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Vânia Aparecida Borges Weitzel Fabrício Pelizer de Almeida Complexos agroindustriais © 2012 by Universidade de Uberaba Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Universidade de Uberaba. Universidade de Uberaba Reitor: Marcelo Palmério Pró-Reitora de Ensino Superior: Inara Barbosa Pena Elias Pró-Reitor de Logística para Educação a Distância: Fernando César Marra e Silva Assessoria Técnica: Ymiracy N. Sousa Polak Produção de Material Didático: • Comissão Central de Produção • Subcomissão de Produção Editoração: Supervisão de Editoração Equipe de Diagramação e Arte Capa: Toninho Cartoon Edição: Universidade de Uberaba Av. Nenê Sabino, 1801 – Bairro Universitário Catalogação elaborada pelo Setor de Referência da Biblioteca Central UNIUBE Weitzel, Vânia Aparecida Borges A439c Complexos agroindustriais / Vânia Aparecida Borges Weitzel, Fabrício Pelizer de Almeida. – Uberaba: Universidade de Uberaba, 2012 136 p. : il. ISBN 978-85-7777-464-7 1. Agroindústria. 2. Agronegócio. I. Almeida, Fabrício Pelizer de. II. Universidade de Uberaba. III. Título CDD 338.1 Sobre os autores Vânia Aparecida Borges Weitzel Especialista em Assessoria Organizacional com ênfase em Gestão de Empresas pelas Faculdades Integradas de Uberaba (FAZU), e em Educação Superior a Distância pela Universidade de Uberaba (Uniube). Graduada em Processos Gerenciais, pela Universidade de Uberaba (Uniube). Consultora em Comunicação e Assessoria Organizacional em Agronegócios. Coordenadora de Marketing e Comunicação Social da Valmont do Brasil. Professora do curso de pós-graduação em Marketing e Comércio de Produtos Agrope- cuários da Universidade de Uberaba (Uniube), e professora dos cursos de graduação em Processos Gerenciais, Gestão de Agro- negócios, Recursos Humanos e Tecnologia em Produção Sucroal- cooleira dessa mesma universidade. Fabrício Pelizer de Almeida Especialista em Matemática e Estatística e Gestão de Agronegócios pela Universidade Federal de Lavras (UFLA). Engenheiro Agrôno- mo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Consultor do mercado de grãos. Engenheiro Agrônomo Pleno, Staff – Fomento Frangos e Perus da SADIA de Uberlândia. Responsável Técnico de Produção em Fruticultura da Fazenda Marimbondo e Laje. Sumário Apresentação ............................................................................. VII Capítulo 1 Compreendendo o agronegócio brasileiro ...................1 1.1 O agronegócio no Brasil – a grande alavanca para a prosperidade .............6 1.2 O Complexo agroindustrial brasileiro ..........................................................10 1.3 As cadeias produtivas do CAI no Brasil.......................................................14 1.3.1 Estudo dos três elos mais importantes da cadeia produtiva ...............18 1.3.2 Cadeia produtiva à montante – “antes da porteira” (ou setor I) ..........19 1.3.3 Cadeia produtiva no núcleo da produção agrícola – “dentro da porteira” (ou setor II) ..........................................................................................22 1.3.4 Cadeia produtiva à jusante – “depois da porteira” (ou setor III) ..........25 Capítulo 2 Os indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal.............................31 2.1 Entendendo indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal .................................................................................................33 2.1.1 Segmentação do mercado agroindustrial ...........................................33 2.1.2 Segmentação produtiva e dimensionamento das atividades agroalimentares ..................................................................................36 2.2 O CAI e seus componentes.........................................................................42 2.2.1 Dimensionamento do CAI brasileiro ....................................................44 2.3 Impactos intersetoriais do CAI.....................................................................55 Capítulo 3 Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos principais atores nas atividades agroalimentares......61 3.1 Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos principais atores nas atividades agroalimentares ..............................................................................64 3.1.1 Segmentação de mercado .................................................................65 3.1.2 Setor II – Atividade Agrícola ...............................................................77 3.1.3 Setor III – Atividade Agroindustrial .....................................................83 Capítulo 4 As principais cadeias de grãos, plantas ornamentais e medicinais, frutas e bebidas .......................................91 4.1 Identificando, caracterizando e simulando as principais cadeias de grãos, plantas ornamentais e medicinais, frutas e bebidas....................................93 4.2 Caracterização e simulação nas cadeias de grãos .....................................97 4.3 Caracterização e simulação nas cadeias de plantas medicinais e ornamentais ..................................................................................................114 4.4 Caracterização e simulação nas cadeias de frutas e bebidas .................. 119 Apresentação Prezado(a) aluno(a). Para que possamos manter um ritmo de estudo que nos permita compreender o agronegócio de forma sistêmica, iniciaremos nos- sas reflexões abordando alguns aspectos relativos à cadeia produ- tiva: “antes, dentro e fora da porteira”. Ao longo de nossas considerações, buscaremos conceitos e defi- nições que possam nos esclarecer sobre as inúmeras facetas do agronegócio brasileiro; tão amplo, que nos permite cognominar este estudo de Complexos agroindustriais. Esperamos que você aprecie nossas considerações e que as utilize como ponto de par- tida para maiores reflexões em torno do assunto. No Capítulo 1, “Compreendendo o agronegócio brasileiro”, fare- mos uma abordagem introdutória ao tema procurando justificar a formação dos complexos agroindustriais formados por setores in- terligados: a atividade produtiva (compreendendo a agricultura e a pecuária) e a atividade industrial. No Capítulo 2, “Entendendo os indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal”, apresentaremos os conceitos e definições básicas para compreensão das cadeias produtivas. Nesse capítulo, serão abordados os princípios meto- dológicos de estudo, caracterização e segmentação dos setores produtivos, dando ênfase para os produtos de origem vegetal. VIII UNIUBE No Capítulo 3, “Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos principais atores nas atividades agroalimentares”, estudaremos as fronteiras agrícolas de produção e conheceremos as particularida- des e características da regionalização produtiva, a forma como se dão os processos de segmentação das cadeias produtivas e a análise dos principais setores enfatizando os setores de insumos, produção agrícola e a agroindústria. Você estudará ainda, o agronegócio brasileiro e como se formam as cadeias produtivas; onde se localizam e como interage cada ator em seus mais diferentes elos; aprenderá a identificar e a utilizar as políticas específicas e interventoras nos processos agroindustriais,bruto), enquanto que o setor de máquinas e equipamentos contribui com um Valor Adicionado para agropecuária em torno de R$ 1,55 bi (IBGE, 2005). 46 UNIUBE Esse setor é pouco intensivo em mão de obra. Estima-se que em- preguem 480 mil pessoas em atividades relacionadas com o CAI, re- presentando pouco mais de 2% sobre o pessoal ocupado em toda a extensão da cadeia produtiva. O Valor de Produção por trabalhador gira em torno de R$ 724 milhões refletindo a intensidade de capital e a produtividade do trabalho. De modo geral, o SETOR I é definido como propulsor da cadeia pro- dutiva, considerando a possibilidade de especificação de insumos em função do segmento produtivo, atividade local junto aos agropolos que são estruturas modernas de produção, que absorvem, geogra- ficamente, alto grau de especialização da produção agropecuária, e relativa proximidade quanto à agroindústria, armazenamentos e dis- tribuição e principalmente grau tecnológico aplicado. Nesse aspecto, entende-se que é o alvo de negociação no primeiro estágio de trans- ferência insumo-produto na cadeia produtiva e receptor de um grande volume de financiamentos, dado às parcerias com instituições públi- cas e privadas de acesso ao crédito. Na visão macroeconômica, esse conjunto de empresas exerce um pa- pel importante na consolidação do grau de abertura econômica, que se refere ao percentual de participação de uma determinada econo- mia local no montante negociado em um período em escala global, totalizando volume importado e exportado, ou seja, potencializa as relações de comércio exterior à medida que tais tecnologias são inse- ridas nas cadeias produtivas agroindustriais domésticas. Dentre elas, destacam-se a Petrobrás (segundo a divisão agrícola – ureia e com- bustíveis, em geral), a Bunge Fertilizantes (sulfatos, nitratos, cloreto de potássio e fósforo), a Caterpilar (máquinas e implementos, peças, motores), Basf e Syngenta (moléculas, ingrediente ativo, substâncias farmacêuticas), conforme a Tabela 1. UNIUBE 47 Geralmente essas empresas são beneficiadas pelo acordo de draw- -back, conceituado como um regime de desoneração de impostos na importação vinculada a um compromisso de exportação. Dessa for- ma, parte delas participa ativamente de atividades exportadoras na própria cadeia produtiva, como é o caso da Bunge Alimentos S.A. Identificando os principais produtos importados (Tabela 2), destacam- -se os combustíveis (que abastecem as indústrias de insumos, logísti- ca, tratores e máquinas agrícolas) com 10,6%; as máquinas, peças e circuitos de processamento e informação (12,0%) e matérias-primas (para defensivos e fertilizantes) com 6,47%. Em geral, a participação desse grupo é cerca de 30% do montante de produtos absorvidos. Tabela 1: Principais empresas importadoras relacionadas ao agronegócio (2004/2005) Fonte: Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). Ordem Discriminação 2005 U$ milhões Part % 2004 U$ milhões Part % Var. % (05/04) 2004 2005 Total Geral 73551 100,0 62835 100,0 17,1 1 1 Petrobrás Petróleo Brasileiro S.A. 8177 11,12 7123 11,34 14,8 5 11 Bunge Fertilizantes S.A. 665 0,9 734 1,17 - 9,4 12 12 Caterpilar Brasil Ltda. 600 0,82 482 0,77 24,5 18 15 Basf. S.A. 532 0,72 452 0,72 17,8 11 17 Syngenta Proteção de Cultivos Ltda 499 0,68 489 0,78 2,1 24 18 Cotia Trading 486 0,66 308 0,49 57,4 48 UNIUBE Tabela 2: Principais produtos importados relacionados às cadeias vegetais (2005). Em U$ milhões Discriminação 2005 US$ milhões Participação (%) Total geral 73551 100,0 Combustíveis 7845 10,66 Máquinas e implementos 4772 6,48 Máquinas e processadores 2940 3,99 Rolamentos e engrenagens 1130 1,53 Matéria-prima para defensivos 2329 3,16 Matéria-prima para fertilizantes 2433 3,30 Trigo em grãos 649 0,88 Total - agronegócio 22098 30,04 Fonte: Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). 2.2.1.2 Fase II do CAI: o setor agropecuário O SETOR II brasileiro, denominado como setor produtivo agrícola, compreende todas as etapas e segmentos relacionados à atividade agropecuária nas Unidades de Produção (UP). A Unidade de Produção (UP) é a firma de produção agropecuá- ria “entendida como a área de terra onde a produção é realizada” (ALENCAR, 1990). De modo geral, pode-se atribuir a esse setor, a base da cadeia produtiva dado o foco dos diversos outros agentes (e anexos) que direcionam políticas (em linhas gerais) no sentido de prover estra- tégias de coordenação inclusive desse setor (Figura 6). Portanto, pode-se identificar quatro principais papéis atribuídos ao setor agrícola, caracterizando a dinâmica estrutural e comer- UNIUBE 49 cial das cadeias produtivas em geral. Primeiro, como comprador de insumos e alvo de serviços, pesquisas e assistência técnica público-privadas, de modo que o aporte tecnológico da cadeia ou sequenciamento produtivo são medidos através de índices técni- cos aplicados no setor rural. Segundo, como agente de comercia- lização dos produtos, de acordo com as regras de mercado, es- tratégias de negociação e flutuações dos indexadores (contratos particulares, moedas, títulos, insumos). O terceiro papel aplica-se à captação de recursos, créditos e sujei- ção às políticas aplicadas pelo Estado. O quarto, aliado ainda à co- mercialização da safra, refere-se à opção de repasse à agroindústria para fins de processamento, ou armazenamento como estratégia de escoamento e distribuição. Figura 6: Detalhe de um esquema do setor agropecuário – setor a montante. Do ponto de vista do dimensionamento do Setor II, o Valor da Pro- dução da atividade agropecuária, tem se mantido estável, retratan- do um cenário de profundas transformações, destacando cadeias de produção vegetal emergente e em franco avanço tecnológico (além de algumas tradicionais) como a cana-de-açúcar (R$ 2,5 bi), soja em grão (R$ 1,28 bi) e a celulose (R$ 4,8 bi). O Consumo Intermediário da Agropecuária, isto é, o que se absorve de insumos para a produção do setor, representam 34,7% do Valor da Produção setorial. Em se tratando de adversidade do mercado, o setor de máquinas e equipamentos (-38,45%) e adubos (-11,0%) 50 UNIUBE são bastante afetados, sugerindo menor absorção de tecnologia por parte do Setor II. Já o setor de defensivos (16,4%) manteve a expectativa de produção (Tabela 3). Tabela 3: Brasil: Indicadores da produção agroindustrial – 2005 (Base: 2004 = 100) Fonte: Adaptado de IBGE (2005). Setores Jan-Dez Total da Agricultura 96,00 Produtos Industriais Derivados da Agricultura 98,96 Cana-de-Açúcar 96,37 Celulose 104,35 Fumo 98,35 Soja 98,72 Laranja 95,84 Trigo 102,98 Arroz 105,64 Milho 84,65 Produtos Industriais Utilizados pela Agricultura 79,47 Adubos e Fertilizantes 89,08 Máquinas e Equipamentos 61,55 Total da Pecuária 103,70 Produtos Industriais Derivados da Pecuária 102,92 Aves 103,00 Bovinos, Suínos e Outras Reses 100,79 Leite 106,25 Couros e Peles e Produtos Similares 100,91 Produtos Industriais Utilizados pela Pecuária 106,85 Rações, Suplementos Vitamínicos ou Semelhante 106,38 Produtos Veterinários, Dosados 109,18 Inseticidas, Herbicidas e Outros Defensivos P/Uso Agropecuário 116,24 Desdobramento da Madeira 94,88 Total da Agroindústria 99,06 Obs.: Os totais incluem produtos não discriminados na tabela. UNIUBE 51 Considerando os diversos segmentos produtivos e papéis desem- penhados em ambientes de negociação distintos, as Unidades de Produção também podem ser distintas quanto ao modelo de ges- tão aplicado, os aspectos relacionados ao produto e, principalmen- te, à medida da eficiência da própria atividade. Tais indicadores são constantemente abordados no Setor II, principalmente em cadeias produtivas competitivas, agroexportadoras (especialidades ou commodities) ou que, em geral, atendam mercados consumidores específicos e sofisticados. Um dos principais indicadores é o relativo à produção propriamen- te dita, relacionando custo versus benefício. Sabendo-se quehá diversos recursos na propriedade rural (pessoas, máquinas, terra, capital, benfeitorias), a expectativa se dá numa visão macro (quan- to é necessário produzir para justificar a utilização de todos os bens) e numa perspectiva pontual (quanto posso tornar a atividade atual mais rentável). A primeira resolve uma questão da proprieda- de, contabilizada com o fechamento da comercialização, enquanto que a segunda refere-se à medidas realizadas diariamente na exe- cução de qualquer atividade de rotina. Em toda e qualquer situação, o produtor rural (ou o ator referencial) que está devidamente inserido nesse contexto de cadeias agroin- dustriais, planeja, organiza, controla, gerencia e registra tais ações, convivendo com um cenário de alto risco (mercado, clima), repleto de variáveis (RH, aporte tecnológico, custos) e ruídos (incertezas, despreparo). 2.2.1.3 Fase 3 do CAI: o setor agroindustrial Entende-se por Setor III brasileiro, as atividades relativas os proces- sos agroindustriais. No conceito usado por Lauschner (1993), 52 UNIUBE é, em sentido amplo, a unidade de produção que transforma produtos agropecuários em bens finais de consumo ou de uso intermediário e, em sentido restrito, é a unidade que por um lado transforma produto agropecuário, o mínimo de 25% do total dos insumos utilizados. No Brasil, setores com grande potencial para dinamização das expor- tações são pertencentes, por exemplo, ao complexo da soja, citros, carnes, madeiras, café, açúcar e frutas (NUNES e CONTINI, 2000). Didaticamente, o setor agroindustrial exerce um papel de recepção dos produtos in natura e, por definição, com baixo valor agregado, e, por fim, torna-o prontamente disponível ao consumo, ou para uma etapa industrial a seguir (Figura 7). Figura 7: Detalhe de um esquema do Setor I, II e III. Algumas atividades são destacadas quanto à fase agroindustrial, se- gundo o tipo de produto, estratégia de mercado e acordos comerciais com clientes. De modo geral, as etapas são beneficiamento, proces- samento e distribuição. O beneficiamento diz respeito aos procedi- mentos de (I) recebimento da matéria-prima, (II) seleção dos materiais de acordo com os padrões mínimos, (III) classificação conforme o atendimento das especificações, tal como um parâmetro de remune- ração, (IV) armazenamento segundo a definição do negócio. Nesse caso, se a prioridade é a comercialização in natura (via exportação), o passo seguinte é distribuição, caso contrário, com o atendimento da demanda industrial, esse material é direcionado ao processamento. UNIUBE 53 O processamento é a etapa relacionada com a transformação (parcial ou total) do produto, podendo adicionar ou agregar valor. Em qualquer estratégia (in natura ou processado) o armazenamento (estrutura es- tática) a distribuição e escoamento da produção são importantes ativi- dades, considerando as especificações de produto, modais de trans- porte, aporte tecnológico e mercado consumidor direcionado. O papel da agroindústria, em linhas gerais é prover o entendimento do mercado consumidor, suas tendências e necessidades e decodificar a cadeia produtiva, de modo que os atores do processo (Setor I, Setor II e Setor III) apresentem um comportamento competitivo, conside- rando o ambiente de negócios em que as atividades estão inseridas. De acordo com a Tabela 4, com exceção para o setor de vestuário, calçados e artigos de couro, a atividade agroindustrial esboça um pa- norama de crescimento do Valor da Produção inclusive maior que a média idas indústrias gerais, como é o caso de papel e celulose (18,4%;20,6%) em relação ao ano-base 2002. Tabela 4: Brasil: Indicadores de produção industrial por seções e atividades (2005/2006) Fonte: Adaptado de IBGE (2005). Seções e Atividades de Indústria 2005 2006 Indústria Geral 111,8 114,3 Indústrias Extrativas 120,4 127,1 Indústria de Transformação 111,4 113,6 Alimentos 103,5 105,4 Bebidas 108,2 113,4 Fumo 108,5 111,3 Têxtil 103,1 105,8 Vestuário e acessórios 84,9 82,5 Calçados e artigos de couro 90,1 87,8 Madeira 108,6 103,0 Celulose, papel e produtos de papel 118,4 120,6 Refino de petróleo e álcool 101,6 104,9 Farmacêutica 106,3 110,4 Borracha e plástico 102,9 105,2 Índice Base Fixa Mensal (Número-Índice) Base: Média de 2002 = 100 54 UNIUBE No entanto, como já foi citado, o setor de vestuários e calçados, em geral, projeta um fraco desempenho na produção, em função da per- da de competitividade com outros mercados (China, principalmente) e dificuldades nas articulações na própria cadeia produtiva (política, sanitária, econômica). Em se tratando de Pessoal Ocupado (PO), somente os setores agro- alimentares e especificamente o de celulose, também reforçaram tal índice, inclusive na média salarial. Nas demais atividades, apesar do incremento produtivo (1996-2001), a remuneração ainda é baixa con- siderando a quantidade de pessoas empregadas (Tabela 5). Tabela 5: Brasil: Variáveis por agrupamento de classes industriais (1996-2001) Agrupamentos de classes de indústrias 1996 2001 Pessoal ocupado Salários VTI Pessoal ocupado Salários VTI (mil pessoas) (milhões de reais) (mil pessoas) (milhões de reais) Indústria geral 5056 47566 160439 5367 62868 292606 Agroindústria restrita 770 5772 23856 781 6919 40447 Alimentos 433 2935 13103 491 3712 22240 Fumo 21 259 1751 16 286 2515 Beneficiamento de fibras têxteis 4 26 100 4 31 164 Curtimento de couro 34 187 483 33 234 1022 Desdobramento da madeira 72 219 609 90 430 1291 Celulose 12 219 1073 9 265 2936 Produção de álcool 106 682 2396 44 352 2008 Química 31 606 2674 34 832 5257 Máquinas 58 638 1668 61 777 3013 Fonte: Adaptado de IBGE (2001). UNIUBE 55 2.3 Impactos intersetoriais do CAI A importância do complexo agroindustrial reside, também, em sua capacidade de impulsionar outros setores. Como já foi dito ante- riormente, existe forte relação entre os setores fornecedores de insumos, a atividade agropecuária e o setor agroindustrial, em se tratando de insumo – produto e mercados. Portanto, na Figura 8 é possível observar a variedade de atividades econômicas que de- pendem de insumos da agropecuária para realizarem sua própria produção. A leitura que se faz é a seguinte: para cada 1000 unida- des de demanda final dos setores agroindustriais (indústria do café, têxtil etc.) é requerido que a agropecuária produza x unidades para atender àquela demanda. Na Figura 9, está quantificada tal relação numa perspectiva simulató- ria. Essa compreensão da proposta de relações econômicas e a sua quantificação são de vital importância para a percepção da importân- cia que o CAI exerce sobre a economia brasileira como um todo, além de subsidiar intervenções e ações coordenadoras nos diversos am- bientes produtivos. Figura 8: Relações intersetoriais do CAI brasileiro. Fonte: Adaptado de Nunes e Contini (1998). 56 UNIUBE Figura 9: Simulação das relações intersetoriais do CAI brasileiro. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Resumo O complexo agroindustrial é dividido em elos ou cadeias. Cada uma destas partes irá estudar um conjunto específico de empresas, indús- trias, prestadores de serviços e instituições de pesquisas, responsá- veis pela produção, distribuição, armazenamento, processamento e comercialização dos produtos agropecuários. Complexo Agroindustrial (CAI) é uma estrutura econômica secciona- da em três grandes fases, mas deve ser visto numa dimensão única. Tomando a agropecuária como referência, colocada no centro do pro- cesso, as três fases se compõem: a 1ª fase, à montante da agropecu- ária; a 2a fase, que é a agropecuária; e a 3a fase, que é a comercializa- ção ou fase a jusante da agropecuária. De modo geral, a análise da cadeia produtiva numa leitura sistêmica, remete à identificação dos atores, seus respectivos papéis, coordena- Indústria do café UNIUBE 57 Atividades Atividade 1 Marque a alternativa correta. a) ( ) O Setor I fornece insumos para o setor agropecuário, sendo por definiçãoexportador de matérias-primas e maquinários; b) ( ) O Setor III pode ser definido como um conjunto de empre- sas agroindustriais que invariavelmente obtêm um desem- penho econômico acima da média industrial brasileira. c) ( ) O Setor II é, por definição, o conjunto de atividades agrope- cuárias desempenhadas a partir da absorção de tecnologia e insumos, resultando na escala de bens primários e de bai- xo valor adicionado. d) ( ) O Estado e o Mercado Financeiro, no caso das cadeias agroindustriais são exclusos por não exercerem regulação nos processos produtivos. Atividade 2 Qual o enfoque dado na definição de CSA (Commodity System Ap- proach) quanto à mudança de perfil da atividade agrícola moderna. Atividade 3 Quais mudanças ocorreram na conjuntura político-econômica seto- rial no país, com a inserção da “visão sistêmica”. ção e orientação das atividades na segmentação insumo-produto e, finalmente, o consumidor. Portanto, o dimensionamento estrutural dos CAIs de origem vegetal, perpassa pela compreensão de indicadores (preços mínimos, relações de troca) aplicados a cada setor da cadeia em evidência. 58 UNIUBE Atividade 4 Defina os quatro subsetores apresentados no conceito de filière (visão sistêmica) exemplificando atores participantes. Atividade 5 Marque V para verdadeiro ou F para falso. ( ) A completa inter-relação entre setores produtivos é restrita à cadeia produtiva relacionada ao seu insumo principal; ( ) A competitividade dos CAIs brasileiros é uma tendência funda- mentada historicamente, ou seja, desde a organização fundiá- ria colonial; ( ) A agroindústria é o setor responsável pela transformação total ou parcial de um produto agropecuário em um bem de consu- mo final; ( ) Exatamente no setor agropecuário é onde ocorrem as princi- pais reflexões sobre a tomada de decisão, tal como um ponto de partida na sustentação da competitividade. Referências ARAUJO, N.B; WEDEKIN, I; PINAZZA, L. A. Complexo Agroindustrial - O Agribusiness Brasileiro, São Paulo: Agroceres, 1990. 238p. ALENCAR, E. Complexos Agroindustriais. Lavras: UFLA / FAEPE, 2001. 90p. BATALHA, M. O.; SILVA, A. L. Gerenciamento de sistemas agroindustriais: definições e correntes metodológicas. In: Gestão agroindustrial: GEPAI: Grupo de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. São Paulo: Atlas, 2001, p. 23-62. IBGE. Matriz de insumo - produto de 2001. IBGE, Rio de Janeiro, 2001. UNIUBE 59 ____. Sistema de contas nacionais do Brasil: 1996-2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2001. ____. Sistema de contas nacionais do Brasil: 2005. Rio de Janeiro: IBGE, 2005. KAGEYAMA, A..; e outros (Editores). O novo padrão agrícola brasileiro: do complexo rural aos complexos agroindustriais. In: DELGADO, G.; GASQUES, J. G. VILLA VERDE, C.M. Agricultura e políticas públicas. Brasília, IPEA, 1990, p. 113-223. LAUSCHNER, R. Agribusiness, cooperativa e produtor rural. São Leopoldo: UNISINOS, 1993. 296p. LEONTIEF, W. A economia do insumo-produto. Os Economistas, São Paulo: Abril Cultural, 1983. MORVAN, Y. Filières de production. In: Fondements d`Economic Industrielle. Paris: Econômica, 1991. Pag. 243-275. NEVES, M. F.; SPERS, E. E. Agribusiness: a origem, os conceitos e tendências na Europa. In: MACHADO FILHO, C.A.P. et al. Agribusiness europeu. São Paulo, Pioneira, 1996, p.1-15. NUNES, E. P. e CONTINI, E. Sistemas de contas nacionais: a gênese das contas nacionais modernas e a evolução das contas nacionais no Brasil. Campinas, SP: 1998. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual de Campinas. ____. Dimensão do Complexo Agroindustrial Brasileiro. Artigos da Associação Brasileira de Agribusiness, ABAG, outubro de 2000. SILVA, J. G. da. A nova dinâmica da agricultura brasileira. Campinas, Instituto de Economia, Unicamp, 1996. Fabrício Pelizer de Almeida Vânia Aparecida Borges Weitzel Introdução Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos principais atores nas atividades agroalimentares Capítulo 3 Contando com seus 8.514.877 km2, o Brasil é o país de ter- ritório mais extenso da América do Sul, o terceiro das Améri- cas e o quinto do mundo, na classificação em que a Rússia, com (17.098.242 km2) ocupa a 1ª posição, seguida do Cana- dá (9.984.670 km2), da China (9.640.011 km2) e os Estados Unidos (9.629.091 km2). (REBOUÇAS, 2010). O litoral brasileiro é banhado pelo Oceano Atlântico, ten- do 9198 km de extensão, com inúmeras reentrâncias com praias, falésias, mangues, dunas, recifes, baías, restingas etc. Praticamente o ano todo o litoral brasileiro possui condi- ções favoráveis à navegação. Assim, ele possui um imenso espaço geográfico diferencia- do. A imensa diversidade de relevos, fauna, flora e clima, numa natureza bastante diversificada, aglutina num mesmo espaço territorial lugares muito quentes e secos com vegeta- ção pobre e escassa; lugares quentes e úmidos com vegetal florestal e grandes rios; e, lugares frios caracterizados por florestas de pinheiros. 62 UNIUBE Entretanto, estes não são os únicos motivos responsáveis pela divisão do espaço territorial. Existe também outro motivo além da variedade de paisagens que é a própria sociedade: a ação do homem, suas culturas diferentes que diferenciam o espaço geográfico em si, tanto quanto as paisagens que ocupam. Em nosso país, algumas destas áreas foram ocupadas pela economia moderna e acabaram modificadas pela ação social dos seus ocupantes que criaram cidades, construíram pontes, rodovias, ferrovias e indústrias. Em outras regiões, as pessoas acabaram dedicando-se mais à produção agrícola e pecuária. Estas opções ou aptidões por determinado tipo de produção (agrícola ou industrial) aliados às características geográficas de cada região é o ponto de partida para nossos estudos. O termo fronteira é bastante dinâmico, mas, pode-se afirmar que foi, através da dilatação das fronteiras que se iniciou todo o processo de povoamento, ocupação e desenvolvimento do nosso país. No caso da região Sul, por exemplo, as atividades agrícolas tive- ram seu início no litoral, bem antes da chegada dos imigrantes europeus. Após o século XIX houve um grande fluxo de imigran- tes europeus, sobretudo, italianos, poloneses, alemães, entre outras nacionalidades. Esses colonos receberam glebas de ter- ra, onde desenvolveram principalmente as policulturas, a mão de obra usada era a familiar. Culturas com característica de clima subtropical como o trigo e a uva tinham como destino o abasteci- mento do mercado local. Recentemente houve muitas mudanças na configuração do es- paço agrário sulista, em diversos casos as policulturas deram lugar às monoculturas. A principal cultura responsável por esse processo é a soja. A produção deixou de ser destinada ao mer- SAIBA MAIS UNIUBE 63 cado regional para se tornar produtos de exportação. Além disso, as propriedades que anteriormente eram de pequeno e médio porte, tornaram-se grandes latifúndios, uma vez que grandes fa- zendeiros e empresas agrícolas compraram as glebas de terra dos descendentes dos colonos, promovendo assim a concentra- ção fundiária na região. O trabalho deixou de ser predominante- mente familiar para ser mecanizado. Esse processo conduziu um elevado número de trabalhadores e ex-proprietários de terras a migrar em direção às cidades, pro- movendo assim o fenômeno migratório denominado de êxodo ru- ral, sem contar o grande número de migrantes sulistas que foram para outras regiões do Brasil, como o Centro-Oeste e o Norte, promovendo a expansão da fronteira agrícola do país. Mesmo com os problemas apontados, a região Sul continua desempe- nhando um grande papel na produção agrícola, pelo menos 70% do trigo e da soja do Brasil são oriundos dessa parte do país, além da produção de uva que responde por 65% do que é produ- zido nacionalmente, incluindo cerca de 50% do milho e do arroz (FREITAS, 2011). Objetivos Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • definir o perfil das principais fronteirasde produção; • delinear a segmentação das atividades relacionadas às cadeias produtivas e os principais segmentos produti- vos numa abordagem contextual; • propor uma abordagem crítica de políticas e ações co- ordenadoras nos processos agroindustriais; • reconhecer e inferir sobre os papéis dos diversos ato- res nas cadeias agroindustriais; • expor segmentos e setores produtivos na proposta de uma leitura sistêmica dos complexos agroindustriais. 64 UNIUBE Esquema 3.1 Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos princi- pais atores nas atividades agroalimentares 3.1 Fronteiras de produção, segmentação e papéis dos principais atores nas atividades agroalimentares Conforme já estudamos, as cadeias produtivas são ilustradas numa perspectiva de relações intersetoriais, sugerindo que há intenso flu- xo de valor (informações, tecnologia, insumos) entre os diversos atores do processo. Na Figura 1, reforçamos o contexto de cadeia produtiva, ressaltando os setores envolvidos, bem como a matriz insumo-produto, abrindo precedentes para o estudo segmentado e análise setorial. Figura 1: Detalhe de um esquema do Setor I, II e III e anexos. UNIUBE 65 3.1.1 Segmentação de mercado 3.1.1.1 Setor I – Insumos para agricultura A partir da segmentação de mercado, ou seja, a caracterização de produtos, e potencial de atendimento conforme perfil do cliente, é pos- sível traçar modelos de fronteiras de produção. Nessa perspectiva, a proposta textual é de discutir cada negócio que compõe a matriz- -produto nas principais cadeias produtivas de origem vegetal, iden- tificando atores e representantes, histórico produtivo, expectativa de alinhamento quanto às mudanças ocorridas nas vias produtivas e co- merciais. Pesquisa e assistência técnica Prioritariamente, cabe uma ressalva ao papel da pesquisa e da as- sistência técnica, desenvolvidas pelo Estado (governo) e pela inicia- tiva privada, com objetivos próprios e os mais diversos, que resultam no objetivo maior, que é o aumento da eficiência produtiva. De acor- do com Lício (1998), a agricultura brasileira desenvolveu-se até me- ados de 1980, em parte por meio da importação e adaptação pouco proveitosa de tecnologias desenvolvidas em outros países. Vale ressaltar, em se tratando de assistência técnica, o papel da extinta EMBRATER (Empresa Brasileira de Assistência Técnica e Extensão Rural) de difusão do conhecimento técnico às pequenas propriedades e promover o desenvolvimento sustentável das comu- nidades rurais. Desse modo, parece indissociável a presença do Es- tado na delimitação temporal das fronteiras agrícolas até 1986. A partir de 1991, quando a EMBRAPA (Empresa Brasileira de Pesqui- sa Agropecuária) assumiu as funções da extinta EMBRATER, ao mes- mo tempo em que as EMATERs (Empresas de Assistência Técnica e 66 UNIUBE Extensão Rural) consolidavam as suas participações nos estados, o governo passou a priorizar a pesquisa, repassando à iniciativa privada a assistência técnica de modo efetivo (PORTILHO, 1998). Relativo à pesquisa gerada pelo setor público no Brasil, Pinazza e Alimandro (1999), afirmam que o grande empecilho consiste na fal- ta de fundos sistematizados, contínuos e crescentes destinados à pesquisa agropecuária. Países como Estados Unidos, Austrália, Ho- landa, Canadá, e Reino Unido investem em pesquisa agropecuária acima de 3% de seu PIB agrícola. Tanto a Fase I quanto a Fase II são consumidoras de pesquisa ao nível de campo e mercado, desenvolvida pelo Estado ou por empre- sas particulares. Nessa última, enquadram-se pesquisas referentes ao mercado de defensivos, sementes, máquinas e implementos, ra- ções, medicamentos e fertilizantes, entre outros. Destaca-se tam- bém, nesse momento, a intervenção de agências de marketing e propaganda, no sentido mensurar a aceitação de mercado e propos- ta de novos produtos. Estas últimas, com forte presença nos princi- pais agropolos, aprimorou suas atividades a partir da década de 90. No caso da pesquisa gerada junto às empresas estatais (EMBRAPA), institutos de pesquisa (IAC, IAPAR) e universidades (UNESP, UFLA, UFV), percebe-se maior acessibilidade aos dados, exceto na evidên- cia de convênios particulares. Dessa forma, a pesquisa no país possui um enfoque comercial, voltado à melhoria de produtos e avaliação de resultados, como também uma conotação ampla no sentido de dispor ao produtor rural novos materiais genéticos, atestado de eficiência das marcas comerciais e recomendação de boas práticas. UNIUBE 67 Sementes e mudas A indústria de sementes no Brasil iniciou suas atividades por volta de 1940, e se desenvolveu a partir de 1965 com o advento das exi- gências quanto ao uso de sementes melhoradas para a obtenção do crédito rural. Em 1975, quando o governo suspendeu essa nor- mativa, a indústria sofreu um expressivo declínio, recuperando-se totalmente a partir de 1985, com o avanço das áreas de grãos e assi- milação pelos produtores de técnicas eficientes de produção (plantio direto, tratamento de sementes, herbicidas pré-emergentes). Na década de 80, com o avanço de áreas no centro-oeste e o forta- lecimento do acesso ao crédito, a produção de sementes no Brasil cresceu cerca de 23,0%. No entanto, no início da década seguinte, o setor apresentou queda voltando à mesma faixa, em torno de 1,4 mi de toneladas, mantendo-se estável nos últimos anos (Figura 2). Figura 2: Brasil: Produção de sementes das principais culturas (milhões de toneladas). Fonte: Adaptado de ABRASEM (2006). 68 UNIUBE Em se tratando de comercialização em função do nível tecnológico empregado, a relação entre sementes-grãos, fiscalizadas e certifi- cada/básica (são materiais obtidos da reprodução da semente ge- nética, garantida a fiscalização do campo de produção e certifica- ção pelo Ministério da Agricultura (MAPA), segundo a ABRASEM (2006)), quanto ao indicador de preço mínimo praticado, é altamente significativa. No caso da semente de soja, por exemplo, a variação gira em torno de 57% no preço, enquanto que no algodão e no milho esse percentual é de 76% e 84%, respectivamente (Tabela 1). Tais diferenças remetem à justificativa de diferenças nas diversas regiões produtoras em função do aporte tecnológico empregado. Entende-se que o indicador em questão define agropolos que op- tam por materiais certificados (cerca de 95%), enquanto que regiões agrícolas mais pobres, ou recentemente afetadas por crises econô- micas adquirem materiais de baixo potencial produtivo. Produto / Safra Início da Operação Grãos Fiscalizada Certificada/ Básica 2004/05 2005/06 2004/05 2005/06 2004/05 2005/06 2004/05 2005/06 Algodão fev/05 fev/06 0,16 0,16 0,65 0,65 0,69 0,69 Amendoim dez/04 dez/05 0,64 0,64 2,05 2,05 2,41 2,41 Arroz Longo Fino fev/05 fev/06 0,40 0,40 0,77 0,77 0,83 0,83 Arroz Longo fev/05 fev/06 0,19 0,19 0,51 0,51 0,55 0,55 Feijão Anão nov/04 nov/05 0,78 0,78 1,32 1,32 1,50 1,50 Girassol nov/04 nov/05 0,29 0,29 8,49 8,49 9,98 9,98 Juta/Malva fev/05 fev/06 0,00 0,00 3,98 4,31 – – Milho Híbrido fev/05 fev/06 0,22 0,22 1,34 1,34 1,39 1,39 Tabela 1: Brasil: Preços Mínimos de Sementes, em R$/kg UNIUBE 69 Fonte: Adaptado de CONAB (2006). Milho Variedade fev/05 fev/06 0,22 0,22 0,73 0,73 0,77 0,77 Soja fev/05 fev/06 0,23 0,23 0,50 0,50 0,54 0,54 Sorgo Híbrido fev/05 fev/06 0,16 0,16 1,16 1,16 1,19 1,19 Sorgo Variedade fev/05 fev/06 0,16 0,16 0,56 0,56 0,59 0,59 Cevada jul/05 – 0,28 – 0,40 – 0,43 – Trigo jun/05 – 0,33 – 0,85 – 0,92 – Triticale jul/05 – 0,22 – 0,37 – 0,40 – Atualmente, a produção se desenvolve com poucas firmas de gran- de porte que detêm a pesquisa (melhoramento genético, transge- nia) e mantêm campos de produção de sementes em parceria com grandes produtores rurais. Com isso, é possível realizar in loco dias de campo e avaliações de materiais com maior potencial produtivo. Evidentemente, o objetivo dessas empresas é o de sustentar a ativi- dade agrícola altamente tecnificada. Defensivosagrícolas O segmento de produção e venda de defensivos agrícolas no país, está relacionado com o incremento tecnológico sugerido nos últimos anos. Anterior à década de 90, gama de produtos comercializados era bastante restrita, não ultrapassando US$ 1,0 bi em receita. A partir de 93 (aqui serão consideradas as classes de acordo com a especificidade de controle: herbicidas – plantas daninhas, fungicidas – doenças causadas por fungos, inseticida – pragas, acaricida – áca- ros), coincidindo com o período de abertura comercial e mudanças no perfil econômico e comercial brasileiro, as vendas de defensivos aumentaram consideravelmente, aliadas à proposta de importação de novas moléculas e ingredientes ativos (Figura 3). 70 UNIUBE Figura 3: Vendas de defensivos agrícolas no Brasil. Fonte: Adaptado de SINDAG (2006). Dentre as principais culturas que movimentam o mercado de defen- sivos, destacam-se, de acordo com a figura 4 e 5, soja (50%), al- godão (10%), milho e cana (7,0% cada). Os herbicidas (40,0%) e fungicidas (31%) são os produtos de maior volume comercializado. Figura 4: Venda de defensivos agrícolas, por classe – 2004. Fonte: Adaptado de SINDAG (2004). UNIUBE 71 Apesar de um aquecimento no segmento após 95, nos últimos 2 anos, o compasso de crescimento tem demonstrado um perfil de retroação, no sentido do volume de vendas e, principalmente, na quantidade de produtos comerciais (Tabela 2) e moléculas importadas (Figura 6). Tal variação negativa no total de importação dos produtos (-22,05%), prin- cipalmente fungicidas (-32,66%), remete a uma profunda análise das principais cadeias produtivas, no sentido de dimensionar momentos de “depressão” na produção, sabendo-se que, nos últimos anos, há uma forte tendência de aumento na ocorrência de problemas fitossanitários. Tabela 2: Importação de defensivos agrícolas no Brasil Classes Quantidade (em mil kg/l) Variação percentual 2001 2002 2003 2004 2005 05/01 05/02 05/03 05/04 Total 76.454 64.355 100.384 164.833 128.491 68,06 99,66 28,00 -22,05 Herbicidas 44.619 33.641 57.181 98.257 76.961 72,48 128,77 34,59 -21,67 Fungicidas 9.527 11.181 18.771 31.496 21.209 122,62 89,69 12,99 -32,66 Inseticidas 17.310 14.816 21.358 31.571 28.057 62,09 89,38 31,36 -11,13 Acaricidas 4.233 4.094 2.388 2.482 1.760 -58,42 -57,01 -26,31 -29,09 Outros 765 623 686 1.027 503 -34,22 -19,17 -26,61 -50,99 Figura 5: Venda de defensivos agrícolas, por cultura – 2004. Fonte: Adaptado de SINDAG (2004). Fonte: Adaptado de SINDAG (2006). 72 UNIUBE Figura 6: Importações – ingredientes ativos. Fonte: Adaptado de SINDAG (2006). Algumas causas podem evidenciar tal comportamento, a saber, (I) a crise produtiva do setor rural brasileiro, seguida pelas baixas cotações das principais commodities, (II) irregularidade no uso de defensivos agrícolas, dado o alto custo de aquisição, (III) relativa fase estacionária da produção de grãos nacional, após franca expansão, apesar da di- minuição de área em algumas culturas e (IV) cortes profundos no uso desta tecnologia em algumas regiões. Essa conjectura de crise no setor rural é o reflexo da controversa po- lítica cambial do governo, que em determinado período de aquisição dos produtos em 2005, manteve a cotação do dólar desvalorizada frente ao real (R$ 3,00 – R$ 3,15), e, logo em seguida, no primeiro semestre de 2006, permitiu a franca valorização da moeda estran- geira em relação à nacional, coincidindo com os meses de intensa comercialização. Portanto, a expectativa de manutenção do cenário anterior (crescimento de 38,8%), não foi confirmada, uma vez que as importações e vendas internas de defensivos decresceram significa- tivamente, (- 23,8%), conforme Figura 7. UNIUBE 73 Figura 7: Venda de fertilizantes no Brasil (1988 – 2005). Fonte: Adaptado de ANDA (2006). Fertilizantes No caso das empresas que comercializam fertilizantes, as vendas nos últimos 18 anos evoluíram gradativamente, principalmente com o “salto de produção”, a partir de 2000, dado o grau de avanço nas exportações das principais commodities. Tal crescimento (cerca de 28,0%, entre 2000 e 2004) é proporcional à expectativa de avanço de áreas, condições favoráveis de comercialização e, principalmen- te, necessidade de incremento tecnológico (Figura 8). No entanto, via de regra para os principais insumos, o ano agrícola 2005/2006 representou uma queda de 11,3% em comparação ao ano anterior, com destaque para os percentuais baixos no segundo trimestre. Isso se deve a quatro fatores fundamentais: (I) baixa liqui- dez na venda da safra no período (II) pouca adesão de produtores ao plantio de safrinha ou em área irrigadas, (III) indefinição de política agrícola do governo, referente ao crédito e custeio e, finalmente, (IV) um sensível aumento dos índices de troca nos últimos 2 anos nas principais culturas (Tabela 3). O resultado desse conjunto de fatores, (Tabela 4 e 5) é um cenário de retração do negócio, tanto em importa- ção (-24,0%) quanto em produção (-8,5%). 74 UNIUBE Tabela 3: Brasil: Relação de troca de fertilizantes e produtos agrícolas (2002/2005) Unidade 2002 2003 2004 2005 Algodão c/ caroço 15 kg 42,3 33,4 37,1 39,6 Arroz em casca Saco de 60 kg 21,3 18,4 20,4 22,8 Batata Inglesa Saco de 60 kg 11,6 12,7 16,9 11,4 Café Arábica Saco de 60 kg 4,0 3,7 3,6 2,5 Cana-de-açúcar Saco de 60 kg 18,4 20,4 26,7 21,5 Feijão Saco de 60 kg 5,2 5,7 8,1 5,9 Laranja Saco de 60 kg 39,3 45,5 63,8 52,6 Milho Saco de 60 kg 30,8 32,7 41,7 37,4 Soja Saco de 60 kg 15,6 15,5 17,3 19,8 Trigo Saco de 60 kg 21,5 21,7 29,3 28,8 Fonte: Adaptado de ANDA (2006). Máquinas e implementos agrícolas A difusão do uso de máquinas no Brasil ocorreu paralelamente ao processo de industrialização da agricultura, pós-65. Até então, o número desses equipamentos era insignificante. Com o advento do plantio direto e fortes incentivos governamentais, o salto nas ven- das quadruplicou em 6 anos, (Figura 8) principalmente na modali- dade de tratores de rodas (78,0%). Nessa época, com a abertura das importações tecnológicas, o país dispôs das primeiras colhei- tadeiras, cerca de 5.315, em 1976. UNIUBE 75 Figura 8 : Brasil: cenário do setor de máquinas agrícolas (1960-2005). Fonte: Adaptado de ANFAVEA (2006). Nos anos seguintes, o setor experimentou ciclos (de aproximada- mente 4 anos cada) de vendas, influenciados por dois fatores impor- tantes como (I) a política de importação do governo, sustentada pelo comportamento cambial, taxa de juros e taxas nesse tipo de transa- ção e (II) cenário de comercialização das principais commodities, ou seja, em função do retorno e receita dos produtores rurais em um determinado período. Somente após 2000, a diferença entre o produzido x comercializado (mercado doméstico), definiu um cenário de exportação acima dos níveis praticados historicamente, até que, em 2005, as exportações superaram as vendas internas dos produtos. Isso se deve ao cres- cente aporte tecnológico da indústria de máquinas nacional e a crise setorial no campo. Tais afirmações são confirmadas na verificação do impacto desses equipamentos na relação de troca por produtos agrícolas nos últimos anos, conforme a Tabela 4. No caso da soja (sc/60 kg), por exemplo, essa relação aumentou em 52,7% comparando com 2002. 76 UNIUBE Tabela 4: Brasil: Relação de troca de máquinas e produtos agrícolas, (2000/2005) Fonte: Adaptado de CONAB (2005). Uma forte tendência nos principais polos de produção e distribuição de insumos é a oligopolização do mercado, ou seja, há um intenso con- trole de matéria-prima, exclusão de firmas de menor porte e extensão, e, principalmente, a concorrência acirrada entre grandes multinacio- nais. Esse parece ser o cenário no qual a maioria dos atores do Setor I estão inseridos, a saber, empresas de fertilizantes, defensivos (PINA- ZZA e ALIMANDRO, 1999) e máquinas agrícolas (MULLER, 1986). Período Produtos Arroz sequeiro (sc 60 kg) Arroz irrigado (sc 50 kg) Milho(sc 60 kg) Soja (sc 60 kg) Trigo (sc 60 kg) Médias anuais 2000 9.436 8.384 11.244 7.037 9.056 2001 8.693 8.001 16.025 6.543 8.729 2002 7.667 7.203 10.604 4.972 6.507 2003 6.532 6.217 14.987 6.177 8.539 2004 7.496 8.392 18.639 7.692 11.837 Dados mensais NOV/2004 8.419 9.245 21.463 9.815 13.947 DEZ/2004 9.026 9.658 22.780 10.019 14.441 JAN/2005 9.451 10.786 22.276 9.950 14.798 FEV/2005 10.138 11.343 21.770 10.784 15.187 MAR/2005 9.780 11.203 18.537 9.210 14.077 ABR/2005 10.362 11.145 18.233 10.153 12.929 MAI/2005 11.867 12.102 18.316 10.518 13.430 JUN/2005 12.227 13.267 18.091 9.885 14.264 JUL/2005 12.333 13.727 18.441 10.050 14.833 AGO/2005 12.335 13.388 19.316 10.508 14.840 SET/2005 12.586 14.193 19.870 11.258 15.885 OUT/2005 12.832 14.976 21.926 11.634 16.577 NOV/2005 12.832 15.265 24.445 11.890 16.805 Média NOV (2001/2005) 8.235 8.853 16.998 7.381 11.123 UNIUBE 77 3.1.2 Setor II – Atividade Agrícola Conforme Muller (1986), Alves (1988), Carvalho (1992), Lauschner (1993), Marques e Aguiar (1993), a estrutura da produção agrícola (UP) pode ser estratificada em dois módulos. O primeiro é relacionado ao modelo capitalizado e empresarial, focado em produtos exportáveis e matérias-primas agroindustriais em grande escala. O segundo grupo é identificado por pequenos produtores de bens de subsistência (Tabela 5). Tabela 5: Brasil: Percentuais da produção advindos dos estratos até 100 ha e mais de 100 ha Produtos 100 ha (patronal) Mercado relevante Algodão 44,5 55,6 Externo Amendoim 76,3 23,7 Interno Arroz 29,1 70,9 Externo Batata 63,2 36,8 Interno Cacau 55,9 44,1 Externo Café 54,3 45,7 Externo Cana 12,0 88,0 Externo Cebola 93,5 6,5 Interno Feijão 71,0 29,0 Interno Fumo 98,4 1,6 Externo Laranja 37,5 62,5 Externo Mandioca 85,0 15,0 Interno Milho 44,4 55,5 Interno Soja 25,1 75,0 Externo Sisal 82,0 18,0 Interno Tomate 67,3 32,7 Interno Trigo 45,4 54,6 Externo Uva 90,7 9,4 Interno Fonte: Adaptado de Silva (1996). 78 UNIUBE No entanto, alguns instrumentos de minimização dos riscos de mer- cados, referentes aos pequenos produtores, são amplamente difun- didos no setor. Podem ser citadas as integrações verticais, nego- ciação conjunta (via cooperativa, associação), contratos temporários de fornecimento de produtos, entre outros. De modo geral, esses anexos são possibilidades interventoras voltadas à comercialização dos produtos in natura ou artesanalmente processados, não impe- dindo um eventual atrelamento desses atores ao Setor III, captados facilmente em um planejamento estratégico. Na perspectiva geográfica, as UPs alusivas ao modelo empresarial, são determinantes na distribuição estratégicas das empresas do Se- tor I e Setor III, ou seja, à medida que são delimitadas as fronteiras de produção agrícola, o planejamento de insumos para o campo e o abastecimento agroindustrial também são alocados territorialmente, de modo que a vocação produtiva e o perfil dos atores do Setor II são fundamentais para a configuração espacial das diversas indús- trias no país (Figura 9). Figura 9: Brasil: regionalização produtiva. UNIUBE 79 De acordo com a Figura 9, são identificados 5 regiões com perfis di- ferenciados quanto ao modo de produção, negócio principal da ativi- dade rural, proximidade das indústrias de insumos e, finalmente, ca- pacidade de escoamento da produção, de acordo com os mercados consumidores. Lembrando que, em se tratando de cadeia produtiva, o reconhecimento das especificidades regionais é fundamental para atribuir potencial produtivo, definir planos agrícolas por produto, ca- racterísticas aplicadas de linhas de créditos e foco de estudos e in- vestimentos financeiros. Região 1 – SUL A região Sul do Brasil é formada essencialmente por pequenas e médias UPs, voltadas para a produção de grãos como (milho, soja, trigo) e frutas temperadas (uva, pêssego, maçã), conforme apresen- tado na Tabela 6. O primeiro grupo é voltado para exportação (com exceção do trigo), sendo que os demais são para o abastecimento interno. Há forte presença da mão de obra familiar (fruticultura), com ampla adesão de tecnologia, (transgenia e plantio direto). Historicamente, a região é marcada por colonos italianos, alemães e portugueses que, além das inovações técnicas aplicadas à produção agropecuária, influenciaram na organização da classe em sindica- tos, associações e principalmente o cooperativismo. Talvez por isso a grande concentração de empresas de insumos como sementes, fer- tilizantes, defensivos e maquinários (principalmente RS e PR), desde os anos 60. As principais ameaças identificadas na região, estão relacionadas ao intenso comércio de sementes e defensivos ilegais (podendo comprometer índices de produtividade), questões agrárias (invasões de terra e de empresas voltadas à atividade de reflorestamento) e problemas climáticos (que comprometem o potencial produtivo das principais lavouras). 80 UNIUBE Tabela 6: Brasil: Comparativo de área, produtividade e produção de grãos – selecionados Fonte: Adaptado de CONAB (2006). Região 2 – SUDESTE O perfil da região sudeste pode ser segmentado em três principais po- los de produção: o primeiro, baseado na citricultura nacional agroex- portadora, principalmente no interior de São Paulo; o segundo, focado na cafeicultura diferenciada em três extratos – sul de Minas, triângulo mineiro e oeste paulista – com especial representatividade junto à ex- portação; e, por último, uma fração produtora de grãos (soja, milho, feijão, arroz), fibras (algodão) e com forte expectativa de substituição por cana-de-açúcar, abrangendo o triângulo mineiro, alto paranaíba, noroeste de Minas e paulista. Nesse contexto, pode-se inferir quatro características importantes sobre o modo de produção. A primeira, refere-se à representativi- dade agroeconômica da região, e ao suporte para a expansão da fronteira agrícola no centro-oeste; a segunda, refere-se ao desafio logístico por integrar diferentes regiões produtoras, apesar da ca- Região/ UF Área (em mil ha) Média (em kg/ha) Produção (em mil t) 04/05 05/06 Var % 04/05 05/06 Var % 04/05 05/06 Var % Norte 1.937,9 1.706,5 (11,9) 2.164 2.062 (4,7) 4.193,9 3.519,7 (16,1) Nordeste 7.953,1 7.941,4 (0,1) 1.263 1.241 (1,7) 10.046,7 9.856,6 (1,9) Centro- oeste 15.648,4 14.368,2 (8,2) 2.691 2.758 2,5 42.110,8 39.622,1 (5,9) Sudeste 5.690,3 5.440,5 (4,4) 3.048 2.906 (4,7) 17.343,1 15.811,2 (8,8) Sul 17.838,5 17.799,9 (0,2) 2.254 2.873 27,5 40.203,5 51.140,3 27,2 Brasil 49.068,2 47.256,5 (3,7) 2.321 2.538 9,3 113.890,1 119.949,9 5,3 UNIUBE 81 pacidade de escoamento deficitária; terceiro, quanto á conotação política das entidades rurais e agrárias. O quarto item, talvez o di- ferencial organizacional da região, é a concentração de agroindús- trias de grande porte próxima aos polos de produção. Região 3 – CENTRO OESTE Na região centro-oeste, nos últimos anos, observa-se uma sensível queda na produção de grãos, principalmente em relação aos impac- tos comerciais das commodities, sabendo-se que esse polo produti- vo, é essencialmente voltado à produção de grãos e fibras. Observa-se que a grande maioria dos atores que compõem o Se- tor II, nessa região, possuem traços de gestão e organização do modo produtivo, semelhante ao encontrado na região sul do país. Na verdade, esses indivíduos migraram para o centro-oeste devido: à prática do plantio direto, como uma alternativa conservacionista e potencializadora do solo, possibilitando a adaptações edafoclimáti- cas das culturas de grãos; ao baixo preço da terra nessas regiões, como um mecanismo de incentivo à exploração dessas áreas em curto espaço de tempo e ao suporte da pesquisa agropecuária, que colaborou no desenvolvimento de variedades próprias para as condições da região. Apesar do aporte tecnológico e da representatividade produtiva da região (33% da safra brasileira de grãos), há discussões em torno de algumas ameaças, que perpassa custo de produção, capacidadeestática (e consequente, estratégia comercial), o desafio logístico, e baixas cotações das principais commodities em relação a outras praças e anos anteriores. 82 UNIUBE Região 4 – NORDESTE A região nordeste tem como principal característica a produção de frutas, (destacando as de mesa), tais como, uva, pêssego, manga, melão, dentre outras. O propulsor desse perfil é a possibilidade de se desenvolver a atividade agrícola irrigada (São Francisco e afluentes), em solos arenosos, com um fotoperíodo médio anual elevado. Em se tratando de grãos, a produção ainda é incipiente, restrita ao oeste baiano e nos outros estados de forma esparsa. A predomi- nância ainda é do modo familiar e caracterizada num sentido de subsistência, baixo aporte tecnológico e consequentemente baixa produtividade. Região 5 – NORTE O traçado agrícola da região norte perpassa por dois tópicos rele- vantes. O primeiro é fundamentado nas questões ambientais, focado na região amazônica. Essa parece ser a discussão mais importante e ainda polarizada, até que seja definido um plano de exploração sustentável do espaço. Nesse caso, há um avanço significativo das áreas de pecuária e grãos às custas de conflitos, desmatamento e queimadas (TO, PA, AM, RR, RO), dado o atrativo preço da terra nesses locais. A segunda referência é a de exploração sustentável das áreas de florestas, com atividades de silvicultura e extração de substâncias com finalidade farmacêutica. UNIUBE 83 3.1.3 Setor III – Atividade Agroindustrial No contexto produtivo da economia brasileira, a agroindústria pos- sui importante papel de caracterização do bem exportável. Aliás, no conceito usado por Lauschner (1993), “é, em sentido amplo, a uni- dade de produção que transforma produtos agropecuários em bens finais de consumo ou de uso intermediário e, em sentido restrito, é a unidade que, por um lado, transforma produto agropecuário, o mínimo de 25% do total dos insumos utilizados”. Destacam-se, no país, setores com grande dinamismo comercial, como por exemplo, o complexo-soja, citros, carnes, madeiras, café, açúcar e frutas (NU- NES E CONSTINI, 2000). Inicialmente, a atividade agroindustrial possui três pilares básicos (beneficiamento, processamento e distribuição), que correspondem à comercialização in natura, o processamento mínimo (PMP), total (PTP), estocagem e distribuição (potencial estático e logístico). Na Figura 10, é possível observar as relações entre as etapas da ativi- dade agroindustrial, os possíveis escoamentos do produto e formas de distribuição junto ao mercado consumidor. Figura 10: Detalhe de uma atividade agroindustrial. 84 UNIUBE Um dos principais “gargalos” da agroindústria está relacionado à lo- gística, mensurado na capacidade de atendimento da variável tem- po (por exemplo, através do índice de satisfação do cliente, ISC = p (t, v, q, c), sendo: p (produto), t (tempo), v (volume), q (qualidade), c (custo)), no conjunto de atribuições do produto para o cliente. No entanto, a diversificação de bens produzidos tanto para o mercado doméstico quanto para o externo, denotam a viabilidade de investi- mentos no setor, tanto em caráter de expansão quanto de possibi- lidades de agregação de valor. De um modo geral, a sobrevivência das cadeias produtivas é men- suradA também pela sinalização de fatores da agroindústria. Desde investimentos, ampliação de mercados, estoques, configuração de estratégias de produto, competitividade e, principalmente, capaci- dade de adequação dos segmentos produtivos em função das es- pecificações do consumidor (sanidade, características do produto, restrições de insumos). Prezados alunos, ao final deste capítulo, selecionamos para vocês três artigos de especial interesse para complementação de seus conheci- mentos. São eles: • A importância do agronegócio familiar no Brasil, de Joaquim J. M. Guilhoto e outros autores, publicado na Revista de Econo- mia e Sociologia Rural, que pode ser visualizado através do link: ; • A desconcentração regional do agronegócio brasileiro, de José Luiz Parré e Joaquim J. M. Guilhoto, publicado na Revista Brasileira de Economia, que pode ser visualizado através do link: ; INDICAÇÃO DE LEITURA UNIUBE 85 • Segments of competition in south Brazilian wineries, de Mar- celo Miele e outros autores, publicado na Revista Scientia Agrico- la, que pode ser visualizado através do link: . Resumo Nesse capítulo, estudamos uma abordagem sobre as fronteiras de produção, segmentação dos processos e os papéis desempenhados pelos principais atores nas cadeias produtivas. Essa reflexão nos re- meteu à uma análise das relações entre setores, agentes ou anexos à cadeia que, por sua vez, apontam para um conjunto de ações coor- denadoras e interventoras no processo produtivo, de modo a garantir a competitividade do produto final. Abordamos aspectos relacionados A índices agropecuários, carac- terização setorial, segmentação produtiva, na perspectiva dinâmica e funcional dos complexos agroindustrial, em destaque os produtos de origem vegetal. Com isto, tivemos um entendimento conceitual de indicadores e do dimensionamento das cadeias produtivas, como requisito para definição de modelos de gestão e verificação de oportunidades no cenário produtivo. 86 UNIUBE Atividades Atividade 1 Marque a alternativa incorreta. a) ( ) O papel da assistência técnica e pesquisa é o de propor inovação tecnológica A campo e informações técnico-geren- ciais; b) ( ) Apesar da expansão das áreas agrícolas no país, o segmen- to produtivo de sementes não registrou forte tendência de crescimento a partir de 95; c) ( ) A expectativa de crescimento no volume de vendas de se- mentes, defensivos e maquinários no curto prazo, indepen- de do cenário comercial das principais culturas; d) ( ) As variáveis cambiais são fundamentais para avaliação de comportamento das vendas de insumos do Setor I para o Setor II. Atividade 2 Qual a relevância da estratificação das culturas praticadas em fun- ção da dimensão e do modelo gerencial implantado nas Unidades de Produção? Atividade 3 Marque a alternativa correta. a) ( ) A principal fatia de vendas das indústrias de defensivos con- centra-se por produto, nos fungicidas e inseticidas (54%) e por cultura, no complexo-soja (50%); UNIUBE 87 Atividade 4 Caracterize as regiões produtoras brasileiras quanto: • à abrangência de estados, modelo gerencial das UP’s, produtos/ culturas principais; • aos polos agroindustriais, mão de obra ocupada, atendimento do mercado consumidor. Sugestão: proponha um quadro para elucidar melhor as diferenças e organizar a resposta. b) ( ) A baixa liquidez na venda da safra, pouca adesão de pro- dutores ao plantio de áreas irrigadas, indefinição de política agrícola do governo e aumento dos índices de troca nos úl- timos 2 anos são fatores que justificam queda na aquisição de fertilizantes por parte dos produtores; c) ( ) O descolamento da curva de produção e venda de máqui- nas agrícolas a partir de 2003, refere-se ao abarrotamento tecnológico no campo aliado à necessidade de exportação do setor; d) ( ) Há pouca evidência de parcerias público-privadas no seg- mento de pesquisas agrícolas. Atividade 5 De acordo com a Figura 10, aponte 3 possíveis “gargalos” comuns nas etapas agroindustriais, quanto ao atendimento do mercado con- sumidor e justifique. 88 UNIUBE Referências ABRASEM. Associação Brasileira de Sementes e Mudas. Disponível em: . Acesso em: 18 set. 2006. ANDA. Associação Nacional para Difusão de Adubos. 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Não podemos nos esquecer que em todo este processo sem- pre houve participação do Estado – através do crédito rural e de apoio financeiro rural, das indústrias – no desenvolvimento de novas tecnologias, além dos pequenos, médios e grandes proprietários usuários de todos estes mecanismos. Portanto, o complexo agroindustrial representa uma perfeita in- tegração de capital que são investidos na agricultura e pecuária brasileira, tornando o campo um excelente negócio para inves- timentos. 92 UNIUBE Objetivos Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • identificar a composição setorial de cadeias produtivas; • elucidar a organização dos atores e segmentos e suas possíveis inter-relações; • delinear a segmentação das atividades relacionadas às cadeias produtivas e os principais segmentos produti- vos numa abordagem contextual; • propor uma abordagem crítica de políticas e ações co- ordenadoras particularmente, nos processos agroin- dustriais relacionados a grãos, frutas, plantas ornamen- tais e bebidas. Esta etapa representa um avanço na proposta de construção das cadeias produtivas, a partir do que já se estudou nos ca- pítulos anteriores. É sempre bom lembrar que qualquer que seja a análise que se faça sobre complexo agroindustrial, esta sempre deverá ser realizada sob uma perspectiva sistêmica. Este capítulo, que se divide em duas partes, traz algumas cadeias produtivas importantes para a economia de nosso país. Através destes estudos, poderemos vislumbrar como se comportam os atores envolvidos, os ambientes e os cenários onde os negócios se desenrolam. Ele também irá nos mos- trar como se formam algumas cadeias produtivas no Brasil, como por exemplo, a da madeira, têxtil, papel e celulose, além da cadeia do biocombustível. UNIUBE 93 4.1 As principais cadeias de grãos, plantas ornamentais e medicinais, frutas e bebidas 4.2 Caracterização e simulação nas cadeias de grãos 4.3 Caracterização e simulação nas cadeias de plantas medicinais e ornamentais 4.5 Caracterização e simulação nas cadeias de frutas e bebidas Esquema 4.1 As principais cadeias de grãos, plantas ornamentais e medicinais, frutas e bebidas No estudo de cadeias produtivas em geral, alguns termos são de- masiadamente importantes, no sentido de conferir aos processos o alinhamento nas especificações do mercado e respectivas ações es- tratégicas. Dentre os principais, destaca-se a capacidade de propor práticas de coordenação da qualidade (dos processos e produtos), competitividade em ambientes altamente sofisticados (aportetecno- lógico, eficiência produtiva, compartilhamento de informações e da- dos) e consistência quanto à gestão de conflitos e cenários. Como exemplo de práticas de coordenação da qualidade aplicado a toda extensão da cadeia produtiva, Toledo et al. (2004) esboça algu- mas premissas e indicativos que aferem a sustentabilidade dos pro- cessos (Figura 1). 94 UNIUBE Figura 1: Encadeamento das informações, modelagem e atuação nos processos. Portanto, nessa perspectiva, determinados produtos merecem rele- vância quanto aos modelos gestores aplicados e relacionado com as expectativas de mercado (cliente, atacadista, auditores e varejistas). Dentre eles, o segmento de grãos (soja, milho, trigo), olerícolas (to- mate, batata, cebola, cenoura), frutícolas (laranja, manga, banana, maracujá) e plantas ornamentais e medicinais. Em se tratando de grãos, a experiência deve ser pautada na compe- titividade do produto frente a mercados com forte presença de con- correntes. É o caso da soja, por exemplo, que convive com alguns fatores determinantes, dentre eles: • a projeção da safra norte-americana, maior produtor de soja no mundo, e assim conviver com as variáveis (outros produtos como milho, trigo, petróleo) e riscos de mercado; • eventuais conflitos entre os principais atores inseridos no comple- xo produtivo (produtores-Estado-agroindústria), inclusive quanto ao desafio de se agregar valor ao produto (soja em grãos) expor- tável, como forma de garantir sobrevivência; Performace UNIUBE 95 A seguir vamos trabalhar grupos de produtos (ou cadeias), identifican- do fatores determinantes nos processos, caracterizando e simulando possíveis arranjos produtivos e ambientes nos quais estão inseridos. Para Toledo (2004), a prática de coordenação da qualidade ao longo da cadeia de produção deve apresentar: (A montante) • relações de parceria entre a indústria e seus fornecedores, para garantia da qualidade na cadeia; • incentivos e ações fornecidas pela indústria para melhorar a quali- dade dos produtos recebidos dos fornecedores, tais como: inves- timentos em treinamento, assistência técnica, ações conjuntas de melhoria, pagamento por qualidade, financiamentos de recursos de produção etc.; • envolvimento do fornecedor no processo de desenvolvimento de novos produtos; • adoção compartilhada de sistemáticas de gestão da qualidade para garantir a consistência na padronização dos produtos; • diagnóstico conjunto da qualidade (auditorias da qualidade reali- zadas no fornecedor); • a necessidade de se aprimorar o relacionamento com os princi- pais compradores, no sentido de viabilizar transformações estru- turais na cadeia produtiva (transgenia, política agrícola, crédito, infraestrutura) e na própria relação comercial (Câmara/Fórum da Soja, Bolsa da Soja – China); • a vocação gerencial-produtiva de determinadas regiões, devido ao aporte tecnológico adquirido, capacidade de negociação (e escala) e conhecimento estratégico para posicionamento do pro- duto no mercado. 96 UNIUBE • elaboração conjunta de planos de ações de melhorias; • acompanhamento das melhorias implantadas; e • medição e análise de indicadores de desempenho em qualidade (redução de custos de falhas e de refugos, melhoria na qualidade do produto e na satisfação dos clientes etc.). (A jusante) • ações de exigências e orientações para preservação da qualida- de do produto final, tais como treinamentos, visando assegurar a forma adequada de manuseio, armazenagem, transporte e expo- sição do produto final; • incentivos fornecidos pela indústria para o distribuidor em termos de desconto nos preços, melhores prazos de pagamento, trata- mento preferencial, em função da preservação da qualidade do produto; • obtenção de feedback de informações dos clientes com relação à qualidade do produto e dos serviços oferecidos; • premiação por serviços prestados pelo distribuidor; • levantamento e formulação das necessidades específicas dos clientes; • envolvimento do cliente no processo de desenvolvimento de no- vos produtos; • adoção compartilhada de práticas de gestão da qualidade para garantir a consistência na padronização dos produtos; • diagnóstico conjunto da qualidade (auditorias realizadas nos dis- tribuidores e varejistas); • elaboração conjunta de planos de ações de melhorias; • acompanhamento das melhorias realizadas; e • medição das melhorias por meio de indicadores de desempe- nho (sobre preservação da qualidade, perdas, satisfação dos clientes etc.). UNIUBE 97 4.2 Caracterização e simulação nas cadeias de grãos De modo geral, as cadeias produtivas são caracterizadas: • pela organização sistêmica (e setorial) dos atores; • na definição dos papéis – produtores, Estado, agroindústria – para atribuições dos produtos para o mercado consumidor; • pela semelhança dos instrumentos de coordenação – PGPM, contratos para comercialização de grãos, planos de safra – e efe- tividade dessas políticas na definição dos cenários produtivos; • pelas deficiências (ou ameaças) singulares às cadeias agroex- portadoras, de modo a intervir no delineamento competitivo dos produtos finais. Tomando por base cenários e a análise das falhas de coordenação nas transações – calcadas na necessidade de suprir bens públicos e coletivos, incentivos e controles – pode-se apontar nove interven- ções de política pública e privada (neste último caso, com o apoio de associações de interesse privado), visando aumentar a eficiên- cia das cadeias produtivas de grãos e promover adaptabilidade de longo prazo a fim de resguardar sua posição competitiva. As intervenções de política pública e privada são: • política de comércio externo; • política de informação; • melhoria da infraestrutura de transportes, portuária e de arma- zenagem; • política tecnológica; • política de financiamento do CAI; 98 UNIUBE • política de comercialização agrícola; • diferenciação dos produtos do CAI; • política fiscal; • conservação do solo e de recursos naturais. A seguir, detalharemos cada uma destas políticas. Política de comércio externo: abarca ações voltadas para redu- zir o protecionismo no comércio internacional dos grãos (principal- mente soja), com o monitoramento das práticas de comércio e a representação dos interesses dos atores nos fóruns internacionais. Desse modo, atribui-se ao Estado às representações de classe (e nos últimos anos) às câmaras setoriais, o papel de negociadores frente aos outros mercados no sentido de prover sustentabilidade da produção agrícola nacional, contribuir para efetividade das po- líticas internas de manutenção dos índices de produtividade, esto- ques, suprimentos e abastecimento das cadeias adjacentes, ga- rantir equidade quanto à formação de preço nas praças nacionais, o valor na relação insumo-produto (estrategicamente para estabi- lizar as relações de troca) e competitividade das commodities (es- pecialmente grãos) no mercado externo (reconhecido os entraves dos subsídios agrícolas praticados pelos EUA e Europa) e mercado interno (especialmente quanto ao arroz, feijão, trigo e milho) que sofrem pressões de ofertas e preços de países do Mercosul (Ar- gentina, Paraguai) e EUA. UNIUBE 99 Os subsídios comerciais/agrícolas são a quantidade de dinheiro paga aos fazendeiros por unidade que eles produzem ou exportam. Eles têm o efeito de fazer com que a produção seja mais barata. Por isso, fazem com que os fazendeiros se tornem mais competitivos e tendem a aumentar a produção. São pagos, no geral, pelo contribuinte, via departamentos do governo ou associações de comércio. Na Europa, por exemplo, os subsídios chegam até os agricultores atra- vés da Política Agrícola Comum (PAC). EXPLICANDO MELHOR Política de informação: consiste na coordenação do suprimento de informação gerada dentro e fora dos limites das cadeias produtivas, bem como na preparação (banco de dados) e divulgação de informa- ções úteis para o planejamento das atividades de diversos segmen-tos (ou setores) das cadeias. O objetivo é conferir aos atores a postura de tomadores de decisão nos negócios de grãos, refletindo sobre aspectos exógenos (ambien- te organizacional e institucional) onde estão inseridos os complexos produtivos. Podem ser entendidos, ainda, como um conjunto de fa- tores (posicionamentos, desempenho econômico, ações políticas, acordos socioambientais). Os aspectos endógenos (firmas, relações intrassetoriais, ajustes de procedimentos para cumprimento de es- pecificações de contrato) são conceituados na esfera dos processos produtivos e são específicos à cadeia (ou valor). Ao mesmo tempo (os aspectos exógenos e endógenos), são decodi- ficados em informações (de fácil comunicação) e que, por definição, desencadeiam a modelagem de cenário (medida a performance das resultantes e projeções – consequências) e, finalmente, ações efetivas. Assim, quanto maior o nível de especialização na tomada de decisão 100 UNIUBE (devido ao alinhamento das informações e modelagem de processos), também maior a inserção do conglomerado na esfera competitiva e sustentável nos mercados nacionais e internacionais. Surge, então, a noção de polos agroindustriais (que são reconhecidos como complexos agroindustriais dado o entrelace de informações, valores e insumo-produto) expostos como redes de relacionamento (clientes, fornecedores, instituições). A concepção de complexo agroindustrial avança nesta questão ao incorporar a dimensão tecnológica nestas relações, de forma que o elemento tecnológico é fundamental para criar e modificar a ação dos complexos agroindustriais. São as relações técnicas que vêm defi- nindo processos de produção, estabelecendo que agroindústrias se articulem entre si. Melhoria da infraestrutura de transportes, portuária e de armaze- nagem: envolve o provimento de bens e serviços necessários para a manutenção dos estoques e fluxos de mercadorias no mercado interno e externo. Talvez esse tópico seja um dos principais “gargalos” para a sustentação competitiva dos processos domésticos (veja a Tabela 1), visto que o país possui uma capacidade estática insuficiente para o aporte tecnológico de produção e demanda dos APLs graneleiros (veja a Tabela 2); uma malha rodoviária, em geral, com baixo potencial de es- coamento e flexibilidade (custos, veículos, acondicionamento), estran- gulamento dos modais de transporte com baixo investimento na diversi- ficação e exploração de recursos, por exemplo, hídricos, e, finalmente, o forte descompasso entre desenvolvimento econômico e a precária estrutura portuária. UNIUBE 101 Tabela 1: Comparação da receita líquida na exportação de soja em grão – R$/t (2005) Fonte: Adaptado de ABIOVE (2005). Itens analisados Brasil Estados Unidos Argentina Cotação “F.O.B” porto 450,00 450,00 450,00 Frete médio até porto 56,00 15,00 20,00 Despesas portuárias 18,00 4,00 6,00 Impostos – – 11,00 Receita líquida 376 431 424 Tabela 2: Brasil: Total da Capacidade Estática por regiões (2007) Fonte: Adaptado de CONAB (2007). Regiões Convencionais Graneis Totais Quanti- dade Capaci- dade Quanti- dade Capaci- dade Quanti- dade Capaci- dade Centro- Oeste 1317 6.072.100 2561 36.392.190 3878 42.464.290 Nordeste 655 2.026.330 445 4.961.040 1100 6.987.370 Norte 360 1.223.220 120 1.076.810 480 2.300.030 Sudeste 1848 8.518.120 859 11.932.230 2707 20.450.350 Sul 3352 9.152.860 5044 42.046.630 8396 51.199.490 Total Brasil 7532 26.992.630 9029 96.408.900 16561 123.401.530 É a mensuração da estrutura armazenadora (convencional e grane- leira) em determinada região. Atualmente, com a safra brasileira de grãos em torno de 130,5 milhões de toneladas, a de açúcar próximo a 31,5 milhões de toneladas e a de café beneficiado em torno de 32,0 milhões de toneladas (CONAB, 2007) somando-se a viabilidade de 60% da capacidade estática são, aproximadamente, 65 milhões de to- neladas (40% da produção) possíveis para estocagem – 108 milhões de toneladas x 60% de viabilidade (IBRALOG, 2007). 102 UNIUBE Arranjos Produtivos Locais são aglomerações de empresas localiza- das em um mesmo território, que apresentam especialização produ- tiva e mantêm algum vínculo de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros atores locais, tais como governo, associações empresariais, instituições de crédito, ensino e pesquisa (SEBRAE, 2007). Política tecnológica: a LPC (Lei de Proteção de Cultivares) é um aspecto central da política tecnológica para as cadeias produtivas de grãos. Além da própria lei, essa política envolve o monitoramento e os mecanismos para forçar seu cumprimento. Inclui também as ações voltadas para orientar a pesquisa genética para produtos com elevado potencial de mercado. Além disso, deve estar associada à capacitação de produtores, por meio de transferência de tecnologia com forte presença de cooperati- vas e indústrias de insumos e educação básica suprida pelo Estado. O enfoque de tal política baseia-se na necessidade de aprimoramento de materiais produtivos, tais como os OGMs (Organismos Genetica- mente Modificados) que aferem vantagens competitivas à produção agrícola graneleira (custo de produção, ganhos em produtividade, va- lores nutricionais). Percebe-se que há forte presença de empresas do Setor I no senti- do de promover tais tecnologias (vantagens produtivas), pressionar a liberação efetiva para aplicação extensiva em diversas culturas e fo- mentar pesquisas, campos de testes e parcerias com órgãos federais. Desse modo, a LPC pode ser entendida também como um instrumen- to regulatório à medida que envolve interesses políticos diversos e caracteriza a formação e absorção da tecnologia de ponta pelos CAI’s, em geral. UNIUBE 103 Política de financiamento do CAI: pertencem a essa política o de- lineamento de mecanismos de financiamento sob enfoque de parce- ria entre as cadeias produtivas e o setor financeiro e os mecanismos de gestão do risco da atividade agrícola. Principalmente, em se tratando de políticas de financiamento, alguns fatores são relevantes, à medida que se desenvolvem novas frontei- ras a arranjos produtivos, tais como o grau de risco das atividades agrícolas, inversamente proporcional à política do governo para o setor, definições estratégicas de comercialização dos grãos e aporte tecnológico para as culturas; a presença efetiva do setor financeiro no financiamento das atividades agroindustriais e o perfil do produ- tor rural (bem como a rede de parcerias entre os atores) no reco- nhecimento das vantagens competitivas – de acordo com a linha de financiamento – e alinhamento dessas diretrizes com a gestão dos processos agroindustriais. Política de comercialização agrícola: envolve basicamente um maior suprimento de informações sobre preços, além do aumento da eficiência nos instrumentos de gestão de riscos e de financiamento. Além disso, deve ser entendido na perspectiva de prolongamento das redes (atores, modalidades) de relacionamento e prováveis ni- chos para promoção dos produtos. Diferenciação dos produtos do CAI: essa política reúne ações necessárias para a produção de grãos e farelos diferenciados por meio das características (teores de óleo e proteína, características de ácidos graxos etc.) valorizadas pelo mercado, envolvendo, den- tre outras ações, a redefinição dos padrões de classificação atuais, investimentos em infraestrutura qualitativa adequada à classificação do grão e o desenvolvimento de novos usos industriais para a soja. 104 UNIUBE A leitura desse item alinha-se com a perspectiva de que as principais alternativas para o consumo de produtos derivados de grãos são apontadas pelo próprio mercado consumidor, ou seja, há necessi- dade de um enfoque de todos os atores da cadeia produtiva para reconhecer tais demandas e recompor estratégias de processos (es- pecificações fabris, técnicas a campo) e produtos (utilização de insu- mos, caracterização dos produtos a cada processo, implementaçãotanto quanto a definir o perfil das principais fronteiras de produção. Desta forma, você passará a compreender o complexo agroindus- trial como um espaço de representação das relações entre indústria, agricultura, comércio e serviços em geral, tornando-se um dos agen- tes de mudanças do setor agropecuário brasileiro. Não podemos nos esquecer que em todos estes processos sempre haverá a participação do Estado – através do crédito rural e de apoio financeiro rural, das indústrias – no desenvolvimento de novas tec- nologias, além dos pequenos, médios e grandes proprietários usuá- rios de todos estes mecanismos. Portanto, o complexo agroindustrial representa uma perfeita integra- ção de capitais que são investidos na agricultura e pecuária brasilei- ra, tornando o campo um excelente negócio para investimentos. É sempre bom lembrar que independente da análise que se faça dos complexos agroindustriais, ela sempre deverá ser realizada sob uma perspectiva sistêmica. UNIUBE IX No Capítulo 4, “Identificando, caracterizando e simulando as principais cadeias de grãos, plantas ornamentais e medicinais, frutas e bebidas”, traremos algumas abordagens importantes sobre este segmento. Através destes estudos, poderemos vislumbrar como se comportam os atores envolvidos, os ambientes e os cenários onde os negócios se desenrolam. Ele também irá nos mostrar como se formam algu- mas cadeias produtivas; por exemplo: a cadeia produtiva da madei- ra, têxtil, papel e celulose, além da cadeia do biocombustível, muito importante no cenário nacional. Esperamos que você aprecie este trabalho e possa torná-lo como uma referência para estudos mais aprofundados do imenso complexo agroindustrial do Brasil. Bons estudos! Vânia Aparecida Borges Weitzel Introdução Compreendendo o agronegócio brasileiro Capítulo 1 As recentes pesquisas das Organizações das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) apontam o Brasil como o grande celeiro mundial, com capacidade para produzir a maio- ria dos alimentos a serem consumidos pela população mundial, que de 6 bilhões de pessoas passará a 9,2 bilhões até o ano de 2050. De fato, um país com proporções continentais, com clima diversificado, solo fértil, extensa área de terra agricultável disponível, energia solar em abundância e possuidor de 2/3 da área total do maior manancial de água doce subterrânea trans- fronteiriço do mundo, o Aquífero Guarani, só poderia ser assim considerado. Na Figura 1, apresentamos uma área no município de Uberaba sendo preparada para cultivo de soja, este que é uma das mais importantes commodities produzidas no Brasil. Figura 1: Preparação de área para o plantio de soja na cidade de Uberaba-MG. 2 UNIUBE O Brasil não tem só condições necessárias para produzir co- mida para o mundo, como também dispõe das maiores reser- vas de água doce, minério e petróleo. Este imenso “continen- te” ainda terá, também, condições de ser o maior fornecedor de biocombustíveis deste planeta. O país, dono da maior área agricultável do mundo, com uma área disponível que equi- vale ao tamanho de mais de 30 países europeus juntos, se consolidou como o maior pro- dutor de commodities agro- pecuárias graças à pesquisas e desenvolvimentos empre- gando, na agricultura e pecu- ária, as melhores tecnologias disponíveis. Na pesquisa realizada pela FAO, o Brasil, com seus 800 mi- lhões de hectares de área total, não ocupa nem 50 milhões de hectares com áreas destinadas à produção, enquanto os Estados Unidos não possuem mais um hectare, sequer, dis- ponível para aumentar a área plantada. Hoje, o Brasil ainda possui mais 90 milhões de área disponível para a agricul- tura e pecuária e mais de 16 milhões de hectares de áreas degradadas que podem ser recuperadas e disponibilizadas para o cultivo e produção. Ou seja, o Brasil tem capacidade para abastecer o planeta com grãos (soja e milho) e carne (bovinos, suínos e aves). Commodities Commodity (ou commodities, no plural) é um termo de língua inglesa que significa mercadoria e é utilizado nas transações comerciais de produtos de origem primária nas bolsas de mercadorias. Usada como referência aos produtos de base em estado bruto (matérias- primas) ou com pequeno grau de industrialização, de qualidade quase uniforme, produzidos em grandes quantidades e por diferentes produtores. Estes produtos “in natura”, cultivados ou de extração mineral, podem ser estocados por determinado período sem perda significativa de qualidade. UNIUBE 3 Em recente trabalho apresentado na Revista Única (on-line) por Ricardo Amorim, economista brasileiro radicado nos Esta- dos Unidos, ele explica que Xangai terá, até 2020, 40 milhões de habitantes morando nos grandes centros, a maioria, fruto do êxodo rural que já vem acontecendo na China. Dados como este garantem ao Brasil fornecimento certo aos países asiáti- cos. De fato, a China teve grande contribuição na estabilização econômica do país, graças às grandes aquisições de nossas commodities. Basta lembrar que o Brasil saiu de uma condição de grande credor da dívida externa, a país que empresta dinhei- ro ao Fundo Monetário Internacional (FMI) (AMORIM, 2010). A cadeia produtiva envolvendo to- dos os elos atuantes neste cenário torna-se cada vez mais fortalecida, aumentando as divisas do país e en- fatizando a importância dos atores e players deste vasto negócio. Todavia, o produtor rural continua cada vez mais endividado, sem po- líticas agrícolas que defendam seus interesses, marginalizado pela so- ciedade que não conhece os percal- ços imensos que enfrenta para po- der plantar, colher, criar e produzir. Apesar de todas as dificuldades, a vocação para produzir ali- mentos fala mais alto, e, não obstante todos os problemas que orbitam “dentro da porteira”, o homem do campo continua sua jornada de tombar o solo, arar o chão, jogar a semente e colher os frutos que produz tão apaixonadamente. Cadeia produtiva Pode ser definida como o conjunto de atividades que se articulam progressivamente, desde os insumos básicos até o produto final, incluindo a distribuição e a comercialização, como se fossem verdadeiros elos de uma corrente ou cadeia. Players Conjunto de empresas que se relacionam ou competem entre si num mesmo tipo de negócio. 4 UNIUBE Não temos a pretensão de esgotar um assunto tão extenso; até por que somente se começou a falar e a pesquisar sobre os agronegó- cios a muito pouco tempo. Basta lembrar, que só em 1957 que os professores Ray Goldberg e John Davis, da Universidade de Harvard, constataram que “as atividades ru- rais e aquelas ligadas a elas não poderiam viver isoladas”, criando um primeiro conceito para descre- ver o conjunto de operações que envolviam seus estudos em torno do agribusiness americano. Para que possamos manter um ritmo de estudo que nos permita compreender o agronegócio de forma sistêmica, ini- ciaremos nossas reflexões abordando alguns aspectos da imensa cadeia produtiva: “antes, dentro e fora da porteira”. Ao longo de todas nossas considerações, inevitavelmente bus- caremos conceitos e definições que possam nos esclarecer so- bre as inúmeras facetas do complexo agronegócio brasileiro. Esperamos que você aprecie nossas considerações e que as utilize como ponto de partida para maiores reflexões em torno do assunto. Bons estudos! Agronegócio Resume toda a atividade econômica envolvida com a produção, estocagem, transformação, distribuição e comercialização de alimentos, fibras industriais, biomassa, fertilizantes e defensivos. Importante frisar o foco na gestão, fator fundamental para o sucesso e desenvolvimento do agronegócio. UNIUBE 5 1.1 O agronegócio no Brasil – a grande alavanca para a prosperidade 1.2 O complexo agroindustrial brasileiro 1.3 As cadeias produtivas do CAI no Brasil Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • conhecer o agronegócio brasileiro e suas implica- çõesde diferenciação do produto final). Política fiscal: envolve esforços voltados para modificar a atual estru- tura de impostos, especialmente o ICMS, no sentido de eliminar dis- torções no comércio interestadual. Também pode ser entendido como um “gargalo”, principalmente quando se refere à estratégia para a for- mação de APLs altamente competitivos e tecnificados. Isso porque inibe a expansão dos CAIs graneleiros, na extensão interestadual; ex- põe a irregularidade competitiva entre os Estados, devido à política fiscal praticada e, consequentemente, regula o potencial competitivo das cadeias produtivas, principalmente na distribuição espacial dos atores junto aos polos produtores. Conservação do solo e de recursos naturais: essa política abarca as normas de utilização da terra e da água, principalmente em áre- as de fronteira. De modo geral, são relacionados à essa prática, à caracterização ambiental e sustentabilidade das Ups, agroindústrias e indústrias de insumos agrícolas, sabendo-se que estão inseridas no contexto socioambiental local (cidades, modelo de urbanização). A projeção para as cadeias de grãos é que se incorpore nos modelos de produção, a certificação internacional, conferindo sustentabilidade ambiental (por exemplo Nature’s Choice, EurepGap) nos processos e alinhamento da qualidade no produto final (APPCC). APPCC é análise dos Perigos e Pontos Críticos de Controle: Mapea- mento e gestão de riscos para a qualidade dos processos e produtos. UNIUBE 105 Identificação e Modelagem das Cadeias Produtivas de Grãos Os agropolos são os principais arranjos identificados nas cadeias de grãos, dado o perfil tecnificado, empresarial e agroexportador desse modelo. Obviamente, essa é uma tendência geral, sem menosprezar o perfil particular das regiões norte/nordeste (mão de obra familiar, atividade de subsistência em pequenas áreas pouco tecnificadas) e o papel socioeconômico promovido nesse polo (representando cerca de 10% da produção nacional de grãos). O avanço no montante da safra nacional (2006/2007) deve-se prin- cipalmente à boa cotação dos grãos no ano anterior (em relação à safra passada); à expectativa de aumento na demanda de alguns produtos (milho, soja) tanto para biocombustíveis, quanto para ra- ções e consumo humano e uma provável competição de áreas com a cana-de-açúcar (queda na oferta); e às condições climáticas favo- ráveis nas principais regiões produtoras; e, por último, à capacidade gerencial das UPs empresariais, no sentido de inserir tecnologia (va- riedades cultivadas, insumos, estocagem) apesar da diminuição (no geral) da área cultivada (Tabela 3). A Tesco Corporate é a principal gerenciadora de certificações interna- cionais, inclusive para processos agroindustriais. Detém o selo Nature’s Choice (produção-integrada na gerência de fazenda, com ajustes dos padrões ambientais e especifica exigências da forma, do tamanho, do gosto, da variedade e da vida útil) e o EurepGap (baseado nos regula- mentos gerais, os pontos de controle, os critérios da conformidade e a lista de verificação de EurepGAP). São 7.600 propriedades rurais em 41 países. Foram realizadas 3400 auditorias em 60 países e são fun- damentais para colocação de produtos nas grandes redes varejistas da Europa (TESCO CORPORTAE, 2007). 106 UNIUBE R eg iã o/ U F Á re a (m il ha ) M éd ia (k g/ ha ) Pr od uç ão (m il t) Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % N or te 17 14 ,7 16 13 ,8 -5 ,9 20 68 ,0 21 04 ,0 1, 7 35 46 ,3 33 95 ,4 -4 ,3 R R 47 ,2 41 ,0 -1 3, 1 37 18 ,0 37 63 ,0 1, 2 17 5, 5 15 4, 4 -1 2, 0 R O 38 7, 2 36 3, 0 -6 ,3 19 40 ,0 21 13 ,0 8, 9 75 1, 3 76 7, 1 2, 1 A C 77 ,0 74 ,1 -3 ,7 12 38 ,0 12 60 1, 8 95 ,3 93 ,4 -2 ,0 A M 32 ,6 39 ,8 22 ,1 16 39 ,0 17 69 ,0 7, 9 53 ,4 70 ,4 31 ,8 A P 5, 8 6, 4 10 ,4 94 8, 0 80 7, 0 -1 4, 9 5, 5 5, 2 -6 ,0 PA 64 1, 0 54 9, 3 -1 4, 3 20 22 ,0 16 88 ,0 -1 6, 5 12 96 ,2 92 7, 2 -2 8, 5 TO 52 3, 9 54 0, 2 3, 1 22 32 ,0 25 51 ,0 14 ,3 11 69 ,1 13 77 ,8 17 ,9 N or de st e 79 61 ,7 81 08 ,6 1, 8 12 32 ,0 12 05 ,0 -2 ,2 98 05 ,5 97 67 ,1 -0 ,4 M A 13 43 ,5 13 57 ,0 1, 0 16 45 ,0 16 24 ,0 -1 ,3 22 09 ,5 22 04 ,1 -0 ,2 P I 94 2, 0 89 9, 4 -4 ,5 11 68 ,0 94 4, 0 -1 9, 2 11 00 ,4 84 9, 4 -2 2, 8 C E 12 50 ,0 13 14 ,4 5, 2 91 4, 0 45 3, 0 -5 0, 4 12 3, 3 93 ,7 -4 7, 8 R N 19 2, 8 19 1, 4 -0 ,7 64 0, 0 48 9, 0 -2 3, 6 12 3, 3 93 ,7 -2 4, 0 P B 40 9, 9 40 9, 8 - 74 4, 0 46 8, 0 -3 7, 1 30 4, 8 19 1, 8 -3 7, 1 P E 62 9, 3 64 2, 3 2, 1 65 9, 0 54 1, 0 -1 7, 9 41 4, 6 34 7, 8 -1 6, 1 A L 19 5, 6 19 7, 5 1, 0 61 9, 0 56 0, 0 -9 ,5 12 1, 1 11 0, 6 -8 ,7 S E 20 3, 1 20 8, 8 2, 8 12 27 ,0 12 52 ,0 2, 0 24 9, 1 26 1, 4 4, 9 B A 27 95 ,5 28 88 ,0 3, 3 14 81 ,0 17 77 ,0 19 ,5 41 40 ,4 51 12 ,2 23 ,5 C EN TR O O ES TE 14 80 7, 7 14 08 9, 8 -4 ,8 27 79 ,0 30 43 ,0 9, 5 41 14 7, 8 42 88 1, 7 4, 2 M T 80 66 ,7 76 16 ,1 -5 ,6 27 99 ,0 30 15 ,0 7, 7 22 58 0, 9 22 96 0, 6 1, 7 M S 28 69 ,5 28 10 ,5 -2 ,1 25 45 ,0 29 70 ,0 16 ,7 73 03 ,1 83 45 ,9 14 ,3 G O 37 52 ,0 35 39 ,2 -5 ,7 28 85 ,0 31 26 ,0 8, 4 10 82 6, 4 11 06 4, 5 2, 2 D F 11 9, 5 12 4, 0 3, 8 36 60 ,0 41 18 ,0 12 ,5 43 7, 3 51 0, 7 16 ,8 Ta be la 3 : B ra si l: C om pa ra tiv o de á re a, p ro du tiv id ad e e pr od uç ão d e gr ão s* (2 00 5/ /0 6- 20 06 /0 7) UNIUBE 107 Fo nt e: A da pt ad o de C O N A B (2 00 7) . *C ar oç o de a lg od ão , a m en do im (1 ª e 2 ª s af ra s) , a rr oz , a ve ia , c en te io , c ev ad a, fe ijã o (1 ª, 2ª e 3 ª s af ra s) , g ira ss ol , m am on a, m ilh o (1 ª e 2ª s af ra s) , s oj a, s or go , t rig o e tri tic al e. R eg iã o/ U F Á re a (m il ha ) M éd ia (k g/ ha ) Pr od uç ão (m il t) Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % Sa fr a 05 /0 6 Sa fr a 06 /0 7 Va r. % SU D ES TE 54 33 ,5 50 00 ,1 -8 ,0 29 34 ,0 32 75 ,0 11 ,6 15 94 1, 8 16 37 4, 8 2, 7 M G 31 13 ,0 29 56 ,4 5, 0 28 26 ,0 33 45 ,0 18 ,4 87 98 ,1 98 90 ,6 12 ,4 E S 67 ,5 64 ,5 -4 ,4 16 54 ,0 18 35 ,0 10 ,9 11 1, 7 11 8, 3 6, 0 R J 20 ,4 20 ,1 -1 ,2 20 12 ,0 19 01 ,0 -5 ,5 41 ,0 38 ,3 -6 ,7 S P 22 32 ,6 19 59 ,0 -1 2, 3 31 31 ,0 32 30 ,0 3, 2 69 91 ,0 63 27 ,6 -9 ,5 SU L 17 95 0, 0 17 19 3, 7 -4 ,2 29 02 ,0 33 79 ,0 16 ,4 52 08 9, 4 58 09 3, 7 11 ,5 P R 88 37 ,0 85 05 ,0 -3 ,8 28 68 ,0 33 24 ,0 15 ,9 25 34 4, 2 38 26 8, 9 11 ,5 S C 15 02 ,3 14 57 ,6 -3 ,0 36 16 ,0 43 69 ,0 20 ,8 54 31 ,9 63 68 ,5 17 ,2 R S 76 10 ,7 72 31 ,0 -5 ,0 28 00 ,0 32 44 ,0 15 ,9 21 31 3, 2 23 45 6, 3 10 ,0 NO RT E NO RD ES TE 96 76 ,4 97 22 ,4 0, 5 13 80 ,0 13 54 ,0 -1 ,9 13 35 1, 8 13 16 2, 5 -1 ,4 C EN TR O SU L 38 19 1, 2 36 28 3, 5 -5 ,0 28 59 ,0 32 34 ,0 13 ,1 10 91 79 ,0 11 73 50 ,3 7, 5 B R A SI L 47 86 7, 6 46 00 5, 9 -3 ,9 25 60 ,0 28 37 ,0 10 ,8 12 25 30 ,8 13 05 12 ,8 6, 5 108 UNIUBE A caracterização do aporte tecnológico e produtivo da cadeia de grãos remete à modelagem dos processos, que condiciona um entendimen- to das principais relações, transferências, atuações (estrangulamento, vantagens) e ambiente no qual toda a cadeia está inserida. Desse modo, aplica-se tal metodologia de estudo à cadeia de grãos, no sen- tido de prover o reconhecimento e aplicação das políticas discutidas anteriormente. A modelagem de processo possibilita uma visão minuciosa dos pro- cessos das organizações agroindustriaise é capaz de promover a melhoria da eficiência administrativa e a criação de uma memória or- ganizacional. Pode ser compreendida como uma elucidação gráfica e sistêmica dos processos, atores e interrelações. A Figura 2 demonstra uma possível modelagem para as cadeias pro- dutivas de grãos, sendo que cada um dos segmentos do CAI é repre- sentado por “caixas” interligadas por transações sucessivas T1, T2 etc. A linha pontilhada representa o recorte que será realizado para fins analíticos, indicando os segmentos do CAI que receberão maior destaque neste estudo. Figura 2: Modelagem da cadeia produtiva da soja (aplicado também para demais grãos). Tradings Indústria de derivados de óleo UNIUBE 109 Estão incluídos na análise os seguintes segmentos e transações do CAI: • indústria de insumos agrícolas: representando a indústria de fertilizantes, defensivos, máquinas etc. De forma geral, tal seg- mento é comum aos CAIs de outras commodities, todavia existe a indústria de sementes (genética), que é específica ao CAI sob estudo e, portanto, deve ser considerada em análises também específicas. Tal indústria relaciona-se diretamente com a produ- ção agrícola (transação T1); • produção: representa o segmento agrícola propriamente dito, transacionando “para trás” com a indústria de insumos (T1) e “para frente” com indústrias esmagadoras (T2), tradings (T3), co- operativas (T4) e outros intermediários (corretores, armazenado- res etc.) (T5); • “Originadores”: este neologismo tem sido aplicado para descre- ver tradings, cooperativas, corretoras e armazenadores, em con- tato direto com produtores no processo de aquisição, armazena- gem e distribuição de matérias-primas; Na maioria dos casos, o estágio de “originação” encontra-se vertical- mente integrado ao de esmagamento (T8). Tradings assumem função peculiar neste grupo, pois atuam coorde- nando a transferência física de produtos no mercado internacional. Transacionam com produtores/cooperativas de forma a adquirir maté- ria-prima (T3) e efetuar vendas para o mercado externo (T9), podendo atuar também como prestadoras de serviço para indústrias esmaga- doras (T7) e cooperativas (T6) nas suas vendas internacionais (T9), embora muitas destas organizações apresentem departamentos in- ternos de trading. Corretoras e armazenadores, por sua vez, atuam mais fortemente como prestadoras de serviços a indústrias esmagadoras e até mesmo tradings na formação de lotes de matéria prima para venda, originários do segmento produtivo (via T5). 110 UNIUBE • indústria esmagadora, refinadoras e produtores de deriva- dos de óleo: 1 tonelada de soja produz, aproximadamente, 0,78 toneladas de farelo e 0,19 toneladas de óleo. Parte do farelo é exportado pelas indústrias, seja por meio de tradings (T7) ou di- retamente, por meio de departamentos comerciais internos das mesmas. A transação T11 representa a possibilidade de impor- tação de soja em grãos em regime de drawback; O regime aduaneiro especial de drawback, instituído em 1966, pelo Decreto Lei nº 37, de 21/11/66, consiste na suspensão, isenção ou restituição de tributos incidentes sobre insumos importados para utilização em produto exportado. O mecanismo funciona como um incentivo às exportações, pois reduz os custos de produção de produtos exportáveis, tornando-os mais competitivos no mercado internacional (MF, 2007). O farelo interno remanescente é vendido para a indústria de rações (T12), muitas vezes integrada verticalmente à indústria de carnes e até mesmo, em alguns casos, à indústria processadora de soja. No caso do óleo, o seu processamento a partir da soja segue basica- mente as seguintes etapas: esmagamento, degomagem e refino (en- volvendo por sua vez os estágios de neutralização, branqueamento e desodorização), sendo que o óleo parcialmente refinado pode ser transformado por meio de hidrogenação em produtos mais elabora- dos, como margarinas, maionese e gorduras vegetais (Figura 3). Tais produtos, incluindo o óleo de soja refinado, são mais fortemente direcionados ao mercado interno, por meio de distribuidores ataca- distas e varejistas (T17). Algumas indústrias apresentam todos estes estágios na sua planta industrial, e, portanto, neste caso, a transação com o segmento de derivados de óleo (T10) se dá internamente à firma (integração vertical). UNIUBE 111 Produtos processados podem também ser direcionados a outras in- dústrias (T15), como por exemplo: óleo e gorduras para a indústria de alimentos em geral, indústria química e farmacêutica; lecitina de soja (obtida a partir de fosfolipídios do óleo) para a indústria de alimentos, como chocolates, margarinas, biscoitos, suplementos dietéticos etc., sendo também direcionada para outras indústrias, como a química e farmacêutica; óleo para fins energéticos (o chamado “biodiesel”), e assim por diante. • distribuidores: representados pelos segmentos atacadista e varejista, sendo comuns a muitos outros CAIs. Efetuam a ponte entre a indústria esmagadora e de derivados de soja (transação T17) e os consumidores finais (T18), recebendo também indire- tamente outros produtos de soja por meio da indústria de rações/ carnes (T14) e de outras indústrias em geral (T16); • consumidores finais: envolvem tanto compradores industriais nas vendas externas de tradings e indústrias processadoras, quanto consumidores finais de derivados de óleo e carnes no mercado interno. Figura 3: Processo tecnológico na indústria de esmagamento e derivados de óleos de soja. Fonte: Acervo EAD-Uniube. 112 UNIUBE Produtos: • commodities para mercado externo: trata-se de produtos me- nos diferenciados e comercializados em grandes volumes no mercado internacional, destacando-se o farelo de soja, a soja em grãos e o óleo bruto e refinado; • commodities para o mercado interno: destacando-se a soja em grãos, o farelo direcionado para a indústria de rações/carnes e o óleo bruto e refinado direcionados para posterior reproces- samento; • produtos de maior valor agregado para o mercado inter- no: trata-se de produtos mais elaborados oriundos do óleo, ge- ralmente com maior grau de diferenciação (marca), como por exemplo, margarinas, halvarinas, cremes vegetais, maioneses, molhos prontos (salad dressings) etc; • outros produtos: trata-se de usos alternativos a partir da soja com mercado de menor dimensão e/ou ainda pouco definido, como por exemplo, a lecitina, a soja para alimentação humana (molhos, bebidas etc.), a farinha de soja, o óleo para fins ener- géticos (“biodiesel”) etc. Haddad (1999) sugere para o RS, uma modelagem de produção gra- neleira (especialmente milho) destacando os níveis de capital empre- gado na atividade agrícola (na perspectiva contábil) e, posteriormente, dois produtos distintos: grão seco e silagem (Figura 4). Desse modo, destacam-se estrangulamentos para as cadeias de produção de grãos: • a elevada incidência de impostos e juros que interferem direta- mente na formação do capital de giro, ou seja, a delimitação dos custos financeiros para investimento na atividade; UNIUBE 113 • o perfil do produtor de grãos, quanto à comercialização da safra: limitação quanto à armazenagem (custos de estocagem, especu- lação ao longo da entressafra, tecnologia empregada) e qualida- de de grãos; • tendência para concentração de capital nas agroindústrias, ou seja, pouca equidade quanto ao valor adquirido. Isso se deve a aquisição de produtos de baixo valor agregado (in natura), inclusi- ve com baixa qualidade e preços favoráveis (alguns períodos do ano) e ainda à adição e agregação de valor, em diversas transa- ções (alimentação humana, ração animal). Figura 4: Modelagem da cadeia produtiva de grãos (especialmente milho) Fonte: Acervo EAD-UNIUBE. 114 UNIUBE Ainda são relatadas oportunidades para a cadeia produtiva de grãos: • fomentar a diferenciação de valor por qualidade de produto, para processamentos agroindustriais específicos; • adicionar determinados grãosem diversos outros produtos indus- trializados (na fase posterior à agroindustrial, tal como uma etapa de industrialização específica); • identificação e investimentos em novos nichos de mercado no sentido de fomentar o consumo de produtos derivados com alto valor agregado; • estimular cooperativas e produtores rurais a adicionar valor à pro- dução (aplicação de defensivos, fertilização do solo, espaçamen- to de plantas, colheita, beneficiamento), inclusive em grandes áreas, a tecnologia de armazenagem, com intuito de aprimorar os ganhos em escala na safra; • propor uma agenda com ações políticas práticas, envolvendo im- postos, taxas e juros, em toda a extensão da cadeia produtiva (insumos, atividade agrícola e principalmente, na promoção dos produtos ao mercado consumidor – agroindústria). 4.3 Caracterização e simulação nas cadeias de plantas medicinais e ornamentais Algumas diretrizes são fundamentais para fomentar a cadeia produti- va de plantas medicinais, dado o potencial produtivo e comercial dos produtos fitoterápicos. O objetivo é atribuir à cadeia um perfil profissio- nal e abrangente de modo a organizar os atores envolvidos em torno das oportunidades de escala e principalmente exportação. Um dos passos importantes é a criação do Programa de Plantas Me- dicinais do Mercosul (PlamSur), ligado às Nações Unidas que contrata projetos (alvo de recursos específicos) da região Sul do Brasil para a UNIUBE 115 produção de plantas medicinais. Um dos focos do programa é a Asso- ciação Estadual de Cooperação Agrícola que reúne assentados da reforma agrária de Santa Catarina e mantém projetos pilotos com plantas medicinais (BRASIL, 2006). Conforme BRASIL (2006), além disso, outros fatores são relevantes, tais como: • regulamentar o cultivo; o manejo sustentável; a produção, a distribuição, e o uso de plantas me- dicinais e fitoterápicos, considerando as expe- riências da sociedade civil nas suas diferentes formas de organização; • promover a Formação técnico-científica e capa- citação no setor de plantas medicinais e fitote- rápicos; • incentivar a formação e capacitação de recur- sos humanos para o desenvolvimento de pes- quisas, tecnologias e inovação em plantas me- dicinais e fitoterápicos; • estabelecer estratégias de comunicação para divulgação do setor plantas medicinais e fitote- rápicos; • fomentar pesquisa, desenvolvimento tecnológi- co e inovação com base na biodiversidade bra- sileira, abrangendo espécies vegetais nativas e exóticas adaptadas, priorizando as necessida- des epidemiológicas da população; • promover a interação entre o setor público e a iniciativa privada, universidades, centros de pesquisa e Organizações Não Governamentais na área de plantas medicinais e desenvolvimen- to de fitoterápicos; • apoiar a implantação de plataformas tecnológi- cas piloto para o desenvolvimento integrado de cultivo de plantas medicinais e produção de fito- terápicos; 116 UNIUBE • incentivar a incorporação racional de novas tec- nologias no processo de produção de plantas medicinais e fitoterápicos; • garantir e promover a segurança, a eficácia e a qualidade no acesso a plantas medicinais e fitoterápicos; • promover e reconhecer as práticas populares de uso de plantas medicinais e remédios caseiros; • promover a adoção de boas práticas de cultivo e manipulação de plantas medicinais e de ma- nipulação e produção de fitoterápicos, segundo legislação específica; • promover o uso sustentável da biodiversidade e a repartição dos benefícios derivados do uso dos conhecimentos tradicionais associados e do patrimônio genético; • promover a inclusão da agricultura familiar nas cadeias e nos arranjos produtivos das plantas medicinais, insumos e fitoterápicos; • estimular a produção de fitoterápicos em escala industrial; • estabelecer uma política intersetorial para o de- senvolvimento socioeconômico na área de plan- tas medicinais e fitoterápicos; • incrementar as exportações de fitoterápicos e insumos relacionados, priorizando aqueles de maior valor agregado; • estabelecer mecanismos de incentivo para a in- serção da cadeia produtiva de fitoterápicos no processo de fortalecimento da indústria farma- cêutica nacional. UNIUBE 117 A cadeia produtiva de Flores e Plantas Ornamentais vem nos últimos anos se destacando expressivamente no cenário econômico brasilei- ro. Tal destaque se dá principalmente no que tange à estrutura de mer- cado, à diversificação de espécies e variedades, à difusão de novas tecnologias de produção, à profissionalização dos agentes da cadeia, bem como na sua integração. Segundo Anefalos (2003), além dos tradicionais países produtores de flores e plantas ornamentais como Holanda, Itália, Dinamarca e Japão; o mercado mundial está se expandindo como um todo. Atu- almente, os principais países exportadores são: Holanda, Colômbia, Dinamarca, Itália, Israel, Bélgica, Costa Rica, Canadá, EUA, Quênia, Alemanha, entre outros. As condições de produção do País, dotado de diversidade de solo e clima, permitem o cultivo de um infinito nú- mero de espécies e conferem aos produtos brasileiros oportunida- des de abrir espaços e de se firmar no mercado internacional. O segmento no Brasil, que vem crescendo como um todo numa média de 20% a.a, (TANIO e SIMÕES, 2005). De acordo com o SEBRAE (2007), as perspectivas apontam para uma exportação do setor em torno de 80 milhões de dólares em 2007, ou seja, um aumento de 515% desde 2000. Mesmo apresentando excelentes resultados e ótimas perspectivas, este segmento ainda apresenta grande potencial a ser explorado, principalmente na fase de cultivo a campo (Figura 5). Existem algu- mas restrições para que se eleve a pequena participação brasileira no mercado internacional, podendo-se citar entre elas a não adequação de padrões de qualidade, problemas relacionados à questão fitossani- tária e de ordem tributária, principalmente a falta de uma infraestrutura logística adequada para escoamento da produção a nível competitivo e ainda a tímida estruturação da sua cadeia de suprimentos. 118 UNIUBE Figura 5: Cadeia de Flores e Plantas Ornamentais. Fonte: Acervo EAD-Uniube. A exigência do mercado consumidor por produtos de qualidade e de maior valor agregado, juntamente com os efeitos da globalização, concorre para uma necessidade de mudança na forma em que as cadeias produtivas vêm operando. Tal mudança converge para uma nova abordagem, voltada à de cadeias de suprimentos e a especifi- cação logística dos produtos finais (Figura 6). Figura 6: Cadeia de Flores e Plantas ornamentais para exportação no Brasil. Fonte: Acervo EAD-Uniube. UNIUBE 119 4.4 Caracterização e simulação nas cadeias de frutas e bebidas O complexo agroindustrial de frutas possui inegável potencial expor- tador. No entanto, ainda apresenta um comportamento de expansão- -amadurecimento, absorvendo estratégias comerciais consistentes. Inicialmente, algumas observações merecem destaque: • existe uma razoável especialização geográfica nas vendas de fru- tas processadas, pois 73% dos países (61 em 84) realizam mais de 40% de suas importações de uma só empresa brasileira; • aparentemente, não há complementaridade entre as vendas de sucos e de polpas e as de frutas frescas, pois dentre as 20 maio- res exportadoras de sucos e polpas (80% das vendas), somente quatro também realizam exportações de frutas frescas. Dessa forma, o planejamento estratégico sugere ações específi- cas para cada produto (in natura x processadas), de acordo com as particularidades regionais (vocação, caracterização de mão de obra, nível tecnológico empregado), reconhecido à tendência imi- nente das vendas de frutas processadas. De modo geral, as políticas devem abranger as demandas das princi- pais agroexportadoras (diminuição dos entraves tributários e logísticos e promoção dos produtos em feiras internacionais), além de prover, junto à pequenos produtores e associações oportunidades de produ-ção em escala, expansão e tecnificação (materiais genéticos, irriga- ção, assistência técnica, crédito e nichos específicos – certificação e orgânicos). Ao mesmo tempo, há expectativas de expansão do consumo de frutas no mercado interno, principalmente com o nível de diversificação de produtos desenvolvidos pela agroindústria (e indústrias de agregação de valor). De acordo com a Figura 7, os próprios canais de distribuição e a promoção imposta pelo comércio varejista (valorização dos horti- fruti, exposição de imagem e aspectos qualitativos – frescor, padroni- zação, sabor). 120 UNIUBE Figura 7: Cadeia Produtiva de Frutas. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Um dos principais instrumentos para coordenação da fruticultura de mesa, inclusive sob o enfoque competitivo, é o PIF (Programa Integra- do de Frutas) promovido e implantado pelo Estado, como instrumen- to de promoção do produto no mercado internacional, intervindo nos processos produtivos. Desse modo, algumas prerrogativas sugeridas pelo CAI-frutas (mesa) são abordadas na perspectiva de competitivi- dade (padronização, certificação, shelf-life). Produção Integrada de Frutas - PIF é um Programa de Avaliação da Conformidade voluntário, desenvolvido pelo Inmetro em conjunto com o Ministério de Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que gera frutas de alta qualidade, priorizando a sustentabilidade, a aplica- ção de recursos naturais, a substituição de insumos poluentes, o mo- nitoramento dos procedimentos e a rastreabilidade de todo o proces- so do programa, tornando-o economicamente viável, ambientalmente correto e socialmente justo. O principal objetivo da PIF é substituir UNIUBE 121 as práticas convencionais onerosas por um processo que possibilite: diminuição dos custos de produção, melhoria da qualidade, redução dos danos ambientais e aumento do grau de credibilidade e confiabili- dade do consumidor em relação às frutas brasileiras. PIF Significa “tempo de prateleira”, ou seja, o período de armazena- mento em que produtos com alta qualidade inicial permanecem ade- quados para o consumo. Somando-se a esse instrumento, com enfoque na abertura, conquis- ta e manutenção de novos mercados para a colocação de grandes quantidades de sucos e de polpas de frutas tropicais são necessárias duas ações simultâneas: • na esfera produtiva: reestruturação organizacional do setor pro- dutivo, viabilizando a introdução de novos métodos produtivos (o que exige o aumento das atividades de pesquisa científica e de extensão rural), de novas tecnologias pré e pós-colheita, assim como apoio à formação de consórcios de empresas exportado- ras, tanto para as atividades diretamente comerciais (pesquisas de mercado, identificação de padrões de consumo etc.), como para as atividades de distribuição física internacional (serviços de logística, pós-processamentos dos produtos nos mercados de destino etc.); • na esfera comercial: apoiar estratégias de inserção industrial de empresas brasileiras nos mercados internacionais, tanto diretas, como indiretamente (através de associações com empresas lo- cais), de forma a conseguir a colocação permanente dos produtos brasileiros, o que permitirá formular estratégias para consolidar as marcas identificadas como “Produzido no Brasil”. 122 UNIUBE Resumo Nesse capítulo, avançamos na proposta de modelagem de cadeias produtivas, com a intenção de aplicar os conhecimentos já adquiridos em roteiros anteriores (Administração e Complexos Agroindustriais) na perspectiva de uma análise sistêmica. Dessa forma, esse material corrobora a caracterização de cadeias produtivas de origem vegetal especificamente, destacando os atores participantes, os ambientes e cenários de negócios, instrumentos de coordenação e intervenção e, principalmente, o foco no consumidor final bem como as modalidades de transferência (insumo-produto) à cada etapa. O texto destacou algumas cadeias principais que permeiam o cenário econômico, na condição de simulação para reconhecimento do com- portamento do produto e elaboração de estudos estratégicos. Atividades Atividade 1 Defina os principais tópicos para a caracterização das cadeias pro- dutivas brasileiras. Atividade 2 Marque a alternativa correta: a) ( ) Uma das principais características dos mercados de grãos é a baixa competitividade (quanto à presença de concorrentes); UNIUBE 123 Atividade 3 Aponte os principais fatores determinantes à competitividade da soja brasileira e atores envolvidos. Atividade 4 Liste e comente 3 (três) práticas de coordenação da qualidade no sen- tido cliente-fornecedor e, ainda, 3 (três) no sentido fornecedor-cliente. b) ( ) A capacidade de propor práticas de coordenação da quali- dade, empenho na competitividade em ambientes altamente sofisticados e consistência quanto à gestão de conflitos e ce- nários são fundamentais para o alinhamento com as tendên- cias de mercado; c) ( ) A noção de Qualidade, aplicada às cadeias produtivas, prece- de à proposta de coordenação dos processos; d) ( ) A prática da Qualidade nos processos agroindustriais, pro- põe diferenciação de colocação dos produtos no mercado, sem necessariamente sugerir sustentabilidade. Atividade 5 Marque V ou F ( ) A Política de comércio externo abarca ações voltadas para reduzir o protecionismo no comércio internacional dos grãos (principalmente soja), como o monitoramento das práticas de comércio e a representação dos interesses dos atores nos fó- runs internacionais; 124 UNIUBE Referências ANEFALOS, L. C.; GUILHOTO, J. J. M. Estrutura do Mercado Brasileiro de Flores e Plantas Ornamentais. Agric. São Paulo - SP, 50(2): 41-63, 2003. BRASIL. Decreto Lei n. 5813, de 22 de junho de 2006. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil, Poder Executivo, Brasília, DF, 23 jun. 2006, p. 2. CONAB. Companhia Nacional de Abastecimento. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2007. EARTHAL. R. Os complexos agroindustriais no Brasil – seu papel na economia e na organização do espaço. Revista Geo Paisagem (on-line). Ano 5, n. 9, 2006. HADDAD. P.R. A Competitividade do agronegócio e o desenvolvimento regional no Brasil: estudo de clusters. CNPq – Embrapa, Brasília, DF, 1999. ( ) Os subsídios agrícolas são a quantidade de dinheiro paga aos fazendeiros por unidade que eles produzem ou exportam. São praticados principalmente em países como Brasil, Argentina e México; ( ) As políticas de informação, apesar de auxiliarem na coordena- ção dos processos agroindustriais, não interferem diretamente na tomada de decisão desses negócios; ( ) A tecnologia é o elemento determinante da formação [e trans- formação] dos complexos agroindustriais, principalmente na dimensão das relações intersetoriais. UNIUBE 125 IBRALOG. Instituto Brasileiro de Logística, Desafios de Logística para o Agronegócio, Disponível em: . Acesso em: 22 jul. 2007. MARAFON. G.J. Industrialização da Agricultura e Formação do Complexo Agroindustrial no Brasil. UFRJ, 2003. 158p. MF. Ministério da Fazenda. Disponível em: . Acesso em: 20 jul. 2007. ROESSING, A. C. e SANTOS, A. B. Descrição sucinta da cadeia produtiva da soja na Região Sul do Brasil. EMBRAPA-CNPSo, Londrina, 1997. SEBRAE. Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas. Disponível em: Acesso em: 23 jul. 2007. TESCO CORPORATE. Disponível em: . Acesso em: 21 jul. 2007. TANIO, D.S. e SIMÕES, S.C. Cadeia de Suprimentos de Flores e Plantas Ornamentais no Brasil – uma nova abordagem para aumentar a participação do setor no mercado internacional. GELOG, UFSC, 2005. TOLEDO, J. C. et al. Coordenação da Qualidade em Cadeias de Produção: Estrutura e Métodospara Cadeias Agroalimentares. Revista Gestão e Produção. São Carlos, v.11, n.3, p. 355-372, set.-dez. 2004.econômicas, políticas e sociais; • desenvolver uma visão crítica no que diz respeito ao agronegócio e às políticas públicas a ele relacio- nadas; • identificar as oportunidades e ameaças de cada elo da cadeia produtiva, bem como as fragilidades exis- tentes em cada segmento e propor soluções para a retomada de seu crescimento; • reconhecer a importância do segmento e a necessi- dade de uma maior profissionalização no setor; • assessorar o empresário rural na tomada de deci- são no que referir-se à análises da cadeia produtiva e suas oportunidades de negócio. Objetivos Esquema 6 UNIUBE Há mais de 12.000 a.C., na África, o homem sobrevivia graças à caça de grandes animais que alimentava todo o clã. Por este motivo, os povos tinham como característica mais marcante desta era o fato de serem nômades, pois, todas as vezes que a caça ficava escassa na- quela região, irremediavelmente, se viam na necessidade de busca- rem outro local onde tivesse mais caça disponível. Isto permaneceu até que estes homens primitivos descobriram algu- mas raízes e folhas comestíveis e aprenderam a cultivá-las, ao mesmo tempo em que aprenderam a domesticar alguns animais, dando início à agricultura primitiva – que significava não somente o ato de cultivar plantas, mas, também de criar animais para seu sustento. Portanto, é um erro algumas classificações que tratam a agricultura totalmente isolada de pecuária. Usualmente, percebe-se na literatura a expressão agropecuária para designar atividades de agricultura e pecuária. Mas, o uso isolado da palavra agricultura é o suficiente para caracterizar todas as atividades de cultivo do solo e o criatório de animais tendo como objetivo a pro- dução de alimentos. SAIBA MAIS O Agronegócio não é uma invenção brasileira. O conceito do negó- cio não foi realizado por nenhum pesquisador brasileiro, mas por dois professores americanos de Harvard. Mas, ninguém pode negar que o Brasil é a maior referência em agronegócio do mundo! E, não é só pela aptidão natural deste povo para o trato com a terra, com o gado e com as florestas. Deus foi generoso ao dotar este país com 877 milhões de hectares de terra, das quais 354,8 são terras aráveis, das quais mais de 100 milhões de hectares ainda estão dis- poníveis para a agricultura e pecuária. 1.1 O agronegócio no Brasil – a grande alavanca para a prosperidade UNIUBE 7 Na Figura 2, a seguir, utilizamos como exemplo da domesticação de animais uma pintura rupestre encontrada na Serra da Capivara, no município de São Raimundo Nonato/PI. Figura 2: Demonstração do cotidiano de clã pré-histórico domesticando animais na Serra da Capivara – Piauí. Um antigo slogan da Manah, que hoje pertence à Bunge Fertili- zantes, criado na década de 1940, que parodiava um conto do es- critor que mais se dedicou aos temas rurais e bucólicos, Monteiro Lobato, fortalecia o adágio de que “neste país, se adubando, dá”, conforme demonstrado na Figura 3. Mas, por muito tempo, sequer era preciso plantar ou mesmo adubar, pois, por décadas e décadas os portugueses quitaram parte de sua dívida externa e encheram seus cofres de tesouros, graças ao extrativismo oriundo das para- gens brasileiras. 8 UNIUBE Slogan da Manah nos anos 1980 Slogan da Manah nos anos 2000 Figura 3: “Adubando, dá”. Dois momentos do slogan da Manah, que era muito repetido pelos homens do campo. Fonte: Manah. A agropecuária sempre esteve à frente da construção, desenvol- vimento e manutenção econômica deste país. E, nos últimos dez anos, esta foi a atividade que mais cresceu no país. A participação da atividade no Produto Interno Bruto (PIB), que representa a soma em valores monetários de todos os bens e serviços produzidos, no período compreendido entre os anos de 2000 a 2010, aponta um crescimento anual de 3,67%, enquanto o PIB global do Brasil mos- tra um crescimento médio anual de 3,59%, conforme demonstrado no Quadro 1 (AGRO-CIM, 2011). Quadro 1: Demonstrativo do crescimento do PIB brasileiro Fonte: Adaptado de AGRO-CIM (2011). Crescimento do PIB no Brasil no período de 2000 a 2010 (média anual) % Crescimento do PIB do Agronegócio 3,67 Crescimento do PIB dos demais seguimentos econômicos do país 3,59 Os motivos de um crescimento tão acentuado da agropecuária na úl- tima década, estão relacionados, principalmente, às grandes trans- formações pelas quais passou e passa o setor, e que se seguem desde a valorização das commodities (que exerceram um impor- tante papel neste desempenho), passando por uma boa conjuntura UNIUBE 9 econômica, fortalecimento e estabilização da moeda nacional, até a incorporação de modernas tecnologias pelos produtores rurais. Por outro lado, as insipientes políticas agrícolas existentes são insu- ficientes para proteger e assegurar resultados favoráveis ao produtor rural; as constantes e inúmeras intempéries climáticas que destroem lavouras e pastagens, e uma estrutura logística arcaica e sucateada, acabam minando todas as possibilidades de enriquecimento que são naturais num negócio tão promissor quanto o agronegócio. É neces- sário o engajamento de todos os setores do complexo agroindustrial a fim de exigir que o governo assegure o necessário e efetivo apoio ao produtor rural, pois, quando este perde, todos os elos à jusante também saem perdendo. Hoje, a produção agropecuária do Brasil está entre as mais ricas do mundo. Segundo o Plano Agrícola (MAPA, 2011), a safra 2010/2011 transportará o país a mais um novo recorde na produção de grãos com mais de 161 milhões de toneladas. Este resultado, segundo o Plano Agrícola para 2011, está acima da safra do ano anterior, com um percentual de 8,2%, tendo um aumento de 3,8% na área plan- tada e 4,2% na produtividade. Resultados como estes, é que co- locam o Brasil entre os mais competitivos do mundo, endossando o prognóstico das Organizações das Nações Unidas, que o veem como celeiro capaz de atender à demandas cada vez maiores por alimentos. A exemplificar, os bons resultados da colheita de soja em Uberlândia/MG, como representado na Figura 4. Segundo o Plano Agrícola de 2011, o país também é um dos princi- pais fornecedores de proteína animal no mercado internacional de alimentos, destinando o excedente de sua produção a 215 países do planeta. Além disto, a cada ano aumenta o número de lavou- ras com desempenho superior no que diz respeito ao aumento no 10 UNIUBE Valor Bruto da Produção (VBP) de vá- rias commodities, como, por exemplo, a soja – reflexo de um relacionamento sau- dável entre os diversos elos das cadeias produtivas do agronegócio brasileiro, e que resulta no aumento da rentabilidade líquida do setor. Valor Bruto da Produção Representa toda a receita bruta gerada na agropecuária, ou seja, e resultado da multiplicação do preço dos produtos pela respectiva quantidade produzida. Figura 4: Colheita de soja na região de Uberlândia – MG. Todos estes fatores aliados às diversas ações governamentais re- lacionadas à uma produção agropecuária sustentável, consolidado pelo Programa de Agricultura de Baixo Carbono, e, que é parte das exigências do mercado internacional, colocaram o Brasil na pole position da produção agrícola mundial. 1.2 O Complexo agroindustrial brasileiro No final da década de 1950, logo após a Segunda Guerra Mundial, o desempenho apresentado pelas atividades rurais do Brasil, base- ado no processo de modernização, foi de tamanha importância que UNIUBE 11 colocou o assunto entre os mais importantes. O país sai de uma era em que prevalecia somente a agricultura baseada em práticas tradicionais de cultivo, onde não se concebia a ideia de agricultura moderna, baseada na introdução de novas tecnologias, para uma nova época, onde a adequação à modernidade deixava de ser um “modismo” para tornar-se uma necessidade. Neste período, observa-se a introdução do uso de máquinas de be- neficiamento de arroz, tanto quanto dos moinhos (mais) modernos de trigo no Rio Grande doSul. Ao mesmo tempo, verifica-se a im- plantação dos “sofisticados” engenhos a vapor e das usinas de açú- car na área de cultivo da cana-de-açúcar do Nordeste brasileiro. Na década de 1970, verifica-se uma efetiva transformação na agri- cultura, graças à implantação da política de modernização do setor, instalado pelo regime militar. A “agricultura capitalista” como ficou conhecida passa a dar considerável importância às exportações de produtos agropecuários (commodities) e dos produtos agroindus- triais, resultado do processamento dos primeiros. Nesta fase, mesmo com a relutância dos grandes latifundiários às tentativas de transformações no arcaico modelo fundiário existente no país, passa a prevalecer a ideia de “atividade empresarial” no campo, contra o que se denominava de “tradições” por parte destes grandes proprietários. A terra passa a valer pelo que produz e não por sua extensão. Nota-se também, neste período, o investimento de capital de diferentes origens, fugindo do que era considerado ape- nas como o capital de origem agrária (PALMEIRA e LEITE, 1998). Com o incentivo do governo militar à modernização da agricultura, verifica-se, a partir desta década: 12 UNIUBE • investimentos governamentais em infraestrutura de transporte, com abertura de rodovias federais, via Plano de Integração Na- cional (PIN), facilitando o escoamento da produção agrícola; • acesso à terra e ao crédito ao produtor através do Programa de Redistribuição de Terras e Estímulo à Agroindústria do Norte e Nordeste (PROTERRA); • instalação dos Programas de Desenvolvimento do Centro-Oeste (PRODOESTE) e do Programa de Desenvolvimento dos Cerra- dos (POLOCENTRO), favorecendo a agricultura e pecuária desta região, que sai da era do extrativismo para a agricultura comercial; • fundação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa. Em 7 de dezembro de 1972, o então presidente da República, Emílio Garrastazu Médici, sancionou a Lei nº 5.881, que autorizava o Poder Executivo a instituir empresa pública, sob a denominação de Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministé- rio da Agricultura. O artigo 7º estabelecia um prazo de 60 dias para a expedição dos estatutos e determinava que o decreto fixasse a data de instalação da empresa. O Decreto nº 72.020, datado de 28 de março de 1973, aprovou os esta- tutos da Empresa e determinou sua instalação em 20 dias (MAPA, 2008). SAIBA MAIS Por volta de 1980 e até meados da década de 1990, vários teóri- cos começaram a substituir a palavra agribusiness por agronegócio e a substituir a expressão agricultura moderna ou capitalista por agroindústria. Inevitavelmente, surge a preocupação com a orga- nização dos complexos agroindustriais do Brasil, como forma de estabelecer o lugar de destaque deste setor na economia do país (GRAZIANO da SILVA, 1991; KAGEYAMA et al., 1990). UNIUBE 13 Complexos agroindustriais Para entendermos o que é e como funciona os Complexos Agroin- dustriais é necessário nos lembrarmos que a agropecuária brasileira foi de vital importância no contexto histórico da ocupação do territó- rio e na delineação espacial do país. Além de ter muito contribuído, tanto quanto contribui, através da exportação de commodities para o crescimento das reservas cambiais, à sua própria mudança a nível de modernização e à construção de um sólido complexo agroindustrial no Brasil. SAIBA MAIS O que estes autores tinham em comum, era a preocupação em for- malizar a integração entre a agricultura e a indústria, unindo a indus- trialização de insumos fornecidos para a produção agropecuária à industrialização dos produtos gerados por ela numa única cadeia: a cadeia produtiva do agronegócio (GRAZIANO da SILVA, 1995). Alguns teóricos enfatizam que os produtores rurais consideraram que a modernização no setor – que valorizava a ideia do agrone- gócio em detrimento da “tradição” secular da agricultura - tirava a importância da área agrícola em si e ressaltava o valor do lado “in- dustrial”, que passou a ser abordado como referência de um con- junto de atividades do grupo que o controla e de suas formas de gerenciamento (HEREDIA, PALMEIRA, LEITE, 2010). Entretanto, foi graças à conjunção “intersetorial” da agricultura e da indústria – que, segundo os próprios autores não feriu a proprieda- de do setor agrícola – que se verificou uma maior adesão política e propiciou a análise das funções econômicas e produtivas do setor, podendo avaliar sua importância na economia do país. 14 UNIUBE Formam-se os Complexos Agroindustriais do Brasil. E, são estes complexos agroindustriais, formados por diferentes players, que deram subsídios para se levantar uma série de questões de nature- za social, econômica, política, tecnológica, geográfica, entre outras discussões. 1.3 As cadeias produtivas do CAI no Brasil Revendo os estudos dos professores Ray Goldberg e John Davis, da Universidade de Harvard (1957), percebemos que só foi possí- vel eles chegarem ao conceito de agronegócio após estudarem pro- fundamente as transformações e reestruturações da agricultura nos Estados Unidos, quando eles verificaram que havia muito mais que simples atividade rural centrada no campo, e, que aquele negócio envolvia uma série de atividades, pessoas e interesses que iam mui- to além do simples “semear-plantar-colher”. O agronegócio não é somente “as operações de produção nas uni- dades agrícolas”; ele também engloba “a soma total das operações de produção e distribuição de suprimentos agrícolas”; era ainda, “o armazenamento, processamento e distribuição dos produtos agrí- colas e itens produzidos com eles”. Era todo um complexo. Morvan, outro estudioso do assunto, observou a existência de diversos elos em todos os tipos de produção, e, a isto, deu o nome de Filière ou “Cadeia de Produção”, estabelecendo o seguinte conceito: Filière A abordagem de filière é uma ferramenta de análise de uma grande parte da Escola Francesa de Economia Industrial; é um instrumento que sugere a imagem de atos sucessivos, de estados a percorrer, de um modo de percurso obrigatório para atender um certo alvo (MORVAN, 1991). UNIUBE 15 A cadeia de produção é um conjunto de relações comerciais e financeiras que estabelecem, entre to- dos os estados de transformação, um fluxo de troca, situado de montante a jusante, entre fornecedores e clientes. A cadeia de produção é um conjunto de ações econômicas que presidem à valorização dos meios de Produção e asseguram a articulação das operações (MORVAN, 1991, p. 243-275). Apesar da complexidade e grandeza do assunto a ser estudado, buscamos caracterizar, sistematizar e, deste modo, compreender não só os complexos agropecuários em si, mas a própria moderni- zação do campo. Para que isto se torne possível, vamos fazer nossos estudos por par- tes. Que tal se começarmos a compreender que é “cadeia produtiva” e o que ela engloba? De um lado, nós temos os fornecedores de bens e serviços à agricultura; de outro lado, nós temos os produtores agrícolas; mas, em outra ponta, ainda aparecem os armazéns, os dis- tribuidores, as indústrias de transformação e processamento, até o consumidor final. Não podemos esquecer também, que participam desta estrutura, os agentes que coordenam estes complexos, tais como órgãos governamentais, instituições financeiras, prestadores de serviços, entre outras entidades. Todos estes “atores” imprimem o dinamismo ao agronegócio e se or- ganizam em cadeias que transitam do mercado de insumos e fatores de produção, passam pela unidade agrícola produtiva, circulam pelo armazenamento, processamento e transformação, são distribuídos e chegam às mãos do consumidor final. 16 UNIUBE Figura 5: Elos de uma corrente, representando os diferentes agentes de uma cadeia produtiva, mostrando que cada elo depende um do outro. Fonte: Acervo EAD-Uniube. Estes elos, por sua vez, recebem os seguintes nomes: • Cadeia produtiva a montante– conhecida como “antes da porteira”; • Núcleo da cadeia produtiva – conhecida como “dentro da porteira”; • Cadeia produtiva a jusante – conhecida como “fora da porteira”. A Figura 6 ilustra a sequência destes elos e nos dá a ideia do se- quenciamento de um em relação ao outro, formando o que conhe- cemos como Agronegócio. Figura 6: Sequenciamento dos principais elos da cadeia produtiva agroindustrial. Desta forma, percebemos que o complexo agroindustrial se divide em partes como se fossem elos de uma corrente, conforme demonstrado na Figura 5, organizando seus agentes de acordo com a posição em que se encontram em cada parte da cadeia produtiva. Antes Dentro Depois Assim, as cadeias produtivas compreendem os processos que se dão “antes da porteira” (ou a montante) da propriedade (tais como: crédi- tos, insumos, maquinários, pesquisas etc.); os que ocorrem “dentro da UNIUBE 17 porteira” (no nível da produção agrícola) e os que se efetivam “depois da porteira” (ou a jusante), a exemplo da industrialização, distribuição e comercialização dos produtos obtidos. Para um entendimento maior, a cadeia produtiva envolve, além das relações comerciais e financeiras, a análise dos seguintes ambien- tes, conforme ilustrado na Figura 7: • ambiente político; • ambiente institucional (sistema legal; fatores socioculturais, nor- mas e regulamentações, concorrência); • ambiente organizacional (cooperativas, associações, alianças, parcerias etc.); • ambiente tecnológico; • ambiente cultural; • ambiente educacional. Figura 7: Ambientes que influenciam na produção agropecuária. 18 UNIUBE Todos estes ambientes influenciam diretamente nas decisões de produção. Existe um número muito grande de empresas, pessoas, instituições e órgãos governamentais envolvidos nas determina- ções da produção agrícola. Estas empresas, agentes e instituições estão todos fora da fazenda, e não mais no seu interior, portanto, a montante ou a jusante da unidade de produção agrícola. Também, é importante lembrar que, embora estas instituições, in- dústrias e empresas de serviços influenciam diretamente as deci- sões do que produzir, como produzir e quanto produzir, nem sem- pre o núcleo de produção agrícola consegue influenciar de maneira direta nas decisões de qualquer destes agentes, talvez, porque o produtor rural, apesar de “carregar” a economia do Brasil em suas costas, ainda não conseguiu se organizar em cooperativas, sindi- catos e associações fortalecidas e sérias, capazes de formar políti- cas agrícolas eficazes e que defendam os interesses da classe junto aos formadores de opinião e tomadores de decisão. Também, podemos supor que as fatias mais generosas dos lucros deste fantástico negócio não se destinam aos produtores rurais, mas ficam nas mãos de todos os demais envolvidos, uma vez que por in- tegrarem uma classe desorganizada, não conseguem defender seus próprios interesses. 1.3.1 Estudo dos três elos mais importantes da cadeia produtiva A cadeia produtiva vegetal pode ser visualizada como a ligação e a inter-relação de vários agentes interessados em ofertar ao mercado as mesmas commodities, que podem ser in natura ou processadas. O SEBRAE propõe uma metodologia em que se visualizam cinco segmentos, demonstrados na Figura 8. UNIUBE 19 Figura 8: Diagrama esquemático de uma cadeia produtiva. Fonte: Acervo EAD-Uniube. .) .) No capítulo seguinte, você terá oportunidade de aprofundar seus co- nhecimentos no estudo dos complexos agroindustriais e seus com- ponentes. Agora, para compreendermos cada parte deste imenso quebra-cadeia, vamos conhecer um pouco da cadeia produtiva a montante, ou “antes da porteira”. 1.3.2 Cadeia produtiva a montante – “antes da porteira” (ou setor I): As empresas que produzem e fornecem insumos e serviços auxi- liaram o produtor rural na sua arte de produzir e, na maioria das vezes, são essenciais para a atividade agrícola. Estas empresas localizam-se “antes da porteira”, portanto, a montante do núcleo produtivo. 20 UNIUBE Neste elo, encontram-se as seguintes agentes: • pesquisa e desenvolvimento; • insumos agropecuários; • recursos financeiros; • assistência técnica; • máquinas e implementos agrícolas. Se considerarmos como exemplo a cadeia produtiva da soja, pode- mos exemplificar cada um destes agentes da seguinte forma: Pesquisa e desenvolvimento: todas as pesquisas realizadas nas universidades e empresas privadas, buscando a erradicação de al- gumas doenças e pragas da soja, além de estudos realizados no desenvolvimento de novas espécies, mais resistentes às doenças e com maiores teores de proteínas. Incluem-se também, as pesqui- sas com organismos geneticamente modificados, em especial, a soja transgênica. Insumos agropecuários: incluem-se as empresas de adubos, fer- tilizantes e corretivos agrícolas; as empresas de defensivos, herbici- das etc. Aqui, também, entram as sementes melhoradas, produtos agronômicos etc. Além disto, fornecedores de óleo diesel, óleos e lubrificantes para máquinas e veículos, materiais de construção, ma- deireiras, arames e outros materiais, constam também desta lista. Recursos financeiros: aqui entram os financiamentos de custeio agrícola, recursos para aquisição de áreas, aquisição de máquinas e implementos agrícolas etc. Instituições como o Banco do Brasil, maior incentivador do agronegócio no Brasil, além de outras insti- tuições que financiam o custeio da lavoura, a aquisição de terras e máquinas e a própria comercialização da safra. UNIUBE 21 Assistência técnica: as empresas fornecedoras de insumos para a produção agrícola, geralmente têm como valor agregado de seus serviços, o fornecimento de assistência técnica especializada que faz o acompanhamento da produção para o produtor rural. É uma forma de fidelizar o cliente e que se constitui em atraente serviço para o produtor rural, que tem disponível a prestação de serviços de engenheiros agrônomos, topógrafos etc. Além da assistência técnica oferecida pelos fornecedores de insumos e máquinas agrícolas, é importante frisar a atividade de outros prestadores de serviços, tais como, engenheiros ambientais, engenheiros de segurança do traba- lho, engenheiros civis, gestores de diversas áreas etc. Máquinas e implementos agrícolas: todos os fabricantes de má- quinas voltadas para a agricultura. Empresas, como a New Holland, John Deere, Valtra etc., além das indústrias de implementos agríco- las. Além de máquinas e tratores, entram, aqui também, as empre- sas de irrigação e todos os outros equipamentos essenciais para a produção. Fornecedores de ensiladeiras, enfardadeiras, e outros equipamentos, também fazem parte deste rol de empresas. Podemos, esquematizar a cadeia produtiva a montante, “antes da porteira”, para o nosso exemplo de cultivo de soja, conforme de- monstrado na Figura 9. Figura 9: Esquema da cadeia produtiva a montante. (a montante) 22 UNIUBE 1.3.3 Cadeia produtiva no núcleo da produção agrícola – “dentro da porteira” (ou setor II) Se o setor I, ou setor a montante ou ainda “antes da porteira” é de incomensurável importância para o agronegócio, pois fornece todos os insumos necessários para a viabilidade da produção agrícola e pecuária, é no setor II, ou “dentro da porteira” que tudo acontece! É neste setor que se localiza o recurso natural, o produtor rural e a mão de obra necessária para que o agronegócio brasileiro seja possível. A agricultura, pecuária, reflorestamento são importantes atividades relacionadas com os processos agrícolas e pecuários, representa- dos principalmente pelos produtores agrícolas e suas unidades de produção. O produtor rural depende dos produtos e insumos fornecidos pelas empresas que se encontram “antes da porteira”, como por exemplo: • os fertilizantes e defensivos agrícolas que corrigirão e protege- rão suas lavouras; • as vacinas, vermífugos e outros medicamentos necessários à sanidade de seus rebanhos; • as máquinas e implementosagrícolas utilizados na preparação do solo, garantindo agilidade no plantio de suas culturas; • o recurso financeiro que garantirá o custeio, investimento ou comercialização de sua safra; • a assistência técnica que auxiliará na análise de cenários de seu negócio; • as pesquisas e inovações tecnológicas que garantirão a produ- tividade, minimização de custos e melhoramento genético de seus produtos. UNIUBE 23 Contudo, de nada adiantaria nenhum dos setores citados anterior- mente, se o produtor rural optasse por não produzir. Por isto, ele, o “homem do campo” é a figura central de todo este processo, embora, quase sempre, fique com a menor fatia deste milionário negócio, e termine, na maioria das vezes, cada vez mais endividado e pobre. É “dentro da porteira” ou no núcleo da produção agrícola que encon- tramos: • plantio (convencional, plantio direto, lavouras consorciadas, la- vouras irrigadas etc.); • mão de obra utilizada no processo produtivo; • eventos, tais como leilões agropecuários, dias de campo e ou- tros eventos que acontecem “dentro da porteira” e que visam promover a produção. O agronegócio brasileiro alavancado pela combinação de uma de- manda cada vez maior, preços cada vez mais elevados e profissio- nalização do setor, bate recordes sobre recordes de participação no PIB do setor produtivo. Contudo, o produtor rural é obrigado a deduzir de seus parcos lucros todas as ameaças inerentes ao seu negócio, e que não divide com os setores a montante ou a jusante da porteira. Entre as inúmeras ameaças enfrentadas pelo produtor rural “dentro da porteira” estão: • questões de ordem climática, tais como: estiagem, excesso de chuvas, enchentes, veranicos etc.; • altos custos dos principais insumos, por exemplo, os adubos químicos; • subsídios agrícolas praticados por outros países e pouco com- batidos pela Organização Mundial do Comércio colocando os produtos brasileiros em desvantagem competitiva; 24 UNIUBE • pouca qualificação ou ausência de capacitação dos profissio- nais que atuam no processo produtivo; • emprego insuficiente das diversas tecnologias disponíveis para benefício do processo produtivo; • aspectos jurídicos do agronegócio, principalmente, aqueles re- lacionados às questões agrárias e ambientais. Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelo produtor rural para viabilizar os recordes brasileiros, consolidando o país como celeiro do mundo, “dentro da porteira” ele é eficiente e consegue vencer intempéries, crises econômicas e várias outras ameaças, saindo vencedor e entregando safras cada vez maiores nas mes- mas áreas das safras anteriores. Entretanto, ele perde toda sua eficiência e lucratividade quando car- rega os caminhões destinando suas commodities aos armazéns, processamento ou distribuição. Ou seja, o produtor rural não con- segue caminhar “fora da porteira” com a mesma eficácia com que consegue “tirar leite de pedra” dentro da propriedade rural. Assim, o ideal é que, através de uma gestão estratégica dos negó- cios rurais, o produtor rural passe a promover o crescimento verti- cal de sua propriedade, integrando alguns elos da cadeia produtiva dentro do Núcleo de produção, tais como: • aproveitamento de resíduos e dejetos para elaboração de ener- gia e fertilizantes orgânicos que possam ser utilizados em suas lavouras; • instituição de marca para seus produtos, comercializando parte das commodities como produtos com valor agregado, em que ele possa absorver parte do lucro que perde a jusante; • construção de armazéns onde possa deixar sua produção até o momento certo de comercializá-las; • aquisição de caminhões que minimizem os custos com logística. UNIUBE 25 Muito sensato supor que estas e outras medidas estão longe do al- cance da maioria dos produtores rurais do Brasil, onde mais de 80% das propriedades pertencem a pequenos produtores e cuja produ- ção caracteriza-se por agricultura familiar. Mas, se pensarmos em associativismo, cooperativismo e alianças entre produtores de uma mesma região, esta solução torna-se viável e prática. 1.3.4 Cadeia produtiva a jusante – “depois da porteira” (ou setor III): As empresas que estão fora da porteira ou a jusante, são todas aquelas que dependem da produção agrícola para sobreviver. Se as empresas a montante dependem do homem do campo como agente essencial à sua sobrevivência, as empresas a montante dependem do produto que ele gera para poderem sobreviver. Entre estas empresas, estão aquelas que servem de “apoio” como as organizações ligadas aos processos logísticos: transporte, emba- lagem, armazenamento, distribuição. Conta-se, também, entre as empresas do setor III, as agroindústrias ou indústrias de beneficiamento, que podem ser divididas em duas áreas: • as indústrias pertencentes aos sistemas agroindustriais alimen- tares; • indústrias de transformação de 1ª, 2ª ou 3ª transformação, como no caso da soja (farelo de soja, óleo de soja, lecitina etc.); • as indústrias pertencentes aos sistemas agroindustriais não ali- mentares; • indústrias têxteis, de celulose, couro e peles etc. 26 UNIUBE Além destas empresas, neste setor, encontram-se as empresas de negociação, tais como as corretoras, bolsas de valores e armazéns. As vendas dos produtos, tanto no mercado interno, passando pelas exportações até chegar ao consumidor final, são realizadas pelas empresas que se encontram no setor III. É neste elo da cadeia produtiva que os preços são determinados pelo mercado, baseados na lei de procura e oferta. As bolsas de va- lores operam nos quatro cantos do mundo, dinamizando o processo de quem deseja o produto e quem tem para vender controlando os preços que oscilam de acordo com os eventos, conforme demons- trado na Figura 10. Figura 10: Esquema de formação de preços de acordo com a oferta e demanda de produtos. Mesmo sendo o produtor rural a peça mais importante desta corren- te, ele é que menos se beneficia do que produz. Tem como agravante o fato de ser “mal visto” pela sociedade, que o considera responsá- vel pelos altos custos dos produtos primários, pelo desmatamento, aquecimento global etc. UNIUBE 27 Resumo Ainda que o agronegócio seja uma das mais importantes e significa- tivas atividades para a economia do Brasil, muito pouco se tem feito para aproveitar os seus resultados, já que o país exporta commodi- ties, enquanto deveria exportar produtos industrializados. Embora a atividade seja altamente rentável, os produtores rurais são os que menos lucram, uma vez que o setor ainda peca pela desunião, de- sorganização e falta de políticas agrícolas que o favoreçam. O mercado internacional caracteriza-se por exigências cada vez maio- res e a adequação das propriedades rurais às normas para atendi- mento a este mercado passa pelo processo organizacional, priorizan- do capacitação de mão de obra, entre outras coisas. Entretanto, não basta o país ser identificado como um dos maiores produtores de alimento do planeta. Existem muitas ameaças que rondam o agronegócio brasileiro e que, se não forem enfrentadas e corrigidas, poderão contribuir para a decadência deste negócio tão próspero. Atividades Atividade 1 Qual a importância do Agronegócio no PIB do Brasil? Baseado em sua resposta, quais são as perspectivas de mercado para quem está se preparando para entrar neste mercado? Atividade 2 Cite os três principais elos da cadeia produtiva que compõem o com- plexo agroindustrial brasileiro e suas principais características. 28 UNIUBE Atividade 3 Crie uma cadeia produtiva para a soja, baseado no que você apren- deu neste capítulo, com um mínimo de cinco elementos para cada elo da cadeia. Setor 1: Montante Antes da porteira Setor 2: Núcleo Dentro da porteira Setor 3: Jusante Fora da porteira Atividade 4 Leia o texto a seguir: A exploração pecuária no Brasil fundamenta-se quase que exclusivamente na utilização de pasta- gens como fonte de alimento. Dos 147 milhões de hectares de pastagens existentesem 1972, 72,7% eram naturais e o restante cultivadas). Entretanto, este quadro tem sido modificado de modo grada- tivo pela crescente formação de pastagens culti- vadas, às custas da abertura de áreas de mata e cerrado (EMBRAPA, 1980). Agora, responda: O texto traz duas palavras-chave: pecuária e pasta- gens. Em que elo da cadeia produtiva estão estes dois elementos e por quê? Atividade 5 Existem vários recursos do governo destinados à produção agríco- la, tanto para custeio, quanto para investimentos e comercialização. Entre os inúmeros programas governamentais, existe o PRONAF. UNIUBE 29 Pesquise sobre o assunto e responda: • para quem ele se destina? • quais são os valores que são liberados por linha de crédito e qual o juro anual cobrado para este tipo de financiamento? Referências AGROCIM. Centro de Inteligência em Mercados. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2011. AMORIM, R. REVISTA ÚNICA ON LINE de 14 de maio de 2010. Disponível em: . Acesso em: 21 jun. 2011. Cabeceiras do Piauí. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2011. DAVIS, J. H e Goldberg, R. A. A concept of agribusiness. Boston: Harvard University. 1957. 135 p. EMBRAPA. Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. A expansão da pecuária e a indústria de sementes no Brasil. In: _______. 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Debates econômicos, processos sociais e lutas políticas. In: Costa, L. F. e Santos, R. N. (orgs.). Política e reforma agrária. Rio de Janeiro, Mauad, 1998. SERRA DA CAPIVARA. Piauí, 2011. Disponível no site: . Acesso em: 1 jul. 2011. Fabrício Pelizer de Almeida Vânia Aparecida Borges Weitzel Introdução Os indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal Capítulo 2 Para justificar a formação dos complexos agroindustriais, é necessário que existam, pelo menos, dois setores interliga- dos: a atividade produtiva (agricultura e pecuária) e a ativida- de industrial. No que diz respeito às indústrias de insumos e às indústrias de transformação (ou processadoras), já vimos que elas estão a montante ou a jusante do núcleo produtivo, sendo que as indústrias de transformação têm uma ação mais direta com a agricultura. Cada complexo agroindustrial ou cada cadeia produtiva é mais ou menos integrada ao elo seguinte, numa relação inter- setorial que o torna dependente do comportamento dos atores e players envolvidos. Conforme Silva (1993) ressalta, complexos agroindustriais mais completos são os que estão “fora da porteira” ou a jusan- te, e que estão envolvidos com a distribuição, armazenamen- to, comercialização e transporte dos produtos. Este mesmo autor diz que os CAIs incompletos, só apresentam relações para frente, isto é, com as indústrias processadoras. 32 UNIUBE Nessa etapa de estudos dos complexos agroindustriais brasi- leiros, vamos discutir aspectos fundamentais para a compre- ensão dos arranjos produtivos, setores e atores que, de algu- ma, forma exercem papéis variados na dinâmica funcional das cadeias produtivas. O Capítulo 2, seguindo a proposta de trabalho, apresenta con- ceitos e definições básicas para a compreensão didática das cadeias produtivas. Aqui, abordaremos princípios metodológi- cos de estudo, caracterização e segmentação dos setores pro- dutivos; em destaque, os produtos de origem vegetal. Objetivos Ao final destes estudos, esperamos que você seja capaz de: • compreender o papel dos indicadores socioeconômi- cos na caracterização das cadeias produtivas; • dimensionar a expansão dos complexos agroindus- triais e distinguir fronteiras de negócios; • identificar atores e respectivos papéis relacionados ao conjunto de atividades agroalimentares; • expor segmentos e setores produtivos na proposta de uma leitura sistêmica dos complexos agroindus- triais. Esquema 2.1 Os indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal 2.2 O CAI e seus componentes 2.3 Impactos intersetoriais do CAI UNIUBE 33 2.1 Os indicadores e o dimensionamento dos complexos agroindustriais de origem vegetal 2.1.1 Segmentação do mercado agroindustrial Você viu que o complexo agroindustrial é dividido em elos ou ca- deias. Cada uma destas partes irá estudar um conjunto específico de empresas, indústrias, prestadores de serviços e instituições de pesquisas, responsáveis pela produção, distribuição, armazenamen- to, processamento e comercialização dos produtos agropecuários. Para nos ajudar ainda mais na compreensão destes elos ou ca- deias, vamos ver como cada empresa, serviço ou negócio se esta- belece nestes elos e torna toda a cadeia dinâmica. Para isto, temos que segmentar o mercado. Você já ouviu falar em segmentação de mercado? Ao falarmos em segmentação de mercado, precisamos, antes de tudo, entender o que são os mercados dos quais estamos falando. Uma em- presa conseguirá vender seus produtos aos seus clientes se forem ob- servados alguns requisitos básicos: • deve existir alguém com uma necessidade que seja satisfeita com a compra deste produto; • a pessoa deve ter condições para comprar o produto; • deve existir condições para que a compra seja efetivada. Segmentar um mercado significa escolher um grupo de consumi- dores, com necessidades parecidas, para o qual a empresa poderá dispor seus produtos. O processo de segmentação requer que se- jam identificados os fatores que afetam as decisões de compras dos consumidores. 34 UNIUBE Portanto, concluímos que: segmentar o mercado significa dividir um mercado em grupos de compradores potenciais que tenham seme- lhantes necessidades e desejos, percepções de valores ou compor- tamentos parecidos para compra. Os mercados se diferem de várias formas, quanto aos desejos, re- cursos, localidades, atitudes de compra e práticas de compra, enfim os mercados podem ser segmentados de várias maneiras. Quando uma empresa segmenta o mercado, torna-se mais fácil sa- tisfazer suas necessidades e desejos, pois o composto de marketing será desenvolvido às necessidades específicas daquele segmento. Agora, quando se trata de desenvolver um composto dirigido a gran- des mercados, formado por consumidores com diferentes necessi- dades, o trabalho fica bem mais difícil. Por esta razão que a segmen- tação do mercado facilita a empresa desenvolver e comercializar produtos que se aproximem mais à satisfação das necessidades de seus consumidores. Imagine o gráfico de pizza como sendo o Mercado de Grãos no Brasil, nele cada fatia é um tipo de grão (café, soja, milho,feijão, arroz etc.). A cada fatia, dá-se o nome de segmentação do total de grãos pro- duzidos no Brasil. IMPORTANTE! Figura 1: Exemplo de segmentação de mercado. UNIUBE 35 Ao se falar em agricultura, estamos generalizando tudo que se pro- duz no campo. Então, vamos dividir a agricultura em: • grãos; • reflorestamento; • produção de sementes; • canavieira. Mas, ainda assim, se falarmos somente em agricultura de grãos, o assunto ficará muito complexo, pois dentro da agricultura especiali- zada em grãos, temos os produtores que optam por produzir: • soja; • milho; • café; • trigo. Por isto, vamos usar como exemplo somente a cultura da soja. Você percebeu o que acabamos de fazer? Nós dividimos a produ- ção agrícola, portanto, nós a segmentamos. Mas, mesmo dentro de uma determinada cultura, nós ainda podemos segmentá-la. A soja, por exemplo, tem dois mercados: o mercado de soja transgênica e o mercado de soja comum. Viu como é simples? Da mesma forma, podemos segmentar o complexo agroindustrial em diversos elos ou partes. Segmentando o mercado, teremos mais facili- dade em estudar cada uma das cadeias e sua relação com um conjunto específico de empresas, indústrias, prestadores de serviços e institui- ções de pesquisas, responsáveis pela produção, distribuição, armazena- mento, processamento e comercialização dos produtos agropecuários. PONTO CHAVE 36 UNIUBE Para ampliar ainda mais seus conhecimentos, prossiga para o es- tudo do item a seguir. Estas leituras irão lhe ajudar a compreender melhor o agronegócio brasileiro e você, com certeza, sentirá orgulho de ser um gestor deste fantástico negócio. 2.1.2 Segmentação produtiva e dimensionamento das atividades agroalimentares A evolução econômica, sobretudo com os avanços tecnológicos, transformou a fisionomia das propriedades rurais, principalmente nos últimos 50 anos. Alterações na composição social do meio, sal- tos nos índices de produtividade agropecuária e rearranjo no modo produtivo, em geral. Dessa forma, a propriedade rural perdeu gradativamente sua autossu- ficiência, na medida em que depende de insumos e serviços, especia- lizando-se em determinadas atividades. Logicamente, há precedentes para a geração de excedentes de produtos, que, por definição, neces- sitam ser alocados para diversos mercados em canais de comerciali- zação. Apesar dessa visível modernização na agricultura, o processo de transformação no sentido de escala econômica e inserção desse segmento no ambiente de mercado, perpassa por estágios de espe- cialização e industrialização na agricultura, em torno do excedente de produção. O enfoque do agronegócio é essencial para retratar tais transforma- ções verificadas na agricultura brasileira, nas últimas décadas, período no qual o setor primário deixou de ser um mero provedor de alimentos in natura e consumidor de seus próprios produtos, para ser uma ativi- dade, integrada aos setores industriais e de serviços. De modo amplo na perspectiva conceitual, corrobora com a elucidação da definição de complexos (ou sistemas) agroindustriais (commodity system ap- proach – CSA), proposta por Davis e Goldberg (ARAÚJO et al. 1990): UNIUBE 37 A soma total das operações de produção e dis- tribuição de suprimentos agrícolas; as operações de produção nas unidades agrícolas; e o armaze- namento, processamento e distribuição dos pro- dutos agrícolas e itens produzidos com eles. [...] Inclui ainda, as instituições que afetam e coorde- nam os estágios sucessivos de transformação do produto, tais como governo, associações e mer- cados futuros. Hoje, os principais insumos da agropecuária, tais como fertilizantes, defensivos, rações, combustíveis e outros, e a maquinaria utilizada (tratores, colheitadeiras e outros equipamentos), são predominan- temente provenientes de setores industriais especializados em pro- dutos para a agropecuária. Da mesma forma, conforme Figura 2, os produtos de origem agropecuária destinam-se, crescentemente, às agroindústrias especializadas no processamento de matérias-primas e de alimentos industrializados, consumidos no mercado interno ur- bano e exportador (ARAÚJO, 1990). Vale ressaltar, ainda, a inserção dos serviços de apoio na reorientação dos sistemas produtivos. Figura 2: Esquematização de um sistema agroindustrial. Fonte: Adaptado de Araújo et al. (1990, p. 209). 38 UNIUBE No entanto, na perspectiva do entendimento de complexos de bens, serviços e infraestrutura, não há como limitar o ambiente de negocia- ção na esfera local, numa caracterização geográfica ou de processo. A delimitação das fronteiras agroindustriais inclui as tendências do mercado consumidor, bem como seu perfil. Neves e Spers (1996, p.5) observam que: Nesta ótica, os produtores e demais integrantes do sistema, seja das empresas de insumos, pro- cessamento ou distribuição, passam a olhar não só os seus clientes e consumidores próximos, mas também os consumidores finais, com suas tendências, o mercado e sua evolução, os produ- tos derivados do processamento, etc. [...] A visão sistêmica permite uma compreensão melhor do funcionamento da atividade agropecuária, sendo fator indispensável para que as autoridades públi- cas e agentes econômicos privados, ou seja, os chamados tomadores de decisão tenham possibi- lidades de formular políticas com precisão, justiça e maior probabilidade de acerto. As vias de produção e comercialização são, de modo geral, amplas no sentido da extensa gama de produtos, atores e setores envolvi- dos e principalmente nas formas de distribuição e consumo. Deve- -se considerar ainda que essa transferência de produtos e serviços é altamente dinâmica, na proporção em que os agentes que per- meiam tal ambiente são caracterizados como distintos quanto às relações de interdependência e complementaridade. A ideia nessa ótica fornece subsídios para a compreensão de estruturas flexíveis, com diversas possibilidades de intervenção e definições estratégi- cas, retratadas como cadeias produtivas (Figura 3). Nessa perspectiva, a Escola Francesa de Organização Industrial, em 1960, caracterizada pela ênfase nos processos industriais, interdepen- dência e métodos, aplica o conceito de filière [cadeia] às atividades agroindustriais. Morvan (1985 apud Araújo 1990) define filière como: UNIUBE 39 Uma sequência de operações que conduzem à produção de bens, cuja articulação é amplamen- te influenciada pelas possibilidades tecnológicas e definida pelas estratégias dos agentes. Estes pos- suem relações interdependentes e complementa- res, determinados pelas forças hierárquicas. De modo sistêmico, o setor agroalimentar nas sociedades industria- lizadas compreende quatro subsetores, de acordo com a referência teórica: • o das empresas que fornecem à agricultura serviços e meios de produção (crédito, assistência técnica, fertilizantes, plantas, defensivos, alimentos para animais, máquinas agrícolas etc.), chamado de “indústrias a montante”; • o agropecuário propriamente dito, de acordo com suas especifi- cações, caracterização e segmentações produtivas; • o das indústrias agrícolas de transformação e alimentícias, cha- mado de “indústria a jusante”; • o de distribuição de alimentos. Destaca-se a importância de analisar os fluxos e encadeamentos por produtos dentro de cada um desses subsetores, por meio da noção de cadeia agroalimentar: itinerários seguidos por um determinado produto dentro do sistema de produção-transformação-distribuição e aos diferentes fluxos que a eles estão ligados. Portanto, o estudo de cadeia comporta dois aspectos fundamentais: sua identificação (o produto, seus itinerários, agentes e operações) e a análise dos mecanismos de regulação (estrutura de funcionamen- to dos mercados, intervenção do Estado etc.) (Silva, 1996: p.68). 40 UNIUBE Figura 3: Esquematização de um sistema agroindustrial. Fonte: Adaptado de Neves e Spers (1996). Do ponto de vista conceitual na análise de filière, é possívelefetuar a descrição de toda a cadeia, reconhecendo os papéis de atores na estruturação do modelo, a segmentação e os modos de integração e as políticas setoriais, além de compreender, segundo Leontief (1983), a matriz insumo-produto para cada produto específico na cadeia em estudo. Neves e Spers (1996), fundamentados no estudo de Y. Morvan (1985), apontam quatro situações em que a análise de cadeia pode ser empregada. Primeiro como mecanismo de descrição técnico- -econômica descreve o caminho para a produção do bem final, o fluxo de inovações tecnológicas e o ritmo de difusão do progresso técnico, a natureza dos mercados e os aspectos dos consumido- res. Segundo, como modalidade de análise do sistema produti- vo, permite desmontagem do sistema. Terceiro, como método de análise de estratégias sugere que o sucesso das firmas é função de estratégias clássicas e estratégias de cadeias. E, por último, UNIUBE 41 como sugestão de análise alinhada com desempenho superior de agentes que a compõem, comparando com as diversas estratégias clássicas da economia de escala, tais como, integrações vertical e horizontal, domínio da produção e comercialização, considerações físicas e diversificação (Figura 4). Figura 4: Segmentação da agricultura. Fonte: Adaptado de Kageyama et al. (1990, p. 186). Explicitamente, conforme as situações já apontadas, têm-se a pre- ocupação de gerar articulações entre os agentes que constituem a cadeia, tirar proveito da integração de operações, adequação de flu- xos e redução de estoques, das vantagens comerciais advindas da criação de mercados cativos, conhecimento das relações entre os agentes, utilização de barreiras à entrada, proteção contra penetra- ção estrangeira e domínio de nós estratégicos da mesma. 42 UNIUBE O quarto tópico sugere a análise de cadeia como instrumento de po- lítica industrial uma vez que, quando organizada, é um forte grupo de pressão. Suas estratégias consideram impactos a jusante e a montan- te, enfocando a qualidade e seus desdobramentos a longo prazo, esti- mulando a articulação entre Estado, os agentes da cadeia, os agentes externos e as atividades de formação, informação e pesquisa. De modo geral, a análise da cadeia produtiva numa leitura sistêmica, remete à identificação dos atores, seus respectivos papéis, coorde- nação e orientação das atividades na segmentação insumo-produto e, finalmente, o consumidor. Portanto, o dimensionamento estrutural dos CAIs de origem vegetal, perpassa pela compreensão de indica- dores (preços mínimos, relações de troca) aplicados à cada setor da cadeia em evidência. 2.2 O CAI e seus componentes Conforme discutido anteriormente, existem especificações estruturais que diferenciam as cadeias produtivas, tanto em abrangência comer- cial, volume de negócios, e dimensão geográfica. Significa que, ape- sar de didaticamente o conceito agrupado por atividades ser idêntico, na realidade, assumem proporções e papéis bastante diferenciados. Em geral, o complexo agroindustrial (CAI) é uma estrutura econômica seccionada em três grandes fases, mas deve ser visto numa dimen- são única. Tomando a agropecuária como referência, colocada no centro do processo, as três fases se compõem da seguinte maneira: • a 1ª fase, a montante da agropecuária; • a 2a fase, que é a agropecuária; • a 3a fase, que é a comercialização ou fase a jusante da agro- pecuária. UNIUBE 43 Fase I ou Setor I consiste no conjunto de indústrias e comércios, relacionados com a produção e distribuição de recursos de produção para as atividades agrícolas (produção de sementes, fertilizantes, defensivos, combustíveis, medicamentos, vacinas, rações, tratores, arados, grades, cultivadores etc.), situadas a montante da agrope- cuária. Fase II ou Setor II é a agropecuária: são as atividades relacionadas com os processos agrícolas e pecuários, representados principalmen- te pelos produtores agrícolas e suas unidades de produção. Finalmente, a Fase III ou Setor III, é representada pelo conjunto a jusante da agropecuária. São as diversas instituições e empresas co- merciais, indústrias, armazenadoras, transportadoras, instituições de apoio, governo e outros, envolvidos no processo de levar o produto agrícola da unidade de produção até o consumidor final, na forma, no lugar, no tempo e em condições de posse desejadas por ele. • CAIs completos Entende-se como CAIs completos, o pleno ajuste (ou soldagem) das relações comerciais entre os setores produtivos, ou seja, forte inter- dependência em cada fase da matriz insumo-produto. Essa relação tende a ser intensa à medida da expansão das atividades da cadeia produtiva e da própria escala de produção, principalmente nas bases agroindustriais. É o que se verifica nos CAIs da soja, algodão, cana- -de-açúcar e integrações verticais (geralmente regidas por contrato) tal como a avicultura (milho-rações-aves-frigorífico). • CAIs incompletos Apesar de mantidas as especificidades nas relações setoriais à ju- sante (agricultura-indústria), não são idênticas às relações à mon- 44 UNIUBE tante (insumos), ou seja, o setor de insumos e máquinas é referido como genérico quanto à oferta de produto, sem a noção de soldagem e foco comercial estratégico. É o caso das oleaginosas (girassol, amendoim), parte dos hortifruti (tomate, uva) e grãos (milho, ervilha). • Atividades agrícolas modernizadas Podem ser definidas como um conjunto de atividades moderniza- das que dependem do fornecimento de máquinas e insumos (não específicos) e, principalmente, sem configurar uma sequência usual de aproximação da atividade agroindustrial. Nesse caso, apesar de não caracterizado um CAI propriamente dito, as empresas de em- balagem e classificação representam um papel fundamental (seme- lhante ao da agroindústria) no sentido de adicionar valor ao produto, conforme especificação de mercado. São incluídos nesse grupo o feijão (SP, GO), arroz (GO, MG, TO) e olerícolas (cebola, alho). • Atividades agrícolas artesanais e de subsistência Aqui são relacionadas atividades sustentadas por bases artesanais quanto ao modo de produção, e numa relação do homem com a estru- tura fundiária fundamentada na subsistência. É o caso da mandioca, banana, feijão e milho (em regiões pouco desenvolvidas). 2.2.1 Dimensionamento do CAI brasileiro As fronteiras de atuação dos setores do CAI brasileiro permeiam por diversos ambientes de negócios e, portanto, são avaliadas sob dife- rentes perspectivas quanto ao dimensionamento. Segundo Araújo et al. (1990), alguns índices são fundamentais para o delineamento das cadeias produtivas numa perspectiva econômica, a saber, o Valor da Produção (VP), do Consumo Intermediário (CI), do Valor Adicionado (VA) e Pessoal Ocupado (PO). UNIUBE 45 2.2.1.1 Fase I do CAI: o setor de insumos e serviços para a agricultura Em se tratando de insumos, entende-se (em um primeiro momen- to) que estes englobam todo e qualquer fornecimento de recursos técnicos e próprios à produção (máquinas, equipamentos, fertili- zantes, defensivos), que se alinhem à demanda da atividade agrí- cola. De acordo com a Figura 5, o SETOR I ou FASE I das cadeias agroindustriais são, por definição, um conjunto de empresas com amplo perfil importador de matéria-prima (moléculas, insumos pri- mários, tecnologia e equipamentos) para transformação e produ- ção de insumos para o SETOR II ou FASE II. Figura 5: Detalhe de um esquema do setor à montante. O Valor da Produção do SETOR I brasileiro nos últimos anos, tem re- gistrado entre R$ 2,5 e 3,0 bilhões, destacando-se a indústria química (adubos e defensivos, com 56,2%) e do refino de petróleo (óleo die- sel, com 17,4%.), como as principais fornecedoras de insumos para a agricultura. Estima-se que 65% desse montante (cerca de R$ 1,95 bi), refere-se ao Consumo Intermediário, principalmente quando se trata de produtos químicos: matérias-primas para fertilizantes e defen- sivos e para o refino do petróleo (óleo