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FUNDAMENTOS E PRÁTICAS
NO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA
AULA 01 -
CONTEÚDOS E OBJETIVOS
DA LÍNGUA PORTUGESA
DOS ANOS INICIAIS E
FUNDAMENTAL
Prezado(a) aluno(a),
Nesta aula sobre alfabetização e letramento, exploraremos o poder da
oralidade como base fundamental para o desenvolvimento das habilidades de
leitura e escrita. Entendemos que a comunicação verbal é essencial para a
compreensão e produção de textos, e por isso enfatizaremos a importância de
desenvolver a expressão oral como um ponto de partida para o aprimoramento da
alfabetização. Além disso, abordaremos a variação linguística, reconhecendo e
valorizando as diferentes formas de falar e escrever presentes em nossa
sociedade, para que os alunos compreendam que não existe uma única forma
"correta" de linguagem.
Por meio da produção textual criativa, os estudantes serão incentivados a
explorar sua imaginação e expressar suas ideias de maneira original e autêntica.
Acreditamos que a escrita criativa não só fortalece as habilidades linguísticas dos
alunos, mas também promove a autoexpressão e a confiança na comunicação por
meio do texto.
Bons estudos!
1 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
De acordo com Bes et al. (2018), alfabetização e letramento são processos
paralelos e distintos, porém, interligados e indispensáveis para a efetiva
aprendizagem da leitura e da escrita. O ensino do Sistema de Escrita Alfabética pelo
professor deve ser complementado com práticas de leitura e escrita que permitam às
crianças vivenciarem situações reais e atividades do cotidiano, integrando esses
conhecimentos significativamente.
Dissociar alfabetização e letramento é um equívoco porquê, no quadro das
atuais concepções psicológicas, linguísticas e psicolinguísticas de leitura e
escrita, a entrada da criança (e também do adulto analfabeto) no mundo da
escrita ocorre simultaneamente por esses dois processos: pela aquisição do
sistema convencional de escrita — a alfabetização — e pelo desenvolvimento
de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita, nas
práticas sociais que envolvem a língua escrita — o letramento (SOARES,
2004, p. 14).
Contudo, existem algumas questões fundamentais que o educador deve
ponderar antes de abordar esses dois conceitos em seu planejamento: é viável que
todas as crianças aprendam simultaneamente? Como instruir os alunos? Qual é o
papel e a relevância do professor alfabetizador?
No entanto, é fundamental iniciar refletindo sobre o papel do educador. Ele
desempenha um trabalho essencial ao promover a inserção do aluno em um ambiente
alfabetizador e letrado. Nesse contexto, é essencial que a criança tenha a
oportunidade de explorar, refletir e participar de diferentes práticas de leitura e escrita.
Além disso, o professor deve estabelecer um ambiente acolhedor que reconheça e
respeite as diversas diferenças, necessidades e particularidades dos alunos.
Todo o processo educacional se inicia com um planejamento cuidadoso,
orientado pelos objetivos do professor e pelas necessidades dos alunos ao longo do
ano letivo. Esse planejamento requer uma análise dos usos sociais da língua escrita,
tanto no ambiente escolar quanto em outros contextos sociais, incentivando uma
abordagem investigativa que valorize a autonomia, o respeito e o diálogo como pilares
fundamentais para a aprendizagem. Nesse contexto, é papel da escola e do professor
mediar entre as práticas de alfabetização, essenciais para o desenvolvimento das
habilidades dos alunos, e os objetivos sociais e práticas pertinentes presentes nas
situações do dia a dia.
Durante o processo de alfabetização, é fundamental que a criança tenha
experiências significativas não apenas com a leitura, mas também com a produção,
compreensão e reflexão de textos orais e escritos. Essas vivências visam a promover
a apropriação do Sistema de Escrita Alfabética. É importante que as diversas ideias e
perspectivas dos alunos sejam incorporadas ao trabalho na totalidade, permitindo um
ambiente inclusivo e enriquecedor.
Partindo dessa premissa, o emprego de diversos suportes textuais e gêneros
literários representa um ponto de partida essencial para enriquecer o ensino. Esses
suportes e gêneros estão mais próximos da vivência cotidiana das crianças, valorizam
suas experiências, estimulam a imaginação, facilitam a aprendizagem com mais
significado e oferecem oportunidades práticas que transcendem os conteúdos
puramente escolares. Bes et al. (2018), apresenta uma variedade de portadores de
texto e gêneros literários que podem ser explorados em sala de aula, promovendo a
alfabetização e o letramento. Esses materiais também se alinham com as práticas
sociais vivenciadas pelos alunos, como:
• Instruções culinárias;
• Manuais de instruções, regulamentos de jogos, listas e orientações;
• Recados;
• Correspondência pessoal;
• Convites;
• Quadrinhos, tiras de quadrinhos;
• Jogos infantis, músicas de roda, trava-línguas, mitos;
• Composições musicais;
• Anedotas, piadas;
• Poesia, narrativas breves, contos de fadas;
• Etiquetas e embalagens;
• Símbolos, sinais;
• Menus;
• Jornais, revistas, páginas da web, noticiários, pôsteres informativos.
A partir do planejamento das atividades diárias em sala de aula, o professor se
depara com questões fundamentais, é viável que todas as crianças aprendam
simultaneamente? Como abordar o ensino para atender às necessidades individuais
dos alunos? É importante reconhecer que em cada turma, independentemente da
localidade, há uma grande diversidade e heterogeneidade no conhecimento de cada
criança. Algumas podem ter um nível de conhecimento além do esperado ou do que
é abordado ao longo do ano, enquanto outras podem apresentar dificuldades em
acompanhar o ritmo da turma. Essa complexidade das interações em sala de aula é
o que torna a tarefa do professor tão desafiadora.
Ao iniciar o ano letivo, as crianças apresentam uma variedade de
conhecimentos, aprendizagens, habilidades e capacidades, tanto em relação ao
sistema de escrita alfabética quanto a outros conteúdos trabalhados dentro e fora da
sala de aula. Enquanto algumas delas têm acesso precoce a práticas de letramento,
outras estão imersas em ambientes com poucos estímulos e necessitam de maior
exposição ao material escrito. É essencial que o professor reconheça que os alunos
conseguem aprender, independentemente do contexto em que estão inseridos. Dessa
forma, mesmo que os estudantes comecem o ano com conhecimentos além do
esperado para os objetivos estabelecidos, o professor pode incorporar e valorizar as
hipóteses e conhecimentos prévios que eles já possuem.
Na abordagem integrada da alfabetização e do letramento, o professor deve
inicialmente realizar uma avaliação do grupo, identificando os diversos níveis de
habilidade na qual as crianças se encontram. Em seguida, é importante conceber
atividades diversificadas que abordem tanto o sistema de escrita quanto situações que
promovam reflexão, questionamento e formulação de hipóteses. Ao considerar o
conhecimento prévio das crianças sobre a escrita, o planejamento de atividades pode
ser direcionado para estimular o avanço no entendimento do sistema alfabético,
proporcionando diversas oportunidades de aprendizado e integração com o processo
educacional.
De acordo Bes et al. (2018) é responsabilidade do professor compreender o
processo de aprendizagem e buscar soluções por meio de estudo, reflexão e troca de
experiências com seus colegas. Para isso, ele deve integrar diversos saberes e
conhecer as práticas culturais e sociais presentes na comunidade e entre os alunos.
Além disso, é fundamental que o professor propicie oportunidades para as crianças
entrarem em contato com a escrita em diferentes contextos, demodo que possam se
familiarizar com as situações de aprendizagem e progredir em seu desenvolvimento.
Por último, é indispensável que as escolas e os educadores adotem práticas
de alfabetização e letramento baseadas em um planejamento que inclua atividades
que auxiliem os alunos a progredir em sua aprendizagem. Essas atividades devem
ser relevantes para as crianças e alinhadas com sua realidade. Somente por meio
dessas experiências será possível refletir sobre a prática da leitura e da escrita em
diversos contextos. Assim, o desenvolvimento das habilidades dos alunos em relação
à língua escrita não é um processo que termina quando eles dominam o sistema de
escrita; ao contrário, é um processo contínuo ao longo da vida. Os indivíduos
continuam aprimorando e ampliando suas habilidades na construção de novos
conhecimentos e competências.
1.1 Oralidade
De acordo com Leal e Gois (2012) a abordagem sobre o ensino da oralidade,
apesar de parecer contemporânea, não, é algo novo. Evidências da preocupação com
o aprimoramento das habilidades orais podem ser encontradas em períodos históricos
distantes. Os sofistas, em Atenas, tinham como objetivo preparar os jovens para a
vida política, empregando a “Retórica” como uma ferramenta de persuasão e
influência. Conforme observado por Breton (1999), ao longo de dois mil e quinhentos
anos, a retórica ocupou uma posição central no ensino, sendo considerada uma
disciplina essencial.
A oralidade é subestimada nas práticas educacionais formais contemporâneas
em todo o mundo. Em uma pesquisa que investigou a abordagem de cinco
professoras do segundo ano do segundo ciclo do Ensino Fundamental em escolas
públicas de Recife sobre o ensino da oralidade, conduzida por Leal, Brandão e
Nascimento (2010), foram examinadas 75 aulas, distribuídas igualmente entre as
professoras, totalizando 15 aulas por docente. Os resultados revelaram que todas as
professoras reconheciam a importância do desenvolvimento da oralidade na escola.
No entanto, observou-se que esse ensino estava limitado à promoção de situações
informais de discussão e conversação, sem um planejamento específico sobre quais
habilidades orais deveriam ser desenvolvidas e como isso poderia ser realizado.
Consequentemente, não foram identificadas atividades relacionadas a gêneros orais
públicos e formais, nem momentos de reflexão sobre esses gêneros.
Essa prática sugere que as atividades informais de fala são suficientes para
abordar a oralidade no ensino. Contudo, atualmente, há autores que argumentam a
necessidade de incorporar de forma sistemática o ensino de diversos gêneros, tanto
na escrita quanto na oralidade. De fato, Bakhtin (2000) já na década de 1920
introduziu um novo discurso sobre as interações sociais, o que estimulou reflexões
sobre as regularidades e complexidades de muitos textos orais. Conforme a teoria dos
gêneros textuais, a linguagem media todas as interações, e a produção de textos
verbais ocorre por meio da utilização dos gêneros textuais, sendo ferramentas
culturais.
Os gêneros textuais são ferramentas disponíveis para os usuários da língua,
sendo que cada situação de comunicação demanda a adoção de um gênero
específico. Essa escolha é embasada em nossa experiência prévia com situações
similares, onde já tivemos contato com exemplos desse tipo textual. Assim, quando
nos encontramos em uma determinada situação de comunicação, ativamos em nossa
memória os conhecimentos sobre como são os textos produzidos nesse contexto.
Os gêneros servem como referências para a produção dos textos, sejam eles
falados ou escritos. Em resumo, conforme Bakhtin (2000, p. 284) explica, “uma função
específica (científica, técnica, ideológica, oficial, cotidiana) e as condições específicas
de cada esfera da comunicação verbal geram um determinado gênero, ou seja, um
tipo específico de enunciado, sendo relativamente estável em termos temáticos,
composicionais e estilísticos”.
Conforme mencionado anteriormente, não são apenas os textos escritos
moldados pelos conhecimentos acionados ao adotar um determinado gênero. Os
textos orais também seguem esse padrão.
Os gêneros do discurso organizam nossa fala da mesma maneira que a
organizam as formas gramaticais (sintáticas). Aprendemos a moldar nossa
fala às formas do gênero e, ao ouvir a fala do outro, sabemos de imediato,
bem nas primeiras palavras, pressentir-lhes o gênero, adivinhar-lhe o volume
(a extensão aproximada do todo discursivo), a dada estrutura composicional,
prever-lhe o fim […]. Se não existissem os gêneros do discurso e se não os
dominássemos, se tivéssemos de criá-los pela primeira vez no processo da
fala, se tivéssemos de construir cada um de nossos enunciados, a
comunicação verbal seria quase impossível (BAKHTIN, 2000, p. 302).
Diante disso, Leal e Gois (2012) considera que os gêneros orais apresentam
regularidades que a construção de muitos deles em situações públicas pode ser
desafiadora, diversos autores argumentam a favor de sua inclusão como objetos de
ensino nas escolas). Portanto é essencial refletir sobre o que podemos ensinar em
relação à oralidade, um dos componentes essenciais do currículo escolar. Após a
análise de propostas curriculares, materiais didáticos e pesquisas relacionadas ao
tema, fica evidente a importância de estabelecer objetivos didáticos claros para pelo
menos quatro dimensões que abrangem o desenvolvimento da linguagem oral. Essas
dimensões incluem:
• Valorização dos textos de tradição oral;
• Transposição da linguagem escrita para a oral;
• Compreensão da variação linguística e das relações entre fala e escrita;
• Produção e interpretação de diversos gêneros de textos orais.
Há bastante tempo, autores como Corrêa (2001) e Signorini (2001) ressaltam
a importância de valorizar a oralidade no ambiente escolar. Esses estudiosos
destacam que a fala desempenha um papel fundamental em diversas esferas sociais,
superando frequentemente a escrita nas interações humanas. No entanto, na escola,
a oralidade tem sido frequentemente negligenciada pelos profissionais da educação.
Geralmente, não se reconhece que uma das principais responsabilidades da
instituição escolar deveria ser ajudar os alunos a aprimorar suas habilidades de
expressão oral.
É frequente ouvirmos relatos de pessoas que enfrentam dificuldades para se
expressar ou têm receio de falar em público. Acreditamos que uma abordagem eficaz
para envolver as crianças no universo da oralidade é destacar a relevância que a
linguagem oral desempenha na construção e preservação das diversas expressões
culturais do país e de suas próprias comunidades. Ao perceberem que membros de
sua comunidade também podem transmitir conhecimentos importantes por meio da
fala, assumindo o papel de agentes culturais, as crianças podem sentir-se mais
valorizadas e engajadas.
Uma maneira eficaz de realizar isso é incentivando as crianças a explorar sua
comunidade em busca de receitas culinárias transmitidas de geração em geração,
contos populares, brincadeiras tradicionais ou até mesmo receitas de remédios
caseiros passados ao longo do tempo. Todos esses conhecimentos são preservados
por diversos gêneros orais que as pessoas utilizam para interagir com as novas
gerações e com aqueles que fazem parte de seu convívio. Ao compreenderem essa
dinâmica, as crianças passam a valorizar mais suas origens e as pessoas ao seu
redor, contribuindo para uma maior autovalorização.
Outros exemplos de textos tradicionais orais de grande relevância,
especialmente no universo infantil, incluem as parlendas, os trava-línguas e as
cantigas. Esses textos não apenas proporcionam diversão às crianças, mas também
enriquecem o repertório das suas brincadeiras. É imprescindível que esses textos
sejam reconhecidos e valorizados, e que as crianças compreendam que foram
transmitidos ao longodo tempo por meio da memória de indivíduos que os apreciavam
e os passavam adiante para as gerações seguintes.
Participar de brincadeiras em grupo, recitar parlendas e trava-línguas,
atividades frequentemente presentes nos materiais educativos, também auxilia no
desenvolvimento da fluência e na articulação das palavras, aspectos essenciais para
aprimorar a expressão oral. Portanto, consideramos que essa dimensão desempenha
um papel fundamental no contexto do eixo da oralidade.
1.2 Variação Linguística
Segundo Cano (2016) tradicionalmente, o ensino de Língua Portuguesa era
fundamentado na abordagem da “língua correta”. A gramática tradicional constituía a
principal base para um ensino voltado à nomenclatura gramatical, muitas vezes
desconectado do uso efetivo da língua. Sob essa perspectiva, os alunos aprendiam,
por exemplo, a identificar os termos da oração (como sujeito e predicado) e as próprias
orações (sejam elas subordinadas ou coordenadas). No entanto, essa aprendizagem
não era contextualizada com o significado dessas estruturas nos textos reais, nos
diversos gêneros textuais presentes na sociedade. Essa abordagem tradicional se
baseava na memorização de “rótulos” e na análise de frases isoladas e desprovidas
de contexto.
Na área da variação linguística, um dos principais problemas desse modelo de
ensino era a concepção de que a Língua Portuguesa era uniforme, composta apenas
pela norma-padrão, ignorando suas múltiplas variações. Os alunos eram instruídos a
falar e escrever de forma “correta” conforme as regras da norma-padrão, conforme
estabelecido pela gramática tradicional ou prescritiva. Essa abordagem privilegiava a
escrita padrão, relegando a fala a um papel secundário, pois pregava que a linguagem
oral deveria seguir rigorosamente as normas gramaticais da escrita.
Sem dúvida, essa perspectiva de ensino incorre em um equívoco significativo,
pois embora a fala e a escrita estejam inter-relacionadas, não são idênticas, já que
representam modalidades distintas de expressão da língua, cada uma com suas
próprias características. Por exemplo, em relação ao estilo linguístico, tanto a fala
quanto a escrita apresentam formas padrão e não padrão.
Em outras palavras, ambas as modalidades incluem linguagem formal e
informal: na escrita, um documento oficial utiliza uma linguagem formal, enquanto na
fala, um discurso em um tribunal também emprega uma linguagem formal. Por outro
lado, um bilhete tipicamente utiliza uma linguagem informal na escrita, assim como
uma conversa casual em um bar é caracterizada pela informalidade na fala. No
entanto, como evidenciado por esses exemplos de diferentes gêneros textuais (por
exemplo, ofício e bilhete na escrita; audiência judicial e conversa na fala), o
funcionamento da linguagem é específico para cada uma de suas modalidades, seja
oral ou escrita.
A variedade linguística refere-se a diferentes formas de expressão de uma
língua relacionadas a diversos fatores sociais, tais como origem geográfica, classe
social, gênero, idade, nível de escolaridade, entre outros. Por exemplo, no contexto
do português brasileiro, o modo de falar na cidade de Rio Branco (AC) representa uma
variedade linguística distinta daquela, presente na cidade de Porto Alegre (RS), cada
uma caracterizada por suas próprias peculiaridades linguísticas.
De acordo Cano e Palma (2012) enquanto uma forma como “bj” (abreviação
para a palavra "beijo") pode ser adequada na despedida de um bilhete, não é
apropriado para encerrar um ofício. Este gênero textual tende a apresentar outras
formas de despedida como "Atenciosamente" e "Respeitosamente". A forma escrita
"bj" pode também ocorrer em um bate-papo na internet ou em uma mensagem de
celular, mas não é atestada na fala. Na fala, a palavra "beijo" pode ser pronunciada
semelhantemente a sua escrita ortográfica ("beijo"), por exemplo, no Rio Grande do
Sul, mas também pode ser pronunciada como "beju", a qual é usada mais
frequentemente em situações informais, em lugares como Minas Gerais.
Nesse exemplo da palavra "beijo", nota-se algo importante sobre fala e escrita:
ambas as modalidades apresentam variação ("beijo" e "bj" na escrita; "beijo" e "beju"
na fala). Isso é importante na configuração do estilo de linguagem, do mais formal ao
mais informal, do gênero de texto utilizado. Como apontado, "bj" pode ser adequado
para um bilhete, mas não para um ofício.
É importante destacar que existe uma variação no estilo de linguagem tanto na
fala quanto na escrita. Portanto, é necessário considerar um espectro que abrange
desde o mais formal até o mais informal, com diferentes graus ou níveis de
formalidade e informalidade intermediários. Os diversos gêneros textuais, tanto orais
quanto escritos, se enquadram nesse espectro de variação.
Continuando a discussão inicial para contextualizar o tema, o ensino da
variação linguística, é importante ressaltar algumas contribuições significativas dos
estudos da Sociolinguística. Essa disciplina evidencia que as diversas formas de
expressão verbal, ou variedades linguísticas, obedecem a padrões específicos; elas
são organizadas e não aleatórias. Isso significa que não apenas a norma-padrão
possui regras; as diferentes formas de falar ou variedades linguísticas também as
possuem. Por exemplo, quando observamos o uso de "os menino-bonito" (para "os
meninos bonitos" na norma-padrão), fica evidente que o plural é obrigatório no artigo
(determinante "os"), o que impede formas como "o meninos bonitos", "o meninos
bonito" e "o menino bonitos" no português brasileiro.
Os estudos sociolinguísticos apontam para a necessidade de o ensino da
língua abranger as diversas variedades linguísticas, não se limitando apenas à norma-
padrão ou às variedades de prestígio, mas também considerando as variedades ou
formas estigmatizadas. Atualmente, compreende-se que o objeto de ensino e
aprendizagem da Língua Portuguesa é a própria língua em sua natureza variável e
em constante mudança.
Com base nessa reflexão, o ensino da variação linguística. Inicialmente,
discute-se a pouco reconhecida situação de multilinguismo no Brasil, seguida por uma
análise dos níveis e dos fatores de variação linguística.
1.3 Produção Textual criativa
Segundo Lopes, Abreu e Mattos (2010) é comum que os professores se
deparem com crianças enfrentando dificuldades na produção de textos criativos e
coesos. Diante desse cenário, torna-se essencial adotar planejamentos que auxiliem
as crianças a desenvolverem a imaginação, a escreverem com criatividade e a
experimentarem prazer na escrita. Muitas dessas crianças podem não ter tido acesso
a livros ou a atividades de contação de histórias, e talvez não tenham sido estimuladas
anteriormente a explorar sua criatividade por meio da escrita.
A prática de estimular a leitura deve ser incorporada à rotina da sala de aula
pelo professor, visando a integrar a imaginação com o conhecimento, para auxiliar os
alunos na construção de significados durante o processo de produção textual.
Conforme o material do Caderno de Alfabetização (BRASIL, 2010), "a compreensão
de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização de conhecimentos
prévios: o leitor utiliza, na leitura de um texto, os conhecimentos que já possui a
respeito do conteúdo desse texto, sendo adquiridos ao longo da sua vida" (LOPES;
ABREU; MATTOS, 2010).
Portanto, isso representa mais uma responsabilidade dos professores da
Educação Básica no que se refere à produção textual e ao estímulo à leitura. Não é
suficiente apenas alfabetizar ou ensinar ortografia e estrutura textual; trata-se, sim, de
formar um leitor competente, capaz de compreender o que lê, estabelecer conexões
entre o texto em questão e outros previamente lidos, e reconhecer que um mesmo
texto pode ter diversos significados.
O educador deve criar situações didáticasem que seus educandos leiam
antes de aprenderem a ler convencionalmente. Para isso, deve planejar
atividades de leituras, em que coloca os educandos a refletirem sobre o
conhecimento que já possuem (LOPES; ABREU; MATTOS, 2010, p. 18).
A leitura desempenha um papel fundamental na formação de uma sociedade
consciente, crítica e participativa. Por isso, é fundamental incentivar o hábito de ler
desde cedo, de modo que as crianças se sintam motivadas a se envolver com a leitura
mesmo antes de serem alfabetizadas. Mediante práticas cuidadosamente planejadas
pelo professor, busca-se fomentar o desenvolvimento do gosto pela leitura nas
crianças. Reconhecemos que a habilidade de produzir textos eficazes está
intrinsecamente ligada à prática da leitura, a qual se torna significativa ao transformar
em um hábito prazeroso.
Nesse contexto, o livro assume o papel de um instrumento que inspira a
criatividade, permitindo às crianças a produção de suas próprias histórias. Além disso,
o professor pode encorajar a criação de livros a partir das narrativas das crianças,
proporcionando momentos de leitura e criatividade, estimulando a reflexão sobre a
importância do papel do escritor e identificando o potencial de produção textual dos
alunos.
Promover uma oficina pedagógica com o propósito de proporcionar um espaço
para a leitura e a expressão criativa. Durante essa atividade, os alunos são
incentivados a criar histórias originais, que posteriormente podem ser compiladas em
um livro. O objetivo principal não é apenas estimular a produção textual, mas também
cultivar o hábito da leitura a partir das próprias experiências e imaginação de cada
criança. Dessa forma, a criança busca despertar e nutrir o potencial de escrita
presente em cada um.
Quando o professor implementa estratégias de estímulo à aprendizagem, ele
está adotando uma abordagem para lidar com os desafios no processo de
alfabetização direcionado ao letramento. A formação de leitores competentes é
fortemente influenciada pelo trabalho pedagógico realizado pela escola e pelos
professores. É essencial que eles planejem suas ações de forma sistemática,
estabelecendo objetivos claros para contribuir nesse processo, que demanda não
apenas ação, mas também reflexão.
Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa
(BRASIL, 2018), para desenvolver nos alunos não apenas a capacidade de ler, mas
também o gosto e o comprometimento com a leitura, a escola precisa engajá-los
internamente, pois aprender a ler (e ler para aprender) requer esforço. É necessário
despertar neles o interesse e o entusiasmo pela leitura, apresentando-a como algo
estimulante e desafiador, que, uma vez dominado, oferecerá autonomia e
independência.
Para o educador poder incorporar a leitura de maneira atrativa e interessante
em sua sala de aula, talvez o critério mais eficaz seja este: agir com seus alunos da
mesma forma que gostariam que seus próprios educadores tivessem agido com eles,
ajudando-os a se tornarem leitores engajados e dispostos a enfrentar qualquer tipo de
texto (LOPES; ABREU; MATTOS, 2010).
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BRETON, P. A manipulação da palavra. São Paulo: Loyola, 1999.
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