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Conceito de saúde pública e saúde coletiva Apresentação A saúde pública e a saúde coletiva surgiram, na história da humanidade, conforme o contexto histórico e alguns fatores como epidemias, avanços da medicina, avanços científicos sobre determinantes de saúde, importância do acesso à saúde para toda a população, entre outros. Também no Brasil, o contexto histórico de saúde da população associado aos avanços da medicina e o conhecimento sobre determinantes de saúde contribuíram para o surgimento dessas duas áreas e são fatores que permanecem mantendo a evolução ativa da saúde pública e coletiva. Muitos autores consideram saúde pública e saúde coletiva como sinônimos. No entanto, apesar de estarem interligadas, são duas áreas distintas dentro da saúde. A saúde pública está relacionada à saúde das pessoas e das comunidades dentro do sistema público de saúde. A saúde coletiva trata de questões mais amplas, com abordagens críticas e delineamentos políticos. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar os conceitos e as particularidades da saúde pública e da saúde coletiva, as influências do meio ambiente na saúde da população pela visão da saúde pública e da coletiva, dados de doenças comuns em determinadas regiões, formas de atuação da saúde coletiva, entre outras informações importantes sobre o tema. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Conceituar saúde pública e saúde coletiva.• Relacionar meio ambiente e saúde coletiva.• Identificar os distintos focos de atuação da saúde coletiva.• Infográfico A saúde tem uma conformação complexa quando analisada de modo aprofundado. Apesar de sua fonte ser a ausência de doença, as formas de atuar para que se atinja esse propósito são inúmeras, considerando a imensidão de situações de doenças. Dentro da saúde da população como um todo, há três áreas principais de atuação: a saúde coletiva, a saúde pública e o Sistema Único de Saúde (SUS) . Neste Infográfico, você vai compreender algumas diferenças fundamentais sobre saúde para possibilitar a distinção das atividades dessas áreas na prática. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2d540417-9ede-4aa8-a7f9-f4af3f815601/4cb2bcd1-6a05-4b38-9750-161b7c0e20c8.jpg Conteúdo do livro O Brasil tem uma enorme diversidade na sua população, com realidades culturais, políticas, socioeconômicas e educacionais bem distintas em todo o seu território, que refletem nas condições de saúde de sua população. Isso ocorre devido a questões da estruturação do país, mas outras distinções são em decorrência de fatores como origem, diversidade de etnias, climas e vegetações ao longo da extensão de território. Quando se pensa em ações de saúde, a expressão “saúde pública” vem em mente ou, então, “saúde coletiva”. Ambas são bases necessárias para o desenvolvimento de ações que sejam efetivamente resolutivas em prol da saúde da população. Apesar de essas expressões serem comumente utilizadas como sinônimos, trata-se de coisas diferentes. No capítulo Conceito de saúde pública e saúde coletiva, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai conhecer mais sobre saúde pública e saúde coletiva, suas similaridades e distinções, além de saber quais são seus agentes, objetivos e contextos e qual é sua abrangência. Boa leitura. REALIDADE SOCIOECONÔMICA E POLÍTICA BRASILEIRA Jaíza Gomes Duarte Lopes Revisão técnica: Luciana Bernadete de Oliveira Graduada em Ciências Políticas e Econômicas Especialista em Administração Financeira Mestre em Desenvolvimento Econômico Regional Lilian Martins Especialista em Controladoria e Planejamento Tributário Gisele Lozada Graduada em Administração de Empresas Especialista em Controladoria e Finanças Alexsander Canaparro da Silva Bacharel em Administração de Empresas MBA em Marketing Práticas Avançadas MBA em Comércio Exterior e Internacional Mestre em Administração Catalogação na publicação: Karin Lorien Menoncin - CRB -10/2147 R429 Realidade socioeconômica e política brasileira [recurso eletrônico ] / Daniele Fernandes da Silva... et al.; [revisão técnica: Luciana Bernadete de Oliveira... et al.]. – Porto Alegre: SAGAH, 2018. ISBN 978-85-9502-450-2 1. Economia. I. Silva, Daniele Fernandes da. CDU 338 Conceito de saúde pública e saúde coletiva Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Conceituar saúde pública e saúde coletiva. Relacionar meio ambiente e saúde coletiva. Identificar os distintos focos de atuação da saúde coletiva. Introdução Neste capítulo, você vai estudar sobre saúde pública e coletiva, seus conceitos e diferenças, com um destaque para a saúde coletiva. Também irá compreender qual é a relação do meio ambiente com a saúde coletiva a partir do conceito amplo de meio ambiente e como eles interagem entre si. Por fim, você vai saber onde a saúde coletiva pode e deve atuar e como os profissionais da saúde podem atuar dentro da saúde coletiva. O que é saúde pública e saúde coletiva? Saúde é sempre um tema muito debatido na sociedade, pois é um assunto que faz parte da vida de todos nós. A saúde é essencial para a proteção da vida humana, mas a promoção da saúde dos indivíduos vai muito além de tratar as doenças das pessoas: promover a saúde envolve, também, a prevenção de doenças. A prevenção implica aspectos comumente ligados à saúde, mas também aspectos sociais. Essa visão mais ampla do que é saúde é a base para a constituição da saúde coletiva. A seguir, vamos estudar os conceitos de saúde pública e de saúde coletiva. C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 1 06/04/2018 17:46:48 Saúde pública Apesar de muito semelhantes e muitas vezes confundidas, saúde pública e saúde coletiva não são a mesma coisa: têm origens, projetos e compro- missos diferentes. Saúde pública se refere às intervenções e aos serviços prestados para combater doenças ou outras situações que ponham a saúde da população em risco. O Estado é o principal responsável por materializar a saúde pública, ou seja, promover políticas visando o desenvolvimento do bem-estar e a saúde da população. A promoção de saúde pública, no entanto, vai mais além do que o Estado pode fazer: a sociedade civil, por meio de ações para desenvolver a cidadania, também contribui para a construção da saúde pública, e importantes elementos do capital social contribuem para a formação de uma cultura na sociedade que entenda a saúde como valor social. Winslow (apud SOUZA, 2014, p. 15) define saúde pública como: [...] a ciência e a arte de prevenir a doença, prolongar a vida, promover a saúde física e a eficiência através dos esforços da comunidade organizada para o saneamento do meio ambiente, o controle das infecções comunitárias, a educação dos indivíduos nos princípios de higiene pessoal, a organização dos serviços médicos e de enfermagem para o diagnóstico precoce e o tra- tamento preventivo da doença e o desenvolvimento da máquina social que assegurará a cada indivíduo na comunidade um padrão de vida adequado para a manutenção da saúde. Com base nesse entendimento Wislow (apud LECHOPIER, 2015, p. 209) descreve os meios para alcançar os objetivos da saúde pública. São eles: sanitarização do ambiente; controle das infecções transmissíveis; educação individual da higiene pessoal; organização de serviços médicos e de enfermagem para o diagnóstico precoce e o tratamento preventivo de doenças; construção da maquinaria social para assegurar a todos um padrão de vida adequado para a manutenção da saúde. A saúde pública, portanto, é uma ação coletiva entre o Estado e a sociedade para preservar e aperfeiçoar a saúde dos indivíduos. Muitas vezes, a saúde Conceito de saúde pública e saúde coletiva2 C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 206/04/2018 17:46:49 pública é tratada como sinônimo das ações de saúde promovidas pelo Estado, mas ela envolve ações não estatais também e nem todas as ações de saúde promovidas pelo Estado são matérias de saúde pública apenas. Nesse sentido, a Organização Pan-americana de Saúde (OPAS) (ORGANIZAÇÃO..., 2018) define 11 funções atuais essenciais da saúde pública na América: 1. monitoramento, avaliação e análise da situação de saúde; 2. vigilância da saúde pública, pesquisa e controle de riscos e danos à saúde pública; 3. promoção da saúde; 4. participação dos cidadãos na saúde; 5. desenvolvimento de políticas e capacidade de planejamento e gestão institucional da saúde pública; 6. fortalecimento da capacidade institucional de regulação e fiscalização em questões de saúde pública; 7. avaliação e promoção do acesso equitativo aos serviços de saúde essenciais; 8. desenvolvimento e treinamento de recursos humanos para a saúde pública; 9. garantia da melhoria da qualidade dos serviços de saúde individuais e coletivos; 10. pesquisa em saúde pública; 11. redução do impacto de emergências e desastres na saúde. Saúde coletiva A saúde coletiva no Brasil é formada a partir do movimento sanitarista latino- -americano e da corrente da reforma sanitária no país, que ocorreram entre 1960 e 1970. Nessa época, foram criados programas para expandir o atendimento médico às zonas rurais e periféricas urbanas; também foram criados, nos cursos de medicina, departamentos de medicina preventiva. A saúde coletiva é formada por elementos das políticas de saúde pública e de ciências sociais. A saúde coletiva tem um olhar econômico, social e ambiental sobre as possíveis proliferações de doenças nas regiões, agindo preventivamente para combatê-las. Utilizando dados sociais, econômicos e sobre a propagação de doenças, a saúde coletiva age na prevenção das causas de epidemias. As formas de prevenção adotadas devem levar em consideração as particularidades de cada região. 3Conceito de saúde pública e saúde coletiva C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 3 06/04/2018 17:46:49 Souza (2014, p. 11) define saúde coletiva como: [...] uma área do saber que toma como objeto as necessidades sociais de saúde (e não apenas as doenças, os agravos ou os riscos), entendendo a situação de saúde como um processo social (o processo saúde-doença) relacionado à estrutura da sociedade e concebendo as ações de atenção à saúde como práticas simultaneamente técnicas e sociais. Quanto ao campo de conhecimento, Paim e Almeida (1998, p. 309) têm a seguinte visão sobre saúde coletiva: [...] a saúde coletiva contribui com o estudo do fenômeno saúde/doença em populações enquanto processo social; investiga a produção e distribuição das doenças na sociedade como processos de produção e reprodução social; analisa as práticas de saúde (processo de trabalho) na sua articulação com as demais práticas sociais; procura compreender, enfim, as formas com que a sociedade identifica suas necessidades e problemas de saúde, busca sua explicação e se organiza para enfrentá-los. Pode parecer que não há diferença entre a saúde coletiva e a saúde pública, mas é importante enfatizar que a saúde coletiva tem como objeto de estudo as necessidades da saúde, enquanto que a saúde pública tem como objeto de estudo os problemas de saúde. Mas qual a diferença entre problemas e necessidades de saúde? Os problemas de saúde dizem respeito aos aspectos de combate à doença e longevidade; já as necessidades da saúde, além disso, também abrangem os aspectos de melhoria na qualidade de vida, liberdade humana e busca pela felicidade (SOUZA, 2014, p. 17 e 18). A saúde coletiva é um elemento social importante e a sua promoção está diretamente ligada ao conceito de políticas públicas e popularização da vida social. Outra forma de verificar a diferença entre saúde pública e coletiva é sob a ótica dos meios de trabalhos utilizados por ambas. Para Souza (2014, p. 18), o instrumento de trabalho da saúde pública é a epidemiologia tradicional, ou seja, a concepção biologista da saúde, e o instrumento da saúde coletiva é: [...] a epidemiologia social ou crítica que, aliada às ciências sociais, prioriza o estudo da determinação social e das desigualdades em saúde, o planejamento estratégico e comunicativo e a gestão democrática. Além disso, abre-se às contribuições de todos os saberes - científicos e populares - que podem orientar Conceito de saúde pública e saúde coletiva4 C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 4 06/04/2018 17:46:49 a elevação da consciência sanitária e a realização de intervenções intersetoriais sobre os determinantes estruturais da saúde. Assim, os movimentos como promoção da saúde, cidades saudáveis, políticas públicas saudáveis, saúde em todas as políticas compõem as estratégias da Saúde Coletiva. Podemos afirmar, aqui, que a saúde pública é uma forma de saúde coletiva, ou seja, a saúde coletiva é um aspecto mais amplo da saúde. Atualmente, a saúde pública envolve um planejamento nacional e mais recursos do Estado. Já a saúde coletiva deve ser planejada de forma regional, de acordo com a realidade local, e atuar estrategicamente na prevenção. Meio ambiente e saúde coletiva Antes de entendermos a relação da saúde coletiva com o meio ambiente, é fundamental defi nir o que é meio ambiente, porque muitas vezes relaciona- mos essa palavra apenas às fl orestas e aos rios afastados da urbanização. No entanto, meio ambiente é tudo aquilo que está à nossa volta, é o lugar do qual fazemos parte. Ou seja, o ambiente, seja rural ou urbano, é meio ambiente. A Lei da Política Nacional do Meio Ambiente (Lei nº 6.938, de 31 de agosto de 1981) no artigo 3, define meio ambiente como “o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas”. As dimensões do meio ambiente seriam tanto os patrimônios naturais (fauna, flora, recursos minerais, recursos hídricos) e sua relação direta e indireta com os seres vivos e humanos quanto os patrimônios artificiais construídos pelos seres humanos e toda a sua infraestrutura relacionada, como a construção de uma cidade e seu devido saneamento básico, rodovias, serviços médico- -hospitalares, sem esquecer a cultura humana que perpassa por esses ambientes diferentes (OLIVEIRA; CASTRO, 2013, p. 6). Com esse entendimento sobre o meio ambiente, podemos compreender a sua relação com a saúde coletiva. Os seres humanos fazem parte do meio ambiente e as modificações no meio ambiente afetam o bem-estar e a saúde dos seres humanos, assim como as modificações humanas alteram o meio ambiente. Dessa forma, as condições sanitárias, como parte do ambiente em que o homem vive, afetam a saúde humana. A saúde coletiva, como mencionado, atua na prevenção das epidemias; para intervir na prevenção de doenças, é necessário que atue, também, na área sanitária, ou seja, na higiene. Por isso, na década de 1980, no Brasil, a luta 5Conceito de saúde pública e saúde coletiva C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 5 06/04/2018 17:46:49 pela saúde coletiva fica entrelaçada com a busca pela Reforma Sanitária. Ao longo dos anos, esses dois assuntos foram estrategicamente separados, mas ainda estão fortemente ligados. A higiene em volta do ambiente onde as pessoas moram é um fator extremamente importante para a prevenção de doenças. A saúde é afetada pela poluição e pela destruição da água, do ar e do solo, assim como por péssimas condições de moradia e inexistência de saneamento básico. Essas condições são encontradas nas grandes regiões urbanas, principalmente nas favelas e nos cortiços. Para assegurar a saúde, a habitação das pessoas precisa ser saudável. [...] a habitação é considerada como um agente da saúde de seus moradores e relaciona-se com o território geográfico e social onde se assenta, os materiaisusados para sua construção, a segurança e qualidade dos elementos combina- dos, o processo construtivo, a composição espacial, a qualidade dos acaba- mentos, o contexto global do entorno (comunicações, energia, vizinhança) e a educação em saúde e ambiente de seus moradores sobre estilos e condições de vida saudável. Do ponto de vista do ambiente como determinante da saúde, a habitação se constitui em um espaço de construção e desenvolvimento da saúde da família. (AZEREDO et al., 2007, p. 744). A Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um relatório, em 2014, no qual afirma, com base em estudos, que a cada 1 dólar investido em água e saneamento básico, é possível economizar 4,3 dólares em saúde no mundo. Segundo a empresa Terra Ambiental, o não tratamento do esgoto pode ocasio- nar doenças como febre tifoide, cólera, hepatite A e leptospirose. No Brasil, segundo o IBGE, em 2013, 60,9% das residências tinham banheiro e esgoto sanitário por rede geral de esgoto, ou seja, 39,1% dos domicílios brasileiros ainda não têm saneamento básico (ONU, 2014). O economista Eduardo Giannetti fala sobre desigualdade no Brasil e como a falta de saneamento básico pode afetar a saúde das pessoas e as suas condições de desenvolvi- mento educacional. Assista ao vídeo no link ou código a seguir (HEMEG, 2011). https://goo.gl/iTUEGS Conceito de saúde pública e saúde coletiva6 C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 6 06/04/2018 17:46:49 A poluição e a degradação da água e do solo são causadas por diversos fatores, e um dos principais é o despejo de resíduos químicos, como mer- cúrio e enxofre, pelas indústrias de mineração, que podem causar graves danos à saúde da população inserida no meio ambiente afetado. Outro fator do meio ambiente que afeta a saúde da população são os alimentos transgênicos e o uso excessivo de agrotóxicos na produção dos alimentos. Existem sérios indícios de que os alimentos transgênicos afetam a saúde dos consumidores, diminuindo a expectativa de vida e aumentando as chances de desenvolver câncer. Os resíduos sólidos jogados nas ruas e avenidas das áreas urbanas também são causas de problemas na saúde coletiva. Esses resíduos acumu- lados prejudicam a rede de drenagem das ruas, o que provoca inundações e aumenta o risco de epidemias, como a leptospirose. Em 2011, houve o famoso caso de deslizamento de terras nos municípios de Nova Friburgo, Petrópolis, São José do Vale do Rio Preto e Teresópolis; nesse mesmo período, foi registrado um significativo aumento no número de internações por causa da leptospirose, o número chegou a quase 20 internações em fevereiro de 2011 – sendo que a média registrada para esse mês era menor que cinco internações. Quando esses resíduos estão acumulados em terrenos abandonados, tornam- -se redutos de larvas do mosquito aedes egpypti, que transmite dengue, zika, febre chikungunya e febre amarela. No Brasil, em 2013, 12,9% da população afirmou ter tido dengue, ou seja, 25,8 milhões de pessoas. Como você pode perceber, a maioria das causas ambientas menciona- das até agora que afetam a saúde das pessoas são causas que atingem a população mais pobre. Por isso, podemos considerar que a desigualdade, a exclusão social e a marginalização de indivíduos são as condições que mais causam impactos na saúde humana. Infelizmente, essas são as condições em que vivem milhares de brasileiros e milhares de pessoas ao redor do mundo nos países em desenvolvimento. As condições básicas de vida a que todos os seres humanos têm direito (saúde, segurança, trabalho, educação, moradia etc.), dependem diretamente de um meio ambiente saudável (Johnston, 1995). Os elevados índices de morbidade e mortalidade nos países em desenvolvimento, com os conhecimentos de prevenção que se têm, poderiam ser reduzidos quase aos níveis dos países desenvolvidos. As causas dos atuais excessos de doenças nos países em de- senvolvimento são, na sua maioria, originárias do meio ambiente e poderiam essencialmente ser evitadas (DOLL, 1992; MENDES, 1988 apud FERREIRA; ANJOS, 2001, p. 695). 7Conceito de saúde pública e saúde coletiva C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 7 06/04/2018 17:46:49 A melhoria na distribuição de renda, que envolve fatores políticos, econô- micos e sociais, proporcionaria uma melhoria na saúde da população. O Índice de Gini é um índice que mede a desigualdade. É medido de 0 a 1: quanto mais próximo de 0, mais igual é a distribuição da renda no país; quanto mais próximo de 1, mais desigual é a distribuição de renda na sociedade. Em 2016, segundo IBGE, o Índice de Gini no Brasil foi igual a 0,525. Segundo a Se- cretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda, em 2015, 5% dos brasileiros concentravam 28% da renda bruta do país. Focos de atuação da saúde coletiva A saúde coletiva, por representar um conceito mais amplo de saúde, tem vários focos de atuação, ou seja, existem várias áreas de atuação da saúde coletiva. No geral, ela atua na promoção, proteção e recuperação da saúde. A promoção da saúde atua no diagnóstico, reconhecimento e tratamento das doenças e de aspectos que afetem a qualidade de vida da população, assim como no desenvolvimento e elaboração de tecnologias voltadas para os diversos aspectos da saúde, como cultura, educação e cuidado. Já a proteção da saúde atua no diagnóstico, reconhecimento e tratamento dos fatores que causam a desigualdade e a vulnerabilidade social, no controle de doenças, na vigilância epidemiológica, sanitária e ambiental e na redução de riscos. Combater a desigualdade e a vulnerabilidade social é uma difícil tarefa e deve incluir todas os suportes sociais e estatais, mas também a participação do próprio individuo, que também deve ser um agente atuante em relação à sua saúde. A recuperação da saúde atua na parte institucional, na gestão e no planeja- mento das clínicas, hospitais, nos processos de acolhimento, nos programas e sistemas assistenciais e de apoio psicológico e de toda a rede de saúde. A saúde coletiva atua em diversas áreas para assegurar a promoção da saúde em todos seus aspectos. Nos estudos e pesquisas acadêmicas desen- volvidas para tentar compreender as dimensões em que a saúde coletiva Conceito de saúde pública e saúde coletiva8 C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 8 06/04/2018 17:46:49 deve atuar, também se tem entendido que a saúde coletiva exige uma trans- disciplinaridade, ou seja, a união de várias disciplinas para se chegar ao conhecimento. A respeito desse assunto, observe o que escrevem Sánchez e Bertolozzi (2007, p. 322): A abordagem na perspectiva da determinação social da saúde-doença e que o modelo de vulnerabilidade apresentado incorpora aponta para a necessidade da transdisciplinaridade, o que é fundamental quando se trata de problemas ou de necessidades de saúde, na medida em que a complexidade do objeto da saúde requer diferentes aportes teórico-metodológicos, sob pena de reduzir as ações a “tarefas” pontuais, de caráter emergencial, que não modificam a estrutura da teia de causalidade. Uma outra forma de ver os focos de atuação da saúde coletiva é a partir da análise da forma como os profissionais que atuam nela podem exercer suas atividades. Regis e Batista (2015, p. 835) descrevem como deve ser a atuação do enfermeiro na saúde coletiva: [...] desenvolver atividades gerenciais e contribuir com a consolidação da estratégia da saúde da família. É competência do enfermeiro, ainda, promover atividades educativas e ações que garantam a integralidade do ser humano na atenção à saúde. Evidencia-se a importante contribuição da saúde coletiva para o empoderamento de enfermeiros dentro do atual contexto brasileiro e mundial. A saúde coletiva configura-se como uma nova perspectiva de saberes e práticas: as possibilidades teóricas são ampliadas para além da enfermagem centrada em procedimentos e no corpo biológico; a autonomia e o trabalho em equiperessignificam a prática dos enfermeiros e atributos como comprometimento social e visão crítica e reflexiva são identificados não só como características do ser humano-cidadão, mas também do ser humano-profissional enfermeiro. O nutricionista é um profissional que também pode atuar na saúde coletiva, promovendo a segurança alimentar como uma forma de prevenir doenças de uma pessoa ou de um determinado grupo da população; por exemplo, ele pode trabalhar no combate à obesidade em um caso específico ou com campanhas educativas junto a grupos de crianças em escolas. 9Conceito de saúde pública e saúde coletiva C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 9 06/04/2018 17:46:50 Segundo a OMS, 213 milhões de crianças e adolescentes no mundo estavam com sobrepeso. As taxas de obesidade infantil continuam crescendo em países de baixa e média renda. As tendências estatísticas preveem um futuro de uma geração inteira de crianças e adolescentes obesos e com maior propensão a desenvolver doenças como a diabete. Por isso é tão importante a atuação de nutricionistas na orientação de crianças e adolescentes e dos responsáveis (ORGANIZAÇÃO..., 2017). O fisioterapeuta pode atuar na saúde coletiva, tanto desenvolvendo seu trabalho no atendimento de reabilitação quanto na orientação postural, que é um importante aliado na prevenção de diversas doenças. Bispo Júnior (2010, p. 1633) descreve a importância da orientação postural e indica como deve ser construída essa orientação nas comunidades: A questão da postura deve ser difundida em âmbito coletivo não apenas como questão estética, mas como atitude corporal inerente a uma vida saudável e fator preventivo para diversas doenças. No âmbito da atenção básica, o fisio- terapeuta deve atuar preferencialmente com grupos populacionais, orientando sobre as posturas mais adequadas para cada grupo ou para cada situação. A prática da educação em saúde não deve e não pode ser entendida como ação vertical e unidirecional, do profissional que sabe para a população que não sabe. O processo de educação e orientação postural deve ser construído cole- tivamente, levando-se em consideração quais os hábitos, costumes e crenças com poder de influência na postura daquela comunidade. O psicólogo saindo das práticas individuais de consultórios pode ampliar sua contribuição para o campo coletivo. Esse profissional pode atuar no acolhimento e cuidado com os usuários das redes de saúde pública, suas famílias e os profissionais que atuam nela. Os profissionais citados aqui são apenas exemplos para que você possa compreender melhor como se atua e trabalha na saúde coletiva. Há, no entanto, diversos outros profissionais que também podem colaborar com as áreas da saúde coletiva, pois, como já vimos, ela integra vários focos de atuação dentro da saúde, economia e sociedade. Conceito de saúde pública e saúde coletiva10 C26_Realidade_Conceito_saude_publica_saude_coletiva.indd 10 06/04/2018 17:46:50 AZEREDO, C. M. et al. 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