Prévia do material em texto
A escola francesa
de historiografia da
filosofia
FUNDAClac\6n de Edltortales Univcrsitarlas
de Am~rica Latina y el Carthe
Editora afil iada:
I
Assoc1aciio Brasllclra de
Edltoras UnJvcrsltBrlas
· Ao Kekao (in memoriam) e a Ez inha.
A Drizoca e ao nosso pequeno Nicolau.
AGRADECIMENTOS
A Coordena1 \I i, ol6gica que vinha representada pelos 'ide6logos' franceses, por um J ouffroy ou
11111 ( '.(1usin . A psicologia ideol6gica era, para ele, nada mais do que uma metafisica
1 I 111 1.11 ~·nda, negando-lhe todo o direito a uma validade cientifica rigorosa".
38 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
espirito "filos6fico" e o civismo republicano. Desde 1800, La Decade
toma a sua defesa: as realizac;oes e os valores da "filosofia" e da Revoluc;ao
estavam em causa. 0 desaparecimento das escolas centrais constituia por
fim uma grave derrota para o grupo dos Ide6logos, atenuada somente pela
insatisfac;ao do partido oposto, que nao conseguia restabelecer os colegios
do Antigo Regime. (Soboul, 1972, p.108)
A profissionalizaR d hist6ria da filosofia oferecidos par ele. Temas de maior
IHH 11 ,lfq •iro.
Iii I I l\1•111111 d (1991, p.30): "A religiiio cat6lica niio e mais a religiiio de Estado, mas
1 I 11 11 of 11 , 1·spiritualista da religiiio a substitui. Ela niio muda, pois, os metodos
d ,1 11 I, ,1111. ) ~ tudantes de filosofia, por exemplo, nos colegios de Paris, estiio
• h 1 • , ,~. 11 I, IN d · seguir os cursos de matematica elementar, mas os estudantes de
11 .i, t 11 111 h ,I 11110 stiio de maneira nenhuma dispensados de assistir as conferencias
, 111 11111, ddilosofia (portaria de 21 de fevereiro de 1840)".
40 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
ou menor generalidade, introduzidos pelo espirito de uma concepc;:ao
historiografica fortemente esquematica (procedimento comum, a epo
ca 11 ), sao a regra, observando-se, na primeira e na ultimado concurso de agregac;:ao para
os cursos de Filosofia dos colegios, a dissertac;:ao sobre um dos pontos
de hist6ria da filosofia deveria responder a seguinte questao: "Em que
medida a hist6ria da filosofia deve.intervir no ensino fundamental de
filosofia?" (Cousin, 1850, p.445) ..
Essa filosofia da mediocridad,e - ou "a filosofia do meio-termo",
como se refere a elaJean Ferrari (1980, p.109) - controla e ocupa as
tres catedras de filosofia da Sorbonne, a catedra do College de France,
as duas catedras da Ecole Normale, todas as catedras de Filosofia nas
faculdadesque precipita a oficializayao do movimento, Cousin ( 1840b,
v.I, p.11 ), ja como virtual chancel er daquela monarquia das letras, pe
rora em favor de uma conc6rdia ( autoritaria) que exclua o partidarismo
em filosofia, conformando-a a nova ordem - ou, como pref ere nomea
la, a" civilizayao do seculo XIX": "E tempo de a filosofia, em lugar de
formar um partido na especie humana, dominar todos os partidos: tal
sera, espero, o espirito desse ensino; tal e o novo carater que a filosofia
francesa deve receber das maos da civilizayao do seculo XIX".
Cousin lanyou ainda mao - com algum onus, diga-se de passagem
(Simon, 1887, p.21-2)- do motereligioso edo politico(aepocacandente,
e por isso arriscado), glosando-os em suas aulas na Ecole. No dizer de
Jules Simon, "Cousin foi o primeiro professor de Filosofia que teve a
coragem de falar de religiao e de politica" (ibidem, p .8). Homem de
tribuna mais do que de gabinete, militante em favor de suas pr6prias
convicy6es (crivo do exercicio de sua influencia, segundo a maior ou
menor adesao que se lhes prestasse), triunfou na vida densamente po
litizada da instruyao publica da epoca:
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 45
Cousin dizia que os professores de filosofia formavam o seu regimen
to; mas era entao um regimento cujo coronel era marechal de exercito.
(ibidem, p .81)11
Havia entao o habito dos professores de filosofia [ ... ] de vir a Paris todos
os anos e de passar uma parteunica
razao de ser o apelo que transportam. Troca-se a oposic;:ao abstrata
(16gico-filos6fica) "unidade" /" diversidade" pela composic;:ao concreta
1 sicol6gico-orat6ria) "vida" /"liberdade". Os inimigos da filosofia
lornam-se inimigos da liberdade, que atentam contra a vida. 19
19 f., emoutroexemplodeeloquencia, agoraemdefesadoecletismo, Cousin(l 917, p .9):
" perariofragil, maszeloso, venhotrazeraminha pedra; venhofazer aminhajomada,
v ,nho retirar do meio das ruinas o que nao pereceu, o que nao pode perecer" .
48 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Mas a eloquencia de Cousin encontra antecedentes pr6ximos nos
oradores do periodo revolucionario (cf. Granges, 1935, p.581-90),
que "tiveram alguma reputac;:ao somente porque sempre escreveram
sobre materias palpitantes de interesse para o momento" .
2° Como
nota Rene Etiemble (1958, p .874), em observac;:ao pertinente ao
estilo de Cousin:
que uso singular do vocabulario! Escravidao e liberdade, povo e aristocrata,
crime e virtude, traidor e patriota sa6 ai empregues, como sempre ( ocorre) em
periodo de guerra civil, com as ace~oes mais falsas, mais polemicas. T odas
essas palavras [ ... ] produzem assim confusao, obscuridade, desconfiam;:a.
Tambem Stendhal (1988, p.177), para expor o que entende ser "as
causas da corrupc;:ao do genio frances", descortina o cenario do cresci
mento e sofisticac;:ao da burguesia industrial da restaurac;:ao: "um~ clas
se de gente opulenta, ou, ao menos, em seu conforto" (ibidem). Avida
por consumir O que lhe permita acesso aos centros de poder politico e
administrativo (ibidem, p .178), essa "classe industrial" e responsavel
por um mercado de mediocridades culturais. Embora sem garbo ou
fac;:anha, ela ostenta um alto poder de compra que seduz editor, escritor,
professor, doravante amerce da sua conveniencia (ibidem).
21
Mas ''naFranc;:a, ondeamodaexerceum imperiodesp6tico, sempre
se tern sede de novidade" (ibidem, p .182). Porem, mais do que um
filoneismo sem ajuste, um modismo estilizado, do qual se encarregaria
Cousin: "Os jovens ricos de Paris estao um pouco tomados de misti
cismo e sao admiradores apaixonados das conferencias do Sr. Cousin,
que eles dao a impressao de compreender" (ibidem, p .183).
22
20 Cf. Rivarol apud Etiemble (1958, p .874). Na verdade, como assinala o proprio
Etiemble, que a estende aos oradores do periodo, a observapreferivel, ora, tal juizo vale o mesmo que a defesa da unidade de
uma unica doutrina. Pela densidade associada a expressao, contudo, o
"argumento da tolerancia" - se de fato existe um - , resulta "popular",
pois faz do metodo ecletico o contraveneno de uma especie de jacobinismo
filos6.fico que, pela hist6ria recente, e logo repudiado.
, Como, porem, dar con ta de uma multiplicidade de verdades? Como
alargar o "espai;:o-de-verdade" no qual coubessem todas elas, se nele ha
espa{:o para uma s6? A resolui;:ao do problema nao pode vir da aceitai;:ao
incondicional do inteiro conteudo das doutrinas, mas da reavaliai;:ao
preliminar do "espai;:o-de-verdade" que cada uma pretende ocupar
exclusivamente.
0 que faz Cousin, sem criticar a possibilidade de a filosofia ace
der ao conhecimento, e reformular a noi;:ao de um "espai;:o" e de um
"tempo-de-verdade" peculiares a filosofia, e, portanto, ao sistema
filos6fico tradicional. Doravante., o "espai;:o-tempo" do sistema resul
tante da avaliai;:ao ecletica sera, do ponto de vista formal , tao exclusivo
e absoluto quanto o era antes; mas, do ponto de vista do conteudo,
sua verdade se impora naturalmente por ser a maxima representai;:ao
do saber humano em todo o espai;:o e todo o tempo, enfim compar
tilhados. 0 sistema filos6fico superior tomar-se-a entao uma especie
de parlamento democratico, amplamente representativo do mosaico
de doutrinas, escolas e sistemas filos6ficos existentes. Sua maxima
representatividade, resultante da maxima participai;:ao possivel, ea
garantia de que sera incondicionalmente aceito. 26
Se retomarmos a sistematicidade instrumental prevista pelo ecletismo,
I ·rguntando-nos por sua origem, jamais podendo provir de um deterrni-
(l Nas palavras de Damiron (p.xv): "Na ciencia, o ecletismo e uma sorte de regime
on titucional, que, tanto quanto possivel, tende a banir dela o arbitrario. A igual
ndmissao de todos os fatos nas teorias cientificas, o respeito religioso por todos
rHs ·s fatos nas suas circunstancias essenciais sao, com efeito, na ordem l6gica, duas
1 nndes regras de verdade, que respondem e equivalem aquelas que na ordem social
.i1 HCguram a cada um a igualdade ea liberdade perante a lei . Assim como essas dao
1\ pnl f tica uma excelente dir~o, aquelas, da mesma forma, colocam a filosofia num
111111i11ho plenode sabedoria" .
52 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
nado sistema, de alguns deles, ou, por exclusao, detodos (pois entao ja teria
concluido a tarefa antes mesmo de comec;:a-la), a resposta sera a de que ela
provem do pr6prio trabalho de critica e interpreta") · I ac ,queporummomentoparec1ater-se
1 •·v,,dn ao grau de uma filosofia nacional" Note-se que esse "' -t- · des ·
I . · LJJC wnnaire sciences
1111/,,,op/11quesdeFranck(1875) cuiotomoVI ultun' d · · edi - - · . . , , , o o a pnmerra ulcz(1985, p.201).
11 I I l\,.ul roux, "Notice sur Lachelier" in Annuaire des Anciens Eleves de l'E.N .S.,
1'11 11, p 1.lapudBergson(1932,p.125).
56 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Cousin e sua escola, especie de "filosofia oficial"34 sob Louis Philippe,
por ocasiao da Monarquia de Julho (1830-1848), periodo, por sinal,
destacado pelo pr6prio Cousin (1850, p .vi), que ve seus textos como
"uma sorte de hist6ria abreviada da instrUdas suas doutrinas, o homem no
qua! parece personificar-se hoje toda a filosofia francesa, constatou um fato
da maior importancia. A hist6ria da filosofia a mao .. . (ibidem, p.175)
Franceses, o que vos perde e que com freqiiencia quereis ser imitadores
servis, podendo ser modelos originais. V 6s nao fostes felizes, no ultimo se
culo, ao tomar emprestada a vossa politica a lnglaterra protestante. Credes
poder ser mais felizes em indo agora tomar a Alemanha protestante a vossa
filosofia? (ibidem, p .214)
Reconheupagem demasiado incomoda para Cousin, mais pr6xirna do figurino
1 lo que da fantasia, da qual entao ele era o principal estilista.
A influencia de Cousin, contudo, nao obstante o juizo de Ravaisson
(qu' sera em parte autocritico), tera redundado, como aponta Gue-
111ult (1988, p. 738-9), na primeira corrente de hist6ria da filosofia na
Fr ,11)c;:a, cuja preocupac;:ao com a objetividade no estudo dos textos
ui progressivamente se firmando, a medida que os alunos de Cousin
" 1 • fon;:am -se por liberar-se da letra do sistema ecletico para apreender-
1111· a ideia" . Por conseguinte, mesmo Ravaisson e Lachelier comporao
11111da om a ideia da "perennis philosophia", efetuando o sincretismo
d,1 cloutrinas (ibidem, p. 739). Assim, quando Lachelier afirma:
"() aminh . . 1ianto ao c o a segmr, s6 conhec;:o um, que por varias vezes
111di ru i-lhe na Ecole: o estudo direto, paciente e d6cil dos mestres
60 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
gregos, franceses e alemaes", acrescentando: "A filosofia nao e mais
uma coisa a inventar; ela esta feita, toda inteira nas suas obras; o que
cada um de n6s pode chamar de a sua filosofia e s6 a sua maneira de
interpreta-las",37 trata-se de radicalizar e consumar um principio ~e
conduta tornado do ecletismo. Com efeito, assim se expressara Cousm
(1840a, t.I, p .303):
A fi.losofia esta toda feita, pois o pensamento do homem la esta. Nao
ha e nao pode nunca haver ai fil~sofia absolutamente falsa; pois o autor
de semelhante filosofia deveria ter-se colocado fora do seu pr6prio pen
samento, ou seja, fora da humanidade. Essa possibilidade nao foi dada a
nenhum homem.
Nessa lembrandeterrnina• ,, 111
as obras nas quais o cuidado essencial do autor e ode atingir, na reconslru\• '",
explica,;:ao das doutrinas estudas, a pura verdade objetiva".
41 SobreJanet eo ecletismo, ver Fouillee (1901, p .148-9).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 63
[ ... ] as nossas ideias sao sempre acompanhadas dessas modifica 6es do
nosso ser chamadas - [ ] ·os problemas da hist6ria da filosofia .
1
1 t ,11 u se agora nao s6 de uma oposic;:ao ao ecletismo cousiniano, como
I "' I 11 gel :
I t 1 • l ,,da sistema filos6fico trataremos de d1·sc . d ' emir, a parte que con-
' I ii ,11' I l,1ssndo e que convem relegar a sombra a part ltad I , e vo a para 0
11111111, q1w N • lrata de trazer aluz e de desenvolver E . h I . • ass1m c egaremos a
, h 11 11 111,1 1 lndososelementoscuiacomb· - d . fil , maNormale; nae ha maisensino ex-cathedra"
(ibidem, p.46 ).46 Ela era redigida por um aluno, em geral do terceiro e
ultimo ano do curso - func;ao, por sinal, desempenhada por Cousin. 0
que era abordado pelo professor (o "mestre de conferencias") num dia,
no outro era retomado com ampla participac;ao dos alunos: "cada aula
dava materia a redac;ao sobre a qual abria-se uma discussao na qual
todostomavamparte" (Cousin, 1988a, p.154).47 Entreumaeoutraaula
rirculava um pequeno jomal reproduzindo o que o professor dissera, for
n endo aos alunos subsidio para a discussao posterior. Essa relevancia
1 la Ecole, com ela a da "conferencia", tera aos poucos se sobreposto a
-lh Apcsar dessa liberalidade didatico-pedagogica, a Ecole sob Napoleao I confor
mou-se ao estilo do lmperador, cujes do senso comum dis
simuladas sob uma exposi1,ao elegante, hipoteses
metafisicas erigidas em verdades preciosas com o
direito de impor-se, constitui um corpo de dou
trinas'. uma ciencia verdadeira - se nao houvesse
lugar para recorrer a um metodo mais rigoroso.
Estabeleceu-se assim essa separa1,ao, a cada dia
mais nitida, entre a antiga e a nova psicologia.
(Ribot, 1898, p.11)
A definic;ao dos rumos da filosofia na F ranc;a ao tempo de Cousin
1• tr adicionalmente vista como dominada por Hegel, os contatos que
1,1 durante a Restaurac;ao o jovem professor da Ecole estabelecera
1•111 Heidelberg (Ribot, 1898, p.9-10, n .1) valendo como forte tes
h•mtinho. Mas a eventual incorporac;ao do pensamento hegeliano
1 111· rnpre contrabalanc;ada pelo "princfpio que ea alma de todos os
111 ,1rnos trabalhos, que constitui o carater pr6prio e tambem o carater
11,11 1onal da nossa filosofia, liga-a a Descartes e a afasta de toda a
lil11•1ofia estrangeira, a saber, que a psicologia e o ponto de partida
11111•11sario de toda a sa filosofia" (Cousin, 1844, p.5; cf. Lachelier,
111 II/ , p .3).
70 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Emrota1japercorridapor Biran(cf. Campo& Mathieu, 1974, p.16),
Cousin retomaria assim a psicologia, dela fazendo o filtro de uma primeira
aclimatac;ao francesa de Hegel (cf.Verra, 197 4, p .253), 2 suficientemente
enviesada, contudo, para representar um longo deslocamento. A singu
laridade do metodo ecletico e exemplarrnente destacada nas elucubrac,:6es
filos6ficas do espiritualismo convergente. Curiosa mix6rdia reunindo
Bacon, Descartes, Locke, Kant, Biran, Reid e Stewart, Schelling e Hegel. ..
Maso desconforto sentido diante da proposta ecletica nao anula o fato de
que se esta acompanhando o nascimento da futura escola. A presenc,:a ale
ma duplamente atestadacom Kant3 e Hegel soma-se afilosofia escocesa, 4
conj unto que assinala as influencias que mais fortemente contribuiriam
1 Essa rota psicol6gicaja vem sinalizada da Alemanha por J. Fr. Friese a sua Neue
Kritik der Vemunft (ver Campo & Mathieu, 1974, p.14).
2 Cf. Careil (1862, p .174 ): segundo o autor, "H egel foi um grande homem; o Sr.
Cousin, quase um Deus".
3 A Philosophie de Kant, ou principes fondamentaux de la philosophie transcendantale de
Villiers, publicadaem 1801, e mencionada, semque nenhumaoutraemlinguafran
cesa a preceda, por Hans Vaihinger, Mariano Campo e Vittorio M athieu, embora,
come demonstra Picavet ( 1921, p . I-xxxvii), nae seja essa a obra que primeiro apre
senta o criticismo aos franceses. Cf. Vaihinger (l 970, v.1, p.16); Campo & Mathieu
(1974, p .36). Contudo, parece razoavel suportratar-sedeobra de divulgas:Jio a qua!
certamente teve acesso Cousin (Vaihinger inclui Villiers na rubrica de' 'partidarios"
da doutrina kantiana entre os "comentadores" estrangeiros do prirneiro periodo da
Kantliteratur(cf. Vaihinger, 1970, v.1, p.1 6), classificas:aotambem aplicadaaCousin
para o segundo periodo dessa mesma literatura (cf. ibidem , v.1, p.17). Entretanto,
essas siio as duas {micas obras sobre Kant em lingua francesa lembradas pelo autor
alemao nos tres periodos em que divide a Kantliteratur a epoca (cf. Ibidem , v.1 ,
p .19-22). A mern;ao da obra de Villiers, Vaihinger acrescenta: "Populiir" ... - o que
parece atestar seu carater preferencialmente divulgativo, sem valor exegetico. J a
da obra de Cousin (Philosophie de Kant, 1864), afirma: "Observac;:oes sustentadas
retoricamente, mas com frequencia exatas, lembrando K. Fischer" (cf. Vaihinger,
1970, v.1, p .20-1 ( como se sabe, Kunc Fischer apresentava uma hist6ria do desen
volvirnento do kantismo baseadaet l'averroisme. Paris: M. Levy, 1861. p.v. Tradur,:ao nossa.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 13
"constr6i" um retrato · telec al de Averroes e dos averroistas latinos
de todo funcional para ua t ria do desenvolvimento intelectual
da sociedade humana ou a a a filosofia da hist6ria. Se sobre r:::
piano metodol6gico a o~ra is_tor grafica ~e ~enan distancia-se
grandemente da de Cousm, as nalan o um md1scutivel progresso
ela permanece, porem, sempre Ii da uma perspectiva te6rica que
a/ nriquece, mas tambem a condicion . Donde o status, ele tambem
J?aradoxal, da atividade hist6rico-filos6fica, que, por um !ado, tende
e- aprimorar sempre mais seu metodo, incorporando as aquisir;6es e
os erros de quern nos precedeu, e, por outro, lee interpreta (melhor:
re-interpreta) a seu modo os grand es pensadores do passado, a I uz dos
pr6prios problemas e da pr6pria sensibilidade.
A problematicidade ea ambivalencia da atividade do historien-phi
losophe sao, pois, irredutiveis: ele nao produz novas teorias filos6ficas,
mas, mantendo aberto o canal de comunicar;ao com o passado da filosofia
e inovando sobre o piano interprl:;tativo, fomece elementos e estimulos
para a pr6pria renovar;ao da filo~ofia tout court. Desse ponto de vista,
parece-me inapropriado e ingeneroso o lugar-comum frequentemente
repetido pelos fil6sofos "puros" t segundo os quais os historiadores da
filosofia lirnitam-se a reportar opini6es alheias, em vez de produzir as
pr6prias: um lugar-comum que no pensamento modemo encontrou
uma classica formular;ao em Malebranche, depois em Kant e Quine, e
em tantos outros pensadores, mas cuja origem pode encontrar-se ja em
Seneca, quando ele critica os "etemos interpretes escondidos na sombra
dos pensamentos alheios" .4 No Brasil, criticas analogas foram feitas por
um pensador como Porchat, ~uc,a!'Q,efttc eitado na "lntrodttc;ao" e
ll3i pagtt'las condusi v 11:s do pr esrnte~A bem dizer, as palavras de
Porchat valem nao tan to contraos historiadores da filosofia quanta contra
aqueles estudiosos - e eles sao muitos- que creem fazer filosofia repetindo
ou parafraseando outros fil6sofos, de um passado mais ou menos remoto,
o que resulta em ma filosofia, mas tambem em ma hist6ria da filosofia.
4 Seneca, L.A. Lettere a Lucilia. Trad. e note di G. Monti. In trod. di L. Canali.
Milano: BUR, 1989. p.238-9: "Omnes itaque istos, numquam auct/ sewvn
interpretes, sub aliena umbra latentes ... ". '--
-------
14 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Pergunto-me, ao contrario, se nao sera o caso de retomar e atualizar
o convite ( expresso ha quase sessenta anos por Lfvio Teixeira~
.mests rscor:daeo pelo ;ui::iigo .Bir~) para dedicar-se a hist6ria da filosofia
e formar um espirito critico e um adequado senso hist6rico, de modo a
contrabalan~ar aquela "voca~ao filoneista" que caracterizava a filosofia
no Brasil - e que a caracteriza ainda, na nova veste das "ciencias cogni
tivas" OU na veste mais tradicional da filosofia analitica. Ess11. teneenda
"J::1~ , " , .r.c .J· .J L' I ,,. d ,,._,nsiste. cste. sc uu,uRuinuo t!tffiuem na ta ta, gre.9as a ume. e1 r a a
~ globalizm;:a'o cultural, que \'@. a ab~rtura ao "outro'' c a iw,sstl,,.
g~Q diverse num seRtido ptH'ameote barizontal, ou seja, sincrontco
~"geografiea". A dimensao diacronica e hist6rica e assim refutada,
porque demasiado dificil e complexa, e porque se pref ere projetar ideias
e constrw;:oes te6ricas sobre um fundo unico, uniforme e mon6tono,
no qual a menor presen~a do contexto hist6rico e, pois, da "diferen~a"
mais profunda, faz perder especificidade e sabor as doutrinas. Eis entao
o passado da filosofia reduzido a um gigantesco supermercado, no qual
todos os artigos sao expostos sobre o mesmo piano e do qual cada um
pode apanhar a born pre~o o que mais lhe agrada ou o que lhe poderia
servir para abastecer a sua visao do mundo sobre a base das modas
mais correntes. Trate-se de Plata.a ou de Heidegger, de Arist6teles ou
de Nietzsche, de Santo Agostinho ou de Foucault, as ideias perdem
sua espessura historica e colocam-se uma "ao lado" da outra, como se
proviessem todas do artigo de fundo de um quotidiano recem-saido
da tipografia. 0 quadro que disso resulta e, sem duvida, muito mais
simplificado, mas tambem mais pobre e pouco estimulante, porque
termina por girar em torno do pequeno/ grande mundo de nosso "eu"
quotidiano. Contra esse nivelamento do "fazer filosofia", a li~ao que
nos chega dos historiens-philosophes pode fornecer, ainda hoje, ~
~le-es di.1,tancia,..hons motivos de reflexao para escapar a tenta~ao
do "pensamento unico".
GREGORIO PIAIA
Universidade de Padua, Italia
que - ou aquele - que adora mudans;as,
novidades .
Pessoas inquietas, curiosas, criativas,
impulsivas, aventureiras sao filonefstas
He preciso, que abandonemos essa Philosophia
empyrica do seculo passado, e nos ponhamos
em dia a respeito dos progressos, que na culta
Europa vao tendo OS conhecimentos humanos [. .. ]
()J.;e rh.elhor Programma podemos seguir, do que o da
sapientissima Universidade de Pariz?
(Gama, 1840, p .S)
N osso problema [ ... ] nao e tan to o de saber como
a filosofia pode haver-se perante a sua pr6pria
hist6ria, mas o de melhor conhecer a pr6pria
hist6ria da filosofia e de a ela recorrer como a um
elemento por assim dizer pedag6gico para a nossa
formaem esquema de forte inspiras:Jio hegeliana); ja
Campo & Mathieu (1974, p.1 6), sobre a mesma obra de Cousin, ressaltam, para
grande surpresa do leitor: "As lic;:oes de Cousin sobre a filosofia de Kant, de 1820
[ ... ] mostram, nao obstante o verniz ecletico, um entendimento e um juizo critico
sobre a Razao pura que podem ainda estirnular" .
4 Cf. Taine (1979, p.21-2), para a conhecida versiio do primeiro ingresso da filosofia
escocesa naSorbonne. Simon (1887, p.12-3), tempos depois, semcredita-laa Taine,
reconta a mesma cena, privada, contudo, de seu melhor espirito.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 71
para a concepc;ao de hist6ria da filosofia na Franc,:a do seculo XIX. Se se
pudesse tao-s6 com dados quantitativos apontar dentre todas a presenc,:a
mais ativa, porem, Kant decerto faria jus a indicac;ao, seguido por Reid e
Stewart, e en tao por Hegel, porque e sobretudo em seu pensamento que
se inspiram (nem sempre diretamente) Biran, Renouvier (e o neocriti
cismo), Lachelier e Boutroux (para quern, por intermedio de Lachelier
e do ex-hegeliano Zeller, o pensamento critico sera referencia marcante).
Ja os escoceses terao agido com mais forc,:a sobre Royer-Collard, Cousin
e Jouffroy, restando Hegel, influente sobre Cousin. 5 ·
Essa majoritaria presenc,:a critica, todavia, obedece a uma con
vocac,:ao equfvoca. Assim e que, com Biran, o kantism o percorre a
trilha psicol6gica; mas, com Boutroux, ele retorna ao pr6prio Kant,
notando-se ainda que esse movimento e tambem marcado por um
aparato de natureza filol6gica, nao por coincidencia contemporaneo
das iniciativas alemas da Kant-Studien (1896 ), daAkademie-Ausgabe6
1· da Kant-Gesellschaft ( 1904 ), 7 no mesmo periodo de fixac,:ao da escola
f rancesa de historiografia da filosofia.
5 Cf. Koyre (1971, p.230): "Cousin[ ... ] s6 conhecia Hegel de segunda mao" - afir
mas:Jio que, nae comprovada, deveria ao menos ser acompanhada da referencia
sabre qua! fosse ta! "segunda mac", ja que, pouco antes (ibidem, p.226, n.3), na
lista de tradui;oes francesas de H egel, a mais antiga data de 1836: "A filosofia he-
11cliana nao era de modo nenhum desconhecida, mas era sobretudo conhecida de
!ltgunda mao, notadamente pelos trabalhos de Barchou de Penhoen ... " (ibidem).
EHsa traduc;:ao, porem, e posterior aos curses de Cousin influenciados por Hegel,
.-omo as viagens nas quais ambos se conheceram e privaram por algum tempo.
I )csde 1833, em resposta as criticas da "escola sensualista" de que irnportara a
ltlosofia alema, Cousin (1994, p.80-1, 100-10) identifica as etapas de sua forma
l,• o c as correspondentes influencias recebidas. Tambem Careil (1994, p .167-8)
••t 11mta a incompatibilidade entre as teorias de Cousin e Hegel sobre a hist6ria da
l1lo110f1a, recordando a divisiio em quatro grandes sistemas (idealismo, ceticismo,
~• 11Hu ,al ismo e misticismo) proposta pelo reint rodutor da ideia ecletica na Fran~.
11 nwKmo fara Gueroult (1988, p.716): "Esse sistema ("o espiritualismo") nao
I•,,, nnda em comum com o sistema de H egel ou com ode Schelling".
1, '\••11116C cxpressava Dilthey (1968, v.I, p.x), presidente da Kant-Kommission em
1'111 ', quando da publicac;ao dos primeiros volumes da "Edic;ao da Academia":
\ I 1,1v 8 de proposta minha e de Zeller, a Academia, em 1894, deliberou por uma
1.11,,,111 (da$ obras) de Kant".
• • 11 dad · Kant" (cf. G il , 1992).
72 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Na virada do seculo, em 1891, Lachelier escreve a Janet:
Foi Ravaisson quern nos ensinou a todos, parece-me, a conceber o ser,
nao sob as formas objetivas de substancias ou fenomenos, mas sob a forma
subjetiva da as:ao espiritual, quer essa as:ao seja, de resto, em ultima analise,
pensamento ou vontade. Creio que o senhor reencontrara essa ideia no Sr.
Bergson, e mesmo no Sr . Ribot, tanto quanta no Sr. Boutroux e em mim
mesmo. E mesmo, talvez, a unica que nos sera comum a todos, e que fara
a unidade do movimento filos6ficoI ~ssa discussao servira talvez para estabelecer de antemao os verdadeiros
l111ul,1mcntos da psicologia, para mostrar em que diferem os principais
_, i.-mas metafisicos conhecidos, para encontrar um meio propicio para
111 I I I ,u hclier (1962, p.853: "Sur Psychologie")· Ribot (1901 23)·" , , p. . emnossa
" 1111111 o, somente essa psicologia experimental constitui toda a psicologia, 0
" "' "'"•' ~cndo da filosofia ou da metafisica, e, por conseguinte, estando fora da
I fl IHM"
7 4 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
concilia-los; enfun, para estabelecer a utilidade pratica de uma ciencia hoje
demasiado desacreditada.11
Rompendo com Condillac, Biran (1942, p .78, n.1) argumenta que
a sensar;:ao isolada nao pode ser o "fato primitivo" que se trata de esta
belecer, ja que s6 ha fato para mim se me tomo consciente de alga que
me e distinto. Ora, mas para ser consciente do que quer que seja, tenho
primeiro de ser consciente de mirn mesmo coma tal 12
- o que, todavia,
equivale a dizer: "para n6s mesmos ou do ponto de vista interior, nao ha
jamaissujeitoqueconh~equesedistingadacoisaconhecida" (ibidem,
p. 79 ), ja que se nos distinguissemos de n6s mesmos interiormente have
ria outros fatos primitivos em sucessao interminavel. 0 que caracteriza
a absoluta primazia desse fato intemo e o poder de agir, "de comec;ar
o movirnento e de dirigir-se no mundoorga
niques avec les sensations animales" in Biran, 1859, t.III, p.36).
17 Cf., "De la legitimite de la distinction de la psychologie et de la physiologie" em
Jouffroy (1861, p.166).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 77
quer submeter a observa,;:ao [ ... ] Don d e resulta daramente que a fisiologia, a
anilise das ideias ea moral sao somen te os tres ramos de uma uni ca e mesma
cien cia, que pode chamar-se, com razao, a ciencia do homem.18
Percebe-se entao que o debate e restrito a preeminencia, quer da
"alma" querdo "corpo" ("espirito" ou "materia"), comodonucleode
cujo estudo partira a organizac;:ao ( unitaria) da ciencia do homem . Para
Cabanis, cujas investigac;:oes procuraram inicialmente ~ar o estatuto
cientmco da medicina (cf. Moravia, 1974, p.13-23), o moral remete
sempre ao fisico: "As operac;:oes designadas sob o nome de ( operac;:oes)
morais resultam diretamente, como as chamadas (operac;:oes) fisicas,
da ac;:ao, seja de certos 6rgaos particulares, seja do conj unto do sistema
vivente". 19 A recusa do " desdobramento" leva J ouffroy a identifica~o
da psicologia com a" ciencia do homem". Ao passo que a fisiologia se
ocupa do animal, a psicologia estuda o homem. Ora, mas o homem e
eminentemente inteligencia; com isso, "a psicologia, que ea ciencia
J o principio inteligente, e [ ... ] ppr isso mesmo a ciencia do eu ou do
homem".20
Jouffroy, aluno de Cousin, e•talvez o herdeiro imediato de Biran,
nflo permanece muito tempo na "escola", opondo-se, pelo tempera
mcnto como pela orientac;:ao adotada, a algurnas de suas principais
trndencias.
IX Cf. Cabanis, "Rapports du physique et du moral de l'homme" em CEuvres phi
/oSQphiques (Paris: ed. Lehec-Cazeneuve, 1956, v.l, p.398 apud Moravia (1974,
p.34-5).
I ') Cf. Cabanis, "Rapports du physique et du moral de l 'homme" ( v.l, p.392) apud Mo
ravia (1974, p.30): "Noser humano naoexistem de modo nenhum duas naturezas
hcterogeneas, nem mesmo qualquer principio ou planoou sistema completamente
independente da corporeidade. 0 homem, todo o homem, e organiza,;ao material,
· materia".
'0 ( :f. "Objet, certitude, point de depart et circonscription de la psychologie (1823)"
("Encyclopedie modeme, tome XIX") em Jouffroy (1860, p.190-1). Entretanto,
Jouffroy (1836, p.clxxviii) distingue explicitamente a psicologia da 16gica: "E ( ... )
11,, ciencia do espirito assim compreendida, assim limitada a psicologia, que tudo 0
q11 precede foi dito e que tudo o que precede e verdadeiro. Confundir o objeto da
I ,gica com o dessa ciencia seria misturar, corromper tudo". Inversamente, Ribot
( 190 I. p.10) afirmaria: "a 16gica e so uma parte da psicologia".
78 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Sem nunca ter sido critico sistematico da orienta1yao (filos6fica,
metodol6gica, universitaria) praticada por Cousin, 21 a particularidade
de sua posi1yao esta justo no fato de ele quase nao se ter ocupado com o
filao hist6rico-filos6fico- entao emblematico- , mas preferencialmente
com o psicol6gico. De qualquer modo, tal como afirma Jean-) acques
Goblot (1997, p.81): "trata-se de divergencias reais, duraveis e de
forma nenhuma menores, ainda que sempre muito discretamente
expressas. No interior de uma corrente de pensamento que em seguida
reduzir-se-a a rigidez de uma ortodoxia escolar, uma tal diversidade
merece seguramente ser sublinhada".
Somente quatro anos mais jovem do que Cousin, no dizer de Taine
(1979, p .214)
0 pr6prio Sr. Jouffroy iluminou o seu castio fil6sofo/ historiador
da filosofia podera en tao operar a conc6rdia entre os di versos sistemas,
o que, por sinal, se fara naturalmente (J ouffroy, 1860, p .181).
Jouffroy nao pronuncia uma (mica vez ai o termo "ecletismo",
ainda que a consequencia do metodo resulte na conciliai;:ao (ibidem,
p.179)32 filos6fica. Na verdade, o "metodo hist6rico" e dispensavel
(ou ao menos secundario, na qualidade e na ordem) diante da pree
minencia, agravada pela circunstancia de nao haver acordo possivel
entre os sistemas, do "metodo psicol6gico" . Numa palavra, ao passo
que a psicologia e imprescindivel para a filosofia, antecedendo-a no
estudo, a hist6ria da filosofia e somente utiJ para o psic6logo (ibidem,
p.181 ).33 0 ecletismo nao podera chegar a born termo se nao o assistir
o "metodo psicol6gico"; mas se o psic6logo fizer sua parte, os sistemas
se conciliarao por si e as pei;:as do quebra-cabei;:a encontrarao sozinhas
o seu perfeito encaixe.
31 Cf. Jouffroy {1836, p.lxxxiv): "O ponto central e que o estudo dos fenomenos seja
feitoporele pr6prio[ ... ]eque naoseofa~cairsobaservidaoimpostapelasquestoes;
pois la esta a corrupc;ao de toda a ciencia ea morte da filosofia".
32 Mas noutro capitulo do mesmo volume Jouffroy {1860, p.278-9) professa a fe
comum da "escola" no metodo ecletico, salientando a necessidade de um criterium
de verdade com o qual julgar os diferentes sistemas, expondo os sinais de sua con -
forma~o a realidade. Cf. a oposi~o "sincretismo cego" e "ecletismo esclarecido"
feita por Cousin (1917, p.11 ).
33 "Masse a psicologia e indispensavel para o historiador, a hist6ria nao e de nenhuma
utilidade para o psicologo? [ ... ] A historia da filosofia contem, pois, todos encon
trados, os fatos do espirito humane, base da ciencia; o metodo hist6rico, ta! come
o metodo psicol6gico, tern-nos sob a mao; mas, para reconhece-los nos sistemas, e
preciso que a hist6ria os tenha observado na realidade; e en tao preciso que ela tenha
percorrido os caminhos da psicologia. Donde se ve que o metodo historico implica
e supoe o metodo psicol6gico, e que, sem este, aquele nao poderia fomecer o que a
ciencia antes de mais nada exige: uma estatistica dos fenomenos de natureza moral
e intelectual."
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 83
Espectadores de n6s mesmos, desfrutamos o "espetaculo interior
da nossa pr6pria natureza" (ibidem, p.173),34 realidade necessaria
mente privilegiada, a unica de observai;:ao direta (Jouffroy, 1860, p .172;
1833, p.xvii). A "ciencia filos6fica" ou "ciencia do mundo intelectual e
moral" resolve-se em "fatos de consciencia" ou "fatos psicol6gicos",
como a "ciencia natural" em "fatos fisicos" (Jouffroy, 1860, p .173). A
"observai;:ao met6dica e regular" (ibidem) de nossa pr6pria natureza, a
constatai;:ao dos "fatos psicol6gicos" que a constituem, levara as "leis da
natureza morale intelectual" (ibidem, p.175). Mase precisamente tal
observai;:ao o que tern faltado a filosofia. Jouffroy retoma a palavra de
ordem da filosofia moderna, discorrendo sobre o metodo: "Pode-se [ ... )
com razao recomei;:ar a filosofia como uma ciencia que ate aqui procurara
mas nunca encontrara o seu verdadeiro metodo" (ibidem).35
Exemplificando o poder de observai;:ao dos fatos internos, o proble
ma toma-se determinar a metodologia que transforme capacidade em
ciencia (Jouffroy, 1833, p.xxxj). Essa reorientai;:ao dos estudos filos6ficos
conduzira a elirninai;:ao dos confl,itos, impotentes em face da crueza dos
fatos. Masadiversidadedeopinioes,jamanifestanaorigem, naosedeve
exatamente, como em principio parece, a pontos de vista distintos sobre
34 Jouffroy tambem se refere a consciencia, nomeando-a, por exemplo: "santuario
impenetravel dos nossos pensamentos, das nossas sensac,oes e das nossas deter
minac,oes" (cf.Joulfroy, 1833, p.xi). A imagem do "espetaculo" (as vezes tambem
"teatro", "drarna")erecorrenteemjouffroy (1836, p.xvii, !xiii, lxxii-w)eem "Dela
philosophie et du senscommun" (" Revue europeenne, second cahier (aout 1824 )")
Oouffroy, 1860, p.105): "A hist6riadafilosofiaapresenta umespetaculo singular ... "
{p.106, 118); Ooulfroy, 1861, p.xcvw): "A natureza e um drama do qua! somente
a razao revela-nos o enredo". A mesma imagem ja aparecia em Degerando {1822,
p.xxix, 46, 48);Cousin (1917, p.13 ["espetaculo"]. p.61 ["teatro"]); alem de Ribot
(1901, p.16). Ja como imagem (elogiosa) da eloquencia de Cousin, ver Thierry
(1988a, p.172). A origem pr6xima dessa meta.fora podera estar em Rivarol, a se
tomar por base aindica~o de Biran (1942, p.81 -2, n.1: Essai sur les fondements de
la psychologie ): "Deus e o au tor, o mun do e os arumais sao o espetaculo; o homem
e simultaneamente espetaculo e espectador (Rivarol), o que signjfica dizer que s6 o
homem tern a faculdade niio somente de sentir ou de perceber, mas de aperceber-se
do que sente".
35 0a mesma forma, Cousin (1861, p.65-6): "A hist6riada filosofia poderiacharnar
se a hist6ria do metodo filosofico, pois a filosofia e o que o metodo a faz ser". Cf.
Jouffroy (1836, p.ccxvii-viii).
84 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
o mesmo fato, mas a denorninai;:ao comum dada a fatos di versos. Desse
erro primario decorre o pr6prio sentido (alterado) da investigai;:ao: das
questoes aos fatos , nao deles a elas (ibidem, p.lxx-Lxxi). Comprova-se
entao a importancia preliminar da psicologia, porque e da observai;:ao
dos fatos internos que se verifica a qualidade das questoes propostas
pelos diferentes sistemas filos6ficos.
Nas mais de duzentas paginas de seu "Prefacio" a tradui;:ao das obras
de Reid, Jouffroy nomeia uma unica vez o antigo mestre, criticando-o
por, em companhia da filosofia alema recente, nao aceitar os limites im
pastos a razao humana( tema que, como se sabe, devidamente modulado,
constituiria o mote do "retorno a Kant"). Entretanto, sem lhe atribuir
maior destaque ou considera -la a parte ( nao vol ta a ela em nenhum outro
momento do texto), faz uma referencia a "hist6ria da filosofia" (meio
auxiliar indicado pelos "escoceses" em favor da "observai;:ao interna"),
"que nos apresenta o quadro mais completo de todas as questoes que
podem ser formuladas sobre a natureza do homem , e em seus inumeros
sistemas uma quantidade de observai;:oes verdadeiras, mescladas a uma
quantidade nao menor de hip6teses e de erros que tern tambem sua
utilidade, por menos que se queira investigar as causas que os produ
ziram" Qouffroy, 1836, p.xxix-x). Nada mais e dito sobre a hist6riada
filosofia (ibidem, p.xc, clxxxvii),36 como nenhuma alusao direta e feita
ao ecletismo, ressurgido por obra de Cousin. As ultimas paginas do
"Prefacio" revelam uma apreciai;:ao da "escola" que, sem ser severa,
nao declara apoio ou simpatia, indicando, ao contrario, as bases de um
rompimento informal, porem seguro (ibidem, p .ccxiv-ix).
De outra parte, os "escoceses" teriam circunscrito o estudo do espirito
humano a sua pori;:ao fenomenica, '' a uni ca parte observavel e por conse
guinte cognoscivel da realidade espiritual" (ibidem, p,xxi) tornando-se
legitimos precursores de Kant. 37 A esfera de observai;:ao constituida pelos
fatos de consciencia e acompanhada do pressuposto que a psicologia
seja a fisica dos fen6menos internos: "Tudo o que esperamos e tudo o
36 Para um emprego circunstancial da expressiio "historia da filosofia".
37 Acerca da proximidade entre Kant e os escoceses, ver Jouffroy (1835, p.xcvii-viii,
cxxvi, cxxxv, cxl-ii, cxlv, cl, cliii, clvi-ix, clxi, clxiv-xx).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 85
que pretendemos e que doravante se fai;:a em filosofia como se faz nas
ciencias fisicas" (ibidem, p. lxxxiii).38 Um compromisso que, malgrado
ele, tera em Hume seu principal estirnulo.39
0 futuro contraste da psi co logia experimental na F rani;:a em face do
espiritualismo ja e um requisito do metodo preconizado pelos escoceses
um seculo antes, a saber, "a necessidadede fazer entrar a ciencia do
espirito no circulo das questoes de fato, dele banindo completamente
as questoes metafisicas" (ibidem p .lxxxvii). Ao passo que o dominio de
umas conduz a "resultados positivos", ode outras leva tao-s6 a "hip6-
teses mais ou menos verossirneis" (ibidem, p.lxxxviii).
Contrariamente a filosofia escocesa, em particular a de Stewart ( ibi
dem, p.lxxxvii), Jouffroy propoe um conhecimento ontol6gico ou do que
supera os lirnites do visive!, fenomenico, observavel (ibidem, p .xciii).
Em primeiro lugar, a "observai;:ao", que se restringe ao imediato, ela nao
e "a unica fonte dos nossos conhecimentos" (ibidem , p.xcvi), certeza
manifesta na pr6pria experiencia·, cuja incompletude "fori;:a" a razao
a "elevar-se" a "realidades ontol6gicas" que lhe permitem preencher
a "lacuna" do dado empirico (ibidem, p .xcvii). Essas "realidades",
"ideias", "noi;:oes", "dados" ou '"elementos a priori" sao "verdades"
"concebidas pela razao" (ibidem, p.ci). Todavia, diferentemente do
inatismo, elas nao siio verdades preexistentes no intelecto, anteriores
"aos juizos particulares que as implicam" (ibidem, p.cxlvi). Trata-se de
noi;:oes obtidas porocasiaodaexperiencia (ibidem, p.cxxxvii, xcii, ci-ii,
t' iv, cvii-viii). Mas a posse desses conceitos a priori de forma nenhuma
u·presenta ainda a pr6pria ontologia (ibidem, p.civ-vi), cuja existencia
dqJCnde de uma indui;:ao a partir dos dados observados, "autorizada
1· 1,1overnada pelos dados da razao pura" (ibidem, p.cvii). Ve-se entao
quc, ao contrario do idealismo critico, os mesmos dados a priori que,
" ti' ·undados" (ibidem, p.cviii) pela experiencia, permitem o conheci-
111rnto fenomenico, eles pr6prios autorizam e governam o movimento
ltl l :f. Jouffroy (1836, p.lxxx.iv): "O que se faz em fisica e precisarnente tudo o que
d,·sejamos que se fac;a em filosofia" .
l'I ( :f. Jouffroy (1836, p.xxxvi, xxxviii-ix, cxxvii-viii, cxxx-i), para as relac,oes entre
Reid e Stewart e Hume, segundo Jouffroy.
86 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
indutivo de constituic;ao da ontologia. Todas as "nadevem sempre ser confirmadas pelas dedu~oes
do fil6sofo metafisico, pelas categorias que ele descobre por meio da
generaliza~ao empirica:
Ve-se [ ... ] que e levando a luminaria da psicologia aos monumentos da
filosofia, para da sua luz recolher as numerosas observac,:oes que eles con tern,
e levando a psicologia as indicac,:oes da hist6ria para dirigir-lhe, abreviar-lhe,
45 A imbricac,:ao polemica entre ciencia e fi.losofia (particularmente no ambito dos
estudos psicol6gicos), sempre mais agudaa partir do seculo XVIII, estende-se por
todo os Oitocentos, desembocandoem pleno seculo XX. Se, por exemplo, um Ca
banis afumava que nao seriam msobre as suas pr6prias medita,;oes; ele decide assim,
11111 ,,ndc parte, os destinos do sistema. Ha assim duas especies de caracteres: uns
111
" I~• 11:m serchamados te6ricos ou especulativos, outros que podem ser chamados
111•1 •• ,,11 rraticos; uns fazem conhecer as bases sobre as quais construiu-se; outros,
• • •, 111111•1 ura do edificio. Com freqiiencia, e o caminho adotado porum fil6sofo que
,l,.1, , 111111,1 a cscolha dos pontos de vista que lhe servem de partida ea 16gica que ele
I•• 1 11111• ,·le adota explica os principios que ele forma". Cf. tambem asp.xiii-xiv:
• 11 I, II•~ quc compoem cada doutrina filos6fica em particular formam um corpo
11111 1 11111111110 pcla liga~o que elas tern no espirito daquele que as concebeu. Toda
• •~•111!1111, !t•tn, pois, nela mesma, as suas condi,;oes fundamentais, que determi
h 111 11 .lr.,.•nvolvimento dos seus detalhes, o caraterdistintivo da sua fisionomia,
11
•
11
11 .111,·1, ca influencia queela exerceu em tomode si" (Degerando remete
1111 • I ll,11 on, De Augmentis scientiarum, livro III, cap.IV).
92 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
relevo a esse estudo recente. Conta sirn, agora, o desenvolvirnento dela,
seu desenrolar no tempo ea incomoda aparencia de um desajuste per
petuo. A hist6ria da filosofia toma-se assirn (para Degerando como para
Cousin e J ouffroy) o antidoto que afasta o mal, e o meio que aparenta o
conflito provara a conc6rdia. 51
A mudanera a moeda corrente da historiografia da filosofia
que entao emergia, nem por isso, em contrapartida, as relac;oes entre a
filosofia ea psicologia, de Cousin a Boutroux, puderam manter-se num
mesmo nivel de comunhao, percorrendo solos comuns.
Enquanto para Cousin e discipulos as relayoes entre filosofia,
psicologia e hist6ria da filosofia sao suficientemente intimas para ser
consideradas em bloco, a partir de Ribot, todavia, nao s6 a psicologia
se transforma e (enfim) se cientifi.za, como se distancia, na mesma
proporyao, da filosofia e da hist6ria da filosofia . Esse desenvolvimento
cientifi.co da psicologia na Fran~, tributario das descobertas recentes
de ingleses e alemaes, a medida que proclama os resultados e as expec
tativas da psicologia psicofisica, faz reaparecer, em certa medida, o vies
experimentalista dos ide6logos, posto no ostracismo pela desventura
ecletica. 54 A pr6pria expressao cunhada para nomear a "nova psicolo-
54 Cf. Lachelier (1949, p.4): "contra a doutrina psicol6gica do Sr. Cousin, elevou-se
pouco a pouco uma nova doutrina, ou essa mesma que ele abatera reergueu-se, mais
rica de fatos e mais ousada nas suas hip6teses".
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 95
gia", reunindo termos por longo tempo contrarios ("psyche" e "physis" ),
realyara a ruptura com um procedimento originalmente equivocado.
Decerto que as querelas entre o fisico e o moral, suas relayoes ea pree
minencia disputada, comuns a sensualistas e espiritualistas, sao agora o
fundo perdido da "antiga psicologia", seja vista de que lado for, porque,
de fato, a identidade da psicologia psicofisica, construida experimental
mente, e sempre lubrida - "dupla face" (Ribot, 1898, p.XI).
As relayoes entre a "escola de Cousin" ea "psicologia experi
mental" tornaram-se, em maio de 1885, objeto de reflexao especifico
para Lachelier por meio de longo artigo, cujo titulo - "Psicologia e
metafisica" - e aquela altura a representayao exemplar dos termos
da polemica que ele percorre, ja que tanto indica a direyao meto
dol6gica estabelecida por Cousin55 quanto a cisao preconizada pela
"nova doutrina" psicol6gica. 56 0 texto e originalmente publicado na
Revue Philosophique (Lachelier, 1949, p.1 , n .1) fundada por Ribot
em 1876 (Lamarque, s. d ., p.11 ); que, alias, fora aluno de Lachelier
na Ecole Normale (ibidem ).
Ate en tao Ribot ja publicara sete obras (ibidem, p .11-2), dentre
elas "tres pequenos livros [ .. .]'(que) durante muito tempo foram
o breviario dos psic6logos e dos medicos" (Janet, s. d ., p .10) - a
saber: As doenfas da Mem6ria (1881), As doen9as da Vontade (1883)
c As doenfas da Personalidade (1885) (ibidem). Mas sao outros dois
tcxtos que parecem reservar maior destaque ao ajuste de contas
com o espiritualismo cousiniano: A psicologia inglesa contemporanea
(1870) eA psicologia alemii. contemporanea (1879) (Lamarque, s. d .,
I I -2). Se no primeiro ha menyoes diretas a Cousin e a Jouffroy, no
cgundo elas simplesmente desaparecem , talvez em virtude de um
~ Cf. Lachelier (1949, p.2): "ele (Cousin) quis ao mesmo tempo criar, ou ao menos
organizar em definitive, o estudo experimental dos fatos de consciencia e fazer de
tal estud~ ~a especie de introdw;ao as outras partes da filosofia, e, em particular,
,\ metafisica .
•fl Cf. Lachelier(l 949, p.3-4 ): "A psicologiarenunciou ainvestigarentreos fenomenos
Je consciencia principios capazes de conduzir-nos para fora da esfera dos fenomenos;
,. omo esses principios, caso existam, s6 podem ex.istir na consciencia, rompendo
uxla a liga,;ao com a metafisica, ela solapou a base de toda a metafisica".
96 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
processo cujo termo ja se podia prever - visto que, "se bem que ela
ainda fai;:a suficiente boa figura, a antiga psicologia esta condenada"
(Ribot, 1898, p .ii-iii).
Ja o artigo de Lachelier (1949, p .10-4) nao apresenta nenhuma
referencia direta a qualquer au torque se oponha a" escola de Cousin",
embora o resumo da doutrina adversaria do espiritualismo mostre
tratar-se ao menos em parte de Ribot, fato que, em peri6dico fundado
e dirigido por esse, equivale a uma identificai;:ao formal.
A antiga psicologia, desprezando a lii;:ao critica, nao distingue entre
"os fenomenos psicol6gicos e o seu substratum; ou, como diria Kant,
os fenomenos e os numenos", confundindo "fatos psicol6gicos com
especulai;:6es ontol6gicas" (Ribot (1901, p .24 ). 57 Restaa novadoutrina,
ciosa da circunscrii;:ao operada pela filosofia transcendental, abando
nar, em nome dessa mesma linha demarcat6ria, qualquer pretensao
de investigar o fundamento, relegando-o ao metafisico ou ao fi16sofo.
Com isso, ou se reincide no velho erro - cujo fascinio, como se sabe,
remete a uma "ilusao natural" (Kant, 1983, p.179 (B354 ). - ou se
pratica a psicologia cientifica. Afastando da psicologia a metafisica,
Ribot outra vez se aproxima de Kant mediante encaminhamento ja
prescrito pelo autor da Critica:
a psicologia empirica tern que ser completamente banida da Metafisica,
estando ja totalmente excluida pela ideia da mesma. Nao obstante, de
acordo com o uso escolastico ter-se-a sempre (se bem que tao-somente
coma um epis6dio) que lhe conceder um lugarzinho na Metafisica, e isto
por motivos economicos: de fato, nao chega a ser suficientemente rica para
perfazer sozinha um I objeto de I estudo, mas e demasiado importante
para que se deva renega-la completamente e traslada -la a outras paragens
nas quais provavelmente encontraria ainda menos afinidade do que na
Metafisica. (ibidem, p.412, B876-7).
57 0 mesmo seria dizer: confundindo a psicologia racional com a empirica. Ver Cousin
(I 917, p.34): "Se a psicologiaeo estudo regulardoespirito humano edas suas leis,
e evidente que a psicologia dos principios universais e necessarios que presidem ao
exercicio da razao ea parte mais alta da psicologia, que na Alemanha e charnada de
psicologia racional, bem diferente da psicologia empirica" .
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 97
Ao fazer um breve hist6rico do empobrecimento continua
da filosofia - cuja ultima perda coincide com a emancipai;:ao da
psicologia experimental - , Ribot, sem prescrever-lhe qualquer
tarefa positiva - ja que faze-lo seria contradizer-se - , contribui
indiretamente para o esboi;:o das condii;:oes de fortalecimento da
historiografia da filosofia, doravante autonoma, desvinculada da
aventura ecletica.
Na "escola de Cousin", historiografia da filosofia e psicologia
permaneciam unidas sob a diretriz do espiritualismo. Com Ribot, a
psicologia destaca-se e, nesse passo, efeito do movimento de retomo
a Kant, tambem a historiografia da filosofia se sobressai, nao para
com isso descolar-se dela, mas ate mesmo se confundindo com a
filosofia, que, na versao local, perdera o que ate bem pouco fora
sua mais fie! aparencia. A filosofia recebe, entao, como um timbre
de sua irnpossibilidade cientffica, a nova imagem de historiografia
51-2, 64-5, 68). Ressona.ncia, alias, duplamentepolernica,
•1 toque a "dianoematica" (ecomelaaescolafrancesadehistoriografia
1 I,, I ilosofia) compoe um legado do idealismo critico. Mas nao se deve
I 1111 l ,1r nas entrelinhas da observai;:ao de Ribot a simples revivescencia
1 I, 1 • not empirista, e !er: os sistemas passam, a Experiencia permanece.
I' ii~ ll nao atende pelo epiteto, elogioso ou depreciativo, de positivis-
98 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
ta. 58 Exatamente para deli.mi tar o alcance de arnbos os metodos ate
entao antinomicos, o subjetivo da observac;:ao "direta" e o objetivo
de "conhecimento cientifico" ou "indireto" (Ribot, 1898, p .xv),
59
ele
aponta as falhas comuns de Broussais e Comte (Ribot, 1901, p.21 -2,
26, 35). Seo "metodo subjetivo" nao basta (ibidem, p.27), e contudo
"indispensavel" (ibidem, p.26 ), sendo "o mais necessario", embora o
"metodo exterior" seja "o mais fecundo" (ibidem, p.36) .bO
A emancipac;:ao da psicologia como psicologia experimental e um
duro golpe para a filosofia e seus infindaveis dilemas entre o fisico e o
moral, espirito e materia, razao, sensac;:ao; tanto mais duro, alias, por
que essa psicologia vem fundir aqueles conceitos em disputa, embora
a forc;:a de um desvio fundamental, abandonando o fundarnento e seus
ques a metafisica dilematica. A resposta da filosofia- que ja levava em
con ta a delirnitac;:ao de um terreno pr6prio tarnbem a sociologia - vem
sob a dupla forma de um dialogo interno (no qua! ela ganha corpo como
hist6ria da filosofia) e de uma polernica com as ciencias emergentes ( e
com a ciencia em geral), num esforc;:o de auto(-re)definic;:ao que com
prova e atesta o resultado da perda.
Quando Ribot ( 1898, p.xxvii, n.1) especula sobre o futuro da filo-
sofia, dizendo:
Seria interessante perguntar-se o que a filosofia, como concep~ao
geral do mundo, podera ser um dia, quando as ciencias particulares, em
consequencia da sua complexidade crescente, tomarem-se inabordaveis no
58 Cf. Simon (1965, p.45-58); Ribot, "II - La Methode. L'observation interieure",
p.119. Sohre a "psicologia ilus6ria" e o seu "pretenso" metodo da observac;:ao
interior, exemplo especulativo do estado metafisico, ver Comte (1978, p.13-4).
59 Esse mesmo texto ressalta em inumeras passagens diferentes possibilidades de
nomear a oposic;:ao entre a antiga e a nova psicologia; de um lado: "o novo espirito
das ciencias naturais"; "o espirito cientifico"; "o espirito modemo"; "o espirito
positivo"; de outro: "o espirito metafisico"; "A observac;:ao interior, a analise e o
raciocinio"; "metodo verbal"; "metodo subjetivo" (Ribot, 1898, p.i-vi).
60 Nao obstante essa composic;:ao metodol6gica, Ribot (1898, p.xxiii) dira: "Quandu
a fisiologia, realizando um progresso com o qua! ela nao ousa ainda sonhar, for
capaz de determinar as condic;:oes de todo ato mental, qualquer que seja ele, tanto
do pensamento quanto das percepc;:oes e dos movimentos, a psicologia inteira swi
entao fisiologica, o que sera um grande hem para ela".
A ESCOlA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 99
detalhe e os filosofos forem reduzidos ao conhecimento dos seus resultados
mais gerais, necessariamente superficial,61
alem da oposic;:ao entre a generalidade superficial e o conjunto de par
ticularidades complexas qualificando a distancia da filosofia a ciencia,
esse convite a reflexao, presurnivelmente sincero e motivado por um
desconforto vivo, faz as vezes, nao de epitafio, mas de requiem inaca
bado. A execuc;:ao continua e brilhante dessa obra sem coda e o oficio
do historiador da filosofia.
Ii I l~s suspeitasde Ribot parecemconfirmar-senas palavrasde Piaget (1983, p.203):
·· Porque a filosofia viva, a de Platao, Arist6teles, Descartes, Leibniz ou Kant, en
Ml'ndrou uma serie de disciplinas que se tomararn autonomas, um filosofo do seculo
X, se nao for nem 16gico, nem epistem6logo, nem psic6logo, nao encontra mais
1 ,i i, o de ser senao opondo a uma universalidade que se tomou vazia para ele uma
',1111ropologiafilos6fica' daqual seperguntadequeela seracheia". Masja aofinal do
·, ulo aquela duvida ressoaria mais forte sob a forma de perspectiva autobiografica
11111 1x1lavras de Leon Brunschvicg, Elie Halevy e Xavier Leon, fundadoresda Revue
, /,, m,;laphysique et de morale ( que se oporia a Revue philosophique fundada e dirigida
pn, Ribot): "Por que nao dizer publicamente que a ideia dessa tentativa pertence a
1• ,wn~? Eles nao sao, eles nao serao talvez jamais filosofos - mas eles sao fervorosos
1i1111fto9 da filosofia" (cf. Brunschvicg, et al. , 1994, p.881-2).
3
0 C.ANONE DA ESCOLA
[ ... ] nao se faz historia da fi.losofia sem fazer obra
ativa de filosofo. Creio entao que, desenganados
da especulai;ao, filosofos que procurassem refu
gio na historia da fi.losofia enganar-se-iam por
completo. De duas, uma: ou eles permaneceriam
filosofos em sendo historiadores ou nao seriam
verdadeiramente historiadores da h istoria es
pecial que pretendem escrever. A historia da
fi.losofia nao e uma ren(mcia a fi.losofia.
(Robin, 1936, p .108)
Apesar de a historiografia da filosofiaja no seculo XVIII (Santinello,
11179, p.v-xiv) tomar-se um genero relativamente autonomo, ea partir
, I,· fins do seculo seguinte e nas primeiras decadas do seculo passado
q111: se encontra firmada a "escola francesa", com a consolidar;:ao de
11111:1 cliretriz teorica havia muito disseminada. Essa orientar;:ao procede
1· ,i111.· ialmente do ecletismo, pelo qual a historia da filosofia conhece uma
11111 K 1rtancia inedita nos estudos filosoficos na Franr;:a, 1 embora o relevo
I ( :f. Parodi (1919, p.22): oecletismodeVictorCousin "inaugurae encorajaoestudo
1 l,1 historia da filosofia, que desde entiio niio mais cessou de ser cultivado entre ncis".
Nrssc inicio de seculo, niio obstante, "o culto da erudic;ao na histciria da filosofia,
"l' 1tica habil, meticulosa e modesta dos textos, considerados com lupa, laborio
••rrncntc confrontados, substituem as brilhantes e aventurosas reconstitui,;oes de
• t~l~mas" (ibidem, p.16).
102 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
hist6rico nao fosse ali o principal, compondo com a psicologia em razao
de um alcance metafisico.
Tornado por um seguidor de Hegel e introdutor amigavel de sua
doutrina na Frarn;:a, Cousin oferece "a juventude que frequenta as
minhas aulas" (ibidem, p.xxvii) uma hist6ria da filosofia escrita por um
discipulo de Kant (ibidem, p.xxi-v).
Numa aparente coincidencia de inversoes, Boutroux (1877, p .ii),
cuja reflexao sobre o pensamento critico caracterizara os novos tempos,
traduz e p5e "a disposic;ao do publico frances", em 1877, uma primeira
parte de A .filoso.fia grega em seu desenvolvimento hist6rico, de Zeller,
formado na escola hegeliana. 2
Ha mais coincidencias do que inversoes, porem. Cousin nao era
propriamente hegeliano, como de Boutroux nao se poderia dizer que
tivesse em Kant o mestre a quern seguira.3 Da mesma forma, a obra
de Tennemann realiza inteiramente o prop6sito de serum manual, ao
passo que a de Zeller, circunscrita a filosofia grega, e exemplo de uma
historiografia da qua! justamente importa analisar o padrao. E assim
que os pr6prios "Prefacio" e "lntroduc;ao" de Cousin e Boutroux visam
a objetivos distintos, tambem porque a situac;ao local da filosofia nao
e a mesma em ambas as epocas.
A partir de Boutroux, e por exatos setenta anos, porem, tem-se
um conjunto de textos e pequenas obras dedicados a historiografia da
filosofia e as relac;oes entre hist6ria da filosofia e filosofia. Os nomes sao
conhecidos: Boutroux, Delbos, Robin, Brehier, Gouhier, Goldschmi
dt, Gueroult, para lembrar alguns dos historiadores da filosofia que
se ocuparam mais largamente do assunto, publicando artigos e obras
a respeito da historiografia da filosofia e de seus problemas. Ao passo
2 Inicialmente hegeliano (cf. Boutroux, 1877, p .ix : "Introduction du traducteur":
"EdouardZeller et sa theorie de l'histoire de la philosophie"), depois aos poucos
redescobrindo Kant(ibidem, p.xii), Zeller "reteve, do hegelianismo, certoselemen
tos essenciais, e parece em suma ter sido menos levado a rejeitar a doutrina tomada
no seu conjunto do que a reforma-la, reconduzindo-a ao seu prindpio" (ibidem,
p.xv).
3 Cf. Gilson (1926, p. 4 ): "Essas paginas, nas quais se ve Emile Boutroux seguir Kant
ate o fun ( ... ] somente para melhor colocar-se a si mesmo fora de uma doutrina que
jamais foi a sua ... ".
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 103
que os textos de Boutroux4 ficam a meio caminho da critica filos6fica
e da discussao metodol6gica sobre a hist6ria da filosofia, a exposic;ao
de Robin na Sociedade francesa de .filoso.fia acerca do tema "Sohre
a noc;ao de hist6ria da filosofia" (Robin, 1936; 1923, p.4-6) aborda
diretamente a relac;ao entre hist6ria da filosofia e filosofia, o mesmo
ocorrendo com Delbos5 e Gouhier ( 19 52) e em artigos e comunicac;oes
de Brehier (1950), entre 1938 e 1947. Ja os anos 1950, notadamente,
Gueroult ea ideia de uma dianoematica6 e Goldschmidt e sua teoria
da interpretac;ao dos sistemas filos6ficos7 apresentam o refinamento e
a cristalizac;ao de conceitos desenvolvidos no periodo anterior.
No "Congresso Internacional de Filosofia" de Heidelberg, em 1908,
Boutroux afirma: "Por volta de 1867, alguma coisa acabava, alguma
coisa ia nascer". 8
Comparativamente ao Rapport de Ravaisson (1885) (que lhe serve
de inspirac;ao e ao qua! pretende dar seguimento), "A filosofia na F ranc;a
a partir de 186 7" de Boutroux e um inventario critico das disposic;oes de
en tao, no qua! ele busca a existencia de uma harmonia (mas nao agora a
custa da metodologia ecletica), que prepare "uma obra de conjunto" _9
Mesmo que essa tendencia aglutinativa nao surja pela primeira vez a
4 Cf. Boutroux{1877; 1902; 1926b; "LaphilosophieenFrancedepuis 1867", ed. cit.;
"Du rapport de la philosophie aux sciences", 1926a; "Le role de la philosophie dans
le passe et dans l'avenir", 1926a).
5 Cf. Delbos (1917a, p.1 35-47; "De la methode en histoire de la philosophie" ["I
- Les rnateriaux de la reconstitution historique des doctrines"), 1917b, p.279-88;
"De la methode en histoire de la philosophie" ["II - Analyse et reconstitution des
doctrines"], 1917b, p.369-82).
6 Cf. "Le probleme de la legitirnite de l'histoire de la philosophie" em Gueroult
{1956).
7 Cf. "Tempo l6gico e tempo hist6rico na interpreta~o dos sisternas filos6ficos" em
Goldschmidt (1984 ).
8 Cf. "La philosophie en France depuis 1867" (Boutroux, p.140). Em referencia na
qua! o que importa nao e o nome lembrado, mas sim o objeto de estudo, Boutroux
assinala que "a filosofia de Kant foi estudada por si pr6pria, na Sorbonne, pelo
Sr. Janet, a partirde 1867" (cf. Boutroux, 1926b, p.12). Damesma forma, assim
se pronunciava Fouillee (1901 , p.148), em 1901: "Quern nao tenha dormido
no castelo da bela adormecida, sabe o quanta o mundo filos6fico caminhou nos
ultimos trinta anos".
9 Cf. "La philosophie en France depuis 1867" (Boutroux, p.140).
104 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
epoca, o recenseamento de Boutroux, alem de dar conta dos fatos filo
s6ficos contemporaneos ( nos quais se encontram os trabalhos de hist6ria
da filosofia, entre cujos au tores ele pr6prio se inclui10) registra o sinal de
uma mudan~a que atinge o conj unto da filosofia.
Jase sabe que para Lachelier, que o afirma em 1891, ea ideia de '' a¢o
espiritual'' ( desdeaproximadamente trintaanos) que interligaria Ravaisson,
Bergson, Ribot, Boutroux, ele mesmo.11 Sabe-se tambem que a partir de
1851 iniciara sua docencia na Ecole, promovendo importantes alterac;oes
no ensino da filosofia (Boutroux, 1927, p.5-8), fato que para o ecletismo
universitario tera representado o pr6prio simbolo da perda de comando.
Mas a filosofia na Fran~ da virada do seculo encontra-se especial
menteocupadacomaascensaoautonornistadaciencia.12Talcomonotara
Ribot (1901, p.8, 11 ), ha um "empobrecimento" continuo, ou, como
constata Boutroux, a "decomposi~ao pura e simples" da filosofia numa
"multiplicidade de ciencias distintas", 13 cujo objetivo e conferir-lhe
positividade. 14 Essa rela¢o inversamente proporcional entre filosofia e
ciencia e sobremaneira representada pela psi co logia e pela socio logia: pela
primeira, a medida que o antigo objeto de estudo, a alma e seus atributos,
confundiu-se por seculos com a pr6pria metafisica; pela segunda, pelo
fato de simbolizar a deterrnina¢o de uma identidade positiva para a
filosofia. T odo o quadro se agrava diante da resistencia intema e com um a
altemativa ecletica, ganhando corpo a ideia de uma filosofia da conc6rdia,
sem conciliac;oes arbitrarias ou cortes depuradores, que harmonizeo que
ja se encontre em unidade autonoma, mas atornizada.
Antes mesmo do ecletismo de Cousin e discipulos, Degerando
(1822, p .xxxvii-ix) e Larorniguiere (1844, I, p .172-3) colocavam em
1 O Cf. "La philosophie en France depuis 1867" (Boutroux, p.181-3).
11 Cf. Lachelier, "Lettre a Paul Janet" apud Brunschvicg (p.316: "Centenaire de la
naissance de J. Lachelier").
12 Cf. Parodi (1919, p. 16): "A filosofia das ciencias, a qua! alguns desejariam reduzir
toda a filosofia, e, de qualquer mcido, no momento atual, a parte mais cultivada entre
nose a mais honrada".
13 Cf. "Du rapport de la philosophie aux sciences" em Boutroux (p .15 5): "A filosofia
nao e mais legitimamente representada na linguagem por um substantivo, mas por
um adjetivo".
14 Cf. "Du rapport de la philosophie aux sciences" em Boutroux (p.154 ).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 105
pauta a realiza~ao de um acordo de paz entre os diferentes sistemas e
escolas de filosofia. Mas nao havia entao, como seria o caso a partir da
derrocada do cousinismo, um corpo mais e mais adiantado e penetrante
sob a forma das ciencias em ascensao. Do mesmo modo, embora Bou
troux tambem fale de concilia~ao e harmonia, 15 a cena evidentemente
e outra, agravada pela envergadura atingida pela ciencia. Decerto que
a philosophie d 'Etat da "escola de Cousin" nao era obstaculo tecnico
ao avan~o do ~onhecimento em que area fosse; mas a predominancia
estabelecida formava um capital a bem exclusivo de si pr6prio. Ora,
essa sorte de expansionismo cientifico com que depara a Europa culta
vem de encontro ao espiritualismo retraido, ao ecletismo que, como por
defini~ao. s6 pode ir aonde esteja, desvantagem maior quando se sabe
que a psicologia, unico ramo cientifico cultivado pela "escola", desgar
rou-se dela para, enfim, tornar-se o que s6 era em nome: ciencia.
A ciencia em marcha leva a um novo acanhamento da filosofia,
de forma que, hostis e criticos a respeito do cousinismo, os fil6sofos,
todavia, preservam a ideia do trabalho hist6rico-filos6fico, emblema
tico da velha escola - o que, por certo, encarece a urgencia de uma
historiografia da filosofia, a um ·so tempo "filos6fica" e "cientifica".
"Filos6fica", sera distante do ecletismo, opondo-se a ciencia; "cien
tifica", repelira a eloquencia, mas a margem do positivismo. A meio
caminho da metafisica e da ciencia, de uma metafisica derrotada em
sua pretensao de conhecimento, de uma ciencia coberta de titulos ( que
faz da estrada real o caminho seguro), a filosofia e ca e la contestada,
restando-lhe o ( duvidoso) consolo de ser seu pr6prio tribunal, instancia
a que apela sem garantia de a legitirnidade do ato ser reconhecida ou
considerada. Mas esse retorno e agora mais profundo e demorado: os
varios sistemas em seus pr6prios tempos.
15 Cf. Boutroux (1877, p.lxxi, lxxiii, lxxix); "Le role de la philosophie clans le passe et
clans I' avenir" (.Boutroux, p.254, 269, 271 ); "La philosophie en France depuis 186 7"
(.Boutroux, p.140); "Du rapport de la philosophieaux sciences" (.Boutroux, p.169). Cf.
Souriau (1982, p.83): "Esseprocedirnento("a conciliac,:ao") (talveze larga tradii;ao, lentamente [ ... ] mudar-se-ia
a atitude de alguns jovens brasileiros, em face dos problemas culturais".
3 Cf. Almeida Prado (1937, p.185): "Na seqiiencia l6gica do nosso crescimento
intelectual, a Faculdade de Filosofia veio dar remate ao edificio universitario".
Cf. Mesquita Filho, 1953, p.277): "A passagem da totalidade do corpo discente
pela Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras dar-lhe-ia uma percepi;ii.o nitida e
tangivel daquele espirito universitario [ ... ] que se definiu coma sendo a pr6pria
consciencia da unidade do saber humano ... ".
4 0 conjunto que forma a Universidade de Sao Paulo, segundo o artigo 3°, titulo II
do Decreto n.6283, de 25 de janeiro de 1934, que cria a instituii;ao, e constituido
pelas seguintes escolas: Faculdade de Direito; Faculdade de Medicina; Faculdade
de Farmacia e Odontologia; Escola Politecnica; Instituto de Educai;ao; Faculdade
de Filosofia, Ciencias e Letras; Instituto de Ciencias Economicas e Comerciais;
Escola Superior de Agricultura; Escola de Belas Artes (a ultima ea antepenultima
nii.o estavam ainda instaladas na ocasiao da assinatura do decreto ).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 17
pouco mais: a sua exata estrutura interna5
• 0 mesmo esquema que lhe
atribuia coordenac;:ao era prontamente desabonado pela condic;ao irre
gular da disciplina, num desencontro que revertia a imagem pasta.
lmplantado o modelo, 6 viria depois a consolidac;ao, elevando quali
dades que breve se tornariam uma segunda natureza no oficio de pensar,
justamente com Gueroult ea mais recente "tecnologia dos sistemas
filos6ficos" .7 Por conseguinte, "a Hist6ria da Filosofia nos ensinara
.\ilgumas lic;oes basicas que devem ser tidas como iniciac;ao ao estudo de
~ todas as outras disciplinas filos6ficas" (Teixeira, 1953, p.292).8 0 "es
pirito critico", en tao ausente, seria introduzido pelo rigor metodol6gico
de uma abordagem hist6rica.
Com isso, na Faculdade de Filosofia "nao somente a hist6ria da fi
losofia e estudada para a certificac;:ao desse nome, mas todas as materias
filos6ficas sao tratadas de um ponto de vista essencialmente hist6rico"
(cf. Teixeira, 1964, p .209).9
5 Cf. Costa (1953, p.196): "Seja ppssuimos escolas tecnicas que nos homam, era
todavia necessario que nos pusessemos na escola dos povos que tiveram mais largo
tempo para cr\ar a ciencia, a filoso~a ea literatura, que procurassemos participar da
experiencia daqueles que melhor organizai;ao tiveram para cultivar a inteligencia".
6 Cf. "Certidii.o de nascimento" (Arantes, 1994, p .61-87).
7 A disciplina ministrada por Gueroult no College de France atendia pelo name de
"Catedra de hist6ria e tecnologia dos sistemas filos6ficos" .
8 Note-se que antes mesmo da vinda de Gueroult e do padrii.o estrutural em his
toriografia da filosofia, Livia Teixeira esta coma que pre-sintonizado com ele, em
razao, e certo, da disciplina imposta desde o inicio do curso de filosofia, sobretudo
por Jean Maugiie. Sohre esse ultimo ponto, ver Arantes (1994, p.61 -87).
9 Observe-se, porem, que, pouco depois da ultima estada de Gueroult na "Faculda
de", "considerando que os cursos monograficos instituidos na seci;ii.o de Filosofia
pelos professores franceses e conservados ate o presente como uma especie de
tradisob a influenciado
ecletismo) foi frequentemente empregue no seculo XIX. E por exemplo ele que faz a
trama dialetica do estudo intitulado Psicologia e metafisica, de J. Lachelier. Ele pra
ticava-se frequentemente nos exercicios escolares, as dissertac;oes dessa epoca".
106 UBI RA.JARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
0 descompasso entre ciencia e filosofia aparece tambem sob a forma
de agremiaDA FILOSOFIA 109
fundamental, a uma auto-aplicac;:ao dos "postulados (Voraussetzungen)"
de Zeller, ou, se se quiser, a sua auto-aplicac;:ao seguida de reparos que
nao lhe alteram as caracteristicas. Por esse exame a guisa de " lntrodu
c;:ao", tem-se de fato o nascimento da linhagem "objetiva" (assimde magnitude equivalente, da qual
resulta o esfacelamento da filosofia. Ora, essas forr;:as opostas sao ambas
decorrentes de um mesmo fundo, a saber, a delimitar;ao do territ6rio
do conhecimento objetivo e o conseqiiente desprestigio especulativo da
metafisica. Se ha conciliar;ao, portanto, ela se da (para a escola francesa)
com a hist6ria da filosofia sendo o ambito por excelencia da unidade re
guladora do conhecimento humano. Noutras palavras, a discordancia e
o conflito entre os sistemas e doravante algo de menor peso para o fi16sofo
e para o historiador, porque a hist6ria da filosofia ea fie! depositaria de
"cria¢es" que "tern a sua origem nao somente nas ideias do tempo, mas
ainda em alguma das tendencias constitutivas e perrnanentes do pr6prio
espirito humano" (Boutroux, 1877, p .xlix). Comolugar, a conseqiiencia
psicologica negativa resultante da "escrupulosa imparcialidade do
critico" (Boutroux, 1877, p.xlviii), ou seja, a indiferenc;:acom respeito as
doutrinas expostas. A depender do ponto de vista, ou o do historiador
critico ou o do lei tor simpatico a uma ideia minimamente positiva de
filosofia, tem -se isenc;:ao ou indiferentismo.
0 que incomoda Boutroux e a colorac;:ao demasiado cientifica do
rnetodo de Zeller. Porque a indiferenc;:a ante as soluc;:oes tentadas re
dunda no desinteresse da questao. Ora, dada a complementaridade
entre os termos em que sao postos o problema e o metodo de resoluc;:ao
escolhido, a indiferenc;:a leva ainda mais longe, a saber, ao desinteresse
pelo procedimento tipico da filosofia. Se a obra estudada nao mobiliza
a indiferenc;:a do leitor, o estudo da fi.losofia nao tern relevancia para o
investigador do presente. Essa enfase no filosofico (refugio promissor)
seria ainda a preocupac;:ao de fundo exposta mais de setenta anos depois
por Gouhier: "Um estudo estritamente historico de um sistema e [ ... ]
possivel. Ele e necessario e sem duvida suficiente para o ensino. Ele e
necessario, insuficiente e perigoso ha pesquisa". 43
Contrariamente a "colec;:ao de formulas abstratas" a que se veem
reduzidos os sistemas por Zeller, Boutroux (1877, p.l) defende o
ressu.scitamento do original pelo interprete. A questao, nao sendo ex
clusivamente a de se optar entre um estilo literti.rio e outro cientifico, e
sobretudo a da relac;:ao mais funda entre o que e o como se diz. Ha um
"elemento estetico e moral" (ibidem, p.li), uma conjunc;:ao maior entre
forma e fi.nalidade que nao pode se anular pela ac;:ao do interprete. Nao
so e preciso respeitar a letra, como recuperar o espirito, e o historiador da
filosofia ( sempre historien philosophe) nao confundira jamais "metafisica"
e "historia natural" (ibidem). 44
42 Cf. "Du rapport de la philosophie aux sciences" em Boutroux (p.17-22).
43 Cf. "Le 'point de vue du systeme'" em Gouhier (p .27-8).
44 Cf. Boutroux(1877, p.lxx-i): "Plataopersuadeporque raciocinaou raciocina porque
quer persuadir?"
116 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Assim como a "nova psicologia" se intitulara "psicofisica" (sem
mais poder priorizar, fosse o moral fosse o fisico), a filosofia, igual
mente, deveria rebatizar-se, tornando os que a praticam historiens
philosophes, philosophes historiens ou simplesmente historiadores da
filosofia. Concordariam todoscomque "afilosofiaesta todafeita"? Esse
denominador comum entre Cousin, Lachelier, Boutroux nao proclama
a sentern;a de morte da filosofia: nem porque se tivesse encontrado a
Verdade nem porque ela fosse considerada inatingivel. Numa palavra,
nem dogmatismo nem ceticismo - e, feita a delimita.,:ao do terreno da
ciencia, do conhecimento objetivamente valido, 45 a universalidade
filos6fica e declarada para alem de provas e refuta9oes. Como ensina
Gilson (1981, p .202) a prop6sito de Kant:
O idealismo critico harmoniza-se com um dado para estar seguro de
nao pensar no vazio, mas toma imediatamente as medidas necessarias
para que esse dado jamais reserve alguma surpresa ao pensamento que o
acolhe. Desde o pr6prio instante no qual ele o refrata nas formas a priori
da sensibilidade ate o momento no qual o organiza como ciencia grac;as as
categorias do entendimento, o espirito goza sem restric;ao o privilegio de
explorar um dado real, que todavia nao contem absolutamente nada senao
o que nele p5e o espirito.
Essa "neutraliza.,:aodaexistencia" (ibidem, p.187) ea pedradetoque
da historiografia da filosofia. A historicidade filos6fica ( ou .filo-historici
dade) da hist6ria da filosofia s6 pode ser mantida por meio dela.
O que cada sistema estabelece, ele nao o faz em razao de uma realida -
de oposta e apreendida passivamente. Nao ha sentido em indagar-se so
bre a corre.,:ao de uma doutrina face ao real que a modelasse. A realidade
aparente, fenomenica, resulta de determina.,:ao operada pelo sujeito.
45 Cf. Brehier {! 950, p.37): "sea materia a ser estudada e uma filosofia, au seja, um
pensamento concrete e vivo, a objetividade assim ("coma um objeto") compreen
dida seria arbitraria, au melhor, seria completarnente impassive!. Essa pretensa
objetividade seria, na verdade, subjetividade, pois s6 se pode compreender um
pensamento pensando-o par sua conta, adotando par si mesmo o seu ritmo e as
seus procedimentos ... ".
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 117
Do ponto de vista da historiografia da filosofia ou da exposi.,:ao dos
sistemas, essa neutraliza.,:ao tern seu correlato metodol6gico na ideia
de neutralidade cientifica, presente em Zeller e criticada por Boutroux
(1877, p .xlviii-li). Aexistencianeutralizada vem somar-seagratuidade
de uma escolha involuntaria e de uma abordagem desintencional.46
A neutraliza.,:ao da existencia ou o fato de ela nao se opor ao su jeito
como objeto constitufdo e tese que vigora no piano de uma filosofia da
hist6ria da filosofia, ao passo que a neutralidade cientifica ou o escoa
mento da ciencia pelo conduto exclusivo do racional e regra exercitada
no ambito da historiografia da filosofia.
Nao ha por que se indagar da corre.,:ao ( externa) de uma doutrina
ante a ausencia de criteria (alheio) que o perrnita. E por uma falha
de natureza cientifica que nao se estabelece a pertinencia objetiva do
sistema filos6fico. Se nao ha como indagar da corre.,:ao de uma dou
trina, a melhor maneira de interpreta-la desconsiderara o interesse
do historiador, seu eixo filos6fico; psicol6gico ou cultural. Porque as
filosofias sao objeto de hist6ria e t uriosidade erudita.
Mas a neutralidade especulativa nao pode nunca redundar em
desinteresse pratico, mesmo porque, qualquer implica.,:ao assim e de
pronto banida pelo discurso que consagra essa diferen.,:a. A hist6ria da
filosofia sera entao autentica fonte de inspira.,:ao para o fil6sofo pratico.
Se ha paradoxo entre ser fil6sofo e ao mesmo tempo historiador, o
embate maior esta no interior da filosofia ( consequentemente em sua
hist6ria): a concilia.,:ao entre razao te6rica e razao pratica. Nao se quer
absolutamente contrariar o ideal de isen.,:ao exegetica; trata-se somente
do fato ( originario) de que ele pr6prio e rigorosamente parcial.
A questao da (hist6ria da) filosofia, nao sendo mais especulativa,
nao ha por que a considerar em razao das tantas filosofias em conflito.
A conjun.,:ao entre "filos6fico" e "hist6rico", sem dar adeus a filosofia,
leva ao remanejamento do especulativo para o pratico. 0 ceticismo
nao constrange o historiador da filosofia ou o historien philosophe que
reconhe.,:a e pratique a viragem critica.
46 Brehier (1950, p.29) recordara as criticas de N ietzsche aos fil6logos e historia
dores.
118 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Em meio a esse quadro e que surgem as obras de hist6ria da filosofia
jaarroladas por Parodi (1919, p.70-6)emAfilosofiafrancesacantempora
nea, alem das reflex6es propriamente historiograficas de Robin, Delbos
e Brehier, nao por acaso concordantes.
Robin ( 1923, p. 5) afurna que "a hist6ria da filosofia ea pr6pria filo
sofia". A primeira leitura, essa posir;ao faria coincidir trabalho hist6rico
e pesquisa filos6fica. Se se compreende, porem, o hist6rico restrito ao
erudito, nada e mais distante do ponto de vista defendido ( ibidem, p. 4,
5).47 Ora, os pensadores gregos legaram-nos "problemas etemos, cujos
termos nao foram alterados, mas cuja discussao nutriu-se de outros
alimentos" (ibidem, p.5).
Que essa etemidade seja a mistificar;ao do insoluvel, e a nutrir;ao
enriquecedora, a mera passagem do tempo, o pensamento filos6fico
e ainda assim um produto que pode ser estudado "por ele pr6prio ea
titulo de parte total" (ibidem). Talvez se diga que nisso mesmo residira o
problema. A mera afurna~ao da perenidade do sistema nao prova coisa
nenhuma, senao uma reincidenciametafisica mal disfar~ada e diluida
ao longo da hist6ria - fragmentos de uma verdade sempre dita, jamais
alcan~da. Mas a versao negativista e cienti.fici.zante da filosofia e tao
s6 a recusa de uma originalidade constrangida pela rigidez da L6gica.
Consequentemente, nem (s6) o tempo fisico da causalidade hist6rica
nem mesmo ( s6) o 16gico das raz6es intemas; a temporalidade autentica
(que o historiador e o cientista recusarao, preferindo nomea-la a con
trapelo: atemporalidade) e pura liberdade. Como ja dissera Boutroux
(1877, p.lxxvi):
na filosofia, se o elemento racional combina-se com um elemento miste
rioso, pr6prio da vontade livre e infinita ( ... ] nao se pode vol tar contra ela
a irregularidade persistente que se manifesta na sua marcha. Essa irregu
laridade do desenvolvimento, menor de resto para a filosofia do que para
a arte e para a religiao, e nela, como nesses dominios vizinhos, a sequencia
natural e legitima da interven~o da liberdade.
47 Cf. Brehier (1950, p.32): "A atitude do fil6sofo modemo com rela~o a hist6ria
parece ser marcada por uma perpetua tensao entre o desejo de apoiar-se sobre o
passado e o temor de ver o pensarnento filos6fico esmigalhar-se na erudi~o".
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 119
Ea exata medida que decorrem de uma "vontade livre" que "as mais
antigas solu~6es metafisicas [ ... ] sao superiores ao tempo e ao espa~o"
(ibidem, p.lxxvii). Se a verdade provada faz da ciencia conhecimento
trans-hist6rico, a liberdade tomara o filosofema uma aspirar;ao etema.
Assim como a religiao e a arte tern parte com a filosofia ( e o mesmo
se diga de suas respectivas hist6rias), "dentre as hist6rias especializa
das, a que me parece mais longe da hist6ria da filosofia ea hist6ria das
Ciencias". 48
• Seo objeto da hist6ria da filosofia ea pr6pria filosofia (mas nao a
metafisica [Robin, 1936, p .107]), isso quer dizer "que se esta en tao
em presen~a de objetos que aspiram ao saber" (ibidem). Noutras
palavras, a filosofia contem problemas a medida que seus objetos
tendem ao maximo saber, como numa voca~ao imperativa. As
tentativas formalizadas, por malsucedidas que sejam (e na verdade
o sao [ibidem]), constituem fonte peculiar de estimulo, nao ja pelas
solu~oes propostas, mas porque, qualquer que seja ela, o problema
que a ocupa e animado por uma "tonalidade afetiva" (ibidem) a
coincidir fil6sofo e historiador. Essa comunhao, especie de harmonia
geneal6gica, nao somente marca a diferen~a da (hist6ria da) filosofia,
mas impossibilita, por defini~ao, o procedimento tipico da neutrali
dade historiografica. 49
A hist6ria da filosofia nao se confundira, portanto, nem com a
hist6ria e o trabalho de "situar" ideias nem com a "filologia" , "tec
nica" de "interpreta~ao literal" dos textos (ibidem, p.107). Arnbas
necessarias, nenhuma e suficiente para "assimilar" o "espirito" da
doutrina, "tarefa [ ... ] verdadeiramente fundamental e dominante".
Quando cessa o recurso, a "interpreta~ao filosofica" decide para que
!ado se inclina a balan~a (ibidem, p.108) - e, nessa hora, o que vai ao
48 Cf. Robin (1936, p.111-2): "Parece-me [ ... ] que, entreessashist6riasespecializadas,
a que mais se aproxima da hist6ria da filosofia ea hist6ria das religioes". Cf. Robin
(1923, p.5-6)-a posi~o de Robin a respeito da hist6ria da ciencia e prontamente
rechar;ada por Berr (1923, p.xv-xvi).
49 Cf. Robin (1936, p.112): "abdicar do interesse propriamente filos6fico e especula
ttvo, que esti na base de uma ta! investig~o. sob o pretexto de serum historiador
imparcial da filosofia, e correr o risco de desviar-se do caminho e errar o alvo."
120 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
prato nao sao os "acompanhamentos hist6ricos" da doutrina, mas sua
"estruturaideal" (ibidem, p.11 2).50 Robin esta(em 1923)conceituando
uma diferenr;:a a partir de vocabulario retomado quinze anos depois
por Brehier emA.filosofia e o seu passado: de um lado, o "interior", o
"genio" , "a novidade espiritual na sua individ ualidade verdadeira"; de
outro, o "exterior" que acompanha o esforr;:o da filosofia pela hist6ria
(ibidem, p.11 3).
D e Cousin a Gueroult, a filosofia torna-se um problema hist6-
rico-historiografico ao ser tomada em sua pretensao universalista:
conflito irredutivel ou perennis philosophia (e, nesse caso, como
ecletismo ou sistematizar;:ao). Justamente pelo fato de nao ser uma
hist6ria do passado, do que e obrigatoriamente preterido, a hist6ria
da filosofia alimenta o esforr;:o sistematico caracteristico de toda dou
trina, tornando-se por isso "uma sorte de idealismo que se investiga
perpetuamente" (ibidem). Perennis philosophia, pois, mas nao a moda
ecletica, do a-filosofia-esta-toda-feita. Trata-se de "viver atualmente
da vida passada da filosofia" (ibidem), o que impora atualiza~ao,
porque e preciso "renovar" e "rejuvenescer" (sem contudo "disfar
r;:ar" [ibidem)51). Esse esforo
que seja "Filosofia" (Delbos, 191 7, p.136 ).
53 "'Desconfiarcomo se
a todo o instante desvelasse as amarras vigorosas de uma concretude
originaria e derradeira. Desse enlace sem jugo surge o encadeamento
peculiar a cada filosofia, tomando-a irnune ao tempo do velho e do novo.
0 pensamento nao e mera transposic;ao literaria do real, mas, referindo
o, por ele nao se consome. Consequentemente, a hist6ria da filosofia
nao e um esquema no qua! as filosofias passadas sejam pe,;as de uma
engrenagem que as incorpora em razao do beneficio remanescente dos
seus postulados. Os diferentes instantes do tempo l6gico de um sistema
nao sao causados por afecc;6es sucessivas, autonomas e predeterminadas,
mas tern de ser elaborados pelo sujeito dessa invenc;ao.
60 C f. "De la methode en histoire de la philosophie" ("II - Analyse et reconstitution
des doctrines"), em Delbos (19176, p.375).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 125
Se os temas sao recorrentes, o vocabulario escolhido tambem,
tornando-se aos poucos um bem comum. A multiplicidade doutrinal,
a Babel hist6rica responde um padrao de abordagem que permite o
estabelecirnento de um dialogo aberto. Se os fil6sofos nao se entendem
(mas havera um fundo para ta! contraste), os historiadores aproxirnam-se
(ao menos quanto as regras de seu oficio). Da monotonia do sistema a
perpetua ubiquidade virtual, adestram-se todos como habeis contra
pontistas, num punctum contra punctum que nao ultrapassa as fronteiras
da dissonancia.
Emile Brehier tera sido o prirneiro grande nome da escola fran -
cesa. Cultivando todos os generos de hist6ria da filosofia (Gueroult,
19 52b, v.ii, p.427), refletiu sobre a especificidade historiografica dessa
arte recente, seus problemas e metodos pr6prios. Nao sem razao,
suas observac;oes de historiador mesclavam-se as vezes com o relato
autobiografico (Brehier, 1947, p.105-13), lembrando o exercicio da
confissao filos6fica. Filoso.fica sirn, porque ( tambem) Brehier- "eu que
permanec;o fil6sofo ... " (ibidem, p.110) - e um historiador-fil6sofo.
0 historiador da filosofia deve f azer ressurgir o interesse filos6fico
de uma doutrina, sem para isso afasta-la da "estrutura" que a anirna
(Brehier, 1950, p.24). Umadoutrinaconserva-sepresentejustoquando
a reflexao que a renova "mantem-na na sua estrutura" (ibidem). Essa
reflexao hist6rica nao deve se opor a "doutrina como doutrina". 61 A sua
renovac;ao restaura, a medida que conserva. A "reflexao plenamente
consciente", reconhecendo na estrutura o-que-confere-sentido, renova
a doutrina conservando-lhe a ordenac;ao das partes.62 Desse modo, a
conservac;ao mantera filosoficamente presentes as doutrinas surgidas
em momentos anteriores da hist6ria. Mas para que tal ocorra sera pre
ciso reencontrar o tempo pr6prio de cada filosofia, a sua exata "durac;ao
intema" (Brehier, 1950, p.41). See certo que o fil6sofo tern hist6ria,
61 A expressao e de D elbos (191 76, p.377).
62 Cf. Brehier (1950, p.24): "uma doutrina de conjunto nao pode [ ... ] conservar-sc
presente sem ser renovada por uma reflexao plenamente consciente que a manl · m
na sua estrutura".
126 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
articulada em conex6es e influencias, nao e menos certo que a filosofia
escapa dessa trama causativa;63 e para compreende-la sera preciso rein
ventar a historiografia.
Inutil lembrar o que a frase "o que e essencial num pensamento filo
s6fico e uma certa estrutura" (ibidem, p.41) tera repercutido na versao
gueroultiano-goldschmidtiana64 da escola francesa, mas tarnbem, por
conseqiiencia, nos ensaios locais que buscaram compreender ou avaliar a
historiografia estrutural . 65 Ocioso tambem, decerto, insistir no principal
da frase. Haveria en tao por que dizer: uma certa estrutura?66 0 fato de se
tratar de filosofiaindicaria um pormenorreal?67 Como nota Moura ( 1988,
p.152), "quando Goldschmidt com para o estruturalismo em hist6ria da
filosofia aos demais 'estruturalismos', e mais facil para o leitor encontrar
diferenc;:as do que semelhanc;:as entre eles". Como devido cuidado, pode
se en tao afirmar que "as teses e posturas 'estruturalistas' ja tinham sido
formuladas, no essencial, por E. Brehier" (ibidem, p.153).68
63 Cf. Brehier (1950, p. 74 ): "o filosofo tern uma hist6ria, mas nao a filosofia".
64 Cf. G ueroult (1988, l/3, p.939-73); cf. "Tempo l6gico e tempo hist6rico na inter
preta,;:iio dos sistemas filos6ficos" em (Goldschmidt, 1984, p.144-5).
65 Cf. Moura ( 1988, p.153-5 ); cf. "O essencial de uma filosofia e uma certa estrutura"
em Arantes (1994, p.112-5).
66 Trata-se sempre, de qualquer modo, de "estruturas mentais essenciais e par assim
dizer intemporais e permanentes" (cf. Brehier, 1950, p.44 ).
6 7 0 pr6prio texto justifica o surgimento da frase. Ela se encontra, com efeito, na seguinte
seqiiencia: 1. o genera de eventos que ocupa o historiador da filosofia refere-se a
eventos que siio, "num sentido, eventos passados, mas, num sentido mais profundo
(e e aquele que interessa a filosofia), eventos em vias de produzir-se" (ibidem, p .38);
2. "O platonismo e coisa passada e revolvida. Issa quer dizer que nos s6 podemos
compreender as dialogos estudando o meio hist6rico no qua! eles se banhavam: lin
guagem, habitos literarios, estado de avan,;:o dos conhecimentos positivos, modos de
raciocinio; tudo isso, nasuasingularidade, s6 podia produzir-senaAtenas do seculo IV
antesdanossaera" (p.39-40); 3. "Masessee somente o tempoexterior ao sistema ... "
(p.40); 4. "oqueeessencial num pensamentofilos6ficoeumacertaestrutura ... " (p.41 ).
T rata-se de expor o modus operandi do historiador e o do historiador da filosofia ( au
historien philosophe) (1 ), o que e feito, para o primeiro, atraves do exemplo da hist6ria
do platonismo (2), e, para o segundo, par uma conceitua,;:iio do que seja o essencial
de um pensamento filosofico ou sua estrutura ( 4) (a penultima etapa - 3 - somente
efetua a separa,;:iio entre as duas partes positivas da seqiiencia: 2 e 4 ).
68 Da mesma forma, ver "O essencial de uma filosofia e uma certa estrutura" em
Arantes(1994, p.114).
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 127
Compreende-se assim que a estrutura em filosofia tenha uma es
pecificidade suficiente que a distingue de suas congeneres. Uma certa
estrutura, sim; pois, afinal, "sea obra se apresenta como estrutura a
ser explicada, a estrutura explicativa ea pr6pria obra, ou seu "metodo
em ato", e nao havera agora nenhum termo exterior de comparac;:ao"
(Moura, 1988, p.153).
Do ponto de vista dos varios estruturalismos, seria, portanto, clara a
restric;:ao de Brehier. Mas sera talvez pela 6ptica do historien philosophe
que se compreendera melhor o alcance dessa certaine structure.
Se faz sentido a expressao, "uma certa estrutura" sera uma estrutura
aberta. Porque o pensamento filos6fico e "uma iniciativa e um comec;:o
[ ... ] e freqiientemente uma questao posta para o futuro" (Brehier,
1950, p .39). A estrutura essencial nao podera entao apresentar a
doutrina "como um cadaver ... im6vel" (ibidem , p.43), rigidez que
historiciza os sistemas ao longo do tempo. Condic;:ao indispensavel de
conservac;:ao da doutrina, a circulac;:ao do pensamento e a garantia de
sua revivescencia constante.
0 estranhamento que se possa experimentar com essa estrutura
aberta nao e menor do que a paracloxalidade das regras a que se ve sub
metido o historiador da filosofia. Diante da ambigiiidade fundamental
de seu objeto de estudo, ele se ve obrigado, et pour cause, a subverter as
modalidades do tempo. Analisar historicamente as doutrinas, toman
do-as em seu passado, renova-las sem deturpac;:ao, apresentando-as ao
debate contemporaneo, conservar-lhes o alcance prospectivo, lanc;:ando
as adiante - eis o procedimento do historien philosophe.
E claro que em virtude dessa triplice orientac;:ao dissolvem-se as
considerac;:oes (favoraveis ou nao) acerca da precedencia de Brehier.
Note-se somenteque na "lntroduc;:ao" de sua Historia da Filosofia o
mesmo tema ja aparecia. E nao se pod era tao facilmente afirmar nem que
Brehier ( apesar das aparencias) se com po rte la como historiador nem que
tarnpouco o fac;:a como fi!6sofo no artigo em questao. De qualquer modo
(e aocontrariodeum Robin (l 936, p.1 08), comseus pratose balanc;:as),
agora se diz: "A hist6ria da filosofia, se quiser ser fie!, nao pode ser a
hist6ria abstrata das ideias e dos sistemas, separados das intenc;:6es de
seus autores e da atmosfera morale social deonde provieram" (Brehier,
128 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
1977, I/1 , p.12);69 "a filosofia nao poderia viver separada do resto da
vida espiritual, que se manifesta, ademais, nas ciencias, na religiao, na
arte, na vida moral ou social" (ibidem, p.13); "sera [ ... ] preocupac;:ao
constante do historiador da filosofia permanecer em contato com a
hist6ria politica geral e a hist6ria de todas as disciplinas do espirito,
antes do que pretender isolar a filosofia como tecnica independente das
outras" (ibidem, p.14 ).
E claro que sempre se podera subtrair o "residua dogmatico" , nesse
caso "representado pela teoria da intuic;:ao e da energia espiritual", para
ver surgir "algumas das vigas-mestras do gueroultianismo e do metodo
estrutural em hist6ria da filosofia". 70 Mas nao se estara com isso sendo
"mais plat6nico do que Platao, mais cartesiano do que Descartes"?
(Brehier, 1950, p .39).
69 Cf. Brehier (1977, I/1, p.13): "Isolaruma doutrinado movimento de ideiasque a
determinou, do sentimento e da intencionalidade que a dirigem, considera-la coma
um teorema que exige prova, e substituir porum pensamento morto um pensamento
vivo e significativo".
70 Cf. "O essencial de uma filosofia e uma certa estrutura" em Arantes (1994,
p.114).
CoNcLusAo
0 que se pretendeu fazer nes~e estudo foi recuperar parte da hist6ria
de formac;:ao da escola francesa, com a lembranc;:a de personagens e
textos que, tao envolvidos com.seu tempo, pertencem mais a hist6ria,
menos a filosofia. Essa desvantagem apresenta um risco, pois esses fil6-
sofos nao tern lugar marcado ria "grande hist6ria da filosofia". Mas ela
e tambem especialmente ir6nica, porque a modestia que os distingue
e aos poucos superada, desembocando em ironia maior, que explica e
dissolve a dificuldade anterior, herdando seu avesso, agora direito.
Os ecleticos faziam (ma) hist6ria da filosofia - pensando fazer
filosofia (Cousin) - ou avistavam nela um recurso a mao para ir da
psicologia a metafisica (Jouffroy). O ra, o historiador fara rigorosa
interpretac;:ao dos sistemas, postergando seu folego doutrinal, ou
mesmo o deslocando, do filos6fico para o hist6rico. Mas o que era
confusamente mesclado em fins do seculo XVIII e inicio do XIX,
proporcionando investigac;:ao semicientifica e semifilos6fica (na qua!
a hist6ria da filosofia corroborava qualquer dos )ados), conquistou
seu espac;:o e afastou-se do filos6fico tout-court. Do campo assim
redefinido da ciencia, com sua pratica e teoria correspondendo-se
simpaticamente, a hist6ria da filosofia ( e sua historiografia pr6pria,
uma necessidade crescente), ate entao subalterna, emerge - e a filo
sofia, rainha sem trono, retrocede.
130 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
Logo apos o arsenal mobilizado para a prova da legitimidadesem fun dos caminhos da
reflexao filosofica possivel" - como se se quisesse, com a dianoematica, prever ( ou
prover) o futuro do pensamento.
132 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
apontada decorre de um deslocamento principal, ou, se se quiser, de
uma reversao a antinornia hist6ria versus filosofia. A ausencia de solu
c;:ao e facilmente destacada, a medida que se desconhece ou se rejeita a
proveniencia do assunto. Exige-se da dianoematica o que ela nao pode
dar, sob pena de recair no mesmo- conflito. A dianoematica nao e, pois,
considerada em sua explicayao hist6rica (face adversa do procedimento
estrutural), embora s6 tenha sentido assim. Toma-la somente em leitura
interna e, paradoxalmente (mas em tal caso a paradoxalidade e extrema),
desconsiderar a questao. A dianoematica deve ser interpretada a luz da
disputa que procura encerrar, vale dizer, pelo historiador-fil6sofo. Ser
fie! a ela e aborda-la nesse cruzamento-lirnite.
REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS
ALMEIDA PRADO, A. Discurso pronunciado em 25 de janeiro de 1937
como Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universi
dade de Sao Paulo, por ocasiao da solenidade de formatura da prirneira
turma de licenciados. Amuirio da Faculdade de Filosofia, Ciencias e
Letras 1936, Sao Paulo, 1937 .•
ARANTES, P. E. Um departamento Jrances de ultramar: estudos sobre a
formac;:ao da cultura filos6fica uspiana ( uma experiencia nos anos 60).
Sao Paulo: Paz e Terra, 1994.
AS SO MB RAS de Descartes, Kant e Jouffroy a M r. Cousin por um pro
fessor de philosophia. Versao de Fr. Marianna de Santa R. de Lima.
Bahia: Typ. de Epifania Pedrosa, 1846.
BALZAC, H . de. A comedia humana. lntrodui;:oes, notas e orientac;:ao de
Paulo R6nai. Porto Alegre: G lobo, 1948.
BARBE, A. Curso elementar de philosophia. Trad. Joao Luiz Soares Martins.
3 .ed. rev. e aum. Bahia: T yp. de Camillo de Lellis Masson, 1861.
---· Cours elementaire de philosophie. Paris: Jacques Lecoffre, 1859.
BAUTAIN, L. De l'enseignement de la philosophie en France, au dix
neuvieme siecle. In: DOUAILLER. S. La philosophie saisie par l'etat:
petits ecrits sur l 'enseignement philosophique en France ( 1789 / 1900).
Paris: Aubier, 1988.
BERGSON, H . lntrodui;:ao. In: _ . 0 pensamento e o movente. Trad. F.
Leopoldo e Silva. Sao Paulo: Abril Cultural, 1979.
134 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
___ , Lettre de M. Bergson a M . Xavier Leon. Bulletin de la Societe
Fra~ise de Philosophie (Seance du 28 Mai 1932), Paris, 1932.
---· CEuvres. Paris: PUF, 1959.
BERNARD, C. Victor Cousin ou la religion de la philosophie. Toulouse:
Presses Universitaires du Mirail, 1991.
BERR. H. BERR, Avant-propos. In: ROBIN, L. La pensee grecque. Paris:
La Renaissance du Livre, 1923.
___ . La synthese des connaissances et l'histoire. In: BREHIER. E. La
synthese, idie-force dans !'evolution de la pensee. Paris: Albin Michel, 1951.
BIRAN, M. de. CEuvres choisies. Paris: Aubier, 1942.
___ . CEuvres inedites de Maine de Biran publiees par Ernest Naville avec
la collaboration de Marc Debrit. Paris: Dezobry, 1859.
BOUREAU-DESLANDES, A. F. Histoirecritiquede la philosophie au l'on
traite de son origine, de ses progres, et des diverses revolutions qui lui sont
arrivees jusqu 'a notre terns. Amsterdam: Franr;:ois Changuion, 1737.
BOUTROUX, E. Avant-propos du traducteur. In: ZELLER, E. La phi
losophie des grecs considiree dans son developpement historique. T raduitede
l'allemand par E. Boutroux (Tome Premier). Paris: Hachette, 1877.
---· De I' ob jet et de la methode clans l'histoire de la philosophie. In:
IER CONGRES INTERNATIONAL DE PHILOSOPHIE. Paris:
Armand Colin, 1902. t.4.
---· La nature et /'esprit. Paris: J. Vrin, 1926a.
___ . La philosophie de Kant: cours de M. Emile Boutroux professe a la
Sorbonne en 1896-1897. Paris:]. Vrin, 19266.
___ Nouvelles etudes d'histoire de la philosophie. Paris: Felix Akan,
1927 ("Jules Lachelier")
BRAUN, L. Histoire de l'histoire de la philosophie. Paris: Ophrys, 1973.
BREHIER, E. L'histoire de la philosophie: sa nature et ses methodes.
Conference inaugurale prononcee a !'Ecole des Beaux-Arts, le jeudi 16
avril, par le professeur Emile Brehier, charge du cours d'Histoire de la
Philosophie a l'Universite du District Federal. In: Li9oes Inaugurais da
Missiio Universitaria Francesa durante o anode 1936. Rio de Janeiro:
Universidade do Distrito Federal, 1937.
___ Hist6ria da filosofia. Trad, Eduardo Sucupira Filho. Sao Paulo:
MestreJou, 1977.
___ La philosophie et son passe. Paris: PUF, 1950.
___ Comment je comprends l'histoire de la philosophie. In: Les etudes
philosophiques. s.l.: s.n., 1947. p.105-13.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 135
BROUSSAIS, F.-J.-V. De /'irritation et de la Jolie. Paris: Didier, 1877.
BRUNETIERE, F. Manuel de l'Histoire de la litterature fran~ise. Paris:
Delagrave, 1930.
BRUNNER, F. Histoire et theorie des philosophies selon Martial Gueroult
(1891-1976). Bulletin de la Societe Fran9aise de Philosophie (Seance du
23 Janvier 1982), Paris, 1982.
BRUNSCHVICG, L. Ecrits philosophiques. Paris: PUF, 1954.
BRUNSCHVICG, L. et al. Revue de metaphysique et de morale. Intro
duction. In: DOUAILLER. S. Philosophie, France, XIX~ siecle: ecrits
et opuscules. Paris: Librairie Generale Franr;:aise, 1994.
CABANIS, P. J. G. Rapports du physique et du moral de l'homme. Paris:
Crapart, 1805.
CAMPO, M. Kant. In: MATHIEU, V. (Ed.) Qµestioni di storiografia
filosofica: dalle origini all'Ottocento. Brescia: La Scuola, 1974.
CAREIL, A. F. De !'introduction des idees hegeliennes en France. In:
DOUAILLER. S. Philosophie, France, XIX• siecle: ecritsetopuscules.
Paris: Librairie Generale Franr;:aise, 1994.
---· Hegel et Schopenhauer: etudes sur la philosophie allemande mo
deme depuis Kant jusqu'a nos jours. Paris: Hachette, 1862.
CASSIRER. E. Lafilosofia de la ilustraci6n. Trad. E. lmaz. Mexico: Fondo
de Cultura Economica, 1984. ·
- --· El problema del conocimiento. Trad. W. Roces. Mexico: Fondo de
Cultura Econornica, 1986.
CASULA, M. La metafisica di A. G. Baumgarten. Milano: Mursia, 1973.
CHA TELET, F. La philosophie des professeurs. Paris: Grasset, 1970.
COHN-PLOUCHART, D. L'explication de texte philosophique. In: JA-
COB, A. (Dir.) Encyclopedie Philosophique Universe/le. Paris: PUF, 1989.
COMTE, A. Curso defilosofia positiva. Trad. J. A. Giannotti. Sao Paulo:
Abril Cultural, 1978.
---· Discurso sabre o espirito positivo. Trad. J. A. Giannotti. Sao Paulo:
Abril Cultural, 1978.
CONDILLAC, E. B. de. Tratado dos sistemas. Trad. L. R. Monzani. Sao
Paulo: Abril Cultural, 1984.
COSTA, J.C. Discurso pronunciado em 25 de janeiro de 1937 como Orador
da primeira turma de formandos da Faculdade de Filosofia, Ciencias e
Letras da Universidade de Sao Paulo. Anuario da Faculdade de Filosofia,
Ci.encias e Letras - 1936, Sao Paulo, 1937.
136 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
---· Discurso do Professor J oao Cruz Costa, paraninfo da turma de
1949 da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade de
Sao Paulo. Amuirio da Faculda.de de Filosofia, Ciencias e Letras - 1939-
1949, Sao Paulo, v.1, 1953.
___ Contribuifa:o a historia das ideias no Brasil. Rio de Janeiro: Jose
Olympio, 1956.
COULANGES, F. de. Sur !'organisation de l'enseignement litteraire:
trois notes de Fustel de Coulanges - I . Les 'Conferences' et la culture
generale. In: Ecole normale superieure: d' ou elle vient - ou elle va. Paris:
Hachette, s. d.
COURNOT, A. Essai sur les fondements de nos connaissances et sur les
caracteres de la critique philosophique. Paris: Hachette, 1851
___ Considerations sur la marche des idees et des evenements clans
!es temps modernes apud BREHIER, E. L 'histoire de la philosophie:
sa nature et ses methodes. In: ___ . Lifoes inaugurais da missii.o uni-
versittiriafrancesa durante o anode 1936. Rio de Janeiro: Universidade
do Distrito Federal, 1937.
COUSIN, V.des Savans. Janvier
1822. A Paris, de l'Imprimerie Royale, 1822. p.60-3.
---· Histoire comparee des systemes de philosophie, par M. Dege
rando. Journal des Savans. Juillet 1825. A Paris, de l'Imprimerie Royale,
1825, p.437.
- --·Preface. In: TENNEMANN, W. G. Manuel de l'histoire de la
philosophie (abreviadamente: "Preface"). Paris: Sau tel et, 1829. p.xiii.
- - -· Fragments philosophiques. Bruxelles: Hauman, 1840a.
- --· Introduction a l'histoire de la philosophie. Bruxelles: Hauman,
1840b.
---· Cours de l'histoire de la philosophie: introduction a l'histoire de la
philosophie. Paris: Didier, 1841.
___ Curso da historia dafilosofia. Trad. A. P. de Figueiredo. Pernam
buco: s. n., 1843.
- --· Philosophia popular. Traduc;ao de M. M. Moraes e Valle. Rio de
Janeiro: Typ. do Diario, 1849.
___ CEuvres de M. Victor Cousin. Paris: Pagnerre, 1850. (Instruction
Publique)
---· Histoire generale de la philosophie. Paris: Didier, 1861/1884.
_ __ Philosophie de Kant. 4.ed. Paris, 1864.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 137
___ , Du Bien. Edition classique avec une etude sur Victor Cousin et des
notes par M . Pau!Janet. Paris: Didier, 1886
---· Theoria do bello e do bem. Bahia: T ypographia do Diario da Bahia,
1870.
---· Du Vrai, du beau & du bien. Paris: Perrin, 1917.
---· Sur l'enseignement de la philosophie a !'Ecole normale. In:
DOUAILLER, S. La philosophie saisie par l'etat: petits ecrits sur
I' enseignement philosophique en France (1789/ 1900). Paris: Aubier,
1988a.
--- · Vues sur 1' enseignement de la philosophie. ln: DOUAILLER, S.
La philosophie saisie par l' etat: petits ecrits sur I' enseignement philoso
phique en France (1789/1900). Paris: Aubier, 1988b.
--- · Preface de la deuxieme edition des Fragments philosophiques. In:
DOUAILLER, S. Philosophie, France, XIX• siecle: ecritsetopuscules.
Paris: Librairie Generale Franc;aise, 1994.
DAMIRON, P. Essai sur l'histoire de la philosophie en France, au XIX•
siecle. Paris: Hachette, 1846.
DAURIAC, L. Croyance et realite. Paris: Felix Ncan, 1889.
DEGERANDO, M .-J. Histoir'e comparee des systemes de philosophie
consideres relativement aux principes des connaissances humaines.
2.ed. rev. et aug. Paris: Nexis Eymery, 1822.
DELBOS, V. Les conceptions de l'histoire de la philosophie. Revue de
Metaphysique et de Morale, Paris, v.24, n.2, 1917a.
--- · De la methode en histoire de la philosophie (I - Les materiaux de
la reconstitution historique des doctrines). Revue de Metaphysique et
de Morale, Paris, v.24, n.3, 1917b.
---· De la methode en histoire de la philosophie (II - Analyse et
reconstitution des doctrines). Revue de Metaphysique et de Morale,
Paris, v.24, n.4, 1917c.
DESANTI, J.-T. lntroduction a l'histoire de la philosophie. Paris: Nouvelle
Critique, 1956.
DESCARTES, R. CEuvres philosophiques. Paris: Garnier, 1967.
___ . Entretien avec Burman. Paris: J. Vrin, 197 5.
DILTHEY, W. Vorwort. In: Kants Werke. Akademie-Textausgab
Unveriinderter photomechanischer Abdruck des Textes der von dcr
Preussischen Akadernie der Wissenschaften 1902 begonnenen Aus
gabe von Kants gesarnmelten Schriften. Berlin: Walter d ,ru H·1,
1968. v.l, p .x.
138 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
DOUAILLER, S. La philosophie saisie par l'etat: petits ecrits sur l' enseig
nement philosophique en France (1789/1900). Paris: Aubier, 1988.
DOUAILLER, S. et al. (Ed .) Philosophie, France, XIX• siecle: ecrits et
Opuscules. Paris: Librairie Generale Franc,:aise, 1994.
DREYFUS, G. Avertissementdel'Editeur. In: GUEROULT, M . E . B.
Philosophie de l'histoire de la philosophie. Paris: Aubier, 1979. p. 7-11 .
DUBARLE, E . Histoirede l'Universite, depuis son originejusqu'a. nosjours.
Paris: J. L. J. Briere, 1829.
DUPUY, P. De l'enseignement superieur en France. Bordeaux: G . Gou
nouilhou, 1872.
___ Sur la fondation de !'Ecole: !es esperances de la Convention. In:
L'Ecole normale superieure: d'ou elle vient - ou elle va. Paris: Hachette, s. d .
ECOLE NORMALE SUPERIEURE: d' ou elle vient - ou elle va. Paris:
Hachette, s. d .
ETIEMBLE, R. Les ecrivains franc,:ais et la Revolution. In: QUENEAU,
R. (Dir.) Histoire des literatures (Encyclopedie de la Pleiade). Paris:
Gallimard, 1958.
ETUDES sur l'histoire de la philosophie en hommage a Martial Gueroult.
Paris: Fischbacher, 1964.
FABIANI, J. -L. Les philosophes de la republique. Paris: Minuit, 1988.
FERRARI, J. Les philosophes salaries. Geneve: Slatkine, 1980.
FERRAZ, M. Histoire de la philosophie pendant la Revolution (1789- 1804 ).
Paris: Didier, 1889.
FOUILLEE, A. La reforme de l'enseignement par la philosophie. Paris:
Armand Colin, 1901.
FRANCK, A. (Ed.) Dictionnaire des sciences philosophiques. Paris: Hachette,
1875.
FRANCOIS-PONCET, A. L 'histoire et lafonction de l'Ecole. In: L 'Ecole
normale superieure: d' ou elle vient - ou elle va. Paris: Hachette, s. d .
GAMA, M. S. L. Breve prefacio do traductor. In: GERUZEZ, E. Novo
curso de philosophia redigido segundo o novo programma para o bacharelado
em lettras. Segunda edic,:ao revista e corregida, vertida do Original Fran
cez para a Lingoa vernacula pelo P. M. Miguel do Sacramento Lopes
Gama. Pernambuco: Typographiade M. F. de Faria, 1840.
GER UZEZ, E . Novo curso de philosophia redigido segundo o novo programma
para o bacharelado em lettras. 2.ed. rev. e corr. Trad. P. M. Miguel do
Sacramento Lopes Gama. Pernambuco: T ypographiade M. F. de Faria,
1840. Original em frances.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 139
--- · Curso de philosophia, escrito conforme o programma para o bacha
relado. Trad. Joao Candido de Deos e Silva. N ictheroy: Typ. Nicthe
royense de Rego, 184 5.
GIANNOTTI, J . A. Notas para uma analise metodol6gica de O capital.
Revista Brasiliense, Sao Paulo, n .29, 1960.
---· Sobre o trabalho te6rico. Transl Form! Afiio: Revista de Filosofia,
Sao Paulo, n.1, 1974. Entrevista.
---· Filosofia para todos, em particular para Rodrigo. Cadernos PUC,
Campinas, n .1, mar.1980.
---· Um livro polemico. Novos Estudos, Sao Paulo, n .39, jul. 1994.
GIL, F. (Coord.) Recep~ da Critica da raziio pura: antologia de escritos
sobreKant(1786-1844). Lisboa: Fund. CalousteGulbenkian, 1992.
GILSON, E . Preface. In: BOUTROUX, E. La philosophie de Kant. Cours
de M. Emile Boutroux professe a la Sorbonne en 1896-1897. Paris: J.
Vrin, 1926.
---· L'etre et /'essence. Paris: J. Vrin, 1981.
GOBLOT,J. -J. Jouffroy et Cousin. In: F AUQUET, E. (Ed.) Victor Cousin
homo theologico-politicus. Philologie, philosophie, histoire litteraire. Paris:
Kime, 1997. p.81.
GOLDSCHMIDT, V. Ecrits. Par:is: J. Vrin, 1984.
_ __ A religiiio de Platiio. Trad. leda e Oswaldo Porchat. Sao Paulo:
Difusao Europeia do Livro, 1970.
GOOCH, G. P. Historia e historiadores en el Siglo X IX. Version espafiola
de E. de Champourcin y R. Iglesia. Mexico: Fondo de Cultura Eco
n6mica, 1942.
GOUHIER, H. L'histoire et sa philosophie. Paris: J . Vrin, 1952.
---· Une philosophie de !'existence: Maine de Biran. Annali della
Facolta. di Lettere e Filosofia, Bari, v.11, 1966.
GRANGER, G.-G. Penseeformelleetsciencesde l'homme.Paris: Aubier, 1967.
GRANGES, C.-M . des. Les grands ecrivainsfra~is. Paris: Hatier, 1935.
GUEROULT, M. E . B. Histoiredelaphilosophie, metaphysiqueetwel-
tanschauungen d'apres W . Dilthey. Revista Brasileira de Filosofia, Sao
Paulo, v.2, n.1, p.5-18, jan./mar. 1952a.
--- Emile Brehier. Revista Brasileira de Filosofia, v.11, p.427, 19526.
- --· Le probleme de la legitimite de l'histoire de la philosophie. In:
CASTELLI, E. (Ed.) La philosophie de l'histoire de la philosophie. Paris:
J. Vrin, 1956.
140 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
--- 0 problema da legitimidade da Hist6ria da Filosofia. Revista de
Historw., Sao Paulo, n. 75, 1968a.
---· Descartes selon l'ordre des raisons. Paris: Aubier, 19686.
---· Philosophie de l'histoire de la philosophie. Paris: Aubier, 1979.
---· Histoire de l'histoire de lada filosofia.
Mas a vinda de Gueroult e a estabilizac;ao da escola francesa entre n6s
nao era exatamente compativel com o exerdcio do questionamento das
relac;oes entre a filosofia e sua hist6ria. 0 aprendizado dessa tecnica de lei
tura e explicac;ao das obras filos6ficas era uma etapa de formac;ao intelectual
estrita, momenta didatico que s6 podia ser recebido passivamente. Assirn, a
epoca do Livio Teixeira ( 1 964, p.209) estudante ou professor universitario,
a preocupac;ao nao poderia ser a da relac;ao entre a filosofia e seu passado
- "esse problema europeu", dizia ele - , etapa necessariamente posterior a
12 Quanta a expressao "filosofia da hist6ria da filosofia", elaja aparece em Octave
Hamelin (1927 , 17" lec;:on, p.425-6 - apud Gouhier, 1952, p.22).
13 Cf. Dreyfus(l 979, p.7-11); Vilhena(l 956, v.I, p.231): "lndique-sedesdejaqueoPro
fessor Martial Gueroulttemem preparac;:ao um tratado de historiografiafilos6ficaque
sera de irnportancia capital: Philosophie et Histoire de la philosophie, 5 volumes".
14 Nao se trata, contudo, do primeiro registro da "dianoematica" ( cf. "La dianoema
tique", em Goldschmidt, 1984, p.230).
15 Para uma relac;:ao dos principais artigos de Gueroult sobre a questao da hist6ria e da
historiografiadafilosofia, verGoldschmidt (1984, p.230); damesma forma, ver Brunner
(1982, p.33-73), texto que discute a concepc;:ao gueroultiana de hist6ria da filosofia.
20 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
frequentaphilosophie. Paris: Aubier, 1988.
GUIZOT, F. De I' enseignement de la philosophie. In: DOUAILLER, S.
La philosophie saisie par l 'etat: petits ecrits sur I' enseignement philoso
phique en France (1789/1900). Paris: Aubier, 1988.
HAMELIN, 0. Le Systeme de Renouvier. Paris:Vrin, 1927
HAVET, J. (Dir.) La pensee et !es ordres de realite ("§6. La signification
philosophique de l'histoire de la philosophie"). In: TENDANCES ...
principales de la recherche clans !es sciences sociales et humaines.
Deuxieme partie. Tome second: Science juridique, Philosophie. Paris:
Moutan/Unesco, 1978.
HAZARD, P. 0 pensamento europeu no seculo XVIII. Trad. C . G. Babo.
Lisboa: Presen~a, 1974.
HEGEL, G. W . F. lntroduya.o a historw. dafilosofia. Trad. Antonio Pinto
de Carvalho. Sao Paulo: Abril Cultural, 1980.
HUME, D. An Enquiry concerning human understanding. In:_. En
quiries concerning the human understanding and concerning the Principles
of morals by David Hume. Oxford: Clarendon, 1951.
_ __ A treatise of human nature. Edited by L. A. Selby-Bigge. Oxford:
Clarendon, 1967.
---· An abstract of a treatise of human nature. In:_. Abrege du traite
de la nature humaine. Paris: Aubier, 1971 .
JANET, Paul. La crise philosophique. Paris: Germer Bailliere, 1865.
---· Les problemes du XIX• siecle. Paris: Michel Levy, 1872.
JANET, Pierre. Preface. In: RIBOT, T. Choix de textes et etude de l'CEuvre
par G. Lamarque. Paris: Michaud, s. cl.
JOUFFROY, T. Preface du traducteur. In: STEWART, D . Esquisses de
philosophie morale. Paris: A. Johanneau, 1833.
--- Preface du traducteur. In: REID, T. CEuvres completes de Thomas
Reid, chef de l'ecole ecossaise, publiees par M. Th. Jouffroy, avec des
fragments de M. Royer-Collard et une introduction de l'editeur. Paris:
Sautelet, 1836. p.clxxviii.
---· Melanges philosophiques. Paris: Hachette, 1860.
---· Nouveaux melanges philosophiques par Th. Jouffroy. Paris: Ha-
chette, 1861.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 141
---· Cours d'esthetique. Paris: Hachette, 1875.
___ Lettre a Darniron, du 19 novembre 1816. In:_. Correspondance
de Theodore J ouffroy publiee avec une etude sur J oujfroy par Adolphe Lair.
Paris: Didier, 1901. p.60-1.
___ Dela philosophieetdu sens commun. In: DOU A ILLER, S. et al.
(Ed.) Philosophie, France, XIX• siecle. Ecrits et Opuscules (abreviada
mente: PhEcrOp). Paris: Librairie Generale Fran~aise, 1994. p.60-75.
KANT, I. Werke. Akademie-Textausgabe. Unveranderter photomecha
nischer Abdruck des Textes der von der Preussischen Akadernie der
Wissenschaften 1902 begonnenen Ausgabe von Kants gesammelten
Schriften. Berlin: Walter de Gruyter, 1968.
___ Critica da razao pura. Trad. V. Rohden e U. B. Moosburger. Sao
Paulo: Abril Cultural, 1983.
KOYRE, A. Etudes d'histoire de la pensee philosophique. Paris: Gallimard,
1971.
LA PHILOSOPHIE de l 'histoire de la philosophie. Paris: J. Vrin, 19 56.
LACHELIER, J. Dufondement de /'induction suivi de psychologie et meta
physique et de notes sur le Pari de Pascal. Paris: Felix Akan, 1911.
___ Lettre a Emile Boutroux (2.10.1868). Bulletin de la Societe Fran
faise de Philosophie (Seance du 28 Mai 1932), Paris, 1932.
---· Psychologie et metaphysique. Paris: PUF, 1949.
___ SurSpiritualisme. ln: LALANDE, A. (Ed.) Vocabulaire technique
et critique de la philosophie. Paris: PUF, 1962. p.1020.
LALANDE, A. (Ed.) Vocabulaire technique et critique de la philosophie.
Paris: PUF, 1962.
LAMARQUE, G. Introduction. In: RIBOT, T. Choix de textes et etude
de l'CEuvre par G. Lamarque. Paris: Michaud, s. cl.
LAROMIGUIERE, P. Lefons de philosophie. Paris: Fournier, 1844.
LEIBNIZ, G. W. Nouveaux Essais sur L'Entendement par L'Auteur
du Systeme de L 'Harmonie Preetablie. In: _. Die philosophischen
Schriften von Gottfried Wilhelm Leibniz. Herausgegeben von . I.
Gerhardt. Hildesheim: Georg O lms, 1960.
LEMAIRE, P. Notice biographique. In: JOUFFROY, T. Mela11gdes litteratures. Encyclopedie de la Pleiade.
Paris: Gallimard, 1958.
RAULI CA. G. V. de. Essai sur I' origine des idees et sur le fondement de lacer
titude suivi de nouvelles observations sur le carthesianisme, a /'occasion d'un
nouvel ecrit de M. le Vicomte de Bonald. Paris: Auguste Vaton, 1853.
- - - · La raison philosophique et la raison catholique. Conferences prechees
a Paris clans I' annee 1851, augmentees et accompagnees de remarques
et des notes. Paris: Gaume, 1854.
RAVAISSON, F. La philosophie en France au XIX• siecle (1867), suivie
du rapport sur le prix Victor Cousin (Le scepticisme clans l'antiquite).
Paris: Hachette, 1885.
REID, T. CEuvres completes de Thomas Reid, chef de l'ecole ecossaise, pu
bliees par M. Th. Jouffroy, avec des fragments de M. Royer-Collard et une
introduction de l'editeur. Paris: Sautelet, 1836.
144 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
RIBOT, T. Choix de textes et etude de l'CEuvre par G. Lamarque. Paris:
Michaud, s. d .
---· La psychologie allemande contemporaine. Paris: Felix Akan,
1898.
___ La psychologie anglaise contemporaine. Paris: Felix Akan, 1901.
RICCEUR, P. Histoire de la philosophie et sociologie de la connaissance.
In: L'HOMME et l'Histoire. Actes du VI Congres des Societes de
Philosophie de Langue Franc;:aise. Paris: PUF, 1952.
___ Histoire et verite. Paris: Seuil, 19 55.
ROBIN, L. La pensee grecque. Paris: La Renaissance du Livre, 1923.
___ Sur la notion d'histoire de la philosophie. Bulletin de la Societe
Franfaise de Philosophie ("Seance du 25 Avril 1936"), Paris, 1936.
ROMERO, S. A Filosofia no Brasil. In:_. Obrafilosofica. Introduc;:ao e
selec;:ao de Luis Washington Vita. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1969.
SALMON, E. G. French Spiritualism: Lachelier on L'Idee du Dieu. The
New Scholasticism, Baltimore, v.15, 1941.
SANTINELLO, G . (Ed.) Storia de/le storie generali della filosofia . Brescia:
La Scuola, 1979.
SCHWARZ, R. Um seminario de Marx. Folha de S.Paulo, Sao Paulo, 8
out . 1995.
SILVA, F. L. Bergson e a hist6ria da filosofia. Manuscrito, Campinas, v. 7,
n.12, abr.-out. 1984.
SIMON, J. Laliberte de conscience. Paris: Hachette, 1857.
---· Victor Cousin. Paris: Hachette, 1887.
---· Etat de la philosophie en France, les radicaux, le clerge, les eclec-
tiques. In: DOUAlLLER, S. La philosophie saisie par l'etat: petits
ecrits sur I' enseignement philosophique en France (1789/ 1900). Paris:
Aubier, 1988a.
___ .. Une revolution clans un verre d'eau. In: DOUAlLLER, S. La
philosophie saisie par l'etat: petits ecrits sur l'enseignement philosophi
que en France (1789/1900). Paris: Aubier, 19886.
SIMON, W. M . The 'two cultures' in nineteenth-century France: Victor
Cousin and Auguste Comte. journal of the History of Ideas, Philadel
phia, v.26, n.1, 1965.
SIMON-NAHUM, P. CousinetSchleiermacher. In: FAUQUET, E. (Ed.)
Victor Cousin homo theologico-politicus. Philologie, philosophie, histoire
litteraire. Paris: Kime, 1997. p. 4 7.
A ESCOLA FRANCESA DE HISTORIOGRAFIA DA FILOSOFIA 145
SOBOUL, A. Le directoire et le consulat. Paris: PUF, 1972.
SOULEZ, P. Ravaisson et Cousin. In: Victor Cousin: les ideologues et les
ecossais. Collogue international de fevrier 1982 au Centre internatio
nal d 'Etudes pedagogiques, Sevres. Paris: Presses de !'Ecole normale
Superieure, 1985.
SOURIAU, E. L'avenir de la philosophie. Paris: Gallimard, 1982.
STENDHAL. Correspondance. Preface et chronologie par V. del Litto.
Edition etablie et annotee par Henri Martineau et V. del Litto. Paris:
Gallimard, 1967.
___ . Sketches of Parisian Society. In: DOUAILLER, S. La philosophie
saisie par l' etat: petits ecrits sur I' enseignement philosophique en F ranee
(1789/1900). Paris: Aubier, 1988.
STEWART, D. Esquisses de philosophie morale. Trad. T. Jouffroy. Paris:
A. Johanneau, 1833.
LA SYNTHESE, idee-force clans l'evolution de la pensee. Paris: Albin
Michel, 1951.
TAINE, H. Les philosophes du 19' siecle en France. Geneve: Slatkine, 1979.
TEIXEIRA, L. Discurso do Professor Livio Teixeira, paraninfo da turma
de 1948 da Faculdade de Filosofia, Ciencias e Letras da Universidade
de Sao Paulo. Anuario da Fap,i.ldade de Filosofia, Ciencias e Letras
- 1939-1949,v.1, 1953.
---· Quelques considerations sur la philosophie et I' etude de l 'his-
toire de la philosophie au Bresil. In: BECK, L. J. et. al. Etudes sur
l'histoire de la philosophie en hommage a Martial Gueroult. Paris:
Fischbacher, 1964.
TENDANCES principales de la recherche clans Jes sciences sociales et
humaines. Deuxieme partie. Tome second: Sciencejuridique, Philo
sophie. Sous la direction de J. Havet. Paris: Moutan/ Unesco, 1978.
TENNEMANN, W . G. Manuel de l'histoire de la philosophie. Trad. V.
Cousin. Paris: Sautelet, 1829.
THIERRY, A. Cours d'histoire de la philosophie morale. In: DOUAIL
LER, S. La philosophie saisie par l' etat. Petits ecrits sur I' enseignement
philosophique en France (1789/1900). Paris: Aubier, 1988a.
___ . Academie de Paris - Faculte de Lettres - Cours de M . Cousin
- Histoire de la philosophie morale pendant le XVIII• siecle. In:
DOUAILLER. S. La philosophie saisie par l'etat: petits ecrits sur
l'enseignement philosophique en France (1789/1900). Paris: Aubier,
19886.
146 UBIRAJARA RANCAN DE AZEVEDO MARQUES
THOMPSON, J. W. A history of historical writing. Gloucester, Mass.:
PeterSmith, 1967.
TONELLI, G. Qu'est-ce que l'histoire de la philosophie? Revue Philoso
phique, Paris, v.152, 1962.
TORRES, J. A. de M . Compendia de philosophia racional. Para: Typ. e
Mattos e Compa., 1852.
VAIHINGER, H . Kommentar zu Kants Kritik der reinen Vemurift. He
rausgegeben von R. Schmidt. Aalen: Scientia Verlag, 1970.
VERMEREN, P. Note bibliographique. In: FAUQUET, E. (Ed.) Victor
Cousin homo teologicus-politicus. Philologie, philosophie, histoire litteraire.
Paris: Kime, 1997. p.211-21.
VERRA, V. "Hegel". In: MATHIEU, V. (Ed.) Questioni di storiografia
filosofica: dalle origini all'Ottocento. Brescia: La Scuola, 1974.
VICTOR Cousin: Jes ideologues et Jes ecossais. Collogue international de
fevrier 1982 au Centre international d 'Etudes pedagogiques, Sevres.
Paris: Presses de l'Ecole normale Superieure, 1985.
VIER,]. Laprosed'ideesau XJX•siecle. ln: QUENEAU, R. (Dir.) Histoire
des litteratures. Encyclopedie de la Pleiade. Paris: Gallirnard, 1958.
VILHENA. V. de M . Filosofiae hist6ria. In:_. Panorama do pensamento
filosofico. Lisboa: Cosmos, 1956.
---· 0 problema de Socrates. Lisboa: Funda~ao Calouste Gulbenkian,
1984.
VOLTAJRE. Cartas inglesas. Trad. M . de S. Chaui. Sao Paulo: Abril
Cultural, 1984.
WHITE, H. Meta-historia: a irnagina~o hist6rica do seculo XIX. Trad.
Jose Laurenio de Melo. Sao Paulo: Edusp, 1992.
ZELLER, E. La philosophie des grecs consideree dans son developpement
historique. Traduite de l'allemand par E. Boutroux (Tome Premier).
Paris: Hachette, 1877.
SOBRE O LIVRO
Formato: 14 x 21 cm
Mancha: 23,7 x 42,5 paicas
Tipologia: Horley Old Style 10,5/14
Pape!: Offset 75 g/m2 (miolo)
Cartao Supremo 250 g/m2 (capa)
1 • edic;ao: 2007
EQUIPE DE REALIZAdas doutrinas", desdobrando suas "relac;:oes
internas" e sua "arquitetura". 22 A diferenc;:a operada por Goldschmidt
entre o "l6gico" e o "genetico" e aqui anulada, nao mais representan
do alternativas estanques, mas momentos conexos cuja distinc;:ao e
provis6ria e cujo sentido s6 se alcanc;:a com sua unificac;:ao.
23
Por fim,
21 Coincidentemente, Bento Prado Jr. (1988, p .66) afirma: "Trata-se, para mim, de
restituir minha experiencia ou minha mem6ria daqueles anos, numa narrativa
muito mais impressionista do que analitica". Coincidencia nominal que, a primeira
vista, poderia refon;ar a ace~o na qua! o mesmo termo e empregue por Desanti;
mas a advertencia de Bento, para alem da modestia, indica um prop6sito nao ja
historiografico, embora - no que exatamente contradiz aquela acep(1974, p.35) afirrna que "nao existe um discurso sobre
a H1s~ona da Filosofia que nao seja simultanearnente Filosofia"; e, mais adiante (a
questao proposta se refena a uma s;ritica ao "projeto de Origens da Dialetica do
Trab~~ [ .. . ] pela ambiguidade do metodo utilizado - do estudo sincronico ar
qmtetoruco das doutrinas a luz da elaborac;:ao progressiva do materialismo d"al '.t.
I b " "d d J e ,co
- como pe a am 1gii1 a e do seu projeto, ao mesmo tempo trabalho de hist6ria da
filosofia, de filosofia e tout-court de filosofia da histo·r,·a") · " · -. . . assumo uma pos1i;ao
que me parece estar mscnta em qualquer interpretar:io sem me mascarar f ' d · • ...- , coma
neza a neutralidade c1entifica" . Sobre o que afirrna Giannotti da " tral 'd d · 'fi " • neu 1 a e
cie~b ca , :er Giannotti (19~0, p.61): "Mesmo aceitando todos os comprornissos
politicos, o mt~ectual _necess1ta preservar aquela neutralidade que !he da acesso a
uma d~utrma_e as suas mteni;oes, pois ainda que se saiba que objetividade em ciencia
nunca_ e perfe1ta, seu abandono como projeto ou norte da pratica cientifica seria tao
calam1to8?: que destruma as pr6prias bases em que se aliceri;a" . Esses testemunhos
as expenenc1as em pauta, separados por um periodo de mais de dez anos, refl.etem
uma mesma preocupar:io - · al · -, . ,, . ...- e, por sm , a mesma pos1i;ao acerca da "neutralidade
·, ntifica temat12ada; somente que - o importante a salientar · _ d d "N " ' n£ . aqu1 , quan o as
. ~tas , a e. ase recai sobreo merito de uma "analise estrutural do [ ... J trabalho sem
duv,d_a o_ mais importante (de Marx), 0 Capital , (aqui proposta)afim de extraimws
dn propria obra efetuada os processos metodologicos que levaram a sua realiz - " D
11w,m,a forma: "Aoleresteautor atodahoraestarnoscorrendoo · d Ii~ · a , nsco e ap car ao seu
r•·1isamentoconceitosdeconotac;:aonao-marxista, violentandoosentidooriginalde
l ,., ws_,x,ssagens.' separ~ndo cada categoria da constelafiio que a define ... "; "o livro [ ... ]
1 • '' 1tll 11 uma arqu1tetura ngorosaemonumental, porque certos capitulos saocompostos
11,• t., I forma, que ao serempostos anu os elos de sua a--"cu'·-- · , '" u..yao, proporc10nam-nos
1 °11 l1n'.11no conj unto de estudos que comp6e seu Um departamento frances de
ultramar, volta-se para" a formac;:ao da cultura filos6fica uspiana", pano
de fundo que de saida o distingue em face do trabalho de Moura. Nern
por isso, todavia, as etapas percorridas, parte das referencias lembradas,
e, notadamente, o timbre kantiano na compreensao hist6rico-filos6fica
(porque aqui tambem o horizonte e esse) do estruturalismo e1;1 historio
grafia da filosofia deixam de ser comuns aos dois trabalhos. E certo que
Arantes reflete sobre a genese do estilo local, mostrando a procedencia
dele entre n6s, coma, na Franc;:a, a sua filiac;:ao a "ganga espiritualista"
34
que remonta a Cousin. Mas, por assim dizer, sobre esse tempo hist6rico
estampado no assunto e retomada a consistencia hist6rico-filos6fica da
concepc;:ao estrutural, quando vem a tona o tempo l6gico de suas teses.
Desse modo, ambos os artigos compoem-se dedois mesmos momen
tos com as mesmas func;:6es estruturais, levando as mesmas conclus6es:
1. lembranc;:a (nos dais autores sempre com base em Goldschmidt) dos
historiadores da filosofia e de suas considerac;:6es sobre a metodologia
de interpretac;:ao dos textos filos6ficos, as quais antecederam historica
mente o metodo estrutural; 2. caracterizac;:ao do percurso l6gico trilhado
pelo metodo estrutural a partir da hist6ria da filosofia. 0 conjunto de
autores recordados ( com maior enfase para Goldschmidt, e, a partir
dele, Brehier) e quase o mesmo em Moura e Arantes para o primeiro
momenta dos artigos; para o segundo, sao comuns a ambos a referen
cia filos6fica principal (Kant) ea interpretac;:ao que entre n6s levou a
ela (Gerard Lebrun, Arantes introduzindo tambem Hanna Arendt e
Gilles-Gaston Granger), mais extensamente abordadas por Arantes, ao
passo que Moura se atem de pr~ferencia as etapas (l6gicas) do metodo
33 Cf. "Tempo l6gico e tempo hist6rico na interpretaIdeias no
Brasil, ha mencenaric. Para n6s, talvez, a heran