza profundamente o fibular longo para alcançar o pé. O nervo fibular profundo supre os músculos craniais da perna, entre os quais se aloja, e também alcança o pé. A paralisia do fibular comum é revelada pela hiperextensão do jarrete e hiperflexão das articulações mais distais (Fig. 31-13). Figura 31-13 Vaca com paralisia fibular. A menos que seja passivamente colocado na posição correta, o membro descansa sobre a face dorsal dos dígitos flexionados. O animal, eventualmente, aprende a compensar esse defeito jogando o pé para a frente antes de posicioná-lo no solo. As mesmas considerações aplicadas aos nervos digitais dos membros torácicos são aplicadas aos dos membros pélvicos. Resumidamente, a face dorsal do pé é de domínio do nervo fibular e a face plantar do nervo tibial; existe alguma sobreposição pelos lados (Fig. 31-14). Figura 31-14 Secção transversal da canela esquerda bovina. 1, extensor digital curto; 2, 2′, extensor digital longo; 3, extensor digital lateral; 4, ramos do nervo fibular superficial e tributária cranial da veia safena lateral; 5, nervo fibular profundo e artéria metatársica dorsal (continuação da tibial cranial); 6, osso metatársico; 7, interósseo; 7′, faixa do interósseo para o flexor digital superficial; 8, flexor digital profundo; 9, flexor digital superficial; 10, 11, nervos e vasos plantares mediais e laterais.idades mais avançadas são pouco confiáveis e, portanto, não têm valor. A dentição dos pequenos ruminantes assemelha-se muito à dos bovinos. Os dentes dos ovinos são frequentemente expostos a desgaste muito grosseiro, e a perda dos dentes (“boca quebrada”) é uma razão comum para o descarte de animais idosos. As datas de erupção e substituição dentária em ovinos e caprinos são mostradas na Tabela 25-2. Tabela 25-2 Datas de Erupção dos Dentes de Ovinos e Caprinos Dente Temporário (Semanas) Dente Permanente (Meses) Incisivo 1 Antes do nascimento – 1 (ao nascimento) 12–18 Incisivo 2 Antes do nascimento – 1 (ao nascimento) 18–24 Incisivo 3 Antes do nascimento – 1 (ao nascimento) 30–36 Incisivo 4 Nascimento – 1 semana (1-3) 36–48 Pré-molar 2 Nascimento – 4 semanas (3) 18–24 Pré-molar 3 Nascimento – 4 semanas (3) 18–24 Pré-molar 4 Nascimento – 4 semanas (3) 18–24 Molar 1 3 (3–4) Molar 2 9 (8–10) Molar 3 18 (18–24) De Habermehl KH: Altersbestimmung bei Haus – und Labortieren, ed 2, Berlin, 1975, Blackwell Wissenchafts-Verlag. Devido à largura desigual da arcada dentária superior e inferior, a mastigação é unilateral e, embora ambos os lados sejam utilizados alternadamente, a maior parte dos animais tende a favorecer um deles. A ação mastigatória compreende três fases. Na primeira, a mandíbula é aberta e levada lateralmente; na segunda, é elevada enquanto é deslocada lateralmente; na terceira, realizada mais rápida e vigorosamente, é levada em direção ascendente e medial, de modo que os dentes da fileira inferior se encaixem entre aqueles da fileira superior no momento em que a mandíbula retorna à sua posição de descanso. Os músculos mais importantes para a mastigação são os pterigóideos, do lado ativo, e o masseter, do lado passivo. GLÂNDULAS SALIVARES Os bovinos produzem enorme volume de saliva — talvez 100 L por dia ¾, que contribui para o meio de fermentação dentro das câmaras anteriores do estômago (proventrículos) e auxilia no tamponamento dos ácidos graxos produzidos. A interferência no fluxo normal para as câmaras anteriores do estômago resulta em séria depleção de eletrólitos, os quais são reabsorvidos e reciclados em condições normais. Embora a glândula parótida seja quase sempre continuamente ativa, é menor do que o esperado. Situa-se ventralmente à orelha ao longo da margem caudal do masseter, cobrindo parcialmente o linfonodo parotídeo. Uma fase de crescimento rápido da glândula está sincronizada com o início da digestão ruminal pelo bezerro. O ducto é encontrado na descrição da face (Fig. 25-2/10). A glândula mandibular é consideravelmente maior. Produz uma secreção mista, mas somente quando o animal está se alimentando ou remastigando; o fluxo é mais copioso quando a forragem está seca. A glândula estende-se em um arco na margem interna da mandíbula. A extremidade ventral, palpável, projeta-se abaixo da mandíbula e quase sempre encontra sua contraparte lateral na linha mediana; a extremidade dorsal se localiza na fossa atlantal. O ducto segue abaixo da mucosa oral e abre-se na carúncula sublingual (Fig. 25-13/2). A glândula sublingual possui as duas divisões usuais. A parte polistomática situa-se no assoalho bucal, lateral à língua, e drena através de inúmeras pequenas aberturas ao lado do frênulo. É sobreposta pela parte rostral mais compacta, cujo ducto simples se abre próximo ou junto àquele da glândula mandibular. Muitas glândulas salivares menores estão dispersas abaixo das mucosas labial, bucal, palatina e lingual; aquelas presentes nas bochechas são particularmente bem desenvolvidas. No total, essas glândulas menores contribuem consideravelmente para o volume de secreção. FARINGE A faringe está dividida da maneira típica. A nasofaringe prolonga a cavidade nasal caudalmente. Nos ruminantes é incompletamente dividida por uma prega membranosa mediana (septo faríngeo) que prolonga o septo nasal até a parede faríngea dorsal (Fig. 25-9/7). A extremidade caudal desse septo é espessada por uma massa de tecido linfoide, a tonsila faríngea. Outros agregados linfoides são encontrados nas paredes faríngeas laterais, ao redor das aberturas para as tubas auditivas (Fig. 3-25). A orofaringe é estreita, o que restringe significativamente a quantidade de alimento que pode ser ingerida de uma só vez. O interior de cada parede lateral contém a tonsila palatina que se projeta para fora do lume por um seio tonsilar profundo e ramificado. A tonsila palatina propriamente dita não é visível superficialmente, ao contrário da entrada para o seio (Fig. 25-9/22). A laringofaringe afila-se caudalmente antes de se unir ao esôfago. Seu lume é normalmente mantido fechado pelos músculos que a recobrem, sendo que o principal músculo envolvido, o cricofaríngeo (Fig. 25-20/7), é por vezes descrito como esfíncter cranial do esôfago. Os recessos piriformes de cada lado da entrada da laringe permitem o escoamento contínuo da saliva para o esôfago sem necessidade de deglutição ativa. Figura 25-20 Conexões da faringe e laringe com a base do crânio e a língua. 1, raiz da língua; 2, estiloglosso; 3, hioglosso; 4, constritor faríngeo rostral; 5, constritor faríngeo médio; 6, 7, constritores faríngeos caudais (tireofaríngeo e cricofaríngeo); 8, estilofaríngeo caudal; 9, estiloióideo; 10, tensor e levantador do véu palatino; 11, pterigóideo lateral; 11′, remanescente do pterigóideo medial; 12, linfonodo retrofaríngeo medial; 13, esôfago; 14, traqueia; 15, tireoióideo; 16, esternotireóideo. A faringe pode ser palpada externamente ou através da boca, e seu interior também pode ser examinado utilizando um espéculo oral. A tumefação do tecido linfoide da parede faríngea pode interferir com a passagem de alimento e/ou ar. A faringe também pode ser comprimida quando os linfonodos retrofaríngeos mediais adjacentes estão inflamados (Fig. 25-20/12). A faringe recebe e transmite o bolo alimentar regurgitado para a boca. Também recebe o gás que é eructado das câmaras anteriores do estômago em grande quantidade; parte desse gás é perdida para o exterior, mas, quando a comunicação com a nasofaringe é fechada, parte significativa é direcionada para o pulmão. O significado desse fenômeno não é completamente compreendido; em animais com certos tipos de regimes de arraçoamento, a absorção de gás eructado pode causar a contaminação do leite e doenças pulmonares. LARINGE A laringe está em grande parte situada entre os ramos mandibulares, mas estende-se em direção à parte ventral do pescoço, na qual pode ser palpada. A apreciação das suas características palpáveis requer a correta identificação de três estruturas esqueléticas situadas na linha mediana: o basi-hióideo e as cartilagens tireóidea e cricóidea. Aqueles familiarizados com a anatomia superficial do cavalo podem experimentar uma incerteza inicial quando estiverem examinando pela primeira vez um bovino. A diferença entre o espaçamento das proeminências ventrais é devida à forma da cartilagem tireóidea dos bovinos, a qual é completa em sua parte ventral e mais saliente em direção à sua parte caudoventral. A laringe dos bovinos demonstra outras poucas peculiaridades dignas de nota. A entrada, a qual pode ser inspecionada com o auxílio de um laringoscópio, é limitada pela margem baixa e curva da epiglote e pelas proeminentes extensões corniculadas das cartilagens aritenóideas (Fig. 25-9/15, 16). A intubação é dificultada por uma ligeira deflexão caudal da entrada (Fig. 25-9). O vestíbulo não possui ventrículo mediano ou lateral e suas paredes laterais inclinam-se suavemente até a glote. O tamanho da fenda glótica varia com a fase da respiração; porém, quando na respiração calma, as mudanças não são pronunciadas. Por ser mais estreita do que o esperado, o calibre da sonda endotraqueal que pode ser passada é limitado. A relação com os linfonodos retrofaríngeos mediais é importante; quando muito tumefeitos podem comprimir seriamente a laringe, bem como a faringe (Fig. 25- 9/18).OLHO A margem orbital projeta-se acima das superfícies circunjacentes. A cavidade orbital é ampla, embora reduzida ventrorrostralmente pela protuberante e frágil bolha lacrimal de paredes finas, na qual o seio maxilar se estende. Os eixos orbitais divergem ascendente, externa e rostralmente, e juntos estão opostos a um ângulo de aproximadamente 120°. Por conseguinte, fica claro que em ungulados o campo de visão monocular é amplo, e o binocular, menor. As pálpebras são sustentadas por placas de tecido conjuntivo denso ou “tarsos”. A pele adere firmemente ao músculo orbicular; entretanto, em qualquer outro local sua fixação é frouxa e, quando o olho está aberto, a pálpebra torna-se enrugada. Os cílios são longos e mais densamente espalhados na pálpebra superior. Os músculos das pálpebras incluem o frontal, que se estende da fronte até o interior da pálpebra superior, e o malar, que irradia da pálpebra inferior sobre a face. São inervados pelo nervo facial, principalmente através do nervo auriculopalpebral. Na paralisia facial, o músculo levantador, inervado pelo nervo oculomotor, permanece ativo atenuando os efeitos. A conjuntiva contém considerável quantidade de agregados de tecido linfoide dispersos em sua parte palpebral. As glândulas usuais estão presentes dentro das pálpebras. As glândulas tarsais (meibomianas) são as maiores e ocupam as camadas profundas do tarso; podem ser vistas através da conjuntiva da pálpebra evertida. O ângulo medial da abertura palpebral forma uma zona que contém a carúncula lacrimal carnosa. A terceira pálpebra reveste uma parte variável do bulbo. A cartilagem de suporte fixa-se medialmente ao bulbo do olho, local onde se associa a glândulas lacrimais acessórias superficiais e profundas. Apenas uma pequena parte da terceira pálpebra é normalmente visível. Grande parte é vista quando o bulbo do olho é retraído ou pressionado para o interior da cavidade orbital; isso desloca o tecido adiposo retrobulbar, que empurra a cartilagem e, consequentemente, a terceira pálpebra para fora. A glândula lacrimal, lobulada e bipartida, situa-se dorsolateralmente ao bulbo do olho. Drena para o interior do fórnix conjuntival superior por meio de numerosos ductos de calibres variados. As lágrimas são recolhidas pela carúncula lacrimal antes de adentrar o ponto lacrimal, semelhante à fenda, que leva ao saco lacrimal. O saco situa-se dentro de uma depressão na parte cranial da parede orbital, adelgaçando-se em direção ao ducto nasolacrimal. O último cruza o seio maxilar para, em seguida, percorrer a parede nasal lateral e finalmente drenar para o vestíbulo nasal. Os músculos extrínsecos, que não exibem características especialmente notáveis, são demonstrados esquematicamente na Figura 9-19. O bulbo do olho é pequeno em relação à órbita. A esclera é fina e localmente azulada devido à negra camada coroide subjacente. Alguma pigmentação, especialmente em direção à junção com a córnea, é comum e tende a aumentar com a idade. A córnea é ovoide e espessa, especialmente em direção à sua margem, sendo sua extremidade lateral mais aguda. Quando contraída, a pupila bovina é lateralmente ampliada, porém assume formato circular quando dilatada. As margens superior e inferior são interrompidas por projeções irregulares denominadas grânulos irídicos, os quais são menores quando comparados aos dos equinos; são mais proeminentes ao longo da margem superior. Os músculos ciliares são pobremente desenvolvidos, e a capacidade de acomodação é limitada na mesma proporção. As camadas vascular e coroidocapilar da coroide são separadas na parte caudal do bulbo por uma estrutura reflexiva, colorida e brilhante denominada tapete (Fig. 25- 21). O tapete é triangular, e sua base situa-se diretamente acima do disco óptico. As partes periféricas são mais coloridas e exibem um arranjo de cores azuis e verdes metálicas, enquanto a área próxima ao disco é avermelhada, especialmente nos bezerros. O exame oftalmoscópico do tapete revela a presença de partículas negras dispersas por onde entram os capilares, além de grandes vasos que aparecem como linhas vermelhas. O disco óptico situa-se lateroventralmente ao polo posterior do olho e dele irradiam de maneira cruzada quatro pares de artérias e veias. A veia dorsal é especialmente grande e entrelaçada por uma artéria helicoidal. Um ponto claro no centro do disco indica o vestígio da artéria hialóidea; como é de se esperar, o remanescente é mais óbvio no bezerro recém-nascido. A mácula da retina consiste em duas partes mal definidas: uma área redonda situada dorsolateralmente ao disco óptico relacionada à visão binocular e uma faixa horizontal abaixo do tapete relacionada à visão monocular. Suas extensões são sugeridas por sua pobre vascularização. Figura 25-21 A, Fundo do olho da vaca. B, Fundo do olho de um caprino. A evisceração da órbita pode às vezes ser realizada com anestesia local. A técnica anestésica, ainda que simples, exige precisão, pois requer a deposição da solução anestésica no fundo da órbita, mais precisamente pelo forâmen único (forâmen orbitorredondo) através do qual emergem os nervos que suprem as estruturas da periórbita. Os nervos são bloqueados no local onde estão arranjados em conjunto antes de dispersarem-se para os seus destinos. O movimento das pálpebras pode ser impedido da maneira usual, isto é, pelo bloqueio do ramo palpebral do nervo facial no local onde este cruza o arco zigomático (Fig. 25-6/3). PARTE VENTRAL DO PESCOÇO As estruturas cervicais dorsais são descritas com a coluna vertebral (Capítulo 26). A pele da parte ventral é livremente móvel e quantitativamente redundante; quando o animal baixa a cabeça em direção ao solo, torna-se dobrada e enrugada. A parte caudal do pescoço suporta a grande barbela que continua sobre o peito entre os membros torácicos (Fig. 25- 22). Apesar das alegações de que esse aumento na área de superfície é importante na dissipação de calor nos zebuínos em particular, há escassa evidência para crer em tais afirmações. Os zebuínos possuem glândulas sudoríparas maiores, mais numerosas e saculiformes nessa e em outras regiões quando comparados aos bovinos de origem europeia. Figura 25-22 Grande prega cutânea mediana (barbela, seta) na extremidade caudal do pescoço de uma vaca Watusi. O sulco sobre o trajeto da veia jugular externa geralmente é bem evidente, ao menos em vacas. É limitado dorsalmente pelo braquiocefálico (parte mastóidea do m. cleidocefálico) que se estende do membro até o crânio e ventralmente por parte do esternocefálico (parte mandibular) que se estende entre o manúbrio do esterno e o ângulo da mandíbula. Exceto na parte mais caudal do pescoço, uma segunda parte do esternocefálico (parte mastóidea) forma o assoalho do sulco e proporciona uma separação substancial entre a veia e a artéria carótida comum (Fig. 25-23/7). A veia jugular externa é facilmente evidenciada para a aplicação de injeções e a obtenção de amostras sanguíneas porque apenas a parte caudal é recoberta pelo músculo cutâneo. A veia é formada, caudalmente à glândula parótida, pela confluência das tributárias linguofacial e maxilar (Fig. 25-2). É a principal via de drenagem da cabeça e pescoço, mas é auxiliada pela veia jugular interna, a veia vertebral e o plexo vertebral interno. Variações na proeminência da veia podem refletir condições torácicas internas. A leve ondulação, concomitantemente à respiração, se deve à mudança na pressão intratorácica. A pulsação concomitante com o batimento cardíaco em bovinos hígidos indica a recorrência da sístole atrial; em outros animais indica incompetência da valva atrioventricular. O pulso jugular fisiológico não persiste após a compressão da parte cranial da veia, porém o patológico sim. Figura 25-23 Secção transversal diretamente na metade do pescoço bovino. 1, 2, ligamento da nuca (funículo e lâmina da nuca); 3, vértebra; 4, longo do pescoço; 4′, longo da cabeça; 5, 5′, cleidocefálico (braquiocefálico); 5, parte occipital; 5′, parte mastóidea; 6, 7, esternocefálico;6, parte mandibular; 7, parte mastóidea; 8, esternoióideo e esternotireóideo combinados; 9, timo e veia jugular interna; 10, nervo laríngeo recorrente; 11, artéria carótida comum; 12, tronco vagossimpático; 13, veia jugular externa; 14, traqueia; 15, esôfago; 16, omotransversário; 17, trapézio; 18, rombóideo. Os músculos superficiais cercam o espaço que contém as vísceras cervicais, os nervos e vasos que fazem seu caminho entre o tórax e a cabeça (Fig. 25-23). Todos esses órgãos são revestidos por resistentes fáscias e unidos por tecido conjuntivo frouxo. A traqueia pode ser identificada por palpação profunda e é mais facilmente apreciada na extremidade cranial do pescoço, entre os divergentes músculos esternocefálicos; mesmo nesse local não está posicionada diretamente no espaço subcutâneo porque os músculos esternotiroióideos, delgados e em forma de tira, seguem por toda a sua extensão. A traqueia (Fig. 25-23/14) possui área seccional pequena e sua profundidade é ligeiramente maior que sua largura; sua forma à torna suscetível ao estreitamento por pressão local. A simetria de suas relações é perturbada pelo curso tortuoso do esôfago. Sua estrutura é notável, principalmente pela concentração de tecido linfoide no espaço retromucoso dorsal (externamente ao músculo traqueal, mas dentro dos anéis cartilagíneos). Embora o esôfago não possa ser identificado por palpação, sua posição torna-se evidente quando o animal deglute devido ao rápido movimento peristáltico ao longo de seu trajeto. Em seu trajeto cervical, o esôfago segue gradualmente à esquerda da traqueia apenas para insinuar-se de volta a uma posição mais dorsal à medida que se aproxima do tórax. Entretanto, sua posição varia de acordo com a postura; seu trajeto é notavelmente reto quando o pescoço é estendido. As relações na parte média do pescoço são mostradas na Figura 25-23. O esôfago do ruminante é muito distensível, e sua aparência ampla no cadáver confere uma impressão errônea da condição usual em vida. A mucosa é notavelmente insensível, razão pela qual os bovinos raramente apresentam sinais de dor pela passagem de sonda gástrica ou esofágica. Embora o transporte seja normalmente rápido em ambas as direções, grandes pedaços de alimento comumente alojam-se no esôfago. Os locais preferenciais são na origem da faringe, na entrada do tórax e no nível da bifurcação traqueal. A glândula tireoide é quase completamente dividida em dois lobos, cada qual semelhante a uma pirâmide invertida e situados lateralmente sobre a cartilagem cricóidea. São tenuemente unidos por um istmo que cruza o segundo anel traqueal ventralmente. São finamente granulares e cor vermelho-tijolo no adulto, porém mais pálidos nos bezerros (Fig. 6-4, C). As glândulas paratireoides são pequenas (cerca de 8-10 mm) e frequentemente difíceis de se encontrar devido ao seu formato irregular e posicionamento inconstante. Podem estar imersas em outras estruturas — usualmente a tireoide, o timo e a glândula mandibular. A paratireoide externa situa-se com mais frequência cranialmente à tireoide, porém caudalmente à bifurcação da carótida; a interna é talvez mais frequentemente imersa na tireoide ou localizada entre esta e a traqueia. Têm sido confundidas com linfonodos por se assemelharem superficialmente a eles. O timo é grande e lobulado, estendendo-se da laringe ao pericárdio em animais jovens (Fig. 25-24/1,2). Sua parte cervical está conectada ao timo torácico por um istmo estreito ventral à traqueia. A parte cervical compreende dois cornos que se adelgaçam sobre a face lateral da traqueia, possivelmente alcançando a laringe; a extremidade cranial pode ou parece ser isolada e fragmentada, e mais proximamente associada com o linfonodo retrofaríngeo medial e também às glândulas mandibular e paratireoide. O timo cresce rapidamente durante os primeiros seis ou nove meses da vida pós-natal, embora alcance precocemente seu maior tamanho relativo. De fato, a involução pode iniciar-se tão cedo quanto na oitava semana após o nascimento. O tempo de regressão varia, e o timo, particularmente a parte torácica, pode ainda permanecer muito grande em animais com vários anos de idade. Em última instância, o istmo e a parte cervical desaparecem quase por completo. O timo de bezerros jovens é rosa-brilhante ou mesmo vermelho, porém o órgão torna-se mais claro com a idade; a consistência torna-se mais firme conforme o tecido ativo é progressivamente substituído por tecido fibroso e adiposo. Figura 25-24 O timo no bezerro recém-nascido. 1, parte cervical do timo; 2, parte torácica do timo; 3, traqueia; 4, glândula tireoide; 5, glândula mandibular; 6, linfonodo mandibular; 7, glândula parótida; 8, primeira costela. A artéria carótida comum percorre a traqueia dorsolateralmente dentro de uma bainha de fáscia, compartilhada com o tronco vagossimpático. A veia jugular interna e o nervo laríngeo recorrente estão intimamente relacionados à bainha do lado direito; o esôfago interpõe-se à esquerda. A artéria termina sobre a parede faríngea lateral, local onde dá origem a uma pequena artéria occipital; o tronco principal continua (sem alteração no trajeto) como artéria carótida externa. No feto, uma artéria carótida interna surge juntamente com a artéria occipital, porém a parte proximal à rede admirável (Fig. 7- 35) começa a fechar-se antes mesmo do nascimento; a obliteração completa é usualmente alcançada alguns meses após o nascimento, embora um lúmen residual por vezes persista por um ano ou dois (Fig. 25-25/4). A artéria carótida comum não envia ramos de importância individual antes de seu fim. A pulsação na carótida comum pode, às vezes, ser detectada quando a artéria é pressionada contra os processos transversos das vértebras. Figura 25-25 Ra os da artéria carótida comum esquerda. 1, a. carótida comum; 2, a. occipital; 3, a. palatina ascendente; 4, remanescente da a. carótida interna; 5, a. meníngea medial; 6, a. carótida externa; 7, tronco linguofacial; 8, a. lingual; 9, a. facial; 10, a. lingual profunda; 11, a. sublingual; 12, a. submental; 13, aa. labiais inferiores; 14, a. labial superior; 15, forâmen infraorbital; 16, a. auricular caudal; 17, ramo massetérico; 18, a. temporal superficial; 19, a. facial transversa; 20, a. córnea; 21, a. maxilar; 22, a. alveolar inferior; 23, a. mental; 24, ramos rostrais e caudais para a rede admirável; 25, a. malar; 26, a. angular do olho; 27, a. nasal lateral caudal; 28, a. nasal dorsal; 29, a. infraorbital; 30, a. esfenopalatina; 31, aa. palatinas maior e menor. Neste ponto, uma breve menção com relação ao suprimento sanguíneo para o encéfalo deve ser feita, não devido a qualquer relevância clínica mas por sua relação com as controversas técnicas de abate judaica e muçulmana, nas quais os animais são mortos em ritual através de uma incisão profunda do pescoço sem atordoamento preliminar. O encéfalo é suprido por uma combinação de vasos que nutrem plexos arteriais muito complexos, dentro da cavidade craniana, externos à dura-máter e submersos dentro dos seios venosos cavernosos e seus associados. Esses plexos, ou redes admiráveis, são formados por muitas anastomoses arteriais tortuosas. As redes recebem ramos provenientes de diversas origens em sua parte periférica (Fig. 7-35); no lado distal ou cerebral, a rede estreita-se em um tronco emissário que atravessa a dura-máter para formar o círculo arterial cerebral com seus ramos. O círculo situa-se na face ventral do encéfalo e fornece ramos de acordo com o padrão convencional. A artéria basilar, que corre caudalmente sobre a medula oblonga e continua ao longo da medula espinhal, é uma contribuinte do círculo em bovinos, mas em ovinos conduz o sangue a partir dele. Embora difícil de explicar em termos hemodinâmicos, todas as partes do encéfalo bovino são supridas por uma mistura de sangue carotídeo e vertebral, apesar de na espécie ovina o sangue vertebral estar restrito à parte caudal do tronco encefálico. Essas diferenças são pertinentes em relação à técnica do ritual de abateporque as artérias vertebrais são poupadas quando o tronco carotídeo comum é cortado. A teoria de que a redução abrupta da pressão arterial cerebral leva a um estado de inconsciência quase imediato tem sido questionada. O tronco vagossimpático não exibe características dignas de nota. O vago e os componentes simpáticos perdem sua associação e relação antes de entrarem no tórax. Seus trajetos e conexões posteriores são descritos em outro local. Os nervos laríngeos recorrentes são semelhantes aos das outras espécies. ESTRUTURAS LINFÁTICAS DA CABEÇA E PESCOÇO Os linfonodos mais importantes da cabeça foram mencionados em seus contextos topográficos; os demais linfonodos menores, usualmente encontrados medialmente ao ramo mandibular, são de pouco interesse prático. O linfonodo parotídeo (Fig. 25-2/13) recebe a linfa da pele que recobre a maior parte da cabeça, especialmente as áreas mais dorsais, além de drenar a maxila, a articulação temporomandibular, os músculos da mastigação, a cavidade nasal, o palato duro, a órbita e a região relacionada com a orelha externa. Os vasos eferentes seguem para o linfonodo retrofaríngeo lateral. O território do linfonodo mandibular (Fig. 25-2/20) sobrepõe-se àquele dos linfonodos retrofaríngeos medial e parotídeo. Os principais vasos aferentes vêm da pele e estruturas subjacentes da parte ventral da cabeça e da parte rostral da boca, incluindo o ápice da língua. Os vasos eferentes drenam para o linfonodo retrofaríngeo lateral. O grande linfonodo retrofaríngeo medial situa-se entre a faringe e os músculos abaixo da base do crânio, imerso em tecido adiposo (Figs. 25-9/18 e 25-20/12). Drena a linfa da maioria das estruturas mais profundas da cabeça, incluindo as cavidades nasal e oral, a faringe, a laringe, o crânio, os músculos da mandíbula e maxila e também da parte ventral da extremidade cranial do pescoço. Os vasos eferentes novamente drenam para o linfonodo retrofaríngeo lateral, que funciona como centro coletor de toda a cabeça (Fig. 25-26/4). Esse linfonodo lateral, situado abaixo da asa do atlas (Fig. 25-2/14), também atua como centro primário para outros vasos linfáticos adicionais que drenam estruturas profundas da cabeça. O linfonodo retrofaríngeo lateral canaliza o fluxo de saída para um grande vaso simples denominado ducto traqueal, que percorre o pescoço em direção caudal no interior da fáscia que recobre a face lateral da traqueia. O ducto acaba se unindo ao ducto torácico ou abre-se em uma ou outra veia na entrada do tórax; frequentemente, o ducto traqueal esquerdo abre no ducto torácico enquanto seu equivalente direito drena diretamente na maior tributária da veia cava cranial (Fig. 25-26/9). Figura 25-26 Drenagem linfática da cabeça e do pescoço. 1, linfonodo mandibular; 2, linfonodo parotídeo; 3, linfonodo retrofaríngeo medial; 4, linfonodo retrofaríngeo lateral; 5, linfonodos cervicais profundos; 6, linfonodos cervicais superficiais; 7, ducto traqueal; 8, ducto torácico; 9, área na qual os vasos linfáticos drenam nas veias. Uma série de pequenos linfonodos cervicais profundos está disseminada ao longo do trajeto de cada ducto traqueal, supostamente divididos em grupos cranial, médio e caudal. São responsáveis por receber a linfa de estruturas internas do espaço visceral cervical. A linfa é transmitida ao ducto traqueal, direta ou indiretamente após a passagem seriada por diversos linfonodos do grupo. Usualmente, um ou mais dos linfonodos mais caudais recebem os vasos eferentes do centro linfático axilar do membro torácico, bem como de troncos menores advindos diretamente do peito. O linfonodo cervical superficial (pré-escapular) (Fig. 25-26/6) se situa na parte mais caudal do pescoço à frente da escápula e se apoia nos músculos profundos sobre as vértebras cervicais; é facilmente palpável, apesar de estar coberto pelo omotransversário. Drena a pele e músculos subjacentes de uma área muito ampla que se estende da parte média do pescoço à parte caudal do tórax, incluindo a parte proximal do membro torácico. O fluxo ao longo do linfonodo é compartimentalizado; partes particulares do linfonodo estão relacionadas a diferentes campos de drenagem. Os grandes vasos eferentes abrem-se variavelmente nos troncos linfáticos e venosos maiores das regiões vizinhas. Qualquer um dos linfonodos principais pode estar duplicado. 26 Pescoço, Dorso a Cauda dos Ruminantes CONFORMAÇÃO E CARACTERÍSTICAS DE SUPERFÍCIE O dorso e o lombo são moldados sobre a estrutura das vértebras torácicas e lombares. O lombo é nitidamente dividido dos flancos pelas proeminentes extremidades dos processos transversos lombares, mas os limites do dorso não podem ser definidos tão precisamente, pois este se une suavemente com a parede lateral do tórax e incorpora as linhas mais dorsais das escápulas com suas cartilagens e coberturas musculares. É conveniente incluir neste capítulo algumas observações que são necessárias na região sacral dorsal, que se une aos quartos e à raiz da cauda. No animal em estação, o contorno dorsal é ligeiramente elevado sobre a cernelha, mas, exceto por isso, segue uma linha razoavelmente reta desde imediatamente caudal ao crânio até a raiz da cauda (Fig. 26-1).* A linha do pescoço, que é baseada na parte funicular do ligamento da nuca, varia, evidentemente, com a movimentação da cabeça. Figura 26-1 A, O esqueleto e os ligamentos da nuca e supraespinhal; a maioria das partes numeradas é palpável. B, Vaca em boa condição corporal. 1,2 Ligamento da nuca; 1, funículo nucal; 2, lâmina nucal; 3, ligamento supraespinhal; 4, atlas; 5, última vértebra cervical (C7); 6, décima terceira costela; 7, primeira vértebra lombar (L1); 8, última vértebra lombar (L6); 9, sacro; 10, primeira vértebra caudal; 11, espinha da escápula; 12, tubérculo maior; 13, 14, características palpáveis na articulação do cotovelo; 13, epicôndilo lateral; 14, olécrana; 15, túber coxal; 16, túber isquiático; 17, trocânter maior; 18, 19, 20, características palpáveis na articulação do joelho; 18, côndilo lateral do fêmur; 19, côndilo lateral da tíbia e remanescente da fíbula; 20, patela. A, M. masseter; B, veia jugular; C, peito; D, carpo; E, fossa paralombar; F, prega do flanco; G, úbere; H, articulação do jarrete; I, calcâneo (ponta do jarrete); J, veia safena lateral. O contorno dorsal do tronco é marcado pelos ápices dos processos espinhosos das vértebras, muitos dos quais podem ser palpados separadamente. A identificação de ossos individuais é mais confiável quando iniciada no amplo espaço entre o processo espinhoso da última vértebra lombar e a margem cranial inclinada da crista sacral mediana. A crista sacral pode ser acompanhada caudalmente até ser sucedida pelas projeções separadas dos processos espinhosos das vértebras caudais; alguma dúvida sobre a identificação desses processos pode ser resolvida movendo-se a cauda para cima e para baixo para descobrir a articulação de grande mobilidade entre o primeiro e o segundo ossos da cauda. Certamente a identificação do primeiro espaço intercaudal tem importância especial, pois é o ponto de injeção de anestésico local na anestesia epidural “baixa” (pág. 667). Ocasionalmente, a raiz da cauda é elevada, especialmente em vacas durante o estro. Dirigindo-se cranialmente a partir do espaço lombossacral, os processos espinhosos lombares são facilmente distintos em animais magros. Enumerá-los torna-se mais difícil sobre a parte caudal do tórax onde muitos processos convergem, e a contagem é completamente perdida onde as vértebras se tornam inclusas entre as cartilagens escapulares. O primeiro processo espinhoso torácico localiza-se cranialmente à escápula, onde pode ser sentido à palpação profunda mesmo não estando próximo à pele. As vértebras cervicais não podem ser alcançadas por cima, mas suas posições gerais são detectadas por palpação lateral. Os processos transversos são bem desenvolvidos e divididos em duas partes, das quais a ventral é muito grande; isto é bastante óbvio na sexta vértebra cervical. Não obstante,a identificação individual destes ossos é difícil até que se observe uma referência inconfundível, a asa do atlas. Características adicionais que podem ser selecionadas na região dos quartos posteriores incluem os túberes sacrais salientes da pelve, que se encontram a cada lado do espaço lombossacral, e as robustas cristas ilíacas, que unem essas projeções aos túberes coxais. As cristas ilíacas se elevam sobre as estruturas circundantes e são cruzadas por prolongamentos craniais da musculatura glútea. A cabeça é mantida mais elevada em ovelhas e cabras; estas espécies também tem a garupa mais inclinada (Fig. 26-2). Figura 26-2 O esqueleto da cabra. A maioria das partes numeradas pode ser palpada. 1, Atlas; 2, última vértebra cervical (C7); 3, última costela; 4, primeira vértebra lombar (L1); 5, última vértebra lombar (L7); 6, sacro; 7, acrômio; 8, tubérculo maior; 9, olécrano; 10, epicôndilo lateral; 11, túber coxal; 12, túber isquiático; 13, trocânter maior; 14, patela; 15, côndilo lateral da tíbia; 16, calcâneo. A COLUNA VERTEBRAL O eixo vertebral segue paralelo à linha da pele no lombo e na parte caudal do dorso; entretanto, mais cranialmente, é inclinado ventralmente. Alcança o nível mais baixo na entrada do tórax; uma flexura abrupta neste local posiciona o eixo em um trajeto que gradualmente o devolve para perto da margem dorsal à medida que ascende para o pescoço (Fig. 26-1). O esqueleto vertebral e as articulações seguem o padrão habitual e algumas características precisam ser mencionadas. A fórmula vertebral é C7, T13, L6, S5, Cd 18- 20 em bovinos; C7, T13, L6 (7), S4 em ovelhas ou S5 em caprinos; e Cd 16-18 em ambos pequenos ruminantes. A grande mobilidade do pescoço permite ao animal abaixar e levantar a cabeça e alcançar as laterais do corpo com a língua. A maioria dos movimentos cervicais representa o somatório de pequenas modificações em várias articulações, mas a adoção da posição de pastejo requer um considerável alinhamento da articulação cervicotorácica, onde as vértebras do pescoço são alinhadas às vértebras do tórax. Embora os movimentos da região torácica sejam limitados pelo gradil costal, a maior flexibilidade do tronco é encontrada cranial no nível do diafragma. Atrás dele, a movimentação é muito restrita, especialmente na direção lateral, pelo ajuste íntimo entre os processos articulares e pelas firmes cápsulas articulares que os envolvem. Maior mobilidade é encontrada novamente na articulação lombossacral. A geralmente limitada flexibilidade da coluna vertebral é associada ao relativo encurtamento dos discos vertebrais, que em bovinos contribuem apenas com 10% do comprimento da coluna. Os discos têm a conformação usual e são sujeitos às mesmas alterações degenerativas que ocorrem nas demais espécies. O disco lombossacral é mais comumente e grosseiramente lesionado devido ao grande estresse a que é submetido pela mobilidade especial da articulação lombossacral. Lesões de disco são, às vezes, acompanhadas por alterações nas articulações sinoviais lombossacrais e pela formação anormal de crescimentos ósseos (osteófitos) a partir das margens ventrais dos corpos vertebrais. Algumas dessas alterações comuns tem importância particular em touros, pois podem levam à inabilidade para cobertura. O elástico ligamento da nuca (Fig. 26-1/1,2) consiste em duas partes, como no equino. A parte funicular, que se estende do occipital até os maiores processos espinhosos da cernelha, é um cordão pareado redondo na seção transversal de sua fixação occipital, mas que se alarga no sentido caudal. Fixa-se nas laterais dos primeiros processos espinhosos torácicos, perto de seus ápices; caudal a isto, se aproxima e se funde com seu contralateral para formar o ligamento supraespinhal que recobre os processos ósseos. Os músculos romboide e trapézio cobrem a parte funicular do ligamento, em contraste com o arranjo observado nos equinos (Fig. 25-23/1). A parte laminar é dividida em uma rede pareada de fibras que se estende entre a parte funicular e o segundo e o quarto ossos cervicais, e em uma camada ímpar que preenche o triângulo entre o primeiro processo espinhoso torácico e o último ou os dois últimos processos espinhosos cervicais. Além de aliviar os músculos cervicais, o ligamento da nuca tem uma significância ocasional na determinação da rota seguida por uma infecção. Não existe bolsa nucal cranial, mas uma bolsa supraespinhal está frequentemente presente entre o ligamento e os primeiros processos espinhosos torácicos. O CANAL VERTEBRAL O canal vertebral é mais amplo dentro do atlas e estreita-se rapidamente dentro do sacro; entre estas regiões, é mais dilatado onde contém as intumescências da medula espinal que dão origem aos nervos que formam os plexos dos membros. O acesso ao canal vertebral é frequentemente necessário para coleta de líquido cerebroespinal da cavidade subaracnóidea ou para introduzir anestésico local no espaço epidural. Agentes terapêuticos também são, ocasionalmente, injetados nestes espaços. O exame do esqueleto mostra que, embora a entrada por qualquer um dos espaços interarcuais teoricamente seja possível, será mais fácil nas amplas aberturas entre o atlas e o crânio, na articulação lombossacral e entre as duas primeiras vértebras da cauda (Fig. 26-3). O primeiro espaço intercaudal é convenientemente grande, medindo aproximadamente 2 × 2 cm. A maioria dos outros espaços interarcuais mede apenas alguns milímetros em cada direção, e como eles se situam numa profundidade considerável abaixo da pele, não são facilmente localizados. Injeções epidurais através dos espaços interarcuais interlombares craniais (especialmente o primeiro) são ocasionalmente realizadas para se obter anestesia local do flanco. Uma abordagem ligeiramente oblíqua de um ponto de entrada laterocaudal ao espaço alvo minimiza o risco de a agulha atingir o osso. Figura 26-3 Parte caudal do canal vertebral bovino e seu conteúdo, esquemático. Locais de injeção epidural estão indicados por agulhas. 1, Primeira vértebra lombar; 1′, agulha em posição para anestesia de flanco; 2, última vértebra lombar (L6); 3, sacro; 4, agulha no espaço lombossacral; 5, primeira vértebra caudal; 6, agulha entre a primeira e a segunda vértebras caudais (bloqueio de cauda); 7, espaço epidural; 8, dura-máter; 9, cavidade subaracnóidea; 10, medula espinal; 11, canal central; 12, disco intervertebral. A medula alcança a primeira vértebra sacral em bovinos adultos e distância consideravelmente maior em jovens bezerros, talvez até a metade caudal do sacro. Ela pode ocupar quase todo o sacro em espécies de pequenos ruminantes. Divide-se em oito segmentos cervicais, 13 torácicos, seis lombares, cinco sacrais e (geralmente) 5 caudais. Os oito segmentos cervicais estão acomodados no interior das sete vértebras do pescoço, enquanto cada segmento torácico e os lombares craniais mostram uma correspondência quase exata com o osso de mesma denominação. O deslocamento cranial da parte mais caudal da medula deixa o canal dentro da última vértebra lombar disponível para ser ocupado pelos curtos e condensados segmentos sacrais (Fig. 26-4). A cavidade subaracnóidea se estende satisfatoriamente dentro do sacro e suas dimensões são suficientemente generosas para fazer da punção subaracnóidea um procedimento relativamente simples no nível lombossacral (Fig. 26-3/4). Figura 26-4 Relação entre as vértebras da extremidade caudal da medula espinal e seus ramos, vista dorsal esquemática. Note a posição dos gânglios espinais (2). O esquema indica a situação em bovino adulto. A medula se estende até a segunda ou, por vezes, até a terceira vértebra sacral em bezerros recém-nascidos e em ovelhas e cabras adultas. 1, Medula espinal; 2, gânglio espinhal; 3, segundo nervo espinal lombar; 4, secção do arco da segunda vértebra lombar; 5, sexto nervo lombar; 6, secção do arco da sexta vértebra lombar; 7, cauda equina; 8, secção do sacro; 9, secção do arco da segunda vértebra caudal. O plexo vertebral interno (Fig. 26-5/1) apresenta