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Direitos na União Estável
Uma duvida de uma cliente que ao me indagar sobre possíveis direitos sucessórios, decorrentes de uma relação vivenciada entre ela e o antigo companheiro falecido, foi o que deu origem a este artigo.
Embora não consubstanciado a relação pelo matrimonio. O casal vivia em uma relação amorosa, que perdurou por certo período de tempo e que objetiva constituir família, de modo que residiam no mesmo domicilio, além da relação ser de conhecimento de todos que os conhecia.
Então qual seria o problema? O problema surgiu após o falecimento do rapaz, que ao partir deixou um patrimônio considerável para trás, e até mesmo com a participação da companheira, os familiares do falecido viraram as costas para ela e até mesmo indicaram que esta não teria direito a absolutamente nada.
Então nesse sentido, busquei elucidar a duvida desta cliente, e fruto desta pergunta resolvi elabora este artigo para ilustrar quais: a definição deste tipo de relação, denominada União Estável, e os direitos provenientes; procedimentos para o reconhecimento deste tipo de relação.
Quais são os direitos da pessoa que vive em União Estável
O que é uma União Estável?
A União Estável é reconhecida como entidade familiar, uma vez que objetiva a constituição de uma família, com convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, ou até pessoas do mesmo sexo, que ainda não celebraram o casamento. 
Tendo em vista, que este tipo de relação buscou regulamentar uma situação recorrente que trazia certa insegurança jurídica e resquícios de preconceitos da antiguidade. Pois, na antiguidade, o casal apenas teria laços familiares caso fosse celebrado o casamento, do contrario teríamos o "concubinato". Assim, com o fim de estabelecer um regramento para este tipo de relação, de casais que optam por não celebrar o casamento, é que o legislador buscou definir e prever a União Estável.
Casamento & União Estável – Entidades Familiares
O casamento é o marco inicial do elo jurídico entre o casal, uma vez que estes passam a ser responsáveis pela vida matrimonial, cujo interesse é de constituir família, assente pela afetividade (Flavio Tartuce – Direito Civil 5 - Direito de Família, 2016, pag. 45).
A constituição familiar é uma etapa muito importante da vida. Pois é através desta que irá se consubstanciar a comunhão plena de vida entre os seres, conforme é previsto no Art. 1.511 do Código Civil, além de estabelecer o princípio da igualdade de obrigações entre o casal que rege a vida conjugal e prevê a igualdade de direitos e deveres dos cônjuges. 
Art. 1.511. O casamento estabelece comunhão plena de vida, com base na igualdade de direitos e deveres dos cônjuges.
Contudo, não apenas pelo casamento que existe a constituição familiar, pois há situações em que, por diversos fatores, o casal decide não celebrar o casamento e passam a conviver juntos de forma duradoura e amorosa. No entanto, era comum, na antiguidade, um certo preconceito aos que não celebravam o casamento, o que refletia a mentalidade da época, e que ainda possui resquícios na atualidade. De modo a existir ainda situações, mesmo que infinitamente menores, em que os companheiros são vistos como pessoas sem direitos, enxergadas de forma pejorativa, em situação inferior às pessoas com laços matrimoniais (Pablo Stolze e Rodolfo Pamplona - Direito Civil – Volume Único).
Não obstante, com a evolução cultural decorrente do desenvolvimento da mentalidade da sociedade, que se fortaleceu através da informação e do aperfeiçoamento normativo, adquirido com base em princípios humanitários fundamentais, como o da dignidade da pessoa humana, que foram determinantes para enfrentamento desta situação discriminatória. Uma justa conquista que proporcionou uma abertura necessária para o avanço cultural, necessário para incluir situações corriqueiras, possibilitando o desenvolvimento da sociedade juridicamente e socialmente. Com isso, a própria constituição federal, em seu art. 226, §3º, reconheceu a União Estável como forma de entidade familiar e não estabelecendo hierarquia entre os institutos. 
Art. 226. A família, base da sociedade, tem especial proteção do Estado.
§ 3º Para efeito da proteção do Estado, é reconhecida a união estável entre o homem e a mulher como entidade familiar, devendo a lei facilitar sua conversão em casamento. 
Elementos da União Estável
Importante ressaltar que para o reconhecimento da união estável, o legislador buscou normatizar este tipo de relacionamento, com isso promulgou a Lei 8.971/1994, que regula o direito dos companheiros a alimentos e à sucessão. 
De forma a prever alguns requisitos, que são atualmente elementos acidentais, e que não são essenciais para configurar a relação de companheirismo. Todavia, facilitam na demonstração judicial, reforçando a existência de união estável, são eles:
I) Prazo de convivência (não existindo a necessidade de que haja convívio sobre o mesmo teto - STJ, REsp 275.839/SP) ou coabitação de 5 anos; 
II) Existência de alguma prole (fruto do relacionamento do casal, caso venham a ter um filho);
Após, houve a promulgação da Lei 9.278/96, que regulamenta o § 3° do art. 226 da Constituição Federal, e que não revogou a integralidade da Lei anterior, havendo aplicação concomitante de ambas as normas. Nessa lei, buscou-se reforçar o conceito de entidade familiar e a definiu como: a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família. 
Art. 1º É reconhecida como entidade familiar a convivência duradoura, pública e contínua, de um homem e uma mulher, estabelecida com objetivo de constituição de família.
Além disso, buscou definir quais seriam os direitos e deveres dos conviventes: I) Respeito e consideração mútuos; II) Assistência moral e material reciproca; III) Guarda, sustento e educação dos filhos comuns.
Art. 2° São direitos e deveres iguais dos conviventes:
I - respeito e consideração mútuos;
II - assistência moral e material recíproca;
III - guarda, sustento e educação dos filhos comuns.
No mesmo sentido foi a previsão do art. 1724 do Código Civil:
Art. 1.724. As relações pessoais entre os companheiros obedecerão aos deveres de lealdade, respeito e assistência, e de guarda, sustento e educação dos filhos.
Assim, deixou de ser uma mera relação ínfima para uma relação juridicamente prevista no ordenamento normativo, com o fim de estabelecer o companheirismo entre o casal. 
Além dessas previsões, o Código Civil também buscou conceituar a União Estável, em seu artigo 1.723. Dessa forma, podemos definir os elementos essências para a caracterização da União Estável: 
I) Publicidade (relacionamento de conhecimentos de todos os que circundam); 
II) Continuidade (a existência de relacionamento duradouro, com razoável tempo de convivência); 
III) Estabilidade (o casal conviver de forma estável, não sendo uma relação com idas e vindas); 
IV) Objetivo de constituição de família (deve existir mutuo objetivo de constituir família, fincar laços e desenvolver a relação para a vida conjunta). 
Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.
Efeitos Patrimoniais
Por expressa previsão legal, um grande avanço normativo, houve a disposição de que a união estável seria regida pela comunhão parcial de bens, salvo contrato de convivência escrito que preveja algo distinto. 
Art. 1.725. Na união estável, salvo contrato escrito entre os companheiros, aplica-se às relações patrimoniais, no que couber, o regime da comunhão parcial de bens.
Assim, o casal passou a ter regime legal de bens. De modo que os bens adquiridos, durante a constância do relacionamento, devem ser partilhados entre o casal.
Entram na partilha de bens: 
I - os bens adquiridos na constância do casamento por título oneroso, ainda que só em nome de um dos cônjuges;
II - os bens adquiridos por fato eventual, com ou sem o concurso de trabalho oudespesa anterior;
III - os bens adquiridos por doação, herança ou legado, em favor de ambos os cônjuges;
IV - as benfeitorias em bens particulares de cada cônjuge;
V - os frutos dos bens comuns, ou dos particulares de cada cônjuge, percebidos na constância do casamento, ou pendentes ao tempo de cessar a comunhão.
Excluem-se da comunhão:
I - os bens que cada cônjuge possuir ao casar, e os que lhe sobrevierem, na constância do casamento, por doação ou sucessão, e os sub-rogados em seu lugar;
II - os bens adquiridos com valores exclusivamente pertencentes a um dos cônjuges em sub-rogação dos bens particulares;
III - as obrigações anteriores ao casamento;
IV - as obrigações provenientes de atos ilícitos, salvo reversão em proveito do casal;
V - os bens de uso pessoal, os livros e instrumentos de profissão;
VI - os proventos do trabalho pessoal de cada cônjuge;
VII - as pensões, meios-soldos, montepios e outras rendas semelhantes.
Assim, como os bens listados acima, são também incomunicáveis os bens que foram adquiridos antes do casamento.
Art. 1.661. São incomunicáveis os bens cuja aquisição tiver por título uma causa anterior ao casamento.
Mas, com o objetivo de proteger o cônjuge que participou ativamente do relacionamento o legislador buscou facilitar o exercício do direito de partilha. Pois existe situações em que apenas um dos cônjuges são responsáveis pelo o controle patrimonial do casal. Assim com o objetivo de proteger o cônjuge que não possuía o controle sobre os bens é que há a presunção de que os bens foram adquiridos na constância dos bens moveis, devendo aquele que fizer prova comprovar que foi adquirido em momento anterior ao relacionamento.
Art. 1.662. No regime da comunhão parcial, presumem-se adquiridos na constância do casamento os bens móveis, quando não se provar que o foram em data anterior.
Em caso de falecimento de um dos companheiros?
Em caso de falecimento de um dos companheiros, o caso que deu origem a este artigo, quais seriam os direitos de uma União Estável reconhecida?
Primeiramente, o que define quais são os direitos da companheira é a previsão legal em que se definiu a comunhão parcial de bens para o casal que vive sob uma União Estável. A partir disso, definido o regime de bens, é que podemos definir quais são os bens que um dos companheiros teriam. 
É importante salientar que o patrimônio constituído pelo casal sob o regime da união estável não depende somente do empenho de esforços econômico-financeiros, mas também do apoio motivacional e emocional, que oferece a estrutura psicológica, de forma mútua, para a construção da vida em comum e do patrimônio dela decorrente.
O regulamento jurídico da sucessão entre conviventes em união estável encontra-se disposto no artigo 1.790 do Código Civil:
Art. 1.790. A companheira ou o companheiro participará da sucessão do outro, quanto aos bens adquiridos onerosamente na vigência da união estável, nas condições seguintes:
I - se concorrer com filhos comuns, terá direito a uma quota equivalente à que por lei for atribuída ao filho;
II - se concorrer com descendentes só do autor da herança, tocar-lhe-á a metade do que couber a cada um daqueles;
III - se concorrer com outros parentes sucessíveis, terá direito a um terço da herança;
IV - não havendo parentes sucessíveis, terá direito à totalidade da herança.
Ocorre que o Plenário do e. Supremo Tribunal Federal, em recente decisão (10/05/2017), resolveu a matéria em comento ao julgar os temas de repercussão geral nº 498 (RE nº 646.721, que trata da sucessão em relação homoafetiva) e nº 809 (RE nº 878.694, que cuida da união de casal heteroafetivo), fixando a seguinte tese2:
"É inconstitucional a distinção de regimes sucessórios entre cônjuges e companheiros prevista no art. 1.790 do CC/2002, devendo ser aplicado, tanto nas hipóteses de casamento quanto nas de união estável, o regime do art. 1.829 do CC/2002".
De modo que a partilha se daria da seguinte forma:
Art. 1.829. A sucessão legítima defere-se na ordem seguinte: 
I - aos descendentes, em concorrência com o cônjuge sobrevivente, salvo se casado este com o falecido no regime da comunhão universal, ou no da separação obrigatória de bens (art. 1.640, parágrafo único); ou se, no regime da comunhão parcial, o autor da herança não houver deixado bens particulares;
II - aos ascendentes, em concorrência com o cônjuge;
III - ao cônjuge sobrevivente;
IV - aos colaterais.
Primeiramente teríamos: a partilha do patrimônio comum do casal, adquirido na constância do relacionamento; e bem como o direito real de habitação de imóvel que era destinado à residência da familia:
I) O companheiro sobrevivente teria direito a 50% dos bens comuns adquiridos na constância do relacionamento;
II) Ao cônjuge sobrevivente, qualquer que seja o regime de bens, será assegurado, sem prejuízo da participação que lhe caiba na herança, o direito real de habitação relativamente ao imóvel destinado à residência da família, desde que seja o único daquela natureza a inventariar.
É entendimento pacífico no âmbito do STJ que a companheira supérstite tem direito real de habitação sobre o imóvel de propriedade do falecido onde residia o casal, mesmo na vigência do atual Código Civil.
Após esse procedimento é que teríamos a partilha dos bens particulares do falecido. Tendo em vista, que quando o casal se divorcia, são partilhados apenas os bens comuns. Cada um fica com a meação e com os seus bens particulares. No entanto, se a sociedade conjugal termina pela morte de um dos cônjuges, o outro concorre com os descendentes sobre os bens particulares.
a) Concorrência com o descontentes (art. 1.829, inciso I): caberá ao cônjuge quinhão igual ao dos que sucederem por cabeça, não podendo a sua quota ser inferior à quarta parte da herança, se for ascendente dos herdeiros com que concorrer.
Leciona Maria Berenice Dias3, sobre a concorrência do cônjuge com os descendentes na comunhão parcial que:
"A tendência, amplamente majoritária, sempre foi assegurar o direito de concorrência sobre os bens particulares: os adquiridos antes do casamento, os recebidos por doação ou por herança e todos os demais que são excluídos da comunhão (CC 1.659).
b) Na falta de descendentes: são chamados à sucessão os ascendentes, em concorrência com o cônjuge sobrevivente.
Art. 1.837. Concorrendo com ascendente em primeiro grau, ao cônjuge tocará um terço da herança; caber-lhe-á a metade desta se houver um só ascendente, ou se maior for aquele grau.
Nessas situações em que concorrem com outro herdeiros na partilha de bens, cada um terá direito a sua cota parte sobre os bens particulares do falecido. (Exemplo: caso o falecido tenha deixado 2 filhos, o patrimônio será repartido em 1/3 entre os herdeiros do patrimônio – ou seja entre os dois filhos e o/a companheiro(a))
c) Em falta de descendentes e ascendentes: será deferida a sucessão por inteiro ao cônjuge sobrevivente.

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