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Ensaios de 
Antropologia
Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Material Teórico
Profa Dra Andrea Borelli
Profa. Dra. Andrea Borelli 
Co-auto:
Prof. Pietro Henrique Delallibera
Revisão Textual:
Profa. Ms. Rosemary Toffoli 
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• Etnia e minoria étnica
• Raça e racialismo
• Raça e etnia
Para realizar seus estudos, primeiro acesse o item Documentos da Disciplina, no qual 
você encontrará o Referencial Teórico, ou seja, o texto que fundamentará todas as demais 
atividades da unidade.
Em seguida, para verificar se houve uma suficiente compreensão do conteúdo, responda às 
perguntas das Atividades de Sistematização, que tratam de problemas fundamentais sobre 
o assunto abordado. Foram disponibilizados, ainda, Materiais Complementares, para o caso 
de você desejar se aprofundar em algumas questões trabalhadas no conteúdo.
Finalmente, realize a Atividade de Reflexão da unidade.
Lembre-se de que um professor tutor estará à sua disposição; você pode contatá-lo a qualquer 
momento neste ambiente web-class.
 · O tema desta unidade é “Antropologia e Diversidade Étnica: Raça, 
Etnia e Racismo”.
 · Nela trataremos de esclarecer o significado de termos como “etnia”, 
“raça”, “racialismo” e “racismo”, apresentando o sentido antropológico 
de cada uma dessas palavras, suas variações de significado ao longo 
do tempo e as distorções e cargas valorativas que elas adquirem 
quando usadas corriqueiramente. Trataremos ainda das formas 
contemporâneas de racismo, suas especificidades históricas e diferenças 
em relação àquilo que poderíamos nomear como um “racismo clássico”. 
O caso brasileiro também será tema desta unidade: apresentaremos as 
particularidades da questão étnica e racial em nosso país, centrados, 
naturalmente, sobre o caso dos negros.
 · Todas essas são questões fundamentais da nossa disciplina, pois tratam 
de alguns dos principais desafios enfrentados pela humanidade na 
contemporaneidade, como as ondas migratórias e a xenofobia que 
atingem fortemente os países do centro do sistema político e econômico 
mundial. Além disso, as questões raciais e étnicas revelam como poucas 
a importância da Antropologia e das demais ciências humanas para a 
compreensão e mediação de conflitos sociais instalados com base em 
preconceito, discriminação e toda sorte de convicções etnocêntricas.
Antropologia e Diversidade étnica: 
raça, etnia e racismo
• Racismo: histórico, definições e novos usos
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Contextualização
Caro(a) aluno(a),
No dia 20 de julho de 2010, o governo brasileiro sancionou a Lei n.º 12.288, que 
instituiu o Estatuto da Igualdade Racial. De acordo com o próprio texto legal, o objetivo 
dessa lei é “garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a 
defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos e o combate à discriminação e às 
demais formas de intolerância étnica”. O documento pode ser lido na íntegra pelo seguinte 
link: http://migre.me/eDxnq
Como você pôde perceber, o Estatuto mobiliza conceitos como “etnia”, “racismo”, “minoria” 
e “igualdade racial”. Mas o que exatamente cada um desses termos significa? A Antropologia 
lida há pelo menos um século com cada uma dessas categorias e, nesta unidade do curso, 
poderemos compreendê-las melhor e entender como seus sentidos e cargas valorativas mudaram 
ao longo do tempo.
Também continuaremos a discussão sobre a diversidade e os Direitos Humanos iniciada na 
Unidade VII, dessa vez focalizando um caso particular e extremamente relevante: a questão dos 
negros e do racismo na sociedade brasileira. É interessante que você leia o Estatuto da Igualdade 
Racial antes de iniciar esta unidade. Dessa forma, certamente algumas das questões tratadas 
pelo documento ficarão mais claras, bem como seus pontos de convergência e de divergência 
com aquilo que diz a teoria antropológica.
Bons estudos!
http://migre.me/eDxnq
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Etnia e minoria étnica
A palavra “etnia” deriva do grego ethnos, que designa um grupo humano portador de um 
mesmo conjunto de traços lingüísticos, culturais e/ou “raciais” determinantes de sua identidade. 
É interessante notar que o moderno sentido do termo permaneceu muito semelhante àquele 
que lhe atribuiu pioneiramente Heródoto, ainda no século V a.C.: de acordo com o “pai da 
História”, aquilo que definia o grego era ter o mesmo sangue, falar a mesma língua e compartilhar 
os mesmo hábitos e costumes.
Embora o significado do ethnos antigo tenha sido preservado em essência, as ciências 
humanas do século XX, especialmente por meio da Antropologia Cultural, foram responsáveis 
por agregar ao conceito de etnia a importante noção de autoconsciência. Portanto, nossa 
disciplina entende que não basta que determinada população compartilhe uma cultura, uma 
língua e uma ancestralidade para que se tenha uma etnia. É preciso, acima de tudo, que esse 
grupo se enxergue como parte de um mesmo povo.
O debate em torno da questão étnica é complexo e remete a problemas filosóficos e 
epistemológicos que em muito extrapolam o escopo da Antropologia. Isso porque o conceito 
está ligado a ideias como identidade, sentimento de pertença, mobilização política e, em última 
instância, às discussões sobre os motivos elementares que levam o homem a ser um animal 
necessariamente social. De forma extremamente genérica e resumida, poderíamos dizer que 
há duas abordagens principais para o tema. Por um lado, pode-se tomar a etnia como algo 
primordial, um laço ancestral que, independentemente de fatores externos e circunstâncias 
históricas, une determinada população. Esse ponto de vista está identificado com as teorias 
chamadas essencialistas. Atualmente, tal posição enfrenta sérias resistências, já que desde a 
década de 1980 estudos ligados à História Cultural e à Etimologia nos mostram que tradições 
e mentalidades aparentemente longevas podem ser construções culturais recentes, por vezes 
animadas pela pura vontade política. O caso dos nacionalismos é paradigmático: embora 
saibamos que o moderno conceito de nação não tem mais do que 150 anos de idade, e que a 
maioria dos atuais países tiveram seus contornos territoriais e repertórios culturais definidos há 
pouquíssimo tempo, o discurso oficial veicula a ideia de que ser britânico, francês, americano ou 
brasileiro remete a um sentimento de pertença que une a população desde tempos imemoriais.
Outra abordagem possível para o problema consiste em assumir que a etnia é uma construção 
histórica, política e social, ou seja, que a identidade étnica, o laço que une determinado povo, 
não é algo natural ou essencial, mas uma invenção coletiva. Essa posição, que podemos 
classificar genericamente como construtivista, suscita diversos outros problemas, como o do 
caráter coercitivo da identidade étnica: até que ponto a etnia é uma construção espontânea 
de uma sociedade e até que ponto ela responde a interesses políticos e discursos de poder por 
vezes xenófobos e intolerantes? Pelo primeiro ponto de vista, o foco da análise recai sobre o 
caráter naturalmente dinâmico da cultura; pelo segundo, destacam-se os aspectos ideológicos 
do discurso da pertença étnica.
 
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Em Angola, praticamente toda a população descende de membros do tronco linguístico bantu, grupo que naquele país se subdivide em etnias 
como Ambundu (esq.) e Nyaneka-Nkhumbi (dir.), entre outras.
No âmbito da Antropologia, “etnia” geralmente aparece como sinônimo de “povo” ou 
“cultura”, no sentido de “sociedade humana dotada de traços distintivos próprios”. O termo 
também esteve associado, especialmente nos últimos dois séculos, à ideia de “nação”, mas é 
preciso tomar cuidado com tal aproximação. Em primeiro lugar, porque essa é uma palavra 
muito jovem, que ganhou seu sentido moderno somente no final do século XVIII. Isso 
significa que ela está intimamente atrelada a noções contemporâneas como a de Estado 
nacional, algoabsolutamente estranho à maior parte das culturas não-ocidentais do planeta. 
Em segundo lugar, porque “nação” não se refere a um povo que partilha somente uma 
língua e uma cultura, mas partilha também um território. Portanto, embora em alguns casos 
“etnia” e “nação” coincidam, a nação pode abarcar mais de uma etnia ou, ao contrário, a 
etnia ultrapassar qualquer limite nacional.
Já na linguagem comum, a noção de etnia adquiriu uma carga profundamente preconceituosa 
que merece nossa atenção: termos como “étnico” ou “grupo étnico” se referem sempre a 
culturas diferentes da nossa e, em geral, consideradas inferiores. Isso inclui sociedades africanas, 
indígenas e, a partir especialmente da segunda metade do século XX, populações de imigrantes 
que aportaram na Europa ou nos Estados Unidos. Assim, em um interessante processo de 
inversão, o étnico passou a designar justamente aquilo que não faz parte do repertório cultural 
“padrão” de uma nação. Fiquemos com um exemplo caro à realidade brasileira: expressões 
como “roupa de estampa étnica” ou “penteado étnico” designam, na maior parte dos casos, 
vestimentas e cortes de cabelo ligados ao padrão estético que entendemos como sendo africano 
– ou simplesmente “afro”.
 
9
Matéria publicada no site Vírgula, do portal de notícias UOL: exemplo 
do uso cotidiano que o termo antropológico “etnia” adquiriu na 
nossa sociedade.
Além de revelar uma profunda ignorância por parte do enunciador – tendo em vista 
que a África, aludida pelo exemplo, acolhe uma infinidade de tradições culturais e estéticas 
completamente distintas –, essa acepção de etnia carrega traços de exotismo e primitivismo que 
remetem, em última instância, a um ponto de vista etnocêntrico e culturalmente hierarquizante. 
Trata-se, portanto, de uma definição que não faz parte do vocabulário antropológico, mas que 
deve ser levada em conta para que se compreenda melhor o peso das questões étnicas no 
interior das sociedades contemporâneas.
Outro ponto importante a ser destacado é a costumeira associação entre etnia e minoria 
(ou, mais precisamente, minoria étnica). A Antropologia nos ensina que todo grupo humano 
que se reconhece dono de uma tradição cultural singular e diferente das demais pode ser 
considerado uma etnia. Ocorre que, no caso das sociedades ocidentais, o uso dessa noção 
para designar, como acabamos de ver, grupos em geral minoritários que destoam da norma 
cultural de um país ou comunidade faz parecer que etnia se refere sempre a comunidades 
“exóticas”, como as indígenas, ou restritas a guetos, como no caso dos imigrantes. Embora 
corriqueira, essa associação não é obrigatória. Cumpre lembrar que uma minoria sociológica 
não se define pela quantidade de indivíduos que dela participam, mas pela condição – 
marginal, subordinada, excludente – com que eles se inserem na totalidade social. Um dos 
exemplos mais flagrantes de como uma minoria pode ser numericamente majoritária é o dos 
negros: em países como Brasil, Estados Unidos ou África do Sul, cuja população é composta 
por uma enorme parcela de afro-descendentes, é possível classificar a comunidade negra, 
sob vários aspectos, como uma minoria.
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
O caso dos negros, diga-se, é forma mais evidente que a questão étnica assumiu na nossa 
cultura. Tanto pelo número expressivo de africanos trazidos ao país durante séculos quanto 
pela forma particularmente perversa com que eles foram inseridos na sociedade brasileira – 
diferentemente, por exemplo, das ondas imigratórias europeias, que nunca vivenciaram situações 
de escravidão –, o racismo contra indivíduos de pele escura constitui o mais expressivo embate 
étnico de nossa história. Mas antes de refletirmos sobre esse problema, precisamos entender 
melhor a ideia de raça, suas semelhanças e diferenças com a noção de etnia e sua importância 
política ao longo dos últimos séculos.
O surgimento da raça como categoria das ciências humanas se deve à transposição do 
conceito biológico para o campo da Antropologia Física e da Etnografia. Conforme vimos 
na unidade anterior, a revolução cultural e científica pela qual passou o Ocidente a partir do 
século XVI – revolução esta que deu origem a boa parte dos pressupostos epistemológicos das 
disciplinas nascentes no século XIX, Antropologia inclusa – trouxe consigo a crença de que a 
ciência é capaz de compreender plenamente o funcionamento mundo e, junto a ela, a defesa 
da unidade de método entre ciências naturais e do homem. Imbuídos dessas convicções, os 
pensadores modernos renegaram as explicações teológicas para as diferenças entre os povos – 
explicações que remetem a Jafé, Sem e Cam, descendentes do patriarca Noé e que, de acordo 
com o livro sagrado cristão, estariam na origem dos “brancos”, “amarelos” e “negros” – e 
passaram a recuperar o conceito de raça já existente nas ciências da natureza para explicar as 
distinções fenotípicas entre os homens.
Evidentemente, esse tipo de construção teórica não se dá no vácuo, livre de influências do 
contexto histórico e social. Portanto, o que pode à primeira vista parecer um empreendimento 
científico neutro esteve desde o início contaminado por valores etnocêntricos e caros à 
ciência hegemônica naquela época. Animados pelo discurso ufanista das nações, pela teoria 
darwinista erroneamente transportada para os estudos sociais e pela força do colonialismo 
que avançava sobre a África e a Ásia, pensadores dos séculos XVIII e XIX passaram não 
só a identificar as supostas raças humanas como também a organiza-las em hierarquias, 
procurando explicações biológicas para comportamentos morais e situações de aparente 
atraso ou primitivismo. Num perverso círculo vicioso, a ideologia da raça justificava a 
dominação imposta aos povos africanos e asiáticos ao mesmo tempo em que ganhava 
legitimidade empírica por meio justamente dessa dominação.
Raça e racialismo
A palavra “raça” deriva do latim ratio, que, apesar de possuir mais de uma acepção, 
pode ser traduzido como “categoria” ou “espécie”. O uso do termo é antigo e pode 
ser encontrado, por exemplo, nos escritos do viajante veneziano Marco Polo, que no 
século XIII relatou seu encontro com a “raça persa”. Como se pode notar, o sentido 
original da palavra se aproxima muito daquilo que hoje entendemos como nação ou 
povo. Seu significado atual, intimamente ligado às diferenças físicas observáveis entre os 
grupos humanos, ganhou força somente no início da era moderna, quando as Ciências 
Naturais, especialmente a zoologia e a botânica, procuravam segmentar e classificar os 
diferentes seres vivos que habitam o planeta.
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Curiosamente, a noção moderna de raça, que assume sua face mais trágica com a opressão 
das populações negras, não coincide com a época de ouro do tráfico negreiro e da escravidão. 
Muito pelo contrário: o ideário racialista ganhou força justamente na segunda metade do século 
XIX, quando essas práticas estavam em declínio, criticadas duramente e abolidas em boa 
parte do globo. Isso ocorreu em parte porque a escravatura foi uma instituição plenamente 
aceita no Ocidente até meados da Idade Moderna, o que tornava dispensável um intricado 
aporte teórico como o do racialismo para sustenta-la moralmente. Com o advento dos ideais 
iluministas – aquele homem universal do qual tratamos na unidade anterior, dotado de direitos 
fundamentais inalienáveis – e do capitalismo como modo de produção hegemônico (o que 
alterou profundamente as relações de trabalho), a ideia de que um ser humano pode ser objeto 
de posse passou a ser repudiada, e a ideologia racista surgiu para justificar a continuidade da 
situação de opressão e desigualdade tanto dos negros fixados em países ocidentais quanto 
das próprias sociedades africanas, sistematicamente subjugadas por nações como Inglaterra, 
França, Alemanha e Bélgica. Afinal, para o ideário racista, a desigualdade entre os homens não 
advém de uma relação de dominação concreta como aquela que existeentre o senhor e seu 
escravo, mas sim de uma determinação biológica que escapa de qualquer controle, posto que 
ditada pela própria natureza.
- Europæus albus (“europeu branco”): pele branca, aparência sanguínea (isto é, 
pessoa saudável, corada), musculoso, engenhoso, inventivo, governado pelas leis, 
usa roupas apertadas;
- Americanus rubescens (“americano vermelho”, o indígena): moreno, colérico, 
cabeçudo, amante da liberdade, governado pelo hábito, tem o corpo pintado;
- Asiaticus fuscus (“asiático moreno”): amarelo, melancólico, governado pela 
opinião e pelos preconceitos, usa roupas largas;
- Africanus niger (“negro africano”): negro, astucioso, preguiçoso, negligente, 
governado pela vontade de seus chefes (ou seja, propensos ao despotismo), unta 
o corpo com óleo ou gordura.
Para Pensar
Mas o que, exatamente, vem a ser raça? Ao longo das décadas, diferentes pensadores tentaram 
fornecer respostas precisas e “científicas” para esse questionamento. Grosso modo, há duas 
concepções possíveis (e complementares). A primeira, mais grosseira, é aquela que se atém quase 
que exclusivamente às características físicas das populações. É também a noção que ainda hoje está 
mais profundamente disseminada em nosso inconsciente coletivo. Dois de seus teóricos pioneiros 
foram Alexander Crummel (1819-1898) e Carl von Linné, ou Lineu (1707-1778). Este último, um 
naturalista sueco muito influente no seu tempo e reconhecido até hoje por suas contribuições (de fato 
louváveis) às ciências naturais, elaborou uma classificação que ilustra como poucas o rigor científico 
com que se tratou a questão das raças humanas e a associação ideológica entre características físicas 
e traços comportamentais. De acordo com Lineu, o Homo sapiens se subdivide em quatro grupos, 
sendo eles:
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Carl Linnaeus, ou Carl von Linné (1707-1778). Na próxima página, ilustração 
compara o crânio do homem branco a uma imagem do deus Apolo e o crânio 
do negro a um chipanzé. A figura faz parte de um livro de 1854, escrito por 
Josiah C. Nott e George Gliddon, cujo título diz muito sobre o racialismo 
do século XIX: Tipos de humanidade, ou Pesquisas etnológicas, baseadas nos 
antigos monumentos, pinturas, esculturas e crânios das raças, e sobre suas 
histórias naturais, geográficas, filológicas e bíblicas
Originalmente, essa classificação é muito mais completa, com descrições detalhadas das 
características físicas de cada uma das subespécies. Procuramos destacar somente algumas 
dessas atribuições, com atenção especial à forma com que Lineu relaciona a organização 
política de cada sociedade aos seus traços biológicos (trechos grifados): segundo ele, temos um 
homem europeu naturalmente adaptado ao Estado de Direito contraposto, por exemplo, ao 
indígena, limitado a seguir a tradição, o “hábito” – uma sociedade, portanto, sem dinâmica, sem 
transformação, sem história. O que mais impressiona é o quanto dessa classificação elaborada 
no século XVIII permanece incutida no imaginário do Ocidente. Afinal, se olharmos atentamente 
para os discursos racistas, é fácil encontrar de forma mais ou menos evidente essa velha ideia de 
humanidade seccionada em quatro grandes grupos.
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A outra concepção possível de raça poderia ser chamada de “histórico-cultural”, pois 
ela considera não só os elementos fenotípicos das populações humanas, mas também suas 
ancestralidades e práticas culturais. Seu principal teórico foi William Edward B. Du Bois (1868-
1963), defensor da ideia de que existem, no mínimo, oito grandes raças humanas. Para essa 
vertente, a definição de uma raça deve levar em conta também as similaridades culturais entre 
os povos e, especialmente, sua procedência geográfica. Isso permitiu a Du Bois falar tanto de 
uma “raça negra”, composta pelos habitantes da África Subsaariana e por seus descendentes 
espalhados pelo mundo, quanto das raças “eslava” ou “românica”, ambas brancas.
Alexander Crummel (à esq.) e W.E.B. Du Bois (à dir.).
Nesse momento já devem estar mais claras as diferenças existentes entre etnia e raça. De um 
modo geral, pode-se dizer que a raça se define sempre, embora não exclusivamente, com base 
em aspectos biológicos, fenotípicos, enquanto a etnia está ligada a aspectos culturais, sociais, 
históricos e até psicológicos. É por isso que uma suposta raça – como, por exemplo, a negra 
– pode abarcar uma série de etnias diferentes. É também notável que a etnia só se concretize 
a partir do auto-reconhecimento de certo povo enquanto unidade cultural. Isso significa que, 
diversamente da raça, uma identidade étnica não pode ser impositiva.
 
 Atenção
É importante que deixemos claro o significado de racialismo, para que ele não seja confundido com racismo. O 
termo se refere simplesmente à aceitação da ideia de raça como paradigma teórico, sem hierarquias ou juízos 
de valor a priori. Crummel e Du Bois – eles próprios negros – foram, como vimos, racialistas, mas ambos se 
engajaram num movimento político e intelectual chamado Pan-Africanismo, defensor da união e do fortale-
cimento da raça negra justamente contra o racismo e a subjugação do continente africano pelas potências 
ocidentais. Essa ideia pode parecer estranha hoje, haja visto que o conceito de raça humana já foi desacredi-
tado pelas pesquisas científicas e que, após experiências traumáticas como o Holocausto judeu ou o apartheid 
sul-africano, sabemos que a crença nas diferenças biológicas entre os homens pode levar a caminhos políticos 
temerários. Mas no século XIX, período em que o conceito moderno de raça ganhou força e legitimidade, tal 
noção era perfeitamente aceita nos meios científicos mais sofisticados, e sua utilização não atendia necessaria-
mente à ideologia da inferiorização.
Raça e etnia
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Mas ainda é preciso analisar melhor a questão do racismo. Isso porque a noção corrente nos 
dias de hoje é muito diferente daquela empregada há, digamos, meio século. É sintomático que 
atualmente chamemos de “racismo” preconceitos que se voltam, na verdade, contra etnias, tais 
quais indígenas, migrantes ou estrangeiros. Embora possa parecer um erro conceitual grosseiro, 
esse vocabulário costuma ser consciente e politicamente orientado, pois reflete as configurações 
particulares que o racismo adquiriu historicamente na nossa sociedade. É sobre esse percurso, 
especialmente com relação ao caso brasileiro, que nos ateremos agora.
O conceito de racismo se disseminou e ganhou concretude teórica somente no início do 
século XX (não confundi-lo com raça ou racialismo, que, como vimos, são ideias bem anteriores 
a esse período). Desde então, o termo recebeu inúmeros significados por parte de defensores e 
críticos, mas até meados daquele século todas as concepções racistas se ancoraram de alguma 
forma no pressuposto de que as raças humanas possuem características físicas transmitidas 
hereditariamente, e que dessas características derivam qualidades morais, intelectuais, 
psicológicas, estéticas, religiosas, lingüísticas e culturais. A partir dessa perspectiva essencialista 
e determinista, construíram-se escalas valorativas para as diferenças entre os homens, sempre 
baseadas numa suposta divisão primordial, biológica, da espécie.
Ao longo das décadas, o racismo serviu de base para uma série de políticas segregacionistas 
fomentadas pelo próprio Estado. Dois dos casos mais relevantes são o norte-americano e o sul-
africano. No primeiro, as leis raciais perduraram até a década de 1960, quando movimentos 
sociais massivos, como aquele liderado por Martin Luther King, pressionaram politicamente 
o governo a aprovar a chamada Lei dos Direitos Civis de 1964, que extinguiu formalmente 
a discriminação da população afrodescendente nos Estados Unidos – embora o preconceito 
de fato tenha perdurado. Já no caso da África do Sul, o regime de apartheid (“separação”, 
em africânder) dividiu a populaçãodo país em três grupos raciais – os brancos, os colorados 
(mestiços) e os negros –, garantindo à minoria branca privilégios como reserva de porções 
territoriais, acesso a locais públicos restritos aos negros, usufruto pleno dos direitos políticos, 
entre outros. Essa forma de segregação oficial perdurou entre 1948 e 1994.
Apartheid: corda separa brancos e negros em uma arquibancada na África do Sul
Racismo: histórico, definições e novos usos
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O caso do racismo no Brasil carrega algumas peculiaridades que merecem nossa atenção. À 
semelhança dos Estados Unidos, nosso país viveu o trauma da escravidão e recebeu quantidades 
massivas de africanos cativos entre os séculos XVI e XIX. Por isso, a identidade da comunidade 
negra nacional não se funda em traços étnicos, remetidos a antepassados vindos de diferentes 
regiões da África e portadores de tradições culturais diversas, mas sim sobre o elemento concreto 
da cor de pele: o escravismo e a segregação não atingiram bantos ou iorubas, mas simplesmente 
negros. Isso também explica porque a questão étnica brasileira adquiriu majoritariamente o 
caráter de luta contra a discriminação racial. Embora o preconceito contra práticas culturais e 
linguísticas também exista em nosso país, a forma mais evidente de discriminação ao longo da 
nossa história foi propriamente racista, voltada ao enorme contingente de afrodescendentes que 
compõe a população.
No entanto, diferentemente da grande maioria das nações com passado escravista, o Brasil 
nunca teve leis de segregação racial como as americanas ou sul-africanas. Isso significa que, 
embora os negros tenham sido sistematicamente excluídos de fato da economia nacional e 
dos processos de decisão política, embora o país tenha adotado políticas deliberadas de 
“embranquecimento” da população com a “importação” de imigrantes europeus após o 
término da escravidão, e embora várias de nossas instituições tenham sido (e ainda sejam) 
discriminatórias em relação à comunidade negra, o racismo nunca foi uma prática oficial.
Isso alimenta, por um lado, ideias como a de democracia racial, ideologia ancorada na crença 
de que o Brasil e as demais regiões colonizadas pelas nações ibéricas (Portugal e Espanha) 
foram mais tolerantes com os cativos trazidos da África do que, por exemplo, a sociedade norte-
americana, na qual houve leis raciais. Prova disso seria a prática corriqueira da miscigenação 
entre europeus, negros e indígenas nos tempos coloniais, um elemento supostamente basilar da 
cultura nacional. Por outro lado, essa ideia interdita o debate sobre o racismo no país, já que, 
via de regra, nossas práticas discriminatórias são veladas, não-oficiais e obscurecidas pelo mito 
da “cultura mestiça” que não abriga preconceitos de cor.
A partir aproximadamente da década de 1970, os estudos científicos de ponta, especialmente 
aqueles protagonizados pela genética, derrubaram progressivamente a ideia de raça, 
demonstrando a irrelevância das diferenças biológicas entre os seres humanos e, acima de tudo, 
a inexistência de qualquer conexão entre biologia e cultura ou capacidade intelectual. Com isso, 
o racismo “clássico”, ancorado na velha ideia de raça, entrou em franco declínio. No entanto 
– e esse é o ponto central para a discussão que se faz no âmbito das ciências humanas –, seus 
mecanismos de funcionamento sobrevivem e continuam presentes nas práticas sociais até os 
dias de hoje.
A regra básica do velho racismo dependia da associação direta entre biologia e 
comportamentos coletivos. Quando a ciência provou a inexistência de tais aspectos 
biológicos, o “racismo contemporâneo” entra em cena para biologizar determinados setores 
sociais, isto é, a considerá-los membros de um grupo específico de homens, portadores de 
uma humanidade própria e distinta das demais, para então, como antes, atribuir-lhes traços 
comportamentais coletivos. É por isso que se pode falar em racismo contra estrangeiros, 
migrantes, membros de grupos religiosos distintos e, no limite, mulheres, jovens, idosos, 
homossexuais. Embora a ideia de raça não esteja necessariamente em jogo em nenhum 
desses casos, o mecanismo de exclusão que ela carrega – isto é, a crença de que os homens 
são desiguais por natureza – continua a ser mobilizado.
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Esse uso do conceito de racismo pode ser problemático. Em primeiro lugar, ele não faz parte 
de um vocabulário conceitual mais rigoroso, como o da Antropologia, pois recorre a analogias 
e metáforas, além de costumeiramente confundir noções como raça e etnia. Ele também pode 
contribuir para banalizar a experiência das populações verdadeiramente estigmatizadas em 
termos racistas, tirando a especificidade histórica de eventos traumáticos como o apartheid na 
África do Sul ou os regimes escravistas nas Américas, e relegando o signo do racismo a qualquer 
experiência de rejeição ou injustiça social.
Mas esse uso não pode ser ignorado, pois ele evidencia o principal desafio teórico enfrentado 
hoje por aqueles que combatem o racismo, a saber: essa forma de preconceito não depende 
mais da crença na raça para ter funcionalidade social. Essa é uma ideia que ajuda a entender, 
inclusive, a permanência de condutas preconceituosas contra populações estigmatizadas no 
passado pelo racismo “clássico”, como os negros, mesmo que o conceito de raça tenha perdido 
completamente sua validade.
O racismo contemporâneo se baseia numa essencialização que não é mais racial-biológica, 
mas, acima de tudo, histórica e cultural. É sensato supor que parte considerável (se não 
majoritária) dos atuais racistas não acredite na velha noção de raça, mas a associação entre 
modelos de comportamento e determinados grupos sociais, como se estes fossem donos de 
uma essência inescapável, transmitida hereditariamente, permanece corriqueira. Se antes eram 
os aspectos fenotípicos que determinavam os limites de cada grupo, hoje é a cultura, a história 
ou a procedência que mais contribuem para a estigmatização. Curiosamente, os vários racismos 
contemporâneos se voltam, muitas vezes, contra as minorias étnicas, e não contra as raças.
Os exemplos desse tipo de comportamento são inúmeros. Basta pensarmos, para usar um 
caso já “clássico”, no racismo presente hoje nos países da Europa Ocidental contra árabes, 
africanos e, a partir dos anos 80, contra imigrantes vindos de países do chamado Terceiro 
Mundo e da antiga Europa Oriental.
Protesto britânico contra a presença muçulmana no país. Nos cartazes lemos 
os dizeres “Islã fora da Inglaterra” e “Fechem as mesquitas na Inglaterra”. 
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Ao que tudo indica, nosso século será marcado pela luta contra esse novo racismo, baseado nas 
diferenças culturais e identitárias, que emerge após o declínio da ideologia racialista elaborada 
entre o fim do século XVIII e o início do XX. Alguns dos desafios políticos e também teóricos 
(especialmente importantes, portanto, para os cientistas sociais) já se desenham no horizonte: a 
luta pelo respeito às diferenças culturais e pela construção de políticas públicas multiculturalistas 
pode ser protagonizada tanto por anti-racistas quanto por racistas. Os primeiros pedem o 
reconhecimento de sua identidade cultural particular ou, em outras palavras, a afirmação das 
diferenças para que se possa construir verdadeiramente uma situação de igualdade e respeito à 
diversidade. Já os segundos, fortemente organizados na Europa, podem reivindicar esse mesmo 
tipo de proteção para a sua cultura, que já é hegemônica, numa tentativa de viver separados de 
árabes, africanos, hispânicos... enfim, dos “não-ocidentais”. 
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Unidade: Antropologia e Diversidade étnica: raça, etnia e racismo
Material Complementar
Segue a indicação de outras leituras para completar sua reflexão.
Nildo Viana Raça e Etnia. http://migre.me/eI8ag
Racismo e diversidade
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DIVERSIDADE: Avanço Conceitual para a Educação Profissional e o Trabalho – Ensaios e 
Reflexões http://migre.me/eI80C.
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http://dx.doi.org/10.1590/S0034-77012004000100001
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Anotações
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